The Fall of the Stars: Capítulo 3 - Benção e Maldição
- AngelDark

- 14 de jul. de 2025
- 69 min de leitura
Atualizado: 18 de mai.
Volume 5 : Trem Escarlate
Entrelinhas
"Uma família desgraçadamente egoísta."
Foi com essas exatas palavras que o grande filósofo Egeo de Alexandria categorizou os Scarlunes em seu infame tratado sobre os Mitos de Alexandria. A publicação foi disruptiva para a sua época por dezenas de motivos, mas o principal deles era o mais óbvio: aquele livro havia sido concebido para explorar visões acadêmicas sobre lendas e contos de fadas que o povo de Alexandria cultivava. No entanto, o capítulo dedicado aos Scarlunes soava como uma anomalia para qualquer um que o lesse.
Afinal, os Scarlunes não eram uma lenda. Muito menos um mito. Eram seres de carne, osso e Éter que realmente caminhavam entre os mortais.
Contudo, havia uma mensagem crua e central que Egeo queria cravar na mente de seus leitores com aquele capítulo isolado: os Scarlunes não deveriam existir.
Logicamente, sob qualquer prisma biológico ou sociológico que se analisasse, não havia margem possível para que uma raça tão disfuncional prosperasse. Os seres vivos foram forjados pela natureza para viver em bando; eles buscam contato, constroem laços e, por meio dessas conexões vitais, definem quem são perante o mundo. Mas essa regra de ouro parecia simplesmente derreter e evaporar ao entrar em contato com o sangue Scarlune.
Eles são uma raça que cospe em todas as regras conhecidas. Seres que não dão a menor importância para os próprios laços de sangue e menos ainda para as pessoas ao seu redor. Tudo o que move as pesadas engrenagens de um Scarlune são os seus próprios desejos, caprichos e ambições cegas, chegando ao ponto doentio de descartar laços inteiros com a mesma facilidade com que se troca de roupa, caso isso lhes traga alguma vantagem.
Ao longo dos séculos, os poucos Scarlunes errantes que vagaram pelo mundo e aceitaram revelar fragmentos de suas origens obscuras em entrevistas e registros documentais pintaram um quadro aterrador de sua sociedade. Eles narraram como a "individualidade" é extirpada e distorcida dentro das crianças da família desde o primeiro segundo em que respiram. Após virem à luz, as crianças Scarlune não encontram o calor de uma figura materna ou paterna. Na realidade, elas passam seus primeiros dias de vida confinadas em laboratórios frios, sendo dissecadas, estudadas e criadas por amas e empregadas que têm ordens estritas — e letais — para não criarem absolutamente nenhum tipo de laço afetivo com os bebês.
Logo em seguida, por força da infame lei cravada pelo Rei Abhartach Scarlune, essas crianças eram sumariamente atiradas em campos de treinamento militares brutais. Eram forçadas a executar missões de Caçadores reais para desenvolver seus talentos e forjar suas capacidades de sobrevivência desde a mais tenra idade.
Todavia, a natureza sempre cobra o seu preço. As primeiras gerações de Scarlunes que nasceram e cresceram sob essa nova lei despontaram no mundo infinitamente mais selvagens, fraturadas e implacáveis. Pior do que isso: a esmagadora maioria desenvolveu uma sede de sangue tão intensa e um desejo de matar tão incontrolável que, frequentemente, essa violência transbordava e se voltava contra a própria família.
Para evitar a autodestruição completa da linhagem, uma nova lei nasceu. Não para abolir a barbárie dos treinos infantis — o orgulho deles jamais permitiria tal retrocesso de fraqueza —, mas para forçar que as crianças passassem por esses infernos em equipes formadas por jovens da mesma idade. O objetivo era forjar um senso de união artificial, um companheirismo de trincheira fabricado para que sentissem, mesmo que de forma distorcida e doentia, algum pingo de apego mútuo.
Mas essa tentativa plástica de empatia não mudou em absolutamente nada a forma como o mundo os enxerga.
Até mesmo no prestigioso Grande Bestiário do Mundo, o traço dos Scarlunes como seres perpetuamente "desapegados de lares e laços" continua cravado em tinta — um fato ironicamente trágico, considerando que um dos próprios escritores responsáveis pela obra do bestiário era, ele mesmo, um Scarlune.
E o motivo para essa alienação global é brutalmente simples: o medo. O terror puro, cru e genuíno que o resto da humanidade tem de se aproximar demais e acabar devorado pela insanidade daquela família. Esse é o exato motivo pelo qual, mesmo sendo pessoas reais que respiram, caminham e sangram na mesma terra que os outros, essa linhagem aberrante continua sendo tratada e sussurrada como um "mito" nas rodas de conversa e tavernas do mundo.
Threshold já era um continente proibido, um pedaço de inferno evitado muito antes de os Scarlunes reivindicarem aquele abismo de gelo como lar. Mas é impossível não atribuir o fato de aquele pedaço do mapa continuar sendo um dos locais mais misteriosos e mortais do planeta à estadia permanente desses seres lá.
Afinal de contas, para que esses seres existem? O que essa raça colossal e quebrada realmente quer?
São perguntas que frequentemente borbulham à superfície quando estudiosos ou guerreiros ousam pensar sobre eles. Mas é muito provável que essas respostas permaneçam eternamente sepultadas no escuro. Escondidas e afogadas sob o lado mais gélido, opressivo e desolado de Alexandria. O lado em que qualquer Caçador, por mais forte que seja, pensa mil vezes antes de ousar pisar.
Parte 1
O zumbido morno que preenchia a estação de Invel estalou feito vidro quebrado. Em um piscar estático, a névoa quente perdeu sua magia; as majestosas carpas holográficas que nadavam pelo ar dissolveram-se em ruído visual, sendo engolidas por uma invasão de sinal que sequestrou cada painel e outdoor de neon da cidade.
Lá de cima, pairando sobre a plataforma, do tamanho de uma divindade de pixels, o rosto de Descora sorria para os passageiros recém-desembarcados. Grampos negros em forma de jogo da velha prendiam sua franja branca, moldando grandes olhos roxos que irradiavam uma perigosa mistura de tédio crônico e autoridade absoluta.
— Bom... — A voz dela ribombou pelas caixas de som, em uma frequência que fez o chão vibrar e abafou o uivo implacável da nevasca contra as cúpulas da estação. — Agora que consegui a atenção de todos, venho informar que, por causa de instabilidades magnéticas severas nas Linhas Ley do centro do continente, a nossa rota original precisou ser alterada de última hora. O tempo de viagem de vocês vai aumentar significativamente.
A massa de corpos na plataforma ondulou. O murmúrio de descontentamento ferveu no ar frio quase instantaneamente.
— Para evitar que vocês, queridos membros da nossa família, acabem se entediando e decidam se rebelar ou causar um caos apocalíptico nas cidades por onde vamos passar... e também para criar um entretenimento audiovisual de qualidade para os figurões que já estão mofando lá na capital central, eu tomei uma decisão. — Descora ergueu um dedo, os lábios curvando-se em um sorriso felino. — Eu decidi realizar uma grande competição. Um jogo entre os sortudos que tiveram as rotas alteradas. A partir de agora, vocês vão competir para ver quem consegue chegar primeiro à cidade central.
A praça de Invel explodiu. A multidão de Scarlunes começou a gritar e a reclamar em uníssono.
— Que palhaçada é essa?! Competição o cacete! A gente já fez toda a viagem até aqui! Por que não ficamos aqui mesmo em Invel e mandamos os nossos votos por correspondência praquela capital de merda?! — um homem corpulento abriu caminho aos empurrões, o hálito condensando enquanto rugia para o telão.
No holograma gigante, Descora mudou o peso do corpo, cruzando os braços com um revirar de olhos teatral.
— Porque seria impossível, seu gênio. Todas as cidades da fronteira já possuem uma faixa populacional estourando o limite. Um aumento populacional repentino de centenas de Scarlunes seria logisticamente inviável. Vocês ficariam brigando por alimento em dois dias. Sem falar que controlar todos os residentes extras e evitar chacinas nas ruas seria um problema cem vezes maior. — Ela suspirou, o tom caindo para uma frieza didática. — É exatamente por isso que todos os Scarlunes de fora do continente são levados até a cidade central durante as reuniões: porque lá existe um suporte absurdamente maior para abrigar esse circo todo e uma equipe de controle e supressão ampliada.
— Tá, então por que você não pega só uma parte do pessoal e deixa outra parte menor aqui pra aliviar a carga?! — outro Scarlune rebateu.
Descora levou a mão à boca e soltou uma risada nasal de puro deboche. Em seguida, ergueu uma lixa de unha digital e começou a limar as pontas dos dedos sem sequer olhar para a câmera. O som áspero do atrito ecoou pela praça.
— E aí, me responda com sinceridade: você iria querer ser o cara convocado para continuar a viagem no frio enquanto deixava os outros idiotas beberem e relaxarem aqui em Invel? O conselho ia ter que ficar mandando e dividindo grupos em outras viagens aleatórias até que tudo ficasse balanceado. — Ela assoprou o pó virtual das unhas e cravou o olhar no público, esmagando qualquer réplica. — Eu não conheço um único Scarlune na face desta Terra que seja altruísta o suficiente pra ceder a própria mordomia. Se eu fizesse isso, era óbvio que vocês criariam uma baderna colossal e se matariam aqui na plataforma pra decidir quem seriam os "sortudos" que iam ficar. Poupem-me da hipocrisia.
Pressionada no meio da multidão inquieta, Vivian ajeitou a luva negra. Com um movimento firme, levantou o rosto para o gigante de luz.
— Mas você disse que vamos passar por "outras cidades". Por que não podemos ir daqui diretamente para a cidade central?
As lentes das câmeras de segurança ao redor da praça zuniram, focando em Vivian. Descora respondeu diretamente para ela:
— Impossível. Durante esta época do ano, o lado norte de Threshold sofre anomalias que acabam atraindo muitos Majus. Aquelas bestas sempre fazem bagunça nos trilhos principais e acabam danificando as ferrovias. A viagem direta sempre é interrompida até que as varreduras e os consertos pesados sejam feitos. Seria arriscado demais arrastar três trens superlotados por lá agora. Um descarrilamento no meio dessa tempestade de Éter seria uma tragédia, não conseguiríamos resgatar vocês a tempo. Logo, não houve muita escolha a não ser direcionar as rotas pro norte e contornar a costa. Vocês terão que fazer pequenas viagens pingadas, de uma cidade para outra, antes de chegar ao centro.
O som de gelo quebrando acompanhou o chute furioso de Kai.
— Mas por que caralhos a gente tem que fazer esse joguinho idiota só pra você passar o tempo?! — gritou ele da calçada. — Não seria muito mais fácil e rápido não atracar em lugar nenhum e só fazer uma viagem contínua?!
Ao lado dele, Heisen abriu o único olho. A voz fria cortou o ar, podando a birra de Kai sem esforço.
— Não seja idiota. Você tem ideia de quantos suprimentos uma máquina daquelas gasta não apenas como combustível, mas para alimentar toda essa multidão e manter as mordomias ativas que deixam esse povo controlado? Se não fizermos paradas logísticas constantes para abastecer, os recursos acabam no meio do caminho e o trem inteiro vira um campo de guerra.
Kai trincou os dentes, estalando a língua no céu da boca em pura frustração por ter sido corrigido em público.
— Exatamente. O Heisen tem razão. — Descora apontou para ele na tela. — É por isso que as paradas são obrigatórias. Mas sobre a competição em si... existem dois motivos. O primeiro é que não é apenas para aliviar o meu tédio, mas o dos outros figurões que já chegaram à capital e estão sem paciência esperando os trens atrasados de vocês. Ter um espetáculo de sangue e suor para assistir vai acalmar os ânimos de todos.
Ela fez uma pausa. O sorriso diminuiu, e o peso de uma exaustão real cruzou seus olhos roxos, escurecendo a projeção.
— O segundo motivo é que, por conta dessa merdinha de viagem de "turismo" e burocracia de vocês, eu e os demais membros do conselho de vigilância ficamos infinitamente mais ocupados com a papelada e a segurança. Estamos trabalhando em dobro, então infernizar a vida de vocês é totalmente justo.
Ah..., Dante pensou, soltando a respiração pelo nariz. Você só tá querendo descontar a raiva do trabalho extra nas nossas costas.
— Mas eu sei que vocês não irão aceitar participar do meu jogo tão facilmente ou ficar empolgados de graça — Descora declarou, a voz subitamente caindo uma oitava, assumindo uma gravidade mecânica e assustadora. — Por isso, decidi tornar as regras do perdedor um tanto quanto especiais.
O holograma aumentou. A distorção visual fez os olhos de Descora parecerem perfurar a carne de cada passageiro na praça.
— Eu decreto que todos os desistentes, covardes e eliminados deste jogo serão sumariamente encarregados de catalogar toda a maldita papelada de fronteira de cada passageiro que pisou em Threshold. E tem mais: quando chegarem à capital, os eliminados serão aqueles que vão trabalhar no setor de atendimento burocrático e auxiliar diretamente as cidades menores e os Scarlunes comuns durante TODA a época da eleição!
Um silêncio muito mais denso que a nevasca despencou sobre a estação. O sangue drenou dos rostos dezenas de vezes mais rápido que o normal.
O terror na plataforma tornou-se quase sólido. Burocracia, atendimento ao público e responsabilidade atrelada a horários civis. Para a natureza de um Scarlune, era o apocalipse encarnado.
A plataforma estilhaçou em um caos de gritos desesperados e fúria crua.
— QUE PAPO É ESSE, DESCORA?! TÁ ACHANDO QUE É QUEM?! — QUE DITADURA É ESSA, SUA MALDITA?! — LEVA ESSA RESPONSABILIDADE PRA TUA MÃE, EU NÃO VOU FAZER ESSA MERDA DE ATENDIMENTO AO PÚBLICO!
A expressão de Descora no telão escureceu de vez. A garota não disse uma palavra, mas a pressão atmosférica dentro de Invel mudou. Através das caixas de som e da magia densa da transmissão, uma intenção assassina tão pesada e opressiva desceu sobre eles que o chão de gelo estalou em protesto sob as botas.
— Calem a boca.
Foi um sussurro. E calou a praça inteira em um único segundo.
— Se não gostaram da ideia da papelada, a solução é bem simples: ganhem a porra do jogo e se livrem dessa merda. Ou o que... estão me dizendo que estão com medinho de perder? Por acaso nenhum de vocês tem a curiosidade de saber de uma vez por todas quem entre vocês é o melhor e o mais rápido?
O ar tremeu. O pânico de catalogar planilhas bateu de frente com a soberba inata do genoma Scarlune, criando uma faísca volátil.
A intenção assassina devolvida pela multidão distorceu o próprio vapor da praça. Dezenas de auras se expandiram ao mesmo tempo, um choque térmico de adrenalina e magia. Sorrisos sanguinários rasgaram rostos, presas foram exibidas à luz neon e pupilas se dilataram em pura sede de combate.
Do meio do grupo, Shisui avançou, os passos silenciosos, os olhos letais fixos na projeção.
— Você não vai se arrepender disso depois, Descora? — O desafio escorria da voz de Shisui, carregado de uma confiança mortal. — Nos fazer ficar empolgados com esse banho de sangue e ainda ter a ousadia de nos ameaçar com papelada... Fique sabendo que, quando eu vencer essa merda de jogo, eu pretendo esfregar essa sua cara arrogante na lama, sua tampinha.
No monitor, Descora abriu um sorriso predatório. Ela inspirou fundo, deleitando-se fisicamente com todo aquele mar de hostilidade direcionado à sua garganta.
— É mesmo, é? Então faremos o seguinte. Como incentivo final para que vocês realmente se matem lá fora por essa vitória... eu prometo exatamente três coisas ao grande vencedor.
Ela ergueu três dedos, pálidos e digitais.
— Primeiro: o campeão terá a permissão formal e carimbada para sair mais cedo da Reunião Anual assim que se sentir à vontade após deixar o seu voto. Segundo: o ganhador levará as minhas economias de recompensas acumuladas do último mês. Eu não falarei o valor exato, mas já adianto que o prêmio passou dos seis dígitos limpos.
O ar rarefez de vez, suspiros engasgados cortando a praça. Mas ela não tinha terminado.
— E por último... o vencedor terá a mim. Vocês poderão fazer absolutamente o que quiserem comigo pela próxima semana inteira. Eu prometo que vou vestir a roupa mais vergonhosa de empregada submissa que encontrarem e realizarei qualquer, e eu repito, QUALQUER vontade do ganhador.
A praça colapsou. O anúncio varreu a multidão como uma onda de choque, incitando um furor animalesco nos competidores. Gritos, urros que arranhavam as gargantas e promessas de carnificina ecoaram até o teto de vidro de Invel.
Longe do frenesi bestial que engolia os civis, as engrenagens do grupo principal também davam uma guinada brusca.
Os olhos de Mio literalmente se acenderam na cor de cifrões de neon. A caçadora girou nos calcanhares, a baba ameaçando escorrer pelo queixo enquanto agarrava e chacoalhava os ombros de Beatrice com força brutal.
— ISSO, BEA! ISSO! Finalmente nós vamos conseguir grana de verdade pra bancar o nosso time pelo resto do ano! Nós precisamos vencer isso!
Beatrice sequer moveu o pescoço. A garota apertava a ponte do nariz com os dedos, o rosto contorcido em profundo nojo enquanto tentava se esquivar de uma legião de pixies de gelo que zumbiam e mergulhavam ao redor de sua jaqueta punk apenas para infernizá-la.
Enquanto isso, Kai estalou os nós dos dedos, um a um. Um sorriso maníaco curvou sua boca enquanto ele rotacionava o pescoço e mirava, através daquele mar de gente, o seu verdadeiro objetivo.
— Escuta aqui, seu merda — Kai rosnou, o dedo esticado como uma lâmina na direção de Dante. — É a nossa chance. Eu vou provar que sou superior a você no campo prático. Eu vou te esmagar até a linha de chegada e te forçar a carimbar papelada de gente morta pelo resto da...
Dante sequer piscou. Ele simplesmente ignorou a existência do clone, caminhando em linha reta e atravessando o espaço ocupado pelo dedo apontado como se Kai não fosse nada além de vento estagnado.
Os olhos de Dante ardiam. A lenha seca daquela humilhação colossal sofrida nas termas havia finalmente encontrado uma faísca. O foco dele era absoluto, cravado em um único e exclusivo alvo.
Sua marcha pesada amassou a neve derretida, até parar exatamente de frente para Cyfera. A arqueóloga o acompanhou com o olhar, a postura inabalável e elegante sustentando o próprio centro de gravidade no meio do pandemônio.
Dante não hesitou. A preguiça crônica que ele vestia diariamente como escudo esfarelou-se no ar.
— Ei. — A voz de Dante vazou entre os dentes, baixa, perigosa e afinada como a corda de um arco. — Você tinha me dito lá dentro que eu era alguém sem vontade, indeciso, levado pelos outros... e, por causa disso, eu era literalmente o pior tipo de pessoa possível para se ter um relacionamento.
Cyfera piscou devagar. O rosto de porcelana fria permaneceu inexpressivo, não recuando um centímetro das próprias palavras.
— Sim. E o que tem isso?
— Pois bem. — Dante cravou as pupilas nas dela. — Se isso for mesmo verdade... o que significaria sobre você, se alguém tão patético e vazio assim conseguisse te vencer de forma limpa em um jogo como esse?
Cyfera tombou a cabeça milimetricamente para o lado. Por um único segundo, os olhos da mulher de cabelos brancos capturaram a luz neon da praça e brilharam com a nitidez afiada e cruel de um predador do topo da cadeia. Os lábios se separaram em um sorriso minúsculo, mostrando os dentes.
— Você está escutando as besteiras que está dizendo, garoto? Você acha mesmo que pode me vencer?
Dante não cedeu espaço. Ele projetou o tronco para a frente, o calor de uma vingança pessoal queimando o oxigênio gelado entre seus rostos.
— Não é que eu ache. Eu tenho certeza absoluta de que vou te vencer e te deixar pra trás, Cyfera.
O olhar de Dante refletia uma determinação pura e quase distorcida, ressoando em perfeita sincronia com um sorriso de demônio que rasgou seu próprio rosto.
— E depois que eu cruzar aquela linha na sua frente... acho que você não terá escolha a não ser engolir o orgulho e retirar absolutamente cada palavra do que me disse hoje. Não é?
Cyfera sustentou o desafio, a aura dela pulsando em resposta. O sorriso predatório manteve-se esculpido em seu rosto enquanto a fricção da energia de ambos fervia o ambiente, derretendo a fina camada de gelo sob os sapatos deles e chiando nas poças da plataforma caótica. A guerra estava declarada.
Parte 2
O sorriso de Descora se alargou, distorcendo os pixels do holograma gigante. Com a atenção da praça inteira fisgada, ela começou a ditar as fundações do inferno logístico que acabara de arquitetar.
— O funcionamento dos jogos será o seguinte — a voz dela reverberou, tremulando contra o neon das fachadas de Invel. — Todos vocês serão divididos em grandes grupos, cada um representando um dos oito trens da nossa frota. Sim, eu sei que apenas seis atracaram aqui na cidade hoje, mas a teia logística engloba oito linhas. E cada um desses trens terá uma subdivisão menor de passageiros.
Ela ergueu a mão. No ar gélido, pequenos gráficos em neon brotaram ao lado de seu rosto, engrenagens virtuais ilustrando a mecânica da corrida.
— Em cada cidade em que atracarem, vocês passarão por testes gerenciados por um Representante Oficial daquele distrito. Esse representante terá autonomia absoluta para escolher a tortura... digo, o desafio que vocês deverão enfrentar. O objetivo é simples: concluam a missão e voltem para a estação. Após exatamente três horas do seu desembarque, o trem partirá para a próxima cidade da rota. Com ou sem vocês.
Um murmúrio rasteiro ondulou pela multidão, mas Descora atropelou qualquer raciocínio com o restante das regras.
— Se perderem a janela de embarque, só lhes restará sentar e chorar. Um novo trem chegará para buscá-los apenas três horas após o grupo original ter atracado na nova cidade. Mas prestem atenção à matemática: nesse meio tempo, a equipe que partiu na frente já poderá estar sujando as mãos na próxima missão. Quem for mais rápido e eficiente embarca primeiro e engole a vantagem geográfica da corrida.
A garota dos grampos deu uma piscadela sádica que iluminou a praça em tons de roxo.
— No entanto, não pensem que a vitória está garantida para quem largar na frente. É perfeitamente possível que um grupo líder acabe preso em um desafio absurdamente complexo mais à frente, permitindo que os trens de trás os alcancem e os engulam vivos. Em outras palavras... até mesmo a maior das vantagens apodrece se vocês não forem espertos.
Na plataforma de gelo, Beatrice balançou a cabeça de forma agressiva. Com um tapa no ar, espantou duas pixies translúcidas que tentavam puxar as pontas do seu cabelo.
— Mas que grande idiotice — a garota punk rosnou, cruzando os braços com força contra o peito.
Mio, cujos lábios se moviam silenciosamente enquanto tentava decorar as regras, virou o rosto para a amiga, a testa franzida.
— Por quê, Bea?
— Porque é um teste estupidamente indireto e burocrático — Beatrice argumentou, o estalo de sua língua soando nítido no ar frio. — Por que não fazer algo direto? Se a intenção é descobrir quem é o mais forte e o mais rápido, por que não soltar todo mundo numa arena ou forçar uma corrida de sobrevivência pura? Criar algo tão complexo, amarrado a horários de trem e cheio de fases assim? Não tem a cara deles.
Mio piscou, o peso da lógica de Beatrice ancorando em sua mente.
— Agora que você mencionou... é verdade.
— É perfeitamente normal que vocês, que vêm de fora, enxerguem a situação dessa forma.
A voz aveludada, profunda como o raspar de uma pedra antiga, soou logo atrás delas. O ar pareceu pesar quando Love Scarlune surgiu das sombras. O gigante loiro não sorria. A expressão radiante que ele carregava como um escudo havia desaparecido.
— Mas tentem observar ao redor de vocês — Love instruiu, num sussurro áspero.
Mio e Beatrice giraram os pescoços, varrendo Invel. E o que viram sugou o oxigênio de seus pulmões. A ficha, pesada e fria, finalmente caiu.
A praça estava submersa em um silêncio sepulcral. Onde, há apenas dois minutos, dezenas de Scarlunes berravam, expandiam auras assassinas e expunham as presas, agora não havia um único grito. A selvageria primitiva havia evaporado.
O único som era o zumbido mecânico. Grupos conversavam em sussurros rápidos e cortantes. Alguns já mapeavam o chão com os olhos, traçando topografias imaginárias; outros esquadrinhavam as engrenagens dos trens, calculando capacidades de carga e desgaste. Em um estalar de dedos, a turba de bestas sedentas de sangue convertera-se em um supercomputador de carne, dissecando as entrelinhas das regras, dissecando a própria cidade. Era a antítese perfeita da brutalidade que o mundo inteiro acreditava que eles possuíam.
— Nós fomos criados dessa forma — Love explicou, os olhos baixos. O tom carregava uma melancolia incurável, e a luz dos letreiros escureceu metade do seu rosto sereno. — Desde muito jovens, essa é a vida dos Scarlunes. O que a batalha física e o instinto representam para a biologia dos Dragões... os testes mentais representam para nós. Isso aqui? Esse circo de desafios lógicos, testes de QI amarrados à pressão psicológica e laboratórios disfarçados de jogos... essa sempre foi a nossa rotina infantil. Para a grande maioria de nós, esse jogo apenas transformou a viagem em um perturbador retorno para casa.
Como se para provar seu ponto, os sussurros de dedução pipocavam ao redor deles como faíscas.
— Quer dizer que oito trens vão sair daqui, e outros oito vão vir de outra cidade? — um Scarlune murmurava para o parceiro, os olhos estreitos focados no nada. — Isso significa que não podemos ir todos pela mesma rota linear. Daria uma desvantagem mecânica fatal para os trens que partissem atrás. O conselho vai dividir as partidas usando rotas e desvios diferentes.
A poucos metros dali, Koro se inclinou na direção de Shisui, empurrando os óculos pela ponte do nariz.
— Isso vai depender absurdamente da sorte também — avaliou Koro, a voz clínica. — Dependendo da cidade para a qual o nosso trem nos levar, e de quem for o Avaliador que aparecer, o teste pode bater de frente ou ser o pior pesadelo para as nossas habilidades.
Shisui assentiu. Um sorriso afiado e silencioso cortou seu rosto.
— Exato. Alguns Representantes podem cobrar puramente combate e carnificina. Outros podem proibir força letal e exigir o absoluto oposto. Temos que estar prontos para tudo.
Perto do grupo de Love, Dante já havia se trancado em seu próprio cofre mental. O polegar do garoto esfregava o queixo em um ritmo frenético, os olhos cravados na neve amassada aos seus pés, enxergando o tabuleiro dezenas de jogadas à frente.
— Se eles vão nos dividir pelos trens... é matematicamente óbvio que alguns testes precisarão ser feitos em equipe — Dante sussurrou, as palavras tropeçando umas nas outras. — Ou pior, a sinergia da equipe será a própria guilhotina na hora de filtrar quem avança de cidade...
Presa na órbita daquela tempestade de pensamentos, Anna deslocou o peso para o pé da frente. A garota loira abriu a boca para falar algo, os dedos hesitando no ar. Mas a concentração de Dante era uma muralha intransponível. Ele não registrou o movimento dela. A hesitação engoliu a coragem de Anna, e ela recuou meio passo, devolvendo a mão ao bolso.
Ao lado deles, Kai roía a unha do polegar até o sabugo, dissecando a própria ruína.
— Com janelas de três horas... é possível que só uma equipe passe do teste de cara. E se as missões forem um inferno de complexas, é capaz de todos os trens deixarem a cidade vazios antes mesmo de alguém conseguir completar a prova.
Enquanto os cérebros da família mastigavam os cenários, a mente de Justia cravou em uma peça do quebra-cabeça que flutuava ignorada sobre a cabeça de todos. A Scarlune de cabelos curtos ergueu o queixo, rompendo o zumbido tático com a voz em alto e bom som:
— Espera aí. Se cada cidade em que os trens atracarem vai ter um Representante... não vai me dizer que aqui em Invel também...
A dedução estalou como um chicote. Como um único organismo de centenas de cabeças, todos os Scarlunes interromperam os cálculos, giraram os pescoços e miraram o holograma.
No céu sintético, Descora abriu um sorriso largo.
— Bom... acho que vocês não precisam mais de mim por aqui — ela anunciou. A estática começou a mastigar as bordas de sua imagem. — Ela irá explicar o resto. Que os Jogos de Threshold comecem.
A transmissão piscou. O telão engoliu a luz, mergulhando a praça em escuridão parcial.
No milésimo de segundo seguinte, o oxigênio de Invel congelou. A temperatura despencou a níveis letais, rasgando o ar com um assobio agudo. O chão de concreto da plataforma estalou. Uma rede de gelo maciço e pontiagudo se alastrou a partir do centro, escalando as paredes das barracas próximas com o som de vidro sendo esmagado.
Lá do alto, rompendo a nevasca como um meteoro alvo, uma silhueta despencou.
O impacto cravou-se no centro exato da praça, e a onda de choque levantou um tsunami de neve cristalina e detritos congelados. O vento gélido chicoteou a multidão, forçando-os a erguer os braços para proteger os rostos da tempestade repentina.
Quando a névoa se dissipou, ela estava lá. Agachada no epicentro de uma cratera de gelo brilhante.
Os longos cabelos brancos flutuavam, sustentados pelo frio vivo que emanava de seu próprio corpo. Uma venda negra e espessa cobria-lhe os olhos, bloqueando o mundo. Mas a pressão no ar não deixava espaço para dúvidas: a aura esmagadora de uma predadora absoluta. Skadi Scarlune.
Ela se ergueu com uma lentidão controlada e letal, ajeitando a gola do sobretudo com um puxão suave. Sua voz cortou o último vestígio de calor na praça.
— Pois bem. A partir de agora, nós, os Flame Reapers, seremos os responsáveis por aplicar os testes de vocês aqui — Skadi decretou, inabalável. — Cada um de vocês irá passar por uma das minhas portas de gelo. Vocês irão marchar em grupos de oito em oito pessoas para tentar realizar os desafios.
No fundo da multidão, a mão de um Scarlune cortou o ar. O cérebro lógico encontrando a falha fatal no sistema.
— Espera aí! Se for assim, o primeiro grupo a tentar realizar o desafio tem, logicamente, uma chance muito maior de terminar o teste a tempo do primeiro trem! Como você vai decidir com precisão quem serão os primeiros oito a ir?!
A praça prendeu a respiração em uníssono. Esperavam um cálculo complexo. Um teste de resistência brutal de última hora. Um banho de sangue para decidir a linha de largada.
Nenhum músculo se moveu no rosto vendado de Skadi. Ela apenas ergueu a mão enluvada na altura do ombro.
— A ordem de largada será decidida em uma disputa limpa e oficial de Pedra, Papel e Tesoura.
Parte 3
A divisão dos grupos foi executada com uma eficiência fria e maquinal. Em poucos minutos de empurrões ríspidos e comandos breves, os primeiros oito selecionados foram enfileirados diante do teste. Não havia trens os esperando, nem catracas de ferro. A passagem era um imenso portal de gelo maciço, esculpido no próprio concreto da plataforma. A estrutura translúcida não se ancorava a nada, nem mostrava o que havia além, mas, ao ser cruzada, engolia o corpo do passageiro numa distorção silenciosa e pálida.
Mio piscou quando o brilho leitoso sumiu de sua visão. O uivo da nevasca da superfície morrera. Em seu lugar, o ar estagnado cheirava a ozônio e poeira antiga, e o eco de sua própria respiração rebatia num corredor subterrâneo forjado inteiramente em cristal e gelo negro.
Ela avançou. Os olhos dourados varriam o labirinto opressor, rastreando a arquitetura brutalista da natureza. Estavam nas veias profundas de Invel. Movida pela curiosidade, Mio espalmou a mão contra a parede negra e congelada. Um zumbido surdo viajou por seus ossos — a vibração rígida e inquebrável de magia estabilizada repeliu o calor de seus dedos.
— É... tentar atravessar quebrando as paredes na força bruta ou tentar me misturar a elas com Éter não vai rolar — murmurou para o corredor vazio. O peso de energia naquelas paredes era asfixiante. Aquele labirinto não era apenas uma construção; era absoluto.
Ela retomou a marcha, o som solitário das solas de suas botas picotando o silêncio da abóbada de cristal. A mente, porém, ainda mastigava o que havia deixado na superfície. O clima entre o grupo andava espinhoso. Durante a maior parte do discurso sádico de Descora, os olhos de Vivian metralhavam duas figuras distantes que Mio sequer reconhecia, encharcados de uma paranoia muda e febril.
Mio coçou a nuca, e um suspiro de exasperação desenhou uma pequena nuvem de vapor no ar.
— Ela e a Anna estão agindo de um jeito bizarro já faz um tempo. Droga... será que alguma coisa séria tá rolando nos bastidores e eu não vi nada? — O vinco de preocupação em sua testa não durou muito. Evaporou tão rápido quanto o vapor de seu suspiro, sendo logo substituído por um sorriso largo e cobiçoso. — Bom, eu só espero que o que quer que seja não atrapalhe a minha nova e brilhante aquisição de renda! Com o dinheiro daquele prêmio, vou poder estocar lanchinhos e besteiras para uns seis meses inteiros sem me preocupar com mais nada! Hahaha!
CRASH!
O estrondo colossal de Éter estilhaçando o gelo fez os pelos da nuca de Mio se eriçarem. Um reflexo instintivo a fez saltar para trás. Ela havia acabado de deixar o corredor apertado, pisando nos limites de uma vasta câmara esférica.
Enquanto a poeira de cristal cintilante assentava, ela avistou Justia. A garota de cabelos curtos estava escorada perto da entrada, roendo os nós dos dedos, acompanhando o caos da arena. No centro geométrico do campo de gelo liso, a cobaia da vez não passava de um borrão frenético. Era uma garota de cabelos milimetricamente bicolores — metade marrom-escura, metade branca. Delta.
Com um rugido ensurdecedor, Delta disparou, as mãos à frente moldando um feixe violento de magia incandescente. Mas, um milésimo antes do impacto, a gravidade ali pareceu inverter. O chão gemeu e vomitou uma placa retangular maciça de gelo polido. Um Monólito. O feixe colidiu contra a superfície espelhada. A barreira não rachou; ela engoliu o clarão, devorou a assinatura de energia da garota e, no instante seguinte, expeliu-a de volta com 100% de letalidade e precisão.
O próprio ataque estourou contra o peito de Delta, erguendo-a do chão num solavanco brutal e arremessando-a pelo ar até capotar feio contra a borda de cristal.
— Viu só?! — Justia reclamou, a voz estridente de estresse. — Realmente não funciona bater de frente com aquilo!
Mio caminhou lentamente para a lateral, ajeitando a jaqueta enquanto avaliava a destruição.
— E aí? Do que é que vocês estão brincando?
Justia girou o pescoço quase rápido demais e estourou, a voz esganiçada ecoando:
— E ONDE É QUE ISSO AQUI TÁ PARECENDO UMA BRINCADEIRA PRA VOCÊ?!
Lá do outro extremo da câmara, o silêncio foi cortado por uma risada. Kraken, o Examinador, ostentava um sorriso enorme. A postura dele era absurdamente frouxa; dominava o campo inteiro sem sequer flexionar os joelhos.
— Foi uma boa ideia mandar três direto para esse lado, Skadi... — Kraken riu, e sua voz grossa arranhou as paredes. — Mas, se todas forem desse nível patético, absolutamente ninguém vai passar daqui hoje.
A arrogância perfurou o pavio curto de Mio. Ela estreitou os olhos e pisou firme no chão liso, as mãos fechando em punhos pesados, mais do que disposta a invadir a arena e ensinar ao examinador os princípios básicos da concussão.
— Não venha! — A voz de Delta cortou a caverna, rouca e mastigada pela dor. Ela se apoiava nos joelhos esfolados para levantar e cuspiu uma gota de sangue no piso. — Essa ainda é a minha vez! Eu não vou deixar um idiota convencido como ele vencer!
O desdém banhou a risada de Kraken.
— Não vai adiantar tentar de novo. Você não aprende? As suas magias são simples, lineares. Rudes. Dessa forma, você nunca vai encostar um dedo em mim.
Enquanto a pressão voltava a pesar no centro do ginásio, Justia recuou meio passo, aproximando-se do ombro de Mio.
— Você foi a terceira pessoa que chegou aqui — sussurrou Justia, tensa. — Eu achei que os demais deveriam estar espalhados em outras salas, mas talvez a Skadi tenha jogado nós três juntas para tentarmos passar dessa fase ao mesmo tempo. Porque o Kraken é um problema ambulante.
Ignorando a tensão palpável, Mio pescou uma barrinha de proteína no bolso, prendeu a embalagem nos dentes e a rasgou com um puxão rústico. Ela deu uma mordida generosa, mastigando devagar, como se avaliasse o filme em cartaz.
— E por que exatamente esse tal de "Gaget" é tão perigoso assim? — perguntou de boca cheia.
— É Kraken! — Justia fuzilou Mio com um olhar mortal. — Você não prestou atenção em absolutamente nada da mecânica dele, né?!
No tablado mortífero, Delta silenciou o diálogo periférico. Com uma fúria crua, partiu numa investida kamikaze. O ar em volta de seus pulsos ferveu, mas Kraken nem piscou; apenas ergueu o dedo indicador.
A geologia respondeu. Dezenas de Monólitos brotaram do chão com estampidos violentos. Delta usou a velocidade para flanquear, saltando sobre as bases irregulares, mas Kraken leu a trajetória. Um pilar de gelo negro e denso se desprendeu do teto como uma estalactite assassina. Delta reagiu no ar, vomitando uma espiral infernal de fogo para incinerar o projétil.
O fogo lambera a superfície espelhada do Monólito que surgira ali. E o counter absoluto funcionou.
A chama foi engolida e instantaneamente regurgitada na forma de um pilar de fogo concentrado. O golpe reverso carbonizou o oxigênio, fulminando a defesa de Delta. O impacto subsequente do bloco de gelo a atingiu como a mão de um gigante, arremessando-a com violência repulsiva contra as rochas.
O chão de toda a câmara vibrou. No centro da cratera improvisada, o corpo quebrado de Delta lutava por oxigênio. Hematomas floriam, e as bordas de suas roupas fumegavam.
Kraken balançou a cabeça em falsa pena.
— Viu só? Desse jeito rude, você só vai repetir o mesmo ciclo imbecil até a morte. Use a sua cabeça, sua idiota.
Delta travou a mandíbula até os dentes rangerem. Ela afundou os dentes no próprio lábio até que o gosto de cobre amargo lavasse a língua.
— CALA A BOCA! — O urro dela rasgou a garganta. — Vocês falam como se fosse fácil! Falam como se bastasse "parar um pouco, pensar", e magicamente a resposta apareceria! Os únicos idiotas que acham que o mundo funciona assim são os abençoados que nascem com maldito talento!
As botas de Delta afundaram, cavando uma base firme no gelo. A aura em torno dela se contorceu, instável e raivosa, como um animal acuado.
— Para as pessoas normais, não é fácil assim! Às vezes, não existe uma resposta pronta! Há coisas que as pessoas sem talento simplesmente não podem resolver pensando! Nessas horas, a única coisa que nós podemos fazer é ficar repetindo o mesmo ciclo miserável. De novo. E de novo. E de novo. Até a porra de uma solução aparecer!
Ela disparou de novo. A mesma rota suicida. O dedo de Kraken subiu. Os Monólitos romperam o piso.
Mas a dança quebrou o compasso.
Delta não atingiu as placas. O processamento tático cobrou o preço do sofrimento. Ela derrapou pela direita do primeiro bloqueio. Atirou o corpo rente ao chão, deslizando sob a lâmina gélida do segundo. E, com um giro de eixo contorcionista, a lança que caiu do teto cortou o ar a apenas alguns fios de cabelo de distância de seu rosto.
Os movimentos dela carregavam o fardo fantasma de ter morrido mil vezes. Ela havia decupado o padrão do divino.
No entanto, a mente febril de Delta rosnou em silêncio, os olhos vidrados na figura de Kraken. O que se faz durante essas várias tentativas fracassadas... é o que diferencia alguém que pode e alguém que não pode derrotar um gênio, seu merda.
Observando dos limites da arena, as pupilas de Justia se dilataram ao máximo. A percepção finalmente a esmurrou. Em cada investida canhestra, Delta não estava apenas servindo de saco de pancadas; ela estava calibrando os sensores. Observou a contração mínima do tríceps de Kraken; mapeou a resposta instintiva dele para esquivas verticais; cronometrou o tempo de reação de sua presunção e identificou a microabertura em sua guarda no momento de tédio.
— Incrível... — o sussurro de Justia estava carregado de pavor reverencial. Aquele nível de cognição bruta sob risco de morte era algo alienígena, especialmente em quem sequer ostentava o fardo do nome Scarlune.
Delta rasgava a arena. Costurando as lâminas de gelo como uma agulha enraivecida.
Einstein uma vez falou que repetir o mesmo processo várias vezes esperando resultados diferentes era nada mais que a mais pura e cristalina loucura, o pensamento latejou enquanto a distância era obliterada.
Ela saltou. O último pilar colossal barrou a vista. Ela não freou; esmagou a bota na pedra lisa, executou uma cambalhota impecável por cima do bloqueio visual e despencou do céu, caindo exatamente na rota vertical de Kraken.
No entanto, há uma coisa importante de que as pessoas se esquecem. Para um Sem-Talento vencer alguém que transborda talento, não basta ele apenas se esforçar.
O Éter nos braços de Delta entrou em fusão nuclear. O ar ao redor se distorceu com o calor extremo, um zumbido letal antecipando o holocausto.
É necessário que essa pessoa tenha a capacidade de repetir a mesma tática mil vezes sabendo que vai perder. Para somente, e apenas no fim... ela realmente vencer! Em outras palavras... para um medíocre superar um gênio, ele tem que ter a loucura obsessiva de um Demônio, seu idiota!
O feixe de pura aniquilação explodiu de suas palmas a menos de meio metro do alvo.
BOOOOOOM!
A detonação engoliu o som. Uma cúpula titânica de chamas devorou o centro da câmara, calcinando o gelo absoluto e sepultando tudo num caos turbulento de vapor superaquecido e fumaça escura. A onda de choque fez Justia vacilar.
Os punhos da garota Scarlune tremiam, uma risada incrédula querendo escapar.
— Ela conseguiu... — Justia murmurou. — Aquela garota... ela realmente conseguiu derrotar o Kraken na base da pura tentativa e erro!
Ao lado dela, Mio empurrou o último naco pegajoso da barra de proteína para dentro, engoliu com esforço e, muito lentamente, meneou a cabeça.
— Você tá muito enganada. — A voz da caçadora era como lixa áspera, drenada de qualquer otimismo fútil.
A ventilação fria começou a puxar a fumaça para o alto. O vapor começou a ralar. E a verdade do campo se desenhou.
Delta não estava de pé. A silhueta bicolor jazia prensada contra a rocha profunda da caverna, fundida em uma cratera de gelo esmagado, destroçada pelo coice esmagador da própria força colossal.
E no epicentro do impacto, envolto na neblina dissipante, Kraken não tinha um fio de cabelo fora do lugar. Ao redor dele, três Monólitos de Gelo Absoluto haviam se fundido em um abraço perfeito, erguendo uma muralha esférica que absorvera cada joule da aniquilação de Delta e devolvera tudo, em 100% de intensidade, direto para a carne dela.
O Examinador cruzou os braços lentamente, e um sorriso predatório de desprezo trincou seu rosto.
— Sua idiota. Acreditar cegamente que "esforço e repetição" superam o poder absoluto... — Kraken sorriu, os dentes brilhando no escuro, o eco de sua voz sentenciando o túmulo da garota. — É exatamente isso que um medíocre de verdade faria.
Parte 4
Do outro lado da arena despedaçada, Justia assistia ao desenrolar com os punhos cerrados até os nós dos dedos empalidecerem. A garota mordeu o próprio lábio inferior com tanta força que um filete metálico de sangue lavou sua língua. Ela realmente havia comprado a aposta; no fundo, tinha acreditado que, dessa vez, a loucura kamikaze de Delta despedaçaria aquela muralha.
O vapor superaquecido ainda girava no ar quando Delta se mexeu. Cada músculo do corpo dela berrava em agonia crônica, mas ela cravou os dedos ensanguentados nas fendas da parede de cristal rachada. Com um chiado rasgado na garganta, forçou o próprio peso para cima. As pernas tremiam violentamente, mas ela se recusou a permanecer no chão.
Kraken acompanhou o esforço patético com a frieza acadêmica de quem observa um inseto se debater.
— Você precisa entender como a realidade funciona, garota — a voz dele ecoou pela abóbada gélida, macia e carregada de uma superioridade impenetrável. — Neste mundo, a manipulação de Éter governa a espinha dorsal de tudo. É um fato inegável que a repetição, a tentativa e o erro, lapidados ao longo de séculos, podem um dia suplantar o talento nato. Mas achar que uma dúzia de mortes simuladas num surto de desespero mudaria a equação dessa luta é de uma ignorância brutal. Não fará diferença alguma.
Ele estendeu as mãos enluvadas, gesticulando para a vastidão de gelo da caverna, como um professor em seu púlpito.
— Pense, por exemplo, na fundação das raças. Os Scarlunes podem ser venerados como a linhagem mais talentosa da atualidade. Mesmo com nossa breve existência de alguns milênios, nós já escalamos a cadeia alimentar como uma das espécies mais mortais do globo. E, no entanto... ainda somos crianças se comparados à maestria profunda dos Elfos, que atravessaram eras. Para forjarem o poder que têm, os Elfos repetiram e refinaram as mesmas magias, incessantemente, por milhares de anos, até condensarem uma forma de Éter tão absoluta que nenhum talento Scarlune jovem ousa desafiar sem um sacrifício formidável.
O olhar de Kraken despencou em repulsa, cravando-se em Delta.
— Mas você... achar que pode replicar essa perfeição temporal instantaneamente apenas mastigando "força de vontade"? Isso só atesta a sua burrice congênita. Até mesmo para ter a capacidade de se esforçar de forma produtiva, é necessário talento. É necessário o berço de um escolhido. Se você nasceu como alguém medíocre, defeituosa na base do seu código, é impossível reescrever esse roteiro. O teto da sua força já foi carimbado no dia em que você respirou pela primeira vez.
Delta rosnou, o ódio fervilhando nas rachaduras dos hematomas de seu rosto. Ela dobrou os joelhos trêmulos, preparando a mola para mais um mergulho suicida. Mas, antes que a bota saísse do chão, uma sola se plantou firme diante dela, servindo de barreira física.
Mio havia se colocado entre a garota machucada e o examinador.
Delta abriu a boca para cuspir um protesto encharcado de sangue, mas Mio espalmou a mão na altura do peito, podando a reclamação na raiz.
— Nem vem dizer alguma coisa. É um fato deprimente que você perdeu feio, então fica aí sentadinha esperando a minha vez.
Delta engasgou. O choque do insulto bateu de frente com a verdade granítica daquelas palavras, travando sua garganta.
Mio não virou o rosto para trás, mas ergueu o polegar e apontou para o próprio peito. Um sorriso largo e descarado, digno de um herói de filme barato, iluminou seu perfil.
— Mas não se preocupe! Eu cheguei agora e juro solenemente que vou vingar a sua morte trágica, Usami!
Delta piscou, atordoada. A dor aguda esvaziou-se, afogada numa onda de confusão enraivecida.
— QUEM É QUE VOCÊ TÁ DIZENDO QUE MORREU?! EU AINDA TÔ VIVA! — a garota de cabelos bicolores berrou. — E que diabos de papo de "Usami" é esse?! Se você não sabe o meu nome, não fica inventando apelidos bizarros do nada!
Ignorando majestosamente o chilique da garota a quem ela acabara de sentenciar ao "descanso eterno", Mio cravou as pupilas douradas em Kraken. A caçadora descansou as mãos na cintura. A postura relaxada e atrevida desossava qualquer sombra de respeito pela aura predatória do oponente.
— Você fica aí plantado, vomitando todas essas coisas complicadas e cheias de pompa, se apoiando nessa sua força pra tentar pagar de filósofo torto... mas a mim você não engana! — Mio esticou o braço, o dedo indicador fuzilando o meio dos olhos do Examinador. — Gaget, eu sei muito bem que, lá no fundo, você é só um grande de um idiota!
A veia na testa de Kraken pulsou, grossa e roxa. O verniz aristocrático do Scarlune trincou no mesmo segundo.
— QUEM É QUE VOCÊ TÁ CHAMANDO DE GAGET?! MEU NOME É KRAKEN, SUA IMBECIL!
Ele fechou os olhos. Os ombros subiram e desceram lentamente enquanto ele inspirava, forçando a aura cortante da caverna a anestesiar a fervura em seu sangue.
— Se você também está falando esse monte de besteiras com tanta confiança... — Kraken resmungou. Ao abrir os olhos, o desprezo absoluto retornara. — Significa que você não passa de outra medíocre barulhenta. Pelo visto, a Skadi resolveu varrer todo o lixo do grupo diretamente para os meus pés.
Mio deu de ombros, as mãos no bolso da jaqueta, o sorriso inabalável.
— Talvez seja. Afinal, desde o dia que eu nasci, todo mundo fez questão de dizer que eu era uma bela de uma falha esquisita.
Kraken ergueu a mão direita. O ar ao redor de seus dedos estalou. A umidade da caverna já começava a se cristalizar e condensar em minúsculas lanças flutuantes de gelo letal.
— Eu já imaginava a sua mediocridade. Sendo assim, a equação dará exatamente o mesmo resultado. Vou te esmagar até você—
— Espera.
A palavra, limpa e incisiva como um bisturi, decapitou a tensão. Justia Scarlune caminhou para o círculo central. A postura dela estava reta, e uma nova luz gélida brilhava em seus olhos escuros. Ela parou perto do ombro de Mio e estendeu a mão na direção das sombras, onde a garota machucada ofegava.
— Você também. Venha para cá.
Ao assistir à mobilização, Kraken abafou uma risada nasal. Então... a princesinha finalmente decidiu sujar as mãos, Justia Scarlune.
Mio tombou a cabeça para o lado, arqueando uma sobrancelha.
— O que foi, Justia?
— Eu finalmente entendi a estrutura da habilidade dele — Justia declarou. O volume era baixo, mas a voz vibrava com a letalidade de uma certeza matemática. Ela acompanhou Delta, que mancava para perto, antes de continuar. — Graças às mortes encomendadas da Delta, eu vi o código. Eu descobri a brecha para implodirmos a defesa absoluta... mas, para funcionar, nós três teremos que sincronizar isso juntas.
A afirmação secou a boca de Delta. Os olhos bicolores se arregalaram.
— A falha estrutural da defesa dele é um gargalo de processamento tático — Justia explicou, as palavras rápidas e precisas. Seus olhos não saíam das lanças ao redor de Kraken. — Quando o Monólito de Gelo Absoluto reflete a magia, não é a placa de gelo que faz o trabalho bruto. É ele. Todo o fluxo de Éter e o peso da concentração mágica dele são drenados do ambiente e injetados num único monólito, no exato milésimo de segundo da colisão de impacto. É isso que força a reflexão de 100%.
Justia cerrou os punhos, a curva de um sorriso predatório desenhando sua boca.
— Mas isso cria um ponto cego sistêmico gravíssimo: o gargalo. Ele só pode rebater uma única fonte de energia concentrada por vez. Se nós três engajarmos juntas, esmagando-o de três vetores diferentes, coordenando a detonação para estourar no microrsegundo em que o canal de processamento dele estiver focado na reflexão de uma de nós... a blindagem racha. E ele cai.
Delta paralisou. O fôlego travou nos pulmões machucados.
Para enxergar uma anomalia microscópica na teia de energia durante o inferno sensorial que fora aquela batalha... a genética da garota teria que ser obscena. Justia não havia apenas assistido aos combates; ela usara seu sistema nervoso como um radar tridimensional, decupando o trajeto invisível do Éter entre Kraken e os monólitos a cada pulso de impacto. Era uma monstruosidade intelectual.
— E então? — Justia virou o rosto para Mio e Delta. — Vocês estão prontas para sujar as mãos em cooperação?
Do outro lado do gelo, os ouvidos de Kraken captaram cada sílaba sussurrada. A postura frouxa dele endureceu. A arrogância sádica sumiu dos olhos, substituída por um brilho tático de cautela.
Justia Scarlune... Kraken afiou o pensamento, dissecando a adversária. Se bem me lembro do arquivo, ela fez parte do esquadrão infantil do Blade. É uma das que escaparam daquela infame "Geração Problema". O relatório dizia que ela ostenta um nervo óptico mágico capaz de ver a textura do Éter, algo que os arcanistas seniores sequer compreendem.
O sorriso afiado do Examinador retornou, agora molhado de pura antecipação.
Se há alguém nesse chiqueiro capaz de me entregar um abate digno, é ela. Se a princesinha fosse do tipo mimada que morre engasgada no próprio orgulho e recusa o trabalho em equipe, nem os malditos "olhos de Deus" a tirariam viva daqui. Mas a porra daquela "Geração Problema" sempre teve uma flexibilidade mental nojenta quando o assunto é tática. Ela nem cogitou antes de estender a mão para uma estranha e uma escória medíocre. Inferno... se eu piscar e subestimá-las, essas três vagabundas realmente me afundam.
O ar na câmara parecia prestes a estourar. O plano era letal, a teoria era irrefutável e a aliança estava firmada.
E foi então que Mio quebrou o tabuleiro. A caçadora virou-se para Kraken e, como uma criança na primeira carteira, ergueu a mão para cima.
— Ei, espera. Afinal de contas, eu esqueci de perguntar isso ali na entrada... mas o que exatamente a gente tem que fazer para ganhar carimbo de aprovação nesse teste?
O silêncio reinou na câmara por longos dois segundos. A quebra cômica da tensão atordoou Kraken.
— É... verdade. Eu não cheguei a ditar as regras antes do primeiro combate começar... — Ele pigarreou, readaptando-se. — Tudo o que vocês precisam fazer é chegar e atravessar aquela porta de chumbo logo ali, na parede atrás de mim. Simples assim.
Mio piscou os grandes olhos dourados.
— Ah. Então esfregar a sua cara no chão não é um requisito obrigatório?
— Não. — O desdém molhou a risada de Kraken mais uma vez. — Mas é claro que, enquanto eu tiver sangue correndo nas veias e oxigênio nos pulmões, eu não planejo deixar ninguém dar um único passo além das minhas costas.
Mio abriu um sorriso gigantesco. Uma faísca violenta de euforia crua acendeu nas íris escuras da caçadora.
— Saquei! Entendido!
Com um movimento brusco, ela girou nos calcanhares, deu as costas para a Scarlune genial e para a garota mutilada e juntou as palmas das mãos num gesto animado de reverência apologética.
— Foi mal pelo vacilo, meninas! Mas eu vou pular essa ideia de cooperação! O plano mirabolante de vocês é genial, mas acho que vou rasgar esse teste do meu jeito mesmo! Sozinha!
O maxilar de Justia quase bateu no gelo.
— Por quê?! — O sibilo de Justia estalou como um chicote, a fleuma Scarlune evaporando na indignação. — O seu orgulho burro só vai foder o esquema! Se você mergulhar sozinha, ele vai te devolver numa caixa, exatamente como fez com ela!
Mas o cérebro de Justia pivotou num piscar de olhos. A mente dela engatou a marcha tática, reprisando o diálogo de Mio. Espera... ela perguntou as regras para a porta. Justia estreitou os olhos, a frequência cardíaca acelerando. Será que... ela já decodificou uma falha cega na defesa dele e pretende simplesmente transpor os Monólitos e atravessar, ignorando o combate? Se há uma fenda estrutural na cortina de gelo que permite a evasão direta, o radar sensorial dessa mulher teria que ser muito superior ao meu para conseguir enxergar os pontos cegos da caverna. Justia apertou as mãos. Será que foi isso... ou é apenas burrice cega querendo inflar o ego numa vingança vazia?
Encostada na rocha esmagada, Delta apenas assistiu, os olhos vazios acompanhando os passos lentos de Mio até parar na linha de tiro frontal contra Kraken.
— Não — Delta murmurou. O tom quebrado roubou a atenção de Justia. — Aquela maluca... ela não tá indo pro abate de cabeça vazia. E eu garanto, ela não está carregando o peso de um ego ferido ou cega de vingança por mim.
Justia girou o pescoço. O vinco de dúvida dividia sua testa.
— Eu não consigo ler uma vírgula do que está na cabeça dela agora — Delta confessou, cravando os olhos nas costas da caçadora. — Talvez aquela discurseira barata daquele merda tenha coçado o nervo dela, sim. Mas não a ponto de apagar a linha da razão e empurrá-la pro suicídio tático.
— E de onde você tira isso? Vocês já se trombaram antes da viagem?
— Não, nunca cruzei com a cara dela antes da estação — Delta negou, a cabeça recostando no cristal frio. — Mas eu não preciso de intimidade pra fazer essa leitura. Eu leio porque é experiência própria. Como uma cadela que comete o pecado frequente de deixar a bile e a frustração afogarem o cérebro durante uma luta... eu tenho um radar cristalino pra reconhecer quando alguém mergulha no mesmo poço. E eu aposto a minha vida... o que quer que esteja movendo essa garota agora, definitivamente não é a raiva.
Justia transferiu o olhar de volta ao centro de operações de gelo. A ansiedade era um veneno gélido circulando em suas veias. O que diabos poderia ser, então?
A poucos metros, Kraken sustentava o olhar contra a caçadora parada na sua frente. E a engrenagem analítica do Examinador fumegava, tão desestabilizada quanto a das estrategistas na retaguarda.
Essa garota não está sob o efeito da fúria, o diagnóstico clínico de Kraken bateu, enquanto a primeira gota de suor frio escorria na curva de sua nuca. Ela não está espumando Éter num surto, e as pupilas estão focadas demais para quem está perdendo a sanidade. Então... o que justifica essa autoconfiança nojenta?
O Examinador correu os olhos pelas paredes de puro perigo que ele mesmo havia forjado.
Será que ela farejou uma passagem furtiva pelas sombras da caverna? Impossível. O meu Gelo Absoluto não possui pontos de fuga. Para cruzar os meus limites com vida, ela seria obrigada a engolir a coleira e trabalhar na maldita formação que a Scarlune propôs. É o único caminho matemático. Enquanto eu estiver de pé no centro de um ecossistema infestado de umidade, onde as minhas paredes brotam de qualquer centímetro do chão, teto ou rocha... é fisicamente intangível que ela me quebre sozinha.
O raciocínio de Kraken era à prova de balas. E, no entanto... seu instinto primitivo berrava em alarme vermelho.
Então... por quê? O pomo de adão de Kraken subiu e desceu numa engolida seca. Por que, quando eu olho pro abismo negro no fundo das pupilas dessa garota inexpressiva, eu sinto o cheiro nauseante do medo? Por que eu me sinto como um rato num beco sem saída... encarando o sorriso da morte?
Ele cravou as próprias unhas nas palmas até que a dor ancorou sua mente e varreu a intuição irracional. Kraken ergueu o queixo, estufando o peito, restaurando o manto de divindade cruel.
— Pois bem. Já que quer o abate solo... vomite o seu nome, garota.
A curva nos lábios de Mio se acentuou. Era um sorriso pacífico, mas que transpirava um nível assustador e magnético de segurança em si mesma.
— Humm... bom, Gaget, o meu nome é Mio Mortifer. Muito prazer em finalmente cruzar espadas com você! — Ela lançou uma piscadela infantil. — Mas como Mortifer deve ser muito denso para o seu cérebro de peixinho de aquário processar, eu vou facilitar e deixar que você me chame carinhosamente de Mestra Mio Mortifer.
Atrás, Justia e Delta afundaram o rosto nas mãos num desespero mudo. A estúpida acabou de deixar o nome mais longo e insuportável de decorar!
Mio quebrou a base de apoio. Os joelhos flexionaram, e o centro de gravidade colou no chão. Quando os calcanhares se fixaram no gelo, a postura de combate fluiu. Uma aura invisível, silenciosa, mas indescritivelmente massiva, vazou dos poros da caçadora, pesando no ambiente e sufocando as correntes de ar na caverna.
— Então! — A voz de Mio explodiu com a energia estonteante de quem mal via a hora de manchar a neve de vermelho. — Acredito que já tenha decorado. Agora eu posso começar a esmagar as coisas, né, Gaget?!
Parte 5
Nas altas crônicas de Elysium, em uma cidade cujo próprio nome exalava nobreza, o continente prendeu a respiração para comemorar o nascimento de três irmãs. Filhas da realeza, herdeiras de linhagens antigas e absolutas. A história delas não era apenas um registro; era o forjar de uma lenda que reescreveria as leis do mundo conhecido.
A primogênita rasgou a realidade como um paradoxo. Despertou com uma habilidade Gifted, mas carregava uma afinidade abissal com a magia pura — forças que as leis biológicas ditavam como conflitantes, opostos que jamais deveriam coexistir sob a mesma pele. Abençoada pelas fadas, ela era um milagre que respirava, esculpida para iluminar a escuridão e carregar o destino do reino nas costas. Em seu nascimento, uma das Oito Videntes do Mundo cravou sua profecia: aquela garota seria a lâmina implacável que, um dia, deceparia o mal pela raiz.
A irmã do meio nasceu sob uma estrela diferente. Também Gifted, mas com os olhos completamente cegos para o dom da magia. A biologia, no entanto, equilibrou a balança de forma assustadora. Suas reservas de Éter eram um oceano turbulento. Aos cinco anos, a pressão de sua aura já sufocava Caçadores veteranos. Seu verdadeiro domínio não se limitava ao intangível; ela devorava o mundo físico. Esgrima, etiqueta, condicionamento, erudição e beleza. Tudo o que ela tocava era elevado à perfeição. Enquanto a primogênita herdou os céus, a segunda filha nasceu para subjugar a terra por meio do esforço mais puro, metódico e excruciante.
Com dois titãs habitando os mesmos corredores, o peso da expectativa esmagou o ventre da mãe pela terceira vez. A corte prendeu a respiração, aguardando que tipo de milagre divino despontaria para selar aquela trindade perfeita.
Mas a garota que nasceu, alheia a toda a glória que o mundo exigia, veio ao mundo quebrada.
Ela era frágil. Não possuía reservas densas de Éter, não manifestou nenhuma habilidade especial e era surda para qualquer ressonância mágica. Pior: seu corpo não exibia um único traço da imponência genética de sua raça. Aos olhos da corte, ela respirava e sangrava apenas como um ser humano mundano.
Por algum sadismo da genética, aquela criança era um castelo de vidro. Seu vigor físico era tão precário que o simples ato de permanecer acordada por algumas horas drenava sua vida. Não havia ar nos pulmões para correr pelas pedras do pátio, não havia força para brincar, e muito menos estrutura para suportar o peso de uma espada.
Aterrorizados pelos sussurros envenenados da corte, pelas comparações impiedosas que a devorariam viva e pelo fardo de seu próprio sobrenome, os pais recuaram. Em um ato de amor cego e desesperado, eles a trancaram. A caçula foi confinada à penumbra de seus aposentos, selada do mundo sob a justificativa de que estaria sempre segura. Sempre protegida.
Mas a gaiola de veludo asfixiava. Ser forjada no amor não impediu que o isolamento doesse muito mais do que a decepção pública jamais doeria.
Na escuridão do quarto, o silêncio era preenchido apenas pelo zumbido de sua própria mente. Eu fiz algo errado? A culpa é minha por ser tão defeituosa? Eu sou um fardo para os meus pais? Teria sido mais fácil para eles se... se eu simplesmente não tivesse nascido?
Todas as noites, esmagada pelo teto que a protegia, a garota chorava até a exaustão física arrastá-la para o sono.
Até a tarde em que as dobradiças da porta rangeram.
A irmã do meio cruzou a soleira. Seus passos eram duros, rítmicos. Ela nunca havia pisado naqueles aposentos. A caçula, encolhida entre os lençóis emaranhados, paralisou. Os olhos enormes e assustados acompanharam a intrusa marchar até o fundo do quarto.
Com um solavanco violento, as pesadas cortinas foram arrancadas e as fechaduras das janelas, abertas. A luz crua do sol invadiu o quarto de assalto. O vento frio cortou a estagnação, varrendo o cheiro de mofo e autopiedade. A irmã virou-se. A postura era ereta como uma lança, os olhos ardendo em severidade.
— Que ideia é essa? — A voz cortou o ar como a lâmina que ela empunhava nos treinos. — Só porque ninguém vem aqui te ver, você acha que as coisas podem ficar assim? Eu não vou deixar.
Não houve espaço para recusa. Gritando e ignorando a lentidão arrastada da caçula, a irmã do meio a arrancou da cama. Forçou as pequenas mãos a recolherem a bagunça depressiva do chão. Obrigou-a a esticar cada lençol que parecia um ninho de pássaro doente. Ela a arrastou para os azulejos frios do banheiro, lavou a letargia de sua pele e usou o pente para desfazer com brutalidade calculada os nós de um cabelo sem vida.
Antes de sair, a mão pousou na maçaneta e a regra foi imposta:
— Amanhã eu venho aqui de novo. Nada de ficar vivendo nessa miséria só porque ninguém aparece pra te olhar, entendeu? Se você é minha irmã, também vai ter que se esforçar para ser sempre alguém respeitável.
A pequena não entendeu. Aquela havia sido a primeira vez em sua vida inteira que alguém entrava ali para cobrá-la de algo. Mas a repreensão não mirava sua fraqueza biológica. Não mirava sua existência inútil. O ataque era contra o fato de ela ter desistido de si mesma.
O ciclo começou. Dia após dia, os passos rítmicos da irmã do meio voltavam. De novo. E de novo.
Até que, em uma daquelas tardes exaustivas, o corpo de vidro trincou.
Ofegante, os músculos finos ardendo de ácido lático, a caçula deixou a escova de limpeza cair com um som oco no chão de madeira. As lágrimas transbordaram, quentes e engasgadas.
— Por que... por que você vem aqui todos os dias? Por que se esforça tanto para me fazer limpar a minha própria bagunça?!
A irmã do meio parou de alinhar a fileira de livros e girou o pescoço.
— Porque nós devemos nos esforçar. Devemos sempre viver da forma mais respeitável, certa e justa possível. Precisamos ser alguém de quem nós mesmas possamos nos orgulhar.
— Mas do que vai adiantar?! — O grito arranhou a garganta fina da menor, o choro rasgando o silêncio. — Eu nunca vou poder me orgulhar de mim! Mesmo que você venha me ajudar, eu sou tão fraca que não consigo limpar tudo sozinha! Você acaba fazendo mais do que eu! Eu não consigo nem mesmo tomar banho sem ajuda! Eu sou só uma falha... um erro! Ninguém espera absolutamente nada de mim! Ninguém precisa de mim! Como é que alguém como eu vai ter orgulho de si mesma?!
A resposta não usou palavras.
Plaft!
O estalo seco chicoteou o ar do quarto. O rosto da garotinha foi jogado bruscamente para o lado. A pele da bochecha queimou, pulsando em vermelho vivo. Ela encostou os dedos trêmulos no rosto, os olhos arregalados, o choque drenando todo o oxigênio de seus pulmões.
— Por que você fez isso...? — o sussurro saiu quebrado.
— Porque você está agindo como uma covarde — a irmã do meio respondeu. A voz era áspera, mas as íris transbordavam uma fúria instintivamente protetora. — Você só quer enxergar os problemas e faz isso porque decidiu ser assim. Você criou as suas próprias verdades deprimentes na cabeça e decidiu que elas são as regras do mundo.
Ela flexionou os joelhos, nivelando a altura com a caçula, e cravou o olhar nela.
— Por acaso você só pode ter orgulho de limpar o quarto se tiver feito tudo sozinha do início ao fim? Você é fraca. O seu limite físico não te deixa limpar tudo. Mas, ainda assim, você se levantou daquela cama e limpou. Mesmo que esse esforço tenha sido apenas levantar e colocar um único travesseiro no lugar certo... isso já não é motivo para ter orgulho de ter tentado? Quem foi que ditou a regra de que isso não vale nada? Quem disse isso?!
A respiração da garotinha falhou. A clareza daquelas palavras a atingiu com mais força que a mão em seu rosto.
Sua irmã estava aterradoramente certa. Havia sido ela mesma quem ditara as regras. Fora ela quem sussurrara na própria escuridão que nunca poderia se orgulhar porque não possuía a força para imitar os titãs da família. Ela usava a própria fragilidade como uma armadura covarde para sequer tentar viver.
A irmã do meio ergueu-se, o tecido pesado do vestido farfalhando. Um suspiro longo e exausto escapou de seus lábios.
— Mas, se é assim que você quer continuar pensando, então tudo bem. Eu não vou voltar amanhã. Deixarei que você decida por si mesma se vai ou não se esforçar para viver.
O pânico apertou o estômago da pequena. Ela esticou a mão fina, tentando agarrar o tecido para impedi-la, mas a voz da irmã cortou o ar mais uma vez.
— E parece que você também está entendendo outra coisa de um jeito muito errado. — A irmã mais velha parou. Olhou por cima do ombro, a mão já apertando a maçaneta fria. — Você disse que nada valeria a pena porque "ninguém espera nada de você". Você disse isso chorando, como se essa ausência de expectativas fosse uma maldição irremediável. Mas... me responda. Quem foi que decidiu que isso é ruim?
A caçula congelou. O choro travou no fundo da garganta.
— Se ninguém espera nada de você... — a tensão na voz suavizou, a raiva diluindo-se em uma verdade crua e imensa — isso também significa que você pode fazer absolutamente o que quiser. Não há nenhuma lenda a cumprir. Não há ninguém que você precise agradar, além de si mesma. Por acaso você não consegue ver isso?
Ela puxou a porta.
— Essa falta de expectativas não é uma prisão. Isso só significa que você é verdadeiramente, e completamente, livre.
O clique metálico da maçaneta soou, e a madeira isolou o quarto novamente.
Mas, dessa vez, não havia confinamento. Uma rajada limpa de vento fresco despencou pelas janelas escancaradas, brincando com os fios recém-penteados da garota. Ela ergueu a cabeça. Lentamente, girou o rosto dolorido na direção da luz. Seus olhos escaparam pelas molduras da janela, subindo para a vastidão azul e ininterrupta do céu, rastreando o voo errático e solto de pássaros cortando as nuvens.
A bigorna de chumbo que esmagava o seu peito desde o primeiro dia de vida começou a derreter. O som de correntes invisíveis estilhaçando pareceu ecoar em suas costelas. Ela pressionou as pequenas palmas das mãos contra o coração disparado.
Então..., pensou a pequena Mio Mortifer. E, no fundo de suas pupilas dilatadas, a primeira faísca de vida genuína e indomável finalmente acendeu. Eu sou livre?
Parte 6
O sorriso predatório e selvagem não abandonou o rosto de Mio em nenhum momento. No centro da arena gélida, o silêncio era denso, quebrado apenas pelo arfar das respirações presas e pelo frio que pinicava os pulmões. Todos mantinham os olhos cravados na caçadora, aguardando o estopim daquela loucura tática.
E então ela o fez.
Mio fincou as solas das botas no piso de cristal. O som agudo do atrito rasgou o ar no exato instante em que ela disparou para a frente, cortando a distância em uma linha reta e brutal.
É sério isso?! Kraken pensou, o escárnio repuxando o canto dos lábios. Ela acha mesmo que uma investida rudimentar dessas vai adiantar alguma coisa? Não aprendeu absolutamente nada observando a outra.
Na borda da caverna, Justia estalou a língua, a frustração estampada no rosto. Droga! Eu sabia! Ela só está sendo puramente impulsiva e imprudente! Nunca que um ataque frontal direto vai funcionar contra ele!
Kraken ergueu a mão. O chão ferveu sob as botas de Mio. Uma floresta de monólitos espelhados rasgou o piso, projetando-se em estacas letais voltadas para empalar.
Mas o som do impacto não veio. Houve apenas o zumbido do ar sendo cortado.
Mio não freou. A inércia guiou seu corpo enquanto ela girava o tronco milimetricamente para a esquerda, deixando a lâmina gélida raspar apenas a lateral do seu casaco. Em um movimento contínuo, a caçadora afundou o centro de gravidade e deslizou por baixo da segunda estaca. Não havia hesitação. Ela desviava em uma dança rítmica, esquivando-se no exato milésimo de segundo em que o gelo e a morte brotavam. O movimento era fluido, elástico e tão caótico que o cérebro de Kraken tropeçava ao tentar calcular a rota.
Delta escorregou as costas pela parede, arregalando os olhos para a coreografia impossível.
— Espera... como ela conseguiu fazer isso?! — a garota murmurou, a voz embargada. — Não vai me dizer que ela também aprendeu e decorou os movimentos dele no curto tempo em que observou a minha luta?!
— É impossível! — Justia rebateu de imediato, a engrenagem analítica de sua mente trabalhando em sobrecarga. — Ela não teria como decorar os padrões e o timing da criação de gelo tão rapidamente apenas assistindo de longe! Para você conseguir isso, Delta, teve que sentir na própria pele, experimentar o delay de cada ataque com o próprio corpo! E, mesmo assim, os seus movimentos não eram tão cirúrgicos quanto os dela!
A Scarlune apertou os olhos, fascinada com os pés de Mio, que deslizavam sobre a pista de cristal.
— Você agia um pouco antes, tentando prever o que iria acontecer... — Justia sussurrou, maravilhada. — Mas a Mio age no exato segundo em que a magia toma forma. Não há previsão. É reação pura. Não resta a menor dúvida... essa garota consegue acompanhar o fluxo de Éter no ambiente tão bem quanto eu. Ela é como um Elfo... ela consegue sentir a corrente do Éter vibrando no ar através da própria pele!
No centro do embate, a máscara de desdém de Kraken começava a trincar.
Não ache que vocês são as únicas que podem aprender durante o combate! o Examinador rosnou mentalmente. Eu também não vou deixar que me peguem no mesmo truque de novo!
A assinatura da magia mudou no ar. Sem polimento ou geometria reta, Kraken forçou monólitos disformes, tronchos e caóticos a eclodirem. Bem abaixo dos pés da garota, o piso abriu-se em uma armadilha de urso colossal forjada em Gelo Absoluto, estalando suas mandíbulas afiadas para triturar os ossos dela.
Mio mal olhou para baixo.
Canalizando a velocidade da corrida, ela contraiu as pernas e saltou. As presas de gelo bateram em falso um centímetro abaixo de seus calcanhares. Na descida, em vez de buscar o solo, as botas de Mio encontraram a superfície inclinada de outro monólito torto. Com um controle de peso absurdo, ela deslizou sobre a lâmina como se estivesse surfando, usando o próprio campo minado do Examinador como uma rampa de aceleração.
Droga! Droga! Kraken cedeu um passo para trás, as engrenagens da mente rangendo em puro pânico. Ela está na vantagem agora! Ela sabe perfeitamente como a minha habilidade funciona e as brechas da minha defesa... mas eu ainda não vi qual é a habilidade dela! Eu não posso deixar que ela se aproxime sem saber o que ela faz!
Foi então que um detalhe aterrorizante o atingiu. Uma gota gélida de suor traçou o caminho de sua têmpora até o queixo. O ar entrava rasgando, ofegante.
Ele estava sentindo pressão.
Ele, o Examinador arrogante, um autêntico membro dos Flame Reaper, estava recuando, sendo engolido pela presença de uma garota "medíocre" que nem sequer havia queimado uma única faísca de Éter até agora.
O orgulho de Kraken transbordou em uma fúria cega.
— ATÉ PARECE QUE EU VOU DEIXAR UMA PIADA DESSAS ACONTECER! — ele berrou, a voz explodindo nas paredes da caverna.
As duas palmas espalmaram contra o cristal do chão. A pulsação do Éter foi violenta, quase palpável. Atrás do Examinador, um pilar titânico rompeu a base e se retorceu em galhos afiados, moldando-se na estrutura de uma gigantesca árvore ancestral de cristal. Um estalo em uníssono ecoou quando cada "folha" pontiaguda se desconectou da matriz, chovendo sobre a arena como um dilúvio de mísseis teleguiados.
Sem margem para manobra dentro daquela área de efeito colossal, Mio cravou os calcanhares no gelo. A fricção chiou alto enquanto ela freava, mergulhando o corpo para a direita. Com um rolamento seco, ela encontrou abrigo atrás de um monólito espesso que Kraken havia deixado no campo na rodada anterior.
O impacto foi ensurdecedor. Os espinhos metralharam a caverna, estilhaçando o piso e levantando uma névoa espessa de poeira branca e farpas congeladas.
Atrás de sua barreira provisória, a voz de Mio cortou o barulho da destruição, carregada do mais puro deboche:
— Que isso, Gaget?! Tá agindo assim desesperado por quê?! Não vai me dizer que está sentindo que vai perder pra mim, logo depois de todo aquele discurso arrogante e metido a gênio?! Vai chorar?!
As palavras encontraram o ego de Kraken como navalhas. Cego pela raiva, o Examinador dobrou o fluxo de Éter. A saraivada de gelo intensificou de tal forma que o próprio monólito que servia de escudo para a garota começou a gemer e trincar sob o bombardeio.
O estalo do cristal da barricada rachando devolveu a lucidez ao Scarlune por um piscar de olhos.
Por que eu estou bombardeando a minha própria criação?! Que merda! Eu deveria ter desfeito aquele monólito no exato momento em que ela se escondeu atrás dele!
Kraken estalou os dedos. O comando de dissipação viajou em direção à barreira, pronto para expor Mio ao abate. Mas, quando ele tentou puxar o Éter de volta... encontrou o vazio. Nenhuma resposta. O bloco largo de gelo não estava mais ancorado à raiz mágica no subsolo. O contato com a estrutura havia sumido.
O braço do Examinador travou no ar. O olhar fixou-se na fenda recém-aberta no piso.
Espera... O fôlego de Kraken morreu na garganta. Para arrancar uma tonelada de Gelo Absoluto direto da raiz... O poder dela não vai me dizer que é...
Antes que a conclusão tomasse forma em sua cabeça, uma sombra imensa engoliu a iluminação da caverna.
Mio não apenas arrancou a base da rocha gélida. Os músculos de seus braços e pernas haviam se tensionado ao limite para erguê-la acima da cabeça. Com a brutalidade de uma máquina de cerco, ela arremessou a tonelada de Gelo Absoluto. O monólito viajou rasgando o ar e chocou-se contra a Árvore de Cristal. O impacto estilhaçou os troncos maciços com a força de um raio. Pedras de gelo do tamanho de rochedos despencaram pela arena, levantando uma cortina impenetrável de neve, poeira e detritos.
Desesperado com a falha em sua defesa antiaérea, Kraken pivotou o corpo, os olhos caçando freneticamente o contorno da caçadora em meio ao nevoeiro cinzento.
Mas ela já não estava lá.
Devorando o espaço enquanto o mundo desmoronava, Mio havia atravessado o campo de batalha. Quando a nuvem rodopiou e assentou, o susto drenou o sangue do rosto de Kraken. O sorriso selvagem da garota estava a um palmo de distância.
O coração do Examinador falhou. O punho da caçadora já estava na metade do caminho, os ossos dos nós dos dedos cortando a neblina, alinhados com o centro absoluto do rosto dele.
No auge do terror, a consciência de Kraken desligou, entregando as rédeas aos instintos. Sua passiva reagiu com a velocidade de um chicote. O Éter condensou em uma explosão defensiva e, entre o rosto apavorado e o punho fatal, a defesa intransponível tomou forma: o Monólito Perfeito de reflexão total.
A parede subiu. A rota do soco colidiria direto com o escudo.
O alívio esvaziou os pulmões de Kraken. Um sorriso trêmulo e doentio deformou suas feições banhadas em suor.
É verdade! Droga, como pude me esquecer disso?! É óbvio! Kraken riu histericamente em seus próprios pensamentos. Ela fez tudo isso de propósito! Ela me provocou e criou essa distração gigantesca só para me deixar em pânico por várias vezes seguidas, tentando me impedir de pensar com clareza! Mas não faz a menor diferença que o seu superpoder seja superforça! Se você acha que isso vai atravessar a minha defesa só por ser uma habilidade física, está absurdamente enganada, sua pirralha arrogante! O meu Monólito reflete habilidades físicas encantadas e amplificadas com Éter também! Você acabou de se matar!
O soco de Mio chocou-se contra a superfície de espelho.
Kraken serrou os dentes. O corpo esticou-se em antecipação ao estrondo da magia refletida, pronto para ver o braço daquela garota ser transformado em poeira ensanguentada. O impacto vibrou pelos ossos dele como um trovão enclausurado.
Venci.
CRACK.
A frequência do som estava errada. Não havia o eco expansivo de uma detonação mágica. O que feriu os ouvidos de Kraken foi o ruído miserável e ríspido de vidro comum trincando.
O sorriso do Examinador morreu instantaneamente.
Uma grotesca teia de aranha escureceu o ponto de impacto e irradiou pelas extremidades do Monólito Perfeito. O cérebro de Kraken finalizou os cálculos que o egoísmo havia envenenado.
O Gelo Absoluto dependia de alimentação. Ele engolia a assinatura, a densidade e a voltagem do Éter adversário para funcionar como um rebatedor de energia. Mas o golpe que afundava em sua defesa... era um abismo. Não possuía encantamento. Não transbordava densidade. Não carregava a menor migalha de Éter. O Gelo de Kraken tateou as bordas do soco e não encontrou absolutamente nada para "ler". Não havia magia ali; apenas uma parede inútil tentando parar a fúria inflexível da energia cinética.
A epifania afogou Kraken um milésimo de segundo antes do apocalipse.
Isso não é superforça mágica... Isso sequer é uma habilidade! Essa pirralha... ela está usando puramente, unicamente... a sua força física bruta!
SMMMAAASH!
O braço de Mio ignorou a barreira. O soco não apenas quebrou a defesa suprema; obliterou-a, moendo o Gelo Absoluto em uma nuvem de poeira microscópica como se esmagasse papel úmido. O punho continuou sua trajetória limpa e aterrissou direto no meio da face de Kraken com uma brutalidade ensurdecedora.
O ar em torno do impacto torceu. A força bruta desconectou os pés de Kraken do chão, ejetando-o em um ângulo vertical como se lançado pela colher de uma catapulta. Ele foi um borrão cruzando o ar da arena. Suas costas colidiram violentamente contra as paredes do outro lado da caverna, afundando na pedra de cristal antes de ele despencar de cara no gelo — os membros moles, apagado, uma marionete de fios arrebentados.
O silêncio engoliu tudo. Era fúnebre. Absoluto. Na borda da arena, os lábios de Justia e Delta estavam escancarados. A brutalidade rápida e animal da cena as deixou incapazes de formular qualquer som.
No centro do anel de batalha, as lascas de gelo começaram a cair, como uma neve pesada e lenta. Mio esticou as costas, retornando à sua postura vertical enquanto recolhia o punho. Com uma calma contrastante, ela enfiou a mão no cabelo curto, permitindo que as correntes frias da caverna colocassem os fios de volta no lugar.
A caçadora correu os olhos até o corpo largado no rodapé da parede. Seus lábios se curvaram naquele sorriso presunçoso e, com a respiração perfeitamente controlada, ela declarou para as paredes vazias:
— É... parece que, no fim das contas, eu venci de primeira, Gaget!
Parte 7
A poeira de cristal ainda bailava suspensa no ar gélido, assentando devagar sobre o piso estilhaçado da caverna. O silêncio era espesso, quebrado apenas pelo ranger seco da estrutura de gelo cedendo ao redor da cratera onde o corpo de Kraken jazia encravado. Foi só então que Justia conseguiu fechar a boca.
Seus olhos escuros estavam cravados na silhueta de Mio. A mente da herdeira Scarlune operava em velocidade máxima, dissecando os segundos anteriores.
Aquela força física avassaladora... aquela agilidade microscópica... no fim das contas, eram o subproduto de uma habilidade de aprimoramento físico? Justia avaliou a distância entre o Examinador nocauteado e a garota no centro da arena. Ela percebeu. Assim como eu, ela leu a assinatura da magia e deduziu a falha crítica do Gelo Absoluto. É por isso que não hesitou. Desde o exato segundo em que fincou os pés no chão, ela já possuía a ciência absoluta da própria vitória.
Sacudindo a neve e os estilhaços das mangas do casaco, Mio girou os calcanhares. O sorriso largo e despreocupado já estava de volta ao rosto.
— E então? Vocês vêm ou não? — Mio apontou com o polegar por cima do ombro para a colossal porta de cristal no fundo da caverna. — O Gaget ali disse com todas as letras que o teste era só atravessar a porta atrás dele. Bater nele era opcional. Como a passarela tá livre, se vocês cruzarem comigo, também passam no teste, não é?
Justia estancou. O ar gelou em seus pulmões.
Então era exatamente por isso que ela havia questionado as condições de vitória antes do primeiro ataque! Um calafrio de puro respeito percorreu a espinha da Scarlune. Ela não estava agindo com arrogância cega. Ela estava pavimentando o caminho para que nós pudéssemos cruzar a linha de chegada sem violar nenhuma regra da guilda caso ela resolvesse obliterar o Examinador.
Apoiando o peso na perna boa, Delta começou a mancar na direção da saída. O som de suas botas arrastando no gelo quebrado ecoava de forma rítmica. Ao se aproximar de Mio, no entanto, a garota de cabelos bicolores parou. Ela mordeu o lábio inferior. A frustração ácida retornava, tensionando seus ombros.
— Sabe... eu achei que você fosse como eu. — A voz de Delta saiu baixa, raspando na garganta com uma decepção amarga. — Achei que você também fosse uma pessoa comum. Alguém sem privilégios que tinha engolido a seco aquele discurso nojento sobre talento nato. Mas, no fim das contas... você é só mais uma abençoada. Outra pessoa estupidamente talentosa.
Mio tombou a cabeça para o lado. O sorriso diminuiu, os músculos do rosto relaxando em uma expressão mais sóbria.
— Bom... acho que isso depende do que você resolve colocar na gaveta do "talento".
Delta balançou a cabeça, impaciente com meias palavras.
— Uma força bruta e instintos de caça como esses só podem ser talento de berço. Não existe outra matemática. Mesmo que eu treinasse até os meus ossos virarem pó, eu jamais alcançaria a força que você já tinha quando abriu os olhos no berçário.
Em vez de devolver o argumento com filosofia, Mio enfiou a mão no bolso do casaco. O som plástico e amassado quebrou a tensão. Ela puxou a embalagem vazia da barrinha de proteína que devorara minutos antes e a estendeu para Delta.
A garota franziu o cenho, encarando o lixo.
— O que é isso? Tá tirando com a minha cara?
— Calma lá. Você nem olhou o que eu quero te mostrar — Mio indicou o verso do plástico com o queixo. — Lê a tabela nutricional. Dá uma olhada no valor energético dessa porcaria aí.
Ainda armada com desconfiança, Delta virou o pacote. Seus olhos varreram as letras miúdas até travarem nos números. A garota engasgou com a própria saliva. Piscou, esfregou as pálpebras e leu de novo.
— Trezentas... trezentas mil calorias?! — O grito de Delta esganiçou e ricocheteou nas paredes. Ela ergueu o plástico contra a luz, como se procurasse uma fraude impressa. — Que desgraça é essa?! Como assim trezentas mil calorias prensadas numa única barra de cereal?!
— Barrinha de proteínas hipercondensada de ponta, direto do polo de tecnologia alimentar de Elysium — Mio estufou o peito, orgulhosa. — Trezentas mil calorias de puro prazer adocicado!
— E como é que você engole uma ogiva nuclear dessas sem o seu coração explodir no peito?!
A expressão de Mio suavizou de vez. Uma sombra nostálgica escureceu seus olhos.
— É porque, tecnicamente, eu nasci amaldiçoada.
Delta e Justia travaram no lugar.
— Claro, eu posso muito bem olhar no espelho hoje e bater no peito dizendo que essa minha biologia é uma bênção maravilhosa, se eu quiser — Mio continuou, o olhar desviando para a vastidão da porta de gelo. — Afinal, a gente é que escolhe a lente que usa para olhar a própria vida. Mas, na prática... a verdade é que eu nasci com uma habilidade Gifted que me permite alterar a estrutura do meu próprio corpo. Eu posso moldá-lo por inteiro.
Mio ergueu a mão direita. Fechou e abriu os dedos devagar. Sob a pele clara, os feixes musculares rolaram e se contorceram como uma maré agitada, visíveis a olho nu.
— O problema é a fatura que chega no final do mês. Para sustentar isso, absolutamente cada célula do meu corpo é fisicamente instável. Elas estão em constante movimento, queimando e se reconstruindo em tempo real, mesmo quando estou parada respirando. O resultado? Para o meu coração bater e o meu pulmão encher de ar sem que eu desmaiasse, eu precisava ingerir setecentas mil calorias por dia durante a minha infância.
O peso da revelação afundou o clima da caverna.
— Só que ninguém sabia disso quando eu nasci — a voz de Mio caiu uma oitava, quieta. — Como eu vivia em um déficit calórico brutal e impossível para a anatomia humana, eu era só uma criança doente. Eu era tão fraca, mas tão fraca, que meus braços tremiam e falhavam se eu tentasse puxar o lençol para cobrir o próprio corpo na cama.
Justia prendeu a respiração. A engrenagem acadêmica girou com perfeição. Então é isso... A Scarlune apertou os olhos. A habilidade dela carrega um "Narbe". Uma cicatriz estrutural.
— Mas sabe qual é a melhor parte da piada? — O sorriso selvagem voltou aos lábios de Mio. Ela girou nos calcanhares, encarando as duas. — Mesmo depois que os médicos descobriram o defeito e eu consegui grana e acesso para comer o suficiente só para não morrer, eu ainda tive que devorar o triplo disso até finalmente engatilhar a minha habilidade para lutar.
Mio fechou o punho com força. A vibração de puro poder irradiou de sua postura.
— No meio desse inferno, eu entendi que a balança do meu metabolismo balançava pros dois lados. Se, quando eu estava vazia, eu não conseguia erguer um travesseiro... quando eu estava estupidamente lotada de combustível, estocando milhões de calorias nos músculos... não existiria uma única montanha de pedra neste mundo que eu não pudesse arrancar do chão com as minhas próprias mãos!
Uma gargalhada alta e solta escapou de sua garganta, vibrando e reaquecendo o ar frio da caverna.
Delta abaixou o queixo. Os dedos apertaram o plástico da embalagem até os nós ficarem brancos.
Ela converteu a própria dor na pólvora da sua arma, Delta constatou, sentindo a amargura se dissolver para dar espaço a um respeito esmagador. Ela pegou a maldição genética que quase a matou de fome e transformou naquilo que as pessoas agora rotulam confortavelmente de "talento". Que loucura.
Um sorriso leve, sem as defesas habituais, quebrou a expressão ranzinza da garota de cabelos bicolores. Delta ergueu os olhos e sustentou o olhar da caçadora.
— Me desculpa — pediu, o orgulho bélico finalmente baixando a guarda. — Parece que eu tirei a sua medida sem saber um único detalhe da sua história. É... pelo visto, a ladeira que eu tenho que subir ainda é bem longa.
Mio deu de ombros, piscou um olho e deu um tapa pesado e amigável no ombro da garota.
— Relaxa, Usami. Eu sei que você também consegue chegar lá se continuar teimando desse jeito.
A paz durou exatamente um segundo.
Uma veia grossa saltou na testa de Delta.
— EU JÁ FALEI QUE NÃO ME CHAMO USAMI, QUE INFERNO! É DELTA! — ela berrou a plenos pulmões, o rosto fervendo em vermelho vivo de pura indignação. — DELTA KENNEDY! VÊ SE TATUA LOGO A DROGA DO MEU NOME NESSA SUA CABEÇA OCA!
Mio riu até faltar o fôlego da explosão da colega, enquanto Justia apenas balançava a cabeça, um sorriso polido desenhado no canto da boca.
Deixando a poeira assentar sobre o Examinador afundado na parede, o trio deu as costas para a arena destruída. O som das botas soou em uníssono quando elas atravessaram a imensa estrutura de cristal, tornando-se oficialmente o primeiro grupo a cruzar a linha de chegada e passar no teste de Invel.
Parte 8
A distorção espacial do labirinto de gelo expeliu o segundo grupo com um solavanco seco, como se a própria realidade os cuspisse no chão de pedra. O ar que os recebeu atingiu o peito como uma lâmina térmica, congelando o oxigênio antes que ele alcançasse os pulmões.
À frente deles, a escuridão dava lugar a um cenário colossal. Onde o primeiro grupo encontrara uma arena de cristal fechada, este segundo emergiu nas margens de um imenso lago subterrâneo. A superfície da água era um espelho perfeitamente negro e sólido, que devolvia, distorcida, a imagem das milhares de estalactites pontiagudas pendendo do teto como dentes de uma bocarra de pedra.
Dante inclinou a cabeça, estalando as vértebras com um estalo seco que ecoou pelo vazio. Deslizou as mãos para o fundo dos bolsos da jaqueta, oscilando o peso do corpo com o caminhar arrastado de quem misturava uma preguiça crônica à ansiedade de abreviar o tempo ali dentro.
— Beleza — murmurou ele, o sopro quente de sua voz condensando-se instantaneamente em uma névoa espessa. — Vamos logo resolver isso.
O som de solas de borracha batendo contra a rigidez do gelo marcou a chegada dos demais. Mas a trégua durou apenas o tempo de uma respiração.
— QUE MERDA É ESSA?! — o rugido de Kai rasgou a acústica da caverna, sobrepondo-se ao zumbido da fenda mágica que se fechava às suas costas. O garoto de cabelos brancos avançou um passo cambaleante, fuzilando Dante com um olhar carregado de ódio puro. — Por que caralhos eu vim parar no mesmo maldito grupo que você, seu merda?!
Dante limitou-se a soltar o ar pelo nariz, os ombros caídos, ignorando o surto do clone.
Logo atrás do rapaz, a silhueta de Beatrice se consolidou. Ela pressionou as polpas dos dedos contra as têmporas, massageando-as enquanto soltava um suspiro longo, pesado, como se o universo operasse diariamente apenas para testar os limites de sua paciência com as piores companhias possíveis. Por fim, o contorno curvilíneo de Paracelso emergiu da névoa residual da porta de gelo; seus olhos ciano brilhavam no escuro com a curiosidade fria e predatória de quem avalia um novo cercado.
A algumas dezenas de metros, plantada bem no centro do lago negro, uma figura solitária os vigiava.
O homem usava casacos pesados de inverno, adequados para o clima extremo, mas sustentava a coluna ereta e rígida típica de um acadêmico. Fios de cabelo escuro e liso moldavam o contorno de seu pescoço, e o reflexo difuso que vinha das paredes congeladas batia direto nas lentes de seus óculos, mascarando por um segundo o choque que congelou suas pupilas.
Mas que ideia é essa, Skadi...? O Examinador engoliu em seco, sentindo uma gota isolada de suor descer por sua nuca sob as camadas de pele. Você jogou o filho do Ryu, o clone instável e a maldita da Paracelso no mesmo lote? Por acaso você tá querendo me explodir?!
Alheio ao pânico silencioso que desestruturava o Examinador, Kai estalou a língua contra o céu da boca, erguendo o braço para apontar rigidamente na direção do homem.
— Ei! Que merda é essa? Cadê os outros Examinadores? Por que só você está aqui para receber a gente?
O homem levou a mão enluvada até a armação dos óculos, ajeitando-os sobre o nariz enquanto forçava as cordas vocais a buscarem um tom de autoridade inabalável, ainda que a base de sua nuca estivesse pinicando de puro nervosismo.
— É um prazer conhecê-los. Meu nome é Chyon. E para responder à sua pergunta... bem, foi a Skadi quem desenhou a geometria do labirinto de gelo e determinou o destino de cada participante. Se ela jogou vocês quatro para a minha arena, vou acreditar que ela teve um motivo muito especial para isso.
— Hã?! — Kai semifechou os olhos, um rosnado baixo vibrando em seu peito.
Perto da margem pontiaguda do lago, Paracelso mal registrava a explicação protocolar de Chyon. Suas pupilas ciano rastreavam metodicamente a textura do chão congelado, calculando a espessura da lâmina d'água sob eles e a densidade quase física do Éter que saturava o ambiente.
O que será que aquela garota, a Skadi, estava planejando ao montar essa distribuição de forças? A cientista cruzou os braços abaixo dos seios, um sorriso estreito e silencioso repuxando o canto de seus lábios pintados. Nada aqui é acidental.
No centro da superfície lisa, Chyon ergueu a mão direita e estalou os dedos.
O Éter respondeu ao comando em um milésimo de segundo. Um estalo agudo, como o disparo de um rifle, cortou o silêncio quando o gelo sob os pés do Examinador trincou em linhas perfeitamente geométricas. Quatro blocos maciços da água negra congelada ergueram-se no ar. A umidade ambiente foi sugada para o epicentro da magia, esculpida pelo vento gélido até que quatro imensas e detalhadas Flores de Lótus de cristal brotassem do chão, alinhadas lado a lado em uma simetria perfeita.
— Vamos direto ao ponto — Chyon anunciou, sua voz batendo no teto de pedra e retornando amplificada. — No meu teste, não haverá derramamento de sangue. Não me importo caso decidam trabalhar em equipe para decifrar o problema, mas ponderem com cuidado: apenas um de vocês cruzará a porta de cada vez.
O Examinador estendeu o braço aberto na direção das delicadas e reluzentes esculturas de gelo.
— O desafio é de uma simplicidade absoluta. Tudo o que precisam fazer... é quebrar a Flor de Lótus. Da forma que acharem melhor. Usando força bruta, magia ou estratégia. Tanto faz. Aquele que conseguir desfazê-la primeiro poderá prosseguir.
A aparente facilidade da regra colidiu contra o grupo como um impacto físico.
Kai estreitou as pálpebras, a desconfiança imediata vincando sua testa. Quebrar uma flor de gelo? Tem que ter uma pegadinha imensa nisso.
Dante pendeu a cabeça ligeiramente para o lado, o cenho franzido em pura confusão. Seus olhos iam da fragilidade vítrea da lótus para a expressão impassível de Chyon. Qual é a lógica? É só socar o gelo? Isso não pode ser tão simples.
Beatrice desconsiderou totalmente as esculturas no centro do lago. Seus olhos afiados de dragão começaram a varrer as sombras do teto e os relevos das paredes, mapeando qualquer mecanismo ou armadilha ocultos na escuridão subterrânea.
Paracelso, no entanto, soltou uma risada curta e abafada. O sorriso malicioso e ardiloso denunciava que seus olhos clínicos já haviam dissecado o cerne da armadilha apenas observando a disposição dos elementos. Ardilosa como sempre, Skadi...
Ao notar o mosaico de reações de seus novos oponentes, Chyon sustentou sua máscara de neutralidade, mas seus pensamentos já haviam se distanciado daquele lago escuro. As engrenagens analíticas do Examinador finalmente encontravam a resposta para o quadro geral.
Desde que recebi o relatório com os nomes dos oito selecionados para o primeiro grupo, eu tive quase certeza de que a Skadi puxaria a Paracelso ou o próprio filho do Ryu diretamente para a arena dela, Chyon refletiu, vendo o vapor de sua própria respiração congelar e sumir no ar da caverna. Se os dois piores monstros estão aqui presos comigo... então quem foi o infeliz que acabou dando de cara com aquela mulher? Que Deus tenha piedade de quem estiver diante da Skadi agora... porque ela, definitivamente, não sabe o que significa pegar leve.
Parte 9
Enquanto o segundo grupo debatia a charada dos monólitos de Chyon, a realidade operava sob outra frequência nas fundações mais profundas de Invel. Ali, a dinâmica era infinitamente mais brutal.
A arquitetura daquela caverna ignorava qualquer semelhança com uma passagem subterrânea. O gelo negro erguia-se em curvas amplas e simétricas, desenhando as arquibancadas silenciosas e monumentais de um coliseu ancestral. No epicentro daquela vastidão de cristal morto, uma silhueta solitária aguardava.
O eco cadenciado e seco de couro batendo contra o gelo quebrou a inércia do ambiente. Mesmo com os olhos blindados por uma venda espessa, a mulher de cabelos brancos sequer precisou girar o rosto para reconhecer o peso daquela aproximação.
— Finalmente chegou. — A voz de Skadi desceu sobre a arena, fria e inescapável como a lâmina de uma guilhotina. — Posso saber o motivo da demora?
Os passos cessaram. A cadência rouca e aveludada flutuou de volta, inabalável.
— Você não pode me culpar — Cyfera respondeu. Seus olhos purpúreos rastreavam as ranhuras e os pilares de gelo negro com uma adoração quase religiosa. — Não é sempre que posso observar de perto a fundação do subterrâneo de Invel. Para uma pesquisadora, respirar a poeira daqui de baixo é uma chance em um milhão.
Desencostando as costas do pilar de gelo, Skadi endireitou a postura e alinhou o rosto vendado na direção da voz.
Cyfera retribuiu com um sorriso polido. Executou uma inclinação geométrica de cabeça — a reverência perfeitamente calculada de uma acadêmica diante de uma força letal.
— Mas é claro que eu não poderia deixá-la esperando por muito tempo — a arqueóloga continuou, o fascínio gotejando em cada palavra. — Afinal, assim como essas relíquias intocadas nas paredes... ter a oportunidade de conversar com você, pessoalmente, é o tipo de evento histórico que deixaria qualquer pesquisadora corada de pura vergonha e excitação.
Um sorriso estreito repuxou o canto dos lábios da guerreira.
— Está sustentando essa educação toda em respeito a mim? — Skadi indagou. O tom era ríspido, mas carregava o fio metálico de uma diversão afiada. — Se for o caso, pode parar. Saiba que eu te arrastei para esta arena por puro capricho. Uma curiosidade estritamente pessoal. Então, sinta-se à vontade para ser quem é.
O brilho nas íris de Cyfera fraturou. A máscara da civilidade trincou de ponta a ponta, liberando a obsessão crua que vivia contida sob o verniz.
— Que honra. Sendo assim, aceitarei sua gentileza sem a menor restrição.
O ar ao redor da arqueóloga afundou. A pressão atmosférica tornou-se subitamente densa e tátil, distorcendo a luz pálida da caverna como o vapor invisível que tremula sobre o asfalto quente. Cyfera retomou a marcha, cruzando o gelo em uma linha reta inabalável rumo ao centro do coliseu. A polidez evaporou de sua voz, substituída por uma gravidade sedenta e predatória.
— Por favor, Senhorita Skadi... Deusa da Guerra. — Ela abriu os braços, a fome intelectual transbordando, física e audível. — Como uma das poucas Scarlunes vivas a testemunhar pessoalmente a era do Rei da Guerra... me diga como você avalia a nossa era atual. Me diga quais segredos a História ainda mantém soterrados sob este gelo. Que verdades o mundo não ousa saber sobre aquela época sangrenta?
Os olhos da arqueóloga faiscavam em um delírio febril.
— Por favor, torne-se parte da minha pesquisa! Porque eu realmente não suporto mais esse calor de curiosidade queimando sob a minha pele!
Skadi atirou a cabeça para trás. Uma risada rouca e trovejante estilhaçou o silêncio fúnebre do coliseu.
No milésimo de segundo que se seguiu, a trava de segurança da lenda viva se rompeu. Uma tempestade de Éter puro detonou a partir do corpo de Skadi. A onda de choque varreu a arena, brutal e invisível, enquanto o ar chiava sob o frio instantâneo. Uma nova e aterradora crosta de Gelo Absoluto devorou o chão e escalou as paredes ao redor, congelando até mesmo o próprio som.
— Está sentindo calor no meio de todo esse frio? — Skadi zombou. A intenção assassina esmagou o espaço, varrendo o oxigênio dos pulmões de quem quer que estivesse ali. — É melhor ter cuidado, Cyfera. Isso costuma ser o primeiro sintoma da hipotermia.
As duas massas titânicas de aura colidiram de frente. O atrito cinético produziu um zumbido grave que fez os alicerces do coliseu negro rangerem e estalarem em protesto. Mas Cyfera não recuou um milímetro. Sua bota de couro rasgou a barreira invisível de pressão. Um passo após o outro, perfurando o domínio da guerreira, ela avançou até travar os pés no chão a exatos quatro metros de distância da Deusa.
A tensão solidificou o espaço. O oxigênio tornou-se tão denso e letal que um humano comum teria as costelas fraturadas apenas por tentar respirar aquele ar.
Com o sorriso selvagem marcado no rosto, os instintos de batalha de Skadi despertaram e formigaram sob a pele. A arrogância educada, a sede maníaca por respostas e a audácia contundente daquela "criança" eram o combustível perfeito.
O que eu acho desta era atual...? Skadi puxou o ar rarefeito, ancorando os calcanhares no gelo, pronta para o impacto iminente que inevitavelmente reduziria aquele coliseu a escombros. Hum... foi exatamente para decidir isso... que eu trouxe você até aqui, criança.
Parte 10
Dante rasgava a distância em direção às lótus no centro da caverna, o corpo inclinado contra a parede sólida de vento. A tempestade não apenas uivava; ela rugia nos tímpanos, um estrondo contínuo e ensurdecedor que vibrava nos ossos. Pior que a ventania era a chuva de pétalas de cristal. Disparadas na escuridão, elas cortavam o ar com um zumbido agudo, fazendo curvas fechadas e caçando seus movimentos como mísseis teleguiados.
O Modo Deus da Velocidade forçava os músculos de Dante ao limite, permitindo esquivas milimétricas. Mas o campo de batalha não perdoava. Bastou a sola da bota perder o atrito no gelo liso por uma fração de segundo. A pressão esmagadora da nevasca engoliu sua falta de equilíbrio. O vento o varreu do chão e o arremessou de lado.
BAM!
O impacto brutal contra a parede de cristal expeliu todo o ar de seus pulmões. Dante escorregou até o chão, fechando um dos olhos e soltando um grunhido rasgado enquanto a pontada aguda irradiava de suas costelas.
Não muito longe dali, afogado pelo mesmo vórtice branco, Kai tentava quebrar a mecânica do teste. Ele arrancou um pedregulho de gelo do chão, o Éter pulsando pesado em suas mãos, e ativou sua habilidade espacial mirando as flores no centro do lago. A pedra sumiu. E reapareceu no teto, caindo de forma patética e inofensiva a dezenas de metros do alvo.
Kai estalou a língua, a frustração fervendo nas veias.
Pra piorar tudo... essa merda de tempestade aqui dentro é igual à do lado de fora! É uma tempestade magnética gerada pelas Linhas Ley! Ela distorce e enlouquece completamente poderes de manipulação espacial como o teleporte!
Antes que pudesse xingar o Examinador, o zumbido letal das pétalas ziguezagueou em sua direção. O clone tentou um salto evasivo para trás, mas a instabilidade de sua magia parecia funcionar como um ímã magnético. A lâmina gélida o atingiu de raspão no braço. O corte desequilibrou sua postura, e a força cinética da nevasca fez o resto, atirando-o como um boneco de pano contra o rodapé congelado do lago.
Beatrice cravou as garras endurecidas de Éter no chão. O som das unhas rasgando o cristal serviu de âncora para que ela não fosse arrastada pelos ventos. Os olhos em fenda de dragão se estreitaram, rastreando a trajetória balística dos ataques.
E, além de toda essa anomalia magnética... essas malditas pétalas parecem perseguir ativamente qualquer uso intenso de Éter, a garota punk deduziu, a mandíbula tensa.
Na retaguarda, intocada pelos ataques diretos, Paracelso assistia ao massacre com uma atenção puramente clínica. A cientista cruzou os braços, um sorriso afiado despontando nos lábios ciano.
Sim... eles já estão percebendo perfeitamente como a mecânica deste campo funciona, ponderou, a mente dissecando o cenário em tempo real. A Skadi os enviou para cá com um propósito. Trouxe esses três prodígios problemáticos para esta arena específica para, literalmente, forçá-los a treinar e evoluir sob uma pressão letal. E ela deve ter me trazido para...
A cientista umedeceu os lábios frios. A sede acadêmica brilhava em seu olhar predatório.
Voltando a atenção para o combate, Beatrice viu Dante apoiar as mãos no piso escorregadio e reerguer-se devagar. Os músculos do garoto já se tensionavam, preparando o Éter para mais uma investida kamikaze.
Bom, pelo menos esse aí tem a teimosia imbecil de não ficar no chão se fingindo de morto, pensou, soltando um suspiro exasperado que virou névoa instantânea.
— Ei, idiota! — Beatrice gritou, a voz perfurando o uivo do vento.
Dante virou o rosto para ela, massageando o ombro contundido.
— Se você quer mesmo dominar o controle de Aura, não deveria limitar o uso dela só para os nossos treininhos no corredor do trem! — a garota esbravejou. — Experiência real de combate, quando sua vida tá por um fio, é a melhor e única forma de aprender que você vai ter! Então, se você quer que eu continue te ensinando qualquer coisa... eu vou impor uma regra. A partir de agora, você não deve usar absolutamente nada além da sua Aura pura para tentar passar nesse teste!
Dante travou. A expressão de pura incredulidade esmagou momentaneamente a dor em seu corpo.
— O quê?! Você quer que eu passe por esse inferno magnético usando só a Aura?! — ele berrou de volta, indignado. — Mas nem você tá conseguindo chegar perto daquela flor usando isso! E, além do mais, eu não dominei nem cinco por cento dessa técnica ainda! Tá querendo mesmo me treinar ou só arrumou uma desculpa criativa pra me impedir de passar?!
Beatrice revirou os olhos com tanta força que as pálpebras doeram.
— Ei! Não me ignora! — Dante gritou.
A garota dragão apenas soltou um bocejo teatral, completamente indiferente ao desespero dele.
— Presta atenção, seu idiota! Na vida real é exatamente assim que funciona! É justamente por existir o risco de morte que nós podemos chamar isso de "experiência real" e não de um simples "treino de escola"! Não sou eu quem pode dizer se você é ou não capaz de vencer esse teste usando apenas a Aura. Somente você pode decidir e provar isso! — Beatrice fincou os pés ainda mais fundo no gelo, o olhar endurecendo. — Tudo o que eu estou dizendo é que eu não vou gastar a droga do meu tempo ensinando uma técnica complexa para um covarde que se recusa a arriscar a própria pele para dominá-la!
As palavras ecoaram densas, esmagando o ruído da tempestade.
Dante cravou as botas no gelo liso. Ele sustentou o olhar com Beatrice por longos segundos. A provocação da garota ativou um mecanismo obscuro em sua mente, muito mais profundo do que uma simples bronca marcial. No silêncio de seus pensamentos, o eco da voz de Cyfera ressurgiu. Fria, cirúrgica e absolutamente humilhante:
"Ele não me parece alguém com um desejo genuíno de agir. Parece apenas um garoto que foi arrastado pela correnteza dos outros até essa situação. É alguém indeciso, acuado, que reage em vez de agir, e é completamente oco de motivação própria."
A veia latejou no pescoço de Dante. O sangue, antes esfriado pela nevasca, entrou em ebulição. Um sorriso maníaco, afiado e predatório rasgou os lábios do garoto.
— Pois bem... vamos ver, então, quem é o garoto oco e sem vontade para agir — ele murmurou para si mesmo.
Dante ergueu o queixo e esvaziou os pulmões. Em um movimento fluido e de absoluta precisão, ele puxou os freios. O fluxo violento de Éter bruto foi decepado. O Modo Deus da Velocidade desmoronou. A luz mágica morreu no ar.
No lugar dela, uma densidade invisível, asfixiante e tátil começou a transbordar. Sua Aura pura expandiu-se de dentro para fora. O campo de pressão física ao seu redor tornou-se tão denso que forçou os ventos impiedosos da tempestade a desviarem do seu contorno, milímetro por milímetro.
— Eu vou mostrar para todos vocês que, quando eu realmente decido agir e tomar uma decisão... não existe absolutamente ninguém que possa me vencer. — Na penumbra gélida de Invel, os olhos rubros de Dante brilharam. — Espera só, Cyfera.
Assistindo de uma distância segura, Paracelso arregalou levemente os olhos, genuinamente impressionada com a mudança brutal de gravidade e a estabilização repentina da Aura do garoto. A cientista deslizou o olhar pela arena, mapeando as peças do tabuleiro: Kai reerguendo-se com um ódio assassino estalando nos dedos; Beatrice sustentando um sorriso sutil e pontiagudo de aprovação; e o próprio Dante, agora o olho do furacão.
— Vocês têm uma resiliência absurda e coragem para dar e vender, isso é um fato científico indiscutível — Paracelso sussurrou para o vento, ajeitando as dobras do casaco grosso enquanto fixava os olhos no Examinador Chyon, inabalável no centro do lago. — Mas é bom prestarem muita atenção a partir de agora, crianças. O aquecimento acabou. A verdadeira dificuldade deste jogo infernal... apenas começou.



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