The Fall of the Stars: Capítulo 5 - Pirata Galáctico
- AngelDark

- 16 de jul. de 2025
- 67 min de leitura
Atualizado: 2 de ago.
Volume 5 : Trem Escarlate
Parte 1
O Trem Escarlate rasgava a nevasca impiedosa, os motores roncando como uma besta de ferro em agonia enquanto a composição deixava os limites gelados de Invel para trás. No interior de um dos longos corredores metálicos, a vibração constante do chão sob as botas de Dante e Kai servia de pano de fundo para um clima no mínimo bizarro. O ar cheirava a ozônio e metal frio.
Os dois estavam parados lado a lado, encarando sem piscar a figura exótica à frente. O homem mantinha uma postura teatral, o queixo erguido e os olhos fixos no vazio do teto, discursando com a profundidade cênica de um filósofo trágico.
— Não acham ridículo? — O estranho suspirou, as mãos desenhando gestos suaves e ensaiados no ar. — Dizem por aí que nós, os Scarlunes, somos os seres mais livres que existem no universo, simplesmente porque criamos as nossas próprias regras e não estamos presos a culturas ou ideologias externas. Mas eu discordo veementemente. Nós não alcançamos uma verdadeira liberdade enquanto continuarmos presos a conceitos medíocres como "bem" ou "mal". Para começo de conversa, quem é que define isso? O que é realmente bom? O que é realmente mau? Se algo considerado maligno for feito por um motivo nobre, isso faria esse ato se tornar bom... ou ele continuaria sendo mau por conta das suas consequências?
Dante piscou. Sua expressão permaneceu perfeitamente vazia. Ele trocou um olhar pesado com Kai e voltou a encarar o homem, o balanço do trem parecendo não afetar o equilíbrio de nenhum dos três.
— É sério, cara... — Dante coçou a nuca, a confusão estampada no cenho franzido. — Quem é você e por que caralhos tá fazendo um monólogo filosófico do nada no meio do corredor?
O garoto de mechas vermelhas tombou a cabeça para o lado, espiando o companheiro de viagem.
— Esse cara é algum conhecido seu, Kai?
Kai revirou os olhos com tanta força que doeu. A veia da irritação já pulsava, grossa e aparente, na lateral de sua testa.
— Até parece que eu vou saber quem é esse palhaço, seu merda! Não me envolva com os seus problemas aleatórios!
No mesmo instante, o estranho desmoronou. A pose dramática escorreu pelos ombros caídos, e ele coçou a bochecha, soltando uma risada sem graça que quebrou completamente a tensão etérea que tentava criar.
— Ah, foi mal, foi mal! É que eu fico tentando imitar o jeito do Gaji de falar, mas acho que realmente não consigo passar aquela mesma presença imponente que ele tem. — O homem soltou um suspiro derrotado. — Acho que não sirvo mesmo para ser um recrutador.
Dante estreitou os olhos.
— Recrutador? Recrutador do quê?
O homem, Shisui, endireitou a coluna. Os lábios se esticaram em um sorriso largo, afiado e perigoso.
— Dos Piratas Galácticos, é claro! Por que você não se junta a nós, pirralho? Eu já percebi de longe que você tem os instintos e a intuição natural de sobrevivência que serviriam perfeitamente ao nosso lado. Como eu sou um Capitão de Unidade, poderia te colocar fácil, fácil no meu navio.
Piratas Galácticos? Dante pensou, o eco da palavra soando absurdo em sua mente.
Ao seu lado, Kai estalou a língua no céu da boca. Os olhos do clone se estreitaram, um lampejo de reconhecimento afiado cruzando suas íris.
— Então você é o famoso Shisui.
Dante se virou num solavanco, a indignação borbulhando na garganta.
— Pera aí, então você conhecia ele mesmo, seu mentiroso?!
— EU SÓ OUVI FALAR DELE, SEU MALDITO! — Kai berrou, os punhos cerrados antes de voltar o rosto hostil para o homem à frente.
O autoproclamado pirata os encarava com um sorriso sereno. Era uma expressão pacífica, quase gentil, que destoava grotescamente da presença opressiva e predatória que começava a vazar dele, preenchendo o corredor metálico.
— Alguns anos atrás... — Kai começou a explicar, a voz tensa cortando o barulho das engrenagens do trem —, quando a fabricação de naves menores foi agilizada pelo polo de tecnologia em Elysium, aparentemente houve uma onda absurda de ataques e roubos no espaço. Apesar do grupo responsável antes ser conhecido apenas como uma das infames Gangues Violetas — formadas por Caçadores Renegados —, eles roubaram naves e se autoproclamaram "Piratas Espaciais". E esse cara... Shisui, era um dos Scarlunes que estava entre eles.
Dante processou a informação em silêncio. As engrenagens giravam em sua mente, unindo as pontas soltas.
— Não sei se entendi muito bem a lógica da coisa, mas tô começando a sacar o nível do problema. — Dante mediu Shisui de cima a baixo. — Mas que papo é esse de "Caçador Renegado"? Vinte anos atrás, não existia esse termo.
O sorriso de Shisui amoleceu em algo nostálgico.
— É verdade. Você não estava entre nós para saber das mudanças políticas, garoto. Antigamente, os Caçadores Renegados eram chamados de algo muito mais dramático: a Lista Negra.
— Oh! — Dante ergueu as sobrancelhas, a ficha caindo. — Então eles cresceram tanto que ganharam um novo nome…
Kai virou o rosto, o nariz torcido em puro nojo.
— Que merda é Lista Negra?
— Antigamente, existiam tão poucos de nós — Shisui explicou, o tom suave acompanhando o deslizar do trem pelos trilhos congelados —, que a Agência dos Caçadores classificou todos aqueles que ousavam se rebelar contra as Leis da Guilda, que desobedeciam ordens diretas ou que cometiam tabus proibidos, como membros da "Lista Negra". Nós perdíamos todos os direitos legais. Éramos expulsos de todas as guildas e tínhamos os nossos nomes e rostos marcados em um mural público de caça para o mundo inteiro ver e tentar a sorte. E sabe o motivo disso tudo? Tudo porque a Guilda e a Agência eram fracas e incapazes de aceitar a nossa verdadeira liberdade de escolha.
Dante cruzou os braços, a postura defensiva e rígida.
— "Liberdade"? — o garoto rebateu, cético. — Olha, eu não sei se eu chamaria o que o pessoal da antiga Lista Negra faz de liberdade, cara. Se eu não me engano, muitos deles causaram genocídios pesados, mataram os seus próprios clientes a sangue frio e até foram acusados de terrorismo nacional.
— Mas está no direito primordial de todo ser vivo escolher fazer algo assim ou não — Shisui respondeu com uma naturalidade assustadora, como se discutisse o clima.
— Você tá completamente louco.
— É sério? — O sorriso de Shisui desapareceu.
A mudança foi microscópica na musculatura de seu rosto, mas o efeito no corredor foi devastador. A temperatura do ar não caiu, mas o alarme biológico de Dante e Kai apitou com tanta violência que o som dos motores do trem pareceu sumir. Involuntariamente, as botas de ambos rasparam no piso de metal, dando um passo trêmulo para trás.
O olhar de Shisui havia se tornado um abismo denso, sombrio e oco. Era o olhar cru de um psicopata absoluto; uma criatura que genuinamente não enxergava peso moral ou textura ao extinguir vidas.
Mas, tão rápido quanto a pressão esmagadora surgiu, ela evaporou. O ar voltou aos pulmões de Dante num solavanco quando Shisui voltou a adotar a expressão calma e divertida de antes.
— Não, garoto. Você não me engana. — O pirata esticou o braço, apontando o dedo indicador diretamente para o rosto de Dante. — Eu consigo ver nitidamente através dos seus olhos. Me diz... você, por um acaso, não estaria pensando em cometer um Tabu?
O coração de Dante falhou uma batida. No escuro de sua mente, a imagem de Nero — fria, pálida e sem vida — brilhou como um clarão. Sem perceber, a mão do garoto de mechas vermelhas se fechou em um punho tão apertado que os nós dos dedos estalaram. Ele travou o maxilar. Não disse uma única palavra.
Não precisou. Tanto Kai quanto Shisui capturaram a reação visceral no ar.
— Eu não disse?! Hahahaha! — Shisui jogou a cabeça para trás, gargalhando e batendo palmas em pura euforia. — Eu sabia! A minha intuição apitou feito um radar assim que eu bati o olho em você, garoto! Esqueça dessa bobagem de brincar de Caçador honesto na Guilda. Enquanto você ficar andando com eles, o seu progresso sempre vai estar acorrentado a um limite óbvio e moralista. Vem logo para a liga profissional, garoto! Com a gente, você vai se divertir muito mais!
Respirando fundo, Dante forçou os músculos da mão a relaxarem, desfazendo o punho, mas não baixou a guarda de seu olhar.
— Eu duvido muito que conseguiria o que eu tô procurando andando com um bando de piratas espaciais.
— Ah, é sério? — Shisui ergueu uma sobrancelha, o tom carregado de um desafio brincalhão. — Por que não me testa? Saiba que, apesar dessa minha cara, eu sou um cara estupidamente bem informado. As estrelas sussurram muitos segredos para nós.
Dante o encarou profundamente. O instinto afiado do garoto — o exato mesmo radar interno que o manteve inteiro durante a tempestade magnética de Chyon — cravava em sua espinha que Shisui não estava blefando. O homem sabia de coisas.
Sentindo o peso da decisão na garganta, e hesitando levemente pela simples presença de Kai ali, ouvindo tudo, Dante abriu a boca. O som das engrenagens do trem engoliu a pausa antes de sua voz soar.
— Você sabe como trazer alguém de volta à vida?
Kai engasgou. O clone arregalou os olhos em puro choque, o pescoço estalando ao virar o rosto tão rápido para Dante que quase destroncou.
Shisui piscou. Pela primeira vez, a surpresa em seu rosto pareceu genuína, logo substituída por tédio.
— Então era isso? — O pirata estalou a língua no céu da boca, desapontado. — Tsk. Eu achei que fosse algo um pouco mais interessante e inovador, sabe?
— Eu sabia que não valia a pe— Dante rosnou, o corpo já girando para dar as costas e ir embora.
— Mas — Shisui o cortou, o dedo indicador saltando no ar —, seja o que for, como eu acabei de dizer, eu não julgo a sua liberdade de escolha! Seja para trazer alguém de volta à vida, seja para causar o apocalipse no continente, não é da minha conta. E, por uma incrível coincidência do destino... na realidade, eu tô sabendo, sim, de três coisas que podem muito bem te interessar.
Dante travou no lugar. As botas plantadas no piso vibrante. Ele se virou de volta para o pirata, as íris rubras arregaladas com o choque elétrico da esperança.
— Mas... — Shisui cruzou os braços e o sorriso largo rasgou seu rosto, predatório e felino. — Se eu for abrir a boca e te contar, você vai ter que fazer um certo "exame" pra mim.
— Que tipo de exame? — Dante questionou de imediato, as defesas disparando de volta ao topo.
Shisui abriu os braços no corredor do trem, saudando um público invisível como um mestre de cerimônias.
— Para ver se você é alguém que realmente vale a pena ser convidado para a minha tripulação! Não é óbvio?!
O corpo inteiro de Dante gritava. Cada célula, tendão e alarme biológico em sua mente de Caçador berrava que não sairia absolutamente nada de bom daquela interação; que ele estava caminhando de olhos vendados em um campo minado segurando a mão de um lunático da Lista Negra.
Mas... finalmente.
Depois de tanto tatear na completa escuridão, finalmente ter acesso a alguma informação real sobre como reviver Nero — por menor e mais banhada em perigo que fosse — era uma isca suculenta, sangrenta e tentadora demais para ser ignorada.
Parte 2
Em outro corredor, já bem próximo às portas duplas do vagão restaurante, o caminhar de Anna era arrastado. O som metálico e ritmado das rodas batendo contra os trilhos parecia distante, abafado pelo zumbido exaustivo de seus próprios pensamentos.
"Você é a maldição dele."
As palavras ecoavam, repetitivas e cruéis. Anna parou diante do vidro espelhado de uma das janelas do corredor. Encarou o próprio reflexo tremeluzente, os olhos escurecidos por uma melancolia silenciosa. Eu já sabia disso, ela pensou, os dedos apertando o tecido da própria blusa com tanta força que os nós ficaram brancos. Não preciso que você ou ninguém fique me contando o óbvio.
Do outro lado do vidro, a paisagem passava em um borrão veloz. Aos poucos, a brancura densa e gelada do inverno de Invel ficava para trás, engolida por uma paleta alaranjada e rústica, típica de outono. Entre a transição abrupta das árvores, silhuetas de animais exóticos e monstros vagavam pelas planícies, iluminados pelo brilho fugaz de pequenas fadas.
É realmente como ele se lembrava... Anna refletiu, observando a mudança drástica na vegetação. Por causa das anomalias na força magnética, algumas regiões de Threshold espremiam climas completamente diferentes lado a lado, desafiando a lógica natural.
Sua mente, no entanto, não conseguia se ancorar no cenário. A imagem de Dante voltou a invadir seus pensamentos, trazendo um nó físico e apertado na garganta. Ela cruzou os braços, protegendo o peito, frustrada consigo mesma. Por que isso está me abalando tanto? Eu sempre soube que as coisas poderiam ser exatamente assim.
— VAMOS COMER, ANNA!
O grito estridente estourou em seus ouvidos junto de um solavanco brutal. O ar fugiu de seus pulmões quando Mio, em sua forma infantil, saltou em suas costas. A garota se agarrou a ela como um coala hiperativo, rindo e distribuindo mordidinhas rápidas de brincadeira em seu ombro.
A expressão abatida de Anna mal vacilou. Ela forçou os cantos da boca a subirem e virou o rosto para a garotinha pendurada em seu pescoço.
— Ah... foi mal, Mio. Acho que eu acabei ficando sem fome.
O movimento nas suas costas cessou. Mio parou de pular. A garota de cabelos vermelhos a encarou em um silêncio pesado por um segundo, os olhos cerrando-se em pura irritação, até abrir a boca e desferir uma mordida afiada — de verdade — no topo da cabeça de Anna.
— AI, AI, AI! O que você tá fazendo?! — Anna chiou, as mãos subindo para tentar soltar a garota.
No milésimo de segundo seguinte, a gravidade e a massa mudaram drasticamente. O peso nas costas de Anna se multiplicou quando Mio retornou para sua forma normal de adolescente. A ruiva envolveu Anna por trás com uma força avassaladora e jogou o próprio peso para trás. As duas despencaram. O impacto das costas contra o piso do corredor ecoou em um baque surdo, e Mio comprimiu as costelas de Anna em um abraço de urso esmagador.
— TEMPO! TEMPO! — Anna engasgou, batendo a palma da mão repetidas vezes no chão metálico. A pressão em seu tórax bloqueava qualquer resquício de oxigênio. — Eu tô... ficando sem ar!
Mio finalmente a soltou. Anna rolou para o lado no mesmo instante, tossindo e puxando o ar com desespero enquanto se apoiava nos joelhos para levantar.
— Mas que diabos você acha que tá fazendo?! — Anna esbravejou, o rosto vermelho pelo esforço e pela indignação. — Tá querendo me matar de asfixia?!
Mio não sorriu. A postura relaxada evaporou, substituída por uma expressão sombria e afiada que paralisou Anna.
— Eu é que te pergunto. Que olhar é esse no seu rosto? — A Gifted apontou o dedo, o tom de voz perdendo de vez qualquer traço infantil. — Esse tipo de olhar desesperado e morto não é coisa sua. Não faça ele.
O instinto defensivo de Anna disparou, e ela rebateu, irritada:
— Que bobagem é essa?! Vai tentar me matar só porque eu olhei pra janela com um olhar meio triste?! Isso nem faz sentido!
— Você não tá mais daquele jeito, não é? — Mio retrucou, a voz ríspida e afiada cortando as desculpas ao meio.
— Bom... — Anna recuou um passo, gaguejando, o olhar fugindo em direção ao piso.
Mio não deixou. Encurtando a distância com um passo firme, ela ergueu as duas mãos e agarrou as bochechas de Anna com força, travando o rosto da garota no lugar e obrigando-a a encará-la.
— Presta muita atenção. Você está viva. Não morta. — Mio declarou, cada sílaba soando como uma sentença inegociável. — E, como você está viva, você precisa continuar vivendo. Você não pode esquecer disso, entendeu?!
Anna tentou se desvencilhar, segurando os pulsos da amiga, ainda atordoada.
— Do que você tá falan...
Mas as palavras morreram antes de sair. Ao olhar fundo nos olhos de Mio, Anna percebeu que não era só mais uma brincadeira excêntrica ou um surto aleatório. Não havia sarcasmo nas íris da ruiva. Mio não estava falando da boca para fora; havia um peso genuíno, uma urgência cravada de instinto protetor naquela bronca violenta.
A resistência derreteu. Anna fechou os olhos por um segundo, deixando um suspiro longo e trêmulo escapar, esvaziando a tensão de seus ombros.
— Tudo bem — ela sussurrou, a fisionomia finalmente suavizando, deixando a defesa cair.
Satisfeita, Mio soltou seu rosto. Como se um interruptor tivesse sido acionado, o sorriso largo, faminto e ensolarado retornou aos lábios da adolescente, ignorando completamente o clima denso de segundos atrás.
— Certo! Agora sim, vamos comer! — Mio comemorou. Seus dedos se fecharam ao redor da mão de Anna, arrastando-a sem cerimônia em direção às portas do vagão restaurante.
Anna deixou-se puxar pelo corredor vibrante. Ela balançou a cabeça em silêncio, e um sorriso leve, inegavelmente resignado, despontou em seu rosto.
— É... acho que eu não tenho escolha.
Parte 3
Acomodadas em uma das cabines estofadas do vagão restaurante, o aroma enjoativo de açúcar e massa frita misturava-se ao zumbido rítmico dos trilhos. Ali, Anna finalmente abriu o peito.
Ela confessou a Mio a verdade nua e crua: era, de fato, o avatar do Astreus. Para conseguir se manifestar e cruzar para aquele mundo, precisara usar Dante como uma espécie de âncora. Quando tomou essa decisão no passado, tudo não passava de um cálculo. Era matematicamente aceitável. Ela sabia que o processo exigiria um custo elevado e que os outros Astreus a caçariam mais cedo ou mais tarde. Anna conhecia a fundo a natureza de sua "família"; sabia exatamente como a equação terminaria. E, até então, nunca tinha se importado.
O problema é que o tempo passou, e uma mudança silenciosa criou raízes em seu peito. Anna passou a se preocupar. Pela primeira vez, sentiu o gosto amargo de rejeitar o próprio destino. E quando ouviu da própria Vida que ela era o ímã atraindo toda aquela desgraça — um peso morto, uma maldição cravada nas costas de Dante —, a revelação a atingiu como um soco no estômago. Anna não fazia ideia de como o garoto reagiria à verdade. Sequer sabia se devia abrir a boca.
Durante toda a confissão, Mio focou no essencial: devorar doces. Quando Anna encerrou o desabafo, a garota ruiva tinha tantos pães açucarados entulhados nas bochechas que parecia um esquilo estocando nozes para o inverno.
Mio mastigou tudo com urgência, engoliu com um esforço visível e soltou:
— É sério que é só isso?
A veia da irritação pulsou na têmpora de Anna.
— Como assim "só isso"?! Isso é absurdamente importante pra mim, sabia?!
— É porque você é uma completa idiota, sabia? — Mio rebateu, limpando o farelo dos lábios sem a menor cerimônia.
— O quê?! O que você—
Num bote rápido, Mio esticou o braço por cima da mesa e enfiou uma rosquinha inteira na boca de Anna, calando-a no ato.
— Escuta aqui, Anna. Sabia que lá em Gaia as pessoas acreditam que quem tem habilidades de Éter atrai o sobrenatural, e por isso costumavam queimar essa galera em fogueiras? Ironicamente, a ciência descobriu que existe, sim, uma correlação, já que Caçadores atraem perigo e monstros por causa da sua autoimagem. E aí? Você acha que, só por causa disso, todos os Caçadores do mundo deveriam morrer?
Anna piscou, surpresa com a investida física, e começou a mastigar a rosquinha devagar, o cenho franzido em confusão.
— Além disso — Mio continuou, pescando outro doce do prato —, dentro do nosso mundo atual, somente 30% do globo de Hortus Parvus foi desbravado. E só nesses 30% existem alimentos e consumíveis para os seres vivos. Em outras palavras, cada nova criança que nasce acelera um pouco mais o fim dos recursos do planeta, o que lá na frente pode significar a extinção da vida.
Anna continuava mastigando, os olhos semicerrados tentando acompanhar a lógica caótica.
— Sabe quando eu saí de casa? Teve um cara que passou rápido por mim meio irritado, e eu xinguei ele de um monte de coisas por ter se esbarrado comigo. Vai ver ele tava num dia tão bosta que eu fui o gatilho final pra ele enlouquecer e sair roubando e matando pessoas por aí.
Engolindo a seco, Anna ergueu a mão timidamente, como uma aluna em dúvida.
— Desculpa, mas... eu realmente não entendi onde você quer chegar com essa salada de exemplos.
Mio espalmou a mão na mesa com um estalo sonoro.
— Eu tô falando que é uma idiotice completa ficar pensando em todos esses microdetalhes! Ninguém faz isso! É assim que se é humano, pra começar! Qual é o problema de você estar atraindo outros Astreus pra vida do Dante?! Você por acaso pediu pra isso acontecer? Não! E também não é sua responsabilidade o que esses caras fazem quando aparecem! Se eles são um bando de babacas egocêntricos como a Vida, a culpa é exclusivamente deles!
Anna ficou imóvel, absorvendo a agressividade reconfortante nas palavras da amiga.
— Eu sei disso, mas...
Os dedos de Mio saltaram pela mesa e prenderam a bochecha de Anna em um beliscão doloroso.
— E sobre essa coisa de você não saber por que tá se sentindo assim agora... é tão óbvio! Você só tá com esse medo todo porque não quer que o Dante te odeie, sua idiota!
Anna deu um tapa na mão de Mio para se soltar, o rosto queimando em um tom escarlate quase imediato.
— D-do que você tá falando?! N-nada a ver!
— É tão óbvio que chega a me dar raiva! — Mio revirou os olhos, jogando as costas contra o encosto da cadeira. — Se você tá preocupada agora, é porque o Dante deixou de ser só um "hospedeiro" ou um conhecido qualquer. Ele virou alguém que vive com você, alguém com quem você se importa de verdade! Não tem problema nenhum nisso!
— Mas eu condenei essa pessoa com quem eu me importo a uma montanha de problemas e maldições! — A voz de Anna falhou, a frustração rachando sua postura.
— E eu já disse que não tem problema! — Mio apontou a rosquinha como se fosse uma batuta. — O que você pode fazer é viver da melhor forma que puder. As pessoas ao seu redor é que vão decidir se vale a pena ter você por perto ou não.
Anna deixou os ombros caírem e afundou no estofado, o olhar cravado no tampo da mesa.
— Mas o Dante não teve essa escolha... Ele não teve a opção de recusar, diferente dos outros.
— Tá... mas você acha mesmo que ele escolheria te deixar de lado agora? — O tom de Mio perdeu a urgência, tornando-se surpreendentemente brando. — Eu posso não conhecer aquele cara tão bem quanto você, mas, sinceramente? Eu duvido muito que ele te chutaria.
A imagem de Dante materializou-se na mente de Anna. Aquele garoto irritantemente preguiçoso, teimoso e visivelmente inconsequente.
— Mesmo assim... — Anna murmurou para o vazio.
— "Mesmo assim, você se preocupa sem motivos reais. De fato, é um sentimento lindo... chame-o de amor ou de pura codependência."
— AHHH! — Mio deu um solavanco espantado, a cadeira cambaleando para trás.
Sentada na mesa colada à delas, Cyfera empilhava metodicamente o quinto prato de panquecas. A arqueóloga mastigava em silêncio absoluto, misturando-se ao ambiente como um fantasma que acompanhava a conversa desde o início.
— Desde quando você tá aí do nosso lado?! — Mio esbravejou, agarrando a própria camisa na altura do coração.
— Cheguei há pouco tempo — Cyfera respondeu. Com movimentos elegantes e precisos, ela usou um guardanapo de pano para limpar os cantos da boca. — Mas, quem diria... eu não esperava de forma alguma que vocês tivessem se encontrado pessoalmente com a Vida. Então é assim que funciona a atração magnética entre os Astreus? Eu realmente adoraria estudar e ver na prática como essa dinâmica funciona.
— Pode esquecer isso imediatamente! — Anna cortou. Sua postura enrijeceu no ato, a guarda letal levantada no mesmo segundo.
— Que direta... — Os lábios de Cyfera se curvaram em um sorriso contido.
Mio inclinou a cabeça, piscando para espantar o susto.
— Pera aí... você queria se encontrar com a Vida?
Cyfera deslizou os dentes do garfo pela massa macia da panqueca.
— Bom, é claro. Havia dezenas de perguntas acadêmicas que eu gostaria de fazer a ela. Afinal, viver atrás de respostas é o meu trabalho como pesquisadora.
— Faz sentido... — Mio assentiu, ainda desconfiada.
Cyfera soltou uma risada baixa, uma vibração áspera e misteriosa. Seus olhos purpúreos cintilaram com um fascínio obscuro e doentio.
— Dito isso... se fosse para eu escolher com qual Astreus eu realmente gostaria de me encontrar neste mundo... sem dúvidas, seria o Astreus da Morte.
O tilintar dos talheres, o cheiro de açúcar e a conversa borbulhante do vagão desapareceram. O ar ao redor da mesa pareceu congelar. Anna e Mio travaram no estofado, o oxigênio secando nos pulmões enquanto um choque paralisante descia rasgando por suas espinhas.
Parte 4
De volta ao vagão onde Dante e Kai dividiam o espaço com Shisui, o oxigênio tornava-se cada vez mais rarefeito. Dante ainda calculava os riscos, pesando a oferta sombria do pirata em sua mente, mas a paciência de Kai já havia evaporado.
— Tsk. Tanto faz essa merda toda. — Kai rosnou, a irritação fervendo visivelmente sob sua pele. Ele deu um passo pesado à frente, fuzilando Shisui com o olhar. — Se o seu assunto era só com esse merda desgraçado, por que você me parou aqui também?
Os lábios de Shisui se esticaram em um sorriso largo, os dentes à mostra em uma expressão perfeitamente sádica.
— Não é óbvio? Porque, se eu vou testar o Dante, eu achei que seria muito mais divertido lutar contra ele e a sua sombra juntos.
A provocação atingiu o orgulho do clone em cheio. Uma veia grossa saltou na lateral do pescoço de Kai.
— Ei, seu bastardo... — Kai murmurou, a voz despencando para um sussurro letal. — O que foi que você acabou de falar?
O sorriso de Shisui sequer vacilou.
— Kai, pera aí, não! Eu ainda tô... — Dante esticou o braço de imediato, tentando segurar o ombro do parceiro.
Plaft.
O estalo soou seco no metal do corredor. Kai bateu na mão de Dante com violência, repelindo o toque.
— Não me toca, seu desgraçado! Você e esse arrombado aí na frente têm a exata mesma expressão! Esse mesmo sorrisinho presunçoso que me dá nojo! — Kai rosnou. Os calcanhares rasparam no piso vibrante, ajustando a postura. — Tanto faz. Eu já tava cansado de ficar aqui parado só esperando mesmo.
Sem aviso, o corpo do clone disparou feito um projétil contra Shisui.
— Aí sim! — Shisui exclamou, genuinamente empolgado, e caminhou com as mãos soltas ao lado do corpo, indo de encontro ao ataque.
Kai cruzou a distância em uma fração de segundo. Girando o torso com impulso absoluto, desferiu um chute horizontal brutal mirando a têmpora do pirata. O vento sibilou. Shisui não ergueu a guarda. Ele simplesmente deixou a canela do garoto colidir com a lateral do seu rosto.
O impacto estalou, duro e denso, mas a cabeça de Shisui não recuou um único milímetro. Ele abriu os olhos. O abismo negro e predatório estava de volta em suas íris.
— Só isso? — o pirata murmurou.
Antes que Kai pudesse puxar a perna, os dedos de Shisui se fecharam ao redor do tornozelo do clone como uma garra de aço. Em um movimento fluido, mecânico e impiedoso, o pirata desceu o cotovelo contra a articulação do joelho preso. Em seguida, o estalo de um chute frontal seco arremessou Kai pelo corredor. O clone voou como um boneco de trapos, chocando-se contra a lataria distante.
— Espera! Kai, seu maldito! Eu ainda tô conversando com ele! — Dante berrou, a tensão subindo pela garganta.
— Calma, Dante. Acho que você me entendeu errado. — Shisui espanou uma poeira imaginária da manga da roupa, a serenidade forçada de volta à fisionomia. — Eu disse que iria te dar a resposta... se você fizesse o meu exame.
— Tá, mas você nem me contou que merda de exame era esse! — Dante retrucou, o corpo retesado.
— O exame é exatamente este. — Shisui abriu os braços. A silhueta bloqueava a passagem no corredor estreito. — Não tá vendo? Nós estamos num vagão fechado, dentro de um trem em alta velocidade. Não podemos usar nossos poderes mágicos destrutivos, ou vamos abalar a estrutura do trem. E também não podemos fugir daqui por causa da força magnética lá fora. Tudo o que dá pra fazer aqui dentro... é se arrebentar no mano a mano.
Sob a luz artificial tremeluzente, Shisui ergueu três dedos.
— Me acerte três vezes e eu te darei a resposta. Ou fuja sem me acertar e ficará sem nada. É através desse combate que eu saberei se você vale a pena para a minha tripulação ou não.
Dante travou a mandíbula. O disfarce estava claro agora. Aquele sorriso complacente, a tentativa patética de emular o carisma de Gaji ou a aura acolhedora do Love... era tudo teatro. Shisui não passava de um psicopata sedento por carnificina disfarçado de pessoa funcional.
Droga. Não tem outro jeito, Dante pensou, a adrenalina anestesiando os nós dos dedos.
A energia do Modo Deus da Velocidade explodiu. A aura faiscou ao redor de suas pernas e, num piscar de olhos, o garoto encurtou a distância. Shisui continuou imóvel.
Lendo a brecha intencional do inimigo, Dante não recuou. No último milésimo de segundo antes da colisão, ele drenou e concentrou toda a Aura que seu corpo suportava no punho direito.
TOMA!
O soco conectou perfeitamente contra o osso da face de Shisui. A força cinética viajou pelas paredes de latão, sacudindo o vagão nos trilhos, e a inércia tirou os dois pés do pirata do chão, suspendendo-o no ar. Sangue espirrou quente pelas paredes.
Mas, quando os olhos de Dante focaram, a realidade o esmagou. O sangue manchando o ar não vinha do rosto ileso de Shisui. Escorria do próprio braço destroçado de Dante.
Merda! Esse cara é feito de diamante?! O pensamento cruzou sua mente junto com uma pontada de dor aguda e enlouquecedora rasgando da mão até o ombro.
Aproveitando a guarda aberta e o choque, Shisui contra-atacou no ar. Usando o braço estendido do garoto como eixo, o pirata girou o próprio corpo com uma leveza antinatural. A perna subiu e o calcanhar desceu, pesado como uma bigorna, direto no topo da cabeça de Dante. O impacto esmagou o rosto do garoto contra o chão de aço trincando.
Antes de qualquer reação de Dante, a bota de Shisui afundou no seu estômago. O chute vertical o atirou para o teto. As costas do garoto colidiram contra a tubulação superior antes de a gravidade puxá-lo de volta, largando-o de bruços no piso frio e vibrante.
Caído, o corpo de Dante sofreu um espasmo e ele vomitou. Os pulmões paralisaram, lutando miseravelmente contra a pressão esmagadora que agora emanava sem filtros do homem em pé.
— Então esse é o melhor soco de um membro da "Geração Anormal"? — Shisui aterrissou, os passos silenciosos e macios ao lado do corpo caído. — Sinceramente? Não me impressionou.
Apoiando as palmas no chão, Dante forçou o pescoço a erguer. A visão turvava. Comparado a qualquer criatura ou humano que ele já houvesse socado, havia algo absurdo na densidade daquela carne.
— Mas eu vou ser justo. — O pirata sorriu, olhando de cima. — Eu falei que a regra era uma resposta por um golpe. Você acertou um soco, afinal. Então, acho que vou te contar o que aconteceu...
Dante arfou. Engoliu o gosto metálico de sangue e focou o resto de sua consciência naquelas palavras.
— Lá no Norte... — Shisui começou a narrar, a voz sobrepondo-se ao ruído das engrenagens. — Perto do antigo Reino dos Gigantes, em uma cidade onde ainda habitam alguns dos gigantes que decidiram continuar vivendo em Elysium após sua terra original ter sido devastada por um Maju, dividindo espaço com uma pequena população de Achaemenitas...
Confuso e sem oxigênio, a geografia mencionada não formava uma imagem clara na mente do garoto. Até a última parte da frase.
Quando a conclusão caiu sobre ele, o peso foi tão absurdo que o sistema nervoso de Dante simplesmente desligou, isolando o som metálico, anulando a dor dos ossos quebrados e congelando o tempo ao seu redor.
— Foi lá, — Shisui sentenciou, cravando os olhos no garoto. — Que o Astreus da Morte massacrou uma cidade inteira, e em seguida, matou um Rei Demônio.
Parte 5
De volta à mesa do vagão restaurante, o calor acolhedor e o cheiro doce de panquecas haviam evaporado.
Anna e Mio encaravam Cyfera em um silêncio denso, os rostos pintados por uma mistura caótica de confusão, incredulidade e puro choque.
O estalo seco das palmas de Mio contra a madeira da mesa sobressaiu ao zumbido constante dos trilhos. Ela se levantou num solavanco que fez as xícaras tremerem.
— Mas que pedido maluco é esse?! — Mio exclamou, a indignação vibrando na garganta. — Já não basta você querer se encontrar com aquela louca egocêntrica da Vida, você ainda quer ir atrás de algo infinitamente mais perigoso, como a própria Morte?!
Anna engoliu em seco. Com os olhos arregalados, ela assentiu freneticamente, as mãos apertadas no próprio colo.
— A Mio tem razão. Por mais que você seja absurdamente forte e corajosa, Cyfera... eu diria para você não falar um absurdo desses nem de brincadeira. Atrai mau agouro.
Cyfera piscou, a surpresa desarmando sua postura contida por uma fração de segundo. Logo em seguida, ela jogou a cabeça para trás e soltou uma risada leve e cristalina, um som que soou grotescamente fora de lugar diante do pânico das outras duas.
— É sério? Até mesmo vocês duas vão reagir com todo esse terror a um simples interesse acadêmico?
— E como mais você queria que elas reagissem a um comentário desses?
A voz polida, imperturbável e afiada como uma lâmina cortou o ar ao redor delas. Justia surgiu no corredor com passos silenciosos. Ela puxou uma cadeira vazia e sentou-se à mesa com a postura rígida de um militar em serviço.
Tentando quebrar a tensão recém-chegada, Mio abriu um sorriso amarelo. Ela ergueu as duas mãos em um duplo "V" de paz e amor, sacudindo os dedos de forma animada para a recém-chegada. Justia, mantendo os ombros perfeitamente alinhados e a expressão estoica, sequer piscou. A paladina ignorou a saudação como se Mio fosse invisível.
Cyfera acompanhou a interação e um sorriso estreito desenhou-se no canto de seus lábios.
— É verdade. A Justia me contou os detalhes sobre como foi o teste prático de vocês nas arenas lá embaixo. Pelo visto, você é uma verdadeira caixinha de surpresas escondida, não é, Mio?
O sorriso de Mio vacilou. Lendo rapidamente a armadilha na conversa e querendo fugir a todo custo de um interrogatório sobre suas próprias capacidades, a garota pigarreou alto, forçando a direção do assunto girar no sentido contrário.
— É, é, tanto faz o meu teste! Mas volta pro foco aqui: por que diabos você quer tanto se encontrar com o Astreus da Morte? Qual é a sua motivação real pra uma loucura dessas?
O sorriso provocador de Cyfera derreteu. A arqueóloga apoiou os cotovelos na mesa e cruzou os dedos sob o queixo. Sua fisionomia afundou em algo muito mais calmo, reflexivo e distante.
— Bom... eu sou uma arqueóloga, antes de qualquer coisa — Cyfera começou, a voz baixando um tom. — O trabalho da minha vida é buscar e desenterrar o passado. Mas a imensa maioria das coisas, civilizações e segredos que eu busco já estão irremediavelmente no passado. Estão enterradas, dizimadas e mortas. Acho que foi exatamente aí, nessa convivência constante com túmulos e fim de ciclos, que o meu interesse pela personificação da Morte começou a nascer.
Cyfera fez uma pausa. O ruído mecânico do trem preencheu o espaço entre elas. Quando a mulher voltou a falar, os olhos purpúreos haviam perdido qualquer traço de humor, obscurecidos por uma sombra pesada.
— Mas não é apenas curiosidade científica. Esse meu interesse também tem uma relação direta com aquilo.
Mio franziu o cenho, o pedaço de doce esquecido entre os dedos paralisados no ar.
— "Aquilo"? Aquilo o quê?
Os olhos azuis de Justia se arregalaram uma fração de milímetro. A espinha da paladina enrijeceu de tal forma que a cadeira rangeu em protesto. O clima da mesa despencou para a tensão absoluta.
— Espera um pouco... — Justia murmurou, a voz grave descascando em pura cautela. — Você está falando da cidade no Norte?
Anna, Mio e Justia se ajeitaram em suas cadeiras, os corpos levemente inclinados para a frente. Vendo que capturara a atenção total, ininterrupta e ansiosa de todas na mesa, Cyfera soltou um suspiro profundo que movimentou seus ombros.
E, ali, a arqueóloga começou a narrar os eventos macabros do passado. A mesmíssima e aterrorizante história que, em perfeita sincronia e a alguns vagões de distância, também escapava dos lábios de Shisui.
Parte 6
Nas terras gélidas do Norte, há algum tempo, uma comoção silenciosa e aterradora tomou forma.
— Existia uma cidade-fortaleza formada por sobreviventes — as vozes de Cyfera e Shisui fluíam em uma sincronia macabra, costurando a mesma tragédia em uníssono. Separados apenas pelas pesadas paredes metálicas e pelo ruído constante dos trilhos sob o Trem Escarlate, ambos prendiam suas plateias. — Refugiados da antiga raça dos Achaemenitas e os últimos Gigantes, que haviam fugido da ruína de seus antigos reinos.
Eles eram mestres absolutos da ciência e da magia. Costurando essas duas disciplinas, os habitantes ergueram mecanismos de proteção colossais ao redor de sua nova capital. Barreiras impenetráveis, desenhadas com precisão cirúrgica para repelir catástrofes do calibre de Horus a Avareza ou a marcha dos Majins. Eles haviam jurado sobre seus mortos que nunca mais cometeriam os erros que dizimaram suas terras natais.
Mas foi exatamente por confiarem de forma cega no aço e no Éter de sua fortaleza que a profecia, quando finalmente chegou, soou tão apavorante.
— A Santa de Gaia e a Criança da Rosa Cruz tiveram uma visão — a narrativa avançou, o peso daquelas palavras sugando o oxigênio dos pulmões de seus respectivos ouvintes. — Elas entregaram o aviso diretamente ao rei daquela cidade: uma força sem igual estava marchando para o Norte. E, quando essa força cruzasse os portões, de nada valeriam a ciência, a magia ou as muralhas. Não importaria se fossem homens ou mulheres, gigantes colossais ou crianças pequenas, fortes ou fracos. Todos morreriam. A cidade inteira seria apagada do mapa.
A Rosa Cruz implorou pela evacuação imediata do território. À noite, o pânico vazou pelas frestas da cidade, com moradores aterrorizados fugindo pelas sombras das nevascas. Contudo, o rei permaneceu de pé no palácio. Cego pelo próprio orgulho e por uma fé inquebrável no poder de seu povo, o monarca acreditava que absolutamente nada — fosse um ser vivo ou um desastre natural — faria sua nação desmoronar.
Mas, um dia, o impensável engoliu o Norte.
Exatamente como os oráculos previram, a nação inteira "desapareceu". A pedra e o metal das muralhas não cederam. Os prédios não foram bombardeados. Apenas a vida evaporou. O que sobrou foi uma estrutura fantasma, um monumento silencioso afogado em um mar de cadáveres perfeitamente intactos.
A Rosa Cruz agiu rápido, sufocando a informação sob uma manta de censura para evitar o pânico em escala global. Porém, o cheiro de um massacre daquela magnitude não poderia ficar contido por muito tempo. O mercado negro e os líderes do submundo logo farejaram os detalhes grotescos. A extinção daquela fortaleza inquebrável não levou semanas. Não levou dias. Tudo aconteceu em menos de uma hora.
— Uma única garota — a voz de Cyfera soou fúnebre entre o cheiro doce de panquecas no restaurante, enquanto a de Shisui paralisava o sangue de Dante no ar metálico e frio do corredor. — Uma garota carregando uma Aura tão monstruosamente grande, densa e pesada que o simples invisível do seu poder cobria quilômetros e quilômetros de distância. Ela simplesmente caminhou para dentro da cidade. Não precisou lançar feitiços. Não precisou destruir prédios. Apenas com a sua presença, ela matou absolutamente todos ao seu redor.
Para qualquer um que soubesse daquilo, para qualquer um que apenas ouvisse o relato... não restou espaço para dúvidas. Era como se a menção daquela chacina virasse uma chave primitiva no código genético de todo ser vivo do planeta.
O medo. O medo primordial e absoluto da morte.
Naquele dia trágico, o submundo e as cúpulas globais aceitaram a verdade crua: aquela garota era a personificação do Astreus da Morte.
No entanto, o pesadelo ainda exigia um último ato.
O mundo conhecia a lenda do Rei Demônio Amaimon, uma criatura de destruição suprema, tão poderosa que precisou ser selada dentro de uma imensa prisão viva e nômade conhecida como Destroyer. Figuras históricas, incluindo Nostradamus, profetizaram por séculos que Amaimon seria uma das bestas apocalípticas que, um dia, rasgaria o fim do mundo.
Fosse por um capricho infeliz do destino ou pelo cálculo frio de algo maior... naquele exato dia fatídico, a prisão viva Destroyer, que vagava eternamente arrastando o corpo selado de Amaimon, trilhou seu caminho pelas neves próximas às ruínas daquela cidade do Norte.
E foi lá que os passos da besta do apocalipse se encerraram para sempre.
— Graças ao vazamento das imagens confidenciais de um satélite orbital da Rosa Cruz, o mundo descobriu a parte final do pesadelo — a narrativa concluiu, e as duas vozes silenciaram, deixando um vácuo esmagador de tensão pairar no ar vibrante do trem. — A mesma garota que exterminou uma nação inteira de Gigantes e Achaemenitas em questão de horas... eliminou o Rei Demônio Amaimon com um único e casual movimento de sua espada.
Parte 7
O ar no corredor do vagão parecia ter se tornado espesso, difícil de respirar, mas a mente de Dante estava presa na engrenagem da revelação absurda que acabara de ouvir.
— Pera aí... mas por quê?! — Dante exclamou. O choque e a incredulidade retorciam suas feições. — Por que ela fez algo assim?! Isso não faz o menor sentido!
Shisui deu de ombros. O abismo em seus olhos recuou, devolvendo o cinismo relaxado à sua expressão.
— E eu vou lá saber o que se passa na cabeça de um Astreus nessas horas? Você que é o "hospedeiro", não é você quem deveria me responder isso?
A frustração de Dante ferveu. Os Astreus com quem ele havia interagido até agora eram excêntricos, perigosos e, de fato, matavam sem hesitar. Mas, ainda assim, ele sentia que havia uma bússola — uma coerência distorcida, mas real — orientando as ações deles.
— Isso não faz sentido nenhum! — Dante argumentou em voz alta, cerrando os punhos ao lado do corpo. — Ela dizimou uma cidade inteira, cheia de inocentes, e logo depois matou um Rei Demônio apocalíptico! Que porra é essa?! Qual é a lógica?! Ela tá simplesmente matando todo mundo a esmo?!
— Quem sabe? É a Morte, afinal de contas — Shisui respondeu, o tom de voz deslizando macio, quase poético, sobre o barulho do trem. — Talvez, para ela, não faça a menor diferença se a vida ceifada é a de uma formiga inofensiva ou a de um elefante colossal. Ela simplesmente pisa em ambos como se fossem perfeitamente iguais.
Dante apertou o punho com tanta força que os nós dos dedos estalaram, brancos sob a luva.
— Mas... eu, pelo menos, tenho uma outra teoria.
Dante virou o rosto na mesma hora, cravando os olhos no pirata.
— Eu acho que pode ser outra coisa — Shisui continuou, girando o pulso casualmente no ar. — E, se a minha teoria estiver certa, talvez eu até saiba exatamente para onde esse Astreus está indo agora, ou qual é o seu objetivo principal.
— Qual é a teoria? E pra onde ela tá indo?! — Dante exigiu saber, dando um passo à frente.
Shisui abriu um sorriso felino e ergueu um dedo.
— Eu adoraria te contar. Mas, como isso já faz parte da próxima etapa da nossa aulinha de história, você vai ter que me acertar mais uma vez para destravar a resposta.
Dante rosnou. Mas, antes que a tensão explodisse em movimento, uma sombra despencou do teto do vagão.
Aproveitando o ponto cego milimétrico da conversa, Kai — que havia escalado a parede metálica em silêncio absoluto — saltou. A gravidade somou-se ao impulso de seus músculos, e ele desferiu um chute letal, mirando exatamente a nuca de Shisui.
— Vai ter que contar tudo pra ele depois que os médicos te curarem, seu desgraçado! — Kai berrou, rasgando o ar.
Mas Shisui nem sequer girou o pescoço. Ele simplesmente ergueu a mão para trás e os dedos pálidos se fecharam ao redor do tornozelo de Kai em pleno voo. O impacto colossal morreu ali, parado como se o clone não pesasse mais que uma pena.
— Você realmente não entende o conceito básico de um ataque surpresa, não é? — Shisui suspirou.
Com um movimento incrivelmente fluido, o pirata usou a inércia do garoto contra ele mesmo. Shisui girou o braço e arremessou Kai como um projétil contra Dante do outro lado do corredor. Os dois colidiram com um baque surdo, rolando pelo chão de metal em um emaranhado doloroso de pernas, cotovelos e xingamentos.
— MERDA! — Dante praguejou, apoiando as mãos no piso vibrante, atordoado.
— SEU BOSTA! — Kai explodiu, empurrando Dante brutalmente para o lado e limpando o sangue que escorria do nariz com as costas da mão. — Não vai me dizer que você ficou aí ouvindo a historinha de ninar dele e desligou o cérebro pra luta?!
— Eu preciso dessa informação, seu imbecil! — Dante retrucou, já se colocando de pé.
Kai estalou a língua no céu da boca, os olhos prateados faiscando de ódio puro.
— Tsk. Se quer tanto ouvir o final da fofoca, se concentra na porra da luta, seu lixo! Acerta esse merda de uma vez, e depois você pode ficar o tempo que quiser escutando as bobagens dele!
— Eu sei muito bem disso! — Dante rosnou.
O calor subiu. A Aura alaranjada estourou ao redor do corpo de Dante. Ele acionou o Modo Deus da Velocidade mais uma vez, o ar ao seu redor distorcendo com a pressão térmica e o cheiro súbito de ozônio.
Do outro lado do corredor, Shisui fechou a mão esquerda em punho e estalou os dedos da direita. O brilho assassino acendeu de volta em suas íris.
— Agora sim. Talvez, juntos, vocês consigam me divertir um pouco.
Kai não esperou o convite. O clone disparou, as botas triturando o chão. No trajeto, ele agarrou uma das pesadas cadeiras estofadas do vagão e a arremessou como um míssil direto contra o pirata. Shisui parou a estrutura de ferro e espuma com a palma de uma única mão. Aproveitando a fração de segundo da visão bloqueada, Kai deslizou pelo piso e disparou um chute baixo, mirando a articulação do joelho do pirata.
Mas Shisui era antinaturalmente rápido. Ele puxou a cadeira que havia acabado de aparar, enterrando as pernas de metal dela no chão como um escudo improvisado. O golpe de Kai bateu na estrutura e, no milésimo seguinte, a bota de Shisui esmagou a perna estendida do clone contra o chão num estalo surdo.
— ACERTA LOGO ELE, SEU MALDITO! — Kai urrou, os dentes trincados para suportar a dor dilacerante.
— EU JÁ SEI!
Dante avançou como um relâmpago. A perna direita vinha envolvida em uma camada espessa e vibrante de Aura, moldada para aplicar um chute lateral avassalador que arrancaria a cabeça de Shisui.
No entanto, um fio de cabelo antes de atingir o alvo, a Aura ao redor da perna de Dante oscilou e apagou. O golpe perdeu toda a força cinética. Shisui, lendo o vácuo abrupto na energia do oponente, saltou para trás com uma pirueta perfeitamente graciosa, aterrissando a dois metros de distância, totalmente ileso.
O pirata esfregou o queixo. O sorriso cínico rasgou seu rosto enquanto ele analisava o cenário.
— Ah, entendi. Então vocês estavam apenas fingindo que não iam trabalhar jun—
— SEU MERDA! — Kai berrou, ignorando Shisui e virando o pescoço para fuzilar Dante. — Você chama essa bomba que você usa de "Deus da Velocidade", mas não consegue acertar um desgraçado fazendo estrelinha no corredor?!
— EU TAVA MACHUCADO, SABIA?! — Dante estourou de volta, sacudindo o braço direito já ferido, o rosto contorcido. — Não é tão fácil assim concentrar a Aura num ponto só e manter essa droga estável! Quando eu tento focar a energia pra bater, eu perco a velocidade de reação!
— ENTÃO PARA DE FAZER ESSA MERDA E BATE DIREITO!
— E VOCÊ ACHA QUE DÁ PRA CAUSAR ALGUM DANO NAQUELE MALDITO COM UM SOCO NORMAL, PRA COMEÇAR?!
Shisui piscou. O sorriso morreu levemente em seus lábios.
Não... eles não estavam fingindo uma inimizade, o pirata percebeu, balançando a cabeça em uma mistura de pena e divertimento. Eles realmente são uma negação completa trabalhando em equipe.
— Tanto faz. Se vocês não vêm pra cima... eu vou.
A lataria gemeu quando Shisui avançou. Ele não correu; ele simplesmente surgiu na frente de Dante como um predador teleportado. O punho do pirata disparou em um soco reto brutal direto para o rosto do garoto. Sem a âncora pesada da concentração de Aura limitando seus reflexos puros, Dante se contorceu, esquivando-se por um milímetro. A pressão do vento criado pelo soco arranhou sua bochecha como uma lâmina.
É, até que a reação dele quando não está concentrando Aura não é nada má, Shisui pontuou mentalmente, o punho perfurando apenas o ar vazio.
Dante saltou para longe, as botas patinando no chão, a mente fritando. Pensa, Dante, pensa! Qual é a habilidade desse cretino?! Com uma força física e uma resistência dessas, o Éter dele deve estar ligado a algum Aprimoramento absurdo de densidade! Se eu descobrir o padrão, as minhas chances melhoram!
No chão, ainda processando a dor, Kai também calculava.
Esse desgraçado não conseguiu atingir o Dante agora em cheio... Kai estreitou os olhos prateados. Pensando bem, eu não lembro dele ter demonstrado uma velocidade de movimento absurda até agora. Os ataques e defesas dele foram todos puramente reativos. A única vez que ele nos superou em velocidade foi justamente quando o Dante estava focado demais em concentrar a Aura! Se a velocidade dele for só reação, então talvez...
A aura negra de Kai pulsou.
Pressão Espacial.
O oxigênio no corredor pareceu solidificar. O espaço de cima a baixo ao redor de Shisui foi brutalmente comprimido. O piso de metal gemeu e afundou sob os pés do pirata quando a gravidade local multiplicou-se, transformando o corpo dele em algo dezenas de vezes mais pesado. Aproveitando o microsegundo de lentidão que a força esmagadora gerou nos músculos do inimigo, Kai mergulhou em uma rasteira violenta, levantando Shisui do chão.
Se eu atrasar o peso do seu corpo reativo ainda mais, eu também posso te vencer! Kai pensou, o instinto assassino tomando conta.
Ainda em movimento, Kai usou seu espaço de bolso, teleportando os restos pontiagudos da cadeira estilhaçada direto para as palmas das mãos. Com um giro agressivo, o clone estocou a madeira esmerilhada direto para o centro do peito de Shisui flutuante.
Mas Shisui não carregava a alcunha da Lista Negra por mero acaso.
Mesmo flutuando no ar sob o jugo de uma gravidade dilacerante, Shisui inclinou o tronco para a frente de propósito. Abraçando a distorção do peso, ele bateu o topo da cabeça e as palmas das mãos contra o chão metálico com violência matemática. Em um movimento fluido e assombroso, imitando um giro de breakdance, ele transformou o corpo inteiro em um pião de força bruta e engatou um chute devastador na cara de Kai.
O impacto arremessou o clone contra a parede. Mas, antes que a gravidade pudesse reivindicar o garoto, a mão de Shisui chicoteou, agarrando Kai pelo colarinho. O sorriso sanguinário voltou a rasgar o rosto do pirata.
— Você achou mesmo que a sua velocidade de reação era maior que a minha?! — Shisui sussurrou, a centímetros do rosto ferido do clone.
E então, descarregou. Um combo de socos supersônicos, borrões impiedosos de força bruta, castigando o estômago e o rosto de Kai.
Dante não desperdiçou a janela. Vendo Kai servir de saco de pancadas, ele avançou queimando o chão, projetando-se no ar para um segundo chute lateral. Com seus reflexos monstruosos ativados pelo movimento lateral, Shisui soltou o tecido ensanguentado de Kai e flexionou os joelhos para saltar graciosamente no ar, prevendo a esquiva.
A mesma estratégia não vai funcionar! Shisui pensou, ajustando o corpo para aterrissar longe do golpe.
Mas o ar escapou dos seus pulmões quando sentiu o tornozelo travar no espaço.
Shisui olhou para baixo. Kai, com o rosto pintado de vermelho, o lábio rasgado e o olho esquerdo completamente inchado, estava escorado na lataria. A mão do clone estava cravada como uma garra de aço no pé de Shisui, âncorando o pirata no ar.
— É melhor você não errar de novo, seu merda... — Kai cuspiu um dente no chão, a voz arranhada e demoníaca vazando pelo sorriso quebrado.
A ficha de Shisui despencou na mesma fração de segundo.
O primeiro golpe do Dante, aquele chute fraco e sem Aura, não foi um erro de concentração. Foi uma finta pura para me fazer desviar e baixar a guarda do chão. E a Aura que ele não usou no chute... ele acumulou tudo de uma vez.
No piso, Dante cravou a sola da bota no metal. Aproveitando a força cinética bruta gerada no avanço do chute falho, o garoto inverteu a lógica de sua habilidade. Ele acionou a força do eletromagnetismo, puxando o próprio corpo de encontro à lataria do vagão logo atrás das costas de Shisui, catapultando a si mesmo como um tiro de canhão em rota de colisão direta.
— É claro que eu não vou errar! — Dante berrou, a garganta rasgando com o esforço. — Segura essa, seu maldito! Eu acabei de inventar o nome pra isso!
A Aura ao redor do braço destro de Dante atingiu uma massa crítica. Assumiu uma coloração alaranjada ofuscante e violenta, vibrando com o chiado ensurdecedor de energia pura, caótica e instável.
— CHRONOS BREAK!
Dante projetou o soco com carga máxima. O golpe conectou em cheio, perfeitamente no centro do rosto de Shisui. Milésimos de segundo antes da face ceder à onda de impacto esmagadora, o pirata sorriu. Um sorriso insano, largo e genuinamente feliz.
BOOOOOOOOM!
A explosão rasgou a acústica. O impacto não apenas amassou as paredes e as janelas do vagão onde estavam, mas a força absurda da onda de choque correu feito um terremoto pelos engates de metal, fazendo os três vagões mais à frente chacoalharem violentamente sobre os trilhos.
Quando a fumaça rala e o pó dos estofados pulverizados começaram a baixar, Kai e Dante desabaram. Ambos caíram de joelhos no chão, os pulmões trabalhando desesperados em busca de ar.
O sangue pingava do nariz de Kai sem parar. O clone esfregava o rosto com as costas da mão, puxando o oxigênio com força enquanto olhava para o garoto de mechas vermelhas. Merda... de onde foi que ele tirou essa coisa agora?!
Mas Dante estava longe de comemorar. O garoto cedeu de vez, tombando de lado sobre o piso de ferro, os dentes cerrados enquanto a mão esquerda apertava violentamente o próprio braço direito. Um grito rouco e abafado vazou por seus lábios.
— AAAHH! Merda!
Kai desviou o olhar para o braço de Dante, e o que viu embrulhou o estômago. O estrago era grotesco. O braço e o punho que concentraram aquela Aura titânica estavam arruinados. As ataduras que protegiam sua pele haviam queimado com o atrito e a temperatura da energia. O tecido negro e torrado exalava um cheiro de carne chamuscada, gotejando sangue vivo sobre a bota de Dante. Pelos tremores incontroláveis e a forma como o garoto se contorcia, o recuo interno do próprio golpe fora infernal.
Ele acabou de criar essa técnica... e usou no limite. Essa merda ainda tá absurdamente incompleta e destrói o corpo dele, Kai concluiu, o pragmatismo analítico cortando a neblina da exaustão.
O rangido agudo de metal retorcido interrompeu os pensamentos do clone.
Vindo do fundo do corredor, na montanha de poltronas destroçadas para onde o impacto atirara Shisui, os escombros se mexeram.
— Sinceramente... foi incrível. — A voz, bizarramente polida e imperturbável, ecoou por trás da cortina de poeira. — Eu não achei que vocês conseguiriam coordenar algo assim depois de terem feito aquele papelão ridículo e desorganizado no primeiro golpe.
O sangue nas veias de Kai e Dante congelou.
A fumaça cedeu, e Shisui estava de pé. O pirata simplesmente sacudia os resíduos de espuma e cinzas de seus ombros largos. Ele sorria de forma pacífica, a postura ereta e relaxada, como se estivesse apenas levantando de uma cadeira após o chá da tarde.
O clone apertou os próprios punhos, a frustração explodindo.
— Merda... do que você é feito, afinal de contas, seu monstro maldito?!
Lendo o terror e o choque paralisante carimbados nos rostos dos dois jovens Caçadores, Shisui ofereceu um sorriso ainda mais amigável.
— Do que vocês estão falando? Não é óbvio que eu sou de carne e osso, exatamente como vocês? Olhem só...
Com extrema delicadeza, Shisui apontou a ponta do dedo indicador para o próprio queixo. Descendo lentamente pelo canto esquerdo de seus lábios, havia um finíssimo, quase microscópico, traço vermelho de sangue.
— Aquele soco cruzado me pegou tão desprevenido e com tanta força bruta... — Shisui explicou, suspirando de leve, os olhos brilhando com uma admiração genuína. — Que o impacto me fez morder a parte de dentro da minha própria boca enquanto eu estava sorrindo, e eu acabei sangrando. Meus parabéns, de verdade.
Na percepção retorcida de Shisui, aquilo era uma honraria máxima. Ele estava declarando abertamente que aqueles dois pirralhos, amadores e desorganizados, haviam conseguido quebrar suas defesas e feri-lo, ainda que por um acidente de sua própria anatomia.
Mas o recado recebido pelo orgulho inflamado, doentio e competitivo de Kai e Dante foi completamente diferente.
Nas cabeças ensanguentadas e pulsantes dos dois garotos, o mesmíssimo pensamento ferveu em perfeita sincronia:
Seu merda presunçoso... Você tá querendo dizer na nossa cara que o nosso golpe com força total não foi o suficiente nem para te arranhar de verdade?!
Ignorando o limite do próprio oxigênio, a dor aguda dos ossos trincados e os músculos queimados, Dante e Kai forçaram os joelhos a esticarem. Colocaram-se de pé, impulsionados puramente pelo ódio combustível e pela marra inflexível que dividiam, cravando os olhos fixos na silhueta do pirata. Eles estavam prontos para a segunda rodada.
Parte 8
O balanço rítmico do Expresso Escarlate fazia as louças vibrarem suavemente sobre as mesas do vagão restaurante. O clima continuava denso, pesado como o ar parado que antecede uma tempestade. Mio descruzou os braços, afundando na cadeira com uma expressão um pouco mais compreensiva.
— Agora eu entendi — Mio pontuou, acompanhando o compasso do trem com um aceno lento de cabeça. — Confesso que até eu fiquei com uma pontinha de curiosidade de encontrar a Morte só pra saber por que caralhos ela dizimou aquela cidade do nada.
— Ah, não, não. — Cyfera balançou o dedo indicador no ar. O sorriso enigmático brincava em seus lábios. — Não é exatamente isso que eu gostaria de perguntar a ela.
Mio espalmou as mãos na mesa, tensionando os ombros, quase levantando da cadeira outra vez. — Pera, não era isso? Então o que diabos você queria saber, afinal de contas?!
— É que eu tenho uma forte teoria de que o verdadeiro motivo dela ter feito aquilo seria, na verdade, para acabar com a vida dos Imortais. — O tom acadêmico de Cyfera soou afiado como uma lâmina, cortando o zumbido abafado do trem.
Anna endireitou as costas na mesma hora, os olhos arregalados com a epifania repentina. — É bem provável!
Mio revirou os olhos para o teto, mas a mente de Anna já trabalhava a mil, conectando as pontas soltas suspensas no ar: — Assim como a Vida quer acabar com o conceito de morte e criar uma vida eterna e imutável pelo mundo... a Morte deve querer o exato oposto. Ela deve querer erradicar as anomalias que ousam desafiar o fim.
— Viu só? — Cyfera sorriu, verdadeiramente satisfeita com o raciocínio da aluna. — Eu cheguei a essa exata conclusão no segundo em que ouvi a história. Eu já imaginava que muitos outros também chegariam nela depois de mim.
— Tá, peraí. — Mio franziu o cenho, tateando em busca de lógica no quebra-cabeça. — Então por que você queria se encontrar com ela? E como tudo isso tá relacionado àquela maldita cidade no Norte?
A arqueóloga se inclinou sobre a mesa, aproximando-se. A luz amarelada e vacilante da penumbra refletiu no brilho intenso de seus olhos purpúreos. — Pense comigo, Mio. Se isso for mesmo verdade, e a Morte agora está vagando por Elysium atrás dos Imortais para expurgá-los da existência... na realidade, deveria existir alguém que ela deseja encontrar com ainda mais fervor do que os próprios Imortais.
A vários vagões de distância dali, o cenário era de ruína. O vento noturno uivava através das chapas de metal rasgadas do corredor destruído, trazendo consigo o cheiro acre de poeira levantada e ozônio.
Shisui observava Dante e Kai. Os dois garotos respiravam com dificuldade, os peitos subindo e descendo em espasmos dolorosos. Seus corpos estavam machucados, exaustos, mas a vontade assassina de lutar ainda queimava irredutível nas íris de ambos.
— Podem recuperar o fôlego — Shisui cedeu. A postura dele era um insulto de tão relaxada; as mãos espanavam uma poeira invisível das lapelas do próprio casaco enquanto o piso crivado sacolejava sob seus pés. — Antes de voltarmos a brincar, acho que ainda tem algo muito importante que eu preciso contar a você, não é mesmo, Dante?
O garoto fechou o punho ferido com força, o som dos próprios dentes rangendo competindo com o atrito dos trilhos lá fora. Kai quis gritar. Quis mandar o pirata calar a boca, mas percebeu a tempo que seus pulmões ardiam feito brasa a cada lufada de oxigênio. Não havia fôlego extra para desperdiçar com xingamentos agora.
Vendo que o cansaço selara uma trégua temporária, Shisui continuou, a voz assumindo um tom quase didático que flutuava sobre a ventania: — Vocês sabem perfeitamente o motivo pelo qual, teoricamente, é impossível trazer alguém de volta à vida, não sabem?
— É por causa da sombra do Astreus da Morte — Dante respondeu, o arranhar na garganta deixando a voz rouca.
— Pois é. A regra fundamental e inquebrável do universo. — Shisui abriu um sorriso letal, repuxando o canto da boca. — Mas... e se eu dissesse a você que, talvez, essas regras absolutas não sejam tão absolutas assim?
Dante arregalou os olhos. A defensiva cedeu, e a confusão em seu rosto se misturou a uma fagulha frágil, e muito perigosa, de esperança.
— Qual é, garoto. Eu te disse que tinha uma teoria sólida sobre o verdadeiro alvo do Astreus da Morte, não disse? — Shisui abriu os braços, como se abraçasse a destruição estrutural ao redor. — É simples assim. O motivo para aquele monstro estar vagando pela Terra, o motivo pelos massacres e o seu destino final... tudo se resume a uma grande e impiedosa limpeza.
De volta à penumbra do restaurante, as vozes pareciam transcender o metal e o espaço, costurando os fios da mesma teia.
— Alguns anos atrás, enquanto eu investigava as ruínas da cidade de Valoisia e a sua história perdida... — Cyfera narrava. O balanço monótono do trem dava à sua voz macia um compasso hipnótico. — Eu descobri arquivos sobre uma certa lenda urbana local. A história da Princesa de Açúcar e Sangue.
Mio travou no encosto da cadeira. O título ressoou feito um alarme antigo e estridente engatilhado em sua mente. O sobressalto sutil não passou despercebido por Cyfera, que sorriu mais abertamente.
— Você também deve conhecer muito bem essa história, não é, Mio?
O silêncio engoliu a mesa, cortado apenas pelo tintilar esparso dos talheres. E então, Cyfera começou a desenhar o passado.
— Há muito, muito tempo, em Elysium, existia um grandioso reino chamado França. Ele era gigantesco, e dizem que várias das Cidades-Estados que conhecemos hoje faziam parte de seus territórios. As lendas contam sobre um lugar onde o sol parecia nunca se pôr, erguido sobre suntuosos jardins de ouro puro e labirintos complexos de cristal.
Cada palavra da arqueóloga pincelava a imagem de opulência na mente das garotas, que ouviam atentas.
— Nele, vivia uma jovem e bela princesa, sempre feliz, sempre cantando. Vinda de uma terra distante e eternamente coberta de neve, ela foi enviada através de um acordo político para se casar com um príncipe tímido, mas de coração extremamente gentil. O novo lar da garota era um palácio deslumbrante, cujas torres pareciam ter sido diretamente arrancadas das páginas de um livro onírico.
— Tudo ao redor dela respirava mágica e romance. Seus vestidos eram costurados com fios de seda tão finos que tombavam pelo corpo feito nuvens cor-de-rosa. Seus sapatos brilhavam como poeira de estrelas espalhada pelo mármore. E seus dias doces eram preenchidos com bailes intermináveis, risadas aristocráticas e fontes que jorravam champanhe sem cessar. Ela vivia isolada num castelo de doces e brioches, perfeitamente alheia a qualquer maldade, imaculada como a protagonista de um conto infantil.
Cyfera fez uma pausa estratégica. O olhar ameno de antes escureceu de repente, acompanhando o tom da história.
— Mas, como em toda velha lenda... castelos dourados costumam ter muros grossos e altos demais. Além dos imensos portões encantados de ferro, a magia não existia. O povo do reino definhava sob um inferno gelado e eterno de fome, praga e miséria. Com os rostos acinzentados pela fuligem e os estômagos roncando vazios, encostados nas costelas, os plebeus escutavam, noite após noite, as valsas estridentes e felizes que ecoavam da corte iluminada.
— A princesa, cega pelo brilho ofuscante dos lustres e dos espelhos do seu palácio particular, jamais percebeu que as sombras rastejando lá fora não eram apenas a noite caindo... mas sim uma tempestade colossal de ódio ganhando forma.
A arqueóloga tamborilou os dedos esguios no tampo da mesa. O ritmo seco imitou batidas fúnebres.
— Até que, um dia, os ventos da fúria sopraram com tamanha violência que os muros daquele conto de fadas simplesmente desmoronaram. O sonho de seda rasgou-se em um pesadelo brutal. A princesa e o seu príncipe gentil foram arrancados de seu mundinho de açúcar à força, pelos cabelos. Eles foram arrastados do topo do mundo e atirados nas profundezas de uma masmorra úmida, imunda e absolutamente sombria, onde não havia um único feixe de luz... apenas o cheiro acre e metálico de mofo, sangue, urina e puro desespero.
O som de Anna engolindo em seco soou alto no vagão. Ela parecia hipnotizada pela transição crua da narrativa.
— Tendo despencado do céu para o fundo do poço em apenas vinte e quatro horas, a garota passou a viver seus dias encolhida, passando fome e definhando no escuro. Ela chorava e gritava com o rosto afundado nas grades de ferro, enquanto era alvo de deboche, de cuspes e humilhação dos mesmos cidadãos que ela, de forma muito ingênua, acreditava que a amavam. Trancada lá embaixo, abraçada à miséria e à incerteza torturante dos próximos dias, ela foi descobrindo, um a um, sobre a execução brutal de todos os membros de sua família e serviçais de confiança.
Cyfera recostou-se lentamente na cadeira. — Até que, finalmente, uma luz foi ofertada ao seu mundo de escuridão. Mas não pensem que era o brilho quente do sol ou a luz dourada da esperança... era apenas o reflexo gélido e letal que emanava da lâmina pendular do Monstro de Madeira com Dente de Prata.
No vagão vizinho, o vento soprava forte, mas a voz de Shisui assumiu a exata mesma cadência e entonação da arqueóloga. Um coro fantasmagórico que mergulhava Dante e Kai no terror físico daquela execução.
— Em uma manhã de frio impiedoso — Shisui sussurrou, os olhos brilhando de excitação —, a princesa, que àquela altura já havia sido completamente despida de suas joias, de suas sedas e até mesmo do próprio nome, teve os pulsos brutalmente amarrados às costas com cordas ásperas. Ela foi jogada feito um animal solto no fundo de uma carroça de madeira podre, que estalava e sacudia sobre os paralelepípedos irregulares da rua, indo direto para a praça central.
— Ao longo do trajeto, ela foi apedrejada pelos cidadãos furiosos. Quando teve forças para erguer o rosto e olhar para as margens, viu as cabeças decepadas dos outros nobres... e a do seu próprio marido... encravadas no topo de estacas ao longo do caminho, apodrecendo ao ar livre e vigiando seu cortejo macabro. Já não havia mais música clássica nem reverências pomposas para ela; o ar agora vibrava apenas com a batida oca e ensurdecedora de tambores fúnebres e com uma multidão infinita que uivava, faminta pelo espetáculo do seu sangue derramado.
Dante o encarava estático, prendendo a respiração.
— Trêmula, chorando em espasmos de pânico e com os pulmões queimando pelo ar gelado do medo absoluto, ela foi empurrada para cima. Subiu os degraus rangentes do patíbulo, tábuas que já estavam pretas de sangue velho, até chegar ao altar do monstro de madeira — Cyfera narrou na segurança do restaurante, deixando a voz cair para um sussurro gráfico e denso. — Quando as mãos da guarda a forçaram para baixo, prendendo-a de bruços contra a madeira encardida de vermelho, o frio paralisante do cepo tocou a pele fina do seu pescoço.
Metros de metal retorcido, vento e penumbra separavam os dois vagões, mas Cyfera e Shisui sorriram exatamente no mesmo instante.
— Mas ela não fechou os olhos docemente, aguardando o fio da lâmina como uma mártir resignada — Shisui disse a Dante, inclinando levemente a cabeça.
— Antes de morrer... ela retesou o corpo, ergueu o rosto sujo o máximo que a restrição permitiu e cravou o olhar no fundo da alma de cada um dos plebeus agrupados naquela praça. De cada ser humano que a havia jogado naquele inferno na Terra e que agora berrava em êxtase, celebrando sua morte iminente. E, com a voz embargada pelo ódio mais primordial que já existiu... ela jurou.
Cyfera desceu uma oitava do próprio timbre. A acústica abafada do trem pareceu reter o eco pesado da praga proferida há séculos:
"Eu não vou perdoar. Eu não vou perdoar nenhum de vocês. Mesmo morta, a minha alma vai vagar. Mesmo queimada, mesmo empurrada para o inferno absoluto, eu não vou esquecer. Nem que leve anos, séculos ou milênios... cada um de vocês, cada mínimo átomo da existência de vocês... Eu não vou parar até transformar tudo o que criaram ou deixaram para trás em puras cinzas! Esse reino, esse mundo... eu irei apagar cada mísera alma e arrastar todos vocês para o abismo comigo!"
— E, então... — Cyfera pontuou, a voz subitamente seca, quebrando o feitiço do transe. — O Dente de Prata despencou.
— Um baque surdo, molhado e grotesco. A dor deve ter sido indescritível e violenta, rasgando carne, tendão e osso em uma fração minúscula de segundo. A vida daquela protagonista de contos de fadas foi sumariamente partida ao meio e mergulhou numa escuridão irreversível. Sua cabeça rolou pelas tábuas do patíbulo até parar no chão... os olhos ainda abertos, vítreos, congelados em um último e eterno instante de ódio absoluto.
No restaurante, a vibração do trem retornou à consciência do grupo. Um arrepio violento correu livre pela espinha de Anna, que esfregou os braços instintivamente, encolhendo os ombros como se o frio da praça de execução tivesse invadido o vagão.
Até mesmo Justia, sempre enrijecida pelo treinamento militar e blindada por sua habitual frieza, precisou exalar ruidosamente pela boca, liberando o ar que não percebeu estar segurando. — Droga... — A loira murmurou. O timbre grave ressoou com uma leve falha. — Eu juro que sempre fico com calafrios quando escuto essa história.
— E essa — Cyfera usou os dentes de metal do garfo para apontar para o alto, girando-o displicentemente no ar — foi a informação e a versão da lenda que seguiu viva, sussurrada de boca em boca dentro das estalagens e vielas de alguns reinos de Elysium até os dias de hoje.
Mio estreitou as pálpebras. Os olhos escuros afiaram o foco sobre a mulher, farejando o gatilho da pegadinha acadêmica a quilômetros de distância. — Como assim... "essa versão"? — Mio exigiu saber.
No corredor açoitado pelo vento cortante, Shisui olhou do alto para as figuras machucadas de Dante e Kai. Um sorriso oblíquo e sádico erguia-se em seu rosto manchado de sangue — a feição exata de alguém que saboreia manter o maior segredo do universo escondido debaixo da própria língua.
— Acontece que há um trecho fundamental dessa lenda que foi ocultado. Varido para debaixo do tapete e apagado com muito capricho dos livros de história pelas mãos dos vencedores — Shisui explicou, a voz gotejando um mistério espesso contra o ruído das ferragens rangentes. — Uma outra parte. Um desfecho macabro do qual quase ninguém no mundo moderno se lembra.
Separados pelas dezenas de metros que compunham a extensão do Trem Escarlate, Cyfera e Shisui mantiveram o mesmo sorriso irredutível e agudo, perfeitamente sincronizados. Duas engrenagens operando para arrancar o véu da ignorância e revelar a verdade aterradora que deveria ter permanecido enterrada, em cinzas, sob as páginas de Elysium para todo o sempre.
Parte 9
O balanço rítmico do trem contrastava com o peso súbito das palavras de Cyfera.
— Anos depois do banho de sangue, o reino outrora oprimido transformou-se em um mar de felicidade. Graças à revolução, alguns reinos vizinhos prosperaram, enquanto outros ruíram. No entanto... — Ela fez uma pausa, deixando o rangido distante dos trilhos preencher o espaço. — Houve uma descoberta macabra escavada das ruínas que jogou toda a narrativa heroica para o alto.
Cyfera inclinou-se ligeiramente sobre a mesa. — Na realidade, quem estava sangrando os cofres e fazendo o povo sofrer não era a coroa da França, mas sim Alzira — o reino onde a princesa havia nascido.
Acontecia que, após o casamento, Alzira fizera exigências financeiras e territoriais absurdas, orquestrando ataques constantes nas fronteiras em uma armadilha meticulosa para destruir a França por dentro. Aquela suposta "vida de luxo fútil" da família real, os bailes intermináveis e as festas extravagantes eram, na verdade, eventos diplomáticos desesperados. A princesa promovia encontros com nações de continentes diferentes na tentativa de atrair o mercado externo, gerar comércio e criar empregos para salvar o reino da falência absoluta.
Mio entrou em choque, os olhos escuros arregalados. — De onde diabos você tirou isso?!
Cyfera deu de ombros, tomando um gole calmo de sua bebida. O líquido desceu aquecendo a garganta. — De qualquer livro de história de reinos que fiquem de fora da censura de Elysium. É só estudar um pouco. Aparentemente, nos seus últimos dias, a princesa chegou até mesmo a negociar acordos de emergência com Varka e com o reino dos Elfos.
Mio estava boquiaberta diante da brutalidade daquela injustiça.
No vagão destruído, a quilômetros dali, o vento cortante açoitava os casacos. Shisui narrava a mesma tragédia, mas com um sorriso cínico rasgando o rosto. — Mas, quando as pessoas e os revolucionários descobriram a verdade... já era tarde demais.
Aproveitando-se daquele mundo fraturado e sem rei, os impérios ao redor começaram a invadir, dominando suas próprias fatias de terra e criando novos Estados. Aqueles que descobriram a armadilha de Alzira e se recusaram a apagar a verdadeira história de seus reis mortos conseguiram manter a monarquia. Outros, sem poder militar para peitar a nova ordem mundial, não tiveram escolha a não ser queimar a verdade e aceitar a história escrita pelos vencedores.
O silêncio pesou no ar gélido do trem.
— Mas... como havia sido jurado no patíbulo, o mundo não permaneceu completamente em paz — Shisui sussurrou. Seus olhos brilhavam na penumbra. — Alguns anos depois daquela grande virada, o rei de Alzira, o próprio pai da princesa, não teve muito tempo para aproveitar o seu novo e vasto império. Em uma única noite, todo o seu castelo foi queimado até as cinzas, e a sua cabeça foi decapitada.
De volta ao restaurante, a voz de Cyfera carregava um fascínio sombrio. — E o detalhe mais assustador de todos: na noite anterior ao massacre em Alzira, o caixão da antiga família real da França foi desenterrado. E o corpo decapitado da princesa desapareceu.
No corredor dilacerado pelo vento, Dante franziu o cenho, ignorando a pulsação de dor constante em seu braço. — Ei, não vem me dizer que essa bobagem de conto de fadas é a sua grande dica! Alguém poderia simplesmente ter roubado o corpo pra vender. Isso pode ser só uma coincidência!
— Você acha? — Shisui arqueou uma sobrancelha.
No vagão seguro, Cyfera sorriu. — O que mais chocou os investigadores na época foi a presença do Éter. Um Éter negro, podre e completamente distorcido foi encontrado emanando das pedras do túmulo vazio. Tempos depois, a Rosa Cruz descobriu que a espada usada para decapitar o rei de Alzira foi deixada para trás... encharcada exatamente com a mesma assinatura de Éter negro.
Crunch. Shisui deu um passo à frente. O som das botas pesadas esmagando os estilhaços de vidro no chão de metal ecoou no corredor. — Mas, se isso ainda não é prova o suficiente para o seu ceticismo, garoto, saiba que neste nosso próprio continente, aqui em Threshold, um evento assustadoramente parecido já chegou a acontecer. O antigo Rei Escarlate, Abhartach. Dizem as lendas que, na noite em que ele foi morto pelo próprio irmão, o seu corpo se levantou do caixão e, por uma noite inteira, causou morte e destruição por todo o castelo, até que, finalmente, parou de se mexer e caiu morto de novo.
Cyfera apertou as mãos sobre a mesa, as íris purpúreos vibrando com uma obsessão quase febril. — E é exatamente isso que eu quero perguntar para a Morte! Seria esse o seu grande objetivo varrendo este mundo? Ela estaria caçando os Imortais na esperança de encontrar o corpo da princesa decapitada que ainda vaga como uma anomalia pelo mundo dos vivos? E, se sim... como eles fizeram isso?! Como corpos mortos conseguiram voltar a caminhar sem a permissão da Morte?! Só de pensar em descobrir a mecânica por trás desse segredo, eu mal posso me segurar!
Mio afundou na cadeira. A sensação era a de ter acabado de desarmar uma bomba atômica histórica sem igual.
Ao lado dela, Anna estava paralisada. A mente da garota trabalhava em uma velocidade vertiginosa, engolida por uma única ideia. Talvez trazer alguém de volta à vida não seja um milagre impossível... talvez, nem mesmo precise da permissão do Astreus da Morte! Um lapso, uma faísca de esperança distorcida, explodiu em seu peito naquele exato instante. Se eu conseguisse descobrir como fazer isso... se eu trouxesse a Nero de volta à vida para o Dante... eu finalmente poderia pagar por todo o pecado e pela maldição que eu joguei nas costas dele.
De volta ao caos do corredor dilacerado.
— E então, Dante? — Shisui abriu os braços, a ventania agitando seu casaco. — Ainda vai ter a audácia de me dizer que a informação que eu acabei de te dar foi inútil?
Dante não conseguiu reagir. A dor física havia sumido temporariamente, anestesiada pelo choque absoluto. O garoto sentiu como se tivesse sido arremessado à força para um nível de conhecimento que, mesmo se passasse décadas enfiado nos arquivos mais restritos da Guilda, jamais alcançaria sozinho. Corpos mortos caminhando. Éter corrompido. Uma falha grotesca no sistema da Morte.
Plaft!
Kai estapeou o próprio rosto com força para se manter focado, cuspindo uma mancha de sangue no chão de metal. — Se você quer tanto o resto da porra da informação, então deveria fechar a boca e se concentrar em acabar com esse desgraçado de uma vez! — Kai rosnou. A Aura faiscava de forma irregular e agressiva ao redor de seu corpo ferido, iluminando a penumbra.
Dante piscou, quebrando o transe, e virou o rosto para o clone.
— E nem ouse pensar em nenhuma idiotice como "aceitar se juntar à tripulação dele" agora, seu merda! — Kai avisou, os olhos cravados na figura de Shisui. — Não se esqueça da regra do jogo. Esse maldito ainda tem um último segredo para contar. E eu aposto que ele é o tipo de sádico doente que deixa o melhor e mais perigoso guardado pro final.
Ouvindo a leitura cirúrgica de Kai, Shisui alargou o sorriso, confirmando a teoria em um silêncio satisfeito.
— Por agora — Kai cerrou os punhos, assumindo a base de combate mais uma vez sobre os estilhaços —, concentre-se apenas em arrancar essa última verdade da garganta dele. Depois, você queima os seus neurônios pensando nessas merdas de ressurreição!
Dante respirou fundo. O oxigênio afiado e gelado encheu seus pulmões, apagando o estupor e substituindo o choque pela clareza letal de um Caçador. O garoto cerrou o punho esquerdo — já que o direito repousava inutilizado ao lado do corpo — e assumiu a postura ao lado de Kai.
O clone tinha total razão. Fosse qual fosse a verdade, e por mais tentadora que fosse a proposta do pirata da Lista Negra, a hora de tomar uma decisão definitiva ainda não era agora.
Parte 10
Dante e Kai estavam prontos. A adrenalina espessa corria pelas veias, mascarando a dor alucinante que rasgava seus corpos destruídos. As auras de ambos pulsavam em uníssono, retraindo-se como molas tensionadas a um milímetro de disparar a investida final.
Mas, no milésimo de segundo em que as solas de suas botas tracionaram contra o piso para o primeiro passo, a gravidade pareceu desmoronar.
Uma pressão densa e invisível despencou do teto, esmagando o oxigênio do corredor. Dante e Kai sentiram a energia evaporar de seus poros de uma só vez, como se um interruptor principal tivesse sido arrancado da tomada à força. Os músculos cederam. As pernas falharam. Os dois desabaram de supetão, o metal frio do piso chocando-se contra seus rostos com um baque surdo.
— Droga... o que é isso?! — Dante arfou. Com o rosto prensado contra o chão gelado e os dentes trincados, ele descobriu ser incapaz de mover um único dedo.
— É sério isso, Shisui?
A voz suave, mas revestida por uma autoridade implacável, varreu o vagão e calou o ruído da ventania lá fora. Das sombras do corredor dilacerado, a figura imponente de Love emergiu. Ele caminhava com uma lentidão calculada, as solas dos sapatos esmagando destroços de cadeiras e chapas de metal torcido. Os olhos calmos, porém pesados, estavam cravados no pirata espacial.
— Eu disse claramente para você não fazer bagunça dentro do trem, e é exatamente isso que você faz? — Love soltou um suspiro longo, o tom ressoando com a decepção exausta de um pai. Em seguida, desviou o olhar para os dois garotos prensados no chão. — E vocês dois? Nós estamos quase chegando na próxima parada. Como é que pretendem fazer o próximo teste nesse estado?
Kai tentou erguer a cabeça. As veias de seu pescoço saltaram, grossas sob a pele machucada, enquanto o clone travava uma guerra particular contra a supressão opressiva do examinador.
— Dane-se, Love! — Kai rosnou, os dentes sujos e o sangue escorrendo pelo queixo. — A gente tem que terminar... a porra que começou!
Mas a corda invisível que sustentava a tensão do ambiente já havia arrebentado. Shisui relaxou os ombros, enfiou as mãos nos bolsos do casaco e estalou o pescoço em um movimento preguiçoso. A simples presença de Love havia esterilizado a sede de sangue do corredor.
— Esqueçam. Eu já perdi a vontade — Shisui declarou. Pela primeira vez desde o início da carnificina, ele exibia uma feição genuinamente incomodada e frustrada. — Com ele aqui, nós não vamos conseguir lutar direito de qualquer forma.
Girou nos calcanhares, dando as costas aos três.
— Espera! — Dante gritou, forçando a voz a sair como o raspar de uma lixa na garganta seca. — Mas... e o resto da história?!
O pirata parou. Olhou por cima do ombro e ergueu a mão esquerda em um aceno desinteressado.
— Relaxa, garoto. Nós teremos outras oportunidades. Como eu disse, ainda não desisti de te colocar no meu navio, de qualquer forma. Nos vemos por aí.
E, com passos compassados e inaudíveis, o membro da Lista Negra foi engolido pelas portas automáticas do vagão.
Espalmado no chão, Dante sentiu uma frustração colossal esmagar-lhe o peito. Quis socar o metal, mas seu corpo finalmente cedeu o último grama de força à exaustão. Merda... droga... pensou, enquanto as bordas de sua visão escureciam e a respiração se tornava curta e superficial. Eu queimei absolutamente toda a minha Aura...
A poucos passos dali, os olhos de Kai rolaram para trás. No exato instante em que o bloqueio da adrenalina recuou de seu sistema nervoso, a fatura dos ferimentos foi cobrada à vista. O clone perdeu a consciência, amolecendo contra o piso.
Ao constatar o estado crítico da dupla, a postura majestosa e intocável de Love desmoronou como um castelo de cartas, dando lugar a um pânico agudo e desajeitado.
— Tenham dó de mim! O que é que vocês tavam pensando em fazer?! — Love correu até eles, tropeçando nas próprias pernas antes de se abaixar para içar os dois de uma só vez, jogando-os sobre os ombros. — Se eu não tivesse aparecido, vocês tavam querendo morrer?! Aguentem firme, eu vou levar vocês pra enfermaria agora!
Enquanto o balanço da corrida atabalhoada de Love pelos corredores embalava os garotos, a mente de Dante começou a flutuar rumo ao limbo entre a vigília e a escuridão. O latejar excruciante do braço queimado pareceu ficar muito distante, abafado pela reverberação de uma única ideia em seu cérebro.
Então... já houveram outras pessoas que voltaram dos mortos.
Corpos que se ergueram sem a permissão do Astreus da Morte. Uma brecha. Uma esperança concreta. Uma parte sua, no fundo da alma, vibrava em um alívio extasiante. Era a prova de que precisava de que trazer Nero de volta não era apenas um delírio patético; existia um mecanismo, um caminho traçado, não importava o quão obscuro ou letal fosse.
Mas... por algum motivo completamente irracional, um eco o puxava para baixo. Uma melancolia estranha e gelada apertava o seu peito. E, à beira da inconsciência, o próprio Dante foi incapaz de compreender o motivo daquele sentimento sombrio ter brotado justamente no momento em que conquistara a sua primeira grande pista.
Longe dali, a quietude impecável de um vagão deserto abraçava os passos de Shisui.
O pirata parou abruptamente no meio do trajeto. Levou as costas da mão ao rosto e arrastou a pele sob o nariz, incomodado com uma sensação súbita de umidade. Ao abaixar a mão e focar na própria pele, encontrou um filete pequeno, porém nítido, de sangue fresco.
Não era apenas o sangramento do corte interno na bochecha. A matemática do estrago fez sentido em sua cabeça: o impacto combinado da força bruta implacável de Kai com o Chronos Break suicida de Dante havia gerado um dano real. O golpe duplo fora capaz de furar a resistência absurda de seu corpo, causando-lhe um pequeno sangramento nasal.
Shisui encarou o sangue manchando a pele. O sorriso sádico e calculista que carregara durante toda a noite derreteu, sendo substituído por um sorriso autêntico, rasgado e inegavelmente satisfeito.
— Aquele garoto... ele realmente é bem interessante — Shisui murmurou para o vazio do corredor. — Me pergunto o que mais ele será capaz de mostrar no futuro.
E, sacudindo os dedos manchados, o pirata espacial voltou a caminhar, genuinamente empolgado com o caos inevitável que aguardava aquele mundo.
Parte 11
No vagão restaurante, o ar parecia ter coalhado. O silêncio que se seguiu ao peso das últimas revelações era denso, quase sufocante, pontuado apenas pelo baque rítmico e hipnótico das rodas metálicas massacrando os trilhos.
Mio permanecia estática na cadeira, as íris levemente dilatadas enquanto lutava para digerir os segredos macabros que agora manchavam a história de sua própria terra natal. Ao seu lado, Anna afundava num mutismo impenetrável. A sombra de abatimento que antes desenhava seu rosto havia evaporado; em seu lugar, assentou-se uma determinação silenciosa, gélida e inegavelmente letal. A mera fagulha de que a ressurreição não era um milagre inalcançável havia plantado uma raiz venenosa em sua mente.
Cyfera, apoiada na mesa, dissecava as microexpressões no rosto das duas garotas com o deleite analítico de uma acadêmica inspecionando relíquias. Mas, antes que a arqueóloga pudesse saborear plenamente as reações, Justia retalhou o silêncio, recusando-se a deixar a poeira baixar.
— Ainda assim, Cyfera... essa era a última coisa que eu esperava ouvir de você — Justia disparou. A postura rígida e o tom severo de paladina assumiram o controle da mesa. — Quer dizer, eu entendo perfeitamente que a Rani ou a Paracelso sejam doentias e loucas ao ponto de tentar cometer um Tabu, indo em busca de quebrar as leis absolutas dos Astreus. Mas por que logo você? Você sempre pareceu buscar apenas histórias antigas sobre o mundo. Por que estaria tão obcecada em descobrir como quebrar a lei absoluta do Astreus da Morte?
Justia inclinou-se milimetricamente para frente, o azul de seus olhos afiando-se em um brilho perigoso. — Quem é tão importante assim para você, ao ponto de te fazer querer cometer um Tabu real e ressuscitar alguém?
Cyfera piscou, legitimamente desarmada pela acusação frontal. Um segundo depois, um riso leve e despretensioso escapou de seus lábios, afrouxando a corda invisível que tensionava o ambiente — embora não a soltasse por completo. — Relaxa, Justia. Não é como se eu estivesse de fato pensando em fazer algo tão dramático como ressuscitar os mortos.
O choque elétrico da frase tirou Mio e Anna do transe no mesmo batimento cardíaco. — Como assim?! — Mio esbravejou, o movimento brusco fazendo a borda de seu prato tilintar ruidosamente contra a madeira. — A forma como você contou toda essa história macabra parecia exatamente que era isso que você queria!
— Calma, é bem mais simples do que isso. — Cyfera apoiou o queixo na palma da mão, um sorriso plácido e enigmático moldando os lábios. — Como uma arqueóloga, a coisa que eu mais compreendo no universo é a história. Através do estudo de como as coisas aconteceram no passado, eu ganho uma compreensão perfeitamente clara de como o mundo funciona no presente.
A mulher baixou o olhar para as próprias mãos, como se lesse pergaminhos invisíveis em suas linhas. — Tudo o que eu quero, através de toda essa pesquisa sobre o "Corpo que se Levantou dos Mortos", é apenas mapear o método exato que foi usado para entender como uma Quebra de Sombra funciona na prática. Porque, se eu conseguir entender isso, eu poderei finalmente confirmar se, de fato, outra Quebra de Sombra aconteceu no passado.
Mio cedeu sob o peso das palavras. Esfregou as têmporas com as pontas dos dedos, soltando um gemido arrastado de pura frustração. — Conversar com você tá sugando muito mais energia do meu cérebro do que eu tenho pra gastar! Eu preciso de mais açúcar pra processar esses enigmas!
— De que Quebra de Sombra você está falando? — Anna cortou a reclamação. A voz da garota vibrou no ar como uma corda esticada além do limite.
Justia arregalou os olhos. A mente tática da militar conectou as engrenagens dispersas na conversa com uma rapidez assustadora, e ela cravou o olhar no rosto da arqueóloga. — Espera um pouco... Uma pesquisa histórica paralela apenas para entender o funcionamento mecânico de uma peça, para então encaixá-la em um quebra-cabeça muito maior? — O som de Justia engolindo em seco soou nítido. — Cyfera, você não tá me dizendo que...
Cyfera virou o rosto para ela lentamente. O verniz polido do sorriso acadêmico derreteu, revelando o núcleo de uma obsessão febril, absoluta e cegante. — É claro que sim. Não importa quanto tempo demore, nem quantas milhares de peças soltas e histórias bizarras eu tenha que caçar e colocar no lugar pelo mundo afora. O grande foco da minha pesquisa nunca mudou. Porque, no final das contas, todas as anomalias sempre vão apontar de volta para ele.
A respiração no vagão pareceu ter sido suspensa enquanto Cyfera começava a listar o verdadeiro e colossal objetivo de sua vida, a voz caindo para uma oitava quase hipnótica: — O evento cataclísmico onde o Portal para Avalon desapareceu da face da Terra... O incidente original e grotesco que deu origem à raça dos Scarlunes... O homem inalcançável que desbravou o mundo inteiro e, por conta de seus feitos, ficou conhecido nas lendas como o Rei dos Caçadores.
Cyfera fechou os olhos, a expressão banhada numa reverência genuína. — Tudo o que eu faço, cada ruína que eu escavo e cada lenda que eu persigo, se resume a tentar entender o que de fato aconteceu naquele dia. Eu preciso descobrir como a família amaldiçoada que nunca deveria existir... de fato começou.
Mio apoiou as mãos na mesa e ergueu-se devagar da cadeira. A fadiga mental evaporou, varrida por um calafrio brusco que eriçou os pelos de sua nuca. A lembrança bateu à porta de sua mente: ela já havia escutado Cyfera pronunciar aquele nome inominável antes.
Anna também travou, o corpo inteiro retesando como pedra. Como carregava dentro de si fragmentos e ecos das memórias mais profundas de Dante, ela conhecia aquele nome muito, muito bem. Era o fantasma soberano que assombrava o topo do mundo. A origem central de toda a loucura.
Daemon Scarlune.
Parte 12
O som constante e ritmado das rodas de aço massacrando os trilhos parecia não existir ali. Em um vagão imerso em escuridão e isolado nos fundos do Trem Escarlate, totalmente alheio ao caos que desmoronava os vagões da frente, uma comunicação operava nas sombras.
O homem segurava o rádio próximo aos lábios. A postura era relaxada, e a voz carregava uma serenidade dissimulada que ecoava na acústica vazia do metal. — Entendo... — ele murmurou no escuro. — Então, tudo o que precisamos fazer é encontrar a segunda chave e levá-la direto para a tumba de Daemon. Mas eu me pergunto se não será um problema lidar com o tal Dante que está aqui no trem também.
Do outro lado da linha, o chiado estático foi cortado por uma voz feminina, ríspida e impaciente. "Rasputin, quantas vezes eu vou precisar repetir o motivo da sua equipe ter sido enviada? Essa é uma missão de infiltração e roubo! Não de batalha. Não precisamos chamar atenção agora e, muito menos, comprar briga com os Scarlunes! Nós estamos com pouca gente na base principal e não é nem de longe o momento adequado. Uma confusão agora só deixaria a situação da Neo ainda mais difícil durante a reunião dos líderes em Marte."
Rasputin abriu um sorriso ladino. Com a mão livre, ele girava um pequeno amuleto entre os dedos em um balé contínuo. — Nossa, isso seria realmente trágico. Eu não quero de forma alguma atrapalhar o desabrochar da nossa delicada muda de crisântemo, não é verdade, Lady Ceto?
"É sério," Ceto advertiu. O som de um suspiro pesado vazou pelo alto-falante do rádio. "É melhor você parar de ficar chamando a Neo de 'flor' desse jeito, ou o Arcanum vai acabar te matando."
— Hahaha! — Rasputin riu, o som vibrando sem um pingo de medo. — Faz parte do ofício! Todo jardineiro que passa anos cultivando e cuidando de uma bela flor teme que ela seja tocada por mãos desconhecidas, já que elas podem lhe fazer algum mal... Mas saiba que, no fundo, eles também desejam que as suas flores sejam vistas e apreciadas pelo mundo.
"Tanto faz," Ceto cortou a analogia com secura. "Apenas tome cuidado. Os Scarlunes são instáveis demais; não dá para prever o que vai acontecer quando se lida com eles. Mas nós precisamos colocar as nossas mãos naquilo urgentemente... antes que a Horizon faça a sua verdadeira aparição pública, pelo menos."
— Mal posso esperar — Rasputin sussurrou. Seus olhos cintilaram na penumbra, movidos a pura ambição. — Estou louco para ganhar a confiança de vocês e, assim, descobrir um dia o que essa relíquia misteriosa realmente faz.
"Você escutou muito bem as regras com a Irene. Mas, mais importante que isso: você já entrou em contato com ele?"
— Sim, já entrei. E confesso que tomei um verdadeiro susto. Não achei de forma alguma que aquela seria a aparência real do nosso aliado infiltrado—
As palavras morreram em sua garganta. A temperatura no vagão despencou. O ar, antes rarefeito e silencioso, tornou-se espesso, pressionando os tímpanos de Rasputin como se ele tivesse afundado no oceano.
"Ei, Rasputin... você não colocou as barreiras no vagão? Seu idiota, eu te avisei tanto!"
Uma única gota de suor frio escorreu pela têmpora do monge. Ele sentiu. Uma presença alienígena e esmagadora pulsava dentro do seu domínio perfeito. — Sinto em dizer isso, senhorita Ceto... mas não é uma situação simples assim — Rasputin falou contra o aparelho, todo o tom brincalhão varrido de sua voz. — Eu mesmo conferi todos os sigilos mais de uma vez. Por mais que eu goste de brincar e provocar, com as minhas magias, eu sou sempre sério e excessivamente cauteloso.
O clique seco encerrou a transmissão. Ele abaixou o rádio e girou o corpo lentamente, encarando o breu profundo no fundo do vagão. — Por isso, meu caro jovem... — Rasputin estreitou os olhos, tentando decifrar a silhueta elegante que ganhava forma em meio às sombras. — Poderia me dizer? Para as pessoas que não receberam a minha permissão, ninguém deveria sequer conseguir perceber a existência desse vagão no plano físico. Sendo assim... como você entrou caminhando como se não fosse nada, atravessando todas as minhas barreiras de proteção?
O homem nas sombras ergueu o queixo. Um sorriso de canto despontou — polido, arrogante, professoral. — Já faz algumas décadas que eu não sou tratado como alguém "jovem" — a voz de Heisen Scarlune cortou a tensão. Ele ajeitou a armação dos óculos com a ponta dos dedos, e as lentes refletiram um desdém afiado. — Mas acho que faz sentido, considerando que estou na presença do infame Grande Monge Louco.
Com um passo calmo, Heisen cruzou a linha da escuridão, revelando-se sob o foco de luz fraca que vazava do teto. — Pois bem, meu caro. Como eu nunca recuso a chance de adicionar um pouco de conhecimento na mente limitada dos leigos, eu irei responder. — O tom era de puro escárnio. — É que, para mim, uma soma de barreiras e sigilos desse nível medíocre não servem para me impedir. Na realidade, a forma amadora como você os teceu só ajudou a chamar ainda mais a minha atenção.
O sorriso no rosto de Rasputin sumiu. — Está dizendo que o nível das minhas magias é fraco comparado ao seu?
Heisen soltou uma lufada de ar pelo nariz, uma risada curta e anasalada. — Acho que terei que ajustar mais o meu vocabulário para a sua compreensão... — O professor percorreu a figura do monge de cima a baixo com um olhar clínico. — Sendo completamente franco, chega a ser ofensivo você querer comparar a minha técnica com esse ilusionismo barato e primitivo que você chama de "magia". Será que agora você conseguiu compreender?
A provocação foi o gatilho. A tensão física no vagão explodiu. Duas forças colidiram no ar antes mesmo que qualquer feitiço fosse invocado. Sob as botas deles, o piso de metal gemeu e começou a rachar, incapaz de suportar a gravidade do embate. De um lado, uma Aura de azul escuro, denso e necromântico vazou do corpo de Rasputin, rastejando pelo chão. Em contrapartida, uma energia de um verde cintilante, tóxico e estritamente predatório começou a irradiar do olho tapado de Heisen Scarlune, corroendo o oxigênio ao redor.
Mas, antes que o primeiro movimento fosse feito, a geometria do combate foi alterada. Uma terceira presença se materializou perfeitamente atrás de Rasputin. — Sinceramente, você não consegue fazer uma única missão direito, seu idiota?
A garota surgiu de forma abrupta, os olhos cravados em Rasputin, carregando pura irritação. — Se continuar chamando mais atenção, vai avisar para o trem inteiro o que está acontecendo aqui — Delta ralhou.
Sem desviar a atenção da ameaça esmeralda à sua frente, Rasputin deixou os ombros caírem meio centímetro e abriu um sorriso de alívio. — Bem na hora, Lady Delta. Acredito que irei precisar da sua habilidade... pois acabei de achar um calouro arrogante do mundo da magia querendo comparar feitiços comigo.
Delta apenas cruzou os braços contra o peito, os olhos frios avaliando o caos iminente sem o menor interesse. — Isso não é problema meu.
O baque da rejeição foi sobreposto por um som repentino. Heisen começou a rir. O som era cadenciado, cirúrgico, mas vibrava com uma insanidade contida que arranhava os tímpanos.
Rasputin franziu a testa, o incômodo finalmente trincando sua máscara serena. — Posso saber o que o senhor está achando tão engraçado no meio disso tudo?
— É que parece que eu poderei me divertir um pouco — Heisen respondeu. Ele ajeitou a postura, endireitando os ombros largos sob o terno.
— Por quê? Somente se formos dois contra um você acha que poderemos te divertir? — Rasputin rebateu.
— Que isso, calma. Eu não sou desse tipo de besta irracional como o restante da minha família, que acredita que quanto mais lutas e adversários no campo, mais interessante será o banho de sangue. — Heisen ergueu a mão direita. Fagulhas de energia esmeralda começaram a estalar violentamente por entre seus dedos. — É simplesmente que, como agora tem dois de vocês na minha frente, eu vejo que não preciso mais me preocupar em segurar a mão.
O rosto do professor transfigurou-se. A máscara polida e didática despencou de vez, dando lugar a um sorriso psicopata e genuíno que revelava o predador que habitava seu sangue. O verdadeiro herdeiro Scarlune. — Afinal de contas, eu só preciso deixar um de vocês vivo para me contar quem é o aliado infiltrado a bordo desse trem. O que é excelente... pois eu acho extremamente irritante a ideia de ter que me restringir.
Parte 13
O zumbido opressivo dos super-resfriadores competia com o estalo frenético de dezenas de teclados na sala de controle principal. O caos ditava o ritmo. O brilho azulado e intermitente dos monitores iluminava o rosto tenso de Descora, que acompanhava a movimentação da equipe técnica correndo pelo piso metálico feito formigas num formigueiro em chamas.
— E aí?! Ainda não tiveram nenhum resultado?! — a voz de Descora chicoteou o burburinho, cortando o ar pesado.
Os funcionários passavam em um borrão apressado de pranchetas e tablets. — Ainda estamos investigando os registros a fundo, senhora, mas não encontramos nada! — um dos técnicos respondeu, encolhendo os ombros em instinto de defesa antes de mergulhar de volta no trabalho.
A resposta injetou mais veneno na irritação de Descora.
À sua esquerda estava Hilda Scarlune, a implacável Chefe de Segurança da ilha. A mulher mantinha a postura militar irretocável, sustentando o próprio peso com precisão matemática e as mãos cruzadas rigidamente nas costas. À direita, o contraste exato: Lucy, a Administradora de Tecnologia, exibia uma postura fluida e relaxada, os dedos deslizando com aparente preguiça sobre as projeções de um tablet holográfico.
— É sério que nenhuma de vocês duas encontrou absolutamente nada também?! — Descora fuzilou as aliadas com o olhar.
Hilda não vacilou sob a cobrança. A resposta saiu firme, estruturada: — Já fizemos dezenas de checagens nas escalas de patrulha. Todos os homens estavam em seus devidos postos de guarda no dia do incidente. Além disso, se alguém de fora tivesse entrado sorrateiramente no subsolo da mansão para mexer nas máquinas, os Cães de Annwn teriam farejado o intruso e nos avisado imediatamente. Mas nenhum dos cães demonstrou qualquer comportamento agressivo ou atípico. Nossas defesas físicas não foram violadas.
Do outro lado, Lucy soltou um suspiro abafado, sem se dar ao trabalho de erguer os olhos da tela de luz. — Aqui na rede de segurança o cenário foi o mesmo. Eu até entrei em contato direto com a Grayfia há pouco. Se algum hacker tivesse invadido o nosso servidor remotamente, não seria apenas um problema de tráfego local; toda a infraestrutura matriz da General Mecânica estaria em risco, seja por um ataque cibernético massivo ou pela péssima reação dos acionistas e do público a uma notícia de vazamento crítico. Ninguém de fora entrou no nosso sistema sem autorização. É impossível.
Bang! Descora bateu o punho fechado contra a mesa de metal. O som seco ecoou nas baias próximas. — Eu só escuto desculpas e mais desculpas! Mas isso não muda os malditos fatos! Se alguém usou o nosso próprio servidor para bagunçar a rota de trens específicos e desviá-los, alguma coisa grave aconteceu! E eles não teriam destruído o computador principal lá na base da força bruta se não fosse justamente para apagar os rastros da operação!
Com a paciência reduzida a pó, Descora se jogou pesadamente na cadeira de comando, o couro rangendo sob seu peso. Ela esfregou o rosto com as duas mãos, arrastando a pele. — Que droga... eu preciso comer alguma coisa antes que eu mate alguém de estresse.
O ritmo do salão foi quebrado por passos atropelados. Um dos técnicos se aproximou correndo, os sapatos derrapando, quase o fazendo tropeçar nas próprias pernas. — S-Senhora! Tenho notícias sobre a investigação de recuperação dos acessos!
Descora saltou da cadeira como uma mola. A exaustão sumiu, substituída por um brilho predatório no olhar. — Finalmente uma notícia boa nesse buraco! Fala! E fala em alto e bom som para essas duas aqui escutarem também! Em que momento exato o computador foi usado por algum acesso não autorizado?!
O homem engoliu em seco. O som foi quase audível, a hesitação o esmagando sob o peso simultâneo do olhar das três mulheres mais perigosas da sala. — É que... bem...
— Desembucha, homem! — Descora rosnou, o tom perigosamente baixo. — Se for pra me dar a péssima notícia de que os dados corromperam de vez e não temos nada, é melhor falar logo pra eu poder reclamar, berrar e esquecer isso de uma vez!
— N-Não é isso, senhora! Nós conseguimos, sim, recuperar os dados do terminal que foi destruído! — o técnico gaguejou, uma fina camada de suor frio brotando na testa. — O problema é que... na realidade, não havia nenhum histórico de invasão ou uso indevido nos logs. Todos os acessos registrados usaram credenciais de altíssimo nível. Perfeitamente válidas.
O silêncio absoluto engoliu a sala de controle. O estalar dos teclados parou. Até mesmo o bipe constante das máquinas pareceu ser sufocado pelo ar de repente denso.
Descora, Hilda e Lucy congelaram no mesmo segundo. O significado nu e cru daquela informação exigiu o intervalo de uma batida de coração para ser processado, mas, quando a ficha caiu, a gravidade no ambiente se tornou esmagadora.
— Pera aí... — Hilda estreitou os olhos. A engrenagem tática girava a mil, conectando rapidamente as pontas soltas. — Se não houve invasão física de pessoas de fora... e se não houve nenhum hack ou acesso de rede não autorizado... isso significa apenas uma coisa.
Lucy ergueu as mãos do tablet em um gesto teatral e solto, um sorriso cínico e gélido rasgando seus lábios. — Bom, pelo menos para mim, isso já tava bem claro desde o começo. Eram só vocês duas que não queriam ver o óbvio.
Descora levou a mão à boca, cravando os dentes na lateral do próprio dedão com força suficiente para ameaçar rasgar a pele. O ódio borbulhava em suas veias, espesso, quente e letal, enquanto ela encarava o vácuo projetado na tela de dados recuperados.
— Merda... — Descora sussurrou, a voz vibrando com uma fúria brutalmente contida. — Então, realmente... tem um traidor entre nós?



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