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The Fall of the Stars: Capítulo 6 - Promessa ao Vento

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 1 de jan.
  • 56 min de leitura

Volume 3: Sentido da Vida


Parte 1

O tempo, dentro daquele cubo de vidro, não corria em linha reta. Ele estagnava, coagulava e apodrecia, dissolvendo-se em um líquido viscoso feito de tédio absoluto e agonia silenciosa.

A mente de Velvet retrocedeu, mergulhando nas memórias, voltando para os dias em que a cela transparente deixou de ser um quarto e se tornou um aquário para um espécime raro.

As visitas de seu "pai" cessaram abruptamente, como uma vela apagada por dedos frios. Não houve despedida, nem explicação. Apenas o silêncio sepulcral. As enfermeiras gentis foram substituídas por técnicos sem rosto, droides biológicos vestidos com trajes de proteção completos, que entravam no habitat apenas para drenar seu sangue e trocar os tubos de excreção.

Ela não comia mais. A comida sólida foi considerada ineficiente pela nova diretriz. Nutrientes eram bombeados diretamente em suas veias colapsadas através de soros amarelados e mornos, mantendo sua carne viva e pulsante enquanto sua mente era deixada para morrer de inanição social.

Ela estava lá, mas não estava.

Para suportar a tortura do isolamento sensorial, a psique de Velvet começou a desligar os interruptores da realidade. O zumbido constante das máquinas de suporte vital sumiu. A luz branca e estéril tornou-se um borrão cinza. Ela flutuava em um oceano de apatia, onde a dor física da agulha perfurando a pele era a única prova tangível de que ela ainda existia.

Do outro lado do vidro blindado, o mundo continuava. Ela assistia a tudo como um filme mudo, grotesco e interminável.

Viu as novas criações de Lucius. As Quimeras da nova geração sendo arrastadas pelos corredores. Antigamente, quando via seu pai dar atenção a outros experimentos, Velvet sentia uma facada quente de ciúmes, um desejo desesperado e infantil de ser a única. Mas agora... agora ela não sentia nada. O ciúme havia morrido de fome. E, de alguma forma, o "nada" era pior. O vazio era um buraco negro no centro do peito que engolia sua identidade. A incerteza a corroía como ácido: "Será que um dia eu vou sair? Será que eu sou real? Será que alguém, em algum lugar, vai me amar?"

Para não enlouquecer completamente, ela estudava. Seus olhos amarelos, fixos e sem piscar, absorviam cada detalhe das pesquisas profanas que aconteciam do lado de fora.

Ela viu a mudança de paradigma. Os cientistas pararam de tentar criar vida do zero. Em vez disso, traziam homens acorrentados — criminosos, escória descartável. Eles injetavam um líquido preto, denso e viscoso neles. O sangue dela. Ou uma variação corrompida dele.

Velvet entendeu, com sua lógica fria e observadora, o processo industrial. O sangue preto estendia a vida deles, tornando-os gado perpétuo para a extração de sangue rico em Éter. Mas a incompatibilidade biológica transformava muitos em monstros distorcidos, massas de carne gritante e tumores com dentes. E, como os criminosos mantinham sua consciência e egoísmo, tornavam-se difíceis de controlar.

Então, viu o "Projeto de Desumanização". O desenvolvimento de soros para lobotomizar quimicamente, apagando a mente e transformando homens em bestas irracionais e obedientes. Ela absorveu tudo isso. Química, biologia, anatomia, tortura. Não porque queria, mas porque era a única informação disponível para sua mente faminta devorar.

Foi então que o padrão estático quebrou. Um guarda.

Ele era jovem, com um uniforme mal ajustado nos ombros e olhos inquietos de novato. Ao contrário dos médicos que a viam como um frasco de reagente caro, ele a olhava. Havia curiosidade ali. Um fascínio proibido. Todos os dias, durante a ronda monótona, ele parava em frente ao vidro. Ele fazia caretas bobas. Acenava timidamente. Tentava arrancar uma reação da "Bela Adormecida" trancada no laboratório.

Velvet, a princípio, não entendeu. Ela o observava como um peixe observa um gato do outro lado do aquário. "Por quê? O que ele quer? Ele vai tirar sangue também?"

Certo dia, Lucius passou pelo corredor. Ele viu o guarda "brincando" com o vidro. A reação do cientista foi explosiva. Ele gritou com o homem, gesticulando furiosamente, apontando para as placas de "RISCO BIOLÓGICO EXTREMO" e "PROIBIÇÃO DE INTERAÇÃO".

Lucius nem sequer olhou para Velvet durante a discussão. Ele estava a centímetros do vidro, a respiração dele embaçava a barreira, mas ela era invisível para ele. Apenas um objeto perigoso a ser guardado no cofre.

Naquele momento exato, a apatia de Velvet trincou. A tristeza que ela sentia pelo abandono do pai coalhou e azedou instantaneamente, transformando-se em um ódio puro, denso e venenoso como mercúrio. Ela olhou para as costas de Lucius e desejou, com todas as células modificadas do seu corpo, que ele deixasse de existir. Que ele queimasse.

Semanas se passaram até o guarda voltar. Ele estava mais cauteloso agora, olhando para os lados, suando frio com medo de ser pego. Mas ele voltou. Ele não conseguia ficar longe da criatura atrás do vidro.

Velvet, do fundo de seu abismo, teve uma epifania. "Ele voltou. Ele quer ver a Velvet. Ele desobedeceu às regras... Isso... é amor? Se ele ama a Velvet... então ele pode ser útil."

O amor não era apenas dor; era uma ferramenta. Era uma chave de fenda. Era uma alavanca para mover o mundo, ou, pelo menos, foi isso que foi ensinado a ela.

Lentamente, como uma flor carnívora abrindo as pétalas, Velvet se moveu. Ela saiu do canto escuro da cela, arrastando os tubos de soro como correntes, e se aproximou do vidro. Ela olhou nos olhos do guarda e, pela primeira vez em meses, sorriu. Foi um sorriso ensaiado, frágil, doce e devastador. A reação do homem foi imediata. Ele iluminou-se, encantado, colocando a mão espalmada no vidro como se tocasse uma divindade sagrada.

O jogo começou.

Semanas de comunicação silenciosa se seguiram. Velvet aprendeu a linguagem dos gestos, a arte de parecer a coisa mais triste e bela do universo. Ela se tornou a donzela em perigo perfeita.

Finalmente, chegou o dia da execução do plano.

O guarda estava lá, hipnotizado, respirando contra o vidro. Velvet encostou a testa na barreira fria, deixando uma lágrima solitária e perfeita escorrer pela bochecha pálida. Ela fez gestos simples.

Primeiro, apontou para a porta da cela com dedos trêmulos. "Quero sair. Quero brincar com você. Me salve."

O guarda hesitou. Era proibido. Era perigoso.

Mas então, Velvet fez o segundo pedido. Ela apontou para um dos frascos de "sangue preto" — a amostra pura e instável — que ficavam na bancada próxima, esquecidos pelos técnicos. Depois, ela apontou para uma foto de Lucius em um monitor de dados e fez o gesto de injeção no pescoço.

"O remédio. O papai está doente. O papai precisa do remédio para me deixar sair."

Era um pedido absurdo. Insano. Mas o guarda não estava vendo a Quimera Matriz, a predadora alfa que planejava um patricídio. Ele estava vendo uma garotinha imaculada, presa em uma torre de vidro por um cientista cruel, pedindo uma ajuda inocente.

"Ela não sabe o que está pedindo", pensou ele, justificando a si mesmo a traição. "Ou talvez... talvez seja a única justiça aqui. Talvez seja o certo."

Ele olhou para os olhos amarelos dela. Eram poços de inocência simulada, refletindo o herói que ele queria ser. Ele sorriu de volta, um sorriso cúmplice e tolo. E concordou com a cabeça.

Velvet observou enquanto ele se afastava pelo corredor para cumprir a missão, levando a morte no bolso. O sorriso dela permaneceu no rosto, doce, angelical e fixo, mesmo enquanto sua mente fria calculava exatamente quanto tempo levaria para o inferno começar.

Parte 2

A queda terminou não com um impacto físico, mas com uma reestruturação nauseante da realidade. O chão se solidificou sob os pés deles como se o universo tivesse trocado de canal, e a escuridão infinita dos túneis foi substituída instantaneamente pela iluminação espectral e clínica da Sala Redonda.

Eles estavam de volta ao início. Mas o ar estava diferente. Estava pesado, denso, saturado de estática e cheiro de ozônio queimado, como a atmosfera segundos antes de um furacão nuclear.

Dante se levantou, ajudando Velvet, enquanto Cloud sacudia a poeira dimensional do sobretudo a alguns metros de distância, o rosto fechado. Lin depositou o corpo inconsciente de Ruxya no chão com cuidado, ofegante e trêmula.

Dante olhou ao redor, fazendo a contagem rápida dos vivos.

— Espera... — ele franziu a testa, olhando para Cloud. — A voz disse que o Lobo estava morto. Quem matou a Nero?

Cloud recarregou a pistola com um clique seco e metálico, sem olhar nos olhos de Dante.

— Eu matei.

Antes que Dante pudesse processar a informação, a sala tremeu. As luzes do domo piscaram erraticamente, morrendo e renascendo.

SE-SENHOR CLOUD... CON-CONSEGUIU ENCONTRAR O LO-LOBO...

A voz da Dungeon, antes onipresente, divina e majestosa, agora soava quebrada. Era um áudio robótico, falhando, cheio de glitches e ruídos brancos, como um disco arranhado rodando em uma vitrola moribunda e distorcida.

ERRO DE SISTEMA. PROTOCOLO FINAL... INICIADO.

Todos se viraram para o centro da sala. Caminhando calmamente em direção à mesa de tronco de carvalho negro — que agora parecia pulsar sutilmente como um órgão vivo —, estava Lucius. Ele não parecia assustado, sujo ou confuso. Ele caminhava com uma elegância macabra, como se estivesse subindo ao palco de um teatro para receber um prêmio póstumo.

Cloud estreitou os olhos, o instinto de caçador gritando perigo.

— Ei, cientista... — ele alertou, levantando a arma. — É melhor não se aproximar dessa mesa. A voz disse que o Boss vai ser invocado. Afaste-se daí agora.

Lucius ignorou o aviso como se Cloud não existisse. Ele subiu na mesa, ficando acima de todos eles. Dante o observou, estranhando a postura. Havia algo de errado.

Mas foi Velvet quem percebeu a verdade primeiro. Ela deu um passo à frente, os olhos amarelos dilatados em horror, os chifres vermelhos vibrando com a leitura de Éter. O cheiro... era um cheiro doce que emanava dele.

— Não... — Velvet sussurrou, a voz tremendo, recuando contra Dante. — Aquele... aquele não é o papai.

Lucius, de cima da mesa, olhou para ela. Ele sorriu.

— É claro que sou eu, Matriz. Ou melhor... — ele começou a desabotoar o jaleco branco imaculado com dedos pálidos. — O que sobrou de mim depois que você pediu para que me matassem.

Com um movimento brusco, ele abriu a camisa social. Lin cobriu a boca, enjoada, segurando o vômito. Cloud praguejou baixo.

A pele de Lucius, do pescoço para baixo, não era pálida como o rosto. Era uma tela de horror biológico. Uma mancha escura, negra como piche e necrosada, descia pela garganta e tomava todo o tórax e abdômen. A carne parecia morta há dias, cinzenta, rígida e podre, mantida unida apenas por uma vontade profana e fios de Éter corrompido.

Velvet sentiu o estômago revirar. Ela entendeu. O guarda. A injeção de sangue preto. De fato, Lucius havia morrido naquele dia. O coração dele havia parado. O que estava diante deles era um cadáver consciente, pilotado pela maldição que ele mesmo criou.

TODO O ÉTER COLETADO... E DADOS EXPERIENCIAIS... SENDO ADICIONADOS AO RECIPIENTE... — a voz robótica falhou em estática. — BOSS: QUIMERA PERFEITA - LUCIUS VRYKOLAKA.

— Espera! — Dante gritou, dando um passo à frente, confuso. — As regras da Dungeon! Ela disse que havia um Lobo e nós tínhamos que matá-lo! Nós matamos! O jogo devia ter acabado!

Lucius riu. O som foi gutural, úmido, borbulhando através de uma traqueia morta.

— Nenhuma regra foi descumprida, Senhor Dante.

Dante correu em direção à mesa, a eletricidade vermelha crepitando furiosa em seus punhos.

— Isso é trapaça!

Lin, vendo Dante atacar, também avançou, invocando sua bola de demolição etérea.

— Vamos acabar com isso antes que ele se transforme!

Mas a Dungeon reagiu. CRACK!

O chão ao redor da mesa explodiu. Raízes negras, grossas e oleosas, irromperam do concreto como lanças, criando uma barreira impenetrável de espinhos, bloqueando o caminho de Dante e Lin, jogando-os para trás. Outras raízes menores, vindas do próprio tronco da mesa, chicotearam o ar e perfuraram as costas, as pernas e a coluna de Lucius.

AAGHH... — Lucius gemeu, não de dor, mas de um êxtase profano, enquanto as raízes injetavam nele o Éter concentrado das vidas de Sanemi, Saito e Lara.

— Vocês ouviram o que quiseram ouvir — Lucius explicou, a voz distorcendo, tornando-se dupla, grave e monstruosa. — De fato, havia apenas um Lobo: a cópia da Nero. Mas a Dungeon nunca disse onde estava o Boss... e nem disse que o Lobo era o Boss.

Dante parou, os olhos arregalados, a compreensão caindo sobre ele como uma bigorna. O Boss estava jogando o jogo com eles o tempo todo. Lucius era um "jogador" válido aos olhos do sistema, observando, manipulando, esperando pacientemente que os requisitos de energia — as mortes — fossem cumpridos. Tanto o Lobo quanto o Boss contavam como participantes.

— Agora... contemplem a evolução! — Lucius gritou, abrindo os braços para o sacrifício.

A transformação foi explosiva e visceral. Não houve luz mágica. Houve apenas o som nojento de ossos se partindo e pele se rasgando. O corpo de Lucius inchou. A pele humana necrosada rasgou-se como papel molhado, revelando não pelos, mas músculo puro, vermelho, brilhante e fibroso. Ele cresceu, a estrutura óssea estalando, atingindo três metros de altura, assumindo a postura de um lobisomem, mas feito de carne exposta e nervos pulsantes.

SPLAT. SPLAT.

Das costas da criatura, a carne explodiu para fora. Tentáculos estranhos, feitos daquele galho negro da mesa, projetaram-se como as patas de uma centopeia gigante, contorcendo-se no ar, cada um terminando em pontas afiadas de madeira petrificada e osso.

GRRRRAAAAAAAHHHHH!!!

A Quimera Perfeita uivou. O som não era humano, nem animal; era o som de uma sirene orgânica de destruição absoluta.

Uma onda de choque de Éter puro, roxo e negro, explodiu do centro da sala. Dante, Velvet, Cloud e Lin foram arremessados para trás como bonecos de pano, arrastando-se pelo chão enquanto a pressão esmagadora da "Gênese da Carne" preenchia cada centímetro do ambiente, roubando o oxigênio.

O Jogo das Máscaras havia acabado. O massacre havia começado.

Parte 3

A onda de choque de Éter não foi apenas um empurrão; foi um decreto de gravidade. A pressão atmosférica na câmara circular multiplicou-se por dez, transformando o ar em chumbo derretido. O chão de concreto estalou, fissuras de teia de aranha se espalhando a partir do centro onde o monstro estava.

Diante deles, Lucius havia descartado a humanidade como quem tira um jaleco sujo. Ele agora era uma catedral de carne e blasfêmia. Três metros de altura. Músculos vermelhos expostos pulsavam em um ritmo febril, entrelaçados com raízes negras e oleosas que brotavam de sua espinha como costelas externas, formando uma armadura orgânica.

— Magnífico... — A voz de Lucius retumbou, não de uma boca, mas vibrando através das fibras de seu tórax aberto, como o som de um violoncelo feito de ossos. — O medo. O ódio. O desespero. Sinto as vidas de Lara, Sanemi e Saito correndo em minhas veias. Eles finalmente têm um propósito: me nutrir.

Lucius estendeu uma mão colossal, os dedos gotejando um lodo corrosivo. As raízes no chão obedeceram, contorcendo-se como serpentes em direção a Velvet.

— Minha querida filha... — A voz mudou. A ressonância monstruosa foi filtrada para soar doce, paternal, a mesma voz que ele usava quando trazia doces para a cela de vidro anos atrás. — Venha para o papai. Você está suja. Está quebrada. Deixe-me consertá-la. Deixe-me torná-la perfeita como eu.

Velvet travou.

O caos da batalha, o cheiro de sangue, o barulho... tudo sumiu. Sua visão de túnel focou na figura imponente do "Criador".

As pernas dela tremeram, os joelhos batendo um no outro. A aura assassina desapareceu, substituída pelo terror primitivo de uma criança diante da punição inevitável.

— Papai... — Ela choramingou.

— Isso... — A carne do rosto de Lucius se rasgou em um sorriso vertical. — Boa menina.

Dante viu aquilo. Ele viu o brilho de predadora sumir dos olhos de Velvet. Ele viu sua parceira regredir a uma vítima. Novamente, a mente dele começou a se quebrar em glitches, invadindo involuntariamente versões diferentes de si, falando umas sobre as outras.

"Ela vai se entregar..." a voz cínica em sua cabeça sussurrou. "Ela vai voltar para ele porque é a única forma de amor que ela conhece. Você perdeu."

Dante rangeu os dentes tão forte que sentiu o gosto de esmalte quebrado. A raiva explodiu. Não era a frieza do assassino. Era uma fúria quente e irracional.

— CALEM A BOCA!

Dante chutou o chão, ativando o eletromagnetismo nas solas das botas. Ele deslizou pelo concreto como se estivesse no gelo, parando e derrapando na frente de Velvet, bloqueando a visão dela de Lucius.

Ele ignorou o monstro de três metros. Ele agarrou os ombros de Velvet com as mãos sujas de sangue e graxa, sacudindo-a violentamente.

— Velvet! OLHA PRA MIM! — Dante gritou, a voz rouca.

Velvet piscou, os olhos desfocados, pupilas dilatadas.

— O papai... ele disse que... eu preciso de conserto...

— Esqueça... foi você quem me ensinou, já esqueceu? Não importa o que pensam ou o que falam, sim o que você sente. É realmente para ele que você quer voltar? Pense, sinta de verdade o que você quer fazer. Mas saiba que se tiver medo de ficar sozinha, nunca mais vai ficar, pois eu estou aqui. — Dante rosnou, aproximando o rosto do dela até que seus narizes se tocassem.

Velvet olhou para o fundo dos olhos heterocromáticos de Dante. Havia caos lá. Havia perigo. Mas havia algo quente, a promessa de felicidade que ela nunca encontrou ao lado de seu pai.

"No mesmo caixão..."

De repente, as palavras de Dante invadiram sua mente, trazendo com elas a clareza que sua mente ansiava como um raio. "O papai olhava para o vidro. O Dante olha para mim."

— Devorar... — ela sussurrou, a tremedeira parando.

Dante sorriu, soltando-a e girando para o Boss, puxando dois bisturis, a eletricidade vermelha dançando em seus braços.

— Está decidido, então. É hora de acabar com tudo isso de uma vez.

Velvet respirou fundo. O ar entrou em seus pulmões carregado de cheiro de sangue e ozônio. Seus lábios se curvaram num sorriso que mostrava dentes demais.

Bye, bye, papai... — A voz de Velvet era um chiado infantil, incongruente com a carnificina ao redor.

Então, a mudança. Seus olhos, antes opacos, focaram com uma clareza predatória. Ela inspirou, e o grito que saiu não foi humano. Foi um som agudo, distorcido, uma frequência psíquica que fez os dentes de todos vibrarem.

— A VELVET NÃO PRECISA MAIS DE VOCÊ!

O grito não foi apenas som; foi uma lâmina mental. Lucius, a quimera colossal que dominava o centro da sala, cambaleou. O vínculo psíquico que ele usava para controlar sua "filha" se rompeu com a violência de um cabo de aço estourando.

— Insolente! Ferramenta defeituosa! EU VOU DESMONTAR VOCÊ! — Lucius rugiu, sua compostura aristocrática evaporando em fúria primordial.

Os olhos múltiplos em seu torso brilharam com uma luz doentia. Ele ergueu os punhos colossais, cada um do tamanho de um carro compacto, e os martelou no chão da fábrica.

— JARDIM DE OSSOS!

Não foi apenas uma onda de choque. Foi um cataclismo geológico localizado. O concreto do chão não apenas rachou; ele foi pulverizado. Com um som horrível de cálcio se partindo e madeira gritando, uma floresta de espinhos de osso afiado como navalha e madeira negra petrificada irrompeu do solo. Era um tsunami sólido de morte, com dez metros de altura, rolando em direção à equipe, devorando o cenário e lançando vigas de aço como se fossem gravetos.

— LIN! AGORA! SEGURA ESSA MERDA! — Dante gritou, sua voz amplificada por um estalo elétrico. Ele nem olhou para ela; ele já estava em movimento, deslizando sob uma prensa hidráulica tombada.

— NÃO ME DÊ ORDENS! — Lin respondeu, sua mente ainda confusa sobre todos os sentimentos que deveria sentir em relação a Dante e a tudo que estava acontecendo.

Ela não recuou. Ela avançou. Plantando os pés blindados no chão, ela afundou no concreto até os tornozelos para ganhar tração. O Éter ao redor dela ferveu, condensando-se na esfera gigante acima de sua cabeça. Ela não apenas a girou; ela usou a própria estrutura de uma coluna de ferro próxima como pivô para ganhar um momento angular absurdo.

— IMPACTO METEORO!

Ela soltou. A esfera de energia zuniu, pesada como um trem de carga descarrilado, distorcendo o ar ao seu redor.

KA-BOOOM!

A colisão foi ensurdecedora. O mundo ficou branco por um instante. A bola de demolição encontrou o centro da onda de ossos. A força cinética não apenas parou o ataque; ela o atomizou. Estilhaços de osso, madeira e concreto voaram como granadas de fragmentação em todas as direções, criando uma nuvem de poeira e detritos que engoliu o campo de batalha.

Lin foi arrastada para trás três metros pela força do próprio impacto, suas botas rasgando o chão, mas ela manteve a postura, ofegante, veias saltando no pescoço como cordas enquanto mantinha o Éter ativo, impedindo que a onda se reformasse.

— Cloud! A brecha é sua! — Lin rugiu através da poeira.

Cloud já estava posicionado. Ele havia usado a explosão de Lin como cobertura sonora para se mover. Ele estava no alto, agachado precariamente sobre uma passarela de metal retorcida que pendia do teto. Seu corpo estava moído da luta anterior, sangue escorrendo de um corte na testa e cegando seu olho esquerdo, mas suas mãos seguravam a Silver Ghost com estabilidade cirúrgica.

Seus olhos analíticos varreram a silhueta de Lucius na nuvem de poeira. O monstro estava se recuperando do recuo, confuso pela resistência inesperada.

— Crianças problemáticas... — Cloud resmungou, cuspindo sangue no metal da passarela. — Sempre fazendo bagunça.

Ele não disparou no centro de massa. Sua visão aprimorada focou nos pontos de calor intenso no corpo da quimera. Os nódulos pulsantes nos ombros e joelhos — os centros nervosos que coordenavam a regeneração e o movimento.

Respira. Foca. Expurga.

BANG! BANG! BANG! BANG!

Quatro tiros em menos de um segundo. Não foram apenas tiros diretos; Cloud usou uma viga de aço inclinada atrás de Lucius para ricochetear o último tiro, atingindo um nódulo nas costas do monstro que estava fora de visão direta.

As balas de alto calibre, carregadas com Éter disruptivo, explodiram a carne dos ombros e a parte de trás do joelho direito de Lucius. O gigante rugiu, perdendo o equilíbrio momentaneamente enquanto sua perna falhava.

Mas Cloud viu através da luneta: a carne já estava borbulhando. Fios de tecido muscular se entrelaçavam freneticamente sobre as feridas abertas.

— Regeneração acelerada... — sua voz fria apesar da dor. — O dano físico é irrelevante. Ele se tricota mais rápido do que eu posso destruir.

— Segundos é tudo que eu preciso! — A voz de Dante veio de algum lugar no chão.

Dante era um borrão vermelho elétrico. Ele corria pelo túnel de destruição aberto por Lin, movendo-se em zigue-zague. Raízes remanescentes do "Jardim de Ossos" tentavam agarrar seus tornozelos como serpentes, mas ele era rápido demais. Ele usava pulsos magnéticos curtos para repelir detritos metálicos que bloqueavam seu caminho, criando um corredor limpo em tempo real.

— Velvet, fica perto! Minha eletricidade só vai fazer cócegas nele! Você é a chave!

Velvet corria ao lado dele, mas não como humana. Ela estava baixa, quase de quatro, movendo-se com uma fluidez lupina. De repente, o mundo mudou de cor para ela. O olho esquerdo pulsou dolorosamente. Visão Espectral. A herança da carne de Ruxya se ativou.

As paredes da fábrica desapareceram. A poeira desapareceu. Ela não via apenas o monstro; ela via a vida dele. Rios furiosos de Éter corrompido corriam dentro daquela montanha de carne. Era um sistema complexo, poderoso, quase invencível.

Quase.

Seus olhos vermelhos fixaram em um ponto no peito de Lucius, logo abaixo da clavícula, onde o fluxo de energia parecia... errado.

Uma palavra surgiu em sua mente bestial. Não foi ensinada em livros. Foi um sussurro instintivo de seu próprio sangue.

Rafflesia... — ela sussurrou, a voz gutural. A flor cadáver. O ponto de podridão.

— Dante! ME JOGA! — Ela gritou.

Dante não hesitou. Ele entendeu a física do pedido instantaneamente. Ele estava correndo a 80 km/h em direção a um monstro que se regenerava, e sua melhor arma era a garota ao seu lado.

— Segura firme!

Dante derrapou violentamente, faíscas voando de suas botas enquanto ele ancorava magneticamente o pé esquerdo em uma placa de aço no chão. Ele girou o corpo, estendendo a mão direita. Velvet saltou.

No momento em que suas mãos se tocaram, Dante ativou sua habilidade secundária. Ele envolveu a si mesmo e Velvet em um Anel de Tempo ligeiramente acelerado por um microssegundo. Para o mundo exterior, eles foram um borrão.

Ele usou a própria inércia da corrida de Velvet, somada à força centrífuga de seu giro ancorado, e a reforçou com um puxão magnético brutal na armadura leve dela. Foi como carregar um estilingue humano com a força de um guindaste.

— VAI!

Ele a soltou.

VUUUM!

O ar estalou com a quebra da barreira do som. Velvet não cruzou a sala como uma garota; ela se tornou um projétil de prata supersônico. Ela passou pela guarda falha de Lucius – que ainda tentava firmar a perna atingida por Cloud – rápido demais para os nervos do monstro registrarem o movimento.

Ela atingiu o peito dele, no ponto exato que sua visão espectral havia marcado, com o impacto de um míssil.

Ela não usou facas. Ela não usou armas de fogo. Ela cravou as garras nascidas do Éter e os dentes afiados na carne do gigante.

NHAC.

O som foi úmido e horrível. Com uma selvageria primitiva que superava qualquer treinamento, Velvet arrancou um pedaço maciço do trapézio e do peito superior de Lucius, engolindo carne, osso e lodo biológico em uma mordida voraz. Ela se agarrou a ele, uma pulga raivosa em um leão, rasgando e mordendo novamente.

Lucius urrou, mais de surpresa do que de dor, e tentou esmagá-la com a mão gigante. Ele esperava que a ferida se fechasse em segundos, expelindo a praga.

O tecido ao redor da mordida borbulhou... e parou.

A ferida não ficou vermelha. Ficou cinza. Depois, negra. Necrótica. O sangue de Velvet, agora misturado com a saliva na ferida aberta, estava agindo como um veneno antivida. Estava corrompendo a corrupção. Onde sua saliva tocava, as células de regeneração de Lucius entravam em apoptose instantânea – suicídio celular.

O sistema imunológico da quimera entrou em colapso local e começou a se espalhar.

— O quê...?! — A voz de Lucius tremeu. Ele olhou para a ferida aberta em seu peito, que se recusava a fechar e sangrava um ichor preto profusamente. — DE NOVO, DE NOVO, DE NOVO! POR QUE É SEMPRE VOCÊ, VELVET?!

Velvet riu, saltando para longe e aterrissando agachada em cima de uma luminária pendurada, a boca suja de sangue negro.

Ela cuspiu sangue no chão. O líquido negro obedeceu ao comando dela, solidificando-se instantaneamente em espinhos vermelhos que dispararam e perfuraram o pé de Lucius, pregando-o no chão.

— Manipulação Sanguínea?! — Cloud observou de longe, trocando o pente da arma com velocidade profissional. — Ela está evoluindo as habilidades absorvidas em tempo real!

Lucius rugiu de dor e fúria, chicoteando os tentáculos em um frenesi cego, destruindo as paredes ao redor.

Dante estava no meio da tempestade de destroços. Ele precisava finalizar aquilo. Seus bisturis eram palitos de dente contra aquela montanha. Ele precisava de peso. De corte. De brutalidade.

Ele olhou para o chão. Havia metal por todo lado. Estilhaços de mesas, vigas, materiais de laboratório, pedaços da estrutura destruída, restos das balas, vergalhões expostos.

De repente, a visão de Dante falhou. Glitch.

O som da batalha ficou abafado. Por um segundo, ele não viu Lucius. Ele viu um borrão de giz branco no ar. E ao seu lado, viu Sanemi. O fantasma de Sanemi, translúcido e arrogante, estava sorrindo, segurando sua katana imaginária sobre o ombro.

"Seu verme, se você perder depois de me matar, eu mesmo te mato."

— Nem morto você cala sua boca, Sanemi... — Dante murmurou, os olhos heterocromáticos brilhando com estática vermelha.

Ele estendeu a mão direita aberta para o caos da sala. O ar crepitou com cheiro de ozônio queimado. Eletricidade vermelha virou magnetismo puro de alta voltagem.

— VEM!

CLANG-CLANG-CLANG-CLANG!

O som foi ensurdecedor. Centenas de pedaços de metal voaram em direção à mão de Dante. Limalha de ferro, parafusos, placas de aço rasgadas, a porta do armário. Eles não formaram uma bola. Guiados pela vontade férrea de Dante, eles se alinharam.

O metal se fundiu e se compactou sob a pressão magnética, vibrando. As bordas eram irregulares, serrilhadas, brutais. A arma assumiu a forma de uma lâmina longa, pesada e grotesca.

Uma Espada de Areia de Ferro.

Dante segurou o cabo improvisado com as duas mãos. O peso era absurdo, capaz de quebrar pulsos normais, mas a eletricidade a tornava leve para ele. A lâmina vibrava como uma serra elétrica magnética.

Lucius, libertando-se dos espinhos de sangue, tentou esmagá-lo com um braço gigante de madeira endurecida.

A sombra do braço colossal cobriu Dante. Era um ataque de aniquilação total, um pilar de carne, osso e madeira petrificada descendo com a força de um meteoro. O ar ao redor gritava com a pressão. Qualquer pessoa sã teria corrido. Qualquer estrategista teria buscado cobertura.

Dante não fez nenhum dos dois.

O tempo pareceu desacelerar, o mundo ficando cinza, exceto pelo brilho elétrico vermelho que crepitava em torno dele. Em sua mente, ele não estava naquela fábrica em ruínas. Ele estava no pátio da mansão. Ele viu a postura. Ele viu os pés descalços de Sanemi no chão de terra batida.

"Base sólida. Quadril baixo. A espada não é uma ferramenta, é uma extensão da vontade."

Dante separou as pernas, suas botas magnéticas travando no chão de metal com um CLANK pesado, ancorando-o contra a trepidação do cenário. Ele inspirou, puxando o ar cheio de poeira e ozônio para o fundo dos pulmões. A barra de ferro improvisada em suas mãos começou a brilhar — não de calor, mas de pura vibração molecular.

— Estilo do Vento Fantasma... — Dante sussurrou, os olhos fixos na massa que caía sobre ele.

Ele canalizou cada ampère de bioeletricidade que restava em seu corpo para a lâmina. O metal gritou, vibrando em uma frequência ultrassônica que distorcia a luz ao redor.

— ... CORTE DE FERRO!

Dante não apenas balançou a espada; ele explodiu para cima. Ele girou os quadris com a violência de um mecanismo de torção, desenhando um arco perfeito de luz azulada no ar.

ZZZZZZZ-SHLACK!

O som não foi de corte. Foi o som da realidade sendo rasgada.

A lâmina de sucata, transformada em uma serra de alta frequência magnética, encontrou o antebraço de Lucius. A resistência durou um milésimo de segundo. O campo magnético repeliu os átomos da armadura de osso do monstro, enquanto a lâmina física cortava o que sobrava. Metal triturou madeira. Eletricidade ferveu sangue.

O movimento seguiu o curso completo. Dante passou através do ataque.

Um silêncio ensurdecedor tomou o galpão, quebrado apenas pelo som úmido e pesado de algo enorme caindo.

BAM.

O braço decepado de Lucius atingiu o chão atrás de Dante, esmagando uma bancada de trabalho e levantando uma nova nuvem de poeira.

Lucius recuou, tropeçando nas próprias pernas, os olhos múltiplos arregalados em choque absoluto. Ele tentou comandar a regeneração, mas o coto de seu braço brilhava em um vermelho alaranjado furioso. O calor extremo da fricção magnética e a descarga elétrica de Dante haviam cauterizado a ferida instantaneamente. As terminações nervosas estavam fritas; as células, mortas. Não havia nada para regenerar.

— GRAAAAAAAAHHHHH!!! — O urro de dor de Lucius fez os vidros restantes nas janelas estourarem.

Dante aterrissou pesadamente. A "espada" em suas mãos, incapaz de suportar a tensão daquele único golpe divino, desintegrou-se, transformando-se em uma chuva de pó de ferrugem e limalha de ferro quente.

Ele caiu de joelhos, as pernas tremendo incontrolavelmente.

Ele ergueu a cabeça.

Mas o destino, cruel como sempre, não permitiu que o momento durasse. A vitória durou apenas um segundo.

Enquanto a poeira baixava, Dante, ainda com os sentidos ampliados pela adrenalina e pelo magnetismo, olhou para a mesa de Carvalho Negro no centro da sala — o "casulo" de onde Lucius havia saído.

Agora que a aura de Lucius oscilou pela dor, Dante pôde sentir o que estava oculto. Havia uma dissonância. Uma falha no "som" do ambiente. O Éter da mesa não estava vazio.

Havia uma pulsação lá dentro. Fraca. Rítmica. Humana.

"A mesa..." Dante pensou, o coração falhando uma batida, o terror substituindo a euforia. "Tem alguém dentro da mesa..."

Lucius, recuperando-se do choque, parou de gritar. Seu corpo começou a inchar, a pele ficando roxa, a biomassa borbulhando. Ele começou a rir — uma risada molhada e gorgolejante.

— Vocês são persistentes... — Lucius disse, o coto do braço decepado explodindo em dezenas de tentáculos finos como chicotes.

O chão sob os pés deles começou a derreter em ácido.

— Mas ainda não passam de falhas de seres vivos!!!

Parte 4

O chão já não existia. O concreto da antiga fábrica havia se liquefeito em um pântano digestivo, um lodo verde-necrótico que borbulhava como sopa fervente. O cheiro não era apenas ruim; era uma agressão química que queimava as narinas e fazia os olhos lacrimejarem.

Lucius parou de falar. A lógica humana era lenta demais para o massacre que se seguiria. A massa de carne dele convulsionou, o som de ossos se partindo e reajustando ecoou pelo salão. Ele comprimiu três metros de massa muscular em uma forma compacta, blindada por uma carapaça de quitina negra e polida.

Ele não era mais um tanque. Era um caça furtivo biológico.

VUPT.

Não houve passo inicial. Apenas deslocamento de ar.

— DANTE! — O grito de Velvet foi abafado pelo estrondo sônico.

Dante não viu Lucius. Ele sentiu a perturbação magnética do ar sendo rasgado. O instinto assumiu o volante. Ele agarrou a cintura de Velvet e bateu o pé em uma viga de aço exposta no "chão", invertendo a polaridade magnética.

ZZZ-CRACK!

Ambos foram catapultados para o teto um milissegundo antes de Lucius passar pelo espaço que ocupavam. O monstro não correu; ele deslizou pelo ar, a inércia ignorada, e cravou as garras na parede oposta, a trinta metros de distância. O concreto explodiu onde ele tocou, e ele permaneceu lá, horizontal, vibrando como um inseto prestes a dar o bote.

Dante e Velvet pousaram precariamente sobre uma passarela de manutenção enferrujada, a única ilha segura naquele mar de ácido.

— Ele está usando as paredes... — Dante ofegou, o suor frio misturando-se à fuligem em seu rosto. — O chão é lava para nós, mas para ele é apenas cenário.

Velvet sorriu, um sorriso cheio de dentes afiados, mas seus olhos tremiam.

— Então já está na hora do papai e a Velvet jantarem.

Lucius se desprendeu da parede, um borrão preto mirando não neles, mas na retaguarda. Cloud gritou de seu ninho de franco-atirador, três andares acima.

Lucius mergulhou em direção a Lin, que se equilibrava sobre os destroços de uma caldeira. O monstro abriu a caixa torácica, revelando fileiras de dentes serrilhados, pronto para engoli-la junto com sua armadura.

— Não. — Os olhos de Dante brilharam em ametista.

O mundo perdeu a cor.

Chronos: Dilatação Local.

Dante não podia parar a massa de Lucius, mas podia alterar a aerodinâmica. Ele estalou os dedos. Anéis de tempo distorcido surgiram no trajeto de queda do monstro. Dante sacou um vergalhão de aço do cinto.

— LANÇA CARMESIM!!

Ele infundiu o metal com toda a voltagem que seus rins podiam processar. O vergalhão brilhou em vermelho. Ele o arremessou. O projétil passou pelos anéis de tempo. A cada anel, a velocidade dobrava. Mach 1. Mach 3. Mach 8.

BOOOOOOM!

O ar explodiu. O vergalhão não perfurou Lucius; a onda de choque cinética atingiu o monstro no flanco direito como um trem de carga invisível. A trajetória de Lucius foi desviada violentamente. Ele errou Lin por centímetros e colidiu com a parede lateral, afundando no concreto armado em uma nuvem de poeira e escombros.

Lin, aproveitando a distração, bateu sua arma no chão (ou o que restava dele).

— Fortaleza de Ferro! — Esferas de metal emergiram do ácido, criando uma plataforma instável temporária para a equipe se reagrupar.

Mas a vitória durou pouco. A poeira baixou, revelando o centro da sala. A Mesa de Carvalho Negro. E dentro dela, envolta em raízes pulsantes que brilhavam como veias varicosas, estava Nero.

— Ela está... sendo digerida? — Lin sussurrou, horrorizada.

— Não — Dante analisou, a visão de águia focando. — Ele está usando a Ruptura dela. Ele está drenando o poder espacial dela para se mover daquele jeito.

Lucius saiu dos escombros. Ele viu o olhar de Dante. A inteligência maligna brilhou em seus múltiplos olhos compostos. Ele entendeu que Dante hesitaria em usar artilharia pesada perto da garota. Com um gorgolejo que parecia uma risada estática, Lucius saltou. Ele pousou em cima da mesa onde Nero estava presa. Tentáculos de carne saíram de suas pernas e se fundiram à madeira e ao corpo da garota.

Tsk... — Dante cerrou os dentes, a eletricidade faiscando erraticamente em seus punhos. Ele não tinha ângulo. Qualquer ataque de área mataria Nero.

"O que está esperando? Mate-a!" A voz começou a retornar, e sua mente foi novamente invadida por um turbilhão de gatilhos e desenhos infantis feitos a giz. "Você já matou antes, não venha bancar o moralista! ATIRE!"

— DANTE! — A voz de Cloud veio do alto, carregada de dor e urgência, sobrepondo as de sua cabeça.

Dante olhou para cima, o coração batendo na garganta. A situação era crítica.

Cloud estava pendurado precariamente na passarela industrial, cinco metros acima do caos. Seu braço esquerdo, esmagado, pendia inerte, seguro apenas por tiras de couro e um fio de pele rasgada. O sangue pingava em um ritmo constante sobre o metal lá embaixo.

— Eu não tenho ângulo! — Cloud gritou, a voz rouca pela dor, seus olhos frenéticos tentando alinhar a arma com apenas uma mão. — O nervo ulnar foi rompido! O braço é peso morto!

Ele olhou para o membro inútil. Em sua mente de estrategista, aquilo não era mais parte de seu corpo. Era um obstáculo tático. Uma variável negativa na equação da vitória.

O olhar de Cloud endureceu. Frio. Metálico.

— Correção de variável — ele sussurrou.

Com um movimento rápido e brutal, Cloud puxou sua faca de combate serrilhada. Não houve hesitação. Ele cravou a lâmina na carne remanescente. O som de tecido se separando foi abafado pelo rugido de Lucius, mas Dante viu o corpo de Cloud espasmar violentamente.

Com um último puxão agonizante, ele terminou o serviço. O sangue jorrou, quente e vibrante.

— PIRRALHA QUIMERA! PEGA!

Cloud chutou o membro decepado para o vazio. O braço girou no ar, desenhando uma hélice macabra de sangue carmesim contra a luz estroboscópica das faíscas da fábrica.

— O quê...?! — Dante arregalou os olhos.

— COMA! — Cloud rugiu, a visão escurecendo, segurando-se à grade com a mão restante enquanto a consciência ameaçava falhar.

Velvet não questionou a insanidade. Ela não hesitou. Ela era um monstro criado em laboratório para a sobrevivência, e aquilo era combustível. Ela saltou da plataforma de defesa de Lin, interceptando a carne no ar com a graça de um tubarão saindo da água.

Sua mandíbula se desarticulou com um estalo úmido.

NHAC.

A aterrissagem de Velvet foi pesada. Ela caiu de quatro no chão de metal, convulsionando enquanto engolia. Não tinha gosto de carne. Tinha gosto de ferro, pólvora, chumbo e... matemática pura.

Ela ergueu o rosto. O amarelo feral e caótico de seus olhos havia desaparecido. A esclera ficou negra, e no lugar das íris, retículas azuis brilhantes surgiram, girando e focando com o zumbido de uma lente de câmera.

A visão de Velvet fraturou e reconstruiu a realidade. O pântano de lodo, as vigas retorcidas, o monstro gigante... tudo foi substituído por uma grade de arame verde neon.

Números flutuavam sobre cada superfície. A densidade do ar. A gravidade específica. Coeficientes de atrito do metal enferrujado. Vetores de ricochete.

A habilidade natural de Cloud havia se fundido com a habilidade sobrenatural de Ruxya, evoluindo para algo que nenhum dos dois possuía sozinho: O Predador Onisciente.

Ela viu. Em meio ao caos de detritos, havia uma linha. Uma única linha dourada, impossível, que batia em três pontos cegos da arquitetura da sala e terminava na base do crânio de Lucius, contornando todas as defesas.

— Modo Balístico: Ativo. — A voz de Velvet saiu metálica, uma sobreposição de rosnado e síntese de voz, desprovida de qualquer emoção animal. — Dante!!!

Dante entendeu imediatamente. O sorriso dele foi afiado como uma navalha.

— Lin! Preciso de um corredor!

— Cobertura total! — Lin gritou. Ela bateu as palmas das mãos, e as esferas de metal ao seu redor se achataram, criando uma parede de escudos flutuantes para bloquear os espinhos de osso que Lucius disparava.

Dante correu. Ele ativou os ímãs das botas para "patinar" sobre os trilhos do chão, deslizando sob o arco elétrico em velocidade máxima. Ele derrapou ao lado de Velvet e agarrou o braço dela — que agora parecia duro como aço tensionado.

— Me dê propulsão máxima — Velvet ordenou, calculando o ângulo sem olhar para ele. Seus olhos estavam fixos em vigas invisíveis para os outros. — 45 graus norte. Força total.

Lucius, percebendo a mudança na atmosfera, rugiu. O "Jardim de Ossos" reagiu. Tentáculos de espinhos e madeira negra dispararam do chão e das paredes, uma jaula de morte buscando empalar a dupla antes do lançamento.

Eles estavam cercados. Não havia tempo para desviar.

BANG!

Um tiro solitário, fraco, mas preciso, ecoou das sombras perto da entrada.

Ruxya. Caída, pálida como um cadáver, o sangue drenando de ferimentos abertos. Ela segurava seu rifle com a única mão que tinha.

A bala de Éter saiu do cano. Não viajou em linha reta. Ela curvou-se no ar, desafiando a física, deixando um rastro de luz violeta. Efeito "Wanted". O projétil ziguezagueou entre Dante e Velvet, atingindo a base dos três tentáculos principais que iam matá-los.

Tsk... logo... idiotas... — Ruxya sussurrou, e a arma caiu de sua mão enquanto ela desmaiava.

O caminho estava limpo. A janela de oportunidade era de 0.3 segundos.

Dante girou. Ele usou a força centrífuga, girando Velvet como um atleta olímpico lançando um martelo. O mundo ao redor deles tornou-se um borrão. A eletricidade de Dante passou para Velvet, carregando a armadura biológica dela.

— Vai, minha bala de prata!

Ele a soltou. E no momento exato em que os dedos se separaram, ele ativou uma explosão de Repulsão Magnética nas costas dela.

VROOOOM!

O som foi de um canhão elétrico disparando. Velvet não voou; ela foi demitida da realidade estática. Seu corpo, endurecido por ossos negros miméticos, tornou-se um projétil cinético vivo.

CLANG!

Ela atingiu uma viga inclinada no teto, trinta metros acima. Qualquer corpo normal teria se despedaçado. Velvet usou as pernas para absorver o impacto e, instantaneamente, impulsionar-se de volta.

RICOCHETE.

O ângulo mudou agudamente, desafiando a expectativa de Lucius. Ela desceu como um raio violeta.

BAM!

Ela atingiu a placa de metal flutuante sobre o tanque de ácido. A força do impacto foi tão violenta que a placa afundou momentaneamente, enviando gêiseres de corrosivo verde para o ar. Velvet usou essa superfície instável como trampolim final.

A velocidade aumentava exponencialmente, acumulando energia cinética a cada ricochete calculado pela mente fundida de Cloud e Ruxya. O ar ao redor dela ionizava, criando um cone de pressão visível.

Lucius tentou acompanhar, girando a cabeça pesada e cheia de olhos, mas a trajetória não era orgânica. Era matemática pura. Um ziguezague geométrico perfeito, desenhado por uma mente tática superior. Velvet não estava atacando o monstro diretamente; ela estava usando a arquitetura da sala como o cano raiado de um rifle para ganhar a velocidade necessária para perfurar um deus.

Velvet passou por baixo da defesa desajeitada de Lucius, rasgando o ar a centímetros da superfície borbulhante do ácido. Seus olhos digitais fixaram o alvo final: não a carne, mas a âncora. A Mesa de Carvalho Negro. A madeira podre e pulsante que conectava o monstro ao seu refém, servindo de útero artificial e prisão.

FATOR DE IMPACTO: CRÍTICO! — A voz sintética de Velvet anunciou.

Ela não freou. Ela aumentou a massa óssea de seus ombros e cabeça, transformando-se em um martelo vivo.

Ela atravessou.

CRAAAAACK-BOOOOM!

O som foi de uma sequoia sendo partida por um raio. A Mesa de Carvalho Negro não apenas quebrou; ela explodiu. A madeira ancestral, endurecida por magia negra, cedeu diante da física bruta. Estilhaços de madeira negra e energia roxa voaram como estilhaços de granada.

A conexão neural foi cortada com a violência de uma guilhotina.

GAAAAAAAAHHHHHH!!! — Lucius urrou, levando as mãos à cabeça. Não foi apenas dor física; foi uma lobotomia espiritual. O fluxo de poder infinito que ele drenava de Nero cessou instantaneamente.

Mas o horror de Lucius estava apenas começando.

De dentro dos destroços da mesa, envolta em fumaça e no fluido viscoso e amniótico que a mantinha prisioneira, algo brilhou. Não era uma donzela em perigo. Era um anjo exterminador.

Nero não caiu. Ela eclodiu.

Aproveitando o momento em que a mesa explodiu, ela girou no ar, o corpo coberto de gosma negra, mas seus movimentos eram limpos, imperiais. Em sua mão, materializada do próprio espaço vazio, estava a espada lendária. Uma lâmina longa, translúcida, que parecia feita de vidro e luz estelar.

— Divida o mundo... RUPTURA!

A voz de Nero era um comando absoluto.

Ela não hesitou por um único milissegundo. Ainda no ar, no ápice do salto, ela girou o corpo em um tornado de aço.

Swish. Swish. Swish.

Três cortes. Rápidos demais para serem vistos, mas sentidos na própria estrutura da realidade.

A espada "Ruptura" ignorou a dureza da pele de Lucius. Ela cortou o conceito de conexão. As raízes grossas e pulsantes que saíam das costas do monstro e tentavam se reconectar desesperadamente foram fatiadas como manteiga quente. Sangue negro jorrou em sprays arteriais, pintando o cenário industrial.

Nero completou o arco descendente e aterrissou.

Tap.

Ela pousou na plataforma flutuante de esferas que Lin havia criado, seus pés descalços encontrando o metal frio com estabilidade perfeita. O impacto da aterrissagem dissipou a gosma que a cobria, revelando seu uniforme rasgado, mas sua postura intacta.

Nero abriu os olhos. O dourado inicial foi consumido por uma onda de sangue. As íris, antes opacas pelo transe, agora brilhavam com um vermelho incandescente, pulsando no ritmo de um coração furioso. Não havia medo na garota. Havia apenas a autoridade de uma rainha olhando para um inseto rebelde.

Ela não gritou. Ela apenas sussurrou, e sua voz fez os átomos do ar vibrarem em simpatia.

— Espaço...

Ela ergueu a mão direita, os dedos finos como garras de porcelana, abertos em direção ao gigante. O ar ao redor da perna de Lucius começou a distorcer, como asfalto quente em um dia de verão.

— ... Colapso.

Ela fechou a mão em um punho apertado.

SHIIING.

Não houve explosão. Não houve calor. Houve apenas o som aterrorizante do ar gritando para preencher um vácuo súbito. O espaço onde a perna direita de Lucius existia — carne, osso, armadura — simplesmente foi deletado. Um corte perfeitamente liso, molecular, separou o monstro do chão. A realidade ali foi revogada.

Lucius caiu. O impacto de seu corpo colossal fez a plataforma inteira estremecer. O sangue não jorrou imediatamente; ele ficou suspenso por um segundo, confuso, antes de despencar da ferida onde o universo havia sido apagado.

GR-RK! — O grito de Lucius morreu na garganta, sufocado pelo choque.

Dante aterrissou ao lado de Nero, o metal de suas botas chiando e soltando fumaça branca ao tocar o chão frio. Ele cambaleou, exausto, a eletricidade estática fazendo seus cabelos flutuarem.

Velvet rolou pelo chão, usando o ombro para frear, e parou em uma posição agachada. Ela cuspiu um pedaço de osso preto que ainda estava em sua boca. As miras holográficas em seus olhos piscaram e desapareceram, devolvendo o amarelo feral às suas pupilas.

Por um segundo, houve silêncio.

Lucius estava no chão, rastejando, sem perna, sem a mesa de suporte, sem refém. Ele parecia patético. Mas então, ele parou de se mover. Parou de tentar se curar.

O corpo dele começou a brilhar. Mas não era o vermelho da raiva, nem o verde do ácido.

Era preto.

Um preto absoluto, Vantablack, uma ausência de luz tão profunda que parecia um buraco na pintura do mundo. A luz das lâmpadas de emergência da fábrica foi sugada em direção a ele e não voltou. As sombras se alongaram de forma antinatural, apontando para o gigante caído.

— O que... é isso? — Dante murmurou, sentindo os pelos da nuca arrepiarem. O magnetismo ao redor dele estava ficando louco.

A carne de Lucius começou a implodir. Não apodrecer, mas dobrar-se sobre si mesma, sugada para um ponto infinitesimal e impossivelmente pesado no centro de seu peito.

Creeeeeeeaaaaak.

O som de metal gemendo encheu o galpão. A gravidade da sala inverteu.

Pedras, cacos de vidro, gotas de sangue e até o líquido do tanque de ácido começaram a flutuar, subindo lentamente no início, depois acelerando em direção ao peito de Lucius.

— Ah, merda... — A voz de Cloud, fraca, mal alcançava os demais.

— O que ele está fazendo?! — Dante gritou. Ele tentou dar um passo para trás, mas seus pés deslizaram para a frente. Suas botas magnéticas não conseguiam encontrar atrito. Ele estava sendo puxado. — Eu não consigo me segurar!

Nero, a única que parecia entender a física profana que estava acontecendo, arregalou os olhos vermelhos. O vento começou a uivar, girando em torno de Lucius como um furacão nascendo.

— Ele está convertendo a própria massa em densidade infinita — Nero gritou, sua voz lutando contra o vendaval gravitacional. Ela fincou a espada no chão para não ser arrastada.

O peito de Lucius agora era uma esfera negra pulsante, distorcendo a luz ao redor como uma lente gravitacional.

— Ele vai virar uma Bomba de Singularidade.

O chão sob os pés de Lin começou a rachar e levantar voo, indo em direção ao monstro.

— A batalha final começou — Nero olhou para Dante, como se desse um sinal sem trocar nenhuma palavra. — Se não sairmos do horizonte de eventos em dez segundos, toda a fábrica e nós junto com ela seremos compactados no tamanho de uma bola de gude.

— CORRAM! — Dante rugiu.

Parte 5

A gravidade não morreu apenas; ela foi assassinada.

O centro do salão tornou-se um ponto de densidade infinita. O "chão" de ácido, as vigas de titânio, o oxigênio — tudo foi arrancado da realidade, espiralando em um vórtice negro em direção ao peito de Lucius. O monstro não tinha mais pernas ou braços; ele era um ídolo flutuante de carne negra, o centro de uma galáxia de destruição.

Dante cravou os dedos magnéticos em uma placa de metal das paredes. Ao seu lado, Nero segurava Lin pelo colarinho. A espadachim havia cravado sua lâmina no chão, criando uma âncor que impedia que as duas fossem sugadas.

Mas os atiradores não tinham onde se segurar.

O corpo inerte de Ruxya deslizou para o abismo. — RUXYA!

Cloud soltou a viga onde estava. Ignorando a física, ignorando a lógica, ele saltou para o vazio. Ele agarrou a jaqueta dela com sua única mão. O peso extra acelerou a queda. Ambos caíram como pedras em direção à singularidade. A morte era certa. Em três segundos, seriam espaguete ficados pela maré gravitacional.

Os olhos de Ruxya se abriram. Uma fresta de azul neon na escuridão absoluta. Ela viu o rosto desesperado de Cloud. Viu o buraco negro atrás dele. — Seu... velho teimoso... — ela sussurrou, o sangue borbulhando nos lábios.

Ela não tinha energia para fugir. Mas tinha uma bala na câmara. E na física do espaço, toda ação tem uma reação oposta. Ela ergueu o rifle. Não apontou para Lucius. Apontou para o peito de Cloud.

— É cedo demais pra você se aposentar.

BANG.

Ela disparou uma carga de Concussão Pura. A explosão à queima-roupa quebrou as costelas de Cloud, mas a força cinética o arremessou violentamente para trás, para longe da gravidade mortal, jogando-o contra uma plataforma segura na periferia da sala. Mas o recuo da arma... o recuo empurrou Ruxya para baixo. — NÃO! — O grito de Cloud foi engolido pelo vácuo. Ruxya sorriu, fechando os olhos, enquanto seu corpo cruzava o horizonte de eventos. Ela não foi esmagada; ela foi desfeita, átomo por átomo, tornando-se poeira de estrela na órbita do monstro.

Cloud colidiu com a viga, o impacto estalando seus ossos. Ele olhou para o vazio. Onde ela estava, agora só havia escuridão. Ele não gritou. O choque o silenciou. Sua mão trêmula foi ao bolso tático. Ele puxou o último pente. Não era metal. Era Cristal de Éter Bruto, vermelho como artéria exposta. Munição Proibida: Blood-Caster. Ele mordeu o lábio até rasgar e cuspiu o próprio sangue no mecanismo da arma, ativando a munição vampírica. O rifle brilhou com uma aura profana, drenando a vida do usuário para alimentar o disparo.

DANTE! — A voz de Cloud não era humana; era o som de um homem que já estava morto e só esqueceu de cair. — ABRE A PORRA DO CAMINHO! EU VOU ESTOURAR O CORAÇÃO DELE!

Dante ouviu. Ele viu o sacrifício. Ele olhou para Velvet, agarrada às suas costas como uma criança assustada, as garras furando a jaqueta de couro. — Velvet. A gravidade está forte demais. O magnetismo não aguenta o peso de nós dois subindo. — A Velvet não liga — ela rosnou no ouvido dele. — Eu sei. — Dante desligou as botas magnéticas. — Então vamos descer.

A gravidade não era mais uma força constante; era um furacão vertical. Eles se soltaram. A queda em direção à boca do monstro foi imediata e aterrorizante.

Lucius, flutuando no olho desse ciclone de singularidade, viu sua criação vindo. Seu corpo era um buraco no mundo, mas sua mente, fraturada pela quase-divindade, jogou a última carta.

VELVET!

A voz não ecoou no ar; ela detonou dentro dos crânios. Foi um comando de arquivo raiz, anterior a qualquer memória da garota.

PARE! EU SOU SEU CRIADOR! EU SOU SEU PAI! OBEDEÇA!

O corpo de Velvet travou no meio da queda livre. Seus membros endureceram. As pupilas dilataram até que o amarelo consumisse tudo. O condicionamento genético gritou mais alto que o livre arbítrio. Ela soltou a mão de Dante.

A gravidade diferencial começou a separá-los imediatamente. Dante viu ela se afastar, rodopiando inerte entre destroços de concreto. Ele esticou a mão, os dedos roçando o vácuo, mas ela já estava a metros de distância.

A mente tática de Dante calculou três argumentos lógicos. Nenhum funcionaria. Lucius tinha a patente da biologia dela. Dante não podia vencer com lógica. Ele precisava usar a única coisa que nunca havia oferecido a ninguém de verdade: sua vulnerabilidade absoluta.

— VELVET! — Ele não gritou como um comandante. Ele gritou como um garoto aterrorizado. — OLHA PRA MIM!

O som foi rasgado pelo vento, mas a intenção chegou.

Ele engoliu o orgulho, a postura, a máscara de frieza. — EU PRECISO DE VOCÊ!

O tempo pareceu engasgar. Velvet olhou para baixo, para o Deus Escuro, a perfeição fria e vazia. Olhou para o lado, para Dante. Sujo, sangrando, chorando lágrimas que voavam para cima devido à gravidade, os olhos carregados de um desespero humano e quente.

A programação de Lucius era perfeita, mas era baseada em controle. O grito de Dante era baseado em dependência. E algo na alma quebrada da quimera, algo que sempre buscou um lugar para pertencer, finalmente estilhaçou as correntes.

— O... Dante... — ela sussurrou, a voz trêmula.

E então, o rosto dela se contorceu em uma máscara de fúria bestial. As presas cresceram, rasgando as gengivas em um sorriso sangrento.

EU ESCOLHO O DANTE!

CRACK-SPLORT!

Ela não usou propulsores. Ela explodiu tentáculos de osso das omoplatas. Eram barbatanas grotescas e belas. Ela não caiu; ela nadou no ar. Batendo contra a maré gravitacional com força bruta, ela mergulhou, agarrou a mão estendida de Dante e o puxou para um abraço violento no meio do caos.

Eles se tornaram um único projétil giratório, ganhando velocidade.

Mas o caminho estava bloqueado. Um anel de destroços compactados — vigas, concreto, máquinas — orbitava Lucius em alta velocidade, um escudo impenetrável.

Dante olhou para frente. Ele não tinha como passar. Sua mente gritou o nome dela, mas a dúvida o corroeu. “Você não tem esse direito. Você nunca os viu como companheiros.”

A voz de sua culpa era alta, mas a resposta de Lin foi mais alta.

Equilibrada precariamente em um pedaço de laje que flutuava no horizonte de eventos, Lin girou. Ela não estava olhando para Dante com julgamento. Ela estava olhando para o inimigo com ódio. A esfera de demolição zuniu, aquecendo até ficar branca incandescente pelo atrito com o ar denso.

— NÃO PENSE, SÓ CORRA, SEU IDIOTA! — Lin rugiu, os músculos dos braços rasgando o uniforme. — PELO NOME DA RUXYA! METEORO FINAL!

Ela arremessou. A corrente que prendia a bola se partiu. O projétil não mirou em Lucius, mas na órbita de lixo.

CRAAAASH!

A colisão foi tectônica. A barreira sólida se estilhaçou, pulverizada pela força cinética de Lin. Uma brecha se abriu no anel de defesa, mas o ar ainda era denso como melaço.

Nero, ajoelhada em uma plataforma distante, pálida e com o nariz sangrando pelo esforço de manter a âncora gravitacional, viu a física do problema.

— Eles são rápidos... mas a resistência do ar vai desintegrá-los... — Ela entendeu a geometria necessária. Ela não podia cortar Lucius com o pouco de Éter que lhe restava. Mas podia cortar a estrada.

Nero fez um movimento de corte vertical no ar vazio, suave como um maestro encerrando uma sinfonia.

Ruptura: Vácuo Absoluto.

O espaço à frente de Dante se partiu. Uma linha reta, transparente e distorcida surgiu. Por um breve segundo, a atmosfera e a gravidade foram cortadas ao meio, criando um túnel de vácuo perfeito, sem resistência, direto até o peito de Lucius.

Dante e Velvet entraram no túnel.

O som desapareceu. O atrito desapareceu. A velocidade triplicou instantaneamente. Eles não estavam caindo; estavam sendo disparados por um canhão silencioso.

Mas eles precisavam de massa. A espada de Dante havia virado pó. Eles eram apenas carne contra uma singularidade.

Glitch.

A alucinação surgiu no silêncio do vácuo. Sanemi, feito de pó de giz e memórias ruins, flutuava ao lado de Dante, caindo na mesma velocidade, com as mãos nos bolsos e um sorriso de escárnio.

"Olha pra você. Sem espada. Sem plano. É isso que dá só ter talento e nenhuma disciplina, seu merda. O que vai fazer? Socar um buraco negro?"

Dante não respondeu ao fantasma. Ele sorriu. Um sorriso de louco.

Ele soltou a mão de Velvet apenas o suficiente para estender o braço direito para fora do túnel de vácuo, para o caos de detritos ricos em metal que flutuavam ao redor.

Campo de Indução: Forja do Inferno.

Milhares de fragmentos — parafusos, estilhaços da bola de Lin, restos da mesa de carvalho, as balas disparadas por Cloud, vigas retorcidas — foram capturados violentamente.

Eles não apenas foram atraídos; a eletricidade de Dante os aqueceu a 3.000 graus em um microssegundo. O metal derreteu no ar, brilhando em um laranja furioso, girando ao redor do braço de Dante e se fundindo.

Não era uma arma elegante. Era uma montante colossal, bruta, feita de lixo, ódio e aço líquido gotejante. A lâmina ainda estava incandescente, crepitando com arcos voltaicos vermelhos.

— Estilo do Vento Fantasma... — Dante sussurrou, sentindo o peso absurdo da arma recém-nascida. — ... CORTE DO DRAGÃO!

Velvet viu a lâmina brilhando. Ela entendeu sua parte. Ela mordeu o próprio pulso com força selvagem e aspergiu o sangue negro na lâmina superaquecida.

TSSSSSS!

O sangue ferveu instantaneamente ao tocar o metal líquido, criando uma nuvem de vapor tóxico e fundindo-se à liga. A espada agora brilhava com veias roxas de veneno biológico anti-regeneração.

— CLOUD! A PORTA! ABRE A PORTA! — Dante gritou mentalmente.

Lá em cima, na passarela oscilante, Cloud parou de respirar. Sua visão estava preta. Ele estava calculando apenas com o coração.

Vento. Gravidade. Rotação. Destino.

Ele puxou o gatilho.

BANG.

A bala Blood-Caster final saiu. Um feixe de laser vermelho-sangue. Ela viajou pelo túnel de vácuo criado por Nero, passou raspando pela orelha de Dante — tão perto que queimou a ponta de seu cabelo — e atingiu o centro exato da esfera negra de Lucius um milésimo de segundo antes da espada.

A bala não perfurou; ela desestabilizou a frequência da singularidade. O campo de força de Lucius oscilou, piscando como uma lâmpada prestes a queimar.

Foi a brecha.

Dante e Velvet, girando em perfeita sincronia, colidiram com o destino. Dante segurando o cabo, Velvet empurrando a lâmina com os pés e as costas, somando sua força sobre-humana ao golpe.

ACELERAÇÃO TEMPORAL: DUPLO IMPACTO!!!

Eles cravaram a espada gigante de metal fundido e veneno no peito do buraco negro.

SHLAAAAACK-ZUUUM!

O som foi molhado, metálico e cósmico. A lâmina atravessou a singularidade. O tempo parou. A gravidade cessou. O mundo prendeu a respiração.

Lucius, olhou para baixo. A lâmina improvisada estava enterrada em seu núcleo. A dor deveria ser infinita. Mas, estranhamente, não houve dor. A singularidade em seu peito se rompeu, e com ela, a loucura do monstro vazou. 

A escuridão do laboratório sumiu. Lucius piscou. Ele estava em uma varanda de madeira. O sol da tarde era quente. Cheiro de chá de jasmim. Kamui estava na cadeira de balanço, rindo, com a mão na barriga grávida. 

Rover, seu amigo, estava encostado na grade, segurando um vinho barato. E no jardim... uma menina de cabelos prateados corria atrás de uma borboleta azul. "Papai! Olha! Eu peguei!" 

Lucius sentiu uma lágrima escorrer. Não de um olho composto, mas de um olho humano.

Ele olhou para a verdadeira Velvet, que rosnava, empurrando a espada mais fundo em seu peito, coberta de sangue e fuligem. Ele não viu um monstro. Viu sua filha. 

KABOOOOOM!

A singularidade colapsou. Lucius explodiu. Não houve sangue. Ele se desfez em partículas de luz dourada, liberando todo o Éter acumulado de uma vez. A onda de choque reverteu a gravidade violentamente.

E em um último e potente clarão, todo o laboratório, dungeon e a montanha desapareceram, com os destroços se transformando em uma imensa ravina no coração da floresta.

Parte 6

A floresta de Luvania não era apenas um aglomerado de árvores; era um labirinto de memórias mortas, sufocadas por um silêncio sepulcral. Velvet conhecia cada raiz retorcida, cada pedra coberta de musgo, mas o caminho nunca pareceu tão longo quanto agora.

Ela carregava Dante nos braços.

Ele estava leve, assustadoramente leve, como se a explosão dourada que engoliu a fábrica tivesse levado não apenas sua energia, mas parte de sua substância. A pele dele, fria como mármore sob fuligem e sangue seco, contrastava brutalmente com o corpo dela. A carne de Velvet sibilava e estalava, regenerando-se em um ritmo furioso e nauseante, alimentada pela energia que Lucius involuntariamente lhe cedeu. Músculos se retorciam para fechar feridas expostas, ossos estalavam voltando para o lugar. Ela era um monstro se reconstruindo para proteger o que restava de sua humanidade: o garoto em seus braços.

Chegaram às ruínas. A velha cabana de madeira, oculta pela vegetação densa, permanecia de pé como um esqueleto esquecido. Aquele lugar... o lar. Onde, em uma vida que parecia pertencer a outra pessoa, ela, Lucius, Kamui e Rover sorriram. Antes da dor.

Ela chutou a porta podre e o deitou na cama velha. A poeira dançou nos raios de luz filtrada, criando uma auréola suja ao redor dele.

Shhh... fica quietinho, Dante... — A voz dela era um gorgolejo úmido, distorcida pela regeneração de suas cordas vocais. — A Velvet vai cuidar de você. A Velvet promete.

Ela correu para os armários, garras rasgando a madeira podre em busca do kit médico escondido sob o assoalho. Éter esgotado. Sem magia. Apenas o velho jeito humano. Foi quando o ar mudou.

Não foi um som. Foi uma pressão. O canto dos pássaros cessou abruptamente. O vento morreu. O cheiro invadiu suas narinas — não de podridão, nem de feras, mas de Poder. Três assinaturas de Éter. Distintas. Colossais. E estavam na porta.

O instinto de Velvet foi substituído instantaneamente pelo algoritmo de uma máquina de matar. Inimigos. Ameaça.

Ela largou as bandagens. Não havia espaço para medo, apenas para violência. Velvet subiu pelas paredes, fundindo-se às sombras do teto, as garras estendidas, a saliva ácida pingando silenciosamente. Seus olhos, fendas vermelhas na escuridão, travaram na maçaneta.

A porta se abriu.

Uma silhueta feminina entrou, passos leves, despreocupados. Velvet não hesitou. Ela se tornou um borrão, um projétil de ódio e lâminas, caindo do teto em direção à jugular da intrusa. Um golpe para decapitar.

Mas o universo obedeceu a outra lei.

A garota nem sequer olhou para cima. Com um tédio palpável, ela apenas ergueu a mão esquerda. O movimento foi tão fluido que pareceu coreografado. Ela interceptou o pulso de Velvet no ar, parando toneladas de força cinética com a facilidade de quem apanha uma folha caindo.

— Tão barulhenta — a garota murmurou.

O mundo de Velvet girou. Usando a inércia do ataque da quimera, a garota girou o corpo e aplicou uma projeção de Aikido perfeita. Mas não foi apenas técnica; foi uma rejeição física. Velvet foi arremessada com uma violência que quebrou a barreira do som dentro da pequena sala.

Ela atravessou a parede de madeira sólida como se fosse papel, voou pela clareira e colidiu com o tronco de um carvalho centenário. A árvore explodiu em lascas. Velvet caiu, tossindo sangue negro, a visão turva.

Quando ela conseguiu focar, três figuras estavam paradas na clareira, emolduradas pelas sombras da floresta.

A primeira, a responsável pelo arremesso, era a personificação da exaustão letal. Uma adolescente de pele pálida como porcelana rachada e cabelos cinzentos desgrenhados. Dois chifres retorcidos rasgavam sua testa, e seus olhos eram abismos profundos, adornados por olheiras de quem carregava o peso de séculos sem dormir. Ela emanava uma gravidade que fazia as folhas no chão vibrarem.

A segunda era o oposto. Uma mulher na casa dos vinte anos, exalando uma aura vitoriana e perigosa. Cabelos azulados em ondas perfeitas, girando um guarda-chuva de renda com elegância. Seus olhos eram o detalhe mais perturbador: no lugar das íris, o desenho intrincado de fechaduras.

A terceira figura parecia intocável. Uma garota de dez anos, vestida em uma camisa de força branca, imaculada, o rosto completamente oculto por vendas e um véu denso.

Ara, ara... — A mulher do guarda-chuva riu, a voz aveludada como veneno doce. — Kali, não acha que foi um pouco rude? Atacar um bichinho assustado com tanta força?

— Cala a boca e morra, Irene — Kali, a garota de chifres, respondeu. Sua voz era seca, monótona, desprovida de qualquer empatia.

Irene sorriu, divertida.

— Nossa. É por isso que você não arranja namorado.

Velvet se levantou, o corpo tremendo, regenerando as costelas quebradas. Um rugido gutural escapou de sua garganta.

— QUEM SÃO VOCÊS?! O QUE VOCÊS QUEREM COM ELE?!

Irene deu um passo à frente, graciosa.

— Calma, minha cara. Não viemos brigar...

Mas o cheiro dela fez Velvet recuar. Era doce demais. Doentio. O cheiro de coisas trancadas que deveriam permanecer esquecidas.

— Tá vendo? — Kali cruzou os braços, entediada. — Até o monstro sente a podridão em você, bruxa.

Uh, grossa — Irene fez beicinho.

— EU NÃO VOU REPETIR! — Velvet gritou, as garras crescendo, rasgando a terra. O medo por Dante a estava enlouquecendo.

A garota vendada, a mais silenciosa até então, deu um passo à frente.

— Nós somos a Horizon. Ou seremos, um dia. — A voz dela não era alta, mas tinha a qualidade de um decreto real. O vento parou para ouvi-la. — E nós viemos salvar o garoto.

A lógica de Velvet quebrou. "Elas sabem. Elas vieram pegá-lo." O Éter da quimera explodiu em uma aura roxa e violenta. Ela não pensou. Ela agiu. Um salto suicida para matar as três de uma vez. Ela tensionou os músculos. Ela quase se moveu.

No intervalo de um piscar de olhos, Kali deixou de estar a dez metros e passou a existir a dez centímetros do rosto de Velvet. Não houve som de movimento. Apenas deslocamento espacial instantâneo. Kali pisou suavemente na ponta da garra de Velvet, pregando-a no chão. Ela inclinou o rosto, os olhos mortos encarando a alma da quimera. A pressão que emanou de Kali naquele instante não foi uma aura; foi o terror primitivo de estar diante de um predador ápice. O ar ficou pesado como chumbo.

— Sentada.

Não foi uma ordem. Foi uma lei da física. O corpo de Velvet travou. O instinto gritou que qualquer movimento resultaria em aniquilação total. A "intensidade" que ela sentia em Lucius parecia uma brisa comparada à tempestade silenciosa contida naquele corpo pequeno.

— Está tudo bem, Kali — a garota vendada disse, aproximando-se. — Ela só está com medo. Solte-a.

Kali manteve o olhar por mais um segundo, depois recuou, estalando a língua.

Tsk

A garota vendada parou diante de Velvet, que tremia incontrolavelmente.

— Eu juro pela minha vida — disse a garota, a voz suave. — Nós não faremos mal a ele. Pelo contrário. Sem nós, ele morrerá antes do anoitecer.

Velvet olhou para a cabana, derrotada. Ela não tinha escolha. Se lutasse, morreria em segundos, e Dante ficaria sozinho.

— Por favor... — Velvet sussurrou, a voz quebrando. — Salvem ele.

Dentro da cabana, a situação era crítica. Irene se inclinou sobre Dante.

Humm... Colapso sistêmico total. O Éter dele não só acabou; a fonte secou. O corpo está comendo a própria vida para se manter funcionando.

Velvet sentiu as pernas cederem.

— Ele... ele prometeu que ficaríamos bem...

— Promessas de crianças são lindas — Kanade, a garota vendada, disse tristemente. — Mas o destino não se importa com elas... Irene — ordenou Kanade. — Cure-o. E prepare o selo.

Irene sorriu. Ela levou a mão ao pescoço e puxou um colar. Na ponta, uma chave feita de cristal pulsante. Ela soltou a chave, e o objeto flutuou, crescendo até ficar do tamanho de uma espada, zumbindo com poder arcano.

— Vamos "trancar" esse estado crítico — Irene disse, posicionando a chave flutuante sobre o peito de Dante.

Na hora, Velvet se assustou e deu um passo à frente, ainda desconfiada e quase indo para o ataque, mas, como se conseguisse ver o que iria acontecer mesmo com os olhos vendados, a garota ao lado colocou a mão na frente de Velvet, impedindo-a de avançar.

— Está tudo bem. A Irene só irá ajudar ele.

A chave girou no ar. Click. O som de uma fechadura colossal abrindo ecoou na realidade. A chave mergulhou no peito de Dante sem cortar a pele, dissolvendo-se em luz. Imediatamente, a respiração dele estabilizou. A cor voltou. Foi um milagre instantâneo.

Velvet suspirou, aliviada, as lágrimas começando a cair.

— Obrigada... — Velvet caminhou até Dante, abraçando-o. — Agora... agora nós podemos ir. Vamos fugir. Vamos finalmente ficar juntos para sempre.

— Não — Kanade interrompeu. A palavra caiu como uma guilhotina.

Velvet congelou.

— O quê?

— Você não vai com ele, Velvet. O caminho de vocês se separa aqui.

— NÃO! — Velvet gritou, abraçando o corpo inconsciente de Dante. — Eu não vou deixar ele! Ele disse que ama a Velvet, ele falou que não tinha medo... Ele aceitou a Velvet do jeito que ela é!

— Ele te aceitou — Kanade concordou. — Mas o mundo vai quebrá-lo por isso. Se você ficar com ele agora... você será o alvo. E Dante, para te proteger, vai mergulhar em um oceano de sangue do qual nunca sairá.

Kanade estendeu a mão enfaixada.

— Deixe-me te mostrar. — Ela tocou a testa de Velvet.

A visão invadiu a mente de Velvet com a força de um furacão.

Fogo. Destruição. Uma cidade em ruínas sob um céu vermelho. Dante estava lá, mais velho, coberto de cicatrizes. Ele segurava a mão de Velvet, mas não havia luz nos olhos dele. Havia apenas loucura. Ele matava, rasgava, destruía tudo o que se movia para mantê-la viva. O sorriso dele era uma máscara quebrada. Ele não era feliz. Ele era um cão de guarda do inferno, acorrentado ao dever de protegê-la, mantendo um sorriso enlouquecido para não preocupá-la, mas, aos poucos, perdendo a alma pedaço por pedaço.

Velvet sentiu a dor dele. A exaustão. O desejo de morrer, contido apenas pela obrigação de viver por ela.

A visão mudou.

Um colégio. Luz do sol filtrada por folhas verdes. Risos. Dante estava sentado sob uma árvore. Ele parecia... em paz. Ao lado dele, amigos. Uma vida normal. Uma vida onde ele podia sorrir sem ter sangue nas mãos. Velvet viu a si mesma, observando de longe, escondida, mas sentindo uma paz avassaladora por vê-lo bem.

Kanade retirou a mão. Velvet caiu de joelhos, soluçando.

— Eu não quero que ele sofra... — ela chorou, agarrando o vestido de Kanade. — Eu não quero ser a maldição dele!

— Então dê a ele a chance de crescer — Kanade disse suavemente, acariciando os cabelos da quimera. — Dê a ele a chance de se tornar forte o suficiente para, um dia, poder ficar ao seu lado sem que o mundo desabe. A separação é temporária. O reencontro é o destino.

— Como eu posso acreditar em você?! — Velvet gritou, desesperada por uma garantia. — Eu nem sei quem você é!

Kanade hesitou. Então, lentamente, levou as mãos às vendas.

— Kali, Irene. Virem-se.

Tsk. Frescura — Kali resmungou, virando de costas na porta.

Kanade removeu as vendas apenas para Velvet.

O tempo parou. Os olhos de Velvet se arregalaram. O choro cessou, travado na garganta pelo choque absoluto. O rosto que ela viu... a familiaridade impossível... a conexão que transcendia o tempo.

— Agora você entende? — Kanade sussurrou, uma lágrima escorrendo pelo rosto marcado por queimaduras que surgiam apenas por revelar aquela verdade. — Quem mais amaria o Dante tanto quanto você? Quem mais faria tudo para salvá-lo?

Velvet estendeu a mão trêmula, tocando o rosto de Kanade.

— Você…

Ao ver o rosto dela, as lágrimas caíram incessantemente; a tristeza evaporou. Ela sabia, ninguém precisava dizer, o significado daquilo. No instante em que compreendeu, um pensamento substituiu toda a tristeza, dor e agonia sentidas até aquele momento por pura felicidade.

“Eu sabia, Dante, eu sabia. No momento em que te encontrei, no momento que provei o seu sangue, uma luz se acendeu. E eu sabia que essa luz não se apagaria, pois percebi naquele instante que o motivo do meu nascimento, o sentido da minha vida, era simplesmente para poder te conhecer.”

— Confie em mim — Kanade sorriu, recolocando as vendas rapidamente enquanto a pele chiava. — Confie em nós.

Velvet limpou as lágrimas. Seu rosto mudou. A expressão feral desapareceu, substituída por uma determinação dolorosa e adulta. Ela se levantou e caminhou até Dante. Ele dormia tão serenamente. Ela se inclinou e beijou a testa dele. Um beijo suave, demorado, carregado de todo o amor que ela não poderia expressar nos próximos anos.

— Desculpa, Dante... — ela sussurrou no ouvido dele. — A Velvet vai quebrar a promessa. Mas é porque a Velvet te ama mais do que ama a si mesma.

Irene se aproximou, girando a chave, mais uma vez.

— Hora de trancar o trauma.

Velvet se virou assustada, sem entender.

Kanade então falou:

— Ficará tudo bem. Ele não vai esquecer totalmente de você. Ele lembrará do incidente como um sonho borrado. A escuridão dentro dele vai dormir... até que ele esteja pronto, até que você o reencontre.

Irene rodou a chave mais uma vez.

Click.

A expressão dele relaxou completamente. O peso do mundo foi retirado de seus ombros, trancado em uma caixa preta no fundo de sua mente.

"Mas como será? Estaremos deixando um cão raivoso e cheio de problemas enjaulado em um lugar escuro e profundo. Pergunto-me o que acontecerá quando esse cão se soltar", pensou Irene, lambendo os lábios e pegando a chave antes de sair do quarto.

Velvet pegou um pedaço de papel amassado e um toco de lápis que encontrou nos escombros. Com a mão trêmula, ela escreveu uma mensagem rápida. Suas lágrimas mancharam o papel, mas ela o colocou na mão dele, fechando os dedos do garoto sobre o bilhete.

— Vamos — Kanade ordenou. — Nero já está levando os outros. Temos que sumir antes que ela chegue.

Irene abriu um portal dimensional, um vórtice de luz giratória. Kanade e Irene atravessaram. Kali parou, olhando para trás.

— Você vem?

Velvet parou na soleira da porta. A luz do sol começava a tocar o rosto de Dante. Ela olhou para trás uma última vez, gravando aquela imagem em sua alma para sustentá-la através do inferno que viria a seguir.

Bye, bye... Dante.

Ela se virou e entrou na escuridão do portal. A fenda se fechou. O silêncio retornou à cabana.

Horas se passaram. O sol já estava alto quando Dante abriu os olhos. Ele se sentou de súbito, o coração acelerado, puxando o ar como quem emerge de um afogamento. Ele olhou ao redor, frenético. As ruínas da cabana. A poeira. O silêncio. Ele levou a mão ao peito. Sem dor. Sem feridas. Apenas uma sensação estranha e oca, como se algo vital tivesse sido arrancado de dentro dele, deixando um buraco que o vento atravessava.

— Tem alguém aí? — ele chamou. A voz saiu rouca. Ninguém respondeu.

Ele tentou se lembrar. A fábrica... a explosão... e então... borrões. Tudo parecia visto através de um vidro embaçado e sujo. Ele olhou para a própria mão direita. Ela estava fechada com força. Ele abriu os dedos. Havia um papel amassado ali. Dante alisou a folha. A letra era trêmula, infantil, mas carregada de uma força desesperada.

"Não pare. Continue caminhando e seguindo em frente. Eu juro que iremos nos reencontrar."

Dante leu uma vez. Duas vezes. Uma lágrima solitária, que ele não compreendia de onde vinha, pingou sobre o papel. Ele apertou a nota contra o peito, sentindo aquele vazio insuportável pulsar. Ele estava vivo. Ele estava curado. Mas estava completamente sozinho.

Parte 7

Dante não caminhava; ele arrastava sua existência pelas ruas de paralelepípedos da cidade vizinha.

Ao redor dele, o mundo convulsionava em pânico. O horizonte, onde antes se erguia a montanha e o laboratório, era agora uma ferida aberta no céu, sangrando fumaça negra e fuligem que caía como neve suja sobre os refugiados. Carroças rangiam sob o peso de móveis, crianças choravam agarradas às saias das mães, e o cheiro de enxofre e medo impregnava o ar.

Mas Dante era um vácuo no meio do caos.

Ele avançava como um espectro, surdo aos gritos, cego para o desespero alheio. Suas roupas estavam em frangalhos, a pele manchada de sangue seco que não era dele. Em sua mão direita, os dedos estavam contraídos em um espasmo rígido, segurando um pedaço de papel amassado com tanta força que as pontas dos dedos estavam brancas.

Ele olhou para o papel. Seus olhos, vazios e sem brilho, tentaram focar nas palavras trêmulas escritas ali. "Não pare..." A leitura falhou. As letras pareciam insetos rastejando, fugindo de sua compreensão. Sua mente rejeitava a informação. Era como tentar ler um livro em um idioma que ele sabia que amava, mas que havia esquecido completamente.

Uma rajada de vento, o suspiro final da explosão distante, açoitou a rua. O corpo de Dante fraquejou. Seus dedos, dormentes pelo trauma físico e espiritual, relaxaram por uma fração de segundo. O bilhete escapou.

O tempo pareceu desacelerar. Dante viu o papel branco girar no ar, dançando com as cinzas negras, subindo, subindo, até ser engolido pela fumaça cinzenta do céu. Por um instante, uma dor lancinante perfurou o peito do garoto. Não uma dor física, mas a sensação fantasma de uma amputação.

Uma urgência violenta de gritar, de correr, de pular e agarrar aquele pedaço de papel como se fosse a única âncora que o prendia à realidade. Ele deu um passo à frente, a mão estendida para o nada. Mas então... o mecanismo em sua cabeça estalou.

Click.

A urgência morreu. O sentimento evaporou, substituído por um cinza apático e gelado. Ele baixou a mão.

— O que era aquilo? — ele murmurou, a voz rouca pelo desuso.

Ele virou as costas para o vento e continuou a andar, deixando para trás a única prova de que, um dia, alguém o amou incondicionalmente.

No alto de um telhado inclinado, com telhas de ardósia escorregadias pela fuligem, dois pares de olhos observavam a figura solitária lá embaixo.

— Ali! — Lin sussurrou, a excitação vibrando em sua voz. Ela flexionou os joelhos, o Éter já circulando nas pernas para o salto. — Encontramos ele! Vamos, Nero!

Lin preparou o impulso, mas dedos fortes como garras de aço fecharam-se sobre seu ombro, pregando-a no lugar.

— Espere — a voz de Nero não admitia réplicas.

Lin olhou para trás, atordoada.

— O que foi? Por que está me parando? Ele está ferido, Nero! Nós precisamos...

— Olhe — Nero interrompeu.

Lá embaixo, Dante não havia parado. Ele se aproximava da traseira de uma carruagem de carga pesada, abarrotada de caixas e refugiados que pagavam por uma saída rápida. Com movimentos automáticos, sem olhar para trás, ele subiu no veículo, encolhendo-se entre barris de vinho e sacos de grãos, misturando-se às sombras.

Uma memória atingiu Nero com a força de um soco.

"Bom, contente-se comigo então", ela ouviu a si mesma dizer, dias atrás. "Pelo menos até eu encontrar uma brecha na cerca." E a resposta dele, acompanhada daquele sorriso ingênuo e esperançoso que agora parecia ter morrido: "Quando achar, me avisa."

A mão de Nero no ombro de Lin tremeu, apenas uma vez, antes de apertar com mais força.

— Deixe-o ir.

— O quê?! — O sussurro de Lin foi um grito estrangulado. — Você ficou maluca?

A carruagem deu um solavanco e as rodas começaram a girar, triturando o cascalho. Lin, desesperada, correu até a borda do telhado, debruçando-se perigosamente.

— Ei! Ei, você aí embaixo! — ela gritou para um mercador que passava. — Para onde aquela carruagem está indo?!

O homem olhou para cima, assustado com as duas figuras armadas no telhado.

— P-para a cidade portuária de Vastos! Estão indo para o outro lado do oceano!

Lin girou nos calcanhares, os olhos arregalados de pânico.

— Vastos... Nero, isso é uma viagem sem volta. Ele está saindo do reino de Alexandria. Você tem noção do que isso significa?

Nero não se moveu. Ela observava a carruagem diminuir, tornando-se um ponto insignificante na estrada longa e poeirenta. Ela sabia. Ela sabia exatamente o que significava. Significava liberdade.

Significava que a "brecha na cerca" estava aberta, mas apenas um podia passar.

Lin viu o impossível acontecer. Uma única lágrima se formou. Grossa, pesada, carregada de tudo o que ela nunca poderia dizer. A lágrima escorreu, traçando um caminho limpo na poeira de seu rosto, contornou o queixo e caiu no telhado, evaporando instantaneamente no calor das telhas.

Foi a única fraqueza que ela permitiu. Nero passou as costas da luva no rosto, secando o rastro com violência. A máscara de frieza desceu novamente.

— Vamos — Nero disse, virando as costas para a estrada. Sua voz era gelo cortante. — Temos um relatório para entregar.

Ela começou a caminhar na direção oposta, em direção à mansão, em direção à gaiola.

— E Lin... — Nero parou, olhando de esguelha. — Você não viu nada desde que pisamos nesta cidade. Entendeu?

Lin engoliu em seco. Ela olhou para as costas rígidas de Nero, depois para a estrada vazia onde Dante desapareceu. O peso da mentira assentou sobre seus ombros.

— Entendi — Lin sussurrou, abaixando a cabeça.

Dentro da carruagem, o ar era viciado. Cheirava a suor azedo, madeira podre e o medo tangível dos refugiados. Dante olhava pela fenda da lona encardida. A paisagem passava — árvores queimadas, campos de cinzas — mas ele não registrava nada. Sua cabeça era um ninho de vespas.

Bzzzt. Glitch. Estática mental.

Era como se alguém tivesse passado uma borracha grosseira sobre quem ele era. Havia buracos. Crateras onde deveriam existir sentimentos. Ele tentava buscar uma memória reconfortante e encontrava apenas ruído branco.

"Por que sinto tanta falta de algo que não sei o que é?"

Ele encostou a cabeça na madeira vibrante da carruagem. O tremor do veículo chacoalhava seus ossos. Fragmentos desconexos boiavam na sopa de sua mente.

A voz de Raikou, pingando desdém: "Você é patético, Dante. Quando terá uma ambição?" A imagem na tela que uma empregada da mansão assistia. Um anime shounen genérico. O protagonista de cabelos espetados gritando: "Eu serei!..."

Um espasmo percorreu o corpo de Dante. "Serei..." A ideia tentou criar raízes, mas o solo estava envenenado. Imediatamente, uma dor aguda, fria e metálica pulsou em sua testa, onde a chave havia entrado. Uma voz sussurrada, distorcida e sombria, ecoou nas paredes de seu crânio.

"Não. Você não pode ser um herói."

Dante abraçou os próprios joelhos, tremendo. A escuridão interna parecia concordar. Ele não servia para a luz.

O silêncio na carruagem foi quebrado por dois homens sentados à frente.

— Aquela explosão... dizem que foi obra da Carmilla — um deles sussurrou, fazendo o sinal de proteção sagrada.

— Tem dúvida? — o outro respondeu, cuspindo no chão de madeira. — Sangue B2. Laboratórios ilegais. É óbvio que ela tem o dedo podre nisso. Afinal... ela é um Rei Demônio.

— Malditos sejam — o primeiro resmungou. — Esses Reis Demônios... eles não seguem regras. Eles fazem o que querem. Trazem caos, desgraça.

As palavras atingiram Dante como pedras. Laboratório. B2. Carmilla. Rei Demônio.

Glitch.

A mente de Dante fraturou. A realidade visual à sua frente se distorceu. Por um segundo, os rostos dos passageiros foram cobertos por rabiscos infantis de giz de cera. Traços violentos, caóticos, cores berrantes sobrepondo o cinza do mundo. O rosto de Sanemi, rasurado em vermelho. O rosto de Lucius, um buraco negro. E então, a imagem dele mesmo refletida em uma poça de vinho derramado no chão da carruagem.

O reflexo mudou. O giz de cera mental desenhou sobre o rosto de Dante. Uma coroa torta, amarela e brilhante, flutuando sobre sua cabeça. Um sorriso largo, cheio de dentes pontiagudos, rasgando suas bochechas de orelha a orelha.

Dante parou de tremer. A respiração dele acalmou.

"É verdade... Se eu não posso ser o herói... Então por que eu não posso ser um Demônio?"

Dante começou a rir. Foi um som baixo, seco, que fez os passageiros pararem de conversar e se afastarem dele, encolhendo-se contra as paredes da carruagem. Ele olhou para o teto de lona, mas seus olhos viam além.

"Se eu não posso ser o Herói que salva a todos..." O desenho infantil em sua mente sorriu, malévolo e livre. "...então eu serei o Rei Demônio."

Uma nova ambição preencheu o buraco onde o coração havia sido arrancado. E isso bastava. Dante Scarlune fechou os olhos, um sorriso calmo, perigoso e terrivelmente sereno curvando seus lábios. Ele recostou a cabeça, relaxando pela primeira vez.

A carruagem seguiu em frente, rodando para longe de Luvania, levando consigo não mais um garoto perdido, mas a semente de um pesadelo que o mundo um dia iria conhecer.

Entrelinhas

A poeira de Luvania finalmente assentou, mas as cicatrizes deixadas no tecido do tempo jamais desaparecerão. Elas permanecem lá, invisíveis ao olho nu, mas palpáveis na alma do mundo para aqueles que sabem onde tocar.

Esta história não foi apenas um conto isolado de sangue e ossos. Ela foi o "Gênesis Silencioso". Aconteceu exatamente dez anos antes do céu se partir no cataclísmico Incidente da Torre Dates. Aconteceu vinte anos antes do mundo presenciar a tragédia do Titanic. Foi um breve, violento e dolorosamente belo suspiro sobre tragédia e amor.

Foram esses dias — agora apagados por uma chave de cristal e sepultados sob um véu de esquecimento misericordioso — que forjaram o aço frio que sustenta a espinha dorsal de Dante Scarlune.

O garoto que desceu daquela carruagem em Vastos, com o olhar perdido no horizonte, não se lembrava mais do som do nome "Velvet". Sua mente havia esquecido o sabor metálico do sangue negro de uma Quimera e o calor desesperado de uma promessa feita na beira de um buraco negro.

Mas o corpo lembra. O instinto, gravado na carne, jamais esquece. A decisão de se tornar um "Rei Demônio" não nasceu de um capricho adolescente ou de uma vulgar ambição por poder. Ela nasceu ali, naquele vácuo deixado pela ausência dela.

Agora, as engrenagens do relógio avançam. Nos dias atuais, sob a luz artificial dos corredores de uma escola, um Avatar — um "novo garoto" — caminha vestindo a pele de Dante. Ele vive dias de juventude, distraído por rivais, amores escolares e intrigas políticas, acreditando ingenuamente que conhece a história do receptáculo que habita.

Ele está errado. A chave de Irene é temporária. O vidro turvo da memória já está começando a trincar. Essas lembranças, pesadas como chumbo e afiadas como bisturis enferrujados, estão retornando. Elas rastejam pelo subconsciente, exigindo seu lugar. E quando elas finalmente colidirem com a consciência desse Avatar, o choque será sísmico. Como ele reagirá ao descobrir que o monstro que tenta controlar não é apenas uma besta faminta, mas o guardião solitário de uma promessa esquecida?

E quanto à Velvet? Onde estará a garota de cabelos prateados que atravessou o portal nos braços da Horizon? O que a organização fez com a "Quimera Perfeita" durante essas décadas de silêncio absoluto? E, mais importante... será que a promessa de um reencontro resistirá ao teste cruel do tempo e da mudança?

Mas o paradeiro dela, e a tempestade devastadora que o seu retorno trará aos nossos dias... Ah... isso é história o suficiente para deixarmos para outro livro.

— Alpha


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