The Fall of the Stars: Capítulo 7 - O Limite da Vida
- AngelDark

- 11 de fev.
- 67 min de leitura
Volume 4 : Fragmentado
Parte 1
O som esperado — o ruído molhado de carne sendo rasgada — nunca veio. Em seu lugar, ecoou apenas o baque surdo e abafado de metal perfurando madeira maciça.
No instante crucial, quando a ponta da rapieira de Ludmilla estava a uma fração de segundo de violar a jugular e a lança de Yuki já roçava o tecido sobre o coração, a "Mãe" não se moveu conscientemente. A reação foi mais rápida que o pensamento; foi a própria natureza agindo em autodefesa, um reflexo puro de sobrevivência.
— Te peguei! — O grito de vitória ecoou na mente de Ludmilla, enquanto sentia a resistência inicial da lâmina perfurando o alvo.
Mas a penetração foi interrompida. O ar se encheu de estalos quando troncos grossos e retorcidos irromperam do nada, criando uma barreira instantânea entre o corpo da entidade e o aço das garotas. A mulher não apenas bloqueou; ela fluiu para cima, serpenteando pelos troncos recém-nascidos com a velocidade e a fluidez de uma víbora fugindo do bote.
— Tsk... Que merda é essa agora?! — Yuki rosnou, com a frustração evidente.
Sem perder o ritmo, a garota liberou uma descarga de trovão azul à queima-roupa. O impacto carbonizou a madeira instantaneamente, mas o alvo já não estava lá.
— Interessante... — A voz da Mãe desceu das copas, suave como o vento nas folhas. — Vocês pararam de sentir o "sangue da realidade", não foi?
Ela estava empoleirada em um galho alto, observando as duas figuras no chão como quem observa formigas em um terrário.
— O garoto de cabelos brancos fez o mesmo antes de me atacar. Vocês, crianças... fazem coisas tão fascinantes.
CRACK! RUUUMBLE!
O chão tremeu. Antes que pudessem responder, raízes grossas como pilares de templos antigos explodiram do solo. Não eram gavinhas para prender; eram estacas lançadas com a violência de uma erupção, destinadas a empalar. A flora ao redor não apenas obedecia à "Vida"; ela respondia com fúria.
— Yuki, recuar! — Ludmilla ordenou, com a voz cortante.
As correntes em sua cintura ganharam vida própria, chicoteando para trás e se ancorando em árvores distantes, puxando-a para longe da zona de morte. Yuki, por sua vez, girou a lança acima da cabeça, criando um vórtice defensivo. A eletricidade formou uma serra circular, triturando os galhos que tentavam agarrar seus tornozelos enquanto ela saltava para trás.
As duas aterrissaram a dez metros de distância, as botas derrapando na terra solta perto da borda do monte. O fôlego vinha pesado, misturado com a adrenalina amarga do fracasso. O ataque surpresa perfeito, a supressão total do Éter... nada havia funcionado.
Ou era o que parecia.
De repente, um filete carmesim manchou a pele pálida da Mãe. No local exato onde a lança de Yuki mirara, um corte fino se abriu — uma ferida feita pela pressão do ar e pela intenção assassina antes mesmo do contato físico.
A Mãe pousou suavemente sobre o galho grosso de uma árvore que nascera segundos atrás, flutuando com uma leveza que desafiava a gravidade. Ela olhou para o próprio peito, confusa.
Levou a mão à ferida. Seus dedos roçaram o líquido quente e, com uma lentidão deliberada, ela os levou à boca. Seus olhos brilharam, não com dor, mas com uma curiosidade científica genuína.
— Hum... — Ela estalou a língua, saboreando o próprio icor. — Então esse é o gosto do meu corpo... Até que não é ruim.
Um sorriso se abriu em seu rosto, inocente e perturbador, como o de uma criança que acabara de provar um novo sabor de sorvete exótico.
— Vocês são realmente muito divertidas. É sempre quando estão caçando que os caçadores sentem o verdadeiro peso da vida, não é? Eu realmente amo assistir a esse processo. — Ela inclinou a cabeça, fascinada. — "Desligar" a capacidade de sentir sua presa para se tornar invisível... Que tática exótica. Vocês sumiram com a sua presença na "realidade" para me pegar, certo?
Ludmilla ergueu a rapieira, o metal vibrando com a tensão de sua postura.
— Está gostando da aula, senhorita? — O tom de Ludmilla era de escárnio, mas seus olhos varriam o ambiente em busca de armadilhas. — Então preste atenção. Essas duas professoras aqui vão te ensinar muito mais.
— Ela manipula a flora também... — Yuki sussurrou para a parceira, a eletricidade estalando baixinho ao redor de sua armadura. — Achei que ela fosse apenas uma invocadora...
— Então me ensinem — a Mãe riu, um som cristalino. — Ensinem como vocês usam a sua vida.
Ela esticou a mão pálida em direção ao tronco onde estava apoiada. Com dois dedos delicados, pinçou uma centopeia comum que caminhava pela casca rugosa. O inseto se contorcia inutilmente entre suas unhas perfeitas.
Com um movimento casual, ela arremessou o inseto na direção das garotas.
No meio do ar, a biologia foi violada.
SQUELCH. CRACK. SNAP.
O som foi repugnante. A pequena centopeia inchou como um balão de carne doente. O exoesqueleto estalou e se expandiu, rompendo-se para revelar uma armadura negra, quitinosa e brilhante. As pernas multiplicaram-se e alongaram-se, transformando-se em lanças orgânicas. Em menos de um segundo, o inseto de cinco centímetros tornou-se um trem de carga blindado de dez metros de comprimento, com mandíbulas pingando ácido corrosivo.
— GRIIIIIIIIIII! — A abominação rugiu, descendo sobre elas como uma avalanche viva.
— YUKI! — O grito de Ludmilla foi o sinal.
— JÁ SEI!
Yuki não recuou um milímetro. Pelo contrário, ela afundou o pé no chão e avançou.
— Thunder Style: Railgun Lance!
O braço de Yuki virou um borrão. Ao arremessar a lança, a arma deixou de ser matéria física e converteu-se em um feixe puro de luz azul. O ar gritou com o deslocamento. O projétil perfurou a boca aberta da centopeia gigante, atravessou cada segmento do corpo blindado e saiu pela cauda, fritando o sistema nervoso primitivo da besta em um milésimo de segundo.
Mas a inércia é implacável. Mesmo morta, a massa colossal de carne e armadura continuou caindo sobre elas.
Ludmilla avançou pelo flanco. Movendo sua rapieira mais rápido do que o olho podia acompanhar, ela se tornou um redemoinho de cortes. O aço cantou, triturando a carcaça, separando quitina de carne, desviando os pedaços maiores para que não as esmagassem.
A massa desabou ao redor delas, fumegante.
— Morto! — Yuki estendeu a mão e a lança, guiada por eletromagnetismo, estalou de volta à sua palma.
— Onde ela está?! — Ludmilla não comemorou. Seus olhos varriam freneticamente a copa das árvores.
O galho estava vazio. Não havia rastro residual de Éter. Não havia o som de folhas sendo pisadas. Não havia deslocamento de ar.
— Ela sumiu... — Yuki girou, ficando de costas para Ludmilla, cobrindo a retaguarda em formação defensiva. — Como? Eu não senti teleporte nenhum!
— Exatamente — uma voz sussurrou.
O som não veio de cima. Não veio de longe. Veio de trás da orelha direita de Ludmilla.
A "Mãe" estava parada nas costas do "Príncipe". Ela não usara magia de teletransporte. Ela não usara velocidade divina. Ela fizera algo muito pior: aprendera.
Em segundos, a entidade havia assimilado a tática das caçadoras. Aproveitando que ambas haviam desligado sua percepção sensorial fina para o ataque anterior, ela suprimiu sua própria presença divina, copiou a frequência respiratória e o ritmo cardíaco de Ludmilla e caminhou até ali. Ela se tornou uma sombra da própria garota.
Ludmilla sentiu o hálito, doce e com um fundo sutil de podridão, bater em sua nuca. O terror travou seus músculos por uma fração de segundo que pareceu durar uma eternidade.
A Mãe levantou o dedo indicador, encostando-o suavemente na coluna vertebral de Ludmilla, exatamente na altura do coração.
— Bam — a Mãe disse, sorrindo.
Parte 2
— Bam.
A sílaba escapou dos lábios da Mãe não como uma ameaça, mas como uma brincadeira. Leve. Inocente.
O que se seguiu, porém, foi a aniquilação absoluta.
Não houve som de disparo, apenas o grito do ar sendo rasgado. Um feixe de energia vital ultracomprimida partiu da ponta do dedo dela, perfurando o espaço exato onde o coração de Ludmilla batia um milésimo de segundo antes.
Mas o coração não estava mais lá.
No instante em que o hálito doce e podre tocou sua nuca, o instinto da "Princesa" assumiu o controle. As correntes em sua cintura não apenas se moveram; elas atacaram o solo como serpentes de ferro, cravando-se na pedra e puxando o corpo de Ludmilla para baixo com uma violência que fez suas vértebras estalarem.
ZUUUM!
O feixe passou rugindo sobre a cabeça dela, o calor cauterizando as pontas soltas de seus cabelos castanhos. Atrás dela, a cem metros de distância, um carvalho centenário não explodiu; ele simplesmente deixou de existir, vaporizado em uma nuvem de serragem e luz.
— AGORA!
O grito de Ludmilla não foi apenas um sinal; foi um disparo.
Yuki não correu; ela explodiu do chão. Aproveitando a fração de segundo em que o flash do disparo anterior queimou as retinas da entidade, a guerreira utilizou a própria sombra projetada pela "Mãe" como ponto cego. Ela rotacionou o corpo no ar, convertendo a inércia em torque puro. A lança em suas mãos não zumbia, nem crepitava; Yuki havia comprimido a eletricidade para o interior do metal, transformando a ponta da arma em uma agulha de perfuração silenciosa, vibrando em uma frequência capaz de separar átomos.
— Não pense que o mesmo truque funciona duas vezes!
A estocada foi desferida com a precisão de um cirurgião e a violência de um trovão.
A Mãe, ainda com aquele sorriso plácido, girou o pescoço. Não foi um movimento humano; suas vértebras estalaram como galhos secos enquanto a cabeça pivotava quase 180 graus, certa de que a trajetória do golpe passaria a milímetros de sua pele.
Mas a fúria de Yuki dobrava a física. No meio do movimento, ela flexionou o pulso, alterando o ângulo da lâmina em meros três graus.
RASG!
A barreira de ar comprimido cedeu. O metal divino encontrou a resistência da carne imortal e a venceu.
Desta vez, não houve piedade. A lâmina mergulhou na bochecha perfeita, traçando um arco cruel da orelha até a linha do maxilar. O impacto cinético fez o ar estalar. Um gêiser de icor vermelho, brilhante e viscoso, espirrou em câmera lenta contra o cinza monótono do céu.
A Mãe recuou, não por vontade própria, mas pela força do impacto. Ela flutuou para trás, leve como uma pluma em um vendaval, os pés mal tocando o chão. Seus dedos tocaram a ferida aberta. Quando voltaram ao seu campo de visão, estavam banhados em divindade líquida.
O sorriso infantil vacilou, tremeu e morreu.
A pressão atmosférica despencou. O ar tornou-se gelatina, denso, com cheiro de ozônio e terra antiga. As pupilas da entidade dilataram-se violentamente, engolindo o dourado da íris até que restassem apenas dois poços de escuridão absoluta.
— Essa lança... — A voz arranhou o ar. Não era mais a menina. Era o som de placas tectônicas se movendo, rouca e antiga. — Eu conheço essa frequência. Esse metal...
Ela inclinou a cabeça, o ódio ancestral transbordando dos olhos negros.
— Eu lembrei.
A frase atingiu o solo com o peso da gravidade de Júpiter. Yuki sentiu os joelhos cederem por um instante; a lança parecia pesar toneladas, como se o próprio universo estivesse rejeitando a arma.
— Yuki, não congele! — A voz de Ludmilla cortou o medo psíquico. A Princesa já estava em postura de combate, os dedos movendo-se como se tocasse um piano invisível, arrancando vigas e vergalhões das ruínas ao redor para orbitarem seu corpo.
O combate reiniciou, mas a brincadeira havia acabado.
A Mãe ergueu ambas as mãos, regendo uma sinfonia de destruição.
— Cresçam. Devorem.
O jardim entrou em convulsão. A grama sob as botas delas não apenas cresceu; ela calcificou e afiou-se, transformando o solo em um mar de lâminas serrilhadas. As flores explodiram em minas de proximidade, liberando nuvens de pólen ácido que sibilavam, corroendo o concreto. O chão rachou quando raízes grossas como vagões de trem romperam a superfície, chicoteando o ar com estrondos sônicos.
Ludmilla e Yuki foram forçadas a uma coreografia desesperada.
Com a mão direita, Ludmilla desenhava arcos prateados com sua rapieira, fatiando vinhas que furavam o perímetro.
Yuki, por sua vez, era o próprio relâmpago encarnado. Ela abandonou a defesa. Saltando, usou uma raiz inimiga como trampolim, correndo verticalmente por ela enquanto a planta tentava agarrá-la. A cada passo, ela deixava uma pegada de eletricidade estática.
— Thunderbolt Strike!
No ápice do salto, Yuki girou o corpo, descendo como um meteoro. A lança tornou-se um feixe de luz branca, mirando o coração da entidade.
A Mãe nem sequer piscou. Ela olhou para cima e o solo obedeceu. Em um piscar de olhos, uma muralha de rosas titânicas, com espinhos do tamanho de espadas, irrompeu do chão, entrelaçando-se em um escudo impenetrável.
BOOM!
A explosão elétrica carbonizou as flores instantaneamente, mas a massa vegetal absorveu o impacto cinético.
— Interessante... — Os olhos de Ludmilla, analíticos como um radar, varreram o caos.
Ela viu o detalhe que ninguém mais veria. Uma pedra solta, ricocheteada pela onda de choque do golpe de Yuki, passou pela defesa da Mãe e atingiu seu antebraço exposto. Não houve resistência divina. A pele pálida rompeu-se como papel molhado, e um hematoma roxo floresceu instantaneamente.
Ela não tem densidade física, a mente tática de Ludmilla dissecou a cena em milissegundos. O poder é de um deus, mas o receptáculo... é biologicamente humano. Talvez até mais frágil, como ossos de vidro. Ela usa o ambiente porque seu corpo se desintegraria com um impacto direto.
— YUKI! — Ludmilla gritou no comunicador, sua voz sobrepondo o ruído da batalha. — O corpo dela é um "canhão de vidro"! Qualquer dano cinético real vai quebrá-la! Force o combate corpo a corpo.
— Entendido! — Yuki rugiu.
Em vez de recuar, a guerreira usou a própria explosão de seu golpe anterior para ganhar impulso, rasgando a parede de rosas carbonizadas com um arco voltaico e caindo em cima da entidade.
Mas a Mãe estava ouvindo. E, pior... ela estava aprendendo.
Yuki iniciou uma dança de morte, uma sequência de estocadas rápidas demais para o olho humano acompanhar.
Primeiro golpe: A Mãe recuou desajeitada, tropeçando nos próprios pés, os olhos arregalados. Segundo golpe: Ela esquivou girando o tronco, o metal passando a um centímetro do nariz. Terceiro golpe: Antes que os tendões de Yuki sequer contraíssem para iniciar o movimento, a Mãe já havia movido a cabeça para a esquerda.
— O quê?! — Yuki engasgou, a lança perfurando apenas o vácuo deixado para trás.
A Mãe sorriu. Não foi o sorriso vago de antes, mas uma curvatura de lábios calculada, afiada.
Quando Yuki tentou corrigir o equilíbrio para um novo ataque, a entidade girou o corpo. O movimento não teve nada da rigidez anterior; foi uma pirueta de fluidez líquida, com o centro de gravidade baixo e os ombros alinhados de perfil.
Ludmilla sentiu um soco no estômago apenas de assistir. Aquela postura... aquele jogo de pés... era uma cópia aterrorizante e perfeita do estilo de esgrima real de Ludmilla.
— Você transfere excesso de torque para o calcanhar direito três milissegundos antes da explosão cinética, criança — a Mãe comentou, o tom casual, como uma instrutora corrigindo a postura de uma aluna amadora.
Yuki arregalou os olhos, pega no meio do impulso. O chão sob seu pé direito traiu-a.
Uma raiz não brotou aleatoriamente; ela surgiu com a precisão de um uppercut, explorando exatamente a brecha de equilíbrio que a Mãe acabara de citar. A madeira reforçada atingiu o plexo solar de Yuki com o som de um bastão de beisebol quebrando costelas.
— Gah!
Yuki foi arremessada para trás como uma boneca de pano, a eletricidade de sua aura dissipando-se no ar enquanto ela colidiu violentamente contra uma árvore.
— E você... — A entidade girou sobre os calcanhares com uma elegância sobrenatural, interceptando Ludmilla, que tentava aproveitar a distração para flanquear pelo ponto cego.
A Mãe nem sequer olhou para trás. Ela simplesmente ergueu um dedo, e uma barreira de vinhas finas como fios de arame bloqueou a rapieira de Ludmilla a centímetros do pescoço divino.
Ela virou o rosto lentamente para a Princesa, os olhos negros perfurando a alma da guerreira.
— ...sempre hiperventila. Duas inspirações profundas para oxigenar o sangue antes de cada sequência ofensiva complexa. É um telégrafo ensurdecedor.
Ludmilla travou. O suor frio brotou instantaneamente em sua nuca, escorrendo pela espinha.
Ela não está apenas reagindo.
A mente da Princesa, treinada para a guerra tática, entrou em colapso momentâneo diante da realidade.
Ela está evoluindo. Em tempo real.
O horror da constatação pesou mais que a gravidade. Cada segundo que essa luta dura, ela absorve nossos padrões. Ela está lendo nossa biomecânica, memorizando nosso ritmo cardíaco, copiando nossa técnica muscular. Se continuarmos lutando com instinto e memória muscular, nós mesmas estamos ensinando a ela como nos matar.
A Mãe voltou a deslizar pelo jardim, nua e terrível, envolta na glória grotesca da natureza corrompida. Sua aura pulsava agora em sincronia com os batimentos cardíacos das duas guerreiras, como um predador mimetizando a presa.
— Vocês são tão dolorosamente previsíveis... mas tão cheias de paixão — ela sussurrou, juntando as mãos em uma prece zombeteira. — A biologia de vocês grita desesperadamente para sobreviver. É lindo de assistir.
Ludmilla tomou uma decisão que desafiava todos os seus instintos de guerreira.
Lentamente, ela relaxou os ombros. A ponta de sua rapieira desceu até tocar o chão. O campo magnético ao seu redor, que mantinha dezenas de estilhaços de metal, vergalhões e pedras orbitando em alta velocidade, cessou o movimento. Os destroços não caíram; Ludmilla os manteve suspensos no ar, parados, congelados como uma constelação de lixo industrial estático.
O silêncio no campo de batalha foi ensurdecedor.
— Yuki, pare — a ordem de Ludmilla saiu baixa, mas absoluta, cortando o ar como uma lâmina fria. — Cesse o ataque. Agora.
— O quê?! — O grito de Yuki veio dos escombros.
A garota explodiu debaixo das pedras, cambaleando, sangue escorrendo do canto da boca, mas com os olhos crepitando em fúria azul elétrica. A lança em sua mão vibrava, pronta para matar.
— Tá maluca?! — Yuki rugiu, faíscas saltando de seus cabelos arrepiados. — Se pararmos agora, ela nos estraçalha!
— Confie em mim. Pare.
Ludmilla endireitou a postura. Com um movimento deliberado e teatral, ela embainhou a rapieira. O clique seco do metal ecoou pelo campo de batalha, mais alto que qualquer trovão.
Não era rendição. Era uma mudança de tabuleiro. Deixava de ser uma guerreira para se tornar o "Príncipe".
A Mãe inclinou a cabeça, curiosa. As raízes que estavam a centímetros de perfurar o pescoço de Ludmilla estancaram no ar, tremendo de antecipação.
— Oh? — A entidade piscou, os olhos voltando lentamente ao dourado. — Desistiu de brincar de cortar?
— Percebi, Senhorita, que seria indelicado da minha parte continuar atacando sem antes nos apresentarmos adequadamente.
Ludmilla falou adotando seu tom mais polido, uma arrogância refinada e gélida que mascarava o pânico.
— E, pelo que vejo... você gosta de conversar, não é?
Eu senti isso desde aquela mensagem telepática, Ludmilla pensou, o coração martelando contra as costelas. É melhor eu não estar errada.
O sorriso da Mãe se alargou. Havia vaidade ali. Muita vaidade.
— A comunicação é a base da evolução, minha querida. O silêncio é para os mortos e para as pedras. Eu amo as palavras. Elas são sementes.
— Então plante uma semente para nós.
Ludmilla deu um passo à frente, ignorando o perigo mortal de estar desarmada diante de um monstro, apostando tudo no narcisismo da criatura.
— Você fala de amor, fala de ódio, fala de evolução... Mas você sangra — Ludmilla apontou para o corte na bochecha da mulher. — Você aprende. Você copia. E, acima de tudo, você teve medo daquela lança.
O ar ficou tenso, mas Ludmilla não recuou. Ela encarou os olhos insondáveis da entidade.
— Você não é um Deus. Deuses não aprendem, eles já sabem. Deuses não sangram, eles transcendem. Então, vamos pular a parte mística...
Ludmilla sorriu, um sorriso afiado.
— O que diabos é você?
Parte 3
A pergunta de Ludmilla — "O que diabos é você?" — ecoava pelas ruínas, recusando-se a desaparecer.
A Mãe piscou. Aquele brilho de ódio ancestral, que transformou seus olhos em poços de piche ao ver o metal divino, evaporou. Em seu lugar, surgiu uma curiosidade genuína, quase acadêmica.
— Hum... — Ela levou um dedo ao queixo, pensativa, ignorando completamente o fato de estar cercada por duas assassinas. — Eu já tive muitos nomes... mas, neste mundo, na linguagem limitada e técnica, acho que a designação correta seria... Astreus. Para ser mais específica, o Astreus conhecido como Vida.
O nome caiu sobre as duas garotas com o peso físico de uma bigorna.
Ludmilla e Yuki trocaram um olhar rápido, carregado de eletricidade estática. O incidente do Titanic, a transmissão global, o despertar do "Enigma"... O mundo sabia que seres de outro plano haviam começado a romper o véu. Mas estar diante de um deles — e um que personificava um conceito tão absoluto — era aterrorizante.
— Astreus... — Ludmilla testou a palavra na língua; o gosto era amargo. Ela lutou para manter a voz firme, escondendo o tremor das mãos atrás das costas. — A Vida? Você é o Astreus da "Vida"?
— Exato. — A Mãe sorriu.
As raízes ao redor dela se moveram, não para atacar, mas para servir. Elas se entrelaçaram com um rangido úmido, formando um trono orgânico de madeira escura e orquídeas, onde ela se sentou com a elegância preguiçosa de uma rainha.
— E, respondendo à sua dúvida silenciosa... sim, eu nasci aqui. Este corpo... — Ela deslizou a mão pelo próprio esterno, descendo até o ventre. — ...foi gestado pela Dungeon. Fui tecida com as memórias, os sonhos e o DNA de todos os aventureiros que caíram aqui. Eu sou a filha da tragédia de vocês.
Yuki apertou o cabo da lança até os nós dos dedos ficarem brancos.
— Então... qual é o seu objetivo? Matar a todos porque nós matamos uns aos outros? Isso parece a coisa mais sem sentido de todas.
A Mãe olhou para Yuki com uma expressão de choque genuíno, como se a garota tivesse dito uma blasfêmia em uma igreja.
— Matar? Que palavra horrível. — Ela se inclinou para a frente no trono, os olhos brilhando com uma intensidade maníaca e febril. — Meu desejo é consertar este mundo. Quero corrigir o defeito de fábrica grotesco que minha irmã, a Morte, inseriu em vocês.
— Consertar? — Ludmilla franziu a testa, o cérebro trabalhando rápido para processar a lógica da criatura. — Você fala como se fôssemos máquinas quebradas.
— E não são?
A Vida estendeu a mão aberta. Do chão, várias flores nasceram instantaneamente. Mas elas não murcharam; elas congelaram no auge da beleza, vibrantes, eternas.
— Olhem para vocês. Vocês nascem chorando. Vivem com medo. E morrem em agonia. Por que o leão mata a gazela? Fome. Por que o homem mata o homem? Medo de que seu tempo acabe. Medo da escassez. A ganância, o ódio, a inveja... tudo isso é apenas um subproduto do medo da Morte. Vocês matam para evitar morrer.
Ela se levantou do trono, flutuando até ficar a um passo de Ludmilla. O cheiro dela era avassalador: terra molhada, leite materno e flores de velório.
— Eu vou arrancar a Morte da equação. Vou remover a fome. Vou remover a necessidade. Se você não precisa comer, não precisa matar. Se você não envelhece, não tem pressa.
— Isso é loucura. — Ludmilla recuou um passo, repelida pela lógica alienígena. — Imortalidade? Já existem imortais no nosso mundo. Eles vivem décadas, séculos... e acabam loucos. Eles imploram pelo fim. O que você quer criar é um inferno eterno, onde ninguém pode escapar do tédio!
A Vida riu. Não foi um som de escárnio, foi um som de pena. O tipo de risada que uma mãe dá quando um filho diz uma bobagem adorável.
— Tola. Você confunde "não morrer" com "Vida Perfeita". Esses seus imortais sofrem porque ainda sentem as leis da Morte. Eles sentem fome, mas não perecem se não saciá-la. Sentem saudade. Sentem dor. Sentem receio e ansiedade.
Ela esticou a mão e tocou a face de Ludmilla. O toque era febril, pulsante.
— Eu não vou apenas remover tudo isso, juntamente com a morte. Eu irei convencer meus irmãos a criarmos um Santuário, onde a vida perfeita poderá aproveitar sua eternidade.
No momento em que a palavra foi dita, a realidade se fraturou.
O cheiro de ozônio e sangue sumiu. O céu cinzento de Londres desapareceu. De repente, Ludmilla não estava mais nas ruínas. Ela sentiu o calor do sol em sua pele. Ela estava em um campo vasto de girassóis. O vento trazia um aroma que fez seu coração parar: pão fresco saindo do forno e café forte. Era o cheiro da cozinha de sua mãe. Da mãe que morrera há anos.
— Mãe? — Ludmilla sussurrou, os olhos enchendo de lágrimas involuntárias.
Ao lado dela, Yuki não via girassóis. Ela estava em uma sala de jogos futurista, limpa, brilhante. E no sofá, rindo com um controle na mão, estava Mirai. Viva. Segura. Feliz.
— Viram só? Isso é apenas um milésimo do paraíso que apenas um Astreus pode criar. O corpo ficará aqui, sob minha guarda. — A voz da Deusa ecoou, vindo do sol, do vento, de todos os lugares. — Mas não é algo tão simples que vou criar; mais que uma ilusão, um sonho, será o verdadeiro significado de paraíso.
A ilusão piscou e desapareceu. A realidade fria e úmida das ruínas voltou com um baque brutal.
— A Memória removerá os traumas. — A Vida ergueu o dedo indicador. — Tudo o que dói será apagado. Vocês lembrarão apenas da luz. A Felicidade garantirá que a química do seu cérebro esteja sempre no pico, e sempre que se cansarem, a memória apagará tudo e toda a felicidade recomeçará. — Ela ergueu o segundo dedo. — Sem depressão. Sem apatia. Apenas êxtase contínuo. No entanto, fazer isso neste mundo manchado pela sombra dos meus irmãos é impossível, por isso pedirei à Possibilidade... — Ela ergueu o terceiro dedo, sorrindo largamente, mostrando dentes brancos demais. — Ele criará Realidades Divergentes. Um universo sob medida para cada humano. Quer ser uma guerreira lendária? Será. Quer viver uma vida pacata com os pais que perdeu? Eles estarão lá. Vivos. Amando você.
Ludmilla sentiu um nó na garganta. A oferta era... monstruosamente tentadora.
— Mas... não seria verdade — ela sussurrou, a voz trêmula. — Meus pais naquele mundo seriam falsos. Ilusões. Fantasmas digitais.
— O que é a verdade, Ludmilla? — A Vida rebateu com veemência, invadindo o espaço pessoal dela. — Se você sente o abraço, ouve a voz, e seu coração dispara de alegria... qual a diferença física entre isso e a "verdade"? Eu ofereço uma troca: eu fico com o fardo de manter seus corpos vivos neste mundo sujo de carne e ossos. Em troca, dou às suas almas o Paraíso Pessoal.
— Hah...
A risada seca cortou o discurso messiânico.
Yuki, que estava tremendo ao ver a imagem da irmã, agora olhava para a Vida com um desprezo absoluto.
— Que piada. — Yuki cuspiu no chão. — Basicamente, você quer nos transformar em gado drogado vivendo em um sonho, enquanto você brinca de casinha com nossos corpos em coma.
— Eu quero salvá-los! — A Vida insistiu, a frustração trincando sua máscara de benevolência.
— Você fala de "salvar", mas olhe ao seu redor! — Ludmilla apontou para a cratera fumegante onde Abel havia desaparecido. — Você matou Abel. Você matou Kagura. Como você pode acabar com a Morte usando a própria morte? Você é uma hipócrita, Senhora Astreus.
A Vida suspirou profundamente. Ela levou as duas mãos à própria barriga, acariciando-a suavemente, num gesto maternal que fez o estômago de Ludmilla revirar.
— Vocês não entendem. Eles não estão mortos.
A revelação fez o sangue de Ludmilla gelar.
— Tudo o que eu "mato"... eu devoro. Eu acolho. A alma do garoto Abel, a essência de Kagura... eles estão aqui dentro. — Ela deu tapinhas carinhosos no ventre plano. — Seguros. Quentinhos. Esperando. Eu vou matar todos que cruzarem meu caminho, sim. Mas apenas para guardá-los. Quando o Santuário estiver pronto, eu darei à luz novamente. Eu vou parir a humanidade de volta, direto para o paraíso.
Ludmilla olhou para Yuki. Yuki olhou para Ludmilla. A lógica da entidade era circular, perfeita e absolutamente insana. Não havia negociação possível. Para a Vida, a individualidade, a luta, a dor do crescimento... tudo isso era doença. E ela era a cura.
— Sabe... — Ludmilla levou a mão à rapieira novamente. O "Príncipe" estava de volta. — Sua oferta é linda. Um mundo onde nada dói. Onde meus pais estão vivos.
Clack.
Ela destravou a lâmina.
— Mas eu recuso.
A Vida franziu a testa, a confusão distorcendo suas feições perfeitas.
— Por quê? Por que escolher a dor?
— Porque a dor é minha — Yuki respondeu, girando a lança e reacendendo a eletricidade azul. — Minhas cicatrizes, minhas perdas, minha raiva... isso sou eu. Se você apagar o que dói, você apaga quem eu sou. Eu prefiro ser uma "máquina quebrada" e livre do que um brinquedo perfeito na sua prateleira.
— Além do mais — Ludmilla sorriu, um sorriso arrogante e afiado. — Se eu vivesse num mundo onde ganho sempre, onde tudo é perfeito... eu morreria de tédio em uma semana. A vitória só tem gosto doce porque existe a chance real de perder. Nós somos jogadores, Astreus. E ninguém joga um jogo que já está ganho.
A Vida baixou a cabeça. O silêncio voltou. As flores ao redor dela começaram a murchar e apodrecer em segundos, transformando-se em espinhos negros.
— Eu imaginei que diriam isso. — Ela suspirou, um som longo e triste. — Vocês já estão infectados demais pela lógica dos meus irmãos... Morte, Caos, Imperfeição. Vocês amam o próprio veneno.
Ela levantou o rosto. A curiosidade, a gentileza materna, o sorriso de professora... tudo havia sumido. Restava apenas uma determinação fria, mecânica e terrível.
— Que pena. Eu estava gostando da nossa conversa. Mas se não querem entrar no paraíso por vontade própria...
As raízes ao redor dela explodiram do chão, formando lanças, chicotes e garras, todas apontadas para o coração das duas garotas.
— ...eu terei que arrastá-las para lá à força.
Parte 4
— ROOOOOAAAAAAARRRR!
O rugido do Dragão Wendigo não foi apenas som; foi um evento físico. Uma onda de choque atmosférica pulverizou as estalactites no teto e fez o ar vibrar como a pele de um tambor prestes a rasgar. A abominação de três andares — uma arquitetura grotesca de ossos expostos e membros invertidos — bateu as patas dianteiras no solo.
A rocha sólida gritou, perdendo a coesão molecular instantaneamente e tornando-se um pântano de lama negra e instável.
— Dispersar!
Três cometas de energia — Ouro, Safira e Carmesim — dispararam em direções opostas, escapando da zona de impacto milissegundos antes que a gravidade esmagasse tudo o que restava ali.
Kintoki aterrissou com violência. Ele não freou; usou os antebraços como arados, rasgando duas trincheiras profundas na terra para dissipar a inércia absurda.
— Ok... ele decidiu ficar ainda maior, não é, dragãozinho? — Kintoki cuspiu uma mistura de sangue e poeira, um sorriso selvagem rasgando o rosto sujo. — Mas ter tamanho não te torna "maior" que eu!
Seus olhos brilharam em ouro líquido. [Acumulação Cinética: 100%]
Kintoki ativou a manipulação de Beatrice. A energia gerada por sua aterrissagem forçada não foi desperdiçada; ele a canalizou inteira para as panturrilhas. Os músculos de suas pernas incharam, veias saltando como cabos de aço sob a pele.
BOOM!
Ele não saltou; ele detonou. Kintoki tornou-se um míssil dourado, ignorando a resistência do ar, e afundou a canela blindada no abdômen exposto da besta. O impacto criou uma onda de choque que limpou a poeira ao redor em um círculo perfeito.
Enquanto a besta recuava, Kai reapareceu cinco metros acima do solo, flutuando com os braços cruzados, a imagem da arrogância intocável. Sua camisa preta permanecia imaculada, protegida por uma película de distorção espacial que refratava a luz.
— Essa lagartixa superdimensionada não vai cair com massagem, seu gorila dourado — Kai rosnou, o nojo clínico em sua voz enquanto analisava a estrutura da criatura. — A densidade óssea dele é absurda. É como bater em diamante reforçado.
— A solução é simples: ataque de novo, e de forma mais criativa! — A voz veio de todo lugar e de lugar nenhum.
Um borrão vermelho ziguezagueou pelo cenário. Dante não estava correndo; ele deslizava pela realidade como um patinador no gelo, deixando rastros de estática. Ele parou subitamente ao lado de Kintoki, a pele fumegando e vermelha pelo overclock do Deus da Velocidade.
— O padrão de ataque dele é lento! — Dante sorriu, ajeitando o cabelo bagunçado pelo vento supersônico. — Eu fatiei os tendões de Aquiles dele três vezes. Mas o desgraçado tem regeneração acelerada! Vamos acabar com isso antes que ele entre na "Fase 2" e a música mude!
Como se aceitasse o desafio, o Wendigo girou seu colossal crânio de cervo. A garganta se abriu, não como uma boca, mas como um portal para o inferno, revelando dezenas de olhos vermelhos no interior do esôfago.
Um brilho roxo saturou a caverna.
— Merda, ataque em área! Saiam da frente! — Dante gritou, sumindo em um rastro de eletricidade.
Uma torrente de sombras líquidas e ácidas foi vomitada na direção deles, um tsunami corrosivo capaz de derreter aço naval.
Kintoki não recuou. Ele firmou os pés na lama, ajeitando os óculos com a ponta do dedo médio. Milagrosamente, a lente esquerda ainda estava intacta.
— Um protagonista não foge de um pouco de vômito!
Ele cerrou o punho direito, puxando o braço para trás até o ombro estalar. O ar ao redor de sua mão começou a distorcer pelo calor da fricção e compressão.
— DRACO METEOR!
O soco não atingiu o monstro; atingiu o ar. A pressão cinética comprimida foi liberada como um canhão de vácuo sólido. A onda de choque colidiu frontalmente com o jato de ácido.
TSSSSSSS!
O som de líquido vaporizando preencheu o campo de batalha. O ácido foi forçado a se espalhar lateralmente, derretendo as paredes de rocha como se fossem isopor, mas Kintoki permaneceu intocado no centro da cratera, protegido pelo olho do furacão que ele mesmo criou.
— Tsk. Exibido...
Kai estava posicionado acima da zona de impacto, invisível ao radar primitivo do monstro. Enquanto o Wendigo focava toda sua fúria em Kintoki, Kai havia acumulado Éter silenciosamente em sua perna direita, comprimindo o espaço ao redor do membro até que a realidade parecesse trincar como vidro.
O pescoço longo da besta estava esticado, exposto. Vulnerável.
Kai ergueu a perna num movimento de machado perfeito, frio e técnico.
— Spatial Sever.
Ele desceu o calcanhar. Não houve projétil. O espaço a dez metros de distância, exatamente na linha do pescoço do monstro, simplesmente obedeceu ao comando e se separou.
SHLACK!
O som foi úmido e definitivo. Uma linha invisível atravessou escamas, carne podre e ossos indestrutíveis. A cabeça colossal do Wendigo deslizou para o lado, separando-se do corpo e colidindo com o chão com um baque surdo que fez os dentes de Kintoki vibrarem.
— Eu vi isso! Você roubou meu kill! — Dante reclamou, passando como um raio.
— Hah! — Kintoki limpou o sangue do queixo. — Bela assistência, coadjuvante espacial!
— Calem a boca, seus lixos. Lembrem-se do papel de vocês como suporte aqui! — Kai pousou com elegância, mas a respiração estava levemente ofegante.
— NÃO BAIXEM A GUARDA! — O grito de Dante ecoou pelas paredes, vibrando nos tímpanos deles.
O corpo do Wendigo não caiu. As sombras que formavam sua carne não sangraram; elas ferveram. Do corte aberto no pescoço, tentáculos negros de matéria umbral explodiram como chicotes, agarrando a cabeça decepada no chão. Com uma violência obscena, puxaram-na de volta contra o tronco.
SQUELCH. CRACK.
O som de ossos se realinhando e cartilagem se fundindo foi nauseante. Em menos de dois segundos, a cabeça estava no lugar, e os olhos na garganta brilhavam com o dobro da intensidade.
— Ah, qual é?! — Dante reapareceu, chutando uma pedra com frustração genuína. — Isso é cheat! Ele tem respawn instantâneo?! Cadê o balanceamento desse bicho?!
— Não sei se isso é regeneração... — Kai estreitou os olhos, analítico. — A mana dele mudou.
O Wendigo, agora furioso, parou de atacar fisicamente. A galhada de cervo em suas costas começou a pulsar em um tom roxo neon, saturando o ambiente. O ar ficou pesado, denso como chumbo. A gravidade dobrou, triplicou, quadruplicou.
— Debuff de gravidade?! — Kintoki sentiu os joelhos dobrarem sob o peso súbito. — Ele vai atacar em área!
— GRIIIIIIIIAAAAAA!
O monstro liberou um pulso omnidirecional de Drenagem de Vida e Gravidade. A grama remanescente no chão virou cinzas instantaneamente. As pedras começaram a se desintegrar em areia fina. A onda da morte se expandia rápido demais para correr.
Mas Dante não correu para longe. Ele sorriu, um brilho de loucura nos olhos.
— O olho do furacão... — Dante gritou. — Kintoki! Kai! Segurem minha mão!
— O quê?! — Os dois gritaram em uníssono.
Dante não esperou o consentimento. Em um borrão, ele agarrou a gola da jaqueta de couro de Kintoki com a esquerda e o colarinho impecável de Kai com a direita.
— Apertem os cintos, a Dante Airlines não se responsabiliza por náuseas, desmembramento ou perda de dignidade!
ZUUUUUUUM!
O mundo parou.
Dante acelerou sua percepção temporal ao limite absoluto. O pulso roxo de morte expandia-se em câmera ultralenta, partículas de energia flutuando no ar como vaga-lumes estáticos. Carregando o peso extra, Dante fez o impossível: ele não fugiu da onda de choque, ele correu em cima dela.
Seus pés tocavam a crista da explosão de energia, usando a força expansiva como pista de corrida.
— Hahahaha! — Dante ria, a adrenalina queimando seu cérebro, tratando a morte iminente como uma fase bônus de um jogo arcade.
Ele subiu pela cauda do monstro, desafiando a gravidade, correndo verticalmente pelas costas espinhosas. No topo da espinha da besta — o único ponto cego onde a onda de choque não alcançava — o tempo voltou ao normal.
Ele os largou.
— Seu... maluco suicida... — Kai caiu de joelhos sobre a pelagem grossa e ossuda da besta, o rosto verde pelo enjoo da aceleração instantânea. — Eu vou te matar...
— Cadê os meus agradecimentos, Albino? — Dante caiu sentado, ofegante, sangue escorrendo de ambas as narinas pelo esforço cerebral, mas ainda fazendo um sinal de "joinha". — Além do mais, não é hora de descansar! Eu trouxe vocês para a Área VIP. Batam nele até ele pedir pra morrer!
O trio estava empoleirado nas costas da besta gigante, como pulgas em um cão demoníaco do tamanho de um prédio.
— Ponto cego? — Kintoki levantou-se, recuperando o equilíbrio apesar do balanço violento. Ele estalou os dedos, faíscas douradas saindo das juntas. — Gostei. Assentos de primeira classe.
O Wendigo percebeu os parasitas em suas costas. A besta começou a se sacudir violentamente, tentando ejetá-los, enquanto espinhos de osso afiados como lanças rasgavam sua própria pele, brotando das costas para empalá-los.
— Opa! — Dante desviou de um espinho calcificado que passou a milímetros de seu olho, fazendo um movimento de breakdance no chão instável. — A barra de stamina desse merda não desce nunca?!
— Kai! — Kintoki gritou, ignorando o caos. Ele começou a carregar um soco, puxando tanta energia dourada do ambiente que seu braço brilhava como um pequeno sol. — Eu preciso de base! Cria uma plataforma para eu não escorregar!
— Não me dê ordens, animal! — Kai gritou de volta, os olhos brilhando em azul safira.
Mas a lógica venceu o orgulho. Kai pisou com força nas costas do monstro.
— Spatial Lock: Grid.
O espaço sob os pés de Kintoki parou de obedecer à relatividade. Uma grade geométrica azulada surgiu, congelando aquela coordenada espacial. Criou-se uma superfície absoluta, inamovível, ignorando completamente o balanço frenético da besta.
Kintoki sorriu, seus pés agora ancorados na própria estrutura do universo.
— GOLDEN IMPACT!
Kintoki descarregou o soco direto na espinha. A grade espacial criada por Kai serviu de bigorna, e o punho de Kintoki foi o martelo. A coluna vertebral do Wendigo não apenas quebrou; ela foi pulverizada. A força cinética viajou através do corpo da besta, explodindo para fora do peito em um cone de destruição que varreu a floresta à frente.
O monstro urrou, um som distorcido e digital, enquanto despencava de cara no chão, levantando uma nuvem de poeira que cobriu todo o vale.
— Strike! — Kintoki pousou suavemente sobre os escombros, girando o braço para alongar. — Acho que quebrei o recorde de pontuação.
Mas a comemoração durou pouco.
A poeira começou a girar. Um vórtice de mana verde e roxo foi sugado do solo, das árvores mortas e do próprio ar, convergindo para o corpo caído da besta.
— Ele não está apenas regenerando... — Kai, observando de cima de uma rocha, sentiu um arrepio. — Aquele desgraçado está evoluindo.
A montanha de carne do Titã começou a encolher, dobrar e compactar. Toneladas de matéria foram forçadas a ocupar o espaço de um ser menor. A densidade de energia aumentou exponencialmente.
Quando a fumaça se dissipou, não havia mais um monstro gigante. Havia uma figura humanoide, de dois metros de altura.
Seu corpo era uma armadura elegante de madeira negra polida e ossos brancos. Ele não tinha rosto, apenas um símbolo brilhante onde seria o olho. A criatura estendeu as mãos. A madeira de seus antebraços se remodelou, fluindo como nanotecnologia orgânica até formar duas pistolas longas e ornamentadas, fundidas à sua carne.
— Hahaha... parece que esse aqui realmente quer desafiar Deus... — Kintoki sorriu, mas o suor frio escorria.
O Humanoide Wendigo não rugiu. Ele apenas levantou as armas.
BANG. BANG.
O som foi seco, digital. Kintoki foi atingido no ombro antes que seus neurônios pudessem processar o brilho do disparo. A bala de éter não perfurou; ela explodiu ao contato com a força de uma granada antitanque.
— ARGH! — Kintoki voou para trás, rolando no chão.
— Kintoki! — Dante ativou o Overclock novamente.
O mundo ficou lento e vermelho, seu corpo inteiro começou a gritar de dor, fumaça saindo de suas articulações.
— Ok, Cowboy de Madeira, se quer brincar de tiroteio, VAMOS BRINCAR!
Dante correu em ziguezague, tentando atrair o fogo. Esquerda, direita, salto, deslize. Ele criava pós-imagens de si mesmo, tentando confundir a mira.
Mas o Humanoide não caiu no truque visual. Ele não virava a cabeça; seus braços se moviam com precisão mecânica, prevendo a trajetória futura de Dante baseada em probabilidade pura.
As balas explosivas detonavam a centímetros dos calcanhares de Dante, criando uma zona de guerra. Ele tentou fechar a distância, mas o monstro disparava no chão para criar barreiras de explosão, controlando o espaço melhor que qualquer mago.
— Kintoki, levanta ou a gente morre! — Dante gritou.
Kintoki, ignorando o ombro deslocado e em carne viva, avançou pelo lado cego, preparando um soco desesperado.
O Humanoide nem se virou. O braço esquerdo dele dobrou-se para trás em um ângulo anatomicamente impossível — quebrando o próprio cotovelo para ganhar ângulo — e disparou à queima-roupa no peito de Kintoki.
BOOM.
Kintoki foi arremessado como um boneco de pano, caindo inerte perto de onde Kai estava. A besta havia se adaptado completamente. Ela leu o padrão de ataque deles: Força bruta e velocidade linear eram inúteis contra previsão algorítmica.
O Humanoide parou. Ele girou as pistolas nos dedos com uma frieza aterrorizante. O "olho" na testa dele escaneou o campo de batalha. Ignorou Dante, que corria em círculos tentando chamar atenção. Ignorou Kintoki, caído.
A mira parou em Kai.
Kai estava tentando se levantar. Sangue escorria de feridas por todo o corpo e sua perna direita não respondia aos comandos.
Merda... desse jeito não vou conseguir nem ser uma distração...
Ele era o alvo mais fraco. A presa fácil para finalizar o combate e absorver a energia restante.
A criatura apontou as duas pistolas para a cabeça de Kai. As armas começaram a brilhar em um vermelho intenso, carregando um tiro duplo de aniquilação.
— EI! OLHA PRA MIM, SEU PEDAÇO DE LENHA MAL OTIMIZADO! — Dante gritou, desesperado, mudando a direção da corrida.
Kai olhou para o cano das armas. Ele não sentiu medo, apenas uma raiva fria e humilhante.
Morrer assim? Sem superar aquele bastardo do Dante? Vai se ferrar... eu me recuso a ser tão patético!
O gatilho se moveu.
ZUUUUM!
O ar explodiu. Não foi o tiro. Foi o som da barreira do som sendo quebrada por um corpo físico forçando além do limite biológico.
Dante não correu. Ele rasgou suas próprias fibras musculares, ignorando os avisos de colapso de seu cérebro. Ele apareceu entre a criatura e Kai num piscar de olhos.
Não havia tempo para atacar. Não havia tempo para esquivar. Não havia truque que salvasse agora. Dante agarrou Kai pelo colarinho e o arremessou para o lado com toda a força que tinha.
— SAI DA FRENTE!
Kai voou para longe, os olhos arregalados vendo o lugar onde ele estava ser ocupado pelo velocista.
As duas balas de energia saíram dos canos. Dante girou o corpo, levantando o braço direito enfaixado em um instinto defensivo fútil, tentando cobrir o coração. Ele fechou os olhos, esperando ser desintegrado.
Mas que merda... eu me recuso a morrer aqui!!!
Ele gritava internamente, recusando o fim mesmo com a morte diante de suas retinas. Naquele segundo fracionado antes do impacto, algo além de seus instintos respondeu. Uma voz idêntica à sua, mas vindo das profundezas de sua alma.
"Levanta o braço direito... AGORA!"
O impacto veio.
Mas não houve dor. Houve um som. Um zumbido grave, profundo e distorcido, como um sino tocando no fundo do oceano.
VRMMMMMMMM!
O tempo pareceu parar de verdade dessa vez. Não era o Overclock de Dante. Era algo externo.
O braço direito enfaixado de Dante começou a vibrar violentamente. As faixas não queimaram; elas ondularam. Debaixo do tecido, tatuagens tribais e arcaicas que ninguém jamais vira de repente acenderam em um tom carmesim, pulsando como bocas famintas, brilhando através do tecido.
As balas de éter, concentradas o suficiente para nivelar um quarteirão, atingiram a palma da mão aberta de Dante e... pararam.
A energia não explodiu. Ela foi sugada.
A carne do braço direito de Dante agiu como um horizonte de eventos, um buraco negro biológico devorando a violência, engolindo o ataque massivo da besta.
— O... quê...? — Kai, caído ao longe, assistiu incrédulo, esquecendo a própria dor.
O braço de Dante inchou, chamas negras vazando pelas brechas das bandagens. E então, como um canhão sobrecarregado, liberou a pressão acumulada de uma vez só em uma repulsão omnidirecional.
KRA-KOOOM!
Uma cúpula de energia vermelha e negra explodiu a partir da mão de Dante. O Humanoide Wendigo, pego de surpresa pela própria energia devolvida e amplificada por algo profano, foi vaporizado instantaneamente. Não houve tempo para regeneração, adaptação ou evolução; sua madeira e ossos transformaram-se em cinzas atômicas antes mesmo de tocar o chão.
O silêncio caiu sobre a clareira devastada.
A fumaça se dissipou lentamente. No centro de uma cratera vitrificada, Dante estava de pé. Seu braço direito fumegava, a pele vermelha viva, mas intacta. As tatuagens desapareciam lentamente, escondendo-se sob a derme novamente, como predadores voltando para a toca.
Ele olhou para a própria mão com um olhar vazio, confuso, girando o pulso como se fosse uma peça estranha ao seu corpo.
— Heh... — Dante tentou sorrir, mas seus olhos viraram para trás. — Acho que... o controle... desconectou...
Ele caiu de cara no chão, inconsciente.
— DANTE! — Kintoki gritou, correndo e mancando em sua direção.
Kai permaneceu onde estava por um momento, olhando para o amigo caído e para o local onde o monstro invencível fora apagado da existência.
— Merda... merda... — Kai sussurrou, cerrando o punho na terra, uma mistura complexa de gratidão e frustração queimando em seu peito. — Eu fui salvo... por ele?
Parte 5
A poeira assentava lentamente no vale, cobrindo a destruição como um manto funerário. O silêncio que sucedeu a explosão do braço de Dante não era apenas ausência de som; parecia uma bênção divina, o mundo recuperando o fôlego após gritar.
Kintoki, segurando o ombro deslocado que pulsava em agonia, mancou até a borda da cratera vitrificada. Um sorriso torto, pintado com sangue seco e fuligem, rasgou seu rosto.
— Hahaha... como esperado do meu rival de bola. Imaginei que teria uma carta nuclear na manga. Hahaha! — Kintoki soltou uma risada rouca, que terminou em uma tosse dolorida.
Ao lado dele, Kai se arrastava, apoiando todo o peso na perna boa. Ele olhou para o corpo inconsciente de Dante com uma expressão indescritível, uma mistura volátil de ódio, respeito relutante e uma frustração amarga.
— Não comemore antes da hora, gorila... — Kai resmungou, embora a tensão em seus ombros finalmente cedesse. — Foi sorte. Não se esqueça que ainda temos que derrotar a mãe dessa coisa maldita.
— Bom, como ela parece se apoiar em suas invocações, acho que será menos complicado. — Kintoki estendeu a mão boa para ajudar Kai a ficar de pé. O albino grunhiu, mas aceitou o apoio.
Fwoosh.
O som foi sutil. Quase insignificante. Como o riscar de um isqueiro Zippo em uma sala vazia.
Kintoki parou. O sorriso congelou, morrendo nos lábios.
Kai arregalou os olhos, as pupilas tremendo enquanto focavam no centro da cratera onde o monstro deveria ter virado memória.
Não havia cinzas. Havia uma chama. Uma pequena, solitária e aterrorizante chama roxa, flutuando no ar como uma alma penada recusando-se a partir.
— O que...? — Kai sussurrou, sentindo a bile subir à garganta.
A chama pulsou, contraindo-se como um coração. E então, rugiu.
O fogo violeta de Éter corrompido explodiu, subindo aos céus não como calor, mas como um pilar de luz profana. Dentro daquele inferno roxo, a matéria não estava sendo restaurada; estava sendo reescrita. Onde havia vazio, ossos brancos materializavam-se do nada, tricotados pela realidade distorcida. Onde havia ar, a madeira negra se trançava e retorcia como músculos digitais, reconstruindo a forma em velocidade acelerada.
O Humanoide Wendigo saiu das chamas.
Ele não tinha um arranhão. Sua armadura de madeira polida brilhava como se tivesse acabado de ser envernizada. As pistolas fundidas aos seus antebraços irradiavam o calor fumegante da ressurreição.
— Impossível... TÁ ZOANDO COM A MINHA CARA, SEU MERDA! — A voz de Kai foi lentamente virando um rugido de fúria.
A criatura não respondeu. A lógica humana de conservação de massa e energia não se aplicava a um ser conectado diretamente à fonte da Vida. Enquanto a "Mãe" desejasse, a morte para ele era apenas um breve estado de recarga.
O Wendigo levantou os braços. A mira algorítmica travou instantaneamente nos dois alvos exaustos.
— KAI! — Kintoki berrou, tentando se jogar na frente, um último ato de heroísmo instintivo.
BANG. BANG.
Dois disparos simultâneos. Secos. Definitivos. Sem drama, apenas eficiência.
As balas de éter concentrado atingiram o centro do peito de Kintoki e o abdômen de Kai. Desta vez, não houve defesa mágica, nem escudo espacial, nem resistência física de um tanque. Eles estavam vazios.
— GAH!
Kintoki foi arremessado para trás como se tivesse sido atropelado por um caminhão invisível. Ele bateu as costas em uma rocha com um som úmido e deslizou até o chão. Seus olhos viraram, e a luz dourada de sua aura se apagou definitivamente.
— Argh... — Kai caiu de joelhos.
Ele levou as mãos ao estômago, sentindo o calor viscoso do sangue escuro escorrer por entre os dedos trêmulos. Sua visão escureceu nas bordas. Ele olhou para Dante, ainda inconsciente a poucos metros dali, alheio ao fim do mundo, e depois para o monstro de madeira que caminhava calmamente em direção a eles para finalizar o serviço.
— Merda... levanta... seu inútil...
O corpo de Kai cedeu. Ele desabou de cara na terra, o cheiro de ferro e poeira sendo a última coisa que sentiu.
O Wendigo parou sobre os corpos. A Trindade estava caída. A esperança havia durado exatos trinta segundos.
No topo da montanha, o que antes era um Jardim Dourado agora parecia um cemitério botânico após um bombardeio.
Árvores ancestrais estavam destroçadas, reduzidas a lascas. Crateras fumegantes marcavam o solo sagrado, e o cheiro de ozônio queimado saturava o ar, sobrepondo-se ao perfume das flores.
Na borda do precipício, sentada com as pernas balançando sobre o abismo, estava a Mãe.
Mas ela não possuía mais a postura intocável de uma deusa em um afresco renascentista. Seu corpo imaculado estava rasgado com vários cortes. O cabelo, antes uma cascata perfeita, estava desgrenhado, grudado na testa pelo suor frio.
Fios de sangue escorriam de um corte profundo na bochecha.
Ela estava ofegante. O peito subia e descia em um ritmo pesado, irregular, quase asmático.
— Haa... haa... — Ela levou a mão à garganta, engolindo em seco, sentindo a secura da desidratação.
A batalha contra as garotas, somada à energia massiva e constante necessária para reviver o Wendigo lá embaixo repetidas vezes, estava cobrando seu preço. Seu corpo físico, afinal, tinha limites. Ela era uma consciência infinita, mas estava pilotando um veículo de carne perecível.
Ela inclinou o corpo cansado para a frente, ignorando a dor muscular, e focou seus olhos dourados lá embaixo, no ponto exato onde o braço de Dante havia liberado aquela onda de energia estranha antes de apagar.
— Então... — Ela sussurrou. A voz estava rouca pela exaustão, mas vibrava com uma descoberta elétrica. — É aí que você está... Possibilidade.
Um sorriso fraco, mas genuinamente intrigado, curvou seus lábios pálidos.
Ela se virou lentamente, girando o tronco com um gemido de esforço.
Atrás dela, o cenário era de derrota total.
Ludmilla estava caída, de cara contra o chão, respirando pesadamente. Suas correntes jaziam cortadas ao redor como serpentes mortas, e sua rapieira estava partida ao meio a metros de distância. Ela estava consciente, mas seus olhos estavam vidrados, o corpo paralisado por veneno e exaustão, coberto de cortes.
Yuki estava de bruços na lama, a lança caída longe do alcance. A eletricidade de seu corpo fora tão drenada que sua pele parecia cinza.
A Mãe apoiou o queixo na mão suja de sangue, olhando para Ludmilla e Yuki com pálpebras pesadas.
— Agora... — Ela falou, fazendo uma pausa longa para recuperar o fôlego e estabilizar o batimento cardíaco. — Antes de me livrar de vocês e absorver suas essências para consertar este meu corpo... eu preciso de mais informações sobre ele.
Ela sorriu como uma criança que acabou de ganhar um gacha com apenas os giros grátis que o jogo havia fornecido.
A pressão no ar aumentou, esmagadora, apesar do cansaço visível dela. As raízes ao redor do pescoço de Ludmilla e das pernas de Yuki se agitaram, os espinhos roçando a pele, prontos para perfurar.
— Me pergunto... — A Mãe sorriu. O sorriso não tinha nada de maternal; era o sorriso de uma cientista vivissecando um espécime raro. — Qual de vocês sabe mais sobre ele? E qual de vocês vai me contar tudo agora, para que a morte da outra seja rápida e indolor?
Parte 6
O vale mergulhou em um silêncio sepulcral, violado apenas pelo som repugnante de madeira estalando e engrenagens biológicas girando. O Humanoide Wendigo caminhou sobre os corpos inertes de Kai e Kintoki sem sequer desviar o olhar. Para a máquina da Mãe, eles eram lixo; detritos irrelevantes. Sua diretriz era absoluta.
O monstro parou diante de Dante.
O garoto estava estirado de bruços, o braço direito ainda soltando fumaça, a consciência perdida em algum lugar na escuridão. O Wendigo ergueu o braço-pistola. A madeira negra da arma se contorceu, fluindo como líquido viscoso até se solidificar em uma estaca de execução, apontada diretamente para a base do crânio de Dante.
Sem cerimônia, ele desceu o braço.
PA!
O som não foi o de osso sendo perfurado. Foi o estalo seco e brutal de um impacto sendo interrompido contra a vontade da física.
A estaca do monstro estancou a centímetros da nuca de Dante.
Segurando o pulso de madeira da abominação, com uma mão pequena envolta em luvas de combate surradas, estava uma garota de pouco mais de um metro e meio de altura. O chão de pedra sob as botas dela cedeu, rachando em um padrão de teia de aranha devido à transferência de peso, mas o braço dela não tremeu um único milímetro.
— É melhor esquecer isso aí, seu bastardo de madeira — Beatrice rosnou, erguendo o rosto.
Seus olhos não demonstravam medo; brilhavam com uma ferocidade predatória que fez até a criatura sem rosto hesitar por um nanossegundo. O ar ao redor dela tremulava, distorcido por ondas de calor — o Motor C estava roncando em marcha alta, convertendo cada gota de sua vitalidade em pura violência cinética.
— Fique sabendo que esse cretino desmaiado aí no chão tem contas para acertar... — A voz de Beatrice era baixa, mas carregava uma vibração perigosa.
Seus dedos se fecharam ao redor do pulso do monstro. Não foi apenas um aperto; foi um colapso estrutural. A madeira de éter começou a emitir sons agudos de estalo, gemendo enquanto fissuras luminosas subiam pelo antebraço da criatura.
— Mas isso é comigo.
BAM!
A ação seguinte desafiou a percepção humana. Beatrice não apenas socou; ela converteu seu corpo em um mecanismo de disparo.
O pé de apoio dela afundou no solo, criando uma base sólida enquanto o quadril rotacionava com a violência de um pistão hidráulico. A energia cinética viajou da perna, subiu pela espinha e explodiu na ponta de seus dedos. Foi um gancho de esquerda cirúrgico, mirando o centro de gravidade da criatura.
O impacto não fez barulho imediatamente — primeiro veio o silêncio do vácuo, seguido por uma onda de choque espiral que distorceu a imagem do cenário ao redor.
As costas do Wendigo não apenas "explodiram"; elas foram obliteradas. Um cone de pressão atmosférica atravessou o torso do monstro, e uma chuva de farpas negras e lascas de éter foi disparada para trás como estilhaços de granada. As duas toneladas da besta foram arrancadas do chão, violando as leis da inércia. Ele foi arremessado horizontalmente, rasgando o solo e criando uma trincheira de vinte metros de terra revirada e raízes expostas até finalmente parar.
— Vamos lá! — Beatrice chocou os punhos. O impacto das luvas liberou fagulhas e as faixas em seus braços acenderam em um laranja neon furioso, zumbindo como reatores sobrecarregados.
Mas o monstro era uma praga. Antes mesmo de seu corpo parar de deslizar, a biologia maldita entrou em ação. As fibras de madeira em seu peito se contorceram como vermes vivos, trançando-se em velocidade acelerada para fechar o buraco no torso.
O Wendigo ergueu as duas pistolas. O ar ao redor dos canos distorceu com o calor do éter acumulado.
BANG! BANG! BANG!
Três esferas de éter concentrado rasgaram o ar, deixando trilhas de fumaça azulada. Eram projéteis de aniquilação pura; tocar nelas significaria perder um membro.
Beatrice não desviou. Ela avançou.
A cada passo, o chão sob seus pés rachava. Ela correu de encontro à morte, abrindo os braços e expondo o peito em um gesto de desafio insano.
— Absorção Cinética.
O momento do impacto foi visualmente dissonante. As esferas não explodiram; elas colidiram contra a pele dela e achataram, como gotas de água atingindo uma superfície hidrofóbica, antes de serem violentamente sugadas para dentro de seus poros. O brilho azul do ataque foi engolido, digerido e forçado a percorrer o sistema circulatório da garota.
A reação foi imediata e grotesca.
— Gah! — O ar escapou dos pulmões dela.
As veias de Beatrice saltaram contra a pele, brilhando com uma luz cegante. Seus músculos incharam, fibras se retesando além do limite biológico, até que a carne cedeu. A armadura natural de escamas e a pele resistente rasgaram-se em microfissuras, liberando jatos de vapor e sangue superaquecido.
Ela parecia um motor de combustão prestes a fundir, vazando energia bruta pelos olhos e pelas feridas recém-abertas.
— Se você é tão forte... — O sorriso dela era uma fenda cheia de dentes, selvageria e êxtase de batalha. — Aposto que pode aguentar o meu máximo!
O chão sob ela vaporizou quando ela saltou. Beatrice subiu metros no ar, girando o corpo verticalmente. A rotação acelerou até que ela se tornasse um borrão, uma broca humana envolta em uma aura laranja crepitante que gritava ao cortar a resistência do vento.
— SPIRAL HAMMER!
A descida foi catastrófica. O calcanhar dela desceu como um meteoro, carregando todo o peso da gravidade somado à energia absorvida do inimigo.
O Wendigo cruzou os braços blindados, reforçando a madeira com camadas extras de éter em uma tentativa desesperada de defesa absoluta. Inútil.
CRACK!
O som de madeira partindo foi tão alto que parecia um tiro de canhão. A perna de Beatrice atravessou a guarda do monstro como se fosse papel. Os braços dele se desintegraram em gravetos e poeira. O calcanhar dela continuou a trajetória, atingindo o crânio e afundando o monstro na terra.
Uma cratera se abriu instantaneamente. A terra ao redor se elevou em ondas, derrubando árvores próximas.
Beatrice aterrissou montada sobre o peito estraçalhado da criatura. O que se seguiu não foi uma luta; foi uma execução rítmica.
Esquerda. Direita. Esquerda.
Não eram apenas socos; eram marteladas sônicas. Ela usava a rotação dos ombros para maximizar o dano em um espaço curto. Cada punho que conectava criava um vácuo de ar que estalava como trovão, dissipando a tentativa de regeneração do monstro. Ela o destruía mais rápido do que ele podia se refazer, descarregando toda a frustração de seu atraso em uma sinfonia de violência física pura.
— MORRE! MORRE! MORRE!
Beatrice tinha abandonado qualquer semblante de técnica. Ela era um borrão de violência, seus punhos descendo como pistões hidráulicos, transformando a carapaça do monstro em lascas. Mas a fúria cega tem um preço: o túnel de visão.
O monstro, mesmo sendo massacrado, reagiu. As fibras do peito esmagado não se curaram; elas se adaptaram. Com um som úmido e repugnante, a caixa torácica da criatura se abriu como uma armadilha de urso. Uma floresta de espinhos negros, longos como lanças, disparou subitamente para fora, mirando os pontos vitais expostos de Beatrice: olhos, garganta e coração.
Ela estava perto demais. O momento angular de seus socos impedia uma esquiva.
ZWISH!
O som não foi de uma flecha cortando o vento, mas de um feixe de fótons rasgando a atmosfera.
Um projétil de luz azulada cruzou o campo de batalha. Ele passou tão perto de Beatrice que a eletricidade estática eriçou os cabelos da nuca dela, antes de se cravar com precisão divina no ombro do Wendigo. A força do impacto pregou a besta contra o solo rochoso.
— Bind.
A flecha não perfurou apenas a carne; ela reescreveu a física local. A haste de luz explodiu em dezenas de glifos geométricos neon. Correntes de energia tangível irromperam do ponto de impacto, chicoteando e travando os braços e os espinhos do monstro, congelando seu contra-ataque a milímetros do rosto de Beatrice.
A garota piscou, vendo a ponta afiada de um espinho negro tremer diante de sua pupila, contido pela barreira de luz. Ela olhou para trás, bufando.
No alto de uma rocha saliente, a trinta metros de distância, Kaiser mantinha a pose de disparo. Seu arco de éter pulsava suavemente, partículas de luz se dissipando ao redor. Sua capa esvoaçava em um ritmo dramático e lento, desafiando a ausência de vento, puramente para compor a estética do "herói".
— Não faça algo tão vergonhoso, Beatrice. — A voz dele veio cristalina pelo comunicador, sem um pingo de estática, pingando julgamento elitista. — Deixando um oponente inferior ditar o ritmo e quase recebendo um golpe fatal por pura falta de consciência espacial? Tsc. Você era para ser do meu time, não?
— Cala a boca, Imperadorzinho! — Beatrice rosnou, o rosto corando de raiva, mas seu corpo já se movia.
Beatrice saltou para trás, criando espaço. O Wendigo rugiu, tentando quebrar o selo de luz de Kaiser, mas era tarde.
Uma sombra cobriu o sol. O dia virou noite por uma fração de segundo.
Tenma Shiranui estava em queda livre, vindo diretamente do zênite.
Ela não gritou. Ela não fez pose de super-herói. Ela simplesmente inverteu seu centro de gravidade. A densidade de seu corpo aumentou exponencialmente, canalizando o peso de um meteoro em seu punho direito. O ar ao redor da mão dela colapsou, distorcendo a luz em tons de preto e carmesim, pesado demais para a realidade suportar.
CRASH!
Tenma atingiu a nuca da criatura.
O som do impacto foi atrasado; primeiro, houve o silêncio da aniquilação. A parte superior do corpo do Wendigo — cabeça, ombros, peito e braços — não foi apenas esmagada; foi deletada. A pressão atmosférica gerada pelo golpe atomizou a madeira e a carne, transformando o monstro em uma nuvem de poeira fina e partículas de éter.
Um anel de poeira explodiu para fora, limpando o terreno em um raio de cinquenta metros. Árvores próximas foram arrancadas pela raiz ou dobradas ao meio pela onda de choque.
No centro da cratera fumegante, Tenma pousou com a leveza de uma pluma, o contraste absurdo com a destruição que acabara de causar. Ela sacudiu a mão, fazendo uma careta de nojo, como se tivesse tocado em algo viscoso. Sua "máscara" de delinquente estava ativa: dentes trincados, veias saltadas na testa, um olhar que faria um demônio atravessar a rua para evitar conflito.
Mas, por dentro, sua mente era um caos de ansiedade aguda:
Ai meu Deus, ai meu Deus! Será que eu bati forte demais? Eu acho que vaporizei ele! E se voou sangue na roupa da Beatrice? Achei que finalmente seria nosso momento de trabalho em equipe!
Beatrice caminhou até a beira da cratera, limpando a serragem dos ombros como se fosse caspa.
— Nada mal. — Beatrice desceu e deu um soco "amigável" no ombro de Tenma. O impacto teria deslocado o braço de um humano normal e quebrado a clavícula, mas Tenma nem oscilou, dura como diamante.
— Zzzzt... — O chiado no comunicador quebrou o momento.
— É melhor uma de vocês tirar o corpo do Dante e dos outros dois imprestáveis daí. — A voz de Kaiser soou novamente. A arrogância havia desaparecido, substituída por uma tensão clínica. — Agora.
— Hã? Por que essa maldita ansiedade agora? — Beatrice questionou, irritada, sem querer sair da linha de frente agora que havia chegado lá.
— O Éter dessa coisa aí tá ficando maior.
Beatrice estreitou o olhar. As pernas não haviam caído.
Do toco da cintura decepada, onde deveria haver apenas morte, chamas roxas começaram a brotar. Mas não eram chamas de combustão; eram chamas de criação. O fogo frio lambeu o ar e solidificou-se.
CRECK-CRACK-SQUELCH.
O som de madeira crescendo. Em velocidade aterrorizante, a matéria escura começou a tecer uma nova espinha dorsal. Costelas de madeira negra brotaram das vértebras recém-formadas, trançando-se para proteger um coração pulsante de fogo violeta. Um novo crânio se formou do nada, e órbitas vazias se acenderam com ódio renovado.
A criatura não estava apenas se curando. Ela estava evoluindo.
— Ele está regenerando... — Tenma sussurrou, a voz rouca por trás da máscara.
Kaiser desceu da rocha com um salto gracioso, parando a uma distância segura, mas mantendo o arco tensionado com uma nova flecha.
— Falando nisso... — Kaiser olhou para a criatura, que em segundos já estava com o torso metade reconstruído, o símbolo do "olho" brilhando novamente. — Alguém tem uma solução tática contra a imortalidade dessa coisa?
O silêncio reinou por um segundo.
Kaiser olhou para Tenma. Tenma olhou para Beatrice. Kaiser olhou para Beatrice, esperando algum plano, alguma estratégia de caçadora experiente que já havia lutado contra um astreus durante o Titanic, algum "ás na manga".
Beatrice apertou os punhos, até os nós dos dedos estalarem. Seus olhos estavam fixos no monstro que se erguia, agora completo novamente. Sua expressão era de seriedade absoluta, a face de quem calculou todas as variáveis complexas da batalha.
— Não tenho nada — disse Beatrice, com a convicção inabalável de um general.
— ...O quê? — Kaiser piscou.
— Não tenho plano nenhum. Então eu só vou continuar socando até ele parar de levantar!
Beatrice explodiu em aura laranja novamente e avançou contra o monstro imortal com um grito de guerra. Tenma, seguindo o exemplo, correu logo atrás.
Kaiser baixou o arco por um momento, a boca levemente aberta, incrédulo diante da estupidez tática. Ele suspirou, ajeitando o cabelo.
— ...Capitã Levy... por que eu estou nessa sala?!
Parte 7
O corpo da "Mãe" caminhava entre os destroços, uma silhueta divina profanada por terra, fuligem e sangue dourado. Ela deu um passo em direção a Ludmilla, o sorriso maternal ainda curvando seus lábios, as mãos estendidas para colher a essência da Princesa caída como quem colhe uma fruta madura.
Mas a biologia é uma tirana, e ela tem limites. Mesmo para um Astreus pilotando um corpo humano.
O joelho direito da Vida vacilou.
Não foi um simples tropeço; foi um colapso estrutural. A musculatura da perna, consumida até a última fibra pela regeneração constante do Wendigo e pelo combate prolongado, simplesmente desligou. Ela caiu de joelhos na lama com um baque surdo, o ar escapando de seus pulmões em um chiado asmático e doloroso.
— Haa... — Ela olhou para as próprias mãos trêmulas, os dedos espasmando sem controle. Uma expressão de surpresa genuína cruzou seu rosto. — Vocês... realmente sempre me surpreendem... Hahaha...
Foi uma fração de segundo de vulnerabilidade absoluta. Mas para Ludmilla, uma fração de segundo é um oceano de tempo.
— Não subestime... — Ludmilla sussurrou, o sangue borbulhando nos lábios. — ...UM CAÇADOR!
Ludmilla não se levantou; ela se detonou em direção ao alvo.
O veneno em suas veias já não era dor; era uma sentença de morte fria que transformava seu sangue em lodo. Suas costelas, reduzidas a pó, gritavam para que ela parasse. Mas a "Princesa" ignorou a biologia. Ela queimou suas últimas reservas de glicogênio, alma e sanidade em um único impulso suicida.
Em sua mão direita, o que restava de sua rapieira — apenas o guarda-mão ornamentado e trinta centímetros de aço estilhaçado — capturou a luz fraca do ambiente. Parecia patético. Era exatamente o que ela queria que parecesse.
Ela rasgou a poça de sangue que a separava da divindade, o corpo movendo-se mais rápido do que a própria sombra.
— Devil Eye: Corte Fantasma.
O mundo ao redor de Ludmilla perdeu a cor, tornando-se um esboço cinza de linhas e vetores. Os olhos dela, antes focados e táticos, sofreram um espasmo violento. As íris dilataram até o limite e, no centro das pupilas, brilhos vermelhos se cruzaram formando um "X" nítido.
A Deusa viu a investida. Seus olhos divinos rastrearam a lâmina quebrada vindo em direção à sua jugular. Ela não tinha resistência, zero defesas; mesmo aquele pedaço de metal poderia cortá-la se a alcançasse. Mas apenas se a alcançasse. Vendo o golpe iminente, ela usou o restante de sua força para se jogar para trás, medindo o alcance máximo daquela lâmina.
SWISH.
O movimento de Ludmilla foi uma obra de arte de enganação. Ela moveu a espada quebrada, forçando a Deusa a focar no aço. Mas a lâmina nunca chegou a sentir a textura da pele dela. Não precisava tocar. O aço era uma mentira; uma distração para olhos arrogantes.
O verdadeiro golpe veio do olhar. As linhas de "X" nos olhos de Ludmilla brilharam intensamente, traçando uma linha vermelha invisível na garganta da entidade.
Corte Conceitual.
Não houve som de impacto, apenas o ruído úmido de tecido se separando. Ludmilla não cortou a pele; ela cortou a definição de que aquela cabeça estava conectada àquele corpo.
— Você se distraiu... Deusa. — Ludmilla sussurrou, o sorriso manchado de sangue.
A inércia do ataque levou o corpo da caçadora para a frente. Ela passou direto pela divindade, como um samurai após um duelo, e seus joelhos cederam. Ela derrapou na lama, o corpo entrando em desligamento total, o choque térmico finalmente cobrando o preço.
Atrás dela, a física obedeceu ao comando do Devil Eye.
A cabeça da Vida deslizou suavemente para o lado. A gravidade assumiu. A visão da Deusa girou em câmera lenta. O mundo virou de ponta-cabeça — o céu cinzento trocou de lugar com a lama escura e os sapatos de Ludmilla.
Houve um baque surdo quando a cabeça atingiu o chão e rolou duas vezes. Sangue dourado esguichou do pescoço aberto como um gêiser, pintando o cenário.
Porém, enquanto a cabeça parava de rolar, a expressão no rosto decepado não era de dor, nem de pânico. Os olhos continuavam abertos, piscando lentamente, focados na caçadora caída.
— Tá bom... caçadora.
A voz não veio da garganta cortada, mas ecoou de todas as direções, vibrando no próprio ar, calma, pragmática e absolutamente aterrorizante.
— Talvez eu tenha subestimado vocês.
THUD.
A cabeça caiu na lama, rolando até parar com os olhos abertos encarando o céu. O corpo decapitado permaneceu ajoelhado, como uma estátua quebrada em adoração.
Lá embaixo, na cratera onde a Trindade estava caída, o efeito foi imediato.
O Humanoide Wendigo, que já preparava as pistolas para a execução final, travou. Como uma marionete que teve os fios cortados por uma tesoura invisível, o gigante de madeira perdeu toda a tensão. Ele desabou para a frente, inerte, batendo no chão com o som de uma árvore caindo na floresta.
— Ele... parou? — Tenma, ainda em postura de combate, piscou por trás da máscara, confusa com o silêncio repentino.
— Vencemos? — Beatrice baixou a guarda por um instante, limpando o suor que ardia em seus olhos, misturado com o sangue do nariz. — Acabou?
A resposta veio do topo da montanha. Não foi um trovão. Foi o som úmido, rasgado e nauseante de carne se multiplicando em escala industrial.
GRIIIIIIIIIIII!
O corpo decapitado da Vida não caiu. Do corte aberto no pescoço, o sangue não jorrou; ele explodiu em formas sólidas. A carne da Deusa entrou em convulsão, a biologia enlouquecendo sem o controle do cérebro.
— O que diabos é aquilo?! — Tenma gritou, recuando instintivamente.
Do pescoço da Vida, uma torrente de horrores biológicos irrompeu como um vulcão de carne. Tentáculos grossos e viscosos, corpos segmentados de centopeias gigantes, cabeças de lobos esfolados, bodes com olhos múltiplos e raposas com dentes de sabre. Era como se todo o reino animal tivesse sido liquefeito, misturado em um caldeirão genético e vomitado de uma vez só.
A massa grotesca cresceu exponencialmente, atingindo o tamanho de um prédio de dez andares em segundos, debatendo-se e destruindo o topo da montanha. Rochas de toneladas foram arremessadas como pedregulhos diante da expansão da carne.
— Merda! A montanha vai colapsar! — Beatrice gritou, fincando os pés no chão para não ser levada pelo tremor sísmico.
Ela olhou para o monstro de carne lá em cima, depois para Tenma, e finalmente para os corpos inconscientes de Dante, Kai e Kintoki espalhados aos pés delas.
— Tenma! — Beatrice ordenou, a voz de comando cortando o pânico. — Pegue os três idiotas e saia daqui agora!
— O quê?! — Tenma hesitou, olhando para a massa de carne que rugia acima delas e bloqueava o sol. — E você?!
— Não me faça repetir! — Beatrice rosnou. — Aquela coisa lá em cima... e esse "morto" aqui embaixo... — Ela apontou com o polegar para o Wendigo caído. — Eles ainda cheiram a perigo. Alguém tem que segurar a linha. VAZA!
Tenma mordeu o lábio, frustrada, mas a lógica venceu. Ela correu para carregar os três corpos desmaiados de uma vez só — um em cada ombro e um nos braços — e saltou para longe da zona de morte, desaparecendo entre as árvores.
No topo da ruína, o caos começou a se organizar.
A massa de animais e tentáculos parou de crescer e começou a se contrair. Os tentáculos finos agiram como agulhas e linhas, puxando a cabeça da Vida que estava na lama de volta para o topo da coluna de carne. O som de ossos se reconectando e pele se costurando foi audível.
A Vida se levantou. Inteira novamente. A regeneração estava mais lenta, a pele mais pálida, quase translúcida, mas ela estava de pé.
— Que indelicadeza... — Ela estalou o pescoço, testando a conexão das vértebras. Seus olhos dourados, frios e sem brilho, varreram o cenário destruído. — Agora... como eu vou fazer para descobrir mais sobre o Dante?
— Se queria informações sobre o Dante... — Uma voz feminina, carregada de arrogância real e um desprezo gelado, desceu dos céus como uma guilhotina. — ...ao invés de tentar roubar desses pesos mortos, não acha muito melhor tentar arrancá-las de mim?
A Vida olhou para cima.
Flutuando no meio do ar, desafiando a gravidade com a naturalidade de quem respira, estava Vivian.
Ela estava sentada com as pernas cruzadas sobre uma tesoura gigante prateada que flutuava como um trono de lâminas. Em seus braços, ela segurava Ludmilla e Yuki, ambas inconscientes, aninhadas e protegidas como bonecas de porcelana preciosas.
Vivian sorria. Era um sorriso educado, polido, mas seus olhos vermelhos prometiam um banho de sangue bíblico.
— Afinal de contas... — Vivian inclinou a cabeça, os cabelos brancos flutuando com a pressão de sua aura assassina. — Eu sou a irmã dele.
Enquanto isso, na base da montanha, o pesadelo de Beatrice se confirmava.
O corpo do Humanoide Wendigo, esmagado sob toneladas de escombros e inerte até agora, começou a vibrar. Uma chama roxa, mais escura, densa e fria que antes, começou a incinerar as pedras ao redor.
— Eu sabia... — Beatrice cuspiu no chão, limpando o sangue do canto da boca e entrando em base de luta. — O cheiro de merda nunca some fácil.
Os destroços explodiram.
O Wendigo se levantou. Mas a elegância do cavaleiro havia desaparecido. Sua armadura de madeira estava podre, descascando para revelar carne cinzenta e necrosada por baixo. Um pedaço de sua máscara facial quebrou e caiu, revelando um aglomerado de olhos frenéticos e injetados de sangue.
Das suas costas, a pele rasgou-se com um som molhado. Um par de asas de corvo, negras e oleosas, estendeu-se por dez metros, bloqueando a luz. Chifres curvos de demônio brotaram da testa, completando a blasfêmia.
Ele não rugiu. Ele apenas exalou uma nuvem de miasma tóxico que fez a grama ao redor murchar instantaneamente.
— Beleza, passarinho feio... — Beatrice sorriu, estalando os dedos enquanto sua aura explodia ao máximo. — Round 2.
Parte 8
No topo do mundo, onde o ar era rarefeito e cheirava a ozônio, o verdadeiro confronto começou.
— ...Vocês não param de aparecer, como baratas saindo das frestas. — A Vida suspirou. Sua voz não demonstrava cansaço, apenas tédio cósmico. — Eu consigo sentir mais de vocês se aproximando. Querem que eu espere a festa ficar completa?
— Ah, é? Não precisa se dar ao trabalho... — Vivian desceu do céu, levitando sobre a lâmina de sua tesoura gigante como se fosse uma prancha de surfe. Com um gesto delicado de mão, ela depositou os corpos destroçados de Ludmilla e Yuki em um platô seguro, longe do abismo. — Afinal, serei eu quem vai te matar.
Ela estalou os dedos.
— Sofia... tire o lixo do caminho. Leve elas daqui.
Sofia, que acabara de chegar ofegante, arregalou os olhos. Ela correu em direção às companheiras caídas, a mente girando em confusão.
Droga! O Kai me jogou na irmã dele e sumiu dizendo que "não precisava mais pedir ajuda pro Dante". Quem é essa mulher? Ela é o nosso Inimigo?
A Vida observou a movimentação periférica, mas ignorou Sofia como se ignora uma formiga. Seus olhos dourados se fixaram na nova ameaça: a garota equilibrada sobre uma arma ridícula.
Ela é irmã do Avatar da Possibilidade? Interessante... A divindade analisou, seus olhos estreitando-se. Os outros caçadores precisaram desligar a percepção de Éter para não enlouquecerem com minha presença. Ela está fazendo o mesmo? Ou será que...
A Vida sorriu. Um sorriso quase imperceptível. Pela primeira vez em milênios, ela estava se divertindo. O conceito de "luta" era novo e inebriante, algo que nunca a agradaria na época em que era apenas o conceito da Vida, mas agora, fundida à carne e sentimentos humanos, ela foi maculada.
SZZZT!
O sorriso vacilou. Sem que a Deusa tivesse movido um músculo, a pele de seu ombro esquerdo chiou como bacon na chapa. Uma luz esmeralda rompeu a perfeição de sua pele pálida. Uma Runa Celta, complexa e pulsante, queimou na carne divina.
A Vida franziu a testa, genuinamente confusa. Ela tentou circular seu Éter infinito para apagar a mancha, mas a energia falhou. Era como tentar encher um copo furado; o poder simplesmente "vazava" naquele ponto específico.
— O que é isso? — Ela murmurou, tocando a marca.
— Entendi... — Vivian, ainda flutuando, passou a língua nos lábios, os olhos brilhando com malícia predatória. — Então a sua "imunidade" tem brechas desse tipo.
Vivian saltou da tesoura. Enquanto caía, ela agarrou as alças da arma gigante no ar. O peso do metal faria um humano normal afundar no chão, mas ela a manuseava como se fosse feita de isopor.
— Meu irmãzinho decidiu que iria superar o Dante, sabe? Ele é meio escandaloso e irritante, mas é importante pra mim. — Vivian girou a tesoura, a lâmina zunindo ao cortar o vento. — Então, se você está querendo tirar a presa dele roubando o Dante... saiba que eu não vou deixar.
A resposta da Vida não foi verbal. Foi visceral. Ela olhou para o sangue de Ludmilla espalhado no chão. A sombra projetada pela poça se distorceu, borbulhou e ergueu-se. Não era magia; era alquimia biológica. Um gêiser de escuridão, carne coagulada e sangue solidificado emergiu, tomando a forma de uma besta sem rosto, apenas garras e ódio.
A besta avançou com a velocidade de um chicote.
— GAH!
O impacto foi como ser atropelada por um trem de carga. Vivian foi arrancada do chão e arremessada horizontalmente, colidindo contra uma parede de rocha com um estrondo que fez a montanha vibrar.
Mas Vivian não caiu. No momento em que suas botas tocaram a parede vertical, ela dobrou os joelhos, absorvendo a energia cinética.
— Lento!
Ela explodiu da parede como uma bala humana. No ar, ela soltou a tesoura. A arma ganhou vida própria, controlada por uma telecinese tátil refinada. As lâminas gigantes giraram como a hélice de um helicóptero assassino.
SNICK!
Foi um som seco e satisfatório. A tesoura passou através do monstro de sombra e sangue, decapitando-o e fatiando o torso em três pedaços simétricos antes mesmo que a criatura pudesse reagir.
Vivian aterrissou correndo, agarrando a tesoura no meio do movimento, avançando em ziguezague na direção da Deusa, pronta para o corte final.
Mas o solo traiu seus pés. A Vida apenas moveu um dedo.
CRACK-BOOM!
A terra explodiu sob Vivian. Não eram raízes; eram lanças de madeira maciça, troncos de árvores antigas afiados como estacas, disparados para cima com pressão vulcânica.
Vivian tentou bloquear com a tesoura, mas o ângulo era impossível. Um tronco atingiu seu estômago, o outro perfurou seu abdômen lateralmente. Ela foi erguida cinco metros no ar, empalada e imobilizada pela floresta instantânea que a Deusa criou.
— Previsível. — A Vida bocejou, a mão ainda estendida.
Decepcionante, pensou a Deusa. As técnicas dela não têm o refinamento letal de Ludmilla, nem a potência bruta daquela outra garota.
Foi então que ela sentiu a ardência novamente. Outra runa celta acendeu, desta vez queimando profundamente em sua coxa.
A Vida parou. Duas marcas? Quando?
Lá no alto, pendurada como uma boneca quebrada nos troncos, Vivian começou a rir. Era um som gorgolejante, úmido. Sangue escorria de seu queixo, manchando sua roupa, mas o sorriso em seu rosto era maníaco.
— Ei... Vossa Alteza... — Vivian engasgou.
Ela acumulou tudo o que tinha na boca — sangue, saliva e bile — e cuspiu com força total. Não foi um cuspe de desprezo; foi um projétil. A mistura viscosa voou e acertou diretamente o olho esquerdo da Vida.
A Deusa recuou um passo, fechando o olho reflexivamente, enojada e irritada com a audácia e a sujeira humana.
— Sua verme insolente...
E esse foi o erro. O piscar de olhos. A quebra de contato visual. A distração microscópica.
A Vida não viu a terceira runa se formar. Ela apareceu silenciosamente bem no centro do peito da divindade, brilhando mais forte e perigosa do que as outras duas. A armadilha estava armada.
— Tsc. — Vivian segurou o tronco que a perfurava. Com um puxão violento, ela se soltou, rasgando a própria carne, e ordenou que a tesoura cortasse a madeira.
Enquanto caía, as feridas em seu estômago fumegavam, fechando-se em segundos. Regeneração vampírica.
A Vida não apenas atacou; ela decretou uma sentença.
A sombra sob os pés da Deusa entrou em ebulição, expandindo-se como um oceano de piche revolto. O ar ficou gelado quando a forma se solidificou. Um Dragão de Sombras, com galhadas que lembravam árvores mortas e olhos de puro vazio, emergiu do abismo sob ela.
Vivian tentou erguer a defesa, mas a pressão do rugido da besta foi física, quebrando sua postura. A Vida montou no topo da cabeça do dragão com uma elegância intocável, cruzando as pernas enquanto a besta atropelava a vampira.
— Desça.
O dragão mergulhou no chão, esmagando Vivian contra o solo até alcançar uma caverna subterrânea.
Eles atingiram o fundo da caverna com um estrondo tectônico.
— Morra. — A ordem da Vida foi um sussurro.
O dragão abriu a mandíbula e liberou não fogo, mas um jato de chama negra líquida à queima-roupa. O inferno escuro consumiu Vivian, enterrando-a no chão da caverna e derretendo a pedra ao redor.
Satisfeita, a Vida puxou as rédeas de sombra, fazendo o dragão virar para ascender de volta ao topo. O trabalho estava feito.
RUMBLE.
O chão não apenas tremeu; ele teve um espasmo. De dentro da cratera de chamas negras, um som gutural rasgou o silêncio.
— HAHAHAHAHA!
SHING!
O som de metal cortando carne foi ensurdecedor. A ponta das tesouras gigantes perfurou o peito do dragão de baixo para cima, saindo pelas costas. Com um movimento brutal de abertura, Vivian rasgou a besta colossal ao meio, separando a sombra em duas cascas que se dissolveram no ar.
A força do golpe lançou a Vida para o alto, desequilibrada pela primeira vez.
— Vamos lá! A festa mal começou! — A voz de Vivian ecoou, distorcida, vibrando com uma sede de sangue que saturava o ar.
Ela emergiu da fumaça, banhada no próprio sangue e no resíduo negro do dragão. A "máscara" humana havia caído. Seus cabelos brancos se eriçaram como uma juba estática, os caninos rasgaram o lábio inferior e seus olhos brilhavam como lanternas do inferno, traçando riscos vermelhos no escuro da caverna.
— Você... não é uma vampira... — A Vida observava a criatura com raiva; algo nela parecia estar a incomodando profundamente. — Scarlune...
A Vida, em queda livre em direção ao solo, olhou para aquela aberração.
— Você... — Ela sentiu uma picada fria no pescoço. Uma quarta runa, pulsando em um verde doentio, se formou em sua garganta. — Você me incomoda profundamente.
Vivian não esperou a gravidade fazer seu trabalho. Ela saltou. No ar, ela pisou na lateral plana de sua tesoura gigante, canalizando energia cinética e usando a arma como um skate aéreo, surfando na própria onda de choque da explosão anterior para ganhar velocidade terminal.
— HAHAHA! ME ODEIE O QUANTO QUISER! — Vivian gritou, girando no ar como um peão da morte.
Com um estalo metálico, ela destravou o eixo da arma.
— Estilo de Dupla Empunhadura: Abertura do Caos.
As lâminas se separaram. Agora ela segurava duas espadas gigantes, pesadas e grotescas.
— Seu funeral já estava previsto no minuto em que a música começou! Habilidade Ativada: Sinfonia da Decadência.
Vivian desferiu dois cortes cruzados, formando um "X" de pura pressão de vento cortante. A Vida reagiu instantaneamente. Raízes grossas brotaram das paredes da caverna, criando um escudo esférico de madeira. Deveria ser impenetrável. Mas quando as lâminas de Vivian tocaram a madeira, a defesa não quebrou; ela apodreceu. As lâminas atravessaram a barreira como se fosse manteiga rançosa, cortando as árvores e roçando a pele da Deusa.
Pela primeira vez, a máscara de apatia da Vida trincou. Uma veia saltou em sua testa lisa. Ira pura.
Ela estendeu a palma da mão aberta.
Uma flor negra desabrochou na mão da Deusa. Em um instante, a planta "bebeu" toda a luz da caverna, mergulhando o mundo em um breu absoluto por um milissegundo, antes de disparar toda a energia acumulada em um feixe de laser concentrado.
VWOOM!
Vivian foi atingida em cheio no peito. O feixe a pregou contra a parede oposta, a força do impacto criando uma cratera que fez o teto da caverna rachar.
Silêncio. Poeira.
Então, passos. A poeira mal baixou e uma silhueta já estava de pé. O buraco fumegante no ombro de Vivian borbulhava, a carne se tricotando em velocidade visível, fechando o ferimento em segundos.
— Não me subestime tanto, Deusa idiota! — Vivian cuspiu um pedaço de dente no chão, que já estava crescendo de volta. Ela sorriu, e o sorriso era a coisa mais aterrorizante naquela caverna.
Parte 9
Na superfície, a atmosfera havia se tornado veneno puro. O Cavaleiro Wendigo não era mais um lutador; era uma catástrofe ambiental flutuante. Uma blasfêmia de carne necrótica e madeira negra que, ao bater suas asas de corvo, levantava ventos tóxicos. O miasma ácido derretia a rocha nua da montanha, transformando o pico em um pântano sibilante e borbulhante.
— GRIIIIAAAA!
O rugido foi estática pura, um som que fez os dentes de Beatrice vibrarem. A besta projetou as asas para a frente. As penas não caíram; elas foram disparadas. Uma chuva de milhares de adagas de obsidiana, cada uma pulsando com um núcleo instável de Éter explosivo, cobriu o céu.
— Tsc. Truque barato de pombo sujo!
Beatrice não recuou. Ela cruzou os braços em "X" na frente do rosto, firmando a base e ativando sua pele ao máximo.
BOOM! BOOM! BOOM! BOOM!
O topo da montanha foi varrido por explosões em cadeia. O fogo e a energia engoliram a garota. Beatrice foi arrastada para trás pela pura pressão. Suas botas rasgaram o solo rochoso, abrindo duas trincheiras profundas de cinco metros enquanto ela freava a inércia na força bruta.
Quando a fumaça se dissipou, ela ainda estava lá. Seu uniforme escolar estava chamuscado, o blazer rasgado nos ombros revelando a pele fumegante, mas intacta. Seus olhos brilhavam com uma loucura deliciosa. A aura laranja ao redor dela não estava apenas queimando; estava sugando. Ela bebia a energia térmica e cinética das explosões, convertendo o dano letal em combustível para seus próprios músculos.
— É só isso, passarinho?! — Beatrice gritou, baixando a guarda e cuspindo um coágulo de sangue com um sorriso selvagem. O corpo dela vibrava, supercarregado. — Eu estou só aquecendo!
O Wendigo mergulhou. Ele desistiu da magia; optou pela massa crítica. Com a velocidade de um caça em queda livre, ele desceu para esmagar a garota com as garras, transformando suas duas toneladas em um aríete vivo.
Beatrice preparou a recepção. Ela flexionou os joelhos, e o chão ao redor dela rachou em teia de aranha, incapaz de suportar a densidade de energia acumulada em suas pernas. Ela ia parar o meteoro com as mãos nuas.
Mas então... o mundo travou.
Foi sutil, mas para uma lutadora de instinto apurado como Beatrice, foi gritante. No meio do mergulho, a chama roxa nos olhos do Wendigo cintilou, falhando como uma lâmpada fluorescente prestes a queimar. A velocidade dele caiu pela metade instantaneamente. A aura opressora de "imortalidade" que o envolvia tremeu, pixelizou e dissipou, como um sinal de Wi-Fi sendo cortado.
Longe dali, as Runas da Decadência de Vivian estavam corroendo a "Mãe", e o "Filho" sentia o choque do cordão umbilical sendo estrangulado.
— Hã? — Beatrice percebeu a hesitação. O ritmo da batalha havia quebrado.
O monstro tentou corrigir a rota, mas seus movimentos estavam lagados. Ele parecia um personagem de videogame com conexão ruim, movendo-se em espasmos descoordenados. A madeira em seu ombro, que deveria regenerar instantaneamente, parou de crescer no meio do processo, deixando carne exposta e purulenta.
Beatrice não sabia o que estava acontecendo no outro campo de batalha, mas ela falava a língua da violência fluentemente, e aquela frase era clara: O inimigo está vulnerável.
— Hah! — O sorriso dela se alargou, tornando-se predador. — A bateria tá acabando, é?!
O Wendigo rugiu em frustração. Ele levantou o braço-pistola para desintegrá-la à queima-roupa.
Click.
O disparo falhou. O mecanismo biológico engasgou. E, nesse milésimo de segundo de falha, Beatrice sumiu.
VWOOM!
Ela explodiu do chão. Ela não saltou; ela se disparou como um míssil terra-ar. O deslocamento de ar da decolagem foi tão violento que derrubou uma árvore próxima.
Ela interceptou o monstro no meio do céu. Com a mão esquerda, seus dedos enluvados cravaram na base da asa direita do Wendigo como ganchos de aço industrial. Ela girou o corpo, usando a inércia contra a criatura, e plantou o pé nas costas dele para fazer alavanca.
— SAI DAQUI!
CRACK-RIIIIP!
O som foi nauseante. Com um puxão de pura força bruta, Beatrice não apenas quebrou; ela arrancou a asa inteira do monstro. Carne, ossos ocos e penas negras explodiram em uma chuva grotesca sobre o vale.
O Wendigo gritou — um som digital distorcido, um erro de sistema biológico — e entrou em parafuso, perdendo a sustentação.
Beatrice não o largou. Ela usou o corpo em queda da criatura como trampolim, saltando e posicionando-se acima dele durante a descida.
— Vamos ver se você regenera DISSO!
Ela juntou as duas mãos acima da cabeça, entrelaçando os dedos. A aura laranja se condensou em torno de seus punhos, tornando-se sólida, pesada. O ar ao redor de suas mãos distorceu visivelmente, dobrando-se sob o peso da energia gravitacional acumulada.
— MOTOR C: SLEDGEHAMMER!
Ela desceu junto com a gravidade, adicionando a força de seus propulsores internos. O golpe de duas mãos atingiu o peito do Wendigo no milissegundo exato em que as costas dele tocaram o chão.
KABOOOOOOOM!
Não foi uma cratera; foi um evento sísmico localizado. A montanha tremeu. Uma onda de choque espiral pulverizou a armadura de madeira, esmagou a caixa torácica e achatou a criatura contra a rocha matriz, afundando o terreno em três metros.
No centro da poeira, o Wendigo tentou levantar, tremendo como um animal atropelado. O braço-pistola se moveu, tentando mirar cegamente. Mas a regeneração estava lenta, dolorosa. A madeira tentava crescer, mas se esfarelava em pó cinza, sem a energia infinita da "Mãe" para sustentá-la.
Beatrice pousou pesadamente em cima do peito dele. Ela pisou no braço armado do monstro, prendendo-o no chão com a bota.
— O que foi? — Ela zombou, inclinando-se para olhar nos olhos de fogo roxo que agora não passavam de brasas moribundas. — Cadê a marra de Deus imortal?
Ela começou a socar. Não havia técnica. Não havia artes marciais. Era uma surra de rua. Brutal. Primitiva. Pessoal.
BAM! BAM! BAM! BAM!
Direita. Esquerda. Direita. Esquerda. O ritmo era hipnótico e aterrorizante.
A cada soco, pedaços de madeira e carne voavam. O crânio do monstro começou a rachar, ceder e achatar. A máscara de olhos múltiplos foi destruída, revelando uma polpa negra sem forma por baixo.
— LEVANTA! — BAM! — VOCÊ NÃO É O BONZÃO?! — BAM! — ENTÃO POR QUE TÁ MORRENDO?!
Parte 10
A Vida olhou para o corte em seu braço. O icor vermelho que deveria curar instantaneamente agora fluía como óleo sujo, recusando-se a coagular. As bordas da ferida estavam cinzentas, necróticas, descamando como cinzas de papel queimado.
Seu corpo divino parecia... pesado. Lento. A gravidade parecia ter triplicado. Ela se movia como se estivesse submersa em piche, e, pior, sentia sua reserva infinita de Éter secar. A torneira estava fechando; ela já não podia alimentar o "Filho" na outra batalha sem se sacrificar.
— Aquelas runas... — A Vida percebeu, os olhos se arregalando minimamente enquanto tentava limpar a visão turva.
— Idiota... — A voz de Vivian sussurrou em seu ouvido, vinda de lugar nenhum e de todos os lugares. — Você vai continuar definhando. Cada golpe, cada interação, cada segundo que você respira o mesmo oxigênio que eu... a Sinfonia toca mais alto.
Vivian sumiu de vista. Não foi teletransporte; foi pura velocidade de aceleração.
BOOM.
A barreira do som quebrou quando ela reapareceu no flanco cego da Vida.
— E o Grand Finale dessa música é você apodrecendo viva!
O espancamento recomeçou, mas agora tinha ritmo. Era percussivo. Um, dois, três, quatro.
Chute giratório no rosto. CRACK! Uma runa verde brilhou na bochecha da Deusa, queimando a pele perfeita. Corte ascendente no flanco. SHING! Uma runa pulsou nas costelas, espalhando raízes de paralisia pelos nervos divinos.
A Vida tentou retomar o controle, a frustração trincando sua máscara de apatia. Ela bateu as palmas das mãos.
— Revoada do Crepúsculo.
Uma tempestade de corvos feitos de sombras afiadas explodiu de sua sombra. As aves, densas como lâminas de obsidiana, bombardearam Vivian, rasgando pele, músculos e artérias.
Mas Vivian nem piscou. Ela avançou através do tornado de lâminas. Seu corpo era retalhado e se tricotava no milissegundo seguinte. Ela ria, engolindo o próprio sangue, completamente embriagada pela adrenalina.
Ela rompeu a barreira de corvos e afundou a lâmina quebrada na coxa da Deusa.
— Gah!
A Vida cambaleou para trás, perdendo o equilíbrio pela primeira vez em eras. Ela tossiu, e o que manchou sua mão não foi ouro. Foi um lodo negro, espesso, com cheiro de fruta podre. Suas pernas falharam. A imortalidade havia sido revogada.
— HAHAHAHA! — Vivian girou as duas metades da tesoura, cruzando-as como as mandíbulas de um predador. A aura roxa maligna gritava ao redor do metal. — ACABOU!
SQUELCH.
A tesoura desceu para decapitar. A lâmina mordeu a pele. Uma nova runa, enorme e complexa como uma mandala de morte, apareceu na testa da Vida.
Mas a cabeça não caiu.
O mundo parou. A Vida segurou a lâmina da tesoura com a mão nua. O sangue escorria por seus dedos, fatiando a palma até o osso, mas ela não parecia registrar a dor. Seus olhos dourados, antes opacos, agora estavam vidrados, girando internamente, processando informações na velocidade da luz.
O tempo congelou na mente da Deusa.
Desde que cheguei aqui... eu mudei.
Ela via o reflexo distorcido de Vivian na lâmina da tesoura.
Eu via todos os humanos como iguais. Insetos. Mas... eles... mesmo sem mim, eles evoluem. Eles têm essas "Habilidades". Eles quebram as regras da física moldando o sangue da realidade com a própria vontade.
Ela olhou para Vivian, que fazia força para fechar a tesoura, confusa com a súbita parada da divindade moribunda.
Eu nasci de humanos. Fui gestada pela Dungeon usando o DNA deles como base. Então... não há nada na minha biologia que me impeça de fazer o mesmo.
A Vida sorriu. Não era o sorriso maternal de antes, nem o sorriso predatório do monstro. Era o sorriso de um cientista que acabou de descobrir a fórmula final. O sorriso de alguém que entendeu a piada cósmica.
Longe dali, no outro campo de batalha... O Cavaleiro Wendigo, que Beatrice espancava incessantemente, de repente travou. Não porque a bateria acabou, mas porque a tomada foi puxada. A Vida drenou o próprio filho. Ela puxou cada gota de Éter que sustentava a besta, reabsorvendo a energia que compartilhava com ele. O monstro se desfez em pó e carne morta sob os punhos de Beatrice, sacrificado para alimentar a epifania da mãe.
A Vida sentiu o influxo de poder retornar, mas não o usou para curar. Ela o usou para criar. No instante em que Vivian aplicou mais força... a Deusa sussurrou.
— Habilidade Original: Flosculum Noctis Aeternae (A Flor da Noite Eterna).
A voz dela não foi alta, mas a realidade obedeceu com terror.
De repente, a pele na mão da Vida — aquela que segurava a tesoura — tornou-se negra como o vácuo espacial. O contraste era absoluto. Flores pretas, que não refletiam luz alguma, começaram a brotar violentamente de seus poros, de suas feridas abertas, de dentro de seus olhos.
— O quê...? — Vivian sentiu um arrepio primal, o instinto de presa gritando para fugir.
VWOOOM!
Uma onda de choque de Éter negativo explodiu a partir da Vida. Vivian foi arremessada para trás como uma boneca de pano, a tesoura escapando de suas mãos. Mas ela não caiu sozinha.
Junto com a onda de choque, uma praga floral se espalhou. As flores negras não brotaram apenas no chão; elas explodiram por todo o túnel, cobrindo as rochas em segundos. E, o pior... começaram a brotar na pele de Vivian.
— Ah... ah... — Vivian tentou se levantar, mas seus braços não obedeceram.
As flores enraizaram em seus músculos. Sua força sobrenatural? Sugada. Sua regeneração instantânea? Anulada. Sua loucura de batalha? Drenada até sobrar apenas um vazio frio.
As "Flores da Noite Eterna" não bebiam apenas sangue; elas faziam fotossíntese com a vontade da vítima.
A Vida caminhou até ela. Das costas da Deusa, não havia mais luz. Duas asas negras, gigantescas e feitas de milhares de pétalas de obsidiana afiadas, abriram-se majestosas e terríveis, bloqueando a pouca luz que restava na caverna.
Ela parou diante da vampira paralisada, coberta pelo jardim mortal.
— Obrigada... — A Vida falou. Sua voz estava rouca, exausta, mas vibrava com o prazer inebriante da evolução. — Eu consegui aprender muito com você, vampirinha.
Parte 11
Nas profundezas da caverna, o silêncio era uma entidade física, pesado e sufocante, quebrado apenas pelo farfalhar seco e perturbador de milhares de pétalas negras roçando umas nas outras.
Vivian estava presa, tendo sua vontade e seu éter sendo lentamente absorvidos pelo jardim. O jardim de Éter negativo, criado pela própria Vida, não prendia apenas seu corpo; ele se banqueteava de sua mente. Gavinhas escuras, frias como o zero absoluto, enrolavam-se em seus membros, drenando não sangue, mas a própria vontade de lutar, substituindo o fogo de sua alma por uma apatia gélida.
No centro dessa necrópole botânica, a "Mãe" reinava suprema.
Suas asas de obsidiana, vastas e feitas de noite sólida, pulsavam lentamente atrás dela, ditando o ritmo cardíaco daquele ecossistema corrompido. Ela fechou os olhos, inclinando a cabeça para trás, e inspirou profundamente o ar viciado, saboreando o aroma metálico de sua própria criação.
— Evolução... — A palavra escapou de seus lábios como um gemido de prazer. Ela estava genuinamente maravilhada com a própria capacidade de se adaptar.
Então, o ar mudou.
Os olhos dourados da Vida abriram abruptamente. As pupilas contraíram-se até virarem fendas verticais de predador.
Ela sentiu. Não era um som, nem um cheiro. Era uma vibração na própria trama da realidade, vinda de cima, descendo pelo buraco irregular que Vivian havia rasgado no teto da caverna momentos antes.
Era uma frequência inconfundível. A mesma ressonância que ela sentiu quando o braço daquele garoto, Dante, negou a morte na superfície. A assinatura energética da "Possibilidade" — o único poder capaz de quebrar as regras do destino.
Um sorriso largo e predatório cortou o rosto da Deusa. Ela olhou para o feixe de luz que entrava pelo teto, esperando ver a silhueta do garoto de cabelos pretos.
— Você voltou, irmãozinho? — Sua voz ecoou, brincalhona e letal. — Decidiu descer para brincar no meu jardim também?
Mas a figura que se destacou contra a luz não era Dante.
Uma silhueta caiu pelo feixe de luz. Não houve o estrondo de uma aterrissagem de super-herói. Não houve poeira levantada. A física parecia ter decidido ignorar a gravidade naquele instante.
A aterrissagem foi suave, sobrenaturalmente delicada, como uma pluma tocando a superfície espelhada de um lago sem causar ondulações.
Diante da Deusa da Vida, ergueu-se uma garota.
O contraste era violento. Naquela caverna monocromática de cinza, preto e sombras, ela era uma explosão de cor. Seus cabelos eram de um loiro dourado tão intenso e puro que pareciam ter roubado toda a luz do sol que aquele lugar jamais vira.
Ela usava um vestido vermelho carmesim, de corte impecável, que parecia não pertencer a um campo de batalha, mas a um salão de baile vitoriano.
Ela não tinha a postura de uma guerreira. Não carregava armas. Não vestia armadura. Ali, parada, ela parecia uma boneca de porcelana preciosa e frágil que havia sido extraviada no inferno.
Mas a presença dela contava outra história.
A pressão atmosférica na caverna despencou. Não era uma aura de violência explosiva, mas uma densidade de existência tão absoluta que o ambiente reagiu com terror.
As flores negras da Vida, que até então avançavam vorazes, tremeram. Instintivamente, as gavinhas recuaram, encolhendo-se para longe dos pés descalços da recém-chegada, como se a mera proximidade com ela fosse anátema para a sua corrupção.
A Vida inclinou a cabeça. O sorriso maternal vacilou pela primeira vez, substituído por uma cautela analítica. Aquela garota cheirava a Possibilidade, a mesma essência do garoto... mas o sabor era diferente. Mais antigo. Mais puro.
Era a outra metade da equação.
— Quem é você? — A pergunta da Vida saiu ríspida, ecoando nas paredes de pedra, uma rainha exigindo identificação em seu próprio domínio.
A garota de vestido vermelho não piscou. Ela apenas encarou a deidade com olhos que continham oceanos de calma. Não havia medo, não havia ódio. Havia apenas uma certeza absoluta de sua própria superioridade.
Anna deu um passo à frente. O som suave de seu pé tocando a rocha soou mais alto que um trovão naquela tensão.
Um sorriso pequeno, quase nostálgico, curvou seus lábios vermelhos.
— Essas vão ser as suas primeiras palavras para mim, depois de tanto tempo? — Anna falou, sua voz suave, mas carregada de uma autoridade antiga que fez as asas da Vida se agitarem inquietas. — Quanta frieza... irmãzinha.
Enquanto isso, no Forte Cômico...
Longe da carnificina, em um setor isolado onde o som das explosões chegava apenas como vibrações abafadas no solo, existia um santuário bizarro.
As paredes não eram apenas de concreto; eram páginas vivas. O abrigo, cortesia da habilidade artística de Shimura, estava coberto de hachuras de nanquim, linhas de velocidade e onomatopeias desenhadas que reforçavam a estrutura física do local. O ar ali dentro estava pesado, não de miasma, mas de uma expectativa elétrica.
A porta improvisada — desenhada com traços grossos de proteção — se abriu com um estrondo.
Layla, Daiki e Megumi entraram quase tropeçando, os pulmões queimando em busca de ar. Eles estavam sujos, cobertos de poeira e arranhões, mas não pararam. Eles se afastaram para os lados, abrindo caminho como guardas reais para a figura que entrava logo atrás.
Ryunosuke caminhou para dentro. Ele não corria. Seus passos eram calmos, ritmados, o som de seus sapatos ecoando autoridade no pequeno espaço.
Lá no fundo, encolhida no canto mais escuro e protegido por Shimura e Melissa, estava a chave de tudo.
Miguel.
A garota, dona de um nome masculino que contrastava violentamente com sua figura frágil, estava abraçada aos próprios joelhos. Ela era tão tímida e silenciosa que sua presença parecia oscilar, como se ela tentasse ativamente desaparecer da realidade para não incomodar ninguém.
— M-Miguel! — Megumi chamou, a voz falhando pelo cansaço, mas cheia de alívio.
Ao ouvir o nome, a garota levantou o rosto minimamente. Seus olhos grandes e assustados encontraram o grupo.
— Professor... Ryunosuke? — Shimura perguntou, baixando a guarda.
Ryunosuke parou no centro da sala. Ele passou a mão pelo cabelo, soltando um suspiro longo que parecia carregar o peso do mundo.
— Hum... — Ele olhou ao redor, vendo o estado exausto de seus alunos. — Sabe, eu odeio admitir isso. Odeio elogiar sem necessidade, porque cria alunos mimados...
A voz dele, inicialmente baixa e ranzinza, foi mudando. Um sorriso genuíno, raro e perigoso, começou a curvar os cantos de sua boca à medida que ele focava em Miguel.
— ...Mas dessa vez, vou ter que dar o braço a torcer.
Ele olhou para Megumi, para Layla, para Daiki. Havia orgulho naqueles olhos cansados.
— Pelo visto, eu realmente tenho alunos incríveis. — Ele ajeitou a postura, emanando uma confiança que acalmou o tremor nas mãos de todos. — Aqueles idiotas lá fora... Dante, Kai, Kintoki, as garotas... os minutos preciosos que eles compraram com sangue não serão desperdiçados.
Ryunosuke caminhou até o canto da sala. Shimura e Melissa se afastaram respeitosamente.
Ele parou diante de Miguel e estendeu a mão. Não como um guerreiro, mas como um professor convidando um aluno tímido para o quadro-negro.
— Levante-se, Miguel.
A garota olhou para a mão dele, depois para o rosto do professor. Ela viu a certeza ali.
— Podem confiar em mim. — Ryunosuke olhou para todos na sala, seu sorriso se alargando. — Esperem só mais um pouquinho. Pois finalmente...
Ele puxou Miguel para ficar de pé.
— ...está na hora do fim do último tempo.



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