The Fall of the Stars: Capítulo 4 - O Jogo das Máscaras
- AngelDark

- 14 de jul. de 2025
- 58 min de leitura
Atualizado: 31 de dez. de 2025
Volume 3: Sentido da Vida
Parte 1
Longe da loucura teatral de Rani, na ala oeste da mansão, o ar era denso, impregnado pelo cheiro de papel envelhecido, couro e a acidez metálica de tinta química.
Love entrou na biblioteca particular de Heisen sem bater. O lugar era um labirinto claustrofóbico de estantes que tocavam o teto, onde a luz trêmula de dezenas de velas lutava uma guerra perdida contra as sombras densas dos cantos. Heisen estava sentado em uma poltrona de couro escuro, como um rei em seu trono de sabedoria. Ele folheava um grimório grosso com uma mão enluvada, o som do papel raspando no silêncio, enquanto a outra mão ajustava os óculos no nariz aquilino com precisão milimétrica.
Ele nem sequer levantou os olhos quando a porta se abriu.
— Se veio procurar conforto sobre a decisão da Rani, pode dar meia-volta, Love.
Love parou no meio do tapete persa, soltando um suspiro pesado.
— Eu não vim procurar conforto. Vim procurar lógica. A Rani... ela vê aquilo como um espetáculo sádico. Mas eu preciso saber as probabilidades reais.
Heisen fechou o livro com um baque seco que ecoou na sala. Ele finalmente levantou o rosto, perfurando o irmão com aqueles olhos analíticos e desprovidos de qualquer calor superficial.
— A Rani não está totalmente errada, sabe.
Love franziu a testa, incrédulo.
— Como assim?
— Pressão — Heisen disse, levantando-se com movimentos fluidos e caminhando até uma mesa de carvalho coberta de mapas topográficos e relatórios geológicos. — O aço só endurece no fogo e na martelada. Aquelas crianças já se provaram especiais. Mas se continuarmos a protegê-las com almofadas, elas vão quebrar na primeira vez que enfrentarem o mundo real sem a nossa supervisão. Isso será um desperdício e tanto de potenciais tão raros. Essa experiência... por mais brutal e traumática que seja, é o catalisador necessário para a evolução deles.
Love sentiu um gosto amargo na boca. Ele sabia, racionalmente, que Heisen tinha razão, mas a frieza do argumento o incomodava profundamente. Heisen era um analista; ele via números, variáveis e resultados onde Love via pessoas. Mas, no fundo daquela carcaça de gelo, Love sabia que o irmão se importava. Ele apenas não se permitia o luxo perigoso da empatia visível.
— Certo — Love concedeu, aproximando-se da mesa, a luz das velas dançando em seu rosto preocupado. — Mas a situação mudou drasticamente. O laboratório está se transformando numa Dungeon, e uma sem qualquer informação disponível para ajudá-los. Não há uma forma de calcular o que eles vão enfrentar?
Heisen ajeitou os óculos, o reflexo da chama ocultando seus olhos por um instante, tornando-o ilegível.
— Há indícios. Mas num sistema caótico e em mutação como aquele, "certeza" é uma palavra para tolos. Só saberemos olhando o abismo. No entanto... — ele puxou um mapa rabiscado com linhas de fluxo de Éter. — ...a teoria das Dungeons segue regras arcanas.
Ele apontou para o centro do mapa, onde uma mancha de tinta escura pulsava como um hematoma.
— Uma Dungeon nasce quando uma quantidade massiva de Éter satura um ambiente carregado de "peso". Experiências fortes. Traumas violentos, mortes em massa, ou até o nascimento de seres cheios de energia. O laboratório de Lucius tem todos os ingredientes desse veneno.
Heisen começou a desenhar círculos no ar com o dedo enluvado, como se regesse uma orquestra invisível.
— Antes de se solidificar, a Dungeon entra no "Estado de Esponja". Ela absorve as memórias do local. As dores, os medos, as intenções dos que viveram e morreram ali. Por isso, dependendo do que o ambiente "lembra", diferentes tipos de Dungeons podem nascer.
Love observou o mapa, pensativo.
— Como era um laboratório de genética e armas biológicas...
— Exato — Heisen completou. — Temos dois cenários prováveis. O primeiro: uma Dungeon de Criadouro. O ambiente vai gerar seres biológicos bizarros sem parar, uma carneficina física e visceral, onde o "Chefe" será a quimera suprema, o ápice da carne.
— E o segundo? — Love perguntou, temeroso.
— O segundo... — Heisen hesitou, a voz baixando para um tom grave e cavernoso. — Uma Dungeon Mental. O ambiente absorve a loucura de Lucius, os enigmas, a crueldade intelectual. As regras da física podem distorcer-se. O lugar torna-se um quebra-cabeça vivo e maligno.
Love soltou o ar que prendia, os ombros relaxando visivelmente.
— Bom... isso parece uma situação mais favorável. Se for mental, o Dante e os outros podem usar a inteligência. É melhor resolver enigmas do que enfrentar um monstro impossível de matar fisicamente.
Heisen parou. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Ele olhou para Love como se o irmão tivesse acabado de dizer que o sol era gelado.
— Burro.
Love piscou, ofendido pelo ataque gratuito.
— O quê?
— Você é um tolo ingênuo, irmãozinho — Heisen disse, a voz pingando um desprezo intelectual afiado. — Escute bem o que vou dizer. Eu já explorei muitas Dungeons para recolher relíquias e dados proibidos. Eu sei do que estou falando.
Heisen caminhou até Love, invadindo o espaço pessoal dele com uma intensidade rara, encurralando-o contra a mesa.
— Dungeons onde o perigo são monstros... são simples. O objetivo é claro: matar ou morrer. Você confia na sua espada, no seu Éter e nos seus companheiros. Se baterem com força suficiente, o problema sangra e morre. É binário. É honesto.
Ele agarrou o colarinho de Love, puxando-o levemente para baixo, forçando o contato visual.
— Mas nas vezes em que a Dungeon fica "esperta"... quando ela se torna do segundo tipo... é o inferno na terra.
Os olhos de Heisen, geralmente frios como vidro, mostravam agora um traço de medo antigo, uma cicatriz na alma.
— Numa Dungeon Mental, a realidade é sua inimiga. Um erro de cálculo não custa apenas energia, custa a sua sanidade e a sua vida. O chão mente. As portas mentem. O tempo não faz sentido e dobra sobre si mesmo. A própria mente vira-se contra si. Você não sabe o que atacar. Você não sabe como vencer porque as regras mudam quando você pensa que entendeu.
Ele soltou Love, empurrando-o levemente, e voltou-se para a janela escura, onde a tempestade lá fora refletia o caos interno.
— Eu já vi homens mais fortes e preparados que o Dante enlouquecerem em horas nesses lugares. Homens que choravam e implorariam de joelhos para enfrentar um dragão, só para terem algo tangível, algo feito de carne e osso para lutar e matar.
Heisen olhou para o horizonte, na direção exata onde o laboratório pulsava sob a terra.
— Por isso, não tenha dúvidas, Love. Reze. Reze para todos os deuses que você conhece para que nasça um monstro terrível, gigante e brutal lá embaixo. Porque se aquele lugar decidir brincar com a mente deles... a morte será a melhor alternativa que eles poderão desejar.
Love ficou em silêncio na penumbra, o peso das palavras do irmão afundando em seu estômago como chumbo derretido. Ele esperava consolo, mas recebeu a confirmação de que o verdadeiro pesadelo de Dante poderia não ter dentes ou garras, mas sim, algo muito pior e inescapável.
Parte 2
O laboratório de Lucius desapareceu. Não houve explosão, nem desmoronamento. O mundo físico, denso e real, foi simplesmente sugado por uma ondulação de Éter e substituído por algo que desafiava a lógica arquitetônica e a sanidade.
Dante despertou em uma sala branca, estéril, sem portas ou janelas visíveis, apenas uma luz fria e difusa emanando das próprias paredes, eliminando qualquer sombra. Ele se levantou de um salto, o corpo ainda memorizando a dor fantasma da batalha recente, embora sua pele estivesse bizarramente intacta e limpa.
— Velvet! — ele chamou, girando em torno de si mesmo, procurando um ponto de referência no vazio.
Ela não estava lá. Mas, em um canto, encostado na parede invisível com os braços cruzados e uma expressão de tédio mortal, estava Sanemi.
— Que diabos... — Sanemi murmurou, olhando as próprias mãos. — Dante? Como você...?
Dante ignorou a pergunta. O instinto gritava "perigo". Ele correu para onde sua intuição dizia haver uma saída e, como se a sala respondesse ao seu desejo subconsciente, uma passagem retangular se abriu no branco infinito, revelando um salão. Ele disparou para fora.
Dante emergiu em um salão circular gigantesco, uma arena de debates impossível. O teto era uma cúpula de vidro fosco que mostrava um céu de estática roxa, pulsando como uma TV fora do ar. No centro, dominando o espaço, havia uma mesa maciça, esculpida a partir do tronco único de um carvalho negro petrificado, cercada por dez cadeiras vazias de espaldar alto.
Outras portas se abriram silenciosamente ao redor do círculo. De uma delas, saiu Nero, com sua postura calma, analítica, varrendo o ambiente com os olhos. Atrás dela, uma figura pequena caminhava de cabeça baixa. Dante reconheceu os cabelos prateados instantaneamente.
— VELVET!
Ele não pensou em hierarquia, em missão ou em aparências. Ele não pensou no que os outros diriam. Ele correu, atravessando o salão em segundos, e se lançou sobre a garota. Ele a abraçou com força, levantando-a levemente do chão, enterrando o rosto no pescoço dela para sentir o cheiro, para ter certeza física de que ela era real e não uma alucinação daquele lugar.
— Dante... — Velvet murmurou, surpresa, deixando-o abraçá-la sem reagir, as mãos pequenas agarrando-se à jaqueta dele.
Nero parou, os olhos arregalados. Sanemi, que vinha logo atrás de Dante, travou no lugar. Aquela reação... aquele desespero emocional nu e cru... não era o Dante que eles conheciam. O Dante dos treinos sorria com cinismo e mantinha distância. Aquele Dante estava tremendo.
— O que está rolando...? — Sanemi sussurrou para Nero.
De outra porta, saiu Lin. Ela estava intacta, mas com o rosto sujo de poeira de concreto. Ao ver o grupo, ela sorriu aliviada, mas o sorriso morreu quando seus olhos pousaram em um homem saindo da porta oposta. O homem de sobretudo longo, Cloud, acendeu um cigarro com seu isqueiro Zippo, o clique metálico ecoando alto no silêncio. Ele parecia entediado.
— É VOCÊ! — Lin gritou, apontando o dedo acusador, as bochechas inflando de raiva. — Seu maldito! Foi você quem me trouxe para cá?!
Cloud soltou a fumaça pelo nariz, criando uma nuvem cinza.
— Do que você está falando, garota? Acha mesmo que eu teria poder para teletransportar todo mundo? É óbvio que isso foi obra da própria Dungeon.
— Ele tem razão.
A voz era calma, arrogante e gelada. Da última porta, emergiu Lucius, impecável em seu jaleco branco, limpando poeira imaginária da manga com gestos meticulosos. Ao seu lado, uma mulher de óculos, Lara, tremia visivelmente, segurando uma prancheta contra o peito.
No momento em que Velvet viu Lucius, o mundo parou. Ela se soltou dos braços de Dante como se tivesse levado um choque. Uma aura negra e assassina explodiu dela. Seus olhos amarelos, antes aliviados, brilharam com ódio puro e destilado.
— VOCÊ!
Ela não hesitou. Velvet saltou, as unhas brilhando com Éter roxo, pronta para rasgar a garganta de seu "pai". Cloud, reagindo por reflexo de caçador veterano, sacou sua pistola e disparou contra a "quimera" agressora.
BANG!
Mas o sangue não jorrou. A bala parou no ar a centímetros da testa de Velvet, suspensa numa matriz invisível. As garras de Velvet pararam a milímetros da carótida de Lucius. Paredes invisíveis de força surgiram, congelando a violência no tempo.
— Temporariamente, a opção de eliminação foi retirada.
A voz ecoou por todo o salão, onipresente. Não vinha de caixas de som; vinha da própria madeira da mesa de carvalho negro. Velvet recuou, cambaleando como se tivesse sido empurrada. Lucius perdeu a cor do rosto por um segundo. Era a voz de Kamui. Ou algo que soava exatamente como ela. Gentil, suave... e agora, a voz do carcereiro.
— Após o término do acordo, a opção de eliminação será restaurada.
— Não restam dúvidas — Nero constatou. — O laboratório terminou a transição e virou uma Dungeon.
Todos se voltaram para a mesa. A voz continuou, ignorando o choque deles.
— Primeiro, vamos às apresentações dos atuais participantes.
Luzes se acenderam sobre cada um, como holofotes em um palco macabro, conforme eram nomeados. — Dante, Nero, Sanemi, Lin, Saito, Lucius, Cloud, Lara, Ruxya e Velvet.
— Grupo 1: Os Primeiros Invasores. Dante, Nero, Sanemi, Saito e Lin. Um grupo de elite formado pela Família Scarlune.
Velvet franziu a testa, confusa com o termo "Scarlune". Lucius estreitou os olhos, calculando o valor político disso. Cloud assobiou, impressionado.
— Scarlunes, é? Agora entendi por que a pirralha era tão forte.
— Grupo 2: Os Criadores. Lucius e Lara. Os últimos sobreviventes da equipe científica do laboratório.
Cloud ergueu uma sobrancelha.
— Sobreviventes? Quer dizer que havia gente viva nesse buraco além dos monstros?
Nero e Sanemi trocaram um olhar rápido e significativo. "Aquele é o alvo", pensou Sanemi, a mão coçando no cabo da espada. Dante olhou para Lucius com uma frieza mortal, depois para Velvet, que tremia de raiva contida ao seu lado.
— O que foi, Matriz? — Lucius provocou, recuperando a postura. Ele sorriu, o sorriso de um vivisseccionista. — Não conseguiu acompanhar a explicação? Independente de quanto deseje, você não vai poder me matar agora. Mantenha a calma e não atrapalhe os adultos.
— Você deveria estar morto — Velvet sibilou, veneno escorrendo. — Eu sei disso. Ele injetou aquilo em você.
Lucius deu de ombros, cínico.
— É verdade. Eu também achei que iria morrer. Graças a você, o laboratório virou esta bagunça. Agora vejo que deveria ter descartado meus sentimentos paternos mais cedo e te matado no lugar das outras. Sua "emoção" mais uma vez me trouxe à ruína. Mas... — ele olhou para as próprias mãos limpas — ...com essa experiência de quase morte, sinto que consigo ver ainda mais longe. A ciência evolui mais uma vez.
Velvet rosnou, um som animal, mas as barreiras invisíveis a continham. A voz continuou.
— Grupo 3: Os Caçadores. Cloud e Ruxya. Invasores secundários que entraram para recolher material antes da conclusão da Dungeon.
Uma mulher alta, Ruxya, saiu de trás da sombra de Cloud, revirando os olhos.
— Olha só — Cloud riu, tragando o cigarro. — Essa Dungeon sabe até nossa afiliação. Me sinto lisonjeado.
— Seu idiota — Ruxya retrucou, ácida. — Como fica lisonjeado com isso? Deveríamos recolher informações, não dá-las de bandeja.
— E por último... A Peça Central.
A luz focou em Velvet com intensidade cegante.
— A Matriz. A cobaia inicial que gerou todos os experimentos e também trouxe a destruição para o laboratório. A fonte do Composto B2. E a Quimera Humana.
O silêncio caiu pesado como chumbo. As palavras doeram em Velvet mais do que qualquer golpe físico. Não pela verdade brutal, mas porque era a voz de Kamui — a pessoa que mais foi gentil com ela antes daquilo tudo — chamando-a de monstro e experimento com frieza.
Lucius riu baixo, aplaudindo lentamente.
— Acho que está em maus lençóis agora, Matriz. Foi para conseguir essa fama que decidiu escapar?
Cloud olhou para ela com interesse renovado, analisando-a como uma presa valiosa.
— Então ela é a joia desse baú...
Sanemi cruzou os braços, tenso.
— Esse aí era aquele alvo que deveríamos matar, não é, Nero?
Nero olhou para Velvet, depois para Dante. Ela viu o suor frio escorrendo pela têmpora dele, o pânico mal disfarçado em seus olhos heterocromáticos.
A Dungeon ignorou a tensão palpável e prosseguiu.
— As regras são simples. Vamos jogar o Jogo do Lobo. Dentre vocês, um foi substituído por um Monstro no momento da transformação da Dungeon. Vocês têm duas opções para vencer: achar a saída da Dungeon ou matar o Lobo. Caso contrário, o Lobo matará a todos. Vocês podem escolher sair se matando ou fazer uma votação aqui a cada quatro horas para eliminar um suspeito.
A gravidade da situação esmagou o grupo. Nero levantou a mão, pragmática.
— Você disse que um de nós foi substituído. Isso significa que a pessoa original está morta?
— Eu não posso responder.
Lucius interveio, analítico, como se estivesse resolvendo uma equação.
— Certo. Mas essa pessoa realmente foi substituída por um monstro agora, ou ela já era um monstro antes da transformação?
— Eu não posso responder.
Dante deu um passo à frente, tentando assumir o controle.
— Qual a pegadinha? As chances parecem boas. Somos muitos contra um.
— Até ser encontrado, o Lobo continuará matando. E cada pessoa morta é uma peça para completar a criação da Quimera Perfeita, o Chefe desta Dungeon.
— Para ele se completar... todos nós teremos que morrer? — Dante perguntou, a voz baixa.
— Isso eu não posso responder.
Sanemi bufou, desembainhando parcialmente a espada, o metal cantando.
— Se é assim, a resposta é óbvia. Nós do Grupo 11 só temos que matar todos os outros. É óbvio que o Lobo será um deles. Nós nos conhecemos muito bem, treinamos juntos. Perceberíamos se um de nós fosse substituído. Sem falar que não é fácil criar uma cópia perfeita de um Scarlune.
— Que ideia idiota — Lucius cortou, com desdém supremo. — Você só estaria se autoincriminando e diminuindo suas chances. Se matarem todos os "estrangeiros" e o Monstro ainda estiver vivo — o que é provável, já que ele pode copiar aparências —, isso seria perfeito para alimentar a Dungeon. — Ele olhou para Sanemi com superioridade intelectual. — Você levantar essa bandeira vermelha tão cedo é muito suspeito, garoto. Pela sua lógica burra, cada grupo aqui poderia confirmar a identidade dos seus.
Saito, trêmulo e suando frio, apontou um dedo trêmulo para Velvet.
— Então... deveríamos matar a Matriz!
Dante se moveu num borrão, colocando-se fisicamente entre Saito e Velvet. Seu olhar era assassino, prometendo violência imediata. Velvet, atrás dele, nem percebeu a ameaça de Saito; seus olhos ainda estavam fixos em Lucius, fervendo.
Ruxya olhou para o garoto assustado.
— Qual sua lógica, garoto?
— A Dungeon disse que iria criar a Quimera Perfeita — Saito gaguejou, recuando diante do olhar de Dante. — O óbvio seria aperfeiçoar ela. Ela é a fonte do B2. A voz a chamou de Matriz. Ela é a candidata mais óbvia para virar o Boss!
— Isso são só especulações! — Dante gritou. — Existem várias outras quimeras por aqui! Eu lutei contra um lobisomem gigante lá embaixo! A voz pode tê-la chamado assim só para nos dividir e causar paranoia!
— Ele pode ter razão — Lucius concordou com Saito, surpreendendo a todos. — Afinal, ela era a melhor criação que eu fiz. — Ele olhou para Velvet com um orgulho doentio e paternal. — Seu sangue, as propriedades do seu Éter, sua capacidade racional e de desenvolvimento... em todos os quesitos, Velvet era o mais perto do ápice que eu criei. Mesmo comparada com as clones dela. Ela é superior.
Dante trincou os dentes com o "elogio". Velvet piscou, surpresa, a raiva momentaneamente substituída pela confusão tóxica de ser reconhecida.
Cloud balançou a cabeça, soltando fumaça.
— Ainda assim... não posso concordar com essa estratégia de "matar por palpite". — Ele olhou para a mesa negra. — A Dungeon disse que uma quantidade de mortes deve acontecer para o Boss despertar, mas não especificou quantas. Logo, matar mesmo um inocente errado pode significar Game Over instantâneo se essa morte for o gatilho que faltava. É arriscado demais.
O grupo murmurou em concordância. O risco de acelerar o fim era alto demais.
Nero ajustou os óculos, olhando friamente para Velvet e depois para Lucius.
— Dito isso... ela também não pode matar Lucius. Se ela matá-lo na primeira oportunidade, não tem como não ficar claro que ela pode ser o tal impostor agressivo.
Dante percebeu a armadilha perfeita. Se Velvet agisse com violência, seria condenada. Se não agisse, seria suspeita. Todos olharam para a garota de cabelos prateados e para o garoto Scarlune que a protegia como um cão de guarda. O silêncio era uma lâmina pressionada contra o pescoço de cada um.
Cloud suspirou, guardando a arma no coldre.
— A única opção que resta, então, é achar a saída.
Todos concordaram em silêncio com um aceno de cabeça, mas os olhares trocados diziam outra coisa, muito mais sombria: a caçada havia começado, e ninguém confiava em ninguém.
Parte 3
A sala redonda estava mergulhada em um silêncio tático e sufocante. A atmosfera pesava como chumbo enquanto todos olhavam para o quadro imaginário desenhado pela fumaça do cigarro de Cloud.
— Grupo 1: Dante, Sanemi, Ruxya. — Grupo 2: Cloud, Lin, Lara. — Grupo 3: Saito, Nero, Lucius, Velvet.
Lucius foi o primeiro a quebrar o silêncio. Um sorriso analítico e frio curvou seus lábios, como se ele estivesse diante de um tabuleiro de xadrez e não de vidas humanas.
— Eu esperava essa separação de qualquer um, menos de vocês, Caçadores. Não acham que essa divisão os deixa em desvantagem tática? Afinal, no grupo de quatro, há dois Scarlunes e tecnicamente dois membros do laboratório. Vocês estão em minoria numérica em todos os cenários de traição.
Cloud tragou o cigarro profundamente, as brasas iluminando seu rosto cansado, e soltou a fumaça em direção ao teto de vidro, onde a estática roxa pulsava.
— É um risco calculado. Mas eu vi a raiva nos olhos da garota — ele apontou a ponta acesa do cigarro para Velvet. — Ela não é sua parceira, Lucius. Ela é sua carrasca. Isso é perfeito. Deixamos os mais perigosos cuidando dos mais perigosos.
Ele se inclinou sobre a mesa de carvalho negro, os olhos fixos em Dante e Nero com seriedade letal.
— Como havíamos discutido, é improvável haver dois impostores. O que significa que, ao colocar Lucius e Velvet juntos sob a vigilância clínica da Nero, criamos um impasse mexicano perfeito. Se Lucius for o monstro, Velvet e Nero atacam. Se Velvet for o monstro, Nero e Lucius reagem. Se Nero for o monstro... bem, aí o Saito morre primeiro e serve de alarme sonoro.
Saito empalideceu violentamente, engolindo em seco, sentindo-se um cordeiro no matadouro.
— Ei! Por que eu sou o aviso?!
Cloud ignorou o protesto irrelevante e desviou o olhar para Dante e Sanemi.
— E no seu grupo, Scarlune... Eu coloquei a Ruxya. Ela é a melhor rastreadora sensorial que eu conheço. Se um de vocês dois tentar qualquer gracinha, ou se o cheiro de vocês mudar um milímetro que seja... ela vai saber antes mesmo de vocês pensarem em atacar.
Ruxya assentiu lentamente, cruzando os braços. Seus olhos varreram Dante de cima a baixo, não como uma mulher olha para um homem, mas como um predador avalia a carne. Ela já o estava dissecando.
Dante sentiu um aperto no peito. Não por causa da ameaça de Ruxya, mas por causa do que acontecia debaixo da mesa. A mão pequena e fria de Velvet apertava a dele com uma força desesperada, as unhas cravando na pele, quase perfurando. Era um aperto mudo, um grito silencioso. Ela não queria se separar.
Dante olhou para ela de soslaio. Velvet estava tremendo levemente, os olhos amarelos fixos na madeira da mesa, evitando olhar para Lucius como quem evita olhar para o sol para não cegar de ódio. "Ela vai ficar no mesmo grupo que ele", Dante pensou, a ansiedade subindo pela garganta como bile. "Se ela perder o controle... se ela tentar matá-lo..."
Dante olhou para Nero. A garota de cabelos pretos captou o olhar dele. Mas não houve qualquer reação.
— Certo, e o seu grupo está com a Lin, que visivelmente já não gosta muito de você, e da tal Lara, que é o Coringa mais óbvio justamente por parecer a menos ameaçadora — Dante disse, com a voz firme, escondendo sua agitação interna. Ele apertou a mão de Velvet uma última vez, sentindo a textura da pele dela, antes de soltá-la. — Concordo, essa é a melhor formação. Vamos seguir com isso.
Saito então se levantou, notavelmente incomodado.
— Mas a gente precisa mesmo se separar? Não seria mais seguro agirmos em conjunto? Assim todos podemos nos monitorar.
— Seu covarde burro — Sanemi soltou sem qualquer hesitação.
— Se nós agirmos desse jeito, perderemos muito tempo tentando encontrar a saída nesse labirinto. E se não encontrarmos logo, lembre-se que em quatro horas voltaremos aqui e teremos que matar alguém. Ou seja, o tempo está contra nós — Nero explicou.
— Entendi... — Saito voltou a se sentar, desanimado.
— A Votação começa em 4 horas.
A voz da Dungeon ecoou onipresente, e um cronômetro digital vermelho, pulsante como um coração exposto, surgiu flutuando no centro da mesa.
04:00:00
A porta principal do salão se abriu com um ruído de sucção, revelando três corredores distintos, gargantas de escuridão, cada um emanando uma sensação diferente de perigo.
Velvet se levantou devagar, os movimentos mecânicos. Ela olhou para Dante, os olhos grandes e cheios de medo.
— Dante...
— Vai ficar tudo bem — Dante sussurrou para ela, rápido, baixo e intenso, inclinando-se para que apenas ela ouvisse. — Não deixe ele entrar na sua cabeça. Você não é mais o experimento dele. Você é a minha...
Dante sussurrou a última parte tão baixo que ninguém na sala, mesmo os mais atentos e com melhores capacidades de audição como Nero e Sanemi, foi capaz de ouvir, mas viram a aproximação deles.
Velvet mordeu o lábio até ficar branco, mas a determinação voltou a brilhar em seus olhos dourados.
— A Velvet vai esperar. A Velvet vai ser boazinha.
Ela se virou e caminhou até o grupo de Nero. Lucius sorriu para ela, um sorriso de proprietário, um convite silencioso para o caos, mas Velvet o ignorou, postando-se ao lado de Saito, que parecia prestes a desmaiar de terror.
Cloud se levantou, batendo a cinza do cigarro no chão polido.
— Vamos lá, princesa — ele chamou Lin com um tom zombeteiro. — Tente não me matar enquanto eu salvo a sua pele.
Lin inflou as bochechas, furiosa, mas pegou a mão de Lara — que parecia aliviada por estar a quilômetros de distância de Lucius — e seguiu o Caçador.
— Eu ainda vou te espancar quando sairmos daqui — Lin resmungou, marchando.
Restaram Dante, Sanemi e Ruxya no centro do salão.
Sanemi estalou o pescoço, o som de ossos estalando ecoando alto. Um sorriso predador e perturbador se abriu em seu rosto.
— Finalmente... — ele murmurou, os olhos brilhando ao focar em Dante. — Só nós dois e uma babá. Se você for o monstro, Dante, eu espero que você se revele logo. Eu estou louco para ter uma desculpa legítima para te cortar ao meio sem o Raikou enchendo o saco.
— Não enche, Sanemi — Dante respondeu, a voz vazia. Ele sentia o peso físico da ausência de Velvet ao seu lado. — Vamos logo. Quanto mais rápido acharmos a saída, mais rápido saímos desse inferno.
Ruxya não disse nada. Ela apenas gesticulou com a cabeça para o corredor da direita, silenciosa como a morte. Dante tomou a frente, mergulhando na escuridão.
Enquanto os três grupos eram engolidos por seus respectivos túneis, o cronômetro no centro da sala pulsou, marcando o tempo de vida restante.
03:59:59
O Jogo do Lobo havia começado. E nas sombras dos corredores mentais, a Dungeon observava, faminta e paciente, esperando para ver qual máscara cairia primeiro e quem derramaria o primeiro sangue.
Parte 4
O silêncio voltou a reinar, mas agora era um silêncio carregado, denso como a pressão no fundo do oceano.
O Grupo de Dante caminhou por horas em um túnel que parecia infinito. O cenário ao redor mudava sutilmente, quase imperceptivelmente; as paredes de metal estéril do laboratório começavam a pulsar com veias de Éter roxo, como se eles estivessem caminhando dentro de um organismo biomecânico vivo e doente.
Ruxya parou abruptamente, levantando a mão enluvada.
— Parem.
Sanemi, que caminhava logo atrás dela como um cão de guarda entediado, com a mão no cabo da espada, franziu a testa.
— O que foi agora? Achou a saída ou só cansou de andar?
— Não — Ruxya apontou para o chão metálico. — Estamos andando em círculos.
Dante e Sanemi olharam. No chão, brilhando sob a luz fraca, havia uma marca de cuspe. O mesmo cuspe que Sanemi havia deixado lá trinta minutos atrás, com desdém, após a discussão sobre liderança.
— Impossível — Dante murmurou, a mente trabalhando freneticamente. — Nós seguimos reto o tempo todo. Não viramos nenhuma esquina.
— É uma dobra espacial — Ruxya explicou, agachando-se e tocando o chão, sentindo a vibração. — Não é uma característica incomum em Dungeons. O corredor é um anel de Moebius. Se continuarmos andando, vamos ficar aqui dando voltas até o cronômetro zerar e a votação começar.
Sanemi soltou uma risada seca, curta e perigosa.
— Então a Dungeon quer nos prender aqui para nos ver nos matando? Que piada sem graça.
Ele sacou a espada novamente. O Éter verde-escuro de Sanemi começou a envolver a lâmina como uma fumaça tóxica, vibrando com uma frequência destrutiva que fazia o ar chiar.
— Se o caminho está dobrado... eu vou desdobrar na marra.
— Espera, seu idiota! — Dante gritou, os olhos arregalados, percebendo a intenção suicida. — Se você atacar a estrutura de uma Dungeon...
Tarde demais.
— Corte do Dragão: Ruptura!
Sanemi desferiu um corte horizontal violento contra a parede lateral. O som foi ensurdecedor, como um vidro gigante se estilhaçando dentro do cérebro de cada um. A parede não quebrou; ela "sangrou". Um líquido negro, viscoso e estelar escorreu do corte, e o corredor inteiro tremeu, convulsionando como se estivesse sentindo dor física. O chão cedeu sob os pés deles.
— MERDA! — Ruxya praguejou, tentando se segurar no nada.
Os três caíram na escuridão.
Eles aterrissaram com força em um piso macio, morno e quase esponjoso. Dante rolou para absorver o impacto, ficando de pé imediatamente. Era uma sala ampla, circular e abafada, com dezenas de monitores antigos de tubo pendurados no teto por cabos grossos e pulsantes que lembravam cordões umbilicais.
— Onde estamos? — Ruxya perguntou, levantando-se e sacudindo a poeira do sobretudo.
— Parece uma sala de observação... — Dante sussurrou, os olhos fixos nas telas.
Os monitores estavam ligados, zumbindo com estática. Eles mostravam imagens granuladas em tempo real. Em um conjunto de telas à esquerda, Cloud, Lin e Lara caminhavam por um jardim de estátuas bizarras que pareciam segui-los com os olhos. Em outro conjunto central... estava o grupo de Nero.
O coração de Dante falhou uma batida dolorosa. Na tela, Lucius caminhava à frente com arrogância, conversando casualmente. Nero vinha logo atrás, tensa, a mão perto da arma. E no fundo... Velvet. Ela caminhava de cabeça baixa, abraçando o próprio corpo como se sentisse frio. Mas o que assustou Dante não foi a postura frágil dela. Foi o que estava atrás dela. Na tela, a sombra de Velvet projetada no chão não era a de uma menina. Era uma massa disforme, caótica, cheia de olhos piscantes e bocas dentadas, que parecia sussurrar e tentar agarrar as sombras de Lucius e Saito.
— Olha só... — Sanemi caminhou até ficar ao lado de Dante, olhando para a mesma tela com fascínio mórbido. Um sorriso cruel e vindicado surgiu em seu rosto. — Parece que a câmera da Dungeon revela coisas que os olhos humanos não veem.
Ele apontou um dedo enluvado para a sombra monstruosa de Velvet.
— Aquilo parece bem "normal" para você, Dante? Ou vai me dizer que toda garotinha assustada projeta o abismo na parede?
Dante suou frio. "A Dungeon está expondo a natureza dela?"
— Isso é uma distorção visual — Dante mentiu, a voz firme, embora seu estômago estivesse em nós. — É uma Dungeon, Sanemi. Você espera que ela seja um monstro, então a Dungeon mostra um monstro para validar sua teoria. Olha para a sombra da Nero.
Sanemi olhou. A sombra de Nero também estava distorcida, parecendo uma serpente.
— Tsk... — Sanemi estalou a língua, contrariado, mas a lógica distorcida de Dante fazia sentido naquele lugar. — Bom ponto. Mas ainda não me convenceu.
De repente, as telas mudaram. A imagem piscou, chiou e focou em uma porta de metal pesado dentro da sala onde Nero e os outros estavam. Havia uma inscrição na porta, visível apenas pelas câmeras infravermelhas: "Sala da Verdade: Apenas um sairá."
Ruxya leu em voz alta, o tom grave.
— Sala da Verdade... parece que o grupo deles encontrou o primeiro desafio mortal.
Na tela, Lucius parou em frente à porta e sorriu, virando-se para o grupo com teatralidade. O áudio dos monitores chiou e a voz dele saiu, metálica, distante e venenosa:
— Parece que temos um impasse, senhores. A porta diz que apenas um sairá... mas não diz que apenas um pode entrar. Quem se habilita a testar a armadilha?
Velvet deu um passo à frente na tela, os punhos cerrados. Dante instintivamente estendeu a mão para o monitor, tocando o vidro frio, como se pudesse puxá-la de volta através da tecnologia.
— Não... não vai, Velvet.
Sanemi observou a reação visceral de Dante com olhos de águia.
— Você está tremendo, Dante — ele sussurrou, malicioso, aproximando-se do ouvido do outro. — O que foi? Medo de que ela morra... ou medo de que ela mostre o que sabe fazer para sobreviver?
Dante ignorou a provocação de Sanemi. Ele olhou para Ruxya.
— Precisamos sair daqui. Precisamos encontrar o grupo deles. Agora.
Ruxya analisou a sala circular.
— Não tem portas aqui, Dante.
BIP.
Um dos monitores centrais se acendeu com uma mensagem em texto vermelho-sangue, piscando lentamente.
"PARA PROSSEGUIR, O GRUPO DEVE REVELAR UM SEGREDO."
— Um segredo... — Ruxya leu. — Ótimo. Dungeons que pedem fofoca e confissão.
Sanemi riu alto e olhou para Dante com triunfo.
— Perfeito. — Ele embainhou a espada com um clique e cruzou os braços, encostando-se na parede orgânica. — Acho que acabamos de achar a sua chance de falar, Dante. A porta quer um segredo escuro. E você está cheio deles, vazando pelos poros. Conta para a porta o que de fato aconteceu com você e a sua "amiga" lá embaixo, para vocês terem se aproximado tanto.
Dante olhou para a parede, depois para o sorriso de Sanemi, e por fim para a tela onde Velvet estava prestes a entrar na armadilha de Lucius. Ele estava encurralado. Se ele contasse a verdade sobre o que aconteceu lá embaixo, principalmente sobre o canibalismo de Velvet, a porta abriria, mas Sanemi teria a prova definitiva para executá-la na votação. Se ele não contasse, eles ficariam presos ali.
"Pense, Dante. Pense." Ele precisava de um segredo. Um segredo escuro, verdadeiro e devastador. Mas não precisava ser aquele segredo. Tinha que ser algo pessoal. Algo que doesse tanto quanto.
Dante respirou fundo, fechando os olhos por um segundo. Ele caminhou até a parede.
— Você quer um segredo? — ele perguntou para a parede, mas seus olhos heterocromáticos estavam fixos no reflexo de Sanemi no monitor desligado. — Tudo bem.
Ele se aproximou. Sanemi se inclinou sutilmente para ouvir, a curiosidade vencendo a arrogância. Dante sussurrou algo. Baixo demais para Ruxya ouvir, mas alto o suficiente para a Dungeon... e para Sanemi.
— O motivo para eu agir como ajo é porque eu não quero me aproximar de ninguém. Eu tenho medo de que os outros se aproximem, pois isso só irá gerar fraquezas, e porque... eu tenho medo de machucá-los.
O silêncio na sala foi absoluto e gelado. Sanemi arregalou os olhos minimamente, a máscara de deboche caindo por um instante.
A boca de pedra tremeu. Um som de satisfação profunda, como um arroto gutural e antigo, ecoou. A parede carnuda se rasgou, revelando um novo corredor escuro e pulsante.
Dante se afastou, a expressão vazia, a máscara de frieza soldada de volta ao lugar, escondendo a ferida aberta.
— A porta abriu. Vamos.
Ele passou por Sanemi sem olhar para ele, os ombros tensos. Sanemi ficou parado por um segundo, processando a informação, olhando para as costas do rival. A hostilidade em seu rosto diminuiu, substituída por uma complexidade carrancuda e desconfortável.
— Tsk... — ele resmungou, balançando a cabeça. — Então... era disso que você e a Nero estavam falando nas entrelinhas...? Segredo de merda. Vamos logo.
Ruxya olhou de um para o outro, percebendo a mudança na atmosfera, mas sábia o suficiente para não perguntar.
Eles avançaram, livres da sala, mas com um novo peso esmagador sobre os ombros. E nos monitores deixados para trás, zumbindo na escuridão, a imagem de Velvet entrando sozinha na escuridão congelou como um presságio de morte.
Parte 5
O corredor designado ao grupo de Cloud parecia menos uma passagem e mais um intestino de concreto interminável e cinzento.
Eles abriam portas atrás de portas, uma rotina mecânica e frustrante. Algumas revelavam salas de pesquisa abandonadas, onde papéis giravam em redemoinhos de correntes de ar inexistentes; outras davam para paredes de tijolos sólidos que zombavam deles, ou para abismos escuros que cheiravam a ozônio e eletricidade estática.
— Essa Dungeon está de brincadeira com a minha cara — Cloud resmungou, a voz ecoando seca. Ele chutou uma porta com violência, esperando um monstro, mas encontrou apenas um armário de vassouras vazio e empoeirado. — Se isso é um labirinto mental, a mente do Lucius é mais entediante e burocrática do que eu imaginava.
Lara, que caminhava encolhida entre os dois combatentes como um animal assustado, ajeitou os óculos trêmulos.
— Alguma dessas portas deve ser a saída. A Dungeon mencionou que havia uma. Em Dungeons desse tipo... elas são sádicas, sim, mas não podem criar regras falsas. A "regra" é a lei da física absoluta aqui dentro.
Cloud assentiu, tragando o cigarro. A brasa vermelha era a única cor quente naquele purgatório.
— É verdade. O problema é chegar lá com todos os membros intactos.
Eles continuaram a marcha. O som de seus passos era monótono, hipnótico. O silêncio estava ficando pesado, quase sólido, então Cloud decidiu testar o terreno. E a sanidade de seus companheiros. Ele olhou de soslaio para a garota pequena ao seu lado, que marchava com determinação militar.
— Aquele tal de Dante... ele era o garoto para quem você queria dar a marmita, não é?
Lin tropeçou nos próprios pés, perdendo o ritmo. O rosto dela, antes focado e letal, explodiu em um tom de vermelho vivo, visível até na penumbra.
— O-o quê?! — ela guinchou, a voz subindo oitavas. — De onde você tirou isso?! E por que está falando disso numa hora dessas?!
Cloud riu, soltando a fumaça pelo canto da boca.
— Só curiosidade. E tédio.
Lin estreitou os olhos. A vergonha deu lugar a uma astúcia afiada. Ela percebeu o jogo.
— Você está me checando, não é? Quer ver se eu reajo como a Lin verdadeira reagiria ou se sou o Monstro disfarçado.
Cloud sorriu de canto, sem negar, os olhos frios avaliando a reação.
— Fui descoberto?
Lin suspirou, ajeitando a postura e recuperando a dignidade.
— Está tudo bem. Não é nenhum segredo de Estado, mesmo. — Ela olhou para a lancheira rosa com um carinho melancólico. — Eu admito. Eu gosto do Dante.
— Então por que não insistiu para ir no grupo dele? — Cloud perguntou, pressionando o ponto fraco. — Teria sido a chance perfeita para bancar a donzela em perigo.
Lin balançou a cabeça. A expressão infantil desapareceu, substituída pela seriedade de um soldado veterano.
— Eu queria. Queria muito. Mas eu não vou atrapalhar a missão e nem colocar o Dante em perigo só por desejos pessoais egoístas. Se a decisão geral for separar para cobrir terreno e garantir a segurança, eu vou aceitar.
Cloud olhou para ela com um respeito renovado e genuíno. Ele não esperava aquilo.
— Bem maduro para uma criança.
— QUEM VOCÊ ESTÁ CHAMANDO DE CRIANÇA?! — Lin gritou, mostrando os dentes caninos, pronta para invocar uma bola de demolição na cabeça dele.
Cloud ia responder com outra provocação para manter o clima leve, mas parou. O instinto dele gritou. Algo estava errado. O som dos passos havia mudado. Faltava um ritmo. Ele olhou para trás.
— Ei... cadê a quatro-olhos?
O corredor atrás deles estava vazio. Um túnel de concreto estéril e silencioso. Lara havia sumido.
— Lara?! — Lin chamou, girando em círculo, a raiva substituída pelo medo imediato.
Não houve grito. Não houve som de luta, nem cheiro de sangue. Ela simplesmente evaporou, como se nunca tivesse existido.
— Merda... — Cloud sacou a pistola com um movimento fluido. — Vamos voltar. Fique atenta às paredes. Elas mudam.
Eles correram de volta pelo caminho que vieram, as armas em punho. Cem metros depois, encontraram Lara. Ela estava parada diante de uma seção da parede que parecia idêntica a todas as outras, mas ela a encarava com uma fixação doentia. Ela estava em transe, os olhos vidrados, a mão estendida tocando os tijolos frios com as pontas dos dedos.
— Lara! — Lin gritou, correndo até ela, a voz ecoando. — O que você está fazendo aí?! A gente te perdeu de vista!
Lara não respondeu imediatamente. Ela não se virou. Ela parecia confusa, perdida em um labirinto interno, como se estivesse tentando lembrar de um sonho esquecido há muito tempo.
— Eu... eu conheço este lugar... — ela sussurrou, a voz oca. — Havia uma passagem aqui. Para o laboratório secreto...
— Lara, não toque em nada! — Cloud avisou, sentindo o perigo vibrar no ar. — Afaste-se!
Tarde demais. O dedo indicador de Lara pressionou um tijolo específico. Ele não era pedra; era um mecanismo. O tijolo afundou com um clique suave e mecânico. Lara piscou, saindo do transe abruptamente. Ela olhou para a própria mão com horror, a consciência voltando tarde demais.
— O quê...?
CRACK.
O som não veio da parede. Veio de baixo dos pés deles. O chão inteiro do corredor desapareceu. Não foi um alçapão se abrindo; foi a matéria deixando de existir instantaneamente, como se o código da realidade tivesse sido apagado.
— AAAAAAAHHH!
A escuridão engoliu os três. A gravidade os puxou com violência. A sensação de queda livre foi nauseante, o estômago subindo para a garganta, o coração parando. O vento assobiou nos ouvidos deles enquanto despencavam para o desconhecido.
Parte 6
O grupo de Dante, Sanemi e Ruxya avançava pelo corredor que parecia se esticar infinitamente, uma garganta de concreto que se recusava a engoli-los. A "Sala da Verdade", onde Velvet havia entrado, parecia estar sempre a cem metros de distância, uma miragem cruel e estática que recuava a cada passo que eles davam, zombando de seu esforço.
— Estamos andando em círculos de novo — Ruxya praguejou, a voz ecoando seca. Ela parou e chutou uma parede com frustração. O metal vibrou.
Ela se afastou alguns metros para investigar uma bifurcação lateral escura, os olhos semicerrados vasculhando vestígios residuais de Éter nas paredes pulsantes. — Vou checar ali. Fiquem atentos. Se eu gritar, vocês correm... ou me matam.
Dante e Sanemi ficaram parados no corredor principal como duas estátuas de tensão. O silêncio entre os dois rivais era denso, quase sólido. — Tem certeza? — Dante perguntou, olhando para as costas da Caçadora, desconfiado. — Tecnicamente, você está aqui para nos vigiar...
— Eu tenho um bom pressentimento agora — Ruxya murmurou, sem olhar para trás, farejando o ar viciado. — Minha intuição diz que vocês dois são idiotas demais para serem o Lobo. O cheiro de vocês é... humano. Complicado, sujo, mas humano.
Sanemi bufou, cruzando os braços, o som saindo como um rosnado curto. — "Humano"... Hah. É óbvio, depois daquela confissão ridícula... — Ele olhou para Dante de esguelha, com um misto de desprezo habitual e algo novo, incômodo... talvez um respeito relutante nascido da tragédia compartilhada.
Eles começaram a se afastar para seguir Ruxya, mas Sanemi agiu. Ele segurou o ombro de Dante com força, os dedos cravando na jaqueta, parando-o bruscamente. — Espera. Antes... precisamos conversar.
Dante tentou se soltar, impaciente, a ansiedade por Velvet queimando sob sua pele. — Não temos tempo para isso agora, Sanemi. Velvet está...
— Cala a boca e ouve! — Sanemi rosnou, apertando o aperto até doer. — É rápido.
Dante parou, travando o maxilar, e olhou nos olhos do espadachim. Sanemi parecia desconfortável, a máscara de agressividade falhando por um segundo. Ele desviou o olhar para o chão pulsante antes de voltar a encarar Dante com seriedade letal. — Como eu disse... eu não desconfio mais de você ser o Lobo. Aquele segredo... a porta não teria aberto se fosse mentira. A dor na sua voz era real.
— Ótimo — Dante respondeu, seco, tentando se desvencilhar. — Então podemos ir?
— Isso vale apenas para você, Dante — Sanemi cortou, a voz grave e perigosamente baixa. — Na próxima votação... eu vou votar na Velvet.
Dante sentiu o sangue gelar nas veias. O mundo parou. A confusão se transformou em defensiva imediata e violenta. — O quê? Por que você está falando isso agora?
— Eu sei que você está aí dentro — Sanemi apontou um dedo rígido no centro do peito de Dante, onde o coração batia descompassado. — Mas estou começando a duvidar se é apenas você no comando. Todo o seu comportamento recente... desesperado, emocional, protetor ao extremo... anda sendo bem suspeito.
Sanemi se aproximou, invadindo o espaço pessoal, baixando a voz para um sussurro conspiratório. — Eu comecei a achar que aquela garota... ela pode estar te manipulando. Controlando sua mente. Ou pior. Transformando você em algo que você não é.
— Isso é um absurdo — Dante retrucou, mas a negação saiu rápida demais, defensiva demais.
— É absurdo? — Sanemi pressionou, os olhos estreitos como lâminas. — Então me prove. Jure, Dante... jure que ela não é uma ameaça para nós.
Dante abriu a boca para responder, para defender, para mentir. Mas as palavras morreram na garganta, asfixiadas pela verdade. Ela comeu gente. Ele não podia jurar. Se ele jurasse, Sanemi — com seus instintos de predador — saberia. O silêncio de Dante foi a resposta mais barulhenta e condenatória que ele poderia dar.
Sanemi soltou o ombro dele e recuou um passo, com um sorriso triste, cínico e decepcionado. — Eu imaginava. Se você tivesse "jurado", eu saberia na hora que era mentira.
Ele estalou a língua, virando as costas, a postura rígida de quem tomou uma decisão difícil. — Dito isso... eu ainda me preocupo com você, seu idiota. Somos do mesmo esquadrão. Por isso, não vou deixar uma boneca de laboratório te controlar e te levar para o buraco junto com ela. Se tiver que matá-la para te salvar, eu vou.
Dante observou as costas de Sanemi, o embrulho no estômago revirando em náusea. Ele sentia raiva, uma vontade súbita de atacar, mas também uma culpa terrível, corrosiva. Sanemi estava tentando salvá-lo do monstro que ele amava.
Sanemi parou e olhou por cima do ombro uma última vez. A sombra ocultava seus olhos. — Ah... e esqueci de dizer. Ele coçou a nuca, visivelmente desconfortável com a própria vulnerabilidade. — Desculpa. Pelo que eu disse no início da missão. Se eu não tivesse falado tanta bobagem e te irritado... talvez estivéssemos mais focados.
Dante ficou estático. Sanemi pedindo desculpas? O mundo estava realmente acabando. — Sanemi...
— AAAAAAHHHHH!
Um grito agudo, cheio de terror puro e primal, rasgou o ar vindo da escuridão lateral. Ruxya. Dante e Sanemi giraram na direção do som em uníssono.
Antes que pudessem dar um passo, as luzes de Éter nas paredes se apagaram instantaneamente. A escuridão total e absoluta engoliu o corredor. O chão sob os pés deles tremeu violentamente. CLACK. O som seco e mecânico de uma trava gigante se abrindo ecoou no breu.
O piso desapareceu. Não houve tempo para canalizar Éter. Não houve tempo para segurar nas paredes que agora estavam longe demais. Dante, Sanemi e a escuridão onde Ruxya havia gritado foram sugados para baixo por um alçapão colossal que se abriu para o abismo.
A sensação de queda livre revirou o estômago de Dante, a gravidade puxando-o para o desconhecido. O vento assobiou em seus ouvidos como um grito, e a última coisa que sua mente registrou antes do impacto foi o eco fantasmagórico do pedido de desculpas de Sanemi se perdendo na escuridão.
Parte 7
A escuridão do abismo parecia ter textura, uma gosma fria e intangível que se agarrava à pele como teias de aranha morta.
Cloud caminhava pelo vazio, a pistola em punho, o dedo no gatilho tremendo levemente. Sua mente, no entanto, ignorava o cenário impossível para focar em uma única variável: Lara.
É óbvio demais, ele pensou, estreitando os olhos na penumbra. Duvidar dela parece paranoia de veterano. Ela agiu como uma civil assustada, tropeçou na armadilha como uma amadora completa. Mas, em uma situação assim... inocência excessiva é a maior bandeira vermelha que existe. Algo não se encaixava na equação. O timing. A precisão cirúrgica com que ela achou o tijolo falso. Ela era quieta demais. Perfeita demais em ser inútil.
De repente, uma moldura de luz retangular rasgou o escuro à frente dele, cegante. Uma porta suspensa no nada. Ao atravessá-la, a gravidade se inverteu nauseantemente. O estômago de Cloud foi à boca e voltou antes que ele aterrissasse, com um baque pesado, em um piso de pedra cinza.
Lin e Lara já estavam lá. A cena era perturbadora pelo contraste. Lin estava sentada sobre sua lancheira rosa, balançando as pernas no ar como uma criança em um parque, enquanto Lara estava encolhida no canto mais escuro, tremendo violentamente e murmurando coisas inaudíveis, abraçada aos próprios joelhos.
— Ah, então você sobreviveu — Lin comentou, a voz desprovida de emoção, olhando para ele com tédio.
— Que cruel... — Cloud guardou a arma no coldre, limpando a poeira do sobretudo. — Achei que teria uma recepção mais acalorada da minha equipe.
Antes que pudessem trocar mais farpas, o ambiente vibrou. Não foi um terremoto; foi uma frequência. Um som de gongo, profundo, grave e reverberante, ecoou não nas paredes, mas dentro de seus crânios, fazendo os dentes doerem.
— AS 4 HORAS SE PASSARAM. FIM DO PRIMEIRO TURNO.
Cloud olhou para o aviso flutuante, frustrado. Droga… perdemos tempo caindo e não chegamos nem perto de encontrar a saída… Espero que os demais tenham tido mais sorte. Ao menos sinto que já posso ter uma ideia da tal identidade do lobo.
A sala girou. O mundo se dissolveu em pixels de Éter roxo, desconstruindo a realidade.
O cheiro de carvalho antigo, verniz e eletricidade estática atingiu seus narizes. Eles estavam de volta à Sala Redonda. A mesa de tronco negro permanecia no centro, imponente, silenciosa e julgadora.
Cloud piscou, recuperando o equilíbrio. Ele olhou imediatamente para o lado. Lara estava lá, materializada, ainda com aquela expressão de pavor congelada, as mãos cobrindo a boca. Ele a analisou friamente. Atuação ou trauma real?
Ele olhou ao redor para fazer a contagem dos vivos.
Dante emergiu de seu corredor, caminhando calmamente, mas havia algo oco em seu passo. Logo atrás dele, Ruxya apareceu. A Caçadora estava ofegante, com cortes na roupa e um olhar sombrio de quem viu o inferno. Mas não havia sinal de Sanemi.
Do corredor da esquerda, o grupo de Nero emergiu. Nero estava coberta de fuligem. Ela segurava o braço esquerdo junto ao corpo; parecia deslocado. Lucius vinha logo atrás, com um sorriso fino e perturbador, limpando delicadamente uma mancha de sangue da bochecha com um lenço de seda. Velvet vinha por último. No segundo em que seus pés tocaram o chão do salão, ela correu. Ignorou a todos e se lançou na direção de Dante, abraçando-o como se ele fosse desaparecer. Não havia sinal de Saito.
Cloud sentiu um frio na espinha que desceu até o estômago. Ele olhou para as cadeiras vazias ao redor da mesa. O espaço negativo gritava. — Não vai me dizer... — ele sussurrou, incrédulo.
As luzes do domo se apagaram abruptamente, deixando apenas a mesa iluminada por um foco espectral vindo do teto. Duas telas gigantes de Éter se materializaram, flutuando sobre o centro da mesa.
Na tela da esquerda, a foto de Saito. Na tela da direita, a foto de Sanemi.
Ambas as imagens foram carimbadas com um "X" vermelho, violento e gotejante, como se tivesse sido pintado com sangue fresco sobre a tela.
— RESULTADO DO JOGO ATUAL: — A voz da Dungeon ecoou, destituída de qualquer empatia, puramente mecânica. — SANEMI E SAITO ESTÃO MORTOS.
Um silêncio sepulcral caiu sobre a sala. O peso daquelas mortes era sufocante.
— Tá zuando... logo dois Scarlunes morreram primeiro?! — Cloud gritou, a confusão quebrando sua máscara de indiferença. A mente dele girou. Espera... quer dizer que não foi ela? Ele olhou de soslaio para Lara, que soluçava. Se Lara estava comigo o tempo todo... como ela mataria dois combatentes de elite em outros corredores?
— HORA DA VOTAÇÃO.
A mesa brilhou. Um círculo de luz apareceu na frente de cada sobrevivente, aguardando uma sentença.
Cloud olhou para Dante. O garoto Scarlune não olhava para ninguém; seus olhos heterocromáticos estavam fixos na cadeira vazia de Sanemi, uma expressão ilegível no rosto. Cloud olhou para Lucius, que parecia estranhamente satisfeito, alisando o jaleco. E então olhou para Lara, que chorava silenciosamente.
O jogo tinha mudado. As regras que Cloud achava ter entendido foram rasgadas, e o caos estava instaurado.
Parte 8
O círculo de luzes pulsava, um coração artificial marcando o ritmo do desespero. Ninguém ousou falar nos primeiros segundos. O silêncio era uma lâmina afiada e fria pressionada contra a garganta de todos, cortando a coragem. Olhar para as cadeiras vazias de Sanemi e Saito não era apenas encarar a ausência; era aceitar que a morte naquele lugar não era uma possibilidade estatística, era uma certeza matemática e brutal.
— Eu não acredito... o... o Sanemi foi o primeiro... — Lin sussurrou, a voz trêmula e pequena, quebrando o gelo da sala. — Ele era o mais forte de nós. Era o nosso escudo. Como...?
— Agora temos um dilema óbvio — Nero disse, ajustando os óculos que agora tinham uma lente trincada. Ela tentava manter a compostura de líder, mas seus dedos tremiam ao tocar o rosto, traindo o luto.
Cloud tragou o cigarro com força, as bochechas encovadas, soltando a fumaça para o teto onde a estática roxa dançava.
— Vejo que... pensou o mesmo que eu, quatro-olhos.
Lucius riu baixo, um som seco, metálico e desprovido de qualquer humor humano. Dante ignorou as provocações. Seus olhos heterocromáticos estavam fixos na madeira negra da mesa, perdidos em cálculos de vingança.
— Se tinha apenas um impostor... como morreram pessoas em lugares diferentes e quase ao mesmo tempo?
Velvet, encolhida ao lado de Dante, tremia. Não de medo, mas de uma raiva vulcânica contida. Seus olhos amarelos estavam cravados em Lucius como adagas, desejando poder rasgar a garganta dele ali mesmo, barreiras invisíveis ou não.
Nero levantou a mão, pedindo ordem no caos.
— Apenas para ver se estamos todos na mesma página: todos estavam andando quando, de repente, as luzes apagaram e o chão desapareceu?
Cloud assentiu, sério.
— Não foi apenas o grupo de vocês. O chão sumiu para nós também.
Os outros confirmaram com acenos de cabeça sombrios. Cloud virou-se para Lin, os olhos estreitos.
— Pirralha, quanto tempo fazia que você e a Lara tinham se encontrado, até eu aparecer na sala depois da queda?
Lin pensou por um segundo, mordendo o lábio.
— Devia ter sido uns trinta minutos... talvez menos.
Cloud estalou a língua, frustrado.
— Isso complica. Todos têm um álibi para o momento exato da queda, mas o escuro durou tempo indeterminado. A questão é: quem agiu na sombra? Quem usou o blecaute como capa?
Lucius bateu as palmas das mãos, um som agudo que chamou a atenção de todos como um professor disciplinando uma sala de aula barulhenta.
— Matemática básica, senhores. Antes de apontarmos dedos trêmulos, analisem os fatos friamente. A Dungeon afirmou que um de nós foi substituído. Um Lobo. No entanto, tivemos baixas no Grupo 1 (Sanemi) e no Grupo 3 (Saito) simultaneamente. — Ele ergueu três dedos longos e pálidos. — A menos que o Lobo tenha onipresença ou teletransporte instantâneo entre dimensões separadas, temos um erro no enunciado lógico. Hipótese A: Existem dois Lobos e a Dungeon mentiu descaradamente. Hipótese B: Uma das mortes foi causada por uma armadilha ambiental, não pelo Lobo, o que seria uma coincidência conveniente. Hipótese C: O Lobo tem um cúmplice ou uma habilidade de ataque à longa distância, como uma sombra assassina ou uma marionete de Éter.
No momento em que Lucius explicou a Hipótese C, tanto Dante quanto Nero e Cloud olharam instintivamente para ele e para Velvet. Lucius riu, deliciando-se com a paranoia que ele mesmo plantou.
— Previsível.
Dante mordeu o lábio até sentir gosto de ferro, sentindo o cerco se fechar ao redor de Velvet. Ele olhou para o teto do domo, gritando para o vazio:
— Dungeon! Você pode mostrar os corpos? Ou dizer a causa das mortes?
— INFORMAÇÃO RESTRITA. ISSO VIOLA AS REGRAS DO JOGO. — A voz ecoou, absoluta.
Cloud estalou a língua novamente, irritado, jogando a bituca do cigarro no chão e pisando nela com raiva.
— Estamos voando cegos em uma tempestade.
Lucius continuou, implacável como um bisturi.
— Na verdade, para mim já é bem óbvio. Vamos falar dos assassinos prováveis? Eu lembro muito bem de Sanemi ameaçando Dante de morte logo antes de sairmos. Parece meio suspeito, para dizer o mínimo, que o único obstáculo físico e moral para o Dante tenha morrido logo em seguida, não acham?
— Você é idiota?! — Dante explodiu, levantando-se da cadeira. — Eu não poderia ter matado o Sanemi! Quando a luz apagou e o chão cedeu, nós caímos em lugares diferentes! A gravidade me puxou! Para matar o Sanemi no ar, no escuro absoluto, e ainda pousar sem me quebrar todo, eu precisaria voar!
— Tá, mas você poderia ter se encontrado com ele antes, assim como no caso de Lin e Lara — Lucius retrucou, sem se abalar.
— Hum, bom, é uma possibilidade, mas quando eu cheguei na parte do encontro, Ruxya já estava lá antes de mim! — Dante apontou para Ruxya. — Além disso, a Ruxya gritou antes de cairmos! O ataque ou o evento começou antes da queda!
Todos olharam para a Caçadora. Ruxya cruzou os braços, a expressão fechada.
— É um fato. Mas eu não gritei por causa de um ataque direto de uma pessoa. Eu pisei em uma armadilha de pressão. Lâminas saíram das paredes. Algumas me pegaram de raspão porque eu não esperava aquilo quando a luz sumiu.
Cloud estreitou os olhos, analítico.
— Algum outro álibi para o Dante, Ruxya?
Ruxya suspirou, olhando de Dante para a tela de óbito de Sanemi.
— Devo dizer que eu não acredito que seja o Dante o culpado. O fato é que, antes de nos separarmos na queda, eu já havia decidido que não podia ser nenhum dos dois.
— Motivo? — Cloud perguntou, cético.
— Eu os observei bem — Ruxya disse, dando de ombros. — Eles obviamente tinham problemas entre eles. Havia ódio, sim. Mas pareciam apenas dois primos brigando por herança ou orgulho. Problemas familiares, ressentimentos antigos... não a frieza calculista de um monstro infiltrado. Eu não os conheço tanto, mas conheço a sensação de uma briga familiar. Dito isso, tenho mais certeza de que ele é inocente do que tenho sobre você, Cloud.
Cloud foi pego de surpresa, mas sorriu de canto, respeitando a audácia.
— Justo. Faz sentido. Intuição de caçador vale mais que provas forenses às vezes.
Dante, sentindo-se momentaneamente vindicado, apontou o dedo trêmulo para Lucius.
— Para quem tinha certeza de que era eu, agora parece que você estava só achando uma desculpa para desviar o foco! Por exemplo, Lucius... que sangue todo é esse no seu rosto? E eu quero saber o que aconteceu com aquela porta onde "apenas um pode sair"! O que aconteceu naquele meio tempo?!
Lucius nem piscou. Sua calma era enlouquecedora.
— Já imaginava receber as acusações, mas não temo, pois não sou eu. — Ele limpou o resto de sangue seco da bochecha com desdém. — Naquela hora, nós deixamos a Velvet entrar na sala. Era o lógico a se fazer, dado que ela é descartável. Mas quando as luzes apagaram, o chão cedeu. Eu caminhei pelo corredor escuro como os demais, tateando as paredes, até encontrar Nero. E a Nero já estava perto do corpo do Saito.
— Espera... vocês encontraram o corpo do Saito? — Lin perguntou, surpresa, cobrindo a boca.
— De fato, encontramos. Nós tentamos ajudá-lo. Mas ele sangrou até a morte em segundos. Foi... confuso.
Dante escutou, irritado com o depoimento vago.
— Nero, como estava o corpo dele?
Nero cerrou os punhos sobre a mesa, os nós dos dedos brancos.
— Antes disso, vou confirmar o depoimento. Isso que Lucius disse é verdade — ela admitiu a contragosto, a voz pesada. — O corpo de Saito estava com um corte profundo de lâmina no peito, feito por alguma espécie de gume muito afiado. Mas... há algo curioso que faltou nessa sua história, Lucius. Apesar de ter chegado lá pela "primeira vez", você parecia conhecer aquela sala. Ele nem olhou em volta quando entrou. Seus olhos se moveram instintivamente para onde o corpo de Saito estava no escuro, antes mesmo de eu acender a luz.
Lucius riu, despreocupado.
— Eu tenho experiência com o cheiro de sangue fresco, minha cara. É inconfundível.
Lin levantou a mão timidamente.
— Você disse que sabia quem eram "os assassinos", no plural. Então você deve ter outra teoria além do Dante.
Lucius sorriu, um sorriso de tubarão sentindo sangue na água.
— A solução mais simples costuma ser a correta. Saito estava morrendo de medo da Velvet. Ele a acusou abertamente. Minutos depois, ele aparece morto no mesmo grupo que ela. — Ele olhou para Velvet com um fascínio clínico e perverso. — Nem mesmo eu sei de todos os poderes que ela pode ter desenvolvido enquanto estava na jaula ou depois, na natureza selvagem. Mas o fato é que agora eu sei que ela consegue usar Éter. Dá para ver a aura dela pulsando. — Os outros olharam confusos para a garota. Velvet encolheu-se atrás de Dante, tentando desaparecer. — Ela não podia antes — Lucius continuou, semeando a dúvida. — Sendo assim... talvez ela não precise estar perto para matar. A habilidade dela poderia ter ido até o grupo do Dante e matado o Sanemi à distância. Afinal, ela é a "Quimera Suprema", não é? Uma arma viva.
— Mentira! — Dante gritou, batendo na mesa. — Você só quer aumentar as suspeitas sobre ela! Não há nenhuma prova disso!
— E você não tem prova do oposto — Lucius rebateu, gelado. — Afinal, você não estava lá para ver.
— É muita coragem sua falar isso quando fez ela ter que passar por uma armadilha sozinha! — Dante rosnou, a eletricidade estática aumentando ao redor dele.
— Ela não iria morrer — Lucius disse, com um descaso que dava náuseas. — E se morresse... ninguém iria sentir tanta falta. É apenas um protótipo.
Dante se levantou, pronto para pular sobre a mesa e estrangular o cientista, mas Cloud interveio, segurando-o pelo ombro.
— Acalme-se, garoto! Assim não vamos a lugar nenhum além do caixão.
Foi então que Lin, vendo como Dante defendia Velvet com tanto ardor, sentiu uma pontada aguda e desconhecida no peito. Ciúmes? Inveja de ser protegida daquela forma? Ela não sabia, mas decidiu falar para quebrar aquele ciclo.
— Gente... — a voz de Lin cortou a discussão como vidro. — A Lara sumiu do nosso corredor por quase um minuto inteiro.
Todos pararam e se viraram para o grupo 2. Lin apontou para a mulher trêmula.
— Quando a achamos, ela estava em transe. E ela apertou um botão secreto na parede logo antes de tudo apagar e todos caírem.
O silêncio que se seguiu foi muito mais pesado do que a tensão anterior. Era o silêncio da evidência tangível. Cloud colocou a mão no rosto, suspirando. Ele imaginava que aquilo viria à tona.
Lara começou a tremer violentamente, as lágrimas escorrendo sem controle.
— É sério, gente! Não fui eu! — ela choramingou, a voz estridente de pânico. — Eu... eu apenas relembrei da porta da sala secreta do laboratório original! Eu pensei que ela poderia esconder a saída! Eu não imaginava que aquilo fosse acontecer! Eu juro!
Lucius olhou para ela, os olhos brilhando com malícia.
— De fato, existe uma sala secreta neste laboratório. Mas me diga, Lara... não acha suspeito logo você, que parecia tão assustada e inútil, fazer algo tão específico e estranho quanto apertar um botão secreto sem saber o que ele fazia?
Todos começaram a encará-la. A "vítima" perfeita agora parecia o gatilho do desastre. A inocência dela parecia encenada.
Nero bateu na mesa com força, chamando a atenção.
— Nós temos dados insuficientes! — Ela olhou para o grupo, desesperada pela lógica no meio da loucura. — Se votarmos na Velvet e ela for inocente, vamos colocar o Dante contra nós e teremos um aliado para o impostor garantido. Se votarmos na Lara e ela for apenas uma vítima controlada ou confusa, estaremos seguindo a vontade da Dungeon e matando uma inocente para alimentar o Chefe.
Nero respirou fundo, tentando estabilizar a voz.
— A Dungeon quer que votemos. O pânico beneficia o Lobo. A jogada mais inteligente agora é o voto nulo ou pular a votação, se permitido. Vamos apenas reorganizar os grupos. Coloquem a pessoa mais suspeita — Velvet ou Lara — sob a guarda da pessoa mais analítica e que não tem medo de morrer, como o Cloud ou eu. Precisamos ver o Lobo agir de novo para entender o padrão.
— VOTAR NULO ESTÁ TERMINANTEMENTE PROIBIDO. — A voz da Dungeon trovejou, fazendo o chão vibrar e as cadeiras tremerem. — CASO NINGUÉM VOTE, NADA ACONTECERÁ E VOCÊS SERÃO MANTIDOS NESSA SALA ATÉ A MORTE POR INANIÇÃO.
Dante se levantou, o Éter crepitando vermelho em seus punhos.
— Ah, é? E se eu quebrar a porta e forçar a saída?!
— IMPOSSÍVEL. — A voz respondeu, monótona e absoluta. — CASO QUEIRA, PEÇO QUE EXPERIMENTE.
— Dante, não seja idiota! — Nero gritou, segurando o braço dele. — Eu agora entendi uma parte bem óbvia.
Todos olharam para ela. Cloud teve uma iluminação súbita, os olhos arregalando-se.
— O acordo... — Cloud murmurou. — Quando concordamos com as regras e saímos de nossas celas iniciais... aceitamos o acordo. O jogo agora é um contrato de restrição via Éter. Provavelmente, quebrar as regras terá um resultado fatal imediato. O seu coração vai parar antes de você dar o primeiro soco, Dante.
Eles estavam presos. Não pela força física, mas pelas regras de um domínio absoluto e contratual. Eles se encararam, encurralados.
A discussão continuou por alguns minutos agonizantes, circulando entre a frieza acusatória de Lucius e a defesa chorosa e frágil de Lara. Mas a lógica de sobrevivência, cruel e pragmática, falou mais alto. Lara havia ativado a armadilha. Lara tinha sumido. Lara era a única variável desconhecida que não tinha defensores fortes dispostos a morrer por ela, como Velvet tinha Dante.
O cronômetro chegou a zero. 00:00:00
A votação foi feita em um silêncio pesado e culpado. E, como esperado, o resultado apareceu na tela gigante em letras vermelhas garrafais.
MAIS VOTADA: LARA.
Lara olhou para a tela, e então para o grupo. Seus olhos estavam arregalados de terror absoluto, a boca aberta em um grito mudo, enquanto sua cadeira começava a brilhar com uma luz ofuscante e mortal.
Parte 9
Há muito tempo, existia um soldadinho de corda com a pintura descascada, esquecido sobre uma mesa de vidro fria. Por dentro, suas engrenagens não giravam com óleo, mas com ferrugem e areia — os traumas que ele tentava, desesperadamente, esconder. Mas, para o mundo, ele mantinha a mola apertada até o limite, forçando um passo rígido e um sorriso pintado de vermelho que nunca, jamais, alcançava os olhos de vidro morto.
Minutos antes da Separação – Sala Redonda
Dante sentiu um aperto no peito. Não por causa da ameaça velada de Ruxya ou do olhar analítico de Cloud. O verdadeiro perigo acontecia nas sombras, debaixo da mesa de carvalho negro. A mão pequena e fria de Velvet apertava a dele com uma força desesperada, as unhas cravando na pele, quase perfurando a carne. Era um aperto mudo, um grito silencioso de quem se afoga. Ela não queria se separar.
Mas Dante não retribuiu com conforto. Ele retribuiu com controle. Sem que ninguém na sala percebesse, uma microdescarga de Éter vermelho, fina e precisa como uma agulha cirúrgica incandescente, dançou na ponta do seu indicador. Ele começou a traçar linhas na palma da mão da garota.
Zzzzt.
A pele dela chiou baixinho, um som imperceptível sob o zumbido da estática da sala. Um cheiro tênue de ozônio e carne queimada subiu, convenientemente mascarado pela fumaça densa e acre do cigarro de Cloud. Velvet não puxou a mão. Ela nem sequer piscou. Seus olhos dourados dilataram, uma galáxia de dor misturada a uma submissão absoluta e extática, enquanto Dante escrevia uma única palavra na carne viva dela, cauterizando a ordem em sua pele para impedir que ela atacasse Lucius e se condenasse:
"QUIETA"
Cada vez que a vida lhe dava uma nova volta na chave, a pressão interna aumentava. O soldadinho tentava caminhar em linha reta, tentando ser o "brinquedo perfeito", mas a cada passo, o metal rangia em agonia. O esforço para parecer certo era justamente o que o destruía: quanto mais ele forçava a marcha, mais os dentes das suas engrenagens se moíam uns contra os outros, transformando-se em pó.
Antes de soltarem as mãos, Dante inclinou-se sutilmente. Seus lábios roçaram a orelha de Velvet, sussurrando algo que morreu antes de chegar aos ouvidos dos demais.
— Você não é mais o experimento dele — a voz de Dante era um fio de seda cortante, envolvendo o pescoço dela. — Você é a minha propriedade. E por isso, eu não vou deixar ninguém te tomar de mim.
Então, veio a mão dela soltando a dele. O destino não apenas deu corda; ele girou a chave até o limite, até o metal gritar e ceder. O soldadinho começou a dançar. Mas não era mais a marcha ordenada; era um espasmo frenético. A cada centímetro avançado na escuridão do corredor, um parafuso saltava. Ele sentia o prazer mórbido de finalmente parar de lutar contra o próprio estrago. A loucura era o óleo negro que fazia as peças viciadas girarem mais rápido.
O Corredor Escuro - O Momento da Queda
A escuridão caiu como um manto de chumbo. O som das engrenagens da armadilha ecoou, e Ruxya gritou ao ser ferida pelas lâminas. Sanemi, reagindo por puro instinto guerreiro, tentou sacar a espada para se defender do ambiente, seus sentidos focados nas paredes que sumiam e no chão que se abria. Mas ele não esperava o perigo vindo de trás. De dentro.
Ele sentiu uma mão no seu ombro. O toque não era para ajudar.
— Desculpas aceitas, Sanemi.
A voz de Dante sussurrou no breu, colada à nuca dele. Não havia gratidão, nem perdão, nem raiva. Havia apenas uma frieza cirúrgica absoluta. O Éter vermelho não brilhou para iluminar o caminho; ele brilhou contido, imbuído na lâmina de um bisturi que Dante havia roubado do vestiário.
Shlack.
Com um movimento preciso, treinado e impiedoso, ele penetrou a base do crânio do espadachim, deslizando o metal entre as vértebras, desligando o sistema nervoso central antes que Sanemi pudesse formar um pensamento, antes que pudesse gritar. O corpo do Scarlune ficou mole instantaneamente, uma marionete com as cordas cortadas. Dante não o segurou com carinho. Ele o empurrou com força bruta para a lateral, para o abismo, garantindo que o corpo caísse longe dele, para que a física da queda contasse a mentira perfeita.
No último passo, a mola interna simplesmente estourou. O som foi como um chicote rasgando o silêncio da alma de Dante. Sem o freio da razão, o brinquedo se lançou no vazio junto com sua vítima. Ele não caiu como um objeto inteiro; ele se desintegrou no ar, transformando-se em farpas de metal e estilhaços de moralidade. Ele atingiu o chão não como um brinquedo quebrado, mas como uma armadilha de ferro que finalmente aceitou sua natureza cortante.
Presente - A Execução
A tela gigante pulsava o nome em vermelho-sangue: LARA.
A cientista se levantou, cambaleando, as pernas falhando. Seus olhos arregalados varriam a sala, procurando misericórdia nos rostos de seus juízes. Ninguém se moveu.
Eles não sabiam como a execução aconteceria, até que a própria mesa decidiu cobrar seu preço.
CRACK. CRACK.
A madeira do tronco negro estalou. Não como madeira seca quebrando, mas como ossos humanos se partindo expostos. Galhos começaram a brotar da superfície polida, raízes sombrias e retorcidas que mais pareciam tentáculos feitos de sangue coagulado e escuridão líquida.
Eles chicotearam o ar com um assobio agudo e avançaram na direção da garota.
— NÃO! — Lara gritou, a voz rasgando a garganta. Ela girou nos calcanhares e correu em direção à porta de onde viera. Ela colidiu com o nada.
ZZZAP!
Uma barreira de Éter da própria Dungeon a repeliu com um choque violento, jogando-a de volta para o centro do círculo. As raízes a alcançaram. Elas não a agarraram suavemente; elas perfuraram. Pontas afiadas rasgaram seus pulsos, suas coxas e seu abdômen, levantando-a no ar como uma boneca de pano grotesca e sangrenta.
— EU NÃO FUI! — Ela gritava, o sangue espirrando no chão imaculado em jatos arteriais. — EU NÃO SOU O IMPOSTOR! EU JURO QUE NÃO MATEI NINGUÉM!
Lin desviou o olhar, segurando o próprio braço com força, as unhas cravando na pele, o rosto verde de enjoo com a brutalidade da cena. Cloud revirou os olhos, tragando o ar vazio como se buscasse um cigarro que já tinha acabado para acalmar os nervos.
— Que showzinho desnecessário... a Dungeon gosta de drama barato.
Lucius, por outro lado, inclinou-se para frente na cadeira. Seus olhos brilhavam com um interesse científico genuíno e perturbador.
— Fascinante... — ele murmurou, ignorando os gritos. — Vejam como as raízes pulsam. Elas não estão apenas matando; estão drenando o Éter dela primeiro para impedir qualquer resposta defensiva. É uma digestão energética em tempo real.
Ruxya assistia a tudo imóvel, o rosto uma máscara de pedra, sem demonstrar qualquer reação à súplica da mulher que morria.
Velvet caminhou silenciosamente até Dante. Ela segurou a mão dele novamente. O polegar dela roçou a cicatriz fresca e em relevo na sua própria palma, onde a palavra "QUIETA" ainda ardia como uma promessa de dor e pertencimento. Ela sorriu, sentindo o calor dele, enquanto se aninhava ao lado de seu monstro.
As raízes envolveram o rosto de Lara, abafando seu último grito borbulhante, e a arrastaram para dentro da madeira da mesa, que se abriu e fechou como uma boca faminta. Ela foi absorvida, triturada e consumida aos poucos, até que não restasse nada além de uma mancha úmida e escura no carvalho negro.
O silêncio voltou. Pesado. Absoluto.
Cloud, que varria o olhar por todos os sobreviventes para medir as reações, parou em Dante. O garoto Scarlune olhava fixamente para o local onde Lara desapareceu. Mas não havia horror em seu rosto. Não havia pena. Havia algo sutil, quase imperceptível, curvando o canto de seus lábios. Diferente do medo de todos os demais, residia ali um sorriso fino.
Um sorriso quebrado, aliviado e terrivelmente errado. O sorriso do soldadinho que descobriu que não precisava marchar; ele podia matar.
Cloud estreitou os olhos, o instinto de caçador disparando um alerta vermelho ensurdecedor em sua mente. "Ali."
Antes que ele pudesse falar, a voz da Dungeon trovejou, fazendo os ossos de todos vibrarem como diapasões.
— TEMPO DE VOTAÇÃO ENCERRADO. ANÁLISE COMPLETA: O ALVO ELIMINADO ERA INOCENTE. O LOBO AINDA ESTÁ ENTRE VOCÊS. PREPAREM-SE. O ROUND 2 COMEÇARÁ EM ALGUNS MINUTOS.
Parte 10
O silêncio na sala redonda não era vazio; era uma frequência estática, um zumbido agudo e constante que fazia os dentes doerem e o sangue vibrar nos tímpanos. Todos observavam uns aos outros com expressões que oscilavam pendularmente entre o terror cru e a suspeita calculista. Mas os olhos de Cloud, frios e inquisidores, estavam fixos em Dante.
Dante, no entanto, não estava exatamente ali. Enquanto seu corpo permanecia sentado, quase inerte, sua mente era um caleidoscópio de vidro quebrado. A realidade parecia sofrer glitchs. A imagem de Cloud à sua frente piscava, distorcia, esticava-se em formas grotescas. Em sua cabeça, uma versão sombria de si mesmo sussurrava, a voz melosa e podre: "O que foi, Cloud? O que está esperando? Vai lá, pergunta. Eu já estou aqui explodindo de vontade de contar..."
De repente, o cenário mental foi invadido por rabiscos violentos, como se uma criança furiosa tivesse riscado o filme da realidade. Rostos flutuavam no ar, marcados com "X" vermelhos e vibrantes nos olhos, movendo-se erraticamente. A estática aumentou até virar um grito branco.
Zzzzt.
"O que você está fazendo?" — uma voz familiar gritava em sua mente, a voz de sua própria consciência. — "Você matou o Sanemi! Ele só queria te ajudar! Ele era seu companheiro!"
"Ajudar? Ele queria tirar ela de mim." — outra voz respondia, fria, lógica e absoluta. "Ele era um ladrão."
A alucinação acelerou. Dante viu a si mesmo andando ao lado de Lin e cortando a garganta dela com um movimento suave. Glitch. Viu a si mesmo empurrando Ruxya no abismo sem hesitar. Glitch. Viu a si mesmo com a mão em forma de pistola na testa de Lucius, puxando o gatilho imaginário. "Ah... seria tão perfeito se fosse você."
As imagens colapsaram sobre si mesmas. O mundo girou. PARA. PARA. PARA.
— Hahahahaha...
O riso escapou. Não foi um riso de alegria, mas o som seco e perigoso de uma panela de pressão estourando a válvula. Dante colocou a mão no rosto, cobrindo os olhos, rindo cada vez mais alto, incapaz de conter a fratura exposta.
Cloud se levantou devagar, a mão pairando sobre o coldre da pistola.
— Qual é a graça, afinal?
Lin e Nero olharam para o garoto Scarlune, assustadas com a mudança abrupta, recuando instintivamente. Dante parou de rir, secando uma lágrima solitária no canto do olho, embora seu sorriso permanecesse torto, instável e assustador.
— Foi mal... mas eu não aguento mais isso. Eu realmente não consigo segurar essa farsa.
— Foi você, não foi? — Cloud perguntou, a voz baixa e perigosa como o trovão antes da tempestade.
— Você já sabe disso — Dante respondeu, relaxando na cadeira como se estivesse em um piquenique de domingo. — Se não soubesse, não estaria perguntando com essa mão tremendo no gatilho.
— Isso é impossível... — Ruxya murmurou, chocada.
— O quê? Do que vocês estão falando?! — Lin perguntou, a voz estridente de pânico.
Velvet, ao lado de Dante, apenas sorriu. Um sorriso cúmplice, adorador e perturbadoramente calmo.
— Ah, cara... essa foi realmente por pouco — Dante suspirou, estalando o pescoço de um lado para o outro. — Eu não sabia o que iria acontecer até o último momento.
Cloud sacou a arma num movimento fluido, apontando para o centro do peito de Dante.
— Seu maldito...
Mas antes que ele pudesse disparar, um vulto pequeno se moveu. Lin se colocou na frente de Dante, os braços abertos, servindo de escudo humano.
— NÃO!
A reação em cadeia foi instantânea. Ruxya sacou uma Sniper de Éter compacta, mirando na cabeça de Cloud. Nero se moveu para interceptar a linha de tiro de Ruxya. O impasse mexicano estava formado novamente, tenso como uma corda de violino prestes a arrebentar.
Dante, ainda sentado atrás de Lin, riu baixinho.
— Antes que vocês continuem com isso — o que eu não reclamaria —, deixa eu deixar algo claro: Eu matei o Sanemi. Mas eu não sou o Impostor.
— Tá mesmo metendo essa a essa altura?! — Cloud gritou, a veia da testa saltando. — Você acabou de confessar!
— Qual é, Caçador. Você deveria prestar mais atenção aos detalhes — Dante disse, levantando-se e contornando Lin calmamente, ignorando a arma apontada para ele como se fosse um brinquedo. — Eu confessei que matei o Sanemi. Nunca disse que era o Lobo.
Lin olhou para trás, chocada, as lágrimas começando a brotar nos olhos grandes.
— Espera... isso não pode ser verdade... O Dante nunca faria isso...
Dante parou e olhou para ela. Sua mente ainda vacilava em idas e vindas de estática.
— Será mesmo, Lin? Ou será que você apenas não queria que o "seu" Dante mental, aquele príncipe encantado que você criou, fosse capaz de fazer algo assim?
— Você não é o Impostor... — Nero disse, tentando processar a lógica. — Mas então por que fez isso? Por que matar um aliado?!
Dante levantou a mão, erguendo três dedos enluvados.
— Eu precisava de três coisas. Para ser mais honesto, três motivos.
Ele baixou um dedo.
— Primeiro: Eu precisava testar uma teoria sobre a verdade por trás desse jogo. Sinceramente, vocês foram muito simplistas. Foram facilmente manipulados por ele. Se continuássemos desse jeito, caminhando como ovelhas, todos nós morreríamos.
Lucius, que assistia a tudo com um sorriso de deleite acadêmico, riu.
— Olha só... então mais alguém percebeu a sutileza.
— O que ele quer dizer? — Cloud perguntou, sem baixar a arma um milímetro.
— Pense um pouco — Dante continuou, caminhando ao redor da mesa, regendo a explicação. — Olhe o jeito que o jogo foi montado. Três corredores para três grupos. Um prazo longo, quatro horas, para apenas andar. A sensação constante de que o impostor está ao seu lado... e principalmente a falsa esperança de poder encontrar uma saída.
Todos abaixaram a vontade assassina, sentindo que tinha algum detalhe que não estavam conseguindo pegar.
— Espera, falsa esperança? Não seja idiota. Tem que existir uma saída. Dungeons com regras funcionam assim — Cloud interrompeu.
— É verdade, com certeza deve existir uma saída — Dante concordou. — Mas acha mesmo que se ela fosse alcançável apenas "procurando", a Dungeon seria boazinha ao ponto de dar quatro horas? O tempo era uma armadilha psicológica. Era uma regra para dar esperança, fazendo os jogadores optarem tolamente pela exploração pacífica.
— Está dizendo que na realidade essa não é a forma de vencer a Dungeon, mas sim de cair na armadilha? — Ruxya perguntou.
— Exato. Na realidade, as quatro horas e as mortes pelo Lobo servem para nos deixar loucos. A Dungeon queria que o desespero fermentasse até começarmos a nos matar em segredo. Aceitar jogar com o tempo oferecido foi o que nos colocou à mercê do inimigo. — Dante terminava a explicação se sentando na mesa novamente.
Cloud franziu a testa, a arma baixando ligeiramente.
— E você queria confirmar isso matando alguém?
— Claro. Viu como a Dungeon reagiu? Apesar de eu ter matado Sanemi, ela não relatou nada especial. Não disse "Um Aliado matou outro Aliado". Isso prova que o sistema permite o fogo amigo sem punição, deixando o assassino livre para fazer de novo, pois a culpa cairia automaticamente no "Lobo". Foi por isso que pedi para ver os corpos. Se víssemos os corpos, ficaria óbvio que Sanemi e Saito morreram por métodos diferentes. A Dungeon recusou mostrar porque ela quer proteger o caos, não a justiça.
Cloud sentou-se lentamente, perdendo os argumentos, a arma finalmente baixando.
— Fez isso só por uma teoria...?
— Não me escutou? Eu disse que tinha três motivos. — Dante baixou o segundo dedo. — O segundo era para provar que a teoria de que "apenas uma morte já seria o suficiente para o Boss acordar" era ridícula.
Cloud reagiu levando seu olhar para ele, sabendo que aquela teoria era sua.
— Qual é, pensa um pouco. Se fosse isso, não haveria necessidade das quatro horas. Seria muito mais simples forçar um julgamento rápido. Ele fez a primeira morte demorar a ser anunciada porque é mais favorável para a Dungeon que esse nascimento demore. Ele trouxe tantas pessoas para absorver a energia máxima. O Boss nascer tendo consumido só uma vida seria um desperdício de Éter colossal.
Dante parou, restando apenas um dedo levantado. Ele olhou para Velvet. O olhar dele suavizou.
— E o último motivo... foi para proteger a Velvet.
Velvet corou violentamente, escondendo o rosto nas mãos sujas, emitindo um som agudo de felicidade.
— Do que você está falando?! — Cloud explodiu. — Ela estava segura! Isso não era necessário!
— Não seja idiota! — Dante retrucou. — Pense um pouco. Com essa votação, eu só mostrei o óbvio: as pessoas tendem a desconfiar do que temem. Se você relembrar, vai ver que eu já tinha alertado a Lara que ela era suspeita.
Todos começaram a lembrar que durante a separação Dante havia dito algo sobre Lara.
"Certo, e o seu grupo está com a Lin, que visivelmente já não gosta muito de você, e da tal Lara, que é o Coringa mais óbvio justamente por parecer a menos ameaçadora."
— Tá dizendo que sabia que ela seria focada desde aquele momento... — Ruxya murmurou.
— Mas... se Sanemi estivesse vivo aqui, as acusações sobre Velvet iriam ganhar por maioria — Dante apontou para a cadeira vazia de Sanemi. — Sanemi votaria nela, sem dúvida. Saito, no grupo dela, seria morto, e Lucius usaria isso para convencer a todos de que foi ela. Seria difícil refutar a lógica dele. Eu sabia que o cerco se fecharia na Velvet.
— Mas não tinha como você saber que a morte aconteceria no time dela! — Cloud argumentou.
— Era uma aposta de 50%. Já que nada rolou do meu lado até o momento final, o impostor só poderia estar entre os outros grupos. E como esses cinquenta por cento diziam que Velvet poderia morrer... eu percebi que precisava agir primeiro.
Velvet não aguentou mais. Ela pulou no pescoço de Dante, abraçando-o com força, pendurando-se nele.
— É por isso que eu amo o Dante! Meu caçador é tão fofo e legal! — Ela esfregou o rosto no dele, quebrando completamente a pose de vilão frio que ele estava tentando construir.
Dante ficou vermelho instantaneamente, a máscara trincando.
— Tá bom, pera! Me solta um pouco!
Velvet se afastou, fazendo beicinho.
— O Dante não gosta que a Velvet toque nele... O Dante quer que ela fique longe...
Dante suspirou, vendo o olhar triste e manipulador dela.
— Faz o que quiser... — ela voltou a se esfregar no braço dele como um gato carente e possessivo.
Lin olhava para a cena, incrédula e horrorizada, as lágrimas escorrendo livremente.
— Mas... ele era o Sanemi... Ele era seu amigo! Como você fez isso?!
Dante olhou para ela como se ela tivesse falado em uma língua alienígena morta.
— Tá brincando comigo, né? "Amigo"? Eu nunca vi ele desse jeito. E me surpreende muito saber que ele me via assim.
Lin começou a se levantar.
— Mas é claro que ele te via assim! Depois de tudo que passamos juntos, depois de tudo que enfrentamos...
— Ele não parava de me encher, sempre falando que iria me matar, me vencer, que eu era um fracasso superprotegido. Ele nunca tentou entender como eu me sentia. Nunca tentou entender meu lado... — A cara de Dante se distorceu, relembrando tudo o que passou com o ódio que sempre manteve em segredo. — E eu deveria o quê? Escutar tudo aquilo e simplesmente esquecer como um bom menino? Sinceramente, não consigo entender o raciocínio que levou ele a considerar que fôssemos amigos. — Ele sorriu, triste e cruel. — Mas... tenho que agradecer. Foi essa "amizade" unilateral que fez ele abaixar a guarda ao meu lado no escuro.
— E você fala isso com essa facilidade?! — Lin gritou, o Éter começando a brilhar ao redor dela, perigoso. Ela saltou na direção dele, pronta para atacar.
Nero tentou se mover, mas foi Cloud quem agiu, agarrando Lin pelo colarinho e puxando-a para trás com força.
— Pera, Lin! Não! Eu sei o que você está sentindo, mas não faça bobagem!
— ME SOLTA! ELE É UM MONSTRO!
— Você sabe que não conseguiria matá-lo! — Cloud gritou na cara dela, sacudindo-a. — E olhando para os olhos desse garoto agora... eu não tenho dúvida. Se parecer que você é uma ameaça, esse maldito vai te matar sem nem hesitar.
Dante observava a cena com frieza, sem levantar a guarda, as mãos nos bolsos.
— Você sabia, Caçador? — Dante perguntou, a voz casual. — Sabia de uma curiosidade interessante sobre os Scarlunes? Quando um Scarlune nasce, apesar de ter pai e mãe biológicos, qualquer conexão entre eles é cortada. Durante sua vida, existe uns 70% de chance de você nem sequer saber qual era o nome deles.
Lin baixou a cabeça, mordendo o lábio até sangrar. Ela sabia onde aquilo ia dar.
— Eles fazem isso para retirar uma fraqueza "desnecessária" — Dante continuou, didático. — Nós somos apresentados e vivemos juntos a outros Scarlunes da mesma idade. Somos apresentados a "irmãos" para gerar uma lealdade fraterna de combate, camaradagem para missões... mas não amor. Nada que possa virar fraqueza. É por isso que muitos Scarlunes acabam se apaixonando mais cedo e com mais intensidade. É simplesmente porque desejam desesperadamente completar algo que falta desde o berço.
Ele cravou os olhos heterocromáticos em Lin, que chorava nos braços de Cloud.
— Então eu vou deixar bem claro, Lin. Esse sentimento que você sente por mim não é amor.
— CHEGA DISSO! — Nero gritou, a voz falhando, as lágrimas descendo por trás dos óculos. — CALA A BOCA AGORA, DANTE!
Dante olhou para ela. Contra o olhar ferido e autoritário da líder, ele finalmente se calou, dando de ombros com indiferença. Lin desabou em lágrimas convulsivas, e Ruxya foi até ela para tentar consolá-la, lançando olhares de ódio para Dante.
Cloud respirou fundo, passando a mão no rosto cansado, envelhecendo dez anos em segundos.
— Tá. Você disse que estávamos jogando o jogo da Dungeon e que esse foi nosso erro. Mas se não era atrás de uma saída que deveríamos ter ido, o que deveríamos ter feito? Se sairmos nos matando, estaremos fazendo exatamente o que a Dungeon quer, não é?
— Tenho sérias dúvidas sobre isso — Dante respondeu. — Se fosse o extermínio total que ela queria, ela poderia ter criado regras mais agressivas e diminuído o tempo. Acho que, para a Dungeon, o Boss nascer prematuramente é a pior opção. Sobre o que deveríamos fazer... para mim é simples. Deveríamos matar logo o tal impostor.
— Se fosse fácil assim, teríamos feito — Cloud retrucou. — Como iríamos encontrá-lo?
— A divisão estava toda errada — Dante explicou. — Colocar pessoas que não confiam umas nas outras para se vigiar? Era como colocar um cordeiro e um lobo juntos numa caixa escura. Sabemos que será durante a exploração que o Lobo vai aparecer. Ou seja, deveríamos andar com aqueles em quem mais confiamos para poder lutar contra o Lobo juntos caso ele apareça.
— Mas e se essa pessoa em quem você mais confia for o Lobo? — Cloud perguntou, cético.
Dante sorriu, um sorriso genuíno e trágico dessa vez.
— Bom... aí qual o problema? Pelo menos eu não me sentiria tão mal assim caso morresse nas mãos dessa pessoa.
Velvet corou na hora, apertando o braço dele, os olhos brilhando.
Assim, Dante se virou e começou a andar em direção ao corredor central, sem olhar para trás. Velvet o acompanhou saltitando.
— O que você vai fazer? — Cloud perguntou.
— Não é óbvio? — Dante respondeu, a silhueta recortada contra a escuridão. — Vou caçar um Lobo.
— Vão só vocês dois mesmo? — Nero perguntou.
— Pois é. O resto faça como quiser. Eu já dei minha opinião sincera. E pelo menos do meu lado, não vou guardar nenhum ressentimento. Tudo bem? Sendo assim, caso o Lobo apareça, podem gritar por ajuda que eu, sem dúvidas nenhuma, vou aparecer.
Ele atravessou a porta, a escuridão o engolindo. Velvet, logo atrás, o abraçou novamente.
— O Dante é tão bonzinho!
— Espera, Velvet! A saída precisa ser dramática! — a voz dele ecoou do corredor, tingida de vergonha juvenil.
Cloud ficou sozinho no centro do salão, o silêncio retornando, mas agora com um peso diferente, esmagador. Ele tinha um novo problema para lidar. Ele olhou para Nero.
— Aquele... é o Dante que vocês conheciam?
Nero olhou para o corredor vazio, depois para Lin, que ainda soluçava no chão.
— Eu não sei dizer... — ela sussurrou. — Infelizmente, eu não conhecia o Dante tão bem para saber se ele mudou... ou se aquilo sempre foi ele, e só agora decidiu tirar a máscara.
— Entendo... — Cloud murmurou. — Mas pelo visto, você concordou que ele não é o Impostor.
Isso significava que o Lobo ainda estava entre os cinco que restaram ali. Cloud, Ruxya, Lin, Nero... e Lucius.
Cloud olhou para o cientista. Lucius estava recostado na cadeira, com as pernas cruzadas elegantemente, olhando para a porta por onde Dante saíra com um fascínio brilhante e doentio nos olhos.
— Então, Líder... — Lucius disse, virando-se para Cloud, o sorriso de tubarão voltando. — O que acha? Como será que deveríamos nos dividir agora?
Lucius voltou o olhar para o teto de vidro e a estática roxa, pensando, deliciado: "Realmente curioso. Será que esse encontro foi por acaso... ou será que tem a mão de algo maior no ar?"



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