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The Fall of the Stars: Capítulo 2 - Classe -13

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 14 de jul. de 2025
  • 58 min de leitura

Atualizado: 5 de jan.

Volume 4 : Fragmentado


Parte 1

O corredor principal da escola parecia se partir ao meio, como as águas do Mar Vermelho diante de Moisés. Mas ali não havia divindade envolvida — apenas o mais puro e cristalino medo adolescente.

— Está vendo só? — cochichou um aluno, escondendo metade do rosto atrás de um livro de história. — São eles. A Classe -13.

— Vamos sair daqui antes que sobre para a gente — respondeu o outro, puxando o colega pela manga do uniforme com urgência. — Dizem que só de olhar nos olhos deles você perde a mesada.

O motivo do pânico geral era um trio específico caminhando lado a lado. O foco principal dos olhares aterrorizados recaía sobre um rapaz de cabelos loiros e um brinco solitário na orelha. Daiki não era exatamente ameaçador por vontade própria, mas ele possuía uma aura... madura demais. Aquele rosto cansado, de quem já pagou boletos demais e viu a inflação subir, assustava profundamente os calouros que ainda viviam na inocência.

Daiki percebeu o movimento de maré humana se afastando. Ele soltou um suspiro, um som pesado que parecia carregar o peso do mundo.

— É sempre assim... — murmurou ele, ajeitando a postura.

Ao seu lado, Shimura caminhava com o nariz enfiado num mangá, alheio ao mundo físico, mas com uma ruga de preocupação existencial vincando sua testa. "Como chegamos a esse ponto de degradação social?", pensava o otaku, analisando o enredo duvidoso do capítulo 45.

Mas a verdadeira tragédia grega estava sentada no banco mais à frente, com a alma saindo pela boca em forma de ectoplasma. Abel, o invocador de Yokais, parecia um balão de festa que murchou três dias depois do aniversário.

— Acabou... — Abel choramingava, encarando o chão com olhos vazios e sem vida. — Agora, com certeza, acabou. Eu sou um homem morto. Minha vida foi curta, mas... na verdade, foi bem ruim também.

Para entender como Abel chegou à beira desse colapso mental absoluto, precisamos voltar algumas semanas no tempo.

O sol de verão estava inclemente, mas sob a sombra generosa de uma grande árvore no pátio, a brisa era um alívio. Shimura e Daiki estavam em seu habitat natural: discutindo acaloradamente a qualidade questionável da adaptação de anime da temporada atual.

— Eles pularam o arco da praia! — Shimura argumentava, indignado. — Isso é um crime contra a cultura!

Foi então que Abel surgiu. Ele não andava; ele se arrastava, os braços pendurados, parecendo um zumbi figurante de filme B que esqueceu de comer cérebros no café da manhã.

— Daiki... Shimura... — A voz dele era um lamento fantasmagórico que fez os pássaros voarem. — Acho que eu vou morrer. Com certeza, agora eu morro.

Os dois se viraram. Shimura, o enciclopedista de cultura pop, e Daiki, conhecido pelos boatos exagerados como o "Lendário Caçador de Elysium que Quebrou Recordes Misteriosos".

— O que aconteceu com você? — perguntou Shimura, fechando seu mangá com um estalo. — Você parece um cadáver em decomposição avançada.

— É porque eu me sinto assim... — Abel sentou-se na grama, abraçando os joelhos em posição fetal. — Acontece que... sabem a Kagura? Da nossa classe?

Os dois assentiram solenemente. Kagura, a garota intensa e explosiva.

— Ela está me perseguindo — soltou Abel, com o terror genuíno brilhando nos olhos. — Acho que ela me marcou como a próxima presa dela. Tipo um leão com uma gazela manca.

— "Perseguindo"? — Shimura arqueou uma sobrancelha, cético. — O que você quer dizer com isso?

Abel começou a tremer, lembrando dos horrores.

— Ela desenvolveu métodos de tortura psicológica muito específicos. Eu acho que ela quer me ver sofrer lentamente antes de me eliminar. Vocês sabem que recentemente eu ando meio sem grana — começou Abel, suspirando.

— Eu sei bem disso. Até agora estou esperando os vinte pratas que eu te emprestei semana passada — Shimura pontuou, ácido.

— Eu tenho motivo, sabia?! — Abel se defendeu. — É que eu gasto tudo em comida premium para os meus Summons e compensações para alguns contratos espirituais. Então, eu, o invocador, vivo de pão de yakisoba barato e seco do refeitório.

Ele engoliu em seco, o trauma voltando.

— Mas, recentemente, a Kagura começou a trazer marmitas luxuosas. Bentôs feitos à mão, com compartimentos e tudo! E ela chega em mim, joga a caixa na mesa com um bang e diz: "Ei, idiota. Eu fiz comida demais ontem e ia jogar isso no lixo. Mas como tenho pena de ver você passando fome e morrendo na minha frente, toma. É resto, mas serve para o seu paladar de cachorro vira-lata."

Abel cobriu o rosto com as mãos, soluçando.

— Ela fica lá, parada, de braços cruzados, me olhando comer com aqueles olhos julgadores! Ela me força a comer as sobras dela como se eu fosse um animal de estimação! É uma humilhação pública baseada na minha pobreza financeira!

"Espera... isso aí não é...", Shimura começou a processar, o cérebro otaku apitando.

"Isso aí não é bom? Considerando o contexto...", Daiki pensou, mas guardou para si para não interromper o fluxo do desabafo.

— E teve aquele dia no treino físico! — Abel continuou, os olhos arregalados. — Eu estava exausto, suando em bicas, quase desmaiando. Do nada, sinto um impacto violento na minha cara. PLAFT!

Abel gesticulou violentamente, revivendo a agressão.

— Ela jogou uma toalha limpa, cheirosa e gelada na minha cara com força total e gritou: "Limpa essa cara nojenta logo! Está me irritando ver você suando desse jeito perto de mim! Você polui o ambiente!" Ela me agrediu com um objeto de higiene pessoal só porque minha existência ofende a visão estética dela! — concluiu Abel, indignado.

— Mas isso aí foi ela literalmente te ajudando! — Shimura gritou, perdendo a paciência, enquanto Daiki concordava com a cabeça freneticamente ao fundo.

— Ajudando?! Você acha mesmo?! Isso está na cara que ela só está querendo me humilhar! Mas deixa ver... vocês vão entender quando eu falar o pior... — Abel baixou o tom de voz, como quem conta uma história de terror. — Na hora de ir embora. Eu tento sair de fininho, pelos fundos, mas ela está sempre lá no portão. Como um guarda de presídio.

Abel imitou a pose dela, cruzando os braços e batendo o pé imaginário.

— Ela diz: "O que você está olhando com essa cara de peixe morto? Eu só vou pelo mesmo caminho, que azar o meu. Então vou te fazer o favor de me humilhar te acompanhando pra sua existência insignificante não desaparecer no meio do caminho por ninguém reparar em você. Por isso anda logo, lixo!" Entendem agora?! — Abel olhou para os amigos, buscando empatia. — Ela está garantindo que eu não fuja para poder me torturar mais no dia seguinte! E de quebra ainda diz que minha existência é tão pequena que se ela não se der ao trabalho de me olhar, eu vou desaparecer da realidade! É bullying existencial!

Houve um silêncio mortal. O vento parou. Daiki piscou lentamente, processando a densidade daquele buraco negro cognitivo. Shimura começou a tremer. Mas não de medo. Era ódio. Ódio puro e destilado.

— Seu... — Shimura levantou-se devagar, uma aura negra emanando dele, veias pulsando na testa como minhocas furiosas. — SEU MALDITO PROTAGONISTA DENSO DE COMÉDIA ROMÂNTICA GENÉRICA!

Shimura avançou para esganar Abel com as duas mãos.

— Eu te odiava nos mangás, mas agora você está na minha frente, em carne e osso! É a minha chance de vingar todos os leitores que sofreram com essa lerdeza por 200 capítulos de enrolação! EU VOU TE ESFOLAR VIVO!

— Calma, Shimura! — Daiki segurou o amigo pelos ombros, impedindo o homicídio culposo. — Respira! Ele não faz por mal, ele é apenas... cognitivamente desfavorecido nesse assunto! É uma deficiência de enredo!

Depois de muita luta e alguns golpes de judô, Shimura se acalmou, respirando ofegante, ajeitando os óculos tortos. Abel, confuso e massageando o pescoço, coçou a cabeça.

— Por que vocês estão tão bravos? Eu vim pedir ajuda aos maiores especialistas que conheço! Pensei que fossem meus amigos!

Os dois pararam.

— Especialistas? — repetiram em uníssono.

— Claro! — Abel apontou para Daiki com admiração. — O Daiki tem essa vibe madura, de "tiozão descolado". Tenho certeza de que, antes de vir para cá, ele vivia cercado de mulheres e romances proibidos. Ele deve ser um profissional em entender a mente feminina.

Daiki congelou. O tempo parou para ele. "Na verdade...", pensou Daiki, sentindo o suor frio escorrer pelas costas como uma cachoeira. "Eu tenho trinta anos e a única mão feminina que eu segurei foi a da minha mãe para atravessar a rua."

— E o Shimura... — continuou Abel, virando-se para o otaku. — Pode nunca ter falado com uma mulher na vida real, mas ele leu milhares de mangás. Ele deve ter visto situações de bullying cruel assim, certo? Ele tem a teoria!

Shimura estava pronto para pular no pescoço de Abel novamente por causa da ofensa gratuita (e dolorosamente verdadeira), mas Daiki o segurou firmemente pelo colarinho.

"Não posso quebrar as expectativas deles...", pensou Daiki, o pânico interno crescendo. "Se eles descobrirem que sou uma fraude no amor, minha autoridade de 'Líder Experiente' vai para o ralo. O grupo vai desmoronar!"

Daiki sorriu. Um sorriso confiante, brilhante e totalmente falso.

— Abel, meu caro. Acho que tenho a solução perfeita para você.

Ele se inclinou e cochichou no ouvido de Shimura com urgência:

— Empresta aquele mangá para ele. Aquele clássico de Tsundere. Agora.

— O quê? — sibilou Shimura. — Por que eu ajudaria esse herege que não merece a bênção da 2D?

— Pense bem, Shimura — argumentou Daiki, usando a lógica de um estrategista de guerra manipulando suas tropas. — Você sempre reclamou que os amigos do protagonista nunca fazem nada útil, que são apenas alívio cômico. Eles só assistem o barco afundar. Se você não ajudar agora, você será apenas mais um NPC inútil de rom-com. Quer ser melhor que eles? Quer reescrever a história? Então faça a trama andar!

Os olhos de Shimura brilharam com a iluminação divina. A revelação cósmica atingiu seu cérebro.

— Você tem razão... Eu posso quebrar o clichê. Eu serei o Deus Ex Machina desse romance!

Shimura abriu a mochila e, com movimentos cerimoniais, sacou um volume de mangá surrado como se fosse uma espada sagrada Excalibur. Ele o entregou a Abel com as duas mãos.

— Tome. Leia isso. É a Bíblia Sagrada para lidar com garotas como a Kagura. Estude cada página, cada painel, cada entrelinha.

Abel segurou o livro com reverência, sentindo o peso do conhecimento proibido.

— Obrigado, mestres! Eu prometo que vou usar esse conhecimento para acabar com essa perseguição e sobreviver!

Parte 2

Dias depois, a catástrofe anunciada estava prestes a acontecer. O palco estava montado.

Shimura e Daiki observavam, escondidos atrás da porta de metal do terraço, como dois espiões incompetentes. Lá fora, o vento soprava forte, balançando saias, gravatas e agitando os cabelos numa cena digna de abertura de anime.

Abel estava de pé no centro do terraço, frente a frente com Kagura. A garota estava visivelmente corada, segurando a barra da saia com força, os nós dos dedos brancos, nervosa por ter sido chamada ali tão de repente.

Abel virou o rosto levemente para trás, na direção da porta. Ele abriu um sorriso confiante, brilhante, e fez um sinal de "joinha" com o polegar. "Pode deixar, galera", dizia o olhar determinado de Abel. "Hoje é o dia da minha vingança. Estudei a lâmina... digo, o mangá. Vou destruir minha inimiga."

Shimura empalideceu instantaneamente, o sangue sumindo de seu rosto.

— Daiki... — sussurrou o otaku, o pavor genuíno tomando conta de sua voz. — Aquele sorriso... Ele não é um sorriso de quem vai se declarar amorosamente. É o sorriso de um general que vai ordenar um bombardeio.

— Por favor, não explique mais — pediu Daiki, cobrindo os olhos com a mão. — Fica ainda mais triste se você explicar...

— Acho que ele interpretou o mangá de romance... como um manual de guerrilha. Ele acha que a Tsundere é um Inimigo que ele precisa derrotar...

Enquanto Kagura abria a boca para falar, Shimura e Daiki só conseguiam pensar uma coisa em uníssono telepático: "Esse idiota não aprendeu nada."

Lá fora, o vento uivava. Kagura estava de braços cruzados, batendo o pé no chão num ritmo frenético, tentando desesperadamente esconder o fato de que seu coração estava disparado a trezentos quilômetros por hora, quase saindo pela boca.

Na frente dela, Abel respirou fundo, enchendo os pulmões de coragem. Seus olhos brilhavam com a determinação insana de um guerreiro prestes a decapitar um dragão lendário.

"Eu li o mangá, Shimura", pensou Abel, apertando os punhos até as unhas cravarem na pele. "Eu entendi a fraqueza biológica dessa criatura. No livro, toda vez que o protagonista era meloso, gentil e carinhoso, a garota ficava vermelha, gaguejava e parecia estar em agonia física, quase tendo um derrame. É isso! A gentileza é a kryptonita dela! Eu vou torturá-la com doçura extrema até ela pedir clemência e jurar nunca mais cruzar meu caminho!"

— O que foi, lerdeza?! — Kagura rosnou, desviando o olhar para o horizonte para não encarar os olhos dele. — Me chamou aqui pra ficar encarando minha cara? Se tem algo a dizer, diz logo antes que eu chute você daqui de cima e diga que foi acidente!

— Tenho sim, Kagura — disse Abel, dando um passo à frente com um sorriso que ele julgava ser sádico e calculista, mas que, para qualquer observador externo, parecia incrivelmente gentil e apaixonado.

Abel enfiou a mão no bolso e sacou um envelope rosa pastel que ele havia comprado na loja de conveniência (a arma do crime).

— Toma. É para você.

Kagura arregalou os olhos. Ela pegou o envelope com as mãos trêmulas, quase derrubando-o.

— O... o que é isso? Uma... carta de desafio?

— Leia e sofra — sussurrou Abel (apenas para si mesmo, com uma risada maligna interna).

Kagura abriu o envelope, rasgando o selo com cuidado. A letra de Abel era garranchosa, típica de médico, mas as palavras eram legíveis...

"Kagura, eu tenho observado você todos os dias. Ninguém dedica tanto tempo a mim quanto você."

Abel esperava que ela rasgasse o papel, vomitasse e corresse gritando de nojo. Em vez disso, o rosto dela mudou de cor, passando de rosado para um vermelho tomate maduro incandescente.

— Do… do que v-você… está falando? — ela gaguejou, a voz falhando.

"ESTÁ FUNCIONANDO!", celebrou Abel internamente, vendo a reação física. "Olha a cara dela! Ela está sofrendo! Está tendo um curto-circuito! Está engasgando com a minha bondade tóxica! HORA DO COMBO BREAKER!"

— E tem mais — continuou Abel, aproximando-se perigosamente, invadindo o espaço pessoal dela. — Aquelas marmitas... as "sobras" que você me traz todo dia. Eu sei a verdade por trás delas.

Kagura recuou, as costas batendo na grade de proteção do terraço. Encurralada.

— S-sabe?!

— Sei que estavam deliciosas! — Abel falou com convicção absoluta. — Você é incrível na cozinha, Kagura. E mesmo que você diga que é comida para cachorro, eu sinto o carinho e o tempero em cada grão de arroz. Você é, na verdade, uma pessoa muito atenciosa!

Kagura soltou um som agudo que parecia uma chaleira apitando. Fumaça virtual parecia sair de suas orelhas.

— E-eu... v-você... i-idiota...

"HAHAHA!", riu Abel mentalmente, sentindo o gosto da vitória. "Isso! Sinta a vergonha consumir sua alma! Queime no fogo do constrangimento! Eu vou destruir essa sua fachada de durona até não sobrar nada!"

— Eu quero continuar comendo sua comida, Kagura. — Abel deu o golpe de misericórdia verbal. — Eu quero ficar perto de você todos os dias, porque sua presença torna meus dias cinzentos... interessantes.

Kagura cobriu a boca com as duas mãos. As pernas dela tremiam visivelmente. Para Abel, ela parecia uma inimiga prestes a cair nocauteada por dano crítico. Para qualquer outro ser humano com cérebro funcional no planeta Terra, ela parecia uma garota ouvindo a declaração de amor dos seus sonhos mais secretos.

— Agora... para acabar com isso de vez. — Abel enfiou a mão no outro bolso.

Shimura e Daiki, espiando pela fresta da porta, prenderam a respiração.

— Ele não vai fazer isso... — sussurrou Shimura, roendo as unhas. — Pare, soldado, antes que você cruze uma linha ainda mais perigosa!

Abel tirou uma pequena caixinha. Dentro, havia um chaveiro simples e barato em forma de um gatinho bravo, que ele achou que se parecia com a cara feia dela (uma zombaria final e suprema, na mente dele).

— Aceite isso — disse Abel, estendendo o presente como quem desfere o golpe final de uma espada montante. — E lembre-se de mim toda vez que olhar para isso.

Kagura olhou para o chaveiro balançando ao vento. Depois olhou para os olhos de Abel. O tempo parou.

Abel esperou o grito. Esperou o tapa. Esperou ela sair correndo dizendo "Eu te odeio, morra, nunca mais fale comigo!".

Mas Kagura... sorriu. Não foi um sorriso de escárnio. Não foi um sorriso forçado. Foi um sorriso genuíno, tímido, doce e devastadoramente bonito, que durou exatos três segundos antes de sua carranca habitual voltar com força total.

Ela arrancou o chaveiro da mão dele com violência e o guardou no bolso com força, como se protegesse um diamante.

— Hmph! — ela cruzou os braços e virou o rosto para o lado, que ainda estava em chamas. — Bom... já que você insiste tanto... já que você se humilhou a esse ponto rastejando para implorar pela minha atenção...

Abel piscou, confuso. A barra de vida dela não tinha zerado?

— Hã?

— Eu não posso recusar, né? Seria cruel da minha parte deixar um cachorrinho abandonado e patético como você sozinho no mundo — ela olhou para ele pelo canto do olho, um brilho perigoso surgindo. — Tudo bem. Eu aceito ser sua namorada.

O cérebro de Abel travou com o som de uma vitrola arranhada.

— O quê?

— MAS ESCUTE BEM! — ela girou nos calcanhares e apontou o dedo na cara dele, a aura Tsundere explodindo. — Agora que estamos namorando, você é minha responsabilidade! Nada de olhar para outras garotas! Nada de falar com outras garotas! E amanhã eu vou trazer uma marmita maior, porque você está muito magrelo e isso reflete mal em mim!

Ela deu meia-volta e saiu correndo do terraço, escondendo o rosto vermelho com as mãos e soltando gritinhos abafados.

O silêncio reinou no terraço por dez longos segundos. A brisa soprava uma sacola plástica vazia ao fundo, enfatizando a desolação.

A porta do terraço se abriu. Daiki e Shimura saíram, batendo palmas lentas, rítmicas e sarcásticas.

— Parabéns, soldado — disse Daiki, com a voz grave. — Missão cumprida com sucesso.

— O casal do ano — completou Shimura, limpando uma lágrima falsa. — Nunca vi uma "derrota de inimigo" acabar em casamento tão rápido.

Abel olhou para os amigos, a ficha caindo lentamente como uma bigorna de cem quilos em um desenho animado antigo.

— Ela disse... namorada?

— Disse — confirmou Shimura, impiedoso.

— Ela disse que vai me vigiar... mais?

— Definitivamente — confirmou Daiki. — Agora é oficial e legalizado.

— NÃO ERA ISSO QUE EU QUERIAAAAAAAA!

O grito de desespero de Abel ecoou pela escola, espantando os pombos do telhado e fazendo vidros vibrarem.

***

Finalmente terminando de relembrar o motivo de toda sua dor interna, Abel estava jogado no banco do corredor, a alma saindo pela boca, parecendo um balão murcho e pisoteado.

— Acabou... agora com certeza acabou... eu vou morrer... — ele murmurava, balançando para frente e para trás em posição fetal.

Shimura, que lia seu mangá, virou uma página com calma sem nem olhar para o amigo.

— Sinceramente, Abel. Você cavou essa cova com as próprias mãos.

— Eu só queria que ela parasse de me seguir... — choramingou Abel, as lágrimas escorrendo. — Agora eu tenho que encontrar ela daqui a cinco minutos para "almoçarmos juntos como um casal". Ela disse que se eu atrasar um minuto, ela quebra minhas pernas com um taco de beisebol.

Daiki suspirou, olhando para o teto da escola.

— Sabe... tecnicamente, minha dica funcionou.

— Vocês são péssimos especialistas! — gritou Abel.

— E você é um péssimo leitor! — rebateu Shimura, fechando o mangá.

Parte 3

Se a escola fosse uma savana africana, os alunos comuns seriam as gazelas nervosas pastando. O grupo de Daiki seria aqueles animais estranhos, como ornitorrincos, que a biologia não sabe classificar direito. E encostada na parede do corredor principal, marcando território com sua mera presença, estava a predadora alfa.

Shiranui Tenma.

Apenas dizer o nome dela fazia alguns alunos mudarem de rota, fingindo que esqueceram o caderno em outro prédio. Ela era linda, de uma maneira perigosa que fazia o ar ficar pesado ao seu redor. Seus cabelos eram uma cascata selvagem de ouro pálido, longos e indomáveis, pontuados por mechas carmesim que desciam pelas laterais do rosto como sinais de alerta de perigo biológico. Seus olhos, de um rubi intenso e brilhante, pareciam analisar a alma, os pecados e o saldo bancário de quem ousasse encará-la.

Seu uniforme era uma afronta direta e pessoal a qualquer código de conduta escolar. O blazer marrom estava escandalosamente aberto, revelando uma camisa branca desabotoada o suficiente para expor o colo e a curva do abdômen tonificado. A gravata listrada em vermelho e preto pendia frouxa no pescoço, como se ela tivesse desistido de amarrá-la no meio do processo por puro tédio. Abaixo, uma minissaia pregueada em xadrez vermelho completava o visual "gyaru delinquente", combinada com luvas pretas de couro sem dedos e uma gargantilha com um pendente dourado que brilhava em seu pescoço como um troféu de guerra.

Ela exalava a palavra "PROBLEMA" em neon.

Um grupo de garotos delinquentes do segundo ano, tentando manter a pose de durões, começou a caminhar próximo a ela. Eles viravam os olhos, avaliando se deveriam tentar a sorte ou fugir.

— Hum? — Tenma apenas emitiu um pequeno ruído gutural, desencostando um ombro da parede e virando o pescoço levemente.

Foi o suficiente. O instinto de sobrevivência falou mais alto.

— Droga! Ela vai nos matar! — sussurrou um deles, suando frio.

— A culpa é sua, maldito! Eu disse pra não fazer contato visual!

— ME DESCULPA! MATA ELES, POR FAVOR! ELES SÃO MAIS GOSTOSOS QUE EU! — gritou o terceiro, empurrando os amigos para a frente.

— Ei, seu traíra maldito! Está mesmo nos vendendo?!

Eles dispararam corredor abaixo, tropeçando uns nos outros numa fuga desordenada.

Shiranui suspirou, cruzando os braços com força, fazendo o blazer estalar.

— Tsc.

— Está vendo só? Nem os delinquentes conseguem se aproximar — cochichou uma garota a metros de distância, observando a cena com admiração e terror. — O que você esperava? Ela é um dos monstros da Classe -13.

Para quem passava, aquela cena era clara: um dragão entediado em sua caverna, espantando insetos insignificantes.

Mas, por dentro, a mente de Tenma era um caos completo de ansiedade social.

"Droga... por que ninguém nunca vem falar comigo? Eu até passei perfume hoje! Droga, esses vão ser meus dias de colegial? Isolada como uma eremita?"

Tenma era membro da famigerada Classe -13. Mas esse não era o único motivo de sua grandiosa e terrível reputação. Na realidade, essa lenda urbana foi cimentada logo no primeiro dia de aula, num incidente que ela se lembrava com amargura todas as noites antes de dormir.

O Incidente do Ginásio

Três garotos do terceiro ano cercaram um calouro franzino atrás do ginásio. Tenma, passando por ali e vendo a injustiça, sentiu seu senso de justiça queimar. Ela entrou no meio como um furacão. Seus movimentos foram rápidos e precisos, derrubando os agressores com chutes altos e socos que nem precisaram de Ether para doer. Uma facilidade assustadora.

Quando a poeira baixou e os agressores fugiram mancando e chorando, Tenma se virou para o garoto que ela havia salvado. Ela estendeu a mão enluvada, com a intenção pura de perguntar: "Você está bem? Machucou algo? Quer ajuda para levantar?"

Mas o que saiu de sua boca, devido ao nervosismo extremo, à adrenalina do combate e à sua voz naturalmente rouca quando tímida, foi um grunhido baixo e gutural enquanto ela se inclinava sobre ele, projetando uma sombra imensa.

— Grrr... Ei...

O garoto, trêmulo no chão, olhou para aqueles olhos rubi brilhando na sombra e a mão estendida com luvas pretas de couro.

— P-por favor, não me mate! — gritou ele, histérico, jogando a carteira nos pés dela. — Leve tudo! Mas deixe minha vida!

Ele saiu correndo, deixando um rastro de poeira. Tenma ficou lá, estática, com a mão estendida e uma carteira abandonada no chão.

— Mas... eu só queria saber se você está bem... — ela sussurrou para o vento.

Desde então, ela era a "Imperatriz Tirana da Classe -13". As pessoas lhe davam o almoço, abriam caminho como se ela tivesse lepra e pediam desculpas preventivas se respirassem o mesmo ar que ela.

"Me desculpa, mamãe… acho que no fim eu sou uma verdadeira falha como ser vivo…" pensou Tenma, olhando para o chão do corredor com um olhar intenso que os outros interpretavam como desprezo profundo pela humanidade. "Droga, não era isso que eu esperava quando me matriculei aqui. Eu queria amigas para ir ao karaokê! Droga!"

Foi então que duas figuras apareceram no fim do corredor. Eram rostos novos, claramente perdidas e emitindo aquela aura de "calouras".

Sofia e Kurokawa, recém-chegadas à escola e designadas para a famigerada Classe -13, olhavam para um mapa impresso, girando o papel como se tentassem decifrar hieróglifos.

— Acho que é por aqui, Sofia — disse Kurokawa, coçando a cabeça. — Mas esse prédio parece um labirinto. Droga, talvez devêssemos ter esperado o Dante e o Luck. Eles conheciam mais o colégio.

— Vamos perguntar para alguém? — sugeriu Sofia, sempre prática.

Os olhos delas caíram sobre a única pessoa no corredor: a garota loira encostada na parede, emanando a aura de um Final Boss de RPG aguardando o herói.

— E... E-ela parece saber onde fica — sussurrou Sofia, engolindo em seco. — Mas ela parece... ocupada. Vamos ver com outra pessoa.

— Por quê? Precisamos de ajuda. Vamos lá. — Kurokawa, que havia experimentado tantas situações de quase morte, viagens no tempo e batalhas contra deuses nas últimas semanas, havia desenvolvido uma total e completa falta de senso de perigo. Para ela, uma delinquente escolar era fichinha.

As duas se aproximaram. Tenma percebeu a aproximação pelo canto do olho. O coração dela disparou como uma bateria de escola de samba.

"Finalmente alguém está se aproximando! Obrigada, Deus, eu não vou ter que viver sozinha!" A mente de Tenma entrou em modo de celebração, soltando confetes imaginários, enquanto seus olhos se esforçavam para não lacrimejar de emoção. "Olha só, elas são tão fofas! Será que podemos ser amigas? O que eu digo? Tenma, aja naturalmente. Seja legal. Sorria!"

Ela descruzou os braços e tentou sorrir. Infelizmente, a tensão extrema em seus músculos faciais travou sua expressão. O sorriso amigável que ela planejou se transformou em um repuxar de lábios de canto de boca, predatório, sádico e arrogante.

— Com licença... — começou Sofia, a voz tremendo levemente. — Você poderia nos ajudar?

Tenma tentou responder com um alegre e agudo "Claro! O que vocês precisam, garotas?". Mas a garganta dela travou de vergonha. As cordas vocais entraram em greve. O que fez o som sair grosso, grave e ameaçador.

— HÃ?

Ela inclinou a cabeça para baixo num tique nervoso, fazendo seus olhos rubi brilharem ameaçadoramente sob a franja loira.

— O que vocês querem?

"NÃO! Não era para sair assim!", gritou Tenma internamente, em pânico.

As duas garotas deram um passo para trás, o instinto alertando perigo.

— N-nós só queríamos saber onde fica a sala da Classe -13... — disse Kurokawa, colocando-se levemente à frente de Sofia num gesto protetor.

O cérebro de Tenma trabalhou na velocidade da luz. "Classe -13? Elas são da minha sala! ISSO É PERFEITO! O destino sorriu para mim! Eu posso levá-las até lá. Posso dizer: ‘Ei, que coincidência, eu sou de lá também! Vamos juntas, depois podemos tomar um sorvete de morango!’ Sim, isso é perfeito! É o começo da minha vida social!"

Tenma desencostou da parede com um movimento brusco e deu um passo pesado em direção a elas, fazendo o chão de madeira ranger sob sua bota (ou talvez fosse o joelho dela estalando de tensão). Ela levantou o braço e apontou o dedo enluvado para o fim do corredor escuro, em direção à escadaria que levava ao subsolo.

— É lá embaixo — disse Tenma. Ela tentou soar prestativa, mas a timidez travou sua eloquência, fazendo-a ser curta e grossa. — No fundo. Onde a luz não chega direito.

Ela parou, percebendo que soou sinistra demais. "Droga, conserta isso, Tenma! Dê um conselho amigável!" Ela tentou adicionar um aviso útil sobre a estranheza dos professores.

— E é melhor vocês se prepararem. — A voz dela saiu um sussurro rouco. — Aquele lugar... não é para qualquer um. Se não tiverem estômago forte... vocês não duram um dia.

O que Tenma quis dizer: "A sala é bagunçada, cheia de poeira e os professores são excêntricos, então preparem o coração para a bagunça."

O que Sofia e Kurokawa ouviram: "Aquele é o inferno na terra, um calabouço de tortura, e se vocês descerem, eu vou garantir pessoalmente que vocês sofram até a alma sair do corpo."

— O-OBRIGADA! — gritaram as duas em uníssono, curvando-se num ângulo perfeito de 90 graus em puro pânico respeitoso.

Elas giraram nos calcanhares e dispararam corredor abaixo, tropeçando nos próprios pés, fugindo da loira delinquente como se tivessem visto a própria morte acenando.

Tenma ficou lá, estática, com a mão levantada apontando para o vazio. O som dos passos apressados desapareceu na escadaria.

Lentamente, muito lentamente, ela baixou o braço. A postura de "durona imperial" desmoronou como um castelo de cartas. Os ombros caíram, a coluna curvou e a expressão feroz derreteu instantaneamente em uma tristeza profunda, infantil e chorosa.

Ela girou e encostou a testa na parede fria do corredor com um baque suave. Bonk.

— Eu fiz de novo... — murmurou ela, a voz embargada e suave, totalmente diferente do tom gutural que usou antes.

Ela olhou para suas luvas de couro pretas e para a saia xadrez curta.

— Eu só queria perguntar o nome delas... Elas pareciam tão legais. A de cabelo verde tinha um chaveiro de gatinho na mochila... eu queria elogiar...

Uma brisa solitária passou pelo corredor, agitando seus cabelos dourados e as mechas vermelhas. Shiranui Tenma, a temida Fera da Classe -13, a Predadora Alfa, abraçou o próprio corpo, sentindo um frio que não vinha da temperatura do ar.

— Será que eu vou ficar sozinha para sempre? — perguntou ela para o corredor vazio e silencioso. — Talvez eu devesse trazer biscoitos amanhã... Não, com essa minha cara, vão achar que estão envenenados…

Parte 4

O campus era enorme, um labirinto arquitetônico de prédios interconectados, pátios e corredores intermináveis. Dante havia sumido nele como uma moeda caindo num bueiro sem fundo.

— Eu avisei — Luck comentou, caminhando com as mãos nos bolsos e olhando ao redor com o tédio de quem preferia estar lendo um livro. — Eu disse explicitamente: "Dante, não se afaste um centímetro". O que ele fez? Sumiu.

— Ele só foi comprar algo para a Anna comer! — retrucou Chuya, andando apressado na frente, virando a cabeça para todos os lados como um radar. — Ele já deve estar voltando.

— Você não entende… Já faz quarenta minutos — Luck checou o relógio de pulso. — Conhecendo o histórico do Dante, a essa altura ele já se perdeu, entrou numa briga, foi confundido com um terrorista ou fundou uma nova religião.

Atrás deles, caminhava Miguel. A garota de cabelos loiros longos mantinha sua expressão de estátua de mármore grego: fria, imóvel, linda e levemente entediada. Ela não falava muito, mas seus olhos inexpressivos diziam volumes inteiros.

— Miguel, para de me olhar assim! — Chuya girou nos calcanhares, apontando o dedo acusador para ela. — Eu sei exatamente o que você está pensando! "O Chuya está perdido, que patético". Eu não estou perdido! Estou apenas... explorando rotas alternativas!

Miguel piscou lentamente, como uma gata sonolenta. Um canto de sua boca se ergueu, talvez um milímetro. Quase imperceptível.

— ...Barulhento.

— SABIA! — Chuya explodiu, gesticulando.

— É melhor perguntarmos para alguém se viram o Dante passando — sugeriu Luck, parando em uma encruzilhada de corredores.

— Não precisa! — Chuya cruzou os braços em X, teimoso. — É exagero. Vamos virar ali à esquerda e...

— Você só não quer perguntar porque não sabe falar com pessoas… — Miguel, que normalmente nem falava, dessa vez soltou uma frase longa, o que fez a simples opinião sair como uma bomba nuclear.

Luck soltou uma risada nasalada. Chuya travou no meio do passo, como se tivesse levado um tiro.

— O que você disse, sua anã de jardim?

Miguel respondeu com sua cartada assinatura: o silêncio fulminante acompanhado de um olhar cheio de julgamento.

A veia na testa de Chuya pulsava tão forte que parecia ter vida própria e batimento cardíaco.

— Ah, é? É ASSIM QUE VOCÊ VÊ? Beleza! Se vocês querem tanto que eu pergunte, eu pergunto! Vou mostrar para vocês como um cavalheiro sociável e carismático age! Observem e aprendam!

Chuya varreu o local com o olhar e avistou uma garota parada perto de um bebedouro. Ela era pequena, de cabelos escuros, e parecia estar esperando alguém, olhando para o relógio. "Alvo perfeito", pensou Chuya, ajeitando a gola da camisa.

Ele marchou até ela com a confiança de um general, estufou o peito e, para chamar a atenção de forma "amigável", colocou a mão no ombro dela.

— Ei, com licença, minha querida...

A garota se virou lentamente. O olhar dela não era de curiosidade. Não era de medo. Era o olhar que se dá a uma barata voadora que acabou de pousar no seu braço. Ela olhou para a mão de Chuya em seu ombro, depois subiu o olhar para o rosto dele com um desprezo absoluto, frio e cortante.

Lentamente, com movimentos deliberados, ela tirou um lenço umedecido de um pacote no bolso. Sem dizer uma palavra, ela limpou o local exato onde Chuya havia tocado o uniforme dela. Ela esfregou com força, com nojo, como se quisesse remover uma contaminação ou uma mancha de óleo. Depois, jogou o lenço no lixo com um movimento de pulso elegante.

Atrás, Luck caiu de joelhos no chão, segurando a barriga, roxo de tanto rir sem emitir som. Miguel cobriu a boca com a mão, os ombros tremendo em uma risadinha silenciosa e cruel.

Chuya sentiu o sangue ferver e subir para as orelhas. "Calma, Chuya. Respire. A Miguel está assistindo. Não perca a compostura. Prove que você é superior."

Ele forçou um sorriso que parecia mais uma cãibra facial dolorosa.

— Haha... desculpe se te assustei com minha abordagem repentina. — A voz dele saiu trêmula de ódio contido. — Eu só queria saber se você viu um rapaz... cabelos pretos, mechas vermelhas... jaqueta... carregando uma garota loira?

A garota, Yuki, cruzou os braços sobre o peito (que era notavelmente plano) e o encarou como se ele fosse lixo reciclável.

— O que é isso? Um novo tipo de cantada idiota?

— Não é cantada! — Chuya defendeu-se, a voz subindo uma oitava, perdendo a masculinidade. — É uma emergência real!

— Se for cantada, é péssima — continuou Yuki, implacável. — E se não for, pare de falar comigo. Não quero me envolver com pervertidos que saem tocando nas pessoas sem permissão. Desapareça.

— PERVERTI—?!

Chuya estava prestes a gritar, mas viu Miguel pelo canto do olho. A garota estava fazendo um sinal de "joinha" sarcástico com o polegar.

Chuya engoliu o grito. Ele rangeu os dentes com tanta força que Luck ouviu o som de esmalte trincando.

— Entendo... Muito obrigado pela sua... gentileza. — Ele se virou roboticamente, marchando de volta para os amigos, a aura negra de ódio emanando dele visivelmente.

— Viu? — Chuya sibilou para Miguel, tremendo. — Conversei. Normalmente. Obtive a negativa. Missão cumprida.

— Foi doloroso assistir — disse Luck, rindo no chão. — Me deu vergonha alheia física. Hahaha!

Nesse momento, outra garota se aproximou do bebedouro.

— Yuki, por que a demora? Estava preocupada.

Chuya e Luck olharam. Era como ver a mesma garota, só que... atualizada para a versão Premium. Enquanto Yuki era pequena e "tábua", Mirai era alta, com curvas perigosas e uma presença muito mais madura e suave. Eram gêmeas, mas a genética claramente tinha seus favoritos na distribuição de "recursos".

— Luck... — Chuya sussurrou, traumatizado. — Vamos embora. Agora. Se a pequena é o cão, a grande deve ser o próprio Satanás.

— Talvez ela tenha visto — sugeriu Luck, recuperando o fôlego da risada.

— NÃO! — Chuya negou veementemente, agarrando o braço de Luck. — É óbvio que ela não sabe! Olha a cara delas! São da mesma família! A arrogância é genética, está no DNA!

— Covarde — sussurrou Miguel.

— Por favor, volte a calar sua boca nanica! — gritou Chuya.

Ignorando o drama, Luck suspirou e caminhou até Mirai com elegância.

— Com licença. Estamos procurando um amigo perdido. Alto, meio barulhento, cabelos pretos com mechas vermelhas e com heterocromia; ele deve estar com uma garota loira.

Mirai sorriu. Um sorriso gentil, materno e acolhedor que iluminou o corredor.

— Ah, sim! Eu vi um rapaz assim agora a pouco. Ele estava saindo do refeitório com uma caixa de rosquinhas e indo para a direção do Pátio Norte. Parecia estar com bastante pressa.

— Muito obrigado — Luck agradeceu com um aceno de cabeça educado e voltou triunfante.

Chuya olhava para a cena incrédulo, de boca aberta.

— Como?! Por que com você foi fácil?! Que feitiçaria é essa?!

— Porque eu não cheguei pegando nela como um tarado, seu animal — respondeu Luck, ajeitando a jaqueta.

O trio começou a se afastar em direção ao Pátio Norte. Chuya resmungava, chutando o chão, sentindo-se a maior vítima de injustiça do universo.

— Ei, você! O de cabelo branco! — A voz de Mirai chamou.

Chuya parou e se virou, esperançoso. Mirai estava sorrindo para ele, enquanto Yuki continuava com a cara fechada e emburrada ao lado.

— Ah... — Chuya relaxou, abrindo um sorriso convencido. "Ela vai pedir desculpas pela irmã. Viu, Miguel? Pelo menos uma é educada e reconhece meu valor." — Sim?

— Sinto muito pela forma como a minha irmã te tratou — disse Mirai, caminhando até ele, a voz doce como mel. — A Yuki tem uma personalidade meio espinhenta com estranhos, sabe como é. Tímida.

— Ah, tudo bem, tudo bem — Chuya abanou a mão, recuperando a postura de "cara legal magnânimo". — Eu entendo, acontece. Sem ressentimentos...

— Que bom que entende.

O sorriso de Mirai não mudou nem um milímetro. Mas os olhos dela... De repente, a luz sumiu. O brilho desapareceu. As pupilas contraíram. A temperatura ao redor dela caiu para o zero absoluto instantaneamente.

Ela deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dele, a voz baixando para um tom sombrio e gutural que fez a espinha de Chuya congelar e virar gelo.

— Mas fica o aviso... Da próxima vez que você ousar encostar um dedo nela assim, sem mais nem menos... pode ter certeza absoluta de que eu vou te castrar, entendeu? Seu bro** filho da p***.

O silêncio que se seguiu foi sepulcral. Até o ar condicionado parou de fazer barulho.

Mirai voltou a sorrir docemente num piscar de olhos, a luz voltando ao rosto angelical. Ela pegou a mão de Yuki com carinho.

— Vamos, irmãzinha?

E as duas saíram andando saltitantes, como se nada tivesse acontecido.

Chuya ficou lá, petrificado, pálido como uma folha de papel sulfite. Luck, que segurou o riso durante a ameaça por puro terror, não aguentou mais. A tensão quebrou. Ele explodiu numa gargalhada alta e escandalosa, batendo na própria perna, dobrando-se ao meio.

— "BRO**! HAHAHAHAHA! ELA TE CHAMOU DE BRO** NA CARA DURA! EU VOU MORRER!"

Chuya finalmente descongelou, tremendo de raiva e medo. Ele começou a gritar para o céu, os punhos cerrados:

— MERDA, DANTE! POR QUE VOCÊ SE SEPAROU?!

No canto, encostada na parede, Miguel apenas observava a cena com seus olhos inexpressivos, balançando a cabeça levemente.

— Eu bem que avisei...

Parte 5

Atrás do Prédio 4

Longe dos olhares curiosos, atrás do prédio de laboratórios desativados onde a sombra era eterna e o silêncio era lei, o ar cheirava a produtos químicos vencidos, poeira e uma nuvem doce de fumaça de cigarro eletrônico sabor menta.

Sentada em um caixote de madeira velho, Melissa parecia a imagem da derrota existencial. Seus chifres negros e curvos brilhavam sob a luz difusa, mas sua postura era a de um caminhoneiro cansado após três dias de estrada sem dormir. O uniforme estava desabotoado de forma desleixada. Ela segurava um copo térmico de café preto extraforte numa mão e um vape rosa neon na outra.

— Que merda... — Melissa soltou uma nuvem densa de fumaça, a voz rouca, grave e arrastada. — Fiquei acordada até as cinco da manhã grindando no competitivo ontem. Sinto que minha cabeça vai explodir e escorrer pelo ouvido. Puta merda.

— Sei... então por que não faltou? — perguntou uma voz ao lado.

— Está ficando burra? Se eu perder uma aula, não vão parar de encher meu saco depois perguntando "Ai, Mel-chan, o que aconteceu? Você está dodói?". E eu não vou poder dizer que faltei à aula pra xingar criança no voice chat de um jogo online.

— Deve ser difícil...

— E mesmo com minha cabeça parecendo um tambor de guerra, não para de vir gente me pedir autógrafo, pedindo selfie e querendo "conversar". — Melissa bufou, massageando as têmporas. — Puta que pariu, se mais um gado vier me pedir pra fazer coraçãozinho com a mão hoje, eu juro por tudo que é mais sagrado que enfio meu chifre no olho dele e giro.

Ao lado dela, agachada no chão na posição de cócoras como um goblin de laboratório, estava Villa-V. Ela usava um jaleco branco um pouco grande demais, tinha cabelos verdes bagunçados, olhos amarelos brilhantes e óculos redondos que escorregavam pelo nariz. Ela lia um tablet freneticamente, passando o dedo na tela com velocidade sobre-humana.

— A taxa de compressão hidráulica desse modelo 2B é fascinante, mas a falta de lubrificação no eixo traseiro vai causar um atrito catastrófico durante o coito mecânico — Villa-V falava tão rápido que as palavras pareciam se atropelar numa corrida. — É negligência pura de design! Como eles esperam que o Android X insira o pino de acoplamento na Unidade Y sem romper o chassi pélvico por estresse de material?

Melissa revirou os olhos com força, tomando um gole agressivo de café amargo.

— Villa, pelo amor de Satanás, cala a boca. Minha cabeça já está doendo e você ainda fica enfiando mais merda nela com essas suas leituras pervertidas.

Villa-V levantou os olhos, com uma expressão fofa e falsamente indignada, ajeitando os óculos com o dedo indicador.

— Ui... então eu estou enfiando em você? Como exatamente é a sensação, Meli? Está doendo muito? O robô pode ser bruto, mas se quiser eu lubrifico antes, só pra você...

— POR QUE, DROGA?! — Melissa chutou levemente a perna da amiga com sua bota cheia de correntes. — Por que minha única amiga tem que ser você?! AHHHHHH! E para de ler fanfic de robô transando no meio da escola!

Villa-V apenas riu, aquele som baixo, chiado e mecânico que parecia uma interferência de rádio estática, e voltou a rolar a tela do tablet com um sorriso satisfeito.

Melissa suspirou, derrotada, encostando a cabeça na parede fria de tijolos do prédio abandonado. Enquanto a fumaça do vape subia em espirais hipnóticas, a mente de Melissa vagou para alguns meses atrás. Para o dia fatídico em que sua vida social "perfeita" colidiu com o caos biológico que era Villa-V.



O corredor principal da escola parecia um show de Idol pop. O ar estava saturado de perfumes baratos, hormônios adolescentes e gritos histéricos. No centro do furacão, estava Melissa.

— Mel-chan! Olha pra cá!

— Mel-chan, assina meu caderno?!

— Mel-chan, case comigo e tenha meus filhos!

Melissa sorria. Um sorriso treinado em frente ao espelho por horas a fio, milimetricamente calculado para encantar. Ela fazia poses, distribuía "coraçõezinhos" com os dedos e ria com uma leveza angelical que escondia seu desejo de assassinato em massa.

— Calma, calma, meus amores~! Tem Melissa para todo mundo! Vamos com calma! — A voz dela era doce, vibrante, a melodia perfeita de uma fada.

Enquanto a multidão se espremia ao redor dela como sardinhas, ninguém notou uma pequena figura de jaleco branco passando pela lateral, carregando um balde transparente com órgãos de porco preservados em formol. Villa-V caminhava como um fantasma, sendo empurrada pelos fãs de Melissa. Ninguém olhava para ela. Ela era invisível, ou talvez, instintivamente ignorada pelo senso de preservação das pessoas comuns que evitam cientistas malucas.

Villa seguiu seu caminho, indiferente à fama alheia, e entrou na sala de Ciências Desativada nº 4.

Melissa, por outro lado, sentia que seu rosto ia rachar como porcelana barata. O sorriso estava doendo fisicamente. A enxaqueca pulsava atrás dos olhos como um martelo. "Eu preciso sair daqui. Agora. Ou eu vou matar alguém e perder meu contrato."

— Amores, a Mel precisa ir à... hã... diretoria! Resolver coisas de gente grande! Negócios! Beijinhos! — Ela lançou um beijo no ar, o que causou desmaios em cadeia na plateia masculina, e aproveitou a confusão para se esgueirar por um corredor lateral como uma ninja.

Ela correu até ver uma porta entreaberta no fim do corredor escuro. Era do laboratório antigo. A luz interna estava desligada, fazendo parecer que estava vazio e abandonado.

— Perfeito — sussurrou Melissa.

Ela entrou, bateu a porta e girou a tranca. O silêncio foi imediato e abençoado.

A postura de Idol de Melissa desabou instantaneamente. Ela se curvou, apoiando as mãos nos joelhos, e soltou um grunhido gutural, profundo e cheio de ódio.

— BANDO DE CHUPA-SANGUE DO CARALHO! — Ela gritou para a sala vazia, a voz rouca voltando com força total.

Ela chutou uma cadeira de metal, que voou longe e bateu na parede com um estrondo metálico.

— "Ai, Mel-chan, sorria pra mim"... VAI SE FODER! Eu estou com fome, estou com sono, estou com a calcinha apertada e estou cercada de imbecis! Que inferno de vida! Eu devia ter virado caixa de supermercado, pelo menos eu podia olhar feio pros clientes sem ser cancelada!

Melissa se jogou em cima de uma mesa de laboratório, bagunçando o cabelo perfeito e coçando a base dos chifres com força e prazer, algo que ela nunca fazia em público. Ela tirou um maço de cigarros amassado do bolso da saia e acendeu com um estalar de dedos, criando uma pequena chama mágica na ponta da unha.

— Paz... finalmente... — Ela tragou profundamente, enchendo os pulmões de toxinas reconfortantes, e soltou a fumaça para o teto mofado.

— A combustão de tabaco em ambiente fechado aumenta a concentração de monóxido de carbono em 40%, reduzindo a oxigenação cerebral. Talvez isso explique sua agressividade repentina e irracional. Ou é apenas TPM?

Melissa congelou. O cigarro quase caiu da boca aberta. Lentamente, com a trilha sonora de um filme de terror tocando em sua mente, ela virou a cabeça.

No canto escuro da sala, atrás de uma pilha de gaiolas de rato vazias, Villa-V estava sentada no chão. Ela segurava um bisturi sujo em uma mão e um sanduíche de presunto na outra. Seus óculos refletiam a luz fraca da janela, escondendo seus olhos.

Melissa empalideceu. "Acabou", pensou ela. "Ela viu tudo. Ela ouviu tudo. Minha carreira acabou. Adeus patrocínios de shampoo. Adeus seguidores. Olá, vida de atendente de fast-food."

Melissa reagiu com o instinto de sobrevivência das ruas. Ela pulou da mesa e avançou para Villa, agarrando a gola do jaleco da garota e a levantando do chão.

— Escuta aqui, sua quatro-olhos! Se você abrir o bico sobre o que viu aqui, eu arranco sua língua e uso de marcador de página! Entendeu?! Eu sei onde você mora! Na verdade, não sei, mas eu tenho contatos e eu descubro!

Villa-V não piscou. Ela nem parecia assustada. Pelo contrário, ela inclinou a cabeça, mastigando o sanduíche calmamente enquanto balançava os pés no ar.

— Interessante... — murmurou Villa. — A disformidade social. A dicotomia entre a persona pública e a realidade privada. Você é como um daqueles sapos venenosos da Amazônia: colorida e atraente por fora para atrair presas, mas tóxica e letal por dentro.

Melissa soltou a gola dela, confusa com a análise biológica.

— Quê? Você tá me chamando de sapo?

— Estou elogiando sua complexidade. — Villa ajeitou os óculos, caindo de pé com leveza. — A maioria das pessoas lá fora são variáveis constantes. Previsíveis. Tediosas. Você... você é uma anomalia caótica. Eu gosto de anomalias.

Melissa recuou um passo, ainda desconfiada, a mão pronta para dar um belo soco.

— Você... não vai contar pra ninguém? Não vai postar? "Mel-chan fuma e xinga crianças"?

— Por que eu faria isso? — Villa deu de ombros, lambendo uma migalha do dedo. — Interagir com a massa social exige energia. Fofoca é ineficiente e improdutiva. Além disso... não é como se eu tivesse muitas pessoas para quem contar.

— Por que não? — perguntou Melissa, baixando a guarda, olhando em volta para as gaiolas e potes de formol.

— Eu também não faço ideia. Por algum motivo as pessoas não ficam muito perto de mim. Achei que era porque eu sou da Classe -13, mas você parece não ter esse problema de repelir humanos.

— Espera... então a gente é da mesma turma?

— Você não tinha reparado? Eu sento duas cadeiras atrás de você há duas semanas.

Melissa virou o olhar para o lado para fugir da situação vergonhosa. "Eu nunca olho para trás na sala..." Ela olhou para o resto da sala vazia, silenciosa e segura. Um bunker onde nenhum fã idiota ousaria pisar.

— Quer dizer que... esse lugar fica vazio sempre que você está aqui? — perguntou Melissa, um plano brilhante se formando em sua mente oportunista.

— Sim. Minha presença tende a esterilizar o ambiente socialmente.

Melissa deu um sorriso. Desta vez, não foi o sorriso falso de idol, nem o sorriso agressivo de delinquente. Foi um sorriso de cumplicidade genuína. Ela apagou o cigarro na sola da bota e estendeu a mão para Villa.

— Negócio fechado, esquisita. Eu não te bato e finjo que não vi você comendo sanduíche com a mão suja de formol e sabe-se lá o quê... e em troca, você me deixa vir aqui xingar, fumar e relaxar quando eu estiver prestes a explodir.

Villa olhou para a mão de Melissa.

— Eu não ligo muito para esses benefícios contratuais, mas... — Ela olhou a garota de cima a baixo, seus olhos percorrendo os chifres, a cauda e os lábios de Melissa. Um sorriso surgiu e o vidro de seus óculos ficou branco opaco. — Acho que vai ser legal também. Prazer. Eu sou Villa-V. Mas pode me chamar só de Vi.

— Melissa. Só Melissa. Sem o "-chan".

Melissa pegou outro cigarro do maço, colocando-o entre os lábios com a arrogância de quem acabou de fechar um contrato milionário. Ela ia acendê-lo para comemorar sua nova zona de liberdade, mas Villa-V deu um passo à frente, invadindo seu espaço pessoal com uma rapidez assustadora.

— Certo, Melissa — disse Villa, a voz baixando um tom, perdendo um pouco daquela frieza analítica e ganhando uma textura aveludada.

Antes que Melissa pudesse estalar os dedos para acender a chama, Villa ergueu a mão enluvada e, com delicadeza cirúrgica, retirou o cigarro não aceso da boca da idol.

— Hã? O que você está... — Melissa começou a protestar, franzindo a testa.

Ela não terminou a frase. Villa-V segurou o queixo de Melissa com firmeza, ficou na ponta dos pés e pressionou seus lábios contra os dela.

O tempo na sala de laboratório parou. O cérebro de Melissa, acostumado a lidar com fãs, haters, produtores e stalkers, sofreu um "Erro 404 - Fatal System Error". Seus olhos se arregalaram, fixos nos óculos grandes de Villa, que refletiam sua própria expressão de choque absoluto. O beijo não foi tímido; foi possessivo, exploratório e desconcertantemente confiante, com gosto de sanduíche e perigo.

Villa se afastou lentamente, com um estalo suave de lábios se separando. Ela olhou para o cigarro que havia confiscado em sua mão e depois para os lábios úmidos de Melissa, fazendo uma careta de desaprovação técnica.

— Você deveria parar com isso — disse Villa, jogando o cigarro numa lixeira próxima como se fosse lixo radioativo. — A nicotina causa vasoconstrição e altera a viscosidade da saliva, deixando um retrogosto amargo insuportável no paladar do parceiro.

Melissa tocou os próprios lábios, ainda paralisada, o rosto começando a esquentar e competir com a cor vermelha de seus olhos demoníacos.

— V-você... me beijou? — ela gaguejou, a "bad girl" totalmente desarmada e reiniciando o sistema. — Por quê?! Vo... vo... você gosta de mim ou algo assim?!

Villa deu um sorrisinho de canto, ajeitando os óculos que brilharam com um reflexo branco opaco, escondendo seus olhos amarelos.

— Porque eu quis testar uma hipótese empírica. E também... — Villa inclinou a cabeça, analisando Melissa como se ela fosse a descoberta científica mais fascinante e deliciosa do século. — Eu não quero ter que sentir gosto de tabaco barato sempre que eu te beijar daqui para frente. Entendido?

Melissa abriu e fechou a boca várias vezes, parecendo um peixe fora d'água.

— Sempre que... me beijar? — A frase ecoou na mente dela como um gongo. — DE ONDE VOCÊ TIROU QUE VAI TER UMA PRÓXIMA VEZ, SUA MALUCA?!

Villa apenas riu e voltou para o seu sanduíche, ignorando completamente o colapso mental da nova "amiga".



Assim, a memória do primeiro encontro rapidamente se desmanchou junto da fumaça do vape que se dissipava no ar viciado do beco.

Melissa encarava o nada, perdida na memória, o rosto queimando.

— E de algum jeito... — murmurou ela, soltando um suspiro pesado e trêmulo. — Nossa amizade continuou mesmo assim. Eu devia ter fugido naquele dia e chamado a polícia.

Inconscientemente, o olhar de Melissa deslizou para o lado. Ela observou Villa-V, que ainda estava absorta na leitura do tablet, murmurando equações sobre pistões e fluidos. O olhar de Melissa parou nos lábios da cientista. Eram pequenos, pareciam inofensivos, mas a memória tátil daquele dia fez o rosto da streamer esquentar violentamente. As bochechas pálidas ganharam um tom rosado que a maquiagem pesada não conseguia esconder.

"Merda", pensou Melissa, mordendo o lábio. "Por que eu tô lembrando disso agora? Para, cérebro!"

Villa-V não levantou a cabeça, mas um sorriso malicioso e conhecedor surgiu em seus lábios enquanto ela passava a página do ebook.

— A sua temperatura corporal subiu 1.5 graus Celsius e sua respiração ficou irregular, Meli — comentou Villa, com a casualidade de quem comenta a previsão do tempo. — Está olhando pra minha boca e pensando em sacanagem, não está?

Melissa deu um pulo no caixote, quase derrubando o café quente na calça.

— QUÊ?! NÃO! — gritou ela, a voz falhando num agudo defensivo. — CLARO QUE NÃO! TÁ LOUCA?!

— Está sim — provocou Villa, finalmente olhando para ela por cima dos óculos, com aquele olhar de predadora disfarçada de presa inofensiva. — Você ficou toda vermelhinha. Quer que eu lubrifique seus pensamentos com uma demonstração prática?

— É PORQUE VOCÊ ESTÁ LENDO ESSA PORNOGRAFIA DE ROBÔ AÍ DO MEU LADO! — Melissa explodiu, apontando para o tablet acusatoriamente, desesperada para desviar o assunto e salvar sua dignidade. — ISSO TÁ POLUINDO O AMBIENTE! EU SOU UMA GAROTA PURA!

— "Pura"... — Villa riu, voltando a ler. — Disse a garota que tem chifres, cauda de demônio e uma pasta oculta no computador chamada "Pesquisa de Anatomia". Hahahaha.

Antes que Melissa pudesse estrangular a amiga (ou beijá-la para calar a boca), o som agudo e estridente do sinal da escola cortou o ar, salvando o dia.

Driiim!

— Salva pelo gongo — disse Villa, guardando o tablet no bolso do jaleco com um movimento fluido. — Vamos, Meli. A aula vai começar. O dever nos chama.

Melissa bufou, sugando uma última nuvem gigantesca de vapor do seu vape antes de guardá-lo estrategicamente no sutiã.

— Vamos logo acabar com isso antes que eu desista e vire eremita numa caverna.

As duas se levantaram — a influencer demoníaca tentando recuperar a compostura perdida e a cientista pervertida com seu sorriso enigmático — e caminharam de volta para o caos da vida escolar.

Parte 6

O pátio norte estava imerso em um silêncio tenso, quebrado apenas pelo som nhoque-nhoque rítmico e incessante de Anna. Ela atacava uma rosquinha de creme com a dedicação de um esquilo se preparando para o inverno nuclear, as bochechas infladas esticando a pele pálida.

Ao lado, Vivian mantinha sua pose de "Vilã Ojou-sama". O vento brincava com sua saia plissada perigosamente curta e agitava aquelas meias largas e enrugadas que pesavam em seus tornozelos.

A pressão no ar era quase física. Kai, o clone, tinha o peito subindo e descendo em espasmos, esperando o choque de realidade, o medo, o pavor no rosto de Dante.

Dante, no entanto, fungou. Uma lágrima solitária, porém máscula, traçou um caminho brilhante pelo seu rosto. Ele se levantou, espanando a poeira dos joelhos da calça do uniforme, e lançou a Kai um olhar carregado de uma compaixão profunda... e incrivelmente irritante.

— Cara... — Dante levou a mão ao peito, sentindo a própria batida cardíaca. — Se chamar de "merda" não é legal. Você tem que trabalhar essa autoestima. Mesmo sendo uma cópia xerox, você é uma pessoa válida, sabia? — Ele então deu um "joinha". — Tenha mais confiança, campeão! Acredite no seu potencial!

Uma veia pulsou violentamente na têmpora de Kai, quase rompendo a pele.

— TÁ ME ZOANDO, CARALHO?! — berrou o clone. A voz metálica falhou, engasgando em pura, orgânica e humana raiva.

Dante tapou os ouvidos, fazendo uma careta exagerada de dor, como se tivesse ouvido um microfone dando microfonia.

— Ah, meus tímpanos... O seu botão de volume veio travado no máximo ou é defeito de fábrica?

Kai rangeu os dentes, o som de esmalte contra esmalte audível. Ele flexionou os joelhos para atacar, mas Dante ergueu a mão num sinal de "pare", com a calma de quem pede a conta no restaurante.

— Olha, foi mal se vocês esperavam um drama de novela mexicana com revelações bombásticas. Mas eu saí de casa com nove anos. Eu nem sei o nome dos meus pais, quanto mais a cara deles. — Dante deu de ombros, um gesto fluido e desinteressado. — Saber que tenho irmãos é só... esquisito. E saber que sou clonado? Meh. Isso já foi usado em tanto anime que virou meme.

A crítica literária casual foi o estopim.

O chão sob os pés de Kai trincou. Ele rugiu e avançou, transformando-se em um borrão cinético azul e branco.

— MORRA!

Dante nem piscou. Ele não correu; apenas girou o tronco minimamente para a esquerda, como uma porta giratória. O punho de Kai passou zunindo, rasgando o ar onde o nariz de Dante estava um milissegundo antes. A pressão do vento bagunçou a franja do original.

— Tudo o que você consegue fazer é desviar?! — Kai rosnou, usando a inércia para girar o corpo num segundo golpe lateral.

— Não sei se você sabe... — Dante disse. Ele deu um pequeno salto para trás, enquanto um chute baixo passava raspando por suas canelas. — Mas, tecnicamente, ainda estamos no colégio.

Vivian, que assistia a tudo com seus olhos carmesim semicerrados, franziu a testa. A imagem mental que ela tinha do "Dante Scarlune" — construída sobre pilhas de relatórios de inteligência e histórias da família — era a de uma besta indomável. Alguém que queimaria o mundo só para ver a cor das cinzas.

"Ele está preocupado com... as normas da diretoria?", pensou Vivian, ajeitando a gravata frouxa com desconfiança. "Será que os relatórios foram exagerados? Ou ele se tornou domesticado?"

— FODA-SE AS REGRAS! — Kai gritou. O ar ao redor de seu punho começou a distorcer, acumulando uma descarga violenta de Éter.

— Espera, Kai!

A voz de Vivian cortou o ambiente como o estalo de um chicote.

Kai congelou instantaneamente. O punho brilhando com energia letal parou a centímetros do nariz de Dante. Ele olhou para a irmã, os olhos tremendo de impaciência e adrenalina não gasta.

— O quê?!

— Ele tem um ponto — disse Vivian. Ela caminhou até eles, o som de seus mocassins ecoando com autoridade no pátio de pedra. Ela analisou Dante com curiosidade. — Brigar aqui, no meio do pátio... causaria expulsão imediata. Seria um desperdício sermos expulsos antes mesmo de começarmos a diversão.

Dante apontou para ela com um sorriso presunçoso.

— Viu? A gótica entende das coisas. Vamos, Anna.

Dante começou a virar as costas, a postura relaxada de quem ia para o intervalo, mas Vivian sorriu. Não foi um sorriso amigável; foi um sorriso predatório, mostrando dentes perfeitos demais.

— Mas... — ela continuou, a voz melodiosa. — Seria uma desfeita terrível se o "Lendário Dante" fosse embora sem mostrar um pouco do que sabe. Ouvimos tanto sobre você. Seria triste descobrir que tudo não passa de exageros.

Dante parou. Ele suspirou profundamente, jogando a cabeça para trás e olhando para as nuvens.

— E como você sugere que a gente resolva sem ser expulso, gênia?

— Só tem uma forma de testarmos nossas habilidades sem quebrar a regra de "proibido combate em área comum". — Vivian colocou a mão na cintura, o quadril levemente projetado. — Que tal um jogo?

— Um jogo? — Kai bufou, dissipando o Éter do punho. — Eu quero quebrar os ossos dele, Vivian. Não jogar Uno.

— Ah, cale a boca, Kai. Esse jogo é perfeito para definir a hierarquia da cadeia alimentar. — Vivian virou-se para Anna.

Anna, que estava lambendo o creme do dedo mindinho, parou. Ela sentiu o peso do olhar da garota. Vivian apontou para a caixa gordurosa nas mãos dela com um gesto elegante.

— Nessas caixas de doces sempre vêm brindes, não vêm? Adesivos colecionáveis.

Anna olhou para a caixa, depois para Vivian, e assentiu solenemente.

— Tem adesivos.

— Perfeito. — O sorriso de Vivian se alargou, seus olhos brilhando com malícia. — Vamos jogar: Etiqueta da Morte - Edição Chão de Lava.

Vivian assumiu o comando, movendo o dedo no ar enquanto explicava as regras com calma.

— É um híbrido de Pega-Pega e Assassinato Silencioso. Prestem atenção:

  • O Mapa: O jogo é restrito a este Pátio Norte.

  • Chão de Lava: O chão de pedra é zona proibida. Quem pisar, está eliminado. A movimentação é exclusiva via "detalhes" do cenário: árvores, bancos, muros, postes e cornijas.

  • A Arma: Cada um recebe um adesivo de gatinho. O objetivo é colar o adesivo em qualquer parte do corpo do adversário.

  • Condição de Vitória: Se receber um adesivo, você morre. Se tocar o chão, você morre.

  • Restrições: Nada de golpes diretos. Apenas movimentação, parkour e agilidade. Se você for realmente o melhor, consegue vencer sem precisar tocar no inimigo com violência bruta.

Dante ouviu, os olhos varrendo o terreno automaticamente. Havia várias árvores antigas de galhos grossos, colunas de mármore decorativas e bancos de pedra conectados por canteiros de flores.

Vivian arrancou a caixa da mão de Anna (que soltou um "Hey!" abafado e indignado) e retirou a cartela brilhante.

— Uma dupla contra a outra. O primeiro time a colar o adesivo vence.

Kai, de braços cruzados, soltou uma risada curta, fria e cortante.

— Gostei. Mas...

Ele arrancou dois adesivos da mão de Vivian com um movimento brusco.

— Eu vou sozinho. Quero dois adesivos. Vou conseguir minha vitória completa vencendo os dois.

Vivian colocou a mão no rosto, balançando a cabeça com um suspiro teatral.

— Eu já imaginava que seu ego inflado faria isso. Bom, eu não ligo.

Ela olhou para Dante, desafiadora.

— E então, irmãozinho?

Dante sorriu. Aquele sorriso relaxado voltou, mas agora havia um brilho perigoso em seus olhos, algo afiado que lembrava muito o olhar de um lobo que acabou de acordar e sentiu cheiro de sangue.

— Sinceramente? Eu preferia ir embora. Mas... eu tenho uma política rigorosa de nunca fugir de desafios. Aceito.

Ele virou o rosto para Anna.

— E aí, Anna? Pronta pra queimar essas calorias?

Anna engoliu o último pedaço de rosquinha num gole só e limpou o açúcar na roupa sem cerimônia. Ela estalou o pescoço, o som crack ecoando alto. Seus olhos, antes nublados pela gula, mudaram. O modo "Fome" desligou; o modo "Foco" ativou.

— Pode apostar. — A voz dela soou diferente, mais firme. — Depois de tanto tempo parada no Titanic... — Ela flexionou as pernas, testando a resposta elástica dos músculos do novo corpo. — Eu já estava louca para ver o que esse corpo pode fazer.

Vivian subiu em um banco de pedra alto, a saia balançando, e levantou a mão direita aberta, como uma imperatriz romana prestes a iniciar os jogos no Coliseu.

— Jogadores, assumam posições elevadas! O chão vai virar lava em...

3...

Dante e Kai trocaram olhares.

2...

Anna agachou-se no parapeito de uma fonte.

1...

Parte 7

— ZERO!

A sílaba detonou o mundo. Antes que o eco da voz de Vivian morresse, a gravidade parecia ter sido revogada. O Pátio Norte deixou de ser um jardim estático para se tornar uma arena de guerra.

Dante não apenas ativou seu poder; ele se tornou uma tempestade contida.

— Liberar Arquivo: Segundo Modo — Deus da Velocidade.

O ar gritou. O cheiro acre de ozônio inundou o pátio enquanto arcos de eletricidade vermelha chicoteavam de seus cabelos para as colunas de mármore próximas, estalando como chicotes. Seus olhos, agora faróis de pura energia, dissecaram a geometria do cenário em milissegundos: a curvatura do chafariz, a densidade dos galhos do carvalho centenário, a angulação das gárgulas.

— Vamos acabar com isso.

Ele não correu. A realidade simplesmente não conseguiu acompanhá-lo.

Com um estrondo sônico abafado, Dante ricocheteou na borda do chafariz — a água explodindo em vapor instantâneo pelo calor de sua passagem — e tornou-se um risco de plasma vermelho. Ele correu verticalmente pelo tronco do carvalho e, num salto impossível, pousou agachado no topo estreito de um poste de ferro fundido, equilibrado como um predador elétrico, observando o caos lá embaixo.

Do alto, a gargalhada de Vivian cortou o vento. Ela se lançou de um beiral do segundo andar, e suas tesouras gigantes se separaram com um clack metálico que reverberou nos ossos. As lâminas, largas e polidas como espelhos, capturaram a luz do sol enquanto ela pousava sobre elas. Vivian não caía; ela surfava nas correntes de ar, ziguezagueando entre os galhos grossos das árvores. Folhas decepadas choviam em câmera lenta atrás de seu rastro letal e elegante.

— Maldita! Isso aí é trapaça! — Dante gritou, movendo-se ainda mais rápido.

Lá de cima, a percepção acelerada de Dante captou a distorção. O ar à esquerda tremulou como asfalto quente.

— Anna! Esquerda! Agora! — O grito de Dante chegou, carregado de estática.

Anna, que deslizava para se proteger atrás de um banco de pedra, reagiu por instinto puro. Ela girou, a mão espalmada batendo com violência na jardineira de granito.

— Reestruturação: Muralha de Espinhos!

A matéria obedeceu com um rugido geológico. A pedra da jardineira se liquefez e explodiu para fora, recristalizando-se em uma fração de segundo como uma falange de lanças serrilhadas, bloqueando o flanco esquerdo e estraçalhando um canteiro de flores no processo.

Mas o alvo não estava lá.

— Lento demais...

A voz de Kai não veio de um ponto específico; ela emanou das sombras das colunas, do farfalhar das folhas, de dentro dos ouvidos de Anna.

Atrás dela, a realidade se dobrou como origami. O espaço entre dois carvalhos antigos colapsou, criando um túnel visual vertiginoso. Kai não precisou correr. Ele simplesmente apareceu nas costas de Anna.

Anna sentiu a queda da pressão atmosférica. Num giro de pânico, ela condensou a umidade do ar.

— Barreira Zero! — Uma parede de gelo translúcido materializou-se entre eles.

Kai nem piscou. Ele estendeu a mão como se ignorasse a barreira à frente; no exato momento em que tocaria o gelo, ele se teleportou novamente, parando atrás dela.

Plec.

O som foi pequeno, cômico e final.

O adesivo de gatinho brilhava, neon e ridículo, colado com precisão cirúrgica no centro da testa de Anna.

— Você está morta — sussurrou Kai.

— Merda! — Anna caiu no chão, desiludida, vendo que suas falas anteriores voltaram para acertar sua cara.

Quando ela olhou para cima, Kai já não estava lá. Apenas um borrão no ar e o balançar suave das folhas indicavam onde o espaço havia sido dobrado novamente.

Agora, eram dois predadores contra um raio.

Vivian não apenas desceu; ela despencou como um meteoro de prata. Em um parafuso aéreo vertiginoso, ela uniu as pernas e as lâminas gigantes giraram ao seu redor, criando um tornado cortante que triturava o ar.

— Parece que o "gênio" está encurralado! — O grito dela foi distorcido pelo efeito Doppler do mergulho.

O mundo de Dante desacelerou para tons de cinza e estática. Para ele, Vivian estava suspensa em gelatina. Seus olhos elétricos dissecaram a cena: a rotação das lâminas a 800 rpm, a massa de metal ferrimagnético se aproximando, o poste de ferro fundido a três metros à direita.

— Encurralado? — O sorriso de Dante foi um clarão branco no tempo congelado. A eletricidade dançou entre seus dentes caninos.

Ele não recuou. Ele saltou para dentro da tempestade de lâminas. No ar, milissegundos antes da colisão, Dante estalou os dedos. O som foi como um tiro de canhão.

Uma onda de choque magnética, visível como uma distorção roxa no ar, explodiu de seu peito. A física reagiu com violência. O metal das tesouras de Vivian gritou ao encontrar o campo eletromagnético. Em vez de fatiar Dante, as lâminas foram arremessadas lateralmente com a força de um trem desgovernado, arrastando Vivian junto.

CLANG!

O impacto foi ensurdecedor. As tesouras se chocaram contra o poste de luz de ferro fundido, o magnetismo fundindo-as temporariamente ao metal do cenário. Vivian ficou pendurada horizontalmente, debatendo-se como uma mariposa presa num alfinete, as pernas chutando o ar.

— Maldito! O magnetismo...?!

A gravidade ainda não tinha terminado com Dante. Ele pousou com a leveza de um pardal — não no chão, mas na ponta afiada da lâmina presa de Vivian. Ele agachou-se ali, desafiando o equilíbrio, o rosto a centímetros do nariz dela.

— Que foi, maninha? Tá parecendo meio presa — zombou ele. Com um bip insolente, ele colou o adesivo na bochecha esquerda dela e depois desceu, pegando algo do bolso dela. — Eliminada.

— Se você perder, eu não vou te perdoar, Kai! — Vivian gritava.

Princesa Vampira derrotada. Dante já começava a vasculhar todo o lugar.

— Agora é só eu e o xerox!

A resposta veio do alto.

— Hum… se não tivesse vencido ela, não teria graça.

Kai estava de pé na cumeeira do telhado do ginásio, silhuetado contra o sol. Sua raiva havia sublimado em um foco gélido, quase inumano.

— Mas comigo não vai ser tão fácil, palhaço. — A voz de Kai ecoou com uma reverberação metálica, vinda de todas as direções, como se o pátio fosse uma caixa de som.

Kai juntou as palmas das mãos num aplauso silencioso. O espaço de cinquenta metros entre o telhado e o solo não foi percorrido; foi deletado.

A realidade piscou. Kai surgiu instantaneamente na frente de Dante, um soco direto já armado, visando o plexo solar. Não houve vento, nem aviso. Dante reagiu por puro reflexo sináptico acelerado. Ele girou o tronco. O punho de Kai passou roçando, mas o vácuo criado pelo deslocamento espacial rasgou a camisa de Dante e desenhou um corte fino em seu peito.

— Lento — sussurrou Kai.

— Seu idiota, não sabe ouvir as regras? Sem ataque direto, mané!

A caçada explodiu em três dimensões. Não era uma corrida; era uma sequência de glitches na realidade.

Dante tornou-se um risco vermelho contínuo, ziguezagueando entre as copas das árvores antigas. Ele usava os troncos como trampolins, saltando de casca em casca, sempre em movimento.

Kai era o oposto: ele era estático. Ele não corria. Pop. Kai aparecia num galho acima de Dante, chutando para baixo. Dante rolava, o galho explodindo onde ele estivera um segundo antes. Pop. Kai surgia na frente dele, tentando colar o adesivo. Dante derrapava, soltando faíscas pelas solas dos sapatos, mudando de direção em ângulos agudos impossíveis.

— Você não pode fugir para sempre! — A voz de Kai rugiu, distorcida. Ele estendeu a mão direita para o espaço vazio onde Dante estava prestes a passar. O ar se curvou visualmente, como uma lente de aumento sobre o fogo. — Fixação do Caos!!

Dante sentiu seu corpo pesar uma tonelada. A distorção espacial o puxou para trás, arrastando-o pelo ar como se um gancho invisível tivesse perfurado seu estômago, trazendo-o de volta para o alcance de Kai.

Dante sentiu o estômago subir à garganta. A gravidade artificial o puxava pelos tornozelos, arrastando-o para a boca do lobo.

— Quem disse que eu estou fugindo?

No meio do voo reverso, os dedos de Dante pescaram uma tesoura pequena. Em um microssegundo, ele canalizou todo o seu excesso de carga para a pequena tesoura de metal. A tesoura gritou, vibrando numa frequência vermelha-neon, superaquecida com Éter Temporal e eletricidade pura.

— Aquilo é... — Kai falava, sentindo o Éter na tesoura.

— Droga, ele pegou naquela hora... — Vivian murmurava, observando.

Kai expandiu sua aura, um círculo azul à sua volta. Dante não lutou contra a atração. Ele girou o corpo e, com um movimento de pulso de arremessador de beisebol, disparou a tesoura.

— Receba, otário! Aceleração Temporal x4!

O projétil incandescente voou em alta velocidade. Kai nem conseguiu ver a locomoção do objeto até que ele entrasse em sua aura. Mas, assim que o fez, ele sentiu e teleportou no mesmo segundo para desviar.

Mas o tempo que Kai precisou para tirar os olhos de Dante e calcular seu teletransporte para longe do ataque... era a fração de segundo que Dante precisava.

Movendo-se em velocidade total, diminuindo a percepção do tempo sobre si para acelerar ainda mais, ele começou a saltitar de um lado para o outro, pronto para a chegada de Kai. Quando Kai aterrissou sobre uma árvore ao lado, Dante tornou-se um míssil humano, rasgando o ar em linha reta na direção do oponente. Pelas costas, Kai estava desatento e não conseguiu acompanhar até que Dante estivesse colado em suas costas com o adesivo de gatinho na ponta do indicador direito, a arma final.

— TE PEGUEI!

Os olhos de Kai se arregalaram, veias saltaram nas têmporas. O tempo pareceu parar. O dedo de Dante estava a um centímetro das costas de Kai.

E então, o mundo foi dividido ao meio.

ZUUUUUUUM!

Não foi apenas um som; foi uma pressão física, um grito agudo de metal cortando a barreira do som que fez os dentes de ambos vibrarem. Um borrão prateado, maciço e imparável, passou voando exatamente entre o dedo de Dante e o peito de Kai.

A onda de choque foi brutal. O deslocamento de ar atingiu os dois como uma parede de concreto invisível. Dante foi arremessado para a direita, girando sem controle. Kai foi jogado para a esquerda, derrapando violentamente. Ambos aterrissaram na zona de "Lava", mas o jogo havia se tornado irrelevante.

CRACK... BUUUM.

Atrás deles, o carvalho centenário gemeu. O tronco maciço deslizou diagonalmente, separado de sua base por um corte tão limpo e polido que parecia espelho. A árvore tombou em câmera lenta, sacudindo o chão ao atingir a grama.

Cravada profundamente no toco que restou da árvore, ainda vibrando com um zumbido grave e ameaçador, estava ela. Uma espada titânica. Um metro e meio de aço negro e prata.

O silêncio que caiu sobre o Pátio Norte foi absoluto, pesado, quase sólido. O vento parou. Os pássaros emudeceram.

TOC. TOC. TOC.

Passos pesados, rítmicos e calmos ecoaram na entrada do pátio, esmagando o cascalho. Blade Scarlune emergiu das sombras das colunas.

Seus ombros eram largos, a postura rígida. Os olhos congelavam o sangue: dois poços escuros, desprovidos de brilho, exalando uma pressão espiritual tão densa que fazia o ar ter gosto de chumbo.

Blade parou. Ele nem olhou para a espada. Seus olhos varreram a destruição com uma indiferença aterrorizante: a árvore decepada, Vivian pendurada e magnetizada, Kai rolando irritado na grama e a arrancando com as mãos. Finalmente, seu olhar pousou em Dante.

Não havia raiva. Não havia surpresa. Havia apenas um tédio profundo e perigoso.

— Era exatamente o que eu esperava.

A voz de Blade não foi gritada, mas preencheu o pátio inteiro. Era um barítono sísmico, uma onda de baixa frequência que fez os ossos do peito de todos vibrarem em ressonância.

— Mais um Scarlune selvagem que não sabe se comportar.

Dante passou o polegar pelo canto da boca, limpando um filete de sangue vivo. Ele ergueu os olhos.

— E aí, grandalhão — Dante sorriu, embora seus músculos tremessem pelo esforço. — Bela pontaria, mas posso saber quem é você para ficar se intrometendo?

Vivian, presa no poste, falou:

— Esse aí também é seu irmão. Tecnicamente, mais velho agora, sabia...?

Dante voltou seus olhos para o “irmão”.

Ao lado, Kai se levantou. Seus joelhos não tremiam de medo, mas de uma adrenalina tóxica e frustrada. Ele cerrou os punhos com força suficiente para branquear os nós dos dedos.

— Blade... — A voz de Kai saiu estrangulada. — Eu estava prestes a...

— Você estava prestes a perder, Kai. — Blade cortou a frase sem sequer virar o pescoço para encará-lo. A certeza na voz dele era absoluta, fria como aço cirúrgico. Então, os olhos mortos de Blade deslizaram para Vivian. — E você... Vivian. Patética.

Vivian encolheu-se como se tivesse levado um tapa físico. Num estalo de luz, ela desmaterializou as tesouras gigantes.

— Foi... um erro de cálculo — murmurou ela, desviando o olhar.

Blade não respondeu. Ele caminhou até o carvalho centenário que sua espada havia derrubado. O tronco pesava toneladas. Com a casualidade de quem chuta uma bola de papel, Blade golpeou a madeira com a canela.

BOOM.

Não houve arrasto. A árvore maciça foi catapultada para o ar, voando em um arco balístico sobre o pátio, girando como se fosse feita de isopor. Ela colidiu com a floresta densa que cercava a escola centenas de metros adiante, desaparecendo com um estrondo de trovoada distante, nuvens de poeira e pássaros assustados.

O silêncio voltou, mais pesado do que nunca. Blade arrancou sua Claymore do chão com um puxão único, o metal cantando, e a embainhou nas costas num movimento fluido.

— Parem de agir como animais e voltem para a aula. Agora.

Ele girou nos calcanhares. A capa vermelha chicoteou o ar, desenhando um arco de autoridade enquanto ele se afastava, passadas largas engolindo a distância.

Kai permaneceu imóvel, olhando para Dante. A expressão do clone era um mapa de emoções conflitantes.

— Ei, seu merda… Se quiser, pode considerar isso uma vitória — sibilou Kai. — Mas escute bem, "original".

O ar ao redor de Kai ficou denso. Ele ergueu a mão direita, o indicador apontado para o peito de Dante como uma adaga.

— Da próxima vez que nos encontrarmos... eu vou esmagar você. E não será num joguinho de pega-pega. Na próxima, você cai.

Dante, ainda sentado, pendeu a cabeça para o lado. O sol iluminou seu sorriso provocador. Ele levou dois dedos à testa numa continência preguiçosa.

— Estarei esperando, xerox.

Kai bufou, a aura assassina dissipando-se em irritação pura. Ele saiu pisando duro, o cascalho estalando sob suas botas. Vivian o seguiu, mas não sem antes lançar um último olhar para Dante — analítico, perigoso e prometendo retaliação futura — antes de desaparecerem na sombra do corredor principal.

Dante soltou o ar que prendia há minutos.

— Haaah...

Seu corpo desabou para trás na grama. Fumaça branca e fina começou a subir de seus ombros e braços; seus músculos ardiam como se tivessem sido banhados em ácido. "Droga, o desgaste de acelerar o próprio tempo enquanto uso o Deus da Velocidade é grande demais."

Passos irregulares se aproximaram. Anna surgiu em seu campo de visão, o cabelo uma bagunça gloriosa.

— A gente ia ganhar — decretou ela, estendendo a mão para ele. Dante aceitou o apoio, gemendo ao se sentar.

— DANTE!

O grito quebrou a calmaria. Ao longe, na entrada do pátio devastado, duas figuras corriam desesperadas. Chuya e Luck tropeçavam na própria pressa, os rostos vermelhos de exaustão.

— Cara! A gente te procurou na escola inteira! — berrou Luck, agitando os braços.

— Achamos que você tinha sido sequestrado ou entrado num portal para o inferno! — completou Chuya, dobrando-se para recuperar o fôlego, as mãos nos joelhos.

Dante olhou ao redor. Viu a cratera onde a árvore estava. Viu as marcas de queimadura de plasma no mármore. Viu seus amigos correndo em sua direção, preocupados. Ele olhou para o céu azul, indiferente ao caos lá embaixo. Um sorriso genuíno, desprovido de sarcasmo ou defesas, iluminou seu rosto sujo.

— É... — murmurou Dante para si mesmo, sentindo a dor nos músculos se transformar em satisfação. — O inferno até que é divertido.

Parte 8

Anfiteatro Subterrâneo – O Covil da Classe -13

Se alguém esperava uma sala de aula convencional, com carteiras de madeira enfileiradas e um quadro-negro com pó de giz, teria um choque cultural e arquitetônico imediato. A Classe -13 não era uma sala; era um anfiteatro industrial.

O teto era altíssimo, perdendo-se na escuridão, sustentado por vigas de aço expostas e tubulações grossas que sibilavam jatos de vapor ocasionalmente, dando ao lugar uma atmosfera de "base secreta de vilão". As cadeiras não eram carteiras escolares, mas poltronas dispostas em semicírculos ascendentes, todas focadas num palco central lá embaixo. Havia assentos suficientes para cem alunos, mas apenas vinte e seis "escolhidos" ocupavam aquele espaço vasto.

O ambiente era uma panela de pressão no limite. O barulho de conversas cruzadas, risadas maníacas, ameaças de morte sussurradas e a estática elétrica de Éter colidindo preenchia o ar como uma neblina.

Dante entrou no anfiteatro com as mãos atrás da cabeça, assobiando despreocupadamente, seguido por Anna e Luck. Assim que Dante pisou no degrau mais alto da arquibancada, seus olhos cruzaram com os de Kai, que estava encostado numa viga de metal do outro lado, de braços cruzados.

O anfiteatro silenciou por um milésimo de segundo. A tensão era palpável, como se o oxigênio tivesse sumido. Kai desencostou da viga, os olhos semicerrados, esperando o confronto físico.

Dante parou na frente dele, abriu um sorriso largo e provocador, e colocou a mão em concha na orelha. — Ué? — Dante olhou para os lados de forma teatral. — Não estou ouvindo o som crocante dos meus ossos quebrando. Achei que você tinha dito algo pomposo lá fora tipo: "Da próxima vez que nos encontrarmos, eu vou esmagar você". — Dante soltou uma risada debochada, batendo amigavelmente no ombro rígido do clone.

A veia na testa de Kai saltou com tanta força que parecia uma corda de violão prestes a arrebentar. O Éter azul começou a sair perigosamente ao redor dele. — Seu desgraçado... você tá mesmo querendo morrer hoje! — Kai rosnou, a voz distorcida pela raiva pura.

Logo atrás, Kurokawa e Sofia observavam a cena com os olhos arregalados, paralisadas. — Ei, Anna... — Sofia sussurrou, cutucando a amiga. — Eu tô vendo dobrado ou aquele garoto é idêntico ao Dante?

— Mas como isso é possível? — Kurokawa indagou, ainda mais confusa, analisando Kai e a garota de cabelos brancos ao lado dele.

Vivian, sentada sobre o encosto de uma poltrona, olhava para as próprias unhas, parecendo entediada com a quase-briga dos irmãos.

— Longa história. Resumo da ópera: o gêmeo do mal ali é o Kai, um clone, e a de cabelo branco é a Vivian. Eles são, tecnicamente e biologicamente, irmãos do Dante — Anna falava com descompromisso.

Vivian levantou o olhar afiado, seus olhos vermelhos focando nas duas recém-chegadas como um radar. — Hum... então essas são as garotas que participaram do evento do Titanic... — Vivian analisou-as de cima a baixo, julgando o valor de combate delas com um simples olhar.

Enquanto isso, no centro do anfiteatro, o caos social reinava absoluto.

Shimura era um dos únicos sentados em sua mesa. No entanto, longe de estar estudando ou esperando de forma comportada, ele estava lendo um volume da Weekly Shonen Jump e rindo sozinho, totalmente alheio à guerra fria ao seu redor.

Um pouco mais ao fundo, onde as sombras eram propositalmente mais densas, Hakurei estava sentado no encosto alto de uma cadeira, olhando para o nada com seu habitual olhar de peixe morto. — Barulhentos... — ele murmurou, a voz quase inaudível.

— Ahh... — suspirou Megumi, que estava ao lado dele, desmontando e polindo sua pistola com movimentos automáticos e precisos. — Você fica falando isso, mas também não te vejo se comportando como um aluno normal, Hakurei.

Perto dali, o "Trio Demoníaco" original dominava o fundo da sala. Kintoki estava esparramado, com os pés em cima da cadeira da frente, os óculos escuros refletindo as luzes do teto.

Mio Mortifer, com sua postura relaxada de predadora satisfeita, viu Dante se aproximando e acenou. — E aí, Lobinho! — Mio gritou, dando um soco "amigável" no braço dele quando ele passou. O impacto foi forte o suficiente para deslocar o ar. — Ouvi dizer que você arrumou briga logo de cara no pátio. Nada mal.

— Não sei se é normal receber esse tipo de elogio... — Dante riu, massageando o braço. — E até quando planeja ficar me chamando de Lobinho?

Ao lado de Mio, Beatrice Dragonroad estava de braços cruzados, batendo o pé num ritmo frenético. Ela era pequena, mas a aura laranja ao redor dela ocupava o espaço de um gigante, distorcendo o ar. Ela olhou para Dante de esguelha. — Hmpf — Bea resmungou, virando o rosto. — Não se esqueça, idiota: você ainda me deve uma por ter me chamado de nanica naquele dia.

— Eu não chamei de nanica! — Dante defendeu-se, levantando as mãos em rendição. — Eu disse "baixinha". É um termo carinhoso!

— É A MESMA COISA! — Bea gritou, e faíscas de Éter laranja estalaram perigosamente em seu cabelo como fogos de artifício.

No canto oposto, a atmosfera era tóxica — literalmente e figurativamente. Melissa estava sentada de qualquer jeito, jogando uma moeda para o alto, enquanto Villa-V, ao seu lado, tentava dissecar visualmente um aluno novo. Seus olhos brilhavam com curiosidade científica mórbida.

— Aquele ali... — Villa apontou discretamente para Dante com o queixo. — Scarlunes sempre são interessantes, mas parece que a biologia dele é... especial. Seria fascinante abrir para ver como funciona.

— Se controla, Vi — Melissa revirou os olhos, pegando a moeda no ar. — Estamos na escola, não no laboratório.

— Eu não estou fazendo nada, apenas catalogando espécimes que valeria a pena dissecar — Villa defendeu-se, mas de repente seus olhos focaram no canto isolado da sala. — Aquele ali é...

— Aquele é o Kaiser. Ouvi boatos de que ele foi chamado pelo Comitê Disciplinar antes mesmo de pisar no colégio oficialmente.

Kaiser, o garoto mencionado, mantinha os olhos fechados e a postura ereta, ignorando o barulho atrás dele. Ele exalava uma aura de superioridade tão densa que ninguém ousava sentar nas cadeiras próximas a ele.

E então, havia a anomalia.

Layla caminhava pelos corredores entre as cadeiras, flutuando como um fantasma. Ela não falava com ninguém. A garota de cabelos prateados e chifres vermelhos apenas sorria para o vazio, cantarolando uma melodia infantil e perturbadora que fazia os pelos da nuca de todos se arrepiarem. — Fiu-fiu... 🎶

De repente, ela parou. Seus olhos focaram diretamente em Dante e um sorriso largo, quase antinatural, rasgou seu rosto. Porém, no momento em que Mio se aproximou de Dante para sussurrar algo em seu ouvido, o sorriso de Layla se desfez instantaneamente. Crock. A caneta e o lápis que ela segurava na mão esquerda foram pulverizados.

Na frente dela estava Tenma, a "delinquente" loira, que ao ouvir o som de madeira e plástico sendo esmagados, deu um pulo de susto. — E-ei... — Tenma tentou cumprimentar, mas o som saiu como um rosnado defensivo. — Grrr...

Layla parou. Ela virou a cabeça num ângulo levemente não natural, como uma boneca quebrada, e sorriu para Tenma. Um sorriso que não alcançava os olhos amarelos mortos. — Olá, gatinha — Layla disse, a voz doce demais, enjoativa. — Você tem cheiro de medo. É fofo.

Tenma ficou pálida. “Tá, foi mal, mas acho melhor não me envolver com essa maluca...”

Abel, por sua vez, estava agachado no chão, escondido entre as fileiras de poltronas, tremendo visivelmente. — Abel, o que você tá fazendo aí no chão? — Daiki perguntou, olhando para baixo.

— Shhh! — Abel fez sinal de silêncio desesperado, os olhos arregalados. — A Kagura... ela está na porta! Se ela me vir... Eu não aguento mais comer! O amor dela é pesado demais, tem muitas calorias! Eu vou explodir!

Na porta principal, Kagura estava parada como um sentinela. Ela segurava um embrulho de tecido (provavelmente um bentô tamanho família) e emanava uma aura assassina rosa, os olhos varrendo a sala como um radar militar em busca da presa. — Onde está aquele idiota...? — ela murmurava, apertando o pote de comida até o plástico estalar.

Chuya estava encostado na parede ao lado de Miguel, de braços cruzados. — Olha só para essa sala, Miguel — Chuya comentou, tentando soar analítico. — Com um anfiteatro tão grande e mal iluminado, com certeza vai dar pra dormir durante as aulas sem que ninguém perceba.

Miguel olhou para ele, depois para a sala que parecia um zoológico em chamas, e finalmente soltou um suspiro longo. — ...Talvez...

De repente, as luzes do anfiteatro não apenas piscaram; elas pareceram ser engolidas. Uma sombra densa e sufocante preencheu o recinto. O barulho cessou instantaneamente, não por respeito, mas porque o ar ficou tão pesado que respirar se tornou uma tarefa manual. Não era a agressividade explosiva de Dante ou a sede predatória de Ludmilla. Era pura opressão. Uma gravidade negra que forçava os joelhos a dobrarem.

A porta lateral do palco foi aberta com um chute preguiçoso, o metal gemendo sob o impacto.

Um homem entrou. Ele usava roupas sociais que deveriam ser elegantes, mas estavam desleixadamente abertas no colarinho, mangas arregaçadas expondo antebraços, e ele carregava uma aura de perigo bruto. Seus cabelos ruivos caíam sobre os olhos, dando-lhe um aspecto selvagem. Ele caminhou até o centro do palco, exalando fumaça de um cigarro que sequer deveria ser permitido ali dentro.

Ryunosuke parou, exalando uma última nuvem de fumaça, e encarou a turma de monstros com olhos que pareciam ler cada fibra muscular, cada medo e cada desejo deles.

— É... pelo visto os novatos ainda estão respirando. — A voz dele era grave, arrastada, mas carregava uma autoridade absoluta. — Para quem não sabe, eu sou o azarado encarregado de tomar conta dessa creche. Meu nome é Ryunosuke Azazel.

Dante, suando frio sob a pressão, apertou os olhos. A semelhança era inegável. Ele levantou a mão trêmula. — Ei. Por acaso você tem alguma relação com a Lilith Azazel?

Ryunosuke parou. Seus olhos se estreitaram, e a temperatura da sala caiu dez graus. — Ela é minha mãe. Algum problema com isso, garoto?

— Droga... — Dante baixou a mão rapidamente. — Nenhum…

Ryunosuke bufou, perdendo o interesse em Dante e varrendo o olhar pela sala. Seus olhos suavizaram perigosamente por um milésimo de segundo ao passarem por Megumi, verificando se ela estava inteira, antes de voltarem a ser aço frio para o resto da turma.

— Escutem bem, porque eu só vou falar uma vez. Eu não estou aqui para decorar nomes ou segurar a mão de vocês. Estamos lidando com a Classe -13. O mundo lá fora não quer saber se vocês são especiais. O mundo quer mastigar vocês e cuspir os ossos.

Ele descruzou os braços, e a pressão espiritual na sala dobrou. Era como estar no fundo do oceano.

— Vocês acham que são fortes? Esqueçam. Se enfrentarem o mundo do jeito que estão agora, vão morrer. Mas o meu trabalho é transformar vocês em algo que sobreviva. Eu não vou ensinar; eu vou quebrar vocês. Vou arrastá-los para o inferno pessoal de cada um, porque a única maneira de ficarem mais fortes não é com treino bonitinho... é no desespero.

Ryunosuke abriu um sorriso que misturava sadismo com uma expectativa genuína. — Vocês vão ter que superar seus limites. Pois, se não ultrapassarem o limite da morte, não servem para estar nessa classe.

Melissa bateu a testa na mesa, gemendo. — Ah, não... ele só vem com esse papo quando tá planejando “Aquilo”...

Kintoki, por outro lado, começou a tremer de excitação, uma risada gutural escapando de sua garganta. — Ei, ei, ei… não me anime assim se não for arcar com as consequências, professor! Se realmente está falando assim, acho que está pensando no mesmo que eu, não é?

— Oh? Parece que as coisas vão ficar interessantes... — Ludmilla murmurou.

Beatrice e Kai começaram a sorrir com expressões maníacas.

— Droga, seu idiota… tá mesmo planejando fazer isso de novo? — Megumi sussurrou para si mesma.

— Do que ele está falando? O que vai acontecer? — Dante perguntou, sentindo que estava perdendo algo.

— Ele está falando "daquilo" — Mio respondeu, alongando os braços como se preparasse para uma guerra.

Ryunosuke estalou o pescoço, o som ecoando pelo anfiteatro silencioso. — Chega de papo furado. Vamos ver o progresso que fizeram e o nível dos novatos... — Ele apontou para a saída, mas seus olhos prometiam um massacre. — Vamos para o nosso querido... Teste de Nivelamento.

A Classe -13 trocou olhares. O medo inicial foi substituído por uma adrenalina tóxica. Sorrisos surgiram nos rostos de Dante, Kintoki, Ludmilla, Kai e Tenma.

E assim, o ano letivo da Classe -13 ia começar com sangue.


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