The Fall of the Stars: Capítulo 5 - No mesmo caixão
- AngelDark

- 14 de jul. de 2025
- 44 min de leitura
Atualizado: 1 de jan.
Volume 3: Sentido da Vida
Parte 1
Algum tempo antes do laboratório se tornar uma ruína e uma Dungeon...
O laboratório ainda brilhava com a brancura clínica e asséptica da ciência no seu auge, um santuário de vidro e cromo, anos-luz distante da ferrugem e do musgo que o consumiriam no futuro. Lucius Vrykolaka estava debruçado sobre microscópios de alta precisão e hologramas de sequenciamento genético que flutuavam no ar como fantasmas de dados. Seu rosto estava marcado por olheiras profundas e violáceas, cicatrizes de insônia de quem não via a luz do sol há meses. Quanto mais ele estudava o Composto B2 para tentar estabilizá-lo, mais ele percebia sutilezas aterrorizantes no código genético que haviam lhe escapado antes, como monstros escondidos nas entrelinhas da biologia.
A porta automática deslizou com um silvo suave e pneumático. Lara entrou, o som de seus saltos abafado pelo piso emborrachado, trazendo tablets com novos relatórios.
— Senhor, já trouxemos os próximos candidatos para a triagem. Eles estão sedados no Bloco C.
Lucius assentiu minimamente, sem tirar os olhos das lâminas de vidro onde células se multiplicavam em loops frenéticos. Lara hesitou na entrada, apertando o tablet contra o peito como um escudo.
— Mas... tem certeza, senhor? Achei que a ideia original do Projeto B2 fosse criar novos seres vivos artificiais para servirem de gado de sangue perpétuo. Assim, mortes humanas e genocídios vampíricos deixariam de ser necessários. Era uma solução limpa.
Lucius parou. A mão dele congelou sobre o controle do microscópio. Ele se virou lentamente na cadeira giratória. Seu sorriso não tinha qualquer vestígio de humor; era uma curva cansada, desenhada a navalha em um rosto destruído pela obsessão.
— Está se sentindo mal pela nossa nova abordagem, Lara?
Lara recuou um passo, intimidada pela aura pesada dele.
— Senhor, eu jamais iria contra uma ordem sua. Apenas... dei minha opinião. Modificar prisioneiros condenados em vez de criar vida do zero parece... um desvio ético do nosso propósito inicial. Parece regressão.
— Acalme-se — Lucius suspirou, esfregando as têmporas onde a enxaqueca pulsava. — Não vou te punir por ter pensamentos próprios. Sinceramente, até sei como sua linha de raciocínio surgiu. Eu não a culpo. Quando eu era mais jovem, pensava da mesma forma ingênua. Eu achei que, criando vida, eu poderia salvar a mulher que amava e também o mundo à minha volta. Acreditei nisso com cada fibra do meu ser, como um devoto cego.
— E o que mudou? — Lara perguntou, a curiosidade científica vencendo o medo hierárquico.
Lucius deu de ombros, levantando-se e caminhando até a janela de vidro blindado que dava para o setor de contenção vazio abaixo deles.
— Já que você será minha nova cientista-chefe, acho que vale a pena te contar. Até porque, se algo acontecer comigo... espero mesmo sua colaboração para continuar meu legado ou, pelo menos, limpar a minha bagunça sangrenta.
— Por favor, não fale dessa forma, senhor — Lara pediu, genuinamente preocupada. — O mundo não será o mesmo caso perca uma mente tão brilhante.
— Infelizmente, essa é a realidade, minha cara. A mortalidade é a única certeza. E sei que será questão de tempo para que meu fim chegue.
— Por quê?
— Tem relação com o motivo de termos parado a fabricação de vida e passado a usar os dados da Matriz para modificar pessoas e gerar o B3 — Lucius explicou, a voz assumindo um tom professoral e sombrio.
Ele começou a narrar, com detalhes técnicos arrepiantes, como conseguiu fabricar vida usando o DNA Scarlune como base. Enquanto ele falava sobre a manipulação genética complexa, a fusão de Éter e matéria orgânica, Lara arregalou os olhos, fazendo os cálculos mentais impossíveis. A magnitude do feito a atingiu como um soco no estômago.
— Sinceramente... esse é o tipo de genialidade que nunca me vejo sendo capaz de alcançar. Pensar em conseguir fazer tal coisa... é divino. É o poder de Deus.
Lucius riu, um som seco, amargo e oco.
— E será melhor que nunca alcance. O que eu fiz não é algo que deva ser elogiado. Foi uma burrice. Uma arrogância. Uma maldição sem tamanho que nunca mais deve ser repetida. Pena que eu acabei descobrindo tarde demais...
Ele olhou para ela, os olhos vermelhos de cansaço brilhando com uma lucidez terrível.
— Você sabe sobre a "Sombra do Astreus da Vida"?
— Sim — Lara respondeu. — A punição divina para quem tenta brincar de Criador.
— Na época, eu achava que, com inteligência o suficiente, eu seria capaz de ultrapassá-la. Achei que se me dedicasse de verdade, poderia enganar as leis naturais e negociar com o universo. Mas aprendi do pior jeito o resultado de desafiar a ordem.
Com os olhos cheios de curiosidade, Lara aproximou-se para escutar a história do homem.
— O resultado foi uma vida de miséria e tragédia, onde todos os meus desejos, tudo o que eu queria proteger, foram sendo tirados de mim, arrancados um a um. Gerar vida é um erro. Uma blasfêmia sem tamanho. E o mais irônico... é que nem foi um erro original meu. Eu só me apoiei em um erro muito maior, mais antigo e mais perfeito.
Lara franziu a testa, confusa. Lucius fez um gesto para que ela se aproximasse do computador central.
— Venha ver isto. A verdade por trás do mito.
Na tela holográfica, apareceu a descrição oficial da Família Scarlune, extraída dos arquivos da Rosa Cruz. Lucius leu em voz alta, com desdém palpável:
— "Os Scarlune são uma linhagem de seres aberrantes, originários de um humano chamado Daemon Scarlune, que buscou a imortalidade por meios proibidos. Através de experimentos hediondos, misturando genes de diversas criaturas e até mesmo invadindo reinos proibidos como Avalon, Umbra e o Caos, ele transcendeu sua humanidade, tornando-se um monstro. E após cruzar com uma fada, ele deu origem à família Scarlune."
Lucius desligou a tela com um clique furioso.
— Isso é o que o mundo acredita. É o conto de fadas para dormir. Mas, através dos meus estudos para criar a Matriz, eu descobri a verdade. É tudo mentira.
Ele olhou profundamente nos olhos de Lara, sussurrando como quem confessa um crime.
— Daemon Scarlune não "transcendeu". Ele foi criado. Ele era como a Matriz. Um projeto. Uma vida artificial. Em algum momento no passado remoto, com certeza alguém cometeu o mesmo tabu que eu, mas de uma forma infinitamente mais bela, precisa e aterrorizante. Minha inteligência é irrisória, é de uma criança brincando na areia, perto desse cientista desconhecido. Para eu conseguir fazer uma cópia barata, quebrada e defeituosa do que ele fez, eu precisei usar o código genético dos Scarlunes como cola. Aquele homem fez isso do zero. Do nada.
Lucius começou a digitar comandos freneticamente, trazendo gráficos de DNA comparativos na tela gigante.
— Levei muito tempo estudando o fator genético da Matriz e o sangue que a Rani me cedeu para perceber. Os Scarlunes são monstros perfeitos. Eles são idênticos aos humanos externamente, mas na realidade, não são humanos. Eles podem manifestar características de vampiros, lobisomens, elfos, dragões... como se carregassem o código genético de todo o bestiário em seu DNA. Mas descobri que isso é uma farsa biológica.
— Uma farsa? — Lara sussurrou, fascinada e horrorizada.
— Eles são como "Metamorfos Conceituais" ou Sombras Biológicas — Lucius explicou. — Eles basicamente imitam a biologia de outros seres em nível molecular. Um Scarlune pode ter traços de vampiro e fada ao mesmo tempo, mas na realidade, ele não é nenhum dos dois. Ele é algo que espelha essas criaturas, sendo uma espécie totalmente diferente, nova, alienígena.
Ele apontou para dois gráficos de hélice dupla na tela.
— E isso não é só no fator físico. Olhe isto. Eu comparei o código genético do sangue de Rani e de Ashley. Elas são irmãs de sangue. Biologicamente, deveriam compartilhar cerca de 50% do DNA herdado dos pais.
Lucius ampliou a imagem, onde as sequências brilhavam em vermelho e azul, quase sem intersecção, paralelas e estranhas.
— Quando fiz o teste, descobri que os códigos genéticos eram 99% diferentes. Era quase como se nem fossem da mesma raça, muito menos da mesma família. Achei que era um erro da máquina. Pedi amostras de mais familiares. Novamente, o padrão se repetia. É como se cada Scarlune fosse uma entidade genética completamente nova, independente dos pais, independente da árvore genealógica. Uma espécie sobrenatural que se reinventa do zero a cada nascimento. O caos ordenado.
Lucius colocou a mão no rosto, rindo baixinho, beirando a histeria.
— Até eu tive que admitir a obra de arte que estava vendo. O homem responsável por criar Daemon Scarlune era, sem dúvidas, um Deus da ciência. Mas o fato de não sabermos quem foi... acredito ser a prova final da maldição divina. Se eu, que só consegui criar uma cópia imperfeita disso, tive tantas tragédias... imagino que tipo de fim horrível, que tipo de inferno pessoal, aquele criador teve.
— Mas senhor... — Lara tentou argumentar, buscando lógica no desespero dele. — Por que continua se inferiorizando tanto? Você pode ter usado o projeto dele como base, mas também foi capaz de criar vida nova. A Matriz... a Velvet. Você deveria se orgulhar de ter chegado tão perto.
Lucius parou de rir abruptamente. A sala ficou em silêncio. Ele olhou para Lara com uma tristeza profunda, abissal.
— É isso que você acha?
Ele caminhou até uma bancada lateral isolada. Havia frascos de vidro contendo sangue e uma chapa de metal complexa, gravada com runas e incrustada com cristais de Éter bruto.
— Você sabe o que acontece quando colocamos sangue de uma pessoa em uma chapa emissora de Éter, correto?
— Sim — Lara respondeu, recitando a teoria básica. — O Éter dos cristais aquece e reage com o Éter residual presente no sangue, permitindo ver a tonalidade e a densidade da aura da pessoa.
— Exato. O "Brilho da Alma". A descoberta que eternizou Nicolas Flamel. A prova científica da existência da alma brilhando em cada molécula de hemoglobina.
Lucius pegou uma lanceta estéril, furou o próprio dedo sem hesitar e pingou uma gota na chapa fria. O sangue sibilou e, instantaneamente, uma aura azulada surgiu, com pequenos cristais brilhantes dançando no líquido como estrelas.
— Este sou eu. Humano. Alma. Perfeita.
Ele limpou a chapa com um pano e pegou o frasco rotulado como "Rani Scarlune".
— E se colocarmos o de um Scarlune?
Lara observou hipnotizada enquanto o sangue de Rani tocava a chapa. Ele brilhou intensamente em violeta, uma chama viva, alta e pulsante, ainda mais forte e agressiva que a de Lucius.
— A mesma coisa.
Lucius limpou a chapa novamente. Desta vez, pegou um frasco antigo, empoeirado, rotulado "Sereaphim - Gen 1".
— Agora... sangue de seres vivos artificiais comuns, como as antigas quimeras falhas ou homúnculos cujos métodos se perderam na história.
Ao tocar a chapa, o sangue brilhou com cristais fracos, pálidos, mas não havia a "chama" ao redor.
— Seres criados artificialmente têm suas almas comprometidas, fragmentadas — Lara disse. — Apenas os cristais brilham. A ausência da chama prova a esterilidade da alma e a incapacidade de reprodução verdadeira ou evolução espiritual.
Lara parou, o raciocínio a atingindo.
— Espera... se a teoria do senhor estiver certa, o homem que criou os Scarlunes conseguiu resolver isso? Ele criou seres artificiais que possuem a "chama"? E foi ainda mais longe, tornando-os a raça com a maior capacidade reprodutiva e evolutiva do planeta?
Lucius assentiu, sombrio.
— Exatamente. Ele venceu a barreira que eu não consegui. Ele criou almas. Mas... eu ainda não cheguei no ponto principal do meu fracasso.
Ele pegou o último frasco. O rótulo, escrito à mão com letra trêmula, dizia apenas: MATRIZ.
— Este é o sangue da minha criação. O sangue da Velvet. O que você acha que vai acontecer?
Lara hesitou.
— Bem... ela foi feita com genes Scarlune, então poderia ter a chama... Mas ela é artificial, feita pelo senhor, então poderia ter apenas os cristais pálidos. É uma das duas opções lógicas.
— Observe.
Lucius virou o frasco. A gota vermelha caiu na chapa aquecida por Éter.
Lara se inclinou para ver, esperando o brilho da aura ou o brilho cristalino. Mas não houve brilho. Não houve luz.
O sangue começou a ferver e a mudar de cor. O vermelho vivo escureceu rapidamente, coagulando e tornando-se um preto profundo, denso, viscoso como piche ou matéria escura. Em vez de emitir luz, a gota parecia sugar a luminosidade da sala, criando um pequeno ponto de vácuo visual.
Lara recuou, assustada, a mão na boca para abafar um grito.
— O que... o que é isso?!
— Está vendo? — Lucius sussurrou, encarando a mancha negra. — Eu realmente não faço ideia do que foi que eu criei naquele dia. Minhas tolas emoções me cegaram por tanto tempo que eu me deixei enganar, fingindo que sabia o que vivia sob o mesmo teto que eu, chamando-a de filha. Mas quanto mais o tempo passa, mais certeza eu tenho... seja lá o que for isso, não é uma vida.
Ele desligou a chapa, mas a mancha negra parecia ter manchado o metal permanentemente.
— Só espero que o resto do mundo, que eu estou tentando salvar criando o sangue B3, não tenha que pagar o preço comigo.
Lara engoliu em seco, entendendo finalmente a gravidade do medo de seu mentor. A "filha" dele não era uma bênção; era uma anomalia.
— Eu entendo, senhor. É por isso que não devemos mais criar vida. Nunca mais.
Lucius assentiu, exausto.
— Continuaremos usando os condenados à morte. Alterando o código genético deles para produzir B3, é mais seguro. É humano. Vamos limpar a dependência dos vampiros e tornar os genocídios coisas do passado.
Lara pegou os tablets, pronta para sair e iniciar os novos protocolos, fugindo daquela sala e daquela verdade. Mas, na porta, ela parou e se virou, uma última dúvida queimando.
— Senhor... você está fazendo isso realmente porque quer salvar o mundo? Ou agora está apenas tentando evitar o inferno por conta do que criou?
Lucius riu. Foi um riso quebrado, ecoando no laboratório silencioso como vidro partindo.
— Acha mesmo que alguém que continua dissecando vidas e fazendo o que eu estou fazendo merece perdão ou céu? Não, Lara. Eu não busco salvação. Apenas estou me desculpando com o mundo pela Coisa que coloquei nele... e pela minha covardia de não poder dar um fim a ela com minhas próprias mãos.
Ele olhou para a mancha negra na chapa, que parecia olhar de volta para ele.
— Mas sei que, independente das minhas escolhas... no fim, só um resultado me aguarda.
Lara não disse mais nada. Ela atravessou a porta, deixando Lucius sozinho em seu laboratório, cercado por seus fantasmas, seus pecados e pela certeza absoluta de sua própria maldição.
Parte 2
O corredor parecia pulsar, as paredes de concreto cinzento contraindo-se e expandindo-se sutilmente, como o esôfago de uma besta titânica engolindo sua refeição viva.
Lucius, Cloud e Nero caminhavam em uma formação triangular tensa, o som de seus passos ecoando de forma dessincronizada, criando um ritmo dissonante que arranhava os nervos.
Lucius quebrou o silêncio primeiro, sua voz carregada daquela cortesia venenosa e polida que era sua marca registrada.
— Tem certeza dessa nova separação, Caçador? — Ele olhou de soslaio para Cloud, um brilho de desdém nos olhos. — Pessoalmente, acho que foi uma péssima ideia estratégica. O que você fará caso as garotas frágeis se encontrem com o Scarlune?
Cloud tragou o cigarro com força, a brasa iluminando seu rosto marcado por cansaço profundo.
— Pela forma como a Ruxya reagiu à confissão do Dante e pelo abalo emocional genuíno da pequena Lin... eu tenho cerca de 70% de confiança de que a minha parceira não é o Lobo. E sei que a Lin também não é.
— 70% é uma margem de erro perigosa quando a aposta é a vida — Lucius provocou, sorrindo.
— É o suficiente para este inferno — Cloud rebateu, soltando a fumaça em um jato longo. — Mesmo que elas se encontrem com o Dante, não vejo motivos para ele atacá-las.
Lucius ergueu uma sobrancelha, divertido.
— Você parece ter confiança demais na moralidade de um assassino.
Cloud parou por um segundo, olhando para o teto de estática roxa, a mente rebobinando a cena na sala redonda. O sorriso quebrado de Dante, o riso maníaco... mas havia algo nos olhos heterocromáticos...
— Não... — Cloud murmurou, voltando a andar com passos pesados. — Eu acho que ele está escondendo alguma coisa. Não compro essa atuação de psicopata a sangue frio que ele quis vender lá atrás. Minha intuição diz que ele não mataria a Lin ou a Ruxya sem um motivo.
Ele girou o pescoço e olhou friamente para Lucius.
— Por outro lado, tenho 100% de certeza de que a pior opção seria deixar você, com essa sua lábia maldita, perto da Lin emocionalmente fragilizada. Isso sim seria uma sentença de morte.
Lucius deu de ombros, sem se ofender, aceitando o "elogio" à sua capacidade manipuladora como um troféu.
Eles continuaram a marcha. Nero, que mantinha uma postura rígida, militar, a mão sempre próxima à empunhadura de sua arma embainhada, falou sem olhar para trás, a voz controlada:
— Bom, se partirmos da premissa de que Dante não é o Lobo, então a matemática é simples e cruel: um de nós três é. Precisamos descobrir isso ao mesmo tempo que procuramos a saída.
— Ainda não desistiu da saída? — Cloud perguntou, cético, batendo a cinza do cigarro no chão que parecia absorvê-la.
— Claro que não — Nero respondeu. — Como o Dante disse, a saída deve ser verdadeira, mesmo que as condições para achá-la sejam injustas ou mortais. Mesmo que pareça ridículo, prefiro continuar investigando e tentando achar uma brecha lógica do que desperdiçar meu tempo esperando a morte sentada no escuro.
Cloud assentiu, respeitando o pragmatismo dela.
— Justo. Bom, acho que, dependendo de quem seja o monstro aqui, é melhor avaliarmos o campo de jogo. Vamos compartilhar informações de combate. Eu começo: sou um Caçador de Estilo Balístico. Utilizo pistolas e explosivos modificados com Éter. Sou péssimo em manipulação direta de energia e não tenho uma "habilidade" sobrenatural de verdade. Sou apenas um humano com boa mira.
Ele apontou o polegar para trás, indicando a direção escura onde Ruxya tinha ido.
— Minha parceira, Ruxya, tem uma manipulação de Éter de nível médio para alto. A habilidade dela é o Rastreamento Espectral. Ela pode "marcar" um alvo com uma assinatura de Éter e visualizar a localização dele mesmo no escuro absoluto ou através de objetos sólidos. Ambos usamos armas de fogo customizadas.
Nero processou a informação, arquivando-a mentalmente.
— Entendi. Sobre a Lin... como você viu, ela é uma lutadora de curto alcance focada em impacto. A habilidade dela é o Redirecionamento Cinético. Ela cria aquelas bolas de demolição com Éter e usa a inércia e o peso gravitacional para esmagar defesas. É simples, bruto, mas destrutivo.
Cloud assobiou, impressionado.
— Útil. Eu lembro que o garoto que morreu, Sanemi, usava uma katana longa. Você também tem uma na cintura. E o Saito e o Dante caminhavam sem nada visível.
Lucius soltou uma risada curta, seca como osso quebrando.
— Errado.
Cloud e Nero pararam e olharam para ele.
— O que quer dizer?
— Aquele garoto, Dante... ele estava carregando um bisturi cirúrgico no bolso traseiro — Lucius revelou com um sorriso casual e triunfante. — Mas quando voltou para a sala de reuniões pela segunda vez, o bolso estava vazio.
Cloud se virou num movimento brusco, irritado, agarrando o colarinho impecável do jaleco de Lucius.
— Espera aí! Se você percebeu isso, por que diabos não falou nada na hora?! Isso provava que ele foi o responsável pelo ataque ao Sanemi!
Lucius manteve a calma absoluta, afastando a mão de Cloud com um gesto elegante, como se espantasse uma mosca.
— Eu não sou idiota, Caçador. Eu não tinha como provar. Se eu falasse e ele negasse, e ninguém mais tivesse reparado, seria fácil para ele reverter o jogo. Ele diria que eu estava tentando incriminá-lo para desviar a atenção de mim. Eu seria o suspeito óbvio e perderia credibilidade. Preferi guardar a informação como um trunfo.
— Tsk... — Cloud estalou a língua, soltando-o com nojo. — Você é uma cobra. Então quer dizer que ele usa bisturis como armas?
Nero negou com a cabeça.
— Não. Se ele estava carregando bisturis, foi algo improvisado que ele pegou aqui. Ele normalmente não usa.
— Então como ele luta? — Cloud perguntou, genuinamente curioso e cada vez mais preocupado.
— A habilidade dele... — Nero hesitou, sabendo o peso daquela informação estratégica. — Dante possui a capacidade de manipular o Tempo de qualquer objeto que ele embuir com seu Éter. Ele pode parar, acelerar ou reverter o estado temporal de coisas que toca. Além disso, o Éter dele tem propriedades elétricas anômalas. Ele consegue gerar campos de eletromagnetismo para atrair ou repelir metais e soltar descargas elétricas letais no contato direto.
Tanto Cloud quanto Lucius arregalaram os olhos. O cigarro de Cloud quase caiu da boca.
— É sério isso?! — Cloud exclamou, incrédulo. — Manipulação temporal e eletricidade?! Esse monstrinho ficou logo contra nós?! Isso aí é trapaça.
Ele passou a mão no cabelo despenteado, nervoso.
— Agora fiquei com medo real da habilidade do tal Sanemi. Se o Dante é assim, e o Sanemi era considerado o "mais forte"... que tipo de monstro ele era?
— Sanemi era... complicado — Nero resumiu, uma sombra cruzando seu rosto ao lembrar do falecido. — E a minha habilidade...
Antes que ela pudesse responder, eles chegaram ao fim do corredor. Havia uma porta de metal pesado, enferrujada e entreaberta. Um cheiro ferroso, doce e enjoativo escapava pela fresta negra.
Nero empurrou a porta. O rangido ecoou como um lamento. O interior estava escuro, iluminado apenas pela luz pálida do corredor que entrava. No centro da sala, jogado como um saco de lixo quebrado, estava um corpo.
— Saito... — Nero sussurrou, a voz falhando.
Cloud correu para dentro, cobrindo o nariz com a manga do sobretudo para filtrar o cheiro da morte.
— Droga... mas como isso veio parar aqui?!
O corpo de Saito estava exatamente como Nero descreveu na reunião: pálido, os olhos abertos e vidrados em terror eterno, com um corte profundo e cirúrgico no peito. Mas a localização não fazia sentido geográfico. Eles tinham andado por quilômetros em direções aleatórias.
— A arquitetura da Dungeon está se movendo — Cloud deduziu, agachando-se ao lado do cadáver, entrando em modo de investigação forense. — Ou ela teletransporta os mortos para o caminho dos vivos para causar terror psicológico.
Ele começou a examinar a ferida, procurando ângulos de ataque, profundidade, resíduos de Éter, qualquer coisa que indicasse a arma ou a altura do assassino.
— De qualquer forma, isso vai ser perfeito. Se analisarmos a forma como ele morreu agora, com calma, talvez tenhamos uma dica crucial sobre o Lobo...
Enquanto Cloud falava, focado na carne morta e fria, ele não viu o que acontecia nas sombras atrás dele.
Lucius estava parado na porta, imóvel. A luz vinda do corredor batia em suas costas, deixando seu rosto mergulhado na penumbra, transformando suas feições em uma máscara de sombras. Ele não olhava para o corpo. Ele observava a nuca exposta de Cloud, o ponto vulnerável entre o colarinho levantado e a linha do cabelo.
"Fascinante..." Lucius pensou, seus olhos brilhando com uma malícia analítica e faminta. "Para um caçador experiente... você deixa a guarda aberta demais quando sente o cheiro de um quebra-cabeça."
Parte 3
O corredor era uma ferida aberta. As luzes de emergência piscavam em espasmos agônicos, lançando sombras que pareciam se contorcer e agarrar às paredes. Paredes de concreto estavam rasgadas, tubulações expostas sangravam vapores tóxicos que sibilavam como serpentes moribundas, e o cheiro adocicado e ferroso de morte antiga impregnava o ar parado, uma mortalha invisível que grudava na garganta. Era um cenário saído de um pesadelo, o tipo de lugar onde a esperança entrava apenas para ser estripada.
Mas, caminhando por entre os escombros, havia uma garota saltitando.
Velvet movia-se com a leveza de quem brinca de amarelinha em um parque ensolarado. A incongruência era nauseante. Seus pés delicados e descalços aterrissavam silenciosamente sobre poças de fluidos não identificados, ignorando a imundície. Seus passos eram ritmados, quase uma dança, enquanto ela cantarolava uma melodia sem nexo, uma cantiga de ninar infantil distorcida pelo eco metálico do corredor. O rosto dela estava corado, um rubor que contrastava violentamente com a escuridão ao redor.
Ela estava feliz. Genuinamente, extasiadamente feliz. Uma euforia química, quase dolorosa, pulsava em suas veias.
A mente dela rebobinava, em loop obsessivo, as frases de Dante. A voz dele ecoava em sua cabeça como uma música, abafando o gemido das estruturas metálicas ao redor:
"Eu mataria por ela... Não me importo de morrer nas mãos dela..."
— Ah... Dante... — ela suspirou, abraçando a si mesma, suas unhas cravando levemente nos próprios braços, sentindo um calafrio de prazer percorrer sua espinha. Era um arrepio elétrico, uma promessa de posse absoluta. — Meu Dante é tão perfeito...
O mundo exterior era apenas ruído de fundo. O que importava era a sinfonia que tocava dentro dela.
Ela parou diante de uma poça de óleo misturado com sangue, olhando para o seu reflexo distorcido. A superfície viscosa devolvia uma imagem fragmentada, uma boneca quebrada em um espelho negro. O sorriso dela se alargou até doer as bochechas, atingindo o ápice da felicidade, antes de murchar subitamente, substituído por uma expressão de seriedade maternal e perturbadora. A mudança foi instantânea, cirúrgica.
— Mas não está certo, Dante — ela sussurrou para o reflexo, sua voz baixando para um tom confidencial, quase rouco, balançando o dedo indicador. — Você pode enganar o Cloud. Pode enganar a Nero. Pode até enganar a chorona da Lin. Mas você não pode enganar a Velvet.
Ela inclinou a cabeça, os olhos amarelos brilhando na penumbra com uma inteligência predatória.
— A Velvet te conhece. A Velvet te ama mais do que qualquer coisa. E por te amar tanto... a Velvet vê através da sua máscara.
Ela se levantou, girando sobre o calcanhar, e em seguida voltou a caminhar, o ritmo agora ligeiramente mais lento, mais deliberado, chutando uma pedra solta que rolou ruidosamente pelo concreto.
— Você é bonzinho demais, Dante. É delicado demais. — Ela riu baixinho, um som que não combinava com a ternura das palavras, lembrando-se da cena com Lin. — Eu vi a sua mentira. Eu vi por que você atacou a garota da lancheira e por que confessou ter matado o espadachim. Você queria ser o vilão, não queria? Queria que todos te odiassem para que ficassem longe. Para protegê-los...
A lógica de Velvet era distorcida, filtrada por uma mente que só conhecia o amor através da posse e da dor. Para ela, a crueldade de Dante com Lin não foi rejeição; foi um sacrifício. Um teatro adorável, encenado por um mártir que não entendia que seu único público verdadeiro era ela.
— Mas assim não vai funcionar, bobinho — ela murmurou, a voz ficando fria. — Enquanto houver outras pessoas... enquanto houver ruído... elas vão tentar te tirar de mim. Ou você vai tentar salvá-las e se machucar. Eles são parasitas, Dante. Eles sugam a sua atenção. Eles sujam o nosso "para sempre".
A memória recente invadiu sua mente com a clareza visceral de um filme em alta definição.
Minutos atrás...
No corredor escuro, longe dos olhos de Cloud e dos outros, Dante estava à frente dela, focado, murmurando estratégias. Ele era tão belo em sua concentração, a nuca exposta e vulnerável, confiando cegamente na criatura que caminhava às suas costas.
"Acho que já tenho uma ideia de quem é o Lobo, Velvet..."
Ele estava tão sério. Tão focado em resolver o jogo. Ele confiava nela completamente. Ele baixou a guarda. Foi o maior presente que ele poderia ter lhe dado.
Velvet sorriu com a lembrança. Seus dedos formigaram ao recordar a textura áspera e fria do concreto. Ela havia apanhado um pedaço pesado de concreto do chão. Não houve hesitação, nem malícia, apenas um amor prático e cirúrgico. Era necessário. Era a única forma de silenciar o ruído do mundo e deixá-lo só para ela.
BAQUE.
O som da pedra contra a base do crânio de Dante foi seco, um estalo nauseante que reverberou deliciosamente nos ouvidos dela. Ele não gritou. Seus olhos reviraram, e ele desabou como uma marionete cujas cordas foram cortadas. Velvet o amparou antes que ele batesse no chão, seus reflexos aprimorados capturando-o com uma delicadeza sobrenatural, segurando-o com carinho enquanto um fio de sangue escorria pela nuca dele, manchando a jaqueta. O cheiro do sangue dele era inebriante, mais doce que qualquer perfume.
— Shhh... — ela havia sussurrado, acariciando o cabelo dele, os olhos amarelos vazios de qualquer empatia humana, mas cheios de adoração monstruosa. — Agora dorme mais um pouquinho, tá bom? Deixa a Velvet resolver os problemas. Quando você acordar... seremos só nós dois. Para sempre. Vou construir um mundo onde nada pode te machucar além de mim.
Ela o havia escondido em uma fenda segura nas paredes, protegido como um brinquedo precioso guardado na caixa para que ninguém mais brincasse. Ele estava seguro. Ele era dela.
De volta ao presente...
Velvet parou de saltitar. O movimento cessou com uma precisão mecânica.
O corredor à frente terminava em uma câmara ampla. O ar ali parecia mais pesado, carregado de expectativa. O som de respiração e passos pesados ecoou na escuridão. Não eram passos cautelosos; eram passos de caça. Alguém estava ali. Alguém que não era Dante. Logo, alguém que estava atrapalhando o "para sempre".
A temperatura ao redor dela pareceu cair. A expressão infantil desapareceu do rosto de Velvet. O rubor de vergonha sumiu, como se drenado por uma força interior.
Ela sorriu e, desta vez, o sorriso não tinha nada de felicidade. Era um esgar vazio, uma fenda em um rosto de porcelana fria. Tinha apenas dentes.
— Achei.
Parte 4
Lin e Ruxya caminhavam lado a lado pelo corredor de serviço, o som de goteiras rítmicas preenchendo o silêncio desconfortável como um relógio contando o tempo de vida restante de ambas. A água escura escorria pelas paredes mofadas, desenhando mapas de podridão no concreto. Lin ainda soluçava baixinho, limpando os olhos inchados com as costas da mão suja de poeira. Seus ombros tremiam em espasmos convincentes, a imagem perfeita da derrota.
Ruxya suspirou, sentindo o peso da culpa amargar sua boca.
— Sinto muito, garota... — a caçadora disse, a voz suave, ecoando fraca no túnel opressivo. — Eu fui ingênua. Não percebi que o Dante estava nos enganando esse tempo todo. Por minha causa, você não conseguiu proteger o Sanemi. Eu acabei dando a ele o momento perfeito quando sugeri a separação.
Lin parou de andar. O som dos soluços cessou abruptamente, cortado como um fio de marionete. Ela respirou fundo, o ar tremendo em seus pulmões, e então, com um movimento brusco, limpou o último vestígio de lágrima. Quando a mão baixou, levou consigo toda a vulnerabilidade. Quando ela levantou o rosto, a expressão de "donzela apaixonada e frágil" havia desaparecido. Em seu lugar, estava o olhar frio e focado. Era um olhar cirúrgico, que dissecava o ambiente em busca de ameaças e rotas de fuga.
— Está tudo bem, Ruxya — Lin disse, a voz firme e desprovida de tremores, soando quase metálica na penumbra. — Na verdade, foi melhor assim. Se tivesse tentado impedir... Dante teria matado você também.
Ruxya franziu a testa, ofendida pelo pragmatismo súbito e pela frieza que emanava da garota menor.
— Eu gostaria de ver ele tentar. Tenho meus truques.
— Não estou brincando — Lin cortou, séria. Seus olhos escuros fixaram-se em Ruxya com a intensidade de um predador avaliando uma presa tola. — Você não viu o que ele é capaz de fazer. Dante tem o poder de manipular o Tempo de objetos e gerar descargas de eletricidade letais. Para ele, matar um humano comum seria questão de milissegundos. Seu coração pararia antes que seu cérebro registrasse o clarão. Ele, no entanto, evitava isso. Havia barreiras morais que ele não queria cruzar, pois sabia que, uma vez cruzadas, a matança se tornaria fácil demais.
Lin olhou para a escuridão do corredor, analisando as sombras que pareciam respirar junto com elas.
— Se ele cruzou essa linha com o Sanemi... o único motivo de ele não ter te matado também é porque ele ainda está tentando, desesperadamente, evitar a selvageria total.
Ruxya recuou um passo, espantada com a mudança repentina de personalidade. Era como estar diante de uma estranha.
— Lin... o que... quem é você agora? E o que quer dizer com isso?
Lin começou a andar novamente, mas agora seu passo era rápido. Não havia mais o arrastar de pés de uma garota triste; havia a marcha silenciosa de uma assassina.
— Temos que ir logo. Precisamos ser rápidas para matar o Lobo antes que o Dante o faça.
— Do que você está falando?! — Ruxya exigiu, agarrando o braço dela. — Você estava chorando até agora há pouco por causa da traição dele!
Lin olhou para a mão de Ruxya em seu braço e depois para os olhos da caçadora. Houve um momento de desconexão, como se Lin estivesse decidindo se aquela mão era uma ameaça a ser neutralizada.
— Sinto muito por te confundir. É que, para mim, mentir é difícil. — Ela tocou o próprio rosto, onde as trilhas de lágrimas já secavam sobre a pele pálida. — Para chorar de forma convincente, eu preciso me forçar de verdade. Eu puxo memórias tristes reais... Assim, o choro é real, mesmo que o motivo na hora seja outro.
Ruxya soltou o braço dela, atordoada. A manipulação emocional era tão crua que a deixou nauseada.
— Outro...?
— É como nós, Scarlunes, sobrevivemos — Lin explicou, caminhando. Sua voz carregava o peso de gerações de traumas doutrinados. — Todos nós usamos máscaras. O Dante usava a máscara da confiança arrogante e dos sorrisos falsos para manter todos longe, para não criar laços que se tornassem fraquezas. O Sanemi usava a máscara da agressividade e da rivalidade, mas no fundo, ele se importava mais do que qualquer um. E eu...
Lin sorriu, um sorriso triste e autoconsciente, uma fresta real na armadura.
— Eu uso a máscara da garota apaixonada e boba. É o jeito mais fácil de ser subestimada e de viver sem ser o alvo principal. No fundo, todos nós sabíamos que estávamos mentindo uns para os outros. Era por isso que o Sanemi brigava tanto com o Dante; ele via os sorrisos falsos e odiava não saber como ajudar ele que nunca se abria.
— Então... aquilo que o Dante disse sobre você...
— Sobre o meu amor ser uma projeção? — Lin deu de ombros. — Ele não estava tentando me magoar por crueldade. Ele estava me atacando para testar a reação de outra pessoa. Ele sabia que eu aguentaria o golpe verbal, mas ele precisava ver como ela reagiria.
— Ela?
— Nero — Lin disse o nome como se fosse uma sentença de morte. — A Nero parece fria, concentrada e analítica. Mas quem a conhece sabe que, por dentro, ela é a mais emotiva e sensível de nós. Simular essa frieza perfeita não é fácil para ela. Geralmente, ela deixa os dois lados vazarem, como quando confortou o Sanemi, mas tentou manter a postura. Nós, que crescemos com ela, sabemos ler essas falhas. As microexpressões, a tensão na mandíbula... a verdadeira Nero é um livro aberto escrito em código.
Lin parou e se virou para Ruxya, os olhos brilhando com a certeza da dedução.
— A Nero nos entende melhor do que ninguém. Se o Dante tivesse matado o Sanemi, não tinha como a verdadeira Nero não ter percebido os sinais antes. E, acima de tudo... a verdadeira Nero, mesmo tentando ser fria, jamais teria deixado eu me separar dela naquele estado emocional, sabendo que havia um assassino à solta. Ela é protetora demais. A pessoa que ficou lá atrás... aquela frieza absoluta que aceitou a minha saída e a "traição" do Dante sem piscar...
Ruxya arregalou os olhos, as peças se encaixando com um clique audível em sua mente.
— Aquela não era a Nero.
— Exato — Lin confirmou, invocando sua bola de demolição de Éter, que começou a girar pesadamente ao seu redor. O ar zumbiu com a densidade da arma materializada. — Nós estávamos provando que o Lobo é a Nero.
CLAP. CLAP. CLAP.
O som de palmas lentas e irônicas ecoou na escuridão à frente, interrompendo a dedução. Cada palma era um tiro seco, reverberando nas paredes úmidas.
Lin e Ruxya entraram em posição de combate imediatamente. Das sombras, uma figura pequena emergiu, caminhando com uma leveza perturbadora. Ela parecia deslizar, desafiando a gravidade e a lógica do terreno acidentado.
— Agora tudo faz sentido... — a voz infantil e sádica ecoou, doce como mel envenenado. — Agora a Velvet entende por que ele agiu daquela forma. Realmente... sem dúvidas, o meu Caçador é o mais inteligente de todos.
Velvet saiu da luz, os cabelos prateados brilhando como fios de luar frio, um sorriso torto no rosto. Mas seus olhos amarelos não estavam focados em Ruxya; estavam cravados em Lin com um ódio puro.
— Mas a Velvet não gostou — ela sibilou, parando a alguns metros. Sua cabeça pendeu para o lado em um ângulo que parecia quebrar o pescoço. — Como assim vocês conseguem falar essas coisas sem trocar palavras? Vocês têm "códigos"? E você... — ela apontou um dedo acusador para Lin. — Você está fingindo que ama ele?
A aura de Velvet começou a escurecer, o Éter roxo e corrompido vazando de sua pele como fumaça tóxica. O cheiro do ambiente mudou; o mofo deu lugar a ozônio queimado e carne doce.
— O Dante é precioso. O amor deve ser sangue e verdade. Fingir amar ele para se proteger... isso é sujo. Isso é feio.
As unhas de Velvet cresceram, transformando-se em garras negras e afiadas que estalavam ao se alongar. Ela inclinou a cabeça, o sorriso desaparecendo para dar lugar a uma promessa de violência. A boneca havia quebrado. O monstro estava à solta.
— Eu nunca vou te perdoar por sujar o amor desse jeito. É por isso que a Velvet vai cortar a sua cabeça.
O ar no corredor não apenas mudou; ele morreu. A temperatura despencou para um frio de necrotério, e a pressão atmosférica tornou-se um peso físico, uma mão invisível esmagando os pulmões de Lin e Ruxya. Era a gravidade da presença de Velvet.
A garota de cabelos prateados, pequena e vestida com seu pijama infantil, não correu. Ela simplesmente... falhou.
Como um erro crítico na renderização da realidade, a imagem de Velvet tremeluziu e desapareceu da vista de Lin. Não houve o som humano de passos, apenas um deslocamento de ar súbito, um vácuo deixado onde uma predadora estava um milissegundo antes.
— Hora do Caçador! — Ruxya gritou, sua voz tremendo ligeiramente. Seus olhos brilharam em um azul néon intenso, o mundo se reconfigurando em um mapa de calor e fluxo de Éter.
Mas o que sua visão aprimorada lhe mostrou fez sua bile subir à garganta.
A assinatura de Éter de Velvet não era humana. Não era nem mesmo quimérica no sentido tradicional. Era uma mancha de Rorschach viva e pulsante, uma tempestade de energia roxa e negra que desafiava a gravidade. A coisa se movia pelas paredes e pelo teto não como uma pessoa, mas como uma fera, seus membros dobrando em ângulos que quebrariam ossos humanos, misturando a elegância calculada de um assassino treinado com os espasmos erráticos de uma besta de laboratório com fome.
— Em cima! Nove horas, teto! — Ruxya avisou, balançando sua arma modificada para cima.
Tarde demais. O tempo de reação delas era humano. O de Velvet foi projetado.
Lin sentiu uma respiração gelada, com cheiro doce, em sua nuca. Velvet não estava apenas atrás dela; ela havia invadido seu espaço pessoal. O rosto da criança estava a centímetros do ouvido de Lin, seus olhos amarelos brilhando com uma alegria maligna na penumbra.
— Criancinha malvada... — O sussurro de Velvet era doce, infantil, a voz de alguém que pede biscoitos, mas carregava uma vibração, um rosnado subjacente que fazia os dentes de Lin vibrarem. — Fica acordada até tarde contando mentiras para o meu Dante? Mentirosas precisam ser punidas. Vamos brincar de médico? Eu serei a cirurgiã.
O terror deu lugar ao instinto de sobrevivência. Lin gritou, girando o corpo e invocando sua bola de demolição de Éter em um arco ascendente brutal, visando esmagar a pequena figura contra o teto.
KRA-KOOM!
O concreto explodiu. Poeira, vergalhões retorcidos e detritos voaram como estilhaços de granada. O impacto foi devastador, suficiente para liquidar qualquer oponente normal.
Mas Velvet não estava lá.
Ela se moveu no caos como se a gravidade fosse uma sugestão. Saltando entre as sombras, ela usava os pontos cegos da visão periférica delas. Seus movimentos eram uma coreografia quebrada: a postura de luta fluida que ela absorveu observando Dante, misturada com tiques bestiais de uma criatura que nunca aprendeu a ser humana.
Velvet aterrissou agachada, de quatro, a dez metros de distância, perto de uma caixa de emergência na parede. Suas unhas rasparam o chão de metal, produzindo faíscas. Ela olhou para elas e inclinou a cabeça, um sorriso se alargando demais em seu rosto pequeno.
Com um movimento rápido e brutal, ela socou a porta de vidro da caixa de emergência. O vidro estilhaçou, cortando sua pele pálida, mas ela nem piscou. Com um rosnado baixo, ela arrancou um cilindro vermelho pesado.
Ruxya, com a visão espectral, focou no objeto através da poeira.
— Um... extintor de incêndio? O que ela pensa que...
Velvet não o usou; ela o lançou. Com força sobre-humana. O metal pesado girou no ar, zunindo como um míssil improvisado na direção das duas.
— Erro tático, sua aberração! — Ruxya gritou, a adrenalina focando sua mira. — É só um objeto físico! Eu posso desviá-lo!
Ruxya disparou sua pistola de Éter. O projétil de energia azul perfurou o ar, destinado a atingir a lateral do cilindro no meio do trajeto e desviá-lo.
O tempo pareceu desacelerar. A bala estava a centímetros do metal. Velvet, ainda agachada, levantou a mão pequena e estalou os dedos.
Não foi um estalo comum. Foi o som de um disjuntor de alta voltagem sendo ligado.
Faíscas violetas, grossas e violentas, dançaram nas pontas dos dedos da garota. Era a eletricidade de Dante.
ZZZTT-CRACK-BOOM!
Um arco voltaico viajou pelo ar, conectando-se ao extintor no exato momento em que a bala o perfurava. A ignição foi catastrófica. A explosão não foi de fogo, mas de pressão química comprimida. Uma nuvem densa, branca e sufocante de pó químico e espuma expandiu-se violentamente, preenchendo o corredor estreito instantaneamente com uma névoa opaca.
— Tosse! — Lin recuou, agitando os braços, seus olhos ardendo. — Não consigo ver!
— Mantenham a formação! Costas com costas! — Ruxya tentou desesperadamente rastrear a aura de Velvet. Mas a nuvem química estava carregada com a estática residual do relâmpago vermelho, criando um "ruído branco" cegante em sua visão espectral.
Foi no meio daquele silêncio branco e sufocante que o verdadeiro pesadelo começou.
Ruxya ouviu primeiro. Não passos. Mas o som molhado de dentes se preparando.
Velvet surgiu da névoa branca como um tubarão emergindo da espuma do mar, baixa e rápida. Ela não atacou com socos ou chutes. Ela atacou com a fome.
A garota saltou, suas mandíbulas pequenas, mas com força hidráulica, fechando-se no ombro de Ruxya, na junção entre o pescoço e a clavícula.
— AAGHHH! — O grito de Ruxya foi estridente. Ela sentiu o osso da clavícula triturar sob a pressão, os dentes afiados rasgando músculo e tendão.
Ruxya tentou golpear a garota com a coronha da pistola, mas Velvet já havia recuado para a névoa, levando consigo um naco de carne e tecido encharcado de Éter.
— Hmmm... — A voz de Velvet ecoou na fumaça. — Gosto de pólvora... a comida do Dante é muito mais gostosa.
A transformação foi grotesca, audível e instantânea. O Éter de Ruxya que ela ingeriu reagiu violentamente dentro de sua fisiologia instável. Os olhos amarelos da "boneca" sangraram para um vermelho rubi intenso e brilhante.
Houve um som de rasgo úmido. Sob os cabelos prateados, a pele da testa de Velvet se partiu, e dois chifres curvos, feitos de osso vermelho cristalizado e pulsante, projetaram-se para fora, crescendo centímetros em segundos. Suas unhas alongaram-se em garras escuras.
Ela não era mais apenas uma boneca quebrada. Ela era um demônio de laboratório evoluindo em tempo real, alimentado por ciúme e sangue.
A névoa começou a baixar ligeiramente, revelando Velvet. Ela agora segurava um machado de incêndio enferrujado que havia apanhado do chão no caos da explosão. A arma era grande demais para ela, mas ela a segurava com facilidade aterrorizante.
Ruxya, com o ombro jorrando sangue, tentou levantar a arma com o braço bom. Lento demais.
Velvet avançou. Desta vez, não houve selvageria. Com um movimento fluido, imitando assustadoramente a precisão de Ruxya, Velvet girou o machado em um arco horizontal perfeito.
SLASH.
Um som úmido de corte limpo. O braço direito de Ruxya, aquele que segurava a pistola, foi decepado na altura do cotovelo. O membro girou no ar, a arma ainda apertada na mão morta, antes de cair com um baque surdo. O sangue jorrou em um spray arterial, pintando a espuma branca do chão de vermelho vivo.
Ruxya olhou para o toco do braço, a mente incapaz de processar o trauma, antes de cair de joelhos em choque silencioso.
— Ruxya! Não! — Lin gritou, o pânico total tomando conta. Ela tentou invocar sua bola de demolição, mas o terror a fez hesitar por um segundo crucial.
Um segundo era uma eternidade para Velvet.
A garota-demônio surgiu atrás de Lin, a sombra projetada na parede pela luz de emergência piscante mostrando os novos chifres. Ela largou o machado por um instante apenas para agarrar um punhado do cabelo de Lin com a mão esquerda. Com força brutal, ela puxou a cabeça da garota para trás, expondo a garganta e forçando-a a olhar para o teto mofado.
Velvet pegou o machado novamente com a mão direita. A lâmina enferrujada, agora gotejando o sangue de Ruxya, pairou milimetricamente sobre o olho esquerdo de Lin, que tremia incontrolavelmente. Lin podia sentir o cheiro de ferrugem e morte na lâmina.
— Você achou que podia usar o amor como uma arma... — Velvet sussurrou, a saliva escorrendo por entre dentes que agora eram pontiagudos como os de um peixe abissal, pingando na bochecha de Lin. — O amor não é uma arma, sua mentirosa suja.
Lin paralisou, lágrimas quentes escorrendo pelos cantos dos olhos. A morte não estava apenas perto; ela tinha bafo de criança e olhos de demônio. Velvet levantou o machado ligeiramente para ganhar impulso para o golpe final que partiria o crânio de Lin em dois, começando pela órbita ocular.
— Bye-bye, bonequinha.
Velvet começou a descer o braço com força letal.
ZUUUM!
Um silvo agudo cortou o ar, mais rápido que o som. Um objeto prateado, pequeno e mortal, envolto em arcos de eletricidade vermelha, voou da escuridão do corredor oposto.
Os instintos bestiais aprimorados de Velvet gritaram um milissegundo antes do impacto. Ela interrompeu o golpe mortal e jogou o próprio corpo para trás em uma esquiva acrobática desumana, soltando o cabelo de Lin.
CLANG!
Um bisturi cirúrgico cravou-se profundamente na parede de concreto, exatamente no ponto onde a têmpora de Velvet estava um segundo antes. A eletricidade residual na lâmina fritou o metal, deixando uma marca de queimadura negra em forma de estrela.
Velvet rosnou, aterrissando de quatro no chão como um felino acuado, o machado ainda em punho. Seus olhos vermelhos brilhantes fixaram-se na escuridão de onde o projétil viera.
Passos ecoaram. Não eram passos de combate. Eram passos calmos. Rítmicos. O som de botas pesadas pisando na água ensanguentada e nos escombros com total indiferença ao caos e à carnificina.
Da névoa de pó químico que finalmente baixava, uma silhueta emergiu. Ele tinha as mãos nos bolsos da calça, a postura relaxada, quase entediada, como se estivesse passeando no parque e não entrando em um abatedouro.
Dante parou sob a luz oscilante.
Ele olhou para Ruxya sangrando e em choque no chão, para Lin encolhida e aterrorizada, e finalmente para Velvet, com seus chifres novos, boca suja de sangue e segurando um machado maior que ela.
Ele ajustou o colarinho da jaqueta, um sorriso de canto desenhando-se lentamente em seu rosto.
Parte 5
Cloud estava agachado sobre o cadáver de Saito, o couro de suas luvas rangendo suavemente enquanto ele traçava a borda da ferida aberta no peito do rapaz. O sangue já estava coagulado, uma gelatina fria e escura, mas a narrativa gravada na carne era nítida e recente.
Atrás dele, o laboratório mergulhado na penumbra pulsava com o zumbido de maquinários antigos. O silêncio humano era quebrado apenas pela respiração rítmica de Nero, parada perto da porta, e pelo roçar aristocrático do jaleco de Lucius.
— Encontrou algo, Caçador? — A voz de Lucius soou, carregada de uma curiosidade clínica, quase infantil.
Cloud não respondeu. Seus olhos, escondidos sob a franja, estreitaram-se. Sua mente de atirador, treinada para notar a física do mundo, registrou uma anomalia.
A ferida. Não era um rasgo irregular de garras, nem o furo rombudo de uma bala, nem a queimadura de Éter. Era uma linha perfeita. Uma dissecção anatômica que separou esterno e coração sem deixar rebarbas. Um corte limpo, cirúrgico, feito por uma lâmina longa, curva e extremamente afiada.
Uma katana.
No grupo original, excluindo Sanemi que estava longe... apenas uma pessoa carregava tal arma.
O ar atrás dele mudou. Não foi um som; foi a pressão atmosférica sendo deslocada violentamente, o vácuo criado por um objeto maciço acelerando de zero a cem em um milissegundo.
Cloud não pensou. Ele não se virou para ver. Ele confiou na paranoia que o manteve vivo por trinta anos.
Ele girou sobre os calcanhares em um pivô explosivo, sacando sua pistola prateada, a Silver Ghost, em um borrão de movimento. Ele não teve tempo de esticar o braço para mirar. Ele recolheu os cotovelos contra as costelas e usou a arma reforçada como um escudo físico, rezando para que a liga de titânio aguentasse.
CLANG!
O som não foi de uma luta; foi de um acidente industrial. Metal contra metal gritou, reverberando nas paredes confinadas e fazendo os dentes de Cloud vibrarem.
A lâmina negra da katana de Nero estava cravada no slide da pistola de Cloud, a milímetros da ponta de seu nariz. Faíscas laranjas choveram sobre o rosto do Caçador. Através do brilho do aço, ele viu os olhos da líder da Scarlune. Geralmente frios e calculistas, agora estavam arregalados, pupilas dilatadas, injetados de uma fúria predadora e vazia. Não havia reconhecimento ali. Apenas o imperativo de matar.
— Mas que diabos você comeu no café da manhã?! — Cloud grunhiu, seus joelhos dobrando sob o peso tectônico do golpe. Os braços dele tremiam violentamente; era como tentar segurar um teto desabando.
Cloud sabia que não podia vencer num teste de força. Ele era humano; aquilo era uma besta.
Com um movimento técnico de jiu-jitsu, ele cedeu ligeiramente para a esquerda, fazendo a lâmina de Nero escorregar pelo cano da arma. Assim que a guarda dela se abriu, ele enfiou o cano da pistola nas costelas dela e puxou o gatilho três vezes.
BANG! BANG! BANG!
O som foi ensurdecedor no espaço fechado. O impacto à queima-roupa deveria ter pulverizado os ossos e colapsado o pulmão de qualquer ser vivo. Mas Nero apenas recuou um passo, como se tivesse sido empurrada pelo vento, sem emitir um único som de dor.
— Impossível... — Cloud sibilou.
Nero não sangrou. Onde as balas perfuraram, não havia sangue vermelho, mas uma polpa escura e viscosa. Ela rosnou — um som de estática distorcida — e girou a espada horizontalmente.
Cloud se jogou para trás. A ponta da katana rasgou o ar onde sua garganta estava um segundo antes, cortando a ponta de seu colarinho.
Ele rolou sobre uma mesa de metal, derrubando frascos e papéis, e caiu do outro lado, colocando um obstáculo entre eles.
— Lucius! — Cloud gritou, ofegante, alinhando a mira novamente. — Cientista maldito, vai ficar só olhando até quando?! Me dá cobertura!
O cientista recuara para o canto mais seguro, assistindo com um sorriso fascinado, como quem observa bactérias numa placa de Petri.
— Receio que isso invalidaria o teste, Caçador. Sobreviva.
— Seu filho da...
Nero não caminhou. Ela explodiu em movimento. Ela saltou sobre a mesa, a espada erguida acima da cabeça para um golpe vertical.
— Merda!
Cloud chutou a mesa de metal para cima no momento exato em que a lâmina desceu.
SHIIIING.
A katana cortou a mesa de aço reforçado ao meio como se fosse papelão molhado. As duas metades caíram com estrépito, mas a fração de segundo serviu ao propósito de Cloud. Ele deslizou pelo chão, passando por baixo das pernas dela enquanto disparava para cima.
As balas atingiram o queixo e a máscara de Nero, fazendo a cabeça dela estalar para trás, mas ela não caiu. Ela aterrissou, girou com uma flexibilidade inumana e desferiu um chute reverso.
A bota dela conectou com o peito de Cloud.
O ar foi expulso dos pulmões do Caçador. Ele voou três metros, colidindo violentamente contra uma estante de arquivos. O metal amassou com o impacto de suas costas. A dor foi cegante, pontos pretos dançando em sua visão.
— Ela é... só força bruta... — Cloud tossiu, gosto de cobre na boca. Ele tentou levantar a arma, mas seus braços pareciam chumbo. — Sem Éter... sem cérebro... É um boneco de carne turbinado!
Nero avançou pelo corredor estreito de estantes. Ela não corria; ela caçava. A espada arrastava no chão, criando um rastro de faíscas, pronta para estripar.
Cloud olhou ao redor. Sem saída. O espaço era pequeno demais para ele ditar o ritmo. Ele precisava de distância, mas ela encurtava o espaço mais rápido do que ele podia pensar.
Ele disparou as últimas duas balas do pente. Uma atingiu o joelho dela, a outra o ombro. Ela nem piscou. O medo gelado, aquele medo primal de presa, começou a subir pela espinha de Cloud.
Nero largou a espada. Ela queria fazer isso com as mãos. Em um borrão, ela fechou a distância final. A mão dela, fria e dura como mármore, fechou-se em torno do pescoço de Cloud, levantando-o do chão até que seus pés balançassem no ar.
A traqueia dele começou a ceder. Cloud agarrou o pulso dela, batendo, arranhando, mas era como tentar dobrar uma barra de ferro. A visão dele começou a escurecer nas bordas.
— Morra... — A coisa sibilou. A voz não era de Nero; soava como múltiplas vozes sobrepostas, uma gravação corrompida.
Cloud, com o rosto ficando roxo, olhou de soslaio. Ele viu Lucius encostado numa viga de suporte estrutural, a três metros de distância, observando com tédio analítico.
O cérebro de Cloud, privado de oxigênio, entrou em hiperfoco. Ele não podia soltar-se. Ele não podia levantar muito os braços para mirar em um ponto crítico sem ela desviar. E ele só tinha uma bala na câmara. Uma.
Seus olhos varreram o ambiente. A viga de metal atrás de Lucius. Titânio polido. Angulação de quarenta e cinco graus em relação à posição deles.
Cloud parou de lutar. Ele deixou o braço da arma cair frouxo ao lado do corpo, fingindo desmaio.
Nero, sentindo a presa ceder, inclinou a cabeça, aproximando o rosto monstruoso para conferir a morte.
Foi o erro dela.
Cloud sorriu, os dentes manchados de sangue.
— Sabe... — ele engasgou, a voz saindo como um chiado quebrado. — Eu avisei... que eu era bom de mira.
Com um movimento seco do pulso, sem nem levantar o braço, Cloud disparou para o lado, num ângulo que parecia suicida e estúpido, longe de Nero.
BANG!
A bala atingiu a viga de titânio atrás de Lucius.
Não perfurou. Ricocheteou.
O projétil traçou uma linha geométrica perfeita, zunindo pelo ar com um silvo agudo. Passou a centímetros da orelha de Lucius — cortando alguns fios de seu cabelo — e viajou no ângulo cego de Nero.
SPLAT.
A bala entrou pela têmpora direita da criatura e saiu pela esquerda, explodindo em uma nuvem de massa cinzenta e gosma negra.
O aperto no pescoço de Cloud se desfez instantaneamente. O corpo do "Monstro" sofreu um espasmo violento, como uma marionete que teve as linhas cortadas, e caiu para trás com um baque pesado e definitivo.
Cloud despencou de joelhos, o chão frio recebendo-o. Ele tossiu violentamente, puxando o ar para os pulmões famintos, massageando o pescoço que agora ostentava hematomas digitais profundos.
Ele olhou para a arma fumegante em sua mão, depois para o cadáver.
— Nunca... duvide... — ele respirou fundo, a adrenalina começando a baixar e a dor chegando com tudo. — De um bom atirador.
Lucius desencostou da parede, tocando levemente a orelha onde o vento da bala passara. Ele olhou para a marca no metal atrás de si, depois para Cloud. Seu sorriso se alargou.
— Arriscado. Se tivesse errado o cálculo por dois graus, teria estourado o meu crânio, e não o dela.
Cloud se levantou cambaleando, limpando o sangue da boca com as costas da luva. Ele embainhou a pistola com um clique satisfatório e encarou o cientista com puro desprezo.
— Quem disse que eu não estava mirando em você e errei?
Lucius riu, uma risada genuína e perturbadora.
— Touché, Caçador. Touché.
No chão, o corpo de "Nero" começou a borbulhar, dissolvendo-se em uma poça de lodo negro.
Parte 6
A névoa química e tóxica se dissipava lentamente, revelando o quadro estático da violência recente.
Dante caminhou em direção a elas, os passos ecoando molhados na água misturada com sangue que cobria o chão. Velvet, que um segundo antes era uma máquina de matar sorridente e implacável, travou. Ao ver o rosto dele — cansado, sujo, mas estranhamente calmo —, os olhos vermelhos e brilhantes vacilaram. A postura predatória desmoronou como um castelo de cartas.
Ela recuou um passo. Depois outro. Os chifres de osso rubi ainda coroavam sua testa como uma tiara maldita, e as garras negras pingavam o sangue fresco de Ruxya no concreto, plec, plec. Mas sua expressão era a de uma criança que acabou de quebrar o vaso favorito da mãe e sabe que não há como colar os cacos. Ela se encolheu, tentando se fazer pequena, tentando desaparecer nas sombras para evitar o castigo inevitável.
Dante passou por ela sem dizer uma palavra. Nem um olhar. O coração de Velvet parou no peito. "Não, não, não, não. Ele me ignorou. Ele acha que a Velvet é um monstro. Ele não vai mais precisar de mim, ele vai me abandonar."
Dante se ajoelhou ao lado de Ruxya, que estava inconsciente e pálida como cera pela perda massiva de sangue. Ele estendeu a mão sobre o toco decepado do braço dela.
Zzzzt.
Arcos de eletricidade vermelha dançaram entre seus dedos. Não era uma cura mágica e gentil; era cauterização bruta. O cheiro de carne queimada subiu instantaneamente, acre e enjoativo, enquanto ele selava as artérias rompidas com calor extremo para impedir que a Caçadora morresse ali mesmo.
— Por quê...? — Velvet sussurrou, a voz trêmula, abraçando o próprio corpo, as garras arranhando os braços. — Por que, por que, por que...?
Dante se levantou, limpando as mãos chamuscadas na calça. Velvet continuou seu mantra de pânico, os olhos arregalados, a respiração hiperventilada.
— Elas não merecem... Ela tentou enganar o Dante... O Dante não devia fazer isso... O Dante só devia ajudar a Velvet...
Ela tremia violentamente, a mente fraturada criando cenários catastróficos de rejeição. "Ele está com medo da Velvet agora. Ele viu a verdade. Ele vai brigar porque a Velvet atacou a amiga dele. Ele vai me deixar aqui para apodrecer." As lágrimas começaram a se misturar com o sangue seco em seu rosto, criando trilhas limpas na sujeira.
Dante caminhou até ela. A sombra dele cobriu a dela. Velvet fechou os olhos com força, esperando o grito, o golpe, a rejeição final.
Mas o que sentiu foi uma mão quente e calejada pousando suavemente no topo de sua cabeça.
Ela abriu os olhos, confusa, o medo travado na garganta. Dante não estava bravo. Ele olhava para os novos chifres dela com uma curiosidade genuína, quase infantil, traçando a curva do osso vermelho com o polegar, sem nojo.
— Hum... — ele murmurou, inclinando a cabeça para o lado. — Eles até que são bem bonitinhos. Combinam com você. Parecem uma coroa.
Velvet sentiu o ar sair de seus pulmões em um suspiro engasgado e incrédulo.
— É melhor nos matar também, não acha?
A voz veio do chão, fraca, mas desafiadora. Lin, ferida e suja, levantava-se com dificuldade, apoiando-se na parede úmida. O medo havia sumido de seus olhos, restando apenas uma resignação cansada de quem perdeu a guerra. Velvet rosnou instantaneamente para ela, um som gutural e possessivo, mas a mão de Dante em sua cabeça a manteve no lugar, firme e reconfortante.
Ele olhou para Lin com indiferença.
— Por que eu faria isso?
— Porque agora eu sei o quão perigosa essa coisa é — Lin apontou um dedo trêmulo para Velvet. — E eu não vou esconder o segredo dela. Assim que eu sair daqui, eu vou relatar tudo para a Família. Sobre o que ela é, sobre o que ela fez, sobre o que ela é capaz de fazer. Você sabe que eles virão caçá-la até o fim do mundo.
— Eu já sabia que você faria isso — Dante respondeu, a voz monótona.
— Então por que nos salvou?! — Lin gritou, frustrada, lágrimas de raiva nos olhos. — Por que não me matou logo?!
Dante olhou para as próprias mãos, onde resquícios de eletricidade estática ainda percorriam a pele como cobras vermelhas.
— Você entendeu algo errado, Lin. Eu não gosto de matar.
Lin piscou, confusa. Dante continuou, o olhar ficando distante, perdido em algum lugar dentro de sua própria fratura mental.
— Eu percebi quando matei o Sanemi. Eu queria muito que, naquela hora... eu sentisse algo. Adrenalina, poder, ou aquela felicidade doentia que sinto quando caço. Mas... não, de novo eu não senti nada.
De repente, o rosto de Dante se contorceu em um espasmo. Glitch. A imagem de Lin à sua frente falhou como um holograma defeituoso. Por um segundo, ele viu Sanemi. Mas não o Sanemi real. Viu um desenho grotesco, infantil e macabro, feito de rabiscos frenéticos de giz de cera, com grandes "X" pretos no lugar dos olhos, a boca costurada em um sorriso triste.
"Por que você me matou, Dante?" — a alucinação sussurrou com a voz feita de estática branca.
Dante sacudiu a cabeça violentamente, tentando limpar a visão.
— Ele iria matar a Velvet... — ele murmurou para o nada, respondendo aos seus demônios pessoais. — Se eu não impedisse... ele iria causar a morte dela...
Lin observou, horrorizada. A mente de Dante estava rachando diante dela, em tempo real. A frieza não era uma armadura sólida; era um vidro trincado prestes a estilhaçar em mil pedaços cortantes.
— Se é assim... — Lin insistiu, testando o limite. — Se você me deixar ir, eu serei uma ameaça para a Velvet. Eu vou trazer o inferno para vocês.
"Exato. Mate ela. Mate agora." — a voz em sua cabeça sibilou, sedutora.
Dante fechou os olhos com força e suspirou, expulsando a voz. Quando os abriu, a clareza havia retornado, melancólica e decidida.
— Se você fosse uma ameaça real, eu com certeza te mataria, Lin. Mas você já viu que não pode fazer nenhum mal a ela. E também já percebeu quem é o verdadeiro Lobo entre nós. A sua única forma de representar perigo é contando sobre ela quando sairmos dessa Dungeon.
Ele sorriu. Um sorriso que não pertencia a um Scarlune, mas a um fugitivo que já aceitou sua sentença.
— Mas, de qualquer jeito, isso não vai mudar o que eu planejei.
Velvet e Lin olharam para ele, confusas.
— O que quer dizer com isso? — Velvet perguntou, agarrando a jaqueta dele com as duas mãos.
— Eu vou embora — Dante declarou. Simples assim. — Não vou voltar para Threshold. Vou deixar os Scarlunes de uma vez por todas e nunca mais voltar. E vou levar a Velvet comigo. Eu já imaginava que teria que viver fugindo deles de qualquer jeito. Então... eles saberem dela ou não, não muda o destino.
— Você é louco... — Lin sussurrou, chocada. — Eles podem espalhar as informações sobre ela para todos os Caçadores. Vocês seriam perseguidos pelo mundo todo. Não teriam um dia de paz. Seriam caçados como animais.
— Eles não fariam isso — Dante retrucou com convicção lógica. — Se tentarem, terão que explicar o que ela é. E você já percebeu a verdade sobre esse laboratório, não é? O motivo de termos recebido a ordem de matar ela. A Família Scarlune nunca vai admitir o envolvimento com a criação de uma Quimera Humana. Eles não podem.
Lin ficou em silêncio, absorvendo a lógica política irrefutável e cínica. Dante deu um passo à frente, segurando a mão de Velvet, entrelaçando seus dedos calejados com as garras dela, sem se importar com o perigo.
— Você está dizendo... — Lin perguntou, a voz falhando. — Que está disposto mesmo a passar o resto da vida ao lado dela, fugindo, sem nunca parar? Sem casa, sem honra, sem família?
Dante olhou para Velvet, e o mundo ao redor pareceu desaparecer.
— Até que nós dois caiamos no mesmo caixão.
Ao ouvir isso, o rosto de Velvet explodiu em um tom de vermelho vivo. Lin também corou, desviando o olhar, pega de surpresa pela sinceridade bruta e avassaladora daquele voto. Não era uma promessa heróica; era um pacto funerário e romântico.
Velvet sentiu as pernas cederem. A intensidade daquelas palavras foi demais para seu sistema nervoso sobrecarregado de emoções. Ela caiu sentada no chão, sem forças, olhando para Dante de baixo para cima.
Tum-tum. Tum-tum.
O coração dela batia um ritmo novo. Aquela não foi uma promessa de sombras e sangue. Foi a primeira promessa de uma possível vida de felicidade que alguém já lhe ofereceu em toda sua existência miserável.
Lin mordeu a língua com força, usando a dor física para focar a mente. Ela limpou os olhos rapidamente com as costas da mão suja.
— Idiota... — ela resmungou.
Ela caminhou até Ruxya, pegando a mulher inconsciente e colocando-a sobre o ombro com um esforço considerável, grunhindo com o peso.
— Não tem motivo para eu falar nada para eles, de qualquer jeito — Lin disse, sem olhar para trás.
— Por quê? — Dante perguntou. — É a sua missão.
Lin parou na borda da escuridão do corredor.
— Pode até ser. Mas a verdade, Dante... é que eu também odeio cada um deles.
Com isso, ela começou a se afastar, carregando seu fardo.
— Eu vou dar um jeito de ir embora. Já cansei desse jogo. Você tem o dever de acabar com isso nessa rodada... Não morra.
Dante observou-a desaparecer na névoa residual até que ela fosse apenas uma sombra. Quando ficou apenas ele e Velvet, ele se ajoelhou novamente, ficando na altura dos olhos dela.
— Então, Velvet... — ele começou, a voz suave.
Ela ainda estava tonta, ruborizada, incapaz de focar os olhos amarelos nos heterocromáticos dele. Ela sentia que ia desmaiar de amor, uma overdose de sentimentos.
— E-eu...
— Eu não ligo que você me acerte daquele jeito — Dante disse, tocando a própria nuca onde o sangue já havia secado em uma crosta. — Apesar de que me deu um baita susto na hora. Mas, sério... eu não quero que você mate a Lin. Se nós começarmos a matar assim, indiscriminadamente, eu sinto que logo nós vamos perder o que...
Velvet colocou as mãos pequenas sobre a boca dele, calando-o abruptamente. Ela não estava com raiva. Ela estava desesperada. As palavras dele chegavam cortadas aos ouvidos dela, abafadas pelo som ensurdecedor do próprio coração gritando: "EU AMO. EU AMO. EU AMO."
Ela tentou organizar o caos em sua mente. "Ele não quer que eu mate a bonequinha. Ele quer que eu seja boazinha." Ela precisava garantir que ele nunca a deixaria. Ela precisava aceitar qualquer condição, qualquer regra, qualquer coleira.
— A Velvet não vai mais matar a bonequinha... — ela sussurrou, trêmula, olhando para ele com uma devoção que beirava a loucura. — A Velvet não liga se o Dante tiver outras bonequinhas para brincar... A Velvet aceita dividir... porque a Velvet ama o Dante e quer que ele seja feliz, feliz, feliz...
As lágrimas escorreram pelo rosto dela como rios. Ela expôs seus maiores medos, sua total falta de amor-próprio, oferecendo-se como algo que poderia ser deixado de lado na prateleira, desde que não fosse jogado no lixo.
— Mas, por favor... diz que não vai deixar a Velvet... Promete que ela sempre vai ser alguém especial... e que você nunca vai abandonar ela...
Dante viu a fragilidade absoluta naquelas palavras. Ele viu o trauma de uma vida inteira de descarte e solidão. Ele segurou as mãos dela gentilmente, tirando-as de sua boca, e olhou no fundo da alma quebrada dela.
— Velvet. Escute. — Ele não mentiu. Ele não fez promessas vazias de herói. — Não importa o que aconteça... não importa quem apareça ou para onde a gente vá. Você sempre terá um lugar no fundo do meu coração. Essa parte sua... viverá dentro de mim para sempre.
Velvet corou completamente, o vermelho subindo até as pontas das orelhas e colorindo a base dos chifres. A resposta foi perfeita. Foi absoluta. Ela se inclinou na direção dele, os lábios entreabertos, os olhos fechando-se para selar aquele pacto eterno com um beijo...
VRUUUMMM.
O mundo tremeu. As paredes gritaram como metal sendo rasgado por mãos gigantes. Uma luz vermelha de emergência banhou o corredor, transformando o sangue no chão em tinta preta, e a voz onipresente da Dungeon trovejou, sem emoção, sem piedade:
— ATENÇÃO. O LOBO FOI ENCONTRADO E MORTO. NO ENTANTO, COM A MORTE DO LOBO, TODOS OS REQUISITOS PARA A CRIAÇÃO DO BOSS FORAM ATINGIDOS. PREPAREM-SE PARA CONHECER A QUIMERA DEFINITIVA.
Antes que os lábios de Dante e Velvet pudessem se tocar, o chão sob os pés deles se dissolveu em pixels e escuridão absoluta.
Eles caíram juntos, de mãos dadas, mergulhando no abismo para enfrentar o horror final.



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