The Fall of the Stars: Capítulo 4 - Caçada Gélida

Volume 5 : Trem Escarlate
Parte 1
O ar sobre o imenso lago subterrâneo pareceu estilhaçar. No exato milésimo de segundo em que a luz do Modo Deus da Velocidade foi desativada, o zumbido elétrico do Éter de Dante morreu, engolido pela acústica úmida e escura da caverna. Sem a claridade mágica, a penumbra avançou, revelando a manifestação bruta e esmagadora de sua Aura pura.
Ele fincou a ponta da bota no gelo negro. O calcanhar desceu logo em seguida, projetando o corpo para a frente, e um estalo seco ecoou quando o primeiro passo rachou a superfície. Mas o campo de batalha não apenas notou a mudança na postura; ele revidou instantaneamente.
A tempestade magnética, até então uma força caótica que varria a caverna em espirais difusas, retraiu-se. O assobio espalhado do vento converteu-se em um rugido grave. Como um predador colossal farejando sangue fresco, a ventania e as lâminas de pétalas de gelo abandonaram a dispersão, retorcendo-se em um redemoinho denso e violento.
O alvo era um só: Dante.
A pressão atmosférica despencou. O ar tornou-se sólido, desabando sobre ele como uma montanha invisível. Dante cravou os calcanhares no chão e cruzou os braços em X diante do rosto. Os feixes de gelo ricocheteavam contra a sua defesa, enquanto a musculatura de suas pernas vibrava sob o peso absurdo do impacto. Por dois ou três segundos, ele sustentou o avanço do vento esmagador, com os dentes trincados e a Aura lutando para repelir a força cinética. Mas o controle da técnica ainda era imaturo. Uma oscilação na concentração. Uma fração de segundo de hesitação.
Foi o suficiente. A barreira invisível de Aura quebrou com a nitidez de um vidro estilhaçando.
A tempestade o engoliu. O tranco o arrancou do chão, arremessando-o para trás como um projétil de volta para as margens do lago. O corpo de Dante chocou-se violentamente contra o piso de cristal, quicando duas vezes com um som surdo de impacto antes de rolar até parar, as articulações protestando em queimação e dor.
A poucos metros da margem, Beatrice estreitou os olhos, o instinto forjado em combate lendo a anomalia na mesma hora. A nevasca havia mudado de comportamento. Ela parou de varrer a caverna cegamente para despejar o peso total de sua fúria num único ponto.
Lutando contra o próprio equilíbrio no chão escorregadio, Kai também dissecava as engrenagens invisíveis do campo de batalha. A mente afiada do clone conectava os pontos à sua própria falha anterior. Então é assim que essa merda funciona..., Kai deduziu. As habilidades de teleporte ficavam embaralhadas porque a tempestade magnética distorcia a fluidez do Éter solto. Mas, agora, a arena não apenas distorcia a energia; ela havia focado cem por cento de sua capacidade destrutiva direto em Dante.
Paracelso assistia ao desastre com os braços cruzados, um sorriso presunçoso e analítico cortando a palidez de seu rosto.
— Parece que eles estão finalmente começando a entender como a física deste lugar funciona — a cientista murmurou. Uma risada baixa escapou de seus lábios enquanto acompanhava o esforço de Dante para tentar se reerguer. — Infelizmente para você, Dante, esta foi a pior hora e o pior lugar do mundo para resolver treinar o seu domínio sobre a Aura. Essa tempestade é ditada pelas correntes magnéticas das Linhas Ley. Quando nós expelimos a Aura de forma bruta do corpo, criamos um campo magnético colossal ao nosso redor. Você literalmente se transformou em um ímã gigante para a tempestade. Ela foi atraída direto pra você.
No epicentro do lago, o manto de Chyon mal se movia. Intocável no olho do furacão de gelo, o Examinador ajustou os óculos no rosto. Ele observava os desafiantes sendo mastigados pela mecânica inflexível de sua arena, a mente operando em lógica fria:
Para passarem daqui, vocês terão que fazer uma escolha amarga. Ou escolhem trabalhar em equipe, absorvendo o dano e a tempestade pelos outros, sabendo que apenas um poderá passar pela porta por vez, sacrificando a própria vitória pelo parceiro... ou, então, terão que descobrir como quebrar a Lótus, vencendo sem usar uma única gota de Aura ou Éter expansivo. Este é o Teste da Lótus Branca.
Um estalo rascante quebrou o gelo.
Dante espalmou as mãos na superfície congelada e empurrou o peso morto do próprio corpo para cima. Ele se levantou. A musculatura dolorida repuxava, enquanto sua respiração escapava em nuvens densas e brancas de vapor. Dessa vez, no entanto, a escuridão ao seu redor permaneceu intacta. Nenhuma luz brilhou. Nenhuma fagulha de Aura vazou de sua pele. Ele prendeu o próprio poder nas entranhas, ancorando a base do seu peso puramente físico contra o chão de cristal.
— Ei! — a voz de Beatrice rasgou a distância, competindo com o uivo do vento. — Eu não vou pedir desculpas pelo que te disse! Mas essa reação do campo era uma possibilidade que a gente não conhecia! Caso você queira desistir dessa maluquice de usar a Aura e voltar pro seu Éter normal, eu não vou ser mesquinha!
Dante não vacilou. Não respondeu. Sequer moveu um músculo do pescoço.
Beatrice apertou ainda mais os olhos, os pelos da nuca se eriçando diante da mudança arrepiante na linguagem corporal do garoto. Dante não estava ouvindo a voz dela. Não estava ouvindo o estrondo da tempestade. Ele havia mergulhado em um estado de privação sensorial quase absoluto. As pupilas encolheram, engolidas por uma concentração profunda e letal. O tônus muscular travado, os ombros levemente curvados e a própria Aura — que agora estava violentamente reprimida e condensada sob a pele — adotaram a estática de um animal predatório. Era a postura contida e silenciosa de uma fera observando sua presa, medindo o vão e calculando o exato milésimo de segundo para lançar o bote.
O olhar de Paracelso acendeu-se de puro deslumbramento científico. Ela soltou uma risada rouca e genuína.
— E é exatamente assim que o garoto opera — a mulher de cabelos ciano murmurou, inebriada pela anomalia diante de si. — Ele sempre faz essas coisas insanas e ilógicas nos momentos mais estranhos possíveis. Vamos ver, Dante... vamos ver para onde toda essa sua vontade subitamente ardente vai te levar.
Mas o silêncio de Dante atiçou a rivalidade de Kai de forma brutal. O clone não suportava ver aquela aura de confiança esmagadora exalando do outro lado.
Kai estalou a língua no céu da boca, o ódio fervendo nas veias, a temperatura de seu corpo subindo. Ele também firmou as pernas no gelo, flexionando os joelhos e curvando-se para a frente, tracionando os músculos como uma mola tensionada ao limite.
Presta muita atenção, seu merda, Kai rosnou mentalmente, os olhos cravados nas Lótus no centro do lago. E eu vou te superar agora.
Parte 2
A mente de Kai operava em sobrecarga enquanto seus olhos mapeavam as correntes de vento que açoitavam o lago.
O ar frio é fisicamente mais denso e pesado que o ar quente, ele deduziu, a lógica pavimentando sua estratégia. Em outras palavras, aquela massa de ar congelado e carregado de Éter inevitavelmente se concentraria com muito mais violência na parte inferior da caverna. Se ele saltasse e cruzasse a arena pelo alto, raspando no teto, a resistência do vento seria infinitamente menor. A vitória seria dele.
Kai não hesitou. Ciente de que qualquer fagulha de Aura atrairia o magnetismo do campo, ele tensionou as pernas e saltou usando pura força bruta. A contração muscular o lançou em uma parábola cortante rumo à abóbada de cristal.
Mas, na metade do trajeto, a velocidade despencou como chumbo.
O que Kai não havia calculado era a armadilha termodinâmica que sustentava a arena. O atrito entre a pesada massa de ar gélido embaixo e a camada ligeiramente menos fria no alto gerava uma zona de transição turbulenta e incontrolável. Assim que seu corpo rompeu essa fronteira invisível, a ventania o engoliu.
O impacto arrancou Kai do próprio eixo, fazendo-o girar no vazio como um boneco desarticulado.
— MERDA! — o rosnado rasgou sua garganta no instante em que a corrente de ar o prensou brutalmente contra o teto.
As costas do garoto colidiram contra o labirinto de estalactites. As lâminas naturais de gelo rasgaram suas roupas e abriram sulcos na pele, arrancando-lhe um urro abafado. O redemoinho o mastigou de um lado para o outro antes de cuspi-lo em uma queda livre vertical. Kai desabou. O choque contra o piso ecoou em um baque surdo que expulsou todo o oxigênio de seus pulmões. Imediatamente, ele cravou os dedos no chão, as unhas arranhando o cristal em um guincho agudo para tentar frear o próprio corpo, mas o vento implacável o arrastava lentamente para trás.
A poucos metros dali, Beatrice fincava as botas no chão com ferocidade. O peso de sua força física extrema ancorava seu centro de gravidade contra o arrasto da tempestade.
Não vai adiantar tentar enganar a física, ela concluiu, apertando os olhos contra a névoa cortante. É claro que um Examinador desse nível pensaria em como cobrir a fraqueza natural da densidade do vento frio lá no alto. O truque não é tentar caminhar por esse inferno. O verdadeiro segredo é não se mover... e apenas acertar o alvo daqui de onde estamos.
A garota recolheu o braço direito, canalizando todo o seu Éter para o punho fechado. A tempestade gélida chicoteava seu corpo, os minúsculos e afiados cristais de gelo abrindo cortes superficiais que ardiam em seu rosto e braços. Ela não recuou. Continuou puxando a energia para si, mesmo que a força cinética da nevasca a empurrasse milimetricamente para trás.
Da retaguarda, os olhos de Paracelso brilharam com um genuíno encantamento acadêmico.
Isso aí é absurdamente raro para uma garota tão jovem..., a cientista avaliou, os lábios se curvando em um sorriso malicioso. Pensando bem, talvez o corpo dela suporte tamanha carga de compressão justamente por causa da biologia de dragão. Mesmo assim... quem diria que uma caçadora do primeiro ano de Babylon já teria criado e dominado uma técnica avançada que mescla Aprimoramento e Emissão?
A luz no punho de Beatrice estourou em um brilho ofuscante.
Ela está concentrando o Éter na frente dos nós dos dedos, moldando a técnica de Emissão, Paracelso dissecava a anatomia do golpe em tempo real, e, ao mesmo tempo, está usando o Aprimoramento físico para revestir essa massa de Éter com um poder destrutivo extremo.
No centro do lago, intocável sob o olho do furacão, Chyon captou a mudança abrupta na densidade do ar. O Examinador assistiu à formação da técnica e, por um milésimo de segundo, seu corpo o traiu com um calafrio que não tinha qualquer relação com a temperatura do ambiente. Ele ergueu a mão enluvada, ajustou a armação dos óculos com o dedo médio e engoliu em seco, sufocando o sobressalto sob a sua habitual máscara rígida de superioridade.
A caverna inteira começou a vibrar. O piso ao redor das botas de Beatrice estilhaçou sob a pressão da energia acumulada.
Com um grito feroz rasgando o peito, ela projetou o tronco para a frente e disparou o soco.
A rajada de Éter explodiu. Como uma broca colossal tecida de luz e força cinética, o ataque perfurou a ventania. A rota reta e limpa rasgou a parede gélida da tempestade, avançando letal e iminente rumo às Quatro Flores de Lótus.
O impacto ofuscou a visão de todos. O choque ecoou em um estrondo que ribombou pelas paredes subterrâneas como o estalo de um trovão.
Mas... assim que a poeira de cristal abaixou e o campo de visão clareou, Beatrice abaixou os braços, os pulmões trabalhando pesado. Os olhos da garota se arregalaram.
Kai, caído no gelo, e Paracelso, escorada na retaguarda, também travaram as expressões.
Absolutamente nada havia sido atingido.
A broca de luz não tocou em nada. As quatro flores de cristal repousavam intactas, imaculadas e perfeitamente alinhadas no centro do lago, como se o ataque de magnitude colossal sequer tivesse existido.
Beatrice piscou. A confusão drenou o sangue de sua fúria. Como ela havia errado? A rajada fora disparada no eixo perfeito! A mesma interrogação fervia e arranhava as mentes de Kai e Paracelso. O que diabos havia acabado de acontecer? A tempestade defletiu a luz no último segundo? O Examinador teleportou as flores?
Todos na caverna engasgavam na mesma dúvida silenciosa. Todos estavam perdidos e enredados na engrenagem ilusória daquele teste.
Todos... exceto Dante.
Completamente alheio à frustração de Beatrice e à queda violenta de Kai, o garoto de mechas vermelhas não havia movido um único milímetro. Apoiado no gelo negro, ele permanecia estático, respirando o ar gelado em um estado de privação sensorial quase letal e inquebrável. Sem piscar, ele mantinha a postura silenciosa e os olhos vazios de predador cravados, com absoluta exatidão, no centro do lago.
Parte 3
Dante quebrou a inércia. Sem um único ruído além do farfalhar tenso de suas roupas, o garoto de mechas vermelhas deu o primeiro passo, afundando a bota diretamente no epicentro do furacão.
Na retaguarda, os olhos ciano de Paracelso capturaram a mudança de ritmo. Ela já antecipava que a letargia daria lugar ao instinto puro, e agora dissecava cada contração muscular do garoto, ávida por ler sua próxima jogada tática.
Beatrice, ainda ofegante pela própria investida falha, franziu o cenho ao vê-lo avançar desprotegido. Então ele desistiu mesmo de usar a Aura..., a garota pensou, o gosto da decepção amargo na garganta.
O engano ruiu no milésimo de segundo seguinte. Dante não havia recuado da técnica; ele a havia redirecionado.
A tempestade magnética continuava convergindo para ele, o vento espiralando em um guincho agudo que machucava os ouvidos, mas a pressão atmosférica não esmagava mais o seu peito. Em vez disso, a massa de ar gélido e pesado descia como uma guilhotina invisível, chocava-se contra o cristal ao redor de suas botas e dissipava-se em anéis furiosos de vento.
Dante estava canalizando a emissão de Aura única e exclusivamente nas solas dos pés.
Ele operava no exato inverso do que tentara na primeira investida. Em vez de explodir o próprio poder como um escudo, ele o ocultava. Compactava a energia sob a pele, esmagando e reprimindo o fluxo ao ponto de deixá-lo indetectável no resto do corpo.
Diante daquela manipulação suicida, uma memória estalou na mente de Beatrice.
A lembrança do treinamento na noite anterior, trancados no quarto dela. Após forçá-lo a controlar o volume de energia que emanava, Dante notara a anomalia bizarra em sua própria biologia: o corpo exalava uma Aura vermelha, densa e agressiva, enquanto o braço direito fervia em uma Aura laranja, vibrante e caótica.
A voz de Dante pareceu cortar o uivo da tormenta, reproduzindo a pergunta daquela madrugada: "Ficar andando por aí com duas auras de cores diferentes chamaria atenção demais. Não tem como suprimir só uma delas?"
E a resposta da própria Beatrice completou o quebra-cabeça na arena: "Não tem como suprimir uma única Aura se as duas nascem de você... mas é perfeitamente possível suprimir o fluxo de energia em partes específicas do seu corpo."
A garota engoliu em seco, o choque travando a respiração. Esse imbecil... ele está suprimindo a Aura vital do corpo inteiro e concentrando a emissão só na base dos pés para aterrar o magnetismo da tempestade! Mas isso é loucura!
Ao lado, Paracelso soltou uma risada rouca.
— Esse garoto é completamente louco... — a cientista murmurou. Seus olhos estavam arregalados em um misto de fascínio cirúrgico e morbidez. — Será que ele está tentando achar uma forma criativa e dolorosa de se matar?
No lago, Dante acelerou para uma corrida pesada. Com a energia vital reprimida ao limite, seu físico estava desprotegido. Faltava a fina película de Aura que naturalmente blindava a pele dos Caçadores. Em segundos, os estilhaços de cristal e as lâminas de gelo girando no furacão encontraram a carne. Pedras afiadas raspavam por seus braços, rosto e ombros. O som do atrito seco misturava-se ao vento, abrindo pequenos cortes ensanguentados a cada passada cravada no chão.
— SEU IDIOTA! — Beatrice berrou a plenos pulmões, o pânico rasgando a marra punk. — Se você remover a proteção de Aura natural do seu corpo no meio dessa tempestade, você vai morrer esfolado vivo!
Paracelso encurtou a distância. A mão pálida da mulher pousou sobre o ombro de Beatrice, ancorando a garota no lugar e impedindo qualquer tentativa de intervenção.
— É ridículo tentar parar aquele garoto agora — Paracelso aconselhou. A voz soou mansa, mas afiada como um bisturi. — O Dante é fundamentalmente diferente dos demais.
— Eu já conheço muito bem o limite da força dele! — Beatrice rebateu, sacudindo o corpo para afastar a mão alheia. — E, mesmo sendo durão, ele ainda é de carne e osso! Ele é perfeitamente capaz de morrer cortado aí no meio!
— É verdade. — Paracelso não desviou as pupilas das costas que agora sangravam pelo gelo. — Ele tem limites físicos claros de força. Mas isso não importa nem um pouco neste exato momento, garota. Sabe por quê? Porque, agora... o Dante está caçando.
Perto de uma das pilastras de gelo na margem, Kai parou de arranhar o piso e recolheu os resmungos. O clone travou a respiração, estreitou os olhos e ancorou a audição em cada sílaba que saía da boca daquela cientista.
Beatrice franziu as sobrancelhas, a lógica entrando em curto-circuito com a angústia.
— O que você quer dizer com isso? Caçando o quê?
— Todo Scarlune nasce com habilidades, características ou dons que são exclusivamente seus. É a nossa genética adaptativa — Paracelso explicou, o tom assumindo a cadência reverente de quem descreve uma obra de arte brutal. — E acontece que o talento inato com o qual o Dante nasceu... faz dele o maior e mais letal Caçador Scarlune de todos.
Beatrice estalou a língua no céu da boca, numa rejeição instintiva àquela ideia.
— Isso é bobagem. Eu mesma já vi e sei muito bem que existem Scarlunes absurdamente mais fortes e com mais Éter do que ele na sua própria família.
— E é a mais pura verdade — Paracelso assentiu pacificamente. — Isso é um fato, mas apenas se estivermos falando em questão de poder destrutivo e força bruta. A questão, minha jovem dragão, é que não é necessário ser o indivíduo mais forte de todos para ser o melhor Caçador. O que é necessário... é uma coisa inteiramente diferente.
Beatrice calou-se. O ar gélido castigava o rosto enquanto ela voltava a atenção para o centro do lago.
Ela observou que Dante não parava de correr. O sangue escuro umedecia o tecido da jaqueta enquanto a tempestade moía sua pele. Ele mantinha o corpo curvado para a frente, o centro de gravidade baixo e aterrado, guiado por um transe que beirava o sobrenatural. Beatrice vasculhou os movimentos dele, forçando as retinas contra o nevoeiro. Ela tentou entender o que diabos era aquilo — qual era aquele traço absoluto, o cerne exigido para ser um caçador, que naquele momento ela e todos os outros eram incapazes de enxergar.
Parte 4
O rugido contínuo da tempestade magnética no lago subterrâneo pareceu esvair-se da mente de Paracelso. Enquanto os olhos ciano da cientista dissecavam as costas ensanguentadas de Dante rompendo a força do furacão, o barulho do vento foi engolido por uma memória densa e sufocante.
A lembrança a arrastou de volta aos corredores gélidos da mansão principal dos Scarlune.
O tapete espesso sob suas botas abafava qualquer passo, transformando o ambiente em um vácuo acústico, até que o rangido grave de uma pesada porta de carvalho quebrou o silêncio.
De lá de dentro, emergiu um jovem Dante. Ele ainda era apenas um garoto, mas as feições de seu rosto carregavam uma rigidez opaca, desprovida de qualquer pulso de vida. Ele virou as costas para a soleira e iniciou a marcha na direção oposta à porta. Ao cruzar com Paracelso, no entanto, a quietude do corredor foi rasgada por um som ríspido.
Um estalo seco da língua contra o céu da boca.
Para uma criança rigorosamente treinada para sepultar emoções, aquele mínimo ruído era um escândalo. A frustração pura e ácida vazara por uma fração de segundo. Ele havia perdido o controle.
Paracelso sabia exatamente quem era a única pessoa capaz de empurrar o garoto àquela beira. A única capaz de asfixiá-lo a ponto de trincar sua máscara de apatia. Ela aguardou até que a silhueta de Dante sumisse nas sombras do corredor e, com passos mudos, adentrou a sala que ele acabara de deixar.
A atmosfera interna a atingiu de imediato. O ar cheirava a antisséptico e produtos químicos caros, mas o odor clínico era sufocado por uma névoa de perfume doce, inebriante e perigosamente viciante. No centro do laboratório, vestindo um jaleco branco impecável sobre tecidos escuros, repousava a mulher de cabelos longos e negros como a noite.
Rani.
A mulher exibia um sorriso radiante, quase etéreo, moldado na palidez de seu rosto.
— Pelo visto, algo de muito bom aconteceu hoje. Está com um sorriso de orelha a orelha — Paracelso comentou, ancorando o ombro no batente da porta.
Rani virou o rosto. As íris vermelhas brilharam com uma doçura irreal.
— Você não entenderia, Paracelso, porque ainda não se tornou mãe. — A voz flutuou, macia como seda fina. — Um dia você saberá como uma simples visita do seu filho pode mudar o clima de um dia inteiro e encher o seu coração.
O estômago de Paracelso revirou em um calafrio físico.
Aquelas palavras maternais, amorosas e puras colidiam frontalmente com a essência podre da mulher à sua frente. Era tão grotesco quanto ouvir um assassino de aluguel discursando em lágrimas sobre a santidade da vida, ou um padre no altar narrando como a noite no bordel havia sido revigorante. Não que Paracelso discordasse do conceito de afeto materno; mas a textura daquelas sílabas saindo da boca de Rani gerava uma repulsa visceral.
A cientista soltou um suspiro exausto e cruzou os braços.
— Sei. Mas, se você acredita mesmo nisso de verdade... por que não conta logo a ele que você é a mãe dele?
Rani manteve o silêncio sorridente, forçando Paracelso a continuar a pressão:
— Qual é, Rani. Não é como se existisse uma lei na família proibindo que revelemos às crianças quem são seus verdadeiros pais. Nós apenas não temos o costume cultural de criá-los debaixo de nossas asas. Mas a Elixia, por exemplo, também teve uma filha nessa geração... a Nero. E parece que a Elixia até já revelou a verdade e levou a garota para a própria mansão para ser criada lá, ainda que pelas empregadas. Por que você não faz o mesmo?
Rani ergueu a mão, os dedos pálidos embrenhando-se nos próprios fios. O movimento coçou o couro cabeludo e desgrenhou os cabelos pretos, triturando a aura de cientista impecável e impondo no lugar uma sexualidade crua, letal e perturbadora.
— Esquece. Eu não posso fazer isso.
— Por que não?
— Porque assim... eu iria atrapalhar o crescimento dele — ela murmurou, o timbre despencando para um sussurro aveludado.
O raciocínio escapava à lógica de Paracelso. A mulher de cabelos ciano franziu o cenho, aguardando o desenvolvimento daquela tese maluca.
— Não é óbvio? — Rani ampliou o sorriso, a visão fixada no vazio do corredor por onde Dante escapara. — Toda vez que vejo aquele garoto, tenho mais e mais vontade de ficar observando cada detalhe dele. Mas, se a gente cruzasse mesmo essa linha... se eu contasse a verdade e ouvisse a voz dele me chamando de "mãe"... eu não sei se aguentaria.
A respiração de Rani ganhou peso, um compasso levemente faminto.
— Eu provavelmente não resistiria. Eu o colocaria em uma jaula de vidro blindado, de onde ele nunca, jamais, poderia sair. Onde ele passaria todas as noites e todos os dias exposto, apenas lá, para ser observado unicamente por mim. Onde absolutamente ninguém mais no mundo poderia vê-lo, ninguém mais poderia falar com ele... e onde ninguém jamais poderia machucá-lo.
Rani tombou a cabeça para o lado. A expressão que assumiu era de uma inocência genuína e infantil.
— Será que é isso que os livros de psicologia humana chamam de ser uma "mãe superprotetora"?
Quando o eco da confissão morreu no laboratório, a suspeita na mente de Paracelso solidificou-se em uma certeza aterrorizante. O que quer que aquela mulher sentisse por Dante não orbitava, nem em um milhão de anos, a galáxia do amor materno. Era predação. Uma obsessão clínica e doentia.
Paracelso forçou um bocejo para dissipar o frio que lhe escalava a espinha e trocou o peso nas pernas.
— Afinal de contas, o que você tem na cabeça, Rani? Por que esse interesse todo tão específico nele? Você nunca foi do tipo que ligava para absolutamente nada ou ninguém. Sua única ambição sempre foi dissecar todo e qualquer ser vivo deste mundo apenas para entender como as engrenagens biológicas funcionavam. Você mesma me disse uma vez que só decidiu ficar com o Ryu por puro capricho, só por causa da biologia única que ele tem com os traços de Seraphim.
O sorriso etéreo retornou aos lábios de Rani.
— E é a mais pura verdade. Eu nunca acreditei que um dia teria, de fato, um interesse real em alguém. Porque eu já havia descoberto tudo o que havia para descobrir sobre as pessoas e seus comportamentos padronizados. Amor, amizade, fraternidade, ódio, inveja... os motivos pelos quais as pessoas decidem ter sonhos, por que elas temem a inevitabilidade da morte, por que buscam desesperadamente a felicidade e por que fogem feito covardes da tristeza. Tudo isso já foi descoberto, catalogado e documentado muito antes de mim. Não havia mais nada de misterioso ou inédito nesse campo para ser explorado. É por isso que as relações humanas nunca, de fato, me interessaram.
Paracelso apertou os olhos, tragada pela confusão.
— Tá... então, o que aquele garoto tem que o torna tão diferente de todo o resto da humanidade?
Foi então que Rani cravou o olhar nela.
As íris vermelhas da mulher se dilataram. O escarlate brilhou tão puro e líquido que parecia sangue fresco iluminado no escuro por uma lanterna. O sorriso rasgou o rosto de Rani, abrindo-se largo e absurdamente branco, como se devorasse as próprias sombras daquele laboratório.
As palavras que sangraram da boca de Rani naquele dia depositaram um chumbo tão ríspido, um incômodo tão estranho e perturbador no estômago de Paracelso, que mesmo depois de horas, dias, semanas e anos... ela jamais conseguiu esquecê-las. Elas cicatrizaram a ferro quente na base do cérebro da cientista, um cântico macabro que nunca parou de ecoar.
— É porque aquele garoto... — A voz de Rani transbordou em uma adoração inumana e doentia. — É completamente maluco.
Parte 5
Dante prosseguia a marcha contra a nevasca. A cada avanço de suas botas pelo piso de cristal, as engrenagens de seu cérebro operavam com uma frieza matemática, calculando a letalidade bruta do ambiente.
Isso é mau, ele constatou, inclinando o pescoço milimetricamente para deixar uma navalha de gelo raspar o osso da bochecha. Isso é muito mau. Se um desses fragmentos maiores me acertar em cheio, o crânio racha, o cérebro vira mingau e eu morro na hora.
Visões viscerais do estrago passavam por sua cabeça em loop. O corte que as lâminas da tempestade abriram nas escamas de Beatrice ainda estava fresco em sua memória. Se aquele vento triturava um dragão, o seu corpo físico desprotegido, completamente desprovido da película defensiva da Aura, era como papel molhado; qualquer arranhão mais fundo carregava probabilidade letal.
Apesar de saber disso. Apesar de o cálculo de óbito piscar em vermelho na sua retina mental. O garoto não parou.
Ele varava o núcleo da tormenta, o corpo gingando e escorregando pelos vãos mortais dos fragmentos maiores sem a menor hesitação. Mas o detalhe mais perturbador daquela cena estava muito longe da precisão de sua esquiva. O horror residia em sua feição. Contrariando toda a lógica de autopreservação e as próprias visões de morte que ecoavam em seu cérebro, os olhos rubros de Dante estavam dilatados, vidrados no objetivo final com a fome de um felino que acabara de travar a mira no pescoço da presa.
E, enquanto o próprio sangue escorria morno pelos cortes superficiais no rosto, o garoto continuava avançando, sustentando um sorriso demoníaco, largo e absolutamente extasiado.
Da margem, Beatrice tensionava os punhos, forçando a visão para decifrar a anomalia.
— Ele chegou mais longe do que eu e o Kai. Por quê? — ela murmurou, a voz estrangulada de tensão.
Paracelso, ao lado, mantinha os olhos magnetizados na arena.
— Porque aquele garoto achou a sua própria forma de caçar a lótus de gelo — a cientista murmurou de volta, as palavras arrastadas por um fascínio tétrico.
— Você já disse isso antes! — Beatrice rosnou, atirando a frustração contra o vento. — Mas isso ainda não faz o menor sentido! O que você quer dizer quando fala que ele está "caçando"? O que é essa característica tão exclusiva que torna o Dante um Caçador tão especial assim?!
— É o instinto.
— Do que você tá falando?! Todo e qualquer Caçador vivo tem instinto de caça! Isso é o instinto básico de sobrevivência que a gente desenvolve quando começa a arriscar a porra da vida em missões!
— Eu concordo. Todos os seres vivos nascem com seus próprios instintos. E, quanto mais são forjados na beirada da morte, mais afiados ficam. — Paracelso ajustou a postura, o tom caindo na cadência acadêmica de quem palestra para uma sala vazia. — Mas existe uma fenda entre eles. Os seres humanos e os animais respondem aos instintos de formas totalmente diferentes.
A cientista estendeu a mão gélida, desenhando um diagrama invisível no ar.
— Numa caçada, um leão e um humano abateriam uma gazela de maneiras distintas. Se, por acaso, a presa fugir por um terreno instável e mortal, o ser humano, por mais que queira caçar e esteja morrendo de inanição, vai parar por um segundo. Ele vai usar a lógica, a razão, para avaliar suas reais chances de não morrer no trajeto.
Beatrice assentiu, engolindo em seco.
— Eu sei muito bem disso. É o princípio básico da autopreservação.
— Exato. Mas o leão não tem essa capacidade analítica. Ele se guia puramente pelo instinto cego, sentindo de forma selvagem e irracional se irá ou não conseguir varar o terreno. — Paracelso sorriu. — O "Instinto de Caçador" que nós despertamos serve justamente para preencher essa lacuna. Ele pavimenta a ponte entre a razão e a barbárie. Faz o Caçador entender e sentir o nível de perigo que a lógica pura não alcança. É por isso que um Caçador usuário de Éter atua como um ser híbrido: predatório como um leão, e inteligente como um humano comum.
— Tá, mas e daí?
— Imagine o seguinte cenário, Bea — Paracelso propôs, as íris transbordando ironia macabra. — Você está correndo atrás de um pudim maravilhoso que foi roubado de você. E descobre que o seu pudim está bem ali, do outro lado de uma ponte suspensa apodrecida. Logicamente, ao observar as cordas puídas e a madeira lascada, a sua razão berra que atravessar é suicídio. A estrutura está cedendo, e o abismo embaixo é sem volta. Mas... os seus instintos de fera gritam que ainda dá para atravessar se você for estupidamente rápida. O que você faria?
A garota cruzou os braços, bufando.
— Depende do quanto eu quisesse esse pudim. Afinal, é só uma sobremesa. Se fosse algo que eu quisesse ou precisasse para sobreviver, eu me arriscaria na ponte. Se não fosse importante, a morte iminente não valeria a pena. Fim de papo.
— Você está corretíssima. Isso é o que a doutrina chama de "Loucura de Caçador" — Paracelso confirmou, os dedos longos tamborilando contra o próprio antebraço cruzado. — Nós manipulamos uma energia caótica e letal chamada Éter. Enfrentamos aberrações mitológicas para alcançar os nossos objetivos. Mas essa mesma lógica... também é a nossa maior restrição de fábrica.
Beatrice permaneceu em silêncio, o coração batendo no pescoço. Havia uma armadilha retórica ali.
— Por estarmos dispostos a alcançar esse grande objetivo, esse sonho grandioso... nós paradoxalmente nos tornamos seres mais cautelosos. O Caçador sempre coloca na balança o valor do risco. — Paracelso imitou o balanço da justiça com as mãos vazias. — "Se for para derrotar o inimigo que destruiu minha vida, eu não ligo de morrer." "Se for para virar o Caçador mais forte de Babylon, eu me sacrifico." "Se for para salvar a minha família, o meu corpo não importa." O instinto natural de todo Caçador já vem acorrentado por essa falha. Uma trava de segurança autoimposta.
— E isso é o normal! — Beatrice defendeu, a voz tremendo de exaltação. — Mesmo que a gente seja chamado de louco suicida, ninguém é capaz de ser tão insano a ponto de colocar tanta vontade e arriscar a vida se não tiver uma motivação absurdamente grande! Ninguém faria uma maluquice letal por um motivo idiota!
— Sim. Tem alguém que faria.
Paracelso virou o rosto para a arena. Os olhos ciano travaram na silhueta de Dante, que continuava sorrindo como um psicopata absoluto enquanto um cristal afiado roçava sua jugular, pintando seu maxilar com mais uma fita de sangue.
— Essa... é a loucura absoluta dele.
No abismo do laboratório mental de Paracelso, suas próprias deduções no presente fundiram-se em perfeita harmonia com o diagnóstico macabro que Rani havia feito no passado. As duas vozes falaram em uníssono.
Um caçador é como um carro de corrida. Quanto mais ambição temos, mais fundo afundamos o pé no acelerador. Quanto mais destemido for o piloto, mais ele ignorará o superaquecimento do motor.
Mas... nenhum caçador normal pisa fundo a todo instante. Ele só vai explodir o próprio motor quando vir que a morte vale a pena: muito perto da linha de chegada, para destroçar um rival de vida, ou para salvar aquilo que mais ama.
Paracelso engoliu o vento gelado, observando a aura opressiva e letal que vazava de Dante, sustentada por seu escandaloso vácuo de Éter.
Mas o Dante não. Ele é um maquinário alienígena. Ele não se importa em passar a vida rastejando, dominado por uma preguiça letárgica... apenas para, do mais absoluto nada, afundar o pé no acelerador até o motor derreter pelos motivos mais patéticos, infantis e estupidamente vazios.
Para Dante, a balança não existia. Ele não fazia distinção moral, emocional ou racional entre vencer um Examinador letal na Lótus Branca e ganhar uma aposta banal em um fliperama.
A epifania eletrizou os neurônios da cientista.
O motivo de ele sempre parecer apático, sem sonhos e puramente reativo... é porque, se não andasse engatado em ponto morto o tempo todo, o cérebro dele iria entrar em combustão. O Dante não possui um limitador. Ele não tem "meia motivação". Ou ele não faz a porra da tarefa... ou ele engata a marcha e está visceralmente disposto a morrer para fazê-la, mesmo que o objetivo seja apenas não perder uma aposta de toalha para uma mulher numa terma.
É por isso que o instinto dele quebra a escala. Os instintos de Dante, percebeu Paracelso, eram puros. Sem rédeas de grandiosidade. Sem a métrica do que era ou não digno de um sacrifício de sangue. Ele arrastava as unhas no abismo entre a vida e a morte constantemente, pelo mais raso dos propósitos. E toda vez que passava ileso por essa roleta russa... o seu instinto afiava, tornando-o algo assustadoramente preciso.
— Isso é impossível — Beatrice balançou a cabeça em um movimento ríspido. — Ninguém no mundo faria algo assim! O Dante quer ganhar isso porque arrumou confusão com aquela tal Cyfera. Mas ele não se mataria por causa da marra de uma garota! Ele só tá correndo sem ativar o Éter porque os reflexos dele calculam que ele vai sair inteiro!
— E como o instinto lógico dele calcularia isso? — Paracelso rebateu, as íris brilhando como uma adaga.
— Pelas habilidades de reflexo e reação monstruosas que a gente sabe que ele tem! A intuição sabe que a esquiva dele dá conta dessas pétalas!
— Você está estupidamente enganada, dragão. — A voz de Paracelso caiu, transformando-se num chiado denso de admiração gélida. A mão pálida ergueu-se, o dedo reto apontando direto para o coração da arena. — Preste atenção no que a tempestade está fazendo no corpo dele. Pise no seu orgulho e veja a realidade.
Beatrice ativou as fendas verticais em suas pupilas. Os olhos de dragão focaram com precisão absurda, lendo a matemática oculta nos fluxos cinéticos e no Éter que rasgavam o corpo do garoto.
Quando a mecânica do campo ficou clara, a espinha de Beatrice travou. O ar sumiu de seus pulmões.
No lago, a letargia de Chyon havia evaporado. O rosto do Examinador, sempre esculpido na arrogância, estava branco. Escorado contra a pilastra nas sombras, Kai decodificava o mesmo fenômeno. A bile queimou a garganta do clone, e ele fechou o punho com tanta violência que a cartilagem de sua mão rangeu. A unha furou a palma da mão, o sangue quente pingando no gelo, destilando uma fúria calcificada em frustração.
E, enquanto todos, do clone ao mestre, estagnavam em horror diante do impossível, Dante não recuava um único milímetro. Ele avançava, um passo depois do outro, costurando a mortalha da nevasca com aquele sorriso demoníaco selado no rosto ferido.
Parte 6
No centro do lago, a face sempre inabalável de Chyon começava a fraturar. O Examinador observava a aproximação lenta e ensanguentada do garoto, os dedos de suas mãos tremendo um milímetro sob a costura das luvas de frio.
Qual é, Ryu... o seu filho por acaso é algum tipo de monstro?, Chyon pensou, o pânico acadêmico pinicando a nuca ao constatar a anomalia bizarra e perturbadora que canibalizava a sua arena. Esse teste nem foi feito para ser vencido assim! Era um teste de sacrifício lógico em equipe ou de quebra de enigma, não de sobrevivência suicida!
Encolhido nas margens, Kai arregalou os olhos. A frustração ferveu no estômago do clone até transbordar pelos poros quando sua mente analítica, finalmente, decodificou a mecânica daquele avanço insano.
Aquele merda... ele tá usando exatamente a mesma lógica que eu usei!, Kai trincou os dentes. A raiva mastigava um respeito amargo que ele jamais admitiria em voz alta. Mas ele colocou dezenas de outros fatores na balança!
Quando Kai saltou para o teto, sua mente presumiu de forma binária que suprimir a Aura bastaria para fatiar o vento pelo alto. No entanto, o clone foi cego para a termodinâmica; ele não calculou o ar gélido e pesado que despencava da abóbada, e muito menos o magnetismo horizontal atraído pelo resíduo de Éter no seu próprio corpo. Foram essas duas vertentes ocultas que assassinaram a força cinética de seu salto, transformando-o num alvo inerte assim que alcançou a fronteira da ventania.
Mas aquele desgraçado do Dante não estava fugindo do vento. Ele estava convertendo o próprio caos da tempestade a seu favor.
Ao amputar a Aura defensiva de todo o corpo, Dante não ficou apenas nu perante o gelo; ele despencou o atrito e a força magnética horizontal que tentava esmagá-lo para trás. Em contrapartida, ao comprimir a energia de forma brutal nas solas das botas, ele forjou um ímã nos próprios pés. Ele fisgava o peso da tempestade verticalmente, esmagando a densidade do ar contra o piso de cristal. Esse pilar descendente de vento gélido funcionava como um escudo oblíquo e denso, fraturando as lâminas de ar horizontais que tentavam jogá-lo longe. Com o impacto cruzado amortecido, os destroços letais que fariam seu crânio em pedaços perdiam aceleração o suficiente para que seus reflexos alienígenas conseguissem desviar.
— Viu só? — Beatrice apontou na direção do lago, os olhos de dragão dilatados pela epifania. — Isso é a prova de que ele não tá se arriscando às cegas! Ele montou esse cálculo bizarro inteiro na cabeça só porque sabia que ia dar certo! Ele sabia que conseguiria passar!
Paracelso balançou a cabeça de forma milimétrica, as íris ciano ancoradas no sangue que manchava a bochecha do garoto.
— Garota... isso tudo só funciona em uma folha de papel — a cientista murmurou, o ar escapando frouxo. — A física faz sentido na teoria. Mas eu te pergunto: como ele saberia os números exatos dessa equação na prática?
Beatrice franziu as sobrancelhas, a lógica emperrando.
— É muito simples — Paracelso continuou, o tom rastejando pela caverna com uma morbidez fascinada. — Para fazer essa matemática atuar na vida real, não basta apenas "colocar Aura na sola do pé".
Fwhip!
Uma navalha de cristal driblou o escudo oblíquo e rasgou o tecido espesso da jaqueta de Dante, cavando um corte profundo no seu ombro esquerdo. Ele piscou para afastar o estalo de dor, as gotas rubras de sangue sibilando ao atingir o gelo. Mas o passo não quebrou o ritmo. Os olhos seguiam injetados na direção das Lótus.
A partir dessa área, a resistência do vento subiu; Dante sentiu o peso despencar nos próprios tendões, a respiração saindo em fumaça branca. É óbvio. Quanto mais perto do núcleo onde as Lótus estão, mais denso fica o Éter solto no ar...
— Para fazer isso funcionar e ele não virar carne moída — Paracelso dissecava da margem —, ele precisa modular o volume exato de Aura a cada passo que dá no gelo. Se ele colocar miligramas a menos, a blindagem quebra, as lâminas rasgam a garganta dele e furam o seu crânio. Mas, se ele colocar força demais, o ar que despenca de cima o esmaga, o paralisa e amassa os seus ossos no chão. Responda, Bea... como se faz esse cálculo em tempo real no olho de um furacão? E como alguém que ainda engatinha no controle da Aura executa um ajuste microscópico tão perfeito?
A verdade cruzou a distância e atingiu Beatrice como uma joelhada no estômago. A garota punk arregalou os olhos e mastigou o próprio lábio, sentindo o gosto metálico de sangue invadir a boca.
— Instinto. Puta merda...
Dante não estava calculando nada de forma racional. Ele operava puramente pelo instinto limpo e cruel de sobrevivência. A queimação do vento moendo seus ombros de cima para baixo; a força horizontal que rasgava os nós de seus dedos tentando arrancá-lo do chão; o ardor quente dos cortes perfurando sua bochecha. Como aquelas variáveis cinéticas reagiam sempre que ele injetava ou recuava alguns miligramas de Aura contra a pedra de gelo... tudo isso era processado e executado através de sua própria dor. Ele era um termômetro lendo as rajadas de ar na própria carne sangrenta.
Mas quem diabos no mundo tem cérebro doente o suficiente para ancorar a própria vida numa matemática tirada do nada, baseada apenas no fedor de morte e sangue do próprio corpo?!, Paracelso perguntava mentalmente, o peito sacudindo em um riso inaudível. Se ele escorregar na sensação térmica por um único passo que seja, sem a blindagem da Aura... ele morre fatiado.
Acuado no seu posto intocável no centro do lago, Chyon mordia o interior da bochecha.
Mas que inferno de garoto! Por que alguém tá apostando o próprio pescoço em uma tática desse tipo?! Seria mais são e seguro bolar uma ideia mirabolante pra implodir a caverna inteira! O Examinador socou o ajuste dos óculos no osso do nariz, as narinas dilatadas de indignação. Ele está se mutilando desse jeito só porque quer esmagar a porra da minha física usando apenas a Aura? E ele tá fazendo isso por um motivo tão sujo e vulgar quanto o orgulho ferido por uma garotinha?!
Chyon chicoteou o olhar na direção de Beatrice, na penumbra da retaguarda. Merda, Skadi! Se você jogou essa equipe na minha jaula achando que a minha opressão ia ensinar o que é "trabalho em equipe" para esse desgraçado, o seu tiro saiu pela culatra! O resultado foi rigorosamente o oposto!
O Examinador puxou o oxigênio gélido para o peito, contendo a bile e o suor frio.
Tudo bem. Mantenha a compostura. O teste não está quebrado. Chyon buscou o próprio centro, racionalizando. Mesmo que o instinto desse monstro tenha engolido o trajeto na força bruta, se ele não dissecar o enigma e não conseguir explodir o alvo... tudo isso terá sido em vão.
Ao longe, o foco reptiliano de Beatrice estava cravado no centro do redemoinho. Dante havia chegado aos metros finais de distância das lótus.
O meu golpe perfurante, que unia Emissão máxima e Aprimoramento, sequer arranhou aquelas flores, Beatrice rebobinava o próprio fracasso, o pulso ribombando na orelha. Eu não consegui ler a mecânica escondida de defesa daquele cristal. Então engole essa merda, Dante. Mostre pra gente como um Caçador de verdade quebra a porra desse truque.
Dante fincou as solas no chão, freando a caminhada. Ele estava lá. O alvo final à sua frente: a escultura impecável das Lótus Brancas.
Com as pupilas letais e predatórias focadas naquelas pétalas congeladas que dominaram sua visão durante a tortura da caminhada, ele não desperdiçou meio segundo. Ignorando a dor aguda nos nervos, o esgotamento pulmonar e as feridas abertas desenhadas em seu corpo, o garoto despencou o centro de gravidade. Ele baixou o quadril até quase engolir o chão de gelo, os braços destravados, assumindo a estática tensionada de um quadrúpede acuado.
Em um surto letal, ele despejou uma carga estúpida e repentina de Aura sob as botas. O choque foi imediato: a massa de vento vertical desabou com o triplo da gravidade. Lâminas invisíveis e estilhaços rasteiros levantados da tempestade varreram suas pernas, furando e moendo a lateral de seus pés através da lona das botas.
Mas os milésimos de segundo de dor lancinante pagaram o preço exigido para fundir sua inércia no piso mais escorregadio do mundo.
Com um estouro maciço na musculatura das coxas, Dante quebrou a trava da Aura no pé. A descompressão o ejetou para a frente como o projétil de um canhão de caça. No vazio, o garoto rodou o quadril e explodiu a perna direita em um chute circular avassalador, a mira guiada contra a Lótus mais proeminente.
O choque visual não teve defeitos. A tíbia de Dante rasgou a coordenada exata de espaço onde a flor cintilava.
O estrondo de gelo quebrando não veio. Não houve som. Não houve repulsão cinética.
A perna do garoto dilacerou o cristal, varando o volume como se a lótus inteira fosse tecida por neblina e luz. Era uma miragem física. Uma projeção sólida parida pelo Éter magnético.
Apoiado na estalactite na margem da arena, Kai rasgou um sorriso carregado de escárnio, os lábios se abrindo para cuspir sobre a miséria e a futilidade do ataque fantasma.
Mas o ar morreu na garganta de Kai antes que a zombaria fizesse barulho.
A falta de atrito não engoliu os reflexos de Dante. Ao rasgar o vazio da flor e perder a sustentação, o garoto já iniciava a sua queda de encontro ao bloco maciço de gelo do chão. Antes da gravidade estourar os dentes dele na pedra, Dante soltou as duas palmas contra o piso polido, cravando os braços travados como pilares mestres contra o impacto.
Foi então que o coice inevitável da tempestade veio para arremessá-lo, o impacto do furacão estourando de baixo para cima contra a inércia do seu avanço.
Dante não resistiu ao arrasto. Ele usou a força magnética e de repulsão. O garoto cedeu a base, relaxou a tensão no tronco e alavancou o choque brutal do vento nas pernas livres, deixando a correnteza ejetar o seu corpo inteiro pelo ar num movimento acrobático reverso, pivotando-o no próprio pulso preso ao chão. Ele descreveu um arco tenso no ar, a velocidade da rotação imitando o sacudir violento de uma bandeira engolida num vendaval.
Subjugando a correnteza bruta que tentava estraçalhá-lo, Dante canalizou a repulsão em força centrífuga bruta. Ao fechar o arco mortal de 180 graus na gravidade zero, usando todo o embalo parido pela própria tempestade do oponente, o seu calcanhar esquerdo retornou para preencher o vazio e desceu em formato de machado, varrendo a mesma coordenada da área projetada.
Quebra logo essa merda, o pensamento ressoou oco na mente, guiado por puro ódio pragmático.
Quando o osso do calcanhar fatiou mais uma vez o volume etéreo do holograma... a bota não raspou no nada. Ele achou a quina da matéria. Ele afundou contra o núcleo orgânico e letal oculto por milímetros sob as costuras da ilusão de ótica.
CRAAAACK!
O baque seco se converteu em uma explosão de som, milhares de escamas de cristal espirrando num estalo agudo que calou e ensurdeceu o urro metálico da caverna.
Na mesma fração de segundo em que o núcleo esfarelou, a tempestade morreu. Como um maquinário colossal tendo a própria engrenagem desligada à força, o guincho do furacão engasgou no escuro. A cortina magnética estourou. O vento parou e as toneladas de lâminas que bailavam na nevasca perderam a física, caindo na escuridão como vidro moído tinindo contra o chão de gelo.
Quando o ar parou de raspar as retinas, e os aterrorizados Chyon, Paracelso, Beatrice e Kai escancararam os olhos no vácuo de silêncio denso e fúnebre... Dante estava em pé, o ar estalando em uma respiração exausta. A ponta suja e surrada de sua bota ainda esmagava os escombros reduzidos a pó da Lótus central. A lâmina fresca de seu maxilar gotejava sangue vivo, que pingava em gotas compassadas de escarlate sobre a superfície limpa e perfeitamente polida do cristal em que pisava.
Parte 7
O som do cristal estilhaçado ainda tilintava pelas paredes do lago subterrâneo, caindo como uma chuva de vidro no gelo polido. Dante deixou os ombros despencarem, soltando o peso bruto da tensão. O sangue fresco escorria quente pelos rasgos da jaqueta, mas ele simplesmente ignorou o ardor. Ergueu os dois braços para a abóbada escura, abrindo um sorriso largo e insuportavelmente convencido.
— De primeira! — a voz dele ecoou, arrogante e límpida, pela acústica da caverna.
— MENTIROSO! — Kai e Beatrice berraram em uníssono. As veias saltavam nas testas de ambos diante daquela cara de pau absoluta.
Paracelso atirou a cabeça para trás, a gargalhada rouca arranhando o ar gélido. No centro do lago, as botas de Chyon derraparam de leve. O Examinador caminhou trêmulo pelo piso de cristal. O peito subia e descia em uma respiração pesada, os olhos arregalados por trás das lentes dos óculos, a mente acadêmica recusando-se a processar a violação brutal de sua armadilha.
Dante baixou os braços e virou-se para o homem. A postura frouxa era a de quem encerrava um passeio no parque — e não de quem estava a um milésimo de segundo de morrer esfolado.
— Beleza, então eu já posso ir pro trem, certo?
— S-sim... — Chyon gaguejou. A compostura retornava aos trancos, costurada pelo choque. — Você já pode seguir. Mas, antes de ir, eu exijo saber. Como você fez isso?
Dante tombou a cabeça para o lado, genuinamente confuso.
— Como você descobriu a mecânica da intangibilidade da lótus? — O Examinador avançou um passo, apontando para o pó de cristal pisoteado sob as botas do garoto. — E como encontrou o núcleo invisível com tanta precisão no meio de um giro cego?
— Ah, isso? Tava óbvio. — Dante deu de ombros e apontou o polegar por cima da jaqueta, na direção da retaguarda. — Quando eu vi a Bea atacando com toda aquela força e absolutamente nada acontecendo com as flores, a ficha caiu. Era fisicamente impossível uma flor de gelo aguentar um soco daqueles. Eu já senti a porrada daquela garota na própria pele, sabia? Acredite em mim, não tem gelo no mundo que saia inteiro daquilo.
Na margem, Beatrice piscou, a expressão travada entre xingar o garoto pela lembrança do embate e o orgulho inflamado pelo elogio bizarro.
— Então... — Dante retomou, o tom letárgico e didático. — Eu deduzi que só poderia ser uma ilusão de ótica. Um truque de intangibilidade. E, se a Lótus que a gente via era falsa, o nosso alvo real não era aquilo. A verdadeira Lótus, ou pelo menos a âncora sólida dela, tinha que estar escondida ali por perto.
— Tá, eu entendo a dedução lógica — Chyon franziu o cenho, a couraça de orgulho acadêmico arranhada. — Mas só chegar a essa conclusão teórica não te daria as coordenadas do núcleo oculto no meio daquele furacão magnético.
— Claro que daria. — Dante sorriu. Ele apontou para os retalhos rasgados e úmidos nas laterais das próprias botas. — Quando eu baixei o centro de gravidade pra saltar, deixei de propósito os estilhaços do seu gelo furarem o meu pé até sangrar.
O oxigênio pareceu sumir da caverna. As engrenagens cerebrais de todos os presentes travaram no mesmo segundo.
— Quando eu disparei o primeiro chute no vazio e usei a repulsão pra girar o corpo de volta para o segundo golpe... o sangue do meu pé espirrou com a força centrífuga — Dante explicou. A frieza tática congelou o sorriso e afiou o brilho de suas íris. — Eu sabia que, se existisse uma âncora sólida escondida na ilusão, o meu sangue bateria nela. Daria para ouvir o baque úmido do líquido contra o vidro e sentir o cheiro de ferro espalhado no ar, em vez de confiar numa visão que já tava sendo enganada pela arena.
Chyon travou o maxilar. O Examinador encarou o garoto, o estômago revirando de horror diante da engenharia psicopata por trás daquele raciocínio.
— Quem é o lunático que pensa em mutilar o próprio corpo pra fazer um cálculo matemático desses?! — o homem estourou, o verniz de superioridade virando pó.
— Funcionou, não funcionou? — Dante rebateu, arqueando a sobrancelha. — Falando nisso, foi uma ilusão muito boa. A forma como você col-
Plaft.
O estalo ecoou seco. Antes que o garoto terminasse o elogio técnico, Chyon esticou o braço e espalmou a luva com força sobre a boca de Dante.
— Beleza, acabou! Terminou! — O Examinador vociferou, a veia do estresse pulsando violentamente na têmpora. Ele esticou o dedo trêmulo para a imensa porta de cristal na extremidade da arena. — Agora você pode seguir! Vai embora e deixa eu continuar o meu exame com as pessoas que fazem o mínimo de sentido!
Dante balançou a cabeça para se desvencilhar da luva, estalando a língua no céu da boca. Ajeitou a gola da jaqueta destruída, socou as mãos nos bolsos e retomou a marcha arrastada em direção à saída. Um assobio leve e despreocupado começou a escapar de seus lábios, uma melodia rústica que quebrava a tensão esmagadora do lago. Antes de cruzar o batente, ele parou e olhou por cima do ombro.
— Tô indo nessa! Vê se não me deixam esperando por muito tempo lá no vagão, beleza?
Com um aceno letárgico no ar, a silhueta de Dante foi engolida pelas sombras do corredor.
Na margem da arena, o fio de paciência que restava arrebentou.
— QUEM AQUELE IDIOTA PENSA QUE EU SOU?! — Kai e Beatrice explodiram juntos. A fúria e o orgulho esmagado serviram como combustível de combustão instantânea, incendiando a Aura dos dois com o dobro da letalidade de antes.
Alheia ao surto juvenil, Paracelso ria. A cientista cravou o olhar na porta vazia, a íris ciano faiscando com um afeto perturbador. Esse pirralho... ele mudou muito, ela ponderou, ajeitando as dobras do casaco comprido, mas, no fundo, continua operando como o exato mesmo lunático em vários sentidos.
O suspiro escapou ruidoso enquanto ela virava o rosto para os outros dois prodígios que ferviam em ódio assassino.
Bom, agora que a atração principal acabou e eu já vi o que queria, acho que tá na hora de dar uma ajudinha pra esses outros dois passarem logo por isso.
Kai flexionou os joelhos, ancorando o centro de gravidade. Os olhos cravados no vazio do lago ditavam as novas engrenagens matemáticas mapeando as variáveis espaciais. Beatrice esmagou os punhos, tracionando os músculos numa base agressiva de combate, as pupilas em fenda queimando. Até parece que eu vou ficar pra trás na sombra daquele idiota!
No meio da arena, prensado pela pressão predatória que exalava da margem, Chyon sugou o ar gélido e apertou a raiz do nariz com as pontas dos dedos.
Eu não quero nem saber, o Examinador lamentou na própria mente, a exaustão drenando seus ombros. Depois dessa merda, eu nunca mais examino ninguém nessa vida. Eu envelheci uns quinze anos só de assistir àquele desgraçado andar até aqui.
Longe daquele abismo de gelo, a corrente de ar cortante dos túneis começou a ceder. O oxigênio mudou de textura, engrossando com o cheiro rústico de metal quente, carvão queimado e o zumbido elétrico de ozônio.
Dante emergiu da rampa sombria, pisando na plataforma secreta da estação de Invel. A neve caía fina, derretendo em poças d'água contra o asfalto da rua de arquitetura Cyber-Wuxia. Ele piscou repetidas vezes, as pupilas contraindo para absorver as luzes de neon saturado que rasgavam a penumbra, varrendo os trilhos com o olhar.
Lá estava ela. A colossal besta de ferro negro e prateado. O Trem Escarlate roncava como um dragão enjaulado na plataforma, o calor das fornalhas aquecendo as juntas metálicas e as engrenagens para a partida iminente.
— Opa. Ainda bem. Ele ainda tá ali. — Dante sorriu. A mão suja esfregou os fios vermelhos e escuros do cabelo enquanto ele arrastava as botas em direção aos vagões.
O corpo estava moído. A jaqueta, reduzida a trapos. Mas o olhar rubro continuava alerta, afiado e absolutamente pronto para encarar qualquer desafio que a cidade de Threshold ousasse jogar em seu caminho.
Parte 8
Séculos atrás.
O céu sobre Threshold sangrava em um doentio tom de laranja e cinza. A Guerra Civil havia estourado, rasgando a estrutura do mundo. Frotas de Varka e os exércitos de Londinum martelavam as fronteiras de gelo, uma retaliação cega e desesperada contra a ditadura absolutista e a barbárie imposta por Abhartach Scarlune.
O estrondo grave e contínuo da artilharia naval fazia o próprio ar tremer sobre o oceano bravio. O cheiro de pólvora, ozônio e ferro oxidado empesteava o vento, pintando a neve virgem com o escarlate da morte.
Mas, longe do clamor e da lama das trincheiras, o interior do castelo do Rei Escarlate era engolido por um silêncio pesado e sepulcral.
Skadi atravessava os longos corredores de pedra. A acústica fria do castelo devolvia o som rítmico e firme de suas botas. A elegância de seus movimentos era inabalável, os passos milimetricamente precisos, até o instante em que cruzou os imensos portões de carvalho da sala do trono. Sem hesitar, ela caminhou até o centro do salão e dobrou um dos joelhos, o atrito do tecido ressoando em reverência diante da figura mergulhada nas sombras.
Abhartach, o Tirano e 11º Rei Escarlate, a observava do alto. Ele jazia esparramado no trono de forma assimétrica — um dos braços jogado sobre o encosto, o punho sustentando o peso do queixo. O tédio puro transbordava de cada centímetro de sua postura soberana.
— Ouvi dizer que você desistiu de batalhar... — o timbre de Abhartach ressoou grave, arrastando-se letal pelas paredes de pedra. — E que, por causa disso, você cegou os seus próprios olhos, Skadi.
A mulher ergueu o rosto. Uma venda de tecido negro e espesso enfaixava a região onde, outrora, repousava sua visão.
— Eu não aguentava mais ver aquilo — Skadi respondeu. A voz não tremeu, mas carregava a densidade de mil massacres nas costas. — Sempre que eu pisava no continente principal de Alexandria, o meu estômago revirava. O cheiro crônico de sangue no ar... as montanhas de corpos empilhados como lenha... a fumaça de pólvora engolindo o céu de cidades inteiras. Tudo o que nós causamos e trucidamos pelo mundo afora, de forma absolutamente vazia. Sem propósito.
Abhartach não se moveu. Ele a encarou em silêncio, deixando a heresia daquelas palavras decantar no vazio do salão.
— Você acha que a nossa batalha é sem sentido? — ele perguntou, desprovido de qualquer resquício de ira. Havia apenas uma curiosidade gélida.
Skadi não recuou.
— Sim. Desde que essa guerra começou, nós apenas atacamos, matamos e reduzimos a cinzas. Olhe para o estado da nossa família. Nossas crianças agora são forjadas para marchar em frentes suicidas antes mesmo de aprenderem a soletrar o próprio nome. Elas são arrancadas dos pais e afiadas como facas. E eu não consigo entender a razão. O nosso território é abundante. Temos recursos para sustentar mil vidas. Não marchamos por ouro, não marchamos por glória. Então, por que o senhor continua afundando as mãos nisso? Quem é, de fato, o nosso inimigo?
O Tirano virou o rosto com lentidão. Seus olhos vagaram até as imensas vidraças do castelo, capturando o horizonte alaranjado onde os canhões de Londinum tentavam, em um esforço inútil, arranhar suas defesas.
— Ninguém. — A voz soou plana, despida de afeto. — Não temos nada no mundo que se assemelhe a um inimigo. Qualquer um que realmente tivesse estatura para se colocar no nosso caminho, a essa altura, já seria pó.
Skadi absorveu a resposta em mudez. Ela não replicou, não gritou contra a loucura crua daquela confissão, por mais que a realidade arranhasse sua mente cega.
— Acontece que, desde a origem de tudo, nós fomos desenhados para isso.
A Deusa da Guerra franziu as sobrancelhas sob a venda.
— O que o senhor quer dizer?
Abhartach fechou os olhos. Um sorriso fino e amargo curvou os cantos de seus lábios.
— É uma falha biológica. Desde que o mundo respira, a mecânica é simples: tudo o que é vivo foge do abismo. Quando a vida está por um fio, as criaturas entram em colapso de pânico e medo. E o trauma físico as condiciona a evitar o risco. Mas nós, os Scarlune, distorcemos essa regra a cada geração que nasce.
Os anéis metálicos nos dedos do rei bateram contra o braço do trono. Toc. Toc.
— É rotineiro ouvir os relatos da nossa linhagem. Jovens que, no milésimo de segundo antes da morte, em vez de pânico, sentiram uma euforia narcótica. Ficaram mais rápidos, mais letais. Alguns estouraram o teto do próprio poder, despertando uma força que desconheciam, justamente quando a lâmina beijava a jugular. Isso é a prova material, Skadi. A vida imersa no caos e o flerte umbilical com o extermínio... esse sempre foi, e sempre será, o ecossistema natural da nossa espécie. Foi com essa falha que os deuses, ou os demônios, costuraram a nossa carne.
O silêncio do trono só era pontuado pela respiração contida da mulher de joelhos.
— E por acaso o senhor teme que, se abandonarmos esse ecossistema e fundarmos a paz, a família enfraqueça? Teme que o mundo exterior nos engula?
A gargalhada do Tirano foi baixa, rasgando o peito e ecoando no teto arqueado.
— É rigorosamente o inverso. — As íris de Abhartach brilharam na penumbra. — O meu terror é que, um dia, após uma geração inteira nascer e apodrecer no tédio da paz, sem o gosto de ferro na língua... surjam aqueles que virão ao mundo com garras ainda mais grotescas que as nossas, e com uma fome ainda mais doentia. E quando esse dia estourar... as crianças que não tiverem um alvo no mundo exterior para afundar as garras acabarão virando-as contra o próprio pescoço. Contra nós mesmos.
Skadi baixou a cabeça. O conceito escapava à sua compreensão; a mente de uma guerreira clássica não alcançava a monstruosidade daquele futuro.
Notando a resistência invisível da mulher, Abhartach inclinou o tronco para a frente, a sombra de sua coroa cobrindo o rosto.
— Skadi... escute-me bem. O peso dessa coroa já me esmaga, e minha era caminha para o fim. Mas grave essas palavras na sua memória. Guarde-as no escuro de sua cegueira, caso viva o suficiente para ver o mundo que eu deixarei para trás.
A profecia do 11º Rei Escarlate desceu sobre a Deusa da Guerra como uma sentença de morte cravada em chumbo:
— Não serão os soldados forjados na lama e no sangue que irão degolar as lendas do passado. Serão as crianças. Os demônios escarlates que vão nascer na era de paz.
Tempo presente.
A memória de milênios estilhaçou-se na base do crânio, engolida pelo vácuo acústico e gélido do coliseu subterrâneo de Invel.
No epicentro da arena de gelo negro, o fio de tensão finalmente cedeu.
As duas Auras colossais expandiram-se e colidiram. A pressão barométrica não era mais invisível; tornou-se uma força de esmagamento física que fez as fundações da caverna gemerem. Sem discursos, Skadi e Cyfera soltaram o peso. O piso de cristal implodiu em milhares de lascas sob as botas das duas Scarlune simultaneamente. A força cinética as ejetou, transformando seus corpos em borrões letais rasgando o ar uma de encontro à outra.
Sob a venda de tecido negro, o radar sensorial de Skadi capturou a pressão aterradora exalando da arqueóloga que cortava a gravidade em sua direção. Um sorriso predatório rasgou o rosto da lenda viva.
Pois bem... Skadi pensou, liberando o fluxo de seu próprio Éter esmagador enquanto as silhuetas estavam a um milésimo de segundo da colisão. Mostre para mim, Cyfera. Mostre-me do que uma criança nascida na sua era de paz é capaz de fazer.
Parte 9
O vento cortante na superfície de Invel não era o suficiente para esfriar a impaciência da multidão de Scarlunes.
— Que porra! Quando é que esse pessoal vai terminar logo?! — os competidores berravam, o tédio inflamando a irritação debaixo da nevasca. — Ou percam de uma vez ou andem logo com isso!
Longe da confusão e dos gritos, Dante caminhava furtivo pela borda da plataforma de gelo. Com as mãos enfiadas no fundo dos bolsos da jaqueta rasgada, ele avançava na direção da locomotiva de seu trem, deslizando como uma sombra. Repassava a mecânica da própria luta mentalmente, a respiração compassada, perguntando-se se havia mesmo sido o primeiro a cruzar a linha de chegada.
Foi então que a gravidade afundou.
Uma onda de pressão de Aura colossal, densa e asfixiante estourou das entranhas da terra. O peso invisível esmagou a superfície com tamanha violência que as botas de Dante travaram no gelo. Os músculos de suas pernas e braços tensionaram até a paralisia, enquanto uma linha de suor frio escorria abruptamente pela sua nuca.
O mesmo estrondo mudo varreu a praça inteira. A multidão barulhenta engasgou. O caos sonoro morreu no milésimo de segundo seguinte.
No centro da plataforma, Shisui abriu um sorriso largo e letal. Os olhos do espadachim dilataram-se em pura antecipação predatória.
— Ei, ei, ei... isso é sério? — Shisui murmurou, sentindo a vibração contínua rastejar pelo chão de gelo. — Elas já vão lutar com tudo assim, logo de cara?
A poucos passos dele, Heisen ajustou a postura. A mente clínica do estrategista imediatamente começou a dissecar a anomalia térmica e energética.
— Me pergunto o quanto disso tudo foi planejado por ela... — Heisen sussurrou, a voz contida sob o vento. — A Skadi sempre teve um interesse perigoso em medir os limites desta geração atual. Será que foi por isso que ela se colocou como Representante?
Afastado do epicentro do choque, Dante apertou os punhos dentro dos bolsos. O pânico primitivo de uma presa arranhou a base de sua espinha, mas o garoto mastigou o medo, forçando um sorriso instigado e nervoso a rasgar o canto de seus lábios. A apatia costumeira evaporou. A curiosidade crua de um Scarlune tomou as rédeas.
Tá de brincadeira comigo... então esse é o nível real de força dela?!, Dante pensou. A respiração falhou, o oxigênio repentinamente espesso demais para entrar nos pulmões, enquanto seu radar de sobrevivência apitava em vermelho. Que maluquice é essa? Dá pra sentir o peso esmagando o oxigênio até aqui em cima... e isso tudo que tá vazando é SÓ a Aura delas?!
Uma sombra varreu sua visão periférica.
Era Blade. O entorpecimento sensorial na praça era tão violento que Dante só percebeu o homem caminhando a centímetros de seu ombro com um segundo de atraso, o choque impedindo que formulasse qualquer ruído de saudação.
Blade não interrompeu a marcha. O timbre frio e inabalável de sua voz cortou a paralisia do irmão mais novo:
— Por acaso você consegue dizer o que está acontecendo na luta apenas pelo rastro de Éter?
Dante piscou, sacudindo a cabeça para desentupir os ouvidos e focar na realidade da calçada.
— Que papo é esse?
Blade estancou no lugar. Com um leve erguer de queixo, apontou para a praça principal. Dante seguiu a linha invisível. Todos os Scarlunes de alto calibre — Heisen, Shisui e os demais veteranos — estavam eretos. Imóveis debaixo da nevasca que caía, com os rostos voltados para o nada e os olhos cerrados. Eles não estavam lutando contra o medo; eles estavam escutando.
O garoto de mechas vermelhas arregalou os olhos, absorvendo a magnitude daquela concentração coletiva.
— Você sabe muito bem que é possível prever os movimentos físicos de alguém lendo a intenção no Éter, não sabe? — Blade questionou, a voz baixa. — O Éter não é apenas energia; ele absorve e reflete a vontade e o estado mental do seu usuário.
— Sei bem disso — Dante respondeu.
— Pois bem. — O tom de Blade endureceu, assumindo o papel de instrução marcial. — Se você se concentrar o suficiente em ler e decodificar a Aura de alguém, dá para ir muito além da simples previsão. É possível até mesmo "ver" perfeitamente a batalha entre duas pessoas de alto nível apenas pelo rastro da energia que elas emanam no ambiente. Principalmente por conta da vontade bruta e visceral que elas depositam nos seus Éteres durante um combate de vida ou morte.
Dante baixou a visão para o gelo negro sob as botas.
Ele sequer parou para analisar a ironia ou o motivo pelo qual Blade, que agia como se o odiasse profundamente, decidira encurtar a distância para lhe ensinar um conceito avançado naquelas circunstâncias. Não importava.
A mecânica daquelas palavras cravou no osso. Suas células, o sangue acelerado em suas veias, seu próprio espírito... um instinto inegável dentro de Dante exigia que ele silenciasse a superfície. Ele não queria apenas aturar aquela pressão barométrica. Ele queria assistir. Precisava testemunhar a dimensão do apocalipse que estilhaçava os subterrâneos de Invel — a colisão titânica entre as duas guerreiras que vomitavam aquela Aura absurda para cima.
Dante sugou o ar denso pelo nariz, relaxou a tensão acumulada nos ombros e, lentamente, fechou os olhos.
O assobio do vento esvaneceu. Na escuridão letal de sua tela mental, as texturas de impacto e Éter começaram a tecer o vazio, e a visão do combate tomou forma.
Parte 10
No milésimo de segundo em que se aproximaram, os instintos de ambas operavam a mil por cento. A concentração era tão absoluta e densa que até mesmo o movimento letárgico dos minúsculos fragmentos de gelo flutuando pelo campo de batalha parecia ter congelado no tempo.
Em um antigo tomo do Reino de Umbra, conhecido como A Arte da Guerra, estava escrito que a vitória de um conflito é alcançada muito antes da primeira lâmina cruzar os céus. No brutal mundo das batalhas de Éter, esse fundamento era uma lei absoluta entre os guerreiros veteranos: um combate de alto nível pode ser definido logo em sua largada. Aquele que decifrar a habilidade e as regras do adversário primeiro, sem sombra de dúvidas, deterá a vantagem tática máxima até o fim do derramamento de sangue.
Skadi não perdeu tempo. Com um giro fluido, ela cravou o calcanhar no chão e ergueu uma onda maciça de gelo escuro que avançou como um tsunami sólido.
Cyfera não recuou. Em vez disso, ela saltou graciosamente, puxou a mão direita para trás como se esticasse a corda de um arco invisível e "atirou".
Os instintos milenares de Skadi berraram na mesma fração de segundo. A Deusa da Guerra saltou para trás, deslizando violentamente pelo piso de cristal. Um estalo seco ecoou, e o espaço exato onde o tronco dela estava há meio segundo colapsou e foi obliterado por uma força esmagadora invisível.
Aterrissando com leveza, Cyfera observou as estalactites de gelo estilhaçadas no chão e abriu um sorriso analítico.
— Não me resta a menor dúvida. Você é uma Gifted de Gelo — a arqueóloga sentenciou.
Skadi aterrissou a alguns metros de distância, a mente trabalhando em sobrecarga.
Acho que isso já é um ponto para a sua nova geração, a guerreira admitiu internamente. Mas a grande questão agora é... o que diabos é isso que você está usando? Por que eu não consigo sentir a assinatura do Éter desse ataque invisível?
Lendo a confusão oculta sob a venda da lenda, Cyfera lambeu a ponta do dedo indicador. O sorriso em seu rosto ganhou contornos predatórios.
— O que será que eu estou fazendo, hum? — Ela ergueu a mão em um gesto teatral. — Nadir: Morda.
Imediatamente, Skadi voltou a disparar em velocidade máxima para flanquear a arqueóloga. No entanto, o gigantesco pedaço de chão de cristal onde ela ia pisar simplesmente desapareceu. O colapso foi acompanhado de um som bizarro — um estranho estalo agudo de metal, idêntico ao barulho de mandíbulas de aço se fechando. Skadi notou a distorção do Éter tarde demais para atacar e foi obrigada a recuar novamente para não ser engolida pela fenda.
Ainda mais confusa, Skadi notou a anomalia visual no campo. Uma fantasmagórica e exótica serpente brilhante havia se materializado ao redor do corpo de Cyfera. A arqueóloga acomodou-se relaxadamente sobre a criatura translúcida, usando as espirais de luz como um trono improvisado. O que perturbou Skadi não foi a natureza exótica do pequeno dragão-serpente, já que ela não podia ver, mas sim o fato de que a criatura não emanava absolutamente nenhum calor ou presença mágica.
Mas que coisa grotesca é essa?, Skadi franziu o cenho.
Cyfera riu baixo, girando o pulso.
— E então? O que será que ele é?
Do lado de fora, na superfície gelada, a multidão tentava "assistir" ao caos através das ondas de choque subterrâneas.
— Ei, isso não está indo muito mal pra Skadi? — Koro murmurou, suando frio enquanto mantinha os olhos fechados. — A Cyfera já parece ter percebido a habilidade de gelo dela e a encurralou totalmente na retaguarda. E o pior é que a Cyfera nem parece estar gastando o seu próprio Éter pra fazer isso!
Ouvindo a leitura amadora, Heisen rosnou alto, genuinamente irritado.
— Não seja imbecil, seu tolo! Você acha mesmo que a Deusa da Guerra é do tipo que fica apenas dançando pelo campo de batalha, recuando e desperdiçando fôlego por medo?! — Heisen fuzilou Koro com o olhar. — Nesses últimos recuos cirúrgicos que a Skadi deu, a Cyfera desferiu golpes letais! Acontece que ela deve estar usando alguma técnica cujo Éter nós não conseguimos rastrear, e é por isso que, para um idiota cego, parece que a Skadi está apenas se esquivando do vento!
— Mas que papo é esse? — um dos figurantes ao lado questionou, chocado. — Eu nunca ouvi falar de uma habilidade ou magia avançada que não deixasse rastros de Éter para se sentir! Que porra é essa?!
Love cruzou os braços enormes, a sombra cobrindo seus olhos.
— Vocês estão errados. Existe, sim, um continente que é historicamente especialista no uso perfeitamente refinado da mínima quantidade de Éter e no máximo de domínio.
Vivian assentiu, ajeitando as luvas.
— O Império de Sakura.
Afastado do grupo principal, Dante lutava para manter a sintonia fina de seus próprios sentidos. Ele ainda não possuía a maestria de Blade para "ver" com perfeição a luta inteira através das paredes de rocha, mas a sua audição espiritual operava em outro nível.
Tem algum som... — Dante engoliu em seco, os olhos apertados. — Tem um barulho metálico e esquisito misturado com essa carnificina.
Nos subterrâneos, a batalha se intensificava.
Ignorando o fato de que lutava contra ataques inrastreáveis, Skadi avançou como uma força da natureza. Cyfera repetiu a postura do arco e disparou saraivadas de flechas silenciadas. Guiada por puro instinto de sobrevivência, Skadi se contorcia, deslizava e esquivava de cada míssil intangível no exato milésimo de segundo antes do impacto.
Mesmo sem ver o ataque, e sem sentir o fluxo mágico do projétil... ela consegue esquivar perfeitamente usando apenas o instinto! Que monstro formidável você é, Cyfera pensou, maravilhada com a física impossível da inimiga.
Skadi não recuou mais. Ela pisou com força, conjurando uma enorme rampa de gelo inclinada. Deslizando por cima dela para ganhar os céus da caverna, a guerreira lançou dezenas de estacas de cristal negro.
— Ataúde de Gelo! — Skadi anunciou.
As lanças maciças não eram apenas projéteis perfurantes; elas serviam como núcleos pressurizados de ar letal. Ao colidirem com o chão e quebrarem, elas liberaram uma nuvem de fumaça sub-zero que detonou em uma tempestade branca de congelamento instantâneo.
Mas Cyfera não havia ficado parada apenas assistindo ao show.
Lendo a parábola do pulo de Skadi, a arqueóloga ergueu a mão para a abóbada da caverna e ditou o contragolpe:
— Zênite: Liberar.
De repente, o colossal pedaço do piso de gelo que havia desaparecido através do golpe Nadir reapareceu magicamente a dezenas de metros de altura, exatamente acima de Skadi. Despencando em queda livre, o bloco de toneladas de cristal mirava esmagar a guerreira vendada no ar.
O cérebro de Skadi decodificou a armadilha quase instantaneamente. O farfalhar e o leve zumbido da serpente bizarra que estava enrolada em Cyfera... de repente estavam vindo do teto.
No exato momento em que Skadi escutou o som ríspido de metal se fechando vindo de cima, ela cancelou o próprio movimento no ar. Contorcendo o corpo de forma fisicamente impossível e usando uma de suas lanças de gelo como plataforma de impulso em pleno ar, ela saltou e se ejetou para fora da sombra do meteoro artificial.
Cyfera estalou a língua no céu da boca em pura frustração. Por um triz!
O pedregulho maciço atingiu o chão no mesmo instante em que as lanças do Ataúde de Gelo detonaram. O choque duplo gerou uma onda de impacto massiva, levantando uma imensa cortina de neve triturada e poeira que engoliu as duas metades do campo.
O estrondo silenciou, substituído pelo zumbido estático do Éter se dissipando.
Quando a nuvem de gelo começou a baixar, as duas guerreiras estavam de pé, perfeitamente firmes em lados opostos da arena destruída. Cyfera espanava graciosamente a poeira e o gelo dos ombros da roupa, enquanto Skadi mantinha sua postura ereta e predatória, encarando a garota através da venda.
— Como você viu o meu segundo ataque cair do teto? — Cyfera perguntou, um misto de decepção genuína e curiosidade acadêmica em sua voz.
Skadi relaxou levemente a postura. O sorriso no rosto da Deusa da Guerra se alargou.
— Eu não vi absolutamente nada. Eu apenas escutei um barulho muito estranho mudando de direção.
Cyfera parou de espanar as roupas. A arqueóloga ergueu o rosto, soltando uma risada reverente diante daquela resposta ilógica e absurda.
— Eu entendi. É uma mistura caótica de instinto selvagem desproporcional com uma intuição puramente assustadora. — Cyfera inclinou a cabeça, os olhos brilhando. — Exatamente como esperado da grandiosa Deusa da Guerra.
Parte 11
O sorriso de Skadi não vacilou. Pelo contrário, a admissão da arqueóloga apenas atiçou o sangue fervente da guerreira.
Skadi ainda estava em desvantagem tática; ela não compreendia a mecânica exata daquele dragão-serpente exótico e não podia rastrear o Éter daquelas anomalias espaciais absurdas. Mas a Deusa da Guerra não havia construído sua lenda hesitando. Se não tinha a resposta, ela a arrancaria à força, por meio da mais pura e brutal experimentação.
— Vamos testar o apetite do seu mascote de luz, então — Skadi declarou, a voz fria cortando a estática do campo.
Em um movimento fluido e aterrador, Skadi cravou ambas as mãos no piso estilhaçado. O ar ao redor despencou para temperaturas de zero absoluto. Um estrondo ensurdecedor estremeceu a caverna quando um tsunami titânico de gelo negro se ergueu, engolindo a pouca luz do ambiente. A onda colossal avançou como uma cordilheira em movimento, pronta para varrer Cyfera e tudo ao seu redor do mapa.
A arqueóloga não perdeu a calma. Encarando a parede de destruição glacial que se aproximava para esmagá-la, ela fez um movimento simples de maestro com as mãos.
— Nadir: Devore.
O absurdo e grotesco som de mandíbulas de aço titânicas se fechando rasgou o ar. Diante dos sentidos aguçados de Skadi, o impossível aconteceu de novo: um pedaço perfeitamente esférico e colossal do tsunami simplesmente desapareceu, engolido por uma mordida invisível que desafiava qualquer lei da termodinâmica e da física.
No entanto... Skadi já contava com isso.
A "mordida" invisível salvou Cyfera do impacto central e direto, mas o resto da onda colossal continuou seu curso, colidindo violentamente contra as paredes e o chão da arena. O choque triturou as toneladas de gelo restantes, pulverizando-as instantaneamente e criando uma tempestade de neve densa, caótica e ofuscante. O campo de batalha foi engolido por um inferno branco.
A dinâmica inverteu-se num piscar de olhos. Agora, era Cyfera quem estava completamente cega.
Ela usou a própria massa do ataque para criar uma cortina de fumaça tática, Cyfera percebeu, os olhos semicerrados enquanto o vento cortante açoitava seu rosto. Inteligente.
O zumbido do ar rasgando foi o único aviso prévio. Uma tempestade de ataques começou.
De dentro da nevasca absoluta, fragmentos afiados de cristal negro dispararam como balas de rifle. Cyfera esquivou-se do primeiro jogando o tronco para trás em uma ponte perfeita, mas, um segundo depois, uma alabarda de gelo maciço passou raspando por sua bochecha, abrindo um filete de sangue quente.
Skadi não estava apenas atirando projéteis a esmo; ela estava demonstrando, na prática, por que carregava o título de lenda do combate. De todas as direções da nevasca, um arsenal inesgotável de armas manifestava-se e atacava sem piedade: machados de batalha, adagas giratórias, correntes pontiagudas e lanças velozes. Skadi parecia se mover a uma velocidade tão aberrante que era como se ela estivesse em todos os lugares da arena ao mesmo tempo.
Cyfera saltou, contorceu-se e deslizou pelo gelo, sendo forçada a recuar e adotar uma postura estritamente defensiva. Ela trouxe a fantasmagórica serpente brilhante para perto de si, tentando usá-la como um escudo espiral luminoso, mas a defesa não era absoluta. Uma lâmina de gelo rasgou a barra de seu casaco, e um impacto pesado em seu ombro esquerdo quase a fez perder o equilíbrio.
Na superfície, a leitura da batalha através do Éter deixou Koro e os outros figurantes em completo silêncio.
— O que diabos está acontecendo lá embaixo? — Vivian sussurrou, sentindo as vibrações desenfreadas sob as botas.
— O feitiço virou contra o feiticeiro — Love comentou, um sorriso de canto surgindo em seu rosto severo. — Skadi tirou a visão da garota. Mas... a quantidade de impactos simultâneos é surreal.
Afastado do grupo, Dante mantinha os olhos fechados, a audição focada no limite extremo. Ele acompanhava o ritmo caótico da luta, o rosto desenhado em uma máscara de concentração severa, a postura relaxada, mas com aquele brilho afiado.
Não é apenas uma questão de velocidade bruta, Dante pensou, o cenho franzindo levemente enquanto seu cérebro processava a acústica dos impactos. Esses ataques estão literalmente colidindo contra a defesa da Cyfera vindo de quatro ângulos perfeitamente opostos... no exato mesmo milésimo de segundo. Ninguém é fisicamente rápido o bastante para estar em quatro lugares da caverna ao mesmo tempo. A menos que...
Nos subterrâneos, Cyfera bloqueou uma espada de gelo espessa com um bracelete reforçado com Éter, sendo arrastada para trás pela força bruta do golpe. A nevasca rugia, impiedosa.
Chega de brincar, a arqueóloga decidiu, os olhos purpúreos faiscando de irritação calculada.
Se ela não podia ver a inimiga através do inferno branco, ela simplesmente removeria o próprio palco. Cyfera bateu as palmas das mãos, um estalo seco que ecoou através do vento uivante, e ordenou:
— Nadir: Limpe a mesa. Engula tudo!
O som estridente de metal se contorcendo e dezenas de mandíbulas colossais batendo umas nas outras reverberou violentamente.
Em um único milésimo de segundo, não foi um pedaço do chão que desapareceu, mas toda a tempestade. O ar, a névoa, a neve em suspensão e os milhares de fragmentos de gelo estilhaçado foram sugados para um vácuo invisível em uma escala assustadora e incompreensível, deixando a arena perfeitamente nítida, cristalina e silenciosa mais uma vez.
Quando a visão clareou, Cyfera finalmente viu a origem daquele bombardeio onipresente.
O campo estava minado. Espalhadas ao redor da arqueóloga, fechando um cerco perfeito e letal, estavam seis Skadis. Eram clones exatos, esculpidos primorosamente em gelo negro e sombras densas, cada um empunhando uma arma medieval diferente, todos paralisados na exata pose predatória em que estavam desferindo os ataques simultâneos.
No centro do cerco, relaxada e com as mãos enfiadas nos bolsos do sobretudo, a verdadeira Skadi inclinou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada rouca, genuína e vitoriosa.
— Eu tenho que admitir, já fazia tempo que não me via em uma situação tão diferente — Skadi falou, a voz ecoando pelas paredes agora limpas da caverna, transbordando uma confiança absoluta. — Lutar contra algo que não dá para sentir é realmente assustador.
Skadi ergueu o braço e apontou o dedo indicador diretamente para o rosto de Cyfera.
— Mas parece que a sua habilidade não é totalmente indetectável.
A Deusa da Guerra abriu um sorriso largo e perigoso.
— Eu não preciso enxergar o que você faz. Eu só preciso ouvir as engrenagens. E agora, graças ao eco metálico que a sua habilidade acabou de criar no vácuo ao devorar a minha nevasca... eu ouvi muito bem, Cyfera.
Skadi deu um passo à frente, e o terror se instaurou: os seis clones de gelo negro se moveram em sincronia perfeita com ela, erguendo as armas mais uma vez.
— Naquele milésimo de segundo em que a tempestade sumiu, não houve apenas um barulho de metal se fechando. Houve dois. Com ritmos completamente diferentes e vindos de localizações diferentes da sala. — Skadi ajustou a postura ofensiva, o ar ao seu redor começando a congelar e estalar novamente sob a pressão de sua Aura. — Existem dois dragões operando nesse campo de batalha simultaneamente. Um que você exibe orgulhosamente como um adorno... e um colossal, invisível, que você esconde.
A ponta da lâmina de Skadi brilhou na penumbra.
Parte 12
A revelação de Skadi pairou no ar gélido da caverna, mas a reação de Cyfera passou longe do desespero. Pelo contrário, a arqueóloga piscou, surpresa, antes de jogar a cabeça para trás e soltar uma risada genuína, quase melódica, como se a descoberta do seu maior segredo não tivesse a menor importância.
Do lado de fora, a tensão entre os espectadores mudou de tom.
— Lembrei! — Shisui exclamou de repente, os olhos se arregalando ao juntar as peças. — Aquilo é um Nogi.
Alguns olhares confusos se voltaram para ele, até que Blade quebrou o silêncio com sua voz rouca e imperturbável.
— Nogi... As invocações nativas do Império de Sakura.
— É mais do que isso — Love interveio, a voz grave ecoando como um trovão contido. — É um conhecimento militar extremamente restrito daquele continente. Tudo o que sabemos no ocidente é que eles funcionam como shikigamis, seres espirituais invocados através de contratos de sangue ou alma, mas a mecânica de operação deles é totalmente bizarra e diferente da magia convencional.
Heisen bufou, cruzando os braços com desdém para a ignorância alheia.
— Vocês estão errados. O ocidente classificou os Nogis como meras "invocações" por puro equívoco e preguiça acadêmica. Para começo de conversa, até onde os meus estudos vão, todo o sistema deles é único e baseado em fundamentos completamente diferentes. Eles não são apenas "trazidos" para lutar; eles se fundem à realidade do usuário.
Koro estalou a língua, irritado com a aula de história no meio da carnificina.
— E daí?! Foda-se se o nome é Nogi ou qualquer outra porcaria! O que importa saber isso agora? A situação não mudou nada, a Cyfera ainda tem um dragão invisível pronto para devorar a Skadi!
Nos subterrâneos, alheia à discussão na superfície, Cyfera limpou uma lágrima imaginária de riso do canto do olho.
— Você é realmente fascinante, Skadi. Uma das primeiras a decifrar a charada de forma tão rápida. — Cyfera sorriu, os olhos brilhando com uma intensidade perigosa. — Você tem razão. Estes são os meus Nogis: Nadir e Zênite.
Skadi franziu a testa sob a venda. A arqueóloga estava lidando com a exposição de forma normal até demais. O instinto da Deusa da Guerra a alertou de que a dinâmica estava prestes a mudar drasticamente.
— Já que você descobriu as engrenagens da minha pequena armadilha, vamos pular as formalidades e começar a segunda fase. — Cyfera ergueu a mão direita, o rosto perdendo qualquer traço de humor. — Nadir: Liberar.
A temperatura do ar ao redor de Cyfera não caiu, ela ferveu. O dragão oculto nas sombras finalmente se materializou, mas não era feito de luz ou energia fantasmagórica como Zênite. Nadir era uma abominação colossal de mercúrio puro. No instante em que surgiu, o dragão começou a derreter, perdendo a forma reptiliana e se transformando em uma tempestade flutuante de metal líquido prateado.
Só pelo som estridente do metal se desfazendo e pelo cheiro cáustico que inundou o ar, Skadi saltou dezenas de metros para trás. No segundo seguinte, uma pressão esmagadora tomou conta da caverna. Todos, tanto nos subterrâneos quanto na superfície, de repente sentiram uma assinatura de Éter monstruosa, densa e tóxica explodindo do dragão derretido.
— Para a grande maioria das lutas, eu crio um vínculo restritivo — Cyfera explicou, a voz assumindo um tom didático, mas sombrio. — Uma regra autoimposta que esconde completamente a assinatura de Éter do Nadir. Eu me aproveito da capacidade natural que os Nogis têm de serem invisíveis para pessoas que não possuem um Nogi, e, para maximizar ainda mais essa furtividade absoluta, eu deixo o Zênite brilhando bem visível para servir de isca, além de forçar ambos a emitirem esse som metálico ao se moverem.
— Você amarra o próprio poder... — Skadi murmurou, processando a lógica distorcida. — Criou tantas fraquezas propositais como um limitador?
— Exatamente! — O sorriso de Cyfera se alargou, revelando dentes brancos. — Ao aceitar tantas condições desvantajosas, no exato momento em que o meu inimigo descobre a verdade sobre o meu truque, o limitador se rompe. Como recompensa pela restrição, eu ganho a oportunidade de liberar cem por cento do potencial destrutivo de um dos dois. No entanto, o custo é alto: só posso fazer isso uma vez por mês.
Cyfera suspirou, estalando o pescoço.
— Na maioria das vezes, eu me recuso a gastar esse trunfo. Mas eu não me perdoaria se não lutasse contra uma pressão tão incrível quanto a sua usando o meu máximo absoluto.
A aura de Cyfera mudou. A máscara de professora contida, calma e analítica derreteu assim como o seu dragão. Uma sede de sangue densa, pesada e inegavelmente sádica vazou dela, arrepiando até os fragmentos de gelo espalhados pelo chão.
Skadi abaixou o centro de gravidade, empunhando uma de suas lanças de cristal negro.
— É melhor tomar cuidado, garota. Você está deixando a sua verdadeira face aparecer.
Cyfera apenas sorriu, um sorriso predatório. E então, ela avançou.
A batalha explodiu em um corpo a corpo brutal e insano. Cyfera não lutava mais na retaguarda; ela investia como um meteoro prateado, totalmente envolta pela massa de mercúrio derretido que orbitava ao redor de seu corpo como um organismo simbiótico.
Skadi comandou seus clones para um ataque suicida e coordenado. Cada escultura de gelo negro atacou com uma técnica e uma arma completamente diferente. O primeiro clone avançou com um machado pesado, visando dividir Cyfera ao meio, mas, antes que a lâmina tocasse a arqueóloga, o mercúrio se ergueu como um tentáculo defensivo. O gelo colidiu com o metal líquido e sibilou violentamente, derretendo no mesmo instante enquanto o mercúrio expelia uma nuvem de gás ácido e venenoso que desintegrou o clone.
Os clones seguintes tentaram flanquear. Correntes, adagas e estacas foram lançadas em trajetórias espirais, mas Cyfera fluía pelo campo de batalha como água. O dragão de mercúrio não apenas a defendia passivamente; ele chicoteava, engolia os ataques de gelo e cuspia rajadas cáusticas de volta.
Esquivando-se da chuva ácida com rodopios e mortais acrobáticos, a mente de Skadi trabalhava na velocidade da luz.
Esse dragão de mercúrio age como uma armadura reativa absoluta... mas tem uma falha. Skadi estreitou os olhos por baixo da venda enquanto um jato prateado derretia parte do teto da caverna acima dela. Para manter essa defesa intransponível, essa poça de metal líquido não pode se afastar mais do que dois metros do corpo dela. Ela está ancorada a ele.
Com o "ponto fraco" mapeado, Skadi mudou a estratégia. Em vez de preservar os clones, ela os enviou em uma marcha da morte, forçando Cyfera a usar o mercúrio para destruir cada um deles rapidamente.
Enquanto a arqueóloga desintegrava o quinto clone, Skadi executou sua jogada ensaiada. Ela disparou um único e condensado floco de neve cristalizado. Quando o pequeno projétil voou, ele colidiu propositalmente com um fragmento de gelo solto no ar, quicando e mudando de direção. A cada ricochete pelas paredes e restos de gelo deixados no campo, o floco absorvia o Éter residual dos clones destruídos, tornando-se exponencialmente mais frio, denso e terrivelmente veloz.
A trajetória em zigue-zague era imprevisível, contornando toda a defesa frontal de Cyfera. Em um milésimo de segundo, o projétil letal encontrou o ponto cego perfeito: a nuca da arqueóloga, atacando pelas costas.
A colisão causou uma explosão de ar frio tão monumental que o som pareceu sumir por um segundo. Uma esfera de gelo absoluto com dezenas de metros de diâmetro engoliu o local onde Cyfera estava, congelando até mesmo o oxigênio do ambiente.
Skadi aterrissou pesadamente a vários metros de distância, ofegante. Quando a névoa sub-zero se dissipou, a Deusa da Guerra travou a mandíbula.
Cyfera estava perfeitamente segura.
No último trilionésimo de segundo antes do impacto em sua nuca, a massa de mercúrio havia envolvido o corpo inteiro da arqueóloga como um casulo blindado. Lentamente, o metal líquido começou a escorrer e cair no chão, revelando o rosto frustrado, porém ileso, da usuária de Nogi.
— Eu realmente não podia subestimar as suas habilidades, não é? — Cyfera suspirou, balançando a cabeça. — Você achou que eu precisava manter o Nadir perto de mim por limitação? Não. Eu o deixei colado em mim o tempo todo exatamente porque eu sabia que você ia forçar uma abertura ou que tinha alguma carta absurda escondida na manga.
Um frio na espinha percorreu Skadi. A fraqueza que ela havia "descoberto" era, na verdade, uma armadilha psicológica. Cyfera estava um passo à frente, usando a própria defesa como uma garantia contra o impossível instinto da guerreira vendada.
— Mesmo assim... — Cyfera fez um bico de contrariedade, olhando para o próprio corpo. — Eu queria evitar usar a Defesa Total a todo custo. Eu realmente gostava dessa roupa.
Conforme o mercúrio que a protegera pingava no chão, Skadi notou o efeito colateral. Cyfera era claramente imune ao veneno cáustico e ao calor do derretimento de sua própria técnica, mas os tecidos normais não possuíam o mesmo privilégio. Partes do sobretudo chique e das mangas da arqueóloga estavam completamente corroídos, dissolvidos pelo próprio metal líquido que a salvara.
No entanto, o cérebro afiado da Deusa da Guerra percebeu um detalhe muito mais importante do que um tecido rasgado. Skadi inclinou a cabeça, a audição focada no som das gotas espessas de mercúrio atingindo o piso de pedra. Ela notou que o líquido que caía no chão, queimando as pedras com ácido, simplesmente ficava lá. A poça prateada não se movia, não levitava de volta e não se reintegrava à nuvem metálica que orbitava Cyfera.
O sorriso predatório voltou a desenhar os lábios de Skadi.
— Entendi... — A voz de Skadi cortou a distância entre elas, carregada de um triunfo letal. — Você sacrificou parte da sua armadura para segurar o meu golpe pelas costas. Mas esse mercúrio que você derramou pelo campo de batalha... ele não está voltando para você.
A guerreira apontou a lança de gelo diretamente para o rosto de Cyfera.
— Uma vez que a forma do seu Nogi é desmanchada e o metal líquido é dispersado em contato com o ambiente ou usado como escudo de sacrifício, ele não pode se recuperar imediatamente, não é? O seu dragão está "sangrando" massa. E agora, você tem muito menos mercúrio para me atacar do que tinha há um minuto.
Parte 13
Skadi observava Cyfera com cautela, a mente trabalhando em sobrecarga para analisar cada microexpressão da arqueóloga diante da nova provocação. Em um combate de vida ou morte, o ato de provocar o inimigo possui duas naturezas distintas: um amador faz isso apenas para irritar o oponente e desestabilizá-lo, ou porque sente o gosto prematuro da vitória; um guerreiro experiente, por outro lado, usa a provocação como um bisturi para dissecar a reação da presa.
Ao ouvir a dedução letal de que seu dragão estava perdendo massa e "sangrando", Cyfera não demonstrou a menor irritação. Seu rosto não torceu em pânico. Ele se manteve como uma máscara de frieza calculada e absoluta.
— Dessa vez você não sorriu, não é? — Skadi murmurou, os músculos tensionando como molas de aço prontas para disparar.
A Deusa da Guerra saltou. Ela rasgou o chão de cristal em uma investida frontal e explosiva, indo com tudo para o abate.
Na superfície, a respiração do público pareceu parar. Koro, Love e os outros veteranos suavam frio, imersos em um silêncio sepulcral, observando as vibrações do Éter com atenção total. Todos ali sentiam no ar que o clímax inevitável da batalha havia chegado. Toda aquela luta letal, até o momento, não passava de um verdadeiro jogo de xadrez em alta velocidade, no qual aquele que previu os movimentos do oponente primeiro ditou o ritmo.
E, como o antigo ditado do continente de Umbra profetizava: Um combate de alto nível pode ser definido logo em sua largada.
Nos subterrâneos, Cyfera não recuou diante da força imparável de Skadi. Em vez de fugir, a arqueóloga disparou em direção à lenda.
Sem hesitar, Skadi conjurou uma nova e colossal lança de gelo negro e a arremessou como um relâmpago sombrio direto no peito de Cyfera.
— Nadir: Devore! — Cyfera comandou, a voz ecoando na caverna.
Mas Skadi já havia lido a jogada perfeitamente. Ela sabia que o mercúrio restante da armadura de Nadir não conseguiria se afastar do corpo da arqueóloga, esticando-se apenas por poucos centímetros para protegê-la. Mesmo que a boca do dragão de metal líquido tentasse engolir a lança em aproximação, seria inútil contra a força bruta do golpe.
Com um pulso rápido e violento de Éter, Skadi detonou a própria arma antes mesmo que ela encostasse no mercúrio inimigo.
A lança de cristal colapsou em uma detonação monumental de ar sub-zero e pura força cinética. A onda de choque foi devastadora, varrendo a arena e jogando a própria Skadi e tudo ao redor violentamente para trás.
Para frear o corpo que era arremessado pelo vento da própria explosão, a guerreira cega conjurou uma pesada e rústica lâmina de gelo negro e a cravou profundamente no chão, rasgando o cristal polido enquanto desacelerava num estrondo de atrito.
Assim que as botas travaram no lugar, Skadi se ergueu imediatamente. Ela encarou a densa fumaça branca na direção do epicentro da explosão, apertando o cabo da lâmina, pronta para desferir o golpe de misericórdia.
— Eu sugiro que você desista.
A voz macia veio exatamente de suas costas.
O corpo inteiro da Deusa da Guerra congelou. Antes que seus instintos pudessem ordenar qualquer reação muscular, ela sentiu o fio letal e gélido de uma lâmina de gelo negro — levemente umedecida por um ácido cáustico prateado — encostar perfeitamente em sua carótida.
Era o xeque-mate.
Skadi virou o rosto milimetricamente por cima do ombro. Cyfera estava logo ali, encostada nela, segurando a arma com firmeza contra o seu pescoço.
A guerreira cega, sentindo o calor do corpo e a ausência de atrito no ar, notou um detalhe fisicamente impossível: a arqueóloga estava completamente nua. Suas roupas chiques e o sobretudo haviam desaparecido por completo.
E, com essa imagem bizarra e vulnerável desenhada em sua mente, o cérebro afiado da lenda finalmente montou o quebra-cabeça e entendeu com exatidão o que havia acabado de acontecer.
Do lado de fora, a confusão imperou na multidão que "assistia" ao combate.
— Pera, o que rolou?! — Koro berrou, a mente amadora incapaz de processar o deslocamento absurdo de energia que provocou aquele desfecho. Até mesmo a assassina Vivian, com toda a sua letalidade e precisão, parecia perdida.
Foi Shisui quem quebrou o silêncio, os olhos arregalados, a respiração falhando.
— Ela se teletransportou... através do Nogi!
Heisen estreitou os olhos. Um sorriso de puro fascínio doentio despontou em seu rosto.
— Agora isso explica absolutamente tudo. São dois Nogis operando juntos em um sistema perfeito de entrada e saída. Um devora a matéria no espaço real e o outro a vomita.
Nos subterrâneos, a lâmina no pescoço de Skadi não tremia um único milímetro. A guerreira soltou um suspiro pesado, o vapor subindo no ar frio.
— O meu erro — Skadi começou, a voz incrivelmente calma para alguém a um centímetro da morte —, foi achar que, só porque o seu Nogi defensivo havia desmanchado quase por completo, você tinha ficado sem opções de movimento. Aquele último "Devore" que você ordenou antes da explosão... não foi para a minha lança.
Cyfera abriu um sorriso exausto, porém glorioso.
— Claro que não — a arqueóloga respondeu, a respiração ofegante batendo na nuca da Scarlune. — Havia muito pouco mercúrio restando na minha armadura para que eu pudesse segurar e engolir uma explosão com a magnitude daquela lança. Mas, como o que sobrou de Nadir ainda estava colado como uma segunda pele por todo o meu corpo, eu preferi ordenar que ele devorasse a mim mesma para que Zênite me cuspisse nas suas costas.
Ela olhou rapidamente para o próprio corpo desprotegido.
— O grande problema é que a matéria morta dos tecidos das minhas roupas não sobrevive à passagem cáustica pela viagem dimensional.
A verdadeira narrativa daquela luta clareou de vez na mente de Skadi. A vitória havia sido decidida antes mesmo da poeira levantar. Como Skadi teve sua habilidade inata de gelo exposta logo nos primeiros segundos, ela foi forçada a se ocupar inteiramente correndo contra o tempo para tentar descobrir do que diabos Cyfera era capaz. Enquanto isso, a arqueóloga controlava cada centímetro do tabuleiro, criando armadilhas psicológicas e brincando com as poucas e restritas informações que deixava vazar.
Ela manipulou o fluxo da luta perfeitamente, fazendo a intuição impossível da Deusa da Guerra agir contra ela mesma. Fez Skadi achar que sabia tudo sobre o limite do Nogi, apenas para deixá-la desatenta e confiante no momento crítico.
Skadi relaxou os ombros. Ela abriu as mãos, soltando a própria arma, levantou os braços na altura da cabeça e declarou em alto e bom som:
— Eu me rendo. Você venceu.
Assim que as palavras de rendição ecoaram e selaram a batalha, Cyfera recuou um passo e jogou a adaga de gelo negro no chão de cristal.
Skadi abaixou o rosto, "olhou" para a arma largada no piso e balançou a cabeça, rindo internamente da própria ruína.
Ela roubou essa adaga lá atrás, Skadi pensou, ligando o último e mais humilhante ponto. Quando ela pediu para o dragão engolir a minha tempestade de armas de gelo para "limpar a sala", ela pescou uma das minhas próprias lâminas e a guardou no espaço dimensional do Nogi até agora, só para usar contra o meu próprio pescoço.
Aquela garota realmente tinha um baralho inteiro escondido nas mangas que já não existiam mais.
Lá em cima, o som e o choque da rendição espiritual de Skadi foram como galões de querosene atirados em uma fogueira. Todo o grupo de figurantes e veteranos começou a gritar e conversar animadamente, o sangue guerreiro fervendo. Cada um deles estava em êxtase, louco pela oportunidade de ser o próximo a descer na arena e testar os próprios limites.
Afastado da histeria coletiva, a silhueta solitária de Dante se virou de costas para a praça e começou a caminhar em direção aos trilhos do trem.
Seus passos eram lentos e calmos, mas os seus punhos dentro dos bolsos da jaqueta estavam fechados com tanta violência que tremiam. Havia uma frustração inegável, pesada e amarga fervendo em seu peito, nascida do puro choque de realidade de quão fraco ele ainda era comparado ao topo da cadeia alimentar.
Mas aquela frustração era rapidamente engolida e digerida por uma empolgação selvagem, genuína e madura.
Ele não fazia a menor ideia de que era fisicamente possível existir uma luta com aquele nível microscópico de controle de campo. Existiam mecânicas absurdas, manipulações espaciais grotescas, charadas psicológicas e técnicas táticas cuja existência ele sequer havia tido a capacidade de imaginar no seu pequeno mundo.
Enquanto se afastava do clamor da multidão rumo à locomotiva, Dante tirou as mãos dos bolsos. Ele abaixou os olhos e encarou a palma de seu braço direito, onde a Aura laranja costumava vibrar de forma caótica.
O sorriso característico, letal e inabalável, brincou no canto de seus lábios.
O mundo era vasto, complexo e perigoso demais para ele continuar estagnado na sua preguiça habitual. Ele não podia mais apenas "reagir" ao que o universo jogava nele. Ele precisava forjar o próprio caminho.
Agora, ele precisava criar algo só para ele.
Parte 14
Lá embaixo, na arena agora silenciosa e coberta de estilhaços e mercúrio, Cyfera começava a caminhar despreocupadamente em direção à saída. Contudo, ela parou no meio do caminho, cruzando os braços ao encarar a si mesma.
— Hum... acho que eu deveria fazer alguma coisa sobre essa óbvia falta de roupas — ela murmurou, avaliando o estrago dimensional que a técnica de sacrifício do Nogi havia causado em seu guarda-roupa.
Skadi soltou um suspiro leve e esticou a mão em direção aos fechos da própria roupa.
— Eu te empresto a parte de cima da minha veste. Mas já aviso que isso só vai te ajudar a se cobrir de forma bem precária.
— Já é o bastante — Cyfera respondeu com um aceno polido e indiferente. — Mas, muito mais importante do que qualquer pedaço de tecido para cobrir minha dignidade... eu quero te fazer algumas perguntas, agora que finalmente terminamos.
Skadi sorriu, balançando a cabeça.
— Sinto muito, mas essa sua entrevista vai ter que ficar para uma próxima oportunidade. Eu ainda tenho outros figurantes lá em cima para julgar e colocar no jogo.
— Eu me recuso terminantemente a aceitar essa resposta — Cyfera retrucou, o tom perfeitamente obstinado.
— Estou falando sério — Skadi avisou, o ar ao seu redor esfriando um pouco. — Eu responderei às suas dúvidas de pesquisadora em um outro momento.
— Eu não acredito mais em uma única palavra sua — Cyfera rebateu, os olhos purpúreos brilhando com uma acusação afiada. — Você disse lá em cima que iria lutar a sério contra mim. Mas, no fim das contas, você nem usou tudo o que tinha. Mesmo comigo usando o meu máximo absoluto e liberando o Nadir.
Skadi inclinou a cabeça levemente.
— O que você quer dizer com isso?
— Eu percebi muito bem que você nem sequer considerou ativar a sua Black Box até o fim do nosso combate — Cyfera apontou, a intuição cirúrgica de arqueóloga cortando o ar gélido. — Se você passou a luta inteira segurando as suas habilidades ocultas, é porque, no fundo, não estava lutando a sério.
Skadi suspirou fundo, massageando a têmpora sob a venda.
— Não é bem assim que as coisas funcionam, criança. A minha Black Box não é o tipo de técnica recreativa que a gente sai ativando a torto e a direito a qualquer momento.
— Desculpas esfarrapadas — Cyfera cantarolou.
Rendida pela teimosia inabalável e cansativa da garota, Skadi cedeu.
— Tudo bem. Eu vou responder a exatamente três perguntas suas. E nem uma a mais. O resto ficará para depois.
O rosto de Cyfera iluminou-se com a empolgação de uma acadêmica faminta.
— Eu sabia que podia contar com a generosidade de uma lenda viva! Bom, então, para irmos rápido, responda sem hesitar: Primeiro, com quantos anos exatos você alcançou o seu ápice de força, ou você acha que mesmo agora, séculos depois, a sua biologia continua evoluindo? Segundo, como eram as guerras contra Varka e Londinum na realidade daquela época? Os inimigos eram individualmente poderosos ou o verdadeiro problema de vocês era apenas a desvantagem numérica esmagadora?
Cyfera nem sequer respirou e continuou metralhando:
— E sobre o Professor Heisen... é verdade o boato absurdo que dizem por aí que a grandiosa Deusa da Guerra tem uma queda por ele?! Você já pensou em confessar isso de uma vez para ele?! Quero dizer, como é fisicamente e psicologicamente possível que alguém que já está viva há tanto tempo, e que já comandou carnificinas, ainda tenha essas frescuras adolescentes de vergonha para se declarar para um homem?!
Skadi ficou em silêncio por um longo e sepulcral momento, completamente atônita com o bombardeio.
— Você acabou de fazer bem mais do que três perguntas nesse seu surto final.
Cyfera deu de ombros, sorrindo de forma maliciosa e descarada.
— Você pode ignorar as duas primeiras perguntas de história militar, então. Foque só na fofoca.
— Pelos Deuses... uma arqueóloga séria e respeitada deveria mesmo estar falando algo assim no meio de uma zona de combate? — Skadi murmurou para si mesma, sentindo uma dor de cabeça iminente pulsar.
A cena cortou bruscamente da caverna gélida para a superfície distante.
Na sala de controle central, parcialmente destruída pelos eventos anômalos recentes, Descora observava os monitores fragmentados. Ela segurava um pote plástico de macarrão instantâneo, sugando o caldo fumegante com uma expressão profundamente entediada.
O rádio de comunicação em sua mesa chiou. A voz metálica de um oficial Flame Reaper ecoou no ambiente caótico:
— Senhora, os primeiros sobreviventes do exame de triagem subterrâneo já passaram pela porta.
— Já era hora — Descora respondeu de boca cheia, mastigando com força. — A propósito, vocês acharam alguma coisa fora do lugar nas vistorias do trem?
— Não nas locomotivas, senhora — o oficial relatou, o tom carregado de hesitação. — Mas... algo muito estranho e grave aconteceu nas fundações. Uma das chaves mestras de acesso da Ruína Férica sumiu.
Descora parou de mastigar. Ela baixou o pote de macarrão, as sobrancelhas se juntando em um vinco profundo enquanto seus olhos escuros focavam no rádio.
— Como assim "sumiu"? — ela rosnou. — Quem foi o infeliz que pegou?
— Nós não fazemos a menor ideia, senhora. As câmeras de segurança não pegaram absolutamente ninguém circulando pelos corredores inferiores, e as contagens confirmam que todos os passageiros dos trens estavam confinados no local do exame da Skadi no momento do roubo.
A mente calculista de Descora começou a girar, conectando violentamente os fios soltos daquela operação bizarra. Se todos os alvos estavam trancados lutando nas arenas de gelo... Será que tudo isso estava conectado desde o princípio?
— Vamos seguir com o plano — Descora ordenou, a voz assumindo uma frieza tática e afiada. — Pelo menos agora, com o roubo da chave, talvez nós tenhamos uma ideia um pouco mais clara de qual era o verdadeiro objetivo daquele maldito invasor.
Ela desligou a comunicação em um estalo seco. Girando a cadeira, Descora fuzilou com o olhar a equipe de técnicos apavorados que suavam frio enquanto tentavam consertar a fiação derretida dos painéis da sala de controle.
— VOCÊS AINDA NÃO CONSEGUIRAM RECUPERAR A PORCARIA DAS GRAVAÇÕES?! — ela gritou, a aura letal inundando o ar.
— A-Ainda não, senhora! — os homens gritaram em uníssono, encolhendo-se sob a fúria da chefe.
Descora bufou, enfiou os hashis de volta no pote e voltou a devorar seu macarrão instantâneo para descontar a raiva. Seus olhos vagaram para a única tela que não estava piscando, que exibia a lista dos trens e dos passageiros que sofreram aquele misterioso desvio espacial direto para o colo de Skadi.
Quem será que teve a capacidade técnica e a audácia de programar esse desvio sistêmico bem debaixo do meu nariz?, ela ponderou, engolindo o jantar improvisado. E o que será que essa pessoa tanto quer lá dentro daquela Ruína Férica?



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