The Fall of the Stars: Capítulo 2 - Fora dos Trilhos
- AngelDark

- 14 de jul. de 2025
- 75 min de leitura
Atualizado: 9 de mai.
Volume 5 : Trem Escarlate
Parte 1
A vibração rítmica do metal sob os pés ditava a pulsação do setor residencial. Os corredores estreitos mergulhavam em uma penumbra perpétua, recortada apenas pelos feixes amarelados das arandelas presas às paredes. A cada solavanco da locomotiva, os painéis de madeira escura rangiam, um lamento estrutural constante que se misturava ao aroma espesso de tabaco caro e ao rastro doce de incenso queimado. Era um conforto asfixiante, um luxo que repousava sobre uma camada palpável de tensão.
O farfalhar seco de uma porta shoji deslizando rasgou o silêncio contínuo do vagão.
Dante cruzou o batente com passos pesados. Ao se endireitar no corredor, sua coluna estalou em um protesto agudo. O corpo inteiro repuxava, a musculatura moída pelo desconforto de passar horas sentado no chão, forçando a própria aura até o limite. Ainda assim, ele apoiou a mão na madeira, espiou pela fresta aberta do quarto e abriu um sorriso largo — genuíno, exausto e absurdamente mal-interpretável.
— Valeu mesmo pela noite, Bea! — a voz dele ecoou, perfeitamente alta e despojada. — Foi muito bom!
A resposta cruzou o espaço na velocidade de um disparo.
— CALA LOGO A PORRA DESSA BOCA E DESAPARECE, SEU MALDITO!
O vulto de um travesseiro disparou pelo quarto como um míssil. Dante recuou o tronco num reflexo e puxou a folha de correr. O baque surdo das penas explodiu contra a porta no exato milésimo de segundo em que ela se fechou, fazendo a estrutura de madeira tremer sob os dedos dele, um eco oco que rolou pelo corredor.
Ele soltou um suspiro longo, o ar escapando devagar entre os dentes, e afundou as mãos nos bolsos da jaqueta. Quando girou os calcanhares para voltar ao seu próprio quarto, seus passos hesitaram.
O corredor já não estava deserto. Uma sucessão de frestas milimétricas pontilhava as portas ao redor, revelando os olhos arregalados dos Scarlunes vizinhos. O murmúrio começou rasteiro, um farfalhar de cochichos escandalizados que ricocheteavam de uma ponta à outra.
— Pelos deuses, a noite inteira... e ele ainda agradece em voz alta no corredor...
Dante piscou. A confusão desenhou um vinco fundo em sua testa enquanto ele alternava o olhar entre as portas. Deu de ombros, pisoteando sem a menor cerimônia o campo minado de malícia à sua volta. Povo esquisito, pensou, retomando a caminhada. O esforço, no fim das contas, compensava. Moldar a aura na base da tentativa e erro sob os gritos furiosos de Beatrice drenava até a alma, mas era infinitamente superior a decifrar a teoria maçante dos livros antigos.
Ele tombou a cabeça para o lado para estalar a cervical. No exato momento em que passava por uma das portas mais adornadas do vagão, a folha de madeira recuou de supetão, engolida pela parede.
Dante travou no meio do passo.
A figura que bloqueou o caminho o atingiu como uma força da natureza. Os fios de cabelo ciano estavam em um caos absoluto, caindo sobre os ombros em cascatas desordenadas. Ela vestia uma camisa social de linho branco, mas os botões eram uma mera sugestão; o tecido estava escancarado até a metade do abdômen, exibindo sem qualquer pudor o volume generoso dos seios e a curva da cintura. A pele, clara como a água, parecia transpirar uma letalidade sedutora. Cada centímetro do seu corpo exalava uma eletricidade crua, perigosa e indomável.
Era Paracelso.
— Ora, ora. Olha só quem decidiu dar as caras.
A voz dela deslizou pelo corredor, arrastada e densa como mel envenenado.
A intimidade foi imediata e invasiva. Antes que Dante processasse a ideia de recuar, Paracelso anulou o espaço entre os dois. Ela escorregou o braço pelos ombros dele com o peso assertivo e a naturalidade predatória de uma tia abusada apertando as bochechas do sobrinho — ou de uma dona que acaba de esbarrar em seu brinquedo favorito perdido.
— Senti tanto a sua falta, garoto... — Ela inclinou a cabeça, sussurrando contra a orelha de Dante enquanto seus dedos brincavam frouxamente com a gola da jaqueta dele. — Você não tem ideia de como eu fiquei triste quando me disseram que você tinha morrido.
A aura recém-treinada de Dante e seu instinto de autopreservação gritaram em uníssono para que ele corresse para a outra extremidade do trem. Mas ele conhecia aquele monstro. Escapar de Paracelso nos limites claustrofóbicos de uma locomotiva em movimento não era física ou logicamente viável.
Os ombros de Dante cederam. Ele soltou o ar ruidosamente pelas narinas, aceitando o próprio destino.
— Você também está indo para o onsen tomar banho? — Paracelso abriu um sorriso, o fundo de seus olhos brilhando com uma malícia faminta. — Que coincidência. Vem comigo. A gente aproveita pra colocar o papo em dia.
— É... acho que eu não tenho como te despistar de qualquer forma, né? — ele resmungou. A expressão de preguiça absoluta retomou seu rosto enquanto a mulher o rebocava corredor afora.
O bater metálico e constante das rodas sobre os trilhos ditava o compasso dos dois. Paracelso apertou levemente o abraço, virando o rosto para encará-lo de perfil.
— Mas me conta, que papo foi esse de você ter morrido há vinte anos? Você sumiu de um jeito tão dramático.
— Viagem no tempo — Dante respondeu secamente. Os olhos fixos à frente, as mãos imóveis nos bolsos. — Fui jogado vinte anos pro futuro. O desaparecimento no passado acabou sendo tratado como morte.
Paracelso ergueu as sobrancelhas, um assobio baixo vazando por entre os lábios.
— Uau. Viagem no tempo? Eu realmente não esperava por essa. — Um sorriso pontiagudo cortou o rosto dela. — Mas eu sabia que você não iria morrer de um jeito tão fácil e sem graça.
Dante revirou os olhos, encarando o teto de madeira.
— Poupa o teatro, Paracelso. Eu não quero ouvir isso de você. Eu sei muito bem que você só tá me dando essa justificativa fofa agora pra ter uma desculpa quando for me pedir pra me abrir e dissecar meu corpo.
Ela atirou a cabeça para trás. Uma gargalhada solta e genuína irrompeu de sua garganta, a vibração do som competindo com o ruído dos trilhos enquanto ecoava pelo corredor vazio.
— Como você percebeu?
— Você nem tentou negar, sua maldita! — Dante acusou, apontando o dedo.
A risada de Paracelso foi perdendo o fôlego aos poucos, o som se dissolvendo na vibração áspera e contínua do piso de madeira sob os pés deles. Ela inclinou a cabeça. O brilho debochado nos olhos da mulher transmutou-se, afiando-se com a precisão fria de um bisturi ao alterar o clima.
— Mudando de assunto... e a Nero? Como ela está?
A bota de Dante hesitou uma fração de segundo no ar antes de tocar o chão. Um defeito microscópico no compasso de sua caminhada. A energia despojada escorreu de seu rosto, deixando uma sombra dura e repentina tensionar a linha de seu maxilar. Ele manteve o olhar cravado no final do corredor, recusando-se a virar.
— Ela morreu.
Paracelso estancou. O baque surdo e rítmico das rodas da locomotiva mastigando os trilhos pareceu subitamente alto demais. O silêncio entre os dois engrossou, pesado o suficiente para sufocar a fumaça rala das arandelas que iluminavam a passagem. O verniz de letalidade sedutora despencou enquanto ela cruzava os braços com firmeza sob os seios.
— Entendi. — O timbre desceu, rasteiro e cru. — Mas que droga.
Dante avançou mais dois passos antes de parar. Ele girou o pescoço sobre o ombro, as sobrancelhas unidas em uma parede de confusão genuína.
— Não esperava por essa. Você se importando com a morte de alguém?
— Isso foi maldade da sua parte, garoto. — Paracelso estreitou os olhos, a irritação quase didática, sem calor. — Eu me importo com as pessoas.
— Não a ponto de sentir qualquer coisa com a morte delas.
Ela não fez menção de negar. Apenas deixou o peso do corpo ceder até que seu ombro batesse contra os painéis escuros do vagão. O olhar perdeu o foco.
— A Nero era um caso especial.
— Por quê? — a pergunta vazou dos lábios de Dante. Ele já se arrependia da própria língua no instante em que o som ecoou.
O sorriso malicioso de Paracelso emergiu das sombras, letal, contorcido e catastroficamente inoportuno.
— Porque ela foi uma das poucas garotas interessantes que eu ainda não experimentei na cama. — Ela soltou um suspiro teatral, desenhando uma curva no ar com a mão livre, como quem lamenta uma taça de safra rara espatifada no tapete. — Eu sempre espero elas atingirem uns trinta anos. É quando alcançam a maturidade e a textura perfeita da pele... desperdício.
A palma de Dante encontrou a própria testa com um estalo seco.
— Eu sabia que não devia ter perguntado. Maldita curiosidade.
Paracelso soltou uma risada rascante que morreu logo na garganta. Quando voltou a fixar as íris cianas nele, o peso ancorou sua voz, derrubando a entonação.
— Mas o outro motivo... é porque eu realmente achava que vocês dois ficariam juntos no fim das contas. Depois de tudo o que passaram.
Dante virou o rosto para a parede oposta. O silêncio dele bateu no corredor como uma sentença absoluta. A mandíbula estava tão travada que o músculo saltava sob a pele, os olhos grudados cegamente nas junções da madeira gasta sob as botas.
As engrenagens de Paracelso deram um giro rápido. Um sobressalto cruzou os olhos dela.
— Eita. Não vai me dizer que ela te confessou os sentimentos dela antes disso?
A mudez de Dante continuou cimentada, mas o bloqueio de seus ombros desmoronou uma mísera fração de centímetro. Foi o suficiente. A resposta física de que ela precisava.
— Mas que droga... — Paracelso enterrou os dedos longos na raiz dos cabelos, puxando os fios cianos para trás e desgrenhando o próprio caos. — Era só o que te faltava. Mais um trauma amoroso pra sua lista. Sabia, garoto... eles estão mesmo tentando fazer você morrer virgem.
A melancolia cedeu lugar ao aborrecimento instantâneo. Dante franziu o cenho.
— Do que você tá falando agora?
— Você é muito delicado com essa coisa de relacionamentos. — Ela desencostou do painel com um solavanco suave, retomando os passos e erguendo a mão para contar os dedos. — Você já teve um total de três frustrações românticas até agora. Uma carga dessas só vai te afastar ainda mais das mulheres.
— Três casos? — Dante bufou. Os braços se cruzaram defensivamente. — Tá delirando. Quais foram?
— Número um: a Nero, que pelo visto morreu logo após se confessar pra você. — Ela baixou o primeiro dedo. — Número dois: a garota da missão em Luvania. Aquela que sumiu do mapa logo depois de você ter desistido de absolutamente tudo por ela.
Uma onda de calor escaldou a nuca de Dante. O choque e a vergonha duelaram pelo controle de suas feições, desmontando a guarda marcial do rapaz. Como diabos ela sabe disso?!, sua mente gritou. Era como estar com a caixa torácica aberta sobre uma mesa cirúrgica sem que a mulher sequer tivesse empunhado um bisturi.
— E por último... — Paracelso travou o passo e recolheu o terceiro dedo, apontando-o direto para o peito de Dante. — O seu caso com a sua mãe.
O cérebro de Dante deu curto. Toda a vergonha evaporou da espinha no mesmo segundo, esmagada por uma repulsa tão visceral que contorceu seu rosto em puro nojo.
— ...Hã? Do que caralhos você tá falando, sua doente?!
— Não faça essa cara estranha! — Paracelso agitou as mãos no ar, a postura adotando um verniz professoral que entrava em conflito direto com o fato de sua blusa estar aberta até o abdômen. — O relacionamento entre mãe e filho é, psicologicamente falando, o primeiro relacionamento amoroso e romântico da vida de alguém, mesmo que seja apenas o amor maternal incondicional. Mas, no seu caso... isso foi destruído antes mesmo de poder ser criado. Afinal, a sua mãe nunca teve a decência de te contar que era sua mãe.
Dante piscou devagar. O som do trem engolindo os trilhos preencheu o tempo que ele levou para processar a lógica doente, contorcida, mas milimetricamente precisa da mulher.
— Desse jeito que você fala... — Ele apertou os olhos, farejando as entrelinhas. — Faz parecer que eu já a vi em algum lugar.
— E já viu, sim. — Os lábios dela se curvaram no canto. — No passado, você a via bastante, na verdade. Ela só nunca se apresentou pra você com o título materno.
A revelação afundou no corredor. Pesada. Definitiva. Contudo, frustrando qualquer perspectiva de um colapso dramático ou crise existencial, o corpo de Dante não comprou a ideia. Ele estalou a língua no céu da boca — um clique afiado e exausto — e revirou os olhos.
— Gente problemática pra caramba... — resmungou. Os braços descruzaram, despencando nas laterais enquanto ele dava as costas a ela. O andar recuperou aquela malemolência desinteressada e solta de quem caminha para a cama. — Sinceramente? Não importa de qualquer jeito. Eu já decidi. Vou viver a minha vida perfeitamente bem sem essa coisa de romance ou namoradas. É dor de cabeça demais pra pouco retorno. Eu passo.
A bota de Paracelso cravou no assoalho. Ela ficou para trás, ouvindo a retórica vazia enquanto assistia à postura do garoto se afastar com aquele verniz de distanciamento maduro. O veneno subiu. Lentamente, um sorriso presunçoso e rasgado de puro sadismo delineou seu rosto.
— Sabe, garoto... — Ela cruzou os braços outra vez, projetando a voz rascante para que cortasse o espaço inteiro do vagão. — Isso é muito o discurso de quem vai morrer virgem.
O movimento de Dante quebrou. As botas estancaram no lugar. Sob a luz amarela, a veia em sua têmpora saltou, desenhando uma raiz grossa de pura fúria. Ele girou o tronco de uma vez só, o rosto ardendo em escarlate.
— VAI SE FODER, PARACELSO!
Parte 2
A pulsação do Trem Escarlate devorando os trilhos ditava o balanço do corredor de madeira polida. A caminho dos vagões termais, Dante virou o rosto para as amplas janelas de vidro grosso. A respiração dele embaçou levemente a superfície gelada. Lá fora, o branco violento da nevasca cedia terreno a uma névoa cinzenta e espessa, mas não foi a mudança atmosférica que o fez estancar. Sombras colossais e disformes rasgavam a vastidão branca, movendo-se com um peso contido.
Dante estreitou os olhos. As pupilas rastrearam a anatomia difusa através do vidro suado. Garras maciças, couraças de escuridão e uma aura que cheirava a letalidade pura, mesmo através da barreira metálica da locomotiva.
— Peraí... — ele murmurou, franzindo o cenho. — Aquilo ali fora são Majus? Mas o que diabos eles tão fazendo aqui? Isso não deveria ficar do lado norte de Threshold?
Paracelso parou um passo à frente. Ignorando solenemente a janela, ela manteve as íris cianas ancoradas no rosto confuso do garoto. Um sorriso arrastado e preguiçoso despontou em seus lábios.
— Bom, talvez eu esteja errada, mas talvez esse não seja o seu destino final de qualquer forma — ela pontuou, a voz deslizando mansa. — Afinal de contas, você já está tecnicamente noivo, não é? Sua rota na vida agora é outra.
A palavra "noivo" caiu sobre a cabeça de Dante como um bloco de chumbo, triturando qualquer raciocínio geográfico que ele tentava montar sobre as feras lá fora. O pescoço dele girou num estalo, a carranca armada no mesmo segundo.
— Esquece essa merda! Eu vou cancelar essa palhaçada de noivado assim que conseguirmos colocar alguém naquela cadeira estúpida de Rei! — esbravejou, atirando as mãos para o ar, atônito. — Até parece que alguém que já decidiu que não quer nem namorar vai se casar do nada. Vocês acham que eu sou burro?!
Paracelso piscou devagar. O sorriso se alargou, ganhando um contorno de concordância genuína que soou estranhamente perigoso.
— Estranhamente, garoto... eu concordo com você.
Dante recuou meio passo. A desconfiança ergueu um muro imediato.
— Casar e ficar presa todas as noites, pelo resto da eternidade, dividindo os lençóis com a mesma pessoa? — A mulher balançou a cabeça. Os dedos longos desenharam no ar como se descrevessem um crime hediondo. — Uma completa perda de tempo. Por que se contentar com uma só, quando podemos passar todas as noites experimentando os corpos de várias mulheres diferentes?
O maxilar de Dante cedeu. O fiapo de alívio por ter encontrado apoio evaporou de imediato.
— Não era nada disso que eu queria dizer! — ele berrou, espetando o ar com o dedo na direção do rosto dela. — Não confunda a minha reclamação e o meu estilo de vida com esse seu papo de depravada, sua maldita!
A risada dela rolou pelo corredor, rouca e pesada. Longe de recuar diante da fúria defensiva do garoto, a mulher de cabelos cianos avançou. Os passos perderam qualquer ruído; ela deslizou como água escura, predatória e inabalável. Dante congelou no lugar. A invasão de espaço esmagou o oxigênio entre eles.
Ela freou a milímetros de distância. O aroma doce de incenso misturado ao calor do suor feminino inundou as narinas do rapaz.
— Vamos, admita, Dante... — A voz de Paracelso rastejou por sua garganta, um sussurro úmido e pecaminoso. — Aposto que, no fundo, você também imagina como é a sensação. O peso de finalmente levar uma garota de verdade até a sua cama... jogar o corpo dela contra os seus lençóis. Ela, toda delicada, a pele macia, os olhos úmidos te observando e esperando que você venha e faça ela gemer um longo... ai, Dante... ahh...
O sangue no peito de Dante entrou em ebulição, disparando como uma labareda até as pontas das orelhas. O pânico cru de um celibatário encurralado o engoliu de vez. Ele atirou o tronco para trás num espasmo violento de fuga.
TUM.
O impacto da nuca contra o painel de madeira estremeceu o assoalho. O baque seco e surdo ricocheteou no confinamento do corredor. Dante espremeu os olhos, os dentes trincados num silvo de dor enquanto a mão voava para massagear a pancada.
— Pereça, sua maldita!
Paracelso tombou a cabeça para trás. A gargalhada rasgou sua garganta, cruel, sádica e absurdamente genuína.
— Hahaha! Tá vendo? — Ela apontou para a face escarlate e retorcida de dor do garoto. — Enquanto você continuar protegendo essa sua virgindade como se fosse um tesouro sagrado, isso vai continuar sendo a sua maior fraqueza.
— Tanto faz! — Dante esganiçou-se, tentando engolir a postura arruinada. — Esse tipo de provocação barata só funciona com depravadas malucas como você! E esse tipo de pessoa é uma exceção de uma em um milhão! Mulheres normais não são assim!
A risada da mulher esvaiu-se devagar, dando lugar a um olhar embebido numa pena quase condescendente.
— Você só fala isso porque não conhece as mulheres de verdade, garoto. Toda mulher tem o seu lado depravado também. A única diferença é que eu não me importo nem um pouco em mostrar o meu.
A boca de Dante abriu para um contra-ataque, mas a voz engasgou. Aquele abismo de loucura enfaixado em curvas operava sob uma lógica perigosa — uma para a qual ele não queria acreditar, mas faltava munição para refutar.
Vencido pelo constrangimento, ele estalou a língua e retomou a marcha a passos duros, forçando a mulher a ir a reboque. O rangido rítmico do trem preencheu o vácuo por alguns metros, até que a agonia da curiosidade superou o desconforto.
— Ei... já que você sabe os podres de todo mundo... — Dante puxou, arrastando as sílabas, mantendo os olhos rigidamente colados na costura do tatame. — Você sabe alguma coisa sobre essa tal noiva que me empurraram? Essa Cyfera?
Paracelso torceu o pescoço para ele. Os dedos finos subiram com uma graça teatral para disfarçar o arco de um sorriso zombeteiro.
— Oh. Não vai me dizer que o Dante está interessado na noivinha?
— Eu apenas quero saber mais sobre ela! É algum crime, por acaso?! — ele disparou, a linha dos ombros subindo na defensiva.
A mulher balançou a cabeça, rindo baixinho.
— Não, não é crime algum. Mas, infelizmente para você, eu também nunca me encontrei com a tal Cyfera pessoalmente.
Os ombros de Dante afrouxaram num suspiro embolado de alívio e frustração, mas Paracelso o cortou:
— No entanto... já ouvi várias histórias sobre ela. O nome dela é bem conhecido e tem um peso absurdo no circuito acadêmico.
— Circuito acadêmico? — O vinco na testa de Dante ressurgiu.
— Sim. Me responda uma coisa, Dante. Você sabia que os dragões, a raça que hoje caminha em formas humanoides e é uma das grandes raças de Alexandria, na realidade já foram apenas enormes lagartos escamados com asas? Feras brutais, sem a menor capacidade de se comunicar, de assumir formas humanas, e que eram originárias de Umbra?
Dante soterrou as mãos nos bolsos. A mudança brusca para uma aula de história acendeu um farol de desconfiança.
— Por que a pergunta do nada?
— Entra no jogo e só responde.
Dante revirou os olhos com força.
— Sim, eu sei disso. Eu posso não ser o melhor especialista em história do mundo, mas é bem difícil esquecer de coisas ligadas à Guerra de Lúcifer, quando ela basicamente moldou e influenciou tanto o mundo de hoje, mesmo tendo ocorrido há várias eras.
— Exato. — O olhar de Paracelso assumiu um brilho afiado, a empolgação fria e letal de uma cientista em seu próprio habitat. — Mas o que você e o resto do mundo não sabiam, até muito pouco tempo atrás, é que os dragões humanoides de hoje não foram as únicas espécies que evoluíram desses antigos lagartos de Umbra.
As botas de Dante pisaram mais devagar, a cadência perdendo a pressa.
— O que você quer dizer com isso?
— Ainda hoje, existem os Wyverns em Umbra. São pequenos dragões primitivos que continuaram por lá. Nos oceanos profundos, os Leviathans são dragões que evoluíram fisicamente para dominar e viver no mar. E os majestosos Oryu de Sakura... também são uma espécie diretamente derivada desses ancestrais selvagens.
Dante estancou completamente no meio do corredor. A mente fervia, engrenagens lutando para amarrar a imponência sublime daquelas linhagens com a origem brutal e irracional que Paracelso acabara de desenterrar.
— Eu nunca tinha ouvido falar disso.
— Era óbvio que não. — Paracelso abriu um sorriso pontiagudo. — Porque isso é o resultado de uma pesquisa absurdamente recente. Foi a Cyfera quem jogou essa teoria revolucionária na mesa durante a última grande Reunião Científica de Elysium. E ela não só teve a ousadia de cuspir isso na cara dos gênios da Rosa-Cruz; ela esmagou a bancada inteira com provas. Dados absolutos, fósseis originais, traduções de anagramas mortos e testes cruzados de DNA. Em termos práticos de evolução histórica... Cyfera é considerada um dos gênios do milênio.
O maxilar de Dante cedeu alguns milímetros. Ele encarou as vigas de madeira escura do teto sem realmente enxergá-las, o olhar perdido na dimensão daquela informação.
— Eu... eu não sei nem explicar isso direito — ele balbuciou, o cérebro tropeçando no próprio raciocínio. — Só a logística de cogitar uma teoria dessas e arrancar as provas do chão pra forçar o mundo a reescrever os livros de história... é surreal.
— Em poucas palavras, a sua noivinha dobrou o mundo que conhecemos, garoto — a voz dela soou grave, assentando a poeira. — Mas isso é só uma fração do porquê de ela ser tão especial.
— Tem mais?!
— Tem mais do que o seu cérebro conseguiria absorver agora. E não estou falando das medalhas científicas. Estou falando da anomalia de comportamento que molda aquela mulher. — Paracelso estreitou os olhos cianos. — Pense, Dante. O que você faria se precisasse desenterrar provas físicas espalhadas por pelo menos quatro dos cinco Grandes Reinos?
Dante esfregou o polegar no queixo, a mente operando na via tática.
— Fácil. Eu me registraria como Caçador. Usaria o sistema da Guilda pra conseguir os passaportes e vistos de fronteira, e coletaria o que precisasse durante o pretexto das missões.
— Exatamente o que qualquer pessoa sensata faria. — Paracelso estalou os dedos num clique seco. — Mas a Cyfera não tem registro de Caçadora. Não tem patente, não tem passaporte. Aquela mulher ergueu uma empresa e financiou uma expedição inteira do zero. Ela arrancou vistos políticos e permissões burocráticas negociando direto com os líderes de cada nação, e levantou uma fortuna inimaginável. Na prática, fez tudo absolutamente sozinha.
O rosto de Dante se contorceu numa máscara de confusão. Ele virou para encará-la.
— Mas por quê?! Esse é um caminho infinitamente mais difícil e sem nenhuma lógica!
— É. É, sim. — Paracelso deu de ombros. Pela primeira vez desde que Dante a conhecia, uma rachadura de genuína incompreensão cruzou as feições da cientista. — Deve existir alguma vantagem de longo prazo que nem mesmo eu consigo mapear. É como se essa tal Cyfera estivesse jogando em um tabuleiro tão particular, operando num ritmo tão alienígena, que fica impossível para nós, reles mortais, prevermos o seu próximo movimento.
Dante retomou a caminhada, os passos lentos e o olhar distante engolindo o corredor. A cabeça fervia. Se aquela garota conseguiu extrair de Paracelso — o ser humano mais clinicamente calculista que ele conhecia — a admissão de derrota intelectual... então Cyfera era tudo, menos normal.
O farfalhar suave de passos deslizando sobre a palha trançada do piso quebrou a linha de pensamento.
Dante ergueu os olhos. Uma silhueta feminina vinha na direção contrária, rasgando a penumbra amarelada do vagão. Os fios do cabelo eram de um branco gélido e puríssimo, quebrados por mechas de um magenta agressivo. A anatomia atestava uma genética exótica: chifres escuros projetavam-se pelo topo da cabeça, e uma cauda esguia oscilava às costas, acompanhando a fluidez predatória e silenciosa de cada passo.
Quando ela escorregou pelo espaço estreito entre Dante e Paracelso, a corrente de ar deslocada atingiu o rosto do garoto.
O oxigênio de Dante sumiu. O perfume que invadiu as suas narinas não era o adocicado sintético que ele guardava na memória. Era um aroma denso, metálico, rústico e visceralmente sedutor. Um cheiro inexplicavelmente familiar que fisgou o instinto mais primitivo do seu corpo no mesmo instante.
As pupilas dele dilataram. O pescoço travou no eixo, focando o rosto dela.
O contato visual durou o tempo de uma batida de coração.
Os olhos afiados da garota interceptaram o olhar petrificado dele. Sem quebrar o compasso da caminhada, ela repuxou o canto dos lábios em um sorriso silencioso, afiado e insondável. Deslizou pelo corredor e seguiu em frente, como se fosse apenas um fantasma de carne atravessando a madeira.
Dante esqueceu como se respirava. O corpo inteiro desativou, fincando raízes no meio do assoalho enquanto o coração dava um tranco doloroso contra as costelas. Ele apenas observou as costas dela sumirem nas sombras do trem.
— Quem... quem era ela? — a voz arranhou a garganta, escapando num sussurro rouco.
Alguns metros à frente, Paracelso parou e olhou por cima do ombro. Ela acompanhou a figura desaparecer, dissecando as curvas com o escrutínio de um predador avaliando a caça.
— Não faço a menor ideia. Mas que corpo absurdo. — Ela torceu o pescoço de volta, um sorriso carregado de malícia preenchendo o rosto. — Ela parecia estar indo pro banho também... perfeito. Vamos ver tudo aquilo de camarote no onsen...
Ao notar que o som das botas de Dante havia cessado, a mulher girou o eixo por completo. Encontrou o garoto em modo estátua. A mandíbula tensa e um rubor traiçoeiro manchando a pele clara do rosto, herança direta daquele milissegundo de atenção.
Uma gargalhada solta e carregada de diversão sádica irrompeu do peito de Paracelso.
— Que feio, Dante! — ela zombou, apontando sem dó para a cara vermelha dele. — Um homem prestes a se casar não devia ficar se excitando e babando pela primeira mulher que cruza o corredor!
A humilhação injetou sangue nos ouvidos de Dante, estilhaçando a letargia de um golpe só.
— EU NÃO TÔ COM EXCITAÇÃO NENHUMA, SUA DOENTE! CALA ESSA BOCA E ANDA LOGO!
Ele explodiu, desatando a marchar com pisadas brutais que faziam o tatame gemer em protesto. Escapou pelo corredor com o desespero de um fugitivo, engolindo a própria vergonha.
Para trás, oculta pelo ruído constante dos trilhos e pelo caos cômico daquela fuga, repousava a mais crua das ironias. Nenhum dos dois, em toda a sua vasta capacidade tática e analítica, fazia a menor ideia de que a garota de chifres que acabara de cruzar o vagão — e que derretera a coordenação motora de Dante — era exatamente a mulher que havia monopolizado os últimos minutos de sua conversa.
Parte 3
Longe da agitação do setor residencial, a atmosfera pesava. A área de transição entre as classes do Trem Escarlate reduzia-se a um labirinto estreito de madeira escura e vitrais foscos. O ar ali cortava os pulmões, alguns graus mais frio, preenchido apenas pelo lamento metálico das juntas da locomotiva absorvendo o impacto dos trilhos. Para Vivian Scarlune, cruzar aquele corredor era o equivalente tático a rastejar por um ninho de cobras.
A paranoia profissional latejava na base de sua garganta. Ela ancorava o peso do corpo nas pontas das botas, calculando a distribuição exata de cada passo sobre a palha trançada para não emitir um único farfalhar. A postura altiva de rainha derretera, substituída pela predação silenciosa de uma espiã. Os olhos rubros varriam o escuro das frestas. A besta de ferro havia alterado a rota na calada da madrugada — o sumiço do horizonte de Threshold e a aparição do oceano gélido em sua janela eram irrefutáveis. A questão que a corroía era: quem mais havia percebido?
Os passos desaceleraram. Vivian achatou as costas contra o painel polido do corredor, deslizando até a cabine de Heisen. A porta shoji cedia a uma fresta mínima, um feixe fino como a borda de uma lâmina. Ela engoliu a respiração e inclinou o rosto para o vão.
O interior exalava uma quietude sepulcral. Heisen estava lá. A centímetros do vidro, encarava a névoa branca que devorava o horizonte sem mover um único músculo. Era um monumento de gelo plantado no centro do vagão. As íris de Vivian rastrearam o perímetro. Sobre a mesinha baixa, um fio ralo de vapor subia de uma xícara de café. Uma toalha esquecida sobre a cadeira e os pesados grimórios abertos no chão atestavam a mesma verdade: ele já havia se banhado e iniciado o dia horas atrás.
Ele não estava dormindo quando o eixo do trem quebrou.
Ele sentiu a virada, Vivian concluiu. O corpo dela recuou devagar, fundindo-se novamente à penumbra do corredor. Ele sabe que estamos na rota errada e, ainda assim, não fez absolutamente nada. Nem sobressalto, nem postura de alerta. Apenas inércia.
Vivian roçou a ponta do dedo enluvado no queixo. A meia-luz desenhou um vinco de dúvida em sua testa. Eu estou tateando no escuro? Não. É impossível ignorar um desvio dessa magnitude. Se Heisen sabe e optou pelo silêncio, eu preciso checar o outro. Se os dois estiverem mantendo essa mesma passividade coreografada, existe um tabuleiro muito maior sendo montado.
Ela retomou a marcha tática. A respiração não passava de um fio nos pulmões enquanto ela contornava as paredes como um espectro, até atingir a porta do próximo alvo.
A folha corrediça estava escancaradamente entreaberta. Um vão largo. Um convite óbvio demais à curiosidade — e, por isso mesmo, uma armadilha perfeita.
Vivian estancou. O couro da bota avançou um centímetro. Ela projetou o ombro esquerdo e inclinou o tronco em direção à escuridão do cômodo. Assim que a visão se calibrou à falta de luz... o vazio absoluto a recebeu. Os lençóis sobre o futon estavam milimetricamente alisados. Intocados.
Para onde ele foi?, o alerta estalou na base da nuca.
— Acabei de voltar do vagão de banho.
O timbre vibrou grave, raso e catastroficamente calmo, a menos de um palmo de sua orelha.
O miocárdio de Vivian parou. Uma descarga de adrenalina tão violenta rasgou seu sistema nervoso que o oxigênio secou na garganta num engasgo mudo. Ela girou os calcanhares num espasmo defensivo, as costas colidindo com brutalidade contra a quina de madeira do batente. Os olhos rubros estouraram, arregalados.
Ali, obliterando o oxigênio do corredor com a simples gravidade de sua presença, estava Blade.
O irmão mais velho. O Presidente do Conselho Estudantil de Babylon. A pele morena irradiava o calor úmido do chuveiro recente, as gotas trilhando caminhos lentos pelos músculos maciços dos ombros e peitoral. O tecido grosso de uma toalha branca era a única coisa amarrada à sua cintura, mas a nudez parcial em nada diluía a esmagadora aura de predação que emanava de seus poros. Os olhos dele — escuros, densos e cortantes — escorreram pelo rosto pálido de Vivian, fatiando o pânico engarrafado da irmã com a precisão apática de um legista.
— Vivian. É você. — Nenhuma vírgula de surpresa. Apenas a pressão de uma autoridade absoluta esmagando o ar. — O que está fazendo parada aí que ainda não foi para o onsen?
Os lábios da garota se separaram, mas a voz morreu na traqueia. As engrenagens do cérebro guinchavam ordens para que ela erguesse o escudo, construísse uma daquelas mentiras polidas e impecáveis que moldavam sua rotina, mas a biologia negou a operação. O sistema motor inteiro estava em pane.
Blade a sustentou sob o peso de seu olhar por um segundo excruciante de silêncio. Lentamente, a linha dura de suas sobrancelhas se estreitou.
— Deixe de ser curiosa com bobagens. — A pronúncia fria dissecou a distância entre eles. — Quando chegar a hora, você vai entender. Por enquanto... apenas vá tomar o seu banho e deixe para os mais velhos o dever de se preocupar com os detalhes.
Sem aguardar a resposta que sabia que não viria, Blade deu um passo curto e calculado à frente. O avanço forçou Vivian a encolher os ombros contra o batente, liberando a passagem. Ele cruzou a linha da porta, desapareceu na sombra de seu dormitório e puxou a folha de correr. A madeira deslizou até o baque oco e o clique metálico do trinco sentenciar o encerramento da conversa.
No milésimo de segundo em que o painel selou o ambiente, as articulações dos joelhos de Vivian viraram água.
O oxigênio estourou de volta em seus pulmões em um arquejo rasgado e trêmulo. Ela despencou o peso contra a parede oposta, cravando as pontas dos dedos no próprio esterno como se tentasse domar fisicamente os solavancos do coração. O suor gelado formigava em sua nuca. O alívio solitário tentava lavar seu sistema, mas um resíduo ácido de puro pavor mantinha seus músculos tensionados.
Bom... com isso não resta a menor dúvida, a mente retomou as rédeas num giro alucinado. Eles notaram. Os figurões mapearam a mudança de rota, mas fecharam um pacto de silêncio para não intervir.
O olhar dela caiu para as próprias mãos. O tecido das luvas vibrava em minúsculos espasmos fora de controle.
Droga... eu realmente não esperava por isso. Ser pega de guarda baixa por ele, sem a cobertura do Kai... a simples presença desse monstro ainda desativa as minhas sinapses.
O fantasma da vulnerabilidade era asfixiante. Vivian trincou a mandíbula até os dentes doerem. Fechou as mãos em punhos de pedra, forçando violentamente as terminações nervosas a pararem de tremer, mas a química de seu corpo vencia o orgulho. Diante da aura de Blade, ela não era uma estrategista. Era apenas caça.
É mais seguro obedecer à dica. Ela engoliu em seco, o gosto do fracasso misturado à queimação do estômago. Mesmo que a minha cabeça queira continuar, as minhas pernas não vão sustentar nenhuma busca neste trem esta noite. Acabou.
Desencostando as escápulas da madeira, Vivian forçou a coluna a se alinhar. Recuperou os resquícios de dignidade que ainda lhe pertenciam e retomou o trajeto sobre o tatame. A missão de reconhecimento estava morta na largada; e as sombras nos recônditos do Trem Escarlate, pelo menos até a luz da manhã, continuariam intocadas.
Parte 4
O vagão de águas termais era um oásis sufocante encravado nas entranhas da besta de ferro. O som constante da água fervente transbordando sobre o leito de pedras vulcânicas engolia o uivo da tempestade lá fora. Através das janelas de vidro duplo embaçadas, a nevasca não passava de um borrão violento chicoteando a lataria. Por dentro, o ar denso e úmido pesava nos pulmões, exalando um vapor carregado de minerais rústicos e óleos essenciais.
No setor masculino, a neblina quente camuflava as distâncias. Silhuetas transitavam lentas pelas bordas das piscinas escaldantes, mas Dante ignorou a água. Ele caminhou direto para os pequenos bancos de madeira da área de lavagem. Sentou-se com um baque surdo, girou o registro e deixou o jato pesado do chuveiro martelar os ombros travados.
— Droga... — murmurou. As mãos esfregaram o rosto exausto, empurrando a água para trás. — Fiquei tão focado em garantir que Paracelso não fosse invadir e mexer nas minhas coisas que acabei esquecendo de trazer a porcaria do shampoo.
Sem muitas alternativas, ele torceu o pescoço na direção do banco ao lado. A figura sentada ali era pouco mais que uma montanha de espuma branca esfregando freneticamente o próprio corpo.
— Com licença, camarada. Poderia me emprestar um pouco do seu shampoo? — Dante pediu, a voz escorrendo no tom achatado e preguiçoso de sempre.
As mãos esfregando a espuma travaram no ar. Um rosnado rascante vibrou por baixo das bolhas.
— Que droga. Quem é o merda que esquece de trazer o próprio shampoo pro banho?!
O braço encoberto de sabão chicoteou o ar. O frasco de plástico voou girando na direção do rosto de Dante, que ergueu a mão e o capturou num estalo úmido. Ignorando a hostilidade gratuita, ele despejou um punhado generoso na palma e começou a massagear o couro cabeludo.
Enquanto isso, a água do chuveiro vizinho derreteu a armadura de espuma do outro banco. A identidade do "camarada" de banho emergiu do vapor.
Dante abriu os olhos no meio da massagem capilar. Encarou a figura de Kai, que agora o fuzilava com um ódio concentrado.
— Era você, seu merda?! — A veia na têmpora molhada de Kai saltou, desenhando uma raiz de pura fúria. — Como consegue ser tão burro a ponto de esquecer o básico de um banho?
Dante não se abalou. Continuou esfregando a raiz do cabelo, o canto dos lábios repuxando em um sorriso torto e irritantemente presunçoso.
— Ah, claro. Faz sentido. Eu tava mesmo reconhecendo o arquétipo de tsundere na voz.
— QUEM VOCÊ TÁ CHAMANDO DE TSUNDERE, SEU MALDITO?!
O movimento foi explosivo. Kai catou o balde de madeira aos seus pés e atirou uma onda de água fervente. Dante jogou o tronco para trás num reflexo, a água estourando no chão de pedra enquanto sua risada ecoava pela área de lavagem.
Antes que os bancos virassem munição em um combate corporal, o som rítmico e úmido de pés descalços batendo na pedra cortou o atrito. Passos pesados, mas cadenciados.
— Olha só quem está por aqui. Vejo que vocês já estão brincando juntos. Por acaso eu poderia me juntar à diversão? Hahaha.
A risada desceu macia, pacífica e inabalavelmente polida.
Dante e Kai giraram o pescoço em uníssono. A expressão de Dante era de genuína curiosidade; a de Kai, uma máscara de raiva engatilhada. Ambas, no entanto, morreram no exato segundo em que o vapor se dissipou.
Love Scarlune emergiu da névoa quente. O rosto do gigante sustentava os mesmos traços absurdamente delicados de sempre, a serenidade quase celestial acentuada pelos fios de ouro que caíam pesados e úmidos sobre os ombros. Mas a biologia do pescoço para baixo narrava uma guerra. Sob a luz difusa e amarelada da terma, o corpo de Love era um monumento brutal. Uma cordilheira de músculos hipertrofiados, talhada com cicatrizes pálidas e um abdômen denso o suficiente para secar a boca de qualquer guerreiro veterano.
Para cravar o requinte de surrealismo na cena, a longa "espada" que repousava entre as pernas do loiro criava o mais violento dos contrastes com aquele sorriso angelical e gentil.
Dante paralisou com as mãos na cabeça. Um rastro de espuma escorreu ameaçadoramente perto de seu olho, mas ele sequer piscou.
— Love... — Dante articulou devagar, tateando cada sílaba. — O seu rosto parece feminino e delicado pra caramba, mas você é... realmente um homem no fim das contas, né?
O gigante loiro tombou a cabeça para o lado. O vinco em sua testa atestava uma confusão puramente inocente.
— O que você quis dizer com isso?
No banco ao lado, Kai suava frio. O instinto assassino havia derretido por completo, esmagado pela intimidação daquela montanha de carne.
— Até que ele é bem másculo... — Kai murmurou, engolindo a própria hostilidade a seco.
Dante reavaliou as proporções daquela arma pendurada livremente, a largura esmagadora do peitoral e o rosto de anjo da Renascença. Assentiu devagar, resignado à realidade.
— Verdade. Ele é.
A confusão no rosto de Love dobrou de tamanho. O sorriso impecável vacilou.
— Novamente... do que exatamente vocês dois estão falando?
Enquanto a crise de masculinidade monopolizava o banho masculino, o domínio das garotas era um caldeirão de ecos estridentes e águas revoltas.
Assim que Beatrice cruzou a soleira de bambu, um respingo gelado chicoteou suas canelas. O ar espesso e sufocante carregava o som agudo de gargalhadas e o baque frenético da água sendo espancada na piscina principal.
Mio, comprimida em sua forma de criança de sete anos, batia pernas e braços com a urgência de um motor desgovernado, transformando a terma escaldante em seu parque aquático particular.
— Ei, Mio! — Beatrice esbravejou. A voz rebateu contra as paredes de pedra vulcânica enquanto ela cruzava os braços. — Para de fingir que é criança só pra ficar nadando de um lado pro outro! Você tá deixando a água fria com essa agitação toda!
Mio freou a natação errática. As mãos minúsculas agarraram a borda de pedra. Ela mostrou a língua para a garota de visual punk, o atrevimento infantil intacto.
— Que maldosa! Deixa eu aproveitar! — a criança rebateu, voltando a bater os calcanhares na superfície da água e levantando mais respingos.
Beatrice estalou a língua no céu da boca, desistindo da repreensão. Caminhou pela borda úmida, desceu os degraus de pedra e afundou o corpo no líquido fumegante, soltando um suspiro que esvaziou os pulmões. Quando a cortina de vapor ralo cedeu, seus olhos esbarraram em uma figura loira sentada a poucos metros, abraçando os próprios joelhos.
O contraste visual a atingiu como um golpe físico. A cintura da garota era irrealisticamente fina, desdobrando-se em quadris largos e sustentando um volume de seios tão denso que parecia ancorado, ignorando a flutuabilidade da água. Beatrice virou o pescoço de supetão, cravando os olhos no teto de bambu na vã tentativa de engolir a própria pontada de inveja.
A loira ergueu o queixo. A franja úmida colava na testa enquanto um sorriso lânguido e carregado de malícia despontava em seus lábios.
— Ei, Bea. Tá parecendo cansada. — A voz de Anna deslizou mansa pelo eco da caverna úmida. — Passou a noite acordada, foi?
A temperatura do rosto de Beatrice superou a da água no mesmo instante. O escarlate inundou sua pele até a ponta das orelhas.
— A-Anna?! Era você?! — ela gaguejou, o nervosismo arruinando a postura defensiva. Os olhos dela desceram por gravidade, traindo a dona ao mirar o decote submerso da garota. A indignação encontrou um novo alvo. — Peraí... você também é desse time?!
Anna piscou. O sorriso derreteu em pura confusão.
— Desse time? Como assim?
Antes que Beatrice pudesse articular a revolta, o som contínuo e suave da água sendo rompida chamou a atenção de ambas. Do outro extremo da piscina, uma garota de longos cabelos brancos escorregou para dentro do onsen. A pele esguia ainda carregava o brilho sutil do suor gerado pela caminhada furtiva nos corredores. Vivian acomodou-se na borda oposta, encostando as costas na pedra.
— Ela está dizendo — a voz de Vivian cortou o vapor, monótona, exausta e clinicamente analítica — que você é do time das idiotas que conseguem mandar toda a gordura do corpo diretamente para os seios.
Anna assimilou a tradução. Lentamente, os olhos dela viajaram da silhueta contida e elegante de Vivian para o peitoral de Beatrice. Percebendo a mira de escrutínio, a garota punk cruzou os braços num reflexo violento e envergonhado, afundando a falta de volume na água térmica.
O sorriso de Anna não apenas voltou; ele se expandiu. Ela soltou os joelhos, alinhou a coluna e projetou o peito num arco de triunfo absoluto.
— É... parece que eu venci.
A veia estourou na testa de Beatrice. Ela espalmou a água com fúria cega, erguendo uma parede de gotas ferventes.
— VENCEU O QUE, SUA MALDITA?!
O grito foi estrangulado pelo som repentino de água se movendo às costas de Anna.
Da névoa espessa, duas mãos pálidas e fluidas deslizaram como víboras. Elas contornaram os ombros da loira por trás e prenderam-se à fartura de seus seios com uma firmeza descarada, pesando a carne com o escrutínio de quem avalia uma mercadoria exótica.
— Nossa... realmente não dá para se comparar — um timbre feminino, rascante e sussurrado roçou a orelha de Anna. — Para uma garota tão jovem, você já tem uns frutos bem maduros e macios. Excelente textura.
A espinha de Anna virou gelo. O oxigênio travou na garganta. O escarlate nuclear dominou seu rosto enquanto os olhos arregalados gritavam o choque absoluto diante da invasão tátil.
Beatrice não pensou; operou no puro instinto predatório.
— QUEM É VOCÊ, SUA PERVERTIDA DESGRAÇADA?! — o urro rasgou a acústica do onsen enquanto ela usava a água como impulso, atirando o corpo para a frente com o punho armado contra a agressora.
A mulher de cabelos cianos esquivou-se. Um desvio circular, líquido e preguiçoso que deixou Beatrice socar o vazio. Paracelso recuou dois passos pelo leito de pedra, erguendo as mãos molhadas na altura do rosto num gesto cínico de rendição.
— Opa, opa. Parece que eu exagerei um pouco. Desculpa aí, meninas. — Uma risada borbulhou da garganta dela, os olhos brilhando com um sadismo abertamente divertido.
Na extremidade isolada da piscina, Vivian cessou a massagem nas próprias têmporas. As pálpebras se abriram, revelando íris rubras que miraram a intrusa com uma resignação gélida.
— Paracelso... é você.
O ímpeto assassino de Beatrice secou no ar. Ela e Anna torceram os pescoços de forma simultânea e cômica na direção da platinada. Ela conhece essa depravada?, as duas processaram a mesma dúvida em uníssono.
O sorriso de Paracelso rasgou o rosto.
— Yo, Vivian. Já faz um tempo. Se você está nesse trem também, imagino que já deve ter se encontrado com o Dante.
— Eu estudo na mesma classe que ele em Babylon — Vivian devolveu, no tom seco de quem cumpre uma obrigação burocrática, enquanto retomava a limpeza dos braços.
As sobrancelhas de Paracelso escalaram até a linha do cabelo. A centelha de caos em seus olhos multiplicou-se.
— Sério?! Uma classe de Babylon com os três irmãos juntos? — Ela atirou a cabeça para trás, a gargalhada rouca ricocheteando no teto de bambu. — Nossa... dá até uma vontade genuína de me inscrever para ser professora de vocês, só pra sentar e assistir a esse pandemônio de camarote.
A musculatura de Vivian travou debaixo d'água. O olhar que ela disparou contra a cientista cortava como vidro quebrado.
— Por favor, não faça isso. De membro do corpo docente pervertido, o nosso Diretor já está de bom tamanho.
Paracelso tornou a rir, balançando a mão no ar em concordância.
— Hahaha! Mas tem razão. Seria muito ruim ter que olhar pra cara cínica do Aleister todos os malditos dias. Eu passo.
Aproveitando a quebra de ritmo e a tensão desarmada de Beatrice, a mulher caminhou com calma sobre as pedras submersas. Acomodou as próprias curvas generosas na água escaldante ao lado delas e soltou um suspiro longo, gutural e encharcado de prazer. Estava tacitamente decretado o fim de qualquer paz que aquelas garotas esperavam encontrar no banho.
Parte 5
A experiência tangenciava o absurdo. Afundado até a linha do maxilar na água escaldante, Dante levava alguns segundos para alinhar o cérebro à realidade: aquele oásis sufocante de pedras vulcânicas, bambu e vapor viajava a centenas de quilômetros por hora. O ar úmido preenchia os pulmões com um calor letárgico e denso, enquanto, através do vidro duplo e embaçado, o uivo estridente da nevasca servia como o único lembrete de que eles rasgavam um inferno de gelo do lado de fora.
No centro da piscina principal, a água borbulhava em um zumbido constante. Dante repousava os ombros contra a beirada irregular de pedra, os braços esticados sobre o piso quente. A poucos metros, Kai mantinha a água acima do queixo, os olhos semicerrados atirando adagas invisíveis pelo vapor. No extremo oposto, Love Scarlune descansava com a imponência serena de uma divindade exausta, a toalha milimetricamente dobrada sobre os fios loiros e sua longa espada recostada — de forma bizarra — sobre a rocha mais próxima.
O gigante soltou um suspiro longo, abrindo os olhos claros.
— É muito interessante... — a voz aveludada de Love flutuou, misturando-se à neblina térmica. — Eu realmente não esperava que um dia nós três estaríamos assim, aproveitando a água juntos em paz.
Dante escorregou alguns centímetros na água e soltou um gemido gutural.
— Não fala isso. Mesmo acontecendo, a situação já é estranha o suficiente. Você verbalizar só piora o clima.
— Ele tem razão — Kai rosnou. As bolhas estouraram perto de sua boca com a vibração da voz. — Seu maldito, se for pra deixar a porra do clima estranho, vê se morre e desaparece logo.
Dante ergueu as sobrancelhas e girou o pescoço para o albino.
— Calma lá. Eu também não disse tudo isso.
Love atirou a cabeça para trás. A risada limpa e franca ecoou pelo teto de bambu, blindada contra a hostilidade de Kai.
— Me perdoem. — O gigante sorriu, ajeitando a toalha na cabeça. — Mas então, Dante... quando eu fui procurá-lo no seu quarto ontem de madrugada, você não estava lá.
Acomodando a nuca contra a pedra aquecida, Dante fechou os olhos sob o peso de uma preguiça crônica.
— Ah. É que eu passei a noite no quarto da Bea.
O zumbido da piscina subitamente se tornou o ruído mais ensurdecedor do vagão.
Um silêncio gélido e mortificador desabou sobre a terma, esmagando o vapor. Kai paralisou, a carranca agressiva congelando em um choque absoluto. Love piscou devagar, os cílios úmidos pesando. Os dois cravavam os olhos em Dante como se o rapaz houvesse acabado de confessar um crime de guerra em praça pública.
Farejando o peso daquela atenção dupla o dissecando no ar, Dante abriu as pálpebras, confuso.
— Que foi?
Love limpou a garganta. Levou a mão fechada em punho até os lábios, tossiu com polidez e adotou uma expressão de pura benevolência maternal.
— Então, Dante... — o loiro começou, o tom transbordando uma diplomacia impecável. — Se você quiser ter algumas amantes, um relacionamento aberto ou até mesmo construir um harém... é importante que, antes de sair fazendo essas coisas, você sente e tenha uma conversa muito séria e madura com a sua esposa.
A água espirrou com violência. Dante projetou o tronco para a frente em um solavanco, a pele do rosto atingindo uma fervura que superava a temperatura do onsen.
— CALADO, SEU MALDITO! — ele berrou, o dedo tremendo ao espetar o ar na direção do loiro. — Não foi isso que eu quis dizer! E que papo de noiva e esposa é esse?! Eu já disse que não vou me casar com ninguém!
Kai revirou os olhos com tanta força que as órbitas reclamaram. Ele estalou a língua no céu da boca, o desprezo gotejando.
— Esse merda tava treinando o controle de aura.
A postura defensiva de Dante desmoronou na mesma hora. Ele afundou de volta na água, exalando um suspiro pesado de alívio por alguém ali possuir sinapses funcionais.
— Isso aí. — Dante apontou para Kai. — É muito mais fácil aprender com alguém que pratica o controle arduamente do que mofar lendo livro embolorado. Tô aproveitando pra pegar a base de um estilo de artes marciais focado no fluxo de aura. Facilita o processo.
Love arqueou uma sobrancelha, o interesse genuíno engolindo o teatro.
— Bom, se a sua amiga é um dragão... você deve estar falando do Taikou.
O sorriso enviesado de Dante retornou.
— Acertou. Já ouviu falar?
— Claro. — Love assentiu. — É uma arte marcial muito tradicional e difundida entre os dragões.
Do outro lado da piscina, Kai grunhiu um "hum" áspero. O rosto continuava emburrado, afundado na água, mas ele inclinou a orelha frações de milímetro na direção da conversa. Dante não deixou a brecha passar. Ele virou o pescoço, abrindo um sorriso carregado de dentes e provocação barata.
— Que foi, Kai? Não vai me dizer que quer aprender também? — Dante zombou, a voz mansa. — Bom, se você engolir esse orgulho, abaixar a cabeça e pedir com muito jeitinho... eu posso até tentar convencer a Bea a te dar umas aulas.
— Não precisa. Não quero — Kai cortou, o rancor imediato afiando as sílabas como navalhas. — Se você vai usar essa merda pra lutar, não tô interessado. Vou forjar o meu próprio estilo e te quebrar sem precisar apelar pra isso.
Dante riu baixo. Antes que pudesse rebater o blefe, a voz pacífica de Love interveio, pesando a recusa de Kai sob uma ótica quase acadêmica.
— Não é de se estranhar a atitude do Kai. A imensa maioria dos Scarlunes repudia esse estilo.
Dante franziu o cenho, desenhando círculos lentos na água com as pontas dos dedos.
— Por que não?
— Porque, aos olhos deles, parece trapaça — Love explicou, a mão enorme deslizando pela superfície da piscina. — O Taikou foi inventado especificamente por aqueles que nasciam com baixo volume de Éter e aura, como uma ferramenta para nivelar o combate contra oponentes massivos. Os dragões são seres antigos. Eles vivem eras e sofrem pouquíssimas mutações ao longo dos séculos. Por conta dessa estagnação biológica, possuem um fluxo de Éter naturalmente menor se comparados a raças instáveis e em constante evolução, como nós, os Scarlunes.
Dante esfregou o próprio queixo úmido. As engrenagens se encaixaram.
— Faz sentido... Mas, apesar de eu entender que tem uma parcela desse nosso sangue com o ego frágil o suficiente pra chorar sobre "trapaça"... não vejo todos os Scarlunes ignorando uma técnica eficiente só por orgulho puro. Tem que ter outra razão.
— E tem. — O sorriso de Love ganhou um contorno peculiarmente polido. — Tem aquele pessoal que prefere não usar a técnica para vencer... Eles fazem isso só para poder olhar o oponente de cima e dizer: "Olha só que patético. Você treinou tanto para fazer isso e, ainda assim, perdeu para alguém que sequer precisou se esforçar".
Do outro lado da cortina de vapor, o som borbulhante da água foi sobreposto por uma risada. Baixa, cruel e encharcada da mais pura arrogância, ela começou a vazar por entre os dentes de Kai.
Dante travou a visão no albino. O sorriso repuxado e a soberba pingando da testa junto com o suor desenhavam uma expressão insuportável.
— Isso aí é bem coisa de cretino — Dante pontuou, a voz caindo plana sobre o ruído borbulhante do onsen. Estreitou os olhos, espetando o ar úmido com o dedo na direção de Kai. — E você é um belo de um cretino se sequer cogitou falar exatamente isso na minha cara!
O atrito estourou a calmaria. Kai espalmou as mãos nas pedras vulcânicas do fundo e se ergueu em um solavanco brutal. A água escaldante rompeu-se, escorrendo em cascatas pesadas por seu peito definido. Dante não ficou para trás; impulsionou o corpo para cima no mesmo segundo. Os dois se ergueram na parte rasa, a tensão física batendo de frente, peito a peito, rasgando a cortina de vapor.
— Ei, seu merda! — Kai rosnou. Ele projetou o rosto para a frente, o calor de sua respiração misturando-se à névoa. — Você por acaso me ouviu abrir a boca pra tá me acusando de graça?!
— Não! — Dante rebateu, invadindo sem cerimônia o pouco espaço que restava. — Mas a sua cara entrega o roteiro inteiro! Eu sei perfeitamente que você já tava ensaiando dizer essa exata frase pra esfregar na minha cara se ganhasse!
Kai desviou o rosto num espasmo rápido. As pupilas giraram até o teto de bambu, fugindo do contato visual, mas o sorriso enviesado e presunçoso continuou escancarado.
— Não pensei… não.
— Não sabe nem mentir, desgraça! — Dante rosnou, chutando uma onda de água quente nas pernas do rival.
A poucos metros dali, alheio à hostilidade explosiva, Love escorou o queixo na mão pousada sobre a borda de pedra.
— É realmente curioso.
O timbre reflexivo e quase hipnótico do gigante capturou a atenção dos dois no mesmo instante. Kai e Dante viraram os pescoços em uníssono. As testas enrugadas aguardavam o resto do raciocínio.
— Como vocês dois são clones, tecnicamente partilham da mesma fundação genética. Mas agora... assistindo aos dois assim, de frente um para o outro... é fascinante notar quantas coisas mudaram, enquanto traços tão brutais permanecem idênticos. É uma assimetria muito estranha de se observar.
Era como encarar um reflexo fraturado. O contraste cortava a névoa branca da terma. De um lado, Kai: os fios brancos manchados por mechas sutilmente azuladas; as olheiras crônicas, fundas e escuras, cavando o contorno dos olhos; e a fisionomia travada em uma carranca de agressividade natural. Do outro, Dante: o cabelo escuro rompido por mechas de um vermelho vivo; a pele exibindo a vitalidade rara de quem, por algum milagre, costumava ter noites de sono decentes; e as feições sustentando aquele sorriso desarmado, moldado por uma malemolência madura e preguiçosa.
— E tem mais uma coisa, Kai — Love continuou, pontuando a linha de raciocínio com um leve aceno no ar. — Você tecnicamente é mais velho que o Dante, graças ao tempo que ele passou desaparecido no fluxo temporal. A biologia compensou a diferença. É por isso que você é um pouco mais alto.
Ao escutar a constatação, Kai desceu o queixo. Os olhos dele traçaram uma linha horizontal imaginária a partir de sua própria testa até o topo da cabeça de Dante. A matemática visual bateu. Ele possuía, de fato, alguns centímetros de vantagem.
O sorriso cruel do albino se esticou, saboreando uma vitória banal e absoluta.
— Parece que eu venci — ele declarou. O peito molhado inflou de pura soberba.
Dante não recuou um milímetro. A curva do seu sorriso apenas se intensificou, inabalável. Com uma lentidão calculada e dramática, ele ergueu o braço direito e aterrissou a mão encharcada de forma pesada e fraternal sobre o ombro nu de Kai.
— Então estamos empatados.
A carranca de Kai quebrou em confusão. O sorriso despencou.
— Como assim, empatados?
Dante não respondeu de imediato. Deixou o silêncio pesar no vapor ralo. Lentamente, ele baixou o queixo. O olhar escorregou e cravou-se com precisão absoluta através da água quente e cristalina da terma. Movido pelo instinto traiçoeiro da curiosidade, Kai acompanhou o gesto. O albino abaixou o rosto, seguindo a mira exata do rival até a região submersa da piscina.
Sustentando um tom de voz que exalava a mais pura, arrogante e inquestionável confiança masculina, Dante soltou o veredito:
— Parece que a minha espada é maior no fim das contas.
As sinapses de Kai deram curto-circuito. Houve um milissegundo de silêncio denso enquanto a ofensa processava. No instante em que o duplo sentido atingiu o alvo, a soberba do garoto evaporou, sendo incinerada por uma máscara escarlate de puro e letal ódio homicida.
— MORRA, SEU MERDA!
Parte 6
No lado feminino da terma, a predação sufocante de minutos atrás havia derretido, engolida pela espessa névoa do onsen.
Mio, com a habilidade finalmente desativada, deixava sua forma adulta e curvilínea boiar na superfície. O calor escaldante da água penetrava a pele, desamarrando nós musculares que ela sequer sabia que carregava.
Até que essa não é uma viagem nada mal, pensou, soltando um suspiro que empurrou pequenas bolhas pela água. Se esse trem inteiro foi forjado com essa estética de Sakura, como serão as outras linhas? Dá vontade de viajar mais só pra descobrir.
Movida pela própria inquietação, ela desfez a pose de boia. Apoiou as solas no leito irregular de pedras vulcânicas e rompeu a superfície, caminhando de volta ao grupo de Beatrice. A água escorria pesada por suas curvas enquanto seus olhos mapeavam os vultos através do vapor.
As anomalias daquela família iam muito além de caninos afiados ou orelhas alongadas. No raso, uma garota mantinha uma cauda felpuda feita inteiramente de chamas vivas. O membro ficava milimetricamente erguido, o calor sibilando ao lamber a umidade do ar para não ferver a piscina. Mais adiante, uma mulher com enormes asas recolhidas usava uma caneca de bambu para enxaguar as próprias penas, o som da água pingando ecoando com uma precisão rítmica.
Isso não é só conforto para figurões, a mente tática da caçadora finalmente girou a chave. O continente odeia Threshold. As pessoas que vivem e viajam aqui abrigam as genéticas mais caóticas possíveis. A engenharia dessa besta de ferro precisa acomodar as bizarrices biológicas de dezenas de raças simultaneamente. O custo para mudar a infraestrutura ou construir algo do zero nesse lugar deve ser um pesadelo logístico...
O raciocínio ruiu.
Duas mãos escorregaram pelas escápulas molhadas de Mio. Dedos ágeis contornaram sua cintura debaixo d'água e subiram, agarrando seus seios com uma firmeza possessiva e atrevida.
A musculatura de Mio deu um tranco violento. O ar enganchou na garganta. Lembrando imediatamente do sobressalto de Anna, a matemática pareceu óbvia.
— Paracelso! Para com is—
Ela torceu o tronco, pronta para descarregar um xingamento, mas a voz morreu na traqueia.
Não era o cabelo ciano. Colada às suas costas, preenchendo o espaço com uma proximidade letal, estava uma garota de fios brancos puríssimos rasgados por mechas magenta. Traços afiados, chifres escuros projetando-se pelo topo da cabeça e uma longa cauda de dragão que oscilava sob a água com a graça de uma serpente, roçando levemente na coxa nua de Mio.
Antes que a caçadora processasse a quebra de expectativa, a estranha abriu um sorriso. Inclinou o pescoço e deixou a ponta da língua, quente e áspera, traçar um caminho lento e arrepiante pela cartilagem da orelha de Mio.
— Com um corpo tão farto e delicioso assim... — a voz rouca e sedutora sussurrou direto no canal auditivo da caçadora. — Talvez eu devesse te marcar como minha presa...
— KYYYYYAAAAAAAAAAAAAH!
O grito esganiçado estilhaçou a acústica do onsen, quicando contra as pedras vulcânicas. Mio debateu-se em puro pânico, erguendo gêiseres de água quente, enquanto a garota de chifres continuava atracada a ela, sustentando um sorriso sombrio e predatório.
A poucos metros dali, Beatrice, Vivian, Anna e Paracelso giraram o pescoço em uníssono. A marola criada pelo caos bateu contra os ombros do quarteto.
Beatrice estreitou os olhos. Ao ver a estranha apalpando Mio sem o menor pudor, a garota punk cruzou os braços com força, levantando água, e fuzilou Paracelso com um olhar furioso.
— Por acaso absolutamente todos os Scarlunes desse trem são uns pervertidos?!
Paracelso apenas atirou a cabeça para trás. A gargalhada rouca espancou o silêncio, deliciando-se com a desgraça alheia.
Antes que Beatrice partisse para a agressão física, o som ruidoso de passos rompeu a névoa. Uma segunda silhueta aproximou-se do grupo. A garota de cabelos escuros massageava as próprias têmporas, a expressão afundada em pura exaustão.
— Me desculpem por isso — Justia murmurou, a voz dura e cansada. — Eu já falei mil vezes para ela que não se deve sair fazendo isso com as pessoas. Mas, infelizmente, quando ela sente o cheiro de uma "presa" com a guarda perfeitamente baixa, a biologia assume e ela não sabe se controlar.
A gargalhada de Paracelso esvaiu-se. O olhar ciano afiou-se como vidro, cravando na recém-chegada.
— Espera aí. Justia? É você?
As outras garotas piscaram, mudas, alternando o olhar entre a depravada de cabelos cianos e a dupla que interrompera a paz.
Passado o choque inicial, a garota dragão finalmente afrouxou o aperto, e as duas arrastaram-se até a borda onde o grupo estava. Mio afundou no onsen até o limite do nariz. Com os braços cruzados apertando o próprio peito e os pulmões puxando o ar em arquejos curtos, ela tinha a exata postura de um cervo que acabara de escapar das garras de um leopardo. Beatrice e Anna a encaravam, divididas entre a pena e o divertimento cruzado.
Paracelso, no entanto, não tirava a mira da platinada de chifres. O sorriso sádico e afiado retornou ao rosto.
— Caramba... espera. Então você era a Cyfera?! — Paracelso estalou a língua no céu da boca em um baque seco. — Eu não fazia a menor ideia! Nós literalmente acabamos de passar por você no corredor há poucos minutos e eu nem sabia de quem era o rosto.
Justia acomodou-se na beirada de pedra. A sobrancelha arqueou-se em descrença.
— Que estranho. Eu não imaginava que vocês duas não se conheciam pessoalmente, considerando que as duas vivem em Elysium.
— E claro que isso seria perfeitamente natural, Justia — Cyfera rebateu. O sorriso ganhou um contorno aristocrático e impecável enquanto ela acomodava a cauda escamosa sob a água. — Você quase nunca foi para lá. Elysium é colossal. A estrutura física daquele reino rivaliza com Alexandria. Só porque respiramos na mesma nação não significa, matematicamente falando, que vamos esbarrar uma na outra na fila de uma padaria.
— É, eu sei, mas... — Justia insistiu, os olhos semicerrados. — E nas reuniões científicas da Rosa Cruz?
— Ah, aquilo? — Paracelso desdenhou. A mão molhada espalhou a água quente em um aceno de desprezo puro. — Eu fujo daquelas mesas chatas a todo custo. A menos que eu sinta o cheiro de alguma coisa muito divertida prestes a quebrar, eu definitivamente não perco o meu tempo.
— Eu compartilho do sentimento — Cyfera assentiu, as pálpebras fechadas e o rosto banhado pelo vapor espesso. — Eu só apareço por lá quando preciso esmagar a oposição, provar alguma teoria nova ou questionar o ego de algum dos ditos "gênios" da bancada.
Beatrice e Anna trocaram um olhar de soslaio através da névoa. As duas murmuraram num uníssono arrastado, destilando julgamento:
— Que povo mais egoísta...
A poucos metros, Justia balançou a cabeça de forma contida. Ela acenou para a arqueóloga, acatando aquela troca sociopata de motivações como a lógica mais irrefutável do mundo.
— Ah, entendi. Então faz todo o sentido.
— ESPERA AÍ, NÃO FAZ, NÃO! — as duas gritaram juntas, espancando a água e levantando uma onda fervente.
O protesto fez Paracelso atirar a cabeça para trás, engatando mais uma crise de risadas roucas que quicaram pelo teto de bambu.
No meio do caos aquático, Vivian mantinha um silêncio analítico. As íris rubras da Oujou escorreram com precisão cirúrgica pelas mechas magenta da recém-chegada, mediram a curvatura dos chifres escuros e acompanharam o balanço letárgico da cauda submersa.
— Pela estrutura da cauda e pelos chifres aparentes, você deve possuir um Fator de Dragão incrivelmente elevado na sua genética, não é? — Vivian pontuou, a voz fria rasgando o ruído da piscina.
Cyfera torceu o pescoço na direção dela, os lábios se abrindo num sorriso doce e polido.
— Sim. E foi exatamente por carregar esse sangue correndo em mim que decidi focar a minha grande tese de pesquisa na nossa espécie.
Com a água cobrindo os ombros e o queixo apoiado nas mãos, Beatrice avaliou a arqueóloga.
— Sabe, mesmo eu sendo uma dragão também... se a gente não estivesse presa num lugar entupido de Scarlunes e você mesma não tivesse confirmado, acho que eu nem teria pescado a sua linhagem de primeira. — A garota punk ergueu o nariz, puxando o ar denso da terma num faro rápido e instintivo. — Embora o seu cheiro tenha uma pontada bem fraca de fedor de fada no fundo, com um rastro de demônio misturado.
A curva do sorriso de Cyfera se alongou, aprovadora.
— Oh. Você tem sentidos impressionantemente afiados, garota.
A poucos metros dali, a simples menção ao "fedor de fada" fez o estômago de Justia dar um nó cego. A espadachim encolheu os ombros num reflexo tenso. Discretamente, ela baixou o pescoço, afundando o nariz contra a própria clavícula úmida e aspirando profundamente, aterrorizada com a chance de sua linhagem feérica estar exalando algum odor fétido pelo onsen.
Inerte à paranoia de Justia, Cyfera redirecionou o peso de sua lupa acadêmica para Beatrice.
— Mas você também é um espécime intrigante — a arqueóloga comentou. O olhar dissecava a fisionomia da garota punk com um brilho clínico. — Os olhos fáticos e as escamas minúsculas perto da base do pescoço são perfeitamente visíveis para quem souber olhar. Mas noto que você não carrega absolutamente nenhuma das outras características de volume da raça... sem cauda espessa, sem asas, sem cornos. Será que é alguma peculiaridade isolada do seu desenvolvimento?
Enquanto a cientista operava sua avaliação, a régua de Beatrice fazia os próprios cálculos táticos.
O olhar da garota despencou do rosto de traços nobres de Cyfera. Rastreou os chifres bem moldados, varreu a clavícula pálida, e ancorou pesado nos seios vastos e perfeitamente desenhados que pareciam ignorar a gravidade debaixo d'água. A descida continuou até a largura perigosa e madura dos quadris submersos. A aritmética cruel piscou na cabeça de Beatrice em fração de segundo.
Peito colossal, quadril largo... e, de quebra, a desgraçada deve ser mais alta do que a Anna e a Paracelso empilhadas.
O sangue da garota punk entrou em ebulição. A veia da indignação saltou latejante na testa. Ela cravou as palmas contra a água com brutalidade, erguendo uma parede escaldante.
— EU SÓ ESTOU EM FASE DE DESENVOLVIMENTO! TEM ALGUM PROBLEMA COM ISSO, SUA MALDITA?! — ela berrou, os dentes arreganhados num rosnado defensivo e raivoso.
Cyfera piscou de forma sequenciada, a mente acadêmica derrapando na explosão gratuita de ódio.
— Calma. Eu não falei nada sobre iss—
Recuperada do trauma de segundos atrás, Mio cortou a água e colou ao lado da arqueóloga. A caçadora levou a mão molhada em concha à boca e sussurrou por trás da cortina de vapor:
— É melhor evitar usar palavras como "desenvolvimento" ou "crescimento" no mesmo raio que a Bea... ela tem um complexo assassino com o próprio corpo.
— Ah. Entendi. — Cyfera murmurou de volta. O sorriso imaculado retornou ao rosto.
Mas o destino de Beatrice não abrigava tréguas.
A água ferveu às costas de Mio antes que ela pudesse voltar a uma distância segura. Com a fluidez de um fantasma depravado, Paracelso emergiu da névoa. Não houve aviso ou hesitação. As duas mãos pálidas da cientista contornaram as costelas da caçadora e capturaram seus seios com a mesmíssima autoridade predatória de antes.
— Hmmm... sabe, a vida nos obriga a admitir certas coisas — Paracelso murmurou, o som arranhando a nuca de Mio enquanto as mãos avaliavam a carne com um deslumbramento devoto. — Eu achei que a loirinha ali, a Anna, fosse o achado raro da viagem. Mas olha só a artilharia que estava escondida no cofre de Babylon o tempo todo! Garota, quantos centímetros você carrega aqui?! O volume disso aqui ofusca até os meus!
Anna, que até um milésimo de segundo atrás sustentava no rosto o troféu invisível do orgulho, sentiu a realidade esmagá-la. O olhar da loira fixou-se no volume que a cientista agora reverenciava. A matemática visual era dolorosa e irrefutável. A postura dela cedeu. Os ombros afundaram na água, e toda a arrogância naufragou na piscina.
— Droga... — a voz de Anna borbulhou num suspiro resignado. — Perdi.
O fio de sanidade de Beatrice arrebentou.
— TÁ RECLAMANDO DE QUÊ, SUA MALDITA?! — A garota avançou, espalmando um jato direto contra a cara da loira. — O seu tamanho já é um absurdo de exagerado! Não me diga que você queria que essa massa fosse maior?! Por acaso você tá planejando usar isso pra boiar na enchente, sua desgraçada?!
Enquanto a Terceira Guerra Mundial mamária transformava o onsen num campo de gritos estridentes e jatos d'água, Vivian assistia ao declínio da evolução de uma distância segura.
As íris rubras da herdeira Scarlune varreram o caos. Ela catalogou os volumes colossais de Cyfera, Paracelso, Anna e Mio. Em seguida, o pescoço virou alguns graus, baixando a mira para a tábua de passar que Beatrice defendia com unhas e dentes. Por fim, Vivian baixou o queixo. Observou a própria anatomia recortada sob o espelho d'água: pequenas elevações repousando com uma elegância estritamente modesta.
Com uma lentidão compassada, Vivian ergueu o rosto e cruzou com o olhar de Justia. A espadachim estava a poucos passos de distância, abraçando os joelhos contra o peito e assistindo ao pandemônio das garotas com uma nuvem cinzenta de inadequação pairando sobre a cabeça.
Vivian caminhou em silêncio, o corpo rasgando a água quente sem alarde. Sentou-se no degrau de pedra vulcânica, colando o ombro ao de Justia. A Scarlune cruzou os braços numa postura imaculada e soltou um suspiro profundo de veterana, encarando as outras garotas como se fossem anomalias de um zoológico.
— Sabe... nós, que somos perfeitamente iguais, teremos que formar uma aliança se quisermos sobreviver — Vivian sentenciou, as sílabas destilando um misto pesado de camaradagem e resignação.
Justia piscou devagar. O cérebro dela derrapou na engrenagem da frase, a confusão apagando qualquer traço de compreensão em suas feições. Ela virou o rosto para a garota exausta.
— Hã? Iguais... iguais no quê?
Parte 7
O vapor no vagão termal engrossou, transformando o onsen em uma câmara asfixiante. A névoa espessa engoliu os contornos irregulares das pedras vulcânicas, criando uma sensação de claustrofobia úmida que pesava nos pulmões.
Apoiada na borda, Vivian Scarlune rompeu a superfície da água. O líquido escaldante escorreu pelo seu corpo esguio enquanto ela soltava um suspiro curto. A pele pálida estava visivelmente tingida de escarlate, punida pelo desconforto térmico.
— Eu já vou indo — Vivian anunciou. As mãos espremeram o excesso de água dos cabelos brancos com precisão militar. — Não aguento ficar submersa nesse calor por tanto tempo quanto vocês.
Escorada na pedra, Paracelso acompanhou a herdeira com um sorriso arrastado.
— Ter um fator genético vampírico cobra o preço nessas horas, não é? A sua pressão deve estar despencando.
Vivian não ofereceu resposta. Apenas puxou a toalha e desapareceu em silêncio pela porta corrediça. No mesmo instante, Justia ergueu-se num solavanco, balbuciando um "eu também já vou" atropelado, e escapou pelo mesmo caminho.
A debandada acionou um gatilho imediato em Beatrice. A garota punk cruzou os braços contra o peito liso e ficou de pé na parte rasa, espalhando água com truculência.
— Ei, Bea, peraí! Você também já vai? — Mio piscou através do vapor, atônita. — Mas você é um dragão! Você aguenta o calor cem vezes melhor do que eu!
Beatrice atirou um olhar enviesado e venenoso para os volumes colossais que restavam boiando na piscina — Mio, Anna, Paracelso e Cyfera. A mandíbula dela travou.
— Eu não vou ser a única do meu time que vai ficar sobrando no meio da roda de vocês! Não virei masoquista! — ela esbravejou. O pé bateu na água com força antes de marchar furiosa em direção aos vestiários.
Mio tombou a cabeça para o lado. Meu time? Masoquista? Do que diabos ela tá falando?
Com a saída daquela "barreira de proteção" invisível, a pressão atmosférica na piscina sofreu uma queda vertiginosa. O sorriso rascante no rosto de Paracelso evaporou. A descontração cômica, a malícia provocativa e o teatro de depravação dissiparam-se na névoa como fumaça ao vento. O que sobrou nas feições da cientista foi o escrutínio glacial, letal e silencioso de um predador debruçado sobre a mesa de dissecação.
Ela deslizou pela água fervente sem emitir um único som, fatiando a distância até Anna.
— Bom... então você é realmente a tal segunda parte do Dante. — O timbre de Paracelso soou cirúrgico, denso e grave.
Anna piscou. O alarme de sobrevivência da loira apitou de imediato. A alteração na energia da mulher de cabelos cianos era aterradora, gelando a água ao redor. Anna forçou um sorriso trêmulo e deu um passo para trás.
— S-sim... — gaguejou, a voz falhando enquanto tentava recuar.
As costas da loira colidiram contra algo sólido.
Cyfera já havia fechado a retaguarda. Duas mãos pálidas, contrastando bizarramente com o calor da terma, escorregaram pelas laterais da cintura de Anna. Mas, ao contrário dos apertos pervertidos de minutos antes, a pegada da arqueóloga era puramente analítica. Fria. Era o toque de quem inspeciona um cadáver recente. Os dedos longos de Cyfera traçaram a musculatura do abdômen de Anna, ancorando-a no lugar.
Paracelso aproximou-se pela frente, trancando o cerco.
— Vejo que você também devia estar de olho nela — Paracelso murmurou na direção da platinada.
— Qualquer pesquisador de Elysium ficaria de olho em uma anomalia dessas — a voz rouca de Cyfera sussurrou direto na nuca de Anna, injetando gelo em sua espinha. — Os registros da caixa-preta do Titanic não deixaram margem para erros. Os dados de Éter mostraram com clareza matemática o nascimento de um novo Avatar de Astreus. Mas a falha na equação foi que a assinatura desse Avatar estava dividida... e, curiosamente, uma das metades exibia a frequência quase exata de um Scarlune.
Paracelso ergueu o braço. Sem qualquer vestígio de permissão, as pontas de seus dedos pressionaram o pescoço e a clavícula de Anna, mapeando as glândulas e medindo os batimentos que disparavam em pânico.
— E, de forma ainda mais conveniente — Paracelso continuou, as íris cianas dissecando a pele alva —, durante exatamente essa mesma viagem, o Dante, desaparecido há vinte anos, simplesmente volta a respirar no radar. Um Scarlune que sumiu na exata época em que a Torre de Luz rasgou os céus de Alexandria e os Astreus supostamente desembarcaram neste mundo. É uma coincidência colossal. E você, garotinha, acaba de confirmar com a própria boca que de fato virou a outra metade dele.
Anna engoliu em seco. Essas duas são perigosas. Droga. Eu preciso sair daqui agora.
Os músculos das pernas da loira tensionaram, engatilhando o impulso para romper a roda e fugir, mas a resposta motora não veio. Ela ordenou que os braços empurrassem Cyfera, mas eles estavam soldados às próprias costelas.
O pânico explodiu no peito, asfixiando-a. Mas o que é isso?!
Uma pressão esmagadora envolvia seus membros. Era a sensação física de uma corda grossa, implacável e invisível, enrolada com violência dos ombros até a linha dos joelhos. Ela escorregou as pupilas freneticamente para a água transparente. Não parece uma cobra... Tentou mirar a cauda de Cyfera, mas o apêndice escamoso repousava imóvel nas pedras vulcânicas ao fundo. Não é a cauda dela. O que está me prendendo?! Eu não vejo nada!
— Acho que já temos amostras mais do que suficientes para atestar que tropeçamos em um achado estupidamente raro — Paracelso sorriu. Fome intelectual pura brilhava nos olhos dela. — Quem diria que um dia eu poderia fatiar um autêntico Avatar de Astreus assim, respirando, com as minhas próprias mãos.
Às costas dela, Cyfera continuou apalpando as costelas e a base do pescoço de Anna.
— Dito isso, o resultado primário é quase decepcionante — a arqueóloga resmungou. O tom polido carregava a letargia do tédio acadêmico. — Estipulei que ela carregaria mais traços aparentes da mutação Scarlune, considerando que é fisicamente a metade biológica do Dante. Mas o corpo não absorveu ativamente o genoma dele. É apenas massa de energia pura estabilizada.
Através do vapor denso a poucos metros dali, Mio captou a anomalia na formação do trio.
— Ei! O que vocês duas estão fazendo com ela aí? — Mio chamou, cortando a água para encurtar a distância.
Anna tentou gritar por socorro. Mandou o maxilar abrir para ordenar que a caçadora corresse, mas, antes que o ar vibrasse nas cordas vocais, a pressão invisível escalou pelo seu pescoço. A amarra fantasma cobriu seus lábios, esmagando-os num silêncio brutal.
No exato milésimo de segundo em que o amordaçamento se fechou, Anna escutou um ruído roçar o próprio tímpano. Baixo, áspero e agourento. O clink metálico de elos de corrente atritando sob tensão, embora não houvesse um único grama de aço visível na terma.
Cyfera girou o pescoço e abriu um sorriso imaculado e pacífico para Mio.
— Estamos só brincando com a anatomia da Anna um pouquinho. Daqui a pouco eu vou aí brincar com você também...
O verniz da voz era doce, mas a densidade do aviso carregava o peso de uma sentença. O instinto de presa da caçadora gritou muito acima de qualquer solidariedade.
— É... acho que prefiro evitar — Mio recuou, dois passos lentos e aterrorizados para trás, entregando Anna à própria sorte na câmara de vapor.
Droga!, Anna berrou na própria mente. As lágrimas do mais puro desespero pinicaram as beiradas dos olhos enquanto os dedos de Paracelso afundavam em seu pulso, travando a circulação.
— Desde o incidente da Lua Carmesim, não opero um Avatar estabilizado tão de perto — Paracelso murmurou, a visão atravessando a carne da loira como um raio-X. — Talvez, usando as suas células como plataforma, eu consiga finalmente colocar a minha teoria à prova. Você vai ser a chave para me mostrar se a raça Scarlune está mesmo na beira do próximo salto evolutivo.
— Evite falar bobagens precipitadas, Paracelso — Cyfera rebateu. A polidez deu lugar a uma rigidez territorial imediata. — Tendo um Avatar de Astreus sob o meu bisturi, o objetivo é claro. Eu finalmente vou escavar a origem crua do genoma Scarlune. Posso extrair a prova irrefutável de que o nascimento original desta família foi um processo inteiramente artificial.
O vapor espesso entre as duas cientistas pareceu congelar. Os olhares se travaram através da névoa, transformando a cobaia amarrada no epicentro cego de uma trincheira acadêmica.
— E do que adianta olhar para o passado? Isso não ajuda em absolutamente nada a consertar o nosso presente, e muito menos a garantir o nosso futuro. — Paracelso rosnou. O timbre rascante fez o ar ao redor de seus ombros vibrar e descer pesado. — É muito melhor ela vir para a minha mesa e me ajudar.
— E eu é que pergunto — Cyfera rebateu. As pupilas magenta afiaram-se sob os fios platinados. — Ficar brincando de Deus, costurando teorias da conspiração sobre evolução e testando drogas experimentais em busca de migalhas é um desperdício crasso de tempo e de material biológico. Não me atrapalhe por causa de uma ambição tão mundana.
A névoa úmida do onsen começou a girar em espirais cortantes ao redor das três. A água da piscina não apenas borbulhava, mas fervia com uma violência antinatural, esmagada pela gravidade repentina do ambiente. As auras das duas mulheres inflaram, espessas como chumbo. A energia bruta colidiu na atmosfera fechada do vagão, criando um vácuo de pura claustrofobia. No epicentro do fogo cruzado, a pressão física do Éter espremeu a caixa torácica de Anna, ameaçando triturar seus ossos sob a superfície.
Mas a predação redirecionada gerou uma fenda imperceptível na rede.
Com as auras de Cyfera e Paracelso colidindo uma contra a outra, a amarração invisível que mantinha a loira refém sofreu uma oscilação microscópica. Um milésimo de segundo. Anna não pensou; o desespero ditou o comando. Ela canalizou cada engrenagem do controle de energia que Dante havia lhe ensinado e compactou tudo em uma única centelha brutal.
A água em torno de sua mão direita acendeu em um brilho cego.
BOOOM!
O estrondo de uma detonação concussiva de Éter rasgou o leito do onsen. O impacto subaquático gerou uma muralha cinética que varreu as duas cientistas para os lados com a força de um soco. A barreira invisível se estilhaçou em um ruído fantasma. Livre, Anna foi catapultada para trás. O corpo dela quicou de forma violenta contra a superfície agitada da água, arrastando-se até colidir com as costas na borda de pedra.
— Arf... arf... arf! — Anna engoliu o oxigênio em lufadas rasgadas. Os dedos enrugados cravavam-se nas pedras irregulares, os olhos estourados e o peito subindo e descendo no ritmo de um tambor descompassado enquanto ela tentava firmar as pernas.
No centro da piscina, Paracelso e Cyfera estabilizaram as posturas, a água quente escorrendo de seus ombros intactos. A tensão assassina do embate havia evaporado, substituída por um abismo de estupefação. Ambas inclinaram o pescoço em sincronia, honestamente desorientadas diante da hostilidade da cobaia.
— Por que você fugiu? — Paracelso franziu o cenho, o tom completamente destituído de ironia, como se a garota houvesse cometido um erro banal de etiqueta.
— EU NÃO VOU AJUDAR NENHUMA DE VOCÊS, SUAS IDIOTAS! — Anna berrou. O urro rasgou o vapor e chicoteou a acústica de pedra da terma.
As duas estudiosas trocaram um olhar de soslaio. Com as sobrancelhas erguidas em perfeita harmonia sociopata, perguntaram no mesmo compasso:
— Por quê?
A mandíbula de Anna quase deslocou de indignação pura. A audácia das duas apagou qualquer faísca de raciocínio lógico que ainda restasse em seu cérebro.
— AINDA VÊM ME PERGUNTAR POR QUÊ?! — A garota espalmou a água de qualquer jeito, o pavor cego sendo atropelado por uma raiva absoluta. — Quer saber? Esquece! Bem que o Dante me avisou sobre as doenças mentais dessa família! Eu tô é dando no pé daqui agora mesmo!
Anna içou o próprio peso para fora do onsen. As solas nuas chapinharam freneticamente contra o piso liso e molhado, escorregando e tropeçando num ímpeto cego de sobrevivência enquanto ela disparava em direção à área de secagem.
Sem quebrar a postura macabra ou o ritmo clínico, Cyfera e Paracelso emergiram da água no segundo seguinte. Acompanharam a fugitiva, as passadas lentas e frias copiando a persistência letal de vendedoras ignorando portas batidas na cara.
— Espera aí! Vocês já vão?! — A voz de Mio ecoou lá do fundo, esganiçada. A caçadora flutuava, ilhada na borda, piscando para a cena caótica sem conseguir montar o quebra-cabeça do que acabara de presenciar.
Nos vestiários, o barulho do tecido áspero da toalha sendo esfregado com violência contra os cabelos loiros competia com a insistência monótona do assédio acadêmico. Anna enterrava os braços nas mangas do casaco com as mãos em espasmos, a pressa sabotando a coordenação, enquanto a dupla de insanas permanecia plantada um passo atrás de suas costas. A água da piscina ainda pingava livremente dos corpos das cientistas, criando pequenas poças no piso de tatame seco.
— Anna, seja razoável. Apenas algumas amostras frescas de sangue e tecido, não vai doer quase nada — Paracelso insistiu, a inclinação de seu sorriso assumindo um contorno doce e anestésico.
— Meus métodos de mapeamento de genoma prescindem das dissecações vulgares que a doutora sugere. Eu sempre manipulo os meus espécimes com integridade e cuidado... — Cyfera argumentou, a entonação irretocavelmente polida, as mãos unidas com elegância à frente do ventre.
Anna puxou a gola do casaco com brutalidade. Girou nos calcanhares, a franja molhada colada ao rosto, e fuzilou o par de acadêmicas com a mais pura e venenosa hostilidade que suas pupilas conseguiram projetar.
— SUMAM DE PERTO DE MIM!
Parte 8
O vagão de relaxamento operava como uma fronteira térmica. Separava o purgatório escaldante das águas vulcânicas da letalidade congelante que impregnava os corredores do trem. O design priorizava o conforto: o tatame úmido da terma cedia lugar a um assoalho de madeira clara, e o ar-condicionado sussurrava uma brisa amena e seca, ancorando a umidade. Poltronas felpudas estavam espalhadas pelo espaço amplo.
Em uma delas, estrategicamente alinhado ao raio de ação de um ventilador oscilante de chão, Kai bufava. O albino estava empacotado em um roupão de banho felpudo, os braços cruzados apertando o peito e a carranca habitual cavada fundo nas feições.
— Por que eu ainda tenho que ficar esperando aqui, seu maldito? — Kai rosnou, atirando adagas visuais na direção de Love. — A água do meu corpo já secou. Me deixa ir pro meu quarto de uma vez.
Love, elegantemente envolto no próprio roupão — que amarrava a bainha da espada à cintura com um nó impecável —, aproximou-se. O dedo indicador ergueu-se no ar, moldando uma postura de pura e inabalável didática.
— Você e o Blade partilham dessa exata impaciência. — O gigante suspirou, o tom descendo professoral. — Nos corredores residenciais lá fora, a temperatura beira o congelamento devido ao contato quase direto com a nevasca. Sair de supetão, com o sangue ainda fervendo da imersão nas termas, pode induzir um choque térmico violento e te acamar. Temos que aguardar até a temperatura central do corpo abaixar e estabilizar. É para isso que os roupões e esta área de transição foram projetados.
Largado no sofá ao lado, Dante parecia imune à pressa. Havia mapeado a máquina de vendas do vagão e agora estava esparramado no estofado macio, os fios úmidos colados à testa. Entre os lábios, segurava o canudo plástico de uma caixinha de suco de laranja. O ruído irritante do líquido acabando — slurp, slurp — pontuava o silêncio sempre que Love encerrava um argumento.
Dante largou o canudo, a nuca escorregando pelo encosto da poltrona.
— É, Kai... mas o Love deve ser o único ser vivo nesse trem que esquenta a cabeça com isso. — Dante agitou a caixinha vazia na direção do gigante. — Sabe, Love, essa tua neurose tem uma vibração muito pesada de preocupação de avó.
Love piscou. O sorriso do gigante acendeu com serenidade pura. Ele inclinou a cabeça, os cabelos loiros caindo pelos ombros.
— Oh. Quer dizer que eu exalo a aura de alguém sábio e experiente para você, Dante?
As engrenagens de Dante pararam. Ele encarou o rosto absurdamente pacífico do loiro por intermináveis três segundos. A expressão cínica e letárgica mascarava o berro silencioso de sua mente: Foi exatamente o oposto do que eu disse, seu maluco.
Antes que o garoto desconstruísse o otimismo delirante de Love, o estrondo agressivo de uma porta de correr estilhaçando o silêncio ecoou pelo vagão. A madeira bateu com violência contra o batente feminino.
Anna irrompeu no setor de relaxamento. A corrida da loira era caótica, os joelhos tropeçando na barra longa do próprio roupão. O rosto estava drenado de cor, e ela puxava o ar desesperada, os pulmões rasgando a atmosfera:
— NUNCA! ME DEIXEM EM PAZ!
Logo na sua cola, a dupla de predadoras atravessou a soleira, embutindo uma perseguição em ritmo de caçada letal.
— Vai, Anna, é só um pouquinho! Eu te dou a minha palavra de que mal vai doer! — Paracelso suplicava, quase sem fôlego. As íris cianas chamejavam com uma febre insana. — Eu tenho anestésicos de última geração! Você sequer vai sentir o corte inicial do bisturi!
— Tá vendo só o absurdo que ela tá te propondo? Diferente dessa louca, eu prometo que não vou abrir ou desmembrar nada! — Cyfera acelerava logo ao lado, o roupão esvoaçando enquanto ela gesticulava com uma elegância assustadora no meio do caos. — Eu apenas exijo observar o seu metabolismo de perto! Posso bancar muito bem o seu tempo, sabia?! Se checar meus registros na rede Rosa-Cruz, atestará que todos os voluntários dos meus testes me deram notas impecáveis!
Paracelso derrapou no assoalho por um segundo. A cientista lançou um olhar torto e cínico para a platinada de chifres.
— Sabe, o seu método sempre me cheirou a pura perda de tempo. Por que raios você mastiga toda essa burocracia pra tratar as cobaias com luva de pelica? É só pra colher avaliações altas e usar de vitrine pra atrair mais espécimes sem sujar as mãos? Se a lógica for só o marketing... até faz sentido aturar essa chatice.
Cyfera ajeitou a lapela úmida do próprio roupão com um puxão brusco, erguendo o queixo com o orgulho ofendido de uma acadêmica de berço.
— Jamais compare o meu rigor com os açougues experimentais que vocês operavam em Threshold. Vocês retalhavam crianças, evisceravam sujeitos sem gastar uma sinapse pensando nas sequelas psicológicas ou físicas da cobaia. Eu sou uma pesquisadora refinada.
— Dito isso... — Paracelso ergueu a mão, apontando diretamente para a loira que corria aos tropeços em busca de abrigo. — Fica claro que a sua "refinação" vai pro ralo no minuto em que ela recusa o convite berrando a plenos pulmões.
A arqueóloga estreitou as pupilas magenta sem perder o ritmo da perseguição.
— E você acha mesmo que eu vou recuar?! É um autêntico Avatar de Astreus vivo e estabilizado! Anomalias dessa magnitude não caem do céu todos os séculos!
Encurralada e com os joelhos tremendo, Anna estancou ao registrar a presença dos três machos no coração do vagão.
— Esquece! Eu não vou deixar nenhuma de vocês duas sedar, cortar, medir ou sequer respirar perto da minha biologia! — a loira urrou, freando as botas com força e girando nos calcanhares.
Num instinto primário de sobrevivência, Anna ziguezagueou até o sofá e atirou-se às costas de Dante. As mãos unhadas agarraram os ombros do garoto, ancorando-se a ele como se fosse um escudo balístico. Encolhendo os joelhos sob o roupão, com o peito subindo e descendo em espasmos de pânico, ela ergueu o queixo apenas o suficiente por cima do estofado para mostrar a língua para as algozes.
No centro da roda, Dante, Kai e Love assistiam ao teatro cirúrgico completamente anestesiados. A falta de contexto era palpável.
Dante virou o pescoço, pesando o tremor de Anna colada às suas costas. Em seguida, os olhos escuros miraram Paracelso. O véu de letargia sumiu, substituído por um aborrecimento glacial.
— Ei, Paracelso. Que inferno você arrumou com a Anna agora?
As botas da cientista travaram contra a madeira. Ela passou a mão pela nuca, o riso forçado arranhando a garganta.
— Ah... então... rolou um pequeno atrito nas negociações de escopo acadêmico...
— Presta atenção. — Dante atirou a caixinha vazia no colo. A voz caiu reta, perigosa. — Se você continuar caçando e assediando a Anna sem a permissão dela, eu corto o seu acesso. Acabou. Nunca mais deixo você tirar uma gota de sangue ou processar o meu DNA no seu laboratório.
O blefe oco pesou como uma bigorna de chumbo na cabeça da cientista. O terror esvaziou a cor do rosto de Paracelso. A mera hipótese de ver a sua cobaia de estimação e a chave de sua evolução escaparem direto para as mãos da concorrência acadêmica pulverizou seu orgulho.
— Foi mal! Eu perdi a linha! — Ela ergueu as mãos abertas num espasmo de rendição patética, o desespero cru vazando no timbre. — Não mete essa pressão, não, garoto! Tá de boa, eu boto o pé no freio!
Mas a bandeira branca durou apenas a fração de um segundo tático. O olhar predatório de Paracelso escorregou e fisgou as íris da loira escondida atrás do estofado. A lâmina da sociopatia da mulher era precisa demais para recusar uma última torção na ferida antes de abandonar a mesa de cirurgia.
— Mas guarda isso na cabeça, Anna... — O murmúrio de Paracelso flutuou pelo ar-condicionado frio, soando exatamente como o chiado sibilante de uma víbora. — Você, mesmo sendo teoricamente a metade exata do corpo de um Astreus, deve abrigar lacunas insuportáveis sobre a arquitetura da sua própria biologia. Será que você nunca parou no espelho pra pensar se não existe nada nesse seu invólucro que você não gostaria de... consertar? De corrigir? De alterar? Se tiver, querida... eu posso ser o único bisturi capaz de operar esse milagre. Pense nisso.
As sílabas destiladas pairaram na brisa refrigerada do vagão. E, então, afundaram com o peso de uma âncora no abismo calmo e silencioso que era a mente de Anna.
O sorriso provocador da loira quebrou. As mãos dela, que antes ancoravam os ombros de Dante em um aperto firme de proteção, afrouxaram.
A brisa fria do ar-condicionado morderia sua pele úmida, mas o calafrio que percorreu a espinha de Anna veio de dentro. A provocação engatilhou uma memória enterrada, escura e venenosa. A voz do Astreus da Vida sussurrou no fundo da sua caixa craniana, arrastada, letal e inesquecível:
“Você acha que o protege? Não. Você é a maldição dele. Enquanto você estiver ao lado dele, a vida de Dante Scarlune será um inferno eterno.”
A hesitação varreu as feições da garota. O terror de ser a ruína arquitetada do rapaz à sua frente caiu como uma bigorna em seu estômago. Se houvesse mesmo uma rota de fuga para a sua própria biologia... uma forma de extirpar aquela maldição de suas células... talvez Paracelso fosse, de fato, o único bisturi capaz do milagre.
Anna engoliu a voz. O olhar dela despencou para os veios claros da madeira do chão. O silêncio que escorreu pelo vagão foi repentino, denso e asfixiante. Apoiado no sofá, Dante franziu o cenho, o tecido do roupão registrando o tremor sutil e a tensão gelada nas mãos que ainda o tocavam.
Antes que ele pudesse torcer o pescoço e interrogar a loira, Love puxou as rédeas da sala.
A gravidade ao redor do gigante colapsou. O sorriso pacífico não arredou um milímetro de seus lábios, mas a pressão atmosférica desabou com uma força colossal, esmagando os instintos de todos os presentes contra o assoalho. Ele deixou de ser apenas a bússola de boas maneiras do grupo; era um Scarlune de patente máxima sentenciando uma lei.
— Fim de papo. A brincadeira acabou. — A voz de Love flutuou pelo ar, aveludada, porém forjada em aço puro. — De qualquer forma, está sumariamente proibido realizar ou coagir qualquer tipo de experimento sem consentimento a bordo desta locomotiva. Ou será que você gostaria que eu transferisse toda a carga burocrática de gerenciamento e logística de Threshold para a sua mesa, Paracelso? Isso certamente preencheria o seu calendário e a impediria de continuar caçando cobaias pelos corredores.
A bota de Paracelso raspou na madeira num passo trêmulo para trás. Ela encolheu os ombros, a linguagem corporal inteira entrando em estado de repulsa imediata. A pior ofensa do universo acadêmico havia sido engatilhada à queima-roupa: Responsabilidade.
Satisfeito com o terror administrativo imposto, Love bateu uma palma na outra. O estalo seco triturou a aura opressiva no mesmo milésimo de segundo. O oxigênio voltou a circular livremente no vagão. O gigante abriu um sorriso radiante, o clima retornando à letargia amena e amigável inicial com a facilidade de quem vira a página de um livro.
— Mas... perfeito! — Love anunciou, os olhos azuis brilhando com genuína satisfação. — Graças a esse pequeno tumulto, a chance que eu estava aguardando acabou de cair no meu colo. Eu finalmente poderei fazer as honras.
Dante e Cyfera piscaram. O garoto, largado contra o encosto do estofado, ergueu o rosto para a mulher platinada de chifres parada a poucos metros de distância. Cyfera retribuiu. Ela inclinou o queixo levemente, as pupilas magenta dissecando o rosto do rapaz pela primeira vez sem a poluição visual do banho ou do caos da perseguição para atrapalhar a leitura.
— O contexto de estarmos todos de roupão e cabelos úmidos pode tirar um pouco da etiqueta do momento, mas... — Love estendeu a palma da mão direita para o centro da roda, assumindo a postura impecável de um mestre de cerimônias. — Dante, Cyfera. Acho que finalmente chegou a hora de vocês dois se conhecerem.
Parte 9
O vagão de relaxamento afundou em uma mudez de necrotério. O único som a rasgar a tensão era o zumbido mecânico do ventilador de chão, que varria o ar desumidificado de um lado para o outro em um compasso monótono.
Lentamente, Anna recuou para o fundo do ambiente. Os ombros da loira cederam sob o peso do tecido felpudo, e ela abraçou os próprios braços, os olhos pregados no assoalho de madeira clara. A vitalidade havia escorrido de seu rosto; ela isolou-se em seu próprio canto, fisicamente presente, mas com a mente sendo engolida viva pelas sombras dos próprios demônios.
No centro do vagão, a tempestade começava a se armar. Kai afundara na poltrona, estalando a língua no céu da boca repetidas vezes — um esforço inútil para camuflar o brilho de pura fofoca que faiscava em seus olhos. A poucos passos dali, Love irradiava uma energia absurdamente oposta. O gigante exibia um sorriso largo, as mãos unidas à frente do corpo com a expectativa palpável de quem aguarda o clímax de um conto de fadas.
E, no olho do furacão, Dante e Cyfera se encaravam. O silêncio que os separava era denso, carregado de uma avaliação mútua e silenciosa.
Então essa é a Cyfera..., Dante processou. As engrenagens táticas de sua mente giraram com urgência, erguendo trincheiras. Eu preciso deixar perfeitamente claro, agora, que não tenho a menor intenção de me casar. Especialmente se ela for uma maluca letal do mesmo naipe da Paracelso. Sem hesitação. Preciso ser cirúrgico, direto e frio. Nenhuma margem para enganos.
Ele inflou os pulmões, puxando o ar fresco do vagão para desferir a sentença. Mas, ao cravar a mira nela, sua própria biologia o sabotou.
A água termal ainda delineava a figura de Cyfera com uma clareza desleal. Os fios puríssimos e as mechas magenta grudavam na pele alva, e uma gota solitária deslizou pela curva elegante de seu pescoço, sumindo na gola escura do roupão. No exato milésimo de segundo em que ele absorveu a imagem, a memória o atingiu como uma carreta sem freio: o cruzamento de olhares no corredor, o perfume metálico, aquele sorriso silencioso roçando sua sanidade.
O rosto de Dante incendiou. Uma onda escarlate subiu pela garganta e estourou em suas bochechas. Ele chacoalhou a cabeça num solavanco brusco, lutando para espancar os pensamentos intrusivos de volta para o subconsciente.
Paracelso, com instintos de predadora, capturou o micro movimento. Ela projetou o tronco para a frente, um sorriso rasgado despontando nos lábios.
— Que foi, Dante? Você parece meio vermelho, garoto.
— É verdade — Love endossou, as sobrancelhas unidas em uma preocupação genuína e maternal. — Por acaso você ficou tempo demais na água quente e a pressão baixou?
— CALA A BOCA, VOCÊS DOIS! — Dante berrou, a voz esganiçada arranhando a garganta.
Ele esfregou as palmas das mãos contra o rosto ardente, fechou os olhos e puxou uma respiração profunda. Foco. Eu preciso ser firme. Quando baixou as mãos, a preguiça havia sumido de seu olhar. Ele cravou as íris em Cyfera, cerrou os punhos e separou os lábios para descarregar a sua rejeição inabalável.
— Eu não quero.
Dante piscou. A boca continuava entreaberta. O timbre rouco e aveludado que preencheu o vagão não havia saído de sua garganta.
O ambiente inteiro congelou. Todos os pescoços viraram em sincronia para a mulher de chifres.
Cyfera não vacilou um milímetro. A postura mantinha a mesma elegância letal enquanto ela repetia, desta vez ancorando os olhos purpúreos diretamente no mestre de cerimônias.
— Eu rejeito essa coisa de casamento. Esqueça isso, Love.
O sistema nervoso de Love sofreu uma pane geral. O sorriso radiante petrificou. O cérebro do gigante levou três segundos agonizantes para traduzir o vocabulário.
— Que... — o sussurro vazou fino, raso, antes que os pulmões decidissem operar novamente. — PERA AÍ, O QUÊ?!
O baque seco de um corpo despencando contra a madeira ecoou pela sala.
Kai não resistiu. O albino escorregou da poltrona e bateu no chão, rolando sobre o próprio eixo enquanto uma gargalhada histérica, rasgada e absolutamente despudorada explodia de seu peito. O ódio crônico alimentado contra o rival havia acabado de atingir o nirvana do entretenimento. Assistindo ao circo pegar fogo de camarote, Paracelso soltou um assobio longo, baixo e genuinamente impressionado.
Love atirou-se um passo à frente, as mãos gesticulando no mais puro desespero diplomático.
— Peraí, Cyfera! Eu achei que você estivesse aberta a considerar isso quando eu propus a ideia!
— E, de fato, eu estava aberta a considerar na época — Cyfera rebateu. A voz não carregava emoção, apenas a precisão gélida de quem lê um relatório laboratorial. — Eu vivo viajando, liderando escavações e me trancando em bibliotecas. Pensei que seria uma janela viável, já que é difícil conhecer alguém por vias tradicionais. Era uma oportunidade de logística. Por isso afirmei que iria considerar.
Rolando no assoalho com as mãos cravadas na própria barriga, Kai urrou:
— HAHAHAHA! E AÍ QUANDO VOCÊ OLHOU PRA CARA DESSE MERDA, PERCEBEU QUE A OPORTUNIDADE ERA UMA FURADA! HAHAHAHA!
Paracelso escondeu o sorriso letal atrás da mão, os ombros tremendo em uma risada contida. Isso que é ter ódio puro no coração. O moleque tá rolando no chão de rir de um fora alheio.
Desesperado para tampar os furos no casco do navio que afundava, Love jogou o próprio corpo na frente de Dante, assumindo o papel de advogado de defesa.
— Mas... mas não acha que tomou uma decisão um pouco rápido demais?! Vocês nem se conheceram direito ainda! Olha pra ele! O Dante é bonitão, não é? Além disso, ele é bem engraçado, interessante, e, como ele carrega metade de um Astreus, o corpo tem anomalias que poderiam ajudar absurdamente na sua pesquisa histórica! Não acha que pelo menos vale a pena tentar?
Cyfera cruzou os braços sob o peito. Ela sustentou o olhar de Love, e as sílabas que saíram de sua boca a seguir fatiaram o gigante com a eficiência de um bisturi.
— Eu considerei isso. Mas, Love... você realmente acha que só por causa de um "corpo útil" ou de beleza estética eu cogitaria dividir a minha vida inteira com alguém?
A moral de Love desmoronou. Ele deu um passo trêmulo para trás, engolindo a seco.
— Para começo de conversa, eu não sou uma mulher de mente rudimentar que entraria em um relacionamento apenas por utilidade acadêmica ou caprichos superficiais — Cyfera cravou, o verniz polido da voz ganhando a densidade do titânio. — Mesmo que ele fosse um Astreus em estado puro ou o cálice sagrado das minhas dúvidas científicas, a minha resposta não mudaria. Um relacionamento é algo de uma complexidade absurda. Só sobrevive se houver vontade real de ambas as partes. Demanda trabalho constante. Exige esforço para decodificar o outro, tempo investido nele e tempo resguardado para os seus próprios desejos.
Ela girou o eixo do pescoço. Os olhos purpúreos atravessaram a retina de Dante, escaneando-lhe a alma.
— E basta observar esse garoto por alguns minutos... para diagnosticar que ele é completamente desprovido de tudo isso.
Dante travou. A saliva virou areia na garganta sob o peso daquele raio-X emocional.
— Ele não me parece alguém com a menor faísca de desejo genuíno de se relacionar ou construir algo com outra pessoa — ela prosseguiu, a voz desidratada de qualquer empatia, executando-o em praça pública. — Ele cheira a um garoto que foi arrastado pela correnteza dos outros até essa situação. É acuado, indeciso. Reage em vez de agir. E é completamente oco de motivação própria. Sendo absurdamente franca, ele é a personificação exata do tipo de pessoa que eu quero manter longe da minha vida.
Cyfera fez uma pausa cirúrgica. O silêncio antes do golpe de misericórdia.
— Claro. Não estou dizendo que o odeio. Mas eu nunca, sob hipótese alguma, o listaria como uma opção tolerável para um relacionamento.
O ar-condicionado pareceu parar. O vagão entrou em um vácuo asfixiante. O constrangimento era uma entidade física na sala — cru, ácido e denso o suficiente para ser cortado a facadas.
Até o frenesi de Kai cessou. O albino parou de rolar, bateu a palma da mão na madeira e, com os ombros ainda sacudindo, cuspiu uma risada fraca e ofegante pela boca.
— Puta merda... é engraçado porque é verdade!
A poucos centímetros dali, Paracelso mordia o lábio inferior até sentir o gosto ferroso de sangue. Calado, seu maldito clone! Se você abrir a boca de novo, eu vou perder a postura e rir também!
Sem manifestar um átomo de remorso por ter pulverizado o ego de um Scarlune diante de sua própria família, Cyfera girou os calcanhares na direção da porta.
— Mas, bem... agora que já deixei as minhas condições perfeitamente claras aos envolvidos, creio que podemos arquivar o assunto. Estender essa interação é inútil. Nos conhecermos não alterará a minha premissa central. Por isso, prefiro não despender energia forçando algo que eu, categoricamente, não quero. Com licença.
As solas macias de seus sapatos não emitiram som ao tocarem o assoalho a caminho do corredor gélido.
Love sacudiu a cabeça, quebrando a paralisia do choque diplomático, e disparou atrás dela.
— Espera aí, Cyfera! Deixa a temperatura corporal baixar um pouco mais primeiro! Você vai pegar um resfriado nesse corredor!
A porta se fechou. O zumbido rítmico do ventilador reassumiu a trilha sonora do vagão.
Paracelso marchou até o sofá. Ela ergueu a mão pálida e aterrissou dois tapas pesados, fraternais e absurdamente sádicos nas costas de Dante.
— Parabéns, garoto! — ela celebrou com um sorriso de orelha a orelha. — Sua virgindade acaba de ser perfeitamente blindada por forças maiores! Pelo visto, você não vai precisar gastar uma gota de suor com isso. Pode voltar a dormir tranquilo e jogar no colo do próximo Rei Escarlate a papelada para oficializar o cancelamento. Fim de jogo!
Ela inclinou o rosto, farejando na fisionomia de Dante aquele alívio preguiçoso e letárgico de quem foge de uma responsabilidade.
O sorriso da cientista evaporou.
Não havia alívio no rosto de Dante. Havia apenas uma obliteração completa, silenciosa e catastrófica.
A pele do garoto estava vermelha. Não o vermelho vulcânico de uma fúria passional, mas o rubor febril, úmido e doentio da mais pura, absoluta e irreparável humilhação pública. O orgulho masculino, até então inabalável, acabara de ser passado no moedor de carne da lógica de Cyfera. Os olhos escuros de Dante marejavam, a fina camada de lágrimas traindo a vontade excruciante de que a gravidade invertesse e o chão de madeira se abrisse para engoli-lo até o manto da Terra.
Kai sentou-se no chão. Ao cruzar o olhar com a expressão miseravelmente arruinada de Dante, o albino puxou o ar. A risada psicopata e sádica foi reiniciada com o dobro dos decibéis.
Paracelso recuou um passo, puxando os próprios cabelos cianos, a confusão estampada no rosto.
— Pera aí... — ela resmungou. — Mas por que caralhos você tá reagindo assim?! Eu achei que você também não queria ficar com ela! Você estava quase gritando isso há dez minutos!
O estalo foi visível. A espinha de Dante enrijeceu como aço forjado. A máscara patética de humilhação evaporou no ar, sendo imediatamente engolida pelo fogo ardente, irracional e venenoso de um ego dilacerado. Ele puxou uma lufada profunda de oxigênio trêmulo, ergueu o queixo e cravou as íris mortais na exata porta por onde Cyfera havia saído.
— Nem morto que eu vou aceitar que essa história termine assim. — A voz de Dante arranhou as paredes, ríspida, encharcada de veneno e ressentimento puro. — Que merda. Que droga! Agora eu decidi de vez! Eu vou fazer aquela mulher engolir e retirar cada maldita palavra do que ela acabou de dizer... nem que eu morra tentando!
Paracelso piscou. O silêncio durou exatos três segundos enquanto seu cérebro acadêmico tentava mapear a irracionalidade cósmica que regia a biologia masculina. Ela soltou um suspiro profundo e letárgico, cruzando os braços.
— É sério, garoto... Você já considerou fazer terapia?
Parte 10
O uivo colossal da locomotiva retalhou a tempestade, um lamento metálico que chacoalhou os ossos da tripulação. O ritmo canibal das rodas começou a morrer. Do outro lado da vidraça dupla, a muralha intransponível de gelo rasgou-se de uma vez, expondo um oásis de luz elétrica encravado no limite do nada.
A estática arranhou os alto-falantes de madeira do teto, logo substituída por uma voz sintética, impecavelmente fria.
— Atenção, senhores passageiros. Iniciamos os protocolos para nossa primeira parada: o Distrito do Festival de Inverno, na cidade de Invel. Preparem-se para o desembarque. Turistas estão liberados durante o reabastecimento. Para os que optarem por permanecer a bordo, as áreas de lazer — vagões-restaurante, termas e salões de jogos — estarão temporariamente interditadas para manutenção de rotina. Agradecemos a compreensão.
No isolamento do seu quarto, Vivian espiava as luzes da estação devorando a nevasca. O neon projetava sombras duras sobre a palidez de seu rosto.
— Bom... — murmurou. A voz, de uma secura tática. — O que quer que eles estejam maquinando, acabou a janela para o silêncio. A partir daqui, as cortinas se abrem.
Em sincronia com a parada do trem, a porta do setor de relaxamento cuspiu o grupo de volta para o corredor acarpetado.
Kai liderava a marcha, embora parecesse arrastar o próprio peso. Apoiado na parede, ele puxava lufadas irregulares de ar, o peito ainda latejando pelos espasmos quase letais daquela gargalhada histérica. Atrás dele, as botas de Dante castigavam o chão. As íris escuras do garoto faiscavam. Era um olhar puramente vingativo, de quem havia jurado reaver o ego pulverizado, custasse as vidas de quem tentasse impedir.
Paracelso puxou os braços para cima num espreguiçar sonoro. O clique das articulações da mulher denotava uma indiferença absoluta ao terror psicológico que acabara de patrocinar. Atrás, protegida pela penumbra, Anna caminhava flutuando em sua própria bolha. O olhar vazio rastreava fantasmas, a mente afundada na tempestade ruidosa de suas engrenagens quebradas.
Mio foi a última a despontar do vestiário. Num pique rápido, a caçadora emparelhou com Dante. Ela esticou as pontas dos pés, escorou o ombro no braço do rapaz e soprou na orelha dele um sussurro destilado em sadismo malicioso:
— Então... primeira parada, hein. Sabe, Dante... cenário novo, ares limpos... acho que é o momento perfeito pra você ir lá e "conquistar" a fera, que tal?
As solas de Dante pregaram no assoalho. A cor do rosto dele saltou do vermelho passional para a palidez cinzenta de pânico absoluto.
— N-não vai me dizer que você... — gaguejou, o olho esquerdo piscando em um tique nervoso.
— Pois é. — Mio estalou a língua e piscou o olho. — Eu escutei todinha a sua sentença de morte.
As sinapses de Dante entraram em curto. O rapaz sepultou o rosto incandescente sob ambas as mãos e soltou um gemido esmagado de pura vergonha crua. O desespero sonoro serviu como um desfibrilador imediato para Kai. O albino engasgou e reiniciou a risada caótica, enfiando a testa contra a madeira polida do corredor enquanto tossia.
Alguns minutos depois, o tranco violento do freio sentenciou o fim do percurso. O chiado dos engates soltou as válvulas pneumáticas. As portas maciças escancararam-se, despejando baforadas de fumaça e vapor denso contra a atmosfera brutal da estação.
No segundo em que a sola da bota de Mio bateu na plataforma, a arquitetura da cidade roubou o oxigênio de seus pulmões.
Invel não era um mapa; era um delírio Cyber-Wuxia erguido sobre a rocha. A ancestralidade sangrava violentamente contra a alta tecnologia. Pagodes hiperbólicos curvavam os telhados sob o peso absurdo da neve, mas a tradição milenar era estripada pela poluição visual de letreiros gigantescos, que vomitavam neon ciano e carmim desenhando caracteres velozes. Erguendo o queixo, Mio percebeu a escala logística: o Trem Escarlate não reinava sozinho. Nos terminais vizinhos, outras duas serpentes de ferro, idênticas e mastodônticas, aguardavam nas plataformas.
A caçadora adentrou a metrópole, o pescoço virando num eixo incontrolável. O vapor denso e fervente exalado pelas barracas de rua rastejava rente ao chão, encobrindo os calcanhares da multidão. Acima de suas cabeças, nadando com uma graça etérea pela poluição aérea, carpas holográficas gigantescas desviavam dos postes, escamas cintilando no mesmo tom ciano da tecnologia local.
Contudo, a febre tecnológica não explicava toda a distorção.
— Uau... — Mio espalmou os dedos na direção do céu.
Pontos de luz azulada, nervosos e erráticos, orbitavam os turistas. Pequenas anomalias bioluminescentes. Fadinhas cujas asas pareciam ter sido talhadas e lapidadas a partir do gelo seco, voando em espirais.
— Caramba, são pixies de verdade! Que gracinha!
A adoração ingênua durou até ela descer os olhos e mapear os calçadões à beira da estação. Ali, criaturas saídas de um delírio mitológico esgueiravam-se entre os letreiros, tratadas pela população local com a naturalidade de animais de tração. Cervos massivos portavam galhadas que mais pareciam formações brutas de cristal reluzente. Aves exóticas desfiavam uma plumagem que distorcia a luz na atmosfera. Lobos de porte escandaloso rosnavam baixo, as escápulas inteiramente fundidas com estacas de gelo agressivo.
— O que diabos é aquilo ali? — sussurrou a caçadora.
— Você nunca catalogou. — Vivian materializou-se ao lado, o tom estéril e educado. A herdeira puxou a borda da luva escura e apontou sem alarde. — Nós chamamos de Malafílicos. Ou, na nomenclatura oficial lá do continente de Sakura... Maju.
— Malafílico... — Mio rolou as sílabas na boca. — É uma ramificação endêmica aqui de Threshold?
— Exato. E absurdamente territorial e letal — Vivian sentenciou. — Threshold opera como um cofre lacrado. Ninguém de fora pisa aqui e sai com fôlego suficiente para catalogá-los. É por isso que não figuram oficialmente no seu Bestiário.
Mio inclinou a cabeça, extasiada com a quebra na lore mundial, mas o pandemônio bucólico do outro lado da rua estilhaçou o momento épico.
Dante e Kai estavam travados no meio do calçamento de pedra, vitimados pelo assédio das pixies. A assinatura instável do Éter Scarlune agia como mel para as fadas. Uma das criaturas já havia montado base na cabeça do albino e puxava impiedosamente os fios brancos na tentativa fútil de forjar um ninho. Kai, vermelho de pura fúria, chacoalhava a cabeça e espalmava o ar feito um desvairado.
A poucos metros dali, em um contraste magnético, o mesmo enxame abria uma cratera de três metros de distância quando chegava perto de Beatrice. As pixies contornavam o ar de longe, virando as minúsculas caras enojadas e mostrando a língua para a garota. Beatrice devolvia a hostilidade. Ela fechava as narinas com os dedos, o rosto transfigurado numa carranca de puro asco.
— Definitivamente, Threshold é outro universo... — Mio cruzou os braços, sorrindo largo diante do circo.
O sorriso não segurou as pontas. Dante finalmente despistou a nuvem de fadas. O garoto cravou as solas no chão ao lado de Vivian, marchando duro. As engrenagens operavam frenéticas atrás dos olhos escuros, fatiando a neblina letárgica que ele costumava sustentar. O rosto dele desenhava uma atenção puramente tática e mortífera.
— Tem uma coisa muito, muito errada aqui. — Dante filtrou as palavras por entre os dentes travados.
Mio deixou a pose cair. O instinto disparou, forçando-a a focar na gravidade repentina do rapaz. Vivian, pelo contrário, apenas encostou o peso na perna direita, os braços perfeitamente dobrados sob o peito, e devolveu a ele um olhar banhado em apatia condescendente.
— A ficha demorou a cair.
Dante varreu o escárnio e escaneou a plataforma. O labirinto de neon de Invel, a estrutura dos três trens lado a lado, as carpas nadando por entre a fumaça de óleo quente. A geometria do mapa não fechava.
— A gente não tinha que estar batendo ponto em Invel — ele sibilou, o maxilar endurecido pelo alerta tático. — A cadeira do conselho e a Reunião Anual ficam trancadas no epicentro geográfico. Esse não é o nosso eixo. O que caralhos tá rolando, Vivian?!
A constatação atravessou as costelas de Mio. A caçadora girou nos calcanhares, a visão dissecando a horda de desembarque. Em meio à chuva de neon ciano, a fumaça rala escancarou dezenas de outros Scarlunes da alta patente estancados na calçada. O encantamento turístico dava lugar a cenhos retorcidos, dedos que mapeavam a metrópole desconhecida e um zumbido de murmúrios que fermentavam em confusão hostil.
A rota não falhara por um erro de cabine. As termas, as carpas, Invel... toda aquela roupagem extravagante não passava de uma isca enfeitada em luz e neve.
O burburinho bélico da multidão foi subitamente retalhado. O som não veio de uma garganta humana, mas do pop brutal e supersônico de microfonia que estourou pelo sistema inteiro. Os hologramas dos edifícios deram tilt, rasgando o ar em frequências vermelhas e pixelizadas. As majestosas carpas foram apagadas. No topo dos prédios, o céu espesso e nebuloso serviu de lona para uma projeção titânica.
— Atenção. Peço a absoluta atenção de todos os receptores desta transmissão.
O timbre feminino encheu cada metro quadrado de asfalto, abafando até a tempestade de gelo. O rosto da garota que substituiu o neon da cidade preencheu a tela massiva. Uma figura aparentemente frágil. Ela portava íris roxas que avaliavam o mundo como um quebra-cabeça peculiar, cabelos alvos milimetricamente curtos e pesados grampos metálicos engatados em um bizarro formato de jogo da velha, prendendo a lateral da franja.
As pálpebras de Vivian cederam de imediato. A armadura inabalável trincou sob o peso do choque irrestrito.
— Descora...?
Mio fixou a mira na projeção colossal. A respiração de toda a plataforma congelou. Líderes de facções, mercenários veteranos e políticos da aristocracia Scarlune viraram estátuas.
A garota projetada sorriu. O arco que seus lábios formaram exalava uma ameaça amigável.
— Muito bem... — Descora soltou um suspiro, girando na própria cadeira. — Agora que finalmente tenho o palco e a atenção da família inteira, informo que, devido a alguns contratempos... logísticos, operamos alguns reajustes muito pequenos na nossa pacata excursão...



Comentários