top of page

The Fall of the Stars: Capítulo 2 - O Produto Perfeito da Geração Anormal

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 14 de jul. de 2025
  • 62 min de leitura

Atualizado: 25 de dez. de 2025

Volume 3: Sentido da Vida


Parte 1

O cheiro de ozônio não estava apenas no ar; ele saturava os poros, uma névoa invisível com o gosto metálico de sangue fervido e ar incinerado que gruda no fundo da garganta muito depois de a tempestade passar.

No centro da sala de testes — um cubo branco, imaculado, um sarcófago estéril reforçado com ligas capazes de conter o colapso de uma estrela —, Dante permanecia imóvel. O ar ao redor de seu corpo pequeno crepitava. Arcos residuais de eletricidade carmesim, como pequenas serpentes de Ether famintas, subiam e desciam por seus braços, morrendo com chiados sôfregos antes de tocar o chão asséptico.

À sua frente, o alvo, um gigante autômato de titânio, estava capturado em uma fotografia de violência. O punho da máquina, uma marreta hidráulica capaz de esmagar concreto, estava congelado a milímetros da ponta do nariz de Dante. A estase temporal vibrava o ar, um zumbido grave que fazia os dentes doerem.

Dante ergueu a mão. Seus dedos estalaram. O som foi seco, absoluto, cortando o silêncio do laboratório como um tiro.

Vrum.

A barreira do tempo que ele havia tecido sobre a matéria se desfez. A realidade cobrou seu preço. A eletricidade concentrada que Dante havia injetado cirurgicamente nas juntas do autômato durante a pausa temporal detonou em uníssono. O titânio não teve chance; o metal guinchou — um som agudo, quase humano — antes de ceder e explodir de dentro para fora. O gigante desabou, reduzido a uma pilha de sucata fumegante e retorcida aos pés do garoto.

Dante puxou o ar com força. Suas costelas protestaram com uma agulhada violenta onde um golpe anterior havia conectado. Provavelmente uma fissura. Ele engoliu a bile e o gosto ferroso de sangue que subia à boca. Então, como se acionasse um interruptor mecânico em sua própria alma, forçou os cantos dos lábios para cima.

Ele girou nos calcanhares, encarando a parede de vidro blindado onde as silhuetas dos observadores pairavam como abutres.

— E então? — A voz de Dante ecoou, amplificada pela acústica fria da sala. Ele abriu os braços em um gesto messiânico, um sorriso radiante e teatral colado no rosto pálido. — Acharam que o grand finale teve estilo suficiente ou devo adicionar confetes explosivos na próxima?

Por trás do vidro espesso, o silêncio era absoluto. Ninguém sorriu. Ninguém aplaudiu o espetáculo. Eles apenas... anotavam. Canetas movendo-se sobre pranchetas, olhos fixos em telas.

"Mais uma vez..." — a voz na mente de Dante sussurrou. Era fria, analítica, uma entidade separada daquele sorriso de plástico. — "Eles não veem um garoto. Eles olham para mim como se eu fosse uma cultura de bactérias reagindo a um estímulo numa placa de Petri. Se eu tivesse morrido, a única preocupação seria o custo do detergente para limpar o meu sangue do chão."

A porta hermética se abriu com um silvo de descompressão hidráulica. O ar-condicionado do corredor invadiu a sala, trazendo o frio artificial. O grupo de Scarlunes responsável pela bateria de testes da semana entrou.

Heisen liderava a marcha. O homem de cabelos verdes e monóculo ajustado ao olho direito não olhou para Dante; seus olhos estavam colados nos dados holográficos flutuando em seu tablet. Para ele, Dante era uma equação a ser resolvida, não uma pessoa a ser cumprimentada.

— A latência entre a aplicação do Ether elétrico e a ativação da estase temporal diminuiu em 0,3 segundos — murmurou Heisen, a voz monótona, entediada com o que acabou de presenciar. — É estatisticamente aceitável. No entanto, a termodinâmica do seu ataque é ofensiva. Você desperdiçou 15% da carga na descarga final apenas por... estética.

— Tsk... um dia você vai entender que estilo é a metade da batalha, Prof. Heisen. — Dante riu, passando a mão pelos cabelos onde a estática ainda arrepiava os fios. — O inimigo tem que ficar impressionado antes de morrer, não é?

"Vá para o inferno. Eu estava tentando não desmaiar, seu três-olhos de merda."

Atrás de Heisen, a energia mudou de fria para maníaca. Duas mulheres entraram, vibrando: Paracelso, com seus cabelos longos e o jaleco manchado de reagentes coloridos, e Ashley, segurando um scanner médico com a postura de quem empunha uma pistola carregada.

Os olhos de Paracelso se dilataram ao focar nas queimaduras nos braços de Dante, onde a pele havia carbonizado pelo refluxo do Ether de alta voltagem.

— Fascinante... absolutamente fascinante. A derme carboniza, mas as células basais já entraram em mitose acelerada. — Paracelso avançou, invadindo o espaço pessoal dele sem qualquer hesitação. O cheiro dela era uma mistura enjoativa de formol, café queimado e suor frio. — Dante, a ontologia dos seus canais de Ether é uma anomalia. Se você me deixasse fazer uma pequena biópsia... só um cubo de dois centímetros do tecido nervoso do braço esquerdo... eu poderia desvendar a condutividade real.

— Eu preciso ver a medula — cortou Ashley, empurrando Paracelso com o ombro. Ela não olhava para as queimaduras; ela olhava através de Dante, com uma fome intelectual que revirava o estômago dele. — Se pudermos mapear como ele imbui o tempo na matéria inorgânica sem causar decaimento atômico imediato... Dante, por favor. Seria um procedimento rápido. Só precisamos expor a coluna vertebral por algumas horas. Com anestesia local, você ficaria acordado para nos dar feedback.

Dante sentiu um calafrio percorrer sua espinha — a mesma que elas queriam abrir —, mas não recuou. Manteve a postura relaxada, enfiando as mãos nos bolsos para esconder o tremor incontrolável de exaustão.

— Ah... por enquanto eu estou preferindo manter minhas peças originais no lugar. — Dante piscou, jovial. — Principalmente a coluna. Sabe como é, gosto da habilidade de andar. Talvez quando eu estiver morto? Prometo deixar um bilhete autorizando.

— Não brinque, a necrose pós-morte arruinaria os dados. Seria um desperdício esperar tanto — Paracelso resmungou, frustrada, rabiscando freneticamente em seu bloco como uma criança que teve o doce negado. — A autorização. Maldita burocracia da Família. Se não precisássemos do seu consentimento verbal...

"Se não precisassem, eu já estaria dissecado e flutuando em doze potes de vidro diferentes antes mesmo de aprender a andar. Vocês não são cientistas. Vocês são açougueiros com diplomas e vocabulário difícil."

Foi então que a atmosfera mudou novamente. Love se aproximou. Diferente dos predadores analíticos, ele não trazia instrumentos de corte ou medição. Ele trazia uma toalha felpuda e uma garrafa de água gelada.

— Bom trabalho, Dante — disse Love. O tom era suave, paternal, carregado daquela bondade pegajosa que fazia o estômago de Dante revirar mais violentamente do que a ameaça de vivissecção de Ashley.

Love estendeu a toalha, limpando com delicadeza uma mancha de fuligem na bochecha do garoto.

Dante permitiu o toque. Ele ficou parado, dócil, mas por dentro retraiu-se para o canto mais escuro e blindado de sua mente, longe daquelas mãos gentis.

"Lá vem ele. O Bom Samaritano dos Scarlunes. O homem que segura a mão da vítima enquanto os outros afiam as facas. Ele deve ter pesadelos terríveis à noite... dá para ver nos olhos dele. Ele tem pena. Ele olha para mim e vê uma criança triste, e acha que sua água e sua toalha compensam o inferno."

— Obrigado... — Dante pegou a água, bebendo com uma sede exagerada, performática, fingindo que aquele gole era a salvação de sua vida.

Love sorriu, um sorriso triste, cansado e cúmplice.

— Alguém precisa lembrar a eles que você ainda é humano, Dante. Não apenas um Scarlune.

Dante baixou a garrafa. O sorriso em seu rosto falhou, congelando por um milésimo de segundo. Os olhos tornaram-se vidro inanimado antes que a máscara de ironia voltasse ao lugar.

"Humano? Você está tentando convencer a mim ou a si mesmo, Love? Humanos têm pais que os buscam na escola. Humanos choram quando se machucam. Eu já entendi o que sou muito antes de você. Aceite, Love: nesta sala, todos nós somos monstros."

— Eu estou ótimo, sério! — Dante mentiu, a voz vibrante, jogando a toalha sobre o ombro com descaso e caminhando em direção à saída. Ele passou pelos cientistas que ainda dissecavam seus genes em voz baixa. — Agora, se me dão licença, tenho um encontro com a minha cama.

Ele saiu do cubo branco sem olhar para trás.

Assim que a porta pesada se fechou, selando o som e a luz, e ele se viu mergulhado na penumbra do corredor de concreto, o sorriso desapareceu. Não foi um desvanecer lento; foi uma aniquilação instantânea.

O rosto de Dante desmoronou em uma expressão de apatia cinzenta e tristeza absoluta. A adrenalina o abandonou. A dor nas costelas pulsou, aguda, real e aterrorizante. Ele encostou a testa na parede fria do corredor, as pernas tremendo tanto que ameaçavam ceder. Fechou os olhos, sentindo a umidade do lugar.

— Merda — sussurrou para o vazio. A voz era pequena. Frágil.

Não estava triste. Não estava com raiva. O que sentia era uma dor profunda, um buraco no peito cuja origem ele desconhecia e cuja cura parecia impossível. Para uma criança de apenas nove anos, que já viu mais do que adultos normais, ele sabia que aquilo não era normal. Mas ali, no escuro, longe dos olhares clínicos, era a única coisa que era real.

Parte 2

Dante arrastou os pés até a sala de descanso, o purgatório onde o esquadrão aguardava nos intervalos da violência diária.

O lugar não tinha nada de infantil. Era uma ofensa ao conceito de infância. Não havia cores primárias, tapetes macios ou brinquedos espalhados. Era um vestiário tático, frio e funcional: fileiras de armários de aço cinza que lembravam caixões verticais, bancos de madeira dura envernizada e um cheiro onipresente que impregnava as roupas e o cabelo — uma mistura cáustica de óleo de armamento, suor frio e antisséptico hospitalar.

Quando Dante empurrou a porta pesada, recompondo a máscara de sorriso despreocupado no último segundo antes de cruzar o limiar, a pressão atmosférica da sala mudou.

Sanemi estava no centro do cômodo, sentado em um banco. Ele limpava sua lâmina com uma violência rítmica e desnecessária. Shing. Shing. Shing. Ele tinha a mesma idade de Dante, mas a carranca permanente esculpida em seu rosto o fazia parecer um velho amargo, uma alma de cinquenta anos presa em um corpo atrofiado pelo ódio.

— Ouvi o estrondo lá de cima — Sanemi resmungou. Ele não levantou os olhos; sua atenção estava devotada ao metal afiado. — Você fez muito barulho. O grande Ás está perdendo o controle ou enferrujando, Dante?

Dante caminhou até seu armário, ignorando a lança de dor que atravessava suas costelas a cada passo.

— Ah, Sanemi! — Dante riu, uma risada arejada que não chegava aos olhos. Ele abriu a porta de metal com um clangor e jogou sua jaqueta rasgada lá dentro. — Eu só estava garantindo que os espectadores não dormissem durante o expediente. Você sabe como o Tio Heisen fica rabugento sem o café da tarde.

Sanemi trincou os dentes. O som foi audível. Sua mão apertou o cabo da espada com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos, drenados de sangue.

— Não se ache especial só porque eles te dão mais tempo de simulação — ele cuspiu as palavras. — Eles só querem ver até onde você aguenta antes de quebrar. Você é um brinquedo caro, nada mais.

"Tsk... quem te perguntou? Por acaso acha que eu gosto disso? Olhe para ele... a inveja escorrendo pelo canto da boca. Pobre Sanemi. Se ele soubesse que o prêmio de ser o favorito é apenas uma gaiola mais apertada..."

Antes que a tensão estática explodisse em violência física, Lin surgiu ao lado de Dante. Ela se movia como um fantasma, pequena e frágil, com olhos grandes e úmidos que pareciam perpetuamente à beira de transbordar. Em suas mãos, ela segurava um kit de primeiros socorros contra o peito, abraçando-o com a ternura que outra criança dedicaria a uma boneca preciosa.

— Dante... seu braço — a voz dela era um fio de sussurro trêmulo. — Está queimado de novo. A derme está exposta. Deixa eu passar a pomada de aloe vera. O Love me deu um pouco extra, ele disse que ajudaria.

Dante olhou para Lin. Ele não recolheu o braço. Permitiu que ela aplicasse o gel frio sobre a pele irritada e fumegante. Enquanto ela cuidava dele, com a ponta da língua entre os dentes em concentração absoluta e as bochechas coradas, a mente de Dante se distanciava.

"Não me olhe com esse olhar... não me olhe como se eu fosse um herói ferido. Eu sou a bomba, Lin, não a vítima. Pare de tentar consertar o que foi feito para ser quebrado."

— Você é um anjo, Lin! O que seria de nós sem a enfermeira do grupo? — Dante disse em voz alta, piscando para ela com um charme fabricado.

Do canto mais escuro da sala, Saito, o membro mais silencioso, observava. Ele estava encolhido no chão, abraçando os joelhos contra o peito, tentando ocupar o menor espaço possível no mundo. Seus olhos encontraram os de Dante por um breve momento, transbordando aquela emoção viscosa que Dante mais detestava: pena.

Dante desviou o olhar imediatamente, sentindo uma pontada de irritação real perfurar sua casca de apatia.

"Parem de me olhar... Guardem sua piedade para vocês mesmos. Eu não quero nada de ninguém."

Foi então que uma voz cortou o ruído mental dele. Uma voz que não exigia, não julgava e, acima de tudo, não fingia.

— Você parou de falar com a Diane?

O mundo parou por um segundo. Lin terminou o curativo e se afastou rapidamente, sentindo a mudança abrupta na pressão do ar.

Sentada no banco mais afastado, encostada na parede de concreto com uma perna cruzada sobre a outra, estava Nero. Ela tinha um livro grosso de capa de couro no colo, mas seus olhos escuros e penetrantes estavam fixos em Dante. Diferente dos outros — o agressivo, a cuidadora, o amedrontado —, ela não parecia uma criança tentando ser soldado, nem uma criança assustada.

A "estática" zumbindo na cabeça de Dante diminuiu o volume. Com Nero, a performance era inútil. Ela via através das paredes do laboratório e via através dele.

— As notícias correm rápido neste lugar — Dante suspirou, a postura relaxando involuntariamente. Ele caminhou na direção dela, encostou as costas nos armários frios e deslizou até sentar no chão, ficando de frente para ela. O sorriso maníaco derreteu, restando apenas um garoto cansado.

— Eu a vi perto do jardim da ala leste — Nero disse, fechando o livro com um baque suave. — Ela estava chorando. Disse que você a mandou embora. Que foi cruel.

Os outros na sala fingiam limpar suas armas ou organizar seus kits, mas o silêncio denunciava que todos prestavam atenção.

— Ela é barulhenta — Dante mentiu, desviando o olhar para as próprias mãos, onde pequenos espasmos elétricos ainda dançavam entre os dedos, um tique nervoso de seu poder contido. A mentira tinha gosto de cinza. — Eu cansei...

Nero o encarou. O silêncio dela era mais pesado que os gritos de Sanemi. Ela não comprou a mentira, nem por um segundo. Inclinou a cabeça levemente, uma mecha de cabelo caindo sobre os olhos inteligentes.

— Bom... ficar com um resmungão antissocial como você não seria tarefa fácil para alguém normal de qualquer jeito — Nero disse, a voz baixa.

Dante levantou o olhar, surpreso. Ela entendeu. Nero sempre entendia as entrelinhas do que não era dito.

Um sorriso sincero, pequeno e raro, surgiu no rosto dele diante daquela provocação boba.

— Acho que ficar do meu lado é pra poucos. É um gosto adquirido — Dante murmurou, abandonando o cinismo por um segundo precioso.

Nero soltou um sopro de ar pelo nariz — o mais próximo de uma risada que ela costumava oferecer ao mundo.

— Bom, contente-se comigo então. Pelo menos até eu encontrar uma brecha na cerca.

— Quando achar, me avisa — Dante respondeu. Era para ser uma piada, um flerte com a esperança, mas soou assustadoramente sincero no eco do vestiário.

Nero o observou por mais um segundo, seus olhos suavizando minimamente, uma fresta de humanidade na armadura dela.

— Descanse, Dante. — Ela voltou a abrir o livro, erguendo a barreira de papel entre ela e o mundo. — O Raikou vai vir gritar conosco em dez minutos para o treino tático. Aproveite o silêncio enquanto ele existe.

Dante encostou a cabeça no metal frio do armário e fechou os olhos. Pela primeira vez desde que entrou na sala, seus ombros desabaram. Ele não estava seguro, mas ali, no chão, perto do silêncio de Nero, ele podia fingir, por dez minutos, que era apenas um menino cansado.

Parte 3

Os dez minutos de descanso não apenas passaram; eles evaporaram como água em chapa quente.

Dante caminhava sozinho pelos corredores labirínticos da mansão principal dos Scarlune. O piso de mármore polido, negro como obsidiana, refletia sua silhueta pequena e distorcida a cada passo. Ele havia se separado do grupo para buscar o equipamento especial na ala de segurança, obedecendo às coordenadas que piscavam em vermelho no visor de seu relógio.

O silêncio ali era de uma qualidade diferente daquele do laboratório. Não havia o zumbido elétrico de máquinas ou o cheiro de ozônio. Havia apenas o peso esmagador de uma riqueza antiga, fria e arrogante. Retratos a óleo de ancestrais Scarlune o observavam das paredes altas, seus olhos pintados parecendo seguir o garoto com julgamento silencioso.

— Daemon Scarlune — Dante murmurou.

Ele parou brevemente diante da pintura imponente do Progenitor, o homem que supostamente havia iniciado aquela linhagem maldita. A mente de Dante não conseguia formular um pensamento coerente sobre o patriarca. Ele apenas analisava a figura com sua curiosidade habitual.

Ele continuou seu caminho, o som de seus passos sendo engolido pela tapeçaria. Ao passar por uma sala de descanso de serviço, notou a porta entreaberta.

Dante parou.

Não foi um som de perigo, nem o clique de um gatilho que o deteve. Foi uma música. Algo acelerado, estridente, cheio de guitarras elétricas otimistas e tambores felizes. Uma cacofonia vibrante que soava como uma heresia naquele corredor fúnebre.

Ele se aproximou da fresta, hipnotizado, puxado por uma gravidade invisível.

Lá dentro, uma jovem candidata a empregada da casa roncava levemente em uma cadeira, exausta. Mas a televisão holográfica flutuava no ar, ligada em volume baixo.

Na tela, cores explodiam. Um garoto de cabelos espetados e roupas laranja berrantes gritava algo sobre "nunca desistir". Ele estava ferido, sangrando pixels vermelhos brilhantes que não pareciam doer, mas sorria. Ele estendeu a mão trêmula para outro personagem — um rival sombrio — e gritou:

"Nós somos amigos! Eu vou te salvar nem que tenha que quebrar todos os seus ossos!"

Os olhos de Dante, normalmente opacos, cínicos, se arregalaram. A luz trêmula da tela refletiu em suas íris, acendendo uma faísca de pura confusão infantil.

"Por que ele está sorrindo? O outro tentou matá-lo cinco minutos atrás com intenção letal. Isso é... tática? Ele está tentando desestabilizar o oponente com um comportamento ilógico? Mas... ele parece estar falando sério."

Dante deu um passo involuntário em direção à porta. O coração dele falhou uma batida. Era ridículo. Era taticamente estúpido. Era uma mentira colorida.

Mas também era a coisa mais incrível que ele já tinha visto em toda a sua curta vida.

— O que você está fazendo, Dante?

A voz grave e rouca veio de trás, atingindo-o como um trovão repentino e físico.

Dante congelou. A luz da TV desapareceu abruptamente quando uma mão enluvada, enorme e pesada, passou por cima de sua cabeça e bateu na porta, fechando-a com um estrondo seco que certamente acordou a garota lá dentro.

Dante se virou devagar, cada músculo do corpo tenso, esperando um golpe.

Raikou pairava sobre ele. O homem era uma torre de músculos compactos e cicatrizes antigas, emanando uma pressão de Ether tão densa e sufocante que tornava o ar difícil de respirar, como se a gravidade ao redor dele fosse mais forte. Ele olhava para Dante de cima, não com raiva explosiva, mas com um desdém gelado e decepcionado.

— Eu perguntei o que você está fazendo. Rani me obrigou a treinar o seu grupinho, então não ouse ficar se distraindo com bobagens e me fazendo perder tempo — Raikou rosnou, a voz vibrando no esterno de Dante.

Dante engoliu em seco. A máscara de sorriso despreocupado demorou um segundo a mais para se ajustar dessa vez. As cores do anime ainda dançavam em sua retina.

— Eu... estava apenas… curioso...

Tsk… seria tão mais fácil se você encontrasse logo uma ambição real — Raikou o cortou, impaciente. Ele se abaixou lentamente, ficando cara a cara com o garoto. Seus olhos eram fendas de gelo, lendo cada hesitação na alma de Dante. — Você é morno, Dante. Se vai desistir e fugir, faça isso logo. Pule o muro. Corra para a floresta. Mas não me faça perder o tempo que eu poderia usar para treinar.

Dante sentiu a dor em seu coração pulsar, mais aguda que a fissura nas costelas.

Desistir. Fugir.

As palavras de Raikou deveriam soar como uma promessa de liberdade. Deveriam ser tentadoras. Mas, por algum motivo distorcido, elas soavam como uma sentença de morte. Viver ali, sendo retalhado em laboratórios, era difícil. Mas a ideia de enfrentar o mundo lá fora, o vasto desconhecido, sozinho, sem ordens para seguir, sem um propósito, doía de uma forma aterrorizante. O medo da liberdade era maior que o medo da dor.

Ele olhou para o chão polido, vendo seu reflexo partido.

— Eu não vou desistir… — a voz saiu baixa, mas firme.

Raikou o soltou com um empurrão brusco, quase enojado pela resposta obediente.

— Então aja como tal. Pegue seu equipamento com a Rani e suma da minha vista.

Dante cambaleou, recuperando o equilíbrio com a graça treinada de um soldado.

— Sim, senhor.

Ele se virou e correu pelo corredor, as botas batendo rápido no mármore. Enquanto se afastava, a música da abertura do anime ainda ecoava baixinho em sua mente, lutando desesperadamente para não ser abafada pelo som pesado de sua própria respiração.

Dante cerrou os punhos enquanto corria. Ele odiava Raikou. Odiava a crueldade, o desprezo. Mas odiava mais ainda o fato de saber que Raikou nunca mentia. Ele era morno. Ele estava preso.

"Aquele garoto na TV… sangrando e sorrindo… ele parecia tão estúpido. E tão... livre."

Parte 4

O depósito de equipamentos ficava nas entranhas do subsolo, uma área onde o sistema de ventilação travava uma batalha perdida contra a umidade sufocante da terra. O ar ali embaixo era denso, quase sólido. O cheiro era uma assinatura olfativa de doença: uma mistura enjoativa de graxa velha, o frio metálico das armas e um odor adocicado, quase podre, de flores murchas e formol que jamais deveria existir em um arsenal.

Dante diminuiu o passo ao avistar a porta de aço escovado. Seus instintos, afiados por anos de sobrevivência na "selva" política e física da Família, gritavam um alerta primitivo em sua base cerebral: perigo. Não havia monstros ali. Não havia armadilhas letais. Não havia sequer o peso esmagador da aura de Raikou.

Havia algo pior. Havia Rani.

Ele parou. Respirou fundo, puxando o ar viciado para os pulmões e ajustando a máscara de apatia sorridente no rosto. Ele a afivelou com força, como um capacete antes de entrar em uma zona radioativa.

"Rápido. Entre. Pegue a pasta. Saia. Não faça contato visual prolongado. Não a deixe falar muito e não a deixe chegar perto."

Ele digitou o código no painel biométrico. A porta sibilou, deslizando com uma maciez oleosa.

O depósito se revelou vasto, um labirinto claustrofóbico de prateleiras abarrotadas com armas experimentais, frascos de venenos alquímicos cintilantes e artefatos amaldiçoados selados a vácuo. No centro de tudo, atrás do balcão iluminado por uma luz amarelada que dava à pele humana um aspecto de icterícia, Rani estava debruçada sobre relatórios.

Quando a porta se abriu, ela não se sobressaltou. Ela ergueu a cabeça lentamente. O movimento foi líquido, desumano. Algumas folhas secas, presas em seu cabelo desgrenhado — restos de sabe-se lá qual experimento botânico —, deslizaram e caíram sobre a mesa.

Rani era uma mulher bonita, mas de uma beleza inquietante e venenosa. Ela lembrava uma daquelas plantas carnívoras tropicais que exibem cores vibrantes e néctar doce apenas para dissolver as moscas que pousam nelas. Seus cabelos eram escuros, uma cortina pesada que emoldurava um rosto pálido e febril. Quando seus olhos encontraram Dante, seus lábios se curvaram. Não era um sorriso maternal. Não era um sorriso de instrutora. Era o sorriso de um colecionador vendo sua peça favorita.

— Dante... — O nome saiu da boca dela como um suspiro arrastado, sílaba por sílaba, carregado de uma intimidade viscosa que não existia e não deveria existir. — Eu estava esperando por você. Senti sua falta.

Dante parou do outro lado do balcão, mantendo a estrutura de metal reforçado entre eles como uma barricada vital.

— Oi, Rani! — Ele forçou a voz a subir uma oitava, tentando soar animado, jovial, qualquer coisa que não fosse aterrorizado. A bile queimava no fundo de sua garganta. — Vim pegar o dossiê da próxima missão e os supressores de Ether. O Raikou está com pressa. Sabe como é aquele velho rabugento, né? Se eu demorar um segundo, ele me faz correr até meus pulmões explodirem.

Rani ignorou a pressa. Ela ignorou a menção a Raikou. Para ela, o mundo lá fora não importava. Ela contornou o balcão. Seus movimentos eram silenciosos, deslizantes, ignorando a barreira física que Dante tentou estabelecer.

— Você cresceu... — ela murmurou, ignorando o recuo sutil do garoto. O cheiro dela invadiu o espaço pessoal dele, uma nuvem tóxica: perfume floral doce demais, quase podre, misturado com o cheiro ferroso de sangue seco e reagentes ácidos. — Seu amadurecimento está ocorrendo tão... lindamente. Aposto que você deve ser visitado todos os dias pelos idiotas curiosos dos andares de cima...

Rani era a única que se referia aos cientistas principais da mansão como "idiotas". Na realidade, em Threshold, ela poderia chamar o próprio Diabo de amador e ninguém teria coragem de corrigi-la. Sua loucura era seu escudo, e sua genialidade, sua espada.

— Eu estou tão orgulhosa... — ela continuou, encurtando a distância até que Dante pudesse ver os poros dilatados em seu rosto. — Logo os fatores genéticos vão se estabilizar. A sinfonia do seu DNA vai atingir o crescendo e os genes predominantes vão eclodir.

Ela falava como se Dante fosse o experimento de sua vida, sua Opus Magnum. Ela não via um menino; via uma tese de doutorado que respirava.

Dante travou cada músculo do corpo, transformando-se em pedra. O instinto de luta gritava. Mas mostrar medo ou agressividade para Rani era um erro. Ela parecia se excitar com a tensão, como um predador que gosta quando a presa se debate.

— O dossiê, Rani? — Dante insistiu, o sorriso vacilando nas bordas, tremendo como uma imagem com defeito. — A missão...

Ela estendeu a mão. Por um segundo esperançoso, Dante pensou que ela pegaria os papéis na mesa. Mas a mão dela flutuou, ignorando a burocracia, indo direto para o rosto dele.

Os dedos de Rani eram frios e úmidos, como a pele de um anfíbio.

Ela tocou a bochecha dele. Traçou a linha do maxilar com uma lentidão torturante, saboreando a textura da pele, o calor do sangue pulsando logo abaixo. Dante sentiu um arrepio violento de repulsa percorrer sua espinha, cada nervo do corpo gritando em um alarme ensurdecedor: VIOLAÇÃO. PERIGO. SAIA DAQUI.

— Tão forte... tão contido... — Rani sussurrou, os olhos dilatados, vidrados. A respiração dela acelerou levemente, curta e irregular, e as bochechas ganharam um tom rosado febril. Ela enrolou uma mecha do cabelo escuro de Dante no dedo indicador, puxando levemente, testando a resistência da raiz. — Um dia você vai ser verdadeiramente magnífico. E eu vou estar lá para ver você quebrar o mundo.

Ela mordeu o lábio inferior, perdida em alguma fantasia distorcida onde Dante era a peça central.

O nojo superou o treinamento. Superou o medo.

Dante deu um passo brusco para trás, livrando-se do toque dela com a violência de quem se afasta de uma chama aberta.

— A gente se vê na volta, Rani! — ele disse, mas a máscara caiu. A voz falhou, perdendo o tom brincalhão, soando apenas desesperada.

Ele agarrou a pasta de documentos e a caixa de supressores sobre o balcão com um movimento rápido e desajeitado, quase derrubando um frasco de vidro contendo algo que parecia um olho preservado. Sem esperar resposta, ele girou nos calcanhares e saiu do depósito, andando rápido demais para parecer natural, quase correndo.

— Ficarei esperando... — A voz dela ecoou pelo corredor atrás dele, arrastada, faminta e promissora.

Dante só parou quando dobrou dois corredores, quando o ar-condicionado voltou a ser frio e estéril, e a luz branca do corredor principal lavou a penumbra amarela de seus olhos.

O sorriso desapareceu completamente. Foi substituído por uma expressão de náusea.

Ele largou a pasta no chão polido. Suas mãos tremiam. Ele levou a mão à bochecha, no local exato onde os dedos frios dela haviam tocado.

Ele esfregou a pele com a manga áspera da jaqueta. Esfregou com força. Esfregou com violência, até o atrito queimar, até a pele ficar vermelha e arder. Ele tentava remover a sensação "oleosa" do toque dela, tentava limpar algo que parecia ter penetrado seus poros e contaminado seu sangue.

Ele se sentia sujo. Uma sujeira que o sangue e a lama nunca conseguiam impregnar nele.

— ...Maldita. — O xingamento saiu engasgado.

Ele pegou a pasta do chão, respirando fundo em solavancos para controlar o batimento cardíaco errático. Tinha uma missão para fazer. Tinha monstros para matar.

Pelo menos os vampiros e bestas criadas em laboratório ele podia matar. Eles eram honestos em sua selvageria. Contra Rani... ele era apenas uma lâmina sendo admirada no escuro.

Parte 5

A viagem durou três dias de silêncio tenso dentro do transporte blindado.

A chegada à cidade de Luvania foi como cruzar a fronteira de um pesadelo. Era um local sombrio, sufocado por florestas de pinheiros negros e uma névoa perpétua que se agarrava ao chão como fantasmas, impedindo que os raios solares tocassem a terra. A cidade parecia morta, mas era o destino final que realmente gelava o sangue.

O Laboratório 42 não parecia um centro de pesquisa. Parecia uma ferida aberta e purulenta encravada na encosta da montanha.

O complexo de concreto brutalista, outrora cinza e imponente, estava agora profanado por uma vegetação grotesca. Não eram trepadeiras comuns; eram vinhas grossas, de um vermelho-arroxeado pulsante, que se retorciam e palpitavam como artérias expostas. Elas sufocavam o prédio, penetrando pelas janelas quebradas e rachaduras na fundação, como se a própria terra estivesse tentando digerir o laboratório, mastigando o concreto.

— Que cheiro é esse? — Lin cobriu o nariz com a manga do uniforme, seus olhos lacrimejando instantaneamente. O ar fedia a cobre, enxofre e carne deixada ao sol.

Dante desceu a rampa do transporte primeiro. Suas botas tocaram o solo úmido com um baque surdo. Ele caminhava com uma leveza que contradizia o peso do ambiente, ignorando os perigos escondidos na neblina.

Atrás dele, Nero puxou o tablet com as ordens da missão. A luz da tela iluminou seu rosto sério, seus olhos varrendo o texto com a frieza de um general, embora fosse apenas uma menina.

— Certo, vamos revisar — Nero anunciou, sua voz cortando o vento uivante. Ela girou o tablet nos dedos com destreza. — Temos três objetivos claros. Primeiro: encontrar o Cientista Chefe Lucius. Se estiver vivo, resgatamos. Se estiver morto, trazemos a cabeça ou o ID para confirmação genética.

— Segundo? — Saito perguntou, abraçando a própria arma, os olhos dartando para as sombras das árvores.

— Matar o monstro responsável pela destruição estrutural, se ele ainda estiver aí dentro — Dante interrompeu, apontando casualmente para um buraco colossal na parede do saguão, onde vergalhões de aço estavam retorcidos como arame farpado. — Algo grande e bravo, pelo visto.

— E o terceiro? — Sanemi resmungou, batendo o pé com impaciência, a mão sempre próxima ao cabo da espada.

Nero olhou para a última linha do dossiê. Seus olhos se estreitaram. Prioridade Absoluta: Eliminação do Ativo Especial 00-L. Classificação: Quimera Instável. Não havia foto, apenas dados genéticos corrompidos e avisos em vermelho.

— Eliminação de um alvo especial. Um protótipo que deu errado. — Dante deu de ombros, bloqueando a tela do tablet de Nero com a mão, minimizando a ameaça. — Provavelmente mais um bicho feio que fugiu da jaula. Nada que a gente não resolva antes do jantar.

Eles avançaram para o saguão.

O interior era um pesadelo arquitetônico. O chão estava coberto por um lodo translúcido e escorregadio que abafava os passos. As luzes de emergência giravam em um loop eterno de vermelho carmesim, lançando sombras longas e distorcidas que pareciam dançar nas paredes a cada rotação.

À medida que se aprofundavam, a realidade começava a dobrar. O metal e o concreto davam lugar a corredores que pareciam... orgânicos. Havia camadas de tecido semelhante a carne crescendo sobre os painéis de controle. E o pior: olhos. Dezenas de olhos leitosos e sem pálpebras, separados de qualquer corpo, cresciam em aglomerados nos cantos do teto, girando silenciosamente para observar o grupo passar.

— Isso é nojento — Saito sussurrou, tremendo, tentando não encostar nas paredes que pareciam suar.

— Foco — Sanemi rosnou, a tensão o deixando no limite. O medo dele se convertia em raiva pura. Ele olhou para Dante, que caminhava na frente, com as mãos nos bolsos, assobiando a melodia alegre e estridente da abertura daquele anime.

Aquele som feliz, naquele inferno de carne e metal, foi a gota d'água para Sanemi.

— Pare com isso! — Sanemi gritou. A voz ecoou pelos corredores carnudos, fazendo alguns dos olhos nas paredes piscarem.

Dante parou. O assobio morreu. Ele se virou devagar, uma expressão de exaustão real surgindo.

— Parar com o quê dessa vez, Sanemi?

— Você está agindo como se estivesse num passeio no parque! — Sanemi avançou, empurrando o peito de Dante com o dedo indicador, agressivo. — Olha em volta! Estamos cercados por morte e você está assobiando? Você quer parecer o "legal"? Acha que agir como se nada te atingisse te torna especial? É por isso que o Raikou te odeia. Você não leva nada a sério porque, no fundo, você é um egoísta que não se importa com ninguém além de si mesmo!

Dante sentiu o sorriso vacilar. As palavras de Sanemi eram afiadas, precisas. Mas o que doía não era o insulto. Era a verdade distorcida nelas.

— Eu levo a sério o suficiente para manter você vivo, seu fracote — Dante respondeu. A voz perdeu o tom brincalhão, caindo para um registro frio e perigoso. Pequenos arcos de eletricidade vermelha começaram a crepitar em seus punhos fechados.

O teto explodiu.

Não houve aviso, nem som prévio. Apenas a gravidade e a violência.

Um amontoado de músculos, dentes e fúria pura desabou entre eles, separando a formação do grupo com uma onda de choque de poeira e detritos.

A criatura era gigantesca. Lembrava vagamente a anatomia de um lobo, mas era uma zombaria biológica da natureza. Não tinha pele; sua musculatura vermelha, crua e pulsante estava totalmente exposta ao ar. Veias grossas e negras, como cabos de alta tensão, bombeavam um fluido bioluminescente por seu corpo. Ele tinha múltiplas patas desordenadas que arranhavam o chão e uma mandíbula que se abria em três partes, gotejando saliva ácida.

— DISPERSAR! — Nero gritou, o instinto de líder assumindo o controle enquanto puxava Lin e Saito para trás de uma coluna de concreto reforçado.

O monstro rugiu — um som profano que misturava um uivo animal gutural com o grito distorcido de um ser humano — e avançou. Ele ignorou Nero. Ignorou os outros. Seus instintos focaram na fonte de Ether mais potente e volátil da sala.

Dante.

Dante mal teve tempo de processar. O tempo não parou para ele dessa vez. Ele ergueu os braços em um reflexo defensivo, o medo acendendo seu poder.

CRAK-BOOM!

Um raio concentrado explodiu de suas mãos, atingindo o peito da besta. O cheiro de ozônio misturou-se instantaneamente com o odor de carne queimada. Mas a criatura nem desacelerou. A massa muscular densa absorveu o impacto como uma esponja. O monstro colidiu com Dante com a energia cinética de um trem de carga desgovernado.

— Argh!

O ar foi expulso dos pulmões de Dante. Ele foi arremessado para trás como uma boneca de pano. Ele voou pelo corredor, o mundo girando em um borrão, até que suas costas colidiram violentamente contra as portas metálicas duplas de um elevador de carga desativado.

CLANG!

O metal gemeu. As portas, já corroídas pela ferrugem e pela "infecção" biológica do laboratório, não aguentaram. Elas cederam para trás, dobrando-se sob o impacto.

— DANTE! — Nero gritou, estendendo a mão para o vazio, os olhos arregalados em horror.

O chão sob os pés de Dante desapareceu.

A besta, impulsionada pela inércia, tentou avançar para cair junto e terminar o serviço. Mas Sanemi, movido por um reflexo de proteção que contradizia todo o seu ódio verbal, surgiu do flanco.

Com um grito de esforço, ele desceu sua lâmina. O aço cortou uma das patas dianteiras da besta. O monstro guinchou, perdeu o equilíbrio e colidiu com força total contra a estrutura do arco da porta do elevador, em vez de cair no poço.

Mas o impacto da besta de duas toneladas na estrutura já fragilizada foi o golpe de misericórdia para o prédio.

O concreto acima do poço do elevador estalou e cedeu. Toneladas de escombros, vigas de metal e carne sintética das paredes começaram a desabar, criando uma avalanche que selou a entrada do poço lá em cima.

Dante viu a luz vermelha do corredor desaparecer enquanto despencava na escuridão absoluta.

A queda foi um borrão de pânico. O vento assobiava em seus ouvidos.

Ele estava atordoado pelo golpe do monstro, as costelas gritando de dor, mas o instinto de caçador assumiu o comando.

Ele estendeu as mãos para o vazio, gritando mentalmente, e liberou uma onda magnética desesperada. O Ether puxou qualquer metal próximo.

Ele foi violentamente puxado para trás. Suas costas bateram contra a parede do poço, raspando contra os trilhos-guia do elevador. Faíscas voaram quando ele usou o magnetismo para frear a queda, sentindo seus ombros quase deslocarem com a desaceleração brutal.

Mas não foi suficiente. O teto acima dele estava vindo junto. Uma chuva de pedras e metal.

Ele olhou para baixo. A escuridão acabava. Havia as portas de um andar inferior se aproximando rápido demais.

Ele não tinha escolha. Dante concentrou a energia restante, cerrou os dentes e se jogou para frente, usando a parede como trampolim, transformando seu corpo em um aríete.

BAQUE.

O impacto final foi brutal.

Ele atingiu as portas do elevador do subsolo. O metal cedeu com um estrondo ensurdecedor. Dante atravessou as portas, rolando violentamente para dentro do andar desconhecido, coberto de poeira e sangue.

Atrás dele, no poço do elevador, o mundo desabou. Toneladas de entulho preencheram o buraco com um estrondo que fez o chão tremer, selando completamente a saída.

...

Depois, houve apenas o silêncio. Um silêncio pesado, espesso.

Plic. Plic. Plic.

Apenas o som de gotejamento de algum cano estourado ao longe.

Dante abriu os olhos. Ou pensou que tivesse aberto, pois a escuridão era absoluta. O ar era frio, muito mais frio do que lá em cima. Cheirava a terra velha e segredos esquecidos.

Ele tentou se mover e gemeu. Tudo doía. Mas ele estava vivo.

Dante se sentou com dificuldade, tossindo poeira de concreto. Ele ergueu a mão trêmula e estalou os dedos. Uma pequena chama elétrica, vermelha e solitária, acendeu na ponta do indicador, lançando sombras longas e trêmulas ao redor.

Ele iluminou o caminho de onde veio. As portas do elevador estavam retorcidas para dentro, e atrás delas, apenas uma parede impenetrável de pedra e destroços compactados. Não havia caminho de volta para cima.

Ele se virou para encarar a escuridão à sua frente, onde o corredor do subsolo se estendia para o infinito negro.

— Ótimo... — Dante tossiu, limpando o sangue do canto da boca e forçando aquele maldito sorriso a voltar ao rosto, mesmo que ninguém pudesse ver. — Pelo menos me livrei do discurso do Sanemi.

Parte 6

O subsolo não era apenas escuro. Era uma entidade física, pesada e sufocante. A escuridão ali tinha massa, pressionando os ombros de Dante com a mesma força das toneladas de destroços que haviam selado a saída metros acima.

Dante tentou se levantar e o mundo girou. Um gemido baixo escapou por entre seus dentes cerrados. Sua perna esquerda latejava em um ritmo febril — provavelmente uma torção.

Tsk… péssima hora — ele sussurrou para o vazio.

O túnel de concreto se abriu em uma série de salas que, um dia, foram brancas e estéreis. Agora, eram um matadouro.

A luz trêmula de sua chama varreu o chão e Dante parou abruptamente.

Havia corpos. Um tapete deles. Não eram esqueletos antigos. Eram cadáveres recentes, ainda vestidos com jalecos de cientistas ou uniformes de guardas. A violência imposta a eles era narrativa: alguns estavam destroçados, abertos do esterno à pélvis por garras que desafiavam a biologia. Outros pareciam... secos. Murchos, como frutas deixadas ao sol, como se a essência vital tivesse sido sugada de dentro para fora, deixando apenas a pele pergaminosa sobre os ossos.

— O que aconteceu aqui? — Dante se agachou ao lado de um corpo, engolindo o nojo que subia com a bile.

Ele notou marcas de garras profundas rasgando o metal das paredes. Mas o que gelou seu sangue não foi a violência bruta. Foi a direção.

As portas de contenção, placas de aço de dez polegadas projetadas para manter o inferno trancado, estavam arrombadas de dentro para fora.

— Eles não invadiram — Dante murmurou, a compreensão caindo sobre ele como água gelada. — As coisas escaparam.

Ele continuou avançando, arrastando a perna ruim, passando pelo que restou de uma ala de observação. O vidro blindado estava reduzido a pó no chão. Dentro da sala, ele viu tanques. Cilindros enormes, quebrados como cascas de ovo, vazando um líquido amarelado e viscoso que cobria o chão e cheirava a cobre.

Dentro de um dos tanques rachados, ainda preso por tubos de alimentação, havia uma massa de carne disforme que parou de se desenvolver na metade. Um erro genético. Mas na mesa ao lado, protegidas por plástico, havia anotações e fotos.

Dante pegou uma foto do chão. Sua mão, geralmente firme, tremeu.

Eram meninas. Fileiras intermináveis de meninas idênticas, de cabelos prateados, flutuando em tanques de estase. Cópias. Dezenas, talvez centenas delas. Produtos.

— Então eles estavam fabricando pessoas aqui...

Sua apatia era brutal; mesmo diante de crimes contra a vida, ele simplesmente observava e caminhava.

De repente, um som cortou o silêncio sepulcral do laboratório.

Não era um rugido. Não era um grito de dor.

Era uma melodia. Alguém estava cantarolando. Uma voz fraca, desafinada, quebrada, mas insanamente calma, ecoando no fim do corredor principal.

Dante apagou a chama no dedo por instinto. A escuridão voltou, mas agora guiada pelas luzes de emergência vermelhas que piscavam em agonia. Ele parou de mancar; a perna finalmente terminara de se regenerar.

Tsk… ficar consumindo energia aqui não é nada bom. Deveria ter trazido alguns mantimentos comigo; se eu não comer, vai ser difícil me recuperar.

Ele chegou a um grande salão central, uma espécie de átrio com passarelas retorcidas penduradas no teto alto.

E lá estava ela.

No centro da devastação, cercada por poças de químicos tóxicos e um mar de vidro moído, havia uma garota.

Ela era pequena, talvez da idade dele. Usava trapos imundos que um dia foram uma camisola hospitalar branca. Seus cabelos prateados, idênticos aos da foto, estavam cortados de qualquer jeito, empapados de graxa e sangue seco. Ela caminhava em círculos perfeitos, os pés descalços pisando nos cacos de vidro sem parecer notar os cortes, cantarolando para o nada, totalmente alheia ao inferno ao seu redor.

Dante parou nas sombras, observando a cena surreal.

"Tá certo, agora... será que essa garota é real, ou eu bati a cabeça com muita força e estou alucinando?"

Antes que Dante pudesse processar, o cheiro de podridão inundou o salão, sobrepujando o cheiro de químicos.

Grrr-krak.

A grade de ventilação industrial acima da garota explodiu. Metal rasgou metal como papel.

Uma quimera — uma daquelas abominações de músculos expostos e sem pele que Dante vira antes — projetou-se do buraco no teto. Ela não tinha olhos, mas as fendas nasais em seu crânio exposto se dilataram, captando o feromônio do sangue fresco da garota.

A besta rugiu, gotejando saliva ácida, e saltou. Uma massa de morte certa em queda livre sobre a garota parada.

Dante observou. A garota não contra-atacou; ao invés disso, começou a fugir, tentando se afastar da criatura. No entanto, ela estacou. Encurralada contra uma porta de metal emperrada, seus dedos pequenos se fecharam em torno de um fragmento de chapa afiada que apanhara do chão. Sua mão tremia.

Ao ver aquilo, ele agiu antes de pensar.

— Droga! — Dante gritou.

O mundo engasgou.

Dante ativou o Ether. A realidade ao redor dele desacelerou, tornando-se espessa como gelatina. O som do rugido da besta distorceu, baixando de tom até virar um gemido grave e arrastado. As gotas de saliva ácida da criatura ficaram suspensas no ar.

Dante deslizou pela brecha do tempo.

Ele agarrou um cano de ferro exposto na parede destruída ao seu lado. A eletricidade vermelha correu de seus dedos para o metal, não como um choque, mas como uma indução térmica violenta. O ferro superaqueceu instantaneamente, brilhando em um laranja furioso.

Com um puxão brutal, ele arrancou o cano da parede, concreto explodindo em câmera lenta.

O tempo estalou de volta ao normal com um estrondo sônico.

Dante girou sobre o calcanhar bom, usando o impulso cinético acumulado na pausa temporal. O cano incandescente e eletrificado assobiou no ar, desenhando um arco de luz, e encontrou o pescoço da besta no meio do salto.

CRAAAK!

Não foi um corte limpo. Foi uma obliteração. A carne da criatura foi vaporizada pela pressão cinética somada ao calor do plasma. A cabeça explodiu.

O corpo maciço da quimera, agora um peso morto, passou voando pela garota, a força do deslocamento de ar agitando os cabelos sujos dela. A carcaça colidiu com a parede oposta com um baque úmido e nojento, deslizando até o chão em uma poça de fluidos negros.

Silêncio. Apenas o zumbido bzzz-bzzz da eletricidade dissipando do cano de ferro e a respiração ofegante e dolorosa de Dante.

Tling.

Dante soltou o ferro quente no chão. Seus joelhos cederam imediatamente. A conta do movimento brusco chegou com juros. Ele caiu sentado, tossindo violentamente, e gotas de seu próprio sangue pingaram no chão metálico entre suas botas.

— Merda... — ele resmungou, limpando a boca com as costas da mão suja. O gosto de ferro era insuportável.

Ele levantou o rosto, suado, pálido, com mechas de cabelo preto e vermelho caindo sobre a testa. Seus olhos heterocromáticos — o esquerdo azul gélido e o direito vermelho infernal — focaram na garota.

Velvet não havia recuado um passo. Ela não gritou.

Ela olhava para o cadáver fumegante da besta. Depois, girou a cabeça para olhar para Dante.

Na mente fragmentada de Velvet, as engrenagens giravam freneticamente, tentando catalogar o evento. Ela vira Lucius falhar mil vezes. Ela vira Rover morrer. Ela sabia, por experiência empírica, que coisas vivas eram frágeis. Elas quebravam e eram descartadas.

Mas aquele garoto...

Ele sangrava. Mas ele havia destruído o predador. Ele era sólido.

"Ele não quebra", pensou ela.

Velvet deu um passo à frente, seus pés descalços chapinhando levemente no sangue misturado do chão. Ela se aproximou de Dante.

— Você não fugiu... — ela disse. Não era uma pergunta. Era uma constatação maravilhada, como se tivesse descoberto uma nova cor.

Dante riu. Foi uma risada seca, dolorida e carregada de cinismo.

— E se eu fugisse, quem teria impedido você de virar comida?

Velvet inclinou a cabeça, estudando-o. Ela se agachou na frente dele, ignorando totalmente a sujeira ou a ameaça latente que ele representava. Ela estendeu a mão pálida, magra e marcada por picadas de agulha, em direção ao rosto dele.

Dante recuou instintivamente, os músculos do pescoço travando. A memória tátil dos dedos frios e lascivos de Rani no arsenal disparou um alarme em sua cabeça.

Mas Velvet não tocou nele com malícia, nem com desejo.

Ela passou o dedo indicador levemente no corte aberto na bochecha dele, colhendo uma gota espessa de sangue. Então, com uma naturalidade perturbadora e animal, levou o dedo à própria boca e provou.

Dante franziu a testa, confuso e enojado, empurrando a mão dela para longe com um tapa fraco.

— Quem é você, afinal, pirralha misteriosa? Alguma sobrevivente desses tanques?

Velvet piscou devagar. A identidade dela havia sido apagada, reescrita e apagada de novo por Lucius. Ela era a Matriz. A Prisioneira Zero. O Ativo 00-L. Uma coisa.

Mas diante daquele garoto que acabara de matar a morte por ela, ela sentiu a necessidade súbita de ser algo mais. Ela precisava de um nome para dar a ele, algo que a tornasse real.

— Velvet — disse ela, a palavra saindo estranha, resgatada de um tempo onde existia um amor falso antes da dor. — Meu nome é Velvet.

Dante a analisou. Ele viu a magreza extrema, as marcas de tortura clínica nos braços, o olhar de loucura contida e inteligência afiada.

"Será... que ela é o alvo?"

Dante olhou para o cano de ferro no chão, ainda quente, a poucos centímetros de sua mão. Ele poderia pegá-lo. Seria fácil. Ela estava perto demais, parecia frágil como vidro. Um golpe e a missão estaria cumprida.

Mas então ele olhou para os olhos dela novamente.

Ela o olhava com uma intensidade aterrorizante. Como se ele fosse a única coisa real no universo, e algo dentro dele ficava feliz com isso.

Ele suspirou, o ar saindo trêmulo dos pulmões. Ele relaxou a mão, deixando-a cair longe da arma improvisada.

— Prazer, Velvet. Eu sou Dante. — Ele apontou para o teto. — Já me cansei desse clima sombrio; 'tô pensando em voltar para o andar de cima e comer alguma coisa. E você? Quer vir ou tem algo para fazer aqui embaixo?

Um sorriso lento, torto e inquietante se abriu no rosto de Velvet.

— Eu vou...

Assim Dante tomou a frente, mas ele não deixou sua guarda cair. Havia algo errado naquela garota e ele sabia. Mais do que o provável perigo de estar caminhando com um monstro, ele conviveu com muitos para saber do que se tratava; por algum motivo, aquela garota estava escondendo sua verdadeira inteligência.

Parte 7

O laboratório não estava apenas em silêncio; ele estava digerindo.

Enquanto Dante e Velvet avançavam pelos corredores de metal retorcido, o ar parecia vibrar com uma frequência baixa, quase infrassônica, que revirava o estômago. O Éter residual dos monstros abatidos e dos cientistas massacrados não se dissipava; pelo contrário, era sugado pelas paredes, absorvido pela arquitetura brutalista como se o complexo inteiro fosse um órgão vivo e faminto.

— Isso vai virar uma Dungeon... — Dante murmurou. Seus olhos heterocromáticos varriam as sombras, inquietos. Ele sentia o gosto metálico de ozônio e cobre na língua. Se ficassem ali por mais algumas horas, a própria estrutura começaria a gestar seus pesadelos.

Ele não baixou a guarda. Nem por um segundo.

A garota, Velvet, caminhava um passo atrás, na zona cega dele. Seus pés descalços chapinhavam no lodo químico e viscoso do chão, mas ela não demonstrava qualquer desconforto. Dante podia sentir o peso físico do olhar dela cravado em sua nuca. Não era o olhar de uma protegida; era a análise fria de um vivisseccionista observando uma cobaia promissora.

Ele parou abruptamente, girando o corpo.

Velvet sorriu. Foi uma expressão mecânica, perfeitamente cronometrada para simular inocência, mas que jamais alcançou o abismo amarelo de seus olhos.

— Você sabe onde ficam as escadarias de acesso, não sabe? — Dante perguntou, a voz árida.

Velvet inclinou a cabeça, balançando os braços soltos ao lado do corpo, simulando uma leveza infantil.

— Não faço ideia. O papai mudou tudo tantas vezes...

Mentira. Dante sabia que era mentira pela forma perturbadoramente controlada como ela respirava.

Ele voltou a caminhar, a mente presa em loops de paranoia tática. Devo perguntar sobre as fotos? Sobre Lucius? Ele precisava de informações, mas expor suas dúvidas parecia perigoso. Como oferecer o pescoço a um cão que você não sabe se é domesticado ou raivoso.

De repente, o perímetro dele foi violado. Não houve som de passos, apenas um deslocamento de ar.

Velvet surgiu ao lado dele, colando o corpo pequeno ao dele. Ela ficou na ponta dos pés, ignorando a sujeira do chão, e aproximou os lábios da orelha de Dante. O hálito dela era frio, cheirando a algo estéril e antigo.

— O que você gosta de fazer, Dante? — ela sussurrou, a voz arrastada, íntima demais, rastejando sob a pele dele.

O corpo de Dante reagiu antes da mente. A memória tátil dos dedos de Rani Scarlune percorrendo seu rosto no arsenal disparou um alarme ensurdecedor de pânico e repulsa.

— Sai!

Dante a empurrou, num reflexo violento, dando um passo largo para o lado. Suas costas bateram contra a parede fria do corredor. A eletricidade vermelha crepitou defensivamente ao redor de seus punhos cerrados, iluminando o corredor com flashes de sangue.

— Não chegue tão perto... — ele rosnou, a respiração descompassada. — Eu não te dei essa liberdade.

Velvet não recuou. Ela riu, um som cristalino e dissonante naquele lugar morto, cobrindo a boca com a mão suja de fuligem. Ela achava a violência dele adorável.

— Você está com vergonha? Que bonitinho.

— Não é vergonha — Dante respondeu, a voz recuperando a frieza de aço, recompondo a máscara trincada. — Eu tenho péssimas memórias de pessoas intrusivas. Mantenha distância.

— Tão chato... — Velvet bufou. Ela voltou a caminhar, as mãos cruzadas nas costas, chutando cacos de vidro temperado como se estivesse num passeio no parque. — Só andar no silêncio é entediante. Se vamos subir juntos, deveríamos conversar. Eu quero saber quem está me salvando.

Dante a observou de esguelha. A postura relaxada, o jeito infantil... era tudo uma performance meticulosa. Mas ele podia usar isso.

— Quer conversar? Tudo bem. Vamos fazer um jogo.

Velvet parou, girando a cabeça lentamente. O interesse aguçou suas feições.

— Um jogo?

— Uma pergunta por uma resposta — propôs Dante, relaxando os ombros. — Eu respondo com honestidade se você fizer o mesmo. Nada de mentiras, nada de "eu não sei".

Os olhos de Velvet brilharam na penumbra. O tédio desapareceu.

— Aceito. Eu começo.

Ela girou nos calcanhares com uma graça sobrenatural, ficando de frente para ele enquanto andava de costas, desafiando a gravidade e o bom senso.

— O que você gosta de fazer?

Dante deu de ombros, mantendo o ritmo.

— Eu gosto de ler.

Velvet parou. Ela fez um "X" com os dedos indicadores na frente da boca, a expressão subitamente séria.

Bzzzt. Errado. Isso não conta. Ler é passivo. Todo mundo diz que gosta de ler quando não quer falar de si mesmo.

Dante estreitou os olhos. Ela era boa.

— Não tem muitas coisas que eu faça por prazer.

Ela deu um passo à frente, invadindo novamente a zona de conforto dele, mas parou milímetros antes que a eletricidade dele reagisse.

— O que você quer dizer com isso? — ela pressionou.

— Eu já respondi — Dante cortou, erguendo um dedo. — Se você quiser outra resposta, ou uma explicação, agora é a minha vez.

Velvet inflou as bochechas, contrariada, mas assentiu. Ela respeitava regras, desde que servissem ao jogo. Dante respirou fundo. O ar tinha gosto de ferrugem. Ele precisava testar o terreno.

— Enquanto eu procurava por você... eu passei por uma sala destruída. Havia tanques quebrados. E fotos. Muitas fotos de garotas idênticas a você.

A temperatura do corredor pareceu despencar dez graus.

Velvet parou de andar. O sorriso infantil não apenas sumiu; ele foi desligado. O rosto dela tornou-se uma máscara de porcelana inexpressiva, vazia de humanidade. Por um segundo, Dante não viu uma criança. Viu um monstro encurralado. A aura que emanava dela não era de medo, mas de uma violência contida, pronta para estraçalhar a jugular dele se ele soubesse demais.

— Eu não quero falar sobre isso — ela disse. A voz não tinha entonação. Era metal morto raspando em metal.

— Então o jogo acaba e eu não respondo mais nada — Dante retrucou, sustentando o olhar, desafiando a besta dentro dela.

Velvet ficou em silêncio por alguns minutos, observando-o.

— Eram peças de reposição — ela soltou a frase com veneno gotejando de cada sílaba. — Cópias.

Dante franziu a testa, a tensão muscular aumentando.

— Peças de reposição? O que você quer dizer com cópias?

— Não é assim que funciona — Velvet cantarolou. O sorriso voltou, mas agora parecia uma ferida aberta, mais afiada, perigosa. — Minha vez. O que você quis dizer com aquilo?

Dante suspirou, o som ecoando pesado no corredor claustrofóbico. Ele voltou a caminhar, o som de suas botas militarizando o silêncio.

— Porque minha vida é uma rotina desenhada por outros. Treinos, missões, descanso... e tudo de novo.

— Por que você faz isso? — Velvet inclinou a cabeça.

— Porque minha Família pede.

— Você os ama?

Dante soltou uma risada seca, curta e carregada de uma ironia dolorosa que arranhou sua garganta.

— Amar? — Ele olhou para o teto onde canos gotejavam um líquido escuro. — Se eu pudesse, nunca mais olharia na cara de nenhum deles. Eu queimaria aquela mansão e riria das cinzas.

Velvet parou, analisando a confissão. Havia verdade ali. Uma verdade escura e purulenta que ela reconhecia em sua própria alma.

— Se é assim... por que você não vai embora? — ela perguntou, uma confusão genuína colorindo sua voz.

— Não é tão simples fugir da Família — Dante respondeu, a voz baixando para um tom sombrio.

— Você já tentou?

— ...Não. É... complicado.

— Então você é um covarde — Velvet constatou com uma franqueza brutal.

Dante sentiu a picada do insulto como um tapa, mas antes que pudesse responder, Velvet continuou, pagando a dívida da pergunta sobre as fotos.

— Acho que é a minha vez de falar. O meu Pai... — a palavra travou na garganta dela, saindo como um caco de vidro engolido à força. — Ele me fez com um propósito. Eu deveria ser uma fábrica. Produzir sangue. O sangue perfeito para curar a "mamãe" e alimentar os vampiros.

Dante parou. As peças do quebra-cabeça se encaixaram com um clique audível e horrível em sua mente. Os boatos sobre o "Sangue B2". A cura milagrosa que parou a guerra em Luvania.

— Sangue artificial... — ele murmurou. — Você é a fonte?

— Eu fui a fonte. Mas eu tenho sentimentos. E sentimentos "sujam" o sangue. — Velvet olhou para as próprias mãos, onde as cicatrizes pálidas de agulhas desenhavam mapas de dor em seus braços. — Eu não servi mais. Então ele precisava de mais. Ele fez as outras. Sem mente. Sem alma. Apenas carne para sangrar.

Ela ergueu os olhos para Dante. Havia uma escuridão abissal naquelas íris amarelas, uma compreensão de mundo que nenhuma criança deveria possuir.

— Você disse que nunca tentou fugir porque é complicado. Isso prova que você não sabe de nada, Dante. Família... — ela cuspiu a palavra no chão sujo. — Família só importa se você os ama e se eles te amam de volta.

A lógica dela possuía uma clareza cirúrgica que ressoou na parte mais fraturada de Dante.

— O cientista chefe... Lucius. Ele é seu pai? — Dante perguntou.

— Sim — Velvet respondeu com um sorriso doce e aterrorizante. — Agora me diga, Dante. Você já amou alguma coisa? De verdade?

Dante abriu a boca para responder, mas a memória veio vazia, um deserto estéril. Ele pensou no anime que havia visto, pensou em fugas momentâneas, mas amor? Amor por uma pessoa? Por algo real e palpável?

— Não — ele disse. O som saiu oco, ecoando na vastidão do laboratório. — Nunca.

Eles caminharam em silêncio por um minuto.

— Onde ele está? — Dante quebrou o silêncio, a voz rouca. — Lucius.

— Eu não faço ideia — ela deu de ombros, e dessa vez a sinceridade parecia real. — Quando tudo desmoronou... quando as cobaias escaparam e começaram a comer os cientistas... ele parou de me visitar. Ele me deixou trancada no escuro para morrer de fome.

Dante parou de andar. A frustração transbordou, quebrando sua postura rígida. Ele se virou para ela.

— Por que você faz isso?

— O quê?

— Fingir que é boba. Fingir que é uma criança perdida. — Dante apontou o dedo para ela, seus olhos heterocromáticos perfurando a fachada dela. — Eu já percebi. Você é inteligente. Você analisa cada palavra que eu digo. Você manipulou essa conversa inteira. Por que fingir essa inocência então?

Velvet parou. Ela descruzou os braços lentamente. A transformação foi sutil, mas absoluta. A coluna ereta, o queixo erguido. O sorriso desapareceu.

Ela deu um passo à frente, encarando-o de igual para igual, a despeito da diferença de altura.

— E você? — ela rebateu, a voz afiada como um bisturi, dissecando-o vivo. — Por que você fica fingindo esse sorriso? Por que faz essas piadinhas forçadas e age como se nada te atingisse?

Dante travou. A máscara falhou. Por um segundo, a exaustão e o horror transpareceram, crus e vulneráveis.

— Não é assim que se joga... — ele murmurou, defensivo, recuando um passo.

— Parece que chegamos a um impasse — Velvet constatou, fria.

Ela apontou para a escuridão à frente. Diante deles, saindo das sombras como a garganta de uma besta gigante, erguia-se a escadaria de acesso ao nível superior.

Parte 8 

A escadaria metálica gemia sob o peso dos dois, um lamento de ferro oxidado que ecoava na escuridão abissal. Dante alcançou o topo primeiro, seus olhos varrendo o perímetro do andar superior. A iluminação ali era uma tortura visual; lâmpadas estroboscópicas agonizavam, piscando em intervalos irregulares que transformavam o movimento em uma série de quadros desconexos.

Ele notou a armadilha tarde demais. A grade do último degrau não estava apenas torta; estava liquefeita, corroída pelo ácido de alguma abominação morta ali.

— Cuidado, o degrau... — Dante começou, girando o tronco.

A física foi cruel. Velvet, colada a ele como uma sombra faminta, pisou exatamente na ferida do metal. O aço cedeu com um guincho agudo e repugnante. O pé dela afundou no vazio, o corpo pequeno pendendo violentamente para trás, para a boca escura de uma queda de dez metros.

Dante não pensou.

Ele avançou, os dedos fechando-se como garras ao redor do pulso fino da garota. Ele puxou, usando a alavanca do próprio corpo, mas a inércia era implacável. O tranco foi brutal. Velvet foi catapultada contra o peito dele, e o impacto desestabilizou o eixo de Dante.

Ambos colapsaram no chão do patamar superior.

O ar foi expulso dos pulmões de Dante quando suas costas encontraram o metal frio. Velvet aterrissou sobre ele, um emaranhado de membros e tecido sujo, as mãos pequenas espalmadas no peito dele para amortecer a queda.

O mundo parou.

Eles congelaram. O rosto de Velvet pairava a centímetros do dele. Naquela proximidade, Dante podia mapear as minúsculas imperfeições douradas na íris amarela dela, nebulosas flutuando em um mar de icterícia. Ele sentia a respiração dela, quente e úmida, misturando-se à dele.

O alarme interno de Dante gritou. Contato. Invasão. Rani.

Ele contraiu os músculos, esperando o nojo. Esperava a sensação oleosa, violadora, que sentia quando a pele de Rani roçava a sua. Mas... a náusea não veio.

O cheiro de Velvet invadiu suas defesas. Não havia odor estéril de formol, nem a podridão de sangue coagulado, muito menos o perfume doce e tóxico de Rani. Ela cheirava a algo... nostálgico. Poeira antiga e açúcar queimado. Uma dissonância olfativa completa naquele inferno séptico.

O coração de Dante, já martelando pelo susto, trovejou contra as costelas. Tump-tump. Tump-tump. Ele não a empurrou. Por três segundos eternos, ele ficou paralisado, não pelo medo, mas por uma confusão sensorial absoluta.

Velvet observou as pupilas dele dilatarem, engolindo a cor dos olhos. Ela sentiu a hesitação sob as palmas de suas mãos. Um sorriso lento, felino e perturbadoramente calmo, curvou seus lábios.

— Olha só... — ela sussurrou, a vibração da voz dela ressoando diretamente na caixa torácica dele. — Dessa vez não fui eu quem invadiu o seu espaço.

O feitiço se estilhaçou. A vergonha e o pânico inundaram o sistema nervoso de Dante como água gelada.

— Sai!

Ele a empurrou, usando força excessiva, e rastejou para trás até suas costas baterem contra a parede fria. Ele puxou o ar com violência, a mão indo instintivamente ao peito, como se verificasse se seu coração ainda estava protegido atrás das costelas.

— Pare de brincar comigo! — ele rosnou. O rosto queimava, a máscara de frieza trincada, expondo o garoto assustado por baixo.

Velvet se levantou com uma graça predatória, limpando a poeira da camisola imunda com movimentos delicados. Ela não parecia ofendida; parecia alegre.

— Você ficou perdido... — ela cantarolou, inclinando a cabeça como um pássaro curioso. — Se você quiser, pode me puxar de novo. Eu não me importo.

— Fica quieta.

Dante se ergueu, furioso com a própria vulnerabilidade. Ao apoiar a mão na parede para pegar impulso, uma dor aguda picou sua palma.

Tsk...

Ele girou a mão. Um prego enferrujado havia perfurado a carne. Um fio grosso de sangue vermelho-escuro brotou. Ele esperou. Normalmente a ferida cicatrizaria rapidamente. Mas nada aconteceu. O sangue continuou a escorrer, lento, quente e real.

"Estou no limite", Dante percebeu com um calafrio. O estômago roncou, não de fome, mas de dor. "Sem comida. Sem descanso. O Ether está acabando."

Ele fechou o punho com força, escondendo a fraqueza, e seguiu em frente.

O corredor desembocava em uma antiga área de triagem, um labirinto de macas viradas. Foi quando o som ecoou. Clack-clack-clack. Unhas de osso batendo contra o metal.

Uma quimera emergiu da penumbra oleosa. Era diferente da anterior; uma obscenidade biológica, uma massa de carne onde múltiplos membros humanos haviam sido fundidos de forma caótica, movendo-se com a coordenação espasmódica de uma aranha gigante.

Grrraaaa!

A criatura avançou. Dante entrou em base de combate, mas suas pernas tremeram. Ele estava lento. Pesado. A quimera atacou, um borrão de dentes e fúria. Dante bloqueou com o antebraço, mas seus músculos não tinham combustível para repelir a massa muscular da besta. As mandíbulas fecharam em seu braço esquerdo.

— Argh!

A dor foi branca e cegante. Dentes serrilhados rasgaram o tecido reforçado da jaqueta e encontraram a carne. Dante gritou, chutando o focinho da besta com desespero, libertando-se e recuando cambaleante. O sangue agora escorria de dois lugares, pingando no chão em um ritmo macabro.

"Não posso usar minha habilidade", a mente dele calculou freneticamente, lutando contra o choque da dor.

Ele olhou para Velvet. Ela estava parada, observando, imóvel como uma estátua de cemitério. Ele não podia lutar. Ele tinha que caçar.

Dante correu até ela, passando o braço bom pela cintura da garota e arrancando-a do chão como se ela não pesasse nada.

— Segura!

— O quê? Por que você não mata ele?! — Velvet gritou, a confusão quebrando sua fachada enquanto se agarrava ao pescoço dele. Dante disparou pelo corredor. — Você é forte! Quebra ele!

— Cala a boca! Deixa comigo! — Dante ofegou. O suor frio misturava-se ao sangue em seu rosto.

Ele corria, ouvindo o som úmido das garras da quimera rasgando o metal atrás deles. Ele precisava de um cenário. Precisava de uma vantagem. Seus olhos varreram o corredor em alta velocidade. Ali. Uma viga de sustentação exposta, atravessada na horizontal a meia altura, camuflada pela sombra densa de uma parede demolida. Parecia uma lança gigante, paciente, esperando por uma vítima.

Dante freou abruptamente, as botas derrapando no lodo, girando para enfrentar o pesadelo que vinha em seu encalço. Ele ainda segurava Velvet no colo. Podia sentir o coração dela disparado contra o seu peito.

— O que você está fazendo?! — ela sussurrou, o medo genuíno finalmente surgindo.

— Elas são atraídas por Ether... não são? — Dante murmurou. Um sorriso tenso, perigoso e suicida, repuxou o canto de sua boca.

Ele fechou os olhos por uma fração de segundo e inverteu o fluxo. Em vez de suprimir o Ether para se esconder, ele o liberou. Uma onda de energia doce, magnética e irresistível explodiu de seu corpo, transformando-o em um farol de carne fresca.

A quimera rugiu, o instinto predador superestimulado pela presa, e dobrou a velocidade. Ela saltou. Uma massa de morte voando pelo ar, garras estendidas, mirando a jugular pulsante de Dante.

Velvet fechou os olhos e enterrou o rosto no pescoço dele, esperando o impacto final.

Dante não se moveu. Ele esperou. Esperou até sentir o deslocamento de ar comprimido pelo corpo da besta. Esperou até sentir o cheiro de podridão que emanava da bocarra aberta. Seu coração disparou. Tump-tump-tump. Não de medo. De adrenalina pura. De êxtase tático.

No último milésimo de segundo, ele deslizou de joelhos pelo chão liso e imundo, com Velvet protegida em seu peito.

CRAAAACK!

A quimera, cega pela fome e drogada pelo cheiro do Ether, não viu a armadilha. A inércia fez o trabalho sujo. A besta colidiu com a ponta irregular da viga de metal a toda velocidade. O som de carne sendo perfurada, costelas estalando e órgãos se rompendo foi nauseante e definitivo. O monstro ficou empalado, suspenso no ar, debatendo-se e gorgolejando sangue negro por alguns segundos antes de silenciar.

Dante parou de deslizar metros depois. A poeira baixou lentamente. Ele estava ofegante, sangrando, sujo... e sorrindo. Um sorriso selvagem, quase maníaco, iluminava seu rosto na penumbra.

— Está tudo bem... — ele disse, a voz rouca, soltando Velvet e colocando-a no chão com mãos trêmulas.

Velvet abriu os olhos. Ela olhou para a quimera morta, pendurada como um troféu grotesco. Depois, ela se virou lentamente para Dante. Os olhos amarelos brilhavam na escuridão. Não era gratidão. Era fascínio.

— Isso foi... incrível — ela sussurrou.

— É... eu sou rápido — Dante disse, tentando recompor a postura, limpando o sangue do braço mordido, mas falhando em esconder a trepidação em suas mãos. — O treinamento serve pra isso. A gente se acostuma a desviar...

— Não. — Velvet o cortou. Ela deu um passo em direção a ele, ignorando o cadáver pingando sangue atrás dela. — Não foi a velocidade.

Ela parou na frente dele, olhando para cima, dissecando a alma dele com precisão cirúrgica.

— Foi o jeito que você se divertiu, Dante.

Dante franziu a testa, o sorriso desaparecendo instantaneamente.

— Do que você está falando?

— Eu estava no seu colo — ela disse, tocando o centro do peito dele com um dedo pálido. — Eu ouvi. Seu coração não acelerou de medo quando você atraiu o bicho. Ele acelerou de ansiedade. De expectativa.

Ela sorriu.

— Você estava adorando. Enquanto você corria, enquanto você calculava a morte dele... você estava sorrindo, Dante. Não aquele sorriso falso de plástico que você usa pra falar. Um sorriso de verdade. Você gosta disso. Você gosta de caçar.

Dante sentiu um frio no estômago. A acusação dela tocou em algo podre que ele mantinha trancado a sete chaves no fundo da mente.

— Você está falando bobagem — ele retrucou, ríspido, virando o rosto para evitar aqueles olhos. — Eu não faço isso porque gosto. Eu faço porque preciso. Porque se eu não matar, eu morro.

— Mentiroso.

Velvet sussurrou a palavra, arrastada, bem perto do rosto dele.

— Eu só não sei se você está mentindo para mim... ou para você mesmo.

Dante olhou para ela com ódio repentino. Ele queria gritar, queria negar, mas as palavras morreram na garganta seca. Ele olhou para a quimera empalada, o sangue negro formando uma poça. "Eu gostei?" A dúvida era um veneno de ação lenta.

Ele cerrou o punho ferido, sentindo a dor aguda ancorá-lo à realidade, impedindo-o de flutuar para a loucura.

— Chega de papo furado — Dante rosnou, passando por ela com ombros tensos. — Vamos embora antes que apareça outro.

Velvet ficou parada por um segundo, observando a silhueta dele se afastar na escuridão.

— Vamos... meu caçador — ela sussurrou para si mesma, satisfeita, antes de correr para alcançá-lo.

Parte 9

A caminhada se arrastou por horas que sangravam como dias. O laboratório não tinha fim; era um intestino infinito de metal oxidado e concreto úmido, digerindo-os lentamente em seu ventre escuro.

Dante estava no limite. A regeneração, aquele milagre genético que ele sempre tomou como garantido, falhou. O sangue continuava a minar do braço mordido, quente e viscoso, ensopando a manga da jaqueta até o punho. Com as mãos trêmulas, ele rasgou uma tira do tecido com os dentes, apertando um torniquete improvisado com força bruta. Ele tentou forçar o Ether para a ferida, buscando uma cauterização interna, mas sua reserva era um poço seco e árido. A tentativa apenas fez sua visão turvar, o mundo pontilhado por manchas negras de necrose visual.

Ele olhou para Velvet de esguelha. Ela observava o ambiente, girando a cabeça para cada cano que estalava ou sombra que se movia, com a curiosidade mórbida de uma criança que visita um museu, e não um matadouro. "Ela sabe onde estamos? Ela está mentindo?" A dúvida pesava mais que o equipamento em suas costas.

— Vamos parar — Dante decretou, a voz saindo como lixa. — Preciso descansar. E comer... se tivéssemos o que comer.

Ele encontrou uma sala de armazenamento vazia, afastada das artérias principais do complexo. Fechou a porta pesada manualmente, travando-a com um clank definitivo. O lugar era frio, cheirava a poeira estéril e abandono, mas era, por enquanto, um santuário.

Dante deslizou as costas pela parede até o chão, sentindo cada músculo gritar em protesto. Velvet parou na frente dele, olhando de cima, a silhueta recortada contra a penumbra.

— Você parece péssimo, Dante.

— Obrigado pelo diagnóstico — ele resmungou, fechando os olhos para bloquear a dor.

— Se quiser... — a voz dela flutuou até ele, suave. Ela se sentou no chão, a saia da camisola se espalhando como pétalas sujas, e bateu levemente nas próprias coxas magras. — Pode usar meu colo.

Dante abriu um olho, encarando-a. A oferta parecia inocente, maternal até, mas o instinto dele, afiado, gritou.

— Não. Suas pernas vão ficar dormentes. Se precisarmos correr, você vai ser um peso morto.

— Eu não ligo — ela disse, dando de ombros com indiferença.

— Mas eu ligo. E já disse... — ele se arrastou alguns centímetros para o lado, demarcando território como um animal ferido. — Não quero você muito perto. Eu tenho sono leve. Se você tentar qualquer coisa, se chegar perto... eu acordo e quebro seu braço antes de perceber que é você.

Velvet sorriu. Foi um sorriso enigmático, quase divertido, como se ele tivesse contado uma piada interna.

— Que irônico. Eu sou o oposto. Quando eu durmo, eu apago. O teto poderia cair, um terremoto poderia abrir o chão, e eu continuaria sonhando. Sou uma pedra, Dante.

Dante franziu a testa. Não tinha energia para decifrar enigmas ou metáforas.

— Tanto faz. Só... fique aí.

Ele se virou de lado, de frente para ela, mantendo a distância de segurança. Sua mão direita repousava. Ele observou Velvet se encolher no canto oposto, abraçando os joelhos, pequena e frágil. "Quanto tempo faz? Onde estão Nero e os outros? Será que já completaram a missão e me deixaram para trás?" Os pensamentos giravam em uma espiral de paranoia tóxica até que a exaustão venceu. A escuridão o engoliu. Dante apagou.

Quando ele abriu os olhos novamente, o silêncio era absoluto e pesado.

O descanso, embora breve, havia ajudado. A tontura diminuíra, mas a fome voltara com uma vingança predatória, um buraco ácido corroendo as paredes de seu estômago. Dante se sentou, as articulações estalando. Era impossível saber as horas.

Ele olhou para o canto. Velvet estava dormindo. A cabeça dela pendia para o lado, o pescoço exposto, a respiração suave e rítmica. Ela parecia... inofensiva. Uma boneca quebrada deixada na prateleira.

Dante se levantou devagar, aproximando-se sem fazer som, os movimentos fluidos de um assassino.

— "Pedra", hein? — ele sussurrou, estalando a língua. — Podia ter dito só que estava cansada.

Ele ficou ali, parado, observando-a de cima. A mente analítica de Dante começou a dissecar o que ela era. "Lucius a criou. Homúnculos são proibidos. A Rosa Cruz executaria qualquer um que tentasse brincar de Deus dessa forma... Será que a Família sabia?" A dúvida gelou seu sangue. "Será que os Scarlunes nos mandaram aqui para limpar a bagunça de um aliado? Ou para roubar a tecnologia?"

Ele focou no rosto dela. Relaxada, sem aquele sorriso calculista ou o olhar vazio, ela era... bonita. Parecia apenas uma garota. Uma garota que ele deveria ter matado, mas salvou. A memória do toque dela na escada voltou, elétrica. Ele olhou para a própria mão. Quando Rani o tocava, ele sentia vontade de arrancar a própria pele com lixa. Mas com Velvet... não houve nojo.

Movido por uma curiosidade perigosa, quase científica, ele estendeu a mão nua. "É real? Ou eu estava apenas em choque?"

Ele tocou a bochecha dela com a ponta dos dedos. A pele era macia. Quente. Havia vida ali, pulsando sob a epiderme pálida. Não era fria como a de um cadáver, nem sintética como o plástico dos manequins de treino. Era assustadoramente humana. Dante sentiu um arrepio estranho percorrer sua espinha, mas não era repulsa. Seus dedos, traindo sua vontade racional, deslizaram da bochecha para o queixo, e então roçaram o lábio inferior dela.

De repente, a realidade o atingiu. "O que estou fazendo?" A vergonha queimou seu rosto. Ele tentou recolher a mão rapidamente.

Mas a mão de Velvet foi mais rápida.

Os dedos dela fecharam-se em torno do pulso dele com a velocidade de uma cobra dando o bote. A força era surpreendente. Os olhos amarelos se abriram instantaneamente. Não havia sono neles. Não havia o borrão de quem acaba de acordar. Havia apenas uma clareza vítrea e predatória.

— Desde quando...? — Dante engasgou, o coração falhando uma batida.

— Isso não importa — Velvet sussurrou. A voz dela não estava rouca. Ela estava acordada o tempo todo. — Se você quiser me tocar, Dante... faça direito.

Ela puxou a mão dele com força. Dante, pego no contrapé físico e psicológico, deixou-se levar. Ela pressionou a palma da mão dele contra a própria bochecha. Ela fechou os olhos e esfregou o rosto contra a pele calosa dele, um movimento lento, possessivo e felino, como um animal marcando seu dono.

Dante sentiu o rosto esquentar violentamente. Havia algo de terrivelmente íntimo, errado e magnético naquilo.

Velvet abriu os olhos novamente. O olhar "fofo" desapareceu completamente. O que restou foi uma intensidade sombria, adulta e faminta.

— Por que você se segura tanto? — ela murmurou, os lábios roçando na palma dele enquanto falava. Ela deslizou a mão dele para baixo, guiando-o. — Se for comigo... você não precisa fingir. Você pode fazer o que gosta.

Ela parou a mão de Dante em seu próprio pescoço. Ela apertou os dedos longos dele sobre sua traqueia, sobre a veia jugular que batia freneticamente contra a pele fina.

— Sente isso? — ela sussurrou, as pupilas dilatadas engolindo o amarelo. — É frágil. Você gosta de coisas frágeis? Não precisa ter medo de quebrar.

Dante sentiu o pulso dela sob seus dedos. Tump-tump-tump. A vida dela estava literalmente na palma de sua mão. Um aperto... apenas uma contração muscular e acabaria. A sensação foi elétrica. Embriagante. Aterrorizante.

— PARA!

Dante puxou a mão como se tivesse tocado em uma brasa viva. Ele saltou para trás, as costas colidindo com a parede oposta, a respiração saindo em arfadas curtas e desesperadas.

— Para de brincadeira! — ele gritou, a voz falhando, oscilando entre a raiva e o pânico. — Que merda é essa?

Velvet se levantou lentamente, alisando o vestido sujo com uma calma perturbadora. Ela não parecia abalada pela rejeição violenta. Pelo contrário, ela parecia decepcionada, como uma professora vendo um aluno falhar em um teste simples.

— Eu não estava brincando, Dante. Você precisa parar de se inibir. Por que você tem tanto medo do que você é?

— O que você fala não é normal! Não faz sentido! — Dante retrucou, apontando o dedo trêmulo para ela, tentando colocar uma barreira moral entre os dois. — Eu não gosto de caçar! Eu não gosto de matar! E eu definitivamente não gosto disso!

Velvet o encarou em silêncio por um longo momento. O olhar dela perfurava, dissecava e julgava. Dizia claramente, sem precisar de som: Mentiroso.

Dante desviou o olhar, incapaz de sustentar aquele peso. Ele pegou sua jaqueta no chão com movimentos bruscos.

— Acabou o descanso. Vamos voltar a subir.

Ele destrancou a porta com violência e saiu para o corredor, fugindo não do laboratório, mas da temperatura da pele dela que ainda queimava fantasmagoricamente na ponta de seus dedos.

Velvet suspirou na sala vazia, um som pequeno e teatral.

— Tão teimoso... — ela murmurou, um sorriso torto surgindo nos lábios enquanto olhava para o vazio onde ele estava.

Ela correu atrás dele. Eles voltaram a caminhar pela escuridão, mas a dinâmica havia mudado irreversivelmente. A barreira física foi quebrada, e Dante sabia, com um pavor crescente que revirava suas entranhas, que ela estava certa sobre uma coisa: ele não tinha sentido nojo. Nem por um segundo..

Parte 10

O andar superior revelou-se um ossuário de arquitetura moderna. Corredores estéreis se desdobravam em salas com grades reforçadas e vidros blindados, uma prisão de alta segurança desenhada não para criminosos, mas para cobaias valiosas.

Velvet parou, girando sobre os calcanhares. Seus olhos amarelos varreram o local com um brilho de reconhecimento fugaz. Ela sabia onde estava. O corpo dela relaxou. Dante, por outro lado, tornou-se puro nervo e tensão. Caminhava um pouco à frente, eriçado como um gato de rua em território inimigo. Sempre que a sombra dela roçava a dele, ele recuava dois passos, instintivo.

Velvet parou abruptamente, cruzando os braços e fazendo um bico exagerado.

— Você não precisa agir assim, sabia? — ela reclamou, a voz manhosa ecoando no silêncio metálico.

— Depois do que você fez lá embaixo? — Dante retrucou por cima do ombro, os dentes apertando a tira do torniquete em seu braço sangrento. — Eu acho a minha reação bem normal.

Hmmpf. Assim eu fico magoada — ela suspirou, teatral, levando a mão ao peito. Então, sua postura mudou. Ela apontou para a escuridão de um corredor à esquerda. — Olha, deve ter uma escada por aqui que leva direto para os andares superiores. O laboratório é confuso, mas eu lembro de uma porta azul. Do tipo "vaivém", sem tranca.

Ela o encarou, os olhos grandes e pidões brilhando na penumbra.

— Como você está... sensível agora, talvez seja melhor a gente se separar para cobrir mais terreno. Eu vou pela esquerda. Você vai pela direita.

Dante parou. A proposta era taticamente estúpida — dividir forças em terreno hostil era suicídio —, mas a proximidade física dela estava nublando seu julgamento, confundindo seus sensores de perigo.

— Certo. Eu vou pela direita. Se achar algo, grite.

Ele começou a andar, mas travou após o terceiro passo. A paranoia, sua velha amiga, sussurrou em seu ouvido. E se tiverem quimeras? Ela não tem armas. Ela é frágil.

Ele se virou bruscamente.

— Ei...

Velvet já estava virada para ele, esperando exatamente por isso. Um sorriso vitorioso brincava nos cantos de seus lábios.

— Ah, já entendi! — ela juntou as mãos, encantada, inclinando o corpo para frente. — Vai ficar com saudades se a gente se separar? Quer que eu vá com você para segurar sua mão?

— Sonha! — Dante gritou. O rosto dele queimou instantaneamente, uma chama de vergonha e irritação. — Eu só ia dizer... para não vir atrás de mim depois tentar me pegar de surpresa! Só isso!

Ele girou nos calcanhares, furioso consigo mesmo, e marchou para a direita, pisando duro. Atrás dele, Velvet fez uma careta fofa para as costas dele e sussurrou um "Buuu..." divertido. No segundo em que ele dobrou a esquina, a expressão dela mudou. A brincadeira evaporou.

Dante caminhava pelos corredores, chutando detritos de vidro e metal. Ele tentava focar na missão, varrendo as paredes em busca da maldita porta azul, mas sua mente traidora continuava rebobinando a cena na sala de descanso. A sensação da mão dele no rosto dela. O calor da pele. A maciez. O pulso batendo sob seus dedos.

— "Você gosta disso. Você gosta de caçar." — A frase dela voltava à sua cabeça.

Ele sacudiu a cabeça violentamente. Chega! Concentra!

Ele forçou seu cérebro a analisar a situação friamente. "Ela disse que não sabia o caminho, mas agora 'lembrou' da porta azul. Ela conhece o lugar, mas diz que as reformas a deixaram confusa." Havia um buraco na história. Um abismo lógico. Como ela sobreviveu esse tempo todo? Ela não tinha armas. Não demonstrou nenhuma habilidade de combate. Se o lugar estava infestado de monstros... como ela se alimentou? Como ela escapou da cela, para começo de conversa?

A conclusão caiu sobre ele não como um balde de água fria, mas como o peso de uma lápide. Ela está escondendo algo. Algo grande.

A irritação de Dante cresceu, misturada a um medo que ele não admitia. Ele estava arriscando a vida por alguém que falava em charadas.

— Esquece — ele rosnou para o corredor vazio, sua voz ecoando solitária. — Chega de jogos. Eu vou voltar lá e ela vai começar a ser honesta. Ou isso não vai funcionar.

Ele deu meia-volta, decidido a confrontá-la. Foi quando o grito rasgou o ar, estilhaçando o silêncio.

— AAAAAHHHH! DANTE!

Não foi um grito teatral. Foi um som agudo, cru, de terror puro. O sangue de Dante gelou nas veias. Quimera. Ele correu. Ignorando a dor lancinante no braço, ignorando a exaustão que pesava toneladas em seus ossos. Ele passou por uma caixa de emergência na parede. Sem Éter. Preciso de algo. Agora.

CRAAAASH!

Ele quebrou o vidro com o cotovelo, sem sentir os cortes, e arrancou um machado de incêndio de cabo vermelho. A arma era pesada, bruta, primitiva. Perfeita. Ele disparou na direção do grito, transformando-se em um borrão de velocidade.

Minutos antes, no corredor da esquerda.

Velvet não estava procurando uma porta azul. Ela procurava uma porta específica, marcada com arranhões profundos na base de metal. Ela a encontrou. Havia um cano de aço atravessado na maçaneta, uma barricada improvisada pelo lado de fora. Alguém havia trancado algo lá dentro para morrer de fome.

Velvet chutou o cano. Uma, duas vezes. O metal caiu com um clangor seco no chão. A porta se abriu rangendo.

O cheiro lá dentro era uma parede física de horrores. Escuridão, fezes antigas, suor ranceoso e medo destilado. No canto da sala, encolhido atrás de uma mesa virada como um animal acuado, estava um homem. Ele usava os farrapos do uniforme da segurança, imundo, coberto de crostas de sangue seco que não parecia ser dele. Seus olhos estavam vidrados, girando loucamente em órbitas profundas e escuras.

Ele ouviu o barulho e levantou a cabeça. Ao ver a silhueta pequena e prateada na porta, recortada pela luz do corredor, ele começou a chorar.

Velv-chan...?

Ele se levantou, trêmulo, as pernas falhando enquanto tropeçava em direção a ela.

— Eu sabia... eu sabia que você voltaria! — ele riu, um som gorgolejante, quebrado e insano. — Você não iria me abandonar... Você me ama, Velv!

Velvet não sorriu. Ela permaneceu parada na soleira, observando-o com a frieza de um cientista observando uma cultura de bactérias. Ela começou a recuar para o corredor, passo a passo, calculada.

O guarda a seguiu, as mãos estendidas como garras suplicantes, tateando o ar.

— Por que... por que você está se afastando, Velv? Você veio por mim, não veio? Para a gente brincar? Se você for uma boa garota... eu prometo que esqueço que você me trancou aqui. Eu perdoo! Eu perdoo tudo!

— Eu não vou brincar com você — Velvet disse. A voz dela era calma, desprovida de qualquer empatia ou humanidade.

O rosto do guarda se contorceu. A adoração derreteu, revelando um ódio purulento em um milésimo de segundo.

— CALA A BOCA! CALA A BOCA! CALA A BOCA!

Ele avançou, encurralando-a no corredor estreito.

— Sua vadia maldita! Você sabe o que eu fiz?! Eu envenenei meu chefe! Eu injetei aquilo no Doutor Lucius porque você pediu! Só para te tirar daquela cela! Só porque você disse que me amava!

Velvet inclinou a cabeça, entediada com o drama.

— Eu não disse que te amava. Eu disse que podia brincar com você se abrisse a porta.

— É A MESMA COISA! — ele gritou, espumando, veias saltando no pescoço. — Eu senti! Eu sei que você me amava! Assim como eu te amo!

— Sim... — Velvet admitiu, cruel, os olhos brilhando com malícia. — Eu sabia que você me amava. Mas eu não te amava. Então eu te usei enquanto você tinha utilidade.

— NÃO É ESSA! — O guarda agarrou a própria cabeça, puxando os cabelos em tufos. — Você não é a minha Velvet! Minha Velvet não é essa puta fria!

— Você queria brincar com uma boneca... — Velvet sussurrou, dando um passo à frente. — Queria usar a Velvet. Por isso eu aceitei seu "amor". Para escapar. Mas eu não preciso mais do seu amor sujo.

Ela sorriu. Um sorriso radiante que fez o guarda recuar, assombrado.

— Eu achei alguém que eu amo de verdade. E essa pessoa não pode ser você.

O guarda travou. O ciúme distorceu suas feições, tornando-o mais monstruoso que as quimeras que vagavam nos andares inferiores.

— Ama...? — ele rosnou, a voz baixa e perigosa. — Sua idiota. Ele vai te usar! Vai te usar e te descartar que nem seu pai fez! Como todos fizeram! Acha mesmo que alguém normal pode amar um monstro como você?!

O sorriso de Velvet se alargou. Suas bochechas coraram de verdade, um rubor de excitação genuína.

— Ele pode... — ela sussurrou, extasiada, as mãos tocando o próprio rosto. — Ele tem um monstro dentro dele também. Igual à Velvet. E quando ele aceitar isso... poderemos ficar juntos pra sempre.

Aquilo foi o estopim. O guarda rugiu, pegando um pedaço de madeira afiado do chão e avançando. Velvet não correu. Ela pegou uma lasca de metal do chão com um movimento fluido e arremessou. O projétil cortou a bochecha dele, abrindo um talho que jorrou sangue. Ele caiu, mas a dor só alimentou a loucura. Ele se levantou imediatamente, cego de fúria.

— SE VOCÊ NÃO QUER SER MINHA, EU VOU TE FORÇAR A ACEITAR!

Ele correu para ela, uma massa de violência desgovernada. Velvet sorriu. Ela ficou parada, braços abertos.

— Obrigada... — ela sussurrou para ele. — Você vai ser útil mais uma vez.

Ela permitiu o impacto. O guarda colidiu com ela, o peso dele esmagando o ar dos pulmões dela. Ele agarrou os cabelos prateados com violência e a jogou no chão. Velvet bateu as costas no concreto duro. A dor foi real. O ardor nos pulmões foi real. Mas o medo no rosto dela foi uma obra de arte.

— DANTE! SOCORRO! — ela gritou, a voz estridente de uma menina indefesa sendo estraçalhada.

Ela se arrastou pelo chão, arranhando o concreto, enquanto o homem puxava suas roupas, rasgando o tecido. Ela gritou novamente, projetando a voz para o corredor onde sabia que ele viria.

— AAAAAHHHH! DANTE!

Dante virou a esquina derrapando. A cena atingiu seus olhos como um flash de horror absoluto. Velvet no chão, chorando, estendendo a mão trêmula para ele. E um homem, um adulto, montado sobre ela, puxando seus cabelos, violando seu espaço, prestes a destruí-la.

— DANTE!

O tempo parou para o garoto. A imagem do guarda se sobrepôs ao barulho de seus pensamentos. A voz do herói de anime que ele tentava imitar, gritando sobre amizade, justiça e salvação, ecoou em sua mente... e então foi silenciada pelo som de algo se quebrando, irreparável, dentro de seu peito.

"Entendi..." A revelação foi calma. Gélida. "Eu não sou ele. Eu não sou um herói. Eu não sou um salvador."

Lágrimas quentes transbordaram dos olhos heterocromáticos de Dante, escorrendo por suas bochechas sujas. Ele chorava... mas não porque algo havia acontecido com Velvet. Não porque a visão o deixou estático ou paralisado de medo. Pelo contrário. Ele chorava porque sentiu o alívio.

O momento durou frações de segundo. Quando o guarda percebeu a presença, já era tarde demais. Em um rápido clarão carmesim, sem hesitação, sem pensamento consciente, a humanidade de Dante havia desaparecido. O homem mal teve tempo de se virar. Ele viu apenas o brilho vermelho sobrenatural do olho direito de Dante e o reflexo prateado do machado de incêndio descendo num arco perfeito.

SHLACK!

Não houve negociação. Não houve aviso. A lâmina pesada do machado enterrou-se na lateral do pescoço do guarda, atravessando carne, tendões, osso e traqueia com uma violência brutal e definitiva. O som foi úmido e final. O sangue jorrou em um gêiser quente e espesso, pintando as paredes, o chão e banhando o rosto de Velvet, que estava logo abaixo, como um batismo profano.

A cabeça do guarda pendeu, presa apenas por um fio grotesco de pele, antes de o corpo desabar, pesado e inerte, ao lado da garota.

Dante ficou parado, ofegante, o machado pingando ritmicamente em sua mão. Ploc. Ploc. Ploc. As lágrimas ainda caíam silenciosas de seus olhos, mas seu coração... Seu coração batia aceleradamente contra as costelas. Tump-tump. Tump-tump. Mas aquela batida estava longe de ser ansiedade ou medo. Enquanto o sangue esfriava em suas roupas, sua mente estava num estado de calma zen, um foco absoluto e cristalino. Nem ele podia mais negar...

"Você gosta disso. Você gosta de caçar."

A verdade que pulsava em suas veias. Só havia um motivo para aquele batimento acelerado. Prazer.

"VOCÊ GOSTA DISSO..."

Velvet, coberta de sangue alheio, olhou para cima. Ela olhou para o seu "Príncipe" banhado em violência, chorando enquanto segurava a arma do crime. E ela sorriu. Um sorriso genuíno, apaixonado e terrível.

"Eu sabia... você só nunca percebeu. Mas sempre que você caça e mata, um sorriso aparece no seu rosto, Dante..."

"...VOCÊ GOSTA DE CAÇAR."

Parte 11

Enquanto a caminhada de Dante prosseguia nos andares de baixo, nos níveis superiores, o ar estava estagnado, pesado como chumbo derretido.

O grupo restante — Sanemi, Nero, Saito e Lin — movia-se através dos destroços do que um dia fora uma sala de experimentos. O local parecia ter sido mastigado de dentro para fora por uma mandíbula gigante. Tubos de vidro estilhaçados cobriam o chão como uma neve cortante e brilhante, rangendo sob as botas, enquanto manchas antigas de fluidos químicos haviam corroído o metal das bancadas até expor a estrutura óssea do prédio.

Sanemi liderava a marcha, uma tempestade contida em forma humana. Ele chutava os escombros com uma violência desnecessária, cada impacto ecoando sua frustração. Sua carranca permanente havia se aprofundado em um abismo de tensão, e os nós dos dedos estavam brancos, quase rasgando a pele, de tanto apertar o cabo da espada.

Nero, observando-o com seus olhos grandes, líquidos e inteligentes, soltou um suspiro que mal agitou o pó no ar.

— Não adianta ficar com essa cara fechada, Sanemi. Ficar consumido de preocupação com o Dante agora não vai fazê-lo levitar magicamente por aquele buraco.

Sanemi parou. Ele girou o corpo bruscamente, o movimento chicoteando o ar.

Hah? Quem disse que eu estou preocupado com aquele idiota sorridente?

— Você — Nero respondeu, a voz calma, cirúrgica, dissecando-o. — Você sempre implica com ele. Grita, xinga, ameaça quebrar os ossos dele. Mas quando ele se machuca nos treinos... quem é o primeiro a ficar plantado na porta da enfermaria, de braços cruzados, fingindo que está "só passando"?

Lin, que caminhava encolhida na sombra de Nero, abraçada ao kit médico como se fosse um escudo, assentiu timidamente.

— É verdade, Sanemi... quando o Raikou gritou com o Dante semana passada, eu vi. Você rosnou. Quase mordeu o instrutor.

— CALEM A BOCA!

A explosão de Sanemi fez a poeira vibrar. O rosto dele tingiu-se de um vermelho violento, uma mistura de raiva vulcânica e vergonha exposta.

— Vocês estão delirando!

Nero ignorou o surto, implacável como uma lâmina fria.

— Não se preocupe. O Dante não leva a sério o que você diz. Ele sabe que é só barulho. Ele provavelmente não deve estar pensando nos seus insultos agora.

Aquilo foi o golpe final. A facada no ego.

— TÁ TIRANDO COM A MINHA CARA?! — Sanemi gritou, a veia da testa pulsando perigosamente. — ISSO É AINDA PIOR! Ele me ignorar é pior do que ele me odiar! Aquele bastardo arrogante... quando eu colocar as mãos nele, eu vou cortar aquele sorrisinho da cara dele com a minha própria lâmina!

Saito, que tremia a cada sombra projetada nas paredes manchadas, levantou a mão trêmula, interrompendo a briga doméstica disfuncional.

— Gente... — ele sussurrou, os olhos fixos no buraco colossal na parede, onde vergalhões retorcidos pendiam como costelas quebradas de uma carcaça. — Acho melhor a gente ir logo. Ou voltar para relatar. Ficar parado aqui é...

Nero olhou para o buraco e depois para o poço do elevador onde Dante havia desaparecido. A expressão dela endureceu, assumindo o comando lógico.

— Saito tem razão. Entre ir todos ou voltar todos... acho que a única opção viável é dividir.

Ela caminhou até a borda do poço do elevador destruído. A escuridão lá embaixo era absoluta, um vórtice que engolia a luz.

— Se a criatura que fez esse estrago encontrá-lo... Dante está ferido. Sem suprimentos para caso o Ether se esgote, sem suporte... nem mesmo ele vai conseguir escalar de volta sozinho.

Sanemi embainhou a espada com um clique agressivo e final.

— Se formos todos juntos, vamos perder tempo. É uma missão de resgate agora.

Ele apontou um dedo acusatório para Saito.

— Saito, você é o covarde mais rápido que eu conheço. Volte para a superfície. Relate a situação para a Rani. Com certeza aquela bruxa vai querer recuperar o "brinquedo favorito" dela. Ela vai enviar reforços.

— E... e vocês? — Saito gaguejou, aliviado pela permissão de fugir.

— Nós descemos — Sanemi decretou, a voz não aceitando réplicas. — Vamos nos separar para cobrir mais terreno nos andares inferiores. É uma varredura.

Lin estremeceu, os olhos arregalados de pavor.

— S-separar? Sanemi... e-eu vou ficar com medo sozinha...

Sanemi olhou para a garota pequena. Havia impaciência em seu olhar, mas também uma confiança técnica brutal.

— Deixa de drama, Lin. Com a sua habilidade, você é a que menos deveria se preocupar com um monstrinho qualquer.

Lin engoliu em seco, o medo lutando contra o dever. Ela sabia que ele estava certo. Saito não esperou uma segunda ordem.

— Certo! Eu vou trazer ajuda! Não morram!

Ele girou e disparou pelo corredor principal, seus passos ecoando frenéticos enquanto ele fugia da garganta do monstro.

Ficaram os três. Nero, Sanemi e Lin. O silêncio voltou, mais pesado.

Nero observou Sanemi se preparar para descer por uma escada de serviço lateral, verificando o equipamento com mãos trêmulas de adrenalina contida.

— Olha só... — ela provocou uma última vez, um sorriso triste e conhecedor curvando seus lábios. — Está tão preocupado que priorizou o resgate dele à missão principal. O Raikou vai te matar se souber.

Sanemi parou no primeiro degrau de metal.

— Nero... vai pro inferno.

Ele apertou o corrimão de metal até o ferro gemer sob a pressão de sua luva.

— Eu só não quero que ele morra para um bicho qualquer. Eu não quero que ele morra até que eu vença ele. Ele é minha presa. Se ele morrer antes disso, eu nunca vou perdoar aquele imbecil.

— Claro, Sanemi. Claro — Nero sussurrou para as costas dele, vendo-o ser engolido pela escuridão.

— Dispersar! — O grito de Sanemi ecoou do abismo.

E assim, eles se quebraram. Nero tomou o corredor leste, silenciosa como um fantasma. Lin, trêmula, mas determinada, foi pelo oeste. E Sanemi desceu direto para o centro do abismo, para o coração do perigo.

Eles desceram para a escuridão do laboratório, cada um carregando seus medos secretos e lealdades distorcidas, mergulhando no inferno para salvar um amigo...

Posts recentes

Ver tudo
The Fall of the Stars: Capítulo 5 - No mesmo caixão

Volume 3: Sentido da Vida Parte 1 Algum tempo antes do laboratório se tornar uma ruína e uma Dungeon ... O laboratório ainda brilhava com a brancura clínica e asséptica da ciência no seu auge, um sant

 
 
 

Comentários


bottom of page