top of page

The Fall of the Stars: Capítulo 3 - Jogo de Queimada

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 14 de jul. de 2025
  • 71 min de leitura

Atualizado: 5 de jan.

Volume 4 : Fragmentado


Parte 1

O grupo da Classe -13 seguia Ryunosuke como condenados a caminho do cadafalso. O labirinto de corredores de serviço não apenas descia; ele mergulhava nas entranhas de Babylon. O ar tornou-se denso, metálico, impregnado com o aroma acre de óleo industrial e a frieza úmida do concreto curado há séculos. O som dos passos deles ecoava de forma diferente agora, mais pesado, como se a própria estrutura da escola estivesse pressionando seus ombros.

Quando Ryunosuke finalmente empurrou as portas duplas de aço reforçado — que gemeram com o peso —, o que se revelou não foi uma sala de aula. Era uma zona de guerra adormecida.

O local era titânico. O teto desaparecia na escuridão dezenas de metros acima, uma abóbada de sombras pontuada por holofotes industriais que zumbiam com eletricidade, banhando o centro em uma luz branca, clínica e impiedosa. O piso não era apenas chão; era uma colcha de retalhos de placas de metal hexagonais, prontas para se reconfigurar ao comando de um deus mecânico. As paredes, revestidas por um polímero negro fosco, pareciam devorar a luz e o som, criando um silêncio abafado e tenso.

Mas a verdadeira pressão não vinha da arquitetura. Vinha de cima.

Nas passarelas suspensas que circundavam a arena como anéis de Saturno, protegidas por vidro balístico espesso, estavam os predadores. Cerca de uma dúzia de alunos do Quarto Ano observava. Eles não usavam uniformes padrão; suas roupas eram personalizadas, exalando uma aura de veteranos. Alguns limpavam armas com uma casualidade aterrorizante, outros comiam lanches, mas todos os olhares estavam fixos lá embaixo, num misto pesado de curiosidade e tédio arrogante.

— Quem é a plateia? — perguntou Dante, protegendo os olhos da luz ofuscante, sentindo o peso daqueles olhares como chumbo em sua pele.

— Tsk… — Megumi, visivelmente irritada, caminhava ao lado dele, observando meio incomodada. — São o Quarto Ano, um bando de desocupados.

— Desocupados? — Sofia se aproximou, a voz tremendo levemente. — Como assim?

— Eles entram no sistema de Tutoria de Campo — Daiki interveio, seus olhos varrendo os veteranos. — Os alunos do Quinto Ano, a verdadeira elite monstruosa da escola, tornam-se "Líderes de Equipe". É a avaliação final deles: liderar um esquadrão composto por alunos do Quarto Ano em missões reais. Se a equipe consegue evoluir, eles se formam. Por isso, os do Quarto Ano têm tempo livre quando seus senpais estão ocupados.

— Então eles vieram aqui só pra ver o circo pegar fogo e comer pipoca? Que inveja… — concluiu Chuya.

— Basicamente. Somos os gladiadores, então — Luck deu de ombros.

Um sorriso largo, selvagem e cheio de dentes rasgou o rosto de Kintoki. Ele estalou os dedos das mãos, o som seco como tiros de pistola no silêncio da arena. A adrenalina já começava a bombear em suas veias, visível no tremor de excitação em seus músculos.

— Entretenimento? HAH! Gostei. — Kintoki deu um passo à frente, estufando o peito e rugindo para a passarela: — EI! VOCÊS AÍ EM CIMA! Se estão tão entediados, por que não descem aqui?! Eu prometo que faço valer o ingresso!

Um murmúrio de risadas percorreu a passarela, como o som de pedras rolando. Um dos veteranos apenas acenou com a mão, um gesto desdenhoso de quem espanta uma mosca irritante.

— Guarde essa testosterona, calouro. — A voz de Ryunosuke cortou o ar, grave e autoritária, ecoando pelo salão sem precisar de esforço. Ele tragou o cigarro, a brasa vermelha sendo o único ponto de cor na sua figura sombria, e soltou a fumaça lentamente. — Eles não vão descer. E se descessem, metade de vocês sairia daqui em sacos pretos, não em macas. Concentrem-se no chão. O pesadelo de vocês hoje sou eu.

A Classe -13 se reuniu no centro da arena, um grupo heterogêneo sob a luz impiedosa. Ryunosuke subiu em uma caixa de metal, elevando-se acima deles como um general prestes a despachar tropas para a morte certa.

— Muito bem, seus projetos de desastre — começou ele, o tom variando entre o tédio e a ameaça. — O teste de nivelamento é simples. Vamos avaliar os três pilares fundamentais de um Caçador: Trabalho em Equipe, Capacidade de Combate e Sobrevivência.

Ele levantou três dedos enluvados, baixando um por vez, cada movimento pontuado.

— Hoje, vamos começar focando no primeiro. Trabalho em Equipe. Vocês são um bando de individualistas, egocêntricos e esquisitos. Se fossem para uma missão real hoje, morreriam porque um tropeçaria no ego do outro. Então, vamos resolver isso com um clássico da pedagogia da violência.

Ryunosuke chutou uma caixa de metal ao lado dele com força desnecessária. A tampa se abriu com um estrondo metálico, revelando o conteúdo.

Não eram bolas de educação física. Eram esferas de borracha vermelha densa, cruzadas por veios metálicos onde runas pulsavam com uma luz fraca e ameaçadora.

— Queimada.

Um silêncio constrangedor e pesado pairou no ar por três segundos.

— Queimada? — Kaiser franziu o nariz. — Está brincando? Isso é jogo de criança.

Ryunosuke sorriu. Foi um sorriso que não chegou aos olhos, um sorriso de tubarão sentindo sangue na água.

— É uma "Queimada de Alta Letalidade". E antes que comecem a chorar, vou ditar as regras. Prestem atenção, porque as perguntas idiotas vão custar pontos de vida, não de nota.

Ryunosuke pegou uma das bolas. Ela parecia pesada, densa na mão dele. Ele a jogou para cima e a pegou com um baque sólido.

⚡ REGRA NÚMERO 1: A INTEGRIDADE DA ESFERA ⚡

— Essas bolas são reforçadas com alquimia e tecnologia de ponta da Luminary. Elas aguentam impacto de demolição, fogo de dragão e pressão submarina. Mas... elas têm limite. — Ryunosuke apertou a bola. O objeto rangeu audivelmente, as runas brilhando mais forte sob a pressão. — O objetivo é acertar o oponente, não desintegrar o equipamento escolar. Se vocês estourarem, incinerarem ou destruírem a bola ao tentar arremessar, o jogador responsável é eliminado na hora por incompetência.

Beatrice levantou a mão, a aura laranja já crepitando perigosamente ao redor dos dedos, o ar tremulando com o calor. — Espera aí. Isso é uma limitação de poder absurda! Se eu usar minha força total, essa bolinha vira vapor. Você está dizendo que eu tenho que me segurar numa luta?

— Estou dizendo que você precisa ter controle — Ryunosuke retrucou, a voz chicoteando. — Força sem controle é apenas um incêndio florestal. Se não consegue modular sua saída de Éter para não estourar uma bola de borracha, você é inútil em missões de resgate. Você mataria o refém antes do inimigo.

— Tsk… — Beatrice estalou a língua e cruzou os braços.

⚡ REGRA NÚMERO 2: O PRINCÍPIO DO CONDUTOR ⚡

— É proibido atacar o oponente diretamente — continuou o professor, andando de um lado para o outro na caixa. — Nada de socos na cara, nada de cortar cabeças, nada de lançar raios no peito do amiguinho. A bola deve ser o único vetor de dano físico. Porém... — Ele fez uma pausa dramática, deixando a informação afundar. — Vocês podem, e devem, infundir a bola com seus poderes.

Vivian, que estava afiando as unhas com uma pequena adaga curva, parou. Seus olhos brilharam com um interesse sádico. — Infundir? Quer dizer que posso cobrir a bola com energia cortante e transformá-la numa serra circular voadora?

— Exato, psicopata mirim. Fogo, gelo, eletricidade, gravidade, veneno... desde que a bola não seja destruída no processo, vale tudo. A bola é o projétil, vocês são a pólvora.

Dante ergueu a sobrancelha, o cérebro tático começando a trabalhar em alta velocidade, visualizando cenários. — Então, basicamente, a gente transforma a bola numa granada elementar e joga. Saquei.

⚡ REGRA NÚMERO 3: A LEI DA DEFESA ATIVA ⚡

— Aqui é onde os covardes vão rodar. — Ryunosuke apontou diretamente para Anna e Kurokawa. — Para evitar que o jogo vire uma disputa de "quem tem o escudo mais forte" e dure três dias, a regra é clara: Barreiras contam como extensão do corpo.

— Posso saber por que olhou diretamente pra mim?! — Anna exclamou, sua voz subindo uma oitava. Ela largou a caixa de doces vazia como se estivesse pegando fogo. — Eu não sou do tipo que fica só se escondendo.

Kaiser soltou uma risada curta, arrogante e genuinamente divertida. — Interessante. Então se esconder atrás de uma parede é suicídio. Se a bola tocar na barreira, o usuário está fora.

— Exatamente… — Ryunosuke confirmou. — Habilidades de deflexão ativa, como bater na bola com uma espada para desviá-la, são permitidas. Intangibilidade ou teleporte para esquiva, também.

Ludmilla levantou a mão com uma elegância estudada, como se estivesse em um salão de baile e não numa arena de combate. — Professor, e quanto a interceptar a bola? Se alguém jogar uma bola "carregada" e nós a pegarmos?

— Ah, essa é a Lei do Risco Calculado — Ryunosuke jogou a bola alto, girando. — Se você agarrar a bola sem deixá-la cair, o arremessador é eliminado. Se a bola bater em você, subir, e um aliado pegar antes de cair, você é salvo. Mas lembrem-se... a bola vai estar carregada com o poder do inimigo.

Sofia estremeceu visivelmente, imaginando o cenário. — Então... se alguém jogar uma bola pegando fogo e eu tentar segurar...

— Você vai ter queimaduras de terceiro grau nas mãos, Sofia — completou Daiki, com uma seriedade brutal. — A questão é: vale a pena sacrificar as mãos para salvar o time e eliminar um oponente forte?

⚡ REGRA FINAL: O CEMITÉRIO ⚡

— Quem for queimado não sai para chorar no canto. Vai para a área atrás do time adversário. De lá, se receberem a bola, podem atacar pelas costas. É a chance de vingança.

Ryunosuke bateu palmas uma vez. O som ecoou como um tiro de canhão no espaço fechado, fazendo alguns alunos pularem.

— Dúvidas? Não? Ótimo. O tempo para pensar acabou. Vamos ao sorteio. Nada de panelinhas. A sorte vai decidir quem joga com quem.

Ele puxou um tablet holográfico e apertou um botão com força. Do teto, um telão gigante desceu com um zumbido mecânico, acendendo com uma luz intensa. Quatro colunas coloridas apareceram, e os nomes dos alunos começaram a girar freneticamente como em um caça-níqueis de cassino, borrões de luz e destino.

— Vamos dividir em quatro times: Vermelho, Azul, Verde e Amarelo.

Os nomes começaram a parar, um a um, com sons de travas digitais que pareciam sentenças de morte. O anfiteatro encheu-se de uma cacofonia de reações: murmúrios tensos, gemidos de desespero genuíno e risadas de escárnio à medida que as alianças forçadas eram reveladas.

🟥 TIME 1 (VERMELHO): Dante, Sofia, Tenma, Shimura, Melissa, Kagura.

Dante olhou para o telão. Seus ombros caíram. Ele passou a mão no rosto, sentindo uma enxaqueca instantânea. — Que beleza... a maioria do meu time não parece personagem principal... droga! — gritou Dante. Ele olhou para o lado. Tenma estava lá, emitindo sua aura habitual de delinquente assassina, rosnando para ninguém em particular.

— HÃ?! — Tenma respondeu automaticamente ao ver que ele a encarava, com um rosnado feroz. Ao mesmo tempo, as orelhas dela coravam furiosamente. “Droga, por que simplesmente não consigo dizer 'espero que nos demos bem'?"

Do outro lado do grupo, Kagura batia o punho na palma da mão repetidamente, um metrônomo de violência. Seus olhos estavam fixos nos adversários com uma intensidade maníaca. — Vamos esmagar todos eles! Ossos quebrados, espíritos destruídos! E Melissa, se você ficar fumando no canto, eu apago seu cigarro na sua testa e uso você como escudo humano!

— Que saco... — Melissa soltou uma nuvem densa de fumaça, revirando os olhos vermelhos com um tédio profundo.

🟦 TIME 2 (AZUL): Kurokawa, Kai, Miguel, Beatrice, Abel, Villa-V, Kaiser.

A tensão no Time Azul era tão palpável que poderia ser cortada com uma faca. Kai e Kaiser se encararam imediatamente, o ar entre eles vibrando. Eram dois reis autoproclamados num espaço pequeno demais; a gravidade de seus egos ameaçava colapsar o time.

— É bom que não fique no meu caminho, Albino — disse Kaiser, sem olhar para Kai, ajeitando a gola do uniforme com precisão milimétrica. — Não quero perder só por causa dessa sua rixa com o Dante.

— No meu caminho é o caralho, playboy — Kai retrucou, a voz metálica e cheia de estática agressiva. — Se tentar me dar uma ordem, eu te esmago antes de esmagar aquele merda!

No meio do fogo cruzado, Abel olhou para o telão, depois para o Time Vermelho, e seus olhos encheram-se de lágrimas de alívio puro e cristalino. — OBRIGADO, DEUS! — Abel caiu de joelhos dramaticamente, erguendo as mãos para o teto. — Eu estou no Time Azul! A Kagura está no Vermelho! Eu não preciso jogar ao lado dela! Eu estou salvo! AMÉM!

Miguel observava todos sem fazer nenhum comentário em especial, mas seus olhos pareciam julgar a todos.

Villa-V ajeitou os óculos, analisando Beatrice friamente como se ela fosse um espécime de laboratório. — A taxa de destruição da Beatrice é alta. Se ela controlar a saída, temos o maior canhão de vidro do jogo. Se não controlar, ela nos mata. Fascinante.

🟩 TIME 3 (VERDE): Luck, Vivian, Yuki, Mio, Daiki, Ludmilla, Layla.

Luck analisou o grupo, os dados correndo por trás de seus olhos. Ele sorriu, um sorriso de quem acabou de receber uma mão de cartas interessante no pôquer. — Não queria me gabar, mas acho que ficamos com o time mais forte.

— Você tem um motivo? — Daiki perguntou, vendo a confiança nos olhos de Luck.

— Só intuição… Bom, seu nome é Daiki, né? Você parece ter experiência, então conto com sua estratégia de campo.

— Experiência… — Daiki começou a suar frio com receio de falar que não jogou queimada nem durante a infância. — Hum, pode contar comigo, jovem. Mas, sinceramente, com a Ludmilla do nosso lado, acho que nem terei necessidade de brilhar — ele falou com um tom confiante para não mostrar que estava apenas jogando a responsabilidade para o próximo.

— Pode deixar, não sei bem como vai ser, mas com tantos participantes interessantes deve ser divertido. — Ludmilla jogou o cabelo para trás, enquanto se aquecia, e as garotas do quarto ano nas passarelas começavam a gritar.

— Príncipe, aqui, olha pra mim! — Não, olha pra mim, vem fazer parte da nossa equipe, por favor!

Vivian girou a pequena tesoura na mão com uma destreza perturbadora, olhando para Mio. — Ei, ruiva. Você é a mais instável aqui, então tente não destruir a bola, beleza?

— Sem promessas, vampirinha — Mio lambeu os lábios, os olhos brilhando com travessura.

No fundo do grupo, Layla observava Dante no meio da multidão para não ser percebida, quase como se nem ligasse para o que estava acontecendo.

“Com tanta gente assustadora do nosso lado, também tô achando que ficamos com o time mais forte”, Daiki comentava mentalmente, observando os demais.

🟨 TIME 4 (AMARELO): Chuya, Anna, Mirai, Kintoki, Megumi, Hakurei.

— BWAHAHAHA! — A risada de Anna ecoou, triunfante. Ela colocou as mãos na cintura, numa pose heroica. — O Time Amarelo tirou a sorte grande! Comigo como Capitã, a vitória é inevitável! E eu finalmente limparei aquela derrota…

Kintoki, que estava estalando o pescoço de um lado para o outro, parou. Ele olhou para baixo, para Anna, por cima dos óculos escuros, como um leão olhando para um rato barulhento. — Capitã? Você? — Kintoki riu. Foi uma risada profunda, gutural, que fez o chão vibrar ligeiramente sob os pés deles. — Não me faça rir, loirinha. O plano é o seguinte: eu vou na frente e mato todo mundo. Vocês só precisam me passar a munição e não morrer.

— Ah?! — Anna gritou, a indignação explodindo, pronta para brigar com o próprio time antes mesmo do jogo começar.

Megumi suspirou profundamente. Ela desmontou e montou sua arma em segundos, um tique nervoso, as peças clicando com precisão militar. — Hakurei, por favor — ela moveu os olhos para o lado. — Nosso time parece ser o mais esquisito, então tente participar. Não fique só parado como uma gárgula depressiva no fundo da quadra.

Hakurei, encostado na parede mais distante possível, com os braços cruzados e os olhos fechados, apenas abriu um olho preguiçoso. — Desperdício de energia...

— Droga, por que a primeira aula tinha que ser prática? Assim eu não consigo dormir! — Chuya gritou. — Foda-se, se vai ser assim, vou acabar com todo mundo o mais rápido possível para acabar com essa brincadeira idiota.

Mirai sorriu docemente para Anna, um sorriso de boneca de porcelana. — Vamos fazer o nosso melhor, querida.

Ryunosuke bateu palmas novamente. O som cortou as discussões instantaneamente. O telão mudou com um flash, mostrando as chaves do torneio. — A hora do recreio acabou.

PRIMEIRA RODADA:

JOGO 1: 🟦 TIME AZUL (A Arrogância Real) VS 🟩 TIME VERDE (Os Estrategistas) ⚡

JOGO 2: 🟥 TIME VERMELHO (O Caos Disfuncional) VS 🟨 TIME AMARELO (A Força Bruta) ⚡

Os holofotes da arena piscaram e mudaram de cor, focando intensamente na quadra central, deixando o resto na penumbra. A atmosfera pesou. Não era mais uma aula. Era um coliseu.

— Time Azul e Time Verde. Para a zona de combate, AGORA! — Ryunosuke ordenou, a voz trovejando. Ele apontou para as linhas demarcadas no chão que brilhavam com luz rúnica. — O resto, saiam da área de matança ou virem alvo de treino.

Luck ajustou as luvas, respirando fundo, e caminhou para o centro com seu time. Do outro lado, Kai estalou o pescoço ruidosamente, a armadura zumbindo com energia contida.

Ryunosuke acendeu outro cigarro com um estalar de dedos que produziu uma chama azulada. Ele tragou profundamente, soltou a fumaça em direção ao teto e sorriu, um sorriso terrível.

— Que os jogos comecem. Tentem não morrer na primeira rodada.

Parte 2

O apito de Ryunosuke não foi um som; foi a detonação que quebrou a realidade.

No centro da quadra, cinco esferas repousavam sobre a linha rúnica, inocentes como granadas sem pino. No milissegundo em que o sinal rasgou o ar, a calmaria foi assassinada.

— MINHA!

A voz de Kai não viajou pelo ar; ela distorceu o espaço. Ele não correu. O universo ao redor dele dobrou-se em um vácuo azulado. Num piscar de olhos — um glitch na visão de todos —, ele teleportou-se da linha de fundo para o centro. Sua mão, envolta em uma luva de Éter, fechou-se sobre a primeira bola.

— Lento demais!

Uma sombra dourada passou por baixo das pernas de Kai. Kaiser, num deslize acrobático que desafiava o atrito, roubou a segunda bola e usou o impulso para girar num mortal para trás, aterrissando em uma pose de arrogância absoluta a cinco metros de distância.

— Sai da frente, se não quiser morrer! — O aviso de Kai saiu como um rosnado, vibrando no peito de todos na arena.

Ele girou o corpo, pivotando sobre o pé direito. A bola em sua mão não era mais apenas borracha; estava envolta em uma aura densa e opressora de Éter roxo e azul. A força centrífuga era tanta que o ar gritou, criando um cone de vácuo visível ao redor de seu braço. O piso hexagonal sob suas botas estalou, afundando sob o aumento repentino da massa gravitacional.

Ele não mirou em um jogador. Ele mirou na aniquilação total.

IMPACTO GRAVITACIONAL!

A bola foi disparada. O som não foi de um arremesso, mas de um trovão partindo o céu. O projétil rasgou a atmosfera como um cometa azul, deixando um rastro de distorção visual onde a luz se dobrava. A pressão sônica fez o chão da arena rachar e levantar uma cortina de poeira e detritos.

O alvo? Daiki.

Daiki viu a morte azul vindo em sua direção a Mach 2. O mundo ficou cinza. O tempo desacelerou no cérebro dele, esticando um segundo em uma eternidade de pânico.

“Merda. Merda. Merda. Eu vou morrer. Minhas pernas não mexem!!!! É o fim. Adeus, mãe. Adeus, coleção de mangás. SHIMURA, CUIDA BEM DELES!”

Por fora, ele era uma estátua de estoicismo. Mãos nos bolsos, postura relaxada, a franja cobrindo os olhos, emanando uma aura de tédio absoluto diante do apocalipse iminente. Nem um músculo tremia, travados pelo puro terror catatônico.

— Seu merda, tá tão confiante que nem se moveu? Então morra! — Kai sorriu, crente na vitória.

Mas a trajetória da morte foi interceptada.

Um borrão de fogo laranja explodiu lateralmente na frente de Daiki. Luck não surgiu correndo; ele deslizou, as botas cantando no chão para frear a inércia. Ele sabia que não podia agarrar aquilo; a rotação gravitacional arrancaria seus braços. Ele precisava de torque.

Luck girou o quadril violentamente, plantou o pé de apoio no chão rachado e disparou a perna esquerda num arco ascendente perfeito, cobrindo o peito do pé com uma camada densa e explosiva de chamas.

— Se não dá pra parar, eu mando de volta! — Luck gritou, girando no próprio eixo. — DEVOLUÇÃO FLAMEJANTE!

BOOOM!

O impacto foi tectônico. Uma onda de choque varreu a quadra, fazendo os cabelos de Daiki e as roupas da plateia voarem para trás. Fogo e gravidade lutaram por um microssegundo, até que a rotação de Luck venceu.

A bola, agora envolta em chamas e girando ao contrário, foi defletida de volta para o remetente com o dobro da velocidade.

— Merda!!! — Os olhos de Kai se arregalaram.

Ele não teve tempo de esquivar. Kai cruzou os braços em "X", imbuindo cada fibra de seus músculos com Éter defensivo. A bola colidiu com seus antebraços, chiando como metal em brasa. A força do impacto o arrastou para trás como um arado, suas botas rasgando duas valas profundas no chão da arena. Ele estava prestes a sair dos limites, a bola ainda girando furiosa contra sua pele, quando uma sombra mergulhou ao seu lado.

Kurokawa se jogou num peixinho desesperado, enfiando a mão sob a bola milímetros antes que ela tocasse o chão fora da quadra, estabilizando-a.

— Ambos estão salvos! O jogo continua! — Ryunosuke anunciou, a voz falhando de emoção.

Na zona de impacto, Luck aterrissou. Sua bota esquerda fumegava, a borracha da sola derretida pelo calor do próprio golpe. Ele limpou o suor da testa e sorriu para Daiki, o peito subindo e descendo com força.

— Ufa... Essa foi por pouco. — Ele ofegou, dando um joinha trêmulo. — Bela leitura de jogo, Daiki. Você sabia que eu chegaria a tempo, por isso economizou energia ficando parado, né?

Daiki, pálido como um cadáver, com o coração batendo na garganta e a bexiga quase cedendo, apenas assentiu lentamente. — ...Hum. Era o esperado.

“Obrigado, Deus do céu. Obrigado, Buda. Obrigado, Luck. Prometo que vou te pagar um lámen, não, um banquete inteiro depois. Eu quase morri!!!”

Nas arquibancadas, os veteranos do Quarto Ano se inclinaram para frente, os lanches esquecidos, bocas abertas.

— Viu aquilo? Aquele tal de Daiki nem piscou. O cara tem nervos de titânio — comentou um veterano com uma cicatriz no queixo. — Ele calculou a trajetória e confiou cegamente no parceiro. E o ruivo... a aceleração dele não é natural.

— Ei, ei, Dante! — Sofia, no canto da quadra com um caderno, cutucou o colega freneticamente. — Só percebi agora, mas o Luck é incrível, né? Conseguir reverter um ataque gravitacional tão pesado com tanta facilidade, e ainda usar chamas mágicas com essa precisão sendo um Gifted? É realmente como ver um gênio em ação.

Dante, sentado no chão de pernas cruzadas, observava a fumaça saindo da perna de Luck com um sorriso enigmático. — Gênio? O Luck? Hahaha.

— Qual a graça? — Sofia perguntou, confusa, parando de anotar.

Dante então apontou o dedo, não para o rosto sorridente de Luck, mas para seus pés. — Presta atenção ali. Nas botas dele.

Sofia estreitou os olhos, focando a visão. As solas das botas de Luck não estavam apenas queimadas pelo último golpe. Elas estavam gastas, assimétricas, quase furadas nos pontos de pivô. O tecido da calça, agora visível sob a luz forte, tinha marcas de queimaduras antigas, cicatrizes de tecido remendado de quem repetiu o mesmo chute, o mesmo giro, milhares de vezes até o corpo — e a roupa — quebrar.

— O Luck é o maior mentiroso que eu conheço — explicou Dante, a voz cheia de um respeito silencioso. — Ele não tem talento natural. O Éter dele é mediano, na melhor das hipóteses. Tudo aquilo... aquela velocidade explosiva, a precisão do fogo no momento exato...

Dante olhou para o amigo na arena, que ainda sorria apesar da dor visível nas pernas. — Ele não é um gênio. Ele é só um delinquente querendo muito parecer um príncipe encantado.

Na quadra, a atmosfera mudou. O que era uma partida escolar evaporou, dando lugar a uma zona de guerra aberta.

Kaiser firmou os pés, segurando a bola com a mão direita estendida. O Éter dourado fluiu de seus dedos como mel líquido, solidificando-se em um arco longo e etéreo que zumbia com poder sagrado. Ele puxou a "corda" invisível, e a pressão atmosférica ao redor dele caiu. A bola de borracha vibrou, emitindo um silvo agudo, gritando com a energia cinética contida.

— Observem a beleza da caçada! — Kaiser decretou, os olhos brilhando com arrogância. — FLECHA DO JULGAMENTO: PERSEGUIÇÃO.

Ele soltou. Não houve som de arremesso, mas o estalo seco de um trovão. A bola não viajou em arco; ela ganhou vida própria. O projétil ziguezagueou pelo ar como uma serpente de luz dourada, fazendo curvas de noventa graus impossíveis, desviando de escombros e buscando, com um instinto teleguiado.

— Esse é seu melhor ataque? Che noia... (Que tédio...)

A voz de Ludmilla cortou o zumbido da flecha, desprovida de qualquer urgência. O "Príncipe" do Time Verde não assumiu postura de combate. Ela apenas suspirou. Então, ela sumiu.

Não foi teletransporte. Foi uma aceleração tão violenta que os olhos humanos, e até mesmo os dos veteranos do quarto ano, só registraram o vácuo deixado para trás.

A "Flecha" dourada, perdendo o alvo, girou no ar e disparou para o flanco direito, perseguindo um rastro invisível. Ludmilla reapareceu subitamente no meio da quadra, freando com as botas cantando no piso, propositalmente entrando na trajetória do projétil para provocá-lo. Quando a bola dourada estava a centímetros de seu rosto, ela estendeu a mão.

O impacto da captura gerou faíscas. A bola girava furiosamente na palma da mão dela, queimando e tentando escapar, mas Ludmilla injetou seu próprio Éter. Uma aura escura e densa engoliu o dourado de Kaiser, sufocando a luz dele com uma violência dominadora.

BOM!

A disputa de energia cessou. Ludmilla agora segurava a esfera, que pulsava com uma cor vermelha.

— Se esforçou bem... — Ela jogou a bola para o alto, um arremesso preguiçoso e vertical.

Enquanto a bola subia, Ludmilla levou a mão às costas. O ar gemeu quando ela puxou sua enorme Claymore. A lâmina era tão pesada e espessa que parecia um pedaço de trilho de trem afiado. Ela a segurou com ambas as mãos, posicionando-se como uma rebatedora, os pés afundando no chão para criar alavanca.

Os fãs na passarela gritavam, mas o som se tornou abafado para ela. A pupila de Ludmilla dilatou. A civilidade desapareceu. O sorriso que surgiu em seus lábios não era de uma estudante, mas de um predador vendo a jugular exposta.

— ...mas será que aguenta recebê-la de volta?!

A bola atingiu o ápice e começou a cair. Ludmilla girou o quadril, torcendo o tronco e liberando a Claymore em um arco horizontal devastador.

KABOOM!

A espada atingiu a bola com a força de um acidente de trem. A esfera não foi apenas rebatida; ela foi disparada como um tiro de canhão, deformando-se com a aceleração.

— Tá zoando?! Fez isso sem nem usar uma Arts?! — Kaiser gritou, o rosto vermelho de ultraje e pânico.

Ele não tinha tempo para esquivar. A morte vinha em linha reta.

FLECHA VERMELHA: DESTRUIÇÃO DE VETO!

Kaiser conjurou um arco maior, disparando uma flecha de energia carmesim envolta em raios, tentando interceptar o projétil físico. Foi inútil.

A bola rebatida por Ludmilla, carregada com o peso da Claymore, colidiu com a magia de Kaiser. Não houve disputa. O ataque vermelho foi pulverizado, estilhaçando-se como vidro. A bola atravessou a magia e encontrou o estômago de Kaiser.

O som foi de ar sendo expulso violentamente de pulmões. Kaiser dobrou-se ao meio, os olhos quase saltando das órbitas, e foi lançado para trás como uma boneca de pano, seus pés saindo do chão. Ele teria voado para fora da arena se não fosse por uma parede humana.

Kai, que estava na retaguarda, avançou e plantou os pés. Ele recebeu o corpo voante de Kaiser em seus braços, sendo arrastado por dois metros, as botas rasgando o chão, até conseguir dissipar a energia cinética brutal. Kaiser, ofegante e babando, agarrava a bola contra o peito instintivamente para não deixá-la cair.

O silêncio reinou por um segundo, quebrado apenas pela respiração irregular de Kaiser.

— Tá zoando... — Kaiser sussurrou, a voz trêmula de dor. — Por acaso... ela é mesmo humana?

— Cale a boca e jogue, seu inútil! — Kai gritou, arrancando a bola das mãos trêmulas do parceiro. Ele não olhou para Ludmilla; ele apenas virou as costas e correu, sabendo que ficar parado diante daquele monstro era pedir para morrer.

— Ei! Devolve minha munição, seu ladrão de glória! — Kaiser tentou chutar o aliado, mas Kai já havia desaparecido, aparecendo no flanco esquerdo.

No epicentro do caos do Time Azul, Kurokawa não estava apenas gritando; ele tentava reger uma orquestra de lunáticos suicidas no meio de um furacão.

— PESSOAL! Ouçam! Temos que entrar em formação agora, ou seremos varridos! — A voz de Kurokawa falhou, rouca pelo esforço. Ele gesticulava freneticamente, desenhando táticas no ar. — O Kai e o Kaiser abriram uma brecha no centro! Miguel, cubra o flanco direito cego! Beatrice, recue para a linha de defesa, proteja o Abel!

— Hã? Recuar? — Beatrice, já posicionada na linha central, parou. Ela virou o pescoço devagar, um estalo audível de vértebras ecoando. — Não me faça rir.

A mudança foi instantânea. A íris de Beatrice rasgou-se, tornando-se uma fenda vertical reptiliana. O ar ao redor dela aqueceu. Escamas alaranjadas, duras como diamantes, brotaram em suas bochechas e pescoço.

— Eu só vou considerar recuar... depois que eu despedaçar alguém!

Beatrice agarrou uma bola do chão. Seus dedos, agora garras, perfuraram a borracha. Ela não usou técnica refinada de arremesso; ela usou força primitiva. Ela flexionou os músculos das costas, rasgando o tecido do uniforme nos ombros, e o chão de concreto sob seus pés afundou e rachou em um círculo perfeito apenas com a pressão de sua base.

— MORRA!

Ela arremessou. A bola não viajou; ela foi detonada. Envolta em um ciclone de vento comprimido, a esfera gritou com o som de uma turbina de jato ligando. O vácuo gerado foi tão violento que puxou detritos e poeira para o seu rastro, criando um túnel de destruição horizontal.

O alvo era Vivian.

Vivian viu a morte vindo. O vento revoltou seus cabelos prateados, mas seus olhos carmesim apenas se estreitaram em análise fria. — Que bruta... — Vivian sorriu, revelando caninos levemente alongados. — E deselegante.

Num borrão de velocidade, ela sacou duas tesouras curtas de lâmina negra do cinto. Não havia como bloquear aquilo com força física. Vivian sabia disso. Num movimento fluido, ela cruzou as lâminas na frente do corpo em um ângulo oblíquo, criando não uma parede, mas uma rampa aerodinâmica.

CRAAAAASH!

A bola de Beatrice colidiu com as tesouras. O impacto foi devastador. Vivian foi arrastada para trás instantaneamente, as solas de suas botas rasgando o metal do piso, faíscas voando como fogos de artifício dourados.

— Hngg!

O som de ossos partindo foi nauseante. A força cinética do ataque quebrou os dois pulsos de Vivian no momento do impacto, dobrando suas mãos para trás em um ângulo grotesco. Mas Vivian não soltou as tesouras.

Uma névoa de sangue vaporizado explodiu de seus pulsos, seguida imediatamente pelo silvo de carne se reatando. Crak-snap! Ela regenerou os ossos em milésimos de segundo, forçando as articulações de volta ao lugar apenas para que elas quebrassem de novo sob a pressão contínua, num ciclo horrível e impressionante de destruição e cura instantânea para manter a defesa.

— Desvie agora! Se continuar assim, isso vai te matar! — Kurokawa gritou, preocupada.

Com um último esforço de seus pulsos recém-curados, ela torceu as tesouras. A esfera de vento obedeceu à física, deslizou pelas lâminas e foi redirecionada para a esquerda.

BOOOOM!

A bola explodiu contra a parede lateral da arena, amassando uma placa de aço de cinco centímetros de espessura como se fosse papel alumínio, fazendo a estrutura inteira vibrar.

Vivian soltou o ar, os braços fumegando pelo calor da regeneração acelerada, mas intactos. Ela ajeitou o cabelo, vitoriosa.

— VIVIAN ESTÁ FORA! — A voz de Ryunosuke trovejou nos alto-falantes.

O sorriso de Vivian congelou. Ela piscou, confusa, olhando para o juiz. — Espera... O quê? Por quê?! Eu desviei! A bola não tocou em mim, tocou nas tesouras!

Ryunosuke apontou o dedo implacável para ela. — Assim como os muros, qualquer equipamento segurado pelo usuário é considerado uma extensão do corpo. A bola tocou nas suas tesouras, você redirecionou, mas ela tocou o chão — ou no caso, a parede — depois do contato. Isso conta como um acerto válido.

Vivian olhou para as tesouras em suas mãos, traída por sua própria estratégia. — Droga... — Ela sussurrou, a frustração amarga substituindo a adrenalina. — Quase... — Vivian sacudiu as mãos dormentes, a fumaça saindo das tesouras.

Enquanto os titãs trocavam golpes de destruição em massa no centro, abalando as fundações da arena, uma guerra mais sutil e letal começava a se desenrolar nas sombras da batalha principal.

Abel, do Time Azul, visualizou uma fresta na defesa inimiga. Não hesitou. — Vá, Kamaitachi: Foice de Vento!

Abel arremessou a bola, mas ela não foi sozinha. Um pequeno espírito translúcido na forma de uma doninha, armado com garras de vácuo, materializou-se sobre a esfera. A criatura "montou" no projétil, acelerando-o com rajadas de vento cortante que faziam a bola guinchar enquanto rasgava o ar.

O alvo era o estômago de Mio. A velocidade era letal. Porém, no milésimo de segundo antes do impacto, não houve o som de osso quebrando ou carne rasgando. Houve apenas um som úmido e perturbador.

SPLAT.

A física parecia ter sido desligada. O corpo de Mio perdeu a tensão superficial. Seus pés, pernas e tronco derreteram em uma poça de sombra viscosa, afundando no concreto sólido como se mergulhasse em uma piscina funda. A bola, guiada pelo espírito confuso, passou direto pelo espaço vazio onde o tronco dela estava um segundo antes, cortando apenas o ar.

— Errou, invocadorzinho! — A risada de Mio ecoou, não de cima, mas de baixo da terra, reverberando pelo piso da arena. — Minha vez!

O chão explodiu.

Mio emergiu como um tubarão rompendo a superfície da água, exatamente abaixo da trajetória da bola que acabara de passar. Ela interceptou a esfera no ar com uma mão, usando o impulso ascendente de sua emersão para girar o corpo em 360 graus.

CATAPULTA FANTASMA!

Ela lançou a bola. O arremesso foi carregado com uma dose maciça de Éter, fazendo o projétil zumbir. O corpo de Abel estava na linha de visão, mas a bola fez uma curva antinatural no meio do caminho.

Villa-V, a cientista, estava parada no meio do fogo cruzado, imóvel como uma estátua de gelo. Seus olhos varriam o campo freneticamente, mas sua expressão era de tédio. Reflexos de equações luminosas e vetores passavam por suas lentes em tempo real. O mundo para ela não era feito de medo ou adrenalina; era feito de dados.

— Trajetória parabólica complexa. — A voz de Villa-V era um sussurro mecânico. — Efeito Magnus alterado por Éter. Desvio de 12 graus à esquerda. Atrito do ar desprezível. Tempo de impacto: 0.4 segundos.

Ela não correu. Ela não se jogou no chão. Villa-V deu um único passo simples, minimalista, para a esquerda. Um movimento de exatos trinta centímetros.

ZUM!

A bola de Mio passou sibilando a milímetros da orelha da cientista. A pressão do vento bagunçou seus cabelos verdes e fez seu jaleco tremular violentamente, mas a bola não roçou sequer um fio de sua pele.

Villa-V ajeitou os óculos com o dedo indicador, virando-se para encarar a garota que acabara de sair do chão. — Fingiu que iria mandar de volta para o Abel para que eu baixasse a guarda, mas seu verdadeiro alvo, calculado desde a rotação do pulso, era eu. Correto?

Mio estalou a língua, cruzando os braços, visivelmente irritada por ter seu truque dissecado tão friamente. — Tsk… Que saco. Odeio gente esperta.

Mas o verdadeiro terror não veio com um grito, e sim com uma melodia suave. — Fiu-fiu... Fiu-fiu... 🎶

No fundo da quadra do Time Verde, Layla caminhava num ritmo lento, desconectado do caos ao redor. Em suas mãos, duas pistolas prateadas de cano longo giravam nos dedos antes de serem empunhadas com firmeza. Seus olhos, antes amarelos, piscaram uma vez e se reabriram como duas lanternas de um azul cibernético frio, com retículas de mira digitais girando em suas pupilas.

Uma bola perdida rolou até seus pés. Layla não se abaixou. Com um movimento elegante de bailarina, ela chutou a esfera para o alto com o calcanhar. Enquanto a bola atingia o ápice da parábola, o tempo para Layla se arrastou. O mundo ficou em câmera lenta. Ela ergueu as armas.

BANG! BANG!

O som duplo foi tão sincronizado que pareceu um só. Ela não atirou para destruir a borracha. Ela disparou nas laterais opostas da esfera, tangenciando a superfície com precisão cirúrgica. O impacto das balas de Éter agiu como micropropulsores laterais, injetando uma rotação insana na bola.

Tiro Curvo: Efeito Magnus.

A bola disparou. Ela não viajou em linha reta; ela fez um arco absurdo, contornando a defesa de Miguel e ignorando a inércia. O ar gritava ao redor do objeto, que ziguezagueava como um besouro tonto, mas com um destino fatalmente traçado: a testa de Kurokawa.

— Merda! — Os olhos de Kurokawa se arregalaram. Ele viu a morte chegando em uma curva parabólica e sabia, com certeza matemática, que não tinha velocidade física para reagir.

Foi Miguel quem quebrou a lógica.

A garota silenciosa, com sua expressão de tédio perpétuo, moveu-se não por pânico, mas por obrigação. Ela surgiu na frente de Kurokawa num deslocamento fantasmagórico. Sem barreiras, sem magia defensiva. Ela apenas levantou a mão aberta no trajeto da "bala".

Nas arquibancadas, Chuya narrou, rindo: — Ah, consigo ouvir o pensamento dela: "Que saco. Se o quatro-olhos sair, o time vira bagunça e o jogo demora mais para acabar."

Dante, sentado perto de Chuya, sentiu uma pontada aguda atrás dos olhos. Ele olhou para Layla — a postura, o cheiro de pólvora, o brilho azul — e sua mente latejou. — Mas quem... é aquela garota? — Dante sussurrou, esfregando as têmporas. Imagens desconexas e dores de cabeça sem motivo o atacaram, mas a memória escorregava como fumaça sempre que ele tentava segurá-la.

Na arena, o clímax foi silencioso.

A bola de Layla, gritando com a rotação das balas, chocou-se contra a palma da mão de Miguel.

Paf.

Não houve recuo. A mão de Miguel era uma parede de aço. A rotação cessou instantaneamente.

— ELA PEGOU! — A voz de Ryunosuke explodiu nos alto-falantes. — Pela Lei da Interceptação... Layla está FORA?!

— Não... — Layla parou de assobiar. Ela abaixou as armas, e o sorriso que se abriu em seu rosto rasgou de orelha a orelha, predatório e insano. — Olhe para a bola, querida.

Miguel baixou os olhos para sua mão. A bola de borracha estava... sibilando.

Layla não havia apenas girado a bola. As balas de Éter haviam deixado um resíduo instável de pólvora mágica impregnado na borracha, programado para reagir ao impacto súbito de uma parada brusca.

KABUM!

Uma explosão contida, mas violenta, detonou na palma da mão de Miguel. Fumaça negra e força concussiva explodiram bem no rosto dela. Pega de surpresa pela detonação à queima-roupa, Miguel instintivamente fechou os olhos e recuou a cabeça. O choque fez seus dedos relaxarem por uma fração de segundo.

A bola, impulsionada pela explosão, escapou de seu aperto, colidiu com força contra a máscara de Miguel — deixando uma marca de fuligem — e caiu, quicando tristemente no chão da quadra.

Miguel ficou parada, o rosto chamuscado, piscando lentamente enquanto a fumaça se dissipava.

— MIGUEL ELIMINADA! — Ryunosuke corrigiu, a voz cheia de incredulidade. — O contato foi perdido após o impacto! A armadilha funcionou!

Layla deu de ombros, girando as pistolas nos dedos antes de guardá-las. — Bye bye, anjinho.

— EI! VOCÊS DOIS! — Kurokawa gritou, a veia da testa pulsando, apontando para Kai e Kaiser, que discutiam no meio da quadra enquanto desviavam de bolas perdidas casualmente. — PAREM DE MEDIR EGO E JOGUEM JUNTOS! O Time Verde está se organizando! Luck e Ludmilla estão preparando um combo!

— Cale a boca! — Kai e Kaiser gritaram em uníssono perfeito, sem olhar para ela.

— Eu não preciso da ajuda desse idiota exibido! — Kaiser preparou três bolas de uma vez.

— E eu não preciso de você errando flechas nas minhas costas! — Kai acumulou uma quantidade letal de Éter nas pernas.

Do outro lado, Luck olhou para Ludmilla, o suor escorrendo. — Eles são fortes individualmente, mas são uma bagunça completa — Luck analisou. — Ludmilla, se você conseguir criar uma brecha na defesa do Kai... eu tenho um tiro limpo no Kaiser.

Va bene. — Ludmilla sorriu, seus olhos vermelhos brilhando com malícia. — Vamos ensinar a esses bárbaros o que é elegância.

Ryunosuke, observando do alto, tragou o cigarro até o filtro. — Nada mal para o aquecimento.

A partida estava esquentando cada vez mais.

Parte 3

A poeira da eliminação de Vivian e Miguel ainda flutuava no ar, mas a guerra não respeitava o luto.

No banco lateral, fora da zona de combate, Dante pressionou a base das palmas contra as têmporas, curvando-se. Não era uma dor de cabeça comum; era uma interferência. Uma agulha de gelo parecia perfurar seu lobo frontal, pulsando em sincronia perfeita com o brilho azul elétrico dos olhos de Layla na quadra.

— Argh... mas que merda é essa...? — Dante grunhiu, a visão turvando com estática, como uma TV de tubo perdendo o sinal. — Sempre que eu foco nela... o ruído aumenta.

Na quadra, a trinta metros dali, Layla girou as pistolas nos dedos. Ela percebeu. Seus olhos deram um zoom instantâneo no rosto contorcido de Dante. Por um milésimo de segundo, o sorriso maníaco dela falhou, substituído por uma melancolia profunda, quase humana.

Uma bola perdida, vinda de um rebote de Kai, veio em sua direção. Era lenta, preguiçosa, fácil. Layla a pegou com uma mão, girando o corpo com a graça de uma bailarina mecânica.

Fiu-fiu... — Ela assobiou a última nota da melodia, suave e final.

E então, com uma naturalidade teatral, ela deu um passo para trás. O salto de sua bota tocou o chão fora da linha branca. O sensor rúnico no piso brilhou imediatamente em vermelho carmesim. O alarme soou.

LAYLA FOI ELIMINADA POR SAÍDA DE ÁREA! — Ryunosuke informou, surpreso.

Oops. — Layla levou a mão à boca, fingindo choque, mas seus olhos estavam mortos, frios como lentes de vidro desligadas. — Acho que me distraí com a música. Boa sorte, time.

Ela caminhou para o "Cemitério" saltitando, sem olhar para trás. No instante em que ela se afastou, a dor de cabeça de Dante cessou abruptamente, deixando-o confuso, suando frio e ofegante no banco.

Com a saída da atiradora tática, o equilíbrio do jogo mudou violentamente. A sutileza morreu.

— Ha! Menos uma mosca. — A voz rouca de Beatrice rasgou o ar. — Já estava na hora de brincar com alguém de verdade.

A dragoa do Time Azul não estava interessada em táticas ou posicionamento. Ela explodiu em uma corrida linear em direção ao centro, ignorando as bolas voando ao redor como se fossem confete.

Mio, do Time Verde, viu a oportunidade. — Então finalmente decidiu vir brincar comigo, Bea?

A metamorfa dissolveu a estrutura óssea das pernas, transformando-as em molas. Ela saltou em um arco alto para flanquear a "tanque".

— Nós duas sabemos que se eu não te tirar, ninguém mais vai! — Bea gritou.

Beatrice não arremessou. Ela parou bruscamente, fincando os pés no chão de metal e rasgando o piso. Ela girou o quadril, transferindo toda a rotação para o ombro. Usando a bola apenas como um ponto focal na mão, ela socou o ar na direção de Mio.

Não foi um arremesso. Foi um disparo de canhão. A pressão atmosférica colapsou diante da esfera. A onda de choque foi tão brutal e imediata, carregada de uma aura laranja densa, que Mio não conseguiu se concentrar. O ar sólido a atingiu antes que ela pudesse pensar.

— Preciso parar isso! — Mio reagiu por instinto.

Suas mãos se transformaram em aço negro, crescendo e tomando a forma de uma mandíbula de armadilha de urso gigante. Ela tentou agarrar a bola no ar.

CLANG!

O impacto gerou faíscas. A bola girava com tanta violência que lixava o metal das mãos de Mio. — Tsk. A força bruta dela não tem comparação... — Mio rangeu os dentes. Seus pés se transformaram em âncoras de ferro, cravando no chão, mas ela ainda era arrastada para trás, abrindo valas no concreto. — Droga!!!

Beatrice assistia calmamente, vendo o esforço da amiga em parar o primeiro projétil. Ela sorriu, as presas à mostra. — Agora a segunda parte.

Beatrice saltou no meio do ar, interceptando uma bola que passava perto dela — um passe que Kai havia acabado de fazer. — Ei! Maldita, o que você está fazendo?! — Kai gritou, furioso.

— Cala a boca, tô só pegando emprestado!

Beatrice começou a canalizar sua habilidade. Ela manipulou a força cinética bruta do próprio braço e a fundiu com a energia gravitacional residual que Kai já havia colocado na bola. Enquanto caía, ela girou o corpo num parafuso aéreo, acumulando torque máximo.

EXTINÇÃO DOS DRAGÕES!

Ela arremessou. A bola saiu envolta em Éter cinético laranja, crepitando com raios roxos de gravidade roubada. O projétil não foi reto; ele fez uma curva parabólica perfeita, contornando a defesa frontal de Mio.

Mio, ainda travada tentando segurar a primeira bola com suas mãos de armadilha, arregalou os olhos. Ela era um alvo fixo. — Ah... merda.

A segunda bola atingiu a primeira, que estava presa nas mãos de Mio, com a força de um martelo pneumático. A colisão das duas energias (cinética e gravitacional) criou uma explosão de impacto.

O impacto combinado a lançou para longe como um boneco de pano, fazendo-a rodopiar no ar até colidir com a parede oposta da arena.

MIO ELIMINADA! — Ryunosuke anunciou, a voz vibrando com a violência do golpe.

O campo de batalha havia sido reduzido aos cérebros e aos instintos.

Villa-V permanecia no olho do furacão, imóvel e intocada. Para ela, a realidade não era feita de suor e sangue, mas de geometria. Seus óculos projetavam um HUD holográfico sobre sua retina, onde vetores de luz traçavam a trajetória de cada objeto em tempo real.

— Luck tende a favorecer o lado direito em 67,4% dos casos. O tempo de reação sináptico de Ludmilla é de 0,02s. A probabilidade de eu sofrer uma colisão nos próximos dez segundos é de 4%. — Ela ajeitou os óculos. — Margem de erro aceitável.

— Quatro por cento... é margem demais pra mim.

A voz veio de trás, arrastada e sonolenta, surgindo no "ponto cego" dos sensores de Villa-V. A cientista girou nos calcanhares, surpresa pela aproximação não detectada. Seus óculos piscaram freneticamente, tentando catalogar a nova variável.

[ALVO IDENTIFICADO: YUKI (Time Verde)] [Capacidade Atlética: ALTA] [Nível de Ameaça Imediata: INEXISTENTE] [Estado Atual: DESMOTIVADA]

Yuki estava parada ali, com a postura desleixada de quem acabou de acordar de um cochilo no sofá. Ela cobriu a boca com as costas da mão, soltando um bocejo longo e desinteressado.

Yawn... — Yuki piscou, os olhos meio fechados. — Você fala demais, sabia?

Sem qualquer aviso ou postura de combate, Yuki arremessou. O movimento foi tecnicamente ofensivo aos olhos de Villa-V. Foi feio. Sem rotação de quadril, sem extensão de braço. Foi um "tapa" preguiçoso na bola, como se Yuki estivesse jogando uma bola de papel numa lixeira a dois passos de distância.

Villa-V sorriu internamente, vendo os dados correrem em sua tela. (Vetor de força: Mínimo. Rotação: Irregular. Trajetória prevista: A bola vai quicar a 50cm dos meus pés e perder inércia. Conclusão: Desperdício de oxigênio.)

Ela nem se moveu para esquivar. A lógica ditava que não era necessário. Mas a bola não obedeceu à lógica.

Ao tocar o chão, a esfera de borracha não quicou para frente. Ela começou a brilhar com pequenas cargas elétricas azuis e então mordeu no concreto. Num desafio absurdo à gravidade e à conservação de momento, a bola girou violentamente com um efeito backspin retroativo que os sensores de Villa-V não captaram por causa da postura desleixada do lançamento.

A bola subiu verticalmente num ângulo reto de 90 graus, subindo suavemente pela frente do rosto da cientista.

— Hã? — Villa-V piscou, os óculos exibindo a mensagem [ERRO DE CÁLCULO] em vermelho piscante.

Antes que ela pudesse recalcular, a bola tocou a ponta do seu queixo. Não foi um golpe; foi um toque suave, quase um carinho humilhante, antes de cair inerte em seu colo.

VILLA-V ELIMINADA! — O anúncio soou.

A cientista ficou paralisada, segurando a bola, olhando para os dados corrompidos em sua visão. — Mas... a física... o vetor era descendente... como? — Enquanto processava a informação, sangue começou a escorrer de seu nariz.

— Erro de cálculo? — Yuki perguntou, coçando a nuca e virando-se para voltar à sua posição, já entediada com a vitória. — Deixa eu te ensinar uma coisa, cientista... Às vezes, a gente só joga onde "sente" que vai acertar.

Yuki olhou por cima do ombro, um olho aberto brilhando com um instinto animal puro. — Não precisa fazer tanta conta pra saber onde a presa vai cair.

Daiki estava com a bola. Ele tremia. Suava frio. O Time Azul tinha monstros como Kai e Beatrice. O Time Verde tinha Luck e Ludmilla. E ele tinha... pânico e vontade de chorar.

— VAI, DAIKI! AGORA! NÃO PRECISA MAIS SE SEGURAR! — Luck gritou, confiando cegamente no "gênio".

Daiki fechou os olhos, o coração a 180 batimentos por minuto. (Joga logo essa merda e se esconde!)

Ele arremessou. Foi um arremesso patético. A bola saiu flutuando, lenta, sem rotação, descrevendo uma parábola triste em direção a Abel.

Abel, o invocador, arregalou os olhos. O cérebro dele entrou em colapso paranoico. (Ele jogou devagar... por quê?! É uma armadilha! Com certeza! Ele infundiu a bola com Éter de Retardo Temporal invisível! Se eu tentar pegar, ela vai explodir! Ou vai acelerar no último segundo! É uma finta de gênio! Ele quer que eu toque nela!)

— N-Não vou cair nessa! — Abel recuou gritando, conjurando três escudos espirituais, preparando-se para o impacto de um meteoro invisível.

A bola de Daiki bateu no chão, rolou devagar, perdeu força e parou, encostando levemente na ponta do tênis de Abel. Ploc.

— Hã? — Abel desfez os escudos, confuso, olhando para a bolinha inofensiva. — Não era... uma finta dimensional?

Ele baixou a guarda para pegar a bola do chão.

ZUUUUM!

No segundo em que a ponta dos dedos de Abel tocou a bola de Daiki, um borrão prateado passou por cima de sua cabeça. Ludmilla havia usado a distração da "jogada genial" de Daiki como cortina de fumaça.

Dormi bene, piccolo evocatore. (Durma bem, pequeno invocador.)

Ludmilla disparou uma bola à queima-roupa. Abel nem viu o que o atingiu. Ele foi catapultado para fora da quadra, girando no ar como um boneco de pano.

ABEL FOI ELIMINADO!

— Tsk, aquele cara não é nada mal… — Chuya murmurou da arquibancada. — O Daiki usou um arremesso propositalmente ruim para criar uma distração dentro de uma distração. Por achar que o verdadeiro ataque viria da bola dele, Abel parou de prestar atenção ao redor.

Daiki, que ainda estava com a mão estendida do arremesso ruim, tremendo, apenas ajeitou a franja para esconder o alívio de não ter desmaiado. — ...Tudo conforme o plano.

O campo estava limpo. Os peões haviam caído; restavam apenas os reis e as rainhas.

— Chega de brincadeira, seu merda. — A voz de Kai saiu distorcida, a estática de sua aura gravitacional interferindo na realidade.

O ar estalou. Kai não se moveu; ele dobrou o espaço. Ele reapareceu no ápice da arena, pairando como um deus vingativo. Em sua mão, a bola não era mais borracha, mas uma singularidade: um núcleo de gravidade negra pulsante.

Kai arremessou. A bola não desceu apenas rápido; ela caiu como um meteoro, distorcendo a luz e dobrando o espaço ao seu redor com uma gravidade opressora.

Luck não desviou. Ele sabia que fugir de uma singularidade era inútil. Em vez disso, ele flexionou os joelhos, o chão de metal rachando sob a pressão, e detonou uma explosão sob as botas. Ele saltou verticalmente, um foguete humano indo de encontro à aniquilação.

BAAAAM!

O chute de Luck encontrou a esfera negra. Uma supernova de fogo colidiu com o vácuo absoluto.

O impacto lançou a bola de volta, mas Kai, levitando com arrogância, recebeu o rebote no ar. Girando o corpo com inércia zero, ele arremessou de novo. Luck, usando explosões nas mãos e pés para se manter no ar, rebateu de novo.

O que se seguiu não foi uma troca de passes; foi um bombardeio aéreo. A bola ia e voltava numa velocidade que a plateia mal conseguia processar, transformando-se num risco de luz estroboscópica oscilando entre o azul profundo do abismo e o laranja violento da fúria.

Luck sorria — um sorriso selvagem, manchado de fuligem e sangue —, mas por dentro, seus molares estavam trincando sob a pressão.

“Olha só para ele...”, Luck pensou, enquanto o impacto de cada chute enviava ondas de choque que subiam por sua tíbia, ameaçando pulverizar o osso. “Aposto que ele não precisa pensar em como mover o Éter. É instintivo. Ele respira Éter. Igualzinho à Ludmilla... Para pessoas como eles, violar as leis da física é tão natural quanto respirar.”

A cada rebatida, a pele da perna de Luck carbonizava, a carne gritando, e seus ossos vibravam na frequência da fratura. A dor era excruciante, cegante.

“Mas é por isso... é exatamente por isso que é tão bom! A sensação de arrastar esses deuses para a lama... e superar eles!”

— VEM COM TUDO! — Luck rugiu, e a chama em sua perna transmutou-se. O laranja deu lugar a um branco estelar intenso, o calor derretendo o ar ao redor. — EU VOU SUPERAR O SEU DOM DIVINO COM A MINHA TEIMOSIA HUMANA!

Kai, irritado com a resistência daquela "barata" que se recusava a ser esmagada, juntou as mãos acima da cabeça. A paciência acabou. Ele preparou uma prensa gravitacional total para achatar Luck no ar como um inseto.

Mas uma sombra surgiu no ponto cego de Luck, flutuando silenciosamente. Yuki.

A gêmea preguiçosa havia saltado no momento exato. Ela não gritou palavras de encorajamento. Ela apenas estendeu o dedo e tocou levemente na base do pescoço de Luck.

Vrum.

Não foi apenas uma transferência de energia. Foi uma invasão de sistema. Um pulso elétrico maciço de Éter puro invadiu a coluna vertebral de Luck. Yuki manipulou as sinapses, hackeando os neurônios de dor e fadiga. Como se desligasse um interruptor, a agonia das pernas queimadas e o cansaço muscular desapareceram, substituídos por uma dormência fria e foco absoluto.

— Hã? — Luck arregalou os olhos. O corpo, que estava no limite do colapso, de repente parecia leve como uma pena. A energia renovada queimava em suas veias não como fogo, mas como adrenalina líquida.

— Eu não estou te curando, tá? Só desliguei algumas coisas... — Yuki murmurou no ouvido dele, a voz arrastada. — Então vai logo acabar com esse barulhento...

Luck não desperdiçou o milagre. Ele canalizou tudo. Girando o corpo em um parafuso aéreo de 360 graus, ele acumulou força centrífuga, a bola em sua mão brilhando como uma estrela branca prestes a colapsar.

— TOMA ISSO!!!

Ele lançou. O arremesso não cortou o ar; incinerou-o.

Kai viu a morte branca vindo em sua direção. Qualquer pessoa sã desviaria. Mas o orgulho de Kai era maior que seu instinto de preservação. Ele se recusava a ceder, se recusava a parecer fraco.

— Pode vir, seu maldito! Eu não vou fugir!

Kai imbuiu as pernas com Éter gravitacional, aumentando seu peso em cem vezes, cravando as botas no chão e ancorando-se como uma montanha inabalável. Ele estendeu as mãos para receber o impacto.

KABOOM!

A colisão foi tectônica. Quando Kai segurou a bola meteórica, uma onda de choque esférica varreu a arena, estourando vidros. O chão sob os pés de Kai afundou em uma cratera, mas ele não recuou um milímetro.

A energia cinética do arremesso de Luck colidiu com a barreira imóvel de Kai. Sem ter para onde ir, a força resultante explodiu para cima. A bola foi lançada verticalmente para o alto, subindo em direção ao teto da arena como um foguete descontrolado.

Kai havia parado o ataque. Mas o preço foi alto. Seu corpo estava travado. A vibração do impacto paralisou seus músculos temporariamente. Ele olhou para cima, vendo a bola atingir o ápice e começar a cair de volta, sabendo que se ela tocasse o chão, seria o fim. Mas seus braços não obedeciam.

— Droga... — Kai tentou mover as pernas, mas elas pareciam chumbo. Ele limpou um filete de sangue que escorria do canto da boca, olhando para suas mãos trêmulas e dormentes.

Mas o silêncio que se seguiu não foi de paz. Foi o prenúncio de algo muito pior.

Do outro lado da arena, enquanto a bola de Kai ainda subia aos céus, Ludmilla caminhava pelo centro da quadra em direção a Beatrice. A aura de "Príncipe" havia sido incinerada, substituída por uma pressão assassina tão densa que tornava o oxigênio ao redor dela pesado como chumbo.

Com movimentos lentos e deliberados, ela desabotoou o botão superior do colarinho da camisa. Puxou a gravata frouxa e a deixou cair no chão, pisando sobre ela.

Basta giochi. (Chega de jogos.)

A voz dela era rouca, metálica, raspando como aço em pedra. Ao seu redor, correntes de metal negro começaram a levitar, saindo de seus bolsos e mangas, contorcendo-se como cobras-reais prontas para o bote. Atrás dela, a gigantesca Claymore flutuava sozinha, a ponta voltada para cima, zumbindo com uma sede de sangue palpável.

Na passarela dos alunos do Quarto Ano, o choque foi visível. O arrepio na espinha foi coletivo. — Ei... aquela garota... ela não gera metal, né? De onde vem tanta pressão? Parece que a gravidade aumentou ao redor dela.

— Não. Ela é uma Manipuladora de Ferro — explicou um colega veterano, ajeitando os óculos enquanto seus olhos analisavam Ludmilla com respeito técnico. — Ela só consegue manipular o metal que carrega com ela ou que está no ambiente. Mas o verdadeiro truque é interno.

Ele apontou para o pescoço da garota. — Ela manipula o ferro na hemoglobina do próprio sangue. Ela força uma oxigenação brutal nos músculos, acelerando o metabolismo a níveis inumanos.

Na arena, a pele pálida de Ludmilla começou a mudar. As veias em seu pescoço, braços e têmporas saltaram, desenhando mapas de rios turbulentos, tingidas de um negro antinatural — a cor do sangue superoxidado e saturado de metal.

— É um doping natural — concluiu Hakurei, observando da arquibancada com os braços cruzados. — Ela acabou de transformar o próprio corpo em uma máquina hidráulica de guerra.

Beatrice viu a transformação e sorriu. O rosto da dragoa já estava metade coberto por escamas grossas, alaranjadas e incandescentes, que soltavam fumaça ao contato com o ar frio. Seus olhos haviam se tornado fendas verticais de réptil, brilhando com puro prazer predatório.

— Finalmente... — A voz de Beatrice saiu como um rugido contido. — Alguém que vale a pena quebrar.

— EI, EI, EI! — Kintoki, na arquibancada, levantou-se num salto, as mãos esmagando a grade de proteção com a força da empolgação. — OLHA ESSA PRESSÃO! QUEM LEVA ESSA?!

A discussão explodiu na plateia como um motim. As apostas voavam. — A força física da Beatrice é insuperável! É um tanque de guerra blindado! — Mas a técnica da Ludmilla não tem falhas! Ela era a garota chamada de Caçadora Perfeita!

No centro, o mundo parou. O som ambiente sumiu, sugado pelo vácuo de duas auras colossais. Ludmilla e Beatrice avançaram. Não foi uma corrida; foi uma investida sísmica. O chão de concreto cedia e estalava a cada passo que elas davam, criando pegadas fundas na arena. Elas corriam em rota de colisão direta.

— Espera, elas vão se atacar?! — Melissa largou seu vape, que caiu tilintando no chão. Ela arregalou os olhos. — Mas agressão física direta é contra as regras! Elas vão ser desclassificadas!

O Éter das duas brilhava com tanta intensidade — um vermelho carmesim contra um laranja vulcânico — que todos ao redor pararam. Luck, Kai, Yuki, todos esqueceram suas próprias dores apenas para testemunhar aquela anomalia.

Foi Dante o primeiro a perceber a verdade geométrica da cena. — Não... elas não estão indo se atacar! — Dante gritou, apontando para o teto da arena. — OLHEM PARA CIMA! A BOLA DO KAI AINDA ESTÁ CAINDO!

Era verdade. A bola que Kai havia lançado para o alto após o choque com Luck estava despencando agora, retornando da estratosfera da arena como um cometa negro, exatamente no ponto central entre as duas titãs.

Elas não estavam correndo para lutar uma com a outra. Elas estavam correndo para ver quem executaria a bola primeiro.

Beatrice saltou. O chão explodiu sob seus pés. Ela preparou o punho direito, envolto em chamas e escamas de dragão. — EXPLODA E PERFURE: ESPIRAL DO DRAGÃO!

Ludmilla não saltou. Ela freou, rasgando o chão, e manipulou a Claymore. A espada girou no ar e caiu em suas mãos. Ela agarrou o cabo com força total, firmando a base, os músculos negros de sangue pulsando. — EXECUÇÃO: GUILHOTINA DE FERRO!

As duas chegaram na bola no exato mesmo milésimo de segundo. Beatrice socou a bola vindo de cima. Ludmilla rebateu a bola vindo de baixo, com um swing de espada vertical.

O encontro foi absoluto. A esfera de borracha, presa entre o punho inquebrável do dragão e a lâmina indestrutível da assassina, atingiu o ponto crítico da existência material.

CRAAAAACK!

A bola se deformou num disco plano bidimensional, incapaz de decidir para onde ir.

BOOOOOOOOOOOOM!

A bola não aguentou. Mas a explosão não foi de borracha; foi de Éter puro comprimido. Uma cúpula de energia laranja e cinza expandiu-se do centro, engolindo as duas garotas instantaneamente.

O chão da arena não suportou. O concreto cedeu, criando uma cratera fumegante de cinco metros de diâmetro. A onda de choque foi tão violenta que estourou as lâmpadas dos holofotes a trinta metros de altura, fazendo uma chuva de vidro cair sobre a quadra.

Um silêncio ensurdecedor cobriu o estádio. Quando a fumaça e a poeira finalmente baixaram, o resultado se revelou.

Ambas, Ludmilla e Beatrice, estavam caídas fora dos limites da quadra, em lados opostos da cratera. Suas roupas estavam rasgadas, corpos fumaçando, inconscientes. Mas, visível para todos nas arquibancadas, ambas tinham sorrisos selvagens, ensanguentados e absolutamente satisfeitos em seus rostos.

LUDMILLA E BEATRICE: DUPLA ELIMINAÇÃO POR DESTRUIÇÃO MÚTUA E DO PROJÉTIL! — Ryunosuke riu, batendo palmas lentas. — Essa até eu tenho que admitir que foi um show maravilhoso!

O silêncio caiu sobre a quadra devastada. No Time Azul, restavam apenas Kurokawa, Kaiser e Kai. No Time Verde, Luck (ferido), Yuki e Daiki ainda estavam de pé.

Kai olhou ao redor. A respiração dele estava pesada. Beatrice caiu. Miguel caiu. Ele estava cercado, exausto e sem apoio de força bruta. Ele olhou para Luck, que apesar de mancar, tinha o apoio de Yuki. O trabalho em equipe deles estava vencendo o talento individual dele.

Kai rangeu os dentes. O gosto na boca dele era amargo. Era bílis e orgulho ferido. Ele olhou de relance para a arquibancada, onde Dante assistia. O olhar de Dante era ilegível, mas Kai sentiu o peso do julgamento.

Lentamente, dolorosamente, Kai virou o rosto para Kurokawa. — Ei... Maldita. — A voz de Kai saiu baixa, rouca, quase um rosnado de dor.

Kurokawa levantou a cabeça, surpresa. — K-Kai?

Kai respirou fundo, engolindo o ego gigantesco que o sufocava como um pedaço de vidro. — Eu não consigo derrubar o Luck e a Yuki sozinho nessa condição. — Ele fechou os punhos até os nós dos dedos ficarem brancos. — Qual é a porra do plano?

Kurokawa piscou. Um brilho surgiu nos olhos dela por trás das lentes. A postura dela mudou. De vítima, ela virou estrategista. — ...Eu tenho um. Mas é arriscado.

Kai sorriu. Foi um sorriso feio, sangrento e perigoso. — Só por hoje, estrategista. Me diga quem eu mato.

Parte 4

A saída explosiva de Ludmilla e Beatrice não apenas abriu a quadra; ela arrancou o teto de poder bruto da partida, transformando o jogo de queimada em um xadrez de alta velocidade jogado com granadas vivas.

— KAISER! — A voz de Kurokawa cortou o zumbido nos ouvidos de todos como uma navalha. — Arco à esquerda, 30 graus! Kai, cubra a rota de fuga inferior! Formação de Cerco!

Kaiser abriu a boca para mandar a garota calar a boca, como seu orgulho exigia. Mas a voz morreu na garganta. Ele travou por um segundo, os olhos varrendo o campo de batalha devastado. Ele viu a cratera fumegante onde Beatrice e Ludmilla haviam se aniquilado — o trabalho de verdadeiros monstros. Ele olhou para Kai, suando e ofegante, mas que mantinha a pressão constante sobre os inimigos.

E então, Kaiser olhou para as próprias mãos vazias. “Espere...”, o pensamento gelado percorreu sua espinha. “O que eu fiz até agora?”

O placar mental era cruel. Beatrice eliminou Mio. Kai pressionou Luck. Ludmilla eliminou Abel. E ele? Ele disparou flechas que erraram. Foi rebatido como uma bola de beisebol. Zero eliminações. Zero assistências. Nenhuma jogada de destaque.

Se o apito final tocasse agora, ele não seria lembrado como o destaque do Comitê Disciplinar. Ele seria lembrado apenas como um figurante barulhento. Um peso morto que só serviu para apanhar.

“Inaceitável. Eu me recuso a ser o inútil dessa partida.”

A vergonha queimou mais forte que seu ego inflado. Ele trincou os dentes com tanta força que o maxilar doeu, engolindo o orgulho seco e amargo.

— Tsk. — Kaiser estalou a língua, virando o rosto para esconder a frustração. — Só dessa vez. Só porque eu quero acabar logo com isso e limpar meu nome.

Pela primeira vez na vida, os dois reis do ego obedeceram. O medo da irrelevância era um motivador muito mais poderoso que a lealdade.

Kaiser ergueu a mão, e o ar obedeceu. O arco etéreo materializou-se em seus dedos, o ouro pulsando com uma intensidade sagrada e arrogante.

— Tsk. Só porque eu quero limpar essa sujeira logo. — Ele puxou a corda de luz. O zumbido era de um anjo cantando uma sentença de morte.

Ele não mirou no corpo. Mirou no espaço. A bola de borracha, agora uma esfera de geometria sagrada, foi disparada. Ela não voou; ela ricocheteou em três pilares numa velocidade vertiginosa, desenhando linhas de luz no ar até criar uma gaiola tridimensional perfeita ao redor de Luck.

— AGORA, KAI! — A voz de Kurokawa cortou o caos, apontando um vetor invisível para todos, menos para o executor.

Kai não precisou pensar. O comando dela passou seu ego e atingiu seus instintos. O espaço ao redor dele dobrou-se. Num glitch visual, ele se teleportou para o único ponto cego deixado propositalmente pela armadilha de luz de Kaiser.

PRESSÃO ZERO: PUNHO DE VÁCUO!

Ele socou a bola. Não houve som de impacto, apenas o grito do ar sendo expulso. A bola viajou pelo vácuo da defesa de Luck como um assassino invisível.

— Droga! — Luck gritou.

Ele tentou bloquear. Seu cérebro enviou o sinal: "Mova-se!". Mas suas pernas, antes leves pelo buff de Yuki, travaram. CRAACK. Um estalo seco, nauseante, ecoou de seu joelho direito. Não foi o chão que cedeu; foi o ligamento. O corpo estava cobrando, com juros, o preço do abuso contínuo.

A bola ia arrancar a cabeça dele. Mesmo assim, Luck não fechou os olhos. E foi por isso que ele viu a luz.

ZAP!

Yuki surgiu ao seu lado num flash. — Você é muito lento, sabia? — A voz dela soou cansada, mas firme como aço.

Yuki não usou magia complexa. Ela interceptou a bola de gravidade de Kai com o antebraço nu. O impacto gerou uma onda de choque que fez o vidro da passarela vibrar. Faíscas voaram como fogos de artifício industriais.

DESCARGA ESTÁTICA: REVERSÃO!

A eletricidade branca de Yuki inundou a esfera, anulando a gravidade negra de Kai. Com um grito de esforço, ela girou o quadril e devolveu a bola num voleio curto, preciso e letal.

Na arquibancada, a atmosfera mudou. Dante inclinou-se para frente, os olhos estreitos, fixos não nos lutadores, mas na garota de óculos no fundo da quadra.

— A Kurokawa... ela é assustadora.

— Espera, a Kurokawa? — Sofia perguntou, confusa, alternando o olhar entre o campo e Dante. — Mas foi um golpe combinado do Kai e do Kaiser. E foi a Yuki quem salvou o dia. A Kurokawa só gritou.

— Sofia, você… Ah, é melhor eu explicar — Dante falou baixo. — Kai e Kaiser são fortes, isso é óbvio. Mas pense bem: aqueles dois têm arrogância demais. Eles se odeiam. Eles nunca lutaram juntos.

Dante apontou para a quadra, onde Kurokawa observava tudo, os dedos tremendo levemente. — Não tinha como ela entender as nuances das habilidades deles antes da partida começar. Ela nem está usando uma habilidade para descobrir também.

Sofia começou finalmente a entender.

— Ela está improvisando. Ela analisou as habilidades do Kai e do Kaiser nos primeiros minutos de jogo, calculou a compatibilidade e criou uma estratégia. A partir do momento que eles começaram a escutá-la, ela virou a verdadeira ameaça ali.

Na quadra, a teoria de Dante se provava na prática. A batalha tornou-se um borrão estroboscópico. Bolas voavam em trajetórias impossíveis, não mais aleatórias, mas guiadas pelas ordens cirúrgicas de Kurokawa. Era uma sinfonia de violência.

— Meu corpo... não tá aguentando... — Luck ofegou. O suor escorria em seus olhos, ardendo. A visão estava ficando turva, um túnel escuro se fechando. O joelho inchado pulsava contra o tecido da calça como um segundo coração, quente e agonizante. “Só mais um pouco... Eu só preciso criar uma abertura para a Yuki...”

— LUCK, DIREITA! — O grito de Yuki rasgou sua garganta.

Veio tarde demais. Kurokawa havia visto a falha na postura de Luck antes mesmo dele sentir a dor. Uma bola misturada à flecha de luz de Kaiser foi disparada. Mas no meio do caminho, Kai tocou nela. A gravidade distorceu a luz. A flecha fez uma curva de noventa graus, impossível, contornando a defesa de Yuki.

BAAM!

O impacto foi brutal. O som foi de carne sendo atingida por um bastão de beisebol. A flecha de luz e gravidade explodiu no ombro de Luck. Ele não teve chance de resistir. Seu corpo foi tirado do chão, arremessado para trás como uma boneca de pano em um furacão, rolando violentamente no chão de metal até bater com as costas na parede do fundo com um baque surdo que silenciou a arena.

LUCK ELIMINADO!

Luck caiu sentado na área dos eliminados, a respiração irregular. Ele socou o chão com força, amassando o metal. — Merda... eu estava quase lá...

Agora, na quadra devastada do Time Verde, restava apenas Yuki. E Daiki. Do outro lado, a muralha inquebrável: Kai, Kaiser e Kurokawa. A vitória do Time Azul não parecia apenas certa; parecia inevitável.

Kaiser riu, girando o arco de luz no dedo, saboreando o desespero alheio.

— Ei...

A voz cortou a risada. Não foi um grito, foi um sussurro carregado de estática. Yuki não estava olhando para os inimigos. Ela estava olhando para Luck, do outro lado da linha.

— Por que essa cara de derrota, idiota? — Yuki inclinou a cabeça, os cabelos começando a levitar levemente devido à carga estática. — Vocês me encheram o saco me fazendo participar. Então agora... eu não vou aceitar sair daqui com o rótulo de perdedora. Se levanta e tira essa cara de peixe morto.

Luck piscou, confuso. Por um segundo, a dor sumiu. Ele olhou para Yuki e percebeu algo perturbador: durante todo o jogo, ele analisou os inimigos, analisou o Daiki, analisou a si mesmo. Mas Yuki? Ele não sabia nada sobre ela. A preguiça dela era uma camuflagem perfeita.

Yuki virou-se para onde o professor estava. — Professor Ryunosuke. — A voz dela projetou-se sem esforço. — A regra diz que podemos usar nossas armas, habilidades e estilos de combate, certo?

Ryunosuke tragou o cigarro, interessado. — Correto.

— Então... — Yuki começou a se alongar. Estalou o pescoço para a direita, depois para a esquerda. O som foi alto no silêncio da arena. — Posso pedir para alguém da plateia me jogar a minha "Arma"?

Um murmúrio correu pela plateia. Pedir equipamento externo? No meio da luta?

Ryunosuke sorriu. Um sorriso de quem vê o circo pegar fogo e decide jogar gasolina. — Eu não disse que existia uma regra proibindo assistência. Eu permito. Divirta-se.

Na quadra do Time Azul, Kurokawa ajeitou os óculos. Suas mãos começaram a suar frio. — Tem algo errado... — Ela sussurrou para Kai. — A pressão ao redor dela... mudou. Não é mais aquela garota sonolenta. É como se... ela tivesse acabado de acordar.

Yuki ignorou os olhares. Ela olhou para cima, para a passarela do Time Amarelo. — Ei, Maninha! — Ela gritou, estendendo a mão aberta para o alto. — Manda aquilo aqui pra baixo. Agora.

Do alto da passarela, Mirai sorriu. Não era o sorriso doce de antes. Era o sorriso de uma irmã mais velha que estava prestes a dar um brinquedo perigoso para a caçula. — Ara, ara... Finalmente a Yu-chan ficou séria? — Mirai caminhou até uma maleta de metal escovado que estava aos seus pés.

CLACK. HISS.

A maleta se abriu com um som de despressurização. Mirai enfiou a mão dentro e retirou o objeto. Não era apenas uma arma. Era uma obra de arte letal. Uma lança, feita de um metal prateado que parecia absorver a luz ambiente em vez de refleti-la. Runas microscópicas pulsavam ao longo da haste, zumbindo com uma energia contida que fez os cabelos de quem estava perto se arrepiarem.

— Pega, querida! ❤️ — Mirai lançou a arma.

A lança girou no ar, descendo em espiral na direção da quadra. O objeto cortou o ar com um assobio agudo, pesado e perigoso.

Na arquibancada do Time Amarelo, Anna, que estava comendo pipoca distraidamente, parou. Seus olhos se arregalaram, fixando-se no metal prateado que caía. A cor sumiu de seu rosto. — Aquilo é... — Anna engoliu em seco, a voz tremendo.

No campo do Time Azul, a atmosfera pesou. Kai e Kurokawa baixaram o centro de gravidade, os instintos gritando que o ar estava ficando rarefeito, carregado de uma estática invisível. Algo grande estava vindo.

Mas Kaiser? Kaiser estava em outro mundo.

O "Imperador" ignorou a tensão. Ele ajeitou a franja, girou o arco dourado no dedo e olhou para cima, para a passarela onde o Time Amarelo observava. Seus olhos encontraram Mirai. A beleza dela não era apenas estética; era uma armadilha, e ele caiu de cabeça, movido por luxúria adolescente e uma soberba incurável.

“Meu Deus... que mulher linda é essa?! Droga, é isso que dá não olhar pras outras pessoas. Se eu vencer a irmã dela agora, ela vai me odiar. Preciso garantir um encontro agora, senão serei um fracasso como homem.”

— EI! GATINHA AÍ DE CIMA! — Kaiser gritou, projetando a voz com charme exagerado, ignorando completamente que estava numa zona de guerra. — Eu sei que estou prestes a derrotar sua irmãzinha aqui embaixo... Mas você sabe que é só um jogo, né? Então, que tal depois dessa brincadeira a gente jantar juntos? Por minha conta. O melhor restaurante de Apocalypse. O que me diz?

Lá em cima, Mirai apoiou o queixo na mão, debruçada na grade. Ela sorriu. Foi um sorriso devastador. Faria anjos chorarem de medo e demônios pedirem demissão por justa causa. Ela levou os dedos aos lábios e soprou um beijinho no ar para Kaiser, delicado como uma pétala feita de arsênico.

— Oh, você é tão confiante... — A voz dela desceu até a quadra, doce como mel envenenado. — Ganhe, e a gente conversa, "Majestade". ❤️

Kaiser corou violentamente, o ego inflando como um balão prestes a estourar. O rosto dele era pura euforia. “Hehe! Ouviram isso?! Está no papo! Ela quer! Eu sou invencível!”

— Kaiser...

A voz veio do centro da quadra oposta. Não era a voz preguiçosa, arrastada e sonolenta de Yuki. Era um som distorcido, que lembrava um cabo de alta tensão se partindo numa tempestade. Um chiado elétrico, baixo, vibrante e mortalmente perigoso.

Kaiser parou de rir. O sorriso congelou. Ele olhou para frente.

Yuki estava de cabeça baixa. A lança prateada que Mirai havia jogado estava em sua mão direita, a ponta arrastando no chão. Mas o ambiente mudou. O ar ao redor dela começou a cheirar a ozônio queimado e enxofre. Pequenos arcos de eletricidade azul-branca, como serpentes luminosas, começaram a dançar em seus cabelos, fazendo as mechas flutuarem e desafiarem a gravidade.

— O que você... — Yuki apertou o cabo da lança. O metal rangeu. — ...disse que ia fazer com a minha irmã?

Yuki levantou o rosto. Os olhos dela não tinham mais tédio. Não tinham nem mesmo pupilas. Eram duas esferas de luz branca pura, brilhando com uma Intenção Assassina tão concentrada e palpável que, na lateral, Villa-V deu um passo involuntário para trás, tropeçando nos próprios pés.

— Fascinante... — Villa-V sussurrou, aterrorizada, enquanto seus óculos piscavam vermelho freneticamente, projetando dados no ar. — Atualização de Status: Estado Psicológico "Desmotivado" alterado para "FÚRIA FRATERNAL HOMICIDA". Nível de perigo: Catastrófico.

Yuki jogou a bola de borracha para o alto com a mão esquerda. O movimento foi lento, quase cerimonial. Enquanto a bola subia, girando no ar, Yuki segurou a lança prateada com as duas mãos, assumindo uma postura de batedora de beisebol. A ponta da lança vibrou.

Na hora, um flash de memória atingiu a todos. A imagem de Ludmilla usando a espada contra a bola. Kaiser travou. O trauma da explosão anterior ecoou em sua mente.

— MORRA!

A eletricidade de todo o estádio — das lâmpadas, dos holofotes, da estática do ar — pareceu ser sugada para a ponta daquela lança num vácuo sonoro aterrorizante.

— Espera, não me diga que ela vai criar um Railgu— — Dante começou a gritar, entendendo a física tarde demais.

Quando a bola caiu na zona de impacto, Yuki girou o corpo. O metal da lança encontrou a borracha da bola.

CRAAAACK-ZUUUM!

O som não foi ouvido pelos ouvidos; foi sentido na medula óssea. Um trovão partiu a terra. A bola não foi arremessada. Ela foi disparada a Mach 5. Ela deixou de ser um objeto sólido e virou um feixe de plasma. Um rastro de luz azul queimou a retina de todos os espectadores, ionizando o ar instantaneamente e deixando um cheiro forte de tempestade elétrica.

Kaiser nem viu. Seus olhos humanos não conseguiam acompanhar aquela velocidade. Ele só sentiu o fim.

O impacto no peito dele foi tão violento que o som de suas costelas estalando competiu com o trovão. A barreira sagrada dele pulverizou-se como papel molhado. Kaiser não caiu; ele voou. Ele foi arrancado do chão, atravessando a quadra horizontalmente, seus pés desenhando linhas no ar.

— KAISER! — Kurokawa tentou intervir. Ela se jogou na frente para criar uma barreira de suporte, mas foi como tentar parar um trem de carga com uma folha de caderno. O corpo de Kaiser, carregando a inércia do disparo sônico, colidiu com ela.

A força cinética arrastou os dois para trás em um borrão de gritos e membros. — [CAMPO DE GRAVIT—] — Kai tentou erguer uma parede gravitacional atrás deles para segurar os companheiros.

Foi inútil. O bolo de corpos explodiu contra a defesa de Kai. A gravidade colapsou. Kai foi lançado para baixo, sendo esmagado contra o chão e rolando violentamente para a lateral, parando a centímetros da linha. Mas Kurokawa e Kaiser? Eles não tiveram a mesma sorte. A força residual os catapultou para cima e para longe, num arco patético e fumegante, direto para fora da arena.

BAAAAAM!

Eles aterrissaram na pilha de colchões de proteção fora da quadra, inconscientes, fumaçando e derrotados.

O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som da lança de Yuki caindo no chão metálico. Clang. Ela expirou uma nuvem de fumaça branca pela boca, a eletricidade dissipando lentamente de seus cabelos.

— ...Strike.

KAISER E KUROKAWA ELIMINADOS! — Ryunosuke gritou, mal conseguindo acompanhar a velocidade. — KAI AINDA ESTÁ DENTRO POR UM FIO!

Kai estava de joelhos na borda da quadra, um rei destronado. Vapor tóxico chiava das juntas de sua armadura rachada. Ele havia queimado 100% de sua reserva de Éter apenas para ancorar os pés no chão e não ser varrido para fora da linha pelo impacto sônico. Seus braços tremiam incontrolavelmente, os músculos gritando em protesto. O cheiro de ozônio e carne chamuscada preenchia o ar.

Ele forçou o pescoço a se erguer. Yuki caminhava em sua direção. Ela não tinha pressa. Faíscas azuis ainda dançavam em seus cílios, e o cabelo flutuava numa aura estática, emoldurando-a como uma deusa da vingança que desceu à terra apenas para incinerar um mortal.

Yuki levantou a mão direita. A eletricidade crepitou na ponta dos dedos, condensando-se para o golpe de misericórdia. Mas a boca dela se curvou num sorriso entediado.

— Relaxa. — A voz dela era fria, desconectada da violência de sua aura. — Seu inimigo real... não sou eu.

O cérebro de Kai congelou. O contraste entre a Intenção Assassina visual e as palavras casuais criou um delay fatal em seu processamento tático. (Hã? Não sou eu? Ela está blefando para eu baixar a guarda? Não... os olhos dela. Ela está olhando através de mim.)

Num flash de memória, a conversa de Yuki com Luck antes do ataque da Railgun ecoou em sua mente. A percepção atingiu Kai como um soco no estômago. Ele girou o pescoço para trás, lembrando tarde demais para onde a bola da Railgun havia ricocheteado após o impacto.

Para o "Cemitério".

— YUKI! AGORA!

A voz rouca veio das sombras. Luck. Ele parecia um cadáver reanimado. Ferido, coberto de fuligem, o joelho estalando audivelmente a cada passo manco. Ele havia recuperado a bola quente que rolara para fora.

— Se for para acabar com um gênio natural como você... — Luck girou o corpo. Ele ignorou a dor lancinante que subia por sua perna como arame farpado. Ele transformou a dor em combustível. — Eu aceito ser o coadjuvante! EU ACEITO SER UM ZUMBI!

Luck arremessou do fundo da quadra. Não havia técnica, apenas desespero bruto. Um ataque perfeito no ângulo cego.

Kai sentiu a pressão do ar mudar nas suas costas. O tempo desacelerou. Ele estava encurralado. A Deusa do Trovão na frente. O Zumbi do Esforço atrás, pronto para finalizá-lo. “MERDA! Eu não tenho Éter para bloquear!”

O cérebro de Kai processou a única opção viável em milissegundos. Uma aposta suicida. “Eu não posso desviar. Se eu me mexer, a Yuki vai pegar essa bola e me acertar. Tenho que deixar a bola me tocar, redirecioná-la para longe dela e, antes de ela colidir com algo, me teleportar para pegá-la!”

Ele firmou os pés. Ele não se virou. Ele deixou a bola de Luck atingir suas costas em cheio. BAQUE! O ar foi expulso de seus pulmões. A dor explodiu em sua coluna, mas ele usou o impacto para ser empurrado ligeiramente para frente, mantendo os olhos fixos em Yuki.

A bola de Luck, após atingir as costas de Kai, perdeu força e quicou para o alto, subindo em um arco lento e agonizante sobre a cabeça de Kai.

Kai ofegou, o sangue escorrendo pelo canto da boca. Seus olhos acompanharam a bola subindo. “É agora. O último recurso. Eu ainda tenho energia para um micro-teleporte de 2 metros. No segundo que essa bola começar a cair, eu me teleporto para baixo dela, agarro e jogo na Yuki. É o único jeito!”

Ele preparou o salto espacial. Seus olhos de predador focaram na bola que atingia o ápice do arco e começava a descer. Lenta. Inevitável. Como o destino.

E então, o destino pregou uma peça cruel.

Exatamente embaixo da trajetória da bola... havia um pilar de concreto. E atrás do pilar, uma forma trêmula. Daiki.

Ele estava lá desde o começo do massacre. Encolhido em posição fetal, olhos fechados com tanta força que doíam, as mãos juntas acima da cabeça numa mistura patética de rendição e reza a qualquer divindade que o tirasse dali vivo.

“Não me vejam, não me vejam, eu sou uma pedra, eu sou musgo, eu sou irrelevante, eu sou o ar...” — ele murmurava seu mantra febril.

A bola caiu. Não houve estrondo. Não houve explosão. Houve apenas um som suave e anticlimático de borracha encontrando carne suada.

PLOF.

A bola pousou perfeitamente nas palmas abertas e trêmulas de Daiki, aninhando-se ali como um pássaro voltando ao ninho.

O estádio inteiro silenciou. O tempo congelou. A eletricidade de Yuki sumiu. O sorriso vitorioso que começava a se formar no rosto de Kai morreu. Kai olhou para a bola nas mãos de Daiki. Daiki abriu um olho, aterrorizado, e olhou para a bola em suas mãos.

Kai simplesmente caiu de cara no chão metálico, desistindo da vida. — ...Hã? — Daiki soltou, a voz falhando numa oitava aguda.

Ryunosuke agarrou o microfone, a voz tremendo de tanto segurar a risada antes de explodir: — KAI FOI ATINGIDO E NÃO PEGOU O REBOTE! A BOLA FOI RECUPERADA PELO TIME VERDE ANTES DE TOCAR O CHÃO!

O locutor respirou fundo, saboreando o caos: — PELA LEI DA INTERCEPTAÇÃO, KAI ESTÁ ELIMINADO!

🏆 VITÓRIA: TIME VERDE! 🏆

— O QUÊ?! — Kai gritou, batendo a cabeça no chão com força. — MERDAAAAA!

Na passarela do quarto ano: — O DAIKI É UM GÊNIO! — Chuya berrou, agarrando Kintoki pelo colarinho. — Ele previu onde a bola ia cair e ficou posicionado o tempo todo! Ele nem se mexeu! Economia máxima de movimento!

— Incrível... — Dante sorriu, balançando a cabeça, incapaz de conter a admiração. — O cara é uma lenda. Ele venceu sem dar um passo.

Daiki, no centro da quadra, segurando a bola quente contra o peito, sentiu as pernas cederem. Ele caiu de joelhos, parecendo um guerreiro exausto após uma batalha épica, a luz dos holofotes banhando-o em glória acidental. Mas, na verdade, ele só estava agradecendo a todos os deuses conhecidos por não ter morrido de ataque cardíaco.

Ryunosuke bateu palmas, encerrando o caos com um sorriso sádico. — Fim do primeiro jogo. Time Verde avança. Time Azul, vão lamber as feridas e o orgulho.

Ele olhou para o Time Vermelho e Amarelo, seus olhos brilhando com malícia renovada sob a fumaça do cigarro. — Dante. Kintoki. Vocês são os próximos. Tentem superar isso.

Dante levantou-se, estalando os dedos um por um. A dor de cabeça havia sumido completamente, substituída por uma adrenalina fria. — Pode deixar, professor. — Ele olhou para Kintoki, que já estava na quadra, rugindo para a plateia e rasgando a camisa. — Vamos fazer um show ainda melhor.

Parte 5

O apito final do professor ainda ecoava quando a arena se dissolveu em um caos organizado, oscilando entre uma zona de triagem militar e um palco de comédia pastelão.

Drones médicos zumbiam no ar, suas luzes estroboscópicas varrendo a poeira. Kai, no entanto, recusava a gravidade e o bom senso. Ele cambaleava, o braço pendurado em um ângulo doloroso, chutando a lateral de uma maca flutuante que tentava coletá-lo.

— Saiam de perto! — ele bramiu, cuspe e sangue voando por entre os dentes cerrados. — Eu não acabei! Aquilo foi pura sorte! Só preciso de cinco minu...

BAM!

O som foi seco e brutal. A lâmina plana da tesoura gigante de Vivian desceu como um martelo de juiz contra a nuca de Kai. Os olhos do garoto reviraram para o branco absoluto, e ele desabou como um saco de batatas nos braços mecânicos dos robôs, que imediatamente o levaram embora.

Vivian girou a tesoura colossal, apoiando-a no ombro com a casualidade de quem segura um guarda-chuva, ignorando os olhares horrorizados dos enfermeiros. — Que moleque barulhento — bufou ela, ajeitando uma mecha de cabelo. — Ele está "inconformado"? E eu? — Ela coçava a cabeça com força. — Nem consegui arranhar ninguém. Droga…

Enquanto golens mecânicos emergiam do chão para "cicatrizar" as crateras da arena com um estrondo surdo de terra movendo-se, a arquibancada dos veteranos vibrava com a energia do capitalismo selvagem.

Chuya estava no olho do furacão, um sorriso predatório rasgando seu rosto de orelha a orelha. — Sete... oito... nove! Hah! O cheiro da vitória tem aroma de tinta fresca! Nunca duvidei do Time Verde! — exclamou, beijando o dinheiro estalado.

Do lado de baixo, Anna observava. — Chuya... — a voz dela não escondia sua confusão. — Desde quando você subiu aí em cima?

Conseguindo ainda mais dinheiro fácil, Chuya ria alegre, o som tilintando como moedas, enquanto guardava o maço no bolso.

Longe da algazarra financeira, isolado em uma bolha de silêncio analítico, estava Ryunosuke. Sua caneta não escrevia; ela dançava violentamente sobre o papel, traçando diagramas e vetores. Seus olhos varriam a arena vazia, reconstruindo a luta quadro a quadro em sua mente.

“Todos tinham potencial bruto,” pensou, mordendo a tampa da caneta. “Mas a química do time foi o catalisador.”

Seu olhar, afiado como navalha, fixou-se na porta da enfermaria. Ele esperava que Ludmilla fosse o pilar do Time Verde. Mas foi Luck quem serviu de líder. E do outro lado... Kurokawa.

— Isso foi bem inesperado... — murmurou Ryunosuke, um brilho calculista nos olhos. — Estatisticamente, Kurokawa é a peça mais frágil do tabuleiro, tirando a nulidade ofensiva da Sofia…

Ele escreveu em letras garrafais: KUROKAWA: LIDERANÇA POR SOBREVIVÊNCIA.

“Ela não liderou por ego. Ela liderou porque, se não taticamente superasse o inimigo, seria esmagada fisicamente. Ela transformou sua fraqueza em um jogo de xadrez.”

Mais abaixo, colado à grade de proteção, os dedos de Dante estavam brancos de tanto apertar o metal. — Droga! Por que eu tenho que esperar tanto! E nem pro Luck e Kurokawa me fazerem companhia... Eu tenho que ficar olhando pra essa arena e ficar lembrando daquilo…

De repente, um peso súbito caiu sobre seus ombros, seguido por braços finos que envolveram seu pescoço num mata-leão carinhoso.

— Bu! — O sussurro quente fez cócegas em sua orelha.

Dante saltou, o coração falhando uma batida, quase derrubando a "mochila humana". Era Mio. Mas havia algo errado. Ela ria, agarrada às costas dele como um coala, mas parecia... compacta.

— Mio?! — Dante tentou virar o pescoço, confuso com a leveza dela. — O que você está fazendo? E espera... por que você parece ter doze anos?

— Gostou? — Ela colocou a língua para fora, balançando pernas curtas no ar. — A Bea foi para a enfermaria, fiquei entediada. Vim te fazer companhia. E não adianta fazer essa cara de durão, eu vi você todo solitário aí.

— Eu estava mais ansioso do que sozinho, sabia? — retrucou Dante, tentando desvencilhar-se sem machucá-la. — E como você diminuiu?

Mio apoiou o queixo no topo da cabeça dele. — Minha habilidade, A Metamorfose Not Equal. Se eu entendo a massa, a densidade e a anatomia, eu viro o que eu quiser. Virar uma versão "mini-eu"? É só ajustar a estrutura óssea e comprimir a massa muscular. Básico do básico.

Dante parou de lutar, resignado com o peso extra. — Assustadoramente versátil. Mas por que não está com seu time? Ou o Kintoki?

No momento em que o nome foi pronunciado, o corpo pequeno de Mio ficou tenso nas costas de Dante. O tom brincalhão evaporou. — O Kin? Esquece. Eu não chego perto dele agora nem ferrando. — Ela apontou discretamente com o queixo para o outro lado da arena de espera. — Ele assistiu à luta do Luck inteira. Ele sabe que é a vez dele. Então a ansiedade transformou ele em uma bomba-relógio sem cronômetro.

Dante ficou olhando e pensando, já que eles iriam acabar se enfrentando. — Me diz… Ele é forte? — Dante perguntou.

— Dante... Eu sei que você tem seus truques. Mas numa colisão direta? Força contra força? Eu não apostaria em você.

Dante olhou para ele, imaginando quão forte seria o adversário do outro lado.

Enquanto isso, a área de descanso era um mosaico de cenas contrastantes.

Villa-V havia encontrado sua presa. Ela se lançou como um míssil carente contra Melissa, abraçando a cintura da garota de gelo. — Melissaaaa! Você viu? A Yuki foi tão má! Ela nem deixou eu brincar direito! A pesquisa dos colegas de classe vai atrasar uma semana inteira por isso — choramingou, esfregando o rosto no uniforme impecável da outra.

Melissa, vermelha como um tomate, tentava empurrar a testa de Villa-V. — Desgrude. Você está me amassando.

Perto dali, Chuya, tendo pego seu dinheiro com os veteranos, foi direto na direção de Daiki para abraçá-lo. — Daiki! Meu garoto de ouro! Meu muro de Berlim portátil! — Chuya ria, os olhos brilhando com cifrões.

— Eu… eu… — Daiki balbuciava, tonto demais para entender o que estava acontecendo.

No canto mais escuro, desenrolava-se um filme de terror médico. Abel estava sentado, encolhido. Kagura girava ao redor dele como um tornado de ataduras, seus movimentos rápidos demais para o olho humano acompanhar.

— Kagura, é sério, eu estou ótimo! — A voz de Abel saía abafada; metade do seu rosto já era uma máscara de gaze branca.

— Silêncio, seu idiota! Você é tão frágil que parece até manteiga. Aproveite que estou me dando ao trabalho de tratar de você e fique feliz — repreendeu Kagura, com um brilho apaixonado nos olhos. — Você é um pobre coitado, frágil, esgotado! Mas tá tudo bem, pode deixar que eu cuido de você.

— So… Socorro... — Abel sussurrou, estendendo a mão para os passantes, mas todos desviavam o olhar.

Em um setor mais isolado das arquibancadas, longe dos olhares curiosos e da confusão médica, o reencontro familiar não foi marcado por abraços calorosos, mas sim por uma explosão de fúria fraterna.

Yuki marchou até a irmã mais nova, a aura assassina que ela usara na arena ainda crepitando ao seu redor. Mirai, por outro lado, estava sentada com as pernas balançando no ar, chupando um pirulito como se estivesse em um parque de diversões.

— Mirai! — Ela agarrou os ombros da irmã e começou a sacudi-la para frente e para trás. — Que raio de ideia foi aquela?! Você tem serragem na cabeça? Como ousa aceitar um convite de jantar daquele pervertido?!

A cabeça de Mirai balançava como um boneco de mola, mas sua expressão permanecia assustadoramente plácida. — C-calma aí, maninha... — gaguejou Mirai, rindo entre os chacoalhões. — Eu estava só brincando com ele! Além do mais... eu nunca duvidei. Eu sabia que você ia limpar o chão com a cara dele no final. Minha fé em você é inabalável!

Yuki parou de sacudi-la, mas manteve as mãos nos ombros da irmã, estreitando os olhos. O elogio a desarmou por um segundo, mas a lógica falha da irmã logo reiniciou seu cérebro. — É? — Yuki aproximou o rosto, uma veia pulsando perigosamente em sua testa. — E se eu não tivesse vencido?

Mirai tirou o pirulito da boca, piscou os grandes olhos inocentes e deu de ombros com uma casualidade irritante. — Bom... ele disse que iria pagar a conta, não disse?

O silêncio que se seguiu durou exatamente dois segundos. O tempo necessário para a informação processar no cérebro de Yuki.

— MIRAI!!!

WROOOOON!

A sirene cortou o ar, vibrando nos ossos de todos os presentes. A voz do professor trovejou nos alto-falantes, dissipando instantaneamente a atmosfera leve. — ATENÇÃO! A LIMPEZA DA ARENA FOI CONCLUÍDA. OS TIMES DA SEGUNDA RODADA DEVEM SE PREPARAR IMEDIATAMENTE!

Dante sentiu o peso em suas costas desaparecer. Num piscar de olhos, Mio estava ao seu lado, de volta à sua forma original, ajustando as luvas. O sorriso brincalhão havia sumido.

— É a hora, Dante. — Ela olhou para ele, séria. — Tenta não morrer, tá? O Kin não sabe o significado da palavra "contenção".

Do outro lado da arena, o ar começou a estalar. Uma aura dourada, visível e violenta, começou a crepitar ao redor de Kintoki. Ele se alongava, e a cada estalo de seus dedos, faíscas reais saltavam, queimando o chão de concreto. O cheiro de ozônio preencheu o ambiente. Ele virou o pescoço devagar, seus olhos encontrando os de Dante através da distância. Um sorriso selvagem, puramente predatório, rasgou seu rosto. Ele não precisava gritar. A estática no ar transmitia a mensagem direto para a espinha de Dante:

Eu vou te esmagar.

Parte 6

O placar holográfico acima da arena mudou de cor, piscando em vermelho intermitente: INTERVALO TÁTICO: 10 MINUTOS.

O time de Dante se reuniu em um canto, longe dos olhares curiosos. Se fosse um anime de esporte, este seria o momento do discurso inspirador sob uma trilha sonora emocionante. Na realidade, o clima era tão convidativo quanto um funeral em dia de chuva.

Ninguém se olhava. A tensão era física, uma parede invisível separando cada integrante. Sofia, a líder designada por osmose e falta de opções, sentia o peso do silêncio esmagar seus pulmões. Ela varreu o olhar pelo círculo: a maioria ali tinha o carisma de uma porta ou a sociabilidade de um cacto.

Ela buscou apoio em Dante. Mas o Scarlune estava em outra dimensão. Os olhos de Dante estavam fixos no nada, a íris vibrando levemente.

“Aquela garota... Layla...” A mente dele era um turbilhão. “Sinto que a conheço, mas minha lógica grita que é impossível. Eu vim de duas décadas no passado. Mas ela parece ter a minha idade. Eu nem era amigo de nenhuma criança… Por que minha memória sobre ela é tão confusa?”

CLAP!

O som seco de palmas cortou o ar como um tiro. Dante pulou, saindo do transe. Shimura derrubou sua revista Weekly Shonen no chão.

Sofia estava de pé, as mãos vermelhas pela força do aplauso. Ela tremia levemente, mas seu olhar era firme. — Escutem! — A voz dela falhou, mas ela pigarreou e continuou, mais forte. — Eu sei o que vocês estão pensando. "Quem é essa garota para mandar em mim?". E vocês têm razão.

Ela respirou fundo, decidindo jogar a única carta que tinha: a verdade nua e crua. — Eu não tenho poderes ofensivos. Não sou rápida. Se eu entrar em uma luta contra qualquer um aqui, eu sei que vou perder. Em termos de combate, eu sou um peso morto...

O silêncio mudou de "constrangedor" para "surpreso". Até Melissa parou de lixar as unhas, erguendo uma sobrancelha perfeitamente desenhada.

— Mas... — Sofia apertou o punho contra o peito, os olhos brilhando com determinação desesperada. — Eu quero vencer. Eu não tenho força, então preciso que vocês me emprestem a de vocês. Se me disserem o que podem fazer, eu prometo que vou encontrar um jeito de usarmos isso para não sermos massacrados.

Houve um segundo de hesitação. A vulnerabilidade dela agiu como um ácido, corroendo as barreiras do grupo.

— Tsc. Que drama. — Melissa suspirou, desencostando da parede com uma elegância preguiçosa. — Belo discurso. Mas já aviso: eu não sou linha de frente. — Ela girou uma mecha de cabelo no dedo. — Minha habilidade é Snatch. Eu roubo.

— Rouba? — Dante inclinou a cabeça. — Tipo batedora de carteira? Desde quando isso é habilidade?

— Quer uma demonstração? — O sorriso de Melissa foi afiado. — Aquele colar prateado embaixo da sua camisa. Bonito.

Dante levou a mão ao peito, protetor. — É de esti...

Antes que ele terminasse a frase, um brilho azul sutil, quase imperceptível, piscou nos olhos de Melissa.

Puf.

A sensação do metal frio contra a pele de Dante desapareceu instantaneamente. — Ei! — Ele tateou o pescoço nu. — Espera, o que eu estava procurando?

— Aqui. — Melissa girava o colar no dedo indicador, a três metros de distância dele.

— Por que eu estaria procurando o seu colar no meu pescoço? — Dante olhou para ela, confuso.

— Ele não percebeu? — Sofia, ao lado, perguntava.

— Ele não consegue. É um dos efeitos do Snatch — Ela falou, desfazendo sua habilidade e devolvendo o colar. — Snatch tem regras. Preciso de contato visual ininterrupto por 40 segundos para "marcar" o alvo. Uma vez pego, ele vem parar na minha mão e tenho 24 horas para devolver. Não consigo pegar duas coisas ao mesmo tempo e também não consigo pegar coisas em alta velocidade, como um soco ou uma bala.

— Mas se você ficar com ele por mais tempo? — perguntou Sofia, o cérebro tático já girando engrenagens.

— Se eu mantiver a posse por 24 horas, o objeto se torna completamente meu. E o melhor: não roubo só matéria. Posso roubar sentidos. Visão, audição... contanto que eu veja o alvo usando-os.

— Assustadoramente versátil — murmurou Shimura, ajeitando os óculos fundo de garrafa. — Minha vez. Habilidade: 2D Manifest. — Ele fez uma pose dramática, imitando a capa de um mangá. — Posso materializar qualquer objeto inorgânico que eu tenha lido, compreendido e memorizado de um mangá ou anime. Duração máxima: 5 minutos.

— QUALQUER COISA?! — Os olhos de Dante brilharam com a intensidade de duas supernovas. Ele agarrou os ombros do garoto magricela. — Você pode fazer a Buster Sword? O Escudo do Herói? As Lâminas do Caos?!

— T-teoricamente, sim! — Shimura sorriu. — Mas consome meu Éter. Quanto mais complexo o design, mais rápido eu me esgoto. Se eu abusar, entro em cooldown.

— Você é meu novo melhor amigo! — decretou Dante.

— Foco! — Sofia estalou os dedos. — Kagura?

A garota de aparência frágil deu um passo à frente, estalando os dedos das mãos com um som crocante e perturbador. — O meu é simples. Pain Conversion. Eu converto dano físico recebido em força bruta acumulada. Quanto mais eu apanho, mais forte eu bato.

— Básico, eficiente — resumiu Sofia. — E você, Dante?

Dante coçou a nuca, soltando o "novo melhor amigo". — Ah, bom... — Ele estendeu a mão. Faíscas vermelhas começaram a dançar entre seus dedos, zumbindo como um enxame de abelhas elétricas. — Minha base é Manipulação Temporal. Posso acelerar ou desacelerar meu próprio tempo, o que me dá supervelocidade relativa. Também posso aplicar isso a objetos que toco. — Ele bocejou, como se estivesse lendo a lista de compras. — Meu Éter tem propriedades de plasma, então gero raios e calor intenso. E, como efeito colateral da bioeletricidade, tenho um controle rudimentar sobre eletromagnetismo para atrair ou repelir metais.

O grupo congelou. Eles olharam para Dante. Olharam para Melissa. Olharam para Kagura. Olharam para Shimura. E voltaram para Dante.

— Quebrado — disseram todos em uníssono, com o tom seco de jogadores denunciando um hacker.

— Isso é bullying! — protestou Kagura. — O cara é um canivete suíço!

Dante apontou para cada um deles. — Não me olhem assim! Vocês viram os outros times?! Tem gente que corta a realidade! Tem gente que controla o espaço! A culpa não é minha se o balanceamento de equipe desse mundo é quebrado!

Sofia teve que concordar. Mas, pelo menos, eles tinham uma chance. Finalmente, todos os olhares se voltaram para a última integrante. Shiranui Tenma.

A garota loira estava encostada na parede mais distante, o sobretudo largo caindo sobre os ombros como uma capa de vilão. Ela notou o silêncio. Era a vez dela. O coração de Tenma disparou como uma bateria.

“Ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus!”, a mente dela entrou em colapso. O suor frio escorria por suas costas. “É agora. Tenho que falar. Diga o nome. Diga a espécie. Não! Se eu disser que sou um Seraphin, eles vão achar que vou comê-los! Mas se eu só falar a habilidade, vão achar que sou uma psicopata violenta. O que eu faço? Sorria, Tenma! Minha mãe disse que um sorriso abre portas!”

Ela tentou sorrir. Mas a tensão muscular, combinada com suas presas naturais e o pânico absoluto, transformou a tentativa de sorriso em uma careta irritada.

— Ei... — Kagura, impaciente e sem noção do perigo, tocou no ombro dela. — Você tá viva? Vai falar ou nã...

O toque repentino foi o gatilho. O sistema nervoso de Tenma fritou. Ela girou num reflexo defensivo bruto, os olhos vermelhos arregalados e injetados de terror, e soltou um som gutural, alto demais para a distância em que estavam.

— HÃ?! O QUE FOI?!

O grito ecoou pelas paredes de concreto. A aura dela explodiu sem querer, pesada e opressora. Kagura recuou três passos, tropeçando nos próprios pés. Shimura guinchou e usou Dante como escudo humano. — Eita... — Melissa sussurrou, os olhos arregalados.

“NÃO! NÃO ERA PRA SAIR ASSIM! DESCULPA!”, Tenma gritava internamente, vendo o pavor estampado na cara dos seus únicos aliados.

— B-bom... — Sofia riu, um som nervoso e agudo, suando frio. — Alguns preferem manter o mistério, né? O elemento surpresa! Tática avançada! Ninguém precisa forçar nada aqui!

— É! Exato! — Dante concordou rápido demais, sentindo um arrepio na espinha. — Olha a hora! O professor já vai chamar. Melhor a gente ir posicionando, né? Vamos, time! Movimento, movimento!

— Bora, bora, bora! — Kagura concordou, andando rápido e fazendo um arco largo para ficar longe da loira.

O grupo se levantou numa pressa suspeita e começou a marchar em direção à saída, deixando um vácuo de segurança ao redor de Tenma.

Tenma ficou parada, congelada na sua pose "ameaçadora". Ela viu as costas deles se afastarem. Estendeu a mão timidamente, os dedos tremendo, querendo chamar, explicar, pedir desculpas. Mas a voz morreu na garganta. Ela recolheu a mão. Seus ombros caíram, e a aura de "delinquente lendária" se desfez como fumaça, deixando para trás apenas uma garota solitária e trêmula.

— Eu fiz de novo... — ela sussurrou para o chão vazio, a voz embargada, segurando o choro. — Por que eu sou assim...?

Parte 7

Enquanto o time de Dante se afogava em um silêncio constrangedor e crises de identidade, o outro lado operava em uma frequência oposta: era um circo em chamas, e os palhaços estavam armados.

— ESCUTEM AQUI, SEUS PLEBEUS!

Anna estava de pé sobre uma cadeira de plástico, equilibrando-se com a graça de uma soberana louca. Em sua mão, uma caixa vazia de Pocky apontava para os céus como um cetro real.

Seu ego, atacado pela derrota anterior, agora ocupava mais espaço físico do que o restante do time somado. — Eu decidi! — decretou ela, a voz estridente. — Eu assumo o trono de Líder Suprema desta operação! O plano é simples: formem uma falange humana ao meu redor, me protejam com suas vidas e assistam enquanto eu me torno a Número Um!

Sentado no chão aos pés da "rainha", Chuya massageava as têmporas, sentindo uma enxaqueca existencial pulsar. — Que pesadelo... — resmungou o malandro, afrouxando a gravata. — Eu só queria ficar na retaguarda, apostando em qual de nós cairia primeiro. Por que o destino me prendeu no time da ditadora faminta?

Ara, ara...

O sussurro aveludado veio de trás, fazendo a espinha de Chuya gelar.

— Não seja ranzinza, Chuya. — Ela pousou a mão no ombro dele. O toque era leve, mas a pressão psicológica era esmagadora. — Deixe a pequena Anna brincar de imperatriz. Eu acho adorável.

Chuya saiu de perto o mais rápido possível, pensando: “Depois do nosso último encontro e do que a irmã dessa aí fez, eu é quem não me misturo mais com elas.”

No canto mais escuro, onde a luz parecia ter medo de entrar, Hakurei permanecia imóvel. O líder da Black Dragons tinha as mãos nos bolsos e o olhar fixo no chão, exalando uma aura de "não quero estar aqui" tão densa que a temperatura ao redor dele parecia cair cinco graus. — Ridículo... — murmurou Hakurei, a voz monocórdica e fria. — Discutir hierarquia em um exercício escolar. Perda de tempo. Não me incluam nesse teatro.

— FALOU POUCO, MAS FALOU BESTEIRA!

Uma mão do tamanho de uma pá de construção colidiu com as costas de Hakurei. PAM! O som foi de um tiro de canhão. Hakurei quase foi arremessado para frente, mas manteve o equilíbrio por pura teimosia.

Kintoki Sakata surgiu, brilhando. Não era metáfora. Parecia haver um efeito de glitter natural emanando de sua pele. Ele ajeitou os óculos escuros com o dedo mindinho, flexionando o bíceps com a outra mão. — Hakurei, meu pobre tolo! — trovejou Kintoki. — Esse seu estilo "lobo solitário das trevas" é puro clichê e até chamativo! Mas sabe o que é mais chamativo do que ser misterioso?

Kintoki apontou o indicador para o teto, gritando para o universo: — SER A ESTRELA QUE OFUSCA O SOL! A Anna pode querer ser a número um, mas quem vai roubar a cena sou EU!

— Você é barulhento demais... — rosnou Hakurei, ajeitando a jaqueta de couro amassada pelo tapa amistoso.

— E você é quieto demais! O equilíbrio cósmico perfeito! — Kintoki soltou uma gargalhada que fez o chão vibrar.

De repente, o riso cessou. Kintoki congelou. Ele olhou para o chão, onde uma pequena aranha doméstica atravessava o piso de concreto, perigosamente perto da bota de Anna. Com uma delicadeza absurda para um homem de dois metros de puro músculo, Kintoki agachou-se. A aura dourada sumiu, substituída por uma gentileza zen.

— Opa, calma aí, pequena guerreira... — sussurrou ele, oferecendo o dedo para a aranha subir. Ele a depositou cuidadosamente em uma viga segura na parede. — Não queremos que você vire dano colateral na nossa batalha gloriosa, né? Fica aí e assiste o show.

— Ele... conversou com o aracnídeo? — A pergunta veio de Megumi. A garota estava no canto oposto, verificando o tambor de suas pistolas com a eficiência mecânica de um soldado. Clack-clack.

Ela olhou para o grupo de lunáticos e suspirou. — Eu estou cercada de malucos… — murmurou Megumi para si mesma.

— Menos reclamação, mais adoração e violência, garota das armas! — Anna gritou. — Kintoki! Já que você é o único cujos músculos invadiram o cérebro, qual é a sua sugestão?

O grupo parou. Todos os olhos se voltaram para o gigante Kintoki, que ficou sério. A atmosfera pesou. Ele cruzou os braços grossos, baixou levemente os óculos escuros e encarou cada um com uma gravidade de general de guerra. — Camaradas... — A voz dele desceu uma oitava. — Eu observei o inimigo. Calculei as variáveis do terreno. E desenvolvi o plano definitivo. O Golden Strategy.

Chuya se inclinou para frente, genuinamente curioso. Até Hakurei levantou o olhar. — Qual é o plano? — perguntou Mirai, intrigada.

Kintoki abriu um sorriso predador, dentes brancos brilhando como um comercial de creme dental, e apontou o polegar para o próprio peito. — O plano é... A GENTE VAI LÁ E BATE NO CARA MAIS FORTE DELES PRIMEIRO!

Um silêncio sepulcral caiu sobre o grupo. Um grilo cantou, provavelmente agradecendo por Kintoki ter salvo a aranha.

— É... só isso? — Megumi piscou lentamente, descrente. — "Bater no mais forte"? Isso não é estratégia, Kintoki. Isso é a definição de briga de bar.

— EXATAMENTE! — Kintoki socou o ar, empolgado. — A simplicidade é o auge da sofisticação!

— Hmmm... — Anna colocou a mão no queixo. — Violência bruta para esmagar a oposição e poupar meu tempo... Eu gostei. Aprovado!

— Eu mereço... — Chuya cobriu o rosto com as mãos. — Nós vamos morrer, e eu ainda apostei no nosso time!

WROOOOOOOON!

A sirene tocou, vibrando nos ossos de todos. O portão gigante começou a se elevar com um som de engrenagens pesadas, revelando a luz do sol artificial e o campo de batalha: uma réplica de distrito urbano em ruínas, poeira e concreto quebrado.

Era o momento cinematográfico. Os dois times caminharam para a luz.

Do lado esquerdo, o Time de Dante avançava com a hesitação de quem vai para o abate. Sofia roía a unha, Kagura resmungava e Tenma tentava se esconder na própria sombra. Do lado direito, o Time de Anna marchava com a fanfarra de um desfile de carnaval apocalíptico. Kintoki fazia poses para a plateia invisível a cada passo. Anna mastigava uma barra de cereal com ódio. Hakurei arrastava os pés. Mirai sorria como quem planeja um crime perfeito.

No centro da arena, Dante e Kintoki se encontraram. O ar entre eles tremeluziu. — E aí, Lobinho, a Mio me falou sobre você. — Kintoki ajeitou os óculos, o sorriso desafiador rasgando o rosto. — Espero que tenha trazido papel e caneta. Meu plano tático é complexo demais para sua mente compreender.

— Ah, é? — Dante riu, faíscas vermelhas começando a pular de seu ombro como pequenos raios. Ele cruzou os braços, relaxado. — Deixa eu adivinhar: você vai tentar me bater com muita, muita força?

Kintoki travou. O sorriso vacilou. Ele se inclinou para o lado, sussurrando alto para Anna: — ...Droga. Ele decifrou o Golden Strategy! Temos um gênio tático do outro lado!

— EU DISSE QUE ERA ÓBVIO DEMAIS, SEU IDIOTA! — Megumi gritou do fundo, engatilhando as pistolas com raiva.

O vento soprou poeira entre os dois grupos, balançando os casacos e cabelos. Na cabine de controle, o professor Ryunosuke observava os monitores, o reflexo das telas dançando em seus óculos. Ele tragou o cigarro e levou a mão ao botão vermelho. — Muito bem... — A voz dele ecoou pelos alto-falantes, carregada de sadismo pedagógico. — O recreio acabou.

INICIAR.

Posts recentes

Ver tudo
The Fall of the Stars: Capítulo 7 - O Limite da Vida

Volume 4 : Fragmentado Parte 1 O som esperado — o ruído molhado de carne sendo rasgada — nunca veio. Em seu lugar, ecoou apenas o baque surdo e abafado de metal perfurando madeira maciça. No instante

 
 
 
The Fall of the Stars: Capítulo 6 - Amor e Ódio

Volume 4 : Fragmentado Parte 1 O topo da montanha não possuía o cheiro metálico de ozônio ou o odor ferroso de sangue que se espalhava pelo restante da dungeon . Ali, o ar era denso, quase sólido, exa

 
 
 

Comentários


bottom of page