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The Fall of the Stars: Capítulo 5 - Estação Final

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 10 de ago. de 2025
  • 74 min de leitura

Volume 6: Antologias do Destino


Parte 1

Longe do caos que se instalava no vagão-restaurante, Ozen Halltorn estava em seu compartimento privado, o corpo relaxado na poltrona de veludo, embalado pelo balanço rítmico do trem. O uísque barato que ele bebera mais cedo pesava em suas pálpebras que tiveram que ser abertas mais cedo para pegar o trem, e ele se permitiu um raro momento de descanso, a cabeça pendendo para o lado enquanto o sono o reivindicava.

E com o sono, vieram os fantasmas.

A imagem em sua mente não era a dos penhascos ensolarados lá fora, mas a da chuva ácida e interminável da velha Nova Verezzi. Uma cidade que sangrava. A era dos Salazar. As ruas não eram de paralelepípedos, mas de vidro quebrado e cartuchos de bala. O ar não cheirava a sal, mas a pólvora, medo e sangue derramado em disputas territoriais que começavam ao amanhecer e só terminavam quando um lado não tinha mais homens de pé.

Ele era mais jovem, o rosto ainda sem as linhas de cansaço, mas o olho bom já carregava um peso que nenhum homem deveria ter. Ao seu lado, Regulus era uma sombra silenciosa, a venda já em seu rosto, a katana uma extensão de seu braço. Eram cães de guerra, os melhores mercenários que o dinheiro dos Salazar podia comprar. Matavam, extorquiam, incendiavam. Faziam o trabalho sujo que mantinha a "ordem" da família. Uma ordem construída sobre cadáveres.

A memória saltou para o fogo. Para o cheiro de sua própria casa queimando, as risadas dos homens de Salazar ecoando mais alto que os gritos de sua família. Uma lição. Uma demonstração de poder porque ele havia questionado uma ordem. Foi naquela noite que a lealdade morreu e a vingança nasceu. Ele e Regulus se viraram contra seus mestres, uma guerra de dois homens contra um império. Eles não venceram, mas sobreviveram, deixando um rastro de destruição que os tornou lendas e alvos.

Foi durante essa época, escondendo-se em um matadouro abandonado que servia de campo de treinamento para os cães de ataque dos Salazar, que ele a viu pela primeira vez. Ela não podia ter mais de treze anos. Pequena, magra, coberta por uma mistura de lama e sangue que não era dela. Seus olhos dourados eram ferozes, animalescos, vazios de tudo exceto instinto de sobrevivência. Eles a chamavam de "A Besta". Uma máquina de matar surda, que não ouvia os gritos de suas vítimas nem as ordens de seus mestres, apenas respondia a gestos e à sede de sangue que haviam instilado nela. Ela era uma ferramenta, descartável.

Enquanto Regulus montava guarda, Ozen se aproximou dela. A garota, Leona, estava agachada sobre o corpo de um homem, o peito dele aberto por suas unhas. Ela não o olhou, apenas continuou a respirar, ofegante como um animal após a caça. Ele viu os hematomas, as cicatrizes, a corrente presa a seu tornozelo. E sentiu uma dor profunda, uma empatia que ele pensava ter perdido no fogo.

Ele se agachou, entrando em seu campo de visão. Ela rosnou, um som gutural.

— Eles te deram um nome? — ele perguntou, mesmo sabendo que ela não podia ouvir. Ele apontou para si mesmo. — Ozen. — Então apontou para ela, com um olhar interrogativo.

Ela não respondeu. Apenas o encarou com aqueles olhos selvagens.

— Você não é um animal — ele disse, a voz suave. — Você é uma garota. Quer vir comigo? Não posso prometer segurança. Mas posso prometer que nunca mais ninguém vai colocar uma corrente em você.

Ele estendeu a mão, a palma aberta, sem armas. Um gesto de confiança em um mundo que só conhecia traição. Ela o observou por um longo tempo, o cérebro treinado para matar lutando contra um instinto mais antigo, quase esquecido. Lentamente, muito lentamente, ela ergueu a mão suja de sangue e a pousou na dele.

Um zumbido agudo em seu ouvido o arrancou da memória com um sobressalto. Ele piscou, desorientado, o cheiro de fumaça e sangue do passado substituído pelo cheiro de mogno polido do presente.

Ozen, responda! — A voz de Gustavo, tensa e urgente, soou pelo comunicador. — Temos um problema. Um grande problema. Vagão-restaurante. Agora!

Ozen se levantou em um pulo, o sono e o torpor do álcool evaporando instantaneamente. Ele saiu de seu quarto no mesmo instante em que Regulus saía do seu, do outro lado do corredor. Eles não precisaram trocar palavras. O olhar bastou.

Correram pelos corredores luxuosos, ignorando os olhares assustados dos outros passageiros. Ao chegarem à entrada do vagão-restaurante, a cena era de puro pandemônio. Pessoas gritavam, outras estavam encolhidas em seus assentos, e no centro de tudo, um corpo estava caído sobre uma mesa em uma poça de sangue.

E ali, bem no meio do furacão, estavam elas. Miriam, pálida como um fantasma, tremendo da cabeça aos pés. E Leona, de pé ao lado dela, protetora, os olhos dourados varrendo a multidão com uma fúria fria, pronta para atacar qualquer um que se aproximasse demais.

Ozen passou a mão pelo cabelo, um suspiro pesado escapando de seus lábios. Ele sentiu uma dor de cabeça se formando atrás do olho bom, uma tensão familiar que o acompanhava desde que decidira ser o protetor de almas perdidas.

"Às vezes, acho que tenho mais trabalho agora que saí da vida de mafioso do que na época em que era um", ele pensou, o sarcasmo amargo misturado a uma preocupação genuína e avassaladora pelas duas garotas que ele havia arrastado para o meio daquele ninho de cobras.

Ele endireitou os ombros, a expressão de cansaço dando lugar a uma máscara de autoridade calma. Era hora de trabalhar.

 Parte 2

Enquanto a equipe de segurança da Osdra, liderada pelos imponentes Ozen e Regulus, se esforçava para conter a crescente onda de pânico no vagão-restaurante, o maquinista-chefe corria na direção oposta. Alistair Finch, um novato em seu primeiro dia que logo de cara recebeu a responsabilidade de comandar a maior maravilha de Elysium, estava pálido como um fantasma. O metal polido e a madeira de lei dos corredores do Expresso Elysian pareciam zombar dele, a opulência do trem agora uma moldura macabra para o desastre. Um assassinato. Na viagem inaugural. Ele já podia ver as manchetes, sentir a mancha do desastre do Titanic respingando no trem impecável. Isso não podia, em hipótese alguma, vazar para a imprensa.

Sua mente frenética vasculhou a lista de passageiros. Havia uma detetive a bordo, ele sabia. Uma tal de Hawthorne. Com o coração martelando contra as costelas como um pistão, ele usou o comunicador para mandar um dos serviçais bater na porta do compartimento indicado.

Dentro, Ellie Hawthorne estava com os pés descalços apoiados em uma poltrona de veludo, completamente absorta em um romance de mistério barato intitulado Morte no Expresso de Órion. Ela se deliciava com a ironia da situação.

— O que foi agora, Simon? — disse ela, sem tirar os olhos do livro, a voz arrastada pela preguiça. — Se você me disser mais uma vez que o padrão do carpete não é perfeitamente simétrico com as luminárias, eu juro que te uso como polidor de sapatos.

— Desta vez, a falta de simetria não é o problema, Eleanor — respondeu uma voz formal e ligeiramente tensa. Simon, seu assistente meticuloso e impecavelmente vestido, abriu a porta para revelar a mensagem do maquinista.

Ellie suspirou, um som longo e sofrido, fechando o livro com um estalo que pareceu ecoar a sua resignação. O dilema era simples: investigar um assassinato real e bagunçado ou passar o resto da viagem aguentando os olhares de julgamento de Simon por sua completa falta de iniciativa.

— Tudo bem, tudo bem, eu vou — disse ela, levantando-se com a relutância de quem é forçado a trabalhar nas férias. Ela calçou as botas, o movimento deliberadamente lento. — Mas se não tiver um bar decente perto da cena do crime, eu volto para o meu livro.

Ao chegarem ao vagão-restaurante, a cena estava mais controlada, graças a Ozen e Regulus, que haviam usado as próprias cordas de veludo do trem para improvisar um perímetro. O cheiro de vinho derramado e algo mais metálico e adocicado pairava no ar. Ellie passou por baixo da fita improvisada, os olhos percorrendo o ambiente com uma calma que beirava o tédio. Ela observou o corpo caído ao lado de uma mesa, a faca de cabo de madeira ainda cravada em seu peito, e a mulher em prantos sendo consolada por uma passageira de aparência gentil, Mikaela.

Simon, ao seu lado, observava-a com uma expectativa quase infantil. — E então? Parece um osso duro de roer, não é? Finalmente um desafio à sua altura?

Ellie bocejou, um gesto teatral e sem remorso. — Desafio? Simon, por favor, não me ofenda. — Ela apontou com o queixo para a mulher chorosa, Salomé, a acompanhante da vítima. — Foi ela.

— O quê? Como você pode saber com tanta certeza? — perguntou Simon, a admiração e a frustração batalhando em sua expressão.

— É óbvio, meu caro. É um crime passional de livro de regras, capítulo um. A arma? Uma faca de cozinha do balcão. Sem planejamento, pura impulsividade. A vítima, pelo que ouvi dos cochichos, estava flertando descaradamente com outra mulher bem na frente dela. Ela teve um acesso de raiva, pegou a primeira coisa que viu e o esfaqueou. — Ellie deu de ombros. — Isso não se qualifica nem como um passatempo, quanto mais um mistério. Encontre essa outra mulher para corroborar a história, e a Salomé provavelmente confessará antes mesmo de você terminar a primeira pergunta.

Simon parecia desapontado com a simplicidade da solução, mas antes que pudesse argumentar, uma comoção começou entre os passageiros que observavam à distância.

— Mas... como? — disse Fávaro com o rosto pálido, e a voz trêmula. — Ele... ele era um vampiro! — ele perguntou revelando a verdade pois queria saber se a grande detetive poderia tirar sua dúvida. 

— Um vampiro? Só pode estar de brincadeira, mas espera, uma facada não deveria matar um deles… — murmurou Ozen.

A informação pairou no ar, densa e fria, mudando completamente o peso da situação. O murmúrio se transformou em um zumbido de medo e incredulidade. Ellie, que já se virava para ir embora em busca daquele bar prometido, parou. Ela se virou lentamente, e pela primeira vez naquela noite, um brilho de genuíno interesse surgiu em seus olhos. A máscara de tédio se desfez.

Ela se aproximou do corpo, ignorando os olhares chocados, e ajoelhou-se ao lado do vampiro. Com um lenço tirado do bolso, ela examinou a ferida e a faca com uma atenção minuciosa que não demonstrara antes. A faca era de aço comum, com a marca da própria companhia ferroviária gravada no cabo. Era uma faca de cortar pão.

— Ah... — disse ela, um pequeno sorriso se formando no canto de seus lábios. Ela se levantou, o olhar fixo na arma do crime. — Um vampiro. Morto por uma faca de cortar pão.

Ela se virou para Simon, e seus olhos brilhavam com uma nova e perigosa energia.

— Esqueça o que eu disse. Encontre a garota, converse com ela, mas não a prenda ainda. Trate-a como uma testemunha abalada.

Ellie olhou para o cadáver, para os rostos confusos e assustados ao redor, e para a imensidão desconhecida do céu noturno que passava velozmente pela janela do trem. O zumbido dos motores parecia agora a trilha sonora de algo muito mais interessante.

— Isso, meu caro Simon — concluiu ela, a voz agora vibrante, cheia de um entusiasmo contagiante. — Isso sim é o verdadeiro mistério.

 Parte 3

Nos confins do Expresso Elysium, onde o brilho dos lustres de cristal da primeira classe não alcançava, a realidade assumia um tom mais cru, quase palpável em sua sordidez. O último vagão, um compartimento de serviço esquecido pela opulência do trem, era um antro de sombras e cheiros pesados. O ar carregava o fedor de graxa rançosa, misturado ao dulçor enjoativo de bebida barata e ao suor de corpos amontoados. Era ali, no coração da podridão, que Don Brown, o temido chefe dos gângsteres, havia montado seu ninho.

Enquanto um quarto luxuoso com seu nome, decorado com tapeçarias de veludo e garrafas de champanhe intocadas, servia de isca na frente do trem, Brown aproveita sua viagem de trem, no escuro. O vagão de serviço, com suas paredes de metal enferrujado e lâmpadas tremeluzentes, era seu verdadeiro domínio. Uma cama improvisada, feita de cobertores puídos e um colchão manchado, ocupava o centro do espaço. Brown estava afundado nela, o corpo suado e reluzente sob a luz fraca, entrelaçado com quatro prostitutas que ele contratou para a viagem. Suas risadas roucas ecoavam no ambiente claustrofóbico, misturando-se ao tilintar de garrafas e ao ronco baixo dos trilhos sob o trem.

Seus homens, um grupo de brutos vestindo ternos amassados, com gravatas tortas e cigarros pendurados nos lábios, estavam espalhados pelo vagão. Alguns bebiam uísque direto do gargalo, outros jogavam cartas em uma mesa improvisada, as mãos calejadas segurando ases manchados de cinza. Eles observavam o chefe com uma mistura de reverência e impaciência, esperando ordens enquanto o trem cortava a noite.

— Eu não quero ter que explicar o básico de novo! — rugiu Don Brown, a voz pastosa pelo álcool e pelo prazer, enquanto arrancava uma garrafa de vinho tinto da mão de uma das mulheres. O líquido escorreu pelo canto de sua boca. — Vão até o vagão daquele nobre idiota, matem os seguranças dele e o tragam aqui. Rápido e sem frescura. Se alguém vir, não importa. Em último caso, a gente sequestra a porra do trem inteiro!

Ele explodiu em uma gargalhada, o som reverberando como um trovão no espaço apertado. Puxou uma das mulheres para mais perto, os dedos grossos apertando a carne dela enquanto seu corpo se contorcia em um espasmo de êxtase. — É isso... É assim que se faz... — murmurou, os olhos semicerrados, perdido em sua própria decadência.

Uma batida seca na porta cortou a celebração como uma faca. O som foi abafado pelo barulho do trem, mas firme o suficiente para fazer as cabeças virarem.

— Serviço de quarto — anunciou uma voz do outro lado, abafada pelo metal da porta.

Um dos homens de Brown, um sujeito corpulento com uma cicatriz cortando a sobrancelha, abriu a porta com um grunhido de desdém. Ele esperava encontrar um garçom acovardado com uma bandeja de prata. Em vez disso, deparou-se com Frank Malone, o líder de uma facção rival, ladeado por dois capangas vestidos com uniformes impecáveis de funcionários do trem. Antes que o gângster pudesse processar a cena, o capanga à direita de Malone, um homem magro com olhos brilhantes e um sorriso de maníaco, moveu-se com uma velocidade sobrenatural. A manga de seu uniforme pareceu ondular, como se estivesse viva, e, em um movimento fluido, ele sacou duas pistolas reluzentes, como um mágico tirando coelhos de uma cartola.

O som dos tiros explodiu no vagão, ensurdecedor no espaço confinado. O atirador, conhecido como Johnny "Cigarra" por seu riso estridente, gargalhava enquanto as balas rasgavam carne e osso. O que havia sido uma cena de orgia se transformou em um matadouro em questão de segundos. As mulheres gritaram, seus corpos se encolhendo em pânico enquanto tentavam se arrastar para fora da cama. Os homens de Brown, pegos desprevenidos, tentaram sacar suas armas, mas era tarde demais. O sangue jorrava, manchando as paredes de metal e formando poças escuras no chão.

Em poucos instantes, o vagão ficou em silêncio, exceto pelo gotejar constante do sangue e pela respiração ofegante de Johnny, que ainda segurava suas pistolas fumegantes, o sorriso nunca deixando seu rosto.

Frank Malone entrou no compartimento, seus sapatos de couro polido pisando com cuidado para evitar as poças carmesim. Ele observou a cena com uma calma gélida, os olhos percorrendo os corpos espalhados até se fixarem em Don Brown. O chefe dos gângsteres estava caído na cama, um buraco perfeito no meio da testa, os olhos abertos em uma expressão de choque congelado.

— Bom trabalho, Cigarra — disse Frank, a voz firme como aço. — Agora, o resto. Use suas... mangas. Peguem tudo de valor neste trem. Joias, dinheiro, artefatos. E já que estamos aqui, deem um sumiço nesses corpos também. Não quero deixar lixo para trás.

Johnny sorriu, um brilho febril nos olhos. Ele estendeu as mãos na direção dos cadáveres, e as mangas de seu uniforme se abriram como bocas famintas, prontas para engolir a evidência. O tecido parecia pulsar, movendo-se com uma vida própria, enquanto começava a envolver os corpos caídos.

Foi então que um gemido baixo cortou o silêncio.

Todos congelaram. Um dos homens de Brown, com três buracos de bala no peito, começou a se mexer, os dedos tremendo enquanto ele tentava se apoiar no chão. Outro gângster, com o rosto metade destruído por um tiro, soltou um grunhido rouco e se sentou. E então, o próprio Don Brown, o corpo inerte até momentos antes, abriu os olhos. O sangue escorria de sua testa, através do buraco da bala. Ele se sentou na cama, os olhos arregalados de pânico e confusão, as mãos trêmulas tateando os ferimentos que não paravam de sangrar.

— Mas que... merda... — ele ofegou, a voz fraca, enquanto olhava para as próprias mãos, depois para os buracos em seu peito e abdômen. — Isso... isso não é possível...

Os outros gângsteres também se levantavam, cambaleando como marionetes com cordas cortadas. Seus olhos refletiam um terror mudo, as mãos tocando os ferimentos mortais que, de alguma forma, não os matavam.

— Frank... — Don Brown gaguejou, o olhar fixo no chefe da máfia rival. — Que porra você fez com a gente?!

Frank Malone recuou um passo, o rosto normalmente impassível agora contorcido em pura incredulidade. Ele olhou para seus homens, que estavam tão chocados quanto ele, as armas ainda em punho, mas sem ação. Johnny deixou o sorriso morrer, as pistolas pendendo frouxas em suas mãos.

— Eu... eu não sei — respondeu Frank, a voz reduzida a um fio, quase engolida pelo zumbido baixo do trem.

Um silêncio bizarro se instalou no vagão, pesado como uma mortalha. Lá na frente do Expresso Elysium, um imortal havia morrido de forma impossível, desafiando as leis que governavam sua existência. E aqui, nos confins do trem, mortais se recusavam a morrer, seus corpos desafiando a lógica e a natureza. O tecido da realidade a bordo do Expresso Elysium estava se desfazendo, costura por costura, como uma tapeçaria antiga rasgada por mãos invisíveis. O trem continuava sua jornada pela noite, alheio ao caos que se desenrolava em seu interior, enquanto o destino de todos a bordo permanecia envolto em sombras.

Parte 4

No vagão-restaurante do Expresso Elysium, o ar ainda carregava o peso da tensão, como se o próprio ambiente soubesse que algo estava irrevogavelmente errado. Os lustres de cristal pendiam do teto, lançando reflexos dourados sobre as mesas cobertas com toalhas de linho branco, agora ligeiramente desalinhadas pelo tumulto recente. O cheiro de café caro e pratos de faisão assado se misturava ao leve odor metálico de sangue, uma lembrança do vampiro que jazia morto em um canto coberto por um lençol improvisado. A alta sociedade, que momentos antes sussurrava em pânico, agora se dispersava, guiada por funcionários nervosos do trem, deixando o vagão quase vazio, exceto por um punhado de figuras centrais na trama que se desenrolava.

Ellie Hawthorne, a detetive de olhos afiados como lâminas, dispensou Simon com um aceno firme, quase impaciente. — Interrogue a garota, a tal Salomé. Tenho certeza de que foi ela, mas o como é mais interessante que o quem. Preciso saber o que tornou a morte de um vampiro possível.

Simon, um homem de ombros largos e expressão cansada, assentiu sem questionar, desaparecendo pelo corredor com a determinação de quem estava acostumado a seguir ordens. Ellie se virou, seus olhos analíticos varrendo o vagão antes de se fixarem no corredor que levava ao coração do trem. O assassino era óbvio — Salomé, com seu charme enigmático e olhares furtivos, era a peça mais visível do quebra-cabeça. Mas a causa, o como um vampiro imortal pôde ser reduzido a um cadáver, era um mistério que pulsava em sua mente como uma enxaqueca. Ela suspeitava que a resposta estava guardada entre os tesouros que o trem transportava. Talvez uma relíquia, um artefato proibido, algo que desafiava as leis da própria existência, estivesse sendo escoltado nas entranhas do Expresso Elysium.

Ozen Halltorn, encostado em uma coluna de mogno polido, observava a detetive com uma mistura de curiosidade e cautela. A morte do vampiro era uma anomalia inquietante, mas sua mente estava em outro lugar. Malone. Os Shapers. E, acima de tudo, as palavras crípticas de Sofia, que o avisara antes da viagem: “Essa não será uma viagem tranquila.” Ele endireitou o corpo, o casaco levemente, e se aproximou de Regulus, seu companheiro silencioso.

— Fique de olho nas coisas por aqui — disse Ozen, a voz baixa, quase engolida pelo zumbido distante do trem. — Vou dar uma olhada no cofre. Leona, comigo.

Regulus, assentiu lentamente. — Tenha cuidado. Estou sentindo algo... errado. Vem dos vagões de trás. Uma energia distorcida.

Ozen franziu o cenho, mas não respondeu. Ele conhecia Regulus o suficiente para confiar em seus instintos. Algo estava fora de lugar, e não era apenas o cadáver do vampiro. Ele acenou para Leona. Ela se aproximou com passos silenciosos, a postura de quem estava sempre pronta para a ação.

Os dois se aproximaram de Ellie, que os mediu com um olhar avaliador, como se estivesse pesando suas intenções. Ozen notou a rapidez com que ela havia tomado o controle da cena, acalmando os passageiros e isolando o corpo, e decidiu jogar com isso. Ele suavizou a voz, deixando de lado o tom malandro que costumava usar como escudo.

— Detetive Hawthorne — começou ele, o tom um pouco mais grave, quase respeitoso. — Belo trabalho em acalmar os ânimos. Parece que temos interesses em comum em garantir que este trem chegue inteiro ao seu destino.

Ellie ergueu uma sobrancelha, o rosto impassível, mas seus olhos brilharam com um leve interesse. — E o que você quer, senhor...?

— Halltorn. Ozen Halltorn. E eu quero ajudar. Meus homens e eu fomos contratados para auxiliar a segurança do trem. E algo me diz que a resposta para... isso — ele gesticulou vagamente para o lençol que cobria o vampiro — não está aqui.

Ellie o estudou por um momento, os dedos tamborilando levemente contra a coxa. Ele tinha informações, era competente. Podia ser útil, mas ela não confiava facilmente. — Contanto que não atrapalhe, pode vir. Mas quem manda sou eu.

Ozen abriu um sorriso charmoso, inflando o ego dela com a precisão de um artista manipulando sua tela. — Jamais sonharia em atrapalhar uma mente tão brilhante em ação, detetive. Seremos suas sombras.

Antes que pudessem prosseguir, uma voz cortou o ar. — Eu também vou — declarou Miriam, dando um passo à frente. Seus olhos castanhos brilhavam com uma determinação teimosa, mas suas mãos tremiam levemente, traindo o nervosismo.

Ozen se virou para ela, o sorriso desaparecendo. — Miriam, é melhor não. Pode ser perigoso.

— Eu estou cansada de ser protegida, Ozen! — ela retrucou, a voz firme, embora carregada de emoção. — Eu sou parte desta equipe. Eu posso ajudar.

Atrás de Miriam, Leona chamou a atenção de Ozen com um olhar. Sem que a jovem visse, ela fez uma série de sinais rápidos com as mãos. [Deixe-a vir. Eu cuido dela.]

Ozen suspirou, apagando o cigarro que acabara de acender contra o salto da bota. Ele olhou para Miriam, para a chama obstinada em seus olhos, e pensou em como as crianças cresciam rápido — às vezes, rápido demais. — Tudo bem. Mas se as coisas ficarem feias, vocês duas voltam. Sem discussão.

O trio seguiu Ellie pelo corredor, o som de seus passos ecoando contra o assoalho de madeira polida. Enquanto caminhavam, Ozen deixava escapar pedaços de informação, cuidadosamente editados, sobre a missão de sua equipe. Ellie escutava, juntando as peças com uma precisão quase mecânica, mas parou abruptamente, girando nos calcanhares para encará-los.

— Então, vamos ver se eu entendi — disse ela, sem olhar para trás por mais de um segundo. — O grupo de vocês foi contratado pela polícia de Nova Verezzi para ajudar na proteção de um trem que se dizia o mais seguro de Elysium, durante sua viagem inaugural, que, por acaso, tem um chefe da máfia e um chefe de gangue perigoso a bordo? — Ela fez uma pausa, os olhos fixos em Ozen, um leve sorriso sarcástico nos lábios. — A polícia de Nova Verezzi deve ter pago uma fortuna, porque, de outro jeito, nem eu viria.

Ozen e Miriam se entreolharam, surpresos com a rapidez com que ela havia conectado os pontos. Leona, impassível como sempre, continuou andando, os olhos fixos no corredor à frente

— Você é boa — admitiu Ozen, com um leve aceno de cabeça.

— E vocês? — perguntou Miriam, a curiosidade superando a cautela. — Por que estão aqui?

Ellie riu, um som seco que ecoou como uma nota dissonante no corredor. — Nós? Ao contrário de vocês, não fomos contratados. Estamos apenas voltando para casa depois de um trabalho. Eu só queria relaxar e ler meus livros. Então, quanto mais rápido resolvermos isso, mais rápido eu volto para as minhas férias.

Parte 5

O corredor que levava ao vagão de carga do Expresso Elysium era um contraste gritante com o luxo dos vagões anteriores. Suas paredes de aço polido refletiam a luz fria das lâmpadas fluorescentes, que piscavam ocasionalmente, lançando sombras inquietas no chão. O ar era pesado, com um leve cheiro de óleo de máquina e metal aquecido, um lembrete da funcionalidade bruta daquela seção do trem. Ludmilla Farnese e Daemon Hakurei, estudantes da Academia Babylon, estavam de guarda. Como caçadores em uma missão oficial da própria cidade de metal, eles tinham permissão especial para permanecer naquela área restrita.

O problema de estar lá é que as notícias chegavam em fragmentos desconexos, trazidas por funcionários do trem que corriam pelo corredor com olhos arregalados e vozes trêmulas. Primeiro, vieram os boatos de uma guerra de gangues nos vagões traseiros, um conflito sangrento que parecia ter transformado os confins do trem em um campo de batalha. Depois, a descoberta arrepiante de que todas as comunicações com o exterior haviam sido cortadas, deixando o Expresso Elysium isolado em sua jornada. Por fim, um guarda pálido, enviado pelo maquinista-chefe, trouxe a confirmação oficial: um assassinato no vagão-restaurante. Um vampiro, uma criatura supostamente imortal, estava morto.

— Um assassinato na frente, uma guerra nos fundos... — murmurou Daemon, sua mão repousando no cabo da espada embainhada ao seu lado. Seus olhos, de um cinza tempestuoso, varriam o corredor, alertas para qualquer movimento. — Estamos presos em uma lata de sardinha com tubarões.

Ludmilla, por outro lado, permanecia em silêncio, seus olhos vermelhos percorrendo o ambiente com uma intensidade analítica. Ela ajustou o quepe militar, o gesto automático de quem tentava manter a compostura em meio ao caos. Seus pensamentos giravam em torno das possibilidades, cada uma mais perturbadora que a anterior.

— É a maldição do Titanic de novo? — perguntou um dos guardas oficiais, um homem de meia-idade com a voz trêmula e o uniforme amarrotado pelo nervosismo. — Ou será que um dos itens que estamos transportando...?

Ele não terminou a frase, como se o próprio pensamento fosse perigoso demais para ser pronunciado. Ludmilla o ignorando com um olhar firme, sua voz cortando o ar como uma lâmina. — Não podemos ficar parados. Um de nós precisa investigar enquanto o outro protege a jóia.

Daemon assentiu, a expressão endurecida pela determinação. — Eu concordo. Vá você. Sua habilidade é mais adequada para investigação. Eu fico.

Ludmilla ajustou a postura, pronta para partir, quando uma voz cortante, carregada de autoridade, ecoou pelo corredor estéril.

— Ninguém se move.

Ellie Hawthorne surgiu na entrada do corredor, sua silhueta recortada contra a luz suave do vagão anterior. Seus olhos, afiados como os de um falcão, varreram o ambiente, avaliando cada pessoa presente. Atrás dela vinham Ozen Halltorn, com seu ar de malandragem cuidadosamente contido, Leona, cuja presença silenciosa parecia carregar uma ameaça implícita, e Miriam, visivelmente nervosa, mas mantendo a cabeça erguida. Ellie fixou o olhar nos estudantes de Babylon e nos guardas, sua expressão deixando claro que não havia espaço para questionamentos.

— Ótimo, mais jogadores — disse ela, a voz carregada de sarcasmo. — Vou investigar um de cada vez para ver quem pode ser nosso assassino. — Ela se virou para o grupo de Ozen, apontando um dedo acusador. — Ajudem-me a garantir que ninguém saia daqui.

Ozen já estava em ação, seu charme habitual dando lugar a uma eficiência fria. Ele posicionou Leona e Miriam estrategicamente no corredor, os olhos atentos a qualquer movimento suspeito. Foi então que seu comunicador chiou, quebrando o silêncio tenso.

— Ozen, é o Gustavo — veio a voz do outro lado, baixa, mas clara. — Diga à detetive que invadi as câmeras de segurança deste corredor. Ninguém entrou ou saiu nos últimos trinta minutos, exceto o guarda que foi levar a notícia.

Ozen sorriu, um brilho de satisfação nos olhos. — Detetive, meu especialista em tecnologia acabou de me informar que ele tem controle visual total desta área. Ele saberá se alguém sequer piscar fora de hora.

Ellie ergueu as sobrancelhas, visivelmente impressionada, mas sem perder a compostura. — Seu garoto é eficiente. Ele não quer mudar de emprego e vir trabalhar como meu assistente? O meu atual só reclama do carpete e perde tempo escrevendo romances chatos.

Ozen riu, o som ecoando no corredor como uma nota de leveza em meio ao caos. — Opa, calma aí, nada de tentar levar um dos meus melhores ativos assim na cara dura.

A investigação começou, e Ellie se aproximou de Ludmilla, os olhos semicerrados enquanto a avaliava. — E você, senhorita...?

— Ludmilla Farnese — respondeu a estudante, o quepe militar conferindo-lhe um ar de autoridade que rivalizava com o da detetive. — O que está acontecendo aqui?

Ellie, impaciente para prosseguir, fez um gesto vago com a mão. — Alguém, por favor, explique a situação para ela. Não quero perder tempo.

A responsabilidade recaiu sobre Miriam, que deu um passo à frente, respirando fundo para acalmar os nervos. Sua voz tremia ligeiramente no início, mas ganhou força à medida que falava. — Bem... tudo começou quando um vampiro foi assassinado com uma faca de pão no vagão-restaurante…

Parte 6

Enquanto a investigação se desenrolava no coração do Expresso Elysium, um inferno silencioso irrompia nos confins do trem. Os ecos dos tiros, que haviam aterrorizado os passageiros momentos antes, haviam cessado, mas o silêncio que se seguiu era muito mais perturbador. Era um silêncio carregado, como o instante antes de uma tempestade, onde o ar parecia vibrar com uma energia maligna, sufocando qualquer esperança de normalidade.

No vagão de carga, um espaço cavernoso repleto de caixas de madeira reforçadas e correntes penduradas como teias de aranha, Claire Novra, a líder tática dos Imortais, mantinha-se de pé, os olhos fixos na porta de aço reforçado à sua frente. O ambiente era claustrofóbico, iluminado apenas por lâmpadas industriais que zumbiam com uma frequência irritante, lançando sombras dançantes nas paredes metálicas. O ar cheirava a ferrugem e poeira, misturado ao leve odor de pólvora que ainda pairava dos conflitos distantes. Claire, com seu uniforme tático impecável e os cabelos loiros presos em um coque apertado, exalava autoridade, mas seus olhos traiam uma crescente apreensão.

— As coisas estão ficando feias — murmurou ela, a voz firme, mas carregada de tensão. — Favaro ainda não voltou para confirmar se cortou as comunicações. Talvez seja melhor irmos até o cofre agora, pegar o artefato e saltar do trem. Se a situação piorar, pelo menos a culpa do roubo recairá sobre os mafiosos.

Isaac Soltone, seu companheiro de longa data, concordou com um aceno curto. Seus olhos, de um castanho profundo, refletiam uma determinação inabalável, mas também uma sombra de cansaço. Ele ajustou o cinto de armas, os dedos roçando o cabo de sua pistola com um gesto quase inconsciente. Quando Claire se levantou, o som metálico de suas botas ecoando no chão, a porta do outro lado do vagão foi escancarada com um estrondo ensurdecedor, como se o próprio trem gritasse em protesto.

Frank Malone entrou cambaleando, o terno outrora impecável agora manchado de sangue escuro, as lapelas rasgadas e o colarinho encharcado. Seus olhos estavam arregalados, selvagens, como os de um animal acuado, e seu rosto, normalmente composto, era uma máscara de pavor psicológico. Ele tropeçava como um bêbado, as mãos tremendo enquanto tentava se equilibrar. Atrás dele, seus homens, incluindo Johnny, pareciam igualmente desequilibrados, murmurando frases desconexas, os rostos pálidos e suados. Suas roupas estavam rasgadas, manchadas de sangue seco, e seus movimentos eram erráticos, como bonecos manipulados por cordas quebradas.

— Eles não morrem... eu não morro... como? — balbuciou Frank, a voz rouca, quase inaudível, enquanto seus olhos percorriam o vagão sem foco. A experiência de ter seu corpo destruído por balas, de sentir a dor lancinante de cada ferimento sem o alívio da morte, havia despedaçado sua mente. Ele pressionou as mãos contra as têmporas, como se tentasse segurar os fragmentos de sua sanidade.

— Matem todos! — gritou ele, a voz se partindo em um uivo de pânico. — Alguém está fazendo isso! Descubram quem é! Matem todo mundo!

Seus homens, movidos pelo mesmo terror visceral, ergueram suas armas com mãos trêmulas. Johnny, o rosto ainda respingado com o sangue de Don Brown, deu um passo à frente, os olhos brilhando com uma mistura de loucura e desespero. — Só atirar não adianta! — berrou ele, a voz estridente cortando o ar. — Temos que destruir os corpos! Despedaçá-los até que não consigam mais se levantar!

O frenesi explodiu como uma chama em um barril de pólvora. Balas voaram pelo vagão, ricocheteando nas paredes de aço e estilhaçando caixas de madeira. O som era ensurdecedor, um rugido que abafava até mesmo o zumbido constante do trem. Claire se abaixou atrás de uma pilha de caixas, o coração disparado, enquanto calculava suas opções.

— Que péssima hora... — murmurou ela, os olhos estreitados enquanto acompanhava o caos.

Isaac, no entanto, não esperou. Com um rugido gutural, ele avançou contra os mafiosos, movido por uma coragem imprudente. Sua figura imponente atravessou o vagão como um touro, mas foi recebido por uma saraivada de tiros. Uma bala atingiu sua cabeça com um baque surdo, o impacto ecoando como um trovão. Ele caiu no chão como um saco de pedras, o corpo inerte, o sangue formando uma poça escura sob sua cabeça.

— Não seja idiota! — gritou Claire, a voz carregada de urgência. — Espere a munição deles acabar!

Ela esperou, o coração na garganta, que seu amigo imortal se levantasse, como sempre fazia. Mas Isaac permaneceu imóvel. O sangue continuava a se espalhar, viscoso e escuro, manchando o chão de metal. Ele estava morto. Morto de verdade.

— ISAAC! — O grito de Enies, a mais jovem do grupo, cortou o ar como uma lâmina. Sua voz, carregada de dor e fúria, reverberou pelo vagão. Seus olhos brilharam com uma luz etérea, o Éter pulsando em suas veias como uma corrente elétrica. — Vocês...

Com um salto, Enies ativou seu poder. As solas de suas botas brilharam com um brilho azulado, e cada superfície que ela tocava — o chão, as paredes, as caixas de carga — se transformava em um trampolim superelástico. O vagão, com seu espaço confinado, tornou-se seu playground. Ela ricocheteava em ângulos impossíveis, a velocidade aumentando a cada impacto, até que se tornava um borrão de movimento. Seus chutes eram devastadores, quebrando crânios e esmagando ossos com uma precisão letal. Os mafiosos caíam como dominós, seus corpos desabando em ângulos grotescos.

Claire saltou para se juntar a ela, a adrenalina pulsando em suas veias, mas parou, horrorizada. Os mafiosos que Enies acabara de abater, com pescoços quebrados e cabeças esmagadas, começaram a se levantar. Seus corpos se contorciam em movimentos antinaturais, os ossos estalando enquanto se realinhavam. Um deles, com o rosto reduzido a uma massa disforme, soltou um gemido rouco, os olhos vazios fixos em Enies.

— O que está acontecendo? — sussurrou Claire, a voz tremendo pela primeira vez. Seu treinamento como líder tática não a preparou para aquilo. Nada a preparou para aquilo.

Foi então que uma voz calma, quase melancólica, cortou o caos como uma brisa fria em uma noite de verão.

— Nada de especial. Eles apenas perceberam a verdade que vocês, Imortais, fingem não ver... a vida eterna é uma verdadeira maldição.

Todos se viraram. Sentada em uma mesa de metal no canto do vagão, com uma postura tão serena que parecia deslocada em meio ao massacre, estava uma garota de cabelos negros com mechas vermelhas brilhando como brasas sob a luz fraca. Nero. Sua expressão era gentil, quase compassiva, mas havia algo profundamente perturbador em seus olhos — uma profundidade que parecia engolir a luz ao seu redor. Ela se levantou com uma graça fluida, o casaco longo roçando o chão enquanto se movia.

Nero desembainhou uma katana que parecia forjada da própria noite, a lâmina absorvendo a luz em vez de refleti-la. — Agora que usei minhas Arts para impedir que as pessoas morram automaticamente perto de mim... será que vocês sobreviverão a isso e me mostrarão o que os humanos chamam de "luta"?

Ela ergueu a lâmina, e o ar no vagão pareceu congelar, como se o próprio tempo hesitasse diante do que estava por vir. Com um movimento fluido, quase preguiçoso, ela desferiu um único corte absoluto no ar à sua frente. A onda de energia que se seguiu era invisível, mas seu impacto foi sentido por todos — um peso esmagador, como se a realidade estivesse sendo rasgada ao meio. As caixas de carga se partiram, o metal das paredes gemeu, e os mafiosos, ainda se levantando, foram jogados para trás como bonecos de pano.

Claire e Enies se entreolharam, o terror e a determinação lutando em seus olhos. O Expresso Elysium, com seus segredos e maldições, estava se desfazendo, e Nero, com sua katana sombria, parecia ser o epicentro daquele colapso. O vagão de carga, agora um campo de batalha sobrenatural, aguardava o próximo movimento, enquanto o trem continuava sua jornada implacável pela noite.

Parte 7

De volta ao vagão-restaurante, a calma finalmente se assentara, substituída por um silêncio pesado e interrogativo. Simon havia levado Salomé para um compartimento vazio, e a confissão veio em meio a soluços e tremores. Não foi ciúme. Foi desespero. Ela era escrava de Diego, um brinquedo para seus caprichos sádicos. Ele a torturava, bebia seu sangue à força e a mantinha sob um jugo de medo. As marcas de abuso estavam escondidas sob as camadas de seu vestido. Quando viu o interesse dele por Mikaela, ela não sentiu inveja, mas o terror da obsolescência. Sabia que, assim que perdesse a serventia, ele a mataria. O ataque foi um ato de pura sobrevivência, um último grito no escuro, e ela nunca imaginou que realmente funcionaria.

Regulus, que permaneceu para ouvir o depoimento, processava a informação. A tragédia de Salomé era clara, mas uma peça não se encaixava. Ele se aproximou de Mikaela, que consolava a garota agora em prantos.

— Senhorita, uma pergunta — disse Regulus, a voz calma. — Além de Salomé, alguém mais sabia da... natureza de Diego?

Mikaela balançou a cabeça. — Não. Ele era extremamente discreto, foi um choque para mim, nunca imaginei que um vampiro poderia se misturar aos humanos tão bem.

Regulus sentiu um estalo em sua mente. Então, como aquele outro homem(Favaro) soube?  Ele se virou, procurando-o na multidão, mas ele havia desaparecido.

— Gustavo, está na escuta? — Regulus murmurou em seu comunicador.

Sempre — respondeu a voz do outro lado.

— Puxe as gravações do vagão-restaurante. Procure por um homem de cabelos castanhos, bem-vestido, que anunciou a identidade de Diego como vampiro. Quero saber para onde ele foi.

Houve uma pausa, o som de digitação rápida. — Achei. Ele saiu por uma porta de serviço alguns minutos atrás. As câmeras externas o pegaram... subindo no teto do trem.

Regulus cerrou os punhos. — Deixo o resto com você, Sr Assistente. Cuide delas.

Sem outra palavra, ele se dirigiu à mesma porta de serviço. O vento forte o açoitou assim que ele subiu a escada de metal, o barulho do trem sobre os trilhos era um rugido constante. O céu passava em um borrão azul. À frente, ele viu a silhueta de Favaro, lutando para se equilibrar contra o vento.

— Parado aí! — gritou Regulus, a voz quase perdida no barulho.

Favaro se virou, surpreso. — Quem é você?

— Quem sou eu não importa. O que importa é como você sabia que Diego era um vampiro e por que fugiu.

Favaro riu, um som nervoso. — Eu não sei do que você está falando!

Regulus não esperou por mais mentiras. Ele avançou, a mão no cabo da katana. Favaro, em vez de contra-atacar, apenas se esquivou, os movimentos ágeis, mas defensivos. Havia medo em seus olhos. Medo de ser tocado.

— Espere! — gritou Favaro, desviando de um golpe rápido. — Você não entende! Eu posso ser mortal agora, como ele!

— Então comece a falar! — ordenou Regulus.

— Certo, certo! — disse Favaro, ofegante. — Eu estou aqui por um artefato, no cofre! Só isso! Fui eu quem cortou as comunicações do trem para facilitar o roubo. Mas eu não tenho nada a ver com essa loucura de imortais morrendo! Eu juro!

Enquanto falavam, um novo som se juntou ao rugido do vento. Um arrastar metálico, vindo da parte de trás do trem. Ambos se viraram.

Emergindo da escuridão do próximo vagão, várias figuras cambaleavam sobre o teto. Eram os gângsteres e mafiosos, os corpos terrivelmente feridos, membros torcidos em ângulos impossíveis, mas ainda se movendo, os olhos vazios e cheios de uma dor sem fim.

Favaro ficou branco. Ele se escondeu atrás de Regulus, o pânico tomando conta de sua voz.

— Zumbis! São malditos zumbis!

Parte 8

No corredor central do Expresso Elysium, o mundo pareceu suspender sua respiração por uma fração de segundo. Não foi um som, mas uma sensação visceral, como se uma onda de poder puro, frio e absoluto tivesse varrido o trem, emanando dos vagões traseiros. Era como se uma lâmina invisível tivesse cortado o próprio ar, deixando em seu rastro um vácuo de silêncio opressivo e um pavor que parecia se enraizar nos ossos. Ozen Halltorn sentiu os pelos de sua nuca se arrepiarem, um instinto primal alertando-o de um perigo que transcendia a lógica. Ellie Hawthorne, no meio de uma frase, parou abruptamente, seus olhos se estreitando como os de um predador que fareja uma ameaça. Leona, sempre vigilante, levou a mão instintivamente ao cabo de uma faca escondida sob a manga, seus músculos tensos, prontos para agir. Até mesmo Miriam, com sua determinação teimosa, pareceu hesitar, o coração disparado enquanto o corredor vibrava com uma energia que nenhum deles podia explicar.

Ludmilla Farnese, com seu quepe militar ligeiramente desalinhado, foi a primeira a encontrar a voz, embora esta saísse em um sussurro rouco, quase engolido pelo silêncio. — Que... Art foi essa? — perguntou, o rosto pálido como cera, os olhos vermelhos arregalados. Aquilo não era o poder de um Shaper comum. Era algo mais antigo, mais profundo, como se a própria realidade tivesse sido torcida por mãos invisíveis.

Um medo primordial, mais devastador do que o pavor causado por um simples assassinato, tomou conta do grupo. Era um terror que vinha de dentro, que sussurrava sobre forças além da compreensão humana. O que quer que estivesse acontecendo nos vagões traseiros estava conectado a tudo — ao assassinato do vampiro, à guerra de gangues, à sensação de que o trem era mais do que um meio de transporte, mas um palco onde a realidade estava sendo desafiada.

Ludmilla respirou fundo, forçando-se a superar o medo que ameaçava paralisá-la. — Precisamos ir — disse ela, a voz firme, ao ajustar o quepe. — Ficar aqui parados não vai resolver nada. Temos que saber o que está acontecendo.

Ellie e Ozen, cada um movido por seus próprios motivos — ela pela necessidade de desvendar o mistério, ele pelo dever de proteger sua equipe —, concordaram com um aceno curto. A fonte do caos, do poder que haviam sentido, parecia pulsar naquela direção, como um farol em meio à escuridão.

— Certo, vamos... — começou Ozen, mas sua voz falhou ao ver Miriam dando um passo à frente, os olhos brilhando com uma determinação que ele conhecia bem demais. — Não. Miriam, você não. Leona, leve-a de volta para o nosso compartimento. Agora.

— Não! — A voz de Miriam irrompeu, mais forte do que ela própria esperava, ecoando no corredor como um desafio. Ela se postou diante de Ozen, os punhos cerrados, o corpo pequeno tremendo de emoção, mas firme como uma rocha. — Eu não vou voltar.

— Miriam, não é hora para teimosia... — Ozen tentou, a voz carregada de frustração, mas também de uma preocupação que ele raramente deixava transparecer.

— Eu nunca me importei com o que as pessoas pensavam de mim! — ela o interrompeu, os olhos azuis faiscando como chamas em uma tempestade. — Com os olhares, os cochichos, as pessoas me chamando de criança tola, de órfã sem valor... E mesmo agora, sabendo que a reputação importa, que a fé dos outros pode mudar as coisas, eu ainda não ligo! Sabe por quê?

Ela respirou fundo, a voz embargada por uma emoção crua, as lágrimas começando a se formar nos cantos dos olhos, mas sua determinação permanecia inabalável. — Porque eu sempre achei que, independentemente do que o mundo pensasse, eu tinha vocês. Tinha você, Ozen. Você foi o primeiro que acreditou que eu podia ser mais do que uma órfã de rua. Acreditou que eu podia ser uma caçadora, que eu podia entrar para Babylon, sair deste inferno e viver aventuras de verdade... Eu estava errada em acreditar nisso?

As palavras de Miriam atingiram Ozen como um golpe no peito, cada sílaba carregada de uma verdade que ele não podia ignorar. O corredor do trem, com suas paredes de madeira polida e o zumbido constante dos trilhos, pareceu se dissolver, dando lugar a uma memória que ele guardava em um canto escondido de sua mente.

Era uma noite chuvosa em Nova Verezzi, o tipo de chuva que transformava as ruas em rios de lama e fazia os becos parecerem ainda mais cruéis. A porta do Café Osdra, um refúgio improvisado para sua equipe, rangeu ao se abrir. Uma figura minúscula, de uns onze anos, entrou, encharcada até os ossos, os cabelos castanhos colados ao rosto coberto de fuligem. As roupas eram farrapos, rasgadas e sujas, mas os olhos... aqueles olhos azuis, brilhando com um fogo desafiador, eram impossíveis de ignorar.

— Quero trabalho. E comida — disse a pequena Miriam, a voz firme, apesar do tremor em seu corpo magro.

Ozen, então mais jovem, mas já marcado pelas cicatrizes de uma vida dura, olhou para ela com desdém. — Não diga bobagens, garota. Volte para casa — respondeu, a voz ríspida, enquanto limpava o balcão.

— Eu não tenho casa para voltar.

Aquelas palavras o paralisaram. Ele sentiu uma pontada de dor, uma lembrança de sua própria infância nas ruas, de noites frias e vazias. Mas ele não podia ceder, não podia se permitir amolecer. — Meu trabalho envolve gente perigosa. Se ficar aqui, vai ser devorada em um segundo. — Ele suspirou, vencido pela exaustão e por algo que não queria nomear. — Já que está tarde, vou te dar algo para comer e você pode passar a noite. Mas amanhã, você vai embora.

Miriam o encarou, os olhos brilhando com lágrimas teimosas, mas sua voz não vacilou. — Não. Eu não me importo se é perigoso. Nem se eu morrer. Eu não vou embora e não vou desistir. — A voz dela começou a tremer, mas a determinação permaneceu, como uma chama que se recusava a apagar. — Eu vou trabalhar, conseguir dinheiro... e um dia... um dia eu vou sair de Elysium e me tornar uma grande caçadora!

A mesma intensidade. O mesmo fogo. A mesma vibração que, anos atrás, o conquistara e o fizera acreditar que, em um mundo tão podre quanto Elysium, um sonho puro ainda podia florescer.

De volta ao presente, Ozen olhou para a jovem mulher à sua frente, agora crescida, mas ainda carregando aquele mesmo brilho nos olhos. Seu coração se apertou, dividido entre o orgulho de vê-la tão forte e o medo de perdê-la para o caos que os cercava. Ele fechou o punho com força, as unhas cravando na palma da mão, enquanto a frustração e o amor que sentia por ela — como um irmão, como um mentor, como alguém que havia prometido protegê-la — lutavam dentro dele.

— Tudo bem — disse ele, a voz rouca, quase engolida pela emoção. Ele se virou para seguir Ellie e Ludmilla, que já avançavam pelo corredor, mas murmurou para si mesmo, as palavras carregadas de um peso que só ele entendia. — Por favor... que, pelo menos desta vez, meus instintos de proteção estejam errados.

Miriam ficou ao seu lado, o peito subindo e descendo com respirações rápidas, mas os olhos firmes, prontos para enfrentar o que quer que os aguardasse. Leona, sempre silenciosa, lançou um olhar rápido para Ozen, um aceno quase imperceptível que dizia que ela estaria lá, cuidando de Miriam como sempre fizera. Ellie, alheia à intensidade do momento, liderava o grupo com passos decididos, sua mente focada no mistério que os chamava dos vagões traseiros.

O corredor central, com suas luzes tremeluzentes e o zumbido constante do trem, parecia pulsar com uma energia própria, como se soubesse que o grupo caminhava em direção ao epicentro do caos. Cada passo ecoava como um tambor, um lembrete de que o Expresso Elysium não era apenas um trem, mas um campo de batalha onde sonhos, medos e segredos colidiam. E, no fundo do coração de Ozen, a esperança de que Miriam pudesse realizar seu sonho de se tornar uma grande caçadora lutava contra o medo de que aquele trem pudesse ser o fim de todos eles.

O grupo avançava pelo corredor do Expresso Elysium, cada passo em direção aos vagões traseiros ecoando como uma descida aos círculos mais sombrios do inferno. O ar, outrora apenas frio, agora parecia gelar os ossos, carregado de uma umidade que grudava na pele como um presságio. O som metálico do trem, um zumbido constante que os acompanhara desde o início, era abafado por um silêncio opressor, tão denso que parecia engolir até mesmo o pulsar de seus corações. As luzes do corredor piscavam em intervalos irregulares, lançando sombras que dançavam nas paredes como espectros de um pesadelo iminente. Ellie Hawthorne liderava com passos firmes, mas seus olhos traiam a cautela de quem sabia que estavam entrando em território desconhecido. Ozen, Ludmilla, Miriam e Leona a seguiam, cada um carregando seu próprio fardo de medo e determinação.

Ao alcançarem a porta do vagão de carga, Ozen hesitou por um instante, a mão pairando sobre a maçaneta de aço. Um calafrio percorreu sua espinha, como se o próprio trem estivesse sussurrando um aviso. Com um aceno, ele sinalizou para Leona se posicionar ao seu lado, enquanto Ludmilla ajustava o quepe militar, os dedos trêmulos traindo sua fachada de controle. Miriam, com os olhos arregalados, segurava a respiração, e Ellie, impassível, apenas assentiu. A porta foi aberta com um rangido grave, e a visão que os saudou os fez congelar, como se o tempo tivesse parado para absorver a magnitude do horror.

O vagão de carga era um cenário de carnificina absoluta, um quadro pintado com sangue e desespero. Corpos mutilados de mafiosos e gângsteres jaziam espalhados pelo chão de metal, alguns com membros arrancados, outros com crânios esmagados em ângulos impossíveis. Caixas de carga, antes empilhadas com precisão, estavam estilhaçadas, seus conteúdos espalhados como entranhas de uma besta morta. O cheiro de sangue e pólvora saturava o ar, misturado a um odor metálico que parecia emanar das próprias paredes do trem. No centro do caos, Claire Novra, a imortal, estava caída em uma poça de seu próprio sangue. Seus dois braços haviam sido arrancados, os tocos irregulares ainda gotejando, e seus olhos, arregalados de dor e terror, fitavam o vazio. Apesar da agonia, ela ainda vivia, cada respiração um esforço hercúleo contra o peso de sua própria mortalidade.

E, de pé sobre ela, segurando o que restava de Frank Malone pelo pescoço como se ele fosse uma marionete quebrada, estava Nero. A garota de cabelos negros, com mechas vermelhas que brilhavam como brasas sob a luz fraca, exalava uma presença que transcendia a compreensão. O Éter que emanava dela era tão denso que parecia ter peso físico, uma força avassaladora que pressionava o peito de todos, tornando cada respiração uma tarefa consciente. Era como se o próprio conceito de vida e morte se curvasse diante dela, e todos no vagão sabiam, com uma certeza visceral que gelava o sangue, que estavam diante da morte.

Ludmilla, porém, sentiu algo além do terror. Em meio ao pavor que ameaçava engoli-la, uma estranha e indesejada nostalgia a atingiu, como um eco de um passado que ela preferia esquecer. Aquela sensação, aquela presença conceitual que reescrevia as regras da realidade, era familiar. Ela já havia enfrentado algo assim antes — o Avatar do Astreus da Vida. A memória a fez estremecer, mas também acendeu uma faísca de determinação em seu peito.

Enquanto o grupo permanecia paralisado, Daemon Hakurei, movido por um instinto de caçador ou por pura loucura, explodiu em ação. Com um grito de guerra que ecoou como um trovão, ele saltou sobre uma pilha de caixotes estilhaçados, a espada desembainhada reluzindo sob a luz tremeluzente. Seu movimento foi rápido, preciso, mirando um golpe mortal no pescoço de Nero, como se pudesse cortar a fonte daquele terror com um único golpe.

— O que você está fazendo?! Foge! — gritou Ozen, sua voz cortada pelo desespero enquanto agarrava o braço de Miriam, puxando-a para trás com força. Ele sabia que enfrentar Nero naquele momento era suicídio, mas Daemon já estava em movimento, alheio ao perigo.

Era tarde demais.

No meio do massacre, Claire Novra ergueu a cabeça, o rosto contorcido em uma máscara de agonia. Seus olhos, ainda brilhando com uma centelha de vida, encontraram o ether de Fávaro, que estava sobre o teto do trem. Ele era o último de seus companheiros ainda ileso, a última esperança de sua equipe. Claire sabia que seu tempo estava se esgotando, que seu corpo imortal, agora mutilado, não resistiria por muito mais. Com um esforço que parecia arrancar o que restava de sua alma, ela sussurrou.

— Black Box: Balanceamento do Rei do Reino de Turnos.

Uma escuridão faminta e geométrica explodiu de seu corpo, como se o próprio tecido da realidade fosse rasgado. A escuridão engoliu tudo dentro do vagão, os corpos, o sangue, as luzes tremeluzentes — em um instante de absoluto nada.

Quando abriram os olhos, o cenário havia mudado. Eles não estavam mais no vagão de carga do Expresso Elysium, mas em um tabuleiro de xadrez que se estendia em todas as direções sob um céu púrpura, onde estrelas brilhavam com uma luz fria e alienígena, um domínio onde as regras da realidade eram ditadas por forças desconhecidas, foi o que os mais experientes que conheciam o significado de black box pensaram.

Assim, enquanto abriam os olhos se preparando para lidarem com a black box a primeira coisa que viram foi Nero.

Ela não estava mais onde estava. Com uma velocidade que parecia ignorar o próprio conceito de tempo, ela havia se movido, deixando o ataque de Daemon cortar apenas o ar vazio. Agora, ela estava ao lado de Claire, a katana em sua mão brilhando com um fulgor sombrio, como se absorvesse a luz ao seu redor. Seus olhos, de um negro profundo com iris carmesins, fitavam o grupo com uma calma aterradora, como se o caos ao seu redor fosse apenas um detalhe insignificante.

Antes que qualquer um pudesse processar o que estava acontecendo, a katana de Nero brilhou. Com um único movimento fluido, quase preguiçoso, ela desferiu um corte perfeito. A cabeça de Claire Novra se separou de seu corpo com uma precisão cirúrgica, caindo no chão quadriculado com um baque surdo. O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelo gotejar do sangue que manchava as linhas brancas do tabuleiro. 

Ozen puxou Miriam para mais perto, seu coração disparado enquanto tentava processar o que acabara de testemunhar. Ludmilla, ainda abalada pela nostalgia que a conectava a Nero, cerrou os punhos, lutando contra o impulso de avançar. Daemon, agora parado, a espada ainda erguida, parecia congelado, os olhos fixos no corpo de Claire, incapaz de compreender como sua ação impulsiva os levou a esse momento. Leona, sempre prática, ajustou a postura, pronta para qualquer movimento de Nero, enquanto Ellie, com sua mente analítica, tentava desesperadamente encontrar uma lógica naquele pesadelo.

Nero ergueu a cabeça, seus cabelos negros ondulando como se movidos por um vento invisível. — Vocês ainda estão aqui ? — disse ela, a voz suave, quase melancólica, mas carregada de uma ameaça implícita. 

Parte 9

No tabuleiro de xadrez que se estendia sob um céu púrpura pulsando com estrelas alienígenas, Nero permanecia de pé, sua figura esguia envolta em uma aura de poder que parecia dobrar a realidade ao seu redor. Seus cabelos negros, com mechas vermelhas brilhando como brasas, dançavam suavemente, movidos por um vento que não existia. Seus olhos, profundos e insondáveis, fixavam-se no grupo com uma curiosidade genuína, a cabeça levemente inclinada, como se tentasse decifrar a essência daqueles que ousavam enfrentá-la. Daemon, com a postura rígida de um caçador pronto para a batalha, deixava o Éter sombrio ondular ao seu redor, uma névoa negra que parecia absorver a luz. Ozen, por outro lado, tinha apenas uma preocupação: proteger Miriam e Leona, seus instintos gritando para mantê-las o mais longe possível daquela garota que exalava morte.

Mas Nero surpreendeu a todos. — Por que vocês querem lutar? — perguntou, sua voz calma, quase melancólica, desprovida de qualquer traço de malícia. Era uma pergunta sincera, como se ela genuinamente não compreendesse a necessidade de conflito.

O grupo ficou atordoado, a tensão do momento quebrada pela inesperada suavidade de suas palavras. Um dos guardas, com o rosto pálido e a voz trêmula, apontou um dedo acusador. — Foi você! Você está matando todo mundo!

Nero negou com a cabeça, um gesto lento e deliberado. — Não. Antes, sim. Mas não agora. Muitos humanos me atacaram, e eles morreram. Mas ao vê-los usar o Éter, eu aprendi. — Ela ergueu a mão, e uma energia escura e tranquila se formou em sua palma, girando como um pequeno cosmos de sombras. — Eu criei uma Art. Chamo de "Domínio Invertido". Impede que as pessoas morram apenas por se aproximarem de mim.

Ellie Hawthorne, com seus olhos afiados de predadora intelectual, captou o peso daquelas palavras. — Essa habilidade... ela tem outros fatores, não é? — perguntou, sua voz cortante, como se estivesse dissecando a própria alma de Nero.

Nero ficou em silêncio, e para Ellie, aquele silêncio foi uma confissão. As peças do quebra-cabeça que atormentava sua mente começaram a se encaixar com um estalo quase audível. — É por isso... — murmurou ela, mais para si mesma, enquanto a compreensão a inundava. — Você criou um campo de Regulamentação. Uma lei que impede a morte. Mas os imortais, como vampiros, não são tecnicamente "vivos" da mesma forma. Sua habilidade não os protege; ela os força a um estado que eles não podem sustentar... a morte. E os mortais, mesmo que seus corpos sejam destruídos, são impedidos de morrer. É por isso que aquele vagão parecia ter sido atacado por zumbis. — Ellie fixou os olhos em Nero, uma mistura de fascínio e cautela. — A única coisa que não entendo é quem é você. E por que, diabos, você é tão poderosa?

Ludmilla Farnese, com o quepe militar ligeiramente inclinado e os punhos cerrados, deu um passo à frente, sua voz carregada de um peso que os outros não podiam compreender. — Ela é um Avatar de um Astreus — disse, cada palavra carregada de uma certeza dolorosa. — Um dos 16 seres que governam o universo. Conceitos vivos.

O grupo, exceto Daemon, a encarou, atônito. Ellie, ainda processando a revelação, balançou a cabeça, incrédula. — Eu ouvi rumores sobre isso... vi até um vídeo do incidente do Titanic, onde um suposto Avatar apareceu. Nunca imaginei que fossem reais.

— Eles são. E são incrivelmente fortes — confirmou Ludmilla, os olhos distantes, como se estivesse revivendo um pesadelo.

Nero pareceu absorver as palavras, uma centelha de interesse brilhando em seus olhos. — Você encontrou um dos meus irmãos, então. Qual deles?

— A Vida — respondeu Ludmilla, e um pensamento fugaz cruzou sua mente, rápido como um relâmpago. Estranho... quando conheci a Vida, ela não era calma e racional como esta. Era difícil diferenciá-la de uma pessoa comum, exceto pelo poder avassalador.

Ao ouvir a palavra "Vida", um brilho frio de desprezo passou pelos olhos de Nero, como se uma antiga mágoa tivesse sido reavivada. Aquela ingênua idiota... ela realmente encontrou um receptáculo? pensou, a mente girando com memórias de eras distantes. — Você a matou? — perguntou, a voz neutra, mas com um leve tom de curiosidade.

— Não. Ela era mais forte. Mas da próxima vez, eu não vou perder — respondeu Ludmilla, a determinação em sua voz cortando o ar como uma lâmina.

Nero inclinou a cabeça, intrigada. — Qual é o seu objetivo aqui? — perguntou Ludmilla, tomando a iniciativa, seus olhos fixos nos de Nero, buscando entender a entidade diante dela.

— Há um artefato neste trem — respondeu Nero, a voz suave, mas firme. — Um que concede a imortalidade. Eu odeio isso. É o pior castigo que se pode infligir a alguém. Vim para destruí-lo.

Ludmilla pensou na joia que guardava, seu coração apertando com o peso da responsabilidade. Antes que pudesse responder, Nero continuou, os olhos brilhando com uma intensidade que parecia perfurar a alma. — Eu respondi suas dúvidas. Agora tenho duas perguntas para você. — Ludmilla assentiu, tensa. — Primeiro: por que este lugar não desapareceu depois que matei a invocadora?

Ludmilla respirou fundo, organizando seus pensamentos. — É uma teoria, mas li sobre isso na biblioteca de Babylon. O Éter pós-morte de um Shaper poderoso pode continuar a alimentar uma habilidade, usando o cadáver como combustível. A única forma de sair é destruindo completamente o corpo de Claire.

Nero olhou para o corpo decapitado de Claire, jazendo no chão quadriculado, o sangue formando linhas escuras nas bordas das peças do tabuleiro. — Entendo — murmurou ela, quase para si mesma. Então, seus olhos voltaram para Ludmilla, agora brilhando com uma mistura de curiosidade e algo mais profundo, quase reverente. — Segunda pergunta: por que você disse que "da próxima vez será diferente"? Se lutou contra minha irmã, deveria saber que não tem chances de vencer um Avatar de Astreus. Por que tentar? Você estaria apenas indo para a própria morte.

Nero fez uma pausa, seus olhos negros, com reflexos carmesins, fixos em Ludmilla, como se buscassem uma verdade que transcendia o universo. Ela queria entender. Mortais temiam a morte, buscavam a imortalidade que ela tanto desprezava. Mas alguns, como Ludmilla, como os caçadores que a enfrentaram, eram diferentes. Eles a encaravam, desafiavam-na, e isso a fascinava.

— Em resumo — completou Nero, a voz suave, mas carregada de uma intensidade que parecia ecoar no próprio tecido da Black Box. — Você não tem medo da morte?

Ludmilla riu, um som curto, seco, mas cheio de uma coragem que vinha de algum lugar profundo em sua alma. — É óbvio que eu tenho. O medo está sempre lá, como uma sombra. Mas eu também tenho a coragem de encará-lo de frente. É isso que me faz uma caçadora. Um caçador só é um caçador se não deixar o medo controlá-lo, se tiver a coragem de aceitar a morte caso ela chegue. É por isso que quero encontrar a Vida de novo. Para provar que não sou mais a mesma, que me tornei mais forte. Eu sei que, se fracassar, morrerei. Mas aceito isso. Essa é a minha índole como caçadora.

Os olhos de Nero se arregalaram, e por um instante, o brilho em suas íris negras, com aquelas mechas vermelhas refletindo a luz púrpura do céu, pareceu explodir em uma chama de pura fascinação. Era como se, pela primeira vez em eras, ela tivesse encontrado algo que desafiava sua própria existência como a Morte. Ludmilla, com sua determinação ardente, sentiu um arrepio percorrer seu corpo quando seus olhos se encontraram. Havia uma conexão ali, uma ponte entre a mortal e a entidade, entre a caçadora e o conceito vivo da morte. Os olhos de Ludmilla brilhavam com o mesmo fogo que a levara a sobreviver ao encontro com a Vida, um brilho que dizia que ela não recuaria, não importava o custo. E Nero, pela primeira vez, viu naquele brilho não apenas desafio, mas uma centelha de esperança — a possibilidade de compreender o que significava ser humano, ser um caçador.

— Caçadores... gostam de lutar? — perguntou Nero, a confusão genuína em sua voz misturada a uma curiosidade quase infantil.

— É óbvio — respondeu Ludmilla, um leve sorriso curvando seus lábios, apesar da gravidade do momento.

— Eu não entendo... — confessou Nero, a voz tremendo levemente, como se ela estivesse à beira de uma revelação. — Os mortais sempre reclamam. Eles temem o fim, buscam formas de evitá-lo. Eu não gosto de lutar; só serve para adiantar o inevitável encontro deles comigo, e eles sempre lamentam. Eu não consigo entender nada do que você disse. — Ela fez uma pausa, os olhos fixos em Ludmilla, e pela primeira vez, uma centelha de esperança brilhou em suas íris escuras, como estrelas nascendo em um céu sem fim. — Mas eu quero entender. Me mostre. Me mostre isso que você chama de "ser um caçador".

Ludmilla não tinha como saber, mas naquele instante, suas palavras haviam marcado profundamente a Morte. A ideia de alguém que desejava encará-la de frente, que aceitava sua presença sem recuar, acendeu uma chama de curiosidade que jamais se apagaria no coração de Nero. Era uma conexão que transcendia o conflito, um momento de entendimento mútuo entre duas almas que, apesar de suas naturezas opostas, compartilhavam um desejo ardente de compreender o outro.

Ludmilla se preparou, o Éter vermelho envolvendo seu corpo como chamas vivas, sua espada longa brilhando com uma intensidade que parecia desafiar a escuridão da Black Box. Ozen, percebendo a gravidade do momento, puxou Miriam e Leona para longe, seus instintos gritando que aquele não era um confronto para eles. — Isso não é da nossa conta. Não são inimigas — murmurou ele, a voz tensa, enquanto tentava proteger sua equipe.

Mas Miriam, com os olhos arregalados de fascínio, não conseguia desviar o olhar. Não era sobre amizade ou inimizade. Havia algo maior ali, um propósito que ressoava no fundo de sua alma, o mesmo fogo que a fazia sonhar em se tornar uma caçadora. Ela viu o brilho nos olhos de Nero e Ludmilla, uma alegria contida, quase sagrada, a felicidade de terem encontrado uma à outra em um campo de batalha que transcendia o físico. Era como se, naquele momento, elas fossem espelhos uma da outra — a mortal que desafiava a morte e a Morte que desejava compreender a vida.

Com um grito que ecoou pela dimensão de bolso, as duas correram uma em direção à outra. A katana escura de Nero, forjada de sombras e pesadelos, colidiu com a espada longa e flamejante de Ludmilla, e o impacto fez o universo de bolso tremer. O tabuleiro de xadrez sob seus pés pulsou, as linhas brancas e pretas ondulando como ondas em um oceano de éter. Faíscas voaram, o ar crepitou, e o grupo, agora apenas espectadores, sentiu o peso de um momento que poderia mudar o destino de todos a bordo do Expresso Elysium.

Parte 10 

Pelo que você está disposto a lutar? Você luta apenas para conquistar algo? Ou para proteger o que já tem? Você luta pelo reconhecimento dos outros? Ou porque se recusa a aceitar a derrota?

Há cinco anos, nas montanhas geladas ao norte de Nova Verezzi, em um canto esquecido de Elysium onde o vento cortava como lâminas e a neve engolia os sons, uma pergunta ecoou em minha alma, mudando para sempre o curso da minha vida. Foi um dia que carrego comigo, gravado em cada cicatriz, em cada batida do meu coração. Um dia que me ensinou o que significa lutar.



A cena ainda vive em minha memória como se fosse ontem. O céu estava cinzento, pesado com nuvens que pareciam carregar o peso do próprio mundo. Eu estava caída no chão, meu corpo coberto de machucados e ataduras, o sangue misturando-se à terra fria sob mim. As lágrimas escorriam pelo meu rosto, quentes contra a pele gelada, enquanto eu soluçava, a voz quebrada pela dor e pela culpa.

— É… é culpa minha, não é? — murmurei, esfregando a testa no chão, como se pudesse apagar a verdade que me esmagava. — Foi porque eu fui fraca…

Valtos, meu mestre, estava de pé diante de mim, uma figura imponente de cabelos pretos e camisa branca manchada de suor e poeira. Seus olhos, duros como o granito das montanhas, me encaravam sem piedade. Ele não estendeu a mão, não ofereceu palavras de consolo. Apenas me observou, esperando.

— Você sempre acaba assim — disse ele, a voz firme, cortante. — Cai no chão, se culpa, chora… Mas ficar assim não vai mudar nada. Quanto tempo mais você planeja ficar aí? Levanta e tenta de novo.

— Eu não consigo! — gritei, a voz rasgando minha garganta. — Já cheguei ao meu limite… Eu sou só uma qualquer, mais uma humana fraca, sem poder! — As palavras saíram como um lamento, um peso que carregava desde o dia em que vi minha família ser arrancada de mim, seus gritos ecoando enquanto eu me escondia, paralisada pelo medo, na escuridão do sótão.

Valtos não se moveu, mas sua voz ficou mais afiada, como uma lâmina testando minha resistência. — Seu limite? E quem definiu esse limite? — Ele fez uma pausa, deixando o silêncio pesar sobre mim. — Em vez de desperdiçar tempo e esforço pensando em bobagens como limites, que tal se levantar e tentar de novo?

As lágrimas queimavam meus olhos enquanto eu puxava os cabelos, a cabeça girando com memórias que eu queria esquecer. O rugido da criatura que destruiu minha família, o cheiro metálico do sangue, a sensação de impotência enquanto eu tremia atrás da porta do sótão, incapaz até de gritar. — Mesmo que eu levante, mesmo que eu fique mais forte e mate aquela coisa, isso não vai trazê-los de volta… Não vai trazer minha família de volta! — Minha voz quebrou, como se eu estivesse expelindo um veneno que me corroía por dentro.

— Realmente não vai — respondeu Valtos, sem hesitação. — Isso nunca foi sobre trazê-los de volta. Se fosse, no primeiro dia eu teria dito para você desistir.

— Então é sobre o quê? — perguntei, a voz tremendo de desespero. — Me fazer sentir melhor? Superar essa dor que carrego?

Ele balançou a cabeça, os olhos fixos nos meus, como se pudesse ver através da minha alma. — Isso também é impossível. Não importa o que você faça, continue aí no chão, levante e tente de novo, consiga sua vingança ou a supere, essa dor que você carrega nunca vai desaparecer.

Suas palavras foram como um golpe, arrancando o pouco de esperança que eu ainda tentava segurar. Minha mente voltou àquele sótão, ao som dos gritos, ao cheiro de sangue, ao terror que me prendeu como correntes. — Então por quê? — gritei, a voz rouca, quase um rugido. — Por que eu tenho que continuar com isso?

Valtos se aproximou, sua presença tão pesada quanto as montanhas ao nosso redor. — Porque você não pode parar. Você não pode deixar essa dor se tornar uma muralha na sua frente. Você tem que usá-la para caminhar, para seguir em frente. Tem que levantar sabendo que vai doer e continuar andando. Os seres humanos, mesmo sem habilidades especiais, mesmo sem dons únicos, são incríveis porque têm a habilidade de se transformar. Todo dia que você acorda sentindo essa dor e escolhe levantar, você se transforma em alguém mais forte do que era no dia anterior.

Eu balancei a cabeça, as lágrimas caindo no chão, misturando-se à terra. — Só você pensa assim… Eu não sou tão forte.

Ele se agachou, ficando na minha altura, seus olhos queimando com uma intensidade que me fez querer desviar o olhar, mas eu não consegui. — Me diga, Ludmilla… Pelo que você está disposta a lutar? — perguntou, a voz baixa, mas carregada de urgência. — Eu sei por que querem lutar contra você. Esse mundo é sujo, sombrio e cruel. Todo dia que você levantar, haverá algo para tentar te derrubar, te fazer querer desistir. Mas me diga… Por que você quer lutar? Por que acordar amanhã e se levantar em um mundo assim?

— Eu… eu quero ving… — comecei, mas ele me interrompeu, levantando-se e me encarando com uma expressão que exigia mais de mim.

— Antes de responder, quero que você pense bem — disse ele, a voz firme, mas com uma nota de desafio. — Esvazie sua cabeça e pense no que vai dizer. Porque se você disser vingança, tudo bem, eu vou continuar te ajudando a levantar por isso. Mas quando você se vingar, lembre-se: a batalha não vai acabar. O mundo ainda será exatamente como é hoje, e ele vai continuar tentando te derrubar. E quando não houver mais vingança, no que você vai se apoiar? — Ele deu um passo à frente, agarrou-me pelo colarinho e me puxou até que nossos rostos estivessem a centímetros de distância, seus olhos perfurando os meus. — Você pode lutar para não morrer, para ser reconhecida, para provar seu valor aos outros, por vingança. Mas nenhum desses motivos será suficiente quando o mundo mostrar sua verdadeira face, quando ele tentar te quebrar, quando você estiver cara a cara com a morte.

Eu o encarei, o coração disparado, o peso de suas palavras me sufocando. — Pelo que eu tenho que lutar? — perguntei, a voz tremendo, quase um sussurro.

— Eu não posso responder — disse ele, soltando-me com cuidado, deixando-me cair de volta ao chão. — Encontrar essa resposta depende só de você. Porque quando o mundo mostrar quem realmente é, quando um desafio verdadeiramente horrível te jogar no chão, os únicos que estarão lá para dizer por que você tem que levantar serão você e seu inimigo.

O treino era uma loucura, uma tortura que ultrapassava os limites do corpo e da mente. Meu corpo gritava de dor, os músculos rasgados, os ossos parecendo se partir a cada movimento. Talvez aquilo nem pudesse mais ser chamado de treino — era uma autoflagelação, um teste para ver até onde eu podia suportar. Olhei para Valtos, seu rosto impassível, sem um pingo de simpatia ou consolo, e ele repetiu, como um mantra cruel:

— Levanta e tenta de novo.

Forcei uma mão contra o chão, os dedos tremendo enquanto tentava reunir forças. Meus ossos estalavam, as lágrimas escorriam, e meu estômago se revirava, expelindo a água que era tudo o que restava dentro de mim. Caí de novo, o corpo implorando por alívio.

— Levanta e tenta de novo.

Tentei mais uma vez. As feridas reabriram, o sangue pingando na terra. Um estalo seco ecoou em meus ouvidos, e o medo sussurrava em minha mente, dizendo que eu morreria ali, que não havia sentido em continuar.

— Levanta e tenta de novo… Aqui e agora, você não tem outra opção. Se cair, nunca mais vai levantar. Mas se levantar, vai conquistar algo que ninguém pode ensinar, ninguém pode te dar.

Naquele momento, algo mudou dentro de mim. Forcei meu corpo a se erguer, cada músculo protestando, cada osso parecendo se partir. A vontade de desmaiar, de simplesmente ceder, gritava mais alto do que nunca. Mas, em meio à dor, às lágrimas, ao suor que escorria pelo meu rosto, percebi algo. Meu mestre continuava com a mesma expressão irritada, ninguém estava me aplaudindo, não havia prêmios ou promessas de vingança cumprida. E, ainda assim, o simples ato de me levantar, de desafiar a dor e o medo, trouxe uma faísca de alegria à minha alma. Não era sobre os outros, sobre o mundo, ou mesmo sobre minha vingança. Era sobre mim. Sobre provar, para mim mesma, que eu podia.

E é por isso que eu luto.

Sei que, para muitos, enfrentar uma batalha impossível é loucura, uma dança com a morte que não tem sentido. Mas, há muito tempo, aprendi que não luto para provar nada a ninguém. Luto por mim. Porque sei que, se não fizer isso por mim mesma, ninguém fará. Luto para superar qualquer limite, para mostrar que posso, porque é bom, porque me faz sentir viva. A satisfação de saber que nunca parei, nunca desisti, que carrego as dores que vivi, mas nunca as usei como desculpa para parar — é por isso que luto. E é por isso que nunca vou parar.

Parte 11

O eco do aço contra aço foi o gatilho. No instante em que as lâminas de Ludmilla e Nero se encontraram, o universo de bolso reagiu como uma entidade viva. Uma grade de luz neon percorreu o chão quadriculado, e sobre os combatentes, uma interface translúcida floresceu no céu artificial. Barras de vitalidade, ícones de status e, acima de tudo, um implacável medidor de turno se impuseram sobre a realidade. Era a gramática da Black Box, um idioma que nenhum deles falava, mas cujas regras seriam aprendidas em sangue.

[TURNO: LUDMILLA]

Sem tempo para hesitar, Ludmilla explodiu em um borrão carmesim. A iniciativa era sua, uma vantagem preciosa contra um monstro como Nero. Com um comando silencioso, sua ferrocinese e ether, ferveu o ferro em suas veias, sobrecarregando seu sistema nervoso e empurrando seus músculos para além do limiar humano. Ela não corria, ela fluía sobre o tabuleiro, deixando um rastro de luz vermelha. Da sua cintura, não brotaram, mas eruptiram seis tentáculos de metal líquido, chicoteando o ar com o som de seda rasgando. Não eram armas para ferir, mas os dentes de uma armadilha. A estratégia era um mantra desesperado: desviar de tudo, contra-atacar uma única vez, e fazer valer a pena.

[TURNO: NERO - INTERROMPIDO]

Nero, em contraste, era um poço de calma predatória. Em vez de recuar, ela contra-atacou com uma eficiência aterradora. Ela não desapareceu; o espaço ao seu redor pareceu se dobrar por uma fração de segundo, e no instante seguinte, ela estava na guarda de Ludmilla, a katana já em um arco descendente. A lâmina não cortava o ar, ela o devorava, deixando um rastro de vácuo em seu caminho, faminta por aniquilação.

A morte estava a um milímetro da pele de Ludmilla quando a realidade interveio. Uma tela translúcida de luz dourada materializou-se do nada, interceptando o golpe com o som de um sino de cristal se estilhaçando. A katana parou, sua energia letal dissipada contra uma regra invisível. Acima da cabeça de Nero, seu medidor de turno piscou em um vermelho furioso. 

[AÇÃO INVÁLIDA].

— Interessante... — murmurou Ellie, seus olhos faiscando com a velocidade de mil cálculos por segundo, já decifrando as regras daquele jogo mortal.

Daemon não desperdiçou a abertura. Um gesto sutil, um dedo que se contrai, foi o suficiente para reescrever a física sob os pés de Nero. O ar ao redor dela se distorceu e adensou, e um campo gravitacional esmagador a prendeu ao chão, transformando sua agilidade sobrenatural em um esforço pesado e lento. À sua direita, a escuridão deixou de ser ausência de luz e se condensou, coalescendo em um machado de guerra colossal, pulsando com sombras sólidas. A arma atingiu Nero com a força de um meteoro, o impacto arrancando um som surdo da realidade. Ela foi arremessada contra o chão, quebrando as lajotas e abrindo uma cratera fumegante. No mesmo instante, uma interface de turno cintilou sobre a cabeça de Daemon.

[TURNO: DAEMON - ADICIONADO]

Ellie assentiu, a compreensão florescendo em seu rosto. — Entendi. Somente aqueles que se engajam no combate são registrados pelo sistema. — A ordem se estabeleceu: Ludmilla, Daemon e, por último, Nero, agora em desvantagem por ter gasto duas "ações" antes do jogo começar — uma para matar Claire e outra para defender o ataque de Ludmilla.

Por um momento, a vitória pareceu ao alcance. Mas então, foi a vez de Nero. Ela não se levantou para atacar. Ela simplesmente... respirou. E com sua expiração, uma onda de Éter sombrio e gelado sangrou para fora de seu corpo, uma maré de pura entropia. A aura não apenas se espalhou; ela infectou o chão. O brilho neon das lajotas se tornou opaco, a superfície lisa se tornou quebradiça, apodrecendo em tempo real com uma textura de cinza e mofo. A investida coordenada de Ludmilla e o próximo ataque de Daemon, ambos dependentes de um terreno firme, falharam pateticamente. Seus pés afundaram no chão podre, desperdiçando seu momento, seu turno.

[TURNO: NERO]

Agora, o tabuleiro era dela. O chão desintegrado não era um obstáculo, mas uma arma. Com um impulso explosivo, Nero se lançou da beira de sua cratera, a katana estendida como a presa de uma víbora cósmica.

[TURNO: DAEMON]

Daemon reagiu por instinto, erguendo a mão e conjurando um monólito de breu puro para interceptá-la. 

[TURNO: LUDMILLA]

Vendo a muralha se formar, Ludmilla executou um movimento fluido e aterrorizante: com um gesto rápido e preciso, cortou a palma da própria mão com sua lâmina. O sangue se agarrou ao metal, e ela o pintou sobre a barreira de sombras no exato ponto do impacto. Em seguida, infundindo carbono do ambiente no ferro contido em seu sangue, criou uma segunda camada defensiva de aço ultrarresistente para a barreira de Daemon.

No entanto, no ponto onde a ponta da katana de Nero tocou, a barreira não quebrou ou rachou. Em vez disso, a estrutura sólida calcificou e erodiu, enquanto o aço enferrujou e se desfez em uma poeira necrótica, com o poder dela aniquilando a própria integridade da matéria inanimada.

O turno deles foi gasto em uma defesa desfeita. O contador girou, voltando para Nero. Mas, no instante em que ela se preparava para dar o golpe final em Daemon, uma nova variável entrou na equação.

[TURNO: LEONA - ADICIONADO]

Do outro lado do tabuleiro, um vulto dourado rasgou o ar. Leona aterrissou com a graça de uma caçadora, seus olhos brilhando com uma luz analítica. Uma teia de linhas douradas se sobrepôs à sua visão, mapeando cada ponto fraco na postura de Nero, cada abertura infinitesimal. Em suas mãos, suas duas pistolas customizadas, "Julgamento" e "Sentença", cuspiram fogo.

As balas, cada uma selada com runas de Éter explosivo, não voaram em linha reta, mas em arcos calculados para flanquear Nero.

Forçada a se defender de um novo eixo, Nero retirou sua espada do escudo em ruínas. O que se seguiu foi uma tempestade de aço impossível. Em um borrão de movimento, ela girou, sua lâmina dançando no ar. O som não foi de balas sendo rebatidas, mas de dezenas de pequenas trovoadas enquanto ela cortava cada projétil ao meio. Ela não estava apenas destruindo o metal; ela estava dissecando a própria magia contida neles, desarmando sua natureza explosiva com precisão cirúrgica.

O esforço, no entanto, custou-lhe a ação. Seu turno se esgotou na defesa.

Sobre a cabeça de Leona, um novo medidor de turno se acendeu, brilhando com uma luz desafiadora. O jogo havia se tornado muito mais perigoso.

O campo de batalha era uma cacofonia de caos calculado. Explosões de éter e o zumbido de balas desenhavam padrões de luz na penumbra, uma dança mortal onde o menor erro de cálculo significava o fim. De longe, Ozen agarrava os próprios braços, a frustração e o pânico gravados em seu rosto. "LEONA, SAIA DAÍ! VOLTE!", ele gritava, sua voz quase perdida no barulho. Ellie e Miriam trocaram um olhar sombrio; o desespero dele era compreensível. A amiga dele não estava lutando contra um mero inimigo, mas contra uma calamidade natural em forma humana. Cada arco casual da katana de Nero era uma sentença de morte para a própria realidade, deixando para trás sulcos negros, feridas abertas no tabuleiro que sangravam vácuo.

Leona respondia com uma tempestade de luz e som, forçando Nero a uma dança defensiva, sua lâmina um borrão prateado que dissecava cada projétil. E no meio daquele furacão, movendo-se como o olho da tempestade, estava Ludmilla. Focada, silenciosa, seus olhos fixos, sem sequer piscar. Ela era a adaga se aproximando pelas costas enquanto o alvo estava distraído com a artilharia.

Nero, mesmo no meio de sua defesa frenética, percebeu a armadilha. Leona era a distração; Ludmilla, o verdadeiro ponto de pressão, cada vez mais perto de seu turno, de seu golpe fatal. Por uma fração de segundo, Nero considerou sacrificar uma ação para estilhaçar o chão e criar distância, mas Daemon foi mais rápido.

[TURNO: DAEMON]

Com seu Devil Eye analisando a cadência da batalha, Daemon estendeu a mão. O chão sob os pés de Nero perdeu subitamente todo o atrito, tornando-se uma placa de gelo invisível. No momento em que ela deslizou, desequilibrada, uma lança forjada da própria ausência de luz materializou-se e avançou contra ela.

[TURNO: NERO]

Nero torceu o corpo no ar, a lança de escuridão passando a milímetros de seu peito. O turno de Ludmilla estava prestes a começar. O perigo era absoluto. Sem tempo, Nero executou seu contra-ataque mais bizarro. Sua espada não buscou um alvo, mas o próprio ar. Com um movimento preciso, a lâmina cantou, e em seu rastro, o nitrogênio foi instantaneamente erradicado. O resultado não foi uma explosão, mas um súbito e ensurdecedor silêncio, seguido pelo rugido do ar ao redor correndo para preencher o vácuo. A onda de choque a impulsionou para trás e para o alto, longe de Ludmilla.

[TURNO: LUDMILLA]

Ludmilla nem hesitou. Vendo Nero ser arremessada, suas correntes dispararam com inteligência própria, não para atacar, mas para se prenderem como garras em uma lajota distante, exatamente onde Nero cairia. Com as correntes ancoradas, Ludmilla se puxou, transformando-se em um cometa carmesim, um estilingue humano voando em direção ao seu alvo em queda. No ar, sua espada gigante se dividiu com um clique metálico em duas lâminas menores e mais ágeis. Ela girou, um turbilhão de aço e fúria, pronta para cortar Nero ao meio antes que ela tocasse o chão.

Foi então que ela notou. A mão de Nero estava vazia.

Um brilho metálico chamou a atenção de Leona e Daemon. Dois fragmentos da katana de Nero, lançados com uma força absurda durante a explosão de vácuo, vinham em direção a eles como projéteis mortais. Eram lascas da própria morte, imbuídas com a aura de aniquilação.

[TURNO: LEONA & DAEMON - DEFESA FORÇADA]

Ambos foram forçados a gastar seus turnos, suas ações preciosas, para conjurar barreiras de sombras e explosões para conseguir redirecionar e desviar daqueles fragmentos letais. No ar, Ludmilla assistiu com horror enquanto o medidor de turno, após ser roubado pelos dois defensores, voltava para a única pessoa que ela não queria que o tivesse. Nero.

Suspensa no ar, indefesa e com seu ataque perdido, ela viu Nero, em queda livre, sorrir. E então, ela pronunciou as palavras, calmas e absolutas.

[TURNO: NERO]

"Ressonância da Morte: Decaimento do Metal".

Uma onda de éter pálido e doentio pulsou a partir de Nero. Não era uma explosão, mas uma praga. No instante em que a onda a atingiu, as espadas de Ludmilla morreram. O brilho virou ferrugem, a solidez virou pó, desfazendo-se em suas mãos. Uma náusea corrosiva a invadiu quando o ferro em seu próprio sangue pareceu gritar. Ela caiu no chão com um baque surdo, cuspindo uma mistura de bile e sangue. Sua passagem pelo campo de Nero fora breve, mas ela entendeu: mais um segundo naquela aura, e seu próprio corpo teria se desfeito.

Daemon rosnou, a fúria queimando em seu peito. Nero estava brincando. Ela poderia ter usado aquilo quando ela os encurralou na muralha de sombras. Pior, ela estava se contendo o tempo todo; o simples fato de eles não estarem todos mortos já era um ato de controle consciente da parte dela.

Mas enquanto Daemon se perdia em raiva, Ludmilla agia.

Do chão, bem abaixo de onde Nero aterrissou com leveza, uma única corrente eruptiu da terra como uma serpente de aço. Pega de surpresa, Nero desviou, mas o atraso foi o suficiente. A ponta da corrente rasgou sua bochecha, abrindo o primeiro corte real da batalha.

Cuspindo sangue e desafio, Ludmilla se forçou a ficar de pé, revelando sua jogada: ela havia enviado a corrente pelo subsolo enquanto caía. Mas o veneno da Art de Nero cobrou seu preço. Uma de suas pernas cedeu, e ela caiu sobre um joelho.

Imediatamente, Nero saltou em sua direção para o golpe final, apenas para ser parada no meio do caminho pelo brilho dourado da regra do turno, bloqueando seu movimento.

Aproveitando a abertura, Leona disparou, a bala explodindo aos pés de Nero para desequilibrá-la. Daemon avançou, seu martelo de sombras pronto para esmagá-la. Mas Nero, com uma agilidade fluida, saltou para o lado no último instante, o martelo abrindo outra cratera no chão.

Ela pousou, o sangue escorrendo pelo seu queixo, um sorriso frio em seus lábios. O turno era dela novamente.

Ludmilla se apoiou nos joelhos, o corpo tremendo de exaustão, e ergueu o olhar para Nero. Cada respiração era uma batalha.

— Agora... — disse ela, a voz rouca, um sorriso manchado de sangue nos lábios. — Agora você não pode mais dizer que não entende os caçadores.

Nero levou os dedos ao corte em sua bochecha. Ela observou o próprio sangue escarlate com uma curiosidade quase infantil, como se visse a cor pela primeira vez.

— Por que diz isso?

— Porque agora você também sabe como é gostar de uma luta — ofegou Ludmilla. — É fácil ver. Está estampado nesse seu sorriso.

A própria Nero não havia percebido. O sorriso vacilou, uma tentativa reflexiva de mascarar a emoção, mas era tarde demais. Uma alegria genuína, uma fagulha de descoberta, brilhava em seus olhos. Lutar era... divertido.

Por um instante, elas se encararam. Uma comunhão silenciosa entre predador e presa. Ludmilla, coberta de fuligem e do próprio sangue que vomitara; Nero, com um único e limpo filete escarlate escorrendo pelo rosto. E ambas, de uma forma estranha e terrível, pareciam mais felizes do que nunca.

Sem aviso, Ludmilla explodiu em um último e desesperado avanço. Nero, em resposta, correu em seu encontro, não mais como uma executora, mas como uma parceira naquela dança final.

— LOUCURA! ATACAR DE FRENTE DE NOVO?! — gritou Ellie, incrédula.

Ozen, no entanto, viu algo diferente. Assistindo àquela troca, uma brasa há muito adormecida se reacendeu dentro dele. A fúria contra a própria impotência. 'Quando eu me tornei tão covarde?', ele pensou. 'Quando comecei a pensar apenas na derrota? Eu também me lembro... Eu me lembro do gosto desta chama.'

— LUDMILLA, SALTE AGORA! — sua voz trovejou pelo campo de batalha, carregada com uma autoridade que ninguém esperava.

Se Ludmilla saltasse, sua trajetória seria previsível. Um alvo fácil. Era suicídio tático. Mas nos olhos de Ozen, ela viu não o medo, mas o fogo redescoberto. Ela acreditou. E saltou, lançando-se no ar em um arco de fé cega.

Daemon e Ellie prenderam a respiração, certos de que ela havia enlouquecido. No ar, Nero já girava seu corpo em um balé letal para o golpe final. Sua katana, antes estilhaçada, refez-se em sua mão como uma extensão de sua vontade. O turno era dela. A lâmina era dela. A morte era dela.

[TURNO: OZEN]

A katana desceu. Mas em vez de encontrar carne, ela colidiu com o ar, produzindo um som agudo e ressonante, como aço batendo em um diamante. O espaço à frente de Ludmilla tremeluziu e se cristalizou, formando uma plataforma de ar sólido, translúcida e imóvel. Um novo medidor de turno brilhou acima da cabeça de Ozen, com um timbre diferente dos outros.

Ludmilla usou a plataforma inesperada para matar seu próprio impulso, rolando sobre a superfície invisível e reaparecendo nas costas de Nero, já em queda.

‘Uma habilidade patética para o combate direto’, pensou Ozen, um sorriso amargo no rosto. ‘Mas perfeita para dar suporte a idiotas impetuosos que só sabem ir para cima.’

[TURNO: LUDMILLA & DAEMON & LEONA]

Atrás de Nero, os olhos de Ludmilla brilharam com o poder de seu Devil Eye, e um corte conceitual — uma ferida na própria lógica da existência — se abriu nas costas do Avatar. No mesmo instante, aproveitando a abertura, Daemon e Leona convergiram para o alvo. Das mãos deles, duas espadas de sombras, forjadas por Daemon, se materializaram, prontas para a estocada final que perfuraria Nero de ambos os lados.

— É AGORA! — gritou Miriam, vendo a vitória ao alcance das mãos.

— Não... — sussurrou Ellie, seus olhos analíticos jamais se desviando de Nero. — O turno... voltou para ela. E ela ainda tem aquela técnica.

Enquanto as duas lâminas de ether com propriedades sombrias avançavam, Nero, caindo em direção a elas, sorriu. Um sorriso de pura e genuína epifania, de quem encontrou um tesouro inestimável.

— Eu nunca conheci esse sentimento... essa chama, esse brilho em seus olhos. Agora eu entendo. Caçadores... são realmente divertidos.

Sua aura não explodiu. Ela detonou, como um sol negro de poder puro. E então, ela nomeou o fim.

"Ressonância da Morte: Decaimento do Éter".

A onda de poder que se seguiu era de negação absoluta. Não era mais direcionada ao metal ou à matéria. Ela atacava a própria energia, o combustível da realidade deles. As espadas de sombra de Daemon e Leona não se quebraram; elas evaporaram em um chiado silencioso, sua existência simplesmente desfeita. A aura deles vacilou, como chamas em uma ventania. A própria Black Box, sua estrutura mantida pelo Éter de Claire, começou a morrer. As linhas da grade piscaram e se apagaram. O céu artificial rachou.

Com o som de um universo de vidro se quebrando, eles foram cuspidos de volta.

A transição foi violenta. O ar estéril do campo de batalha deu lugar ao cheiro de poeira e metal do vagão de carga. A luz fraca e solitária de uma lâmpada no teto era tudo o que iluminava a cena.

E no centro de tudo, perfeitamente imóvel, estava Nero. Sua katana, inteira e imaculada, em sua mão. Em frente a ela, Ludmilla jazia caída, o corpo uma boneca quebrada, sem forças sequer para erguer a cabeça. 

Parte 12

Enquanto a realidade se dobrava dentro da dimensão de bolso, o tempo no mundo real escorria em seu próprio ritmo implacável. No teto do trem, sob o uivo do vento e o chacoalhar dos trilhos, Regulus e Favaro estavam prestes a ser submergidos por um mar de corpos se contorcendo. As criaturas, com seus olhos vazios e garras arranhando o metal, avançavam. De repente, uma onda de choque silenciosa pulsou vinda do vagão abaixo — uma pressão faminta que fez o ar vibrar com uma energia escura e predatória.

— Opa! Essa é minha deixa — murmurou Favaro, um triunfo sombrio em sua voz ao reconhecer o ether de sua companheira.

A horda hesitou. Como um só, os mortos-vivos viraram suas cabeças em direção à fonte daquele poder, sua programação momentaneamente interrompida. Favaro não desperdiçou a chance. Ele se jogou de cabeça pela escotilha mais próxima, um borrão de movimento descendo para o corredor do trem, correndo em direção ao seu objetivo.

Regulus permaneceu no teto, sua audição sobre-humana focada no caos. O arrastar de centenas de pés cessou abruptamente, substituído por uma chuva de baques surdos e pesados, como sacos de carne caindo no metal. Confuso, ele ativou seu comunicador.

— Gustavo, relatório. O que aconteceu? Eles simplesmente... apagaram.

A amiga do seu alvo, ativou uma black box e eles pararam de se mover— a voz de Gustavo soou através da estática, clínica e distante. — Ela também puxou que estavam próximos. Estão fora de jogo, por enquanto, incluindo Leona, Miriam e Ozen.

Regulus se virou, pronto para chamar Favaro, mas o ladrão já havia se aproveitado da distração. Ele sumira.

Não perca seu tempo procurando — a voz de Gustavo retornou, agora com um tom de resignação. — Ele acabou de violar a porta do vagão-cofre.

Com uma praga nos lábios, Regulus saltou para dentro do trem, o som de suas botas abafado pelo rugido constante da viagem. Ele encontrou Favaro no exato momento em que ele saía do cofre, um baú dourado e ornamentado debaixo do braço, já correndo em direção à parte de trás do trem.

O duelo começou naquele túnel de metal e trepidação. A katana de Regulus se movia em arcos invisíveis, deixando para trás apenas o boom sônico de suas passagens e o cheiro de ozônio. Mas Favaro, um acrobata desesperado impulsionado pela ganância, usava o espaço confinado a seu favor.

— O que a Black Box da sua parceira faz?! — gritou Regulus, sua lâmina rasgando o ar onde Favaro estivera um segundo antes.

— Eu conto se você me deixar ir com isto! — ofegou Favaro, usando o baú pesado como uma bigorna dourada para desviar um golpe que teria arrancado seu braço.

— Sem negociações!

A luta era uma dança caótica. Favaro chutava caixotes, derrubava mesas de serviço e usava o próprio baú como um aríete desajeitado para bloquear o avanço implacável de Regulus. O espadachim tentou uma estocada direta, mas Favaro, com uma perícia nascida do pânico, girou o baú e desviou a lâmina com o canto reforçado do objeto.

O desespero de Favaro crescia. Regulus não estava brincando, e a incerteza sobre sua própria mortalidade o tornava descuidado. Enquanto se esquivava de uma nova chuva de cortes sônicos, sua audição aguçada alertou Regulus. Um som discreto, um rolar metálico no chão vibrante do trem. Um pequeno cilindro de metal. Com precisão cirúrgica, Regulus mudou o ângulo de seus ataques, não para acertar, mas para herdar Favaro, forçando suas esquivas para trás, exatamente para o ponto cego no chão.

Favaro tropeçou. Um desequilíbrio de uma fração de segundo.

Foi tudo que Regulus precisou. Sua katana cantou no ar, um sussurro de aço que desenhou uma linha vermelha profunda no ombro de Favaro.

O imortal fechou os olhos, esperando o golpe final, o abraço frio da morte. Em vez disso, sentiu uma eletricidade familiar. Um formigamento que começou na ferida e se espalhou por seu corpo. Com uma velocidade profana, o tecido começou a se unir, a pele a se fechar. Sua imortalidade... estava de volta.

Um sorriso selvagem brotou em seus lábios. Regulus se preparou para o segundo round. Mas, naquele exato momento, uma explosão de Éter puro, tão vasta e aniquiladora que parecia o colapso de uma estrela, emanou do vagão da frente. Um pulso ofuscante de pura energia, um grito mudo que distorceu o ar e os arremessou violentamente contra as paredes do corredor.

— Claire já terminou? — disse Favaro para si mesmo, vendo sua chance dourada. Ele se levantou e correu, atravessando a porta que o levaria de volta ao vagão de carga.

REGULUS, ESPERE! — a voz de Gustavo gritou no comunicador, cheia de pânico. — TEM ALGO ERRADO AÍ! AS CÂMERAS... A IMAGEM...!

Mas era tarde demais. Favaro já havia arrombado a porta.

Ele parou abruptamente no limiar, seu momentum para a frente morrendo instantaneamente. O baú dourado escorregou de seus dedos, caindo no chão com um baque surdo e pesado que pareceu ecoar por uma eternidade.

A visão que o saudou foi um tableau saído de um pesadelo. As figuras quebradas do grupo de Ozen e dos estudantes de Babylon, espalhados pelo chão, exaustos ou inconscientes. No centro, uma estátua de calma e poder, Nero, sua katana na mão.

E no chão, bem aos seus pés, o corpo decapitado de sua amiga, Claire.

Parte 13

Nero encarou a forma exausta de Ludmilla, caída contra o chão frio do vagão. Um sentimento novo, quase alienígena, agitava-se em seu peito — uma mistura de curiosidade e algo que ela ainda não sabia nomear. Seus olhos, normalmente gélidos, brilharam com um leve traço de fascínio. Ela deu um passo à frente, a lâmina em sua mão reluzindo sob a luz fraca.

Num ímpeto desesperado, Miriam se lançou à frente de Ludmilla, os braços abertos como um escudo frágil, mas determinado, protegendo o corpo da caçadora. Seus olhos ardiam com lágrimas contidas, e sua respiração era irregular, mas ela não recuou.

— O que você está fazendo?! Saia daí! — gritou Ludmilla, a voz rouca, tentando se erguer. Seu corpo, porém, traído pela exaustão, recusava-se a obedecer.

— Não! — retrucou Miriam, a voz tremendo, mas carregada de uma convicção que parecia maior que ela mesma.

Nero parou, inclinando a cabeça, como se tentasse decifrar um enigma. — O que você está fazendo, garota? Você não tem força para lutar. Se ficar aí, só vai morrer.

— Pode ser! — gritou Miriam, as palavras explodindo de seu peito, carregadas de um fogo que nem ela sabia que possuía.

— Sua morte não vai mudar nada — disse Nero, com uma lógica fria, quase mecânica. — Se eu quiser, posso passar por você e matar Ludmilla depois. Seu sacrifício será inútil.

Ozen, assistindo à cena de longe, sentiu o coração disparar. O pânico estampado em seu rosto o impulsionou a correr em direção a elas, os pés tropeçando no chão metálico do vagão. Mas a determinação de Miriam, como uma chama inextinguível, irrompeu mais alto.

— Ainda assim, eu não vou sair! — declarou ela, as lágrimas agora escorrendo livremente por seu rosto, mas sua voz permanecia firme, inquebrantável. — Eu também quero ser uma caçadora, como ela! E sei que, se fugir agora por medo de morrer, estarei traindo meu próprio sonho!

Nero ficou em silêncio por um instante, os olhos arregalados, como se aquelas palavras tivessem tocado algo profundo dentro dela. Então, um riso escapou de seus lábios — um som genuíno, cheio de surpresa e uma estranha admiração. — Entendi... Eu andei aprendendo coisas curiosas sobre vocês, mortais. Existem aqueles que não temem morrer em uma luta... e outros que preferem morrer a abandonar seus sonhos.

Ela ergueu a mão, e Ozen, finalmente alcançando Miriam, envolveu-a em um abraço protetor, virando o próprio corpo para protegê-la do golpe que ele tinha certeza que viria. Seus músculos tensos, seu coração acelerado, ele se preparou para o pior. Mas o golpe não veio. Em vez disso, a mão de Nero pousou suavemente na cabeça de Miriam, um gesto quase terno, inesperado.

— Não precisa mais dizer que "vai se tornar" — disse Nero, sua voz agora tingida de um respeito que parecia novo até para ela mesma. — Eu, aqui, declaro, garotinha: você já é uma caçadora.

Com isso, Nero se virou, os cabelos esvoaçantes, e começou a caminhar lentamente em direção à lateral do vagão.

Ludmilla, ainda lutando para recuperar o fôlego, ergueu a voz com dificuldade. — Para onde você vai? Eu te desafiei. Eu perdi. Conheço as consequências.

Nero parou, mas não se virou. — Nossa batalha não acabou — respondeu, a voz firme, mas com um toque de curiosidade. — Hoje, aprendi algo novo. Tenho certeza de que posso aprender ainda mais, me tornar ainda mais forte. E sei que o mesmo vale para você. Em vez de encerrar nossa luta aqui, prefiro pausá-la. Continuaremos outro dia. Mas da próxima vez, será apenas nós duas. É bom que você fique mais forte, Ludmilla.

O trem, com um solavanco metálico e um chiado agudo dos freios, parou abruptamente, fazendo o vagão estremecer. Favaro, confuso com a parada súbita, desviou os olhos para a escuridão do corredor por um instante. Quando voltou o olhar, Nero já havia desaparecido. No chão, a cabeça do imortal rolava, os olhos arregalados em uma expressão de surpresa eterna. A katana de Nero, ainda manchada de sangue, permanecia como prova de sua passagem.

Ela reapareceu ao lado do corpo sem cabeça de Favaro, apanhando o baú dourado com um movimento casual. — Isso fica comigo — murmurou, quase para si mesma.

Com um giro preciso de sua lâmina, ela cortou uma seção da parede do vagão como se fosse papel. A luz dourada da floresta inundou o compartimento escuro, revelando o caos deixado para trás. Nero deu um passo para fora e, sem olhar para trás, desapareceu entre as árvores, deixando no vagão um silêncio pesado, quebrado apenas pelo som distante do vento.



Horas se passaram, e a floresta ao redor do Expresso Elysium parecia engolir o trem em seu silêncio opressivo. O que outrora fora um símbolo de progresso imparável agora era apenas uma carcaça de metal, imóvel sobre os trilhos. A parada não foi um acidente. Nos vagões da frente, Mikaela e Simon, com a calma lógica que faltava ao jovem maquinista, convenceram-no do perigo iminente. Continuar com danos desconhecidos poderia levar a um descarrilamento catastrófico. Relutante, temendo manchar sua primeira viagem, o maquinista cedeu, e o trem parou para avaliações.

Aos poucos, uma normalidade frágil começou a se instaurar. Gustavo, em seu quarto, conseguiu romper o bloqueio de comunicação e contatar Elysium. A notícia de que equipes médicas, policiais e de resgate estavam a caminho trouxe um suspiro coletivo de alívio entre os sobreviventes, como se o peso da morte iminente tivesse sido, ao menos por enquanto, afastado.

No vagão de carga, a adrenalina da batalha dava lugar a um cansaço profundo, que parecia esmagar os ossos de todos. Ludmilla, sentada no chão, encarava as próprias mãos trêmulas, marcadas por cortes e hematomas. — Preciso ficar mais forte... — murmurou, quase para si mesma, a voz carregada de uma determinação que lutava contra a exaustão.

— Mais forte? — exclamou Ozen, incrédulo, aproximando-se dela. O homem, com seus mais de 37 anos, parecia ter envelhecido uma década em uma única hora. — Você está realmente pensando em enfrentar aquilo de novo?

Eleanor e Miriam trocaram um olhar e riram baixo, um som que aliviava a tensão no ar. — Você fala isso, mas foi o primeiro dos não combatentes que saltou para a batalha — provocou Miriam, com um sorriso malicioso.

Ozen corou, desviando o olhar e resmungando algo inaudível. 

Ludmilla ergueu os olhos e encontrou os de Miriam, que, apesar do cansaço e dos machucados, exibia um sorriso radiante, quase desafiador. A garota, ainda cercada por médicos que insistiam em examiná-la, parecia brilhar com uma energia que ninguém ali podia ignorar.

— Eu estou bem, de verdade! — protestava Miriam, enquanto os médicos, alheios à sua teimosia, continuavam a checá-la.

Antes que a levassem, Ludmilla a chamou, sua voz suave, mas firme. — Ei, Miriam. Sobre o seu sonho... Se você quiser, posso levá-los até Babylon. Você pode se registrar na escola de caçadores.

Os olhos de Miriam se arregalaram, como se o mundo tivesse parado por um instante. Ozen, ao seu lado, quase engasgou. — Isso custaria uma fortuna! Não temos como pagar algo assim!

Daemon, com sua calma habitual, interveio. — O Éteron, nossa moeda, é supervalorizado fora de Babylon. O que é uma fortuna para vocês, para nós, não é grande coisa.

Miriam ficou em silêncio, o peito subindo e descendo rapidamente. As lágrimas que ela segurava diante da morte agora transbordavam, mas não de medo ou dor — eram lágrimas de uma alegria tão intensa que parecia que seu coração poderia explodir. Ela cobriu o rosto com as mãos, tentando esconder o rubor nas bochechas e os olhos marejados, mas o sorriso que escapava era impossível de conter.

Ozen, ainda atônito, deixou escapar uma risada rouca, contagiado pela emoção da garota. Leona e Regulus se juntaram, suas risadas enchendo o vagão com um calor que contrastava com o frio metálico ao redor. — Parece que sua jornada finalmente começou, pequena — disse Gustavo, também se aproximando do grupo.

Enquanto os médicos levavam Miriam para um check-up mais detalhado, ela lançou um último olhar para Ludmilla. Naquele instante, seus olhos se encontraram, e havia ali uma promessa silenciosa.

O vagão, agora banhado pela luz suave do entardecer que entrava pelas rachaduras na parede, parecia pulsar com a esperança de novos começos. Para Miriam, o Expresso Elysium, mesmo parado, marcava o início de uma jornada que, até poucas horas atrás, parecia um sonho impossível. E, no fundo de seu coração, ela sabia: aquele era apenas o primeiro passo.

Parte 14

Uma semana depois...

No escritório abafado de Simon, o cheiro de café requentado misturava-se ao odor de papel velho e tinta. Ele digitava furiosamente, os olhos fixos na tela, as teclas ecoando como um tamborilar frenético enquanto dava os toques finais em seu mais novo romance de "não ficção". A luz fraca da luminária jogava sombras longas sobre a mesa abarrotada de anotações.

...e assim, entre o caos e a revelação, cada sobrevivente encontrou um novo caminho, uma nova promessa no horizonte que se abria...

— Você vai mesmo adicionar o que aconteceu no final? — A voz de Ellie cortou o silêncio, afiada como uma lâmina. Ela estava afundada na poltrona de couro desgastada, um jornal dobrado repousando em seu colo como um peso morto.

Simon ergueu os olhos, a testa franzida. — É importante, Ellie. Preciso relatar tudo. A verdade dos fatos — respondeu, as mãos voltando ao teclado com determinação.

Ellie suspirou, os olhos carregados de uma melancolia que Simon não viu. — É por isso que eu acho que algumas histórias ficam melhores sem um final. — Com um gesto lento, quase relutante, ela abriu o jornal.

O jornal, estava manchado como se gotas tivessem caído sobre ele e com bordas desgastadas, nele estava escrito sobre o : "Incidente do Expresso Elysium: Tragédia e Mistério nos Trilhos". Ela como se estivesse relendo o mesmo jornal pela décima vez percorreu a matéria, indo direto para a parte que detalhava a investigação oficial — as mortes brutais, o roubo do baú dourado, a intervenção de um "agente desconhecido" que ninguém conseguia identificar. Mas era uma nota de rodapé, quase escondida na última coluna, que sempre fazia seu coração apertar.

...entre as consequências da tragédia, as autoridades de Elysium ainda investigam o paradeiro de Miriam Procheno, uma jovem associada ao grupo mercenário Osdra. Testemunhas afirmam que ela foi vista pela última vez sendo levada para a ala médica improvisada no trem. No entanto, ela nunca chegou ao posto de primeiros socorros. Após dias de buscas exaustivas na floresta ao redor do local onde o Expresso Elysium parou, a garota foi oficialmente declarada como desaparecida.

Simon observando ela relendo aquela matéria sentiu um frio percorrer sua espinha. As palavras na tela diante dele — a promessa de um novo caminho, a esperança de Miriam — agora pareciam uma cruel ironia.



Enquanto isso, no domínio sombrio de Umbra, na cidade de Zan...

No topo de uma torre de obsidiana, cujas paredes pareciam absorver a luz em vez de refleti-la, uma sala opulenta pulsava com uma energia opressiva. Lustres de cristal negro pendiam do teto, emitindo um brilho frio que iluminava o centro da câmara. Ali, sentado em uma poltrona ornamentada no topo de uma escadaria de mármore negro, estava o corpo de Miriam. Seu traje, justo e negro como a noite, parecia sugar a vitalidade do ambiente. Seus olhos, outrora cheios de fogo e determinação, agora estavam vazios, vidrados, como os de uma boneca quebrada. Não havia traço da garota que enfrentou Nero com coragem inabalável.

Ptolemy, o líder dos generais titânicos, observava a cena de pé, ladeado por suas figuras imponentes. Zenobia, com um sorriso cruel curvando os lábios, quebrou o silêncio. — O que você fez com ela, depois que eu a trouxe, Malemia?

Malemia, encostada em uma coluna, riu baixo, um som que ecoava como vidro estilhaçado. — Ptolemy disse que precisávamos quebrar a vontade da garota, para não haver resistência durante a tomada de posse. Então... eu a levei para o subterrâneo e brinquei um pouco. — Seus olhos brilharam com uma satisfação sádica. 

— Pobre garota — zombou Zenobia, ajustando o uniforme falsificado de policial de Elysium que ainda usava, as insígnias reluzindo de forma irônica.

— Quanto tempo você vai continuar com essa fantasia? — perguntou Shikabane, outro general, a voz carregada de desdém.

— Eu gostei do uniforme — retrucou Zenobia, com um gesto displicente.

A conversa foi interrompida por Koro, que se aproximou do corpo de Miriam com passos calculados. Em suas mãos, ele segurava uma seringa contendo um líquido negro como petróleo, que parecia pulsar com uma energia maligna. — Está tudo pronto — anunciou, a voz grave. Ele puxou um pano, limpando o pescoço pálido de Miriam, que não reagiu, e injetou o conteúdo com precisão cirúrgica.

No instante em que o líquido negro entrou em seu corpo, a seringa estilhaçou-se, a agulha voando pelo ar e cravando-se na parede oposta. Um Éter sombrio, viscoso e horripilante, começou a emanar de Miriam, distorcendo o ar ao seu redor. De suas costas, asas angelicais emergiram, com penas douradas como a luz da estrela da manhã. Chifres brotaram de sua testa, e uma cauda pontiaguda serpenteou pelo chão. A sala inteira pareceu encolher sob o peso daquela presença.

Os generais, até então confiantes, caíram de joelhos, curvando-se em reverência. Miriam — ou o que restava dela — levantou-se lentamente e caminhou até a poltrona, sentando-se com uma graça fria e autoritária. Cruzou as pernas, e, pela primeira vez, um brilho de consciência acendeu-se em seus olhos. Mas não era a consciência de Miriam. Era algo antigo, vasto, e aterrorizante.

— Quem são vocês? E o que querem? — A voz era a de Miriam, mas o tom carregava um poder absoluto, como se cada palavra pudesse despedaçar o mundo. — Sejam breves e precisos. Mas alerto que tenham cuidado, se a primeira palavra me desagradar, farei questão de queimar e apagar cada átomo de todos vocês.

Ptolemy, ainda ajoelhado, ergueu a cabeça com cautela. — Vossa Majestade, Lúcifer. Somos nós, Ptolemy e seus súditos leais. Apesar de nossos corpos atuais, nossas essências permanecem as mesmas. Durante eras, trabalhamos para reconstruir seu império e trazê-lo de volta.

A entidade que agora habitava o corpo de Miriam — Lúcifer — inclinou a cabeça, os olhos perfurando não apenas os corpos, mas as próprias almas dos generais. — Entendo. Ptolemy, o antigo Rei dos Demônios Primordiais, e seus lacaios. Vocês encontraram maneiras de injetar suas essências em corpos humanos para escapar dos olhos dos Cavaleiros da Távola Redonda. Inteligente.

Kauron, incapaz de conter sua arrogância, riu. — Naquela época, talvez precisássemos nos esconder. Mas hoje? Os Cavaleiros da Távola Redonda são uma sombra do que foram. Poderíamos esmagá-los com facilidade...

Antes que terminasse a frase, seu corpo explodiu em uma poça de sangue e vísceras, o som ecoando como um trovão na sala. Os outros generais enrijeceram. Lúcifer o encarou, os olhos brilhando com uma sede assassina que parecia devorar a própria luz. — Calado, seu verme. Eu lhe dei permissão para falar?

Um silêncio mortal caiu sobre a sala, pesado como o próprio Éter sombrio que emanava de Lúcifer. Ele se levantou e caminhou até a janela, o reflexo no vidro mostrando o rosto de Miriam, agora distorcido por traços demoníacos. Por um breve instante, Lúcifer observou a semelhança entre aquele corpo e sua antiga forma feminina. Um receptáculo perfeito, pensou. Com ele, posso canalizar até 20% do meu poder.

— De quem era este corpo? — perguntou, a voz cortante, dirigindo-se a Ptolemy.

— Uma órfã de Elysium, Majestade — respondeu Ptolemy, mantendo a cabeça baixa. — Um achado raro. O Éter dela tinha uma ressonância natural com o seu. Além disso, ela possui ascendência Scarlune, o que a torna excepcionalmente resistente a altas concentrações de Éter.

— Scarlune? — repetiu Lúcifer, o tom carregado de curiosidade. — Não conheço.

— Muita coisa mudou em sua ausência, meu senhor — disse Ptolemy, com cautela. — Gostaríamos de discutir seus planos e o que preparamos para sua volta.

Lúcifer ergueu a mão, um gesto que silenciou a sala. — Podem relaxar. Estou curioso para saber como conseguiram me ressuscitar. — Ele se virou, franzindo o nariz ao sentir o cheiro fétido de Umbra, um odor que nem mesmo sua presença conseguia mascarar. Ao passar pelo espelho, notou algo estranho: uma única lágrima escorreu do olho esquerdo de Miriam, brilhando como um vestígio de sua humanidade perdida. Lúcifer a limpou com um gesto impaciente, sem entender sua origem, e caminhou com Ptolemy para outra sala, os passos ecoando como um prenúncio de destruição.

Enquanto a porta de obsidiana se fechava atrás deles, a sala ficou em silêncio. No chão, onde o corpo de Miriam estivera, restava apenas uma mancha escura de Éter, como se a própria essência da garota tivesse sido consumida. A promessa de um futuro como caçadora, a coragem que enfrenta a morte, o sonho que a mantivera de pé — tudo foi apagado, reduzido a cinzas sob o peso de um poder que ela jamais poderia compreender. E, em algum lugar, na floresta esquecida onde o Expresso Elysium permanecia parado, o eco de sua voz ainda parecia sussurrar, perdido no vento: Eu também quero ser uma caçadora...

Entrelinhas 

A visão se dissolve lentamente, como tinta escorrendo em água, até se fixar em uma sala de veludo vermelho, banhada por uma luz tênue e tremeluzente. As cortinas pesadas, de um carmesim profundo, parecem engolir o brilho das velas que dançam nas sombras. No centro, sentada em uma poltrona de couro antigo, está Alpha. O livro em suas mãos, de capa gasta e bordas douradas, repousa agora fechado em seu colo. Seus olhos, brilhando com um misto de tristeza e segredos, fixam-se diretamente em você — sim, você, que segura estas palavras.

Ela inclina a cabeça, um sorriso forçado curvando seus lábios, como se tentasse mascarar a melancolia que pesa em seu rosto. Mas há algo mais ali, algo que não explica: uma faísca de conhecimento, um vislumbre de mistérios que ela guarda com cuidado. Quando fala, sua voz é suave, mas carrega o peso de eras, como se cada sílaba fosse escolhida com precisão para ecoar em sua mente.

— E assim, nossas histórias se entrelaçam e se desfazem, como fios de uma tapeçaria ainda incompleta. O que acharam? O que sentiram — Ela faz uma pausa, os olhos percorrendo o vazio, como se pudesse ver cada pensamento seu. 

Alpha se inclina para frente, o sorriso se desfazendo em uma expressão que mistura ternura e enigma. — Vocês acham que conhecem o mundo de Hortus Parvus, não é? — Ela ri baixo, um som que é ao mesmo tempo caloroso e inquietante. — Mas o que viram é apenas uma fração, um reflexo distorcido em um espelho rachado. Este mundo guarda segredos que nem mesmo eu compreendo completamente... ainda.

Ela ergue o livro, acariciando sua capa com dedos delicados, como se ele contivesse não apenas histórias, mas fragmentos de almas. — Cada página que viramos juntos nos aproxima de algo maior, algo que pulsa sob a superfície. Vocês sentiram, não é? — Seus olhos brilham, e por um instante, parecem refletir uma constelação de possibilidades. — Essas histórias não são apenas contos. Elas são ecos de algo que está por vir, algo que vocês, leitores, ajudarão a desvendar.

Alpha se levanta, o movimento gracioso, mas carregado de uma gravidade que faz o ar parecer mais denso. Ela caminha até uma estante na penumbra, onde outros livros, igualmente antigos, alinham-se como sentinelas silenciosas. — Por enquanto, me despeço — diz, sem se virar, a voz agora um sussurro que parece vir de todos os cantos da sala. — Mas saibam que estarei esperando, ansiosa, pelo nosso próximo encontro. E quando nos reunirmos novamente, tragam suas perguntas, suas teorias, suas esperanças. Porque, acreditem, este é apenas o começo de um labirinto muito mais profundo.

Ela se vira, e o sorriso retorna, mas agora há um toque de desafio nele.

A luz das velas pisca, e a sala de veludo vermelho desvanece, deixando apenas o eco de sua voz e uma pergunta que queima em sua mente: O que está escondido nas próximas páginas?

Historia Escrita e revisada por AngelDarkCanal do Youtube : @AngelDarkAMV  


  • Aviso


Esta obra é uma ficção e não deve ser interpretada como uma representação da realidade. A obra contém cenas pesadas, que podem ser perturbadoras para alguns leitores. Se você se sentir desconfortável com esses temas, sugerimos que não leia a obra.


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