The Fall of the Stars: Capítulo 6 - Amor e Ódio
- AngelDark

- 15 de jan.
- 68 min de leitura
Volume 4 : Fragmentado
Parte 1
O topo da montanha não possuía o cheiro metálico de ozônio ou o odor ferroso de sangue que se espalhava pelo restante da dungeon. Ali, o ar era denso, quase sólido, exalando uma fragrância narcótica de leite materno, mel silvestre e jasmim. Era um perfume que não apenas se cheirava; ele invadia os pulmões, impregnando o fundo da garganta como uma calda doce que prometia um retorno ao útero, um sono eterno onde o tempo não ousava tocar.
Kurokawa abriu as pálpebras, mas a visão era um borrão de cores impossíveis. Ela não estava deitada sobre a rocha fria, mas sobre algo que pulsava. O chão da montanha convertera-se em uma derme morna e úmida que subia e descia em um ritmo respiratório lento e ancestral. Ao tentar se levantar, sentiu que a gravidade parecia ter mudado de humor; seus membros pesavam toneladas. Cada movimento era executado dentro de um oceano de mercúrio — uma letargia deliciosa que sussurrava aos seus músculos para que desistissem de lutar e aceitassem o abraço da terra.
Ao redor, o "jardim" sofrera uma metamorfose divina e grotesca. Durante o lapso em que sua consciência vagou pelas sombras, a evolução agiu com a fúria de um deus impaciente. Os monstros, outrora larvas e filhotes, agora eram titãs de pesadelo. O Lagarto de Pedra exibia placas de diamante bruto que fraturavam a luz em espectros letais; insetos colossais batiam asas que vibravam na frequência da criação. A pressão do Éter que emanava deles era física, um peso que deveria ter pulverizado os ossos de Kurokawa.
Mas ela não sentia medo. Sentia uma aceitação doentia. Ao observar aquelas abominações capazes de reduzir cidades a cinzas, um calor maternal floresceu em seu peito, uma euforia química implantada em sua alma.
— Eles cresceram... — murmurou. Seus lábios curvaram-se em um sorriso vazio, as pupilas dilatadas pela overdose de vida. — Estão tão fortes. Tão... puros. Que bom.
Sua mente analítica, antes uma navalha capaz de dissecar qualquer estratégia, agora estava envolta em camadas de algodão-doce e morfina. No fundo de seu ser, uma centelha de razão gritava que aquela beleza era o avesso da existência, mas o sentimento de "pertencimento" era um abraço quente demais para ser rejeitado.
Até que ela viu a mácula. Um borrão escuro e coagulado violava a pureza da relva alva. Sangue seco. E, emaranhados naquela sujeira, os detritos da realidade: um pedaço da jaqueta rasgada de Kagura e o tecido emborrachado da luva de Abel.
A visão foi um choque elétrico em um nervo exposto. A hipnose rachou. A memória da última hora colidiu contra o crânio de Kurokawa como um descarrilamento de trem.
— KAGURA!
O grito não veio dela. Veio de dentro de sua cabeça, das memórias que começaram a invadir. Não foi um chamado; foi o som de uma alma se partindo ao meio.
Abel rompeu a crista do platô esperando o caos das lâminas, o som de ossos quebrando e a voz rouca de Kagura xingando o mundo enquanto lutava. Em vez disso, encontrou o silêncio de um altar. O corpo de Kagura estava disposto como uma oferenda botânica. Carne e ossos haviam sido abertos em uma geometria floral macabra, expostos como uma orquídea desabrochada. Mas seu rosto... seu rosto exibia uma paz tão absoluta que chegava a ser insultante para os vivos.
— Não... não, não, não! — Abel tropeçou, os joelhos colidindo contra o chão vivo que pulsou sob o impacto.
As criaturas em volta o viram, mas sequer se importaram; para elas, ele era um micróbio irrelevante. Abel, cego pela negação, saltou em direção ao corpo, recusando-se a aceitar a realidade, recusando-se a ver a obra de arte feita de vísceras. Ao tocar a pele fria, suas mãos entraram em espasmos. A ficha não caiu; ela o esmagou como uma bigorna. A garota que vivia ao seu lado, cujas provocações escondiam um afeto que ele fora estúpido demais para decifrar, a força da natureza que ele secretamente idolatrava... tornara-se apenas matéria inerte.
— Levanta, sua idiota! — Ele a sacudiu, as lágrimas fervendo, pingando sobre o rosto pálido dela. — Você disse que cuidaria de mim! Eu ainda nem te dei o troco pelas ofensas... Você disse que eu morreria antes! Levanta e me xinga! DIZ ALGUMA COISA, KAGURA!
O único som foi o farfalhar das folhas de cristal. A dor no peito de Abel sofreu uma mutação química, transformando-se em um ácido corrosivo. A culpa o devorou — culpa por cada silêncio, por cada "obrigado" engolido, por cada sentimento que a morte agora tornava eterno e inalcançável.
— Você... — Abel ergueu o rosto, trêmulo. Seus olhos eram fendas de puro ódio escarlate, focados na Mulher que descansava sob a árvore central. — O QUE VOCÊ FEZ COM ELA?!
A "Mãe" inclinou a cabeça, curiosa. Seu sorriso era de uma inocência aterrorizante, como uma criança que não entende por que é errado arrancar as asas de uma borboleta.
— Ela estava sofrendo... cheia de ruídos e medos — a voz não viajou pelo ar; ela nasceu dentro da mente de Abel, doce, materna e invasiva. — Então eu a libertei.
— VAI PARA O INFERNO!
O corpo de Abel sofreu uma combustão espontânea. Seu Éter explodiu em uma coluna de chamas laranjas que rugiam como um motor a jato. Ele não era um estrategista e nem mais um caçador; era apenas um projétil de fúria cega, desesperado para queimar seu inimigo.
— MORRA!
Ele avançou. Mas, a três metros dela, a realidade simplesmente o rejeitou. As chamas de Abel não foram apagadas; elas foram sufocadas, como se o oxigênio tivesse medo de alimentar a violência diante daquela Mulher. O peso emocional que desabou sobre seus ombros foi equivalente a uma gravidade cem vezes superior.
Não era apenas pressão física. Era a Presença.
Sentir o Éter daquela mulher era como olhar um espelho da alma. Diante da encarnação da Vida, Abel foi forçado a encarar sua própria "feiura". Ele viu seu ódio, seu egoísmo, sua luxúria, seus fracassos e a sujeira de seus sentimentos humanos. Comparado à pureza dela, ele se sentiu uma doença. Um vírus.
— Ódio... — A Mãe suspirou, e o som foi como o vento lamentando em um cemitério. — Tanta dor desnecessária. Por que insiste em se ferir com sentimentos tão sujos, meu filho?
Abel desabou. O rosto foi prensado contra a grama. Ele tentou invocar uma faísca, qualquer coisa para atacar, mas seu espírito estava sendo drenado pela vergonha absoluta de existir.
— Eu não sou seu filho! — ele rugiu, a voz embargada, as unhas arrancando tufos de terra branca. — Eu vou te matar... eu vou…
Foi então que ele olhou. Realmente olhou. Nos olhos dourados e límpidos daquela mulher, não havia medo, nem raiva, nem sequer defesa. Havia apenas um espelho de clareza absoluta. E nesse espelho, Abel viu a si mesmo. Ele não viu o vingador justo que imaginava ser. Refletido naquelas pupilas divinas, ele viu um animal grotesco, coberto de fuligem, baba e lágrimas imundas.
Viu a própria aura distorcida em alta resolução: uma mancha de piche fervente tentando respingar sobre um vestido de noiva imaculado. A luz dela era tão alva, tão dolorosamente perfeita, que a mera existência dele ali parecia um crime. Seu ódio não era uma arma honrada; era um fedor insuportável, uma doença purulenta que ele estava tentando esfregar na face de Deus.
— Eu sou... sujo? — A pergunta morreu na garganta. A vergonha o atingiu com mais violência que qualquer impacto físico. O calor de suas chamas de repente pareceu nojento contra a própria pele, como se ele estivesse coberto de vômito.
A "Mãe" não precisou levantar um dedo; a própria pureza dela tornou a existência de Abel insuportável para ele mesmo. Ele precisava tirar aquilo. Ele precisava arrancar aquela sujeira de cima de si. A lógica quebrou. A insanidade fez sentido.
De repente, a direção do ódio mudou. Sem que ele percebesse, suas mãos pararam de atacar o chão e cravaram em suas próprias pernas. A lógica era brutal e inconsciente: para agradar a Mãe, para ser digno de estar na presença dela, ele precisava limpar a sujeira. E a sujeira era ele.
Sua cabeça erguia-se e chocava-se contra o chão repetidamente, num ritmo de penitência, até o sangue começar a escorrer de sua testa, misturando-se às lágrimas.
— Pobres crianças... por que precisam sofrer tanto? — Ela se levantou. O movimento foi gracioso, predatório e divino. — Vocês não têm culpa de nascerem tão fracos. Não têm culpa de serem falhos... mas, mesmo sendo assim, eu continuo os amando. Por isso, não quero vê-los sofrer.
As palavras eram agulhas perfurando as camadas da psique de Abel. Ele paralisou, o choro tornando-se um soluço seco e bestial. Suas unhas subiram para o peito, rasgando a pele, buscando arrancar o coração que doía tanto, tentando se purificar através da destruição da própria carne.
— Para... Para... Para... — Abel murmurava, não para ela, mas para a dor de sua própria imperfeição. — Faz parar... por favor... dói muito...
— Eu sei... a vida imperfeita dói tanto...
Ela tocou a testa dele. O toque foi leve, absoluto. Abel não ofereceu resistência. Ele se entregou. Seu coração parou não por dano, mas por pura vontade própria, obedecendo ao desejo da Mãe. A última lágrima secou enquanto seu corpo se dissolvia em partículas de ouro, sendo reabsorvido, "perdoado" e devorado pela Mãe.
Kurokawa assistiu a tudo, estática a dez metros dali. Ela era uma estátua de carne. Seus joelhos cederam e ela caiu sentada, sem forças sequer para gritar diante daquele sacrilégio. A Mulher virou-se para ela. Os olhos da Vida eram abismos de compaixão.
— E você? — A Mulher caminhou, cada passo fazendo a terra pulsar em adoração. — Você não tem fogo. Não tem ódio. O que resta aí dentro?
Kurokawa, ao contrário de Abel, já sentira a aura daquela mulher no segundo em que pisou ali, mas o efeito fora diferente. Não havia ódio para ser refletido, nem ego para ser ferido. Havia apenas um vazio.
— Eu... eu não consigo — sussurrou Kurokawa, a voz quebrada como vidro. — Eu sou inútil. Eu sou fraca. — As palavras saíam fáceis, verdades antigas que ela já aceitava. — Eu sou uma covarde...
Ela não se arranhou. Não tentou se matar. Para alguém como Kurokawa, tirar a própria vida exigiria um senso de importância que ela não possuía. Ela não se achava digna nem sequer do esforço da morte. Ela apenas encolheu-se, uma criança aterrorizada.
— Por favor... não me abandone...
A Mulher parou. Diferente da tragédia passional de Kagura ou da fúria destrutiva de Abel, Kurokawa não oferecia resistência, nem tentava se "limpar". Ela era uma tela em branco. Um vazio pronto para ser preenchido.
A Mãe então sorriu, genuinamente encantada. Era a primeira vez que via algo assim em um humano. Ela ergueu o queixo de Kurokawa com delicadeza.
— Eu gosto de você.
Parte 2
A memória da morte de Abel foi trancada novamente em um cofre de veludo, nas profundezas da mente de Kurokawa. Ela piscou, sentindo o rastro úmido das lágrimas por trás das lentes sujas, mas o choro não tinha peso, nem significado. Era apenas uma reação fisiológica, um vazamento em uma máquina quebrada.
Ela seguiu a Mãe até a borda do precipício. O horizonte da Black Box brilhava em tons de ouro derretido e ametista, onde o céu artificial colidia com as paredes infinitas do Labirinto. A Mãe virou o rosto para o abismo. Sua beleza era uma agressão aos sentidos — um amálgama vivo de todos os rostos amados que já existiram, de todas as perdas insuportáveis e de todas as esperanças frustradas da humanidade. Olhar para ela era olhar para o próprio desejo.
De repente, a pressão atmosférica mudou. O ar tornou-se pesado, viscoso como mercúrio. A Mãe abriu a boca, mas a mensagem não foi direcionada apenas a Kurokawa. A voz ignorou o ar e a distância; ela reverberou em cada átomo da Dungeon. Não era som; era uma frequência primordial que fazia a alma vibrar em ressonância dolorosa.
— Amor.
A palavra caiu sobre o labirinto não como uma bênção, mas como uma sentença.
No setor das ruínas, Layla largou suas armas, as mãos tremendo incontrolavelmente. No setor da floresta, Mio e Chuuya paralisaram no meio de um golpe mortal. Sobreviventes em todos os níveis, do mais profundo abismo ao topo, cobriram os ouvidos em vão. Não havia como bloquear algo que falava diretamente ao córtex cerebral, reescrevendo sinapses.
— Essa é a palavra que existia antes do nascer — continuou a Mãe. Sua voz era melódica, mas carregada por uma melancolia antiga, mais velha que as estrelas. — Olhem para o céu... existem mais estrelas no firmamento e grãos de areia na terra do que seus números podem contar. Mas, se eu usasse meu poder para transformar cada um deles em um coração vivo, batendo de amor apenas por vocês... a pulsação conjunta de todo o cosmos ainda seria um sussurro fraco comparado ao grito de amor que sinto por um único humano.
Ela apertou o peito, como se o órgão estivesse rasgando.
— E é esse peso... é essa imensidão que não cabe na realidade... que transformou meu amor em um ódio absoluto.
A contradição fez o ar vibrar em ondas de choque.
— O motivo para eu odiar cada ser humano... é porque eu os amo demais.
A lógica era insana, mas, na voz dela, soava como a única verdade possível.
— Eu nasci amando cada minúsculo ser vivo deste universo. Para mim, mesmo com suas falhas nojentas, cada um de vocês é precioso. Tão precioso que eu desejaria deixar de existir apenas para protegê-los de sua própria natureza podre.
Kurokawa soluçava baixinho ao lado dela, encolhida, sentindo aquele amor tóxico envolver seus pulmões como um abraço de arame farpado. Era um amor que sufocava.
— Mas eu não posso mais perdoá-los. — A temperatura da voz da Mãe atingiu o zero absoluto. — Vocês se repudiam. Vocês se matam em um ciclo estúpido, cruel e infinito. Vocês sofrem, choram e lamentam. Essa agonia... esse desespero constante que emana de suas almas... me machuca. É como se minha própria pele estivesse sendo arrancada a cada vez que um de vocês sangra. A dor de vocês é a minha tortura.
A Deusa ergueu as mãos para o firmamento dourado, como uma maestrina regendo o fim dos tempos.
— Por isso, eu vim salvá-los de si mesmos. Para que a Vida continue sem a mácula do sofrimento, eu vou recriar a existência. Vou conceder a misericórdia final a todos que já não suportam o peso de respirar. Eu serei o descanso que vocês tanto procuram.
O céu da Black Box brilhou com a intensidade de uma supernova, cegando as câmeras e os olhos de quem olhava para cima.
— Eu os odeio. Odeio-os por completo, com cada fibra do meu ser, justamente por amá-los além da razão. Tendo este corpo humano, pude confirmar: não existe espécie que despreze e mate a própria linhagem como vocês. É por machucarem aqueles que eu mais amo... que eu os odeio. E jamais serei capaz de perdoá-los por me fazerem sentir essa dor.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. O tipo de silêncio que precede o fim do mundo.
A pressão atmosférica cedeu de súbito, deixando os guerreiros lá embaixo ofegantes, trêmulos, como se tivessem acabado de ser soltos de uma forca. Não era o rugido de um monstro que ecoava em suas mentes; era uma promessa divina de extinção, entregue com a doçura aterrorizante de uma canção de ninar.
Parte 3
Ponto de Observação "Trono"
O silêncio na sala de controle não era paz; era um túmulo. O único ruído vinha do zumbido elétrico dos servidores e do som úmido de saliva pingando no chão de aço escovado. Ryunosuke Azazel, o temido instrutor, estava caído, com os olhos vidrados, perdido no abraço narcótico de uma felicidade artificial.
Então, o fio cortou.
Não houve som. Foi uma sensação fantasma, mas brutal, como se um dedo tivesse sido arrancado de sua mão a sangue frio. O link neural da Black Box, a teia que conectava sua mente à vitalidade de cada aluno, sofreu uma ruptura catastrófica.
Um sinal apagou. Abel.
— H-hã...?
O choque foi um martelo contra o vidro de sua consciência. A dopamina que inundava o cérebro de Ryunosuke azedou instantaneamente, transmutando-se em bile. O "amor" doce da Mãe foi substituído pelo vácuo gélido e absoluto da morte.
— BUAARGH!
O corpo de Ryunosuke convulsionou. Ele vomitou violentamente, expulsando o conteúdo do estômago enquanto seu organismo rejeitava a influência psíquica externa com espasmos dolorosos. Ele engasgou, limpando a boca com as costas de uma mão trêmula, enquanto seus olhos, injetados de sangue, focavam nas telas holográficas que agora piscavam em um vermelho crítico e intermitente.
[ALERTA: SINAL VITAL #23 (ABEL) - CESSADO.]
— Não... — A voz dele saiu como um chiado de rádio quebrado. — Não é possível... eu... eu sou o mestre deste domínio... eu devia proteger...
A imagem residual do biosinal de Abel se desfazendo em luz dourada passou em loop na tela central. Não foi um erro de cálculo. Não foi um acidente de treino. Fora um abate.
A culpa atingiu Ryunosuke como um trem de carga desgovernado. Ele, o "Demônio do Ensino", o homem que se orgulhava de levar seus alunos à beira do abismo sem nunca deixá-los cair, havia falhado. Ele ficou babando no chão, dopado, enquanto duas de suas crianças eram colhidas.
— AAAAAAAAAAHHHHHHH!
O grito não foi humano. Foi um uivo bestial de frustração e ódio puro. Ryunosuke socou o painel de controle com tanta violência que o metal titânico cedeu. Faíscas voaram, iluminando seu rosto contorcido.
— ESCUTEM! — Ele rugiu.
Não para a sala vazia, mas para o sistema de áudio. Ele injetou seu próprio Éter nos circuitos, forçando sua voz a invadir a mente dos alunos ainda atordoados após a mensagem da mãe.
— TODOS VOCÊS, SEUS PEDAÇOS DE MERDA, ME ESCUTEM AGORA!
A voz de Ryunosuke rasgou o "Jardim Dourado". Ela soou distorcida, cheia de estática e fúria, cortando a doçura do discurso divino como uma serra elétrica enferrujada.
— Eu não estou mais no controle! A Black Box foi sequestrada! — Ele ofegava, o sangue começando a escorrer de seu nariz pelo esforço hercúleo de manter a consciência. — Essa "coisa" que está na cabeça de vocês... ela não é benevolente. Ela não quer salvar ninguém. Ela vai matá-los com um sorriso no rosto!
Pelas telas de vigilância, ele viu os alunos paralisados. A vontade de lutar deles havia sido castrada quimicamente.
— Considerem isso o teste final! O inferno na terra! — Ryunosuke continuou, a voz falhando, mas ganhando uma gravidade aterrorizante. — Como professor da Classe dos Loucos, eu não vou pedir para serem espertos. Não vou pedir para fugirem como ratos.
Ele elevou seu Éter ao máximo na sala de controle. Uma aura roxa, violenta e tóxica explodiu de seu corpo, tentando desesperadamente enviar um pulso de adrenalina através do link neural restante.
"Ninguém mais morre hoje!"
— Eu estou dando uma ordem ilógica e irracional, do jeito que vocês gostam! — gritou ele, a garganta quase rasgando. — Trabalhem juntos! Lutem sem medo contra essa maldita divindade! E voltem vivos... MESMO QUE MORRAM!
O paradoxo ecoou pelo labirinto. Voltem vivos, mesmo que morram. O silêncio reinou por um segundo. Mas a semente fora plantada. O choque daquela voz familiar, brutal e honesta quebrou o encanto hipnótico para muitos.
Ruínas de uma antiga cidade feita no Labirinto.
Onde prédios de concreto eram engolidos por raízes de ouro, a melancolia reinava. Até que um borrão sônico quebrou a quietude.
— Hahahahaha!
A risada não era de medo. Era de puro escárnio.
Kai freou no topo de um arranha-céu em ruínas. Suas botas rasgaram o concreto ao parar. Ele ouviu os dois discursos: o da "Mãe" chorosa e o do Professor desesperado. Para ele, a equação era insultantemente simples.
— Uma deusa que quer me "proteger" porque sou "fraco"? — Kai passou a mão pelo cabelo, quase arrancando-o com seus dedos. Seus olhos brilhavam com uma arrogância tão densa que funcionava como um escudo mental impenetrável. — Quem essa vadia pensa que é para me olhar de cima?
Ele olhou para baixo. Melissa e Shimura estavam trêmulos, com os olhos úmidos, afetados pelo "Amor" corrosivo.
— ACORDEM, SEUS INÚTEIS!
Kai chutou um pedaço de concreto na direção deles. A pedra explodiu aos pés de Shimura, acordando-o do transe pelo susto.
— A resposta é óbvia! Se ela acha que vai vencer, eu vou provar que ela é só mais um degrau na minha escada!
VWOOSH!
O ar estalou. Kai sumiu. Ele não estava fugindo; estava caçando. Ele cruzou o setor em segundos, um raio de pura velocidade cinética. Encontrou o grupo de Sophi e Miguel encolhido num beco a quinhentos metros dali. Sem pedir licença e sem desacelerar, ele agarrou Sophi pelo colarinho e jogou Miguel sobre o ombro como um saco de cimento.
— O que você tá fazendo?! — Sophi gritou, a voz distorcida pela pressão do vento enquanto era arrastada.
— O óbvio! — Kai gritou de volta, gargalhando contra o vento. — Eu serei aquele que ficará no topo! Se aquela Deusa acha que vence matando humanos, eu vou superá-la. Vou proteger esses fracos e destruir o sonhozinho dela!
Ele retornou para onde Shimura e Melissa estavam, derrapando no asfalto e abrindo valas no chão. Soltou Sophi e jogou Miguel sem nenhuma delicadeza.
— Escuta aqui, Gordo! — Kai apontou um dedo acusatório para Shimura. — Use seus poderes agora. Eu não quero uma cabana. Eu quero uma maldita fortaleza impenetrável! Vai ser o abrigo para os lixos que não conseguem lutar.
— M-mas... — Shimura gaguejou, o terror ainda em seus olhos.
— AGORA! — A aura de Kai explodiu, opressora, sádica. — Você tem mais medo dela ou de mim?!
Shimura empalideceu. O instinto de sobrevivência falou mais alto.
— Comic Creation!
Paredes de concreto reforçado começaram a subir.
— Ei, Streamer maldita — Kai gritou para Melissa, que ainda tremia. — Roube a audição de um dos meus ouvidos, mas mantenha ele conectado a mim com seu Éter. Se fizer isso, conseguirá se comunicar comigo, mesmo sem um comunicador, e poderá me avisar se algum desgraçado aparecer e começar a atacar.
Todos ficaram de boca aberta. Sophi, recuperando o fôlego e a compostura, encarou Kai. Ninguém conseguia raciocinar completamente. Ao verem Kai nos últimos testes, achavam que ele era apenas um delinquente monomaníaco, obcecado por brigar com Dante. No entanto, em segundos, diante do apocalipse, ele mostrou uma capacidade de liderança assustadora. Ele analisou os poderes, identificou os pontos fortes e montou uma defesa.
"Eu entendi..." Sophi pensou, observando as costas dele. "No jogo de queimada, mesmo parecendo odiar receber ordens, ele aceitou os comandos de Kurokawa. No final, apesar de ser assim, ele simplesmente odeia perder. Ele odeia estar abaixo de alguém, seja um humano ou um Deus."
— Vamos atrás daquela baixinha laranja, do merda do Dante e do Hakurei! — Kai gritou, subindo em uma mureta para encarar o horizonte dourado. — Se eles concentrarem ataques de força máxima, poderemos criar um buraco nessa Black Box. Aproveitamos a arrogância daquela mulher. Escapamos com vida! E quando sairmos... eu vou pisar na cara dela com meus pés e provar que ela está abaixo de mim!
Um sorriso feroz e confiante se espalhou pelo rosto de Kai. Aquela coragem, nascida do puro ego, era contagiante. Melissa e Shimura voltaram a se mover antes mesmo de perceberem que estavam obedecendo.
— Espera, e eu? — Sophi perguntou.
Kai desceu da mureta, a expressão fechando-se em desgosto. — Você tem a pior parte. Você vai conversar com o Dante e pedir para ele colaborar.
— Espera, e por que você não pede?
— E ficar devendo um favor para aquele lixo? Nem no inferno!
Kai cuspiu no chão, como se a mera ideia deixasse um gosto ruim em sua boca.
Sophi revirou os olhos, mas um sorriso escapou. "Tá legal. Talvez eu esteja pensando demais também..."
— Entendido — disse ela. — Vamos sobreviver a isso.
Parte 4
A luz natural banhava a saída do túnel, uma promessa de segurança que estava a apenas alguns passos de distância. O grupo de vanguarda — a elite que decifrou os enigmas do Labirinto com eficiência cirúrgica — estancou.
Kintoki, Luck, Villa-V e Mirai. A liberdade estava ali, tangível. Mas então, a voz distorcida de Ryunosuke rasgou o sistema de áudio, colidindo com a doçura tóxica da "Mãe". O silêncio que se seguiu não foi de paz, mas de pressão atmosférica.
O chão tremeu.
Kintoki Sakata não estava correndo para a saída. Ele havia girado sobre os calcanhares, os músculos das pernas dilatando até rasgarem o tecido da calça, e disparado como um míssil balístico de volta para a escuridão do Labirinto.
— Aquele idiota dourado... — Luck suspirou, passando a mão trêmula pelos cabelos verdes, observando a cratera fumegante onde Kintoki estava um segundo antes. — Ele nem hesitou.
— Hum, se meus cálculos estiverem corretos... — A voz de Villa-V era monótona, quase melódica. Ela tocou na armação de seus óculos. — A probabilidade de sobrevivência do indivíduo "Kintoki" caiu para 48,4%. No entanto, a taxa de variáveis para "Cenário Épico" subiu para 100%. Fascinante. A irracionalidade humana é o melhor dado de todos.
— Façam o que quiserem. — Mirai ajeitou a postura, o rosto exibindo aquele sorriso fofo e ensaiado que não chegava aos olhos. — Eu não sou babá de suicidas. Se querem morrer, divirtam-se. Eu não vou me envolver.
Mirai encostou as costas na parede. Luck olhou para ela, depois para a escuridão onde seu colega sumiu. Ele estalou o pescoço, o som seco ecoando no túnel. A postura relaxada e preguiçosa evaporou, substituída por uma tensão elétrica.
— É... eu sabia que ia sobrar pra mim. — As solas das botas de Luck acenderam. — Aqueles idiotas vão acabar se envolvendo e morrendo sem alguém para cobrir a retaguarda. Que se dane.
BOOM!
Uma explosão de chamas concentradas irrompeu dos pés de Luck. Ele disparou, um cometa de fogo azul tentando alcançar o rastro dourado que já rasgava a montanha central.
No coração do Labirinto, Kintoki era um borrão de velocidade e ego. Ele escalava paredões verticais ignorando a gravidade, seus óculos escuros refletindo o cenário distorcido.
"Aquela mulher..."
A mente de Kintoki não processava medo. Processava insulto.
"Ela me fez ajoelhar. Eu. O Grande Kintoki. O homem que brilha mais que o próprio sol!"
Ele saltou de um pilar de concreto para outro, o vento uivando em seus ouvidos.
"Ela olhou para baixo. Como se eu fosse um inseto. Beleza, Divindade de araque. Vamos ver quem ofusca quem nesse zoológico!"
Enquanto se aproximava do epicentro, o instinto de batalha de Kintoki — uma genialidade bruta que ele escondia sob a fachada de delinquente — começou a dissecar a situação.
Aula Pessoal do Kintoki: Análise de Combate. Fato 1: O comando dela paralisou todos instantaneamente. Fato 2: Não houve projétil físico. O ataque ignorou distância. Fato 3: Quando ela parou de falar, o efeito cessou.
"Conclusão: É um Gatilho Sensorial baseado em Éter."
Kintoki sorriu, os dentes brancos faiscando. Shapers eram treinados para sentir o fluxo de energia. Era o sexto sentido deles. E era exatamente essa a armadilha.
"Ela usa nossa percepção contra nós. Assim que tentamos 'sentir' a presença dela, o link se estabelece e ela ganha poder sobre nós. É uma arapuca para quem tem instinto aguçado."
Ele chegou à borda do platô que dava para o Jardim Dourado.
"A resposta é simples, gênio! Se sentir é o problema, eu só preciso me tornar uma pedra!"
Kintoki fechou os olhos. Respirou fundo, puxando o ar para o diafragma. Com um controle mental absurdo, ele fechou seus circuitos de percepção. Ele se tornou cego, surdo e mudo para a energia do mundo. Desligou o radar. Agora, confiava apenas na física newtoniana e na violência bruta.
— ARREPENDA-SE DE TER OLHADO PARA MIM DE CIMA!
Ele saltou. As mãos juntas acima da cabeça começaram a girar o ar, carregadas de uma energia cinética dourada tão densa que a luz ao redor se curvava.
— ESPIRAL DO DRAGÃO!
Ele desceu como um meteoro.
KABOOOOM!
O impacto não foi apenas um soco; foi um evento sísmico. Duas ondas de choque espirais avançaram como brocas titânicas, rasgando o jardim perfeito, pulverizando as flores de cristal e abrindo uma trincheira de destruição reta em direção à árvore central.
A poeira subiu, cobrindo o campo de visão. Kintoki aterrissou no centro da cratera, ajeitando a gola da jaqueta com um movimento teatral.
— Heh. Gostou do brilho? Ou foi demais para os seus olhos divinos?
Mas o sorriso dele travou.
A brisa levou a poeira embora. A Mãe estava intacta, sentada sob a árvore, protegendo a cabeça de Kurokawa com uma mão delicada. O ataque sequer havia tocado nela.
Diante dela, algo rosnava.
Não era uma barreira. Era uma besta.
Um lobo de quatro metros de altura, feito de sombras líquidas e eletricidade estática azul. Sua pele era uma colcha de retalhos grotesca — escamas de lagarto fundidas com exoesqueletos de insetos e músculos expostos. Uma quimera perfeita.
— Grrrr... — O som que saía da garganta da fera era um zumbido elétrico misturado com carne rasgando.
— Oh? Um bichinho de estimação? — Kintoki forçou um sorriso, estalando os dedos, embora o suor frio já escorresse por sua têmpora. — Espero que você seja mais resistente que sua aparência, Totó!
O Lobo não correu. Ele cintilou.
A criatura se fundiu às sombras das nuvens no chão e reapareceu instantaneamente nas costas de Kintoki.
CHOMP!
Kintoki reagiu por puro reflexo animal, girando o corpo para defender, mas foi lento demais. As presas elétricas fecharam em seu braço esquerdo. Ele tentou explodir seu Éter à queima-roupa, mas o lobo detonou uma carga de relâmpagos antes.
— GAH!
O impacto foi devastador. Kintoki foi arrastado pelo ar, colidindo com uma montanha afastada com força suficiente para criar uma teia de rachaduras na rocha. Sangue espirrou no chão.
— Merda! — Kintoki tossiu, tentando se soltar da cratera na parede. O braço latejava, dormente. — Rápido... e bate feito um caminhão!
A Mãe observou a cena com um olhar crítico, quase entediado, como alguém que assiste a um inseto bater contra uma janela. Ela desviou o olhar para o Lobo das Sombras, que já preparava outro salto.
— Ineficiente — ela murmurou. A voz era suave, mas carregava o peso de uma sentença de morte. — Você é forte, minha criança. Mas ainda é... Não é o que eu procuro.
Ela levantou a mão direita. O sangue espalhado pelo campo de batalha — o sangue dos monstros mortos, o sangue de Kagura e o seu próprio icor dourado — começou a levitar, desafiando a gravidade.
— A evolução natural é lenta e decepcionante — disse ela, um sorriso maternal e insano curvando seus lábios. — Eu decidi. Vou parar de tentar evoluir o que já existe. Eu vou criar algo novo.
A poça de sangue e vísceras no ar começou a girar, condensando-se, fervendo. Formava-se um útero flutuante de carne pulsante e Éter corrompido.
Kintoki, mesmo a metros de distância e semi-enterrado na rocha, sentiu o estômago revirar. Seu instinto primitivo não gritava "perigo". Gritava "abominação".
— Hum... acho melhor cuidar de você logo, Totó — Kintoki murmurou, limpando o sangue da boca. — Porque sinto que algo muito pior está vindo aí.
Enquanto o horror biológico se gestava no ar, a Mãe voltou sua atenção para Kurokawa. A garota estava de joelhos, o olhar vago, quebrada.
— As crianças que vagam por essa floresta... uma delas carrega algo que eu preciso. — A Mãe acariciou o rosto de Kurokawa, limpando as lágrimas da garota com um polegar sujo de sangue divino. — Agora... seja uma boa menina e seja útil para mim.
A Entidade aproximou o rosto. Seus lábios roçaram a testa de Kurokawa. Não era carinho; era invasão. Uma violação psíquica direta.
— Conte-me tudo. Onde está Dante Scarlune?
VWOOP!
O ar estalou com o som de vácuo sendo preenchido.
Uma mão agarrou o colarinho de Kurokawa com violência, puxando-a para trás.
— Foi mal, Dona Misteriosa e superperigosa! — A voz de Luck gritou, trêmula, mas alta. — Mas minha amiga é meio tímida no primeiro encontro!
Luck não atacou. Ele sabia que atacar seria suicídio. Ele usou cada gota de seu Éter em uma explosão de propulsão suicida, transformando-se em um projétil humano apenas para arrebatar Kurokawa daquele toque profano.
Ele derrapou a cinquenta metros de distância, as botas soltando fumaça, segurando Kurokawa contra o peito.
Luck cambaleou, as pernas parecendo gelatina. O suor encharcava sua camisa instantaneamente.
— Puta merda... puta merda... — Luck ofegava, o coração batendo tão forte que doía nas costelas. — Eu não consigo raciocinar... Foi só por um segundo... Eu nem toquei nela... Mas só de entrar na aura dela... sinto que vou vomitar minhas tripas.
A Mãe, do outro lado do campo, não se moveu para persegui-los. Ela apenas virou a cabeça lentamente na direção deles.
E então, ela sorriu. E acenou. Um "tchauzinho" delicado e infantil.
Ela virou as costas. O útero de sangue no ar atingiu o ponto crítico.
SQUELCH.
A membrana estourou, chovendo fluidos viscosos. Algo caiu nos braços da Mãe.
Pequeno. Úmido. Disforme. Uma massa de carne negra, coberta de sangue, com membros que pareciam ter juntas demais. Dois pequenos chifres de veado brotavam de um crânio deformado, e seu corpo tinha a textura de um réptil doente.
A coisa abriu a boca e chorou. Mas não era o choro de um bebê. Era um som multifônico, como um coro de anjos desafinados gritando em agonia.
A Mãe abraçou a abominação contra o peito, ignorando Kintoki, ignorando Luck, ignorando o mundo. Seus olhos brilhavam com um amor absoluto e aterrorizante.
— Shhh... está tudo bem, meu amor — ela sussurrou para a Coisa, balançando-a suavemente. — Você nasceu com fome, não é?
Ela levantou o olhar para o Labirinto, onde dezenas de presenças vitais brilhavam como velas na escuridão.
— Mas não se preocupe... tem muita comida correndo por aí para você crescer forte.
Parte 5
Uma hora antes
A Catedral Profana mergulhou em um silêncio sepulcral. O eco da batalha havia morrido, restando apenas o cheiro de ozônio queimado e a poeira de ossos dançando nos feixes de luz trêmula. Do Centurião, nada restava além de uma gema calcificada no chão, um monumento mudo à violência que acabara de ocorrer.
Dante abriu os olhos.
Não houve o arfar dramático de quem escapa da morte, nem o grito de quem acorda de um pesadelo. Foi um despertar clínico. As pálpebras se ergueram, revelando um peso antigo e sóbrio por trás das pupilas.
Sobre ele, duas silhuetas se recortavam contra o teto abobadado.
À esquerda, Ludmilla. A mão dela pairava sobre o cabo da rapieira, os dedos brancos de tensão. Seus olhos varriam o rosto de Dante como um scanner, buscando qualquer sinal de mudança causada por Layla.
À direita, Layla. Ela vibrava. Não de medo, mas de uma eletricidade estática de pura euforia. Ela viu o olhar dele. Ela reconheceu a mudança de frequência.
— Dante... — O sussurro dela foi úmido, o sorriso rasgando o rosto de ponta a ponta.
Era Ele. O Dante do Laboratório. Aquele que prometeu morrer ao lado dela.
A lógica de Layla desligou. O instinto assumiu. Seus músculos contraíram e ela se lançou como um predador, um borrão prateado visando o peito dele, pronta para fundir sua existência à dele em um abraço sufocante.
— Vo...
POF!
O som foi seco, cômico e anticlimático.
Dante não se moveu para abraçá-la. Ainda sentado, ele apenas ergueu o punho direito com um cálculo balístico perfeito, interceptando o topo da cabeça de Layla no meio da trajetória aérea. Não foi um soco para ferir; foi um "cascudo" técnico.
— Ai! — O impacto quebrou o momento. Layla recuou, aterrissando sentada e levando as duas mãos à cabeça. Ela inflou as bochechas, os olhos marejando instantaneamente. — Isso doeu! Você é malvado! Por que bateu na Velvet?!
Dante suspirou. O som saiu carregado de uma exaustão de séculos. Ele revirou os olhos com uma familiaridade irritada.
— Corta essa. — A voz dele estava rouca, mas firme. — Eu sei que isso não fez nem cócegas.
A máscara de choro de Layla caiu instantaneamente. As lágrimas evaporaram, substituídas por um sorriso travesso e felino.
— É verdade. — Ela mostrou a língua, piscando um olho. — Mas valeu a tentativa.
Ludmilla piscou, atordoada. A tensão mortal da sala evaporou, substituída por uma atmosfera doméstica absurda que seu cérebro não conseguia processar.
Dante se levantou, batendo a poeira das calças. Ele estendeu a mão para Layla — um gesto automático, cavalheiresco. Layla encarou a mão dele como se fosse o Santo Graal, depois subiu o olhar para o rosto dele.
A brincadeira acabou nos olhos dela.
— Então... — A voz dela caiu uma oitava, tornando-se perigosamente séria. — Você lembra, não é? De mim. De nós.
O ar congelou. Ludmilla prendeu a respiração.
Dante olhou para a própria mão estendida, depois para a esperança doentia no rosto de Layla. Ele recolheu a mão bruscamente, cruzando os braços e virando o rosto para o lado, fazendo um bico birrento, quase infantil.
— Tá! Que saco! Eu lembro! — Ele resmungou, chutando uma pedra no chão. — Satisfeita? Lembro da sua cara, lembro do laboratório. Lembro de tudo.
Os olhos de Layla brilharam como supernovas azuis.
— Mas... — Dante ergueu o indicador, cortando a celebração antes que ela começasse. — Se você está esperando que eu grite "Oh, Velvet, meu amor!", te gire no ar e a gente saia de mãos dadas... — Ele virou para ela com uma careta. — Pode tirar o cavalinho da chuva. Isso nunca vai rolar.
O sorriso de Layla vacilou por um milissegundo, antes de ela mostrar a língua novamente, defensiva.
— Seu mesquinho! Por que não?!
— Ei! Você é a última pessoa no mundo que tem moral para me chamar de mesquinho! — Dante rebateu, apontando o dedo na cara dela.
Ludmilla observava a troca, a mão escorregando do cabo da espada.
"Eu achei que ela tinha feito algo com ele por causa de como ela agiu antes, mas... eu estou vendo dois irmãos brigando pelo controle remoto?"
Dante respirou fundo, passando a mão pelos cabelos bagunçados. A expressão dele mudou. O humor infantil desapareceu, dando lugar a uma frieza madura e melancólica.
— Escuta, Layla. — Ele usou o nome atual dela deliberadamente, como quem traça uma linha na areia. — Eu recuperei as memórias. Eu sei quem eu era. Mas sinto te dizer... eu não sou mais aquele Dante.
Layla inclinou a cabeça, a confusão nublando o brilho maníaco.
— Como assim?
— O garoto do laboratório... ele faz parte de mim. Admito que somos a mesma moeda. — Dante tocou o próprio peito, sobre o coração. — Mas! Eu mudei. O Dante que você conhecia morreu figurativamente e, infelizmente, literalmente.
Ele sustentou o olhar dela, inflexível.
— O piloto agora sou eu. O Dante atual. E eu não sigo roteiros antigos. Sinto muito, mas você perdeu a sua chance.
O silêncio voltou, pesado como chumbo. Dante deu as costas para ela e começou a andar em direção à saída, passando por uma Ludmilla estática.
Cinco passos. Dez passos.
Ele parou. Não se virou. Seus ombros tencionaram sob a jaqueta.
— Mas... acho que tenho que entregar uma mensagem. — A voz dele saiu baixa, quase envergonhada, arranhando a garganta. — Considere isso a última vontade dele.
Layla se endireitou, as pupilas dilatadas.
— Ele disse que realmente te amava — Dante falou para o chão, incapaz de encarar a garota. — Amava mais do que a própria vida miserável dele. E é exatamente por isso que ele nunca vai esquecer.
Dante engoliu em seco, o pomo de adão subindo e descendo.
— A dor e o vazio que você deixou, indo embora. Por isso... ele mandou avisar que nunca vai te perdoar, Velvet.
Ludmilla olhou de Dante para Layla, a confusão estampada no rosto.
"Ele está falando de si mesmo na terceira pessoa? Nunca vai perdoar?"
— É isso. — Dante coçou a nuca, as orelhas queimando de vergonha pelo drama. — Tchau.
Ele voltou a andar, apressando o passo para fugir do constrangimento.
Ludmilla girou o pescoço, esperando ver choro, gritos ou uma explosão de Éter. O que ela viu fez um calafrio percorrer sua espinha.
Layla estava com as mãos no rosto, as bochechas coradas, tremendo. Um sorriso de pura, genuína e perturbadora felicidade distorcia seus lábios.
— Quer dizer que você não me esqueceu... — Ela sussurrou para si mesma, o corpo tremendo em êxtase. Na mente quebrada dela, seja uma promessa de nunca se separar ou de nunca perdoar, não fazia tanta diferença, pois, no fim, significava que o vínculo era eterno.
— Eu já disse que esse aí não sou eu! — Dante gritou lá da frente, sem olhar para trás, tentando se distanciar da loucura.
Layla riu — um som cristalino e quebrado — e começou a segui-lo, saltitando levemente.
Ludmilla ficou parada, processando a insanidade. Ela olhou para as costas de Dante, depois para a garota perseguidora. As peças se encaixaram de forma horrível.
— Allora... (Então...) — Ludmilla murmurou, o italiano escorrendo veneno. — Você já tinha ela... e ainda assim fez tudo aquilo comigo?
Ela apertou os punhos, o couro da luva rangendo.
— Donnaiolo pervertito! (Galinha pervertido!) — Ela exclamou, marchando atrás deles.
Dante não precisava de um tradutor. A aura assassina era universal.
— Ei, eu não sei o que isso significa, mas sinto que minha moral está sendo atacada! — reclamou ele, colocando a mão sobre o rosto.
Atrás de Ludmilla, o sorriso de Layla sumiu por um segundo. O mundo ficou cinza.
Os olhos amarelos focaram nas costas do "Príncipe". Ela viu como eles tinham ficado próximos. Viu como ela agia perto dele. Viu como Dante parecia... vivo perto dela. Não obcecado, mas genuinamente vivo.
A mão de Layla desceu lentamente para o coldre na coxa. Seus dedos acariciaram a coronha fria da pistola. O instinto estava gritando; um único movimento era tudo o que ela precisava. Ela estava aguentando o máximo que pôde até agora, esforçando-se enquanto esperava seu Dante voltar.
Mas então, ela olhou para Dante novamente. Ele estava gesticulando, reclamando, interagindo. Ele estava sorrindo, do jeito torto dele. E aquela garota era o motivo.
— Tsk. — Layla estalou a língua, insatisfeita.
Ela soltou a arma e cruzou os braços atrás da cabeça, relaxando a postura.
— Tudo bem, Dante... — ela murmurou baixinho, o brilho assassino diminuindo para uma possessividade calculada. — Uma só eu deixo passar.
Dante parou de repente, girando nos calcanhares como se tivesse sentido a intenção de morte.
— O que você está murmurando aí atrás também? — Ele olhou de Layla para Ludmilla.
— O que você quer dizer? — Layla inclinou a cabeça, a imagem da inocência.
Dante semicerrou os olhos, desconfiado.
— Quanto tempo você planejava me seguir, hein? Agora eu sei de tudo. Eu sei que você está na minha cola desde o minuto em que pisei nesse Labirinto. As armadilhas, os desvios... você estava me guiando para lembrar, não é?
Ludmilla parou, chocada.
— Aspetta... (Espera...) — Ela olhou para Layla. — Isso não é coincidência? Você estava...
Layla deu de ombros, sem um pingo de vergonha na cara.
— Bom, você não estava fazendo as coisas como eu queria. Na sala de aula nem tinha reparado que eu estava lá. — Layla admitiu, fazendo bico. — E... eu fiquei com bastante ciúmes, sabia?
Dante levantou uma sobrancelha.
— Ciúmes do quê?
Layla apontou um dedo acusador para ele, e depois para Ludmilla.
— Daquela ceninha! — Ela explodiu. — Você dando comida na boca dela! — Layla falava com uma voz irritada e melosa. — Eu também quero ser mimada assim!
— Pelo amor de Deus, tudo que eu precisava agora! Não sonha acordada, Stalker! — Dante falava tampando os ouvidos.
O tempo parou para Ludmilla.
O som do mundo sumiu, substituído pelo som do sangue bombeando violentamente para seu rosto. A vergonha subiu com a força de uma erupção vulcânica. Alguém tinha visto. Alguém tinha assistido, de camarote, ao momento mais humilhante e intimista de sua vida.
— E-ele... e-eu... não foi... — Ludmilla gaguejou, a dignidade real evaporando. Ela parecia prestes a entrar em combustão espontânea.
— Além do mais, eu lá te devo algo?! — Dante retrucou para Layla, cruzando os braços, ignorando o colapso nervoso de Ludmilla. — Eu já disse que "nós" não temos qualquer relação, além de stalker e vítima.
Dante suspirou, balançando a cabeça, e voltou a andar.
— Vamos logo. Temos que sair daqui antes que eu me arrependa de ter acordado.
Ele andou alguns metros até perceber que o som de apenas um par de passos o seguia. Ludmilla continuava parada no mesmo lugar, vermelha como um tomate maduro, petrificada na pose de choque.
— Ei! — Dante chamou, parando e olhando para trás por cima do ombro. — Você não vem?
Ludmilla levantou a cabeça. O coração dela batia tão forte que doía nas costelas. Vergonha, raiva, confusão...
— Sto arrivando, idiota! (Já estou indo, seu idiota!) — ela gritou, a voz falhando um pouco. Ela correu para alcançá-los, tentando recuperar a postura (e falhando miseravelmente).
Dante abriu um sorriso pequeno, quase imperceptível, e voltou a caminhar, liderando o trio mais disfuncional que a Black Box já viu.
Enquanto caminhava, porém, o sorriso dele foi diminuindo lentamente. Seus olhos perderam o foco por um momento, voltando-se para dentro. Para o vazio onde, minutos antes, ele havia travado uma guerra pela própria alma.
Parte 6
(No Abismo da Mente...)
O ciclo se repetiu. Não pela milésima vez, mas pela eternidade contida em um segundo.
Dante corria. Seus pulmões queimavam com um ar que não existia. Ele atravessava um corredor infinito de azulejos brancos e clínicos — a arquitetura estéril de sua infância traumática. Mas os azulejos não estavam limpos; eles transpiravam sangue. O líquido carmesim brotava do rejunte, escorrendo pelas paredes, formando poças onde reflexos distorcidos sussurravam acusações.
Assassino de Sanemi. Fraco. Traidor.
Ele virou uma esquina brusca, derrapando no sangue. O chão sob seus pés simplesmente deixou de existir. O estômago de Dante subiu à garganta enquanto ele despencava na escuridão, sentindo o impacto fantasma de ossos se partindo, o gosto de cobre na boca, a morte... e o despertar abrupto no início do corredor.
— CHEGA! EU REJEITO VOCÊ! — Dante gritou para o vazio, a voz rasgando a garganta enquanto pressionava as mãos contra os ouvidos. — Eu não sou mais aquele monstro de laboratório! Eu não sou o garoto que matou o primo por causa de uma garota!
Mas o labirinto não se importava com sua negação. Ele se alimentava dela.
A realidade ao redor dele tremeu e se reconfigurou. Os azulejos brancos descascaram como pele queimada, revelando pedra cinzenta e fria por baixo. O teto rebaixado do hospital explodiu para cima, transformando-se em um céu apocalíptico, rasgado por fendas dimensionais estáticas e roxas.
A Torre Dantes. O mausoléu de suas memórias. O lugar onde a vida dele acabou pela segunda vez. O lugar onde Nero morreu.
Dante parou de correr, ofegante. Ele estava no salão principal, agora uma ruína a céu aberto. E lá, no centro, a fonte da gravidade daquele mundo.
Sentado sobre um trono grotesco, construído com escombros da torre, pedaços de engrenagens quebradas e restos de esperança, estava Ele.
O Outro Dante.
Não era um monstro deformado. Não tinha chifres ou garras. Ele era idêntico ao Dante atual — mesma altura, mesmo cabelo bagunçado, mesmas roupas escuras. Mas a presença era uma antítese. Enquanto o Dante atual mantinha a postura relaxada para mascarar a dor, aquele Dante no trono usava a dor como uma armadura de chumbo. Seus olhos eram fossos escuros, desprovidos de brilho, focados em uma obsessão fria e matemática.
— Você correu bastante — disse o Outro. A voz não ecoou; ela pesou, carregando a densidade de vinte anos de um futuro apagado. — Mas é inútil. Todos os caminhos da sua mente levam de volta a este trono. De volta ao fracasso.
— Por que você não me deixa em paz? — Dante cerrou os punhos, as unhas cravando na palma da mão. — Eu já aceitei a fusão. Eu aceitei essa nova vida.
— Aceitou? — O Outro riu. Foi um som seco, como ossos estalando.
Ele se levantou lentamente e desceu os degraus de entulho. Cada passo dele fazia a realidade mental tremer.
— Você está brincando de casinha, Dante. Você está lá fora, fazendo piadinhas ruins, flertando com princesas e brincando de herói com a "Classe dos Loucos". Você sorri, come, dorme. Enquanto isso... Nicklaus ainda respira. Nero ainda está morta.
O Outro parou a centímetros de Dante, invadindo seu espaço pessoal com uma aura sufocante de culpa.
— Você acha que tem o direito de sorrir? Você acha que tem o direito de "curtir a vida" enquanto o cadáver dela apodrece na nossa memória? — O Outro agarrou o colarinho de Dante e o puxou, nariz com nariz. — Você é fraco. Eu carrego a vontade necessária para trazer a Nero de volta. E você? Você só quer esquecer a parte feia. Você quer esquecer o Sanemi. Quer esquecer o Laboratório. Você quer ser apenas o "Dante legal".
Dante encarou seu próprio reflexo distorcido. A vontade de empurrá-lo, de negar tudo novamente, subiu pela garganta como bile.
"Ele está certo", uma parte traidora da mente sussurrou. "Eu sou uma fraude."
Mas então, a imagem de Nero veio à mente. Não a Nero pálida e fria no chão da torre. Mas a Nero viva. A prima que gritava com ele, que lhe dava cascudos, mas que sempre, sempre o salvava.
Os olhos de Dante mudaram. O medo deu lugar a uma irritação vulcânica.
— ...Sabe, você é um idiota.
— O quê? — O Outro franziu a testa, confuso pela quebra de script.
BAM!
Dante não usou lógica. Não usou argumentos filosóficos. Ele puxou a cabeça para trás e desferiu uma cabeçada brutal, selvagem e sem técnica na testa do Outro.
O som de crânio contra crânio estalou como um tiro de canhão no silêncio da torre. O Outro cambaleou para trás, os olhos arregalados, levando a mão à testa, atordoado pela violência repentina e estúpida.
— AI! — O Outro rosnou, o ódio faiscando. — Você ficou maluco?!
— Maluco é você, que acha que eu esqueci dela! — Dante gritou, ignorando o sangue quente que escorria da própria testa, misturando-se ao suor. — É óbvio que eu quero trazer a Nero de volta! É óbvio que eu vou caçar o Nicklaus até o inferno!
Dante avançou, encurralando o seu lado sombrio, apontando o dedo na cara dele.
— Mas você esqueceu a coisa mais importante, seu imbecil depressivo! Você esqueceu o comando dela! Quais foram as últimas palavras dela?!
O Outro travou. A memória era sagrada. Intocável. Ele abriu a boca, mas a voz falhou.
"Viva… meu amado idiota."
— Ela se sacrificou para eu VIVER! — Dante berrou. A voz embargou, não de tristeza, mas de uma fúria pura. — Se eu passar cada segundo da minha vida sendo um miserável obcecado como você, chorando pelos cantos, sem sentir o gosto da comida ou a alegria de uma piada... com que cara eu vou olhar para ela quando a gente a trouxer de volta?! Eu vou dizer o quê? "Oi, Nero, desperdicei o presente que você me deu sendo um emo vingativo"?
Dante socou o próprio peito, sobre o coração.
— Eu vou rir! Eu vou fazer piada! Eu vou viver essa maldita vida da forma mais extravagante e barulhenta possível! Porque foi esse o presente que ela me deu!
O Outro Dante olhou para ele. O silêncio se estendeu pelas ruínas da Torre, pesado e denso. O ódio absoluto nos olhos do reflexo diminuiu, substituído por uma compreensão relutante e amarga. Ele tocou a testa onde fora atingido, o galo já inchando.
— ...Você continua sendo um idealista irritante — murmurou o Outro, a voz perdendo a distorção demoníaca.
— Calado, maldito copiloto, se eu sou assim e porque voce tambem era! — Dante retrucou, limpando o sangue da testa com a manga da jaqueta. — Mas... eu cansei de correr. Eu não posso só fingir que a parte ruim não existe. O Laboratório, o sangue do Sanemi, a obsessão pela Velvet... e a morte da Nero. Tudo isso sou eu.
Dante estendeu a mão. Não era um pedido de amizade; era um desafio de cooperação.
— Pare de ficar aí sentado nesse trono julgando. Se você acha que eu sou fraco... então para de assistir e me dá uma mão quando eu precisar. É assim que eu vou ficar mais forte.
O Outro olhou para a mão estendida. Ele suspirou.
— Por enquanto... eu aceito. — O Outro não apertou a mão. Ele apenas cruzou os braços, mantendo a distância. — Mas escute bem. Se você vacilar... se você mostrar que não tem estômago para fazer o que for preciso para salvar a Nero... eu vou tomar o controle. Não importa quão difícil seja, eu vou achar uma brecha e assumir o piloto.
— Justo. — Dante assentiu, recolhendo a mão.
— E mais uma coisa. — A expressão do Outro escureceu novamente. As ruínas ao redor da Torre começaram a se dissolver em sombras líquidas e viscosas. — Quando as memórias da Velvet voltaram... a porta do porão se abriu.
O Outro apontou para a escuridão profunda atrás do trono. Lá, na penumbra, dezenas de olhos vermelhos brilhavam. Sorrisos rasgados e insanos flutuavam no escuro, sem lógica, sem humanidade.
— Minha obsessão tem um objetivo. Mas aquilo ali... — O Outro apontou para as Sombras com nojo. — Aquilo é pura loucura.
O Outro encarou Dante com seriedade mortal.
— Se o seu coração vacilar, se você perder o foco na batalha... elas vão te rasgar de dentro para fora. Elas vão assumir e transformar tudo o que você ama em carne moída.
Dante olhou para o abismo da própria loucura. Ele sentiu um frio na espinha, um medo primitivo que nem sua bravata conseguia esconder totalmente.
— Então é bom a gente não vacilar — Dante disse, forçando um sorriso confiante, embora o suor frio escorresse por suas costas.
O Outro Dante negou com a cabeça, começando a desaparecer nas sombras, voltando para o fundo da mente.
— Talvez o Luck tenha razão… eu acho que preciso mesmo de um relógio… Acorde, Dante. O mundo real está chamando.
O cenário da Torre Dantes rachou como vidro e explodiu em luz branca.
Dante piscou.
Ele estava de volta à Catedral Profana, caminhando à frente de Layla e Ludmilla. O som dos passos delas o ancorou na realidade. A lembrança da cabeçada ainda fazia sua testa fantasma latejar, um lembrete físico de que o acordo estava selado.
Parte 7
O grupo de Dante avançava pelo corredor de pedra calcária, guiado não por mapas, mas por uma sutil corrente de ar que acariciava seus rostos. O cheiro opressivo de mofo e sangue coagulado, tão comum nas profundezas do Labirinto, finalmente diminuía, substituído por algo mais fresco.
— É aqui. — Dante apontou para um arco gótico à frente, onde a escuridão cedia lugar a uma penumbra iluminada por cristais. — O cheiro de liberdade... ou, pelo menos, de uma sala onde nada está tentando mastigar nossos ossos.
Eles atravessaram o arco. A esperança de um refúgio, porém, morreu no instante em que as botas tocaram o chão do salão.
A câmara não estava vazia. No centro do amplo espaço circular, três figuras aguardavam, como se fossem guardiãs do portão.
Yuki, Tenma e Megumi.
O tempo parou. O eco dos passos de Dante morreu, engolido por um silêncio tenso, elétrico e constrangedor.
Yuki estava encostada em uma coluna quebrada, tentando projetar sua habitual aura de tédio superior. Mas por trás da fachada gélida, a mente dela estava a mil por hora.
"Então... aquele é o Astreus."
Yuki não estava ali por acaso. Sua matrícula em Babylon não era um capricho; era uma missão. Tudo o que aconteceu no Titanic, o despertar dele, as ordens superiores... tudo convergia para aquele garoto de cabelos bagunçados.
"A ordem foi clara: Vigie Dante Scarlune. Avalie a ameaça. Não deixe ele perceber que você é uma carcereira."
Ela cruzou os braços, inclinando a cabeça levemente. "Aja naturalmente, Yuki. Seja sutil."
O problema era que, diferente de sua irmã, Yuki tinha a sutileza de um furacão e a habilidade de espionagem de um holofote. Seus olhos não apenas olhavam para Dante; eles o dissecavam. Era um foco laser, analítico, pesado e invasivo, queimando a pele dele como se tentasse ler seu DNA à distância.
Ludmilla, com seus instintos de guarda-costas afiados na máfia, sentiu a pressão atmosférica mudar.
— Ela está te encarando... — Ludmilla sussurrou apenas para Dante, sem mover os lábios, a mão direita deslizando imperceptivelmente para a corrente em sua cintura. — Não é um olhar de curiosidade. É um alvo.
Ao lado de Dante, Velvet (Layla) parou. Ela torceu o nariz delicado, as narinas dilatando como as de um lobo rastreando uma presa ferida.
— Sniff... — O som foi audível. Os olhos de Velvet, escondidos pela franja prateada, brilharam em um tom carmesim por uma fração de segundo. Um sorriso perigoso curvou seus lábios. — Ela tem o cheiro... o cheiro podre e doce do Trono de Deus.
Yuki percebeu. Viu a mão de Ludmilla tencionando no gatilho. Viu o sorriso sádico e conhecedor da garota de prata.
"Merda," Yuki pensou, uma gota de suor frio escorrendo pela nuca enquanto tentava manter a cara de pôquer. "Falhei na infiltração em menos de cinco segundos. Droga, Mirai... por que você é a irmã talentosa para essas coisas e eu sou a força bruta?"
Antes que a tensão explodisse em violência real, Tenma reagiu.
A "delinquente" do grupo de Yuki captou a hostilidade no ar. Ela viu Dante. Ela viu as ameaças ao redor dele. O pânico social colidiu com o instinto protetor em uma reação química desastrosa.
VWOOSH!
Foi um borrão de velocidade. Tenma se moveu violentamente, plantando-se entre Dante e o resto da sala. Ela ficou de costas para ele, abrindo os braços como um escudo humano.
O problema era o rosto dela. Devido à ansiedade extrema de se tornar o centro das atenções, seus músculos faciais travaram na sua infame "máscara de defesa": dentes trincados, veias saltadas na testa e olhos injetados de uma fúria assassina que faria um demônio chorar.
— T-Tenma?! — Dante recuou um passo, as mãos levantadas, genuinamente assustado com a aura negra que emanava das costas da garota. — Calma aí! Quem morreu?!
Dante conhecia Tenma. Como antigo companheiro de equipe, ele queria acreditar que havia quebrado aquela casca dura, que entendia a garota doce por dentro. Ele queria acreditar nisso. Mas, naquele momento, tudo o que passava pela cabeça dele era:
"Droga... o que tá rolando na cabeça dessa garota?! Ela vai morder alguém!"
O silêncio voltou, mais pesado e agora tingido de confusão absoluta. Foi quebrado pelo som de um suspiro longo, profundo e carregado de exaustão existencial.
Megumi, a atiradora de cabelos pretos, massageou as têmporas. Ela olhou para a cena caótica: Tenma rosnando para o nada, Ludmilla pronta para sacar uma arma e Velvet cheirando o ar como um cão de caça.
— Haaah... — Megumi ajeitou a arma no coldre, balançando a cabeça em decepção. — Você tem uma coleção impressionante de garotas bonitas e problemáticas aí, não é, Scarlune?
— Hã? — Dante piscou, a guarda baixando pela confusão. — Do que você tá falando?
Megumi levantou um dedo, apontando com indiferença clínica, contando uma a uma.
— A stalker prateada... a delinquente ansiosa...
Quando o dedo de Megumi apontou para Ludmilla, a mão da atiradora tremeu. Ela olhou para a "Princesa" com os olhos marejados de pena e descrença.
— Safado maldito... até mesmo O Príncipe você corrompeu? — A voz de Megumi falhou. — Você está montando um harém de desajustadas, seu galinha. E pensar que eu viveria para ver a nobreza da Black Box se rebaixar a fazer parte do harém de um idiota qualquer. Droga, Ryunosuke, em que inferno você nos colocou?
O efeito em Ludmilla foi nuclear. O rosto pálido e aristocrático dela virou um tomate escarlate em tempo recorde.
— Cosa hai detto?! (O que você disse?!) — A compostura real evaporou instantaneamente.
Ludmilla marchou até Megumi, esqueceu as armas, esqueceu a etiqueta e agarrou a garota pelos ombros, chacoalhando-a para frente e para trás com uma força violenta e nada elegante.
— Você entendeu tudo errado! Eu não sou parte de harém nenhum! Eu sou o Príncipe! Digo... Eu sou uma dama respeitável! Retire o que disse! Retire agora ou eu te desafio para um duelo de honra aqui e agora!
— Woah, calma, vai me dar concussão... meu cérebro tá chacoalhando... — Megumi dizia, sendo balançada como uma boneca de pano, mas mantendo a expressão morta de quem já desistiu da vida.
Enquanto Ludmilla tentava causar danos cerebrais em Megumi por pura vergonha, Dante tocou no ombro de Tenma, suando frio. Ele precisava desarmar a bomba nuclear que era Tenma antes que ela explodisse a sala.
"Droga, sua idiota, esqueceu que ela é uma Seraphin?! Se ela ficar irritada com essa bagunça e soltar o poder dela, a gente voa pro espaço!"
— Ei, Tenma... valeu pela proteção! — Dante forçou um sorriso tranquilizador. — A Megumi só tava brincando, não liga pra isso! Que tal me dizer como você chegou nessa sala? Se trabalharmos juntos, talvez achemos a saída dessa Black Box.
Tenma virou-se lentamente. A face demoníaca se desfez como mágica, substituída por um rubor violento e fumaça saindo das orelhas. A palavra "harém" tinha fritado os circuitos lógicos e românticos dela.
— E-eu... — Tenma gaguejou, torcendo as mãos, o olhar fixo nos sapatos de Dante. — Eu acho que... ainda é muito cedo para falarmos de casamento... Dante-kun...
Dante congelou. A boca dele abriu em um "O" perfeito.
— QUÊ?! QUEM FALOU EM CASAMENTO?! — Ele gritou, a voz falhando em desespero agudo. — E POR QUE VOCÊ ME REJEITOU ASSIM DO NADA?! EU NEM FIZ O PEDIDO E JÁ LEVEI UM FORA?! ISSO FERE MEU ORGULHO MASCULINO!
De repente, a temperatura da sala despencou dez graus.
Yuki desencostou da parede. O tédio sumiu. O que restou foi um desprezo absoluto, gélido, como se estivesse olhando para um pedaço de lixo radioativo.
— Seu pervertido maldito... — A voz de Yuki cortou o ar como uma lâmina de gelo. — Agora eu entendi tudo. Eu nunca vou deixar você chegar perto da minha irmã. Se você já tem essa bagunça imoral aqui, Mirai está proibida de respirar o mesmo oxigênio que você.
— Por que você tá me olhando assim?! — Dante apontou para ela, indignado, com lágrimas cômicas nos olhos. — Eu sou a vítima aqui! E espera aí... eu quem deveria estar te interrogando! Por que você estava me dissecando com o olhar antes? Acha que eu sou burro?!
Yuki estreitou os olhos. Faíscas de eletricidade azul começaram a estalar perigosamente em seus cabelos negros.
— Feche a boca. Pare de falar. Não quero que as partículas de ar que saem da sua boca impura me contaminem e me engravidem, seu degenerado.
Dante travou. Ele olhou para o teto, a mão no peito como se tivesse levado um tiro de canhão.
— Engravidar pelo ar...? — Ele sussurrou, a alma deixando o corpo. — A biologia foi assassinada... A lógica foi estuprada... Meus sentimentos foram pisoteados... Eu só queria achar a saída...
Ele buscou apoio moral. Virou-se para a única pessoa que, em teoria, estaria do lado dele.
— Velvet... Elas estão loucas. Diz pra elas que eu sou um cara legal. Por favor.
Velvet levantou o rosto.
Não havia compaixão. Havia trevas.
A sombra de Velvet se expandiu no chão, contorcendo-se como tentáculos. Garras de osso negro começaram a brotar silenciosamente das pontas dos dedos dela. Lágrimas grossas e falsas escorriam de seus olhos, mas sua boca estava curvada em um sorriso sádico que prometia dor física excruciante.
— Uma... eu até podia deixar passar uma, Dante... — A voz de Velvet era doce, melosa e absolutamente aterrorizante. — Mas é sério que você vai colocar todas elas na lista? O Príncipe? A Gyaru? Até a membra do Trono de Deus? Você não tem filtros?
— É SÉRIO, ATÉ VOCÊ?! — Dante gritou, recuando até bater as costas na parede fria. — EU SOU INOCENTE! ISSO É UM COMPLÔ!
— Buááá! Dante, seu pervertido insaciável! — Velvet "chorou" alto, erguendo as garras.
Yuki caminhou até ficar ao lado de Velvet. As duas trocaram um olhar. O olhar da sororidade punitiva. O pacto silencioso de destruir o homem infiel.
— E ainda por cima estava traindo uma delas na frente das outras... — Yuki levantou a mão direita. O ar crepitou com alta voltagem. — Tá legal. Minha missão era apenas vigiar, mas acho que o mundo será um lugar melhor sem esse tipo de lixo genético.
— Velvet diz... hora da punição ♥ — Velvet sussurrou, a aura negra se misturando com a eletricidade azul de Yuki em um show de luzes mortais.
— EU VOU FRITAR VOCÊ! — Yuki gritou.
— ESPEREM! ISSO É UM ERRO JUDICIAL! EU QUERO UM ADVOGAD—
ZUUUUUUM.
O grito de Dante morreu na garganta.
Não foi um som. Foi uma pressão.
Uma vibração profunda percorreu o chão de pedra, subiu pelas paredes e ressoou na medula óssea de cada pessoa na sala. A eletricidade de Yuki dissipou instantaneamente. As garras de Velvet recuaram para a pele. Ludmilla soltou uma Megumi tonta no chão.
O ar ficou pesado, denso, com gosto de ferro e divindade antiga.
Naquele segundo, o tempo, as piadas e as briguinhas adolescentes perderam o sentido. A voz da Mãe invadiu a mente de todos, não como um som auditivo, mas como uma verdade absoluta sendo reescrita diretamente em seus cérebros.
Parte 7
Presente
Longe do epicentro, atrás de uma barreira natural de rochas vulcânicas, a fuga terminou em colapso.
Luck Kennedy não parou; ele desligou.
As chamas azuis em suas botas não se extinguiram suavemente; elas morreram com um chiado de vapor e fumaça negra, como metal superaquecido mergulhado em gelo. O impulso cinético desapareceu, e a gravidade cobrou seu preço. Luck caiu de joelhos, o impacto estalando contra a pedra, deslizando até bater o ombro na terra.
Em seus braços, Kurokawa não estava agradecida. Ela era uma boneca quebrada em convulsão.
— Não... não, não, não... — A voz dela era um gemido animalesco, arranhando uma garganta seca.
No segundo em que Luck cruzou a linha invisível, no instante em que a distância entre ela e a "Mãe" se tornou insuperável, o inferno pessoal começou. Não foi um ferimento físico. Foi a amputação da alma.
A pele de Kurokawa arrepiou-se violentamente, os poros se fechando como se o ar tivesse congelado. O calor reconfortante, tóxico e divino da Mãe foi arrancado dela, substituído por um frio absoluto — um vácuo existencial que doía mais do que ossos moídos.
— AAAAAAHHH! — Kurokawa gritou, um som agudo que fez o sangue dos presentes gelar. Ela se contorceu nos braços de Luck, jogando-se no chão de terra batida. — DÓI! ESTÁ FRIO! TÁ TUDO CINZA! POR QUE VOCÊ ME TIROU DE LÁ?!
Ela começou a arranhar o próprio pescoço. Unhas contra a pele pálida, desenhando linhas vermelhas frenéticas, cavando em busca de um calor que não existia mais. Seus olhos estavam revirados, a saliva escorrendo pelo canto da boca. Era abstinência pura. Sua humanidade tinha provado o néctar de um Deus e agora rejeitava a realidade mortal.
— Me leva de volta! — Ela engatinhou, as unhas raspando na pedra até sangrarem, tentando voltar para o monstro. — Eu preciso que ela me ame! Eu não sou nada sem ela!
— Kurokawa, para! — Luck tentou segurá-la, estendendo a mão.
Mas sua mão não obedeceu. Ela tremia. Uma vibração fina, incontrolável, que subia pelos dedos até o ombro.
E então, Luck sentiu. O contágio.
Ele olhou para as próprias mãos trêmulas. O breve segundo em que ele mergulhou na aura da Mãe para resgatar a garota... foi o suficiente. Um único fôlego daquele "amor" havia contaminado seus circuitos neurais.
O mundo ao redor dele perdeu a cor. O som do vento era irritante. O esforço de respirar parecia inútil.
— Que... que merda é essa? — Luck sussurrou, os olhos arregalados, as pupilas dilatadas engolindo o verde das íris. — Por que... meu coração está doendo? Por que dói tanto estar vivo?
Uma voz sussurrou na mente de Luck. Não a voz da Mãe, mas a sua própria, distorcida por uma depressão química instantânea e avassaladora. Para que lutar? Para que correr? A paz estava lá atrás. Se você não pode ter a paz, é melhor não sentir nada.
A lógica era fria. Impecável. Mecânica.
A mão de Luck moveu-se sozinha, guiada por esse novo imperativo. O propulsor na palma de sua mão zumbiu, acendendo. O fogo azul crepitou, não para voar, mas para queimar. Lentamente, com um olhar vago e aterrorizado, ele apontou a própria mão carregada de explosivos para a sua têmpora direita.
— Luck, não! — Kurokawa gritou, mas era um grito egoísta; ela batia a cabeça contra uma pedra, tentando apagar a própria consciência. — Dói... faz parar... faz parar...
Luck fechou os olhos. O calor da explosão iminente chamuscou seus cabelos vermelhos.
ZAP!
Um estalo seco de alta voltagem cortou o ar, seguido imediatamente por dois baques surdos.
O braço de Luck caiu, inerte. O corpo de Kurokawa travou em um espasmo e relaxou forçadamente.
Anna estava de pé sobre eles. Faíscas de eletricidade dourada ainda dançavam entre seus dedos estendidos, o cheiro de ozônio misturando-se à poeira. Seu rosto, geralmente uma pintura de imprudência e inocência, estava endurecido em uma máscara de eficiência que lembrava o início do incidente do Titanic.
Ao lado dela, Chuya e Mio chegaram derrapando, paralisados pela cena grotesca.
— Mas que inferno é esse?! — Chuya gritou, a voz falhando ao ver seu amigo com uma marca de queimadura no rosto e a mão ainda fumegante. — O Luck tava tentando... se explodir?!
— Merda... por que... por que logo ela tinha que aparecer? — Anna murmurava, irritada. Assim como ela havia sentido o Enigma antes mesmo de sua fusão se completar, ela já conseguia sentir, dali, quem era a pessoa fazendo toda aquela confusão. — Entre todos, ela é sem dúvidas a mais problemática para se encontrar antes do Dante aprender a usar os poderes de Astreus...
A voz de Anna saiu metálica, sem espaço para hesitação. Ela caiu de joelhos ao lado de Luck, checando o pulso na carótida com dedos rápidos.
— É uma reação de abstinência severa. A aura daquela criatura não é apenas pressão espiritual; ela reescreve a química cerebral. Eles sentiram o "amor perfeito" e agora a realidade normal é processada pelo cérebro como tortura física.
Anna levantou o olhar para Chuya, os olhos bicolores sérios.
— Se não os sedarmos, eles vão se matar em questão de minutos apenas para parar a dor. O instinto de sobrevivência foi invertido.
— Anna, para! — Mio foi até ela e a pegou pelo colarinho. — Você está só falando coisas estranhas até agora! Eu sou burra, se você não percebeu. Se não me explicar direito, eu não vou entender, então me explica o que tá acontecendo!
Anna olhou e percebeu que ela novamente perdera sua calma; a pressão de encontrar com outro de seus "irmãos" derrubou suas máscaras. Assim, ela respirou fundo e falou:
— Assim como no Titanic, nesse exato momento dentro da Dungeon, um Novo Astreus acabou de nascer. A voz que escutamos na nossa cabeça agora há pouco... aquilo é a Vida.
Na hora em que ouviram aquilo, tanto Mio quanto Chuya tiveram um momento de delay, travando antes de poder voltar a processar, relembrando o terror que fora a luta contra o Enigma.
— E dessa vez... não é como o Enigma, que não tinha completado a fusão. Pelo que estou sentindo, a Vida já nasceu completa.
De repente, atrapalhando a conversa, Kurokawa, ainda lutando contra a paralisia do choque elétrico, agarrou o tornozelo de Anna com dedos fracos e ensanguentados.
— Por favor... me mata... — A garota chorava sangue, os capilares dos olhos estourados pelo esforço. — Ou me leva pra Mãe... eu quero a Mãe...
Mio mordeu o lábio até sangrar, irritada e horrorizada, recuando um passo.
— Chuya, pegue o Luck. Mio, a Kurokawa. Agora! — Anna ordenou, levantando-se. Ela olhou para o horizonte, onde a poeira da batalha de Kintoki subia aos céus como um cogumelo atômico. — Precisamos afastá-los da área de influência. Quanto mais perto ficarmos, mais a vontade de morrer vai crescer neles. É como radiação.
Chuya, largando o cigarro com uma expressão agora séria, jogou o braço de Luck sobre o ombro. O garoto de cabelos vermelhos, inconsciente, pesava como chumbo.
— Aguenta firme, seu idiota... — Chuya rangeu os dentes, ajustando o peso. — Eu não vou deixar você se matar. Não hoje.
Mio agiu rápido, conjurando ventos suaves para levantar Kurokawa em uma maca de ar, já que a garota ainda tentava se debater em seus sonhos febris.
De repente, Anna parou.
Todo o corpo dela tensionou. Ela girou a cabeça bruscamente para a direita, focando em um corredor de pedra escuro e distante.
Seus olhos brilharam intensamente. Uma conexão que transcendia o espaço, o tempo e a lógica pulsou em seu peito, aquecendo seu coração no meio daquele frio.
Dante.
Ela sentiu. Não era uma suposição; era uma certeza física. Ele estava perto. Ele tinha acabado de chegar na área. A alma dela, aterrorizada com a responsabilidade, gritou para correr até ele.
— Anna? — Mio chamou, notando a hesitação da garota. — O que foi? Tem mais inimigos?
— O Dante... — Anna sussurrou, a voz trêmula por um segundo. — Ele está aqui. Ele está vindo na direção do campo de batalha.
— Então vamos nos encontrar com ele! — Chuya falou, lembrando como ele fora a peça-chave da última luta contra um Astreus.
Anna cerrou os punhos com tanta força que as unhas perfuraram a pele.
Ela olhou para Luck, babando e suicida. Olhou para Kurokawa, quebrada e viciada. E olhou para a direção de onde a aura da Mãe vinha, ficando cada vez mais forte, mais sedutora e mais maligna.
Se eles fossem até Dante, teriam que se aproximar da batalha. Teriam que voltar para a radiação. Luck e Kurokawa não aguentariam; eles se jogariam no fogo ou correriam para os braços do monstro na primeira oportunidade.
Anna fechou os olhos. A decisão tinha gosto de fel.
— Não.
Ela virou as costas para a presença de Dante.
— Nós vamos recuar. — A ordem foi definitiva. — Eles precisam de tratamento imediato e distância dessa "aura". Se levarmos eles para o Dante agora, estaremos levando eles para o matadouro. Minha prioridade é manter os dois vivos.
"Droga… Droga… Droga… me desculpe, Dante."
— Vamos. — Anna comandou, liderando o grupo para longe do centro, longe da Mãe, carregando os destroços humanos da guerra mental que acabara de começar. — Mio, Chuya, não parem por nada. Se eles acordarem e tentarem voltar... derrubem-nos de novo. Sem piedade.
Eles correram. E enquanto se afastavam, atrás deles, o som de trovões e o rugido de bestas ecoavam, e a sensação de que algo monstruoso havia nascido gelava suas espinhas, perseguindo-os na escuridão.
Parte 8
No epicentro do Jardim Dourado, agora uma cicatriz fumegante de lama e destroços na face do Labirinto, a "Mãe" assistia ao espetáculo com a serenidade perturbadora de quem aprecia uma ópera.
Em seu colo, a Pequena Abominação banqueteava-se. O bebê disforme, nascido de sangue e caos, não sugava leite. Seus tentáculos famintos disparavam como línguas de sapo, laçando monstros menores atraídos pela aura divina. A digestão era instantânea; ossos e carne eram dissolvidos em segundos.
— Logo, logo você vai poder ir brincar também... — ela sussurrava, acariciando a pele viscosa e pulsante da criatura, enquanto seus olhos dourados se voltavam para a outra dança mortal.
Kintoki Sakata não estava apenas parado; ele vibrava. Uma aura dourada emanava de sua pele, superaquecendo o ar ao redor como um reator nuclear à beira do colapso.
Diante dele, o "Lobo da Tempestade" não era um simples monstro; era uma falha na realidade. A quimera de quatro metros oscilava entre a existência física e a pura voltagem, suas garras deixando marcas de queimadura no chão em vez de cortes. O som que ele emitia não era um rosnado, mas o zumbido grave e doloroso de um transformador explodindo.
— VAMOS LÁ, TOTÓ!
O chão sob os pés de Kintoki detonou. Ele não correu; ele se propeliu.
O punho direito puxado para trás comprimiu o ar, criando um vácuo visível ao redor dos nós dos dedos. Era a força cinética de um trem-bala condensada em um único ponto de impacto, mirando o focinho crepitante da fera.
— GOLDEN PUNCH!
O soco viajou. O contato foi feito. Mas a física foi traída.
Não houve o CRACK de ossos. Houve um som abafado, um VZZZT elétrico.
No último milissegundo, a estrutura molecular do Lobo se dispersou. O punho de Kintoki atravessou uma nuvem negra de ozônio e fumaça. A inércia do golpe falho foi tamanha que quase deslocou seu ombro, fazendo o "Cometa Dourado" golpear o vento.
— Tsk. Intangibilidade elemental... — Kintoki não perdeu o equilíbrio. Usando a inércia do soco, ele girou no ar como um giroscópio humano, aterrissando em uma postura baixa, os dedos roçando o solo. — Até que você tem uns truques legalzinhos!
O ar acima dele estalou. O Lobo rematerializou-se cinco metros acima, a boca escancarada acumulando uma esfera de plasma azul que se alongou em uma lança de pura destruição.
Kintoki estava no escuro. Sem seu radar de Éther para evitar o controle mental da Mãe, ele estava cego para o fluxo de mana. Para qualquer pessoa normal, aquilo seria o fim. Mas Kintoki não era "normal".
No instante em que perdeu o inimigo de vista, o supercomputador biológico em seu cérebro cruzou os dados em nanossegundos. Deslocamento de ar. Som da ionização. Variação de temperatura. A trajetória não foi vista; foi calculada.
Sem olhar para cima, Kintoki cruzou os braços acima da cabeça, reforçando a derme com uma camada densa de Éther defensivo.
BOOOOOOM!
A lança de raios colidiu com seus antebraços. O impacto foi tectônico. O chão ao redor de Kintoki cedeu, criando uma cratera instantânea. A eletricidade dançou sobre seu corpo, fritando as fibras de suas roupas, mas a pele dourada permaneceu imaculada. Seus joelhos nem sequer tremeram; ele converteu a força descendente, comprimindo os músculos das pernas como molas hidráulicas de titânio.
— TE ACHEI!
A fumaça da explosão ainda se expandia quando Kintoki a perfurou de baixo para cima, subindo como um míssil terra-ar.
O Lobo tentou dispersar sua forma física novamente. O corpo começou a virar névoa. Mas a matemática de Kintoki era absoluta.
— Você estava invisível até usar a eletricidade. Se precisa de forma física para canalizar o ataque, existe um delay de 0.5 segundos até voltar à forma elemental!
A mão de Kintoki atravessou a névoa e seus dedos se fecharam como garras de aço ao redor da cauda física que ainda não havia se transformado.
Um sorriso violento surgiu no rosto do Golden Boy.
— GOTCHA!
A inércia parou abruptamente. Com um rugido primal que sobrepujou o trovão, Kintoki girou o próprio eixo no ar. A força centrífuga foi brutal. Ele manuseou a besta de quatro toneladas como se fosse um travesseiro de penas, chicoteando-a em um arco descendente violento.
CRAAAAAASH!
A arena estremeceu. O corpo do Lobo atingiu o solo com tanta violência que as placas de concreto se levantaram como ondas no mar. A besta uivou, o som de costelas partindo ecoando pelo campo de batalha.
Kintoki pousou suavemente na borda da cratera, ajeitando os óculos escuros tortos.
— HEH! É só isso?! — Ele sorriu, os dentes brancos brilhando na fuligem. — Se se transformar agora, eu só espero o ataque. Se quiser lutar como homem, eu aceito o desafio, cachorrinho!
Ao longe, o som de palmas lentas cortou o ar.
— Bravo. Que força bruta adorável — disse a Mãe.
O sorriso de Kintoki vacilou. Algo estava errado. O som... ou a falta dele. No fundo da cratera, o Lobo esmagado não ganiu. Ele... sorriu?
A "carne" da besta começou a borbulhar, transformando-se em fumaça negra.
Armadilha.
Kintoki, focado na intangibilidade, não percebeu a divisão de massa. Sem sentir o Éther, ele não notou o Lobo se dividindo em dois antes do ataque. O clone atacou com raios; o original se escondeu na sombra da poeira.
A poeira atrás de Kintoki se agitou. O original, materializado no ponto cego criado pela arrogância do Dourado, já estava no ar. As mandíbulas, carregadas com eletricidade estática silenciosa, miravam a jugular.
Ele estava desequilibrado. Xeque-mate.
— Merda.
VWOOP.
O som não foi de carne rasgada. Foi o som do tecido da realidade sendo dobrado. A gravidade inverteu, o horizonte girou.
Num piscar de olhos, Kintoki tropeçou a dez metros de distância, o labirinto de seu ouvido interno gritando pela desorientação espacial súbita.
No lugar onde a garganta de Kintoki estava um milissegundo antes, agora havia um garoto de cabelos brancos com mechas azuis e um olhar de puro desprezo.
— Heavy Distortion.
O contato foi enganosamente leve. A sola do sapato de Kai tocou o queixo do Lobo. Mas, naquele ponto, o espaço gritou. O ar ao redor do pé se distorceu visualmente como uma lente convexa, adicionando toneladas de pressão gravitacional.
CRAAA-BOOM!
A cabeça do lobo não foi chutada; foi implodida. O corpo da besta foi disparado horizontalmente como um projétil de canhão, atravessando a arena até colidir com a parede oposta e se desfazer.
Kai pousou, ajeitando a gola da camisa branca impecável. Ele olhou para Kintoki com um desprezo clínico.
— Seu merda... — Kai suspirou, como se repreendesse uma criança. — O que acha que está fazendo? Faça o seu trabalho e não morra, para que eu consiga minha vitória absoluta.
— Garoto Kai... — Kintoki piscou, depois abriu um sorriso largo e fez um joinha. — Eu vacilei! Foi mal! Obrigado pelo apoio, Deus te deve uma agora!
— Maldito, você ouviu o que eu falei?! — Kai gritou, uma veia saltando na testa.
O Lobo explodiu em nuvens de éter, sua fúria palpável. Ele estava irritado com os humanos que se recusavam a morrer. De repente, seu corpo se dividiu. Mitose acelerada.
Agora, cinco bestas de quatro metros, feitas de raio e sombra, cercavam os dois.
— Tch. Eles se multiplicam... — Kai flexionou os dedos longos, o ar tremeluzindo ao redor. — Mas de que adianta um lixo se multiplicar? Zero vezes cinco continua sendo zero.
— Já aviso, Menino Kai! — Kintoki bateu os punhos, faíscas voando. — Como agradecimento, desative sua habilidade sensorial! Se sentir o Éther da mulher no topo da colina, você vai travar!
Kintoki saltou para o combate, deixando Kai estupefato.
“Tsk. Se eu desativar o sensor, perco a previsão de movimento. Agora entendo por que esse idiota está lutando na força bruta.”
A batalha recomeçou em dobro.
Kintoki era a âncora, o "Tanque" inamovível. Um lobo avançou pela direita. Kintoki não esquivou; girou o quadril e disparou um soco curto no ar vazio.
— Pressure Cannon!
A pressão atmosférica comprimida atingiu o flanco da besta como uma bala de canhão invisível.
Ao mesmo tempo, dois lobos flanquearam Kai. Ele não se moveu. Quando as garras estavam a milímetros de seu rosto, o espaço dobrou. Portais dimensionais minúsculos se abriram; as garras entraram na frente e saíram nas costas dos próprios lobos.
— Redirecionamento Vetorial. Básico.
Eles lutavam costas com costas, uma máquina de matar eficiente, mas disfuncional.
— Muito bem, Menino Kai! Continue me dando suporte para eu brilhar!
— Cala a boca! Não ouse me dar ordens!
De repente, a cacofonia cessou. Os cinco Lobos recuaram, saltando para os cinco pilares altos que cercavam a arena, formando um pentagrama perfeito.
— Geometria de ataque... — Kai murmurou. Mesmo sem sentir a mana, a lógica era clara. — Não baixa a guarda!
As bocas das cinco bestas se abriram. O ar ficou pesado, metálico. O cheiro de morte saturou os pulmões.
— Droga! Convergência central! — O cérebro de Kai calculou. — Kintoki, sai da frente!
Cinco canhões de eletricidade concentrada iluminaram a arena.
— Eu não consigo teleportar! — Kai gritou. — A densidade de energia ionizou a atmosfera! As coordenadas estão instáveis!
O Lobo original, no centro, servia de âncora. O ataque não deixaria nem cinzas.
— Droga! — Kintoki rangeu os dentes, dando um passo à frente de Kai e cruzando os braços em "X". — Fica atrás de mim! Eu aguento!
O brilho azulado engoliu o mundo.
BZZZZZZZZT!
Mas o impacto nunca chegou.
Um rastro de luz carmesim rasgou a realidade, movendo-se em uma frequência que o olho humano mal registrava. Dante Scarlune materializou-se no epicentro, enfiando-se entre a morte iminente.
— Liberar Arquivo: Segundo Modo - Deus da Velocidade
Dante não bloqueou. Ele abriu os braços, oferecendo o peito como um para-raios divino.
— CHEGUEI! — A voz de Dante vibrou com estática.
Os cinco feixes de aniquilação curvaram-se no ar. Como limalha de ferro atraída por um ímã titânico, os raios foram sugados para o corpo dele.
A energia o atingiu. A pele de Dante rachou, linhas brilhantes de puro poder vazando de suas feridas, mas ele não queimou. Ele absorveu. Cada volt foi injetado em seu sistema metabólico. Seus cabelos flutuaram, desafiando a gravidade.
— AGORA! — Dante rugiu.
Ele golpeou o chão com a palma aberta. Não foi um soco; foi uma descarga. Toda a energia roubada foi liberada em um pulso eletromagnético (EMP) omnidirecional.
A onda de choque violeta varreu a arena. Os clones tremeluziram e o Lobo Original travou, seus circuitos mágicos fritos.
A abertura perfeita.
Kai não hesitou. Ele viu a geometria da vitória.
VWOOP.
Kai reapareceu cinco metros acima do Lobo paralisado, invertendo sua gravidade pessoal para cair como chumbo.
— Spatial Press: Guillotine.
Kai pisou no ar. A sola de seu sapato desceu com o peso de um arranha-céu, comprimindo o espaço em um cilindro vertical. O Lobo foi esmagado contra o chão, achatado, incapaz de mover um músculo.
— KINTOKI! — Kai gritou.
Kintoki já estava no ar. Ele correu verticalmente pela parede da cratera e se lançou como um meteoro dourado em direção ao alvo imóvel.
— GOLDEN... SMASH!
O impacto foi o som do fim do mundo. O punho conectou com o crânio da besta, presa entre a força inamovível e a gravidade infinita.
A onda de choque atomizou o monstro. Uma chuva de éter roxo e pedaços de armadura explodiu para trás.
Quando a poeira baixou, Kintoki sorriu, empurrando os óculos de volta ao nariz.
— HAHAHA! É isso que acontece quando nuvens tentam ofuscar o Sol!
Dante desabou de joelhos, fumaça saindo de seu corpo superaquecido.
— Merda... foi mais carga do que eu esperava...
Kai pousou, impecável, cruzando os braços.
— Eu não pedi ajuda, seu merda — ele retrucou para Dante, embora seus olhos checassem os ferimentos do companheiro.
O silêncio da vitória durou três segundos.
CLAP.
O som seco cortou o ar abafado.
CLAP. CLAP.
Os três congelaram. A adrenalina virou gelo.
— Lindo. — A Mãe se levantou do trono de raízes. — Se for contra vocês, com certeza meu filho vai evoluir ainda mais.
Ela olhou para o bebê em seus braços.
— E ele acabou de ter um estirão de crescimento. Acho que ele quer se alongar.
A Mãe soltou a criatura.
Não foi um crescimento. Foi uma erupção biológica. A pequena criatura começou a emitir um som molhado, de tecido podre rasgando.
CRACK! SNAP! CRUNCH!
O som de ossos se quebrando e reconfigurando foi ensurdecedor. A massa explodiu para fora, membros alongando-se de forma impossível, a espinha dorsal crescendo metros em segundos. As sombras da caverna ganharam vida, fluindo para a criatura como rios de piche, cobrindo o teto e bloqueando a luz.
A gravidade reclamou seu prêmio.
BOOOOOOOOOOM!
Algo titânico aterrissou no centro da arena. A onda de pressão jogou Dante, Kai e Kintoki para longe como bonecos de pano.
Diante deles, o pesadelo se erguia.
A besta tinha a altura de um prédio de três andares. Seu corpo era feito de matéria escura fibrosa e pelos esfarrapados que pulsavam. Quatro pernas longas e finas, com joelhos invertidos, sustentavam o torso esquelético.
A cabeça era um crânio colossal de cervo, coroado por galhadas afiadas que arranhavam a rocha do teto. Dentro da caixa torácica exposta, um coração de pura "Vida" corrompida pulsava em vermelho.
O crânio abriu a boca em um grito eterno. E lá dentro, na garganta escura, dezenas de olhos vermelhos se abriram, brilhando com malícia.
A criatura inspirou. E rugiu.
Não foi som. Foi uma onda de choque mental.
Dante gritou, o nariz explodindo em sangue. Kintoki caiu de joelhos, os dentes vibrando. Kai vomitou, o equilíbrio destruído.
A Mãe bateu palmas novamente, encantada.
— Vamos ver o quanto meu novo filho é forte. Brinquem com ele, por favor.
Parte 9
No centro da cratera, três figuras tentavam se erguer em meio à poeira vermelha e ao sangue coagulado. O rugido mental do Dragão Wendigo havia transformado seus ouvidos internos em purê, mas a teimosia era a única coisa intacta.
Kai cuspiu uma bola de sangue, limpando o canto da boca com as costas da mão suja de fuligem. Ele estava trêmulo, o equilíbrio comprometido, mas sua arrogância permanecia inabalável.
— Seu merda... — Ele olhou de esguelha para Dante, que tentava firmar as pernas trêmulas. — Pode ficar aí no chão se não aguenta. Eu sou o suficiente para acabar com isso.
Dante soltou uma risada fraca e rouca, estalando o pescoço dolorido. Faíscas violetas falhavam ao redor de seu corpo, como uma lâmpada com mau contato.
— Ah, vai sonhando, Albino... Eu digo o mesmo. Se quiser tirar um cochilo de beleza, fique à vontade.
— ERRADO!
Kintoki deu um passo à frente, cambaleando violentamente, mas estufando o peito com um orgulho indestrutível.
— EU irei acabar com ele! — Kintoki apontou para si mesmo com o polegar. — Então, companheiros, sejam bons membros de elenco e me apoiem enquanto eu brilho!
Uma veia saltou na testa de Kai. O desprezo em seus olhos era quase físico.
— Babaca Dourado... — Kai rosnou, o espaço ao redor dele distorcendo com sua irritação genuína. — Cala a boca, seu personagem secundário maldito.
Kintoki abriu a boca para retrucar, mas a frase morreu na garganta. Não houve aviso. A luz da caverna simplesmente deixou de existir. Uma sombra colossal engoliu os três jovens, bloqueando até o brilho do Éter. O Dragão Wendigo não tinha interesse em monólogos ou críticas literárias.
O céu caiu. Uma garra do tamanho de um ônibus escolar desceu verticalmente, rasgando a atmosfera com um som que lembrava um trovão partindo uma montanha. A pressão do ar, sozinha, já achatava o chão antes mesmo do impacto.
— CUIDADO!
Não houve tempo para reuniões estratégicas. Não houve tempo para desenhar planos na terra. Houve apenas reação.
Kintoki, com os olhos brilhando por trás das lentes trincadas, fez o impensável. Em vez de recuar, ele avançou. Ele infundiu cada fibra muscular com uma sobrecarga de Éter dourado, seus braços tornando-se pilares de luz sólida.
BOOOOOOOM!
A colisão foi tectônica. Kintoki interceptou a garra descendente com as mãos nuas. O impacto foi tão devastador que o concreto sob seus pés não apenas rachou; ele se liquidificou. Kintoki afundou até os joelhos na rocha sólida, os dentes trincados, veias saltando no pescoço como cabos de aço prestes a estourar.
— PESADOOOO...! — ele rugiu, o peso de um edifício comprimindo sua espinha. Mas ele não cedeu. Ele se tornou a fundação. A âncora imóvel num mundo de caos.
Para um observador comum, era suicídio. Para Kai, era uma plataforma.
— Boa, Gorila. — Kai não perdeu o milissegundo de imobilidade que Kintoki comprou com os próprios ossos. O espaço ao redor de Kai se dobrou. VWOOP.
Ele desapareceu do chão e rematerializou-se instantaneamente cinco metros no ar, exatamente acima da articulação do "cotovelo" da besta, cujo braço estava esticado e preso por Kintoki.
— Gravity Kick: Axis Break.
Kai girou o corpo no ar. Seu calcanhar desceu sobre a junta do monstro. No momento do contato, ele não usou apenas força física; ele alterou a constante gravitacional na ponta do pé. O peso do chute foi ampliado mil vezes em um único ponto de pressão.
CRACK!
O som de osso gigante partindo ecoou como um tiro de canhão. O braço do Dragão, incapaz de suportar a gravidade localizada, cedeu e dobrou para o lado errado, desequilibrando a montanha de sombras.
Mas a besta ainda tinha pernas. Ela tentou se reerguer para esmagar os insetos. Foi quando o raio vermelho passou ziguezagueando por baixo dela.
Dante Scarlune não corria; ele fluía. Ele se tornou um borrão carmesim, deslizando pelo chão entre as pernas da criatura. Seus olhos rastreavam a anatomia do monstro em câmera lenta.
Ele derrapou por trás dos calcanhares do Wendigo. Suas pernas, envoltas em plasma superaquecido, tornaram-se lâminas vivas. Com um movimento de tesoura, ele girou, chutando horizontalmente os tendões de Aquiles das patas traseiras da besta.
SHIIIIIIIZ!
O som foi de carne sendo cauterizada instantaneamente. O plasma cortou músculo e osso como faca quente na manteiga. Sem sustentação, a gravidade terminou o serviço.
THUD.
O Dragão Wendigo, com o braço quebrado e os tendões cortados, desabou de joelhos, fazendo a caverna inteira tremer.
Kintoki, Kai e Dante pousaram em posições diferentes, ofegantes, cercados pela poeira da queda do gigante. Naquele momento, ficou claro. Eles eram três gênios quebrados, operando em frequências totalmente incompatíveis, mas que, milagrosamente, criavam uma harmonia violenta.
Kintoki, o Gênio Tático, disfarçava sua mente de supercomputador sob a aparência de um bruto, lendo a física da batalha para se tornar o escudo inamovível que a equipe precisava. Kai, o Gênio Instintivo, movia-se sem pensar, guiado puramente pelo "feeling" do espaço-tempo, atacando os pontos cegos que a lógica ignorava. E Dante, o Gênio Evolutivo, era a cola. Ele se adaptava em tempo real aos buracos deixados pelos outros dois, acelerando sua própria existência para cobrir as falhas e conectar os ataques.
O monstro rugiu, tentando se levantar, mas a trindade estava pronta.
A Mãe assistia a tudo, encantada. Ela não parecia preocupada com o fato de seu "filho" estar sendo desmembrado; ela parecia uma cientista observando ratos inteligentes resolverem um labirinto mortal.
Dante, aproveitando um segundo de respiro enquanto a besta rugia, olhou para ela. Ele viu o sorriso. E viu que ela não estava se movendo.
— Ei! — Kintoki gritou, defendendo outro golpe devastador. — SCARLUNE! Desligue a capacidade sensorial! Se tentar "sentir" a energia dela, ela entra na sua mente!
Dante arregalou os olhos. A peça que faltava encaixou.
Um sorriso de canto apareceu em seus lábios ensanguentados. Ele tocou o comunicador em seu ouvido.
— Ouviram isso? O segredo é ficar cego para o Éter.
Alguns Minutos Antes
O grupo de Dante corria pelo corredor, o som de botas batendo ritmicamente contra a pedra antiga.
— Eu já tenho um plano. — Ludmilla falou, a voz firme, assumindo o comando. — Megumi, você tem comunicadores, não é? Quantos pode compartilhar? Vamos nos separar.
— Separar? — Dante perguntou, ofegante, correndo ao lado dela. — Não é melhor irmos todos pra cima?
— Idiota. — Megumi, Ludmilla e Layla disseram em uníssono perfeito. Até Tenma, que corria em silêncio com sua cara assustadora, olhou para ele como se ele tivesse sugerido abraçar um cacto.
— Escutem — Ludmilla ignorou a estupidez dele. — Megumi, você lidera o Time 1. O objetivo é encontrar o Professor Ryunosuke. Se ele enviou aquela mensagem desesperada, ele está em perigo crítico. Ele é nossa melhor aposta para sair dessa Black Box.
— Eu vou. — Megumi assentiu, recarregando suas pistolas duplas com cartuchos de Éter condensado. — Mas eu não sei onde ele está. Achei de verdade que aquela era a saída desse labirinto, mas pelo visto errei.
— Eu sei. — A voz de Layla soou doce, infantil e absolutamente arrepiante.
Todos olharam para ela. Layla corria saltitando, como se estivesse em um parque.
— Você sabe? — Dante franziu a testa. — Por que não disse antes?
Layla sorriu, corando levemente e colocando o indicador nos lábios.
— Porque, se a Velvet falasse logo de cara, teríamos nos separado antes.
Dante sentiu um arrepio subindo pela sua espinha.
— Tanto faz isso, não importa agora. — Ludmilla cortou. — Layla, você guia a Megumi. Tenma, você vai com elas.
— Hã? — Tenma rosnou, a cara se fechando como a de alguém com raiva. — Por que eu tenho que ir?
Ela olhou feio para Dante, querendo ficar perto dele. Mas Dante, confuso, ficou suando frio, se perguntando se tinha feito alguma coisa errada.
"Ela sabe que o plano é da Ludmilla, né?..."
— Porque a Megumi não tem poder de fogo destrutivo para tankar monstros de grande porte, e a Layla precisa se concentrar no rastreamento — Ludmilla explicou, lógica e fria. — Você é a escolta pesada. Proteja as duas.
Tenma estalou a língua, frustrada, mas assentiu, olhando para o chão.
"Achei que era a chance perfeita para lutar ao lado do Dante..."
— E quanto ao Hakurei? — Dante perguntou, limpando o suor da testa. — Não seria mais fácil achar ele e pedir para abrir um buraco negro na parede da Black Box? Acabava com o problema rapidinho.
Ludmilla parou por um segundo, olhando para ele com incredulidade genuína.
— Você... você recebeu um ataque direto dele e não percebeu?
— Percebeu o quê?
— A habilidade do Hakurei não é tão destrutiva, idiota — Megumi explicou, suspirando enquanto corria. — O que se vê visualmente e a lógica da habilidade são coisas diferentes. Ele cria singularidades, sim. Mas para torná-las seguras, ele comprime o horizonte de eventos em uma camada finíssima de contenção. Elas têm alta gravidade e destruição local, mas são incapazes de "devorar" o ambiente infinitamente.
Megumi olhou séria para Dante.
— Se ele criasse um buraco negro real sem restrição, ele também seria espaguetificado instantaneamente. Se bem que as pessoas na arquibancada do jogo de basquete ficariam seguras graças às barreiras do ginásio.
Dante começou a suar frio, temendo que alguém continuasse aquela conversa.
Tenma, curiosa apesar da timidez, olhou para Dante enquanto corria.
— Por que você está nervoso?
Dante coçou a cabeça, desviando o olhar.
— Hum, se você não contar, eu conto... afinal é justo explicar, já que explanamos o Hakurei — Megumi provocou.
"Droga, ela já tinha percebido." Dante continuava correndo, vendo que era inevitável agora.
— Tá bom, tá bom! — Dante levantou as mãos em rendição. — O "Deus da Velocidade" parece que me faz correr acima da velocidade do som, mas na maioria das vezes eu não estou correndo tão rápido... O que eu faço é acelerar meu sistema nervoso e manipular a influência temporal em volta de mim. O tempo flui mais lento e meus reflexos ficam automáticos.
Ele olhou para a própria mão, vibrando.
— Como existe um delay para o cérebro das pessoas processarem a distorção temporal que eu causo, visualmente parece que sou mais rápido do que realmente sou. É tanto velocidade bruta quanto uma ilusão de óptica causada pelo lag do sistema nervoso do inimigo.
Megumi sorriu de canto. — Bom, eu já tinha meus palpites.
— Enfim! Chega de aula de física! — Dante reclamou, visivelmente irritado.
— Dante, você é o mais rápido. Vá na frente e dê suporte ao Kintoki. — Ludmilla continuou a dar ordens.
— E vocês? — Dante perguntou.
— Eu e a Yuki vamos atacar a "Mulher". — Os olhos de Ludmilla brilharam com um frio assassino. — Mas só podemos fazer isso se descobrirmos o truque dela. Se aparecermos na frente dela sem saber como ela nos paralisou mentalmente durante a mensagem, seremos pegas e mortas. Precisamos entender a habilidade para só assim poder atacar.
De Volta ao Presente
Dante desviou de uma mordida do Wendigo por um milímetro, sentindo o bafo de podridão. A voz de Kintoki ainda ecoava em sua mente como um sino salvador: "Desligue o sensor de Éter!"
— É ISSO! — Dante gritou para o comunicador, a voz cortando a estática. — LUDMILLA! YUKI! O truque é sensorial! Desativem a percepção de Éter e ataquem com tudo!
A informação viajou. A estratégia foi ativada.
No mesmo instante, o ar atrás da Mãe partiu.
Não houve aviso mágico. Não houve flutuação nem tremor no Éter, pois as atacantes haviam suprimido suas próprias auras para um nível puramente físico, tornando-se fantasmas para o sentido espiritual da Deusa.
Em um movimento de pinça perfeito, executado com a precisão de um relógio suíço:
Pela esquerda, Ludmilla Farnese surgiu como um raio prateado. Sua rapieira, banhada em intenção assassina pura e sem magia, zuniu em direção ao pescoço da entidade.
Pela direita, Yuki, com os olhos queimando de um ódio frio e silencioso, desceu dos céus. Sua lança estava carregada de voltagem estática interna, pronta para explodir, mirando o coração pulsante da "Mãe".
— XEQUE-MATE! — Yuki gritou, a voz cheia de veneno.
Parte 10
O grupo de Megumi cortava o corredor subterrâneo em velocidade máxima. O som ritmado das botas contra a pedra úmida era o único ruído a competir com a respiração ofegante delas. A umidade ali embaixo era sufocante, carregada de esporos antigos.
— Estamos perto... — Layla murmurou, as narinas dilatadas, farejando o ar como um animal rastreando uma trilha invisível. — Mas... tem algo grande no caminho.
Antes que Megumi pudesse perguntar, o chão tremeu.
Da escuridão à frente, um rugido primitivo e ensurdecedor ecoou, sacudindo a poeira do teto.
Um lagarto colossal emergiu das sombras. Escamas que pareciam placas de metal oxidado cobriam um corpo de seis metros de altura. Seus dentes eram do tamanho de facas de combate, pingando uma saliva corrosiva.
Era um "Rex de Caverna", uma subespécie blindada que deveria estar extinta ou confinada aos abismos inferiores.
— Tsk. — Tenma parou bruscamente, derrapando. A máscara de delinquente caiu sobre seu rosto instantaneamente: sobrancelhas franzidas, veias saltadas, postura de briga de rua. — Sai da frente.
Ela flexionou os joelhos, o chão estalando sob a pressão, pronta para avançar e tentar despedaçar o monstro com as mãos nuas.
Mas ela não precisou.
Um borrão pequeno e furioso caiu do teto da caverna.
Não houve corte de espada, nem magia complexa. Foi um soco. Um único soco vertical, desferido por uma garota que mal passava de um metro e meio de altura, atingiu o topo do crânio blindado do dinossauro.
KABOOOM!
A física foi brutal. A cabeça do monstro foi enterrada instantaneamente no chão de pedra, criando uma cratera de impacto. A onda de choque levantou uma nuvem de poeira e detritos. O corpo gigante da besta teve um espasmo único, as pernas traseiras chutando o ar, e silenciou.
Sobre a carcaça fumegante, Beatrice limpou a poeira das mãos com uma expressão de puro tédio.
— Sério? É só isso? — Ela chutou o focinho do monstro derrotado, como se fosse lixo.
— Hum, até que você não é nada mal! — Uma voz galante soou logo atrás.
Kaiser surgiu das sombras.
— Mas, claro, se você não tivesse agido, eu mesmo poderia ter acabado com esse lagarto.
Atrás deles, uma figura emanava uma aura pesada, sombria e opressiva.
Daiki, com suas olheiras profundas de assalariado e terno amassado, estava encostado na parede da caverna. Ele tremia levemente. Para Megumi e Tenma, aquilo parecia a vibração de um assassino contendo sua sede de sangue, um predador prestes a explodir.
Na realidade, a mente de Daiki estava em colapso total:
"MÃE DO CÉU, AQUELE BICHO ERA ENORME!"
— Beatrice? Kaiser? E... Daiki? — Megumi baixou as armas, surpresa com o encontro inesperado.
— Quem é você mesmo? — Beatrice perguntou, realmente em dúvida. — Esqueça, não importa. Vocês sentiram aquela pressão agora há pouco?
— "Esqueça" o caralho! Dê mais importância ao nome dos outros! — Megumi gritou. — Tsk... Estamos indo buscar o Ryunosuke.
— "Buscar o Ryunosuke"? — Beatrice estalou a língua. — Besteira. Nossa missão agora deveria ser acabar com o inimigo.
"Rapaz... ela pensa igualzinho ao Dante", Megumi pensava, sentindo que não podia colocar aqueles pensamentos em palavras.
Beatrice já se virava para correr na direção oposta.
— Espera! — Megumi tentou argumentar, dando um passo à frente.
Mas quem parou Beatrice não foi ela. Foi Daiki.
O garoto medroso apenas deu um passo à frente, pálido como um fantasma, e levantou a mão. A mão dele tremia violentamente de pavor absoluto.
Beatrice parou. Ela olhou para a mão trêmula e depois para o rosto sombrio e suado de Daiki.
"Ele está vibrando de raiva...", Beatrice pensou, engolindo em seco. "O Daiki percebeu algo que eu não vi? Ele também deve estar com vontade de lutar, mas percebeu que deveríamos ajudar?"
— V-Você... — Daiki gaguejou, tentando dizer "Você vai me deixar sozinho aqui com os monstros?!", mas a voz falhou, presa na garganta seca.
Beatrice interpretou o silêncio e o olhar arregalado como uma ordem silenciosa e furiosa de um superior.
— Tsk. Tá bom, tá bom! — Beatrice cruzou os braços, bufando. — O Daiki tem razão. Se formos sem um plano, podemos atrapalhar. Vamos achar o Ryunosuke primeiro. Satisfeito?
Daiki suspirou de alívio profundo (que pareceu, aos olhos dos outros, um suspiro de decepção calculada com a impaciência dela) e assentiu, quase desmaiando.
O grupo unificado avançou até chegarem ao final do corredor.
Diante deles, havia uma porta monumental, coberta de runas antigas.
E lá estava ele.
Ryunosuke estava caído de bruços em frente a um terminal destruído. Ele não tinha ferimentos visíveis, mas sua pele estava pálida, quase translúcida, e olheiras fundas marcavam seu rosto magro. Era esgotamento e fadiga mental severa.
— Ryunosuke!
Megumi correu até ele, deslizando de joelhos e virando-o de barriga para cima. Ele respirava, mas estava em um coma profundo de exaustão.
— Ele não acorda... — Megumi sacudiu o irmão pelos ombros. — Ei! Acorda! Estamos aqui! Vamos embora!
— Alguém tem magia de cura ou estimulantes? — Kaiser perguntou.
— Não — Layla respondeu, agachada, cutucando a bochecha de Ryunosuke com o indicador. — E ele está seco. O cérebro dele desligou para proteger o corpo. Sem um estímulo externo forte, ele vai dormir por dias.
O silêncio caiu sobre o grupo.
Kaiser limpou a garganta. — Bom, talvez devêssemos carregá-lo e...
— Tem um jeito. — Megumi interrompeu, a voz baixa.
Todos olharam para ela.
Megumi estava vermelha. As orelhas queimavam de vergonha. Ela olhou para os lados, evitando contato visual.
— Quem rir... morre. Entenderam?
Megumi respirou fundo, guardou a arma e se inclinou até o ouvido de Ryunosuke.
Ela fechou os olhos. Engoliu todo o seu orgulho de garota durona, toda a sua dignidade, e sussurrou com a voz mais doce, frágil e desamparada que conseguiu forjar:
— ...Maninho... socorro... estou com medo...
O efeito foi instantâneo. E nuclear.
VWOOOOOOM!
Uma aura azul de pura mana explodiu do corpo de Ryunosuke, jogando poeira e pedras para longe. Os olhos dele se abriram abruptamente, arregalados, brilhando com uma luz sobrenatural de pura fúria protetora e siscon nível terminal.
Ele se levantou em um movimento único, um kip-up desafiando a gravidade e a exaustão médica.
— QUEM?! — Ryunosuke rugiu, a voz distorcida. — QUEM OUSOU TOCAR NA MINHA IRMÃ?!
Todos recuaram, aterrorizados com a ressurreição instantânea. Ryunosuke olhou freneticamente ao redor, até focar em Megumi, que estava intacta.
— Megumi? — A aura dele diminuiu. — Você me chamou? Você está bem?
Megumi, com o rosto pegando fogo de vergonha, cerrou os dentes.
BAM!
Um chute preciso e violento atingiu a canela de Ryunosuke.
— IDIOTA! MORRE! — Megumi gritou, cobrindo o rosto com as mãos. — Era só pra te acordar! Não me faça passar vergonha na frente dos outros!
Cof, cof.
Ryunosuke tentou disfarçar com uma tosse rápida, tentando recuperar uma dignidade que já havia sido completamente destruída — aos olhos daqueles alunos, pelo menos.
Cinco minutos depois, a comédia havia evaporado, dando lugar à tensão de guerra.
— A situação é pior do que eu pensava — Ryunosuke disse. — Mas eu tenho um plano. Existe uma maneira de neutralizar a "Mãe" e forçar a abertura da saída.
— Ótimo. — Beatrice estalou os dedos, alongando o pescoço. — Então vamos lá quebrar a cara dela.
— Não é tão simples. — Ryunosuke cortou friamente, ignorando o rosnado de Beatrice. — Eu preciso preparar energia o suficiente para usar uma certa habilidade. Mas para isso... eu preciso de tempo. Muito tempo.
Ele olhou para a direção de onde vinham os tremores da batalha de Kintoki e Dante.
— Os outros já estão comprando tempo, mas eles não vão aguentar para sempre. Se eles caírem, a Mãe vem atrás de mim, e o plano acaba.
Ryunosuke olhou para o grupo reunido e tomou uma decisão executiva.
— Vamos nos dividir. Tenma, Beatrice, Kaiser. Vocês são os combatentes pesados com melhor condição física no momento.
— O que quer que a gente faça? — Kaiser perguntou.
— Vão para o front. Deem reforço ao Dante e ao Kintoki. Não tentem vencer a Mãe sozinhos, apenas garantam que ela não mate os outros.
Beatrice sorriu, um sorriso predador e largo.
— Era tudo o que eu queria ouvir.
— E nós? — Megumi perguntou, apontando para si mesma.
— Vocês ficam. Eu preciso de proteção aqui caso algo passe por eles. E, além do tempo... eu preciso de uma pessoa em particular.
Ele olhou seriamente para Megumi.
— Eu preciso da Miguel.
— A Miguel? a novata? — Kaiser franziu a testa.
— Ele é a peça que falta — Ryunosuke respondeu, enigmático.



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