The Fall of the Stars: Capítulo 5 - Labirinto Vivo
- AngelDark

- 14 de jul. de 2025
- 56 min de leitura
Atualizado: 7 de jan.
Volume 4 : Fragmentado
Parte 1
O céu era uma mentira azul em alta definição. Nuvens brancas, perfeitas demais, pairavam estáticas como uma pintura a óleo barata sobre um inferno vivo.
Abaixo daquele teto falso, o mundo era uma arquitetura de pesadelo biológico. Não era uma ruína; era um estômago. Paredes de pedra antiga, talhadas com rostos gregos gritando em agonia muda, eram costuradas por veias negras e grossas. A biomassa pulsava. Tum-dum. Tum-dum. O labirinto tinha batimentos cardíacos.
Rasgando esse cenário grotesco, quatro borrões desafiavam a física.
Sssssss...
Um chiado de vapor quente cortou o ar viciado. Chuya não corria; ele surfava.
Seus pés estavam colados em uma prancha instável de fumaça cinzenta supercomprimida. Ele deslizava pelo terreno acidentado como se estivesse pegando uma onda no asfalto, o corpo inclinado para fazer as curvas fechadas.
Uma videira negra, grossa como um braço, chicoteou o ar, tentando decapitá-lo com espinhos de obsidiana.
— Opa! — Chuya riu, jogando o peso para trás.
Ele inclinou o "skate" de fumaça na vertical. A prancha aderiu à parede pulsante e ele subiu correndo pela lateral, desafiando a gravidade enquanto os espinhos batiam no vazio onde sua cabeça estava um segundo antes.
— Lenta demais, plantinha! Tenta na próxima!
Do outro lado do abismo, o som era metálico e rítmico.
CLINK! SWISH!
Ludmilla dançava no ar. Ela se lançava sobre a escuridão cintilante, suas correntes disparando dos pulsos como serpentes prateadas, cravando-se em pontes de luz sólida. Ela não fazia esforço; a gravidade parecia uma sugestão que ela escolhia ignorar.
Ela usou o impulso para girar em torno de uma árvore feita de cristal multifacetado. O som das correntes raspando nos galhos de vidro criou uma música aguda, quase insuportável.
Abaixo dela, o chão se liquefez, transformando-se em uma areia movediça neon faminta. Ludmilla nem olhou para baixo. Ela soltou a corrente no ápice do balanço, deu um mortal elegante no ar e disparou outra corrente para o próximo alvo.
— Só pela cara do lugar, não dá para dizer que tipo de Dungeon é essa… — Ludmilla murmurou, o vento batendo no rosto enquanto ela voava. — Mas a dificuldade parece alta... Bene. Così è più divertente. (Isso é mais divertido assim.)
Enquanto Ludmilla dominava o ar e Chuya o terreno, Kai ignorava o conceito de distância.
VWOOP.
O espaço falhou. Kai surgiu no topo de uma escadaria flutuante, as mãos nos bolsos.
Um segundo depois, ele sumiu.
VWOOP.
Ele reapareceu trinta metros acima, em queda livre, tendo uma visão panorâmica do setor. Seus olhos azuis escanearam a área em milissegundos. Abaixo dele, uma barreira de fungos bioluminescentes exalava uma nuvem tóxica de esporos neon.
— Tsk.
Ele estalou a língua, mais entediado do que preocupado.
— Ridículo — Kai apertou os olhos enquanto o chão se aproximava. — Esse tipo de truque barato não funciona comigo, seu merda.
Antes de tocar a nuvem tóxica, ele distorceu a realidade novamente.
ZZT!
Kai sumiu, deixando apenas um rastro de Éter azul e partículas de teleporte para trás. Ele já estava do outro lado, seguro, limpando a poeira invisível do ombro.
E então, havia aquele que costurava todos os pontos.
Entre o rastro de fumaça, o brilho do teleporte e o tinir das correntes, um raio vermelho rasgava o labirinto.
Dante Scarlune.
Para ele, o "Labirinto Vivo" estava rodando em slow motion. O Chronos saturava suas veias, transformando o mundo em um vídeo pausado.
Ele via uma gota de seiva ácida caindo, lenta e viscosa, da boca de um besouro blindado gigante. Ele via as veias na parede de biomassa se contraírem, milímetro por milímetro.
Dante não corria; ele fluía.
Ele saltou sobre uma raiz grossa que tentou agarrar seu tornozelo — para ele, o ataque foi tão lento que ele teve tempo de bocejar mentalmente. Ele usou a cabeça de uma estátua de mármore como trampolim, impulsionando-se para frente.
POF.
Ele aterrissou com leveza absurda em uma clareira onde o chão parecia feito de vidro temperado sobre um abismo sem fim. A aterrissagem levantou apenas um pingo de poeira.
Dante parou. O brilho elétrico vermelho do Deus da Velocidade diminuiu para um zumbido baixo, revelando sua figura parada no centro de uma encruzilhada onde três caminhos se retorciam em ângulos não euclidianos.
— Bom... até agora, zero pessoas — Dante falou sozinho, a voz ecoando no silêncio tenso. — Isso é um bom ou mau sinal? Geralmente em filme de terror é péssimo.
Click-clack... Click-clack...
O som de pinças quitinosas batendo veio de um dos túneis escuros. O cheiro de podridão ficou mais forte.
Dante ajustou as luvas, estalando o pescoço para a esquerda e para a direita. Ele olhou para o céu falso e depois encarou a escuridão vibrante à sua frente com um sorriso torto.
— Muito bem... — murmurou, sentindo a adrenalina da exploração solo finalmente bater. — Vamos ver o que o Ryunosuke escondeu nesse zoológico maldito.
Parte 2
Dante caminhava pelo túnel orgânico, cheio de cipós estranhos no teto, com as mãos cruzadas atrás da cabeça, assobiando uma melodia torta que ecoava nas paredes de carne.
Para qualquer outro aluno, aquilo era um pesadelo claustrofóbico. Para ele? Um passeio no parque num domingo de sol.
Seus olhos não buscavam ameaças com medo; eles escaneavam com a curiosidade de uma criança.
Ele parou diante de três sulcos profundos rasgados na rocha. Passou o dedo pela ranhura.
— Cinco centímetros de profundidade... — Ele mediu a distância com a palma da mão aberta. — Envergadura larga. É um quadrúpede.
Dante abriu um sorriso de canto, aquele sorriso de quem acabou de achar uma nota de cem no chão.
— Pelo estrago, estamos falando de um Mini-Boss. Perfeito. Dependendo do tipo, dá para dizer que tipo de Dungeon é essa, e o melhor: pode ser que haja alguma recompensa.
Ele seguiu o rastro de destruição até uma câmara ampla. Era um ninho grotesco, uma arquitetura feita de ossos de feras menores colados com aquela biomassa pulsante e nojenta.
Dante entrou no recinto estalando os dedos, o corpo relaxado, mas pronto para liberar o Chronos num piscar de olhos.
— Toc, toc. O serviço de limpeza che...
A frase morreu na garganta. O sorriso travou. Vazio.
O ninho não estava apenas sem o monstro. A poeira no chão estava revirada, violenta. Manchas de icor — o sangue azulado das bestas — pintavam as paredes como um grafite abstrato. Pedaços de quitina estilhaçada cobriam o chão.
Dante agachou, esfregando o líquido viscoso entre o polegar e o indicador. Frio, mas ainda úmido.
— Droga, alguém já passou antes de mim. — Ele bufou, limpando a mão na calça com nojo e decepção.
Ele chutou um fêmur pequeno com desdém. Sem luta, sem drop, sem graça. Só os restos do jantar de outra pessoa. Ele girou nos calcanhares, pronto para vazar daquela caverna inútil.
Sniff.
Dante franziu o nariz. O ar da Dungeon era uma mistura clássica de mofo, podridão e ozônio. Mas ali, cortando o fedor, havia algo... diferente. Um cheiro metálico.
Estranhamente nostálgico. Não fazia sentido, mas os pelos da sua nuca se arrepiaram. O corpo reagiu antes do cérebro processar o perigo.
— ...Devo dar o fora — ele murmurou, os olhos estreitos. — Pensa um pouco, Dante... a melhor opção é vazar...
Ele falava para si mesmo, tentando fazer o corpo seguir a lógica. Mas a curiosidade não era um defeito, era um vício.
Ele ignorou o instinto de fuga e caminhou até o fundo do ninho, onde a sombra era densa. Havia algo desenhado numa raiz grossa que saltava da parede.
Ele apertou os olhos, forçando a vista na penumbra. Carvão? Não... parecia queimado na madeira. Um desenho tosco, traços trêmulos, quase infantis. O esboço de um garoto de cabelos espetados e um sorriso triste.
Dante inclinou a cabeça, uma sensação ruim revirando seu estômago.
— Eu... conheço você?
No segundo em que a pergunta saiu, a realidade quebrou.
BZZZZZZZT!
Não foi um som externo. Foi uma estática violenta explodindo dentro do crânio dele. Como se alguém tivesse enfiado um picador de gelo no lobo frontal e girado.
Dante cambaleou para trás, as mãos agarrando a cabeça com força. A visão falhou, pixelada.
A caverna de biomassa sumiu. Por um segundo aterrorizante, o mundo virou um negativo de foto. Paredes pretas. Equações matemáticas flutuando em névoa branca. Rostos sem olhos feitos de neon roxo piscando na escuridão, gritando sem som.
Rabiscos de giz, agressivos e caóticos, começaram a preencher o ar ao redor dele, girando como um tornado num pesadelo escolar.
— Argh... — Dante desabou de joelhos. O chão parecia liquefeito sob suas mãos.
Visões desconexas bombardearam sua mente. Flashes estroboscópicos. Uma sala asséptica, branca demais. Uma mão estendida. Sangue pingando no linóleo.
— Sanemi... — A palavra escapou de sua boca, um sussurro rouco que não pertencia a ele.
O mundo girou. As cores inverteram. O som de giz arranhando um quadro negro aumentou até ficar ensurdecedor, vibrando nos dentes.
SCREEEEEEEECH!
E então, corte. Silêncio. Tão rápido quanto começou, parou.
Dante estava de quatro no chão, respirando como um cachorro cansado, sangue saindo pelo nariz. A caverna estava lá, sólida e nojenta como sempre. As paredes pararam de piscar.
— Mas que... caralhos foi isso? — Ele tentou focar a visão, limpando o suor dos olhos com a manga da jaqueta. — Ataque psíquico? Gás dos fungos?
Ele tentou racionalizar, buscar a explicação lógica. Mas ele sabia que não era. A sensação era interna. O cheiro voltou, mais forte.
E junto com o cheiro, uma palavra se formou na mente dele, desenhada naqueles mesmos rabiscos de giz branco trêmulos:
"Velvet."
Dante paralisou, encarando o nada. O nome tinha gosto de cinzas e remédio amargo na boca. A mente dele ricocheteou para o jogo de queimada. Para quando Layla estava lutando. Ele tinha sentido aquele "glitch" lá também, aquela sensação de déjà vu errado.
"Por que ele não perguntou? Por que fugiu do assunto?"
— Porque eu sou um covarde — ele admitiu para a escuridão, mas as palavras pareciam pertencer a outra pessoa.
Mas ficar ali sentado tentando entender o que estava acontecendo não levaria a lugar nenhum. Dante cerrou os dentes, forçando as pernas a obedecerem. Levantou-se, o mundo ainda girando levemente.
Ele olhou para a origem do cheiro, perto do desenho do garoto. Um amontoado de galhos secos. Dante chutou os galhos para o lado. Escondido embaixo, um pedaço de tecido rasgado. Encharcado.
Ele se abaixou e pegou o pano com a ponta dos dedos. Vermelho escuro. Viscoso. Ele aproximou o tecido do nariz. Sangue. Mas não de monstro. Tinha aquele cheiro... doce. Bizarramente doce, enjoativo, como xarope de morango misturado com ferrugem.
— Eu já senti esse cheiro antes. — Os olhos de Dante se estreitaram, o modo detetive lutando contra a névoa mental. — Isso é...
SWISH.
O som de ar sendo cortado foi o único aviso. Instinto puro. Os instintos de Dante gritaram e assumiram o controle. O corpo se jogou para a esquerda num rolamento feio, mas eficaz.
CLANG!
Onde a cabeça dele estava um milésimo de segundo antes, a pedra da parede explodiu. Estilhaços voaram. Uma nuvem de poeira subiu. Cravada na rocha sólida, vibrando com o impacto, havia uma ponta de metal pesado.
Não era flecha. Não era lança. Era uma âncora. Uma âncora pequena de ferro negro, com ganchos laterais cruéis e afiados como navalhas, presa a uma corrente grossa.
— Mas que po... — Dante se levantou num pulo, base de combate firmada.
A corrente estremeceu. Com um som de metal arrastando na pedra, ela se soltou e recuou violentamente para a escuridão da entrada do túnel, retraindo-se como a língua de uma víbora de aço.
Dante encarou o breu onde a corrente sumiu. O suor frio secou na hora, substituído por uma tensão elétrica. Ele conhecia aquela arma.
— Essa corrente... — Dante sussurrou, os olhos fixos na sombra, um sorriso nervoso querendo aparecer. — Só pode ser...
Parte 3
— Ludmilla... — Dante soltou o ar devagar, mantendo a postura relaxada, embora seus músculos estivessem tensos como cordas de violino prestes a estourar. — Se me lembro bem, te chamam de "O Príncipe". Não imaginava que a realeza curtia fazer emboscadas no escuro como um bandidinho qualquer.
Ludmilla recolheu a corrente. O metal serpenteou de volta para o braço dela com um silêncio antinatural, quase líquido. Ela ignorou a provocação, seus olhos frios analisando cada movimento dele.
— Você e eu sabemos que isso não é apenas um buraco, Scarlune — disse ela. A voz era calma, aveludada, enquanto ela caminhava lateralmente para fechar o cerco. — Investiguei a arquitetura. Há padrões. Glifos escondidos na alvenaria. Esta Dungeon foi projetada por humanos. É um labirinto de puzzles.
Ela parou a três metros dele, sua presença preenchendo o corredor estreito.
— Monstros de nível Mini-Boss guardam as "chaves". — Ela estendeu a mão enluvada, a palma aberta, exigente. — Você matou o guardião. O ninho está vazio. Logo, a pista está com você. Passe-a para mim.
Dante sentiu o peso do tecido ensanguentado no bolso queimar contra a perna. Se ele mostrasse aquilo... um pedaço de uniforme, sangue humano... ela faria perguntas. Perguntas perigosas.
"Entre parecer um assassino psicopata ou um ladrão ganancioso...", Dante pensou, o suor frio brotando na nuca. "Eu escolho o ladrão."
— E se eu disser que cheguei aqui e a casa já estava vazia? — Dante abriu aquele sorriso irritante, o sorriso de quem sabe que está mentindo e não se importa.
Os olhos de Ludmilla se estreitaram. A temperatura na caverna pareceu cair dez graus. O "Príncipe" gentil desapareceu, dando lugar a algo muito mais afiado.
— Bugiardo — sussurrou ela. — Você está protegendo o bolso esquerdo desde que eu cheguei. Acha que sou estúpida?
— Eu acho que você é muito tensa. Talvez precise de um hobby que não envolva correntes pesadas. — Dante deu um passo cauteloso para trás.
— Eu tenho um hobby. — Ludmilla sorriu. Não foi um sorriso bonito; foi uma exposição de dentes, o sorriso de um tubarão. — Chama-se Caccia.
SWISH!
Sem aviso, a diplomacia foi triturada. Ludmilla não lançou apenas uma corrente. Quatro serpentes de aço negro explodiram de suas costas e mangas simultaneamente, movendo-se com vontade própria.
Elas não viajaram em linha reta; desafiaram a física, fazendo curvas de noventa graus no ar, ricocheteando nas estalactites do teto e nas paredes de pedra para atacar os pontos cegos de Dante de todos os ângulos.
— Merda! — O instinto gritou antes do cérebro. — Liberar Arquivo: Segundo Modo - Deus da Velocidade!
A realidade travou. O mundo mergulhou em um aquário de melado espesso. O som do ambiente caiu para um grave distorcido e gutural.
Na percepção acelerada, Dante viu a morte chegando quadro a quadro. A primeira corrente buscava seu tornozelo esquerdo, a ponta afiada girando como uma broca industrial. A segunda mirava a jugular. A terceira, cirúrgica e silenciosa, ia direto no bolso da calça onde estava o item roubado.
ZZZT!
O tempo voltou a correr, e Dante virou um borrão vermelho. Ele não apenas saltou; ele projetou o corpo para o lado. A âncora de metal rasgou a lateral de sua jaqueta, queimando a pele com o atrito, enquanto ele aterrissava na parede vertical da caverna. Suas botas, carregadas de estática, faiscaram, dando-lhe aderência para correr horizontalmente pelo paredão.
— Rápido — elogiou Ludmilla, a voz fria cortando o caos, enquanto seus dedos se moviam como os de um maestro regendo uma sinfonia de violência. — Mas você não pode correr para sempre num caixão de pedra.
As correntes saturaram a sala. Ludmilla não estava apenas atacando; ela estava construindo uma gaiola. O aço se cruzava no ar, transformando o espaço aberto numa teia de aranha mortal.
Dante estava na defensiva total, saltando de rocha em rocha, forçado a recuar. Ele não podia atacar de frente; o alcance e a força cinética dela eram opressores.
"Pensa, Dante, pensa!" — ele gritou mentalmente, desviando de um gancho que arrancou lascas de pedra afiadas a um centímetro do seu nariz. "Ela controla o espaço. Se eu tentar força bruta contra esse aço, viro carne moída em segundos."
Ele precisava de um glitch no sistema dela. Uma fração de segundo onde a visão perfeita da caçadora falhasse.
Enquanto dava uma cambalhota para evitar ser decapitado, seus olhos varreram o cenário freneticamente. As paredes da Dungeon. Úmidas, escuras... e vivas. Fungos bioluminescentes cobriam o teto junto de vários cipós, pulsando com a eletricidade estática natural da caverna.
— Ei, Princesa! — Dante gritou, aterrissando precariamente perto de um aglomerado de cogumelos neon gigantes. — Sabia que luz demais dá rugas?!
Ludmilla franziu a testa, a concentração vacilando por um milissegundo.
— O quê?
Dante não respondeu. Ele tocou a parede úmida e canalizou todo o seu Éter elétrico excedente não para Ludmilla, mas para a flora da caverna.
— SOBRECARGA!
FLASH!
A caverna não se iluminou; ela explodiu em um branco absoluto. Os fungos, sobrecarregados, detonaram sua energia química em luz pura, agindo como uma granada de flashbang orgânica de mil lúmens.
— Cazzo! — Ludmilla praguejou, cobrindo os olhos instintivamente e recuando.
A reação dela foi de veterana. As correntes se recolheram num piscar de olhos, girando ao redor dela em alta velocidade para formar um domo defensivo impenetrável. Um triturador de carne ao redor de seu corpo. Ela não conseguia ver, mas seus ouvidos buscavam o som de botas no chão, pronta para empalar Dante assim que ele tentasse um ataque frontal.
Mas não havia som de passos. O chão estava vazio.
No teto da caverna, oculto nas sombras que voltavam, exatamente acima do domo de correntes, Dante estava agachado de cabeça para baixo. Ele estava "grudado" no teto usando o eletromagnetismo nas solas das botas.
Ele olhou para baixo. O domo de correntes protegia os lados, girando furiosamente, mas o eixo central — o topo da cabeça dela — estava exposto. Os olhos de Dante focaram na cintura dela. A Claymore gigante. Metal.
Dante estendeu a mão direita. Ele não usou telecinese para puxar a espada. Ele inverteu a polaridade. Usou a atração magnética para puxar o seu próprio corpo em direção ao metal dela, somando a força da gravidade com a aceleração magnética.
Ele se soltou do teto.
Não caiu; ele foi disparado como um míssil humano silencioso, passando pelo "olho do furacão" das correntes giratórias. Quando Ludmilla sentiu a pressão do ar mudando verticalmente acima dela, era tarde demais.
BAM!
Dante colidiu com ela com a força de um acidente de carro. O impacto a jogou contra o chão de pedra, expulsando todo o ar de seus pulmões num suspiro agônico.
As correntes perderam a força e caíram inertes. Antes que ela pudesse processar a dor ou recuperar o fôlego, Dante usou a inércia do rolamento para prender os pulsos dela acima da cabeça com uma mão, travando as pernas dela com o peso do próprio corpo e os joelhos.
A poeira baixou lentamente no silêncio tenso.
Ludmilla estava deitada de costas, os olhos arregalados, o peito subindo e descendo em espasmos. Dante estava montado sobre ela, dominando-a completamente. Sua mão livre estava a centímetros da pele pálida do pescoço dela, os dedos carregados de eletricidade azul crepitante, zumbindo com uma ameaça letal.
— Xeque-mate.
O silêncio voltou. Pesado. Na mente de Dante, a estática chiou. Aquela voz sombria, a mesma do glitch, sussurrou no fundo do seu crânio:
"...Acabe com ela. Ela é uma ameaça. Ela viu sua fraqueza..."
A mão de Dante tremeu. A eletricidade faiscou mais forte, perigosamente letal. Os olhos dele perderam o foco por um segundo. O medo genuíno de ser descoberto, de ser "apagado", quase tomou o controle.
"Vê se cala a boca aí! Eu estou tentando pensar!" — Ele forçou o demônio mental de volta para a jaula com um esforço físico, engolindo em seco.
Quando o brilho assassino saiu de seus olhos, Dante abriu aquele sorriso preguiçoso e idiota de sempre.
— Sabe... essa posição é meio comprometedora para um membro da realeza, não acha? — Dante brincou, ignorando o suor frio que escorria por suas costas. — Que tal uma trégua? Uma aliança temporária? Eu sou ótimo em achar coisas, você é ótima em matar coisas. É o par perfeito.
Ludmilla piscou, atordoada. Estava esperando a morte, mas ele estava... propondo uma aliança? Enquanto estava sentado sobre ela? Ela olhou para o rosto dele. Ele estava perto. Perto demais.
Pela primeira vez em anos, o sangue subiu para as bochechas dela. O "Príncipe" frio e intocável entrou em curto-circuito.
— S-Stupido! — ela gritou, virando o rosto para o lado para esconder o vermelho, a voz falhando agudamente. — Saia de cima de mim! Quem faria aliança com um bárbaro que cai do teto?! Non toccarmi!
— Isso é um não? — Dante suspirou, decepcionado. — Você é bem difícil de negociar, hein.
— É um "Não" definitivo! — ela rosnou, tentando chutá-lo, mas sem usar força letal desta vez, movida mais pelo pânico da proximidade do que por ódio. — Eu trabalho sozinha! Agora saia!
Dante analisou a situação rapidamente. Ela estava vermelha, brava e claramente não ia colaborar. Se a soltasse agora, ela tentaria furá-lo. Se a deixasse ir, ela o caçaria depois.
— Bom, a opção A era você aceitar por bem — Dante disse, esticando o braço para pegar um cipó resistente que pendia do teto. — Infelizmente, vamos ter que ir com a opção B.
— O que você está fazendo com isso? — Os olhos de Ludmilla se arregalaram em horror.
Minutos depois...
Ludmilla estava sentada contra a parede, amarrada dos ombros aos pés como um charuto caro e muito irritado. Suas correntes e sua Rapieira flutuavam atrás de Dante, brilhando com uma aura vermelha fraca — o Éter dele bloqueando a conexão dela.
— Isso é humilhante — ela sibilou, fuzilando Dante com o olhar. — Você cobriu minhas armas com seu Éter para interferir no meu controle. Isso é... sujo. Togli il tuo etere perverso dalle mie armi, bastardo!
— Eu não sei o que você falou aí no final, mas entendi bem a entonação de "bastardo", hein! — Dante apontou o dedo para ela, ofendido. — Além do mais, certeza que se eu não cobrisse elas, você tentaria me matar enquanto eu pisco. Você disse que essa Dungeon tem puzzles e precisa de pistas. Eu sou o cara das pistas.
— E eu sou sua prisioneira?! — ela retrucou, incrédula.
— Detalhes, Princesa. Detalhes. — Dante a içou sobre o ombro como um saco de batatas. — Vamos. Se for uma boa menina, talvez eu te solte antes do jantar.
— Lasciami in pace, pervertito! Dove credi di mettere le mani?! — Ludmilla começou a gritar, desesperada, perdendo completamente a postura de nobreza e voltando a agir como uma garota comum sendo carregada contra a vontade.
— Só para você saber, meu italiano se resume a "pizza" e "mário", então se está me xingando, está gastando saliva — Dante falava enquanto caminhava, as armas flutuando atrás dele. — Falando nisso, foi mal, mas aquela sua âncora gigante ficou para trás. Nem a pau que vou gastar meu Éter carregando aquela tralha pesada o caminho todo.
Ludmilla se remexia no ombro dele, o rosto queimando de vergonha e raiva. Ela queria matá-lo. Queria esganá-lo.
— Idiota! — ela murmurou em italiano, derrotada pelo cansaço. — Assim que eu me soltar, você é um homem morto.
— Isso eu entendi... — Dante murmurou.
— Era para entender! — ela gritou de volta, corando novamente.
E assim, a dupla mais disfuncional da Dungeon começou sua jornada pela escuridão.
Parte 4
Enquanto Dante brincava de sequestrador, em outro ponto do "Labirinto Vivo", o sol falso castigava a pele. Era um jardim botânico saído de um pesadelo: flores com dentes e árvores que pareciam sangrar seiva.
— Mas que labirinto irritante! — Chuuya chutou uma pedra, a fumaça do cigarro saindo em baforadas curtas e irritadas. — Se a gente já tivesse topado com a Miguel, essa palhaçada já tinha acabado.
Ao lado dele, Anna Lighthart caminhava observando as plantas carnívoras com a curiosidade de uma criança num zoológico perigoso. Fechando a retaguarda, Mio caminhava com as mãos nos bolsos, emanando uma aura preguiçosa, porém letal.
— Você fede a chaminé velha. Dá para segurar o vício? — Mio fez uma careta, abanando o nariz.
— É para acalmar os nervos, ruivinha. E não reclama que...
A resposta morreu quando o chão tremeu. Não foi um tremor sutil; foi um terremoto localizado.
GROAAAAR!
A parede de hera à frente explodiu. Um vulto massivo bloqueou o sol. Não era um lagarto comum. Era um tanque biológico. Um dinossauro blindado com escamas grossas como placas de aço e uma bocarra babando ácido corrosivo, cheia de dentes serrilhados do tamanho de facas de cozinha.
— Droga! — Chuuya saltou para trás, a katana já materializada na mão, a lâmina cuspindo fagulhas. — Anna, recua!
Anna obedeceu instantaneamente, saltando para longe. Quem não recuou foi Mio. A ruiva permaneceu imóvel, o vento do rugido bagunçando seu cabelo. Ela assistiu à besta de três toneladas avançar como um trem de carga desgovernado.
— Ah, olha só... — Mio abriu um sorriso largo, os olhos brilhando com adrenalina. — O iFood chegou.
O lagarto abriu a boca para engoli-la inteira. Mio não desviou. Em vez disso, ela estendeu a mão esquerda num movimento rápido e segurou a mandíbula superior do monstro.
CRACK!
O impacto foi seco. O chão sob os pés de Mio rachou em teia de aranha, mas ela não cedeu um milímetro. A pele do braço dela mudou num piscar de olhos — do tom pálido para um cinza fosco, áspero e pesado. Ela havia mimetizado a dureza do concreto armado de uma ruína próxima.
— Qual foi, lagartixa? — Mio zombou, encarando o olho reptiliano confuso da fera, que se debatia inutilmente. — Mordida fraca. Tá precisando de cálcio?
O lagarto tentou recuar, as garras rasgando a terra, mas o aperto de Mio era uma morsa hidráulica.
— Um, dois... TRÊS!
O braço direito de Mio mudou. Desta vez, copiou a textura das próprias escamas do monstro, mas adicionando uma massa muscular densa e explosiva. Ela desferiu um uppercut brutal bem no queixo da criatura.
BOOM!
A onda de choque fez o ar vibrar. O gigante de três toneladas foi lançado para cima, a mandíbula estilhaçada, urrando de dor enquanto ficava suspenso no ar por um segundo que pareceu eterno.
— Agora, Anna! — gritou Mio.
— Pode deixar! — Anna já estava em posição. O braço direito dela brilhou em azul neon. O Éter fluiu, denso e rápido. Placas de metal se formaram sobre a pele, engrenagens giraram com um zumbido agudo, e o braço delicado dela se transformou num canhão de artilharia futurista, maior que o próprio tronco dela.
— Buster Cannon... FIRE!
KABOOM!
Uma rajada de Éter concentrado atingiu o lagarto no ponto mais alto da trajetória, jogando-o para trás como uma boneca de pano queimada. A criatura caiu, rolando na terra, atôntita e fumegante. Tentou se levantar, cambaleante. Foi quando uma sombra cobriu seu rosto.
Chuuya estava no ar, caindo em direção à besta. O cigarro estava preso firmemente entre os lábios num sorriso de escárnio. A katana em seu ombro não estava em posição de corte; estava apoiada como um taco de beisebol, envolta em chamas tão quentes que o ar ao redor distorcia como numa miragem.
— Strike! — Chuuya girou o quadril, colocando todo o peso do corpo no movimento.
WHAAM!
Ele bateu com a lateral da lâmina na cabeça do monstro. Não houve sangue. O impacto foi tão quente que a carne foi cauterizada e vaporizada instantaneamente. O som foi de um trovão abafado. O corpo imenso desabou no chão com um baque surdo e final.
Chuuya aterrissou com estilo, girando a espada antes de desfazê-la em faíscas, ajeitando o colarinho da jaqueta.
— Home run. — Ele soprou a fumaça para cima, vitorioso. — Bichinho resistente, mas nada que um churrasco bem feito não resolva.
Anna desfez o canhão. O metal pesado se dissolveu em partículas de luz azul, revelando seu braço normal novamente.
— Mandaram muito bem, pessoal! — Ela bateu palmas, saltitando.
Mas o entusiasmo durou pouco.
Gronc! O som do estômago dela competiu com o rugido do monstro morto.
— Ai... essa habilidade suga minha alma... — Anna murchou, segurando a barriga. — Tô com uma fome de leão...
— Ei — Mio se aproximou, limpando a poeira das mãos. — Esse braço aí... Mimetismo também?
— Huh? Não — Anna explicou, corando violentamente. — Eu crio coisas. O canhão é tipo uma luva, sabe? Igual àquele bonequinho azul do jogo antigo... Mega... Man?
Gronc!
Mio riu e enfiou a mão no bolso da calça cargo.
— Hum, hum. Relaxa. Sei como é ter um metabolismo de fornalha. Pega. — Ela jogou uma barrinha de cereal prateada. Anna pegou no ar, rasgou o pacote com os dentes e engoliu em dois segundos.
— Uau! — Os olhos de Anna brilharam, a cor voltando ao rosto. — Isso é incrível! Me sinto uma bateria nova!
Chuuya, sentindo-se excluído da "hora do lanche", pigarreou alto.
— Ei, dá para não ignorar o MVP da batalha? Eu também gastei mana para caramba, sabiam?
— Ah, o bebê chorão quer papinha? — Mio revirou os olhos, mas jogou outra barra prateada para ele. — Toma. Vê se não engasga.
— Como o Dante aguenta você? Você é mais infantil que a Miguel, credo. Mas valeu. — Chuuya, irritado, mas faminto, rasgou o pacote. Ele deu uma mordida generosa. Mastigou. Engoliu.
Um segundo de silêncio. Dois segundos.
Os olhos de Chuuya se arregalaram. As pupilas dilataram. As veias do pescoço saltaram como cordas. Ele largou o resto da barra e caiu de joelhos, agarrando o estômago como se tivesse levado um tiro de canhão da Anna.
— MAS QUE MERDA É ESSA?! — ele grasnou, a voz esganiçada e trêmula. — Eu... eu vou explodir! Meu coração tá a mil!
Com a mão tremendo, ele pegou a embalagem do chão. Leu as letras miúdas no verso: "Ração de Emergência Militar Classe S - Valor Energético: 40.000 kcal por barra."
— QUARENTA MIL?! — Chuuya gritou, rolando no chão em posição fetal. — Você me matou! Ruiva maldita! Isso é comida para elefante, não para gente!
— Hahahahaha! — Mio finalmente quebrou, colocando as mãos nos joelhos para não cair. — A cara dele! Olha a cara dele!
— Maldita... você fez de propósito! — Chuuya choramingava, suando frio, sentindo o açúcar correr nas veias como nitro. — Merda... meu sonho... morrer antes de me aposentar... derrotado por uma barra de cereal...
— Se esse é seu sonho de vida, faz um favor para o mundo e morre logo! Hahahaha! — Mio já estava rolando na grama, secando as lágrimas de riso.
Enquanto a comédia se desenrolava, Anna terminava de lamber os dedos, alheia ao sofrimento alheio. Ela olhou para o horizonte do labirinto. O céu falso encontrava as paredes de pedra ao longe. Mas havia algo que quebrava o padrão.
Uma montanha. Uma estrutura colossal erguia-se no centro do labirinto, perfurando as nuvens artificiais. O pico parecia arranhar o "teto" do mundo.
"Até que é um lugar legal para servir de trono para a rainha", Anna pensou, sorrindo.
Mas então veio. Não foi dor. Foi uma vibração. Como uma agulha fina e gelada perfurando a base da espinha e tocando o coração. O sorriso de Anna sumiu.
— Ei — Mio chamou, recuperando o fôlego e notando a mudança brusca na postura da garota. — De acordo com o drama ali, nosso amigo vai ter um ataque cardíaco em breve. O que acha de deixarmos o corpo para adubo e seguirmos?
Anna não riu. Ela continuou encarando a montanha, os olhos fixos, as pupilas trêmulas.
— O que foi? — Mio seguiu o olhar dela, ficando séria. — Quer ir até lá? É o centro. Geralmente é onde fica o boss.
— ...Não é bem isso — Anna murmurou, levando a mão ao peito, sentindo o coração bater descompassado. — É uma sensação estranha. Como se... algo estivesse me chamando. Uma voz sem som.
Mio olhou para Anna, depois para o pico ameaçador da montanha.
— Instinto?
— Instinto — Anna confirmou, engolindo em seco.
— Bom. — Chuuya se levantou trôpego, ainda segurando a barriga, mas tentando recuperar o mínimo de dignidade que lhe restava. — Já que estamos com tempo livre e energia de sobra...
Ele sacou o isqueiro e acendeu outro cigarro, as mãos ainda tremendo pelo excesso de açúcar.
— Mas não esqueçam do dinossauro, ele vai ser meu churrasco depois — Mio falou, sorrindo.
— Ainda pretende comer mais, seu monstro carmesim?! — Chuuya gritou, perdendo a compostura.
Parte 5
Uma hora depois. Dante e Ludmilla estavam sentados em uma pequena alcova seca, um recuo na rocha protegido do vento uivante do corredor principal.
Uma fogueira improvisada crepitava alegremente, desafiando a lógica de sobrevivência de "não atrair atenção", mas necessária por um motivo simples: hipotermia mata mais rápido que monstros. Ambos estavam encharcados até a alma.
O puzzle anterior — uma sala que envolvia alinhar espelhos enquanto o nível da água subia rapidamente — quase os afogou. Se não fosse a memória fotográfica de Ludmilla para os glifos antigos e a velocidade insana de Dante nas alavancas, eles teriam virado sopa.
Mas a sobrevivência teve um custo. E o custo foi um "Lagarto de Pedra" que tentou emboscá-los na saída. Agora, o lagarto girava lentamente num espeto de madeira sobre o fogo.
— ...Você tem certeza absoluta de que isso não é tóxico? — Ludmilla perguntou.
Ela ainda estava amarrada, sentada com as costas na parede, parecendo uma obra de arte renascentista... emburrada e úmida.
— Absolutamente — respondeu Dante, girando o espeto com a dedicação de um chef Michelin. — A carne da cauda armazena gordura pura. Se você assar em fogo lento, ela carameliza. É uma iguaria em algumas culturas...
Ele cortou uma lasca da carne chiando com uma faca de combate. O cheiro era surpreendentemente bom. Uma mistura de frango assado com algo mais terroso e defumado.
Rooooonc.
O som não foi discreto. Foi o rugido de um leão faminto ecoando nas paredes de pedra, competindo com o estalar da lenha. Dante parou a faca no ar. Ele virou a cabeça lentamente para Ludmilla.
O rosto pálido da "Princesa" estava competindo em cor com as brasas da fogueira. Ela mordeu o lábio inferior com força, desviando o olhar para o teto escuro da caverna como se ele fosse a coisa mais interessante do mundo.
— ...Não vai me dizer que você... — Dante começou, um sorriso provocador se formando nos lábios.
— Cale a boca! — Ludmilla explodiu, falando rápido demais, a compostura real desmoronando. — Sim, meu estômago roncou! Eu gastei muita energia tentando te matar! Se você rir, Scarlune, eu juro por Deus que, assim que essas cordas caírem, eu vou usar seus dentes para fazer um colar tribal!
— Calma, calma. Eu não vou rir — Dante levantou as mãos em rendição (ainda segurando a carne). — Eu sou um cavalheiro. E, como cavalheiro, tenho a solução para vossa fome real.
Ele se levantou e caminhou até ela, segurando um pedaço suculento de carne na ponta da faca, soprando-o delicadamente para esfriar.
— Abra.
Ludmilla olhou para a carne fumegante, depois para o rosto presunçoso de Dante e, finalmente, para as próprias mãos amarradas. A humilhação era física.
— Eu não sou um bebê — ela sibilou entre os dentes.
— E nem tem mãos livres. A menos que queira lamber o chão como um lobo, vai ter que aceitar o serviço de bordo da Dante Airlines. — Ele aproximou a comida do rosto dela. — Vamos lá. Diga "Ahhh".
Ludmilla o fuzilou com o olhar. Se raiva gerasse eletricidade, Dante teria sido incinerado ali mesmo. Mas a fome era uma força da natureza, e o cheiro era inebriante.
Relutante, vermelha como um pimentão, ela abriu a boca levemente. Dante, com cuidado surpreendente, colocou o pedaço de carne.
Ela mastigou. Os olhos dela se arregalaram. O tempero improvisado (ervas amargas que Dante achou no caminho) e a gordura natural da carne explodiram na língua. Era quente, reconfortante e rico.
— E então? — Dante perguntou, agachado na frente dela, com os cotovelos nos joelhos. — O veredito do júri?
Ludmilla engoliu, tentando recuperar a postura rígida de nobreza.
— ...Comestível — ela resmungou, virando o rosto para a parede. — Não está envenenado. Dá para o gasto.
Mas então, ela murmurou algo baixinho, quase inaudível, numa língua melódica que fluiu sem ela perceber:
— ...È incredibilmente delizioso. Non mangiavo qualcosa di così caldo da giorni. Maledetto, perché devi essere anche bravo a cucinare? (...É incrivelmente delicioso. Eu não comia algo tão quente há dias. Maldito, por que você tem que ser bom em cozinhar também?)
Dante piscou, confuso.
— Eu não entendi nada, mas, pela suavidade aveludada da voz, tenho quase certeza de que você elogiou minhas habilidades culinárias supremas e talvez até tenha me pedido em casamento.
— Sogna, idiota! (Sonha, idiota!) — ela retrucou instantaneamente, voltando ao tom agressivo habitual. — Eu disse que falta sal! Me dê mais um pedaço logo, antes que esfrie!
Dante riu, genuinamente divertido, e voltou para a fogueira para cortar mais.
Enquanto ele assoprava o segundo pedaço, observando a luz alaranjada do fogo dançar nos cabelos marrons úmidos de Ludmilla, o mundo dele falhou.
BZZZT.
A imagem de Ludmilla tremeu como um holograma com defeito. Por um milésimo de segundo, a caverna sumiu. O rosto dela mudou. A cor dos cabelos mudou para prateado, brilhando, mas o rosto... estava borrado, censurado por uma estática negra e violenta. O cenário não era mais pedra fria; era um antigo laboratório.
"Que delícia."
A voz na memória era doce, gentil. Não tinha o sotaque italiano carregado nem a agressividade defensiva de Ludmilla. Era pura inocência. Dante sentiu uma pontada aguda na têmpora, tão forte que quase derrubou a faca no chão.
— Velvet... — ele sussurrou para o nada, os olhos perdidos no vazio, a pupila dilatada.
A sensação de déjà vu o atingiu como um soco no estômago. Ele já tinha feito isso. Ele já tinha cozinhado para uma garota de cabelos brancos numa situação de vida ou morte. Ele conhecia aquele sorriso, mesmo sem conseguir ver o rosto dela através da estática mental.
— Ei.
A voz de Ludmilla cortou a alucinação como uma lâmina. Dante piscou, a realidade voltando com um tranco. Ele estava segurando a carne no ar, parado como uma estátua congelada. Ludmilla o encarava, não com raiva, mas com uma curiosidade que franzia sua testa lisa.
— Você "travou" de novo — ela disse, direta e observadora. — Seus olhos ficaram vazios por três segundos. E você chamou alguém. Quem é Velvet?
Dante baixou a mão devagar, tentando disfarçar o tremor nos dedos.
— Ninguém. — Ele forçou um sorriso, mas saiu fraco, sem o brilho habitual. — Só... uma personagem de um jogo antigo que travou na tela de loading.
Ludmilla não comprou a mentira. Ela o observou por um longo momento, o silêncio apenas quebrado pelo estalo da madeira queimando e pelas gotas d'água caindo do teto.
— Sabe, Scarlune... — ela começou, a voz subitamente mais baixa, quase suave. — A mente humana é uma fortaleza frágil. Quando passamos por traumas muito grandes, ou coisas que o ego não consegue processar... o cérebro tranca essas memórias em caixas-pretas. Ele as esconde no porão para nos proteger de quebrar.
Dante olhou para ela, surpreso com a profundidade e a melancolia na voz dela.
— E quando encontramos gatilhos... cheiros, situações, sabores... as caixas começam a vazar — Ludmilla continuou, olhando fixamente para as chamas dançantes.
Dante ficou em silêncio. Trauma? Ele tinha vários momentos em sua memória que poderia classificar como trauma. Então, por que esse era especial? Por que somente esse foi apagado de sua mente? E por que a arrogante Ludmilla falava daquilo com tanta propriedade?
— Você fala como uma especialista — Dante comentou, tentando desviar o foco da própria mente quebrada. — Experiência própria? A "Princesa" tem seus próprios fantasmas no armário?
Ludmilla ficou rígida. A máscara de frieza caiu de volta sobre o rosto dela instantaneamente.
— Coma logo — ela ordenou, cortando o assunto com frieza cirúrgica. — Precisamos sair daqui. Se ficarmos parados, vamos virar comida em vez de comer.
Dante percebeu que tinha tocado em um nervo exposto. Mas ele respeitou o limite dela. Ele comeu seu pedaço de carne em silêncio, tentando organizar a bagunça em sua própria cabeça.
Minutos depois, com o fogo apagado e a escuridão de volta, Dante se levantou, limpando a gordura das mãos na calça.
— Vamos nessa. — Ele chutou terra sobre as últimas brasas.
— Sabe, Princesa... — Dante comentou casualmente, enquanto começavam a andar pelo corredor escuro. — Esses cipós que eu usei são resistentes, mas... para alguém que luta com aquela claymore gigante... eles são meio frágeis, não acha?
Ludmilla parou por um segundo.
— O que você quer dizer? — ela perguntou, sem olhar para ele.
— Nada. Vamos deixar assim mesmo... — Dante sorriu, um sorriso divertido de quem guardaria o segredo... por enquanto.
— Stupido presuntuoso... — ela resmungou em italiano. — Forse mi piace solo non dover pensare a dove andare per un po'. (Talvez eu só goste de não ter que pensar para onde ir por um tempo.)
— Lá vem o italiano de novo. — Dante riu, apressando o passo para andar ao lado dela. — Como não entendo nada, vou considerar isso como "Dante, você é meu herói, obrigado por me guiar através das trevas".
— Considere isso como "Se você falar mais uma palavra, eu arranco sua língua e te faço engoli-la", Scarlune!
— Entendido, Vossa Alteza!
E assim, a dupla mais disfuncional da Dungeon avançou para a próxima camada do labirinto.
Parte 6
— Ela tá demorando demais... — Abel roía a unha do dedão com força, os olhos fixos no pico da montanha que perfurava o céu artificial. — Será que a Kagura se perdeu? Ou pior... achou algo para espancar e esqueceu que a gente existe?
Ao lado dele, Kurokawa estava sentada em uma rocha, abraçando os próprios joelhos, balançando o corpo num ritmo lento.
— No fundo, você tá preocupado com ela, né? — Ela sorriu, um sorriso de canto, provocador.
— Eu? Preocupado com aquele ogro de saia?! — Abel bufou, a voz falhando no final. — Claro que não. Eu só... tô calculando quanto tempo de paz eu tenho antes de ela voltar me xingando. É matemática pura, Kurokawa.
— Você devia deixá-la ver esse seu lado "matemático" e sensível — Kurokawa apoiou o queixo nos joelhos. — Aposto que ela ia curtir.
— Curtir? Ela ia usar isso de munição para me zoar pelos próximos dez anos! — Abel gesticulou, imitando a postura agressiva da parceira. — "Eu não vou deixar um idiota frágil como você subir e cair de um penhasco, Abel! Fica aí quietinho e tenta não morrer respirando!"
— Ela só queria te proteger — Kurokawa corrigiu, a voz suave cortando o nervosismo dele.
Abel suspirou, chutando a terra. Ele nunca entenderia aquela dinâmica. Kagura vivia gritando que ele era um peso morto, mas se jogava na frente de balas de canhão por ele sem piscar. Era o inferno na terra, mas era o inferno dele.
Lá em cima, no entanto, o inferno vestia branco.
Kagura chegou ao platô do cume respirando com facilidade. A escalada vertical teria matado um humano comum, mas para ela foi apenas aquecimento.
— Aquele idiota... — ela resmungou, limpando a poeira das mãos. — Se eu deixasse ele subir, ia tropeçar na própria sombra e virar patê lá embaixo. Melhor eu garantir que a barra tá limpa.
Ela caminhou em direção ao centro do pico plano. Não havia ruínas. Não havia trono. Havia uma árvore.
Uma árvore colossal, com casca branca como osso polido e folhas de um verde-esmeralda que pareciam brilhar com luz própria. Mesmo naquele labirinto de horrores biológicos, aquela árvore parecia... errada. Era perfeita demais. Simétrica demais. O ar cheirava a jasmim, mel e algo mais profundo... leite materno?
— Que cheiro é esse? — Kagura franziu o nariz, a mão indo instintivamente para a arma na cintura.
Mas seu "Instinto", que normalmente gritava como uma sirene diante do perigo, estava mudo. Silencioso. Morto.
Ela entrou na clareira sob a copa da árvore e travou. A visão deu um nó no cérebro dela.
Não havia monstros rugindo. Não havia sangue no chão. Havia uma mulher. Uma figura de beleza etérea, nua, sentada entre as raízes grossas. Seus cabelos eram longos, cobrindo o peito, e folhas caídas formavam um lençol natural sobre suas pernas.
E ao redor dela... o impossível. Monstros. Dezenas deles. Lobos com crinas de lâmina, ursos de quatro braços, insetos gigantes com ferrões pingando neurotoxina. As criaturas mais letais da Dungeon estavam ali. Mas não estavam atacando. Estavam deitados. Ajoelhados. Dormindo como filhotes em volta da mãe.
Kagura viu um Lagarto de Pedra — um tanque biológico de três metros — aproximar-se da mulher. Ele não rosnou. Ele abaixou a cabeça blindada, submisso, e fechou os olhos reptilianos.
A mulher sorriu. Um sorriso gentil, materno, que poderia parar exércitos. Ela estendeu a mão delicada e acariciou as escamas duras. E então, com a mesma delicadeza de quem faz carinho num gato, ela afundou os dedos no crânio da criatura.
Squelch.
Não houve som de osso quebrando. A mão dela entrou na carapaça dura como se fosse manteiga morna. O lagarto não gritou. Ele soltou um suspiro longo, uma expiração de puro êxtase e alívio, e tombou de lado. Morto. O rosto da fera estava congelado numa expressão de felicidade absoluta.
A mulher levou a mão ensanguentada à boca e lambeu o icor azul e a massa cinzenta dos dedos, ainda sorrindo.
"Misericórdia..."
A palavra surgiu na mente de Kagura. Não foi um pensamento dela; foi uma invasão. Como uma legenda projetada na retina.
Kagura deu um passo para trás, a bota raspando na grama. Seu corpo, treinado desde a infância para converter dor em poder, não sabia como reagir àquilo. Não havia dor ali. Havia apenas... paz. E isso a aterrorizou mais do que qualquer surra, corte ou fratura que já tivesse sofrido.
— Quem... é você? — Kagura tentou ativar seu Éter. Tentou invocar sua fúria, a agressividade que era seu combustível. Ela tentou pensar no rosto idiota do Abel para se motivar.
Mas a raiva não veio. O tanque estava vazio.
A mulher levantou os olhos. Eram olhos que não tinham fim. Continham galáxias inteiras de compaixão e fome.
"O Jardim do Éden..." — Kagura pensou, os joelhos começando a tremer.
Mas à medida que a beleza da cena penetrava em sua alma, algo escuro e viscoso brotava dentro dela. Culpa. O coração de Kagura acelerou. Sua respiração ficou curta. Ela olhou para as próprias mãos. Mãos calejadas. Mãos com cicatrizes. Mãos feitas para bater, quebrar e ferir.
Diante daquela pureza absoluta, ela se sentiu suja. Uma mancha de graxa num lençol de seda branca.
— Eu sou... nojenta — Kagura sussurrou, as lágrimas quentes brotando sem aviso, queimando o rosto. — Eu bato nas pessoas. Eu grito. Eu sou violenta. Eu não mereço estar aqui.
Ela caiu de joelhos, as unhas arranhando os próprios braços, tentando arrancar a pele "impura". Visões de todas as vezes que gritou com Abel, todas as vezes que desejou a dor para ficar mais forte, inundaram sua mente como veneno.
— Desculpe... desculpe... eu sou um erro... — ela soluçava, encolhida no chão, pequena.
Passos suaves na grama. Pés descalços. Kagura levantou o rosto inchado e vermelho. A mulher estava na frente dela. E junto com a presença dela veio uma onda de aceitação tão profunda e pesada que fez os ossos de Kagura relaxarem involuntariamente.
A mulher estendeu a mão. A mesma mão suja de sangue de monstro.
Kagura deveria recuar. Ela era uma caçadora. Ela era a vanguarda. Mas ela não recuou. Ela olhou para aquela mão como um viajante morrendo de sede olha para a água no deserto. Ela queria ser perdoada. Queria que aquele peso no peito, aquela necessidade eterna de lutar e sofrer, sumisse.
Kagura estendeu a mão trêmula e segurou os dedos da mulher. Calor. Amor. Silêncio.
A mulher se abaixou. O cheiro de jasmim a envolveu. Ela tocou o rosto de Kagura com a outra mão. O toque foi elétrico, não de choque, mas de dopamina pura. Kagura fechou os olhos. Um sorriso genuíno, infantil e desarmado se abriu em seu rosto — uma expressão que ela nunca mostrou a ninguém, nem mesmo ao Abel. A máscara de durona quebrou.
— Obrigada... — Kagura sussurrou.
Ela sentiu os dedos da mulher deslizarem suavemente pelo seu pescoço, descendo para o centro do peito, sobre o coração que batia descompassado. A pele se abriu. Não houve dor. A carne se separou sem resistência, como se quisesse deixar a mulher entrar. O sangue jorrou quente sobre a grama.
Mas Kagura não ativou a Conversão de Dor. Porque não havia dor para converter. Havia apenas libertação.
A mulher mergulhou a mão na caixa torácica aberta e, com a delicadeza de quem colhe uma fruta madura no pé, retirou o coração ainda pulsante de Kagura.
Kagura suspirou. Ela agradeceu. Agradeceu por ter vivido. Agradeceu por ter conhecido o Abel, aquele idiota adorável que precisava tanto dela. Agradeceu por finalmente poder descansar da guerra.
A visão escureceu, mas foi uma escuridão gentil. A luz do sol falso banhou o topo da montanha, iluminando o corpo aberto de Kagura, enquanto ela se tornava parte daquele banquete sagrado e profano.
— Dez minutos — disse Kurokawa, checando o relógio imaginário no pulso. — Já passaram dez minutos, Abel.
Abel olhou para cima. O vento que descia da montanha mudou. Trazia um cheiro doce, enjoativo de flores. E, muito sutilmente, o cheiro metálico de ferro.
— E se tiver acontecido algo? — ele perguntou, a ansiedade virando um nó gelado no estômago. O suor frio desceu pela nuca.
— Vamos fazer assim — Kurokawa se levantou, limpando a poeira da calça, o tom de brincadeira desaparecendo. — Se ela não voltar em mais cinco minutos, nós subimos.
Os dois concordaram com a cabeça, olhando para o pico silencioso. Lá em cima, o vento soprava suavemente, levando pétalas brancas e gotas de sangue fresco para o abismo, enquanto o "Jardim" terminava sua refeição em silêncio absoluto.
Parte 7
Ponto de Observação "Trono".
Ryunosuke Azazel flutuava em sua cadeira gravitacional, banhado pela luz azulada de dezenas de telas holográficas que monitoravam o labirinto. Aquele deveria ser o momento do julgamento. Avaliar, pressionar, punir. Mas o "Demônio do Ensino" não estava anotando nada.
Por quase uma hora, o cérebro tático mais afiado da academia havia desligado. Seus instintos de sobrevivência, sua paranoia crônica, seu sadismo pedagógico... tudo foi sedado. Ryunosuke estava largado na cadeira, a cabeça pendendo para o lado, um fio de saliva escorrendo pelo canto da boca, sustentando um sorriso bobo e infantil.
Ele se sentia flutuando em líquido amniótico. Todas as suas barreiras mentais evaporaram. Ele estava apenas recebendo aquele amor quente, denso e absoluto que irradiava do centro de sua própria criação.
— Amor... — murmurou, os olhos semicerrados, vendo os dados de perigo nas telas como borrões de cores reconfortantes.
Ele deveria ter notado. Ele era um Mestre do Éter. Mas o ataque não veio como dor, fogo ou lâmina. Veio como paz. E Ryunosuke, um homem que vivia em guerra constante consigo mesmo, não tinha escudo contra a paz.
Foi preciso a morte de uma aluna para acordá-lo.
Quando o coração de Kagura parou — não por dano massivo, mas por desistência vital —, o choque de realidade atingiu Ryunosuke como uma picareta de gelo no ouvido. O link neural que ele mantinha com cada aluno na Black Box se partiu.
SNAP.
O som foi imaginário, mas a dor foi real. Uma vida se apagou no sistema. Ryunosuke piscou. O sorriso bobo travou, depois derreteu numa expressão de confusão grogue.
— Kagura...? — ele balbuciou, a língua pesada, limpando a baba do queixo com as costas da mão trêmula. — O que... por que o sinal dela... zerou?
A mente dele girava em marcha lenta, como um motor velho no frio. Ela desmaiou? Não. O sinal é nulo. Atividade cerebral: zero. Batimentos: zero. A lógica perfurou a névoa de dopamina. Kagura estava morta. E ela morreu de verdade.
O instinto de Ryunosuke assumiu o controle. O professor sádico voltou. Ele podia jogar seus alunos no inferno, sim. Podia triturá-los, quebrá-los. Mas ele fazia isso para forjar aço. Ele jamais, sob nenhuma circunstância, permitiria que morressem sob sua vigilância.
— Algo está errado. — Ryunosuke se levantou num solavanco. A cadeira flutuante foi arremessada contra a parede com a violência do seu Éter explodindo para fora. — Esse labirinto... essa frequência...
Ele encarou as telas principais. Não via monstros caçando. Via predadores Alfa dormindo como gatinhos. Via a atmosfera de "paraíso" infectando seu cenário de pesadelo.
— Isso não é meu domínio — ele rosnou, o Éter roxo e violento vazando pelos poros, seus olhos brilhando com fúria e medo. — Tem um invasor.
O corpo agiu antes de o cérebro processar o pânico. Ele precisava tirar as crianças dali. Agora. Dane-se a aula. Dane-se o teste. Ryunosuke juntou as mãos num selo complexo, as veias da testa saltando.
— LIBERAR BLACK BOX! DESATIVAÇÃO FORÇADA!
O mundo obedeceu. O céu falso do labirinto começou a rachar como vidro temperado atingido por uma marreta. O chão tremeu. As paredes de pedra começaram a pixelizar, dissolvendo-se em dados brutos de Éter. A simulação estava colapsando para ejetar todos de volta à realidade.
Mas Ryunosuke cometeu um erro.
Quando uma Black Box é desfeita, existe um milésimo de segundo de "instabilidade estrutural". É o momento em que a realidade artificial se torna vulnerável antes de desaparecer. Para um inimigo normal, isso não importa. Mas aquela Coisa no topo da montanha não era normal.
No exato momento em que as rachaduras no céu apareceram, a Mulher no topo da montanha — a quilômetros de distância — levantou a cabeça. Ela não viu a desativação como uma fuga. Ela a viu como uma "ferida". O mundo estava quebrando, e o instinto dela era... cuidar. Como se o próprio Éter do universo sussurrasse para ela, ela soube o que fazer.
"Não vão..." — a voz dela não foi ouvida pelos ouvidos, mas sentida nos ossos de todos os animais a sua volta. Doce. Terrível. Maternal.
Ryunosuke sentiu o impacto. Uma onda massiva de Éter — não roxo, mas de um dourado leitoso — subiu da montanha como um gêiser. Mas o ataque não veio na direção dele. O Éter dela fluiu para as rachaduras no céu. Ela não estava quebrando a caixa; ela estava consertando a caixa.
— O quê?! — Os olhos de Ryunosuke se arregalaram, as pupilas contraindo ao tamanho de agulhas. — Ela está... imbuindo o próprio Éter na estrutura?! Ela está reescrevendo o meu código?!
A mulher preencheu as falhas da Black Box com sua própria energia. Ela costurou a realidade de Ryunosuke com a dela. Em uma tacada só, ela impediu o colapso e tomou as rédeas. O céu parou de rachar. As paredes pararam de pixelizar e se solidificaram. Mas agora, a cor do céu não era mais o azul artificial. Era um dourado eterno, opressivo.
— Merda… merda… MERDA! — Ryunosuke caiu de joelhos, as mãos tremendo incontrolavelmente. — Ela roubou... Ela roubou a Black Box.
Sua tentativa de salvar a todos acabou de trancá-los numa jaula indestrutível com o leão.
O pânico, uma emoção que Ryunosuke Azazel desconhecia há anos, congelou seu sangue. Ele precisava saber o que ela era. Ele precisava encontrar uma fraqueza, um ponto cego, qualquer coisa.
— Olho do Alcance: Percepção Máxima!
Ryunosuke forçou seus sentidos ainda letárgicos ao limite absoluto. O sangue escorreu pelo seu nariz com o esforço. Seu olho direito brilhou com uma chama roxa, e sua visão cobriu o labirinto inteiro em um segundo, ignorando a dor de cabeça excruciante, até focar todo o seu poder de análise no topo da montanha.
Ele olhou para a Mulher. Ele olhou para dentro da alma dela.
E esse foi seu segundo erro. O erro final. Ele esperava ver um Monstro. Um Demônio. Uma fonte de malícia, ambição ou fome. Algo que ele pudesse entender, prever e contra-atacar.
O que ele viu foi o Jardim do Éden.
Não havia ódio. Não havia desejo de matar. Não havia ego. Havia apenas uma aceitação infinita. Uma desistência absoluta de qualquer conflito. Era um buraco negro de "amor" que sugava qualquer vontade de lutar, mastigava a individualidade e a transformava em felicidade vazia e estéril. Era a antítese da evolução. Era o fim de todo esforço.
A mente de Ryunosuke, construída sobre a lógica de batalha, superação e conflito, tentou processar aquilo e falhou. Era como tentar dividir por zero. O resultado não era um número; era o erro.
— Ah... — Ryunosuke soltou o ar, seus olhos perdendo o foco, ficando opacos e vidrados.
A simples visão da natureza daquela criatura quebrou a espinha dorsal de sua vontade.
— Não há como vencer... — ele sussurrou, a voz fraca, infantil, as lágrimas escorrendo pelo rosto sem ele perceber. — Por que lutar? É tão... cansativo. Tão inútil.
Ele caiu de cara no chão frio da sala de controle. Ele não estava inconsciente; estava acordado. Ele via as telas, mas sua vontade de agir, de proteger, de ensinar, de ser Ryunosuke Azazel... tudo fora deletado. Foi substituído por uma vontade avassaladora de apenas parar. De deitar e esperar o abraço dela.
Enquanto ele jazia derrotado, babando no chão metálico, o cenário nas telas mudava. O Labirinto Vivo agora tinha uma nova Mestra. E ela estava faminta por mais filhos.
Parte 8
O ambiente mudou drasticamente. Os corredores orgânicos e úmidos ficaram para trás, engolidos pela escuridão. Dante e Ludmilla agora caminhavam pelo que parecia uma catedral profana.
O teto era vertiginosamente alto, sustentado por colunas que não eram feitas de mármore, mas de costelas titânicas fundidas em arcos góticos. O chão era de um vidro negro polido, tão liso que refletia suas silhuetas como um lago noturno.
— Estamos perto... — Dante sussurrou, o tom de brincadeira evaporando. Ele sentia a pressão no ar, um peso estático que arrepiava os pelos do braço. Éter denso. — Esta sala... tem cheiro de Boss Room.
Ludmilla, ainda sendo carregada no ombro dele, não fez piada. Seus olhos varriam as sombras com precisão militar.
— Me coloque no chão, Scarlune — ela pediu, a voz baixa e perigosamente séria. — Meus instintos estão gritando.
— Se eu soltar, você promete não me esfaquear? — Dante parou.
Antes que ela pudesse responder, o vidro negro explodiu.
CRAAAAASH!
O perigo não veio do teto, nem das paredes. O aviso foi uma vibração sutil no vidro, um milésimo de segundo antes do colapso. Veio de baixo, direto sob as solas das botas de Dante.
CRASH!
O chão explodiu. Uma mão esquelética colossal, com dedos longos e curvos como foices de ceifeiro, irrompeu do vidro temperado. Dante só não foi fatiado da virilha ao pescoço porque seu instinto ativou num espasmo de pânico puro.
O mundo desacelerou. Dante viu os estilhaços de vidro flutuando ao seu redor como diamantes suspensos. Ele flexionou as pernas e executou um mortal para trás desesperado, derrapando perigosamente na superfície lisa e quase derrubando Ludmilla no processo.
Do buraco irregular, acompanhada por um cheiro podre de tutano velho e ozônio, a criatura emergiu.
Não era um dinossauro ou um inseto. Era um pesadelo humanoide de três metros de altura. Uma armadura natural feita de ossos brancos e polidos cobria uma musculatura vermelha exposta, sem pele, que pulsava úmida e obscena a cada movimento. Onde deveria haver um rosto, havia apenas uma fenda vertical negra, um abismo sem alma.
Em sua mão direita, ele arrastava uma espada montante grotesca, serrilhada, forjada a partir da espinha dorsal fundida de alguma outra aberração titânica.
— Centurião de Ossos... — Dante reconheceu o padrão de Éter denso e sufocante. Ele engoliu em seco, o suor frio descendo pela nuca. — Classe S. Se isso não for o Boss desta Dungeon, eu vou ficar verdadeiramente puto!
A criatura não rugiu com a boca. O som veio de dentro de seu peito, o ruído de placas ósseas rangendo umas contra as outras — como metal rasgando metal.
E então, ela desapareceu.
Não foi teleporte. Foi aceleração bruta, pura e aterrorizante para algo daquele tamanho.
CLANG!
O ar explodiu. O Centurião reapareceu já descendo a montante num arco vertical. Dante não teve tempo de esquivar. Ele cruzou os braços e interceptou a lâmina de osso com um chute lateral ascendente carregado de eletricidade estática máxima.
O bloqueio funcionou, mas a física cobrou o preço. O impacto afundou Dante no chão, estilhaçando o vidro num raio de dois metros como se uma bomba tivesse detonado. Seus joelhos quase cederam.
— Saia daqui! — Dante gritou, cerrando os dentes. Ele girou o corpo e, usando uma onda de choque de vácuo generada por sua velocidade, arremessou Ludmilla (ainda amarrada e indefesa) para longe. — Eu cuido disso!
No segundo seguinte, Dante se tornou um raio vermelho.
A luta virou um borrão. Dante e o Centurião colidiram dez vezes em um segundo. O ar estalava com faíscas azuis inúteis e lascas de osso branco que voavam como estilhaços de granada.
Mas Dante estava na defensiva total.
"Pesado demais!" — o pensamento de Dante era um grito interno.
Ele tentou fritar o monstro, mas, quando seus punhos elétricos tocavam a armadura, a corrente se dispersava. "Osso... é um isolante elétrico natural! Minha eletricidade não penetra na armadura!"
O monstro não cansava. Não parava. Era um aríete biológico. O Centurião travou os pés no chão e girou o tronco 360 graus de forma antinatural, sem mover os quadris, transformando-se num tornado de lâminas. Foi um golpe horizontal devastador.
Dante desviou por um fio de cabelo, inclinando-se para trás num ângulo de Matrix, mas a ponta serrilhada da espada de espinha alcançou-o.
RIP!
A lâmina rasgou seu ombro, triturando o tecido da jaqueta e mordendo a carne. Sangue quente voou, chiando ao tocar a armadura de osso do monstro. O Centurião não deu abertura para a dor. Aproveitando o desequilíbrio de Dante, ele avançou com uma ombrada brutal, encurralando o velocista contra uma coluna grossa feita de costelas fossilizadas da Dungeon.
Não havia para onde correr. A lâmina do monstro subiu para a execução.
— Droga... — Dante, ofegante e sangrando, sentiu o gosto metálico da morte. Seus olhos brilharam com uma luz instável e perigosa. — Se não dá para fritar por fora...
Ele preparou uma sobrecarga suicida de Éter, concentrando tudo o que restava em um único ponto. O Centurião ergueu a montante de ossos para o golpe final, a sombra da lâmina cobrindo Dante. Mas o som que rompeu o ar não foi o da morte.
SNAP!
O estalo foi tão violento que parecia um tiro de canhão à queima-roupa. Dante olhou de relance, sorrindo por entre o sangue. Ludmilla não estava mais no chão. Os cipós reforçados com Éter não foram apenas cortados; foram obliterados pela pura pressão atmosférica de sua fúria.
Ela estava de pé. A aura vermelha de seu Éter explodia ao redor dela não como luz, mas como uma chama fria e vingativa que distorcia a gravidade ao seu redor. Seus olhos vermelhos brilhavam como duas supernovas.
— SCARLUNE! — A voz dela foi um decreto imperial. Ela estendeu a mão aberta para o teto, onde suas armas flutuavam inertes. — LIBERTE MINHAS ARMAS! AGORA!
Dante, com a lâmina do monstro a centímetros do nariz, soltou uma risada rouca.
— Como quiser, Princesa!
Ele estalou os dedos. O som foi o gatilho. O revestimento de seu Éter que prendia o arsenal de Ludmilla se dissolveu. No mesmo instante, o inferno metálico se desatou.
A Rapieira e as correntes ganharam vida, zumbindo como um enxame de vespas. A espada voou para a mão de Ludmilla com um CLANG magnético perfeito. Ela não correu; ela decolou. Quatro correntes dispararam de suas costas, cravando-se nas estalactites do teto como as teias de uma aranha de aço.
Impulsionada pela retração hidráulica das correntes, Ludmilla cruzou o ar num pêndulo mortal. Ela caiu sobre o Centurião como um meteoro verde.
— DÊ-ME ESPAÇO!
As correntes chicotearam, envolvendo os braços grossos e a espada do monstro. Com um puxão, Ludmilla usou o peso do próprio corpo e a alavanca do teto para puxar os braços da besta para trás violentamente, abrindo sua guarda em um crucifixo forçado. O peito do Centurião, protegido pela armadura de osso impenetrável, ficou exposto.
— AGORA, DANTE!
Com o monstro imobilizado por um segundo precioso, a postura defensiva de Dante desapareceu.
— Entendido! — Ele canalizou todo o Éter restante para a sola da bota direita. A eletricidade vermelha ficou branca, convertendo-se em temperatura pura.
"Ainda não controlo bem, mas agora é tudo ou nada!" — PLASMA CUTTER!
Dante girou o corpo no chão como um breakdancer, transformando sua perna em uma lâmina de plasma superaquecido.
SLASH!
A física cedeu. A armadura de osso do peito do Centurião, imune a choques, não resistiu ao calor. O peitoral se partiu com um chiado horrível de cálcio vaporizado e carne queimada, abrindo uma fenda fumegante no núcleo do monstro.
— GROAAAAARR!
O monstro urrou, uma vibração tectônica, e tentou recuar para se regenerar. Mas Ludmilla não permitiu. Ela soltou as correntes do teto e caiu em gravidade zero. Com precisão cirúrgica, perfurou as juntas traseiras dos joelhos da criatura com sua Rapieira, cortando os tendões principais.
O gigante de três metros perdeu a sustentação e desabou de joelhos, a cabeça ficando na altura perfeita. Dante viu o convite; não precisou pedir. Ludmilla entrelaçou os dedos das mãos, criando uma base, e firmou as pernas. Dante correu, saltou e pisou nas mãos dela.
— SOBE! — ela gritou, lançando-o para cima com força sobre-humana.
Dante usou Ludmilla como trampolim, ganhando uma altitude absurda. No ponto mais alto do salto, girou o corpo num mortal frontal para ganhar torque máximo. O plasma de sua perna moveu-se para sua mão, brilhando com a última centelha de seu poder.
— THUNDER HAMMER: QUEDA DO TITÃ!
Ele desceu um soco vertical, seco e brutal, direto no topo do crânio da besta.
BOOOOM!
A onda de choque limpou a poeira da sala. O chão sob o monstro cedeu em uma cratera. O crânio do Centurião afundou no tórax, a luz negra de seus olhos se apagando instantaneamente. O gigante tombou para a frente.
Dante aterrissou agachado, deslizando para trás, respirando como um fole furado. Limpou o sangue do ombro, sentindo a adrenalina baixar e a dor chegar. Ao lado dele, Ludmilla recolheu as correntes com um movimento suave de ombros. Elas desapareceram em suas mangas. Ajeitou uma mecha de cabelo solta atrás da orelha com uma elegância aristocrática que não condizia em nada com a carnificina ao redor.
O silêncio voltou à Dungeon.
— Você demorou para se soltar... — Dante ofegou, erguendo a cabeça com um sorriso torto e cansado. — Estava gostando de ficar amarrada, por acaso?
— Cale a boca. — Ludmilla embainhou a Rapieira, mas havia um brilho novo nos olhos dela. Adrenalina. Respeito. — Eu só estava esperando o momento tático ide... CUIDADO!
A vitória durou um segundo. O aviso veio tarde demais. O "cadáver" do Centurião não apenas se moveu; ele convulsionou violentamente.
SQUELCH-CRACK!
O som de anatomia sendo reescrita à força revirou o estômago de Dante. Ossos de obsidiana negra explodiram de dentro da carcaça branca, rasgando a musculatura exposta e remodelando a silhueta da besta. Ele não estava morto. Aquilo era apenas o casulo. Era a Segunda Fase.
Quatro novos braços brotaram do tórax, e lâminas ósseas se abriram nas costas como asas de um anjo caído. A criatura desapareceu. Sua velocidade agora era tal que até Dante o perdeu de vista por alguns segundos.
Dante estava fora de base, o peso do corpo no pé errado. Ludmilla estava longe, recuperando o fôlego. O monstro reapareceu na zona pessoal de Dante. A lâmina de osso negro, vibrando com alta frequência, desceu direto para o pescoço do velocista.
(Eu não vou conseguir...)
O tempo congelou na mente de Dante, não por magia, mas por resignação. Ele viu a morte chegando e sabia que seus músculos não responderiam a tempo. Era o fim.
PING!
Um som agudo. Metálico. Cirúrgico. Não houve explosão de Éter; houve geometria.
Um traço prateado cortou o ar. Uma bala revestida de Éter colidiu com uma coluna de ferro à esquerda. ZING! Ricocheteou para o chão de vidro temperado. ZANG! Ricocheteou para o teto de pedra. E, num ângulo matematicamente impossível, desafiando qualquer lógica balística convencional...
THWACK!
A bala atingiu a têmpora do Centurião. O projétil não perfurou; transferiu uma energia cinética absurda num ponto focal milimétrico. A cabeça do monstro foi jogada violentamente para o lado, o pescoço estalando com a força do impacto de um rifle sniper disparado à queima-roupa.
A lâmina de osso negro passou sibilando pela orelha de Dante, cortando apenas três fios de seu cabelo e raspando a pele, antes de errar o alvo completamente. O monstro vacilou, o cérebro chacoalhado, o equilíbrio destruído pelo tiro fantasma.
Antes que Dante pudesse processar o milagre, uma sombra se desprendeu do teto. Um mortal perfeito no ar, silencioso como um gato e pesado como uma bigorna. A figura girou verticalmente, usando a gravidade para ganhar peso, e desceu um chute de calcanhar brutal na nuca exposta do monstro.
CRACK!
A cara do Centurião foi afundada no chão de vidro novamente, abrindo uma teia de rachaduras. O monstro apagou instantaneamente. A figura aterrissou suavemente sobre as costas largas da criatura caída, agachada em uma pose predatória.
Fumaça fina subia dos canos de duas pistolas automáticas prateadas, firmemente seguradas em suas mãos, ambas apontadas para a base do crânio da criatura caso ela ousasse se mover.
Cabelos prateados curtos balançavam com o vento residual. Pequenos chifres vermelhos curvavam-se na testa. Olhos frios, azuis como gelo seco e digitais como uma mira, escaneavam o ambiente. O uniforme escolar estava impecável, sem um vinco de sujeira ou sangue. Um sorriso demoníaco, contido e levemente arrogante, curvava seus lábios.
— Vocês são barulhentos — a garota disse. A voz era monótona, letal e desprovida de medo. — Distrações em batalha são fatais.
Dante olhou para ela. E o mundo girou.
Não houve aviso. Não houve a dor de cabeça gradual de antes. Foi um click imediato e violento, como uma chave-mestra virando na fechadura certa dentro de seu córtex cerebral. A realidade da Dungeon oscilou. A imagem da garota de uniforme escolar agachada sobre o monstro se fundiu, como uma dupla exposição fotográfica, com uma memória reprimida que vazou como ácido.
O cheiro de mofo da caverna foi substituído pelo cheiro pungente de antisséptico e ozônio. O escuro da caverna virou o branco cegante de um laboratório estéril. Lá estava ela. A mesma garota de cabelos brancos. Mas ela não usava uniforme; estava com roupa hospitalar, balançando as pernas descalças.
Havia gosto de sangue doce na boca de Dante. Gosto de cinzas. E o som de máquinas apitando. O nome ecoou no vácuo de sua mente, não como o de uma colega de classe.
Layla. A garota na frente dele era Layla, sua colega estranha e antissocial. Mas na mente quebrada de Dante, a silhueta dela tremeluzia, alternando entre a estudante armada e o monstro de laboratório que ele um dia conheceu.
— Velvet... — Dante sussurrou, a certeza gelando seus ossos até a medula. Não era uma teoria. Não era um déjà vu. Era um fato histórico gravado a ferro.
Layla virou o rosto levemente para ele. Por um segundo, a máscara de frieza dela trincou. Havia reconhecimento ali? Mas o momento foi quebrado.
GROAAAAR!
O Centurião, mesmo com a cara esmagada no chão, explodiu em fúria. Ele liberou uma onda de choque de Éter negro que jogou Layla para longe como uma boneca. Ele se levantou, rugindo, os ossos ficando completamente pretos, absorvendo a luz. Layla aterrissou ao lado de Dante e Ludmilla com um rolamento perfeito, girando as pistolas nos dedos.
— A conversa fica para depois — Layla disse, engatilhando as armas com um clack-clack sincronizado.
Dante olhou para Layla. Depois para o monstro titânico. As perguntas queimavam sua língua, a memória arranhava seu cérebro, mas a sobrevivência falava mais alto. Ativou o Chronos novamente, os raios vermelhos dançando furiosamente ao redor dele.
— Certo... — Dante cerrou os dentes e abriu um sorriso selvagem, decidindo ignorar o colapso mental por mais cinco minutos. — Vamos chutar logo a bunda dele!
Parte 9
O rugido do Centurião não era som; era pressão. Uma onda invisível que esmagou o ar, fazendo o vidro negro do chão vibrar como pele de tambor esticada ao limite. Rachaduras explodiram em teias de aranha sob os pés dos três, estalando alto, espalhando estilhaços que dançavam como diamantes negros no ar carregado.
Layla não esperou. Ela já estava em movimento — não correndo, mas deslizando, o corpo baixo e fluido como uma sombra líquida. As pistolas prateadas traçavam arcos perfeitos, com os canos girando em sincronia enquanto ela disparava uma sequência ritmada e implacável.
PING-PING-PING-PING!
As balas não eram brutas; eram cirúrgicas. Não buscavam perfurar a armadura negra opaca de frente; elas dançavam. Uma colidia com uma coluna de costelas fossilizadas, ricocheteando em ângulo agudo para explodir contra o cotovelo de um braço recém-brotado, forçando a junta a dobrar para trás com um estalo seco. Outra raspava o chão de vidro, ganhando spin, subindo em curva ascendente para detonar na junta do ombro oposto. Cada impacto era um martelo invisível e preciso, empurrando o colosso para trás — um passo pesado, dois, abrindo um círculo precioso de espaço no caos.
Dante sentiu o Chronos queimando nas veias como ácido puro, corroendo o limite do esgotamento. Mana quase zero para um Segundo Modo pleno, mas o suficiente para virar o jogo. O suficiente para não morrer como um idiota.
— Layla, cobertura! Ludmilla, pela esquerda! — gritou ele, a voz rouca, gorgolejando sangue e adrenalina.
Ludmilla não perdeu tempo com palavras; respondeu com metal vivo.
SWISH-SWISH!
Duas correntes explodiram das mangas como serpentes de aço negro, chicoteando o ar com um assovio cortante. Elas cravaram-se fundo nas costelas expostas do Centurião, com ganchos laterais mordendo o osso com um CRUNCH úmido. Uma terceira surgiu das costas dela, enrolando-se na perna direita da besta como uma píton hidráulica, travando o joelho num ângulo torto e forçando o gigante a inclinar o peso.
— Non ti muovere, mostro schifoso — sibilou Ludmilla, os olhos vermelhos faiscando como brasas enquanto girava o corpo num arco elegante, com a Rapieira traçando um círculo defensivo que cortava o ar com um zumbido agudo.
O Centurião explodiu em fúria cega. Os quatro braços novos viraram um moinho de lâminas ósseas, chicoteando o ar em arcos amplos que cortavam colunas ao meio como se fossem palitos de dente seco — CRASH! — com poeira de osso fossilizado chovendo como granizo. Uma das lâminas veio direta para Ludmilla, rápida demais, um borrão negro descendo em diagonal para fatiá-la da clavícula ao quadril.
CLANG!
Layla interceptou no último milissegundo. Ela saltou na frente como um fantasma, o corpo mudando num piscar de olhos — chifres vermelhos curvos brotando da testa e ossos negros endurecendo a pele num colete improvisado que crepitava como obsidiana viva. A lâmina colossal bateu contra seu antebraço solidificado, com faíscas pretas e vermelhas voando em uma chuva elétrica, o impacto reverberando pelo chão como um sino funerário. Mas ela não cedeu um centímetro. Com as pernas cravadas, ela segurou a lâmina com a mão nua, os dedos afundando no osso como garras.
— Minha — murmurou ela, com a voz baixa, quase carinhosa e possessiva, enquanto sangue necrótico preto escorria pelos dedos como tinta viva. O veneno chiou ao tocar o osso do monstro, corroendo veias expostas em fumaça ácida; o cheiro de carne podre encheu o ar.
O Centurião urrou — um som gutural que veio do peito oco, vibrando as colunas restantes. Ele tentou recuar, com os braços extras se debatendo para se livrar, mas Ludmilla ancorou os pés e puxou as correntes com força titânica, os músculos aristocráticos inchando sob o uniforme e a gravidade distorcendo ao redor dela.
— Agora, Scarlune!
Dante já estava no ar.
VWOOP.
Não era teleporte. Era aceleração residual do Deus da Velocidade, o corpo virando um borrão vermelho que deixava rastros de plasma crepitante no ar, como cometas vermelhos. Ele escalou a parede de costelas fossilizadas num sprint vertical, com as botas carregadas de eletromagnetismo grudando na superfície úmida e impulsionando-o para cima em zigue-zagues imprevisíveis.
O monstro girou o tronco antinaturalmente, os braços extras golpeando o ar como martelos de demolição, com as lâminas ósseas cortando o espaço onde Dante estava um frame antes — WHOOSH! — enquanto pedaços de coluna explodiam em poeira.
Dante riu. Um riso louco e determinado, do tipo que saía rasgando a garganta quando a morte lambia a nuca.
— Cai direto no inferno, praga!
Ele se soltou do teto num mortal invertido, caindo em espiral controlada e canalizando o Éter residual nas mãos até o limite. Não era mais eletricidade vermelha comum; era plasma branco, superaquecido, com o ar ao redor distorcendo em ondas de calor que faziam as sombras dançar como miragens infernais.
— PLASMA CUTTER: VERSÃO FINAL!
As mãos viraram lâminas vivas de luz branca. Ele cortou o ar em uma cruz perfeita — o primeiro golpe horizontal vaporizando um antebraço inteiro num chiado horrível, com o osso negro derretendo e pingando como manteiga quente no chão de vidro. O segundo, vertical, abriu o tórax como uma lata de sardinha podre, expondo o núcleo pulsante de carne negra entrelaçada com veias de Éter denso, latejando como um coração exposto.
O Centurião cambaleou pela primeira vez, o equilíbrio perdido, com icor verdadeiro jorrando em golfadas viscosas que fumegavam ao tocar o chão.
Layla viu a brecha. Seus olhos azuis e frios ativaram a Visão de Predador — as pupilas dilatando e calculando trajetórias em milissegundos como um supercomputador vivo.
— Fraqueza: núcleo central. 0.8 segundos até a regeneração.
Ela engatilhou as pistolas com um clack-clack sincronizado. Não eram balas comuns; eram balas moldadas com seu próprio sangue solidificado — espinhos necróticos puros, veneno concentrado.
BANG-BANG!
A primeira voou reta como uma lança, cravando-se no núcleo exposto com um SPLAT úmido. A segunda ricocheteou três vezes deliberadas — coluna, chão, teto — traçando uma curva impossível para acertar por trás, perfurando a carne pulsante no ponto cego.
BOOM!
O núcleo explodiu em lascas de osso e carne fumegante, com uma onda de choque negra varrendo a sala. O Centurião congelou, o corpo inteiro tremendo violentamente enquanto a regeneração falhava, corroída pelo veneno que se espalhava como tinta preta nas veias.
Ludmilla não perdeu o ritmo. Ela soltou as correntes presas com um giro de ombros e disparou todas de uma vez — seis serpentes de aço negro voando como arpões vivos, cravando-se no torso, braços e pernas da besta com CRUNCH-CRUNCH-CRUNCH! sucessivos.
— Caccia finita.
Ela ancorou os pés, inclinou o corpo para trás e puxou com tudo. Músculos travados, a gravidade distorcia-se ao redor dela como um vórtice.
CRACK-CRACK-CRACK!
O Centurião foi partido ao meio com um som de anatomia sendo rasgada à força — o torso superior voando para trás em um arco sangrento enquanto as pernas desabavam como torres derrubadas. O rugido final morreu num gorgolejo úmido e definitivo.
Silêncio.
A catedral profana parou de tremer. O corpo do monstro dissolveu-se em partículas de Éter negro, deixando apenas uma gema enorme de osso cristalizado rolando no chão de vidro rachado.
Dante aterrissou de joelhos, ofegante, com o plasma nas mãos apagando devagar. Limpou o sangue do ombro, com o sorriso torto voltando apesar da dor.
— Maldito Boss, queima no inferno. — Ele olhou para as duas.
Ludmilla recolheu as correntes com um floreio elegante, ajeitando o cabelo úmido de suor. Ela abriu a boca para responder, mas seus olhos se arregalaram.
— Scarlune! Cuidado!
Layla já estava se movendo. Rápida demais. Os olhos dela não estavam na gema; estavam em Dante.
Um dos braços residuais do Centurião — um fragmento de osso negro que não dissolveu completamente — ainda vibrava no chão. Como uma mina terrestre final da Dungeon, ele disparou. Não para qualquer um; direto para Dante, que estava de costas, exausto demais para reagir a tempo.
THWACK!
O osso acertou em cheio o peito dele. Não perfurou, mas a força cinética foi brutal — um impacto concentrado que rachou costelas e jogou Dante contra a parede de costelas fossilizadas.
CRASH!
Ele bateu com as costas, o ar saindo dos pulmões num suspiro rouco. A visão borrou. O Chronos tentou ativar por instinto, mas o Éter estava esgotado. Nada.
— Merda... — murmurou ele, deslizando para o chão, com o mundo girando. — Isso... doeu para caralho...
Layla estava lá num segundo. Ela se ajoelhou ao lado dele, com as mãos tremendo levemente enquanto tocava o peito dele — regeneração roubada fluindo, curando as costelas quebradas. Mas nos olhos dela... havia algo além de preocupação. Algo faminto, possessivo.
— Dante... — sussurrou ela, baixo demais para Ludmilla ouvir. — Você é meu. Sempre foi.
Ludmilla correu até eles, com a Rapieira ainda na mão.
— Ele está bem? Scarlune, responda!
Mas Dante não respondeu. A dor, o esgotamento, o glitch mental que a presença de Layla/Velvet acionava... tudo colapsou de uma vez. Os olhos dele reviraram e o corpo amoleceu.
Escuridão.
A última coisa que ele sentiu foi o cheiro doce-enjoativo de sangue e antisséptico misturado, e uma voz distante, gentil e infantil:
"Boa noite, Dante. Eu cuido de você agora."
E então, nada.
Parte 10
Escuridão absoluta. Não a da Dungeon, com seu fedor podre de biomassa úmida e ozônio queimado que grudava na garganta como fumaça tóxica. Essa era outra. Mais íntima. Mais cruel. Como se alguém tivesse apagado a luz dentro do crânio de Dante, trancado a porta com chave dupla e jogado a chave no abismo.
O corpo dele jazia no chão de vidro rachado, inerte como uma marionete com fios cortados. O peito subia e descia em respirações rasas e irregulares; o sangue seco no ombro já coagulava em crostas escuras.
Ludmilla deixou a postura vacilar por um segundo — apenas um — enquanto se ajoelhava ao lado dele. Os dedos enluvados, frios mesmo através do couro, pressionaram o pescoço de Dante com precisão cirúrgica. Pulso lá. Fraco, mas teimoso. Firme como o idiota que ele era. As costelas dele estalavam baixinho sob a pele, realinhando-se com um som sutil de lenha verde se soldando no fogo.
Ela ergueu o olhar para a garota de cabelos prateados. Algo naquela figura imóvel, agachada do outro lado do corpo, fazia os instintos de caçadora de Ludmilla eriçarem. Não era o perigo óbvio — as pistolas ainda quentes, os chifres vermelhos recolhidos, o uniforme impecável mesmo depois da carnificina. Era o toque. A forma como os dedos de Layla traçavam o contorno da bochecha de Dante, devagar, possessiva, como quem acaricia uma relíquia antiga que finalmente recuperou.
— Ele só desmaiou — murmurou Layla, a voz baixa, aveludada demais, carregada de uma intimidade que não cabia ali. Seus olhos azuis, frios como gelo seco, suavizaram num brilho perigoso, quase faminto.
Ela não olhava para Ludmilla. Não precisava. Todo o seu mundo, naquele momento, era o rosto pálido de Dante.
— Esgotamento total de Éter. O corpo dele sempre foi... frágil assim quando força habilidades demais.
Ludmilla apertou a empunhadura da Rapieira, com os nós dos dedos branqueando sob a luva. A desconfiança queimava no peito como ácido. Aquela garota não era só uma aluna eficiente. Era algo mais antigo. Mais quebrado.
— Você o conhece — disse Ludmilla, a voz calma, mas cortante como lâmina recém-afiada. Não era uma pergunta; era uma acusação disfarçada de observação.
Layla finalmente ergueu o olhar. Um sorriso pequeno curvou seus lábios — afiado, escondido, o tipo de sorriso que prometia facas na escuridão.
— Conheço — respondeu ela, sem piscar, com os dedos ainda roçando a linha do maxilar de Dante. — Melhor do que ele mesmo.
O silêncio caiu como uma cortina pesada na catedral profana. A gema de osso cristalizado pulsava fracamente no chão, esquecida, lançando reflexos dourados que dançavam nas colunas quebradas. Lá fora, o céu dourado opressivo parecia rastejar mais perto, como se o labirinto inteiro prendesse a respiração, à espera de algo pior.
Dentro da mente de Dante, porém, o inferno não esperava. Ele explodia.
A dor no peito — aquela pontada crônica, aquele vazio que ele sempre disfarçava com piadas — finalmente ganhou rosto. Nome: Velvet.
As memórias não chegaram como flashes gentis. Chegaram como uma represa estourando, uma torrente ácida que queimava cada sinapse, arrastava tudo no caminho e o afogava em verdades que ele havia trancado a sete chaves.
Ele se viu de volta ao Laboratório 42. O ar era sufocante — antisséptico barato misturado com ozônio queimado e o fedor doce de carne podre. Cadáveres de experimentos falhados espalhados pelo linóleo frio como bonecos quebrados. Ele — o Dante de antes, o verdadeiro — caminhava entre eles com passos leves, assobiando baixinho e limpando o sangue das mãos como se fosse apenas o suor de um treino leve. O sorriso torto nos lábios. Os olhos vazios de remorso.
E lá estava ela.
No centro do caos, pés descalços pisando vidro estilhaçado sem um arranhão. Cabelos prateados caindo como uma cascata de luar frio. Olhos curiosos — não assustados, nunca assustados. Velvet — Ativo 00-L — inclinou a cabeça devagar, como uma criança descobrindo um brinquedo novo. Os dedos frios tocaram o rosto dele. O arrepio foi imediato, elétrico, magnético — como se os Éteres deles se reconhecessem antes mesmo dos corpos.
Ela lambeu o sangue do corte no braço dele. Lenta. Deliberada. Não com nojo, mas com fome profunda. Com reconhecimento absoluto. Dois monstros se encarando no espelho quebrado.
As memórias mergulharam mais fundo. Escuridão entre grades enferrujadas e tubos de ensaio rachados. Confissões sussurradas no silêncio entre alarmes distantes.
"Eu fui feito para matar", ele confessou, com a voz rouca. "Eu fui feita para ser comida", ela respondeu, sem lágrimas, sem autopiedade. Apenas fato.
E ela o aceitou. Aceitou o monstro inteiro, sem julgamentos, sem pedidos de mudança. Apenas... amor. Um amor torto, absoluto.
A pior memória veio como um soco no estômago: a batalha contra a Quimera. Dor lancinante — garras rasgando o peito, Éter vazando como sangue quente, o mundo escurecendo. Ele se jogou na frente dela sem pensar. Morreu um pouco ali, com o corpo falhando, só para protegê-la.
E Velvet... Velvet quebrou o Grande Tabu.
Dante reviveu cada segundo em carne viva. Os dentes dela cravando-se em músculo, osso, Éter. Não para matar, mas para salvar. Devorando pedaços dele com uma ternura horrenda, absorvendo tudo para ficar forte o suficiente para carregá-lo nos braços, fugir e sobreviver. O pacto selado em sangue, saliva e lágrimas misturadas.
"Até cairmos no mesmo caixão."
A promessa ecoou como um trovão no crânio, rachando tudo. E então... a realidade se dissolveu como papel molhado na chuva ácida.
Dante não estava mais na Dungeon. Não na Black Box. Estava num limbo sem nome — um mosaico insano de corredores que se torciam como veias vivas. Paredes alternando entre a mansão antiga da Família Scarlune, com seus retratos julgadores, e o laboratório estéril, com luzes fluorescentes piscando.
Luzes púrpuras e cinzentas tremiam doentias, com uma névoa viva rastejando pelo chão. A cada passo hesitante, o piso mudava — ora o teto familiar do quarto de infância, ora o linóleo ensanguentado do Lab 42, ora os corredores da Torre Dantes estilhaçando-se sob os pés e se remontando em padrões errados.
Pensamentos ganhavam corpo. Palavras flutuavam no ar como fumaça venenosa, pairando e acusando:
"Quem é você?" "Monstro." "Assassino." "Covarde."
A risada ecoava — não som, mas vibração sísmica que rachava paredes e fazia o chão tremer. O coração dele disparava em pânico paranoico. Uma sensação constante de olhos nas costas. Algo se aproximando. Passos. Sussurros.
Figuras sombrias nos cantos da visão periférica. Ele girava — nada. Corria — os corredores se alongavam, viravam becos sem saída. E lá estava Ele.
O outro Dante.
Entronizado em metal enferrujado e concreto partido — assustadoramente parecido com os escombros da Torre Dantes. Olhos vazios, sem fundo. Sorriso torto, eterno. Aura vermelha crepitante queimando o ar ao redor com agressão pura, chamas invisíveis lambendo tudo.
O Dante atual — o que brincava, protegia e negava — parou ofegante, com o peito arfando. Olhou para aquele "eu" antigo. O monstro que matava sorrindo. Que incinerava laboratórios sem piscar. Que fez o pacto com Velvet como se fosse natural.
"Você é fraco", sussurrou o outro, a voz ecoando no crânio como estática violenta, arranhando as paredes internas.
— Você é um erro! — rebateu Dante, a voz trêmula, com lágrimas quentes escorrendo — não de medo puro, mas de nojo visceral. Nojo de tocar naquele "eu". — Eu rejeito você!
O outro riu. A vibração rachou o chão ao meio.
Dante correu novamente. Os corredores se tornavam mais hostis — ar pesado com cheiro de Éter apodrecido, flores murchando em vasos invisíveis, perfume de um funeral que nunca aconteceu. Mãos frias surgiam das sombras, fechando seus olhos à força.
Ele morria — sufocado, dilacerado, queimado. De novo.
Acordava no mesmo ponto, o ciclo se repetindo. Morte. Renascimento. Perseguição. O outro sempre lá, no trono, com o olhar decepcionado perfurando como agulhas.
"Você me rejeita? Você sabe que eu sou o original, não é?"
— Sim, eu te rejeito! — Dante gritou para o vazio, a voz quebrando como vidro. — Eu não sou... isso. Não mais!
Mas a dúvida cravava garras profundas. Quem ele era, então? A fragmentação crescia como rachaduras em gelo fino. Duas vozes no crânio, duelando. Dois Dantes. Um implorando o esquecimento; o outro exigindo o retorno.
E no centro do caos, o cheiro doce-enjoativo de sangue de Velvet, sussurrando como vento gelado:
"Você prometeu."
Dante gritou — um grito primal que não saiu da boca, mas explodiu o mundo mental ao meio, rachando tudo em estilhaços.
Lá fora, no mundo real, o corpo dele convulsionou violentamente uma vez, com os músculos travando como se eletrocutados. Os olhos se abriram de repente — vidrados, pupilas dilatadas ao máximo, perdidas em fantasmas invisíveis.
Ludmilla recuou um passo instintivo, a mão apertando a Rapieira e o coração acelerando. Layla sorriu — um sorriso genuíno.
— Bem-vindo de volta — sussurrou ela, com a voz carregada de algo entre o alívio e o triunfo.
Mas Dante não respondeu. Ele olhava através delas, para o nada, como se visse espectros que só ele conhecia.
E dentro dele, a guerra não era mais uma metáfora. Ela começava de verdade.



Comentários