The Fall of the Stars: Capítulo 8 - O Preço da Possibilidade

Atualizado: 3 de fev.
Volume 4 : Fragmentado
Parte 1
O silêncio na caverna subterrânea não era vazio; era uma presença física, densa e oleosa, preenchida pelo perfume enjoativo de flores negras em decomposição e pelo cheiro metálico de sangue divino.
Diante da "Mãe", Anna permanecia imóvel. Seu vestido vermelho-carmesim parecia vibrar contra a escuridão do ambiente, uma chama solitária de ordem no meio do caos biológico. Ela não adotou uma postura de combate clássica. Seus braços repousavam relaxados ao lado do corpo, como uma boneca em uma prateleira, mas seus olhos continham uma tempestade antiga e silenciosa.
— "Irmãzinha"... — A Vida repetiu a palavra, testando o gosto dela na língua ferida, como se fosse um vinho estragado.
Ela inclinou a cabeça. Os cabelos desgrenhados e sujos de lama caíam sobre o rosto pálido. Seus olhos dourados, embora opacos pela exaustão extrema, estreitaram-se, dissecando a garota à sua frente. Ela procurava a assinatura. O código de barras cósmico. A "cor" da alma que todo Astreus compartilha.
— Não... — A Vida sussurrou, e um sorriso confuso, quase ofendido, curvou seus lábios. — Você é uma mentirosa.
Anna franziu a testa, a máscara de calma perfeita vacilando por um milésimo de segundo. — O que você disse?
— Eu nasci do ventre imundo desta Dungeon, sim. Mas minha memória é a memória do Universo. — A Vida começou a caminhar lentamente em círculo ao redor de Anna, como um tubarão ferido estudando uma presa que não sangra. — Eu conheço os nomes. Eu sinto o eco de todos os meus irmãos e irmãs que nasceram depois de mim. O Caos. A Morte. O Destino...
Ela parou diante de Anna, invadindo seu espaço pessoal, os olhos dourados brilhando com uma certeza absoluta.
— Mas você? Você não está na lista. O universo não registrou o seu nascimento. Você é um fantasma. Um erro. Um glitch.
— Eu sou a Possibilidade! — Anna retrucou, a voz subindo um tom, carregada de uma ofensa pessoal genuína. — É por isso que você me irrita, Vida. Você é tão... burocrática. Tão chata. Até aquele merda do Enigma tinha mais criatividade que você!
A Vida parou. A menção ao Enigma fez sua expressão mudar de escárnio para uma compreensão súbita.
— Ah... Entendi.
Ela olhou para cima, como se sua visão de raio-X pudesse atravessar as camadas de rocha e focar em algo distante, na superfície. Depois, voltou o olhar para Anna. A piedade em seu rosto foi a coisa mais insultante que Anna já vira em toda a sua existência.
— Você não é um Astreus completo, é? — A Vida riu baixo, um som seco. — Você é uma metade. Uma fração desesperada que se agarrou à existência.
Anna cerrou os punhos, as unhas cravando na palma da mão. — Eu me dividi. — A confissão saiu por entre os dentes cerrados. — Para que ele pudesse viver. Para que Dante pudesse ter um corpo humano e uma chance real, eu separei minha consciência da minha carne. Ele é o Avatar. Eu sou a Astreus.
— Você fez isso... por ele?
O sorriso da Vida se alargou, tornando-se algo grotesco e maternalmente distorcido.
— Oh, minha pobre criança tola. Então você não o salvou. Você o condenou.
O ar na caverna esfriou cinco graus. Anna sentiu um aperto no peito, uma sensação física de náusea que nada tinha a ver com o cheiro das flores podres.
— Do que você está falando?
— Nós não deveríamos estar aqui. — A Vida abriu os braços, gesticulando para a realidade ao redor. — Este plano, este mundo material... é frágil como vidro. A nossa presença rasga o tecido da realidade apenas por existir. É um tabu. E o Universo, em sua infinita sabedoria mecânica, tenta corrigir os erros.
Ela deu um passo em direção a Anna, a voz baixando para um sussurro conspiratório e venenoso.
— Nós somos ímãs, minha querida "irmã". Nós atraímos catástrofes. Atraímos uns aos outros. Se você, a mente de um Astreus, está sempre ao lado dele... você é um farol. Você está chamando a desgraça para o colo dele 24 horas por dia.
Anna recuou um passo involuntário. A imagem de Dante sorrindo vacilou em sua mente.
— Monstros. Outros Astreus. A própria má sorte... tudo isso gravita em torno de você. — A Vida continuou, impiedosa, martelando cada palavra como um prego no caixão da confiança de Anna. — Você acha que o protege? Não. Você é a maldição dele. Enquanto você estiver ao lado dele, a vida de Dante Scarlune será um inferno eterno. Ele vai sofrer, sangrar e quebrar, apenas porque você é egoísta e decidiu descer para brincar de casinha nesse mundo.
— CALE A BOCA! — Anna gritou.
O controle emocional quebrou. A máscara vacilou. O chão ao redor dela rachou, e o ar tremulou quando objetos inanimados começaram a materializar-se do nada — espadas, lanças e flechas de luz sólida — reagindo ao seu estado caótico.
— Você não sabe de nada!
Mas a Vida não recuou. Ela observou as armas flutuando com um desdém clínico. E então, ela viu. A falha fatal.
— E agora eu vejo a piada completa. — A Vida suspirou, balançando a cabeça em decepção. — Você criou essas armas... mas não há peso nelas. Não há Lei. Nada disso pode me ferir de verdade. É apenas éter moldado, como massinha de modelar.
Os olhos da Vida fixaram-se em Anna com uma clareza terrível.
— Você disse que se dividiu. A mente ficou com você. O corpo ficou com ele. Mas... e a Autoridade?
Anna travou. Não foi medo; foi uma falha de sistema. As dezenas de espadas e lanças que ela havia projetado no ar tremeram violentamente. A realidade ao redor delas oscilou como estática de TV antiga, e, uma a uma, as armas se desfizeram em fumaça inofensiva.
— Você não tem a Autoridade, não é? — A Vida constatou. Seus olhos brilharam, maravilhada com a própria dedução, como um cientista descobrindo o defeito em um espécime. — Você não consegue usar o seu domínio, garota.
A Vida virou as costas. Foi o maior insulto possível. Ela não levantou a guarda, não preparou um contra-ataque. Ela simplesmente tratou Anna como mobília — um objeto inanimado sem importância. O olhar da Mãe se fixou no buraco no teto da caverna, sentindo a pulsação de energia lá em cima.
— Se a Autoridade não está com a mente... ela só pode estar com o corpo. — A Vida passou a língua nos lábios secos, a fome divina retornando. — Está com ele. Dante tem o poder real. Ele é a chave.
— Aonde você pensa que vai?!
Anna explodiu em movimento. Ela materializou uma alabarda longa em suas mãos e avançou, mirando o ombro da entidade para pregá-la no chão.
ZWOOSH.
O golpe atravessou o ar vazio. A Vida não correu; ela se dispersou. O corpo da deusa se desfez em um enxame de mil pétalas negras que giraram no ar e se rematerializaram cinco metros à frente, já com as asas de obsidiana abertas, prontas para decolar.
— Não tenho tempo para brincar com cascas vazias. — A voz da Vida era fria, ecoando sem olhar para trás.
— "Me engana que eu gosto..."
Anna sorriu, mas o sorriso era uma ferida aberta, com os olhos ardendo de fúria. Ela correu atrás da entidade, invocando adagas flutuantes que disparavam como mísseis, forçando a Vida a fazer microajustes no voo.
— Até quando vai ficar aí fingindo ser a Toda-Poderosa?! — Anna gritou, lançando a alabarda como um dardo. A Vida desviou inclinando a cabeça milímetros para a esquerda. — Você está esgotada! Os humanos que você trata como crianças conseguiram te deixar nesse estado patético! A sua tática de absorver seu "filho" não foi estratégia... foi um ato de desespero!
— "Fingindo"? — A Vida parou de subir por um instante, flutuando. Dezenas de lâminas de Anna ricochetearam inutilmente em sua aura defensiva. — Eu não quero ouvir isso de uma boneca oca.
Ela flexionou os joelhos no ar. A pressão aumentou. Ela ia disparar em direção ao teto como um foguete, ignorando Anna completamente.
— Eu vou consertar o erro que você cometeu, Anna. Vou libertá-lo da sua maldição... levando a Autoridade o mais longe possível de você.
Anna mordeu o lábio com força suficiente para sentir o gosto metálico de sangue. Aquelas palavras eram ácido.
“Será que eu realmente estou fazendo ele sofrer?”
Mas então, uma memória auditiva cortou o ruído. Uma risada familiar, irritante e calorosa. "Eu confio em você."
A dúvida não sumiu, mas a raiva a atropelou. Anna transformou sua insegurança em combustível.
— Você fala demais para alguém que está com o tanque vazio! — Anna gritou, freando bruscamente logo abaixo da abertura do teto.
Ela não atacou. Ela largou as armas. Anna bateu as palmas das mãos uma única vez. O som foi seco, nítido. Não foi um aplauso. Foi um gatilho.
— AGORA!
O teto da caverna, que a Vida achava ser sua saída, já estava comprometido. Com o sinal, a estrutura explodiu para dentro.
KABOOM!
Uma chuva de pedras e poeira desceu, mas algo muito mais perigoso veio junto.
— IIIIIHAAAAAAA!
Um vulto desceu em queda livre, girando no ar como um pião humano envolto em uma nuvem densa de fumaça de tabaco e faíscas.
— Vamo' terminar com isso agora, porque eu não quero ter que fazer hora extra! — Chuya berrou, desfrutando do caos absoluto.
Ele sacou a katana no meio do giro. A lâmina não estava apenas quente; estava em brasa branca. — Estilo Fumaça e Espelhos: Guilhotina de Cinzas! Ele mirou a jugular da Vida, criando um arco de fogo que cortou a escuridão da caverna.
E ele não estava sozinho. Ao lado dele, silenciosa e letal, Mio mergulhou como um míssil cinético. Ela não gritou. Ela apenas focou a massa. Sua pele havia mudado; não era mais carne. Ela havia mimetizado a estrutura molecular do "Diamante Negro" das ruínas antigas. Ela se converteu em um aríete vivo, indestrutível e pesado como uma montanha, caindo com a física implacável da gravidade.
A Vida olhou para cima. Pela primeira vez desde que a batalha começou, seus olhos dourados se arregalaram. Não havia cálculo ali. Apenas surpresa genuína.
— O quê...?
— Você achou mesmo que eu viria bater papo sozinha?! — Anna sorriu, um sorriso selvagem e triunfante. — Você pode ficar se achando uma Deusa, mas agora que veio para o mundo dos caçadores... você é só uma presa encurralada!
A batalha final no subsolo começou. Três contra um.
Parte 2
Enquanto o subsolo tremia com o choque de divindades, a superfície da montanha mergulhou em uma calmaria tensa, dolorosa e suspensa. O ar cheirava a ozônio queimado, poeira assentada e sangue seco.
O "Time de Resgate" improvisado movia-se com urgência silenciosa. Tenma, usando sua força física bruta amplificada, carregava Kintoki sobre um ombro e Kai sobre o outro, manuseando-os com a facilidade de quem carrega sacos de plumas, ignorando os gemidos de dor inconscientes do albino a cada passo. Beatrice arrastava Dante para longe da cratera fumegante do Wendigo, depositando-o com um cuidado surpreendente — para os padrões dela — encostado em uma rocha segura, longe da linha de fogo.
— Ei, Sofia! — Beatrice gritou para a curandeira, que corria de um lado para o outro checando os feridos como uma barata tonta. — Traz água ou qualquer coisa! Esses idiotas estão fritando de febre.
Sofia ajoelhou-se ao lado de Dante, as mãos trêmulas rasgando o que restava da manga da camisa dele para verificar os ferimentos. O braço direito — aquele enfaixado que havia devorado e depois disparado a energia estranha — estava quente como uma fornalha, saindo fumaça e com pequenas línguas de chamas negras emanando dos poros.
— O pulso dele está fraco... — Sofia murmurou, o pânico subindo pela garganta como bile. — O esgotamento de éter foi total. Se ele não receber suporte metabólico logo...
— Espera. — Beatrice segurou o pulso de Sofia com firmeza, impedindo-a de aplicar a bandagem mágica. — Olha direito.
Sofia piscou, limpando as lágrimas de nervoso, e focou no braço de Dante. Não havia sangue fresco. Diante dos olhos delas, a pele queimada de Dante não estava apenas cicatrizando; ela estava se retecendo. Pequenas fibras de luz vermelha, finas como fios de seda de aranha, costuravam as feridas abertas em velocidade acelerada. O inchaço diminuía visivelmente a cada respiração dele.
— O que é isso? — Sofia sussurrou, assustada. — Magia de cura? Mas quem está conjurando?
— Ninguém está conjurando. — Beatrice estreitou os olhos, analítica. — Isso é dele. É passivo.
Beatrice tocou a testa de Dante. A febre alta de segundos atrás já estava baixando para níveis aceitáveis.
— Vou te dar uma dica de veterana: a maioria dos caçadores tem um fator de cura acelerado por conta do reforço de éter que usamos no corpo. No entanto... — Beatrice retirou a mão, limpando o suor na saia. — A coisa estranha aqui é que, para curar uma queimadura de éter dessa magnitude, até eu levaria alguns dias de recuperação.
Ela olhou para as faixas chamuscadas no braço do garoto.
— Eu já tinha desconfiado depois que vi as queimaduras que o poder dele causava a si próprio na luta contra o Enigma. Uma pessoa normal viraria churrasco. Ele tem um fator de cura absurdo. Do tipo bem alto.
— Bom, não é de se espantar, já que a habilidade dele é manipulação temporal. — Kaiser aproximou-se, analisando a cena de cima com seu ar superior. — Mas como ele não parece usar o tempo no exterior, significa que a habilidade foi feita para funcionar internamente. Ele deve ter uma compatibilidade biológica monstruosa.
Dante franziu a testa, soltando um gemido rouco. Suas pálpebras tremeram e se abriram lentamente. A heterocromia de seus olhos parecia mais vibrante, quase neon na penumbra.
— ...Ai. — Foi a primeira palavra dele. — Sinto que fui atropelado por um caminhão... que estava sendo dirigido por outro caminhão.
— Dante! — Sofia quase pulou nele, mas se conteve no último segundo. — Você está bem? Consegue se mexer?
Dante ignorou a pergunta e olhou para o próprio braço, abrindo e fechando a mão direita, testando os tendões recém-costurados.
— Bem que ela avisou que isso não era um braço... — Ele murmurou, parecendo surpreso, mas não chocado. — Tô vivo. — Ele forçou um sorriso torto, tentando se sentar e falhando miseravelmente. — E pelo visto, a gente ganhou o round, né? Cadê o Pinóquio gigante?
— Não é óbvio? Eu o transformei em serragem. — Beatrice apontou para si mesma com o polegar, estufando o peito.
— O quê? Peraí, então você pegou a kill no final? Droga, não tenho folga nem no last hit! — Dante coçou a cabeça, frustrado genuinamente como se tivesse perdido uma partida de videogame.
— Bom, você até que se esforçou, mas ainda tem um longo caminho pela frente, garoto. — Beatrice falou com a arrogância de uma mestra. — Se tivesse controlado mais essa sua aura gigantesca, aposto que teria causado mais dano e sofrido menos.
— Controlado mais? Eu já estava fazendo isso! Não deixei ela vazar à toa. — Dante retrucou, ofendido.
— Isso aí não é controle; você só está fazendo o básico, tipo tampar um vazamento com fita crepe.
— Espera... então o que você quer dizer com controle?
— Não é óbvio? Estou falando de como você a manipula para aumentar a densidade de força e defesa em pontos específicos.
— Espera, você consegue fazer isso? Que injusto! Ensina para mim também!
— Não.
— Quê? Por quê?!
— Por que eu deveria ensinar, para começo de conversa? Eu ainda estou com raiva de você.
— Vai lá, qual é! Só uma dicazinha!
Dante começou a rolar no chão de um lado para o outro como uma criança de cinco anos fazendo birra no supermercado. Sofia e Kaiser, que assistiam à cena afastados, ficaram sem acreditar. Aquele era o mesmo cara que parou um ataque divino minutos atrás? Sofia sentiu as bochechas queimarem de vergonha por ter ficado tão preocupada.
"Que fofinho..." — Tenma, que observava de relance sem deixar sua pose de durona cair, pensou.
— Tá bom, tá bom! Eu te ensino depois quando tivermos mais tempo! Agora vê se para com isso, que vergonha alheia, maldito! — Beatrice foi derrotada pelo cansaço mental.
— Yeah! — Dante comemorou, sem entender por que a tática funcionou.
"Que garota fácil..." — Os demais pensaram em uníssono, chocados com a mudança de ideia da pequena e irritada garota punk.
Kintoki roncava alto, desmaiado, mas Kai aos poucos começava a recobrar a consciência.
— Cala a boca, Dante, seu merda! — Kai gritou automaticamente, ainda de olhos fechados. Foi tão reflexivo que até assustou Dante.
— Maldito! Você me conhece há literalmente dias, como já pode ter criado uma reação automática no cérebro para me xingar?!
Kai abriu os olhos, piscando para focar, e olhou ao redor até ver o grupo reunido. — Onde aquele maldito de madeira foi?
— Eu o derrotei. — Bea falou, cruzando os braços.
— Merda!... Como está todo mundo? — Kai então olhou para Sofia, procurando baixas.
— Eu... é, bem... — Sofia gaguejou, sem saber como dar as notícias.
— Kagura e Abel morreram. — Beatrice relatou, direta e fria como um relatório militar. — Yuki, Ludmilla e Kintoki estão caídos aí no chão, mas vivos. O resto provavelmente também está bem, mas não temos certeza. Não conseguimos entrar em contato com Anna, Chuya, Hakurei, Mirai... Mas, de acordo com o professor, só dois foram confirmados mortos até agora.
— Merda, merda, merda! — Kai socou o chão com o punho fraco. — Quer dizer que ela realmente conseguiu matar dois... merda!
Sofia observou a reação dele, surpresa. — Espera... você está incomodado com isso?
— Hein?! — Kai soltou um som agressivo, virando-se para ela.
— Não é nada, esquece!
— É claro que estou incomodado! Se ela matou nossos companheiros, significa que não conseguimos proteger todos. Significa que falhamos em uma vitória completa! — Kai respondeu, o rosto vermelho de raiva e... vergonha?
— Espera... então você via mesmo a gente como companheiros? — Sofia perguntou, genuinamente confusa.
— E daí? Algum problema com isso? — Kai respondeu, ficando ainda mais vermelho.
— Hahaha! Ela está achando estranho porque você é todo esquisito e vive chamando os outros de merda. Não parece alguém inteligente ao ponto de ter sentimentos humanos — Dante comentou, apontando o dedo.
— Vai para o inferno, Dante!
— Sério, por que todo esse ódio contra a minha pessoa? Posso saber?
Enquanto via os dois discutindo, Sofia ficou encarando Kai, confusa. É sério... ele é tão diferente. Ele finge que não se importa com nada, achei que ele nos veria apenas como peso morto... mas ele realmente ficou irritado com as mortes dos outros e nos chamou de companheiros. O que acontece na cabeça dele?
Sofia estava acostumada com os tipos excêntricos de Elysium, mas Kai parecia operar fora de qualquer padrão social conhecido.
— Nós não acabamos aqui. — A voz de Kaiser cortou a conversa fiada. Ele caminhou até a borda, olhando para o buraco de onde vinham os sons abafados de explosões da luta de Anna.
— O que você vai fazer, Imperadorzinho? — Beatrice perguntou.
— Vou descer. — Kaiser virou-se, o olhar sério e a postura rígida. — A batalha principal ainda está acontecendo. Aquela mulher... ela ainda está viva lá embaixo. E eu me recuso a ser o único que foi inútil nessa batalha inteira.
— Falando nisso, quem está lutando agora? — Dante perguntou, sentindo uma vibração familiar vindo do subterrâneo.
— A Vivian estava lutando contra ela. — Sofia respondeu.
— Não... — Dante fechou os olhos por um segundo. — Parece que é a Anna que está lutando agora.
— O quê? Como assim? — Sofia arregalou os olhos.
— Eu consigo sentir... a presença dela está lá embaixo.
— Mas e a Vivian? — Sofia começou a entrar em pânico.
— Relaxa, aquela vampira não morreria. Não para alguém tão fraco. — Kai falou ao fundo, tentando se levantar.
— De qualquer jeito, esquece, Imperadorzinho. Seu estilo de batalha não funciona para linha de frente, deixa que eu vou. — Beatrice interrompeu, protestando.
— Nada feito! — Kaiser explodiu, perdendo a compostura pela primeira vez. — Eu me recuso! Eu realmente não consegui aceitar ter sido colocado nesta sala, mesmo tendo tanto potencial, mesmo tendo sido aceito pelo comitê de disciplina! Achei que seria um desperdício de tempo... mas depois de ver todos lutando, percebi que, sem dúvidas, eu fui o mais inútil aqui! Então, eu me recuso a ficar lambendo feridas como um cão derrotado! Eu vim para ser o número um, não um espectador de camarote!
Kai, que ouvia em silêncio, cuspiu sangue no chão e usou a parede para se forçar a ficar de pé. Suas pernas tremiam como varas verdes, mas ele se manteve ereto por pura força de ódio.
— O playboy tem razão... — Kai rosnou, a voz falhando. — Ficar parado aqui em cima... me dá nojo.
— Vocês são todos suicidas! — Sofia gritou, desesperada, puxando os cabelos. — Tenma, diz alguma coisa! Eles vão se matar!
Tenma, que estava quieta ao lado dos feridos, levantou o olhar. A máscara de delinquente estava estampada no rosto, impenetrável.
— Eu... — Tenma olhou para Dante, que já estava tentando se levantar também, apoiado na rocha, trêmulo. Depois olhou para a entrada da caverna. — Eu acho que Kaiser e Beatrice deveriam ir.
— O quê?! — Sofia engasgou.
— Eu fico. — Tenma cerrou os punhos. — Eu vou proteger o Kintoki, o Dante e os outros que não conseguem andar. — Ela olhou para a pequena lutadora nos olhos. — E ela... quer ir.
Os olhos de Tenma estavam concentrados, fixos nos de Beatrice, como se uma conversa inaudível estivesse acontecendo. No entanto, como um telefone sem fio quebrado, o que foi transmitido e o que foi recebido foram coisas diametralmente opostas.
O que Beatrice ouviu: "Vai lá e arrebenta a cara daquela maldita. Eu sei como você é forte, eu confio que só você tem a potência para vencer essa luta."
O que Tenma queria dizer: "Se ninguém for logo, o Dante vai tentar ir e agora sim ele morre de vez. Eu sei que eu devia ir, mas estou muito preocupada com ele aqui. Bea, por favor, a gente tinha se conectado tanto na luta! Por favor, entenda meus sentimentos e vá lá ajudar! Não precisa lutar de verdade, lembra? É só atrasar o inimigo até o Sensei chegar!"
Elas estavam em páginas, livros e bibliotecas totalmente diferentes.
— Parece que estamos pensando na mesma coisa. — Beatrice falou, sorrindo com confiança.
— Hum. — Tenma sorriu, concordando aliviada.
Elas não podiam estar mais erradas.
Beatrice sorriu. Um sorriso largo, mostrando os dentes caninos afiados. Ela bateu os punhos enluvados um contra o outro.
— Gostei de você, loirinha. — Beatrice se virou para Kaiser. — É isso aí. Eu vou. Se quiser mesmo vir, me siga e tente não me atrapalhar. O resto de vocês, peso morto, fiquem aí e não morram.
— Beatrice, não! — Sofia tentou segurar o braço dela novamente. — É perigoso demais! Aquela coisa lá embaixo é um Astreus!
Dante, que observava tudo em silêncio, soltou uma risada fraca e desistiu de levantar, deitando-se no chão ainda totalmente exausto.
— Deixa eles irem, Sofia. — Ele olhou para Beatrice e Kaiser com os olhos pesados. — Só... tentem não morrer, tá? Eu não tenho energia para correr atrás de vocês agora.
— Pode deixar, faísca. — Beatrice respondeu sem se virar. — Descansa aí. A gente assume o turno da noite.
Kaiser e Beatrice caminharam até a borda do buraco no teto da caverna. O som da batalha lá embaixo era ensurdecedor, uma cacofonia de aço e explosões.
— Pronta para pular no inferno? — Kaiser perguntou, preparando uma flecha de luz no arco.
— Tsk... Inferno? — Beatrice flexionou os joelhos, a aura laranja acendendo. — Eu chamaria isso de chá da tarde.
Mas antes que pudessem pular, o chão sob os pés deles estufou. Não foi um tremor comum. Foi como se a montanha inteira tivesse respirado fundo e prendido o ar.
RUUUUUUUMBLE!
— O que é iss... — Kaiser começou.
— RECUEM! — A voz de Dante, carregada de um instinto súbito e animal, gritou.
BOOOOOM!
A terra onde eles estavam prestes a pular explodiu para fora. Não foi uma queda; foi uma ascensão. Uma coluna de raízes, carne pulsante e pétalas negras irrompeu do subsolo como um vulcão orgânico, jogando Beatrice e Kaiser para trás com a onda de choque.
Do meio da nuvem de poeira e detritos, uma silhueta se elevou, flutuando em asas de pesadelo que bloqueavam o sol.
A Vida havia subido. E ela não estava sozinha. As feridas em seu corpo fumegavam, e seus olhos dourados varreram o grupo de sobreviventes feridos com uma fome renovada e terrível.
Parte 3
Alguns minutos antes, nas entranhas sufocantes da terra, o que se desenrolava não era um duelo polido entre magos, mas uma briga de rua em velocidade supersônica, onde cada segundo custava litros de suor e o esgotamento das reservas vitais de éter.
Anna Lighthart não estava apenas lutando; ela era uma força da natureza em estado líquido. Transformada em um borrão carmesim, ricocheteava violentamente entre as paredes irregulares da caverna, movendo-se com uma agilidade que desafiava a densa massa muscular de seu corpo pequeno. O som de suas botas atingindo a pedra ressoava como disparos de canhão em um túnel.
— Jardim da Criação: Lâmina de Assalto! — O grito de Anna ecoou, carregado de determinação.
Enquanto corria pelas paredes verticais, desafiando a gravidade, sua fisiologia única entrou em combustão. Lipídios e éter foram sacrificados em uma reação química instantânea; o brilho alaranjado atravessou a pele de seus antebraços até que a matéria se solidificasse. Duas espadas curtas e serrilhadas materializaram-se em suas mãos. Ela saltou do teto, girando no ar como um pião letal, enquanto as lâminas cortavam o ar com um assobio agudo.
A Deusa da Vida reagiu por instinto, erguendo uma barreira frenética de raízes colossais que brotaram do chão seco. Mas Anna não era um oponente comum. Ela não desviou; ela atravessou. Com violência bruta, suas lâminas estraçalharam a madeira mágica em uma chuva de lascas. Ao pousar, o impacto rachou o solo. Anna imediatamente emendou um chute giratório carregado de inércia que atingiu as costelas da Deusa, fazendo a divindade recuar com a guarda despedaçada e o ar expulso dos pulmões.
— Chuya, agora! — ordenou Anna, sua voz cortando o estrondo da batalha.
Chuya não hesitou. Aproveitando a brecha milimétrica, ele deslizou por baixo das pernas da Deusa como uma sombra fluida — uma enguia em seu elemento. Ignorando o corpo físico da adversária, seu alvo era o oxigênio e a visibilidade.
— Fumaça Asfixiante: Prisão de Cinzas!
De seus pulmões repletos de tabaco e magia, ele expeliu uma nuvem densa e superaquecida. O nevoeiro não apenas cegou os sensores visuais da Vida, mas queimou suas vias respiratórias divinas com um calor vulcânico. A Deusa cambaleou, tossindo um sangue dourado e viscoso, com os sentidos perdidos no vácuo de cinzas.
No ápice do caos, o teto da caverna pareceu desabar. Mio, com o corpo totalmente transmutado em diamante negro, desceu como um meteoro de obsidiana. O brilho escuro de sua pele refletia as brasas incandescentes da fumaça de Chuya.
— Impacto Geológico!
Mio atingiu os ombros da Vida com o peso de uma montanha concentrado em dois pés. O estalo de ossos divinos — um som seco e sobrenatural — ecoou pelas galerias. A Deusa foi literalmente pregada ao chão; seus joelhos afundaram trinta centímetros na rocha sólida, imobilizados pela massa gravitacional absurda da garota-diamante.
Anna já estava posicionada. Com os pés firmes e o braço direito recuado como um pistão hidráulico, ela canalizou cada gota de éter restante para aquele único ponto. A carne de seu braço sofreu uma metamorfose magnífica: expandiu-se e endureceu em um calor branco, ganhando o revestimento de uma furadeira industrial faminta por sangue.
— ACABOU!
Anna avançou. O golpe final estava a centímetros do esterno da Deusa. Mas, naquele milésimo de segundo que separa a vitória da tragédia, algo gelou sua espinha. Não era um golpe físico ou uma ameaça visível, mas um arrepio frio, como uma carícia de gelo seco em sua nuca. Seus instintos de Astreus gritaram um alerta vermelho inédito.
Alguém estava olhando.
Não era um inimigo escondido nas sombras ou uma armadilha da Black Box. Era um olhar vindo de "fora". Antigo, perigoso e carregado de uma curiosidade clínica, observando-os através das dobras da realidade como peixes em um aquário prestes a quebrar. Anna hesitou. A dúvida é o veneno do guerreiro, e seu golpe vacilou por uma fração de segundo.
A Deusa da Vida, sentindo a mesma pressão cósmica esmagadora, arregalou os olhos dourados em meio à fumaça. Ela reconheceu aquela presença e, na hesitação de Anna, encontrou sua única salvação.
— Sacrifício da Prole.
A Vida não tentou se defender; escolheu a aniquilação controlada. Em um comando mental inaudível, todos os monstros que restavam nos corredores e sob a terra irromperam na caverna. Quimeras deformadas e insetos gigantes entraram em colapso biológico simultâneo. Suas células não atacaram; tornaram-se bombas de ácido e éter instável.
BOOOM!
A caverna transformou-se em um inferno químico. Mio foi arremessada, sua pele de diamante chiando sob o ácido; Chuya foi lançado contra a parede pela onda de choque. Anna, pega no contrapé de sua própria incerteza, recuou os metros preciosos conquistados com tanto custo.
No epicentro do massacre, a Vida se ergueu. Era uma visão de horror: a beleza antiga agora estava coberta de sangue e ácido, com metade do rosto revelando músculos pulsantes e asas de pétalas negras gotejando icor. Ainda assim, ela sorria.
— Vocês quase conseguiram... — sussurrou, fitando os filetes de luz que vinham do teto rachado. — Mas vocês têm medo de morrer, enquanto eu sou a própria vida.
Com um impulso doloroso, ela disparou para cima como um anjo caído em reverso.
— ELA VAI FUGIR! — gritou Mio, lutando entre os escombros.
Anna observou a silhueta sumindo na claridade. A Vida, aproveitando o momento, sussurrou para a garota: "Você é a maldição dele". Anna sacudiu a cabeça, expulsando as sombras com um grito.
— Droga, sua maldita! Volte aqui!
Mas era tarde. Novos monstros invadiram o campo de batalha, impedindo qualquer perseguição imediata.
A Vida rompeu a crosta da montanha como uma ferida aberta. O ar fresco da superfície não trouxe cura, apenas a consciência da mortalidade. Com suas células em necrose, ela precisava de uma bateria de éter pura, ou desapareceria em pó. Seus olhos frenéticos pousaram em Dante, amparado por Beatrice.
A mente da Deusa, distorcida pelo desespero, processou uma nova verdade: se Dante queria desafiar a morte, eles não eram inimigos, eram iguais. Ela não precisava matá-lo, precisava levá-lo consigo para construir seu santuário. Mas, para o sequestro, precisava de combustível imediato. Seu olhar faminto caiu sobre Kaiser. O arqueiro estava paralisado, vibrando com uma aura de éter intocada.
— Desculpe, criança... — sibilou, fechando as asas para cair como um meteoro de carne e fúria. — Mas eu preciso comer.
O impacto foi sísmico. Tenma e Beatrice foram jogadas para os lados pela pressão espiritual. No centro da cratera, o terror travou Kaiser. A Vida caminhou em sua direção, garras estendidas e dentes transformados em agulhas.
— Fique quieto... vai ser rápido.
O erro foi o silêncio de Dante. Ao contrário de Yuki e Ludmilla, ele não revelara o segredo para enfrentar a Vida. Com Kai e Kintoki desacordados, o pior cenário se concretizou: no momento em que o éter da Deusa se espalhou, todos na clareira tentaram medir sua força por instinto. O resultado foi o desespero absoluto; uma vontade avassaladora de encerrar a própria vida tomou conta de quase todos. Apenas Dante, Kai (que conheciam o segredo) e Sofia (que não sentia o éter) permaneceram lúcidos, mas nenhum deles tinha condições de lutar.
A Deusa avançou sem hesitar. Mas o que rasgou o ar não foi o grito do garoto, mas o da própria divindade.
— GAAAAAAAAH!
Ela arqueou o corpo em um espasmo violento, caindo de joelhos. Levou a mão trêmula ao ombro esquerdo. Não havia corte, mas a dor era tão lancinante que sua visão escureceu.
Longe dali, em um pico rochoso, Mirai observava tudo.
— Achei que não iria se envolver — comentou Villa-V, ajeitando os óculos.
— Bom, não pode me culpar por ficar preocupada com a minha irmãzinha, não é?
A garota doce e frágil não estava lá. Em seu lugar, algo frio e implacável segurava uma barra de ferro de construção, enferrujada e bruta. A barra estava cravada profundamente em seu próprio ombro esquerdo. O sangue manchava o uniforme escolar impecável, mas Mirai sequer piscava.
— Link Sensorial: Vodu Reverso. — A voz de Mirai, amplificada magicamente, ecoou pelo vale. Era calma, sádica e protetora.
Ela girou a barra de ferro lentamente dentro da própria carne. Lá embaixo, a Vida gritou em uníssono, sentindo os músculos serem moídos sem toque físico. A dor compartilhada quebrou sua concentração e interrompeu a drenagem.
— Sabe, Deusa... — Mirai continuou, empurrando o ferro um pouco mais fundo, os olhos brilhando com uma lucidez perigosa. — Eu odeio me machucar. Dói muito. Mas ouvir os outros gritando com a minha dor... faz valer a pena.
A Vida olhou para o alto, trêmula. O conceito de um humano usando a própria vida finita como arma contra uma deusa era uma heresia incompreessível.
— Vocês... humanos... — rosnou ela, forçando-se a ficar de pé enquanto a imortalidade lutava contra a agonia de Mirai. — Vocês são todos... doentes.
Em frangalhos, mas movida por uma obsessão divina, ela fixou os olhos em Dante uma última vez.
— Ainda não... Eu ainda não acabei!
Parte 4
Nas entranhas da montanha, a subida não era uma escalada técnica; era uma fuga desesperada de um formigueiro em chamas.
A caverna, desestabilizada pela batalha de titãs, estava colapsando em tempo real. Mas as toneladas de rocha caindo eram o menor dos problemas. A "Prole" da Vida — as abominações biológicas que sobreviveram ao Expurgo químico — havia entrado em um frenesi suicida sem o controle da mestre. Centopeias do tamanho de trens de carga e raízes carnívoras brotavam das paredes, tentando arrastar os invasores para o abismo.
— SAIAM DA FRENTE! — Anna gritou, materializando uma serra circular de osso e aço vibrante em seu antebraço, fatiando um besouro blindado que bloqueava o túnel principal.
Atrás dela, Chuya girava no ar, a Katana de Fogo criando um vórtice de cinzas e brasas que mantinha uma onda de insetos afastada.
— Que persistência chata! — Chuya reclamou, decapitando uma planta carnívora que tentou morder sua perna. — Calma aí, "Irmãzinha"! Pra que esse pânico todo? A gente quebrou a chefona lá embaixo! A bateria daquela "Deusa" acabou!
Anna não parou de correr. Ela saltou sobre uma fenda no chão, chutando a mandíbula de uma quimera no processo para ganhar impulso.
— Você é idiota?! — O grito dela competiu com o rugido do desmoronamento. — Você não entendeu nada! Nós não vencemos porque somos fortes! Vencemos porque ela é uma criança pilotando um caça supersônico sem manual de instruções!
Mio veio logo atrás, usando o corpo de diamante negro como aríete vivo para atropelar uma parede de espinhos, abrindo caminho para os dois.
— Como assim, Anna? — Mio perguntou, ofegante, esmagando o crânio de um monstro contra a parede. — Ela parecia bem experiente pra mim! Quase nos matou!
— Escutem enquanto correm! — Anna ordenou, a voz trêmula de esforço e pavor. — Um Astreus não desce para este plano com poder total! O Universo não aguenta! Se ela usasse 100%, a realidade rasgaria como papel molhado!
Uma raiz tentou agarrar o tornozelo de Anna. Ela a cortou sem olhar, por puro reflexo.
— Nós chegamos aqui limitados! Temos um "tanque" de Éter finito e nossa Autoridade! Só isso! Normalmente, quando nos fundimos a um humano, usamos as memórias dele como software para otimizar o uso do poder! Mas a Vida... o avatar dela nasceu agora! Ela não tem biblioteca!
Eles chegaram a uma seção vertical do túnel. Anna cravou as lâminas na parede e começou a subir, o coração martelando contra as costelas.
— Ela é uma tela em branco! Ela não sabe gerenciar recursos!
— Então ela é burra? — Chuya perguntou, impulsionando-se com explosões de fumaça para subir mais rápido.
— Não! Ela é ineficiente! — Anna rosnou, olhando para cima, para a luz distante e cruel da superfície. — Vocês não notaram? A Aura de Medo, a Regeneração Instantânea, o Controle da Natureza... ela mantém tudo isso ligado ao mesmo tempo! São habilidades passivas que consomem uma quantidade obscena de combustível por segundo!
Anna alcançou a borda de uma plataforma, puxando Mio para cima com força.
— É como deixar todas as luzes de uma mansão acesas ao meio-dia! Nós a pressionamos até o limite porque ela estava desperdiçando energia!
O trio parou por um segundo, olhando para o buraco de luz lá em cima. O terror na voz de Anna fez o sangue de Chuya gelar.
— E isso é o pior cenário possível. Porque a dor ensina, Chuya. Se ela perceber... se ela entender que precisa desligar as passivas para concentrar o Éter em um único ponto...
Anna estremeceu, limpando o sangue do rosto.
— Aquele "restinho" de energia que ela tem? É o suficiente para vaporizar uma montanha inteira. Temos que chegar lá antes que ela aprenda a ser eficiente.
Na superfície, a previsão de Anna se concretizava com precisão matemática aterrorizante.
A Vida estava de joelhos, presa na agonia fantasma transmitida por Mirai. Mas, em vez de gritar, ela ficou em silêncio absoluto. Seus olhos dourados, injetados de sangue e veias negras, analisavam o próprio corpo interno.
"Por que... estou vazia?"
Ela sentia o Éter esvaindo-se como água em um balde furado. Não pelos ferimentos, mas pela própria manutenção da existência. Manter a pressão divina sobre os humanos. Manter as flores vivas. Manter a imortalidade ativa contra a dor. existiam vários…
"Ah..."
A compreensão iluminou sua mente divina como um relâmpago.
"Eu sou um desperdício."
Ela olhou para Mirai, que ainda girava o ferro na própria carne lá no alto, impassível.
— Chega de sentir — a Vida sussurrou.
Ela tomou uma decisão. Em um único pulso mental, ela desligou os disjuntores da divindade.
A Aura da Vida? Desativada. A Regeneração Passiva? Desativada. A Conexão com a Natureza? Cortada.
Toda a energia que estava sendo gasta para manter sua divindade "ativa" foi recolhida, drenada dos sistemas periféricos e comprimida no centro de seu peito.
E então, ela a expeliu de uma vez só.
— EXPURGO.
BOOOOM!
Não foi uma explosão de fogo. Foi uma onda de choque de pura pressão atmosférica e mana bruta, uma repulsão omnidirecional.
No pico rochoso, Mirai foi atingida como se tivesse levado um tapa de um gigante invisível. Ela e Villa-V foram arremessadas para trás, voando antes de colidirem violentamente contra as rochas distantes.
O Elo Sensorial se partiu instantaneamente.
— Livre... — A Vida suspirou, sentindo a dor desaparecer junto com sua divindade passiva.
Mas ela estava fraca. O Expurgo havia queimado o resto de suas reservas. Ela precisava de recarga. Agora. Seus olhos focaram na fonte mais próxima de Éter de alta qualidade.
Kaiser.
O "Imperador" ainda estava caído, tentando se recuperar da paralisia causada pelo terror anterior. Ele viu a Deusa se virar para ele. Mas dessa vez, não havia aura dourada. Não havia pressão divina majestosa. Havia apenas uma mulher pálida, suja, ferida e faminta, correndo em sua direção com a velocidade e o desespero de um animal encurralado.
— Fica longe! — Kaiser tentou levantar o arco, mas seus dedos estavam dormentes, sequelados pelo contato com a aura anterior.
A Vida saltou sobre ele. Ela não usou magia. Ela usou as unhas e o peso do corpo.
Ela o derrubou no chão, prendendo os braços dele com os joelhos. Kaiser gritou, debatendo-se inutilmente, o orgulho nobre sendo esmagado pela realidade suja e visceral da sobrevivência.
— Me dê... — Ela rosnou, animalesca.
Ela cravou os dentes fundo no pescoço dele, bem na junção vulnerável da clavícula.
— AAAAAAHHHH! — O grito de Kaiser foi um gorgolejo de horror.
A Vida sugou. Ela bebeu o Éter dele direto da fonte, drenando a mana acumulada no sangue nobre do arqueiro. Não foi o suficiente para restaurar sua divindade plena, mas foi o suficiente para tirar seu sistema do vermelho crítico.
Ela o soltou. Kaiser caiu para o lado, pálido, vivo, mas violado e seco.
A Vida se levantou, limpando o sangue da boca. Ela olhou para o céu.
CRACK... CRACK...
O teto da Black Box estava ruindo. O céu dourado artificial estava descascando como tinta velha. Ela não tinha mais energia para sustentar a dimensão. O mundo estava acabando.
Ela tinha duas escolhas. Usar o pouco que roubou de Kaiser para criar uma nova criatura e tentar lutar... ou reativar suas passivas e fugir.
"Não..."
Ela olhou para Dante, caído ao longe.
"Eu vim aqui por ele. Eu não vou embora de mãos vazias."
Ela tomou a decisão. A Vida canalizou tudo o que tinha nas pernas, ignorando a dor muscular.
— SAIAM DA FRENTE!
Ela disparou. A velocidade foi tanta que o chão sob seus pés estourou em cascalho. Tenma tentou entrar na frente, mas suas pernas ainda estavam vacilantes e lentas. Beatrice, mesmo com sua raiva e ego, viu-se completamente imóvel diante da aceleração final da deusa.
Ela chegou a Dante.
Estendeu a mão, as garras roçando o tecido da jaqueta dele.
— Você vem comi...
VWOOP.
O som de ar sendo deslocado violentamente foi a única coisa que se ouviu.
A mão da Vida parou no vazio. Agarrando o nada.
Diante dela, surgido do éter, não estava Dante.
Estava um homem alto, com olheiras profundas de quem não dorme há uma década e um cigarro apagado pendurado nos lábios. Ao lado dele, agarrada à sua perna como uma sombra tímida, estava Miguel, a fumaça do teleporte ainda dissipando ao redor deles.
Ryunosuke Azazel olhou para a Deusa. Ele não parecia impressionado. Ele parecia cansado. Entediado. E absolutamente furioso.
— Sabe... — Ryunosuke tirou o cigarro da boca e o jogou no chão, esmagando-o com o sapato social. — Eu tenho uma regra muito estrita sobre não bater em mulheres.
Ele fechou o punho direito. O ar ao redor da mão dele começou a distorcer, vibrando, não por magia, mas pela tensão muscular absoluta de alguém que segurou sua força por tempo demais.
— Mas você... você não é uma mulher. Você é um erro pedagógico.
A Vida tentou recuar, sentindo o perigo primal que emanava daquele humano, mas era tarde demais. O espaço ao redor deles já estava fechado.
— RESTRIÇÃO CELESTIAL: LIBERAÇÃO ÚNICA.
Ryunosuke puxou o braço para trás.
— A AULA ACABOU!
Parte 5
Minutos antes, no corredor desenhado por Shimura
O grupo corria pelos corredores de nanquim e hachuras, guiado por Ryunosuke. O passo do professor era calmo, irritantemente metódico, contrastando com o pânico suado de Daiki e a curiosidade afiada de Layla.
— Professor... — Daiki ofegou, tentando ajeitar a gravata do terno, que já estava torta. — Tem uma coisa que não bate. O senhor era um Caçador Classe S, Rank Ouro. Eu li sobre o senhor nos fóruns obscuros de Elysium. Chamavam o senhor de "O Demônio da Destruição".
Layla, correndo ao lado com a graça de um felino, sorriu maliciosamente, analisando as costas largas de Ryunosuke.
— É verdade? Se o senhor é essa lenda toda, por que a gente está correndo atrás da garota tímida para resolver isso? Por que não simplesmente... explode tudo?
Ryunosuke suspirou, sem diminuir o passo. Ele tirou mecanicamente o maço de cigarros do bolso, apenas para perceber que estava vazio. Amassou o pacote com frustração e o jogou para trás, pegando uma caixa fechada em outro bolso.
— Vocês acham que poder é tudo? — Ele olhou de soslaio para eles, com os olhos cansados. — No dia em que decidi virar professor, eu fiz uma escolha. Eu não queria ser um guerreiro inalcançável que os alunos admiram de longe como uma estátua. Eu queria ser o solo onde eles crescem.
Ele tocou a parede da Black Box, sentindo a vibração da dimensão.
— Para criar este espaço... para manter uma sala de aula infinita, onde o tempo e a física obedecem às minhas regras pedagógicas sem drenar minha vida em minutos... eu precisei de um combustível que meu corpo físico não tinha.
— Então o senhor fez um Voto de Restrição — Layla concluiu, os olhos brilhando ao entender a mecânica.
— Exato. — Ryunosuke assentiu. — Eu impus uma regra absoluta na minha própria alma: "Eu jamais usarei meu éter para causar dano ofensivo novamente". Em troca dessa abdicação total de violência, o universo me deu controle absoluto sobre o ambiente e recursos infinitos para ensinar.
Daiki parou, chocado, quase tropeçando nos próprios pés.
— O senhor... desistiu de tentar ser um dos Top 10 do mundo... para dar aula?! O senhor é maluco!
— Talvez. Prioridades mudam, garoto. — Ryunosuke parou diante da porta onde Miguel estava escondida. — Mas toda regra tem sua exceção. E é aí que entra a Miguel.
— Qual é o poder dela? — Daiki perguntou, tremendo. — Ela invoca um buraco negro? Um dragão nuclear?
— Não. Ela se teleporta. — Ryunosuke abriu a porta. — E ela pode levar passageiros.
O silêncio foi constrangedor.
— Só... isso? — Layla franziu a testa, decepcionada. — Como um Uber mágico vence uma deusa?
Megumi, que estava logo atrás, deu um tapa na nuca de Daiki e suspirou.
— Vocês são lentos. A Miguel é só o transporte para furar a defesa dela. A arma... ainda é o Ryunosuke.
Ela olhou para o irmão com um misto de orgulho e irritação.
— Ele fez uma exceção no Voto. Uma única cláusula de escape na regra de "Não Violência".
Ryunosuke sorriu, estendendo a mão para a garota encolhida no canto, convidando-a para o palco.
— A cláusula é simples: se for para proteger a vida dos meus alunos... — Ryunosuke fechou o punho, e o ar ao redor estalou como um trovão seco. — Eu tenho permissão para desferir um único soco. Com 100% da potência acumulada de todos os anos que fiquei sem lutar.
Presente
A mão da Vida parou no ar, centímetros longe do rosto de Ryunosuke. O instinto divino dela gritou algo que ela não sentia há eras, algo mais primitivo que o medo: morte iminente.
— RESTRIÇÃO CELESTIAL: LIBERAÇÃO ÚNICA.
Ryunosuke não gritou. Ele apenas sussurrou a sentença como quem dá uma nota final em uma prova. O movimento do braço dele foi simples. Um direto de direita. Básico. O primeiro soco que qualquer boxeador amador aprende na primeira aula.
Mas a física por trás dele era uma anomalia. Anos de poder Classe S, represados, comprimidos e guardados sob o selo do voto, foram liberados em um microssegundo.
O punho conectou. Não com o rosto da Vida, mas com o ar, centímetros antes dela.
KRA-KOOOOOOOOOOOM!
O som não existiu no momento do impacto; ele foi deixado para trás. O espaço à frente de Ryunosuke se dobrou. A pressão atmosférica se transformou em uma parede sólida de vácuo e força cinética. A Vida não foi empurrada; ela foi atropelada pela própria atmosfera.
Seu corpo divino se deformou em câmera lenta. Costelas quebraram, órgãos explodiram, a pele se rasgou pela pura fricção do ar. Ela foi lançada para trás como uma bala de canhão humana, atravessando a floresta de pedra, atravessando a montanha, atravessando tudo o que estava no caminho.
Mas o soco não parou nela. A força viajou. Ela atingiu a parede da Black Box — a fronteira da realidade artificial.
CRACK!
O céu dourado se estilhaçou como um espelho de banheiro atingido por uma marreta. A dimensão inteira gritou. As runas de sustentação falharam em cascata. O mundo, que já estava frágil, não aguentou o peso daquele único golpe "protetor".
— A AULA ACABOU! — O grito de Ryunosuke foi a última coisa que ouviram antes de o mundo ficar branco.
BOOOOM!
O estrondo sacudiu a ilha flutuante inteira de Babylon. A parede leste do Ginásio Principal, feita de concreto reforçado com magia de contenção, explodiu para fora. Poeira, destroços e corpos de alunos foram cuspidos de volta para a realidade, aterrissando no piso de madeira polida em meio a uma nuvem de fumaça e confusão.
— O QUE FOI ISSO?! — Um aluno do quarto ano gritou da arquibancada, cobrindo a cabeça.
O cenário no centro da quadra era de guerra. Dante, Kintoki, Kai, Beatrice... todos estavam espalhados pelo chão, sangrando, inconscientes ou gemendo. Ryunosuke estava de pé no centro, o único ereto. Seu braço direito fumegava, a manga do jaleco completamente desintegrada, a pele vermelha e inchada. Ele respirava com dificuldade, o rosto pálido. O "Soco Único" cobrava seu preço metabólico imediato.
— MÉDICOS! — Ryunosuke berrou, a voz falhando. — EQUIPE DE TRAUMA, AGORA!
Baiken e sua equipe já corriam com macas flutuantes, mas antes que pudessem tocar nos alunos...
VWOOOM.
Uma pressão horrenda, fria, úmida e doentia desceu sobre o ginásio. Os alunos do quarto ano, veteranos experientes acostumados a caçadas, caíram de joelhos, vomitando ou paralisados pelo medo primal. Os médicos travaram no lugar. Até Ryunosuke sentiu as pernas tremerem, a exaustão lutando contra o instinto de alerta.
No meio dos escombros da parede destruída, algo se mexeu. A Vida se levantou.
Ela não deveria estar viva. Seu peito estava afundado em uma cratera côncava, o braço esquerdo fora arrancado na raiz, o rosto era uma máscara irreconhecível de sangue e osso exposto. Mas ela estava de pé. E ela estava rindo.
— Hahahahaha... — O som era gorgolejante, úmido, insano. — Eu achei... eu, a própria vida... realmente achei que ia morrer desta vez.
A aura que emanava dela não era mais dourada e maternal. Era roxa, distorcida, "errada". Era a sensação de um câncer que se recusa a parar de crescer mesmo sob quimioterapia. Era a imortalidade em sua forma mais grotesca e obstinada.
— Como...? — Anna, que havia caído perto dali, tentou se levantar, mas o medo a pregou no chão. — Depois daquilo tudo... ela ainda tem força para rir?
A Vida olhou para Ryunosuke, depois para Dante. Seus olhos brilhavam com uma promessa que fez o sangue de todos congelar.
— Vocês humanos... são crianças muito travessas.
Anna forçou o corpo a se mover, a mão trêmula puxando uma faca da bota. — Eu tenho que acabar com isso! Agora!
Mas a Vida foi mais rápida.
— Mas por hoje... — A Deusa levou a mão restante ao próprio abdômen, sorrindo. — ...eu já brinquei o suficiente.
SQUELCH. RIIIIIP.
Com um movimento violento e suicida, ela enterrou as garras na própria barriga e rasgou a carne para cima, abrindo-se como um casulo. Sangue negro e dourado jorrou no chão do ginásio. Não houve grito de dor, apenas um suspiro de alívio extático.
De dentro da ferida aberta, algo saiu. Não um bebê. Um monstro. Uma criatura alada, feita de ossos ocos e membranas mucosas, com o rosto sem olhos e dentes de agulha. Era a última reserva de éter que ela roubou de Kaiser, moldada em uma cápsula de fuga viva.
A criatura guinchou, abriu as asas úmidas e agarrou a carcaça da "Mãe" pelos ombros com suas garras afiadas.
— N-não deixem ela fugir! — Ryunosuke tentou dar um passo, mas seu corpo colapsou, o joelho batendo no chão pelo rebote do soco.
A criatura bateu as asas, levantando voo com uma rajada de vento podre e miasma. Ela carregou a Vida para o buraco na parede, em direção ao céu aberto de Babylon. Anna correu até a borda do buraco, estendendo a mão para tentar agarrar o pé da criatura, mas seus dedos fecharam no vazio.
A Vida, pendurada nas garras do monstro, olhou para baixo. Seus olhos encontraram os de Anna.
— Não fique triste, irmãzinha... — A voz dela ecoou na mente de Anna e de Dante, clara como cristal, invadindo seus pensamentos. — Eu vou voltar. E quando eu voltar...
Ela olhou para Dante e sorriu com os dentes sujos de sangue.
— ...eu vou levar todos vocês para o meu Paraíso.
A criatura disparou para as nuvens, desaparecendo no horizonte como uma mancha de tinta no céu. Anna caiu de joelhos na beira do buraco, olhando para o céu vazio, a respiração presa. A frase da Vida — "Você é a maldição dele" — ecoava em sua cabeça, mais alta que os gritos dos médicos e o caos ao redor.
Dante, sendo atendido por Baiken no chão do ginásio, virou o rosto com dificuldade. Seus olhos encontraram as costas trêmulas de Anna. Ele queria chamá-la. Queria fazer uma piada idiota. Queria dizer que estava tudo bem. Mas a escuridão do cansaço o puxou de volta antes que ele pudesse falar.
A Classe 13 havia sobrevivido ao teste. Mas a guerra... a guerra tinha acabado de ser declarada.
Parte 6
O céu sobre a ilha flutuante de Babylon não estava apenas nublado; parecia uma placa sólida de chumbo derretido, sufocando o mundo lá embaixo. Uma chuva fina, gelada e cortante chicoteava o "Pátio do Adeus", o setor isolado reservado para as cerimônias fúnebres da academia.
Não havia multidões. Não havia discursos heroicos. Havia apenas a Classe -13, alguns professores de guarda-chuva preto e o silêncio. Um silêncio que era interrompido apenas pelo chiado da chuva no concreto e pelo zumbido elétrico, grave e monótono, do incinerador de alta potência ao fundo.
Diante do grupo, dois caixões de madeira polida, mogno escuro, repousavam sobre pedestais de mármore branco. Eles eram bonitos. Eram solenes. E eram... ofensivamente leves.
Sofia apertava o tecido do próprio vestido preto com tanta força que seus dedos pareciam garras, com os nós brancos pela falta de circulação. Seus olhos, vermelhos e inchados, estavam fixos no caixão da esquerda. Não havia um corpo ali dentro. A "Mãe" e sua fome biológica não deixaram nada para enterrar. Dentro da caixa de veludo, repousava apenas um caderno de anotações em espiral, com a caligrafia garranchosa e apressada de Abel, e uma caneta esferográfica com a tampa toda mordida — a marca de sua ansiedade constante.
No caixão da direita, não havia a guerreira. Havia apenas uma faixa de cabelo vermelha e um par de luvas de combate surradas, ainda moldadas no formato dos punhos fechados de Kagura.
— É tão... pequeno — Sofia sussurrou. A voz saiu quebrada, como um caco de vidro na garganta. — Eles eram tão barulhentos... ocupavam tanto espaço... tão cheios de vida... e agora sobraram só... objetos?
Ao lado dela, Beatrice mantinha a postura rígida de um soldado em guarda. Ela se recusava a usar guarda-chuva. A água escorria por seu cabelo, misturando-se a qualquer lágrima que ela ousasse deixar escapar, tornando-as invisíveis. Ela não soluçava. Seus olhos estavam secos e furiosos, fixos nas chamas azuis que começavam a lamber a madeira dos caixões, mas sua mandíbula estava trancada com tanta força que um músculo pulsava violentamente em sua bochecha.
— Tsk... — Beatrice estalou a língua, desviando o olhar para o chão. A raiva era o único escudo que ela tinha contra a dor da despedida. — Idiotas...
Um pouco mais afastado, sob a sombra projetada de um cipreste, Miguel observava. Ele usava o uniforme padrão, já encharcado até os ossos, mas parecia não ligar para o frio. Seus olhos estavam estranhamente focados na fumaça negra que começava a subir das chaminés, dissolvendo-se nas nuvens cinzentas. Ele não demonstrava tristeza nem revolta. Sua expressão era de um vazio contemplativo, matemático. Como se estivesse calculando o peso daquelas almas e o custo daquela guerra, tentando entender a equação da morte.
A cerimônia acabou sem palavras. Apenas o som do fogo e da chuva lavando as cinzas.
Horas depois. Hospital Central de Apocalypse. Ala de Segurança Máxima.
O ambiente mudou drasticamente. Do cinza melancólico da chuva para o branco estéril, agressivo e ofuscante das luzes fluorescentes. O cheiro de terra molhada foi substituído pelo odor forte de éter hospitalar, iodo e produtos de limpeza industrial. A sala de interrogatório era fria, mantida de propósito a 18°C. Uma mesa de metal escovado, aparafusada ao chão, separava dois homens.
De um lado, Ryunosuke Azazel.
O professor estava irreconhecível. O jaleco habitual e a postura relaxada tinham desaparecido. Ele vestia uma roupa de paciente azul-clara, fina e amassada. Seu braço direito estava imobilizado em um gesso grosso e complexo, coberto de runas de supressão médica brilhando em azul suave, e preso ao peito por uma tipoia. Seu rosto estava pálido, quase cinza. A barba por fazer e as olheiras profundas sob seus olhos pareciam contusões antigas. Ele olhava para o reflexo distorcido na mesa de metal. Na mão esquerda, a única livre, ele girava um maço de cigarros amassado entre os dedos — um vício que ele não podia saciar ali dentro.
Do outro lado, Blade Scarlune.
O Presidente do Conselho Estudantil não vestia roupas de hospital, nem o uniforme escolar comum. Ele usava um sobretudo vermelho, impecável, com a braçadeira dourada do Conselho no braço esquerdo. Sua postura era ereta, autoritária, ocupando o espaço com a gravidade de um juiz. Ele não estava ali como irmão de um aluno. Ele era a lei absoluta da escola.
Blade tocou a tela de um tablet holográfico com a ponta do dedo enluvado, ativando a gravação.
— Registro Oficial do Conselho Estudantil. Incidente da Black Box: Pós-Operatório. — A voz de Blade era um barítono calmo, grave e cirúrgico, sem qualquer calor humano. Ele deslizou o dedo pela tela, lendo os dados com uma frieza que cortava o ar. — Relatório de danos: a estrutura da Black Box foi comprometida em 87%. O Ginásio Leste requer reconstrução total. Mas o custo material é irrelevante.
Blade levantou os olhos. Eram olhos escuros, pesados, que pareciam pesar a alma de quem encaravam, procurando falhas.
— Vamos aos recursos humanos. — Ele fez uma pausa, deixando o silêncio pesar. — Dois alunos confirmados mortos em combate: Abel e Kagura. Um aluno, Kaiser, em estado de coma induzido por drenagem total de éter e trauma na rede neural, com prognóstico reservado sobre danos permanentes ao núcleo de éter. Dois alunos, Luck e Kurokawa, transferidos para a ala psiquiátrica de isolamento com sintomas de abstinência espiritual severa e trauma psicológico profundo.Os demais membros da classe sofreram ferimentos leves e já foram liberados
Blade pousou o tablet na mesa. O som seco do vidro contra o metal ecoou na sala silenciosa como um tiro.
— Professor Ryunosuke Azazel. A responsabilidade pela segurança, integridade e evolução da Classe -13 foi confiada unicamente a você. Você tinha autoridade total e irrestrita sobre o ambiente de teste. — Blade se inclinou levemente para a frente, cruzando as mãos sobre a mesa. — O que você tem a dizer em sua defesa? Foi uma falha de cálculo? Uma invasão imprevisível? Ou incompetência?
Ryunosuke parou de girar o maço de cigarros. Ele olhou para o teto branco por um longo momento, soltando um suspiro cansado e trêmulo que parecia vir do fundo de seus pulmões danificados. Ele poderia culpar a "Mãe". Poderia culpar a anomalia do sistema, o destino, a sorte. Poderia dizer que fez o melhor que pôde com a Restrição Celestial limitando seus movimentos. Mas ele não fez isso. Ele baixou o olhar e encarou Blade nos olhos.
— Eu falhei.
A voz de Ryunosuke saiu rouca, arranhada como lixa. Não havia hesitação nem autopiedade.
— Eles eram minha responsabilidade. Eu sou o adulto na sala. Eu sou o professor. Se um aluno morre sob minha tutela, não importa se foi um deus, um demônio ou um inseto que o matou. A culpa é minha.
Ryunosuke apertou o maço de cigarros na mão esquerda até amassá-lo completamente, destruindo os cilindros de papel e tabaco.
— Eu fui lento. Eu fui fraco. E eu subestimei a profundidade do abismo onde joguei aquelas crianças. Não há defesa, Presidente. Apenas o fato.
Blade sustentou o olhar do professor por dez longos segundos. O silêncio era opressivo, quase físico. Ele avaliava não apenas a resposta, mas a integridade moral do homem à sua frente. Finalmente, Blade tocou o tablet. A luz vermelha da gravação se apagou.
— O Conselho vai deliberar sobre sua punição oficial. Pode variar de suspensão temporária a expulsão desonrosa do corpo docente e prisão na Torre de Contenção.
Blade se levantou. A capa preta farfalhou com o movimento brusco. Ele caminhou até a porta com passos duros, mas parou com a mão na maçaneta de metal frio, sem olhar para trás.
— Meus irmãos estão nessa classe, Azazel. Dante. Vivian. Kai. — A voz de Blade baixou um tom. A formalidade burocrática desapareceu, substituída por uma lâmina de ameaça pessoal, afiada e perigosa. — Eu aprovei sua metodologia pouco ortodoxa porque ela produz resultados. Mas se você falhar de novo... se mais um caixão vazio sair daquela sala de aula...
Blade girou a cabeça ligeiramente por cima do ombro. O olho visível brilhava com uma pressão espiritual contida que fez as luzes fluorescentes da sala piscarem e zumbirem.
— ...eu mesmo assumirei o comando. E garanto que você não vai querer ver como eu educo.
A porta se abriu e se fechou com um clique seco. Ryunosuke ficou sozinho no silêncio estéril, olhando para o maço de cigarros destruído em sua mão esquerda, sentindo o peso esmagador de dois fantasmas sentados em seus ombros.
Parte 7
Dias depois. Ginásio de Treinamento Secundário.
O som de impacto não era rítmico; era uma punição contínua. O eco das pancadas reverberava pelas paredes metálicas do galpão vazio, misturando-se ao cheiro forte de suor, ferrugem e ozônio queimado.
No segundo andar, protegidas pelo vidro blindado da sala de observação, duas figuras femininas assistiam à cena lá embaixo com a frieza de quem observa ratos em um labirinto.
— Eles estão nisso há quatro horas. Sem pausa para água, sem pausa para respirar — Yuki comentou, apoiando o queixo na mão e soltando um bocejo longo. — Sinceramente, a testosterona masculina é uma fonte de energia inesgotável. E irritante.
Ao lado dela, Mirai girava um pirulito na boca, com seus olhos analíticos fixos nos dois garotos.
— Ara... não seja má, Yuki — Mirai sorriu, mas o sorriso não alcançava seus olhos, que permaneciam gélidos. — Eles têm seus motivos. O orgulho deles não foi apenas ferido; foi mastigado, digerido e cuspido na lama por aquela Deusa.
Lá embaixo, Dante estava parado na frente de um bloco maciço de concreto reforçado. Ele não estava socando freneticamente. Ele estava imóvel, segurando o pulso direito com a mão esquerda, com os olhos fechados em concentração absoluta.
"Controle...", Dante pensava. O suor escorria por sua testa, ardendo nos olhos. A voz de Beatrice ecoava em sua mente como um mantra irritante: "Isso não é controle, é fita crepe segurando uma represa."
Ele precisava comprimir. Não deixar vazar.
— HAA!
Dante liberou o fluxo em um único ponto de impacto.
CRACK... PFFFT.
Não houve explosão. O bloco de concreto não voou em pedaços. Ele simplesmente colapsou internamente, com sua estrutura molecular desintegrada, transformando-se em uma pilha de pó cinza fino que escorreu até o chão como areia. Dante olhou para a própria mão, frustrado, chutando a pilha de pó.
— Ainda não... — Ele resmungou, limpando a fuligem. — Não parece que eu estou fazendo algo diferente de um soco reforçado. Eu só estou... batendo mais forte. Falta alguma coisa.
No outro canto do ginásio, a atmosfera era puramente assassina. Kai Scarlune não estava treinando técnica. Ele estava punindo a própria existência. Sua perna direita, ainda enfaixada por baixo da calça de treino, tremia visivelmente a cada chute que ele desferia no boneco de treino feito de liga de titânio. O metal já estava irreconhecível, amassado e torcido pela gravidade localizada que ele aplicava a cada golpe.
— Mais forte... — Kai rosnou, com os dentes trincados, ignorando de propósito a dor aguda nos nervos que ainda se recuperavam da drenagem da Vida.
A imagem de Dante o salvando passava em loop na sua cabeça. A imagem da Vida escapando enquanto ele estava caído, inútil. A humilhação queimava em suas veias muito mais que o ácido lático nos músculos.
— Eu não vou... ser salvo... por aquele lixo de novo!
VWOOM!
Um chute circular carregado de distorção espacial atingiu o pescoço do boneco. O metal não aguentou. A cabeça do boneco foi arrancada, disparada como um projétil de canhão contra a parede oposta, onde ficou incrustada no concreto.
De volta à sala de observação, Mirai tirou o pirulito da boca com um estalo suave.
— O relatório já foi enviado, irmãzinha — Mirai disse, com o tom de voz mudando de "garota doce" para algo profissional e secreto. — A Central confirmou as suspeitas.
Yuki olhou para ela de lado, com a postura relaxada desaparecendo. — E então?
— Confirmado. Dante Scarlune é o hospedeiro do Astreus da Possibilidade. — Mirai olhou para o garoto de cabelos pretos lá embaixo com um brilho predatório. — As ordens não mudaram. Devemos continuar vigiando-o de perto. Prioridade máxima.
Yuki suspirou, estalando o pescoço de um lado para o outro. — Ótimo... Agora não posso me separar desse pervertido nem por um segundo. Era tudo o que eu queria. Mas me diga... se ele sair da linha ou perder o controle, a gente tem permissão para o abate?
— Errado... — Mirai balançou o dedo indicador, sorrindo docemente. — Parece que o "Trono de Deus" mudou de ideia. Eles querem Dante como aliado. Nossa missão agora é achar um jeito de conquistar a confiança dele. Custe o que custar.
Enquanto o ginásio fervia, a Biblioteca Central oferecia um silêncio enganoso. Ludmilla Farnese estava sentada em uma mesa isolada, no fundo do acervo, cercada por torres de livros sobre "Teoria Avançada de Masmorras" e "História das Famílias Fundadoras". Mas o livro aberto bem na sua frente, escondido atrás de uma enciclopédia, era uma antologia de poesia romântica vitoriana.
Ela batia a ponta da caneta na mesa, no ritmo, irritada consigo mesma. Seus olhos liam as mesmas linhas há dez minutos, mas sua mente traía sua disciplina militar. A memória da caverna voltava sem permissão, invadindo suas defesas. O cheiro de fumaça e carne assada. O sorriso torto e idiota de Dante quando dividiu a comida com ela. A sensação do peso do corpo dele sobre o dela quando ele a prendeu.
— Maledizione... — Ludmilla fechou o livro com força, o estrondo atraindo olhares reprovadores de outros alunos e do bibliotecário. Ela levou a mão ao rosto, sentindo as bochechas queimarem.
— Tenho que ter calma — sussurrou para si mesma, respirando fundo para recompor a máscara de "Príncipe". — Ele conseguiu me pegar desprevenida porque eu não tenho experiência com... essas táticas desleais. Mas assim que eu dominar esse campo de batalha... eu o farei pagar por isso.
— Com licença... Senhorita Lu... Lu... Ludmilla?
Uma garota do primeiro ano se aproximou da mesa, segurando uma bandeja de almoço, com o rosto vermelho de vergonha.
— N-nós viemos perguntar se... se você gostaria de almoçar com a gente depois.
Ludmilla olhou para a garota. Sua mente, afiada para entender a mecânica de combate, decidiu testar uma nova teoria: a mecânica de fazer um coração falhar. Ela se levantou com uma elegância fluida. Pegou delicadamente a mão da garota, chegou bem perto, invadindo o espaço pessoal e, com um toque suave no queixo, ergueu o rosto dela.
— Claro que eu gostaria... — Ludmilla baixou a voz para um tom rouco e aveludado, olhando no fundo dos olhos da aluna. — ...minha linda flor.
A garota do primeiro ano travou. Seu rosto passou de vermelho para um tom de roxo, e ela cambaleou para trás, quase desmaiando, amparada pelas amigas que assistiam à cena com gritinhos abafados.
Os sussurros começaram imediatamente. "O Príncipe evoluiu!" "Ela está muito mais letal depois da Black Box!" "O que será que aconteceu?"
Ludmilla voltou a se sentar, satisfeita com o experimento, soltando uma risada baixa e perigosa.
— Prepare-se, Dante Scarlune — ela olhou para a janela, vendo o prédio do ginásio ao longe. — Eu vou fazer você pagar com a mesma moeda. E eu vou ganhar esse jogo.
No ponto mais alto da escola, o vento uivava solitário. No parapeito do terraço do prédio principal, com as pernas balançando sobre o abismo de nuvens, estava Anna Lighthart. Ela olhava para o horizonte infinito, mas seus olhos viam o passado. Um filme cruel repassava em sua mente sem botão de pausa: o dia de seu nascimento não natural; o dia em que Nero, a garota que Dante amava, morreu nos braços dele; a confusão no Titanic; o despertar do Enigma e, finalmente, as palavras venenosas da Vida na caverna.
"Você é a maldição dele." "Você é um farol para a desgraça."
Anna abraçou os próprios joelhos, encolhendo-se contra o vento frio. A culpa não era uma emoção; era um peso físico em seus ombros, mais pesado que a gravidade. Ela nasceu do grito de desespero dele. Ela era a prova viva do dia em que ele perdeu tudo.
— Se eu descer lá... — Anna sussurrou, a voz sumindo no ar rarefeito. — Se eu ficar perto dele agora... qual vai ser o próximo monstro que vai aparecer para tentar matá-lo por minha causa?
Ela olhou para as próprias mãos. Mãos que deveriam criar possibilidades, mas que pareciam apenas criar riscos. O silêncio do terraço não oferecia respostas. Cansada de lutar contra a própria existência, Anna fechou os olhos. Deitou-se no concreto frio do parapeito, suspirando. Por enquanto, a única coisa que podia fazer era parar de pensar. Apenas por um momento.
Parte 8
O escritório do Diretor, encravado no pináculo mais alto da ilha flutuante de Babylon, costumava ser um santuário de luz solar e caos excêntrico. Mas hoje, não.
As pesadas cortinas de veludo estavam fechadas, bloqueando o mundo exterior. A sala estava mergulhada em uma penumbra sufocante, iluminada apenas pelo brilho espectral de um aquário gigante embutido na parede, onde águas-vivas bioluminescentes flutuavam em um balé silencioso e hipnótico.
Vlad Dracul estava de pé na frente da mesa de mogno. O Vampiro, uma entidade que geralmente exalava elegância e tédio secular, estava visivelmente perturbado. Suas mãos apertavam o encosto de uma cadeira de visitas com tanta força que o couro gemia e estalava sob a pressão.
— Você sabia. — A voz de Vlad não era uma pergunta. Era uma lâmina fria jogada na mesa.
Aleister Crowley estava de costas para ele, admirando uma pintura abstrata na parede. Ele girava uma moeda de ouro entre os dedos longos e pálidos com uma destreza irritante.
Clink. Clink. Clink.
O ritmo metálico da moeda era o único som na sala, marcando o tempo como um metrônomo do destino.
— Eu sabia que havia riscos, Vlad? — Aleister respondeu, sem se virar. Seu tom era leve, casual, como se discutissem a previsão do tempo para o fim de semana e não um massacre. — A vida é um risco, meu velho. A educação é um risco. Atravessar a rua para comprar pão é um risco.
— Não brinque comigo com seus sofismas baratos, Aleister!
BAM!
Vlad golpeou a mesa com o punho aberto. O som foi como um tiro de canhão no ambiente fechado. As águas-vivas no aquário pulsaram mais rápido, sentindo a vibração.
— Aquilo não foi um "risco calculado". Não foi um monstro errante que fugiu da jaula ou uma falha de segurança na Dungeon.
Vlad contornou a mesa, invadindo o espaço pessoal do Diretor. Seus olhos vermelhos brilhavam na escuridão como brasas vivas, a máscara de nobreza caindo para revelar a fúria da besta interior.
— Aquilo foi um Astreus. E não qualquer um... A Vida. A antítese da nossa existência. A entidade que deveria estar selada, morta ou dormindo nas profundezas conceituais da realidade. E ela estava lá, esperando. Como se tivesse recebido um convite.
Vlad parou, com a respiração pesada, o peito que não precisava de ar subindo e descendo pela pura tensão.
— Você colocou aquelas crianças na boca do lobo de propósito. Você sabia que a presença delas — especialmente a daquele garoto Scarlune e da garota Anna — iria funcionar como isca.
Aleister finalmente parou de girar a moeda. Ele a fechou firmemente na palma da mão. O silêncio se esticou, tenso como uma corda de violino prestes a arrebentar.
— O que você está tentando fazer com a Classe -13, Aleister? — Vlad sussurrou, com o horror começando a se infiltrar em sua voz, substituindo a raiva. — Você está reunindo anomalias. Você está colecionando aberrações. Você está tentando recriar o Experimento Gênesis?
Vlad deu um passo instintivo para trás, a compreensão atingindo-o como um soco físico.
— Você está tentando corrigir o erro dele... Você está tentando terminar o trabalho de [CENSURADO].
No instante em que a intenção do nome se formou na garganta de Vlad — mesmo que o som não tenha saído totalmente, como se o próprio universo censurasse a palavra com estática —, a atmosfera da sala mudou.
A gravidade aumentou dez vezes em um segundo. O vidro reforçado do aquário trincou. As sombras nos cantos da sala ganharam vida, contorcendo-se e esticando-se como tentáculos famintos em direção a Aleister.
O Diretor se virou lentamente. O sorriso bobo de palhaço, a máscara de "tiozão excêntrico" e inofensivo que ele usava tão bem... havia desaparecido completamente. Evaporado. Em seu lugar, havia um rosto de porcelana fria, inexpressivo, com olhos que não pertenciam a um humano. Eram olhos que continham um abismo muito mais antigo, escuro e terrível que qualquer Dungeon existente.
— Vlad... meu velho amigo.
A voz de Aleister era suave, macia como seda, mas cortante como uma guilhotina recém-afiada passando pelo pescoço. Ele deu um único passo à frente.
Vlad, um vampiro que já vira impérios nascerem, crescerem e virarem pó, recuou. Seu corpo imortal tremeu, sentindo um medo primal, um instinto de presa que ele não sentia há milênios, gelar seu sangue morto.
— Eu tolero sua insolência porque você é útil. Tolero seus questionamentos na frente dos outros porque sua curiosidade me diverte. — Aleister inclinou a cabeça levemente para o lado. As sombras da sala pareceram se curvar em reverência a ele. — Mas se você ousar... se você sequer pensar em pronunciar esse nome novamente dentro destas paredes...
Aleister estalou os dedos. A moeda de ouro em sua mão não caiu; ela se desfez em pó dourado, desintegrada em nível atômico.
— ...a nossa brincadeira de "escola" acaba. E eu terei que te lembrar, de forma muito didática e dolorosa, por que eu sou o Diretor desta instituição e você é apenas um professor.
Ele chegou perto do rosto de Vlad, invadindo a zona de conforto do vampiro, sustentando o olhar vermelho com o seu próprio abismo insondável.
— Estamos entendidos?
Vlad engoliu em seco. A imortalidade parecia uma piada frágil diante daquela presença. Ele baixou a cabeça, derrotado, suando frio.
— ...Cristalino.
Aleister sorriu. A transformação foi instantânea e perturbadora. A pressão esmagadora sumiu. As sombras voltaram para os cantos. A máscara de palhaço feliz voltou ao rosto dele como se nunca tivesse saído. Ele bateu palmas, o som ecoando alegremente.
— Ótimo! Fico feliz que tenhamos esclarecido isso! — Aleister saltitou de volta para sua cadeira, cantarolando uma música infantil. — Agora, vá. Xô, xô! Tenho relatórios para falsificar, verbas para desviar e pais furiosos para acalmar. Ah, e Vlad?
O vampiro parou na porta, com a mão trêmula na maçaneta.
— Não se preocupe tanto com as crianças. — Aleister tirou outra moeda do bolso, jogando-a para o alto. O ouro brilhou na luz do aquário. — Diamantes só se formam sob pressão extrema, meu amigo. Eu só estou... apertando um pouco mais o torno.
Parte 9
Local: Terminal Cinza. O coração pulsante do submundo global.
A sala do trono não era apenas escura; ela parecia ter uma gravidade própria que engolia a luz. No centro do salão, uma mesa redonda feita de obsidiana pura dominava o ambiente, refletindo distorcidamente os rostos dos presentes.
Não havia comida servida. Não havia talheres de prata ou taças de cristal para um jantar comum. O prato principal, estendido sobre a mesa como um porco assado em um banquete medieval grotesco, era o cadáver de Zefar, o antigo Rei do Submundo. Sua cabeça havia sido separada do corpo e reposicionada a centímetros do tronco. Os olhos vidrados encaravam o teto de pedra com uma expressão congelada de terror eterno, com a boca aberta em um grito mudo.
Ao redor da mesa, a elite da Horizon estava reunida. A atmosfera não era de celebração, mas de uma liturgia solene e macabra.
— Ele gritou bastante no final. Achei mesmo que o medo faria o éter dele se distorcer ao ponto de colapsar a alma em um fantasma — comentou Maicon Dates.
Sua voz era clínica, desprovida de empatia. Ele estava inclinado sobre a mesa, cutucando a mão morta de Zefar com a ponta de uma faca, analisando o rigor mortis como um legista entediado.
— Bom, se nem um poltergeist vivo como você consegue saber o que torna as pessoas fantasmas ou não, realmente não acho que encontraremos essa resposta neste mundo — Priscilla, a Princesa da organização, suspirou. Havia uma tristeza teatral em seu rosto pálido. — Mas e aquilo que ele mencionou antes de morrer? Sobre "controlar as sombras" e o "caos"? Não deveríamos nos preocupar com profecias de um moribundo?
— Tsk... Claro que não. Zefar era só um parasita — a resposta veio carregada de deboche.
Adam Dragonroad estava recostado na cadeira, com as botas pesadas jogadas sobre a mesa de obsidiana, a centímetros do cadáver. Ao seu lado, sua sobrinha Kali afiava uma adaga em silêncio.
— Ele foi só um verme que cresceu se aproveitando das brechas do sistema — Adam continuou, cuspindo no chão. — Vermes não profetizam, eles apenas se contorcem.
Na cabeceira da mesa, sentado no trono que agora lhe pertencia por direito de conquista, estava Niklaus. Ele não tinha a aparência bruta de um senhor da guerra. Pelo contrário, tinha a aura de um poeta trágico ou de um santo caído. Seus olhos varriam os presentes com uma ternura perturbadora, quase paternal.
— Zefar não entendeu a natureza da nossa missão — Niklaus disse. Sua voz era suave, mas preencheu o salão gigantesco sem esforço, silenciando os outros. — Ele achava que o medo era a ferramenta final. Mas o medo é apenas um sintoma, uma febre. A doença real... é a realidade moldada por esses falsos deuses.
Niklaus se levantou com uma fluidez líquida. Caminhou até o cadáver e tocou o rosto frio de Zefar com gentileza, fechando seus olhos.
— Para construir o Paraíso, primeiro precisamos queimar o Purgatório.
Clack. Clack. Clack.
Passos ecoaram na entrada do salão. O som rítmico de saltos batendo contra a pedra fria cortou a tensão. Uma figura feminina emergiu das sombras. Era uma jovem de aura delicada, mas inegavelmente perigosa. Coroada por um par de chifres curvos e avermelhados que se destacavam em meio aos cabelos curtos, prateados e marcados por mechas em rosa-neon, ela parecia uma anomalia colorida naquele mundo cinza.
Seu rosto exibia um sorriso largo e desafiador. Ela vestia um casaco preto aberto sobre um top branco simples e shorts curtos, exalando uma confiança moderna e letal. Velvet. Ou, como era conhecida nos corredores de Babylon: Layla.
— Atrasada — Kali resmungou, sem parar de afiar a adaga.
— A vida escolar exige dedicação, Kali — Velvet respondeu, caminhando até a mesa e jogando um chip de dados sobre a superfície negra. O som metálico ecoou. — E a "brincadeira" em Babylon acabou de ficar interessante.
Todos os olhos se voltaram para o chip.
— Relatório de campo — Velvet continuou, servindo-se casualmente de uma taça de vinho que estava perigosamente perto do cotovelo do cadáver. — Dentro da Black Box do nosso novo professor, houve um incidente bem peculiar. A causa da destruição não foi uma falha mecânica. Foi uma manifestação de nível divino.
— Um Astreus? — Priscilla inclinou-se para a frente, com a fachada de tédio desaparecendo.
— A Vida — confirmou Velvet, bebendo um gole do vinho. — Ela desceu, brincou com a Classe -13 e foi repelida.
Um sorriso genuíno se abriu no rosto de Niklaus. Não um sorriso de loucura, mas de validação profunda.
— Então começou. As rachaduras no dique — Niklaus olhou para o teto de pedra, como se sua visão pudesse atravar a rocha e alcançar as estrelas. — O mundo está gritando por mudança.
— E nós vamos dar a ele o que pede — disse Arcanum. A figura encapuzada permanecia nas sombras, com sua voz soando distorcida, como estática de rádio velho. — Mas precisamos de mais poder de fogo. Onde está o resto dos membros?
Niklaus voltou a se sentar, cruzando as pernas.
— Tenha calma, Arcanum. Já esperamos vinte anos desde a Bomba Dimensional. O que são mais alguns dias até estarmos completos?
Ele girou a taça de vinho na mão, observando o líquido vermelho dançar.
— Conforme eu ordenei, a equipe composta por Rasputin, Ceto e Lucia está caminhando com a próxima fase. A novata Delta, a quem acordei pessoalmente do sono criogênico, e o nosso membro infiltrado voltaram junto a eles nessa missão.
— Oh, então finalmente eu vou descobrir quem é esse membro fantasma? — Adam sorriu, mostrando os dentes. — Saber que mais um membro indicado à Cavalaria está chegando me deixa bem feliz. Adoro carne fresca.
— Deixe de ser tão amargurado, senhor Adam. Mesmo que nós não tenhamos sido indicados como membros da Cavalaria, não significa que sejamos fracos.
A voz de Maicon Dates era educada, polida, mas causou um arrepio na sala. Nem mesmo Adam, conhecido pela brutalidade, conseguia ouvir aquele tom monótono sem sentir desconforto.
— Aproveitando, gostaria de saber dos outros membros também. Eu não cheguei a conhecê-los ainda — Maicon adicionou, mudando o foco.
— Além dos mencionados, tem Katsuragi, que Arcanum encontrou vagando em Umbra. Na próxima reunião ela se juntará a nós. Akame está em uma missão extremamente sigilosa em Sakura agora. Quanto a Irene... bom, ela está "brincando" por aí.
Maicon não parecia precisar — ou querer — explicações mais detalhadas sobre o que Niklaus queria dizer com "brincando".
— E o Dante? E a Kannade? — Maicon insistiu, com sua curiosidade mórbida aguçada. — Soube que eles estão sendo considerados "membros de categoria especial". Até entendo o garoto Scarlune; ele não gosta de nós e também é um hospedeiro de Astreus, a categoria "especial" parece se encaixar. Mas e essa tal Kannade? Por que ainda não a conheci?
— Tudo a seu tempo, Maicon. Quando as estrelas se alinharem, você irá conhecê-la.
Niklaus fez um gesto com a mão. O corpo de Zefar foi coberto por luz. Um mapa holográfico complexo surgiu no centro da mesa, projetado sobre o cadáver. Um ponto vermelho piscava insistentemente sobre um continente isolado no extremo norte, coberto por tempestades de gelo perpétuas.
— Threshold — Adam Dragonroad leu o nome com desgosto. — O Continente Amaldiçoado.
— É lá que a equipe de Ceto está agindo. A menos que sejam chamados especificamente por ela, façam questão de não se envolver. Entenderam? — Niklaus ordenou. O tom suave desapareceu, substituído por aço puro. Todos acenaram concordando sem hesitar.
— Por que mandá-los para aquele deserto de gelo? — Priscilla perguntou, franzindo a testa. — Eu sou a única que não entende o interesse na terra abandonada pelas fadas?
— Não se preocupe, minha querida... logo você também vai entender. Mas não perca tempo pensando em variáveis desnecessárias por enquanto.
Niklaus moveu a mão novamente. O mapa mudou. O foco saiu de Hortus Parvus e foi para o espaço. Para um planeta vermelho.
— A Grande Reunião Mundial em Marte — Priscilla falou assim que reconheceu a topografia. — Todos os "representantes" dos Reinos, conglomerados e diretores de academias estarão lá para discutir a "Crise dos Astreus".
— E nós fomos convidados? — Velvet perguntou, com o sarcasmo pingando de sua voz.
— Oh, nós estaremos lá.
Niklaus levantou-se novamente, caminhando até a única janela do salão, que dava para o horizonte cinzento e tempestuoso do Terminal.
— A segurança será máxima. Ninguém entra sem uma escolta de nível nacional. A frota estelar estará em alerta total.
Ele se virou para o grupo. Seus olhos brilhavam com uma determinação messiânica que fez até as sombras recuarem.
— Por isso, eu irei pessoalmente.
O silêncio na sala foi absoluto. O Líder Supremo iria se expor no meio da maior concentração de poder militar do sistema solar. Era loucura. Era suicídio. Ou era genialidade.
— Eu tenho certo interesse no conteúdo da reunião e em seu propósito oculto. Além disso, iremos aproveitar toda a segurança do local para fazermos nossa própria reunião nos bastidores do palco, sob o nariz deles.
Ele olhou para Velvet.
— Volte para Babylon por enquanto, minha querida. Continue observando o garoto Scarlune. Logo chegará a hora de ele se juntar a nós, mas até lá alguém precisa protegê-lo dos idiotas que tentarão matá-lo. Mas lembre-se de aparecer para a reunião em Marte.
— Hum. Nem precisava dizer — Velvet fez uma reverência teatral, com o sorriso nunca deixando seu rosto.
Niklaus voltou a olhar para a lua pálida através da janela.
— O tabuleiro está montado. As peças estão se movendo — ele sussurrou para si mesmo, tocando o vidro frio. — Alegrem-se, crianças. O falso mundo está prestes a queimar.
Parte 11
O lugar não aparecia nos mapas turísticos e era marcado com uma caveira vermelha e a etiqueta "Zona de Exclusão" em qualquer radar militar que ousasse sobrevoar a área. Era uma terra esquecida por Deus e evitada pelo Diabo.
Uma floresta de árvores petrificadas, pretas como carvão e antigas como o mundo, rasgava o horizonte. Campos infinitos cobertos por neve compactada transformavam o cenário em um deserto branco cegante, varrido por ventos que não apenas sopravam, mas cortavam, congelando o sangue nas veias em segundos. Tempestades de éter selvagem distorciam a gravidade, fazendo a neve cair para cima ou flutuar em espirais caóticas.
No centro desse inferno gelado, desafiando a natureza, erguia-se a Mansão Winchester. Uma fortaleza gótica de pedra escura que parecia vigiar o deserto branco como um monstro adormecido.
Dentro do Salão da Lareira, no entanto, a realidade era outra. O calor era sufocante. Uma lareira colossal, grande o suficiente para assar um boi inteiro, rugia com chamas mágicas que nunca se apagavam, mantendo o ambiente em uma temperatura tropical que contrastava violentamente com o lado de fora.
— Ah, Heisen! Você viu?! Você viu?!
Love Scarlune não andava; ele parecia flutuar pelo cômodo. Saltitando sobre o tapete felpudo de pele de urso-polar legítima, ele segurava um tablet holográfico com as duas mãos, tremendo de excitação como uma criança que acabou de ganhar o bilhete premiado da loteria.
Love era uma anomalia visual. Vestido inteiramente de branco — um terno de corte impecável que parecia brilhar —, ele tinha a aparência da juventude eterna. Seus cabelos loiros estavam perfeitamente estilizados, sem um fio fora do lugar. Seu sorriso era radiante e seus olhos brilhavam com uma vivacidade elétrica.
— Olha só o Dantezinho! Ele está nas notícias de novo! — Love girou em uma pirueta desnecessária, enfiando a tela holográfica na cara do homem sentado na poltrona de couro. — "Incidente em Babylon: alunos da Classe -13 enfrentam mortes no primeiro dia de aula". Ah! Eu fiquei tão feliz quando a Levy me contou que ele realmente estava vivo, mas vê-lo na manchete... é outra coisa!
Heisen Scarlune era o oposto absoluto. Mais velho, com o rosto curtido e marcado por cicatrizes profundas e um tapa-olho que contavam histórias de guerras antigas, ele exalava uma aura de peso e perigo. Ele nem se deu ao trabalho de levantar os olhos para o tablet.
— Ele é imprudente — Heisen grunhiu. Sua voz era grossa, como cascalho sendo moído. — Chamar a atenção desse jeito... logo agora... antes da Eleição... é pedir para ter um alvo pintado nas costas.
— Ah, pare com isso! Você é muito pessimista! — Love bufou, jogando-se dramaticamente no sofá de veludo oposto e abraçando uma almofada bordada com o brasão da família. — Isso mostra que ele ainda tem atitude! Personalidade! Igual a quando era criança!
Love rolou no sofá, olhando para o teto alto com um suspiro sonhador. Para ele, a família não era apenas sangue; era uma religião, uma obsessão doentia. Ele amava seus irmãos e sobrinhos com uma intensidade que beirava a loucura, algo totalmente incomum para a frieza genética dos Scarlune.
— Ah... eu mal posso esperar pela Grande Reunião — Love sorriu, com os olhos perdidos em memórias. — Faz anos que eu não vejo o Dante pessoalmente. Quero ver o quanto ele cresceu.
Heisen parou de ler seu livro. O silêncio no salão tornou-se pesado, abafando o estalo da lareira. Ele levantou os olhos, encarando o irmão mais novo com a seriedade de um carrasco.
— Cuidado com o que deseja, Love. — Heisen voltou a ler, com o som das páginas sendo passadas ecoando como um aviso. — O amor pode matar... especialmente nesta casa.



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