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The Fall of the Stars: Capítulo 4 - Eclipse Dourado

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 14 de jul. de 2025
  • 55 min de leitura

Atualizado: 6 de jan.

Volume 4 : Fragmentado


Parte 1

O apito de Ryunosuke não soou como o início de um jogo. O som agudo cortou o ar como o engatilhar de um pelotão de fuzilamento.

A pressão atmosférica na arena despencou. Se a partida anterior fora um jogo de xadrez tenso, esta era um desastre natural iminente.

— MUITO BEM, SÚDITOS!

A voz de Anna não era alta, mas ressoou nos ossos de todos, cristalina e imperial. A garota de aparência delicada, que há segundos parecia inofensiva mordiscando um chocolate, deu um passo à frente. Sua pele começou a tremeluzir. O Éter em seu sangue entrou em ignição, convertendo cada caloria ingerida em uma fornalha biológica furiosa.

— Jardim da Criação: Grand Slam.

A realidade obedeceu. O ar em torno de suas mãos se distorceu em falhas geométricas, átomos sendo violentamente reorganizados. A energia química estalou e, num flash de luz branca, um bastão de beisebol colossal, feito de um polímero denso e reluzente, materializou-se em sua pegada.

Ela sorriu. Um sorriso maníaco que não alcançava os olhos frios. Anna lançou a bola de borracha para o alto com o polegar.

— Kintoki! — ela ordenou, o corpo girando com a técnica perfeita de uma rebatedora de elite, a saia chicoteando com a força centrífuga. — Abra o caminho para a sua Rainha!

— COM PRAZER!

O rugido de Kintoki abalou a estrutura do ginásio. Uma aura dourada explodiu dele como uma erupção solar. Ele não tocou na bola. Em vez disso, bateu as palmas das mãos em direção ao time adversário.

CLAP!

A pressão do ar gerada pela força bruta criou um túnel de vácuo visível, limpando a poeira e desequilibrando a postura de todos no Time Vermelho. O caminho estava limpo.

Strike One! — Anna conectou.

BAAAAAAAM!

O som foi uma atrocidade auditiva. A bola não viajou; ela foi teletransportada pela violência do impacto. O projétil tornou-se um borrão supersônico, gritando através do corredor de vácuo aberto por Kintoki.

O alvo não era a velocidade de Dante. Não era a defesa de Kagura. A trajetória da morte buscava o elo imóvel, a garota que parecia entediada demais para estar ali: Melissa.

— Merda... — Melissa suava frio.

O tempo dilatou. Seus olhos vermelhos registraram o projétil se aproximando, girando com violência suficiente para arrancar sua cabeça. O cérebro dela gritou "mova-se", mas o corpo travou. O instinto primitivo de predador e presa gritava que era o fim.

Nas passarelas suspensas, os veteranos já desviavam o olhar. — Xeque-mate — murmurou um deles, a pizza fria esquecida na mão.

Na cabine, Ryunosuke tragava seu cigarro, os olhos fixos não na vítima, mas no capitão do Time Vermelho. "A jogada lógica, Kintoki. Quebrar o moral esmagando o suporte. Mas você calculou a variável do instinto?"

A bola estava a trinta centímetros do nariz de Melissa. A morte tinha cheiro de borracha queimada.

Foi nesse milissegundo fracionado que os óculos de Sofia brilharam. Ela viu. Antes mesmo de Anna girar o quadril, ela viu o ombro de Dante tensionar. — Dante, agora! — O comando não foi gritado, foi uma transmissão de vontade.

A realidade falhou. — Liberar Arquivo: Segundo Modo — Deus da Velocidade.

O mundo perdeu a cor, mergulhando em tons de cinza estático. O rugido da torcida se tornou um zumbido grave e distorcido. Para Dante, o tempo não parou, mas se tornou uma melodia lenta. Ele sentiu a eletricidade vermelha fritar suas sinapses, o cheiro de ozônio inundando seus pulmões enquanto seu metabolismo acelerava para o impossível.

Ele não correu. Ele dobrou o espaço.

ZUUUUUM!

Um relâmpago carmesim desenhou um ziguezague furioso na quadra. Onde Dante estava, restou apenas uma imagem residual, um "fantasma" de eletricidade estática desvanecendo.

A bola atingiu o ombro de Melissa com a violência de um trem de carga.

— GAH! — O ar foi expulso dos pulmões dela. O impacto a jogou para trás, e a bola ricocheteou para o alto, girando furiosamente em direção ao chão. Se tocasse o concreto, seria o fim.

Mas o relâmpago vermelho foi mais rápido que a gravidade.

Dante mergulhou num slide desesperado. Sua mão enluvada em plasma raspou o ar e se fechou sob a bola a milímetros do solo, impedindo o toque fatal.

Quando a poeira baixou, a imagem se formou: Dante, agachado em uma postura baixa, fumaça saindo das solas de suas botas derretidas.

A bola de Anna repousava em sua palma, salva no rebote.

— Ufa... — Dante exalou, uma nuvem de vapor escapando de seus lábios superaquecidos. Ele olhou para Melissa por cima do ombro, piscando. — Cuidado aí, "suporte".

Melissa piscou, o cérebro reiniciando. — V-você... — A fachada de bad girl rachou, revelando o terror genuíno.

— Como esperado… Hehe, não seria divertido se você não estivesse aí. — O riso de Anna quebrou o silêncio.

Sofia apertou o caderno de notas em suas mãos trêmulas, mas sua voz saiu firme, projetada para o estádio ouvir. — Como planejado. — Ela apontou para o Time Dourado. — Eu sabia que usariam força total.

Um sorriso confiante surgiu no rosto da estrategista. — Mas nós já estamos prontos pra isso. Não importa a força, não precisaremos nem tentar bloquear se pudermos salvar aqueles que forem atingidos.

Um murmúrio de admiração varreu a plateia como uma onda.

— Oho... — Vivian, na arquibancada, analisava com a cara de quem estava entediada até alguns segundos. — Eles transformaram o Dante em um "Líbero". Aproveitando que ele consegue cobrir a quadra inteira com sua velocidade.

O jogo recomeçou, mas a atmosfera havia mudado. O medo paralisante do Time Vermelho evaporou, substituído por uma adrenalina focada e perigosa.

Kagura rompeu a linha de frente, não como uma jogadora, mas como uma maníaca. Uma risada distorcida, quase um gorgolejo de prazer antecipado, escapou de sua garganta. — MINHA VEZ!

Ela se atirou de peito aberto contra uma bola curva lançada por Chuya. O projétil vinha oculto dentro de uma nuvem de fumaça densa e sulfúrica, invisível até o último segundo.

CRACK.

A bola atingiu seu ombro esquerdo. O som de osso trincando foi audível. Deveria ser uma eliminação instantânea ou um colapso por dor. Mas Kagura usou o próprio impacto como pivô. Ignorando a agonia, ela girou o corpo violentamente, usando uma adaga curta para "raspar" a bola para cima num ângulo físico improvável, mantendo-a em jogo por um fio de cabelo.

Tenma, trêmula mas obediente, mergulhou num carrinho desesperado e agarrou a bola milímetros antes que ela tocasse o concreto.

Pain Conversion... — Kagura lambeu os lábios, o ombro deslocado estalando de volta para o lugar sozinho enquanto sua aura ficava vermelha. — Prepare-se para receber o Dano Dobrado, idiota.

— Que garota problemática... — Chuya coçou a cabeça, exalando fumaça pelos cantos da boca e acendendo outro cigarro com a ponta do dedo em chamas, como se estivesse assistindo a um filme ruim.

Enquanto isso, nas arquibancadas, Abel, agora envolto em seu novo e exagerado traje de múmia, observava a cena e sentia um calafrio percorrer suas bandagens. — Aha...

Hakurei, ao lado dele, apenas tirou uma mão do bolso. Seu olhar era de tédio absoluto, como quem espanta uma mosca. — Gravidade: Peso Morto.

A realidade na quadra distorceu. A bola nas mãos de Tenma, que pesava gramas, de repente adquiriu a massa de uma âncora de transatlântico.

— AAAAAH! — Tenma gritou. Seus joelhos cederam e o chão sob ela rachou em teia de aranha. Seus braços ameaçavam ser arrancados das articulações.

Mas Shimura já estava em movimento. Ele ajeitou os óculos, que brilharam brancos. — Não tema, cidadão! O reforço chegou! — 2D MANIFEST: LUVAS DE TITÃ!

O ar ao redor dos braços esqueléticos de Shimura falhou, como um erro de renderização. Polígonos de luz wireframe surgiram e se solidificaram instantaneamente. Manoplas mecânicas gigantescas, com design de um mecha clássico dos anos 90 — metal vermelho, parafusos expostos e exaustores de vapor — materializaram-se sobre seus braços.

TSSSS-CLANK!

Pistões hidráulicos de Éter sibilaram. Shimura arrancou a bola pesada das mãos de Tenma com uma facilidade absurda, os servos motores das luvas zumbindo alto para ignorar a gravidade aumentada de Hakurei.

O jogo virou uma tempestade caótica. Dante tornou-se um borrão vermelho, interceptando passes e salvando aliados em três lugares diferentes ao mesmo tempo. Kagura atuava como um escudo humano masoquista, rindo a cada impacto.

A estratégia de guerrilha de Sofia estava funcionando. Eles estavam anulando a força bruta com velocidade, loucura e caos estruturado.

— AGORA! — Sofia gritou, seus olhos brilhando ao sentir o cheiro da virada. — Shimura, use aquilo! O finalizador!

Os olhos de Shimura brilharam por trás das lentes grossas. A trilha sonora imaginária em sua cabeça atingiu o clímax. Era o momento do protagonista.

— 2D MANIFEST: CANHÃO DE PARTÍCULAS — MODELO Z!

O ar ao redor do otaku gritou em estática. Todo o seu estoque de Éter foi drenado num vórtice visível. As duas luvas gigantes se uniram e se fundiram, transformando-se em um canhão futurista colossal, maior que o próprio Shimura, repleto de bobinas de Tesla crepitantes e luzes de neon pulsantes.

Ele encaixou a bola na câmara de disparo. O zumbido de carregamento era ensurdecedor, vrrrrrIIIIIIIM!

— OS OTAKUS... SALVARAM O MUNDO!!! — Shimura berrou, a voz falhando de emoção, e puxou o gatilho.

KABOOOOOOOOOM!

A bola não foi arremessada; foi disparada. Envolta em uma espiral de energia azul perfurante, ela girava como uma broca titânica, rasgando o ar e criando um túnel de vácuo. Não tinha a velocidade da luz de Dante, mas carregava massa destrutiva suficiente para pulverizar um prédio.

O alvo: o coração da formação amarela.

Anna preparou o bastão para tentar um rebatedor suicida, mas uma mão grande, quente e firme tocou seu ombro, parando-a.

— SHIMURA!! — A voz de Kintoki trovejou, sobrepondo-se ao som do canhão. — AH, EU SENTI O SEU ESPÍRITO! ENTÃO MANDA VER!!!!

Kintoki caminhou para a linha de tiro. Ele não assumiu base defensiva. Não flexionou os joelhos. Não cruzou os braços. Não ativou nenhuma aura visível. Ele parou, ereto, o peito estufado, e estendeu a mão direita casualmente à frente, com a palma aberta, no mesmo gesto que alguém faria para pedir parada a um táxi no centro da cidade.

— Ele é louco?! — Dante gritou, parando de correr pela primeira vez.

O "Canhão de Partículas", uma broca de energia capaz de perfurar aço reforçado, colidiu com a palma aberta de Kintoki.

Houve a expectativa de uma explosão nuclear. De uma cratera. De ossos pulverizados e sangue chovendo.

Paft.

O som foi seco. Abafado. Decepcionante. Final.

Não houve recuo. O braço de Kintoki não tremeu. Seus pés não deslizaram um milímetro para trás. A bola, que girava com a fúria de mil furacões, parou instantaneamente no momento do contato com a pele dele. A inércia morreu. A rotação cessou.

A espiral de energia azul do ataque supremo de Shimura dissipou-se como a fumaça de uma vela apagada ao redor dos dedos grossos do gigante de cabelos brancos. Kintoki sorriu, segurando a bola agora inofensiva, como se tivesse acabado de pegar uma pluma caindo do céu.

O silêncio que se seguiu foi mais pesado que a gravidade de Hakurei. Kintoki soltou a bola, deixando-a rolar para longe como lixo, e ajeitou os óculos.

— Eu senti o seu amor — disse ele, a voz ecoando no ginásio mudo. — Mas falta... alma. SEU AMOR AINDA NÃO É CAPAZ DE BRILHAR MAIS DO QUE EU!!!

— O quê...? — O queixo de Shimura caiu. Suas pernas cederam, e as luvas de Éter se desfizeram em partículas de luz.

— Pela Lei da Interceptação Total — A voz de Ryunosuke no alto-falante carregava um tom de choque. — SHIMURA ELIMINADO!

A esperança que Sofia havia construído, tijolo por tijolo, desmoronou em um segundo. Nas arquibancadas, a plateia estava em polvorosa.

— Vocês viram isso?! — um aluno gritou, quase caindo da grade. — Ele parou um ataque com a mão nua.

— Não resta dúvidas. O Time Amarelo é uma anomalia... — Villa-V observava analítica o campo.

Yuki, do outro lado, também observava, mantendo uma expressão neutra. — "O mais incrível é que, mesmo com pessoas tão cheias de ego, a equipe parece conseguir trabalhar em conjunto."

Na quadra, a dinâmica era aterrorizante. Kintoki jogou a bola para cima e Anna a pegou no ar, sorrindo. Chuya cobria a retaguarda com fumaça sem comando verbal. Hakurei mantinha o perímetro gravitacional estável.

— Eles orbitam Kintoki e Anna, num sistema heliocêntrico. Anna é a Rainha que exige perfeição, e Kintoki, o Sol que tudo ilumina. Eles não competem por brilho; eles o intensificam. — Daiki murmurou, com a mão no queixo. — Um estilo completamente diferente das outras equipes até agora...

Sentada nas sombras da última fileira, Mio observava com os braços cruzados, um sorriso nos lábios. — Não é que vocês sejam fracos, Dante... — ela murmurou para si mesma, vendo o rosto pálido do amigo. — Vocês são inteligentes, esforçados e têm ótimas táticas. Isso é fato.

Ela olhou para Kintoki. A aura dourada dele agora pulsava, distorcendo o ar quente ao redor.

— Mas sinto muito... Quando o Kin joga a sério, a lógica vai para o lixo. Não se trata de tática ou inteligência. — Os olhos de Mio brilharam. — Diante dele, só existem duas opções: sobreviver... ou ser esmagado.

Na quadra, Kintoki ajeitou os óculos escuros. Ele apontou o dedo indicador diretamente para o rosto de Dante. — E aí, Lobinho? — O sorriso dele era ofuscante, predatório e insuportavelmente carismático. — Acabou o aquecimento? Porque agora... eu vou começar a copiar o dever de casa.

Dante sentiu um suor frio percorrer sua espinha.

Parte 2

O eco da eliminação de Shimura ainda vibrava nas estruturas metálicas da arena quando Kintoki decidiu que o aquecimento havia, oficialmente, terminado. O sorriso fanfarrão morreu em seus lábios.

Ele tocou a armação dos óculos escuros com o dedo indicador, deslizando-os levemente para a ponta do nariz. Por trás das lentes, seus olhos deixaram de ser os de um bon vivant despreocupado. Suas pupilas se contraíram e dilataram em frações de segundo.

— Observação... — ele sussurrou, dissecando o fluxo de Éter ao seu redor. — Compreensão... — ele decodificou a fórmula matemática da técnica do aliado. — Replicação. — ele reescreveu a própria aura.

As três palavras-chave de seu dom saíram como um mantra mecânico, o som de travas de segurança sendo liberadas dentro de sua mente.

Ele virou o rosto levemente, focando em Hakurei, seu próprio companheiro, que mantinha uma aura de tédio absoluto a alguns metros dali. Kintoki sorriu novamente, mas dessa vez não havia calor; havia apenas dentes brancos e predatórios.

— Ei, Hakurei. Vou pegar emprestado. — Ele falou com seu sorriso de predador no rosto, fazendo um sinal de positivo com o polegar.

A atmosfera gritou. Não foi uma metáfora poética. O ar ao redor de Kintoki distorceu visivelmente, dobrando a luz como o asfalto em um dia de verão infernal. A aura dourada, que antes parecia purpurina inofensiva, ganhou a densidade de chumbo derretido.

CRACK!

O concreto sob as botas dele estalou violentamente, afundando cinco centímetros em um círculo perfeito, esmagado pela pressão atmosférica repentina.

— GOLDEN GRAVITY: STAR PRESS.

Kintoki não se abaixou para pegar a bola. Ele não precisava mais se curvar diante da física. Ele apenas estendeu a mão aberta em direção ao chão, os dedos em forma de garra. A gravidade obedeceu à nova ordem.

A bola, que estava imóvel a dois metros de distância, foi arrancada do solo. Não flutuou; foi sugada. Ela disparou para a palma da mão de Kintoki com um estalo seco e pesado, como se fosse um pedaço de ferro atraído por um ímã industrial de mil toneladas.

THUD.

O impacto da bola na mão dele fez o ar vibrar.

— Espera, ele também consegue usar habilidades?! — Sofia engasgou no banco de reservas, o ar fugindo de seus pulmões como se ela também estivesse sob o efeito da pressão. — Mas essa habilidade… não é do Hakurei?

Enquanto isso, na arquibancada, Mio sorria. "Essa é a especialidade do Kin. Ele costuma lutar usando o físico, pois o treina incansavelmente todos os dias. No entanto, ele não faz isso por não ter uma habilidade própria, mas sim para ter a capacidade física necessária para usar qualquer habilidade que copie."

Dante cerrou os dentes, faíscas vermelhas estalando sobre sua pele. O suor em sua testa evaporava instantaneamente.

Kintoki ergueu a bola. Ela parecia pesar uma tonelada em sua mão, pulsando com energia dourada e roxa.

O jogo recomeçou, mas a definição de esporte havia sido deixada para trás. O que viria a seguir não era uma partida. Era um massacre unilateral.

Kintoki arremessou. Não houve arco. A bola viajou em linha reta, infundida com a gravidade artificial. Dante interceptou o tiro destinado a Tenma, mas o impacto não foi absorvido — foi esmagador. Ele foi arrastado por três metros, as solas das botas rasgando trilhos no concreto, fumaça subindo de suas luvas. — Argh! — Dante grunhiu, sacudindo a mão que parecia ter socado uma parede de aço.

Tenma conseguiu pegar a bola, impedindo que Dante fosse eliminado, mas ao ver o dano que ele havia recebido, ficou paralisada, os olhos tremendo. Ela via Dante se jogando na frente de cada projétil, a pele dele avermelhando pelo superaquecimento. "Eu preciso fazer algo...", a mente dela gritava, histérica. "Mas se eu mostrar minha força... eles vão me olhar com nojo. Vão ter medo. Eu não quero ficar sozinha de novo!"

O medo era uma âncora de toneladas. Paralisada, ela deixou de ser uma jogadora e virou um alvo móvel.

— Que tédio... — Chuya bocejou do outro lado, checando as unhas. — Vamos acabar com o sofrimento deles. Kintoki!

— Copiado! — O gigante respondeu, girando a bola gravitacional no dedo. Chuya tragou profundamente seu cigarro até a brasa brilhar intensamente, e então soprou.

— Cortina de Cinzas: Labirinto Cego.

A granada de Chuya não apenas explodiu; ela devorou o espaço. Uma cortina de fumaça cinza-chumbo expandiu-se violentamente, engolindo a quadra do Time Vermelho em um abraço sufocante. A visibilidade caiu para zero absoluto. O mundo exterior desapareceu, restando apenas um borrão cinzento, o cheiro acre de pólvora e a tensão elétrica no ar.

— Formação Defensiva: Casulo! — A voz de Sofia rasgou a névoa, tossindo, mas desesperada para manter a ordem no caos. Ela mal enxergava a própria mão estendida. — Kagura, assuma o Vértice Frontal! Dante, retaguarda e interceptação! Não se separem!

Kagura obedeceu. Guiada pela adrenalina, ela fincou os pés no concreto. — Podem vir! — gritou ela para o vazio cinzento. — Quanto mais doer, mais forte eu fico!

Vuuuush.

O som cortou o ar antes da imagem. Uma silhueta esférica rompeu a parede de fumaça, vindo direto para o peito de Kagura. Era rápida, mas para os padrões de um tanque como ela? Era lenta. Previsível. Quase um insulto.

— Achei! — Os olhos de Kagura brilharam. Ela cruzou os braços em um bloqueio em "X", endurecendo os músculos com Éter. — Pain Conversion: Ready!

Ela estava pronta para receber o impacto, absorver a energia cinética e devolvê-la em dobro. Era a jogada perfeita para ela.

Mas Dante não viu a bola. Ele sentiu a distorção. Graças ao Overclock elétrico, o mundo de Dante se movia em quadros por segundo mais lentos. O zumbido em seus tímpanos mudou de frequência. Não era o som de um objeto cortando o ar. Era o som de um vácuo sendo preenchido.

Seus olhos heterocromáticos dilataram, focando através da fumaça com precisão cirúrgica. Atrás da primeira bola, perfeitamente alinhada em sua sombra aerodinâmica — aproveitando o túnel de vento criado pela primeira para anular a resistência do ar e o som — vinha uma segunda esfera. Ela não girava. Ela viajava morta, silenciosa, mas pulsando com uma aura dourada e pesada. A gravidade comprimida de Kintoki.

Era o princípio do Pêndulo de Newton. Uma armadilha cinética.

— É UMA ARMADILHA! KAGURA, NÃO BLOQUEIA! ESQUIVA! — O grito de Dante saiu rasgando sua garganta, o tempo parecendo congelar enquanto faíscas vermelhas explodiam de suas pernas para impulsioná-lo.

Tarde demais. A realidade foi mais rápida que o aviso. Kagura recebeu a primeira bola em seus antebraços. — Ha! Fra...

KABOOOOOOOM!

O som não foi de um impacto esportivo. Foi o som de um acidente de carro. A segunda bola — a verdadeira assassina — colidiu com a traseira da primeira bola no exato instante em que esta tocava os braços de Kagura. A física foi implacável. Toda a massa, velocidade e gravidade da segunda esfera foram transferidas instantaneamente através da primeira, multiplicando a força de impacto num efeito chicote devastador.

A defesa de Kagura não foi quebrada; ela foi pulverizada. A garota nem teve tempo de ativar sua habilidade de conversão de dor. O choque massivo atingiu seu esterno, colapsando o ar de seus pulmões e desligando seu sistema nervoso central num piscar de olhos. Seus olhos reviraram para o branco antes mesmo que seus pés saíssem do chão.

Como uma boneca de pano atingida por um canhão, Kagura foi disparada para trás, abrindo um túnel na fumaça com o próprio corpo. Ela rolou inerte pelo concreto até cruzar a linha final.

Dante não parou. Ele estava no meio do salto para pegar as bolas que haviam atingido Kagura. "Se eu pegar, ainda vai dar para salvá-la. Eu posso acordá-la, mesmo que tenha desmaiado, ainda podemos dar um jeito."

Foi quando seus olhos captaram um terceiro movimento na fumaça. Uma bola curva, silenciosa, fazendo um arco impossível guiado pela mão de Kintoki, indo direto para a cabeça de Sofia. Dante travou no ar.

"Se eu for atrás da Kagura, a Sofia cai. Se eu salvar a Sofia, perdemos nosso tanque."

A matemática da batalha era cruel.

ZUUUM! O ar gritou.

Dante não apenas se moveu; ele violentou a própria inércia, torcendo o corpo no meio do salto com uma força que estalou suas juntas. O mundo foi um borrão de cinza e vermelho até ele reaparecer, materializando-se na frente de Sofia como um escudo humano.

A bola curva, um projétil invisível e venenoso, estava a centímetros do rosto dela.

PAFT!

Dante a interceptou, pegando Sofia nos braços e ajudando-a a se esquivar, dissipando a fumaça remanescente e fazendo os cabelos de Sofia chicotearem para trás.

— Você está bem?! — A voz de Dante era exausta. Seu peito subia e descia descompassado, o suor evaporando de sua pele superaquecida. A "Velocidade de Deus" estava cobrando seu preço.

— E-eu... sim... — Sofia estava mortalmente pálida. Seus joelhos tremiam incontrolavelmente. — Mas... a Kagura…

Enquanto Dante colocava Sofia no chão, o silêncio que caiu sobre a arena foi mais pesado que qualquer gravidade. Todos os olhos se voltaram para o outro lado da quadra, onde a fumaça do último ataque se dissipava.

— KAGURA ELIMINADA.

A voz de Ryunosuke cortou os alto-falantes, fria, metálica, sem nenhum traço de empatia. Era a sentença de um juiz executor.

O cenário era desolador. A poeira baixava sobre a derrota. Shimura, com seu poder de fogo, fora. Kagura, o escudo imprevisível, fora. Do Time Vermelho original, restavam apenas os fragmentos: um velocista exausto, uma estrategista aterrorizada, uma bad girl em choque e uma garota hesitante.

No alto, na entrada principal da arena de observação, as portas duplas de aço se abriram com um chiado hidráulico dramático.

O "pelotão dos recuperados" havia chegado.

A atmosfera na arquibancada mudou. Ludmilla entrou primeiro, caminhando com uma elegância aristocrática que ignorava a sujeira da batalha recente. Beatrice vinha logo atrás, com curativos coloridos bizarros no rosto, mas com o olhar ainda afiado. Atrás delas: Kai, Kaiser, Luck e Kurokawa. Eles traziam consigo o cheiro de ozônio e sangue seco.

— Ora, ora... O cheiro de desespero está forte aqui em cima.

Uma voz madura, carregada de ironia e cheiro de antisséptico, quebrou a tensão dos recém-chegados. Baiken, a médica da escola, surgiu das sombras atrás da cabine de comando, jaleco sobre os ombros e um pirulito na boca.

Ryunosuke nem se virou. Seus olhos de predador continuavam fixos na arena abaixo. — O que foi, doutora? Veio assistir porque estava entediante lá na ala médica?

— Pelo contrário. — Baiken se encostou na parede, cruzando os braços. — Não tinha como eu não ficar curiosa com tantos alunos chegando.

— Então sente-se e aproveite a vista. — Ryunosuke tragou seu cigarro. — A cirurgia principal vai começar agora.

Mais abaixo, na grade de proteção, Kai caminhou até o lado de Vivian. Ele não disse uma palavra. Apenas parou ao lado dela, irradiando uma aura intensa e frustração contida. Ele olhou para Vivian por um segundo, seus olhos azuis e intensos, e depois voltou o olhar para o campo.

Com esse mínimo de interação, Vivian já era capaz de ler um livro inteiro sobre o que se passava na mente turbulenta dele.

— A situação do Time Vermelho não é apenas crítica, é terminal — analisou Vivian, a voz calma contrastando com o caos abaixo. Ela tamborilava os dedos na grade metálica. — O Dante está fazendo um bom trabalho tentando cobrir falhas. Mas enfrentar a elite do Time Amarelo enquanto carrega três âncoras... — Ela balançou a cabeça. — Não há futuro para ele nesse ritmo.

Kai observou seu "irmão" na quadra. Dante estava curvado, mãos nos joelhos, tentando puxar ar para pulmões que queimavam.

A mão de Kai apertou a grade de proteção. O metal gemeu, começando a entortar sob a pressão de seus dedos.

— Existe um limite para a força solitária... — A voz de Kai era um rosnado baixo, quase inaudível, uma confissão dolorosa. — Eu aprendi isso do jeito mais difícil…

Ele viu Dante erguer a cabeça, os olhos ainda desafiadores, apesar da exaustão.

— Mas trabalhar em equipe com um time ruim não fará eles magicamente ficarem fortes... — Kai apertou o metal até que ele começou a entortar. — Então me mostre, seu merda. O que você vai fazer quando a velocidade não for suficiente?

Na quadra, a temperatura moral do Time Vermelho despencou para o zero absoluto. Melissa fechava os punhos em frustração. Seus olhos vermelhos encaravam o placar digital como se lessem um obituário.

— Ah... gente? — A voz dela saiu arrastada, carregada de um pragmatismo tóxico. — Acho que já deu, né?

Ela girou o vape entre os dedos, entediada. — É ilógico continuar se quebrando assim. Estatisticamente, acabou.

Sofia virou-se para ela, o rosto manchado de fuligem, atordoada. — O... o quê?

— Olha em volta, "capitã". — Melissa apontou com o queixo para o outro lado da quadra. Kintoki girava uma bola no dedo, radiante como uma divindade intocável. — Se eles eliminarem o Dante ou a Tenma agora, é Game Over. Não temos atacantes. É só um teste de nivelamento. Qual o ponto de continuar apanhando?

Sofia abriu a boca para argumentar, mas sua garganta fechou. A lógica de Melissa era fria, cirúrgica e, pior de tudo, correta. Sofia olhou para suas próprias mãos trêmulas. Mãos inúteis.

Ao lado dela, Tenma baixou a cabeça, a franja escondendo os olhos. Seus punhos estavam fechados com tanta força que as unhas perfuravam a pele. Plic. Plic. Gotas de sangue pingaram no chão da quadra. "É culpa minha... Se eu não fosse um covarde... Se eu fosse útil..."

Foi então que um som quebrou o funeral antecipado. O som de uma sola de bota raspando o concreto. Dante, que estava dobrado com as mãos nos joelhos, ergueu o tronco. Devagar. Mecanicamente. Ele passou o antebraço pela testa, limpando uma mistura de suor e sangue seco.

A atmosfera na arena sofreu uma mutação. Não houve explosão de aura. Não houve grito sobre o poder da amizade. Não houve trovões rasgando o céu. Foi o oposto. Foi como se alguém tivesse apertado o botão Mute do universo.

O rugido da torcida, o zumbido estático dos drones, o vento nos cabos de aço... tudo foi sugado para dentro de um vácuo situado no centro da quadra.

A expressão boba e provocadora de Dante Scarlune desapareceu. O sorriso zombeteiro evaporou. Não havia raiva em seu rosto. Não havia tristeza. Havia apenas um vazio focado. Uma serenidade gélida, predatória e profundamente desconfortável.

Seus olhos heterocromáticos estavam abertos além do normal, as pupilas contraídas como cabeças de alfinete, fixas em um ponto que não existia na realidade física.

— Do que... você está falando?

A voz de Dante saiu baixa, monocórdica, mas viajou pela arena com a clareza de uma lâmina de gelo cortando o ar quente.

Do outro lado, Chuya soltou uma risadinha, já calculando os lucros da aposta. — Hehe, eu tinha começado achando que fiz a aposta errada, mas considerando a situação, parece que vai ser uma vitória fá...

— Não...

Kintoki interrompeu. O sorriso do gigante solar sumiu instantaneamente. Ele baixou os óculos escuros devagar, revelando olhos dourados afiados e sérios.

— Hã? Como assim "não"? — Chuya parou de rir, confuso.

— Não tem nada garantido ainda. — Kintoki sussurrou. Os pelos de seus braços arrepiaram involuntariamente, um instinto de alerta primitivo disparando em seu cérebro.

Até Hakurei, que estava totalmente desinteressado com as mãos nos bolsos, abriu os olhos abruptamente. Ele sentiu.

Na quadra vermelha, Melissa franziu a testa. Ela deu um passo para trás, uma reação inconsciente do corpo tentando se afastar de um predador.

— A gente… ainda não perdeu — Dante continuou.

— Até que o último caia, a batalha continua, eu sei as regras. Mas qual é o ponto? Por que essa obsessão? É só um teste idiota. Vamos ter outros. Não faz sentido lógico se matar aqui! — Melissa falava; ela não estava assustada com a determinação dele, com a loucura. Era mais uma estranheza com a naturalidade dele perante aquilo.

Dante ouvia em silêncio absoluto. A eletricidade vermelha ao redor dele parou de crepitar.

Na arquibancada, Luck apenas observava, totalmente concentrado.

— O nome dele é Dante, não é? — Ludmilla sussurrou, sentindo um calafrio subir pela nuca. — Ele sempre foi assim?

— Não… — Luck respondeu, sem piscar, hipnotizado. — Na maior parte do tempo, ele age como o idiota impulsivo que eu conhecia. Mas às vezes... desde que aconteceu “aquilo”...

— “Aquilo”? — Ludmilla repetiu, curiosa.

Luck apertou a grade de proteção até os nós dos dedos ficarem brancos. — Desde o incidente da Torre Dantes, raramente, quando ele fica assim… eu não consigo evitar e acabo me pegando perguntando: "Afinal de contas, quem diabos é você?"

Melissa insistia, agarrada à sua racionalidade como um escudo. — Dante, me escuta! Você é forte, com certeza deve passar nos outros testes facilmente se não estiver em equipe. Então por que ir tão longe numa batalha perdida?

Dante virou o rosto lentamente para ela. O movimento foi fluido, desumano. O olhar dele atravou as roupas, a pele e a lógica de Melissa, atingindo direto a alma. Não era o olhar de um herói. Era o olhar de uma fera que não caça por fome, mas porque essa é sua natureza imutável.

— Eu é que te pergunto... — ele disse. As palavras não tinham entonação, mas pesaram toneladas no ar rarefeito.

Dante inclinou a cabeça levemente para o lado, uma curiosidade genuína e aterrorizante em sua voz: — Por acaso... você precisa de um motivo para não querer perder?

O tempo congelou. O vape escorregou dos dedos suados de Melissa. Clack. O som do dispositivo batendo no chão ecoou no silêncio mortal como um tiro.

Aquelas palavras simples atingiram a todos como um soco no diafragma. Kai arregalou os olhos na arquibancada. Ryunosuke, na cabine, mordeu o filtro do cigarro.

Sim. A vontade de não perder. Não era sobre glória. Não era sobre notas. Não era sobre lógica ou estratégia. Era o instinto primordial que separava os reis dos peões. O combustível nuclear que movia todo monstro que habitava o topo da cadeia alimentar.

— Não precisa de lógica... — Dante virou-se para frente novamente, caminhando em direção à linha divisória como se fosse passear no inferno. A eletricidade vermelha começou a zumbir baixo, um som de alta voltagem contida prestes a explodir. — Eu só não vou perder. Simples assim.

Na cabine de controle, Ryunosuke soltou a fumaça presa nos pulmões. Um sorriso largo e perigoso rasgou seu rosto. — Aí está... — ele murmurou. — Vamos lá, Scarlune. Mostre-me até onde essa sua fome pode te levar.

Kintoki viu aquele olhar. Aquela chama de determinação inabalável que queimava sem consumir oxigênio. O Golden Boy sentiu um arrepio percorrer sua espinha — não de medo, mas de pura, insana euforia.

— Hah... — Kintoki soltou uma risada curta, seca. — Agora eu entendi. Entendi o que a Mio viu em você.

Ele bateu os pés no chão e assumiu a postura de combate. A aura dourada explodiu ao máximo, o Sol respondendo ao desafio do buraco negro.

— Realmente... Eu não posso comemorar a vitória antes do apito final. — Kintoki sorriu, mas verdadeiramente tenso. — Se eu piscar agora… o brilho desse "vagalume" vai acabar engolindo o do meu sol.

Parte 3

As palavras de Dante não foram apenas um desafio. Foram estilhaços de um espelho quebrado lançados diretamente contra o peito de Tenma.

"Você precisa de um motivo para não querer perder?"

A frase ecoou dentro da garota loira, ricocheteando violentamente contra suas inseguranças. Ela olhou para Melissa, paralisada pela lógica da derrota, e sentiu um horror gelado. "Eu estou fazendo a mesma coisa. Antes mesmo do jogo virar, eu já me curvei." Medo de ser julgada. Medo de sua força monstruosa afastar as pessoas. Medo de falhar e provar que era inútil.

Mas Dante... Dante estava lá na frente, as mãos em carne viva, o corpo no limite, encarando os inimigos "invencíveis" e recusando-se a dobrar o joelho.

"Ele está sangrando por nós... e eu estou aqui, com medo de fazer careta?"

A vergonha queimou mais quente que o medo. O sangue seraphim em suas veias entrou em ebulição. Tenma inspirou fundo, tragando o ar pesado da arena. Ela deu um passo à frente, saindo da sombra segura da parede. O movimento foi brusco, rígido, desesperado.

Melissa e Sofia recuaram instintivamente. A aura de Tenma sofreu uma mutação; a garota assustada desapareceu, substituída pela presença de uma besta encurralada prestes a morder a jugular de alguém.

— D-Dante! — Tenma chamou.

Sua intenção era soar prestativa e confiante. Na realidade, sua voz saiu como um rosnado grave, e seu rosto se contorceu numa carranca tão feroz que faria um Yakuza experiente atravessar a rua para evitar contato visual.

— Hã? — Dante virou-se, ainda focado em Kintoki, os olhos em fendas.

Tenma marchou até ele. Seus passos eram pesados, rachando levemente o piso. Ela parou a centímetros do rosto dele, invadindo seu espaço pessoal com uma intensidade sufocante.

Grrr... Eu tenho um plano. — Ela sibilou por entre os dentes cerrados, tentando desesperadamente controlar o tremor de suas mãos. — E vai funcionar.

Dante piscou, surpreso. Por um segundo, o instinto dele gritou "Perigo: Delinquente Assassina". Mas, então, ele olhou além. Por trás da íris vermelha flamejante e da expressão demoníaca, havia uma honestidade brutal e um pedido mudo, quase infantil, de confiança.

— Um plano? — Dante relaxou os ombros, ignorando a aura homicida que ela irradiava sem querer. — Estou ouvindo.

Tenma inclinou-se e sussurrou rapidamente em seu ouvido. À medida que as palavras saíam, os olhos de Dante se arregalaram. A pouca cor que restava em seu rosto drenou.

— Espera... você tá falando sério?! — Dante sussurrou de volta, incrédulo, olhando para ela como se ela tivesse crescido uma segunda cabeça. — Sabe o que acontece se der errado… né?

— É o único jeito! — Tenma retrucou, batendo o pé no chão. O concreto estalou sob a bota dela. — A menos que você tenha uma ideia melhor para passar por aquilo! — Ela apontou um dedo trêmulo para a fortaleza dourada que era Kintoki.

Dante olhou para a muralha invencível do outro lado. Ele olhou para Tenma novamente, vendo o fogo nos olhos dela.

— ...Tá bom. — Um sorriso nervoso, quase lunático, brotou nos lábios de Dante. — Você é mais maluca do que parece. Eu gosto disso.

— Mas... — A máscara de durona de Tenma falhou por um milissegundo. — Para isso funcionar... a gente precisa da bola. Agora.

— Deixa comigo. — Dante virou-se para a quadra inimiga. A eletricidade vermelha voltou a circular em seu corpo, mais densa, mais violenta. — Você fez a parte difícil de pensar em uma solução. Agora confia em mim. Eu vou pegar aquela bola, de qualquer jeito.

Enquanto o Time Vermelho conspirava nas sombras, a plateia estava elétrica.

— Olha lá... — Mio comentou, debruçada na grade, os olhos brilhando. — A temperatura do jogo mudou.

Ao lado dela, Beatrice bufou. Ela estava com o braço em uma tipoia e curativos de coelhinho no rosto. — Não importa o que ele planeje, a diferença de poder bruto é muito grande.

— Talvez... — Mio sorriu enigmaticamente, observando Dante. — Mas surpresas acontecem quando você encurrala um rato que sabe morder.

Do outro lado da quadra, Chuya estalou os dedos, criando uma pequena chama na ponta do polegar. — Chega de drama. O Dante é um risco para o meu lucro. Kintoki, me dá cobertura.

Chuya preparou o braço para lançar, mas uma mão pálida e gélida segurou seu pulso. O ar congelou. A sombra de Hakurei, que até então parecia uma poça rasa de tédio sob seus pés, expandiu-se subitamente como uma mancha de óleo negro, engolindo a luz.

— Me passa a bola.

A voz de Hakurei não era mais monótona. Ela vibrava com uma irritação contida, um ódio frio e afiado como bisturi.

— Hã? Você? — Chuya recuou, assustado com a mudança súbita na pressão do ar. — Mas você disse que era perda de tempo...

— Eu mudei de ideia.

Hakurei arrancou a bola da mão de Chuya. Ele caminhou lentamente até a linha de frente. Seus olhos, geralmente poços vazios de apatia, estavam fixos em Dante com um desprezo palpável, quase físico.

— "Você precisa de um motivo para não querer perder"... — Hakurei repetiu as palavras de Dante com nojo, cuspindo cada sílaba. — Que pensamento infantil. Arrogante.

A gravidade ao redor de Hakurei começou a colapsar. Pedras soltas do chão começaram a flutuar ao seu redor, sendo pulverizadas em poeira fina pela pressão.

— Quem você acha que é? — Hakurei rosnou, a voz distorcida pela densidade espiritual. — Você acha que "vontade" é suficiente? Acha que o mundo se dobra só porque você se recusa a perder? Pessoas como você... idealistas estúpidos que nunca conheceram o verdadeiro desespero de bater de frente com uma barreira intransponível... são o tipo que eu mais odeio.

A bola na mão de Hakurei deixou de ser vermelha. O objeto foi envolvido por uma esfera de escuridão absoluta — uma microsingularidade. O ar gritou, sendo sugado violentamente para o centro da mão dele.

— Quem diria... — Ludmilla, na arquibancada, arregalou os olhos vermelhos. — Conseguiram fazer ele querer jogar…

— Ele vai matar o garoto. — Baiken, a médica, parou de chupar seu pirulito. — Aquilo não é um arremesso esportivo. É uma execução. Ele está atacando para obliterar.

— Como ele muda quando está motivado... — Megumi, no próprio time de Hakurei, deu um passo para trás, sentindo o instinto de sobrevivência apitar. — É aterrorizante.

Mas no meio do medo geral, Anna apenas observava das costas de Kintoki. Ela olhou para a fúria cega de Hakurei e depois para a determinação silenciosa de Dante.

"Você nem sabe o quanto está errado, Hakurei...", Anna pensou, uma tristeza súbita e madura em seu olhar. "Você acha que ele fala isso por ignorância? Por não conhecer o desespero?"

Na memória de Anna, a imagem de Niklaus apunhalando Nero na frente de Dante brilhou como um flash.

"É exatamente pelo contrário. É por ter mergulhado no fundo do poço que ele age assim. Ele se recusa, acima de tudo, a aceitar aquele gosto amargo novamente."

Hakurei puxou o braço para trás. O ar não apenas se moveu; ele colapsou. O espaço ao redor do punho dele distorceu-se violentamente, dobrando a luz como um espelho de parque de diversões, transformando a bola em um ponto de escuridão infinita.

— DESAPAREÇA! — Hakurei gritou, sua voz ecoando com uma reverberação estranha. — EVENT HORIZON: VOID CANNON!

Ele arremessou. Não houve estrondo sônico. O som foi engolido pela gravidade. A bola não viajou pelo ar; ela devorou a distância. Um buraco negro horizontal rasgou o chão da arena, desintegrando o concreto em poeira atômica e criando um túnel de vácuo absoluto que sugava tudo para o centro.

O destino: o peito de Dante. Kintoki, observando da retaguarda, assobiou, impressionado.

Dante não desviou. Seus olhos, vibrando em supervelocidade, viram o que ninguém mais viu. Se ele esquivasse, a singularidade não pararia. Ela engoliria Tenma, Sofia e Melissa, que estavam congelados de terror logo atrás dele. Ele era a única barreira entre a existência deles e o nada.

— Liberar Arquivo: Overdrive Máximo — Aceleração Temporal x10!

A pressão sanguínea de Dante disparou. Os vasos nos olhos estouraram, tingindo o branco de vermelho carmesim. O mundo ao seu redor desacelerou até parar, tornando-se uma pintura cinza e estática. Apenas a bola negra se movia.

Ele estendeu as duas mãos para a frente, os dedos em forma de garra. A eletricidade vermelha que cobria seu corpo não era mais faísca; tornou-se um fluxo contínuo de plasma denso e superaquecido, criando uma rede eletromagnética desesperada.

O impacto aconteceu.

ZRRRRRRRMMMM!

O som não foi de um corpo sendo atingido. Foi o som da realidade sendo triturada em escala industrial. Quando a bola de gravidade tocou as mãos de Dante, a carne de suas palmas começou a chiar, carbonizar e rasgar.

— GAAAAAAAAAAAAAH!

O grito de Dante não foi de medo, mas de esforço supremo, uma rejeição vocal e gutural da morte. Seus pés, cravados no chão para criar base, rasgaram o concreto armado como se fosse manteiga derretida. Ele foi arrastado para trás.

Um metro. As solas das botas fumegaram. Dois metros. Os ossos dos antebraços estalaram, ameaçando quebrar. Cinco metros. O rastro de destruição marcava o chão da quadra como uma cicatriz aberta.

A gravidade tentava esmagar seus ossos, dobrar seus braços para trás, implodir sua caixa torácica. A dor era excruciante, absoluta, como tentar segurar o núcleo de uma estrela de nêutrons com as mãos nuas.

"Não vou soltar... A pele está queimando... os músculos estão rasgando... Mas eu... não... vou... SOLTAR!"

Dante mordeu a língua com tanta força que o sangue escorreu pelo queixo, o gosto ferroso misturando-se com o ozônio. Ele canalizou cada volt de sua alma, cada milissegundo de tempo que podia roubar do universo, focando tudo na ponta dos dedos queimados para criar atrito contra o abismo.

Ele foi arrastado até o limite. O calcanhar de sua bota tocou a linha branca final. Um milímetro a mais e seria o fim.

Hakurei, do outro lado da quadra, arregalou os olhos em descrença genuína. A arrogância vacilou. — Impossível... Por que você não some?! Por que você não cai?!

— NÃO!

Com um rugido final que rasgou suas cordas vocais, Dante mudou a estratégia. Ele parou de empurrar contra a gravidade. Ele girou o fluxo de seu Éter. Usando a precisão cirúrgica de sua velocidade, ele envolveu a esfera com um campo magnético rotacional reverso, criando uma "gaiola" de raios que forçou a rotação da singularidade a estabilizar pela força centrífuga.

VRAM!

A bola parou. A centímetros do peito de Dante, fumegando, vibrando com a fúria contida e brilhando com um tom violeta instável, a esfera de borracha — milagrosamente intacta graças à proteção rúnica da escola — repousava imóvel em suas mãos queimadas, sangrentas e trêmulas.

Dante estava de pé, na borda do precipício, mas não havia caído.

O silêncio na arena foi absoluto. Nem o vento ousou soprar. Era o silêncio reverente de quem acabou de testemunhar um milagre.

Dante caiu de joelhos, ofegante, o sangue pingando de suas mãos feridas no concreto destruído. Mas ele não largou a bola.

— Pela Lei da Interceptação e Posse... — A voz de Ryunosuke saiu baixa, quase respeitosa, nos alto-falantes. — HAKUREI ELIMINADO!

Hakurei ficou estático. Sua mão ainda estava estendida do arremesso. Ele olhou para Dante, que se levantava tremendo, e depois para suas próprias mãos vazias. A lógica dele havia sido quebrada. O desespero não venceu a vontade.

Tsk... — Hakurei baixou o braço, a aura sombria se dissipando em frustração impotente. Ele virou as costas e caminhou para fora da quadra, sem dizer uma palavra, incapaz de encarar a derrota.

Do outro lado, Dante ergueu o rosto. Suas mãos estavam em carne viva, tremendo violentamente, mas ele segurava a bola contra o peito como um troféu sagrado. Ele olhou para Tenma, que estava com os olhos arregalados em pura descrença.

Dante abriu um sorriso cansado, manchado de sangue, mas genuíno.

— Eu disse que pegava... — Ele jogou a bola suavemente para Tenma. — É a hora do contra-ataque.

Parte 4

Dante caminhou até a linha central. Seus passos não tinham ritmo; eram o arrastar pesado de um corpo quebrado, deixando pegadas úmidas e rubras no concreto cinza. A eletricidade vermelha ao seu redor diminuiu para um zumbido baixo, moribundo, mas sua presença preenchia a arena inteira como gás inflamável.

Ele parou, olhando para Kintoki. O gigante dourado o observava com cautela, mas a arrogância natural ainda transbordava de seus poros como radiação solar.

Dante ergueu a mão ferida, exibindo a bola de borracha chamuscada que sobrevivera à singularidade de Hakurei.

— Ei, Número 1.

Dante sorriu. Não era um sorriso de herói. Era um sorriso quebrado, exausto, mas perigosamente afiado.

— Eu acabei de segurar o ataque mais forte do seu time com as minhas próprias mãos. E você?

Ele estendeu a bola num gesto de oferta, como quem remove o pino de uma granada.

— Tem coragem de receber o nosso também? Ou vai fugir, agora que sabe que eu não consigo mais correr?

O silêncio na arena durou um segundo. O tempo suficiente para uma sinapse disparar.

BWAHAHAHA!

Mio, na arquibancada, dobrou o corpo de rir, batendo a mão na grade de proteção com tanta força que o metal amassou sob seus dedos. — Ah, ele é terrível! — Mio limpava uma lágrima no canto do olho. — Ele leu o manual do Kintoki em cinco minutos!

— Idiota... — Beatrice balançou a cabeça, mas um sorriso de respeito curvava seus lábios. — Atacar o ego de um leão quando ele se sente o rei da selva.

Na quadra amarela, o alarme tático disparou.

— Kintoki! Não cai nessa! — Chuya gritou, avançando um passo. — O Dante mal para em pé! É só desviar e ganhamos!

— SILÊNCIO!

A voz de Kintoki atropelou o aviso de Chuya como um trem de carga. O gigante ajeitou os óculos escuros, que brilharam com o reflexo dos holofotes.

— Fugir? Eu? — Kintoki abriu os braços. Sua aura dourada explodiu, expandindo-se até parecer um segundo sol nascendo dentro da arena. — Acha mesmo que alguém grandioso como eu, Kintoki Sakata, daria um passo para trás diante de um desafio!?

Ele bateu o pé no chão. O piso rachou em teia de aranha. Ele assumiu uma postura defensiva absoluta, fincando-se como uma montanha inabalável.

— PODE MANDAR, LOBINHO! Eu vou engolir o seu ataque e brilhar ainda mais!

— Ele caiu... — Megumi bateu a mão na própria testa, deslizando-a pelo rosto em frustração. — Só tem idiotas com complexo de protagonista nessa sala...

Dante assentiu. A armadilha estava armada. O predador mordeu a isca.

Ele se agachou. Não numa postura de corrida, mas como alguém que prepara um morteiro. Ele colocou uma das mãos por baixo e outra por cima e a segurou firmemente contra o chão, transformando seu próprio corpo na base de um canhão de artilharia.

— É com você, Tenma.

Tenma olhou para ele. Ela viu as costas de Dante, a camisa rasgada expondo cicatrizes, a pele queimada pela eletricidade e pela gravidade. O cheiro de sangue e ozônio era enjoativo. O medo, aquele velho amigo gelado, subiu pela espinha dela, sussurrando fracasso em seu ouvido.

— E-eu... — Tenma gaguejou, as mãos tremendo. "Dante, olha pra você... Se eu usar força total... o recuo pode te matar. E se eu errar?"

As palavras não saíam mais, o medo era visível em seus olhos.

Dante virou o rosto levemente. O olho azul e o olho vermelho a encararam com uma serenidade que acalmou a tempestade dentro dela.

— Tenma. — A voz dele foi um sussurro firme, ignorando o caos ao redor. — Não esqueça. Eu confio em você.

Para Tenma, aquelas palavras foram a chave que destrancou as correntes de sua alma. Ele não estava desviando o olhar. Ele não estava mais com medo. Mesmo naquela situação, ele continuava arriscando sua vida para não perder. Se ele não fugia, ela não tinha o direito de fugir.

— ...Tá bom.

Tenma fechou os olhos. O ar ao redor dela começou a vibrar, emitindo um som agudo, como taças de cristal sendo friccionadas.

— Me desculpa, Dante. Mas tente não morrer.

Dante sorriu. — Manda ver.

Tenma abriu os olhos. A íris vermelha não era mais a de uma humana ou de um demônio comum. Era a geometria sagrada de uma arma viva.

— Liberar Restrição Nível 1: Código Angelus.

A realidade gritou.

VWOOOM!

Uma onda de choque de pura pressão espiritual explodiu de Tenma, varrendo a poeira da arena. O uniforme escolar nas costas dela rasgou-se com o som violento de tecido cedendo ao divino.

Dois apêndices de luz prismática irromperam de suas omoplatas. Não eram asas comuns de penas físicas, mas uma mistura de penas e estruturas geométricas de energia pura, brilhando com um espectro de cores que feria os olhos. Uma auréola complexa, repleta de runas giratórias, materializou-se sobre sua cabeça, zumbindo com um poder antigo e proibido. Marcas luminosas percorreram sua pele, transformando a garota tímida em uma entidade de guerra celestial.

O silêncio na arena foi absoluto. O ar ficou pesado, sagrado e letal. Daiki olhou para baixo, viu as asas e a auréola, revirou os olhos e desmaiou na hora.

— Asas de luz... auréola geométrica... e aquelas marcas pelo corpo... — Luck sussurrou na arquibancada, segurando a grade com força, os olhos vidrados. — Ela é uma Seraphin?!

— Eu não fui informado disso... — Chuya recuou um passo na quadra, o cigarro caindo de sua boca. — Desde quando a Babylon aceita Armas de Guerra como alunos?!

— É LOUCURA TENTAR SEGURAR ISSO! — Megumi gritou para Kintoki, o pânico distorcendo sua voz pela primeira vez. — Kintoki, seu imbecil! Sai da frente!

Kintoki olhou para a forma angelical e aterrorizante de Tenma. O vento gerado pela energia dela bagunçava seu cabelo branco e fazia seu casaco tremular violentamente. O instinto de sobrevivência dele gritava em letras garrafais: CORRA.

Mas o orgulho gritava mais alto.

— Hah... — Kintoki sorriu. O suor escorria por sua têmpora, mas ele não moveu um músculo. — Se achavam que só isso iria me assustar... vocês me subestimam!

Ele ativou tudo. A gravidade de Hakurei para ancorar os pés. A força bruta copiada de Anna. Sua própria resistência lendária.

— PODE VIR! EU VOU AGUENTAR O CÉU INTEIRO SE FOR PRECISO!

Tenma ergueu o punho direito. O ar ao redor de seu braço distorceu. Partículas de luz e Éter foram sugadas para sua mão, condensando-se. Manoplas tecnológicas, feitas de pura energia dourada e branca, materializaram-se sobre seus braços, zumbindo com o poder destrutivo de uma ogiva nuclear contida.

Beatrice, na arquibancada, levantou-se num pulo. — Espera! — Ela apontou para a quadra. — Se ela acertar a bola com essa força, o objeto vai desintegrar instantaneamente! A regra de integridade vai eliminar a Tenma antes da bola sair da mão dela!

A percepção atingiu a todos. O poder era grande demais para o recipiente. Mas Dante, vendo aquilo, sorriu. Em sua mente, o plano de Tenma ecoava.

"Você consegue manipular o tempo de qualquer coisa que toque, certo?" "Sim." "Consegue deixar algo estático? Congelado num único momento?" "Se não for muito grande... consigo." "Então faça isso na bola. Você vai ser o canhão que mantém a munição intacta. E eu vou ser a pólvora."

Dante forçou as pálpebras a se abrirem. O mundo girava. Sangue quente e espesso escorria de seu nariz, pingando sobre a bola em suas mãos trêmulas. Ele canalizou cada gota restante de seu Éter para as pontas dos dedos, envolvendo a esfera.

— TIME LOCK: STASIS ABSOLUTA.

"No meu estado atual, nem o "Deus da Velocidade" eu consigo mais usar... Então isso precisa FUNCIONAR!"

A realidade obedeceu. A bola de borracha parou de vibrar. As cores ao redor dela inverteram-se por um instante. Ela deixou de ser matéria comum e tornou-se um ponto fixo, imutável e indestrutível no fluxo do universo. Uma âncora na eternidade.

Tenma, logo atrás, viu o sinal. As asas de luz em suas costas pulsaram com violência, iluminando a arena. Ela puxou o braço direito para trás, comprimindo o ar, seus músculos retesados como cabos de aço divino.

— VAAAAAAI!

O soco de Tenma conectou.

Z-Z-Z-Z-Z-BOOOOOOM!

Não houve o som abafado de punho contra borracha. Houve o guincho agudo do tecido da realidade sendo rasgado.

A bola, protegida pelo bloqueio temporal de Dante, não deformou nem absorveu o impacto. Como um objeto de massa infinita no tempo, ela recebeu 100% da energia cinética de um Anjo de Guerra e a converteu em aceleração pura.

Dante, segurando a bola até o último nanossegundo para dar a direção, foi afundado no chão pela onda de choque. O concreto explodiu ao redor dele em uma cratera circular, mas ele manteve a mão firme, servindo de trilho humano para o disparo.

A bola viajou. Não foi um borrão. Foi um feixe de luz sólida. Um railgun divino. Um laser horizontal que queimou o ar, deixando um rastro de vácuo fumegante.

Kintoki, do outro lado, viu a luz. Seus instintos gritaram em pânico primordial. — MERDA!

Ele cruzou os braços em 'X', ativando a Golden Gravity não para esmagar, mas para criar uma parede de repulsão máxima. — BARREIRA DE EVENTOS!

O feixe atingiu os braços de Kintoki.

CRAACK!

O som seco de rádio e ulna partindo foi audível até na última fileira da arquibancada. A gravidade dourada foi perfurada como papel molhado. A força do impacto não empurrou Kintoki; ela tentou desintegrá-lo. Ele foi arrastado para trás instantaneamente, as botas rasgando o chão, cavando trincheiras profundas e derretendo o solo da arena com o atrito.

— EU NÃO VOU RECUAAAAR!!! — Kintoki rugiu, sangue espirrando da boca, as veias do pescoço prestes a estourar, tentando parar o cometa com pura força de vontade e orgulho.

— ELE NÃO VAI AGUENTAR! — Chuya gritou, vendo a barreira do líder falhar.

O instinto de equipe falou mais alto que a regra de segurança. Chuya correu. Megumi correu. Os dois se jogaram nas costas de Kintoki, travando os pés no chão, tentando servir de âncoras humanas para impedir que seu rei fosse jogado para fora do tabuleiro.

— SEGURA, SEU IDIOTA! — Chuya berrou, solidificando sua fumaça atrás dos calcanhares de Kintoki para criar atrito extra. — NÃO DEIXA ELE SAIR! — Megumi empurrava com todo o peso do corpo, os dentes trincados.

Três alunos de elite contra a física quebrada de um anjo e um velocista.

Mas a física era cruel e absoluta. A bola, presa no tempo, não perdia velocidade por atrito. Ela não perdia inércia. Ela continuava empurrando com a força infinita do momento do impacto inicial, indiferente aos obstáculos.

Kintoki olhou para frente, através da luz ofuscante que queimava sua retina. Lá longe, no início do rastro de destruição, ele viu Dante caído na cratera, com o braço estendido e fumaçando, sorrindo em meio à dor. Ele viu Tenma, com suas asas abertas, majestosa e terrível.

— Hah... — Kintoki sorriu, os dentes manchados de vermelho, sentindo seus pés tocarem a linha branca final. — Incrível...

A barreira de carne e osso colapsou.

O trio — Kintoki, Chuya e Megumi — foi varrido do chão. Eles não apenas cruzaram a linha; eles foram arremessados violentamente para fora da arena, voando através do ar como bonecos de pano atingidos por um trem-bala invisível.

BUM!

Eles colidiram contra a parede de proteção do fundo do estádio com um estrondo catastrófico que fez a estrutura inteira tremer e poeira cair do teto metálico. A bola, finalmente liberada do bloqueio temporal ao atingir a parede, ricocheteou no metal amassado, perdeu a energia cinética instantaneamente e caiu no chão.

Ploc. Ploc. Ploc.

Ela quicou inocentemente. Intacta. Uma simples bola de borracha vermelha.

Ryunosuke olhou para a cena, o cigarro caindo de sua boca em câmera lenta, esquecido. O estádio estava em silêncio sepulcral. Ele pegou o microfone, a voz ecoando solene como um gongo funerário.

— KINTOKI. CHUYA. MEGUMI... ELIMINADOS!

Parte 5

A arena explodiu. Não foi apenas o som de aplausos; foi um rugido gutural de descrença coletiva, uma onda sonora que fez as estruturas de vidro tremerem.

Veteranos do Quarto Ano, que assistiam com tédio minutos atrás, agora estavam debruçados sobre o parapeito, gritando e debatendo a física impossível do último ataque. — Viraram! — um aluno gritou, sacudindo o colega pelo colarinho. — O time dos desajustados derrubou o "Exército de Um Homem Só"!

Na cabine de comando, Ryunosuke observava a cratera onde Dante estava caído e Tenma arfava. Um sorriso satisfeito, raro e genuíno, curvou seus lábios. — Vontade... — ele murmurou, esmagando a bituca do cigarro no cinzeiro cheio. — No fim das contas, a técnica é escrava do desejo.

— Opa, calma lá, professor. — Baiken, a médica, desencostou da parede. Seus olhos afiados, de quem já viu muitas batalhas perdidas no último segundo, estavam fixos na quadra oposta. — É cedo demais para declarar a vitória.

Ryunosuke seguiu o olhar dela e seu sorriso se alargou, tornando-se predador.

Lá embaixo, a euforia nascente do Time Vermelho foi interrompida pelo som agudo e doloroso de microfonia. KIIIIIIIII!

— ATENÇÃO! — A voz de Ryunosuke cortou a comemoração como uma guilhotina enferrujada. — Parem de festejar como idiotas. Olhem para o placar. O jogo NÃO acabou.

O silêncio caiu sobre o estádio como um manto de chumbo. Todos os olhos se voltaram para o canto da quadra amarela, onde a poeira da destruição de Kintoki ainda baixava. Lá, de pé, imaculada e com uma expressão de fúria imperial, estava Anna. E, ao lado dela, Mirai, chupando seu pirulito com uma calma irritante.

A ficha caiu para o Time Vermelho com o peso de uma bigorna. Eles haviam gastado tudo — mana, estamina, sanidade — para derrubar os titãs. Mas a Rainha permanecia no tabuleiro.

— É verdade... — Dante sussurrou. A visão dele escurecia nas bordas, o mundo girando. Ele tentou dar um passo à frente, mas suas pernas eram feitas de gelatina velha. — Ainda tem... ela.

Anna caminhou até a linha de frente. Ela não tinha medo. Pelo contrário, a eliminação de seu "cavaleiro", Kintoki, parecia ter ofendido seu orgulho. — Vocês realmente começaram a comemorar? — Anna ergueu o queixo, os olhos faiscando. — Kintoki caiu, é verdade. Mas eu ainda estou de pé. E enquanto eu estiver de pé, o Time Amarelo é invencível.

A tensão voltou, sufocante. Dante tentou erguer os punhos sangrentos, forçando um sorriso torto e desafiador. — Pode vir... eu ainda aguento mais um round...

Antes que ele terminasse a frase, seus olhos reviraram. O fio que o mantinha de pé se partiu. O corpo de Dante cedeu à gravidade e ele desabou para a frente, batendo com o rosto no chão num baque surdo e final.

— DANTE! — O grito de Sofia ecoou.

O cenário virou um pesadelo tático. Dante fora de combate. Tenma exausta após o disparo do "Railgun", mal conseguindo manter as asas. Melissa e Sofia sem poder de fogo ofensivo. E, do outro lado, Anna, intocada e transbordando energia.

Foi então que Mirai deu um passo à frente.

Ara, ara... — Mirai olhou para a cratera fumegante onde Kintoki, o ser mais forte da escola, havia sido arremessado como lixo. Depois, olhou para Tenma, que ainda tinha as asas de luz pulsando perigosamente.

Mirai levantou a mão direita. — Eu desisto.

A voz dela foi doce, clara e absolutamente chocante.

— O QUÊ?! — Anna gritou, virando-se para a companheira com os olhos arregalados. — Você enlouqueceu?!

Mirai deu de ombros, sorrindo e tirando o pirulito da boca. — Olha só para aquilo, Anna-chan. — Ela apontou para a destruição na parede do estádio. — Eu sou muito bonita para morrer jovem ou ficar com cicatrizes feias. Aquele anjo ali acabou de disparar um laser temporal que derreteu o chão. Eu não tô a fim de entrar na frente disso.

Sem esperar resposta, Mirai cantarolou uma melodia pop e caminhou calmamente para fora da linha da quadra, eliminando-se voluntariamente.

— MIRAI ELIMINADA POR DESISTÊNCIA! — Ryunosuke anunciou, sem surpresa.

Anna ficou sozinha. O abandono, no entanto, não a abalou. Fez seus olhos brilharem com uma determinação maníaca e solitária. — Ótimo! — Anna girou o bastão de polímero criado, o ar sibilando. — Mais glória para mim. Eu vou acabar com vocês três sozinha e provar que não preciso de ninguém!

A incerteza tomou conta do Time Vermelho. Sem Dante para "congelar" a bola, Tenma não podia usar força total sem destruir o objeto e ser desclassificada.

Tenma mordeu o lábio até sangrar. As asas tremulavam, falhando. A frustração crescia. "Eu sou forte, mas sem o Dante... Se eu errar a força, a bola estoura e nós perdemos."

Ela rosnou, recuando um passo, o medo voltando a crescer como uma erva daninha. Foi quando sentiu um toque. Uma mão pequena, trêmula e suada segurou o braço de Tenma.

GRRR! — Tenma reagiu por instinto defensivo, soltando um rosnado baixo e assustador, virando o rosto monstruoso para quem a tocava.

Sofia estremeceu violentamente. Cada célula do corpo da garota comum gritava para fugir daquele monstro alado que podia esmagá-la como um inseto. Mas ela não soltou. Ela apertou Tenma com mais força. — T-Tenma... — Sofia gaguejou, mas seus olhos estavam fixos nos de Tenma. — O Dante... ele não desistiu. Ele confiou na gente.

Tenma parou. O rosnado morreu na garganta. Ela viu o medo pavoroso nos olhos de Sofia, mas viu algo maior: coragem. A mesma coragem estúpida e ilógica que Dante tinha. — Eu sou fraca... — Sofia admitiu, a voz embargada, lágrimas nos cantos dos olhos. — Mas eu não quero perder. Você está disposta a me ouvir?

Tenma olhou para a humana frágil que segurava a mão de um Seraphin. Ela lembrou-se das palavras de Dante: "Você precisa de um motivo para não querer perder?"

Tenma assentiu devagar, a expressão suavizando. — ... Sim.

Sofia puxou Tenma até onde Melissa estava. A bad girl olhava para Dante desmaiado sendo carregado pelos robôs médicos ao fundo, uma expressão indecifrável no rosto.

Enquanto as três cochichavam no meio da quadra, a arquibancada estava em polvorosa.

— Aquele idiota foi além do limite… de novo — Luck comentou, observando o amigo ser levado.

— Ele já estava além do limite quando segurou a bola do Hakurei — corrigiu Ludmilla, cruzando os braços. — O corpo dele só esqueceu de desligar até agora.

Mais ao lado, Kai observava a maca de Dante passar. Seus olhos azuis, frios como o gelo, queimavam com uma promessa silenciosa. "Eu não vou perder para ele de novo. Nem em força, nem em vontade."

Na quadra, o tempo de estratégia acabou. — RECOMEÇAR! — gritou Ryunosuke.

Anna estava no centro. Ela não era burra. Ela sabia que estava em desvantagem numérica, mas a vantagem de poder de fogo era toda dela. — PODEM VIR! — Anna gritou, a aura brilhando. — Eu não vou cair em truques baratos.

Melissa deu um passo à frente. O olhar de tédio perpétuo havia sumido. "O idiota do Dante tem razão...", pensou Melissa, estalando o pescoço e ajeitando a postura. "Se eu recuar agora... se eu não me esforçar ao máximo depois daquilo… eu é que vou parecer a ridícula aqui."

Na lateral, Villa-V ajeitou os óculos. — Oh?

A bola estava com Tenma. — VAMOS LÁ!

Tenma bateu as asas de luz, levantando poeira. Ela controlou a força. Não usou o poder de um deus para destruir, mas usou a velocidade de um demônio para confundir. Ela disparou a bola em direção a Anna.

Anna sorriu, confiante. — Lento! Eu vejo a trajetória!

A "Rainha" preparou-se. Ela não iria rebater; ela iria pegar e contra-atacar com força letal para eliminar Tenma de vez. Seus olhos seguiram a bola perfeitamente. Ela calculou o ângulo. O vento. A rotação.

— AGORA! — Sofia gritou.

Não foi um comando para Tenma. Foi para Melissa. Melissa, que estava encarando Anna fixamente durante todo o intervalo, ativou sua habilidade no milissegundo crítico, focando sua mente exausta em um único ponto. — Snatch: Visão.

O mundo de Anna apagou. Não houve escuridão gradual. Foi um corte seco, como puxar o cabo da televisão da tomada. A luz, a arena, a bola vindo em sua direção... tudo sumiu no vazio.

— O qu...?! — Anna engasgou. A cegueira repentina causou uma vertigem instantânea e violenta. O cérebro dela entrou em pânico, perdendo a noção de espaço, cima e baixo. Ela tentou recuar, tateando o ar desesperadamente, mas não sabia onde estava a bola. Não sabia onde estava o chão.

PAFT!

A bola arremessada por Tenma atingiu o ombro de Anna com um estalo sólido. O impacto girou o corpo da garota cega. Anna tropeçou, desorientada, e deu dois passos trôpegos para trás, tentando recuperar o equilíbrio em um mundo negro.

BEEEEEEP!

— ANNA ELIMINADA!

O telão gigante acima da arena explodiu em confetes digitais vermelhos e dourados.

🏆 VENCEDOR DA SEGUNDA RODADA: TIME VERMELHO 🏆

Sofia caiu de joelhos, as pernas cedendo, chorando copiosamente de alívio e adrenalina. Tenma soltou um grito de vitória estridente, as asas de luz dissipando-se em penas brilhantes enquanto ela corria para abraçar as duas companheiras, esquecendo-se completamente de parecer assustadora, quase esmagando Sofia no processo.

Melissa apenas sorriu de canto, um sorriso pequeno e raro. Ela pegou o vape novamente com mãos trêmulas de exaustão mental, encostando-se na parede.

Eles haviam vencido. Não pela força bruta, não pelo talento inato, mas porque, quando a lógica dizia para desistir, eles escolheram ser irracionais. Eles escolheram vencer.

Parte 6

E assim, o caos controlado da arena de queimada chegou ao seu fim burocrático.

Assim que o último apito soou, o chão não tremeu por causa de golpes titânicos, mas pela marcha mecânica dos autômatos de limpeza. Golens de serviço, sem rosto e movidos a engrenagens silenciosas, emergiram das paredes. Eles varriam destroços, selavam o concreto rachado com espuma de polímero e, com uma eficiência fria e impessoal, recolhiam os corpos dos alunos caídos como se fossem sacos de lixo reciclável.

O destino deles? A Ala Médica. Ou, como os veteranos chamavam em sussurros aterrorizados: a "Câmara de Tortura".

A Dra. Baiken operava sob uma lógica perversa e irônica. Sua Habilidade, Sacrifício Equivalente, era um milagre da medicina moderna com um custo medieval: ela convertia dor aguda em regeneração celular acelerada. Para curar um osso quebrado, ela precisava infligir um trauma equivalente em terminações nervosas.

A porta da enfermaria se abriu com um estrondo.

— Vamos lá, não sejam bebês! — Baiken sorria enquanto segurava a mão de Chuya. — A dor é a prova de que vocês ainda estão vivos!

— Espere, isso é desnecessári... CRAACK! — AHHHHHH!!!!

Baiken realinhou o dedo deslocado dele com um puxão violento e sádico. — Viu? Já está colando! — Ela sorriu, passando para o próximo.

Infelizmente, para alguns como Tenma e Beatrice, a habilidade de Baiken não era o bastante para recuperá-las totalmente. A resistência natural de suas espécies e suas tolerâncias absurdas à dor tornavam a cura ineficiente.

Isso fazia com que apenas metade do tratamento fosse realizado com o uso dos poderes de Baiken, enquanto a outra parte era feita através da medicina avançada. Felizmente, Babylon também era conhecida pelos seus equipamentos de ponta para o tratamento de feridas e traumas. Mesmo que não fosse tão rápido quanto a cura provida pela habilidade de Baiken, ainda era um tratamento bem mais veloz do que em quase qualquer outro lugar do mundo.

Também existia uma outra desvantagem na cura da habilidade de Baiken: apesar de ela conseguir curar qualquer machucado físico com sua técnica, contanto que o alvo conseguisse sentir dor, infelizmente isso era somente uma cura física. O que fazia com que o cansaço e o consumo de Éter do alvo não fossem restabelecidos magicamente.

Foi esse detalhe pequeno que selou o destino da Grande Final.

A plateia, ainda vibrando com a batalha anterior, esperava um confronto de titãs entre o Time Vermelho e o Time Verde. O que receberam foi um atropelamento triste.

Dante entrou em campo parecendo um zumbi figurante de filme B. Sem Éter para ativar a Velocidade de Deus, sem força nas pernas para correr, ele mal conseguia manter a guarda alta.

— Foi mal, Dante... — Luck murmurou do outro lado, girando uma bola com pena.

POF.

O arremesso de Luck foi preciso, lento e misericordioso. Atingiu o peito de Dante. Na realidade, Dante nem tentou desviar; sua mente ainda estava tão exausta que só terminar de caminhar de volta para o campo de batalha o fez cair no sono.

Eliminado nos primeiros trinta segundos.

Sem seu "Líbero", a defesa de Tenma e a estratégia de Sofia desmoronaram como um castelo de cartas diante da pressão de Ludmilla e de Yuki. O Time Verde venceu. Foi uma vitória limpa, técnica e absolutamente sem brilho.

Para a maioria dos alunos, foi um final "brochante" depois da ópera de violência que foi Kintoki contra Dante. Mas, do alto de sua cabine, Ryunosuke Azazel sorria enquanto apagava as luzes do painel. Para o professor, aquele anticlímax era a perfeição. Ele havia conseguido ensinar uma lição de humildade a pelo menos todos os arrogantes da classe, fazendo quase todos os times passarem por uma pseudoderrota.

Ele havia nivelado a turma por baixo. Ele esfregou o gosto amargo da derrota e da limitação humana na boca de cada prodígio ali presente.

Horas depois, quando a turma finalmente se reuniu no centro da arena reconstruída, o cenário era uma pintura tragicômica renascentista. Anna estava sentada num canto escuro, abraçando os joelhos. Uma nuvem negra de depressão pairava sobre sua cabeça.

— ...golpe de estado... — ela murmurava para o chão, balançando para frente e para trás. — ...minha derrota foi pela falta de lealdade dos vassalos... minha coroa... guilhotina para todos...

Dante, por sua vez, havia sido admitido como membro honorário do "Clube das Múmias". Sentado ao lado de Abel, ele estava coberto de ataduras da cabeça aos pés. Como sua energia estava no zero e o tratamento de Baiken também acabava gastando um pouco da vitalidade do alvo, mesmo com as feridas mais graves curadas, ele tinha que usar as ataduras para as queimaduras que ficaram.

A barriga de Dante roncou. — Droga, eu nem vou tentar ativar minha regeneração antes de comer alguma coisa... se continuar assim, eu vou morrer.

— Ei, Múmia Dois... — Abel sussurrou, sem virar o pescoço rígido.

Hmph? — Dante respondeu, a voz abafada pelas bandagens.

Quando Dante se virou, viu Kagura se espremendo contra Abel em um abraço forte e apertado. — Eu estou deixando você me abraçar só porque eu estou meio triste por conta da derrota, mas não se ache demais. Até uma pelúcia velha serviria no seu lugar! — disse Kagura.

— Pelo menos você não está nessa situação... — Abel suspirou.

Mm-hm — resmungou Dante. — Vê se morre aí, maldito...

— SÉRIO? GRATUITO ASSIM? — Abel gritou, sem conseguir entender.

"Maldito, tá menos machucado que eu, sendo abraçado e ainda quer parecer a vítima... Eu falaria mais alto, mas se xingar ele, provavelmente a Kagura vai terminar de me matar." Dante pensava, sem querer colocar seus pensamentos em palavras.

O som de passos pesados ecoou.

Ryunosuke desceu de sua plataforma. Ele caminhava entre os alunos caídos com as mãos nos bolsos, a fumaça do cigarro desenhando espirais cinzentas no ar parado da arena. Ele parecia revigorado, como se tivesse se alimentado da exaustão coletiva.

— Espero que tenham gostado do aquecimento — disse ele. A voz calma ecoou na arena silenciosa, fazendo Anna parar de murmurar e Kintoki endireitar a postura dolorida.

— Vocês sangraram, quebraram ossos e, o mais importante, tiveram seus egos feridos. Ótimo. Isso significa que a casca grossa quebrou. Agora vocês estão prontos para aprender.

Ele parou no centro exato da quadra. Com um estalo de dedos, relógios holográficos surgiram no ar, contagens regressivas vermelhas flutuando sobre a cabeça de cada aluno.

— A Queimada foi sobre trabalho em equipe. O próximo teste... — Ryunosuke sorriu, e a temperatura da sala pareceu cair dez graus, fazendo o suor frio dos alunos congelar. — ...será sobre algo muito mais primal.

Ele tragou o cigarro, os olhos brilhando no escuro.

— Levantem-se, cadáveres. O Segundo Teste vai começar.

Parte 7

O cheiro de ozônio e suor começava a se dissipar, substituído pela fumaça acre e familiar do cigarro de Ryunosuke. O professor caminhava entre os alunos caídos e os que tentavam se levantar, seus passos ecoando no concreto como o tique-taque de um relógio de contagem regressiva.

— O Primeiro Teste foi sobre Trabalho em Equipe — começou Ryunosuke, parando diante do holograma gigante que exibia os tempos de recuperação. — A maioria de vocês são prodígios. Gênios. Monstros genéticos. Vocês estão acostumados a esmagar obstáculos sozinhos, com uma mão nas costas.

Ele olhou diretamente para Kintoki, que estava sendo enfaixado a contragosto por um robô médico, e depois para Kai, que socava o chão em frustração silenciosa.

— Mas o mundo lá fora... o mundo real dos Caçadores... não liga para o tamanho do seu ego. Existem tetos que o talento individual não rompe. Existem barreiras que só caem quando vocês aprendem a usar a pessoa ao lado como degrau, escudo ou arma. O jogo de queimada provou isso.

Dante, ainda parecendo uma múmia egípcia de mau humor, ergueu uma mão enfaixada e trêmula. — Professor... discurso bonito, nota dez pela retórica. Mas dá para pular para a parte onde a gente come? Meu estômago está digerindo a si mesmo aqui.

— Silêncio, cadáver. — Ryunosuke retrucou sem olhar, mas com um leve sorriso de canto. — Porque agora entra o Segundo Pilar. De nada adianta saber trabalhar em equipe se, individualmente, vocês morrerem na primeira noite fria.

O holograma mudou. A palavra SOBREVIVÊNCIA apareceu em letras vermelhas garrafais, pulsando como um batimento cardíaco.

— O próximo teste é sobre Autossuficiência. Habilidade de combate real, intuição, inteligência, resistência à fome e à loucura. Um caçador que precisa de babá é apenas um cadáver esperando para acontecer.

Ryunosuke enfiou as mãos nos bolsos do jaleco, sua postura relaxada contrastando violentamente com a gravidade de suas palavras. — Para testar isso, a arena escolar não serve. O ambiente controlado, com robôs médicos e suco gelado no intervalo, é o berço da mediocridade. Por isso, vamos fazer uma viagem de campo.

Os olhos dele brilharam. — Para dentro da minha Black Box.

O silêncio que se seguiu foi quebrado por reações mistas.

Black Box? — Sofia piscou, confusa. — Tipo... caixa-preta de avião?

Ao lado dela, Daiki suava frio, mantendo a expressão séria de um veterano de guerra traumatizado. Na mente de Daiki, no entanto, o pânico era absoluto: "Caixa-preta? Deve ser um caixão. Ele vai nos matar e nos enterrar em caixões pretos. É isso. Foi bom conhecer vocês, mãe, pai..."

— Não seja boba, minha linda flor — Ludmilla interveio, ajeitando o cabelo. — A "Black Box" é o ápice da técnica de um Shaper de alto nível. É a criação de um universo de bolso, uma dimensão pessoal baseada em superposição quântica.

— Superposição o quê? — Melissa perguntou, tragando seu vape e soltando a fumaça com tédio, embora seus olhos vermelhos mostrassem curiosidade.

— Basicamente... — Shimura ajeitou os óculos, os olhos brilhando com o fervor de quem finalmente podia usar seu conhecimento otaku. — É uma Expansão de Domínio! Um espaço onde as regras do criador são absolutas e a realidade obedece aos caprichos dele!

— Uma explicação vulgar, mas correta. — Ryunosuke concordou. — Dentro de uma Black Box, as leis da física se curvam à vontade do dono. É um recurso que gasta uma quantidade obscena de Éter e tem um tempo de recarga infernal.

Mio levantou a mão, parecendo uma aluna do primário fazendo uma pergunta inocente. — E qual é a regra da sua caixa, Professor? Vai tirar nossos poderes? Vai fazer chover ácido? Vai nos obrigar a fazer provas de matemática?

— A minha Black Box se chama "O Baú do Colecionador".

Ryunosuke sorriu. Foi um sorriso que fez até os mais corajosos sentirem um arrepio na nuca.

— Eu não crio regras de combate. Eu coleciono lugares. — Ele fez um gesto amplo com os braços, como um maestro apresentando sua orquestra. — Eu viajei o mundo. E sempre que encontrava um local interessante... uma ruína amaldiçoada, um ninho de monstros, uma masmorra esquecida pelos deuses... eu "copiava" a essência temporal e espacial daquele lugar e a guardava.

A atmosfera pesou. Kintoki, que até então parecia entediado com a explicação técnica, endireitou-se. Luck, ao lado de Dante, parou de brincar com sua moeda da sorte.

— Vocês serão enviados para uma réplica perfeita de uma Dungeon de Classe S.

— Classe... S?! — Abel engasgou, a cor fugindo de seu rosto. — Tipo... S de "Supertranquilo", né?

— S de "Se vira ou morre", idiota — Mio respondeu, soltando uma risadinha maníaca que não combinava com seu rosto fofo.

Dungeons de Classe S são territórios de calamidade. — A voz de Beatrice soou grave, a experiência falando mais alto. — Locais onde governos proíbem a entrada de exércitos inteiros. Apenas caçadores de elite entram lá... e nem todos voltam.

Ryunosuke continuou, ignorando o pânico crescente dos alunos "normais" como Sofia e Abel. — A missão é simples: eu vou espalhar vocês em pontos aleatórios dessa Dungeon. Existe apenas uma saída. Eu estarei esperando lá fora, bebendo um café. O teste só acaba quando todos passarem pela porta... ou desistirem.

Ele estalou os dedos. Pequenos dispositivos, semelhantes a relógios de pulso pretos com um único botão vermelho, flutuaram até o pulso de cada aluno, prendendo-se automaticamente.

— Esse é o Botão de Pânico. Se a situação ficar insustentável, se vocês estiverem prestes a serem devorados ou se a mente de vocês quebrar... apertem. Eu teletransporto vocês para fora instantaneamente. Mas saibam: apertar esse botão é uma reprovação imediata e irreversível no teste de sobrevivência.

— E quanto a grupos? — Luck perguntou, sua voz calma cortando o murmúrio. Seus olhos se moveram sutilmente para Kurokawa e Sofia, calculando as probabilidades de proteção.

— É permitido. — Ryunosuke deu de ombros. — Se vocês se encontrarem lá dentro, podem formar alianças. Podem andar em bando. Eu não ligo. Mas... eu deixo um aviso amigável.

O professor baixou o tom de voz, tornando-o conspiratório e venenoso.

— O Terceiro e último teste, que virá depois desse, será de Combate Puro. Um contra um. Torneio eliminatório.

Ele pausou para o efeito dramático.

— Se vocês formarem grupos agora e lutarem juntos para sobreviver aos monstros, estarão revelando seus trunfos, suas fraquezas e seus estilos de luta letais para seus futuros oponentes.

Sofia franziu a testa. — Mas, professor, a gente acabou de jogar queimada. Todo mundo já viu as habilidades de todo mundo. Qual é o segredo?

Ryunosuke riu. Uma risada seca, como folhas mortas sendo pisadas. — Você acha que viu tudo, garota? — Ele balançou a cabeça, decepcionado. — Em um jogo de esportes, existe uma regra implícita de "não letalidade". Vocês se seguraram. Ninguém usou o golpe final.

Os olhos de Ryunosuke varreram a sala, fixando-se em cada aluno perigoso.

— Uma Habilidade usada para marcar pontos é uma coisa. Uma Habilidade usada para matar é completamente diferente. Na Dungeon, os monstros são reais. As réplicas não são controladas por mim. Elas vão tentar devorar vocês. E vocês terão que responder à altura.

Ele sorriu, mostrando os dentes. — Se mostrarem suas "Garras de Matar" agora para proteger um colega, esse colega saberá exatamente onde cravar a faca no próximo teste para te vencer.

A semente da discórdia foi plantada. E germinou instantaneamente. Os alunos começaram a se entreolhar com desconfiança. A confiança no "trabalho em equipe" da queimada rachou sob o peso da paranoia.

— Interessante... — Chuya sussurrou para Miguel, acendendo outro cigarro com os dedos trêmulos de excitação. — Então é um jogo de pôquer. Sobreviver sem mostrar as cartas altas.

Do outro lado, Kai Scarlune olhava fixamente para Dante. O olhar dele não era de preocupação com monstros, mas de um predador esperando a presa mostrar uma perna quebrada. — Ei, Dante... — Kai rosnou baixo ao passar pelo irmão. — Tente não morrer para um goblin qualquer. Eu quero ser aquele que vai te quebrar pessoalmente.

Dante, que tentava tirar uma atadura que estava pinicando dentro do nariz, suspirou cansado. — Que cara intenso... Ei, Vivian, seu irmão não tem um botão de "desligar drama", não?

Vivian, que observava a interação anotando dados em seu bloco digital, apenas deu de ombros sem olhar para cima. — É defeito de fábrica. A garantia expirou e a devolução foi recusada.

Enquanto isso, nas sombras, Layla observava Dante. Seus olhos não piscavam. Ela mordiscava a ponta do dedo até sangrar, uma expressão que misturava adoração religiosa e fome canibal. "Dungeon... Escuro... Labirinto... talvez eu finalmente consiga ficar sozinha com ele..."

— Layla? — Tenma chamou, percebendo a aura perturbadora da colega e se afastando um passo.

Do outro lado, Mirai, chupando seu pirulito, comunicou-se com Yuki apenas com um micromovimento de sobrancelha. Yuki assentiu, imperceptivelmente, a mão já próxima do cabo da lança embainhada.

— Vocês têm quatro dias — Ryunosuke anunciou, olhando para o relógio inexistente em seu pulso. — A comida e a água que vocês têm no corpo agora é tudo o que levam. Cacem ou morram de fome. Durmam ou enlouqueçam.

A névoa começou a subir pelos tornozelos dos alunos. O ambiente começou a distorcer como uma miragem no asfalto quente. O teto metálico da escola foi substituído por um céu de pedra úmida e gotejante, coberto de musgo luminescente. O cheiro de limpeza e antisséptico deu lugar ao cheiro de mofo, sangue antigo e terra molhada.

— Ah, e mais uma coisa. — Ryunosuke sorriu, sua imagem começando a desvanecer enquanto a Black Box assumia o controle da realidade. — Cuidado com o que espreita no escuro. Nessa minha coleção... algumas peças mordem bem forte.

— Espera, eu não tô pronto! Eu preciso ir no banheiro! — Daiki gritou, desesperado.

— Boa sorte, Classe -13. O inferno está de portas abertas.

VWOOOM.

A realidade colapsou. O chão desapareceu sob os pés de Dante, Anna, Luck, Kintoki e todos os outros. A sensação de queda livre durou um segundo eterno, um vácuo no estômago, e então, a escuridão os engoliu, separando-os e espalhando-os como sementes ao vento pelas entranhas da masmorra.

Quando Dante abriu os olhos, o som familiar do ventilador da escola havia sumido. No lugar dele, ouvia-se apenas o gotejar distante e rítmico de água batendo em pedra e... um rosnado baixo, gutural, vindo de algum lugar muito próximo na escuridão densa.

Ele estava sozinho. Sem comida. Sem água. O corpo ainda doía, coberto de bandagens. Dante sorriu, ajeitando as faixas em seus punhos queimados. O medo tentou entrar, mas foi barrado na porta pela excitação.

— Beleza...

Seus olhos heterocromáticos brilharam no breu, adaptando-se à penumbra letal. — Hora do recreio.

Entrelinhas 

No vasto e silencioso teatro do universo, a sanidade não é a regra. É um acidente estatístico.

Você está confortável? Deveria estar. Pois o que vou lhe contar é a história de como a lógica fria e imutável da realidade foi estripada, não por deuses, mas por nós. Começou no instante em que a humanidade tocou o Éter.

Não pense no Éter como energia. Energia é algo que se mede, se gasta. O Éter é a essência pura da alteração. É o câncer na medula da existência.

Para os devotos de Gaia, aqueles de joelhos esfolados e testas marcadas pela poeira das orações, o Éter era a falha na matriz divina. Uma cicatriz purulenta na perfeição da Criação. Ou talvez, algo pior: a ferramenta deixada propositalmente pelo Diabo para ver o homem se engasgar com a própria ambição. Para eles, dobrar a realidade não era progresso; era a heresia suprema.

A Ciência, claro, riu. Olhou através de seus telescópios, cega pela arrogância da razão, e viu apenas números. "Uma variável", disseram. "Algo a ser domesticado". Mas a razão é frágil quando confrontada com o abismo. Sob o pretexto do avanço, o Éter destrancou portões que deveriam permanecer selados. Vidas artificiais que choravam sem alma, quimeras costuradas em pesadelos biológicos, genocídios industriais eficientes demais para serem humanos.

Nicolau Maquiavel sussurrou do túmulo, e o eco de sua voz cínica nunca foi tão alto: "Dê poder ao homem, e descobrirá quem ele realmente é."

O mundo se partiu. De um lado, o medo do pecado; do outro, a ganância do progresso. Mas essa divisão infantil ruiu no ano de 16.850.

Foi o ano em que o silêncio gritou.

Não houve ferreiro. Não houve magia. Apenas o metal frio de uma espada esquecida que, banhada em Éter suficiente, despertou. Imagine o horror de segurar um objeto e sentir, na palma da mão, um batimento cardíaco onde deveria haver aço. A arma ganhou consciência. Ganhou vontade. Uma Alteração Espontânea.

O choque não apenas abalou a fé e a ciência; ele as dissolveu. Os religiosos tremeram: "Se o Éter cria vida do nada... seria ele a própria carne de Deus?" Os cientistas entraram em colapso: "Se a pedra pode sonhar, o que nos difere dela? Somos reais ou apenas minerais com delírios de grandeza?"

A nova verdade foi talhada na história com sangue: O Éter é a mudança. Tudo o que ele toca — pedra, metal, carne ou osso — está condenado a evoluir ou se distorcer.

E então, em 17.250, a realidade nos pregou a peça final. A maior de todas as mentiras foi dissecada.

O chão sob seus pés... você confia nele? Não deveria. Hortus Parvus. O lar da humanidade. Descobrimos que ele era uma impossibilidade física. Um corpo celeste colossal, com a massa de uma estrela anã vermelha, desafiando todas as leis orbitais. Ele não deveria existir. E, no entanto, lá estava ele, pulsando. O núcleo não era ferro e níquel. O coração do planeta era Éter puro. Hortus Parvus não era uma rocha flutuando no vácuo.

Era um organismo. Um leviatã adormecido, mantido coeso por sua própria vontade gravitacional terrível.

A humanidade entendeu, tarde demais, sua insignificância. Não somos os donos da terra. Somos parasitas. Ácaros vivendo na epiderme de um monstro cósmico, existindo apenas porque a besta ainda não decidiu se coçar.

O Iluminismo morreu na escuridão. Perguntas de filósofos bêbados tornaram-se o pânico dos sóbrios. O planeta continuava a crescer, expandindo-se como um tumor divino, criando novas leis, novas terras, novos horrores. "Nova Vida".

Aqueles que olharam para esse abismo e decidiram pular, trocando a sanidade por respostas que talvez nem existam, não foram chamados de heróis. Nem de sábios. Eram apenas Caçadores.

E assim, iniciou-se a Era da Caçada ao Desconhecido.

...Mas isso é história antiga. Vamos falar do agora. Olhe através da lente. Estamos dentro da Black Box de Ryunosuke Azazel.

O professor, em sua soberba de colecionador, acreditou ter copiado um cenário. Uma Dungeon de Classe S, estática, controlada, arrancada das areias de Alexandria. Ele replicou as pedras. Replicou o ar. Replicou a história. Mas o Éter... ah, o Éter não respeita cópias. Ele odeia o estático.

No centro desse labirinto artificial, Ryunosuke trouxe uma árvore. No mundo real, as raízes dessa árvore haviam bebido o sangue de mil guerras. Ela era um arquivo vivo, um monumento de celulose encharcado com o Éter de milênios de sofrimento humano. Ao trancá-la dentro da Black Box — um universo de bolso feito de Éter superconcentrado e isolado do fluxo temporal — Ryunosuke não criou um campo de treinamento.

Ele criou uma incubadora. Uma panela de pressão evolutiva.

Enquanto Dante, Tenma e os outros dão seus primeiros passos na penumbra, achando que enfrentarão monstros, a atmosfera muda. Você sente o cheiro? Não é cheiro de mofo. É cheiro de cobre. De sangue.

Nas profundezas, as raízes da árvore antiga pulsam. A casca não se quebra com o estalo seco da madeira; ela se parte com o som úmido de carne sendo rasgada. O Éter acumulado por eras, misturado à memória genética do terror humano que ela absorveu, encontrou uma forma.

Não é um monstro. Não é um humano. Não é uma planta. É uma Alteração Espontânea nascida do desejo faminto da própria Dungeon.

Nas sombras, pálpebras que nunca deveriam existir se abrem. Olhos leitosos e frenéticos piscam pela primeira vez na escuridão. Eles não querem apenas ver. Eles querem entender. E para entender... eles precisam provar.

O Segundo Teste de Ryunosuke começou.


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