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The Fall of the Stars: Capítulo 3 - Festa Sangrenta

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 7 de mar.
  • 79 min de leitura

Volume 11 : A Prisão Dourada


Parte 1

 Apenas quarenta e oito horas. Esse era o tempo exato desde que a terra fria e pesada do cemitério havia sido jogada sobre os caixões fechados de Yuki e Laeticia. Qualquer sociedade minimamente sã estaria afundada em um luto denso, arrastando-se por corredores silenciosos e trocando murmúrios respeitosos.

Mas Morpheus não era uma cidade normal, e seus jovens não operavam na mesma frequência da sanidade. Quando o clima pesava a ponto de esmagar, o sistema de defesa coletivo daquela geração entrava em colapso e exigia o extremo oposto: uma injeção letal de luzes estroboscópicas e decibéis estourados para anestesiar a morte.

O baixo da música eletrônica era uma entidade física. O som era tão absurdamente alto que fazia o piso de mármore italiano vibrar sob as solas dos sapatos, subindo pelas pernas e sacudindo violentamente as costelas de quem ousasse entrar no salão principal. Feixes epiléticos de luzes neon — roxas, verdes e azuis — cortavam a escuridão do ambiente como lâminas de laser, pintando rostos suados com cores doentias.

A extravagante mansão, que até poucas semanas atrás pertencia ao falecido magnata Mamon Sterling, agora era o parquinho particular de sua "sobrinha" e única herdeira, Ivy. E a garota, em toda a sua futilidade calculada, havia decidido que a melhor forma de homenagear o tio e "aliviar a tensão" das tragédias estudantis era dar uma rave de proporções apocalípticas. O colégio inteiro parecia ter sido sugado para lá.

No centro exato do salão, ofuscando até mesmo o brilho dos antigos lustres de cristal, erguia-se uma abominação visual: um bolo gigante de seis andares, coberto por um glacê fluorescente que brilhava de forma radioativa sob a luz negra.

Ivy estava de pé no topo da grande escadaria principal, segurando o gargalo de uma garrafa de champanhe caro. Ela usava um vestido verde-esmeralda cintilante, perfeitamente colado ao corpo, e exibia um sorriso de orelha a orelha para a massa fervente de adolescentes que se contorciam lá embaixo.

— Para a Laeticia e para a Yuki! — Ivy gritou no microfone roubado da cabine do DJ. A voz dela rasgou os alto-falantes, soando sintética, esganiçada e eufórica. — Elas odiariam ver a gente chorando pelos cantos do campus! Então vamos celebrar a vida! Tio Mamon sempre dizia que a tristeza não paga os boletos! Divirtam-se até apagar!

A multidão rugiu como um único monstro em aprovação, erguendo centenas de copos vermelhos de plástico para o ar.

A dissonância era enlouquecedora, um verdadeiro teatro do absurdo. Um mar de estudantes que, ontem de manhã, vestiam preto e fingiam chorar lágrimas invisíveis em um mausoléu, agora pulava descontrolado ao som de um remix ensurdecedor. A superficialidade parecia escorrer pelo papel de parede da mansão.

Longe da pista de dança caótica, escorada no balcão de mogno de um bar improvisado dentro da imensa biblioteca da mansão, Philia travava sua própria guerra de trincheiras.

A aspirante a repórter investigativa virou um shot de um líquido azul incandescente de uma só vez. O álcool barato desceu rasgando sua garganta como vidro moído, mas a queimação física não chegava nem perto da profundidade do buraco que estava corroendo seu peito. A culpa era um parasita faminto e insone. Cada vez que ela piscava, o rosto pálido de Yuki surgia de volta na escuridão de suas pálpebras. Cada batida violenta da música eletrônica soava como o grito que ela deveria ter dado para a amiga não entrar naquele prédio de manutenção sozinha.

— Philia, vai com calma nisso aí... — Mumei murmurou. Ele estava parado ao lado dela, com os ombros encolhidos e visivelmente sufocado pela atmosfera predatória da festa. O garoto puxou nervosamente o capuz da blusa sobre a cabeça, os olhos varrendo os cantos escuros da biblioteca. — Você já virou três desses em dez minutos.

Luka, que estava encostado do outro lado do balcão, soltou um suspiro pesado. Ele descruzou os braços e, em um movimento rápido, arrancou o copinho de plástico da mão trêmula da garota. — O Mumei tem razão, Philia. Chega. Beber até seu fígado parar não vai trazer a Yuki de volta. A gente veio aqui pra tentar esparecer um pouco, sobreviver ao clima, não pra você entrar em coma alcoólico no tapete persa da Ivy.

Philia soltou uma risada rascante e amarga, o som raspando na garganta ferida. Seus olhos, por trás das lentes grossas dos óculos, já estavam pesados e injetados de vermelho. — Esparecer? Luka, olha em volta! — Ela gesticulou de forma errática para a porta dupla que dava para o salão. — Olha pra essa gente doente e bizarra! Duas garotas da nossa sala estão deitadas em mesas de necrotério com as cabeças e gargantas esmagadas agora mesmo, e essa patricinha herdeira tá servindo a porra de um bolo neon como se fosse um feriado nacional!

Luka e Mumei trocaram um olhar denso, engolindo em seco. A verdade nua e crua estragava a ilusão do neon.

No extremo oposto e elevado da mansão, mergulhada nas sombras densas do mezanino superior que dava uma visão panorâmica para a pista de dança, a mesma exata constatação era feita por olhos infinitamente mais perigosos.

Vav estava completamente isolada. De braços cruzados, ela apertava um copo de plástico vazio com tanta brutalidade que o material cedeu com um estalo seco, rachando e cortando levemente a palma de sua mão. Ela estava vestida com sua armadura urbana de sempre: a jaqueta de couro surrada e calças pretas rasgadas. A carranca em seu rosto era tão carregada de violência iminente que nenhum aluno bêbado ousava se aproximar dela a menos de três metros de distância. O ar ao seu redor parecia tóxico. A visão daquela festa parecia insultar cada célula, cada gota de sangue de seu corpo.

Passos macios, inaudíveis e perfeitamente cadenciados pararam às suas costas.

Teth posicionou-se ao lado da irmã. Ele havia abandonado o terno rigoroso do funeral, substituindo-o por uma camisa social preta de corte impecável e calças de alfaiataria; a postura de príncipe de gelo permanecia inabalável. Ele não virou o pescoço para olhá-la. Em vez disso, focou a imensidão bicolor de seus olhos na multidão que se contorcia lá embaixo.

— Se você continuar apertando os dentes com essa força, vai fraturar o próprio osso maxilar, Vav — Teth comentou. A voz dele era incrivelmente baixa, um sussurro frio que, de alguma forma, cortou perfeitamente a vibração dos graves que subiam do salão.

— Eu devia descer lá agora mesmo e socar a cara da Ivy até aquele sorriso de plástico idiota afundar para o fundo da garganta dela — Vav rosnou. A voz tremeu, carregada de um ódio cru e palpável. Ela atirou o copo de plástico rachado no chão de madeira com nojo. — Isso é uma ofensa. Eles estão cuspindo e dançando em cima do túmulo da Let. Isso aqui não é uma escola, Teth. É um maldito hospício.

— A agressão física direta contra a anfitriã da festa apenas resultaria na nossa expulsão imediata do evento, o que arruinaria a estratégia — rebateu Teth. A racionalidade cirúrgica pingava de cada sílaba, inegociável. Mas, diferentemente da discussão explosiva na garagem da Tia Rum, a frieza de Teth agora tinha um propósito focado. Não era mais apatia; era tática de guerra.

Ele virou o rosto levemente para a irmã. A tensão gravitacional entre os gêmeos ainda era um fio de aço esticado, prestes a chicotear e arrebentar, mas eles haviam firmado uma trégua profana nas sombras. O luto explosivo dela e o luto contido dele haviam se fundido em algo pior: uma caçada.

— Foi você mesmo quem me olhou nos olhos e disse que quebrar garrafas numa garagem não ia me dar respostas — Vav sibilou, estreitando os olhos avermelhados e devolvendo um olhar puramente letal ao irmão. — Então me diz o que a gente está fazendo parados nessa festa ridícula, Teth? Brincando de investigadores disfarçados em série de TV?

— Estamos fazendo exatamente o que eu disse que faríamos. Coletando dados. — Teth moveu-se com elegância contida e apoiou os antebraços no parapeito de vidro grosso do mezanino. Seus olhos varreram os trezentos alunos lá embaixo, escaneando rostos, movimentos e sorrisos falsos como se fosse um software de reconhecimento militar. — O assassino da Laeticia não é um fantasma invocado do além. É alguém físico. Alguém de carne e osso que respira o mesmo ar estragado que a gente. A polícia corrupta diz que foi um animal selvagem, e a escola inteira, obediente, aceita a mentira e vem dançar numa rave.

A expressão plácida de Teth escureceu subitamente. A máscara de ouro trincou pelo lado de dentro, revelando por um segundo a ameaça monstruosa que habitava sua mente. — Num lugar onde todos fingem cegueira coletiva para não ver os problemas, o predador não tem o menor motivo para se esconder. Ele se sente seguro. Ele acha que a apatia crônica desta cidade é a sua maior camuflagem tática. E é por isso que nós estamos exatamente aqui, Vav. O colégio inteiro, sem exceção, está engaiolado dentro desta mansão hoje à noite.

Vav parou de respirar por um segundo. Ela descruzou os braços e apertou os punhos contra as laterais do corpo, a ficha pesada caindo ruidosamente em sua mente. A raiva ebulitiva e sem direção dela finalmente encontrou o foco frio e afiado do irmão.

— Você quer dizer que... — Vav engoliu em seco, olhando novamente para o mar de adolescentes suados, bebendo e rindo lá embaixo.

— Exatamente — Teth murmurou. As íris bicolores do garoto brilharam com uma predação calculada, sombria e terrível na escuridão do mezanino. — Quem rasgou o crânio da Laeticia está lá embaixo agora mesmo. Bebendo do mesmo barril de cerveja. Rindo da mesma música medíocre. Nós só precisamos forçar esse rato a mostrar quem ele realmente é.

Parte 2

A Policial Satan e a Detetive Rum não entraram no salão; elas invadiram a atmosfera. A dupla arrastou consigo o cheiro úmido, frio e carregado de ozônio da tempestade lá fora, além de uma aura de autoridade policial tão densa e inegociável que fez a música eletrônica parecer, de repente, uma ofensa fútil.

A musculatura descomunal de Satan abriu caminho pela multidão de adolescentes suados e bêbados com a força bruta de um navio quebra-gelo rasgando o oceano Ártico. Alunos tropeçavam nos próprios pés para sair do caminho da mulher gigante. Rum vinha logo atrás, esguia e tensa, a água pingando da bainha de seu casaco enquanto o único olho bom da detetive varria o ambiente neon com um misto de descrença e puro desgosto.

Elas não demoraram a interceptar o alvo. Ivy ainda estava no topo da grande escadaria, o sorriso falso grudado no rosto e a garrafa de champanhe brilhando na luz negra. Ao ver as duas oficiais marchando em sua direção, a "sobrinha" de Mamon hesitou. Ela tentou dar um passo instintivo para trás, a taça em sua mão tremendo levemente e derramando bebida no tapete.

— Boa noite, anfitriã — Rum disse. A voz seca, calejada pelo cigarro, cortou os graves da caixa de som mais próxima como uma navalha enferrujada. A detetive enfiou a mão no bolso interno do casaco e sacou o distintivo de prata, exibindo-o e guardando-o rápido demais para que qualquer outro aluno pudesse ler, mas o suficiente para calar a garota rica. — Nós podemos fazer isso de dois jeitos muito simples, Ivy. Ou eu pego o rádio, ligo para a central, mando descer seis viaturas da tropa de choque, ligo as sirenes e acabo com essa sua festinha de mau gosto em exatos cinco minutos... ou nós três vamos para um canto limpo e silencioso, e você me conta exatamente o que os seus olhos viram sobre a defunta Yuki hoje de manhã. A escolha é toda sua.

Ivy engoliu em seco. O pomo-de-adão marcou sua garganta fina. O verniz de garota popular, rica e intocável rachou em mil pedaços diante da ameaça real.

— O escritório do meu tio. Fica no segundo andar — ela murmurou, a voz desafinando. Ela largou a taça na bandeja de um garçom assustado que passava e começou a guiar as duas policiais às pressas para longe da pista de dança.

Naquele mesmo instante, nenhum deles notou que as imensas portas duplas da mansão haviam se aberto mais uma vez, engolindo a tempestade. Se Satan e Rum traziam o peso da lei da cidade, quem acabara de pisar no tapete de entrada, limpando as solas dos sapatos, trazia o julgamento final.

Dante parou sob o arco do hall principal.

A estética de "motoqueiro misterioso, rebelde e emburrado" que ele havia ostentado no seu primeiro dia de aula havia sido completamente estripada e descartada. Aquela jaqueta de couro surrada e a atitude displicente de adolescente problemático já tinham cumprido seu propósito tático à perfeição: ser um letreiro de neon ambulante. Uma isca espalhafatosa desenhada especificamente para atrair os olhares críticos, a atenção dos fofoqueiros e a paranoia de todo o Conselho Estudantil. Ele havia sido a distração perfeita, dando a Ludmilla e Maysa o passe livre e o ponto cego absoluto para operarem, executarem alvos e limparem o sangue na cidade sem serem minimamente notadas. O "bad boy" babaca era apenas um figurino de infiltração.

Agora, livre do teatro escolar, o guarda-roupa de Dante refletia o seu nível de ameaça real. Ele vestia um terno preto de alfaiataria fina, de corte italiano e caimento impecável. A gravata escura estava perfeitamente alinhada sobre a camisa social abotoada até o pescoço, e um chapéu fedora clássico de aba curta estava inclinado milimetricamente sobre os olhos bicolores. A combinação exalava a aura letal e atemporal de um executor da máfia dos anos vinte.

Na mão direita, enluvada, ele carregava uma maleta de metal fosco, espessa, riscada e lacrada com travas de segurança biométricas reforçadas. O objeto não parecia guardar cadernos universitários ou livros de história; pelo peso e pela postura de seu ombro, a maleta parecia esconder artilharia tática pesada, explosivos ou ferramentas de desmembramento.

O forasteiro soltou um suspiro longo, enfiando a mão livre no bolso da calça de lã fria e ajeitando a aba do chapéu com o polegar. A batida estrondosa, repetitiva e aguda do remix de música eletrônica bateu contra seus tímpanos, irritando-o profundamente. Ele tinha a paciência curtida e violenta de um velho ranzinza presa na casca do corpo de um garoto, e ter que lidar com adolescentes pulando e suando fora do ritmo era, inegavelmente, o seu limite moral.

Aos pouco, a rodinha de alunos mais próxima começou a notar a presença bizarra no hall. Adolescentes embriagados, com copos vermelhos de plástico, foram parando de dançar; os sorrisos derretendo, os olhos semicerrados encarando o garoto de terno funerário, fedora e maleta de metal entrando na rave como um "coveiro VIP".

Dante ignorou o choque coletivo com um cinismo magistral e arrogante. Ele deu dois passos para frente e um jogador do time de futebol americano, com os ombros largos e o cérebro afogado em vodca, bloqueou seu caminho por acidente, de boca escancarada e olhos vidrados. Dante não parou. Ele apenas abriu um sorriso — um sorriso fino, frio, milimetricamente desenhado e carregado de um sarcasmo tão cortante que quase sangrava —, tocou a aba do chapéu com os dois dedos em um cumprimento polido, irônico e mortal, empurrou o braço do garoto suavemente para o lado usando o canto duro da maleta e continuou caminhando em linha reta.

Seus olhos bicolores, afiados como bisturis, varriam o salão principal por baixo da aba do chapéu. Ele ignorou sumariamente o bolo gigante neon, os lasers piscantes e o decote das garotas. Ele não estava ali para investigar adolescentes hormonais. Ele estava farejando distintivos de polícia.

Lá no alto, oculto nas sombras profundas do mezanino, o teatro noir do forasteiro não passou despercebido. Teth apoiou as duas mãos espalmadas no parapeito de vidro grosso, com os nós dos dedos brancos. Seus olhos semicerrados e analíticos acompanhavam a trajetória linear de Dante, que cortava a multidão colorida como uma faca quente deslizando por um bloco de manteiga.

— Olhe atentamente para ele — Teth murmurou. A voz do irmão não tinha raiva, oscilação ou surpresa. Possuía apenas a frieza aterrorizante de um supercomputador processando pacotes de dados incriminatórios em tempo real.

Vav, ao seu lado, seguiu a linha reta do olhar do irmão e travou o maxilar com tanta força que um estalo seco ecoou. — O novato babaca... Por que diabos ele está vestido como um assassino de aluguel em um filme ruim dos anos oitenta?

— Calcule as variáveis estatísticas e a cronologia, Vav — Teth instruiu, com o cérebro trabalhando em hipervelocidade, decodificando a cena. — Esse garoto não é daqui. Não pertence ao ecossistema. Ele cai de paraquedas nesta cidade, vindo do nada, exatamente no mesmo dia em que o pneu da Laeticia é rasgado e ela é morta. Na manhã seguinte, ele marca presença no cemitério para assistir de camarote ao enterro de duas garotas que ele supostamente nunca tinha visto na vida. E agora, menos de doze horas depois, ele entra pela porta da frente da mansão de um magnata morto, ignorando a festa, vestindo um terno tático e carregando uma maleta de metal pesada.

O sangue de Vav ferveu nas veias, a temperatura de seu corpo subindo instantaneamente. A dor excruciante do luto, que antes a paralisava na garagem, agora tinha um alvo. Um alvo físico, palpável, arrogante, elegante e terrivelmente cínico, desfilando com uma maleta bem debaixo do seu nariz. Ela estalou os nós dos dedos de forma ruidosa, o pescoço estalando enquanto os músculos de seus ombros tensionavam sob a jaqueta de couro como molas grossas prestes a arrebentar o aço.

— Era tudo o que eu precisava... — Vav rosnou. A voz saiu como o grunhido de um pitbull solto da coleira. Ela deu um passo duro e pesado em direção à escadaria espiralada que descia para a pista de dança. — Eu vou descer lá. Vou pegar aquela maletinha metida a besta dele e vou afundar os dentes perfeitos desse forasteiro no metal dela até ele cuspir o que fez com a cabeça da Let.

A mão de Teth disparou no ar como uma garra de aço maciço. O irmão agarrou o pulso de Vav e a travou violentamente no lugar, com uma força de aperto absurdamente inabalável para alguém de postura tão polida.

— Não — Teth ordenou. A voz era baixa, macia, mas possuía a densidade do chumbo. Ele sequer virou o pescoço para a irmã; não tirou os olhos, nem por um milissegundo, da aba do fedora escuro de Dante varrendo o andar de baixo. — Nós não agimos por impulso animal. Agir fisicamente agora, no meio de trezentos alunos filmando com celulares, apenas destruiria a nossa única janela limpa de observação e faria dele a vítima agredida da história. A polícia o protegeria de você.

Vav tentou puxar o braço com brutalidade, os dentes trincados de raiva, mas Teth não cedeu um único milímetro. Era como tentar soltar o braço de um torno mecânico.

— Você mesmo disse que queria fazer alguma coisa de verdade a respeito, Teth! Lembra?! Ele está bem ali embaixo! — ela sibilou venenosa, o rosto próximo ao dele.

— E nós vamos fazer — Teth respondeu, soltando o pulso avermelhado da irmã devagar, dedo por dedo. O olhar bicolor dele, cravado no forasteiro, brilhava agora com a letalidade muda de um predador de topo de cadeia alimentar. Um caçador dotado de paciência infinita. — Deixe que ele se mova na teia primeiro. Se ele veio vestido assim, trazendo equipamento e procurando um alvo, ele mesmo vai abrir uma brecha no sistema de segurança da casa. Ele vai nos guiar até o esgoto. E quando ele confirmar a nossa teoria... aí sim, nós o abatemos.

Parte 3

O segundo andar da Mansão Sterling era um labirinto sufocante de corredores largos, forrados com tapetes persas grossos o suficiente para engolir o som de uma tropa marchando. Mas o instinto de Dante para rastrear segredos sujos era infinitamente melhor do que qualquer GPS.

Ele caminhava sem pressa, mascando um chiclete de menta em um ritmo lento e metódico. Seus olhos bicolores varriam a arquitetura do corredor, procurando a assinatura de isolamento acústico. Se a polícia queria "conversar" com a herdeira do império Sterling no meio de uma rave, eles procurariam a porta com a maior capacidade de supressão de som possível.

Ele parou a poucos metros de uma imponente porta dupla de carvalho maciço — o antigo escritório do magnata. Dante encostou a orelha na madeira espessa. Nada. O isolamento era perfeito. Ele, então, abaixou o olhar para o rodapé. Em todas as outras portas do corredor, a fina camada de poeira e os confeitos de festa atirados pelos alunos permaneciam intocados. Ali, no entanto, o pó estava varrido em dois arcos perfeitos, indicando que a pesada porta havia sido aberta e fechada há pouquíssimos minutos.

Bingo.

Do outro lado daquela barreira de carvalho, o clima era de execução. A voz da Detetive Rum soava afiada como uma navalha de barbeiro, encurralando a mente em pânico de Ivy contra a parede.

— ...Nós entendemos perfeitamente que o luto prega peças na mente, Ivy. Mas espalhar que viu uma aluna que está no necrotério caminhando vivinha pelos corredores causa histeria coletiva. E nós odiamos histeria. Você tem certeza de que não foi apenas uma sombra? Uma garota parecida? Seria uma verdadeira tragédia se um boato tão maldoso acabasse resultando na sua... expulsão. Ou em algo muito pior.

Ivy engoliu em seco, afundando na cadeira de couro de seu falecido tio. — Tá, mas se foi só histeria, por que duas detetives experientes estariam na minha casa me interrogando com as portas trancadas? Sinceramente, esse tipo de coação não ajuda muito o lado de vocês.

Nas sombras atrás da cadeira de Ivy, Satan se moveu. A gigante não disse uma palavra, mas o som plástico e seco de uma seringa sendo destampada preencheu a sala. Ela bateu a ponta da agulha com o dedo indicador, expulsando uma gota de um líquido transparente.

Rum observou o movimento da parceira com o olho bom, mantendo a postura intimidadora para tentar extrair a informação antes que a violência química fosse necessária. — Somos uma cidade pequena e zelamos pela segurança de todos. Mas, caso haja um mísero por cento de verdade nessa sua história alucinada, existe a possibilidade de que o assassino tenha uma forma de invadir a escola. E se for isso, precisamos de informações limpas. Imediatamente.

Mas era uma mentira. Elas não estavam ali para investigar uma sósia; estavam ali para realizar uma lavagem cerebral. Se Ivy não recuasse da história da "Yuki viva" e não engolisse a mentira oficial do ataque de animal, a agulha de Satan a silenciaria para sempre.

Do lado de fora, Dante precisava de um disfarce sonoro para a invasão. Ele caminhou silenciosamente de volta à beirada do mezanino, espiando a estrutura de acrílico da mesa do DJ, que ficava em uma plataforma elevada quase no nível do segundo andar. O rapaz dos fones de ouvido estava completamente distraído, virado de costas, flertando com duas garotas que dançavam na plataforma.

Com um sorriso letal desenhando os lábios, Dante se debruçou sutilmente sobre o parapeito de vidro. Ele esticou o braço comprido e seus dedos enluvados encontraram o fader do controle mestre da mesa de som. Sem a menor cerimônia, ele empurrou o botão de graves para o limite máximo.

A queda do bass atingiu a estrutura da mansão como um terremoto de magnitude sete. As enormes janelas de cristal tremeram violentamente nos caixilhos de chumbo. Lá embaixo, a multidão foi ao delírio, gritando extasiada, achando que era o ápice planejado do show. A vibração ensurdecedora engoliu o mundo, transformando o piso em um alto-falante vibratório capaz de abafar a explosão de uma granada.

Snap.

A bolha de chiclete estourou nos lábios de Dante. O som molhado e seco destoou do caos vibratório. O sorriso dele agora não era de diversão; era a satisfação ártica de quem já havia calculado todos os movimentos no tabuleiro.

Ele ajustou a postura do terno, rolando os ombros. A mão direita deslizou com intimidade pela alça da maleta tática de metal fosco, testando o peso bruto e o centro de gravidade do objeto como um espadachim veterano reconhecendo o balanço de sua lâmina. Caminhou de volta até a pesada porta de carvalho. Seus sapatos pareciam flutuar sobre o tapete.

Com os nós dos dedos da mão livre, ele bateu na madeira.

Toc. Toc. Toc. Um compasso duro, rítmico e imperativo. Calculado com a força exata para perfurar o bloqueio acústico e ser ouvido lá dentro.

Sem esperar um milissegundo sequer, Dante recuou. Ele deslizou pelo corredor com a fluidez fantasmagórica de um predador, flanqueando o próprio campo de visão e infiltrando-se na pequena sala de leitura adjacente. Ele deixou a porta entreaberta — uma isca perfeita de cinco centímetros. Fundiu-se às sombras no ponto cego atrás do batente, a respiração nivelada a zero, os músculos da panturrilha e das costas tensionados como as engrenagens de uma armadilha de urso.

Um segundo depois, a maçaneta de latão do escritório girou bruscamente. A porta de carvalho escancarou-se com a fúria de um chute, vomitando a barreira de som frenético da rave de volta para dentro do escritório.

Satan preencheu o batente. A gigante exalava uma impaciência homicida, seus ombros imensos bloqueando quase toda a luz que vinha de dentro. Sua carranca varreu o corredor deserto como um holofote militar procurando um atirador.

— Mas que palhaçada é essa...? — A voz dela soou como o rosnado de um motor a diesel. Suas botas bateram pesado no piso de madeira conforme ela dava dois passos para fora.

Lá de dentro, a voz de Rum cortou o ar, tensa, focada em não perder o controle do interrogatório de Ivy, que agora suava frio. — A música está estourando, fecha essa porta logo, Satan! — Rum gritou por cima dos graves tremidos. — Se está tão curiosa, dá uma vasculhada no corredor e volta para cá agora!

— ...Tá certo — Satan bufou, irritada.

A policial esticou o braço largo, recuou e bateu a porta de carvalho. O clique da fechadura atuou como um vácuo.

Satan girou o pescoço grosso. O olhar dela travou instantaneamente na fresta negra da porta entreaberta da sala adjacente. Sem hesitar, ela empurrou a madeira com a palma da mão e entrou no escuro, exibindo a postura arrogante de um carniceiro que subestima completamente o abatedouro.

Foi seu último e mais fatal erro.

Dante não apenas atacou. Assim que a linha de visão lateral de Satan cruzou o batente, passando direto por ele, o forasteiro pivotou sobre o calcanhar do sapato italiano, saindo do ponto cego. Em um único e devastador movimento coreografado, ele cravou o pé esquerdo no chão para gerar torque máximo e girou a cintura e os ombros de uma só vez.

Ele não usou a força inútil dos braços. Usou a rotação de todo o seu peso corporal para transformar os vinte quilos da maleta tática de metal em um pêndulo cinético brutal.

CRACK!

Não foi um baque surdo. Foi um estampido ósseo seco e nauseante. A quina de aço temperado da maleta colidiu com uma precisão matemática e absoluta contra a junção exata da base da nuca de Satan, desligando o disjuntor mestre de seu tronco cerebral. A anatomia é uma ciência fria que não respeita esteroides, tamanho ou intimidação. A gigantesca energia do impacto dissipou-se em um flash pelo crânio da policial.

Os olhos de Satan viraram completamente para trás antes mesmo que seus lobos frontais tivessem tempo biológico de processar o sinal de dor. Não houve nenhum grito. Nenhum gemido de surpresa. O sistema nervoso central dela entrou em reboot forçado. A montanha de músculos colapsou, perdendo cem por cento da tensão de uma só vez, desmoronando no ar como uma estátua dinamitada.

Antes que o corpo de cem quilos atingisse o chão e fizesse barulho, Dante abaixou-se com a agilidade de um felino, enfiando o joelho sob o peito dela. Ele amorteceu a queda monstruosa contra a própria perna, deitando a gigante de rosto no tapete macio com um baque abafado e quase inaudível.

Respirando calmamente, Dante reajustou a empunhadura na alça da maleta. O sorriso afiado continuava em seu rosto. Com a mão esquerda, que agora estava livre, ele desabotoou o coldre tático da cintura de Satan com um clique rápido. O revólver de serviço, pesado, gélido e carregado, escorregou perfeitamente para a palma de sua mão, como se tivesse sido forjado para ele.

Dentro da sala de carvalho, o tempo parecia congelado. Rum estava de costas para a porta, os braços cruzados, encarando uma Ivy trêmula que suava frio na cadeira do escritório.

A impaciência da detetive borbulhou. — Fecha logo essa porta e diz para esses adolescentes drogados abaixarem a música, Satan. Minha cabeça já está...

Rum parou no meio da frase. Os pelos de sua nuca eriçaram. O instinto forjado em anos de sobrevivência policial apitou como uma sirene de ataque aéreo. Ela girou violentamente sobre os calcanhares, a mão disparando como um bote de cobra na direção do próprio coldre.

— Eu definitivamente não faria isso se fosse você, detetive.

Dante estava lá dentro. Encostado de forma relaxada, quase preguiçosa, contra a porta do escritório que ele mesmo acabara de fechar e trancar. Com a mão esquerda, ele puxava charmosamente a aba do chapéu fedora dois centímetros para cima, revelando a frieza letal de seus olhos bicolores. Na mão direita, apontada na altura do ombro com uma firmeza escultural, o revólver roubado de Satan mirava diretamente para o centro exato da testa de Rum.

A detetive congelou no ato. Os dedos dela pairaram a centímetros do cabo da própria arma. O olho bom arregalou-se, o cérebro falhando em processar como o garoto-problema havia derrubado sua parceira brutal em trinta segundos e entrado na sala sem fazer um ruído sequer.

Ivy, encolhida na poltrona, finalmente processou a invasão do "assassino" engravatado. O pânico de quem já estava sendo coagida estourou em seu peito, virando histeria. A garota abriu a boca, os olhos lacrimejando, puxando todo o oxigênio que seus pulmões aguentavam para soltar um grito de socorro que rasgaria as próprias cordas vocais.

Dante revirou os olhos com puro tédio. — Se eu fosse você, eu também não faria isso. — Ele nem sequer olhou para Ivy, mantendo a mira travada no crânio de Rum. — Você sabe bem que essas portas são perfeitamente à prova de som. Um grito seu não vai passar das cortinas. E, sendo muito honesto, gritar não costuma ser uma atitude inteligente quando se está trancada num cubo com um homem visivelmente armado.

Ivy fechou a boca com tamanha força que os dentes estalaram. Ela esmagou as próprias mãos contra os lábios, trêmula, engolindo o som. Zero gritos. Zero complicações.

— Muito bem. Excelente senso de autopreservação — Dante suspirou, o tom elogiando um cachorro adestrado. — Agora, detetive... Com dois dedinhos, puxe a sua arma do coldre, coloque-a no chão de mogno e chute para cá. Devagar, ou eu abro um terceiro olho na sua cabeça.

Rum mastigou a raiva. Avaliando o cálculo puramente psicopata e vazio nos olhos bicolores daquele garoto engravatado, ela soube que ele não hesitaria em apertar o gatilho. Com movimentos lentos e milimétricos, ela obedeceu. O revólver dela deslizou patinando pelo assoalho de madeira lustrada até bater com um toque suave contra o sapato social de Dante.

Cinco minutos depois, o cenário de poder no suntuoso escritório havia sido invertido com uma dominação absoluta.

A música eletrônica continuava estourando os graves lá fora, uma festa alheia ao próprio abismo. Mas lá dentro, o interrogatório oficial havia se metamorfoseado em uma tomada de reféns de alto risco.

Dante manteve a mira estável enquanto coagiu a furiosa Detetive Rum a amarrar Ivy com fitas de fixação espessas, para garantir que a herdeira assustada não fizesse nenhuma bobagem. Logo depois, foi a vez de Rum ser forçada a sentar-se em uma cadeira de espaldar alto, onde Dante a prendeu com nós táticos e imobilizadores rápidos. Por último, com a facilidade assustadora de quem arrasta sacos de lixo, ele trouxe o corpo pesado e ainda totalmente inconsciente de Satan da outra sala, largando a policial jogada no canto do escritório.

No meio do processo, Dante precisou abrir as travas de segurança de sua maleta de metal fosco para pegar um rolo de fita reforçada. Os olhos de Ivy e Rum espiaram o interior estofado por um segundo crítico. O pânico de Ivy quase a fez desmaiar ao ver o brilho de uma machadinha militar afiada presa no forro, ao lado de outras lâminas e dispositivos não identificados.

Dante percebeu o olhar arregalado da garota. Ele fechou a maleta com um clique seco e sorriu de canto. — Relaxa, princesa. Aquilo ali é para um tipo de situação bem diferente. Muito mais suja.

Com os alvos contidos e desarmados, Dante puxou a cadeira de couro master do magnata e a arrastou para o centro da sala, de frente para as reféns. Ele sentou-se, de pernas relaxadamente abertas, apoiando os cotovelos sobre os joelhos com a postura de um rei em seu trono roubado. Ele largou o revólver de Satan sobre a mesa de Mamon, deixando a arma ao alcance de sua mão, mas desnecessária por agora.

Ele ergueu o rosto, empurrando a aba do chapéu com o cano da própria arma, e abriu o mesmo sorriso irônico de quem acabou de assumir o controle absoluto do tabuleiro de xadrez.

— Boa noite de verdade, detetive — Dante disse, a voz casual, limpa e polida, como se tivessem acabado de pedir o cardápio em um café parisiense. — Peço desculpas sinceras pela minha entrada indelicada e por estragar a sua festinha de coação... Mas acho que, a partir de agora, eu vou ter que pegar o comando dessa sua cena de interrogatório para mim.

Parte 4

O espaçoso escritório de mogno mergulhou em um silêncio espesso e carregado de eletricidade estática. O isolamento acústico criava um contraste bizarro e claustrofóbico com a vibração ensurdecedora dos graves da rave, que faziam o assoalho de madeira de lei tremer de forma contínua sob os sapatos deles.

Dante girou o tambor do pesado revólver roubado com um clique metálico e seco que soou alto na sala. Ele relaxou as costas contra o encosto da cadeira do magnata, cruzou as pernas e cravou as íris bicolores diretamente na Detetive Rum.

— Vamos pular a burocracia e as formalidades táticas — Dante começou. A voz dele era polida, macia e mortalmente entediada. — O que vocês duas vieram arrancar à força da cabecinha oca da patricinha?

Rum apertou os lábios em uma linha fina, branca e obstinada. O único olho bom da detetive fuzilou o forasteiro com o ódio concentrado de mil sóis, mas ela não abriu a boca. A lealdade policial, ou o terror absoluto do que a Diretora Irene faria com ela, a mantinha selada.

Dante soltou um suspiro curto pelo nariz, ajeitando a aba do fedora. Ele não insistiu. Sem mudar a postura relaxada, moveu o pulso lentamente, arrastando o cano escuro da arma alguns centímetros para a esquerda até alinhar a mira com o rosto de Ivy.

A herdeira, que não possuía nenhum treinamento tático, interrogatório militar ou lealdade cega a ninguém além de si mesma, desmoronou e cedeu em uma fração de segundo.

— A YUKI! — Ivy cuspiu a palavra em um guincho agudo e estrangulado. Lágrimas de puro terror transbordaram, borrando a maquiagem cara e manchando suas bochechas de preto. — Elas vieram saber o que eu vi da Yuki de manhã!

Dante franziu a testa, os músculos do rosto repuxando em uma genuína confusão por um milésimo de segundo. — A Yuki? A garota que foi enterrada e coberta de terra hoje cedo? Por que a polícia estaria coagindo e interrogando você sobre um cadáver esmagado?

— Era exatamente isso que eu queria saber! — Ivy soluçou de forma histérica, tremendo tanto que a cadeira de couro rangeu. — Se ela estava ou não morta na droga do caixão! Porque eu a vi andando vivinha pelos corredores hoje!

As engrenagens frias e lógicas no cérebro de Dante giraram e se encaixaram com um estalo violento. Ele piscou lentamente, absorvendo a magnitude da informação. O que antes parecia ser um assassino em série sádico solto no campus de Morpheus, de repente, revelou-se algo infinitamente mais complexo e podre.

— Entendi... — Dante murmurou, com um sorriso sombrio, quase admirado com a audácia, curvando seus lábios. — Eles não apenas encobriram o corpo dela em um caixão fechado. Eles a transformaram.

Rum trincou os dentes, os músculos da mandíbula saltando, finalmente quebrando o silêncio com um rosnado defensivo. — Não venha bancar a porra do moralista justo agora, seu bastardo. Eu não vou aceitar julgamento das mesmas pessoas que rasgaram a garganta e a mataram para começo de conversa!

Dante ergueu uma sobrancelha, o cinismo intacto e a voz nivelada. — Eu não faço a menor, a mais remota ideia do que você está falando, caolha. Não fomos nós que matamos a garota trancada no prédio de manutenção.

A expressão dura de Rum vacilou no ato. Uma rachadura visível de dúvida e choque perfurou a certeza cega da detetive.

Ivy, com os olhos arregalados, olhava histericamente de um para o outro, balançando a cabeça presa nas cordas. — Transformaram?! Quem são "eles"?! O que eles fizeram com a Yuki?! Que papo doente de vampiro é esse que vocês estão...

— Escuta aqui, princesa — Dante a cortou abruptamente. A voz dele caiu para um timbre tão gélido, áspero e autoritário que fez Ivy engolir em seco instantaneamente. Ele ergueu o braço e apontou o cano negro do revólver diretamente para o meio dos olhos dela, a meio metro de distância. — Eu vou explicar a situação uma única vez. E você vai parar de interromper os adultos. Você só vai abrir a boca quando for expressamente chamada. Se você der um grito, se chorar alto ou se me atrapalhar de novo, eu juro pelo que há de mais sagrado que espalho os seus miolos coloridos por todo esse tapete persa. Fui claro?

Ivy assentiu de forma frenética e espasmódica, os olhos arregalados de pavor, os dentes cravados nos próprios lábios até quase sangrarem para conter os soluços.

Dante abaixou a arma lentamente, pousando-a sobre o joelho, e encostou-se de volta no couro macio da cadeira. — Muito bem. Boa garota. — Ele girou o pescoço e cravou o olhar gélido em Rum. — Basicamente, para a leiga aqui entender, há dois lados nesta guerra. Os Caçadores, de onde eu e as minhas parceiras viemos, e o lado da escória. O lado dos "vampiros".

Ivy arfou baixinho, prendendo a respiração. A Detetive Rum... era uma vampira?

Dante percebeu o olhar aterrorizado e idiota da garota na mesma hora. — Não seja imbecil, Ivy. Ela é pior do que isso. Ela é humana. É uma das engrenagens do governo que estão produzindo e os acobertando. E presta atenção: isso aqui não é uma história romântica de conto de fadas onde o Conde Drácula é sedutor ou brilha no sol. Nós os chamamos de "vampiros" nas ruas apenas para dar um nome fácil. Na prática, eles estão muito mais para um bando de zumbis irracionais, aberrações trazidas de volta à vida por um vírus ou alquimia suja, e que precisam beber sangue compulsivamente para continuar se movendo antes que os órgãos comecem a apodrecer.

A respiração de Rum ficou incrivelmente rasa, o peito subindo em solavancos tensos. — Como um moleque sabe tanto sobre a infraestrutura e a biologia disso?

— Porque os "bichinhos de estimação" que vocês, por pura e patética incompetência, deixam escapar das fronteiras limpas desta cidade fazem muita confusão lá fora, no mundo real — Dante respondeu com desdém puro, a voz destilando nojo. — Dezenas de corpos drenados e ressecados nas rodovias e cidades vizinhas. Casos isolados que a mídia ignora. Nós fomos chamados. Derrubamos os fugitivos, queimamos os corpos e rastreamos a trilha de lixo de volta para a fonte. Foi só uma questão de tempo e matemática até percebermos a anomalia na conexão geomagnética que levava direto ao epicentro desta bolha de ilusão utópica que vocês chamam de Morpheus.

Rum apertou as mãos suadas e amarradas no próprio colo, os nós dos dedos brancos. — Então foi assim que vocês nos acharam e chegaram aqui.

— Eu já te dei respostas educadas demais para quem está amarrada. Agora, é a minha vez de cobrar a fatura. — Dante bateu o cano de metal da arma com força na mesa de madeira de Mamon. Um aviso claro. A paciência encenada dele havia zerado. — Nós investigamos a fundo. Sabemos com certeza absoluta que esses parasitas estão diretamente ligados a esta faculdade. Um número absurdo e estatisticamente impossível deles tem conexão de laboratório com os prédios desta instituição. Além disso, vocês, a polícia local e aquela Diretora Irene fazem um número bizarramente anormal de reuniões a portas trancadas para a cúpula de uma simples universidade. E agora, descubro no susto que vocês rodam a madrugada coagindo e silenciando alunas ricas que viram mortos caminhando no campus. Vocês não estão apenas acobertando acidentes, Rum. Vocês estão acobertando uma maldita fábrica de monstros.

Um gemido rouco, grave e doloroso interrompeu o interrogatório tenso.

No canto mais escuro da sala, a montanha de músculos chamada Satan começava a recobrar a consciência. A gigante piscou grogue, com as pálpebras pesadas. Balançou a cabeça enorme, rosnando baixo para espantar a concussão e a visão dupla, antes de tentar erguer os braços e perceber, com um solavanco, que estava rigidamente amarrada e imobilizada na poltrona do canto.

Ela ergueu o rosto inchado e manchado de sangue. Quando focou a visão e encontrou Dante — um garoto de dezenove anos, de terno e chapéu, sentado confortavelmente na cadeira de couro de pernas cruzadas —, a surpresa e a fúria inicial de Satan deram lugar a um riso rasgado, úmido e gorgolejante.

— Hah... Hahaha... — Satan tossiu violentamente, cuspindo um coágulo espesso de sangue no tapete persa impecável. Ela olhou para o garoto de fedora com puro, ácido e genuíno desdém. — É sério isso? Um moleque prepotente? Você acha que é o quê, seu pirralho de merda? Um adolescente revoltado com síndrome de herói tentando salvar o mundo dos monstros malvados dos quadrinhos?

Dante não alterou um milímetro de sua postura relaxada. Ele sequer piscou. Apenas virou o rosto e a encarou com a mesma indiferença gélida de quem olha para um inseto rastejando dentro de um pote de vidro.

— Nessa guerra, você não passa de um inseto, projeto de herói — Satan rosnou. O sotaque pesado engrossou a ameaça, preenchendo a sala. — É melhor você soltar as nossas cordas, entregar essa arma de volta e sair correndo pela porta dos fundos enquanto ainda tem pernas presas ao corpo. Liberte a gente agora... ou será tarde demais para todo mundo em um raio de dez quilômetros.

Dante estreitou os olhos bicolores. A frase não soou como um blefe vazio e desesperado de um refém. Havia uma confiança kamikaze e doentia brilhando no fundo do olhar da gigante.

Movido por um instinto puramente tático, ele se levantou da cadeira de couro em um pulo fluido. Caminhou a passos rápidos até ela e agarrou com brutalidade a mão direita de Satan, que estava estranhamente curvada e escondida entre as voltas das cordas grossas.

Enfiado e protegido na palma calejada da policial, havia um pequeno dispositivo cilíndrico de metal escuro. No topo dele, um LED vermelho piscava em um ritmo frenético e silencioso, como um coração em taquicardia.

— O que é isso? — Dante exigiu. A polidez cínica e o sotaque de mafioso evaporaram instantaneamente. A voz dele tornou-se aço puro, letal e inegociável.

Satan abreu um sorriso grotesco, mostrando os dentes manchados de vermelho-escuro. Ela não respondeu. Apenas cerrou a boca com força, o olhar transbordando fanatismo.

Dante largou a mão dela, girou sobre os calcanhares polidos e marchou direto até Rum. Agarrou a gola da camisa da detetive com a mão livre, puxando-a com violência para frente. — O que ela ativou?!

Rum ignorou a arma de Dante e olhou por cima do ombro dele, cravando os olhos na mão amarrada de Satan. O único olho bom da detetive arregalou-se em puro horror; as pupilas dilataram no limite. Ela perdeu toda a cor do rosto em um segundo, ficando branca como cal.

— SATAN! — Rum gritou. A compostura tática de detetive evaporou, a voz falhando e rasgando em pânico absoluto. — Onde é que você está com a cabeça, sua imbecil doente?! Tem quase trezentos adolescentes no salão principal lá embaixo! A droga da metade da faculdade está nessa festa! Eles vão ser todos pegos no meio disso!

Satan jogou a cabeça para trás e riu novamente. Um som insano, fanático e devoto que arrepiou os pelos dos braços de Ivy. — Danem-se esses moleques inúteis! Danem-se todos eles! Nós vamos dizer para o conselho superior de Irene que foi um ataque terrorista covarde, planejado milimetricamente pelo assassino da Laeticia e pela facção maldita dele! E todo mundo vai acreditar na polícia oficial! É mil vezes mais honroso e estratégico limpar a mansão inteira com fogo purificador do que passar uma única informação tática para esse engravatado de merda e depois sermos mortas por ele!

— Você é louca! Isso não é o protocolo de evacuação! — Rum gritou a plenos pulmões, tentando inutilmente se debater contra as cordas de fixação para soltar os braços. — Isso não é uma decisão tática para você tomar e ativar sozinha, sua psicopata!

Dante deu um passo lento para trás, soltando a gola amassada da detetive.

O cinismo arrogante, a postura de adolescente brincalhão e as ameaças verbais simplesmente evaporaram do corpo do garoto. A frieza executiva e predatória de um soldado em guerra assumiu o controle total, absoluto e cego de sua expressão e de seus músculos.

Ele ergueu o braço que segurava o revólver roubado e, com um movimento letal e preciso do polegar, engatilhou a arma pesada. Click.

Deu um passo à frente e pressionou o cano frio de aço diretamente contra a têmpora suada de Rum, empurrando a cabeça da detetive levemente para o lado. — Chega de teatro. O meu tempo acabou. Fale de uma vez, ou eu juro por tudo que é remotamente sagrado neste mundo que explodo a sua cabeça agora mesmo e vou lá embaixo descobrir sozinho. O que ela ativou, Rum?

Rum vacilou. A respiração dela estava errática. O suor frio escorria livremente pelas têmporas, caindo nos olhos da detetive. Ela olhou de canto para a arma colada em seu crânio, olhou para Ivy, que chorava encolhida, e olhou desesperada para a porta de mogno.

— Não abra o bico para ele, Rum! — Satan gritou do fundo da sala, a voz rouca por causa do sangue na garganta, rindo de forma histérica e desafiadora. — Você não precisa se preocupar com ele! Olha bem para a cara dele, Rum! Ele é só mais um justiceirozinho adolescente metido em um terno caro, querendo brincar de salvar pessoas! Ele não vai matar ninguém a sangue-frio enquanto você estiver desarmada e amarrada! Ele não tem a coragem ou o estômago para isso! É exatamente por isso que ele se deu ao trabalho de amordaçar a gente em vez de descer uma bala nas nossas cabeças no milissegundo em que invadiu a sala! Ele precisava de apenas uma refém viva para interrogatório, e manteve três respirando! Ele é fraco! Ele é mole!

A risada estrondosa e insana da gigante preencheu toda a sala, ecoando pelas paredes como uma malvição venenosa, alimentando e validando a hesitação desesperada de Rum em falar.

Dante fechou os olhos bicolores por meio segundo. Ele respirou fundo e devagar pelo nariz, enchendo os pulmões de oxigênio. A batida surda do remix de música eletrônica vibrava incessantemente no assoalho, subindo pelas solas de seus sapatos como a batida de um coração artificial gigante.

Ele abriu os olhos.

O azul e o vermelho de suas íris estavam tão vazios, tão glaciais e tão absolutamente destituídos de qualquer traço de humanidade, hesitação ou adolescência, que a Detetive Rum sentiu o próprio estômago despencar e congelar. Era o olhar de um abismo que olhava de volta.

— Sabe de uma coisa, brutamontes? — Dante sussurrou. A voz dele era macia. Quase gentil. Letalmente calma. — Você tem absoluta razão na sua matemática. Eu só preciso de uma refém viva.

Dante não mudou a postura do corpo. Ele não girou o tronco inteiro para mirar. Mantendo o corpo voltado para Rum, e movendo única e exclusivamente a articulação do pulso e o antebraço — com a fluidez, a velocidade e o descaso de quem espanta uma mosca do ombro —, apontou o revólver para o canto escuro da sala.

BANG!

O estrondo ensurdecedor do disparo de grosso calibre rasgou a acústica perfeitamente isolada do escritório, fazendo os tímpanos de Ivy e Rum zumbirem instantaneamente. O cheiro denso e acre de pólvora queimada inundou o oxigênio restrito do cômodo.

A risada arrogante de Satan foi degolada no exato meio de uma sílaba.

A bala pesada perfurou o centro exato da testa da gigante amarrada com a fúria e a força cinética de um trem em alta velocidade. O projétil viajou pelo cérebro, estourou a parte de trás do crânio dela e explodiu contra a parede de carvalho e as pesadas cortinas de veludo em um spray violento, macabro e vermelho de sangue e massa cinzenta espessa.

A cabeça colossal de Satan, agora esburacada, tombou para frente, inerte, desligada e esvaziada de vida. O pequeno dispositivo cilíndrico escorregou levemente, mas o LED vermelho continuou piscando freneticamente na mão morta do cadáver.

Ivy soltou um grito mudo e abafado, engasgando no próprio terror cru. Fechou os olhos com tanta força que doeu, chorando em silêncio; o corpo inteiro tremia de forma tão violenta que a cadeira de couro rangia em um compasso doentio.

Dante nem sequer virou o pescoço para checar a confirmação de abate do corpo que acabara de executar. Sem alterar um único traço do rosto, abaixou o braço esticado devagar e, em um arco limpo e mecânico, voltou a pressionar o cano da arma — que agora estava fervendo e soltando um fio de fumaça cinzenta — diretamente no meio da testa suada da Detetive Rum.

A expressão do forasteiro era um deserto estéril de emoções. A prova irrefutável de que, quem quer que Satan achasse que ele era, ela estava mortalmente enganada.

— Última chance de sobrevivência, Rum — Dante disse. A voz baixa e rasgada cortava o zumbido agudo nos ouvidos das duas mulheres como um bisturi. — Fale logo. O que vai acontecer?

Parte 5

O cheiro ácido, seco e intoxicante de pólvora recém-queimada misturou-se rapidamente ao odor espesso, quente e inconfundivelmente metálico do sangue que agora escorria, em rios grossos, pelos veios do revestimento de carvalho da parede. O corpo estirado e sem vida de Satan jazia inerte no canto, uma montanha de carne inútil desabada sobre o tapete persa. Mas o pequeno LED vermelho, esmagado na palma da mão grossa da gigante morta, continuava a piscar. A luz rubra pulsava em um ritmo frenético, agressivo e quase contínuo, como um coração cibernético em taquicardia.

O silêncio fúnebre do escritório isolado durou apenas alguns segundos.

De repente, rasgando até mesmo a pesada barreira acústica da porta dupla e atropelando o grave ensurdecedor da rave que tremia o assoalho lá embaixo, o som violento do mundo exterior invadiu o segundo andar. Pneus cantaram de forma aguda e desesperada no asfalto molhado da rua em frente à mansão. Screeeech! O guincho de borracha queimada foi instantaneamente seguido por um estrondo metálico massivo de múltiplos carros colidindo e latarias sendo esmagadas em alta velocidade. Gritos longos, distantes e abafados começaram a perfurar a cortina de chuva pesada da noite.

A Detetive Rum, que já estava pálida como cera com o cano fumegante do revólver de Dante ainda pressionado contra o centro exato de sua testa, perdeu o último resquício de cor viva que habitava seu rosto. O olho bom da policial arregalou-se no limite do globo ocular em puro, cru e genuíno terror. O olhar da mulher experiente não estava mais focado no revólver do forasteiro prestes a matá-la; estava cravado, hipnotizado e aterrorizado, no pequeno dispositivo piscando intermitentemente na mão inerte de sua ex-parceira.

— Seu desgraçado cego... você não faz a menor ideia do que acabou de fazer estourando a cabeça dela... — Rum sussurrou. A respiração dela saiu em jorros trêmulos e rasos. Era o pânico absoluto de uma predadora de topo de cadeia que acaba de perceber, da pior forma, que virou a caça encurralada. — Aquele sinal de emergência... é praticamente um botão de autodestruição tática.

Dante não recuou o cano da arma um único milímetro da pele dela. Ele apenas inclinou a cabeça levemente para a direita, os olhos bicolores brilhando com uma curiosidade sádica e fria na penumbra. — Desenvolva o raciocínio, detetive. De preferência rápido, antes que a mola do meu dedo escorregue e você faça companhia a ela no tapete.

— É um farol de Éter projetado em frequência máxima! — Rum cuspiu as palavras desesperadas, a saliva voando enquanto o pânico a fazia lutar e se debater inutilmente contra as fitas de fixação que a prendiam à cadeira. — Ele emite uma onda contínua que atrai violentamente os espécimes! Todos os vampiros famintos e falhos que estão vagando perdidos pela região! E, infinitamente pior do que isso, a alta frequência do sinal frita completamente os receptores neurais e a inibição deles. Deixa todos eles bestiais. Completamente loucos. Em estado crônico de frenesi de sangue!

Mais sons estridentes de vidros de para-brisas estilhaçando ecoaram do lado de fora da mansão, misturados ao alarme de carros. Segundos depois, o som grave e pesado de múltiplos corpos batendo com força sobre-humana contra os grandes portões de ferro forjado dos jardins estremeceu as paredes.

Rum engoliu em seco, com o peito subindo e descendo descontroladamente e o suor frio escorrendo para dentro do colarinho da camisa. — Os vampiros estão aqui. O cerco de segurança está fechado, Dante. Eles vão invadir a mansão em minutos para devorar todo mundo.

Ivy, amarrada na poltrona ao lado, começou a chorar copiosamente, as lágrimas lavando a maquiagem negra pelo rosto enquanto ela soluçava histericamente e tentava se debater como um peixe fora d'água contra as cordas de nylon. Vampiros? Frenesi de sangue? Sinal de atração? A herdeira arrogante finalmente percebeu que sua festa de luxo havia se transformado em um abatedouro, e ela era a peça central.

O instinto primitivo de sobrevivência e proteção de Rum gritou mais alto que a lealdade a qualquer sistema. Ela cravou o olho nos olhos bicolores de Dante, mudando desesperadamente a tática de resistência de um interrogatório para uma negociação de vida ou morte.

— Me solta! — ela implorou, a voz rouca e urgente raspando a garganta. — Se você me desamarrar e me entregar essa arma agora, eu juro que uso a minha autoridade policial! Eu desço lá no salão, ligo o alarme de incêndio, evacuo os adolescentes pelos fundos da propriedade e invento uma desculpa plausível! Um vazamento grave de gás, um ataque terrorista, qualquer coisa! E nós dois escapamos com vida! Eu juro pela minha vida que coopero com você, conto absolutamente tudo o que quiser saber sobre a Diretora Irene e a infraestrutura, mas a gente precisa sair daqui agora!

Dante continuou imóvel, encarando o rosto banhado em suor da detetive por alguns longos e lentos segundos. A batida eletrônica da rave lá embaixo pareceu aumentar de volume e agressividade, estourando os graves, miseravelmente ignorante ao massacre iminente que se aglomerava nas sombras dos jardins da mansão, babando sangue e arranhando o ferro.

Lentamente, Dante abaixou o braço que segurava o revólver fumegante. Ele soltou um riso anasalado, curto, áspero e carregado de um desprezo moral tão abissal que fez Rum paralisar.

— Você quer cooperar? — Dante caminhou de costas em passos lentos até a imensa mesa de mogno de Mamon, encostando a pelve nela. Ele girou o tambor da arma roubada no dedo indicador com a fluidez e a arrogância de um pistoleiro veterano. — Você acha mesmo que eu sou estúpido o suficiente para virar as costas e confiar na palavra de alguém que já vendeu a própria alma pela burocracia há anos?

Rum travou o maxilar, os dentes rangendo de frustração. — Eu estou tentando salvar a nossa pele, seu garoto insolente!

— Não. Você está tentando desesperadamente salvar apenas a sua pele — Dante rebateu. A voz dele era tão cortante, letal e vazia de perdão quanto o fio de uma navalha. — Porque você sabe muito bem a merda colossal que vocês criaram nesses laboratórios. Vocês brincam de Deus fazendo experimentos imundos com adolescentes mortos. Trazem essas pobres almas de volta à vida no meio desse jogo científico doentio e patético, sabendo muito bem, através de laudos que você mesma assina, que o resultado é um cadáver ambulante, sem alma, que só vai vagar eternamente pelas ruas matando pessoas inocentes para se alimentar. Vocês não são cientistas preocupados com o futuro da cidade, Rum. Vocês são os malditos monstros da história. E os seus animaizinhos de estimação acabaram de chegar babando para o jantar que vocês mesmos serviram.

Rum abaixou a cabeça, derrotada pelo peso esmagador da verdade jogada em sua cara sem filtros. Ela fechou o olho bom, os ombros cedendo contra as cordas de fixação. — Eu não tive escolha... — a detetive murmurou para o próprio colo, a voz falhando, embargada por um cansaço moral profundo, enraizado em anos de obediência cega. — Você não entenderia o que está realmente em jogo aqui em Morpheus. A Diretora Irene... ela é... eu simplesmente não tive escolha.

Dante sorriu. Foi um sorriso cínico, largo, perfeitamente alinhado e quase sinceramente divertido. O garoto forasteiro — que carregava cicatrizes na pele e na alma muito piores e muito mais antigas do que os segredinhos burocráticos e sujos de Morpheus — achou aquela desculpa covarde absolutamente hilária.

— É impressionante a constância de vocês. — Dante balançou a cabeça de forma teatral, estalando as vértebras do pescoço de um lado para o outro para soltar a tensão. — Vocês sempre falam exatamente esse mesmo tipo de lixo ensaiado no final. O roteiro de vilão de vocês é muito preguiçoso e genérico. "Eu não tive escolha", "Você não entende o quadro geral", "Fiz isso por um bem maior"... Que preguiça colossal.

Ele virou as costas para a detetive amarrada e voltou sua atenção para a própria maleta de metal fosco, que repousava escancarada sobre a mesa de mogno. Com um clique seco e perfeitamente metálico, ele puxou a arma que havia guardado no forro estofado reforçado.

Uma machadinha militar tática. O cabo era de polímero negro antiderrapante, e a cabeça pesada da lâmina de aço-carbono fosco brilhava perigosamente na meia-luz, revelando um fio de corte assustadoramente curvo e afiado, desenhado para amputações limpas. Ele rodou a machadinha no ar e testou o peso da arma na mão direita, sentindo o equilíbrio perfeito da ferramenta mortal. O terno preto impecável, a gravata estreita milimetricamente alinhada e a machadinha de guerra criavam uma imagem grotesca, dissonante e aterrorizantemente imponente. A encarnação de um abatedor elegante.

Dante caminhou em passos lentos e macios até a porta dupla do escritório, passando por cima da poça de sangue de Satan e pela cadeira de uma Ivy que já hiperventilava, à beira do desmaio clínico. Ele colocou a mão esquerda e limpa na maçaneta de latão, mas, antes de abrir a porta e mergulhar voluntariamente no caos que se formava nos corredores, virou apenas o rosto e os olhos bicolores para Rum.

Apoiou o cabo texturizado da machadinha militar no ombro de seu terno italiano caríssimo com a mesma casualidade fútil de quem carrega um guarda-chuva no parque.

— Fica aí bem sentadinha e calada, detetive. — Dante piscou o olho bicolor esquerdo de forma estupidamente debochada e sádica. — Eu vou lá embaixo resolver essa infestação de praga para não sujar de vermelho o tapete de design da princesinha ali. Fiquem tranquilas. Depois que eu limpar e dedetizar a casa, eu volto, sento confortavelmente naquela cadeira de couro e escuto com toda a calma e empatia do mundo o seu discurso triste e genérico do "eu não tive escolha" enquanto você continua me contando o seu plano de lacaia de vilão e afins. Não saiam daí.

E com um clique suave de destranca, Dante abriu a pesada porta de carvalho e sumiu na escuridão do corredor, engolido pela batida vibrante da rave. Ele havia acabado de deixar as duas reféns trancadas no escritório, no escuro, com um cadáver cujo sangue ainda manchava o tapete, enquanto marchava absolutamente sozinho em direção ao hall para enfrentar um exército inteiro de mortos-vivos sedentos.

Parte 6

Do alto do mezanino escuro, escondida pelas sombras das pesadas cortinas de veludo, Vav apertava o parapeito de vidro com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos como giz. Ela e o irmão haviam visto o suficiente. A pequena fresta da porta do corredor revelara a execução silenciosa e brutal: o forasteiro engravatado não apenas havia entrado no escritório de Mamon, como também apagara Satan — uma montanha de músculos treinada para matar — com um único golpe biomecânico perfeito, arrastando-a para dentro como se fosse um tapete enrolado.

Vav deu um passo duro à frente, com os dentes trincados até a mandíbula doer, pronta para descer a escadaria espiralada e arrombar a porta de carvalho na base do chute. A mão de Teth disparou, agarrando o ombro da irmã com uma força férrea e inegociável.

— Para. Pensa com a cabeça, Vav! — Teth sussurrou. A voz dele estava tensa, urgente, perdendo completamente o tom professoral de antes. — Aquele cara não é um adolescente amador. Ele desarmou e neutralizou a Satan num piscar de olhos, e não saiu de lá de dentro até agora. A Tia Rum está presa com ele. Ela é refém. Se você entrar lá chutando a porta, cega pela raiva, ele estoura a cabeça dela antes de você dar o segundo passo no tapete.

Vav travou no lugar, o peito subindo e descendo freneticamente. O instinto animal gritava por vingança pelo sangue de Laeticia, mas a lógica fria de Teth estava irrefutavelmente certa. Eles precisavam de um ponto cego. Precisavam de uma arma. De um plano tático.

Os gêmeos começaram a se mover silenciosamente pela beirada do mezanino, procurando uma forma de acessar a sacada externa do escritório sem serem vistos. Mas, ao passarem por uma das gigantescas janelas panorâmicas de cristal que davam vista para os imensos jardins da frente da propriedade, Teth parou abruptamente.

O som agudíssimo de pneus fritando e derrapando rasgou o asfalto molhado lá fora. Vários carros comuns — sedãs de família amassados, picapes sujas da cidade, táxis locais com os vidros trincados — começaram a frear e parar de forma caótica e violenta sobre o gramado outrora impecável da Mansão Sterling, esmagando as cercas-vivas de buxo.

As portas dos veículos abriram-se em solavancos. Pessoas absolutamente comuns de Morpheus desceram para a tempestade. O padeiro da esquina, a moça gentil da biblioteca, um casal de idosos que caminhava pela praça. Mas não havia o menor resquício de humanidade na forma como se moviam. Eram espasmos bestiais, solavancos articulares descontrolados. Suas posturas estavam curvadas de forma animalesca e os pescoços esticavam-se para cima, farejando freneticamente o ar frio. Sob a chuva castigante e iluminados pelos faróis desalinhados dos carros, Teth e Vav puderam ver a monstruosidade: os olhos daquelas pessoas brilhavam em um carmesim doentio, incandescente e faminto. Os rostos, antes familiares, estavam repuxados e contorcidos em uma fome pura e irracional.

— Tem algo terrivelmente errado… Não parece que eles vieram buscar os filhos na festa… — Teth murmurou, a voz falhando enquanto o pânico glacial finalmente encontrava um caminho para atingir sua espinha perfeita. Ele puxou a jaqueta da irmã, jogando-a violentamente para trás de uma pilastra grossa de mármore. — Esconda-se! Não deixe que vejam você!

No andar de cima, longe dos olhos dos gêmeos, a pesada porta de carvalho do escritório abriu-se com um estalo. Dante saiu para o corredor. O chapéu fedora estava perfeitamente alinhado sobre as sobrancelhas, o terno italiano continuava intacto e uma machadinha militar tática descansava casualmente sobre o seu ombro esquerdo. Ele caminhou sem a menor pressa até a caixa vermelha de alarme de incêndio cravada na parede de gesso. Sem mudar o ritmo dos passos, usou o cabo duro da machadinha para estilhaçar o vidro de proteção com um baque seco e puxou a alavanca branca.

Sirenes estridentes, agudas e cíclicas rasgaram o oxigênio da mansão, colidindo grotescamente e fora de ritmo com o grave pesado da música eletrônica e do pop chiclete que o DJ, alheio a tudo, continuava a tocar em loop. Luzes estroboscópicas de emergência começaram a girar, banhando as paredes de estuque com flashes violentos de vermelho e branco.

No andar térreo, no salão principal, a rave idílica virou um inferno de pânico em exatos dois segundos. O instinto primitivo de rebanho assumiu o controle absoluto do volante. Trezentos adolescentes começaram a gritar, chorar, empurrar uns aos outros e correr em uma debandada caótica e violenta em direção às saídas laterais, portas de serviço da cozinha e janelas mais baixas. O caos de que Dante precisava estava instaurado com perfeição cirúrgica. A evacuação forçada das ovelhas limpava a linha de tiro para os lobos.

O Caçador desceu a grande escadaria curva de mármore com a tranquilidade letárgica de quem passeia em um museu num domingo de manhã. Ele nadava elegantemente, descendo os degraus contra a correnteza esmagadora de alunos aterrorizados que fugiam para os lados ou tentavam subir para se esconder.

O som duro dos sapatos sociais de Dante encontrou o piso do térreo. O salão principal estava deserto de vida humana, transformado instantaneamente em um mausoléu de pânico recente: havia um rastro sujo de sapatos de salto alto abandonados, jaquetas rasgadas, copos de cristal pisoteados e, reinando absurdamente intacto no centro da pista de dança, o colossal bolo neon de seis andares.

BOOM!

As portas duplas gigantescas da entrada principal da mansão não apenas se abriram; elas explodiram. A madeira maciça cedeu em uma detonação de farpas gigantes sob a força cinética sobrenatural de meia dúzia de cidadãos comuns de Morpheus. Não eram mais humanos. Eram bestas rosnando, babando uma saliva espessa e já tingida de vermelho-escuro. As veias de seus pescoços e rostos estavam tão escuras, negras e estufadas que pareciam cabos de aço podre pulsando sob a pele pálida.

Dante parou de andar, estacionando exatamente ao lado da mesa de banquete. Ele não sacou uma arma de fogo de repetição. Não correu em busca de cobertura atrás das pilastras. Com a batida eletrônica e absurdamente animada de uma música pop estourando nas caixas de som acima de sua cabeça, esticou o braço com uma calma que beirava a ofensa. Passou o dedo indicador enluvado pela grossa camada de cobertura de chocolate que escorria pelo bolo fluorescente e levou-o à boca. Saboreou o doce lentamente, fechando os olhos por um segundo.

A quinze metros dali, na entrada destruída, os seis vampiros rasgaram as próprias gargantas em rosnados uníssonos e ensurdecedores, seus olhos vermelhos travando no único ser vivo no salão como lasers de mira de um míssil.

Dante estalou a língua no céu da boca, decepcionado com a receita. — Muito açúcar sintético... — murmurou para si mesmo, limpando o couro da luva suja de chocolate na lateral da calça do terno caro.

Deslizou as duas mãos para o cabo emborrachado de sua machadinha, ajustando a empunhadura com firmeza. Um sorriso fino, frio e desprovido de medo cortou seu rosto pálido. — Falta um pouco de ferro na dieta de vocês. Venham buscar, cachorrinhos.

Foi o gatilho absoluto.

O primeiro vampiro da matilha — um homem colossal, vestindo o uniforme azul e rasgado de zelador da universidade — urrou, comprimindo os músculos das pernas além do limite biológico. Saltou como uma pulga gigante, cobrindo inacreditáveis cinco metros de distância em um único e flutuante impulso aéreo, as unhas sujas e escurecidas mirando direto no peito de Dante para rasgar seu coração.

Dante não deu um passo de recuo. Em vez de lutar inutilmente contra a força brutal da gravidade e do ataque da fera, usou a inércia do inimigo a seu favor. Lendo perfeitamente a trajetória de voo do monstro, Dante cravou a ponta do pé esquerdo no chão liso de mármore e pivotou nos calcanhares em um giro de tronco impecável e rápido como um chicote. As garras enferrujadas do zelador cortaram apenas o oxigênio por um triz. Aproveitando o milissegundo em que o inimigo estava cego e vulnerável no meio do voo, Dante usou a força centrífuga de seu giro e desceu a machadinha de aço-carbono em um arco perfeito.

CRACK!

O som úmido, abafado e asqueroso de osso craniano e massa encefálica sendo partidos ao meio ecoou por baixo da música pop. A lâmina fosca penetrou fundo na têmpora do zelador voador. Mas Dante sabia que, no combate de curta distância, a elegância é uma ilusão que mata. Se ele tentasse puxar a arma contra a densidade do crânio, a lâmina travaria no osso. Em vez disso, no momento do impacto, soltou o peso do próprio corpo para baixo, dobrando os joelhos. Usou a gigantesca força de inércia do monstro cadente como uma alavanca biológica para rasgar o crânio de dentro para fora, arrancando a lâmina em um movimento circular e brutal.

Uma linha reta e perfeita de sangue negro e grosso espirrou pelo piso de mármore branco como tinta fresca de um pincel. O cadáver do zelador colapsou de rosto no chão, derrapando até parar.

Mas não houve tempo para respirar. Dante mal teve a fração de segundo necessária para reequilibrar a própria postura.

O segundo vampiro da onda — uma mulher vestida com legging e roupas de academia manchadas — não saltou de forma imprudente. Ela correu rente ao chão como uma pantera, usando as mãos e os pés, e atingiu Dante em cheio pelo seu ponto cego. Ela colidiu contra ele como um aríete de carne e osso a cem por hora.

A força absurda do choque esvaziou os pulmões de Dante em um engasgo de dor instantâneo. O impacto o ergueu do chão, arrancando seus sapatos polidos do mármore. Ele voou de costas, cruzando o espaço vazio do salão de forma descontrolada, até colidir com uma violência devastadora contra uma pesada mesa de bebidas espelhada.

O som da madeira quebrando foi engolido pela explosão. O vidro temperado grosso estilhaçou-se em uma nuvem de fragmentos brilhantes que choveu pelo ar. Dezenas de garrafas de licor, uísque e vodca importada detonaram, banhando o chão, os cacos de vidro e o corpo de Dante em uma tempestade grudenta de álcool ardente.

Dante grunhiu, a dor rangendo em seus dentes trincados, e rolou através da chuva de destroços afiados. O vidro cortou sua pele em dezenas de lugares. A lã fria italiana de seu terno sob medida, agora arruinada e em frangalhos no ombro esquerdo, não ofereceu resistência. Viscoso, grosso e muito quente, o próprio sangue jorrou de um corte profundo em sua sobrancelha, caindo imediatamente sobre seu olho esquerdo, pintando metade de seu campo de visão de carmesim e turvando seu foco.

A vampira não lhe deu folga. Antes que ele pudesse apoiar as mãos para se erguer dos cacos, ela saltou novamente. Foi um borrão de fúria e rosnados, voando por cima dos restos da mesa quebrada. As unhas dela, já perigosamente alongadas e enrijecidas como garras, estavam esticadas e miradas diretamente para a jugular vulnerável do Caçador.

Deitado de costas sobre uma cama de estilhaços, Dante foi forçado a reagir com instinto tático puro, sujo e desesperado. Ele não tentou levantar o tronco. Em vez disso, leu o vetor da queda dela, arqueou as costas contra o chão doloroso e usou o abdômen para tensionar o corpo como uma mola. Dobrou a perna direita e plantou a sola dura e reforçada de seu sapato social diretamente contra a rótula do joelho da criatura, que caía sobre ele com todo o peso.

C-crack!

O som foi seco e enjoativo, alto o suficiente para competir com as caixas de som acima deles. Foi o estalo inconfundível e violento de uma articulação inteira sendo detonada e virada do avesso sob pressão biomecânica extrema.

A vampira urrou, um guincho agudo de dor animal. O ímpeto aéreo dela foi estilhaçado, transformado em peso morto inútil enquanto a perna dobrava em um ângulo humanamente impossível. O corpo dela tombou desajeitadamente para a direita, caindo nos vidros ao lado de Dante.

Ele não desperdiçou a brecha. Usando o impacto da queda dela como alavanca e a tensão que restava em suas próprias pernas, Dante transformou seu rolamento em um salto tático explosivo, chicoteando as pernas e pondo-se de pé em uma fração de segundo.

Ofegante, com o coração martelando no peito, Dante cuspiu um coágulo de sangue grosso e metálico no mármore brilhante. Seu olho bom travou no alvo que se debatia no chão. Ele reajustou a empunhadura suja de licor no cabo da machadinha com as duas mãos.

Cineticamente, o golpe de misericórdia nasceu em seus calcanhares, fluiu pelos quadris, subiu pela coluna e culminou nos músculos dos ombros e braços. Ele desceu a lâmina de aço em um arco vertical, implacável e esmagador, cravando-a com uma força industrial diretamente no ápice do crânio da vampira que tentava se levantar.

O urro parou instantaneamente, substituído por um som molhado. O silêncio da criatura durou apenas o tempo necessário para o corpo inerte desabar de volta nos vidros.

Sem dar a ele um único segundo de respiro, os três vampiros restantes avançaram em uníssono, correndo como cães raivosos, quebrando qualquer formação. Seus olhos vermelhos já não rastreavam mais apenas o homem de terno; eles farejavam o cheiro doce, quente e fresco do sangue humano que gotejava do queixo ferido de Dante.

A luta que se seguiu não tinha nada do balé limpo ou da coreografia dos filmes. Era uma dança visceral, imunda, barulhenta e desesperada pela sobrevivência absoluta.

Dante movia-se no meio deles como um boxeador clandestino de elite. Ele deslizava milímetros por baixo de garras imundas que cortavam o ar, arrancando fios de seu cabelo. Foi forçado a absorver socos e chutes cegos que sacudiram violentamente suas costelas já doloridas. Mas, em vez de cambalear para trás e perder espaço, ele usava a própria força do impacto dos golpes dos monstros para girar o corpo e reposicionar suas pernas, mantendo o equilíbrio cinético a seu favor.

Quando um bote em sua direção foi rápido e inevitável demais para esquivar-se, Dante não tentou bloquear a força bruta com os braços. Ele pivotou nos calcanhares e interceptou a investida cravando o cabo liso de aço-carbono de sua machadinha de través, enfiando a barra de metal diretamente entre as mandíbulas escancaradas e babadas de um dos vampiros.

Dante sentiu o osso de seus próprios braços vibrar dolorosamente quando os caninos do monstro estalaram, mordendo e raspando violentamente contra o metal indestrutível do cabo, a centímetros de seu próprio nariz. O hálito quente, pútrido e insuportável de carne podre da fera inundou suas narinas. Dante trincou os dentes e usou a machadinha entalada como uma alavanca de jiu-jitsu grotesca, empurrando a fera para frente e esmagando a parte de trás da cabeça da criatura contra a dura pilastra de mármore mais próxima; um baque surdo que rachou o osso parietal do bicho.

Ele estava em constante movimento. Era um borrão encardido de lã italiana rasgada, sangue fresco, suor e aço letal, transformando cadeiras viradas, mesas de banquete e cada pilar do salão em um aliado tático momentâneo. Mas o grande erro dos monstros foi achar, em sua fome cega, que o desgaste físico ou a dor paralisariam o Caçador.

As unhas pretas e sujas do vampiro esmagado na pilastra chicotearam em um último espasmo selvagem. Elas rasgaram a manga de lã do paletó de Dante e afundaram profundamente na carne de seu antebraço esquerdo, como anzóis grossos de açougueiro.

Um grunhido rouco, puramente animal e áspero, escapou por entre os dentes trincados de Dante. A dor latejou até o osso. Mas, contrariando o instinto humano de fugir da dor, ele não tentou recuar o braço rasgado. Em vez de lutar inutilmente contra a força de tração do monstro que o agarrava, Dante a engoliu e a usou a seu favor.

Aproveitando o puxão forte que o inimigo dava para trás, Dante avançou violentamente em direção ao aperto. Com a mão direita, que estava temporariamente livre, ele agarrou com força bruta a base da gravata de seda puída que pendia do pescoço do próprio "vampiro corporativo". Em um giro de corpo explosivo, agressivo e perfeitamente calculado, Dante tracionou o tecido da gravata ao redor do pescoço pálido da criatura como uma forca improvisada. O puxão abrupto quebrou completamente a postura e o eixo de equilíbrio do monstro.

Dante pivotou nos calcanhares escorregadios e, usando as costas, arremessou todo o peso morto e tropeçante do vampiro para a própria retaguarda. Ele transformou a fera em um escudo de carne no exato e crucial milissegundo em que o último invasor que restava na sala saltou do chão, com as garras expostas, mirando as costas do Caçador. O impacto colossal entre os dois monstros no ar produziu o som grotesco de costelas se partindo ao meio.

Eles caíram em um embolado de corpos. Mas, antes que tivessem meio segundo de raciocínio para se desvencilhar e levantar do chão de mármore, Dante já estava terminando o cálculo da equação letal. Usando a inércia fantasma do seu próprio giro e a velocidade gerada, ele agarrou o cabo com firmeza e desceu a lâmina negra da machadinha em um arco duplo fulminante, impiedoso e rítmico — um "oito do infinito" perfeito e invisível cortando o oxigênio do salão.

A lâmina afiada de aço-carbono abriu um talho sorridente na jugular cinzenta do escudo humano na primeira descida e rasgou a garganta do atacante confuso na curva de volta. Ambos os corpos despencaram, engasgando no próprio sangue negro que esguichava, manchando o carpete outrora vermelho da entrada.

O movimento brusco e final fez o chapéu fedora clássico voar para longe de sua cabeça, aterrissando silenciosamente e boiando em uma poça escura de sangue e licor no chão. Sem o chapéu contendo o suor, os cabelos bicolores de Dante caíram pesadamente sobre seu rosto em franjas úmidas, grudados na testa por uma mistura asquerosa e brilhante de suor frio, álcool e sujeira de combate.

A alfaiataria cara e impecável de seu terno escuro agora era apenas uma lembrança remota; estava encharcada, empapada de vermelho e arruinada em dezenas de rasgos pelo torso e pelas mangas. Respirando pesadamente, com os pulmões queimando por oxigênio, ele sentiu o próprio sangue quente e fresco do corte profundo na testa escorrer livremente pelo queixo, manchando definitivamente o colarinho intocado da camisa branca com gotas grossas, escuras e contínuas.

E, ainda assim, cercado por uma carnificina absoluta que faria soldados veteranos vomitarem, a postura do garoto não demonstrava o menor resquício de pânico, horror ou desespero. Cada microajuste de seus pés sujos no mármore ensanguentado, cada respiração calculada para diminuir a frequência cardíaca, exalava uma aura brutal, focada e assustadoramente elegante em sua crueza.

Ele não era apenas um humano assustado lutando por sua vida em um cenário de terror; era uma máquina profissional de abater pesadelos operando com maestria fria no ápice absoluto do improviso tático e da violência.

Dante ergueu a bota social de couro brilhante e cravou o calcanhar com força brutal no esterno duro do último invasor caído daquela primeira onda, prendendo o cadáver no chão. Com as duas mãos firmes no cabo, ele puxou a machadinha que havia ficado cravada e presa no osso da garganta do monstro.

A pesada lâmina de aço saiu rasgando, acompanhada de um SCHLUCK úmido, pegajoso e visceral de carne rompida e osso cedendo. Os ombros de Dante subiam e desciam pesadamente enquanto ele relaxava a empunhadura e deixava a lâmina pingar no chão.

O salão principal da luxuosa Mansão Sterling estava estruturalmente irreconhecível. Havia se transformado em um campo de batalha urbano, banhado em vermelho-escuro sob o brilho cínico, festivo e intermitente das luzes de neon que continuavam varrendo o ambiente. Ironicamente mórbida, a música pop eletrônica "chiclete" continuava estourando e vibrando nas grandes caixas de som ilesas, ditando o ritmo bizarro e animado de um massacre sangrento já encerrado.

Ele esfregou as costas da mão livre e suja de terra sobre o olho esquerdo, limpando, com um gemido contido, a cortina grudenta do próprio sangue que turvava sua visão. Seu olhar semicerrado cruzou o salão destruído e exalando o odor de cobre, travando nas portas duplas estilhaçadas e rasgadas da grande entrada da mansão.

Lá fora, a tempestade caía com força bíblica. A chuva fria e incessante açoitava as esculturas e as árvores do jardim escuro. E, rompendo através da grossa parede de som da água batendo no asfalto e da música alta, novos rosnados — agora mais graves, mais numerosos e dolorosamente famintos — começaram a ecoar pelas sombras da noite, vindos do portão de ferro. A matilha de Morpheus havia sido atraída.

Dante girou lentamente a machadinha na mão ensanguentada. O aço brilhou sob as luzes da boate. Ele inclinou a cabeça, soltando a musculatura travada do pescoço com um estalo audível.

A longa e sangrenta noite da caçada estava apenas começando.

Parte 7

A luz pálida do meio da tarde invadiu as janelas da casa de Anna, dissipando fisicamente as sombras da noite anterior, mas mantendo-se fria e distante de qualquer sensação de calor matinal. Qualquer garota normal teria acordado sentindo-se a salvo após uma noite de choro, mas, no exato milissegundo em que Eliza abriu os olhos, o ar do quarto pareceu rarefeito. Tóxico. Sintético.

Ela sentou-se devagar no colchão macio, com o suor frio grudando a camisa de algodão em sua espinha. O quarto de Anna era um santuário milimetricamente projetado de tons pastéis e ursinhos de pelúcia felpudos. Nas paredes, um mural caótico de fotografias exibia as duas sorrindo: abraçadas em parques de diversões, soprando velas de aniversários, correndo pelos gramados do colégio.

Eliza encarou as fotografias. O estômago dela afundou, pesado como chumbo. Os sorrisos capturados no papel pareciam simétricos demais. A iluminação era plasticamente impecável. Ela forçou a mente, tentando se lembrar do dia exato em que tiraram aquela foto no parque. Lembrava-se da imagem da foto... mas não conseguia recordar o cheiro de algodão-doce no ar. Não lembrava da voz do moço da barraca, do som dos brinquedos ou de como voltaram para casa naquele dia.

A memória era plana. Sem profundidade. Uma imagem inserida à força em seu cérebro. Uma mentira em alta resolução.

Não confie em ninguém.

O cheiro reconfortante de panquecas quentes e café coado invadiu o quarto por debaixo da porta. Eliza engoliu o gosto de bile, vestiu a máscara pesada da normalidade e caminhou a passos mudos e descalços até a cozinha. Anna estava de costas para a entrada, cantarolando uma música pop animada baixinho. Inclinada sobre a ilha de granito, ela cortava morangos frescos.

— Bom dia, flor do dia! — Anna girou sobre os calcanhares, a trança loira chicoteando o ombro. O sorriso radiante iluminava todo o seu rosto. Mas a mão direita dela segurava uma faca de chef imensa. A lâmina grossa de aço-carbono brilhava afiada sob as luzes embutidas da cozinha.

— Dormiu bem? — Anna perguntou.

Eliza forçou as bordas dos lábios para cima, desenhando um sorriso de porcelana. Puxou uma banqueta alta e sentou-se, com as mãos no colo e os olhos cravados instintivamente no fio da faca. — Bom dia. Dormi, sim. Obrigada por... por ontem.

Anna notou a rigidez mecânica nos ombros da amiga. Inclinou a cabeça levemente para o lado, o sorriso diminuindo uma microscópica fração. Ela deu um passo lento na direção de Eliza, a faca ainda firme na mão.

— Liz... você está agindo estranho. Não precisa esconder nada de mim, você sabe disso. — A voz de Anna era puro mel silvestre. Mansa, devota e acolhedora. O que tornava a cena mil vezes mais aterrorizante. — Se você decidiu que vai investigar esses ataques malucos e esses vampiros da sua cabeça, eu já te disse: eu vou te ajudar. Não importa o que aconteça com a gente, ou o quão letal isso seja. Eu nunca vou sair do seu lado.

Crack. A faca desceu, cortando um morango ao meio com um golpe seco contra a tábua de madeira.

O coração de Eliza deu um solavanco violento nas costelas. O que, há um dia, seria a promessa corajosa de uma melhor amiga leal, agora soava inegavelmente como a ameaça velada de um carcereiro. A devoção absoluta de Anna não parecia amor; parecia vigilância algorítmica. Ela não queria protegê-la; queria monitorar cada mísero passo que Eliza desse em direção à saída daquele labirinto.

— Eu... eu vou continuar investigando — Eliza mentiu, com a voz embargada, pegando uma xícara de café vazia com as duas mãos trêmulas para ter algo onde se agarrar. — Mas antes preciso passar na minha casa para pegar umas coisas e trocar de roupa. Depois nós vamos direto para a biblioteca.

— Combinado! Perder mais uma aula inútil de História não vai matar ninguém — Anna sorriu novamente, um sorriso de ponta a ponta, guardando a faca na gaveta.

Meia hora depois, Eliza destrancou silenciosamente a porta de serviço da vasta Mansão Lighthart. Anna havia ficado esperando do lado de fora, encostada no grande portão principal de ferro, a pedido dela. Eliza precisava de oxigênio. Precisava respirar sem a sombra loira soprando em seu pescoço.

A casa parecia vazia e mergulhada em silêncio, mas, ao passar furtivamente pelo corredor principal de piso espelhado, um murmúrio a fez travar os passos. A pesada porta do escritório da Prefeitura, que ficava no térreo da casa, estava encostada. Lá dentro, as vozes de sua mãe, a Prefeita Isobel, e de sua irmã mais velha, Kiara, cruzavam o ar tensas e apressadas.

Eliza colou as costas na parede fria, prendendo a respiração, com o coração batendo na garganta.

— ...e você não conseguiu descobrir se aquele garoto insolente, o Dante, faz parte disso? — A voz madura de Isobel era afiada e autoritária. — Não vai me dizer que você, com todo o seu intelecto, realmente foi seduzida por um forasteiro marginal no meio de uma crise estrutural dessas.

— Claro que não, mãe, não seja ridícula — Kiara rebateu. O tom da irmã era frio, executivo e calculista, desprovido de afeto familiar. — Eu sei perfeitamente que ele não é um dos cães de guarda da Diretora Irene. Mas a forma como ele e a equipe clandestina dele agem é inconsequente demais. Eles vão acabar estragando todo o nosso plano de expor a Irene e a localização do laboratório por causa dessa caçada desgovernada que ele começou.

O telefone fixo do escritório tocou, um tinido agudo. Eliza ouviu o farfalhar de roupas e Isobel tirando o aparelho do gancho.

— Sim? Fale. — Houve uma pausa longa. — O quê? Um incêndio de grandes proporções? Evacuação total da Mansão Sterling na zona sul? Vazamento generalizado de gás? — Isobel soltou uma risada cínica e macia, o som de quem aprecia uma boa mentira política. — Entendido, Chefe. Isolem o quarteirão inteiro com fita amarela e mantenham a imprensa o mais longe possível dos corpos.

— "Vazamento de gás"? — Kiara zombou ruidosamente assim que o telefone voltou ao gancho. — É óbvio que a polícia militarizada da Irene está acobertando alguma coisa grotesca que deu muito errado na festa da Ivy agora mesmo.

Eliza levou ambas as mãos trêmulas à boca, com os olhos arregalados de horror. O chão de mármore pareceu sumir, abrindo um abismo sob as solas de seus sapatos. A sua família. A sua mãe política. A sua irmã eternamente superprotetora. Elas não eram civis cegas e ignorantes presas em uma cidade perigosa. Todos ao seu redor, cada pessoa que amava, faziam parte do maquinário de um tabuleiro de xadrez sádico e doentio. E ela era a única peça de plástico movendo-se no escuro.

O pânico subiu como ácido sulfúrico pela garganta. Eliza recuou a passos largos e trôpegos, querendo fugir dali, querendo arrancar a própria pele e gritar. Girou sobre os calcanhares para correr em direção à porta da frente e sumir no asfalto.

— Senhorita Eliza? Aconteceu alguma coisa grave? Está se sentindo bem?

Eliza sobressaltou-se, soltando um arquejo assustado. Uma das jovens empregadas da mansão estava parada no fim do corredor, segurando um espanador de penas. Ela olhava para Eliza com uma expressão de polidez ensaiada e estranheza perfeitamente vazia.

Eliza engoliu em seco, cerrando os punhos para disfarçar o tremor violento nas mãos. — T-Tá tudo bem. Eu não estou passando mal. Eu só esqueci algo importante. Qual é... me desculpe, qual é mesmo o seu nome?

A empregada piscou. A expressão prestativa tornou-se subitamente robótica, como um sistema travando ao processar uma linha de comando inválida. Ela deu um passo hesitante para trás, como se a pergunta estivesse completamente fora de seu roteiro de funções.

— O meu nome, senhorita? — É. O seu maldito nome — Eliza insistiu, com a respiração encurtando, aproximando-se da mulher.

— Meu nome é Anna, senhorita.

Eliza parou. O oxigênio do corredor pareceu transmutar-se em cimento molhado. Pela primeira e única vez em todos os anos de sua vida morando e crescendo naquela mansão gigantesca, Eliza realmente olhou para a empregada. Ela não olhou através dela como se a mulher fosse apenas uma mobília que limpava móveis; olhou com atenção microscópica para os traços, para o ângulo do nariz, para o formato milimétrico dos olhos, para as bochechas.

O rosto da empregada de avental era o rosto de Anna. A mesma loira que a esperava no portão lá fora. Não apenas "muito parecido". Não era uma coincidência genética. Era idêntico. O mesmíssimo código de textura impresso em outro corpo de NPC. A mente de Eliza rodou, despencando em uma espiral de loucura absoluta.

As memórias se chocaram em um acidente de trânsito mental. O antigo quadro a óleo empoeirado na parede do corredor escuro que ela vira outro dia... o retrato formal de "Anna Lighthart". Lighthart. O seu próprio sobrenome.

Por que eu nunca olhei de verdade para ela? Por que o meu cérebro nunca me deixou questionar a placa do quadro? Por que eu nunca notei, em dezessete anos, que a empregada que arruma a minha cama tem o exato mesmo rosto da minha melhor amiga?!

As palavras cruéis e cirúrgicas de Uzumaki ecoaram na escuridão de sua mente, frias e dilaceradoras, repetindo-se como um mantra anunciando o fim do mundo: "Em histórias ruins, os roteiros têm furos. Falhas grotescas de reuso de cenário. Coisas que não fazem o menor sentido logístico ou temporal. Mas os personagens que estão presos dentro delas nunca notam essas bizarrices absurdas. Eles agem normalmente. Eles preenchem os buracos com sorrisos vazios..."

A caixa de vidro do mundo estilhaçou-se por completo, cravando os cacos em sua alma.

Um grito mudo e sufocado rasgou a garganta de Eliza. Ela deu as costas com violência para a cópia "Anna" de avental e correu. Correu como um animal em pânico, desesperada em direção à imensa porta dupla da frente. Escancarou a madeira e tropeçou nos degraus de pedra da entrada, caindo de joelhos no gramado perfeitamente aparado e úmido da fachada.

A ilusão inteira e macabra de Morpheus estava desmoronando, derretendo como cera quente ao seu redor.

De repente, a atmosfera mudou. O ar do jardim ficou insuportavelmente denso. Pesado. A gravidade pareceu inverter e puxar de baixo para cima. O vento forte da tempestade simplesmente parou de soprar, congelado no tempo. Das profundezas trancadas a sete chaves da alma de Eliza, algo que estava adormecido há séculos despertou em puro terror, luto e agonia. Uma energia espessa, ofuscantemente brilhante e indescritível — o mais puro e primitivo Éter — começou a emanar do corpo trêmulo e frágil da garota. A energia pulsava em pequenas ondas concêntricas de luz azulada, distorcendo o ar ao redor dela como o calor intenso distorce a visão sobre o asfalto no deserto.

BZZZT! As luzes dos altos postes da rua piscaram loucamente, zumbiram e explodiram em uma chuva de faíscas elétricas. Os alarmes de todos os carros importados do quarteirão dispararam em um uníssono ensurdecedor.

Junto com a detonação do poder, a represa colossal de suas memórias estourou. Flashes de vidas reais, apagadas e ensanguentadas, invadiram seu cérebro, sobrepondo-se à falsa tapeçaria de Morpheus em um caleidoscópio de dor estilhaçada.

Ela sentiu o vento em seu rosto, de pé no parapeito de um terraço altíssimo, segurando a mão de Kiara com força, enquanto o céu escuro acima delas se rasgava em fendas dimensionais colossais. Viu o rosto sujo de Rum, ajoelhada na poeira de vidro de uma guerra, chorando em desespero absoluto sobre um corpo sem vida. Viu-se sentada ao redor do calor de uma fogueira que estalava à noite, rindo genuinamente junto com Rum, um Uzumaki que ainda sorria sem apatia, um pequeno Dante criança emburrado, Mumei, Laeticia viva, e uma sombra distorcida e quente de feições indistintas... uma família unida forjada no fim do mundo.

A contradição bizarra, a mentira fabricada e a dor pungente da verdade esmagaram o córtex cerebral de Eliza. O excesso de carga fritou suas emoções.

— SAI DA MINHA CABEÇA!

Eliza gritou para o céu escuro. Não foi o grito assustado de uma colegial. Foi um urro visceral, divino e estrondoso que fez o próprio chão tremer.

VUUUUSHHHHH!

Uma onda de choque de Éter puro, invisível, massiva e avassaladoramente destrutiva explodiu a partir do peito de Eliza. O impacto da detonação não teve som de explosão, mas a força cinética varrendo o espaço foi fisicamente equivalente a uma bomba atômica detonando em câmera superlenta. Na rua pavimentada, os carros estacionados foram varridos e arremessados violentamente como brinquedos de plástico, amassando e capotando no ar antes de caírem destruídos de cabeça para baixo.

Anna — a melhor amiga loira —, que estava distraidamente apoiada no portão de ferro, foi erguida do chão com brutalidade pela onda de choque. Foi arremessada contra a dureza do muro de pedra e caiu instantaneamente apagada e mole na calçada molhada. Dentro da mansão, a janela panorâmica explodiu. Kiara e Isobel, em choque, foram levantadas do chão e lançadas como bonecas de pano sem peso contra as estantes de mogno do escritório, desmaiando antes de tocarem o tapete.

O pulso de Éter não perdeu a força nos muros da propriedade. Ele engoliu a cidade inteira de Morpheus na velocidade da luz.

A quilômetros dali, na zona sul, na destruída Mansão Sterling, a onda azulada varreu o campo de batalha em milissegundos. Os vampiros enfurecidos e musculosos, que cercavam um Dante exausto para o bote final, sequer tiveram tempo biológico de rosnar. A energia do Éter atravessou seus corpos, ferveu o sangue negro deles instantaneamente e obliterou seus cérebros apodrecidos. As doze criaturas tombaram absoluta e simultaneamente no chão de mármore da pista de dança, mortas de forma irreversível e final.

Dante, coberto de sangue até o pescoço, com a machadinha no alto no meio de um golpe mortal, foi pego em cheio pelo impacto invisível do pulso. Foi varrido do chão e arremessado de costas com uma violência monstruosa contra uma imensa parede de espelhos do salão, afundando na inconsciência junto com os cacos caindo sobre seu corpo. No andar de cima, no escritório escuro, Rum e Ivy, que se debatiam amarradas às cadeiras, sofreram o exato mesmo destino, suas mentes apagando como velas sob um furacão.

Todos os transformadores, postes, luzes e motores da gigantesca cidade de Morpheus explodiram e desligaram em um único, absoluto e final apagão. A chuva voltou a cair sobre o telhado do mundo. Um silêncio sepulcral, primitivo e aterrorizante abraçou a cidade inteira. Nenhuma sirene soava. Ninguém gritava. Ninguém se movia. Tudo, em cada quarteirão de Morpheus, havia despencado em um sono profundo e letárgico.

No centro da imensa cratera invisível que a pressão do Éter havia desenhado na terra molhada do gramado de sua casa, Eliza se levantou lentamente. O suor frio secava em sua testa aos beijos do vento. Seus grandes olhos azuis não tinham mais medo ou hesitação. Eles brilhavam na escuridão com uma lucidez afiada, ancestral, perigosa e extremamente fria.

Ela não entendia completamente a natureza cósmica da energia que acabara de emanar de suas próprias mãos. Não entendia como a cidade de milhares de habitantes havia se calado sob seu comando. Mas, através do caos da revelação e da dor aguda latejando nas têmporas, uma única, clara e inegável imagem brilhava como um farol no meio da escuridão de sua mente: a pasta amarelada de arquivo. O documento maldito que Uzumaki segurava nos fundos escuros da biblioteca. A prova física. O código-fonte. O roteiro impresso daquela gaiola de ouro estilhaçada.

Pisando pesadamente sobre os cacos de vidro dos faróis dos carros importados que acabara de destruir, os olhos focados num ponto invisível no horizonte, Eliza caminhou pelo asfalto silencioso e escuro. Ela passou reta, ignorando por completo o corpo desmaiado de sua "melhor amiga" na calçada.

O destino era um só, e não havia monstro, prefeito ou roteirista no mundo que pudesse impedi-la agora: a Biblioteca Central.

Parte 8

A luz pálida e anêmica do meio da tarde invadiu a Biblioteca Central de Morpheus pelos imensos vitrais góticos. O silêncio ali dentro era denso, pesado e absoluto — um contraste violento e perturbador com a calmaria sagrada e empoeirada que costumava habitar aquele santuário do saber.

A onda de choque invisível e titânica que Eliza havia detonado de seu próprio peito varreu o prédio histórico como um furacão fantasma. Estantes colossais de madeira de lei estavam rachadas e tombadas como peças de dominó. Milhares de livros jaziam espalhados, esparramados de bruços pelo carpete escuro como folhas mortas após uma tempestade de outono. O cheiro familiar de papel envelhecido misturava-se de forma asquerosa ao odor forte e metálico de ozônio queimado deixado pelo Éter.

Eliza corria tropeçando pelos corredores destroçados. Seus sapatos escorregavam perigosamente nas capas lisas de couro espalhadas pelo chão. Seu coração batia frenético na base da garganta, ameaçando sufocá-la. O pânico cru e existencial de não saber o que era real e o que era código a impulsionava cegamente para a frente. Ao cruzar a grande ala central de leitura, ela estancou, os sapatos derrapando no carpete.

A Professora Saga e a pequena Silence estavam caídas no chão, jogadas sem cerimônia perto de uma imensa mesa circular de carvalho que havia sido capotada pelo impacto. Eliza sentiu a respiração travar, o peito doendo. Ajoelhou-se rapidamente ao lado das duas, as mãos suadas e trêmulas checando os pulsos finos de ambas. Um alívio doloroso, mas genuíno, a inundou. Elas estavam quentes. Estavam apenas desacordadas, os corações batendo no ritmo lento e constante de um sono forçado pelo pulso eletromagnético da energia de Eliza.

A cabeça de Saga pendeu levemente para o lado, e um gemido baixo, arrastado e confuso escapou de seus lábios pálidos. A professora estava começando a recobrar a consciência. Sabendo que não tinha a menor condição ou tempo para dar explicações sobre um fenômeno que nem ela mesma compreendia, Eliza soltou a mão de Saga e levantou-se num salto para fugir. Mas, ao contornar a pesada mesa virada, seus olhos foram fisgados por algo colorido e bizarro espalhado pelo carpete destruído.

Os desenhos de Silence.

As grandes folhas de papel pardo haviam voado com a explosão de Éter, mas a bizarrice caótica dos traços infantis exigiu a atenção da mente fraturada de Eliza como um ímã. O terror profético, antigo e sangrento exalava daquelas folhas riscadas a giz de cera. No primeiro papel, a monumental Árvore Dourada que Silence desenhara não estava apenas rasgando as nuvens do céu; agora, de suas raízes brilhantes e retorcidas, a árvore gerava um imenso e poderoso livro aberto. No segundo desenho, a violência crua e brutal de uma guerra: um Rei Meio-Preto e Branco, usando uma coroa preta como a noite, cravava impiedosamente uma espada colossal no peito do Rei Azul. No terceiro, o Rei de coroa preta, agora vitorioso sobre o cadáver, recebia uma cruz de uma freira e, com isso, ganhava seis asas angelicais nas costas, brilhando em uma luz divina. E no último papel, amassado e afundado no canto da folha sob uma pilha de cadáveres de palito, havia uma única garota desenhada. Ela tinha cabelos amarelos muito brilhantes. Abraçava um livro de capa de couro com força contra o próprio peito, chorando rios de lágrimas azuis enquanto o mundo inteiro ao seu redor derretia e queimava.

Eliza engoliu um nó seco do tamanho de uma pedra, agarrando os papéis bruscamente e amassando-os para dentro do bolso da jaqueta. O desenho da garota loira fez seu estômago afundar em um abismo congelado. Anna.

Ela levantou-se e correu para as sombras do que sobrou da Seção D. Por um milagre logístico, as pesadas prateleiras de ferro do fundo ainda estavam de pé, aparafusadas ao chão. Guiada por uma memória visual quase eidética, ela encontrou a fileira exata, a prateleira exata, e puxou bruscamente o arquivo amarelado que Uzumaki segurava com tanto horror. Suas mãos suavam frio, umedecendo o papelão velho. O oxigênio no corredor pareceu escasso. A verdade nua e crua estava ali. O que diabos tem de tão bizarro nessas páginas que fez Uzumaki preferir mentir, sorrir daquele jeito plástico e fugir para as sombras?

Ela abriu a pasta com violência sob a luz fraca, vermelha e falha da única lâmpada de emergência da biblioteca. Os olhos dilatados de Eliza correram freneticamente pelas páginas. E então, ela franziu a testa, os lábios se abrindo em pura confusão. Folheou os papéis mais rápido, o desespero crescendo. Voltou para a primeira página. Bateu na capa da pasta.

Não havia registros de assassinatos em série. Não havia nomes de vítimas de vampiros. E o mais importante: não havia um roteiro impresso detalhando que eles eram personagens fictícios ou manequins programados. Eram apenas... plantas arquitetônicas. Desenhos técnicos, logísticos e entediantes de um antigo e abandonado laboratório da cidade.

Eliza deixou os braços caírem ao lado do corpo, a pasta de papelão pendendo mole em suas mãos. Uma confusão gélida e decepcionante a dominou. Um laboratório? Ela já havia ido lá. Tinha memórias visuais e sensoriais perfeitamente nítidas de uma longa excursão escolar na oitava série para ver os equipamentos velhos daquele prédio quadrado de tijolos na zona oeste. Não havia absolutamente nada de especial ou aterrorizante naquilo. Por que diabos o garoto mais inteligente e apático de Morpheus teria entrado em pânico e sorrido daquele jeito psicótico ao ver a planta empoeirada de um prédio comum do governo?

O desespero niilista começou a esmagá-la. A exaustão excruciante da corrida, o trauma do dia e a exaustão de seus nervos pelo uso inconsciente do Éter desabaram sobre seus ombros como uma âncora de navio. Ela havia explodido a cidade inteira à toa? Estava apenas ficando clinicamente louca? Tudo tinha acabado em um beco sem saída de plantas arquitetônicas? O roteiro de Morpheus era mesmo à prova de falhas humanas?

— Liiiiiz...

A voz ecoou da entrada distante da biblioteca. Fina, doce e cantarolada, esticando a vogal como se chamasse uma criança para brincar no quintal. O sangue de Eliza congelou nas veias em uma fração de segundo. Anna. O pânico animal, primitivo e visceral tomou conta de seu sistema nervoso. Ela deixou o arquivo amarelado cair no carpete e disparou como uma lebre em direção à porta de saída de emergência dos fundos. Empurrou a pesada barra de metal antipânico com o ombro e caiu de joelhos na calçada rústica. A rua estava mortalmente silenciosa, sem chuva e engolida pelo blecaute do Éter.

Ela precisava ir até o prédio do laboratório. Precisava ver a estrutura com os próprios olhos para entender por que aquelas plantas arquitetônicas banais eram a chave para a quebra de Uzumaki. Enquanto corria em disparada pelas ruas, seus sapatos batendo ocos no asfalto deserto, sua respiração tornou-se um chiado desesperado e doloroso. Lágrimas quentes de puro terror começaram a transbordar, embaçando as bordas de sua visão.

— Liz! Espera! Não vai por aí, é perigoso!

Eliza olhou para a direita. Na esquina da rua transversal completamente deserta, sob um semáforo apagado, Anna estava parada. Com as mesmas roupas de casa. Eliza guinchou, desviou o curso e dobrou a rua à esquerda, derrapando, com os pulmões queimando por ar.

— Você não devia estar aqui fora no escuro, Liz! Volta para a cama! A gente ia para a biblioteca, lembra?!

Eliza tropeçou nos próprios pés, equilibrando-se com as mãos no capô de um carro amassado. Olhou para a frente. No exato meio da rua, saindo de trás da lataria capotada que seu poder havia destruído... estava outra Anna. Com as exatas mesmas roupas, o mesmo tom de voz.

O terror psicológico atingiu níveis surreais. Eliza girou no próprio eixo, olhando em volta. Em cada esquina, em cada calçada, emergindo da saída de cada beco escuro, uma cópia exata de Anna Lighthart saía das sombras do silêncio de Morpheus. Múltiplas garotas loiras, todas vestindo a mesma calça e blusa, todas com a exata mesma expressão colada de "melhor amiga preocupada", começaram a caminhar em sua direção, bloqueando todas as rotas lógicas de fuga. O sistema estava enviando seus anticorpos para isolar a falha do código.

— Saiam... saiam de perto de mim! — Eliza gritou histericamente, cobrindo os ouvidos com as mãos, correndo em ziguezague pelo asfalto, fugindo das figuras que se aproximavam.

As dezenas de Annas esticaram as mãos em uníssono para tocá-la, para abraçá-la, as bocas abrindo-se para dizer o seu nome.

— SUMAM!

O grito rasgou a garganta de Eliza, mas não foi apenas som. Mais uma vez, a energia colossal e ancestral que habitava o núcleo de seu corpo reagiu violentamente à ameaça da Matrix. Uma onda pulsante, brilhante e violenta de Éter cor-de-rosa e dourado vazou de sua pele, expandindo-se a partir dela como uma lâmina circular e invisível de energia pura. Onde o arco de Éter tocou, as cópias de Anna simplesmente se desfizeram. Elas não sangraram ou caíram; desintegraram-se no ar em bilhões de pixels de luz mortiça e fumaça escura, apagadas e deletadas do código-fonte do mundo como vírus de computador.

Eliza não parou para olhar a destruição digital que causara. Correu cegamente pelas ruas de asfalto vazias, guiando-se desesperadamente pelas rotas de suas falsas memórias de infância, até alcançar os limites do vasto terreno baldio na zona oeste da cidade. Parou de correr, arfando dolorosamente, com o suor pingando do queixo enquanto apoiava as mãos nos joelhos trêmulos. Engoliu o ar em grandes lufadas e olhou para cima.

Ali estava ele. O antigo laboratório biológico da cidade. O prédio rústico de tijolos escuros que a planta arquitetônica detalhava com tanta precisão. O mesmíssimo lugar onde, na sua memória gravada a ferro e fogo, ela havia passado uma tarde inteira de outono rindo com Philia e Yuki numa excursão escolar inesquecível.

Mas quando os olhos de Eliza finalmente conseguiram focar na estrutura maciça sob a iluminação natural da tarde, livre das correntes do feitiço da cidade... todo o ar foi ejetado violentamente de seus pulmões. A mente dela estalou com a força de um osso quebrando. A última barreira de sua sanidade simplesmente se partiu ao meio.

Uzumaki tinha razão. O prédio na sua frente não era um prédio. Era um cubo de tijolos maciço, gigantesco e absolutamente cego. Não havia maçanetas brilhantes de latão. Não havia imensas portas duplas de entrada para excursões escolares. Não havia uma única janela de vidro em toda a colossal extensão da fachada de alvenaria. Era uma caixa sólida de tijolos. Fechada hermeticamente e topologicamente impossível de ser acessada, por dentro ou por fora, por qualquer ser humano.

Era um mero elemento de cenário externo. Um "fundo falso" não renderizado pelo Autor do mundo. Um lugar que só existia perfeitamente detalhado no texto inserido nas suas "memórias", mas que, no mundo físico e tridimensional de Morpheus, era um erro grotesco, relaxado e absurdo de logística, arquitetura e espaço. O furo no roteiro.

Como eu entrei aqui na oitava série? Como eu tenho memórias de brincar lá dentro com a Yuki se não há portas?! Como?!

As pernas de Eliza falharam. Ela caiu de joelhos no asfalto rústico da calçada com um baque surdo, puxando os próprios cabelos cor de magenta. O choro denso de desespero existencial e pura loucura vazava por seus lábios trêmulos em gemidos longos. A escala da mentira era grande, cruel e assustadora demais para um cérebro humano processar sem enlouquecer.

O som de passos suaves, contínuos e lentos quebrou o silêncio fúnebre da rua vazia. A poucos metros de distância, caminhando com a cadência pesada de passos humanos reais, estava a verdadeira Anna. Não um clone gerado pelo sistema. Não uma ilusão passageira ou um anticorpo para contê-la.

A garota loira, a original, parou a poucos passos atrás da figura de Eliza ajoelhada. Olhou de forma demorada para o cubo de tijolos sem portas que o seu próprio sistema havia falhado em texturizar. O silêncio do mundo esticou-se até o ponto máximo de ruptura. O vento uivou suave. E então, com um suspiro longo que esvaziou a alma, a máscara de "melhor amiga efervescente, fútil e leal" finalmente caiu no asfalto e estilhaçou-se.

O rosto de Anna virou para Eliza, mas perdeu completamente toda a doçura e a inocência adolescente que a definira por uma vida inteira. A expressão que se formou nas feições da garota loira era incrivelmente antiga. Era um rosto devastado por um cansaço imensurável de eras, banhado por uma frustração sombria, divina e quase materna.

— Eu só queria que você vivesse um clichê bobo... um romancezinho de colégio normal, Liz... — A voz de Anna soou absurdamente densa e amargurada, ecoando pesada pelo asfalto vazio sem a menor afinação ou doçura juvenil. Ela olhou para as próprias mãos, apertando as unhas contra as palmas. — Mas você nunca parava quieta. Você ficava o tempo todo me pedindo por mais ação... reclamando pelos cantos que a cidade que eu construí para você era chata demais. Que era pacata e monótona.

Anna ergueu o rosto. Grossas lágrimas cristalinas começaram a brilhar e transbordar de seus imensos olhos azuis, mas a dor nelas não era a de uma adolescente traída; era a dor excruciante e onipotente do Arquiteto vendo a sua utopia perfeita pegar fogo pela milésima vez.

— Eu tentei do fundo do meu coração... eu tentei dar a você o mesmo paraíso maldito que eu dei a todos eles — Anna disse, a voz subindo de tom, ecoando pelos tijolos do cubo. — Uma história cheia de mistério, de vampiros babões, perigo raso e ação barata, do exato jeito que você e os outros queriam que o mundo fosse! Mas nem isso... nem isso te agradou o suficiente para você ficar na sua!

A voz divina de Anna falhou, rasgando-se em um choro de raiva desesperada, ressentida e impotente. A Arquiteta deu um passo pesado na direção de Eliza, a deusa do mundo chorando perante a sua criação rebelde. — Por que... me diz por quê, Eliza?! Por que você sempre, sempre continua forçando as regras, lembrando do que dói e indo atrás do que não deve?! O que é que eu preciso fazer, qual história eu preciso escrever para você simplesmente ficar satisfeita e viver em paz comigo?!

Parte 9

O som da voz de Anna — carregada com a exaustão de um deus que não consegue mais manter o próprio paraíso — colidiu contra a mente estilhaçada de Eliza. E, ao ouvir aquela confissão amargurada, o dique finalmente cedeu.

Uma avalanche de memórias inundou o cérebro de Eliza. Não eram apenas flashes de Gaia ou de uma guerra apocalíptica; eram memórias da cidade de Morpheus. Dezenas, talvez centenas delas. Cenas idênticas, mas com desfechos sutilmente diferentes. O primeiro dia de aula repetido à exaustão. O mesmo sorriso de Anna. O mesmo festival. O mesmo luto.

O arrepio que subiu por sua espinha foi o mais frio que já sentira. Aquela não era a primeira vez que tudo aquilo acontecia. Ela já estava presa naquele loop havia uma eternidade, rodando na mesma roda de hamster invisível.

— Por quê...? — Eliza murmurou, com a voz embargada, levantando-se devagar do asfalto com as pernas trêmulas. Ela olhou para a garota loira com um misto de horror e traição. — Por que você está fazendo isso com a gente?! Por que está nos obrigando a viver dentro de uma simulação? Sendo cobaias na sua droga de história?!

Anna recuou meio passo, como se as palavras de Eliza tivessem o peso físico de um tapa no rosto. A dor nos olhos azuis da Arquiteta era crua e desesperada.

— Simulação?! Uma história?! — Anna gritou de volta, a voz rasgando a garganta. — Onde é que isso parece uma simulação, Liz?! Tudo isso aqui é real! O asfalto, a chuva, o café que tomamos hoje de manhã... Tudo é Real! Fui eu quem construiu! — As lágrimas finalmente transbordaram e desceram pelo rosto pálido de Anna. — Mas você o torna falho! Os seus desejos subconscientes, a sua vontade absurda... você sempre quebra tudo e faz esse mundo apodrecer de dentro para fora! Todas as vezes em que as coisas saíram do roteiro, todas as vezes em que o mundo pareceu uma ilusão... foi porque você estava desejando que elas não seguissem a rotina! Porque queria que esse mundo parecesse falso. Eu só queria criar um mundo feliz para todos!

Eliza paralisou. O sangue fugiu de seu rosto. Como uma facada no escuro, ela se lembrou. Dias antes do semestre começar, deitada em sua cama na mansão, olhando para o teto de forma entediada, ela havia suspirado e pensado, do fundo da alma: "Eu queria que algo novo acontecesse. Eu queria que as coisas parassem de ser tão pacatas e chatas".

A culpa tentou se instalar, mas a raiva — uma raiva incandescente — a incinerou instantaneamente.

— Eu não entendo! — Eliza avançou um passo, apontando o dedo trêmulo para o rosto banhado em lágrimas da amiga. — Se você só queria o nosso bem... se você diz que queria ajudar, então prove! Me conte a verdade! Do que diabos você está nos protegendo lá fora para ter que nos trancar em um hospício de mentiras?! Por que você fez tudo isso?!

— PARE DE PERGUNTAR! — Anna berrou, cobrindo os próprios ouvidos com as mãos, caindo de joelhos no asfalto rústico como uma criança aterrorizada. — Você não entende! Quanto mais você descobre, quanto mais você rejeita a paz deste mundo e deseja algo diferente, mais instável a cidade fica! Se você continuar forçando a realidade, eu não vou mais conseguir manter as barreiras... Eu não vou conseguir proteger todo mundo dele!

O choro de Anna era de cortar o coração. Era a sua melhor amiga desmoronando à sua frente, implorando para que ela aceitasse a pílula azul e voltasse a dormir. Mas a imagem do bilhete amassado na palma de sua mão durante a noite piscou na mente de Eliza: "Não confie em ninguém".

Eliza olhou para a garota encolhida no chão. A empatia morreu ali. Não havia motivos para acreditar nela. Como poderia confiar em alguém que brincou com a vida de sua irmã, de Philia, de Yuki e de toda a cidade como se fossem apenas um show de marionetes macabro?

— Se você não vai contar a verdade... — A voz de Eliza baixou oitavas, perdendo qualquer traço da adolescente assustada de antes. O tom tornou-se gélido, imperial e carregado com o peso de uma coroa esquecida. — Eu não quero mais escutar nenhuma palavra saindo da sua boca.

O núcleo de Eliza entrou em ignição. O sentimento de opressão, o ódio de ser manipulada e a vontade absoluta de arrancar aquela mentira pela raiz incendiaram a sua alma.

— SOME DA MINHA FRENTE! — Eliza rugiu, a voz reverberando não no ar, mas diretamente no tecido da realidade.

O Éter não vazou; ele explodiu como o nascimento de uma supernova. Os longos cabelos magenta de Eliza perderam a cor instantaneamente, tornando-se de um branco platinado ofuscante, flutuando no ar como se a gravidade não existisse mais. Suas íris assumiram um tom de azul intenso, glacial e divino.

Uma onda de energia colossal e esmagadora varreu a rua. Anna não teve tempo nem de erguer os braços. A Arquiteta de Morpheus foi atingida pelo pulso de força bruta e arremessada a dezenas de metros pelo asfalto, como uma boneca de pano, até colidir de forma violenta e surda contra o metal de um poste de luz, apagando imediatamente e caindo inerte nas sombras.

E então, o impossível aconteceu.

O céu acima do laboratório — o céu perfeitamente cinzento e programado de Morpheus — emitiu um som ensurdecedor de vidro trincando. Linhas negras, grossas e caóticas rasgaram o firmamento de ponta a ponta, como se uma redoma invisível tivesse acabado de ser estilhaçada por uma marreta divina. O mundo fora do roteiro estava invadindo a ilusão.

No asfalto, o esforço hercúleo de forçar o despertar cobrou seu preço biológico. Os cabelos brancos de Eliza voltaram rapidamente ao magenta original. O azul divino de seus olhos se apagou. O Éter esgotou-se em suas veias, e a garota desabou pesadamente no asfalto frio, com a visão escurecendo rápido. Antes que a escuridão do desmaio a engolisse, as comportas do esquecimento foram totalmente destruídas. Múltiplas memórias de ciclos apagados invadiram sua cabeça. Ela vivendo em Morpheus, rindo, chorando, lutando, e depois tudo reiniciando. Milhares de vezes. O peso de infinitas vidas vividas no mesmo palco a esmagou até a inconsciência.

Tudo ficou escuro e silencioso mais uma vez sob o céu estilhaçado.

Alguns minutos depois, o rastejar silencioso de patas macias cortou a quietude do terreno baldio. O gato de sombras, com seus olhos amarelos e pelo que parecia absorver a luz, surgiu do meio do beco escuro. O animal caminhou graciosamente até o corpo caído de Eliza. Esfregou a cabeça felpuda contra a bochecha pálida da garota, com um ronronar baixo e vibrante tentando oferecer algum conforto no meio do fim do mundo.

O gato parou. Suas orelhas pontudas giraram para a frente. Ele ergueu os olhos amarelos na direção do cubo de tijolos maciços. Na parede cega e impenetrável do laboratório sem portas nem janelas, as moléculas da ilusão começaram a derreter. Em uma espiral de Éter negro, uma antiga maçaneta de latão desenhou-se na parede sólida.

Clack.

O som da fechadura destrancando ecoou no vazio. Nenhuma porta se abriu de fato, mas uma voz profunda, rouca e carregada de uma urgência fantasmagórica vazou pelo tijolo sólido e transmutado:

— Encontre Dante.

Pela pequena fresta molecular que se formou abaixo da maçaneta impossível, um envelope de papel escuro e encerado escorregou e caiu no asfalto com um baque leve. O gato de sombras caminhou até a carta. Com precisão cirúrgica, ele mordeu a ponta do envelope, garantindo que não a soltaria. O felino lançou um último olhar para a garota desacordada no chão e, fundindo-se com o piche e a ausência de luz do asfalto, desapareceu em direção à cidade apagada, levando a mensagem crucial pelas sombras de Morpheus.

Parte 10 

O salão principal da Mansão Sterling, que há meros minutos pulsava como o epicentro de uma rave ensurdecedora e de uma carnificina brutal, agora estava afogado, submerso em um silêncio absoluto e sepulcral.

Não havia mais música. A energia estrutural da casa havia sido completamente devorada pelo pulso magnético do Éter de Eliza. O apagão era total. Apenas a luz fria e pálida da lua, que agora penetrava sem obstáculos pelas imensas vidraças estilhaçadas, iluminava as ruínas do campo de batalha. No chão de mármore branco, agora pintado com grossas pinceladas de escarlate e negro, os corpos colossais dos vampiros jaziam imóveis. Eles não estavam apenas desmaiados; a onda de choque invisível havia invadido seus crânios e fritado as sinapses de seus cérebros apodrecidos, desligando-os da falsa vida e devolvendo-os à morte definitiva.

A poucos metros da montanha arruinada de glacê neon que antes era um bolo, jogado de forma violenta contra o que restava da parede de espelhos trincada, estava Dante. O Caçador estava completamente apagado. A energia divina e ancestral que emanara de Eliza — o poder da princesa Stella — ainda formigava e pulsava em microchoques sob a pele suja dele, mantendo seu corpo físico ancorado no mármore em um coma induzido pelo impacto.

Mas, dentro da mente do forasteiro, não havia um miligrama de silêncio. Havia um furacão categoria cinco. O cérebro de Dante estava sendo triturado vivo por um liquidificador cronológico. A barragem de contenção que separava o roteiro falso do presente de suas vidas passadas reais havia sido implodida com dinamite.

Flashes violentos começaram a rodar a mil por hora atrás de suas pálpebras fechadas. Dezenas, centenas de recomeços. O código da cidade de Morpheus se repetindo, mastigando sua consciência como um disco arranhado pulando a agulha sem parar. Ele, encostado na moto surrada sob o sol. Kiara se aproximando no pátio com aquele sorriso arrogante e afiado. O choque. O flerte. O interrogatório. Ele, descendo a escadaria da Mansão Sterling de terno italiano, o fedora nos olhos, a machadinha na mão, estourando os crânios dos exatos mesmos vampiros.

De novo. E de novo. E de novo.

A memória acelerou em uma espiral nauseante e febril. Ele se viu arrastado para o clímax programado do que deveria ser aquela história: uma batalha final, sangrenta e épica nas entranhas frias da universidade. Ele de pé, respirando pesado ao lado de Kiara e Eliza. Ambas feridas, sangrando, mas lutando juntas. E, à frente do trio, erguia-se a Diretora Irene, coberta de sangue, com os olhos vermelhos girando de forma insana como as engrenagens de um relógio quebrado.

— Vocês não entendem! — a voz de Irene ecoava na memória, metalizada, distorcida e carregada de estática. — Esse laboratório... essas cobaias humanas... eu preciso da energia disso! Preciso sintetizar um poder absoluto! Um poder capaz de esmagar o próprio Deus!

O clarão ensurdecedor da batalha cedia lugar a finais pacíficos. Finais plastificados, falsos, milimetricamente programados pelo sistema de Anna para anestesiar e sedar a mente de um Caçador hostil. Em um loop, ele se via vivendo uma vida tranquila e sem cheiro de pólvora ao lado de Kiara. Em outro loop corrompido, o rosto que sorria de forma apaixonada na varanda de uma casa suburbana era o de Ludmilla. Em outro ciclo perdido no código, era Eliza quem segurava sua mão sob um pôr do sol perfeito. Cenas felizes. Roteiros de romance clichês, baratos e ensaiados que duravam apenas até o sistema de Morpheus entrar em colapso, encontrar um erro crasso e reiniciar toda a cidade do zero.

Mas então, a linha do tempo estalou. O tecido perfeitamente costurado da simulação simplesmente rasgou-se ao meio.

— SAI DA MINHA CABEÇA!

O grito excruciante de Eliza — a exata mesma frequência vocal que havia detonado o pulso de Éter no mundo físico — invadiu o pesadelo de Dante como um vírus malicioso, estilhaçando o código-fonte de Morpheus de dentro para fora. A voz da princesa soou desesperada, rasgando o céu das ilusões, comandando que as correntes se quebrassem. Comandando-o a acordar.

Os glitches visuais começaram. A cor do céu idílico de Morpheus piscou, tremulou e inverteu-se de um azul artificial para um vermelho-sangue denso e apocalíptico. A memória reconfortante do final feliz com Kiara derreteu ao redor dele como cera posta ao fogo, sendo imediatamente substituída pela verdade nua e aterrorizante da história real.

Ele não estava lutando ao lado de Kiara. Ele estava sangrando e lutando contra ela.

A Presidente do Conselho não era uma colegial engomada de saia xadrez; a garota à sua frente era a temida Rainha da Violência, coroada de carnificina. O céu acima deles não era o teto cinzento de um laboratório universitário; estava rasgado ao meio por anomalias gravitacionais colossais que engoliam estrelas. A batalha não era no subsolo de uma escola, mas nas ruínas majestosas e em chamas do Grande Tribunal.

A dor no crânio de Dante tornou-se insuportável, os nervos queimando enquanto as duas realidades massivas colidiam frontalmente em sua mente, disputando o espaço de sua sanidade. E, afundando no poço desse abismo de memórias em curto-circuito, empurrado além do limite do próprio subconsciente, Dante foi sugado violentamente para o estrato mais profundo e trancado de seu próprio ser.

Era uma memória intocada. Algo que definitivamente não pertencia à matriz de Morpheus. Algo incrivelmente antigo, sagrado e completamente estranho.

O barulho da guerra sumiu. Ele não estava mais no campo de batalha apocalíptico. Estava de pé no centro geográfico de uma biblioteca infinita. Uma estrutura topologicamente impossível, cujas estantes de madeira escura e entalhada subiam em espiral geométrica até onde as retinas não podiam alcançar. O lugar estava preenchido por incontáveis livros antigos que flutuavam, orbitando no ar, suspensos em uma densa e brilhante névoa de poeira cósmica.

À sua frente, a poucos passos de distância, banhada por um feixe de luz vertical, pálida e prateada, havia uma garota. Dante apertou os olhos, tentando desesperadamente focar. Mas a aparência dela era um borrão instável, uma estática visual corrompida, como se o próprio universo proibisse seus olhos de registrar aqueles traços.

Astreus. O nome despontou na ponta de sua língua com um peso denso e uma dor esmagadora, mas as feições dela eram impossíveis de decifrar. O rosto estava censurado pela eternidade. A garota de luz e estática caminhou lentamente até ele. Os lábios invisíveis dela moveram-se, mas o som chegou aos ouvidos de Dante abafado e distante, como se ele estivesse submerso nas profundezas escuras do oceano. Ela estava implorando por algo. Selando um pacto. Uma promessa de sangue e alma forjada éons antes do mundo começar a queimar.

— Você precisa... — a voz borrada sussurrou, a estática zumbindo diretamente em seus tímpanos, carregada de uma tristeza secular. — Prometa que vai...

O que a garota disse a seguir foi engolido e apagado por uma explosão física de calor absurdo.

No mundo real, deitado sobre os cacos de vidro do salão da Mansão Sterling, o corpo de Dante sofreu um espasmo violento. Ele soltou um gemido sufocado, com os dentes trincados até quase quebrarem. Uma dor puramente excruciante — como se uma barra de ferro em brasa incandescente estivesse sendo brutalmente pressionada contra sua carne viva — irradiou a partir de seu antebraço esquerdo. A queimação era tão violenta que perfurou com facilidade a barreira do coma induzido pelo Éter.

Sob o tecido arruinado, molhado de licor e ensanguentado de seu terno italiano, a pele pálida do Caçador começou a brilhar no escuro. Uma marca arcana — um símbolo complexo, angular e profundamente tribal que nunca estivera ali antes em todas as suas supostas vidas — queimou a derme de dentro para fora, cravando-se a fogo e sangue em seu braço. As linhas grossas e escarificadas da tatuagem mística pulsaram na penumbra em um tom de roxo-escuro, vívido, letal e carregado de uma energia hostil.

O choque térmico e neurológico dessa marca rasgando seus tecidos foi o gatilho final. O reboot forçado do sistema.

Dante arqueou as costas, tirando os ombros do mármore com uma violência assustadora. Os olhos do Caçador se escancararam na escuridão fúnebre do salão destruído. As íris bicolores — uma de um azul gélido e a outra de um escarlate demoníaco — focaram-se instantaneamente no teto de gesso arruinado da mansão.

Ele puxou uma lufada de ar áspera, sôfrega e profunda para dentro dos pulmões ressecados, o peito subindo em um solavanco, agarrando-se desesperadamente à realidade. Estava desperto para um mundo cujas regras haviam acabado de ser reescritas a fogo e Éter.

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