top of page

The Fall of the Stars: Capítulo 3 - Banquete de Carne e Amor

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 14 de jul. de 2025
  • 46 min de leitura

Atualizado: 28 de dez. de 2025

Volume 3: Sentido da Vida


Parte 1

O chamado ecoou pelos corredores de pedra negra da Mansão Winchester, um som urgente e dissonante que arranhava a opulência sepulcral do lugar.

Raikou e Love caminharam a passos largos em direção à ala leste. Love era uma pilha de nervos, torcendo as mãos pálidas, enquanto Raikou mantinha a expressão pétrea, uma muralha de estoicismo, embora a tensão em seus ombros fosse visível para quem soubesse ler a linguagem do medo contido.

Quando chegaram à porta dupla de carvalho maciço do escritório de Rani, ela se abriu sozinha, rangendo antes que pudessem tocar a maçaneta.

Rani Scarlune emergiu. O sorriso em seu rosto era enigmático, uma curva suave que não prometia gentileza, apenas segredos. O perfume dela atingiu os dois como uma onda física: uma mistura inebriante e tóxica de flores noturnas, sândalo e algo mais profundo... ferroso e doce. O cheiro de sangue oculto sob camadas de pó de arroz.

— Rani? — Love chamou, apressando o passo para acompanhar a silhueta elegante que já deslizava pelo corredor. — Aonde você vai...?

— Eu estou indo receber o relatório do Grupo 16 pessoalmente — Rani respondeu sem quebrar o ritmo, sua voz melódica ecoando nas paredes frias como um canto de sereia. — Sinto que falta pouco para a pequena Amarylis descobrir a sua verdadeira ambição. Quero estar lá. Quero ver um novo Scarlune ficando completo.

Raikou, caminhando na retaguarda, trincou os dentes. "Como sempre..."

— Nós recebemos notícias do Grupo 11 — Love insistiu, a voz subindo uma oitava, beirando o pânico.

Rani parou. O movimento foi tão abrupto que o ar ao redor pareceu estagnar. Ela se virou lentamente, um movimento fluido e antinatural. O sorriso em seu rosto se alargou milimetricamente, e um arrepio gélido percorreu a espinha de Raikou e Love simultaneamente. Era como se a temperatura do corredor tivesse despencado para o zero absoluto.

Ela levou a mão à boca, escondendo o sorriso de uma forma que parecia uma zombaria recatada.

— Oh? O Grupo 11... Conte-me, Love. O que aconteceu com o meu pequeno Dante?

Love engoliu em seco, o pomo de adão subindo e descendo enquanto lutava contra o instinto primitivo de fugir da presença dela.

— Saito entrou em contato. A situação é crítica. O laboratório... não é apenas um laboratório abandonado. O ambiente sofreu uma mutação estrutural devido à saturação de Éter. — Love fez uma pausa, enfatizando a gravidade catastrófica. — O local está a poucos passos de colapsar em uma Dungeon completa. O mapa está errado. A arquitetura mudou. E o pior... Dante foi separado do grupo principal. Ele caiu nos níveis inferiores, ferido e sem suprimentos.

Rani piscou, lenta como uma coruja. Seus olhos percorreram o rosto suado de Love, absorvendo a informação. E então, ela deu de ombros, um gesto de descaso devastador.

— Tá. E daí?

Love travou, chocado. A indiferença dela era mais violenta que um tapa.

— Como assim "e daí"?! Rani, você sabe o que isso significa! Se aquilo virou uma Dungeon, uma das abominações criadas por Lucius certamente ascendeu ao posto de Chefe de Área. O nível de poder pode ser muito superior ao deles!

Rani ignorou o pânico dele como quem ignora o zumbido de uma mosca. Ela girou os olhos violetas para Raikou, que estava encostado na parede, braços cruzados, observando tudo.

— Bom... como eu pedi pessoalmente para você treiná-los, Raikou, você deve ter uma avaliação profissional. O que me diz? Acha que eles conseguem dar conta?

Raikou sustentou o olhar dela. Ele não demonstrou medo, apenas um cálculo frio e pragmático.

— Dependendo do Tipo da Dungeon... — Raikou disse, a voz grave e rouca. — Eu daria a eles 40% de chance de sobrevivência.

Rani bateu palmas, o som ecoando solitário no corredor.

— Então está tudo bem.

— Tudo bem?! — Love explodiu. A indignação finalmente superou o terror. Ele correu e bloqueou o caminho dela, braços abertos. — Do que você está falando, Rani?! Vai mesmo agir desse jeito? Eu achei... eu achei que você realmente se importava com o seu filho!

O corredor silenciou. Rani parou. Ela virou o rosto lentamente para Love. Não houve grito. Não houve explosão de Éter visível. Apenas uma intenção assassina tão densa, tão pura e concentrada, que Love sentiu seus pulmões paralisarem. O ar tornou-se pesado, irrespirável. Era como estar diante de um predador colossal que decidia, com tédio, se valia a pena morder. Love congelou, incapaz de mover um músculo, sentindo a própria mortalidade vibrar na garganta.

Rani suspirou, dissipando a pressão letal como se fosse fumaça de cigarro, e sorriu novamente. Agora, com uma indulgência maternal perturbadora.

— Não entenda errado, meu querido Love. Eu estou preocupada. O coração de uma mãe sempre aperta. — Ela tocou o peito dramaticamente. — Mas ficar preocupada não faz diferença nenhuma na sobrevivência dele. Eu preciso deixar a coleira solta. Eles precisam de espaço para crescer.

Ela começou a andar em círculos ao redor de Love e Raikou, como um tubarão cercando náufragos.

— Eles são a "Geração Anormal", não são? Realizaram mais missões do que adultos veteranos. Eles ganham mais atenção e recursos do que qualquer outro esquadrão. — Ela parou ao lado de Raikou, invadindo o espaço pessoal dele. — Já está na hora daquelas crianças crescerem por conta própria. Aposto que o Raikou concorda. Afinal...

Ela inclinou a cabeça, os lábios roçando a orelha dele.

— ...ele parece bem decidido a fazer Dante criar um objetivo próprio. Para que ele suma daqui o mais rápido possível.

Raikou tensionou cada músculo do corpo. Sua mão direita tremeu levemente, os dedos buscando o cabo de sua espada de madeira por puro reflexo defensivo. "Ela sabe."

— A forma dura como você o trata... os insultos, o desprezo... — Rani continuou, cantarolando a análise psicológica. — Você está se esforçando tanto para fazer ele odiar viver aqui, para fazê-lo odiar a Família e correr para longe de mim. Você quer libertá-lo sendo o vilão da história.

Ela riu baixo, um som gutural, e tocou a ponta do nariz de Raikou com o dedo indicador.

— Você é realmente um menino bem malvado, não é, Raikou?

Raikou saltou para trás instintivamente, o suor frio escorrendo por sua têmpora. Rani juntou as mãos sob o queixo, as bochechas corando com um rubor genuíno de prazer.

— Mas não me importa! Está tudo bem! Eu acho essa sua rebeldia adorável.

Love, recuperando o fôlego e a coragem, olhou para ela. A confusão estava estampada em seu rosto suado.

— Rani... pode ser sincera comigo? Por favor. — Ele a encarou, buscando qualquer traço de humanidade naquela máscara de porcelana. — Eu sinceramente não entendo. O que você sente de verdade por Dante? Você parece adorá-lo... pediu para o Raikou treinar o grupo dele pessoalmente. Mas ao mesmo tempo... você não parece se importar se ele fugir. Não parece se importar se ele vai voltar vivo ou morto dessa missão. O que você sente? O que você quer com ele?

Rani parou. Ela olhou para o teto abobadado, onde as sombras dançavam. Um sorriso beatífico, quase religioso, iluminou seu rosto pálido.

— Não é óbvio, Love?

Ela abriu os braços, como se fosse abraçar o mundo inteiro.

— Eu amo o Dante. Amo cada pedacinho dele. Amo a carne, os ossos, o medo, a raiva e o sangue. E por amá-lo tanto... eu sei exatamente o que é melhor para ele.

Ela baixou os braços e fixou os olhos em Love. A doçura havia sumido. Restava apenas uma curiosidade científica, profana e insaciável.

— Eu não preciso forçá-lo a nada. É a natureza dele. Ele ainda não percebeu, mas eu consigo ver. Eu vejo a verdadeira natureza daquela criança. Eu vejo o que está germinando no escuro úmido da alma dele.

A aura dela se expandiu sutilmente, fazendo as luzes do corredor piscarem em um ritmo cardíaco irregular.

— Por isso eu não estou aqui para ajudá-lo. Não estou aqui para segurar a mão dele ou dizer o que ele deve fazer. Eu estou aqui apenas para observá-lo. Eu quero ver o que vai eclodir da casca. — Ela respirou fundo, trêmula de uma excitação quase erótica. — Eu quero ver se ele vai ser o Salvador que consertar este mundo quebrado... ou o Monstro que vai queimá-lo até as cinzas.

O rosto dela corou violentamente, os olhos brilhando com uma loucura extática.

— E seja qual for a resposta, Love... ah... vai ser simplesmente fabuloso de se ver.

O silêncio que se seguiu foi absoluto, pesado como uma lápide. Love e Raikou pararam de respirar, esmagados pela vastidão da insanidade dela. Ela não via um filho. Ela via um evento cataclísmico e estava na primeira fila, ansiosa pela estreia.

— Bem... — Rani ajeitou o vestido, a aura desaparecendo instantaneamente, trancando a loucura de volta na caixa. Ela voltou a ser uma dama elegante. — Divirtam-se com a burocracia. Tchauzinho!

Ela se virou e continuou seu caminho, cantarolando uma melodia infantil, deixando os dois homens para trás na penumbra do corredor.

Demorou quase um minuto para que eles voltassem a funcionar. Raikou soltou o ar que prendia, a mão deslizando para longe da espada. A expressão dele estava mais sombria do que nunca, os olhos perdidos na escuridão onde ela desapareceu.

Tsk... — ele estalou a língua, irritado, tentando recuperar o controle. — Eu vou responder ao chamado do Saito. Vou mandar eles continuarem a missão.

Raikou saiu pisando duro, a raiva emanando dele em ondas de calor. Love permaneceu parado, olhando para o vazio. Ele sentiu um calafrio nos ossos que sabia que jamais passaria.

— Eu jamais... — ele sussurrou para as paredes de pedra surdas. — Eu jamais serei capaz de entender essa mulher.

Parte 2

Algumas horas haviam sangrado no relógio desde o assassinato do guarda. O silêncio voltou a reinar no corredor, mas agora era uma quietude pesada, densa, impregnada pelo cheiro acobreado e doce do sangue fresco que começava a coagular na sala ao lado.

Dante estava colapsado em um canto escuro, longe da porta, as costas pressionadas contra o metal frio que roubava seu calor. Ele puxou os joelhos contra o peito e afundou a cabeça entre as pernas, fechando-se em uma concha defensiva, tentando se esconder de si mesmo.

Sua mente não parava. Era um disco riscado e torturante, repetindo a cena do machado descendo em loop. Crak. Sangue. Silêncio. Morte. Mas o que perturbava seu sono vigília não era a violência gráfica. Era a ausência absoluta de repulsa. Ele procurava dentro de si o horror, a culpa, a náusea que um "herói" deveria sentir. Mas só encontrava um vazio ansioso e faminto. E, pior, a memória elétrica daquela satisfação ao ver a vida do guarda se apagar. "Eu sorri?", pensou ele, as unhas cravando nas próprias canelas. "Por que eu não me sinto mal? Eu estou quebrado?"

As palavras que ele havia pensado com amargura para Love, dias atrás, agora voltavam como uma sentença de juiz: "Aceite, Love: nesta sala, todos nós somos monstros."

Passos leves quebraram sua meditação. Velvet caminhou até ele. Ela já havia limpado o sangue do rosto com a manga da camisola, espalhando-o em borrões rosados, mas manchas escuras ainda tingiam seus cabelos prateados como uma coroa macabra. Ela parou na frente dele e se agachou, seus movimentos fluidos demais para uma criança normal.

— Quanto tempo mais você vai ficar aí? — ela perguntou, a voz tilintando no silêncio sepulcral.

Dante não respondeu. Nem se moveu.

Velvet sentou-se ao lado dele, encostando o ombro pequeno no dele. O calor dela era um contraste chocante com o frio da parede.

— Você não ficou com raiva de mim, né? — ela cutucou o braço dele, insistente. — Ei... fala comigo, Dante. É chato ficar sozinha...

Ele continuou estático, uma estátua de granito e dúvidas.

De repente, um som úmido e agudo rasgou o ritmo da respiração dele. Um soluço. Dante abriu os olhos, assustado, arrancado de seu transe. Ao se virar, viu Velvet com as mãos cobrindo o rosto, o corpo tremendo violentamente, lágrimas cristalinas escorrendo por entre os dedos sujos de fuligem e sangue seco.

O cérebro de Dante deu um nó.

— O quê...? — ele gaguejou, a lógica falhando. Ele tirou as mãos dela da frente do rosto com gentileza desajeitada. — Ei, por que você está chorando? Isso não faz o menor sentido! A gente acabou de... você estava bem um minuto atrás!

Velvet o olhou com olhos vermelhos e molhados, uma imagem perfeita e devastadora de abandono.

— É que você me odeia agora! — ela soluçou, a voz estridente ecoando no metal. — Você viu o que eu sou! Você não me quer mais! Você não precisa de mim e quer me ver longe!

— De onde você tirou isso?! — Dante perguntou, incrédulo, os olhos arregalados. — O que você está falando?

Velvet o empurrou. Foi um empurrão fraco, físico, mas carregado de uma frustração teatral.

— Se não me quer, então vai embora! Sai! Vai logo! — ela gritou, batendo no peito dele com os punhos fechados, ritmando as palavras com golpes. — Me deixa aqui! Eu sei que eu não sou amável! Eu sei que sou um monstro defeituoso!

— Mas do que você está falando?! — Dante tentou segurar os pulsos dela, mas ela se debateu como um animal ferido, as unhas arranhando o antebraço dele, reabrindo feridas superficiais.

— Eu sei que é sempre assim! — ela gritou, beirando a histeria, as lágrimas misturando-se à sujeira do rosto. — Todo mundo cansa de mim! Todo mundo me joga fora! Some logo então!

Dante sentiu a paciência, já desgastada pela exaustão e pelo trauma, estalar como um elástico podre. "Saco... eu é quem devia estar agindo estranho aqui! Eu que matei o cara! Por que você está fazendo essa cena?"

— Quer saber? Esquece! — Dante a soltou bruscamente e se levantou num salto. — Se você quer ficar sozinha, então tanto faz! Eu estava precisando pensar mesmo. Fica aí com o seu drama.

Ele virou as costas e começou a se afastar pelo corredor, pisando duro, as botas ecoando irritação. Ele deu três passos.

— NÃO!

Velvet correu. O som dos pés descalços foi rápido, desesperado. Ela se jogou nas costas dele, o impacto quase o desequilibrando. Ela o abraçou com força desumana pela cintura, enterrando o rosto na jaqueta rasgada, as mãos fechando-se no tecido como garras.

— Não, por favor! Eu não quero ficar sozinha! — ela chorou, o tom agressivo mudando instantaneamente para um desespero pegajoso e infantil. — Não me abandone também! Eu não quero!

Dante parou, notando novamente a ausência do arrepio ao ser tocado. Ele olhou para o teto cheio de canos, soltando um suspiro longo. A confusão mental dele era absoluta. "O que ela queria afinal? Empurrar ou puxar?" Ele não tinha energia emocional para decifrar aquele enigma de contradições.

Ele coçou a cabeça com a mão livre, bagunçando o cabelo preto e vermelho, tentando organizar o caos. Lentamente, ele se soltou do abraço dela, girando o corpo. Velvet estava lá, encolhida, trêmula, olhando para ele de baixo para cima como se ele fosse a única âncora sólida no meio de um oceano tempestuoso.

Dante se abaixou para ficar na altura dela. Ele olhou no fundo daqueles olhos amarelos.

— Escuta bem — ele disse, a voz firme, mas exausta. — Eu não te odeio. E eu não vou te abandonar. Entendeu?

Ele sustentou o olhar, tentando transmitir verdade.

— Eu não sei o que aconteceu com você, ou o que aquele cientista fez... mas não ache que eu sou como as outras pessoas. Eu só estava quieto porque estou pensando. Minha cabeça está uma bagunça. Mas não é por causa disso que eu vou passar a te odiar.

Velvet fungou, limpando o nariz com as costas da mão. Ela o olhou com desconfiança, como uma criança que espera o truque de mágica falhar.

— Você promete? — ela sussurrou, a voz quebrada. — Você não vai odiar a Velvet?

Dante sentiu o rosto esquentar. A situação era absurda, grotesca e... estranhamente íntima.

— Hum... é... — ele desviou o olhar, envergonhado e confuso com a intensidade do momento.

Velvet deu um passo à frente, invadindo o espaço dele novamente, eliminando a distância.

— Então jure — ela exigiu. Os olhos dela secaram instantaneamente. — Prometa para a Velvet que você nunca vai ir embora.

Dante corou ainda mais. "No que eu estou me metendo?"

— Eu ju...

Velvet o interrompeu. Ela levantou as mãos e segurou o rosto dele. Suas palmas eram pequenas, frias como mármore, mas firmes. Ela apertou as bochechas dele, forçando-o a olhar diretamente para ela, aprisionando-o em seu campo de visão. Ela não queria palavras ao vento. Ela queria um contrato.

Dante entendeu. Ela precisava da garantia. E, de alguma forma distorcida... ele precisava dar essa garantia para sentir que ainda tinha algum propósito naquele inferno.

Ele suspirou, rendendo-se ao peso das mãos dela.

— Eu juro — Dante disse, solenemente. — Eu juro que não vou ir embora sem você.

Velvet parou. O choro evaporou. Um sorriso lento, predatório e genuíno se abriu no rosto dela. Não era o sorriso falso de antes, nem o sorriso cruel. Era um sorriso de posse. Dante tentou sorrir de volta, um reflexo nervoso, mas o sorriso morreu na metade.

O vento mudou no corredor, trazendo uma corrente de ar da sala aberta logo atrás deles. O cheiro atingiu-os. O odor denso, doce e podre do cadáver do guarda degolado, cujos fluidos já começavam a fermentar no ar abafado.

A realidade invadiu a bolha romântica com a sutileza de um soco. O momento foi quebrado pela carniça. Dante olhou para a escuridão do corredor por cima do ombro de Velvet, lembrando-se do que havia feito. Eles não eram duas crianças fazendo promessas inocentes de dedo mindinho. Eles eram dois monstros, cobertos de sangue alheio, fazendo um pacto eterno no fundo do inferno.

Parte 3

Horas se arrastaram como correntes enferrujadas sendo puxadas pelo chão.

Eles vasculharam o andar metodicamente, abrindo portas que rangiam em agonia e revirando escombros de metal e vidro em busca da tal porta azul. Mas o laboratório parecia vivo, respirando e se reconfigurando, escondendo a saída como um segredo malicioso e cruel.

Dante sentia o corpo pesar toneladas. A cada passo, a tontura vinha em ondas mais fortes, marés negras ameaçando afogá-lo em pé. "Droga... foi a pior escolha tática possível", pensou ele, apoiando-se pesadamente em uma parede úmida para recuperar o fôlego que lhe escapava. "Eu não devia ter deixado a regeneração automática ligada quando entrei nesse prédio. Ela devora muito Éter... e eu estou vazio."

O estômago dele se contorceu, um nó doloroso e ácido.

— O desgaste é tão grande que sinto que vou morrer se não comer algo logo... — Dante murmurou, a voz rouca, olhando para Velvet através de uma névoa visual.

Ela caminhava à frente, saltitando e cantarolando uma melodia sem nexo, aparentemente alheia ao colapso físico dele. Dante fixou o olhar nas costas dela, e a memória da promessa feita no corredor ensanguentado ecoou em sua mente. "Eu não vou embora sem você."

Ele balançou a cabeça com força, tentando espantar a tontura. "Esquece. Promessas não enchem barriga. Tenho que pensar numa solução antes que eu desmaie e vire comida de monstro."

Ele olhou para baixo por um segundo, ajustando o torniquete no braço mordido, onde o sangue teimava em pulsar. Quando levantou o rosto, o corredor à frente estava vazio. Dante parou. O silêncio repentino foi mais ensurdecedor que um grito.

— Velvet?

Nada. Apenas o gotejar distante de canos estourados. O pânico não cresceu gradualmente; ele explodiu como uma bomba. O coração de Dante disparou, um motor em pane batendo contra as costelas.

— Velvet?! — ele gritou, a voz falhando no final. — Cadê você?!

Ele correu. A dor nas pernas foi ignorada. Abriu a primeira porta à direita. Vazia. Chutou a segunda, a madeira podre cedendo. Vazia. A paranoia de que ela tinha sido levada por uma quimera silenciosa, ou pior, que ela tinha fugido e o abandonado para morrer sozinho, tomou conta dele como um vírus.

— VELVET!

Ele escancarou a terceira porta com violência, o punho erguido, pronto para matar ou morrer. E travou.

Velvet estava lá dentro. Ela havia encontrado um vestiário antigo, com armários de metal enferrujado. Estava de pé no centro da sala, despida da cintura para cima, a pele pálida brilhando na penumbra. Ela segurava uma camisa branca limpa contra o peito magro. Ao ver Dante invadir a sala como um furacão, ela não gritou. Ela apenas piscou, os olhos amarelos calmos e curiosos.

Dante, por outro lado, ficou vermelho como o próprio Éter que corria em suas veias.

— Ah!

Ele bateu a porta com força, girando o corpo e escorregando de costas pela madeira até sentar no chão do corredor, o coração quase saindo pela boca.

— Desculpa... — a voz dela veio abafada de dentro. — A Velvet queria trocar a roupa. A outra cheirava ao sangue daquele homem. Estava grudando.

— Você devia ter avisado antes! — Dante gritou de volta, cobrindo o rosto com as mãos, tentando normalizar a respiração errática. "O que ela está pensando? E se outra pessoa a atacasse? E se fosse uma quimera?" Mas então, uma voz cínica e fria sussurrou em sua mente: "Olha o seu desespero, Dante. Até parece que é você quem não quer se separar dela."

— Não, não... deixa disso — ele murmurou para si mesmo, balançando a cabeça freneticamente. — Quanta bobagem. Isso é a fome me deixando delirante. Hipoglicemia. É só isso.

A porta se abriu atrás dele.

— Pronto.

Dante se levantou e virou. Velvet havia saqueado o armário de alguma pesquisadora antiga. Ela usava uma camisa social branca e, por cima, um jaleco que era absurdamente grande para ela. As mangas cobriam completamente suas mãos, balançando como fantasmas de tecido, e a barra do jaleco arrastava no chão como um vestido de cauda improvisado. Ela girou, fazendo o tecido rodopiar ao seu redor.

— Então? A Velvet parece mais inteligente agora?

A imagem era ridícula e, ao mesmo tempo, estranhamente adorável. Uma criança brincando de cientista no meio do apocalipse, vestida com os restos de um mundo morto. Dante tentou segurar, mas a exaustão quebrou suas defesas. Um som escapou de sua garganta. Depois outro. Ele riu. Não foi a risada maníaca e sombria de quando matou o guarda, nem o riso irônico de sobrevivência. Foi uma gargalhada genuína, leve, de um garoto vendo algo engraçado.

Velvet franziu a testa e começou a bater na cabeça dele com as mangas compridas e vazias do jaleco. Pof! Pof!

— Ei! O que é tão engraçado?! Isso não é legal, sabia?! Eu estou tentando ser séria!

— Ai, ai! Tá bom! — Dante se defendia, rindo enquanto protegia o rosto. — Eu sinto muito! É sério!

O momento de leveza quebrou a tensão mortal que pairava sobre eles como uma névoa. Dante, recuperando o pragmatismo, decidiu que aquele vestiário era um bom lugar para uma pausa real. Um oásis temporário.

Ele recolheu cadeiras de madeira quebradas e pilhas de relatórios confidenciais espalhados pelo chão. Concentrando o pouco de Éter que lhe restava na ponta do indicador, ele criou um arco voltaico — um estalo azulado — e acendeu uma fogueira controlada no centro da sala azulejada. Usando a água que ainda restava nos canos das pias, ele lavou o sangue das roupas antigas de Velvet e tentou limpar sua própria jaqueta. Improvisou um varal com cordas de cadarços velhos amarrados entre um armário e a grade do ar-condicionado.

Enquanto as roupas secavam, balançando com o calor do fogo, Dante sentou-se no chão. Ele estava apenas com a calça tática, o torso nu expondo cicatrizes e curativos improvisados. Ele pegou uma agulha de injeção grossa que achou no lixo médico, aqueceu-a com eletricidade até o metal brilhar em laranja, dobrou a ponta e a transformou em uma agulha de costura rústica. Desfiando um pedaço de tecido da camisa velha para fazer linha, ele chamou Velvet.

— Vem cá. Se você for andar com isso arrastando, vai tropeçar e morrer.

Velvet se aproximou, obediente, sentando-se à frente dele. Dante começou a ajustar a bainha do jaleco e dobrar as mangas, costurando com pontos rápidos e precisos para que a roupa servisse melhor nela. Ela o observava trabalhar, fascinada. O brilho laranja do fogo dançava nos olhos amarelos dela e iluminava o rosto concentrado dele.

— Como você aprendeu a fazer isso? — ela perguntou, a voz baixa.

Dante não levantou os olhos da costura.

— Bom... os Scarlunes são ensinados a viver de forma independente bem cedo. Como a gente não é criado pelos nossos pais, acabamos tendo que aprender a viver sozinhos nos dormitórios. Claro que recebemos ajuda das empregadas, mas a regra é clara: até os 16 anos, você tem que saber se virar. Cozinhar, costurar, limpar sua própria bagunça e tratar seus ferimentos. É parte do treino de sobrevivência.

Ele terminou um ponto, cortou a linha com os dentes e olhou para ela, percebendo que o conceito de "treino doméstico" devia soar alienígena para uma cobaia que viveu em uma jaula.

— Entendeu?

Velvet sorriu. Um sorriso suave, diferente de todos os outros que ela já mostrara. Não havia malícia, nem fingimento.

— Você vai ser um bom pai, Dante.

A mente de Dante travou. Geralmente, a piada seria "bom marido" ou "boa esposa". Mas... pai? Ele ficou olhando para ela com uma expressão confusa. "Que papo é esse?" A frase carregava um peso estranho, uma projeção de futuro que parecia impossível para pessoas como eles.

— Ai! — Dante sibilou. Desconcentrado, ele enfiou a agulha fundo na polpa do dedo. Uma gota de sangue vermelho vivo brotou imediatamente. — Tsk... saco. — Ele levou o dedo à boca, sugando o corte. — O que faltava. Tô colecionando machucados agora.

Velvet inclinou a cabeça, observando com atenção clínica.

— Não vai fechar como antes?

— Não — Dante respondeu, voltando a costurar, ignorando a dorzinha pulsante. — Eu desativei a regeneração.

— Regeneração... — Velvet repetiu a palavra, testando o gosto dela na língua. O olhar dela ficou distante, perdido em memórias ruins. — Ah. É como a mamãe fazia. Mas... a mamãe também não conseguia quando bebia meu sangue.

Dante parou a agulha no ar. "Conversar com ela está ficando cada vez mais difícil", pensou ele, confuso com as peças soltas do quebra-cabeça. Ele não entendeu a implicação técnica — que o sangue dela anulava o fator de cura vampírico —, mas sentiu a estranheza no ar.

— Por que você não está regenerando? — ela insistiu, curiosa.

— Eu já disse. Eu desativei. Estou cansado e com fome demais para isso. Se eu forçar, eu apago. É melhor não desperdiçar o pouco de energia que resta.

Como se para pontuar a frase com uma exclamação biológica, o estômago de Dante soltou um rugido alto, cavernoso e doloroso. Velvet riu baixinho e levou o dedo à boca. O estômago dela respondeu em solidariedade com um ronco tímido.

Dante suspirou, jogando a cabeça para trás, encarando o teto manchado de fuligem.

— É... talvez isso não vá dar certo. Se continuarmos esperando até chegar lá em cima para comer, vamos acabar desmaiando. E se isso acontecer perto de mais quimeras, vai ser problemático.

Ele ficou em silêncio, pensativo. A imagem da quimera que ele empalou na viga de metal voltou à sua mente com clareza brutal. "Parece um animal...", ele racionalizou, a fome sobrepujando o nojo civilizado. "Tem músculos. Tem carne. É uma aberração genética, sim, é nojento, mas... é proteína. É combustível."

— Acho que seria um desperdício matar e jogar fora... — ele murmurou, a voz grave, mais para convencer a si mesmo do que a ela.

Velvet o encarava com aqueles olhos grandes, esperando a decisão do "líder" da matilha.

Dante se levantou, a decisão tomada pela necessidade visceral de sobreviver.

— Bom... acho que está tudo bem. Com certeza você deve ter comido um ou dois desses para ter sobrevivido tanto tempo aqui embaixo, né?

Ele foi até os armários e pegou alguns bisturis cirúrgicos limpos e uma serra de ossos enferrujada. O metal brilhou à luz do fogo.

— Vamos ver se aquele espetinho ainda está lá. Se não, a gente vai ter que caçar o jantar.

Os olhos de Velvet brilharam na penumbra. Não houve repulsa nela. Apenas uma curiosidade silenciosa e absoluta. Como alguém que estava aprendendo uma nova lição sobre o mundo, ela se levantou e o seguiu em completo silêncio.

Parte 4

Arrastar a carcaça da quimera de volta para o vestiário foi um trabalho sujo e demorado. O som da carne morta raspando no piso, misturado ao ranger do metal, ecoava como um lamento.

Dante trouxe o monstro ainda empalado no pedaço de viga, usando o metal como uma alavanca grosseira para erguer a massa inerte sobre uma das mesas de inox que ele havia limpado. O móvel rangeu sob o peso da morte. O ar no vestiário mudou. O cheiro de carne chamuscada pelo Éter, doce e enjoativo, agora se misturava ao odor metálico e frio do sangue coagulado.

Dante posicionou-se sob a luz trêmula da fogueira. Ele segurava um bisturi cirúrgico em uma mão e uma serra de ossos na outra. Sua expressão era de um foco absoluto, gélido; a frieza incutida pelo treinamento assumindo o controle, trancando a repugnância do garoto em uma caixa mental.

— O sangue é o maior perigo — ele murmurou para si mesmo, a voz baixa, fazendo a primeira incisão na jugular da besta para a drenagem. O corte foi preciso, liberando um fluxo escuro. — Não sabemos que tipo de químicos foram usados aqui. Mas se o propósito deste lugar era produzir sangue artificial, com certeza é nele que reside a toxina.

Ele olhou de soslaio para Velvet. Ela estava empoleirada em cima de um armário baixo, com os joelhos puxados contra o peito, observando cada movimento da lâmina com uma atenção cirúrgica e perturbadora. Não havia nojo em seus olhos amarelos; havia estudo. Ela assistia ao desmembramento não como uma criança vendo um massacre, mas como uma aluna fascinada em uma aula de arte proibida.

— Tenho que assumir que está tudo contaminado até provar o contrário — Dante continuou, trabalhando rápido, suas mãos enluvadas brilhando de vermelho à luz do fogo.

Depois de sangrar a criatura, ele começou a abrir a derme. A pele cedeu com um som úmido de rasgo. Era grossa, resistente como couro fervido.

— Normalmente, carne de predador é ácida — ele explicou, narrando o processo mais para manter a própria sanidade do que para ensinar. — A adrenalina constante e a dieta carnívora deixam as fibras duras. O gosto costuma ser horrível, amargo.

Ele separou o músculo da perna traseira com golpes secos.

— Além disso, o cérebro e a medula espinhal são lixo tóxico. Podem conter príons, doenças degenerativas...

Dante parou. Sua faca encontrou resistência macia no dorso da criatura. Ele franziu a testa, confuso.

— Estranho...

Havia uma camada de gordura ali. Uma quantidade generosa. Predadores selvagens costumam ser magros, puro músculo e nervo. Mas aquela gordura...

Dante olhou para Velvet, a lâmina pingando na mão.

— Você sabe como essas coisas foram feitas? Por que elas têm essa aparência... animalesca, mas essa estrutura interna?

Velvet deu de ombros, balançando as pernas cobertas pelo jaleco gigante, os pés descalços pendulando no ar.

— Eu não sei. Não dava para ouvir os detalhes de dentro da minha cela. O papai gostava de segredos.

Dante assentiu, voltando ao trabalho. Claro. Ela não saberia.

Ele foi para o lombo.

— É a única parte que posso arriscar comer malpassada. O resto precisa ser esturricado no fogo para matar qualquer parasita cruzado.

Com a precisão de um legista realizando uma autópsia, Dante abriu a cavidade abdominal. O cheiro piorou. Ele prendeu a respiração. Se rompesse o estômago, o ácido gástrico da quimera poderia arruinar a carne e queimá-lo quimicamente. Ele removeu as vísceras com cuidado extremo, jogando a massa cinzenta e úmida em um balde improvisado.

Então, chegou ao fígado. O teste final. Ele segurou o órgão sob a luz alaranjada da fogueira, examinando-o como uma joia maldita.

— Se tiver manchas brancas ou cistos, a carne toda está comprometida — ele disse, a voz tensa. — Se estiver liso...

O fígado brilhava, vermelho-escuro, liso e obscenamente saudável. Rico em ferro e nutrientes.

— Tivemos sorte. É comestível.

Dante soltou o ar, os ombros relaxando. Ele começou a separar as peças de carne nobre. Foi então, ao trabalhar na região do pescoço para remover a cabeça, que a lâmina raspou em um osso pequeno.

Click.

Um choque elétrico percorreu a espinha de Dante. O mundo parou. Ele congelou. Seus dedos, sujos de sangue viscoso, tatearam e tocaram o osso hioide da criatura. Não era o osso de um lobo. Não era o osso de um urso. Tinha o formato perfeito de uma ferradura. Um formato específico, evoluído apenas em uma espécie para permitir a articulação complexa da fala. E aquela gordura amarela sob a pele... uniforme, distribuída exatamente como em...

"Não."

O pensamento tentou se formar em sua mente, rastejando para fora do abismo: "Isso era um hu..."

Dante bloqueou o pensamento com uma violência mental brutal. Ele bateu uma porta de aço em sua própria consciência. Ele forçou seu cérebro a desligar a análise, a cegar a lógica. Se ele seguisse aquela linha de raciocínio, ele vomitaria até as tripas saírem. Se ele entendesse o que estava prestes a comer, ele morreria de fome por pura repulsa moral.

É uma quimera. É um monstro. É comida.

Ele arrancou a cabeça da besta com um puxão forte e nauseante, o som de tendões estourando preenchendo a sala. Ele a jogou longe, no canto mais escuro, tentando evitar olhar para a estrutura óssea da mandíbula.

— Tudo certo — ele disse, a voz saindo um pouco mais aguda e frágil do que o normal. — Vamos comer.

Ele encontrou um pote de cloreto de sódio puro — sal de laboratório — em uma prateleira empoeirada. Não era tempero gourmet, mas serviria para mascarar o gosto da verdade. Logo, o cheiro de carne assando preencheu o vestiário, sobrepujando o cheiro de morte e formol. A gordura derretia no fogo, chiando e pingando nas brasas, despertando um apetite primal, violento e doloroso em ambos.

Quando Dante serviu os pedaços de carne fumegante em bandejas de metal cirúrgico, a ética, o horror e a civilidade desapareceram. Só restou a fome.

Eles comeram como animais. Velvet, que não via comida real há meses, devorou sua porção com as mãos, sujando as bochechas pálidas de gordura quente e fuligem. Dante comeu até sentir o estômago doer de tão cheio, a energia fluindo de volta para seus membros trêmulos, o Éter em seu sangue ronronando satisfeito com o combustível.

Parecia um banquete. Naquele inferno subterrâneo, aquela carne de origem inominável tinha o gosto divino da salvação.

Quando terminaram, o peso da digestão os atingiu como uma marreta. A modorra pós-refeição anestesiou o trauma. Dante apagou o fogo, deixando apenas as brasas brilhando como olhos vermelhos no escuro.

— Dormir... — ele murmurou, embriagado pela saciedade, arrastando-se para um canto onde havia amontoado alguns jalecos velhos como um ninho.

Velvet se aninhou perto dele, buscando calor. Dessa vez, Dante estava cheio e cansado demais para reclamar ou impor limites morais. Eles adormeceram no escuro, lado a lado, de barriga cheia, ignorando deliberadamente os fantasmas dos ossos que haviam deixado sobre a mesa.

Parte 5

Nos andares superiores, a destruição tinha uma assinatura diferente. Não eram os cortes limpos de lâminas ou marcas de queimaduras elétricas. Eram crateras de impacto bruto.

Lin caminhava saltitante por entre os destroços, as botas pesadas de combate pisando em vidros quebrados com uma leveza irônica. Ela parecia totalmente alheia ao cheiro de morte e mofo que impregnava o ar. Em uma mão, segurava uma lancheira rosa pastel com adesivos de gatinhos; com a outra, levava um sanduíche triangular à boca, mastigando com uma expressão pensativa.

— Droga... — ela resmungou de boca cheia, engolindo um pedaço de pão com pasta de atum. — Eu deveria ter dado uma marmita para o Dante. Será que ele está com fome agora? A barriga dele deve estar roncando... tadinho.

Ela parou abruptamente, as bochechas corando violentamente ao imaginar a cena.

— Mas... se eu tivesse dado, eu ficaria tão envergonhada! E se ele não gostasse do tempero? E se ele achasse que eu sou uma esposa desesperada? — Ela balançou a cabeça, os cabelos curtos agitando-se. — Mas se ele tivesse aceitado... ah, seria como um almoço de casal indireto! Comendo a mesma comida, separados pelo destino... romântico!

Ela deu um gritinho abafado, cobrindo o rosto com as mãos livres.

Kyaaa! Espera, Lin, foca! A estratégia é: eu acho ele primeiro. Se eu achar ele nesse escuro, ferido e triste, ele vai ficar tão aliviado que a ocitocina vai disparar e ele vai se apaixonar na hora. É neurociência básica!

Ela parou diante de uma poça de sangue fresco que refletia sua imagem distorcida.

— Ou talvez... eu devesse criar uma situação onde eu finjo estar em perigo? — ela sussurrou, conspiratória, olhando para os lados como se contasse um segredo para as paredes destruídas. — Talvez ele goste de salvar princesas em perigo. Homens gostam de se sentir heróis, não é? Aumenta o ego frágil deles.

Lin colocou as mãos na frente do rosto, contorcendo-se de vergonha pela própria audácia.

ZIIIP!

O ar sibilou, cortado por algo supersônico.

O instinto de Lin, forjado e martelado por anos de treinamento desumano sob o chicote de Raikou, reagiu antes que o cérebro processasse o som. Ela não pensou; ela fluiu.

Ela girou o corpo em uma pirueta no ar, graciosa como uma bailarina de caixa de música, desviando o crânio milímetros da trajetória de um projétil de alto calibre. A bala passou raspando sua orelha e perfurou uma caixa de metal reforçado atrás dela com um CLANG explosivo.

Lin aterrissou levemente na ponta dos pés. A lancheira ainda estava segura em sua mão esquerda, mas o rosto corado de vergonha desapareceu instantaneamente. No lugar, surgiu o olhar frio, vidrado e vazio de uma boneca assassina.

Um homem saiu das sombras de um pilar de concreto. Ele usava um sobretudo longo e desgastado, cheio de bolsos táticos, e girava um isqueiro Zippo nos dedos com destreza antes de guardá-lo no bolso com um clique.

— Sabe, lindinha... — ele disse, a voz rouca de quem fumou maços demais e gritou ordens demais. — Os homens de hoje preferem ser tratados como princesas do que ter o trabalho de resgatar uma. Dá menos dor nas costas.

Lin estreitou os olhos.

— Quem é você? — ela perguntou. A voz caiu uma oitava, perdendo toda a doçura infantil e tornando-se plana, perigosa.

— Bom, já que eu vou te matar, acho justo me apresentar. É etiqueta básica. — O homem destravou a pistola prateada, uma arma customizada de cano longo. — Meu nome é Cloud. Sou um Caçador.

Ele recarregou a arma com um movimento fluido, sem olhar.

Lin inclinou a cabeça, genuinamente confusa.

— Se você é um Caçador, por que está me atacando? O que faz aqui? Caçadores matam monstros, não garotas.

— Provavelmente o mesmo que você — Cloud respondeu, analisando o ambiente com olhos de falcão, procurando rotas de fuga e ângulos de tiro. — Recebi uma missão da Guilda. Investigar a nova Dungeon, recuperar dados e exterminar a fauna local.

— Mas eu não sou um monstro — Lin retrucou, ofendida, abraçando a lancheira contra o peito como um escudo moral. — Eu sou humana!

— Ah, é verdade? — Cloud soltou uma risada seca e sem humor. Ele apontou com o polegar para o corredor atrás dela.

O caminho por onde Lin passara era um cenário de guerra apocalíptico. Paredes de concreto derrubadas por força bruta, quimeras esmagadas no chão como insetos pisoteados, o piso pulverizado em cascalho fino.

— Então você quer que eu acredite que uma garotinha "normal" de um metro e cinquenta fez aquilo ali com as próprias mãos? — Cloud arqueou uma sobrancelha.

Lin piscou.

— Eu... eu só estava limpando o caminho. Coisas nojentas me assustam, então eu as esmago. É uma reação de pânico!

— Você pode até não ser uma quimera, criança — Cloud disse, os olhos endurecendo, o dedo tencionando no gatilho. — Mas com certeza é algo perigoso. E a minha intuição — que me manteve vivo por trinta anos — diz que, se suas ordens forem "não deixe ninguém sair com informações", você vai virar uma pedra no meu sapato em breve.

— Mas quem disse que eu tenho ordens assim?! — Lin gritou, frustrada, batendo o pé no chão. — Você está atirando sem motivos! Eu só quero achar meu namorad— digo, meu parceiro!

— Bom, é verdade — Cloud deu de ombros, levantando a arma na altura dos olhos. — Mas sabe... eu confio na minha intuição. E ela está gritando para eu atirar na sua cabeça antes que você cresça e vire um problema maior.

O diálogo acabou. A diplomacia morreu.

Lin soltou a lancheira. Antes que o objeto rosa tocasse o chão empoeirado, o Ether explodiu de suas costas. A energia violeta se materializou em correntes grossas e fantasmagóricas, conectadas a duas esferas de demolição maciças, cobertas de espinhos de aço negro, que surgiram flutuando ao lado de seus braços finos como satélites da morte.

GROOOAA! — Lin rugiu, a voz gutural, distorcida pela fúria.

Ela arremessou a esfera esquerda. A bola de demolição voou, rasgando o ar com um som grave, destruindo o chão de concreto enquanto avançava como um aríete.

Cloud não piscou. BAM-BAM.

Dois tiros rápidos. Precisão cirúrgica. Ele não mirou na bola; mirou no centro de massa da garota.

Lin não correu; ela girou. Usando o peso das esferas como contrapeso, ela iniciou um movimento centrífugo. Seu corpo pequeno tornou-se o eixo de um tornado de metal.

CLANG! ZING!

As balas atingiram o ferro giratório das esferas que orbitavam Lin em alta velocidade, ricocheteando em faíscas laranjas. A menina aproveitou o momento angular do giro para avançar. O chão tremia ritmicamente a cada vez que uma das bolas roçava o concreto, criando um som de DUM-DUM-DUM aterrorizante, como os passos de um gigante.

Cloud não recuou em linha reta; ele fluiu para o lado, deslizando entre os pilares de sustentação. Sua movimentação era econômica, minimalista. Ele disparava em ângulos estranhos, fazendo as balas ricochetearem nas paredes de metal para tentar atingir as costas dela ou quebrar as correntes de Ether, tentando desestabilizar o pêndulo mortal.

Mas Lin transformava cada tentativa de interrupção em um novo passo de dança letal. Quando uma bala atingiu o chão perto de seu pé esquerdo, ela usou o susto para impulsionar um salto lateral, lançando a bola direita num arco ascendente devastador, visando arrancar o queixo do Caçador.

Cloud dobrou os joelhos, inclinando o tronco para trás num ângulo impossível, lembrando um junco ao vento. A esfera espinhosa passou a centímetros de seu nariz, o deslocamento de ar agitando seus cabelos negros e cortando a ponta de seu cigarro imaginário.

Era a abertura que ele esperava. A gravidade ainda puxava a bola de volta. Lin estava exposta por uma fração de segundo.

Cloud avançou. Ele mergulhou para dentro da guarda dela, rápido como uma cobra. Ele ignorou o espaço pessoal, ignorou o medo, colocou o cano frio da pistola a milímetros da testa suada de Lin e puxou o gatilho.

— Xeque-mate.

BANG!

O disparo foi à queima-roupa. A chama do cano iluminou os olhos arregalados de Lin. Cloud sorriu, esperando ver a cabeça dela estourar como uma melancia.

Mas o sorriso dele congelou.

A cabeça de Lin não foi para trás. A pele da testa dela não rompeu. No ponto exato de impacto, uma ondulação translúcida de Ether vibrou no ar, como uma gota caindo em um lago calmo.

Absorção Cinética. A habilidade defensiva absoluta de Lin. Ela não bloqueou a bala; ela engoliu a força do impacto. Toda a energia cinética letal do projétil foi sugada, armazenada e convertida instantaneamente em torque.

— O quê... — Cloud sussurrou, os olhos arregalados.

— DEVOLUÇÃO! — Lin gritou.

Ela liberou a energia acumulada girando o corpo com uma velocidade supersônica. A esfera esquerda, carregada com a força do tiro dele somada ao força centrífuga dela, atingiu o flanco de Cloud.

Não foi um golpe; foi um atropelamento de trem de carga.

KABOOM!

Cloud foi lançado para trás como um boneco de pano. Ele atravessou duas paredes de gesso cartonado antes de colidir com uma viga de aço mestra, amassando o metal com as costas. Ele caiu de joelhos, cuspindo um jato de sangue no chão.

Ele ofegou, trocando o carregador da pistola com um movimento rápido, embora as costelas gritassem de dor.

— Você é boa, criança... — ele murmurou, limpando o sangue do queixo com a manga do sobretudo. — Boa até demais para uma colegial.

Lin estava parada no centro da sala, as esferas flutuando ameaçadoramente ao seu redor, a testa intacta, marcada apenas por uma mancha vermelha de pólvora queimada.

— Eu disse... que não sou um monstro — ela sibilou, os olhos brilhando com uma fúria fria.

Eles se prepararam para o segundo round. A tensão no ar era elétrica, palpável.

Mas o laboratório tinha outros planos.

CRAAAACK!

O som não veio deles. Veio de baixo. E de cima. De todo lugar. A parede lateral da sala, feita de concreto reforçado com três polegadas de aço, explodiu para dentro.

Não foi uma explosão química. Foi força bruta.

Uma mão. Uma mão gigantesca, cinza, coberta de escamas quitinosas e limo, com garras do tamanho de espadas medievais, atravessou a parede, varrendo o ambiente num arco cego e destrutivo. Não era humanoide. Os dedos tinham articulações extras e moviam-se com espasmos independentes.

— O que diabos...?! — Cloud rolou para o lado instintivamente, escapando de ser esmagado por um centímetro.

A mão atingiu o chão onde eles estavam pisando segundos antes. A estrutura do prédio, já comprometida pela batalha dos dois e pela degradação do tempo, cedeu com um gemido metálico.

O chão sob os pés de Lin desmoronou.

KYAAAA!

Lin tentou lançar uma corrente de Ether para se segurar em uma viga, mas os detritos caindo cortaram sua linha de visão. O concreto cedeu sob suas botas e ela despencou para o andar inferior em meio a uma chuva de poeira e escombros.

Cloud, que estava mais perto da borda segura, teve que pular para trás, para um corredor adjacente, enquanto o chão onde ele estava era engolido pelo buraco criado pela besta.

O monstro recolheu a mão gigante lentamente, arranhando o concreto, e soltou um rugido abafado, vindo das profundezas das paredes, que fez os dentes de ambos vibrarem.

Depois, o silêncio e a poeira tomaram conta.

A batalha havia acabado. Não por vitória, mas por interrupção divina de um pesadelo maior.

Cloud se levantou com dificuldade, sacudindo a poeira branca do sobretudo preto. Ele caminhou até a borda do abismo e olhou para o buraco negro onde a garota havia caído.

— Que merda foi essa? — ele perguntou para o vazio, acendendo o isqueiro Zippo para tentar ver algo lá embaixo. — Mãos gigantes saindo das paredes... Isso definitivamente não estava no relatório da Guilda.

Lá embaixo, na escuridão dos escombros, o gemido de Lin ecoou fraco. Ela estava viva, mas separada de seu oponente e, pior, ainda mais longe de Dante.

Parte 6

O pesadelo começou antes mesmo de ele acordar.

Dante não estava dormindo; ele estava flutuando em um vazio cinza, paralisado, uma consciência sem corpo assistindo a uma cirurgia de memórias roubadas.

"...Ativo 00-L... pertencente exclusivamente ao sangue de Velvet..." — Vozes de cientistas sem rosto ecoavam como trovões distantes, distorcidas pela estática do tempo. "...As quimeras humanoides... ativadas pelo mental da Matriz... ela penteava o reflexo... ...A única forma de impedir é lobotomizando-as, transformando-as em bestas irracionais... ...Lucius pediu para parar... não queria arriscar outro erro..."

Dante acordou com um engasgo violento, o corpo coberto de suor frio. O gosto rico da carne assada em sua boca agora tinha sabor de cinzas e culpa. Seu estômago deu um nó, uma convulsão que era tanto física quanto espiritual. Ele olhou para o lado. Velvet dormia, encolhida dentro do jaleco gigante como uma criança em uma tenda improvisada, a expressão perturbadoramente serena. Dante levantou-se devagar, as botas raspando no chão, cambaleando em direção à porta do vestiário. Ele precisava vomitar. Precisava purgar aquilo de dentro dele.

Mas quando sua mão tocou a maçaneta, o cheiro o atingiu primeiro. Não era apenas mau cheiro; era uma agressão olfativa. Um odor pútrido de carne necrótica, almíscar animal e Éter instável. No corredor, uma sombra colossal se movia. Era uma quimera, mas uma evolução grotesca das anteriores. Maior. Uma massa de músculos negros e densos, cobertos por pelos que pareciam arame farpado oleoso. O rosto... não tinha olhos. Onde deveriam estar as órbitas, havia apenas pele lisa e cicatrizada. Mas o focinho era um pesadelo à parte: úmido, pulsante, com narinas que dilatavam e contraíam, sugando o ar ruidosamente.

Dante percebeu, o coração falhando uma batida.

O cheiro do "churrasco" atraiu o predador.

BANG!

A criatura deu uma cabeçada na porta, testando a barreira, farejando a presa quente lá dentro. A madeira gemeu e rachou. Dante recuou, o pânico subindo pela garganta.

— Velvet! — ele sibilou, urgente. — Acorda!

Velvet apenas resmungou, virando para o lado, imersa em seu sono de pedra.

— Maldição... ela não estava brincando sobre dormir pesado.

CRASH!

A porta explodiu em uma chuva de lascas. O lobo monstruoso invadiu a sala, derrubando armários de metal com o ombro. Dante não pensou. O reflexo assumiu. Ele correu, deslizou e agarrou Velvet nos braços. Com uma explosão de Éter nas solas das botas, ele saltou verticalmente. Uma descarga eletromagnética o prendeu ao teto de metal. Ele ficou lá, agachado de cabeça para baixo como uma aranha, segurando o peso morto de Velvet contra o peito, rezando para que a gravidade não o traísse.

Lá embaixo, a quimera farejava freneticamente, derrubando as mesas, revirando os ossos da refeição anterior. Dante olhou para baixo, o suor escorrendo pela testa, desafiando a física. "Fica quieta... por favor, não perceba..." Mas então, a traição veio de seu próprio corpo. O curativo improvisado em seu braço estava saturado. Uma gota de sangue acumulou-se na borda do tecido rasgado. Ela inchou, pesada, vermelha. Caiu em câmera lenta.

Plip.

O som foi minúsculo, mas para a besta, foi um tiro de canhão. A cabeça do lobo se ergueu instantaneamente, o focinho cego apontando com precisão laser para o teto.

Dante praguejou mentalmente. Ele desativou o ímã das botas no exato segundo em que a besta saltou. As mandíbulas de aço fecharam-se no metal do teto, rasgando onde eles estavam um milésimo de segundo antes. Dante aterrissou no chão rolando, já com a mão livre em movimento. Ele lançou três bisturis carregados de eletricidade estática.

ZZZZT!

As lâminas atingiram o flanco da besta, liberando milhares de volts. O cheiro de pelo queimado encheu a sala. Enquanto a criatura se contorcia em espasmos, Dante disparou pela porta destruída, carregando Velvet.

Ele correu pelo corredor, o som das garras raspando no metal logo atrás. Ele depositou Velvet — que começava a piscar, confusa e sonolenta — atrás de um armário de aço tombado.

— Fica aqui! Nem respira!

Ele correu para o lado oposto, onde o machado de incêndio estava caído perto da poça de sangue do guarda. Mas a quimera não o seguiu. Ela ignorou o cheiro de ozônio e suor de Dante. Ela virou o focinho para o armário. O cheiro de Velvet era mais forte. Mais doce. Mais importante.

— NÃO!

Dante freou, as botas derrapando, e mudou de direção. Ele arrancou um extintor de incêndio da parede e se lançou no ar contra o monstro. Ele acionou o pino no voo. Uma nuvem branca e densa de pó químico explodiu no rosto da criatura, entupindo suas narinas sensíveis.

GRAAAAA!

A besta rugiu, cega e agora sem olfato, e girou o corpo em um reflexo de pânico. A pata traseira acertou Dante no peito como um aríete. O impacto foi brutal. Dante foi arremessado como uma boneca de pano, atravessando uma parede seca e caindo na sala ao lado em uma nuvem de poeira.

Ele cuspiu sangue, o mundo girando. A criatura, furiosa, sacudiu a cabeça, espirrando o pó químico, e voltou a avançar na direção de Velvet. Velvet saiu de trás do armário, esfregando os olhos, vendo a montanha de morte vindo em sua direção.

— Dante...?

Dante se levantou. A dor nas costelas era um ruído branco ensurdecedor, mas ele a trancou em uma caixa mental. Ele canalizou Éter puro para as solas das botas, magnetizando-se ao chão metálico para ganhar tração desumana. O machado vermelho estava em sua mão.

Ele disparou como um raio. Dante não atacou a carne; ele atacou o sentido. Ele girou o machado, a lâmina brilhando em um carmesim ofuscante de sobrecarga elétrica.

CRACK!

O golpe atingiu a lateral do focinho sensível da besta. O som foi de um trovão abafado. O calor cauterizou a pele instantaneamente, e o cheiro de ozônio misturado com carne queimada explodiu, sobrecarregando o sistema nervoso da criatura.

Ela recuou, uivando, batendo a cabeça cega nas paredes. Mas a recuperação foi rápida demais, antinatural. A pele queimada do focinho borbulhou, refazendo-se como piche negro e vivo. Irritada, a besta bateu a pata no chão. Três garras de Éter roxo rasgaram o ar à distância, atingindo Dante no peito e jogando-o contra a parede oposta.

Velvet correu até ele, ignorando o perigo.

— O que está acontecendo?!

Dante se ergueu, o sangue escorrendo pela testa, o corpo gritando em protesto. Ele a empurrou para trás dele, usando seu corpo como escudo.

— Fica atrás de mim!

Ele olhou para a besta. Seus olhos heterocromáticos brilharam na penumbra. E o sorriso... aquele sorriso estranho, quebrado e eufórico, voltou aos seus lábios. Velvet viu o sorriso. E, atrás das costas dele, no meio do terror, ela sorriu também.

A criatura parou. Um som horrível de ossos quebrando e se rearranjando ecoou pelo corredor. Sua espinha se alongou, as articulações inverteram-se com estalos úmidos. Ela se ergueu sobre as patas traseiras, transformando-se em um lobisomem titânico de quatro metros de altura, as garras pulsando com energia roxa malévola.

Eles correram um contra o outro. O monstro e o garoto demônio. A besta desferiu um golpe no ar, lançando lâminas de energia em forma de meia-lua. Dante puxou três bisturis do bolso. Ele não os jogou no monstro. Ele os jogou no caminho da energia. Chronos. Os bisturis congelaram no ar, tornando-se âncoras inamovíveis no espaço-tempo. As rajadas de energia roxa colidiram com eles e se dispersaram em explosões caóticas, protegendo Dante como um escudo improvisado de faíscas.

Dante tentou usar a fumaça da explosão para se esconder, mas o monstro era rápido demais. Ele sentiu a vibração do ar. Uma garra perfurou o abdômen de Dante de raspão, mas com força suficiente para levantá-lo do chão.

— ARGH!

O monstro liberou uma explosão de Éter à queima-roupa, jogando Dante para o alto. Ele atravessou o forro do teto e caiu na sala ao lado com um baque surdo.

Dante tentou se levantar novamente, mas suas pernas falharam. O lobo já estava em cima dele, pronto para esmagar seu crânio com uma pisada. Mas a besta parou. O focinho virou abruptamente. Velvet.

Ela estava no meio do corredor. Ela pegou um bisturi caído no chão e, sem hesitar, cortou a palma da própria mão com força. O sangue dela fluiu. O cheiro doce, irresistível, alucinógeno, inundou o ar como um perfume narcótico. A criatura ignorou Dante completamente. O instinto de matar foi substituído pela fome absoluta. Ela virou-se para a "Matriz", hipnotizada.

— Eu sabia... — Velvet riu, os olhos brilhando de loucura, correndo para longe, atraindo o monstro. — Meus irmãos querem me devorar!

— VELVET!

— Dante! — ela gritou, correndo descalça pelos cacos de vidro. — O cheiro! Pare de lutar contra ele! Use a Velvet também!

Dante piscou, a mente girando. "Usar a Velvet?" Ele olhou para a cena. A besta perseguindo a garota como um viciado atrás da dose. E algo mudou dentro dele. "Eu estou preocupado?" Não... O que ele sentia não era a preocupação nobre de um herói. Era uma excitação fria, tática e sádica. "Se ela vai arriscar... por que só ela pode se divertir?"

Dante respirou fundo. Ele desligou sua aura elétrica, suprimindo sua presença. O cheiro de ozônio sumiu. Ele se tornou um fantasma olfativo. O monstro só via Velvet. Só cheirava Velvet.

Dante avançou. Dessa vez, ele não sentiu o peso do dever. Ele sentiu a leveza insuportável da caçada. Ele flanqueou a besta, movendo-se no ponto cego. Ele arremessou um bisturi atrás da perna da criatura em movimento e, no momento exato, congelou o tempo no objeto. O monstro puxou a perna para dar o passo e rasgou o próprio tendão de Aquiles contra a lâmina imóvel.

ROAAAAR!

A besta tropeçou, a perna falhando. Dante surgiu das sombras, o machado erguido, o sorriso maníaco rasgando seu rosto manchado de sangue. Ele cravou o machado nas costelas expostas da criatura caída e liberou uma descarga elétrica brutal dentro da ferida aberta. A besta convulsionou, a carne fritando. Dante riu baixo. O som da própria risada o assustou por um segundo, mas a euforia era maior que o medo.

A criatura, cega de dor, decidiu acabar com a fonte de tudo. O instinto de sobrevivência superou a fome. Ela ignorou Dante e saltou na direção de Velvet, que estava encurralada no canto sem saída. O transe de Dante quebrou.

— NÃO!

Dante sobrecarregou as pernas com Éter, rompendo as próprias fibras musculares para cruzar a sala em um borrão sônico. Ele não tinha tempo de atacar. Só tinha tempo de chegar. Ele derrapou na frente de Velvet, ficando de costas para o monstro, abrindo os braços para cobri-la completamente.

As garras desceram. Não houve defesa. SHLACK!

As garras rasgaram as costas de Dante do ombro direito ao quadril esquerdo. O som de carne sendo separada foi nauseante, seguido pelo chiado de pele cauterizada pelo veneno do Éter roxo. O sangue de Dante explodiu, quente e abundante, banhando Velvet, que estava protegida no casulo de seu abraço.

— AAAAAARRGHHH!

Dante gritou, um som desumano de agonia que rasgou sua garganta. Seus joelhos cederam. Ele caiu sobre Velvet, o peso morto de seu corpo protegendo-a.

A besta recuou um passo, confusa pela mistura caótica de cheiros. Sangue doce e sangue elétrico. Ela levantou a pata trêmula para o golpe final. Decapitação dupla.

Dante estava no chão, a respiração borbulhando sangue nos pulmões. A dor era tanta que o mundo ficou branco. Mas, através da dor... a centelha estava lá. Ele ainda estava no jogo. Sua mão trêmula tateou o chão molhado. Encontrou um bisturi perdido. A besta inclinou a cabeça para morder.

Com um rugido final de desafio, Dante canalizou tudo o que restava. Ele magnetizou a poça de água e sangue sob a besta, travando as patas dela por um segundo precioso. E então, girando o corpo numa contorção de pura agonia, ele lançou o bisturi.

Aceleração Temporal.

O objeto saiu de sua mão não como uma faca, mas como um tiro de rifle sniper. Ele entrou direto no canal auditivo do lobo, perfurando fundo. O Éter instável na lâmina detonou dentro do crânio.

BOOM!

A cabeça do lobisomem explodiu de dentro para fora. Uma chuva grotesca de ossos negros, massa encefálica e sangue choveu sobre o vestiário destruído. O corpo titânico tombou para o lado com um baque pesado que estremeceu o chão.

Silêncio. Apenas a respiração rasgada e gorgolejante de Dante ecoava. Ele estava caído sobre Velvet, as costas transformadas em uma ruína fumegante de carne viva. Mas, se alguém olhasse para seu rosto ensanguentado apoiado no ombro dela... veria que o sorriso perturbado, insano e satisfeito ainda estava lá.

Parte 7

O pesadelo começou antes mesmo de ele acordar.

Dante não estava dormindo; ele estava flutuando em um vazio cinza, paralisado, uma consciência sem corpo assistindo a uma cirurgia de memórias roubadas.

“...Ativo 00-L... pertencente exclusivamente ao sangue de Velvet...” — Vozes de cientistas sem rosto ecoavam como trovões distantes, distorcidas pela estática do tempo. “...As quimeras humanoides... ativadas pelo mental da Matriz... ela penteava o reflexo... ...A única forma de impedir é lobotomizando-as, transformando-as em bestas irracionais... ...Lucius pediu para parar... não queria arriscar outro erro...”

Dante acordou com um engasgo violento, o corpo coberto de suor frio. O gosto rico da carne assada em sua boca agora tinha sabor de cinzas e culpa. Seu estômago deu um nó, uma convulsão que era tanto física quanto espiritual. Ele olhou para o lado. Velvet dormia, encolhida dentro do jaleco gigante como uma criança em uma tenda improvisada, a expressão perturbadoramente serena. Dante levantou-se devagar, as botas raspando no chão, cambaleando em direção à porta do vestiário. Ele precisava vomitar. Precisava purgar aquilo de dentro dele.

Dante flutuava em um oceano negro, viscoso e absolutamente frio.

Sua mente, desconectada da carne, demorava a ancorar na realidade, boiando como destroços de um naufrágio. Ele lembrava vagamente da batalha. O lobo titânico. O som nauseante das garras rasgando suas costas como papel molhado. O erro tático fatal de não ter religado a regeneração passiva. "Eu estou morrendo", ele constatou com uma calma gélida e clínica. "O sangue acabou. O frio que sinto agora são meus neurônios desligando um a um, como luzes numa casa abandonada."

Deveria haver pânico. O instinto de sobrevivência deveria estar gritando, arranhando as paredes da consciência. Mas tudo o que havia era um silêncio sedutor. "Talvez... não seja tão ruim", pensou ele, sentindo-se mais leve do que jamais foi. "Não ter que pensar em missões. Não ter que agradar a Família. Não ter que ser um herói ou um monstro. Apenas... nada. Essa é a verdadeira liberdade?"

A escuridão começou a abraçá-lo, doce e final. Mas então, uma imagem rasgou o vazio como um relâmpago. Cabelos prateados manchados de sangue. Olhos amarelos como o sol doente. Velvet.

"O que vai acontecer com ela se eu morrer?" Uma voz cínica e cansada, a voz de seu treinamento, sussurrou em sua mente: "E o que isso importa? Ela não é sua responsabilidade. Ela é só uma garota que você encontrou por acaso. Uma missão falha. Um dano colateral."

"Não." A negação veio rápida, violenta, trovejando na escuridão. "Isso não é verdade. Ela é minha responsabilidade. Você prometeu. Você disse que a ajudaria a sair. Mais do que isso... você a salvou. Você a manteve viva quando podia tê-la matado. Deixá-la viva ou morta nunca foi uma escolha do destino. Foi uma escolha SUA."

A memória tátil invadiu o vazio: a pele macia dela sob seus dedos, o cheiro doce de poeira e açúcar, o peso dela encolhida em seus braços no meio do inferno. "Ela te deu esse direito." A voz de Dante mudou, tornando-se mais sombria, possessiva, primal. "Ela se entregou a você. Ela é sua responsabilidade. Ela é sua propriedade."

A imagem do guarda puxando o cabelo dela voltou, vívida e cruel. A raiva que ele sentiu naquele momento reacendeu, uma brasa no gelo, queimando a apatia da morte. "Vai deixar que tomem de você? Vai deixar que peguem o que é seu? Ninguém toca no que é meu."

— NÃO TOQUE NELA!

Dante acordou com um grito, o corpo convulsionando violentamente. O ar invadiu seus pulmões secos com um chiado doloroso. Quando sua visão focou, o mundo girava. Ele não estava no inferno bíblico. Estava de volta à sala do vestiário destruído, onde haviam feito seu banquete. O cheiro de sangue era denso, sufocante, quase sólido.

Diante dele, Velvet estava ajoelhada. Seus olhos amarelos transbordavam lágrimas, o rosto sujo contorcido em pânico absoluto. Ao ver os olhos heterocromáticos de Dante se abrirem, ela soltou um soluço estrangulado e saltou sobre ele, abraçando-o com uma força desesperada.

— Dante! Dante!

Dante tentou se mexer, mas uma dor aguda, embora distante e amortecida, travou seus músculos. Ele olhou para baixo. Sua camisa estava em farrapos, uma ruína de tecido encharcada de sangue seco e... fresco? Ele tocou as costas com dificuldade. A pele estava sensível, cheia de cicatrizes irregulares, mas havia tecido novo. Rosado, feio e frágil, mas fechado.

"Regenerou?" Ele franziu a testa, a mente nublada. Ele tentou sentir seu núcleo de Éter. Estava quase vazio, um poço drenado até a lama. "Eu desativei a regeneração. Eu não tinha energia para isso. Como...?"

Ainda tonto, ele segurou Velvet pelos ombros magros e a afastou gentilmente, o suficiente para olhar em seus olhos.

— O que... o que aconteceu?

Velvet tremia como uma folha ao vento. Ela desviou o olhar, mordendo o lábio inferior com tanta força que um fio de sangue escorreu.

— Você... você vai ficar com raiva da Velvet? — ela sussurrou, a voz minúscula. — Você vai brigar com a Velvet? Vai chamar a Velvet de monstro?

Dante piscou, a confusão se transformando em alerta.

— Do que você está falando?

Foi então que ele olhou ao redor com atenção. A sala estava diferente. Havia muito mais sangue no chão do que antes. E em um canto escuro, havia restos. Ossos negros, grandes demais para serem da primeira quimera. Pedaços de carne fibrosa e peluda espalhados como lixo. Eram os restos do Lobisomem Gigante. "Ela... comeu?"

Dante colocou a mão na cabeça dela, sentindo o calor febril e o tremor sob seu toque.

— Eu não vou ficar irritado — ele disse, a voz rouca, tentando passar segurança. — Pode contar. Eu vou entender.

Velvet levantou os olhos, buscando a verdade no rosto dele como um náufrago busca terra firme.

— Promete?

— Prometo.

Ela fungou, limpando o nariz com a manga suja do jaleco que agora estava manchado de vermelho-escuro.

— Quando você venceu... você caiu. Havia tanto sangue, Dante. Você não estava se curando como a mamãe. Você estava ficando frio. Azul. — As lágrimas voltaram a cair grossas. — A Velvet ficou em pânico. E então... um calor acendeu aqui dentro. — Ela tocou o próprio peito com a mão ensanguentada. — Uma chama quente, igual àquela que aparece em volta de você quando luta. Eu senti... eu senti que podia salvar o Dante se eu comesse o Lobinho.

Dante arregalou os olhos.

— Você consegue fazer essa chama aparecer de novo?

Velvet assentiu. Ela fechou os olhos e concentrou-se. Uma aura tênue, instável e violeta, apareceu ao redor do corpo pequeno dela. Dante prendeu a respiração.

"Éter?"

Ela havia despertado. Ela era uma Gifted.

— O que você pode fazer com isso? — ele perguntou, a mente analítica lutando contra o choque emocional.

— Eu não entendo bem — ela admitiu, a aura desaparecendo com um estalo. — Mas eu sabia que se eu comesse o Lobinho, eu poderia aprender a curar alguém.

Ela se levantou e correu até a mesa, pegando um bisturi. Voltou saltitante, bizarra em sua inocência. Sem hesitar, ela cortou a palma da mão.

— Olha! — A ferida brilhou em roxo e se fechou em segundos, deixando apenas uma linha branca. — A Velvet agora também é capaz de regenerar! Que nem o Dante e a mamãe!

Dante sentiu um frio na espinha que não tinha nada a ver com a temperatura da sala.

— Como?

— A habilidade da Velvet... — ela explicou, tateando as palavras complexas para uma criança. — Eu aprendo o que eu devoro. Eu comi o lobo para ficar forte.

Dante olhou para suas próprias costas cicatrizadas. Tocou a pele irregular. Algumas partes estavam curadas, mas outras foram cicatrizadas por calor, e não de chamas, mas sim queimaduras elétricas. Ele conseguia sentir que foi eletrocutado por uma eletricidade que não era sua.

— Mas o lobo não tinha poder elétrico... nem regeneração rápida desse tipo capaz de curar outra pessoa. O que mais, Velvet? — A voz dele endureceu. — O que você está escondendo?

Velvet encolheu os ombros, escondendo as mãos nas costas subitamente.

— Nada...

— Velvet. — O tom de Dante foi severo. — Diga. Eu vou ficar irritado se você esconder.

Ela estremeceu, encolhendo-se.

— Você vai me odiar... você vai ficar com medo...

— Diga.

Tremendo, ela confessou num sussurro rápido e aterrorizado:

— Comer o lobo fez a chama da Velvet ficar maior. Mas eu só conseguia fazer as unhas brilharem. Para poder curar o Dante... para fazer as feridas fecharem com raiozinho... eu precisei comer uma parte do Dante também.

O mundo de Dante parou. Um zumbido agudo invadiu seus ouvidos, abafando o som do gotejamento dos canos. "Ela comeu... uma parte de mim." A lógica se formou instantaneamente em sua mente, fria, matemática e aterrorizante. Absorção de Habilidade via Consumo de Biomassa. Ela comeu o lobo para ganhar Éter bruto. E comeu a carne dele, a carne de Dante, para copiar sua habilidade temporal, mas, mais do que isso, sua afinidade elétrica, usando essa cópia para fechar as feridas dele externamente. Ela o salvou. Mas ela praticou canibalismo. Com ele.

— Espera... — a mente dele colapsava, girando em falso. — Isso não é importante... ela comeu carne humana...

"Mas você comeu a quimera, Dante!" Sua própria consciência gritou de volta. "A quimera era um monstro, mas tinha estrutura humana! Você também é um canibal! Ela comeu VOCÊ! Ela fez isso para te salvar! Ela é um monstro porque te salvou?!"

A cabeça dele começou a doer, uma enxaqueca violenta pulsando atrás dos olhos. Ele levou as mãos às têmporas, a respiração descompassada, o horror moral e a gratidão visceral lutando uma guerra civil dentro de seu peito.

Velvet viu a reação dele. Viu a pavor nos olhos que ela idolatrava. Preocupada, ela estendeu a mão para ele.

— Dante...? Está doendo?

Quando Dante viu a mão dela vindo em direção ao seu rosto — a mesma mão manchada que ela usou para se alimentar da carne dele — o instinto primitivo falou mais alto que a razão.

PLAFT!

Ele bateu na mão dela, um tapa reflexo, assustado, jogando-a para longe com violência.

O som do tapa ecoou na sala silenciosa como um tiro. Dante congelou, a mão ainda no ar, percebendo o que fez. Ele olhou para Velvet.

A expressão dela desmoronou. O medo que ela carregava desde a infância, a certeza implantada por Lucius e pelos guardas de que ela era uma abominação genética, tomou conta de cada traço de seu rosto.

— Eu sabia... — ela sussurrou, a voz quebrada em mil pedaços. — Dante odeia a Velvet agora. Dante quer que a Velvet morra.

Ela começou a recuar, arrastando-se para trás, os olhos arregalados de terror absoluto.

— Não... não é verdade... — Dante tentou se aproximar, ignorando a dor no corpo, estendendo a mão.

Velvet o empurrou com força, histérica.

— SAI! SAI! SAI! — ela gritou, tapando os ouvidos, encolhendo-se no canto. — A Velvet não quer mais ser chamada de monstro! A Velvet não quer mais viver sendo odiada! Sai!

Ela estava em pânico absoluto, balançando a cabeça freneticamente, as mãos agarrando os próprios cabelos prateados, puxando-os até a raiz.

— Eu sabia! Ele tem medo de mim! A Velvet é um monstro! A Velvet não merece ser amada! A Velvet destrói tudo o que toca!

Era uma espiral de autodestruição. O medo de Dante tinha sido a confirmação final de que ela era um erro da natureza. Ela estava quebrando diante dele, sua mente fragmentando-se em cacos afiados.

Dante viu aquilo. Viu a "Garota" se estilhaçando. Viu a única pessoa que, de forma distorcida e horrível, havia aceitado ele completamente, se sentindo rejeitada. Ele não tinha palavras. Não tinha lógica. A moralidade já tinha ido para o inferno quando ele comeu a quimera e sorriu matando o guarda.

Ele precisava calar aquela voz na cabeça dela. Ele precisava reivindicá-la, antes que a loucura a levasse.

Quando sua mente percebeu as contradições, já era tarde; ele estava tão confuso que nem sequer sabia mais o que era certo ou errado.

Dante avançou, ignorando os gritos dela. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, forçando-a a parar de se debater, prendendo-a ali com ele. E a beijou.

Não foi um beijo de filme romântico. Foi um choque de realidades. Foi bruto, desesperado, com gosto de sangue ferroso e lágrimas salgadas.

Velvet paralisou. O grito morreu em sua garganta, sufocado. A mente dela ficou em branco instantaneamente, um silêncio branco e puro. O pânico, o medo, o auto-ódio... tudo foi silenciado pela pressão dos lábios dele nos dela.

Dante se afastou milímetros, o rosto corado, a respiração ofegante misturando-se à dela, os olhos heterocromáticos cravados nos amarelos. Velvet podia ouvir. Tum-tum. Tum-tum. O coração de Dante estava batendo acelerado contra o peito dela. Ele não estava com medo. Ele não estava caçando. Ele estava... gostando de beijá-la.

Uma memória antiga emergiu na mente fragmentada de Velvet. Lucius e Kamui se beijando no laboratório estéril.

"Rover... como é beijar alguém?"

A voz do antigo guardião carinhoso ecoou como um fantasma.

"Quando se beija alguém que se ama, algo mágico acontece, Velvet. O coração acelera, a mente fica branca e tudo que você consegue pensar é na outra pessoa. Esse é o beijo do amor verdadeiro."

Velvet olhou para Dante. O corpo deles estava imundo. O cheiro de morte e vísceras impregnava o ar. O chão estava coberto de ossos roídos. Eles estavam em um abatedouro esquecido por Deus. Mas o coração dela disparou como um tambor de guerra. Um calor líquido inundou suas veias, uma excitação pura, elétrica e obsessiva que ela nunca havia sentido. A dúvida desapareceu.

Velvet foi até ele e o beijou. O coração dela também acelerou. "É isso", ela concluiu com a lógica absoluta, distorcida e inabalável.

Ela não tinha mais dúvidas. Aquele sentimento estranho... sem nenhuma dúvida, era o mais completo, puro e profundo amor.

Ela sorriu contra a boca dele, um sorriso torto e sangrento que selou o destino dos dois para sempre.


Posts recentes

Ver tudo
The Fall of the Stars: Capítulo 5 - No mesmo caixão

Volume 3: Sentido da Vida Parte 1 Algum tempo antes do laboratório se tornar uma ruína e uma Dungeon ... O laboratório ainda brilhava com a brancura clínica e asséptica da ciência no seu auge, um sant

 
 
 

Comentários


bottom of page