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The Fall of the Stars: Capítulo 8 - Mosquito contra Dragão

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 30 de mar.
  • 70 min de leitura

Atualizado: 31 de mar.

Volume 11 : A Prisão Dourada


Parte 1

O caminho que levava até o altar da Árvore Dourada havia deixado de ser um cenário para se tornar um cemitério estilhaçado. Morpheus fora triturada. O que restava era um deserto surreal de escombros flutuantes, onde a própria gravidade parecia ter entrado em colapso.

O ar crepitava, tão saturado de eletricidade estática residual que pedras do tamanho de punhos levitavam a centímetros do asfalto derretido, subindo e descendo em espasmos magnéticos bizarros. O cheiro de ozônio e calcário carbonizado era denso o suficiente para queimar as narinas a cada lufada de ar. Mas Dante não sentia o odor da destruição. Ele não sentia o calor emanando do solo, o formigamento da estática na pele, ou sequer o peso dos próprios músculos rasgados pela exaustão.

O Caçador caminhava como um fantasma, o olhar absolutamente oco.

Não havia o frenesi do desespero em suas íris bicolores, tampouco a clássica e inebriante adrenalina de batalha. Havia apenas a frieza asfixiante de um luto que ainda não tivera tempo — nem permissão — para gritar. Na mente de Dante, uma única e terrível verdade ecoava: Anna estava morta. E o desgraçado que chamavam de Rei pairava impune lá na frente, a poucos passos de colocar as mãos manchadas de sangue no Livro do Fim.

Dante não estava ali por uma luta épica. Ele não queria superar seus limites, testar sua força ou provar seu valor para um universo indiferente. Ele queria um abate cirúrgico. Queria abrir o peito de Lysander e assistir, em silêncio, à luz abandonar os olhos dele.

Mas o universo exigia um pedágio.

A uns vinte metros de distância, plantada firmemente como uma montanha no centro de sua rota, erguia-se uma muralha de músculos, arrogância e pura voltagem. Thor, o Deus do Trovão. A jaqueta esfarrapada e o cabelo loiro espetado balançavam violentamente sob um vento elétrico que nascia do próprio deus. Raios dourados e espessos chicoteavam o asfalto ao redor de seu corpo de forma agressiva, como cães de guarda famintos e raivosos puxando a coleira.

A presença do deus, coberto de fuligem e sangue inimigo, era esmagadora. Pesava nos pulmões de Dante como a gravidade de um planeta massivo. Thor o encarava com o cenho franzido, os olhos faiscando não com fúria cega, mas com uma mistura letal de desdém e curiosidade predatória. Ele não gritou. Ele avaliou sua presa.

— Ei, garoto... — Thor chamou. A voz grave vibrou pelo ar, fazendo as pedras flutuantes ao redor de Dante tremerem e caírem no chão. — Você está ligado àquelas criaturas malditas que chamam de Astreus, não é? Eu sinto no seu cheiro.

Dante não respondeu. Sua mente estava tão blindada pelo ódio direcionado a Lysander que o deus à sua frente parecia apenas um inseto barulhento, um estorvo inconveniente bloqueando a porta.

Foi então que o silêncio de sua mente foi quebrado. Ao lado de seu ombro esquerdo, Safira, o grimório flutuante, abriu suas páginas em um farfalhar mágico e tenso. Geralmente, a voz em sua mente seria a de uma gyaru provocante, cheia de gírias e sarcasmo insolente. Não agora.

— "Chefe... a assinatura de Éter desse cara é absurda" — Safira soou letalmente séria, o tom analítico mascarando o pavor. — "É nível divino bruto. Um erro e a gente vira cinza."

Ao redor do pescoço de Dante, o cachecol preto com a logo de uma Sakura vermelha moveu-se. Como uma naja viva e protetora, o tecido blindado desfiou sua ponta, assumindo uma postura defensiva. A personalidade furtiva de Asuka estava em alerta máximo.

— "Mestre, sei que está querendo voltar à sua caçada contra o Rei, mas se não prestarmos atenção absoluta contra esse tipo de adversário, morreremos aqui."

Nas mãos do Caçador, as luvas de tecido preto com circuitos integrados estalaram, liberando uma carga de plasma ardente que iluminou as sombras de Morpheus. Sora, por outro lado, sorriu ferozmente em sua mente, faminta pelo conflito.

— "Vocês duas podem até ter razão em se preocupar, mas relaxem e observem. Em uma batalha de Éter, quem tem mais vontade sempre tem a vantagem. E, nesse momento, eu sei que o meu parceiro está queimando de vontade de esmurrar a cara desse deus e depois arrebentar o Lysander. Não estou certa, parceiro?"

Dante parou de andar. Os músculos de seu pescoço estalaram.

— Vero! — Aquela foi a primeira vez que Dante respondeu em voz alta desde que vira Anna cair.

Ele piscou pesadamente. Como um vidro embaçado sendo limpo, a névoa do ódio puro e irracional se dissipou de sua mente, dando lugar a um foco frio e cristalino. A raiva ainda estava lá, um oceano revolto, mas agora ele era o capitão do navio. Sua respiração estabilizou. O ritmo cardíaco desacelerou.

"Você não aprendeu nada até agora?", Dante repreendeu a si mesmo, ajustando milimetricamente a base dos pés no asfalto quebrado. "Se deixar a raiva te consumir, não vai chegar a lugar algum. Não era isso que a Anna queria, e não é isso que vai trazê-la de volta. O meu motivo para acabar com esses malditos não pode ser apenas vingança... O meu motivo é..."

— Para proteger quem ainda está vivo! — Dante declarou. A voz fria, cortante como uma lâmina de gelo, rasgou a estática do ar.

Thor ergueu uma sobrancelha dourada, genuinamente confuso com a resposta desconexa, sem saber que o humano falava com as próprias armas. O deus bufou. Uma nuvem de faíscas estourou sob suas botas blindadas pesadas, marcando o fim de sua paciência divina.

— Você é surdo, seu merdinha? Eu perguntei qual a sua conexão com os Astreus!

O asfalto sob os pés de Thor simplesmente deixou de existir.

Com um estrondo que rompeu a barreira do som, o deus disparou na direção de Dante, não como um homem, mas como um raio dourado encarnado. Seu braço direito recuou, acumulando uma massa de eletricidade tão concentrada que o zumbido ameaçava estourar os tímpanos do Caçador.

"Mantenha a calma. Não seja consumido pela raiva. Pense, desvie e reaja!". A mente de Dante entrou em overclock, o mundo ao seu redor desacelerando.

No milésimo de segundo antes de o punho colossal apagar sua existência, Dante torceu o tronco de forma não natural. O soco de Thor passou a um fio de cabelo de seu rosto — o calor brutal do raio foi suficiente para deixar uma queimadura de primeiro grau em sua bochecha esquerda. Mas o erro de Thor foi o excesso de força. Aproveitando a brecha geométrica perfeita deixada pela inércia do deus, Dante cravou o pé de apoio no chão, transferiu todo o peso de sua cintura e subiu um gancho devastador. O punho escuro, envolto por uma furiosa aura carmim, colidiu com precisão cirúrgica direto no queixo de Thor.

O impacto estalou no ar. O rosto do deus foi jogado violentamente para o alto.

Sem perder uma fração de segundo do ritmo, Dante inverteu a polaridade magnética de seu próprio corpo impregnado de Éter. A gravidade o soltou. Flutuando instantaneamente, ele usou o impulso do gancho para girar o corpo no ar e conectar um chute circular brutal e perfeitamente coreografado na lateral do pescoço exposto do deus.

— Ainda não acabou! — Dante rosnou, o sangue fervendo.

— "Isso!" — Sora comemorou em sua mente, sentindo o choque do plasma no impacto.

Mas o pesadelo de enfrentar o divino se revelou. Mesmo com o rosto deformado pelo golpe e a cabeça inclinada à força pelo chute, o sorriso sádico de Thor não sumiu. Lenta e assustadoramente, os olhos brancos do deus se voltaram para encarar Dante, que ainda flutuava indefeso.

— Que soco leve... — Thor murmurou, a voz grave vibrando com escárnio.

Cuspindo na cara das leis da física, Thor não precisou do chão para se recuperar. Ele flexionou os músculos e girou o próprio corpo maciço no ar, tratando o espaço vazio como um apoio sólido. A perna do deus subiu e desceu como um machado de execução. O chute descendente, coberto por uma cascata de raios, atingiu o ombro de Dante com a fúria de um meteoro.

Dante despencou, afundando no asfalto e abrindo uma cratera violenta em forma de teia de aranha. Uma parede de poeira subiu, mas Thor não deu a ele o luxo de respirar. Caindo do céu como um predador mergulhando sobre a presa, o deus armou os dois punhos unidos e esmagou o centro da cratera.

— Destruição Relampejante!

KRAKOOOM!

Não foi um choque elétrico. Foi a detonação de um torpedo nuclear subterrâneo. A crosta terrestre rasgou-se de dentro para fora. Pilares de raios dourados e espessos explodiram do solo em um raio de trinta metros, obliterando o asfalto, derretendo pedras e transformando o ar em um inferno amarelo. Usando a própria onda de choque de sua explosão, Thor chutou o ar, saltando para trás em um arco perfeito. Pousou suavemente, rindo a plenos pulmões.

— Bom, talvez eu estivesse errado. Nem um Astreus pode ser tão fraco!

A risada foi cortada. Do centro da nuvem de poeira e relâmpagos, uma figura saltou.

Dante deslizou de joelhos pelo chão quebrado, afastando-se ofegante e tossindo fuligem. Seu corpo sofria espasmos incontroláveis; correntes elétricas residuais ainda estalavam violentamente sobre sua pele, fritando suas terminações nervosas.

"É diferente da eletricidade normal...", Dante pensou, cravando os dentes com força até sangrarem para obrigar os próprios músculos a obedecerem. "Não dá para absorver essa energia como eu fazia com os golpes de Alone..."

— "Os raios dele estão imbuídos com propriedade divina" — Safira analisou em pânico, o som de páginas passando frenéticas preenchendo a mente dele. — "Eles usam a alma divina para atingir diretamente a sua alma. É Dano Verdadeiro. Bloqueios normais ou tentativas de absorção mágica são inúteis contra esse relâmpago!"

— "Está dizendo que eu não posso proteger meu mestre?!" — Asuka interveio, a voz furtiva do cachecol assumindo um tom agudo de puro desespero.

— "Calma, Asuka. Ela só disse que a magia dá dano direto" — Sora interrompeu, fria e analítica, ancorando o grupo. — "Mas os ataques físicos dele ainda seguem as regras do nosso mundo. A força bruta dos socos e chutes não tem a capacidade de atravessar defesas. O seu bloqueio físico não foi inútil, parceiro!"

Apoiando-se no joelho, Dante forçou-se a ficar de pé. Ele cerrou os punhos, os olhos bicolores cravados na silhueta imponente de Thor através da cortina de fumaça dissipando. Sua mente tática engrenou as marchas.

— Não existe técnica sem falha — Dante sussurrou, a voz rouca, porém firme. — Mesmo um deus deve ter algum ponto cego. Só temos que achar e explorar.

Thor, com a audição aprimorada, captou o sussurro. Uma gargalhada de puro escárnio rasgou o silêncio das ruínas.

— Ha! Com esses seus soquinhos leves, garoto? Mesmo que achasse uma fraqueza encravada na minha testa, não faria a menor diferença... É como assistir a um mosquito tentando matar um dragão. É patético.

Dante não se alterou. Com as costas da luva, limpou um filete de sangue espesso que escorria pelo canto da boca. Não havia uma gota de medo em sua expressão, apenas a frieza de um caçador encurralando sua presa em uma armadilha.

— Um mosquito... Entendo. — Dante flexionou os joelhos, o Éter carmesim vazando de seu corpo como fumaça. — Então vou te mostrar como até um mosquito derruba um dragão. Que interessante.

Ele disparou. As botas de Dante rasgaram o asfalto, correndo em um zigue-zague caótico e imprevisível. Thor simplesmente alargou a base das pernas e cruzou os braços em posição de combate defensiva, sem mover um músculo para interceptar. A arrogância o cegava; ele confiava tanto na própria invulnerabilidade que via a investida direta como um ato de suicídio.

Era exatamente o que Dante queria. O xadrez havia começado.

"Safira, consegue fazer algum ataque mágico de longa distância?", Dante calculou mentalmente, cruzando a marca dos dez metros.

— "Sim, chefe!"

— "Espera, vai gastar muita mana à toa contra a defesa dele!" — Sora alertou.

— "Tudo bem!" — Dante ordenou, o plano já perfeitamente desenhado na mente. Abruptamente, ele quebrou o padrão de corrida e saltou bem alto no ar. — "Lance agora!"

O grimório flutuante brilhou intensamente.

— Bola de Fogo!

Uma esfera de chamas alaranjadas e puramente padrão, quase rudimentar, disparou contra o peito do deus. Thor observou a magia se aproximar e deu uma risada incrédula. Uma magia primária daquelas? O mortal estava mesmo tentando arranhar um deus com um truque de aprendiz?

— Tá certo, moleque, eu vou te explodir por essa ofensa! — Thor rugiu, a indignação tomando conta de sua expressão. — Se quer tanto ir pro inferno, eu te coloco no colo do diabo!

Sem se mover de seu lugar, Thor apenas ergueu a mão direita e estalou os dedos. Uma violenta explosão de raios varreu o ar à sua frente, obliterando a bola de fogo muito antes de ela chegar perto. A colisão brusca entre o fogo mágico e a estática divina gerou uma cortina massiva de fumaça negra e areia derretida, obscurecendo completamente a visão de Thor.

A isca. Dante sorriu no ar. A fumaça havia sido erguida pelo próprio inimigo.

Antes mesmo que a primeira fuligem tocasse o chão, Dante emergiu de dentro da fumaça como um borrão escuro, materializando-se diretamente na guarda de Thor e disparando um soco cruzado no rosto do deus. Thor bufou pela obviedade do ataque. Com um reflexo preguiçoso, inclinou o pescoço para desviar e já armou um chute para estraçalhar o humano.

Mas o corpo de Dante não recuou após errar. Em vez disso, agiu como uma âncora. Em uma fração de segundo, o cachecol preto ao redor de seu pescoço — Asuka — esticou-se de forma antinatural, serpenteando e enrolando-se brutalmente ao redor do tornozelo do deus erguido para o chute.

— O que você está fazendo, seu merda?! — Thor praguejou.

Ele sentiu o puxão avassalador para baixo, forçando sua perna de volta ao asfalto. Seu centro de gravidade foi quebrado; sua postura, arruinada. O Dante à sua frente sorriu de forma oca. Era apenas um Clone. A imobilização.

No exato milésimo de segundo em que os olhos de Thor desceram para encarar a perna presa ao chão, uma flutuação de Éter gigantesca e assassina explodiu logo atrás de suas costas.

Lá estava outro Dante. Os punhos brilhavam com uma aura carmesim aterrorizante, concentrada e pronta para esmagar a nuca exposta do deus.

— Chronos Breaker! — O clone gritou, a voz rasgando o vento.

Thor arregalou os olhos. A epifania do perigo finalmente bateu. Cego pela própria fumaça, com os pés pregados no chão e atacado letalmente no seu pior ponto cego. O combo perfeito. Vendo que não tinha ângulo nem tempo para se esquivar, o Deus do Trovão entrou em pânico e apelou para a ignorância. Ele expandiu toda a sua aura divina condensada e a detonou de dentro para fora.

Uma onda de choque omnidirecional, uma cúpula perfeita de raios puros, varreu a área inteira. A força obliterou os dois clones de Dante de uma só vez, desintegrando-os em partículas inofensivas de luz.

Thor arfou pesadamente. A fumaça havia sido varrida pela sua onda de choque. Ele suava. Aquele mortal maldito o forçara a usar uma defesa absoluta desgastante. O induzimento.

— Seu merda... acha mesmo que um truque barato de três passos ia funcionar comigo? — Thor grunhiu, a respiração pesada, forçando-se a endireitar a postura e resgatando o sorriso arrogante. — Achei que ao menos teríamos uma luta mais...

As palavras de Thor morreram secas na garganta.

Ele olhou para a frente. A trinta metros de distância, confortavelmente sentado bem além do alcance mortal da onda de choque que Thor acabara de desperdiçar, estava o verdadeiro Dante.

O Caçador estava agachado em uma postura baixa de disparo. Sua mão direita estava erguida e firme, os dedos indicador e médio esticados e apontados diretamente para o centro do peito de Thor, como o cano frio de uma pistola letal. Na ponta de seus dedos, condensando-se em massa crítica com um zumbido agudo e aterrador, brilhava uma minúscula estrela rubra de Éter purificado.

"Esse desgraçado... Aquele desgraçado nas minhas costas também era um clone!", a mente de Thor finalmente acompanhou o tabuleiro do caçador, o pavor gelando seu sangue divino. Não era uma armadilha de três passos. Eram quatro.

— Queime, Estrela Rubra: Tenka! — Dante sussurrou.

Não houve projétil. Não houve raio. Houve apenas uma linha reta, contínua e instantânea de aniquilação pura e carmesim. O feixe ignorou as leis do espaço, atravessando os trinta metros em um milissegundo e vitrificando o solo em um rastro de vidro líquido por onde passava.

Thor não teve tempo sequer de piscar, muito menos de erguer a guarda. O feixe colidiu com força de artilharia pesada contra o peito do deus, arrastando-o violentamente para trás pelo ar enquanto o metal de sua armadura sagrada começava a derreter sobre a pele.

Mas a genialidade de Dante não conhecia piedade. O xadrez ainda não tinha acabado.

Enquanto Thor voava descontrolado para trás, as pernas balançando no ar sob a força do impacto incandescente, uma voz fria e irrevogável sussurrou bem no ouvido do deus, originando-se do exato ponto cego de sua trajetória de voo.

— Na verdade... foram cinco passos.

Os olhos de Thor quase saltaram das órbitas.

Aguardando flutuando no ar, exatamente na rota de colisão onde o corpo de Thor seria arremessado, estava mais um Dante. O último clone. Posicionado perfeitamente de costas para o original, ele mantinha a mesma pose letal de atirador, os dois dedos já brilhando como o núcleo de um sol em brasa.

— Queime, Estrela Rubra: Tenka! — O clone gritou.

Um segundo feixe carmesim disparou, vindo na direção diametralmente oposta ao primeiro.

Thor, esmagado no meio do ar, tornou-se a bigorna presa entre dois martelos. Os dois disparos superaquecidos colidiram com perfeição simétrica sobre o corpo do Deus do Trovão. A fusão simultânea das duas "Estrelas Rubras" ultrapassou a massa crítica. O impacto gerou uma detonação de chamas de altíssima temperatura que rugiu como um dragão de puro fogo, expandindo-se violentamente para os céus sombrios de Morpheus na forma de um colossal cogumelo flamejante.

Lá embaixo, com a poeira dançando ao seu redor e os dedos da mão direita ainda fumegando, Dante abaixou o braço lentamente. Seus olhos bicolores, gélidos e imperturbáveis, refletiam o inferno brilhante que ele mesmo acabara de criar.

A armadilha estava fechada. O mosquito havia acabado de morder.

Parte 2

A coluna de fogo carmesim lambeu os céus estilhaçados de Morpheus, banhando as ruínas flutuantes em um brilho apocalíptico e doentio. O calor residual da detonação era tão extremo que a chuva de fuligem evaporava a centímetros do asfalto vitrificado, criando uma névoa seca que arranhava a garganta a cada respiração.

Lentamente, a nuvem colossal em forma de cogumelo começou a ceder, varrida pelas correntes pesadas do vento elétrico daquele mundo quebrado.

Dante não relaxou. Mantinha a postura baixa, as botas firmemente cravadas no chão que agora não passava de vidro derretido. Sua respiração era um metrônomo perfeito. Seus olhos bicolores, frios e afiados como bisturis, perfuravam a fumaça rala em busca do cadáver de seu inimigo.

Mas, quando a cortina de poeira finalmente se desfez, a realidade deprimente e esmagadora de se enfrentar o divino nocauteou sua expectativa.

Thor ainda estava lá. De pé.

A majestosa armadura no peito do deus havia derretido sob o inferno carmesim, fundindo-se de forma grotesca à sua musculatura chamuscada. Um único filete de sangue, espesso e brilhante como ouro líquido, escorria pelo canto de sua boca.

E era apenas isso. A fusão das duas Estrelas Rubras — o ápice tático do arsenal de longa distância de Dante — havia engolido o deus com a fúria de uma ogiva tática. O resultado prático? Equivalente a um cruzado bem dado no maxilar de um lutador peso-pesado.

O ar na mente de Dante pareceu congelar.

— "Mentira..." — a voz de Safira falhou na conexão telepática. O pânico cru vazava de cada sílaba enquanto as páginas do grimório flutuavam e tremiam freneticamente ao lado de Dante. — "As duas Tenkas fundidas em massa crítica, direto no ponto cego... e ele não caiu?! A defesa passiva desse monstro absorveu quase toda a temperatura do plasma!"

— "A densidade muscular e óssea dele ignora o nosso poder de penetração, Mestre!" — Asuka soou estridente, a furtividade dando lugar ao desespero. O tecido do cachecol vermelho se contraiu ao redor do pescoço de Dante, apertando-o quase como se quisesse sufocá-lo em um abraço protetor. — "Se nossos ataques diretos perfeitos não causam dano letal, nós seremos esmagados na guerra de atrito!"

A geada da frustração começou a rastejar pelas beiradas da mente do Caçador. Mas, antes que o pavor de suas companheiras pudesse infectar seu raciocínio, uma voz afiada, selvagem e faminta cortou a telepatia.

— "Parem de choramingar, as duas!" — Sora rosnou. As manoplas nas mãos de Dante pulsaram com um vermelho ainda mais violento, desafiando a lógica matemática do confronto. — "Sangrou, não sangrou?! Se ele sangra, a biologia dele tem um limite! Não foquem na matemática do que não dá pra fazer com a nossa força atual! Foquem no que dá pra fazer! Ele sentiu o golpe, parceiro. Continue batendo!"

"Sora tem razão", Dante pensou, forçando as engrenagens da própria mente a reiniciarem e recalibrarem as variáveis da batalha.

A cem metros de distância, Thor virou o rosto com lentidão e cuspiu o sangue dourado no chão de vidro. O som sibilou quando o líquido divino tocou o calor do solo.

O deus não gritou. Não praguejou. Aquele sorriso sádico e arrogante, que ele ostentava como uma coroa desde o início, havia derretido junto com sua armadura. As íris elétricas de Thor travaram em Dante com uma frieza inexpressiva e letal. A brincadeira de gato e rato havia acabado. O orgulho do panteão fora arranhado por um mortal. Agora, o Deus do Trovão iria trabalhar.

Thor deu um único passo à frente.

O asfalto não estalou; ele desintegrou-se em pó sob a bota. Sem aviso, sem flexionar os joelhos ou desperdiçar fôlego com gritos de guerra, Thor simplesmente apagou a distância de cem metros. Não foi um borrão de velocidade. Foi um teletransporte cinético brutal.

Dante arregalou os olhos. A pressão atmosférica colapsou, esmagando seus pulmões antes mesmo de o ataque se concretizar.

O punho de Thor desceu rasgando a barreira do som, uma marreta de execução mirando o centro do crânio do Caçador.

"Asuka!"

O cachecol não esperou o comando consciente; a lealdade reagiu mais rápido que as sinapses. Em um microssegundo, dezenas de fios escuros de tungstênio mágico vomitaram do pescoço de Dante, tecendo uma barreira de cinco camadas hipercompactas de blindagem a milímetros do rosto do Caçador.

O soco colidiu. A força bruta amassou as três primeiras camadas de tungstênio impenetrável como se fossem papel-alumínio molhado. O impacto não parou; a onda de choque secundária varou o restante da malha e atingiu o esterno de Dante como o coice de um canhão.

O Caçador foi arremessado de pé para trás. Ele cravou as solas das botas no chão em puro desespero, rasgando duas trincheiras rasas de vinte metros de comprimento no asfalto apenas para frear a própria inércia.

"Que peso absurdo...", Dante trincou os dentes, o gosto de ferro subindo à boca enquanto os ossos de seus dois braços vibravam com uma dormência agonizante.

Mas o Deus do Trovão havia abolido o conceito de trégua.

Antes que Dante pudesse piscar, Thor ergueu as duas mãos abertas para o céu trincado. O Éter atmosférico ao redor deles contorceu-se, uivando de dor. Relâmpagos dourados despencaram das nuvens de fuligem, mas não detonaram no solo. Eles se moldaram. À frente das mãos de Thor, condensadas a partir de pura eletricidade mítica, duas bestas colossais materializaram-se com um bramido ensurdecedor. Eram dois bodes demoníacos de pura energia estática, os chifres faiscando como geradores industriais em curto-circuito. Correntes grossas de luz os prendiam aos pulsos do deus.

Dante franziu a testa, o intelecto travando por uma fração de segundo diante do absurdo mitológico. "O que diabos é aquilo?"

A resposta veio como aniquilação pura.

Tanngrisnir e Tanngnjóstr dispararam. Puxando Thor através das correntes, a investida quebrou as leis físicas do ambiente. As bestas não corriam; elas rasgavam o tecido do espaço em uma aceleração que cegava.

Dante tentou a esquiva. Músculos no limite, Éter bombardeando as veias, ele jogou o corpo em um mergulho desesperado para a direita.

Inútil. A velocidade era tão incompreensível que o impacto físico direto era desnecessário. A arma era o próprio vácuo deixado pela passagem atômica das feras. Dante não foi empalado pelos chifres, nem esmagado por Thor. Ele foi engolido e mastigado pela zona de arrasto.

A sucção o arrebatou como a lateral invisível de um trem-bala. O Caçador foi atirado aos céus, rodopiando como um boneco de pano com os cordões cortados. O mundo virou um centrifugador nauseante de céu negro e terra derretida. Ele quicou violentamente contra o chão, as costas fragmentando rochas colossais, arrastando-se até explodir contra as vigas de aço expostas de um prédio em ruínas.

Uma tosse úmida escapou de seus lábios, pintando o metal de vermelho. O labirinto em seu ouvido interno gritava em vertigem. O horizonte estava de lado.

Quando ele forçou as íris bicolores a estabilizarem o foco... a bota dourada de Thor já flutuava calmamente a centímetros de seu nariz.

Nenhum monólogo. Nenhuma chance de rendição. O deus girou o quadril e entregou um chute frontal no estômago de Dante — um golpe com a densidade do núcleo de um planeta anão.

A malha interna de tungstênio de Asuka evitou a evisceração instantânea, mas nada podia anular a Força-G contusa. A cratera atrás de Dante explodiu em estilhaços. O Caçador foi ejetado verticalmente, rompendo as nuvens baixas de fumaça, disparado centenas de metros em direção ao céu morto como um míssil balístico desgovernado.

O gosto amargo da bile e da impotência queimou sua garganta.

"Merda...", ele rosnou internamente, os membros sofrendo espasmos violentos causados pela carga elétrica enraizada em seus nervos.

Thor havia se tornado um cataclismo em movimento. Não parava, não dava janelas para contra-ataques, e a tática refinada de Dante parecia esfarelar contra aquela carapaça intransponível. Pendurado no ar no ápice do lançamento, Dante sabia de uma coisa: se o pânico de suas armas ou a sua própria frustração assumissem o controle do manche agora, ele seria um cadáver esmagado em exatos três segundos.

A caçada só acaba quando o coração para. E o dele ainda batia furiosamente.

Lutando contra a paralisia muscular do choque, Dante travou o maxilar e forçou o pescoço a girar. O sangue escorria de sua testa, invadindo os olhos, mas ele manteve as pupilas dilatadas, rastreando o campo de batalha microscópico lá embaixo. Procurando o erro. Procurando a falha geométrica.

Foi então que sua visão periférica de predador captou a anomalia.

A investida apocalíptica com os bodes havia rasgado o cenário, mas havia deixado uma assinatura brutal. Uma linha. Perfeitamente retilínea, cruzando a praça carbonizada de ponta a ponta, sem um único desvio de milímetro. Lá embaixo, o deus já flexionava as pernas para o salto final de abate, as bestas elétricas cavoucando o chão em fúria cintilante.

O cérebro tático de Dante, viciado na dissecação de milagres, estalou como um gatilho sendo puxado.

"Espera..." As íris bicolores se arregalaram. "Uma aceleração dessa magnitude tem um custo fatal na tração direcional. Ele passou direto por mim no primeiro golpe... ele não conseguiu curvar a trajetória para me acertar em cheio! Os bodes não fazem curvas em alta velocidade. Eles só o puxam em um vetor absoluto de linha reta!"

A gravidade interrompeu a epifania, cobrando a queda.

Dante despencou como um meteoro de carne e osso. O baque surdo e repulsivo de sua colisão ecoou quando ele afundou contra o teto de um furgão de carga abandonado. O impacto foi tão monstruoso que a lataria blindada do veículo colapsou, transformando-se em uma panqueca de metal rasgado sob o peso do Caçador.

A fumaça fúnebre subiu. O silêncio reinou pelas ruínas por um longo e torturante segundo.

Thor pousou graciosamente a dez metros do furgão. Os bodes de pura eletricidade desfizeram-se em faíscas que choveram ao seu redor. Com os braços cruzados, o deus fitou a cratera de metal retorcido, esperando o óbvio: uma poça de sangue e ossos moídos.

Mas o rangido torturado de metal grosso sob pressão quebrou a paz divina.

Dante se moveu.

Enquanto apoiava as mãos trêmulas nas bordas serrilhadas do furgão, um grunhido gutural e primitivo escapou de sua garganta. Ignorando a lógica médica, o Caçador forçou o próprio corpo quebrado a se erguer. Seu sobretudo estava em frangalhos. Seu rosto, uma máscara de sangue escuro e fuligem. A respiração chiava, mecânica... mas ele estava de pé. E, desafiando qualquer expectativa, seus ossos não estavam pulverizados.

As íris elétricas de Thor se estreitaram. A surpresa genuína e desconfortável finalmente rachou sua máscara de apatia.

"Esse garoto..." O deus engrenou a mente analítica, encarando a anomalia à sua frente. "A inércia das minhas investidas deveria ter feito o cérebro dele derreter contra o próprio crânio, mesmo com a roupinha viva bloqueando o impacto perfurante. A biologia dele... a resistência estrutural das fibras musculares desse humano é uma aberração. Não é apenas aprimoramento de Éter. O corpo base dele é anormal."

O desconforto, no entanto, durou pouco. Logo deu lugar a um sorriso inclinado e perigosamente sádico. Thor relaxou os ombros maciços, estalando os nós dos dedos. O som ecoou pelo deserto como rochas quebrando.

— Entendi. Você é duro na queda, ratinho — Thor riu. A voz áspera demonstrava que o humor sombrio voltara. — Não precisa se preocupar. Eu tenho todo o tempo do mundo. Isso só significa que eu vou ter que bater um pouquinho mais forte pra quebrar a sua casca.

Apoiado nos joelhos trêmulos, Dante lentamente virou a cabeça e cuspiu uma poça de sangue escuro no metal retorcido.

Quando ele ergueu o rosto, as íris bicolores cravaram-se no Deus do Trovão. Estavam mais afiadas e letais do que no início do combate. O desespero de suas armas havia sumido de sua mente. A dúvida física fora silenciada.

Ele havia dissecado a regra matemática da investida divina. Agora que sabia que seu corpo era capaz de suportar o tranco, só precisava desenhar a armadilha perfeita para usar a linha reta contra o próprio Rei do Raio.

Parte 3

Dante limpou o sangue espesso que escorria pelo queixo usando as costas da manopla escarlate. Sua respiração era rasgada e pesada, um chiado mecânico de pulmões que queimavam a cada lufada de ar carregado de ozônio tóxico. Mas, em contraste gritante com o corpo moído, seus olhos bicolores estavam assustadoramente serenos.

O pânico não tinha espaço ali. A mente do Caçador girava como um supercomputador operando em um overclock letal, dissecando as variáveis do ambiente hostil: calculando vetores de aproximação, densidade do ar, a inércia dos corpos celestes e, acima de tudo, condutividade térmica e elétrica.

"Ele só consegue se mover nessa velocidade incompreensível se for em linha reta, puxado por aqueles bichos", Dante arquitetou friamente, o plano se desenhando em frações de segundo. "E eletricidade... eletricidade sempre busca o caminho de menor resistência para o solo. Mesmo que ele injete a porra da alma divina nos raios, a física básica continua sendo a física básica."

Dante ergueu os dois braços. Em vez de preparar uma guarda defensiva ou armar um disparo mágico contra o deus, ele cravou as duas mãos nuas no asfalto estilhaçado de Morpheus.

Injetando seu Éter — pesado, magnético e superaquecido pelo plasma — direto nas entranhas da ruína, ele subjugou a matéria. O chão tremeu violentamente. Dezenas de vergalhões de aço estrutural, minério de ferro retorcido e destroços de vigas foram arrancados do subsolo como raízes mortas. Os metais flutuaram, atraídos para as mãos do Caçador por um magnetismo brutal, fundindo-se sob o calor escaldante até formarem um cilindro espesso, negro e rústico.

Um bastão de ferro maciço de dois metros.

Ainda agachado, Dante ionizou o metal ao extremo, imbuindo-o com a própria estática letal que havia absorvido dos golpes de Thor. Com uma joelhada seca e bárbara, ele quebrou um terço do bastão. Sem hesitar, fincou a ponta menor e incandescente profundamente no asfalto derretido, cravando-a como uma estaca no eixo central do campo de batalha.

Dante saltou dois metros para trás, segurando a parte maior e mais pesada da haste nas mãos.

— "Asuka!" — Dante ordenou telepaticamente, a voz cortante não admitindo recusas. — "Remova a proteção do meu peitoral e dos meus braços. Envolva esse bastão de metal. Agora!"

— "Mestre?! Isso é suicídio biológico!" — a voz furtiva de Asuka soou em puro choque. O tecido hesitou em seu pescoço. — "Se eu tirar a blindagem de tungstênio do seu torso, o próximo impacto direto dele em alta velocidade vai pulverizar as suas costelas e estourar os seus órgãos!"

— "Faça. Eu não pretendo ser tocado de novo."

Sentindo a resolução inabalável e predatória da alma de seu mestre, o cachecol obedeceu a contragosto. O tecido blindado de tungstênio vivo desenrolou-se rapidamente do corpo de Dante, deixando seu sobretudo rasgado e sua carne completamente expostos aos elementos. Como mercúrio negro, a malha fluiu e cobriu o bastão de ferro rústico, transformando a arma improvisada em um taco de beisebol denso, liso e virtualmente indestrutível.

Dante alargou a base das pernas, cravando as solas das botas no vidro derretido para garantir tração absoluta. Ele ergueu o bastão negro acima do ombro direito, torcendo a cintura e tensionando os músculos em uma postura clássica, quase irônica, de rebatedor. A ponta cega do bastão apontava diretamente para o rosto de Thor. O olhar bicolor brilhava com uma provocação muda e letal: Vem.

A cem metros dali, o Deus do Trovão assistiu à encenação. A carranca de Thor contorceu-se em uma risada grave, gutural e carregada de escárnio que fez os próprios escombros flutuantes tremerem no ar.

— Ah, é assim que você quer brincar de morrer, seu merdinha?! — Thor rosnou, a arrogância divina fervendo em suas veias. — Um pedaço de lixo de construção enrolado em pano mágico não vai parar um deus! Eu vou passar por cima de você e te partir no meio!

Os bodes mitológicos, Tanngrisnir e Tanngnjóstr, rugiram em uníssono. As grossas correntes de Éter que os prendiam aos pulsos de Thor estalaram em pura voltagem atmosférica. O deus parou de rir. Ele baixou o centro de gravidade, assumindo uma postura aerodinâmica perfeita, os olhos brancos focados apenas em obliterar o inseto humano.

"Aí vem ele", Dante trincou os dentes. "Safira. Magia de Gelo de alto nível. Você consegue conjurar uma agora?"

O grimório folheou suas páginas freneticamente na mente do garoto, as runas azuis brilhando em urgência.

— "Consigo, chefe! Mas o que você quer com gelo contra ele?! A temperatura não vai passar da barreira de estática, vai derreter e evaporar antes mesmo de tocar a pele divina!"

— "Eu não quero que toque. Fique pronta. Quando eu der o sinal, crie o maior iceberg que conseguir... direto no céu acima de nós."

O asfalto sob os pés de Thor implodiu em uma cratera de luz dourada.

O deus disparou. Ele não apenas correu; ele se tornou um feixe de luz eletromagnética e força bruta rasgando a praça. A velocidade beirava a dobra espacial, o atrito incendiando o oxigênio por onde passava. Noventa metros sumiram em um único piscar de olhos. A dez metros de distância, a lança de relâmpagos condensados no punho de Thor já estava armada, pronta para perfurar o coração exposto de Dante.

Mas o xadrez cósmico do humano já havia declarado xeque-mate.

No milésimo de segundo exato antes de o punho de Thor colidir com o peito de Dante, a trajetória implacável dos bodes elétricos os fez passar diretamente sobre a minúscula estaca de metal fincada no asfalto.

A estaca que Dante havia ionizado ao extremo, criando uma diferença de potencial absurda. O para-raios perfeito.

A atração eletromagnética foi primária, absoluta e inevitável. Como os bodes eram constructos forjados puramente de energia estática e moviam-se em uma linha reta inquebrável, a física os puniu. As feras de luz foram sugadas violentamente para baixo. Elas chocaram-se contra a estaca de ferro com um estrondo ensurdecedor que drenou a luz do campo de batalha, aterrando a carga colossal direto no subsolo profundo de Morpheus.

Os bodes desintegraram-se em um flash ofuscante.

O vetor de voo de Thor, no entanto, não parou. Sem as bestas para ancorar sua inércia, e com a interrupção repentina e brusca da magia de tração, o deus foi catapultado para a frente como um míssil destravado. Ele perdeu completamente a estabilidade gravitacional. Os olhos elétricos de Thor se arregalaram em puro choque enquanto ele voava, de peito aberto, desequilibrado e na velocidade do som, direto para a zona de strike do Caçador.

"O quê?! Um maldito... para-raios?!" — o cérebro do deus falhou diante da genialidade humilhante e crua do truque.

Dante não hesitou. Todo o peso do seu corpo mortal, a torção extrema da cintura, a inércia da rotação do quadril e o plasma fervente em suas botas foram canalizados em uma espiral cinética perfeita para os ombros. As fibras musculares de Dante gritaram sob a pressão. O bastão revestido de tungstênio cortou o ar com um zumbido letal, rompendo a barreira do som.

CRAAAACK!

O impacto do Home Run foi antológico. O cilindro de tungstênio negro colidiu em cheio contra a lateral do maxilar de Thor, esmagando o osso divino. A física pura e brutal superou o Éter.

Os dentes do deus trincaram. Thor foi ejetado verticalmente como uma bala de canhão dourada, o rosto contorcido de agonia e incredulidade, disparando em uma trajetória vertiginosa rumo às nuvens estilhaçadas.

— "SAFIRA! AGORA!" — Dante berrou, a voz ecoando na mente enquanto jogava o bastão para o lado.

— Iceberg Glacial!

No ápice exato da trajetória parabólica de Thor, a cem metros de altura, o grimório ativou. O Éter azul congelou a umidade atmosférica instantaneamente. Uma massa colossal de gelo pontiagudo e denso, do tamanho de um prédio de três andares, materializou-se em pleno ar.

O impacto foi devastador. Thor chocou-se de costas contra a base do iceberg com tamanha violência que a montanha voadora rachou de ponta a ponta. O som imitou o de uma geleira desmoronando. O deus ficou momentaneamente atordoado, os braços abertos, o corpo esmagado contra a superfície congelada.

Dante não deixou a gravidade agir. Com um estrondo, ele disparou rajadas espessas de chamas de plasma pelas solas das botas, decolando do chão como um foguete. Ele cruzou a distância vertical em menos de dois segundos, nivelando-se perfeitamente com Thor no ar. Em um movimento fluido, Dante espalmou a mão livre, em chamas, diretamente na superfície de gelo trincado, a centímetros do rosto do deus.

— Aceleração de Cronos!

Dante não socou o gelo; ele avançou brutalmente o tempo daquela matéria específica. Combinado com o calor do seu plasma superaquecido, o iceberg inteiro de três andares derreteu em um único e impossível milissegundo.

O que se seguiu foi o dilúvio. Uma cachoeira colossal e torrencial desabou nos céus, engolindo Thor e Dante em milhares de litros de água quente. O Deus do Trovão foi encharcado da cabeça aos pés enquanto ambos perdiam altitude e iniciavam a queda livre.

— "Asuka!" — Dante não perdeu um único quadro da coreografia mental.

Lá embaixo, o tecido negro de tungstênio que cobria o bastão descartado já havia desmoronado, assumindo a forma de um chicote vivo. Asuka disparou para o alto como uma víbora cega de fome. A ponta de metal enrolou-se como uma algema rígida ao redor do tornozelo do deus completamente ensopado.

Com um puxão selvagem que alavancou todo o peso do próprio corpo em queda livre, Dante rebocou Thor pelo ar, quebrando a aerodinâmica do deus e arrastando-o violentamente de volta para a zona de soco.

Despertando da concussão, Thor sentiu o tranco no tornozelo. Quando percebeu Dante se aproximando no ar, um sorriso sádico de vitória iminente rasgou o rosto molhado da divindade. Suas pupilas brilharam, inundadas de puro ódio dourado.

"Idiota...", Thor pensou, abrindo os braços e entregando-se ao puxão para o combate corpo a corpo. "Me puxando para uma trocação enquanto eu estou coberto de água? Água é o condutor elétrico perfeito! Eu vou fritar o seu sistema nervoso central até sobrarem só as cinzas das suas retinas!"

— Destruição Relampejante! — Thor rugiu com plenos pulmões, detonando a carga máxima e absoluta de sua aura elétrica à queima-roupa.

Mas o apocalipse prometido não veio.

Não houve o estrondo característico. Não houve a explosão ofuscante de luz dourada. Apenas uma dúzia de faíscas patéticas estalaram debilmente nos ombros úmidos do deus, morrendo de forma miserável e inofensiva antes mesmo de tocarem o tecido negro de Asuka.

Os olhos de Thor quase saltaram do crânio. "O QUÊ?!"

Dante já havia invadido a guarda perfeita. Seu rosto pairava a centímetros da face de Thor. As íris ocas e bicolores do humano perfuraram a arrogância estilhaçada e confusa da divindade. Ao lado de seu quadril, o punho escarlate de Dante recuou, emitindo um zumbido grave enquanto a aura distorcia o espaço-tempo ao seu redor.

— Chronos Breaker.

O soco deformou a realidade. O punho de Dante chocou-se contra a face molhada de Thor com fúria titânica. O tempo no ponto de contato fraturou como o para-brisa de um carro. A inércia do soco foi magicamente triplicada. O nariz sagrado do deus explodiu com um estalo repulsivo. Thor foi ejetado para trás, lançado pelo céu como uma pedra deslizando sobre a água, deixando uma trilha flutuante de sangue dourado.

— "Safira! Feche a rota!" — Dante comandou impiedosamente, acionando o plasma das botas para voar no encalço dele.

— Barreira de Cristal Hexagonal! — o grimório cantou.

Uma parede espessa, construída de pura energia sólida, ergueu-se cirurgicamente na rota de voo de Thor. O deus bateu de costas contra o vidro mágico com um baque surdo, ricocheteando para frente. Ele não tinha para onde recuar. Ele não podia ser lançado para longe. Estava cravado no ar.

Dante avançou como o próprio pesadelo. Aproveitando o nanossegundo de paralisia muscular do alvo causado pela quebra temporal, ele engatou a marcha.

Esquerda. Direita. Um gancho brutal e cavado direto no fígado. Um cruzado perfeito de direita. A cadência dos golpes era tão insana que os braços de Dante não passavam de borrões de chamas carmesim. Cada punho embebido em Éter denso e plasma superaquecido amaciou a armadura, afundando a carne divina contra a barreira sólida. O som de ossos celestiais estalando e carne imortal sendo moída ecoou como uma bateria de guerra contra o silêncio de Morpheus. O Todo-Poderoso havia sido reduzido a um saco de pancadas acorrentado aos céus.

Preso contra a barreira, engolindo os dentes e a pior humilhação de seus milênios de existência, o cérebro espancado de Thor finalmente conectou os fios da dedução científica.

"Essa água...", o deus cuspiu sangue borbulhante. A revelação aterrorizante atravessou a névoa de dor em sua mente. "A água não está conduzindo a energia... Por quê?! Antes, ele ionizou o maldito ferro para forçar a atração... Agora... O plasma! O calor do plasma dele derreteu o gelo instantaneamente e ferveu todas as impurezas minerais da água mágica! Ele destilou a água no meio da batalha! Ele transformou a água em um isolante elétrico perfeito! A minha carga não propaga porque a condutividade da superfície do meu próprio corpo está absolutamente zerada!"

Mas Dante não concedeu a Thor o luxo de terminar a tese de química.

O Caçador parou os punhos bruscamente. Girando a cintura no ar com uma torção violenta e desesperada, ele drenou até a última gota de sua aura carmesim e canalizou a inércia da queda em sua perna direita. O chute circular engoliu o ar e atingiu a costela molhada e exposta de Thor com a força pontual de um míssil de cruzeiro.

CRAAAACK!

A costela do deus implodiu. A Barreira de Safira, incapaz de suportar a pressão do impacto dividida entre dois corpos colossais, cedeu, estilhaçando-se em milhares de pedaços de vidro brilhante que choveram sobre Morpheus. Thor foi arremessado para a escuridão, despencando vertiginosamente rumo ao deserto de escombros como um cometa quebrado e sem brilho.

— "Ainda não!" — Dante rugiu, a fúria da caçada mantendo seus olhos em chamas. Ele projetou o braço, atirando o chicote de Asuka novamente para baixo para laçar o pescoço do deus e continuar a carnificina até arrancar a cabeça.

Mas a física, a mesma aliada que lhe dera a vitória, finalmente veio cobrar seu dízimo.

Quando o tecido de tungstênio disparou, um som úmido, asqueroso e molhado ecoou de dentro da própria caixa torácica de Dante.

CRACK.

O Caçador engasgou violentamente. O movimento parou no ar, congelado.

Os olhos bicolores se arregalaram em choque. O peito de Dante convulsionou, e ele vomitou uma quantidade obscena de sangue escuro e coagulado, manchando o próprio queixo e tingindo a gravidade. A visão periférica apagou-se, afogada em uma vinheta de escuridão absoluta. Uma dor cósmica, como se cada fibra muscular, cada nervo, estivesse sendo mergulhado lentamente em ácido sulfúrico, paralisou suas sinapses.

Seus ligamentos, fibras e tendões haviam cruzado a margem do limite celular de ruptura. O preço biológico por forçar uma estrutura humana a executar um combo de velocidade extrema, manipulação temporal contínua e absorção de inércia divina havia chegado. E a conta estava sendo cobrada em sangue. O hardware humano de Dante implodiu ao tentar suportar o software que ele mesmo havia programado.

Asuka sentiu a pulsação do mestre despencar e os músculos virarem gelatina. O choque traumático era imediato.

A perseguição a Thor foi abortada no mesmo microssegundo. Recuando em um frenesi aterrorizado, a faixa viva de tungstênio enrolou-se de forma rígida e punitiva ao redor do torso, pulmões, costelas e braços do Caçador. O cachecol abandonou seu papel como arma e converteu-se em uma armadura de contenção de emergência extrema, servindo como uma tala de metal impenetrável apenas para garantir que a estrutura óssea do humano não desmoronasse sob a pressão atmosférica enquanto despencavam.

Lá embaixo, enterrado na escuridão de uma cratera de vidro, Thor jazia estático, o corpo quase imortal forçado a processar a agonia de um massacre tático irrepreensível.

Lá em cima, aprisionado em sua própria arma, Dante despencava em queda livre. A mente genial e o plano perfeito finalmente subjugados e esmagados pelas correntes frágeis, imperdoáveis e implacáveis do seu próprio corpo mortal.

Parte 4

A gravidade finalmente cobrou o seu dízimo.

Dante colidiu contra o asfalto derretido de Morpheus não como um homem caindo, mas como um meteoro abatido. O impacto ejetou violentamente o pouco oxigênio que restava em seus pulmões, forçando-o a quicar e rolar descontroladamente pelo chão de vidro estilhaçado. O corpo do Caçador gritava em uma agonia contínua e dilacerante — um coro mudo de nervos em curto e fibras musculares rompidas —, enquanto a armadura negra de Asuka se contorcia ao redor de seu torso como um torniquete vivo e desesperado, tentando manter a estrutura óssea do humano unida a todo custo.

A dezenas de metros dali, no centro da cratera fumegante aberta pelo Home Run perfeito de Dante, o silêncio reinou.

Um silêncio fúnebre e estático de exatos três segundos.

E então, o som de pedras de vidro sendo esmagadas sob pesadas botas blindadas foi engolido por uma risada.

Começou baixa. Gutural. O som rasgou a garganta do deus e escalou rapidamente para uma gargalhada rouca, sádica e absurdamente alta, que fez a poeira flutuante do campo de batalha tremer em reverência.

Thor levantou-se. A silhueta maciça emergiu rasgando a fumaça rala. O Deus do Trovão estava ensopado da própria água purificada, com a majestosa armadura de peito irremediavelmente amassada e o rosto banhado em seu próprio sangue dourado. Mas ele não cambaleava. Nem um único milímetro.

Thor estalou o pescoço de um lado para o outro com um crack úmido, limpando o sangue dos lábios com as costas da mão grossa. O olhar arrogante e debochado de antes havia evaporado por completo. As íris elétricas de Thor agora queimavam com a frieza implacável e predatória de um guerreiro absoluto.

— Eu admito... — Thor falou. A voz não foi um grito, mas ressoou pela praça destruída com o peso de uma tempestade se formando. — Eu te subestimei feio, garoto. Achei que você fosse só mais um inseto barulhento no meu caminho. Mas a partir deste momento... eu, o Deus do Trovão, te reconheço como um inimigo real.

Ajoelhado nos escombros, tremendo e lutando apenas para manter o tronco erguido, Dante arregalou os olhos bicolores. Sua respiração falhou, o cérebro afogado em adrenalina recusando-se a processar a matemática da sobrevivência.

"Mentira...", Dante pensou, um gosto de ferro subindo à boca. "Ele tomou o combo perfeito. O plasma concentrado, a aceleração temporal de Cronos, os impactos de inércia bruta contra a parede de cristal... e ainda está de pé? Do que diabos é feito o corpo desse desgraçado?!"

Na mente estilhaçada de Dante, o alarme vermelho começou a soar em uníssono, ensurdecedor e letal.

— "Mestre, a situação é crítica!" — Sora alertou na telepatia. A ferocidade sádica habitual da manopla foi substituída por uma urgência gélida e calculista. — "Aquele combo exigiu demais da sua biologia. O seu nível de Éter está despencando. As magias de fogo, o iceberg e a barreira da Safira consumiram uma taxa massiva da sua reserva base."

— "Os seus músculos estão literalmente rasgando de dentro para fora, Mestre!" — Asuka avisou em puro pânico. O tecido do cachecol apertou-se quase até o sufocamento ao redor do peitoral de Dante para conter uma hemorragia interna que já inundava a caixa torácica.

— "Chefe, escuta a gente!" — Safira interveio aos gritos, as páginas do grimório folheando em um desespero cego. — "Por que você não usa uma das suas transformações agora?! É a única chance!"

Dante tossiu, cuspindo uma grossa poça de sangue negro no asfalto vitrificado. Ele cravou os dedos trêmulos no chão de vidro para forçar o próprio joelho a não ceder.

— Não adianta... — Dante respondeu em um sussurro rouco, o raciocínio frio lutando ferozmente contra a névoa da dor esmagadora. — Eu mapeei o ponto fraco de todas as minhas transformações atuais. Cada uma delas é uma faca de dois gumes brutal. Se eu melhorar a agilidade máxima, eu perco densidade de defesa. Se eu estourar a força bruta pra bater de frente, meu domínio e controle de Éter caem pra quase zero.

Dante ergueu o rosto ensanguentado. Seus olhos cravaram-se em Thor, que começava a caminhar em sua direção a passos lentos e ritmados, o peso de sua mera presença esmagando as pedras sob as botas.

— Numa briga de rua, isso funciona. Mas contra um monstro do topo da cadeia alimentar cósmica como ele... focar em um aspecto e negligenciar o outro é literalmente desenhar um alvo de neon na minha testa. É criar uma fraqueza óbvia e entregá-la de bandeja. Eu gastaria todo o meu Éter à toa, e ele me mataria na primeira brecha de status. Transformação pura, agora, é suicídio assistido. Eu preciso de outra estratégia.

A trinta metros de distância, a audição divina captou o chiado do sussurro físico de Dante, mesmo que o debate principal ocorresse na rede telepática das armas.

— Você fala bastante com esses seus equipamentos de brinquedo, ratinho — Thor zombou, parando de andar subitamente. Com um movimento pesado e deliberado, o deus levou as duas mãos à grossa e mística fivela de ferro em sua cintura. — E por falar em equipamentos... já que você teve a audácia de me mostrar o limite das suas arminhas, é justo que eu te mostre de verdade as minhas. Vamos começar a aquecer o sangue. Megingjörð!

O fecho do cinto sagrado estalou com o som de uma guilhotina caindo.

Uma luz dourada, radioativa e ofuscante explodiu da cintura do deus, tingindo as ruínas de Morpheus de amarelo-morte.

O oxigênio foi violentamente sugado da arena. A biologia de Thor não apenas reagiu à relíquia; ela extrapolou os limites toleráveis da realidade física. Os músculos do Deus do Trovão incharam de forma grotesca, uma hipertrofia aterradora que rasgou e desintegrou o que restava do tecido de sua camisa. Veias grossas saltaram sob a pele chamuscada como cabos de aço de uma ponte pênsil sob tensão máxima.

Os olhos de Thor reviraram, tornando-se duas poças de branco absoluto, emanando feixes contínuos e farpados de pura eletricidade concentrada. A própria gravidade ao redor dele pareceu chorar; o asfalto afundou e rachou trinta centímetros em um raio perfeito, apenas sob a pressão atmosférica passiva de sua força duplicada pelo cinto divino.

— Agora... — a voz de Thor não era mais a de um homem. Soava distorcida, sobreposta em duas camadas, como se a fúria de um furacão categoria 5 estivesse usando suas cordas vocais. — Tente não morrer rápido demais.

Dante não viu o movimento. O conceito biomecânico de "corrida" simplesmente deixou de existir. O deus obliterou o espaço-tempo entre eles.

Em menos de um centésimo de segundo, a massa muscular superdensa de Thor materializou-se varrendo o vento, bloqueando a luz do céu diretamente na frente do Caçador ajoelhado. Antes que o nervo óptico pudesse sequer registrar a imagem na retina de Dante, o punho sobrecarregado do deus desceu.

Colidiu em cheio contra o rosto do humano.

A força foi tão desproporcional e violenta que um anel de condensação sônica quebrou o ar no exato ponto e milissegundo do impacto.

Dante foi ejetado do chão não como um corpo, mas como a ogiva de um canhão naval. Ele rasgou o ar na horizontal, paralelo ao chão, girando descontroladamente em uma espiral de sangue, tungstênio e dor cega. Na sua mente, a cacofonia do desespero explodiu enquanto a conexão telepática ameaçava apagar sob o trauma cerebral. Safira, Sora e Asuka gritaram em puro e genuíno horror, as três consciências unidas em um único eco dilacerante:

— "DANTE!!!!!"

Mas Thor não o deixou cair. O deus não queria apenas bater; ele queria executar.

Pisando no próprio ar com tamanha força que fragmentou o Éter atmosférico, Thor surgiu levitando exatamente no meio da trajetória de voo balístico do humano quebrado.

— Você não é o único que sabe brincar de encadear combos, pirralho! — Thor rugiu, os braços abertos no ar como um predador abraçando a própria tempestade.

Lá no alto, desafiando a inércia da batalha, Thor cravou os dentes no próprio lábio inferior com força bestial. O sangue dourado, espesso e absurdamente carregado de divindade primordial espirrou de sua boca, chovendo como granizo em direção ao solo estilhaçado e morto de Morpheus.

— Colheita de Jörð! — Thor invocou. A voz ancestral reverberou pelos ossos do mundo, apelando para a magia profana de sua mãe, a personificação da própria Terra.

No microssegundo em que as gotas de sangue dourado e radioativo tocaram o chão morto, o asfalto derretido não apenas rachou; ele foi fertilizado e estuprado pelo Éter primordial. A terra rugiu em agonia.

Raízes grossas como tubulações de aço estouraram do subsolo em uma fúria botânica instantânea. Em milissegundos, dezenas de árvores colossais, feitas de uma madeira petrificada, negra e impenetrável, cresceram de forma violenta em direção ao céu, perfurando a fumaça rala como lanças de cerco.

Uma dessas árvores titânicas brotou do chão exatamente no vetor de voo de Dante, erguendo-se como um pilar de execução maciço a exatos três metros atrás de suas costas.

O Caçador colidiu violentamente contra o tronco intransponível.

O baque surdo da carne contra a madeira divina ecoou de forma repulsiva enquanto o último resquício de ar era expulso de seus pulmões estourados. Antes que o corpo inerte pudesse sequer começar a escorregar pela gravidade, as galhas petrificadas e grossas da árvore reagiram. Elas retorceram-se ao redor dos braços e pernas de Dante como serpentes de ferro fundido, cravando-o brutalmente contra a madeira ancestral em uma postura de crucificação.

Dante estava imobilizado. Uma presa ensanguentada enredada na teia de um pesadelo orgânico e inquebrável.

Thor avançou pelo ar contornando as raízes flutuantes, os olhos brancos rasgando o vento elétrico. Ele pousou pesadamente em um galho maciço bem em frente ao Caçador preso. E, sem um único pingo de misericórdia ou hesitação, engatou as engrenagens do inferno.

O Deus do Trovão iniciou o massacre contínuo.

Os punhos de Thor, agora operando com o dobro absoluto de sua força divina graças a Megingjörð, caíram sobre o corpo de Dante como uma chuva de meteoros.

Direita. Esquerda. Esquerda de novo. Direita cruzada.

No peitoral esmagado. Nas costelas laterais expostas. Fundo no estômago indefeso. A velocidade dos socos era tão cega que os braços de Thor pareciam dezenas de pistões simultâneos; a força de cada impacto era imensurável, fazendo a própria árvore colossal tremer até a raiz.

O som repulsivo de ossos fraturando e carne sendo triturada viva ecoou de forma nauseante e rítmica pela praça. Asuka chicoteava histericamente pelo corpo do mestre, tentando desesperadamente criar microescudos e camadas grossas de tungstênio sobre os pontos exatos de impacto antes que o soco chegasse. Mas a força monumental do cinto divino estilhaçava as defesas de metal superdenso a cada soco, atravessando o tungstênio como se fossem delicadas cascas de vidro fosco.

Dante engasgava incontrolavelmente. O sangue escuro inundava sua garganta, sufocando-o a cada golpe que afundava seus órgãos. A sua consciência piscava no escuro absoluto, como uma lâmpada prestes a queimar sob a tempestade.

— MORRA! — Thor urrou. A saliva espumosa misturada com eletricidade voava de seus dentes trincados.

O deus parou o combo. Ele recuou o braço direito gigantesco até o limite anatômico da articulação, os músculos latejando sob a luz dourada do cinto, acumulando todo o peso do céu em um único ponto. Ele desferiu o soco final como o pêndulo de uma marreta divina, cravando-o direto e impiedosamente no esterno ensanguentado de Dante.

BOOOOOM!

O impacto não foi apenas contuso; foi uma anomalia física. O soco não apenas afundou o peito de Dante a um nível crítico de sobrevivência. A onda de choque cinético foi tão estúpida que atravessou completamente o corpo do humano, transferiu-se para a madeira ancestral às suas costas... e simplesmente detonou a árvore colossal.

O tronco divino, da largura de um prédio de dois andares, explodiu ao meio em dezenas de milhares de lascas pontiagudas de madeira negra petrificada.

Com a amarra destruída, o corpo de Dante atravessou a explosão de madeira como um projétil morto, arremessado brutalmente para o outro lado da gigantesca arena. Ele cuspiu uma longa torrente vermelha no ar enquanto voava.

O Caçador caiu e rolou dezenas de vezes pelo chão impiedoso de cascalho afiado e asfalto quebrado, o corpo quicando de forma antinatural e desarticulada até deslizar e parar. Completamente inerte, virado de bruços no fundo de uma pequena ravina fumegante aberta pela batalha.

O céu escuro e trincado de Morpheus chorou estática.

A crise havia escalado para um abismo sem retorno biomecânico. Thor não era apenas forte ou rápido; ele era, naquele momento, a encarnação indestrutível do próprio massacre contínuo.

Se Dante não forçasse os últimos cacos úmidos de sua mente destroçada a encontrarem um milagre tático imediato ali, no fundo daquela vala... o próximo soco seria, sem sombra de dúvida ou hesitação divina, o fim absoluto de sua existência.

Parte 5

O som da floresta colossal crescendo de forma anormal ao redor de Dante era ensurdecedor. O ranger agudo da madeira petrificada rasgando o asfalto misturava-se ao zumbido oco de seu próprio coração falhando e aos gritos telepáticos de suas armas, que ecoavam como estilhaços de vidro nas paredes do seu crânio.

Deitado de bruços no fundo da ravina rasgada, Dante respirava de forma engasgada. O gosto espesso de ferro e poeira inundava sua boca a cada lufada de ar tóxico.

"Vamos... pense em algo. Pense em algo, cacete!", a mente do Caçador debatia-se freneticamente contra a escuridão convidativa da inconsciência. "Não vacile. Não apague. Se você fechar os olhos agora, vai morrer enterrado aqui. Pense! A matemática está contra você. Ele é mais forte. Ele é mais rápido. A biologia divina dele quebra as regras do jogo..."

Os dedos trêmulos e ensanguentados de Dante cravaram-se na terra suja, arranhando o vidro derretido em busca de uma âncora.

"Mas não é a primeira vez. Não é a primeira vez que você enfrenta um monstro insuperável de frente e sobrevive."

Uma memória distante, quase afogada pelo caos recente do luto, piscou na escuridão de sua mente. O brilho ofuscante de uma batalha passada. O cheiro de cinzas de um inimigo que era incalculavelmente mais veloz e letal; um combate onde seus ataques diretos eram como jogar areia contra um furacão. Mas ele havia vencido. Mesmo que seus golpes normais fossem inúteis, ele havia encontrado a brecha na engrenagem.

O estrondo de botas blindadas esmagando pedras de vidro o trouxe brutalmente de volta à realidade. Thor havia chegado à beira da ravina. O Deus do Trovão olhava para baixo, a silhueta maciça obscurecendo o céu, como um açougueiro avaliando o gado abatido.

Com um grunhido gutural e primitivo, Dante forçou os braços que se recusavam a obedecer e levantou-se, cambaleando pateticamente. Ele deu um passo trêmulo para trás, mas a velocidade de Thor, agora impulsionada pela relíquia Megingjörð, era uma ofensa direta à física. O deus não pulou; ele simplesmente distorceu o espaço. Materializando-se na frente do garoto, Thor desferiu um chute frontal massivo, cravando a bota direto no estômago do Caçador.

Dante foi ejetado pelo ar. O último resquício de oxigênio foi varrido de seus pulmões enquanto ele voava de costas, desenhando um arco sangrento sobre os escombros de Morpheus.

Lá embaixo, Thor flexionou os joelhos grossos como troncos de carvalho, pronto para saltar, interceptar o humano no céu e triturá-lo em pleno ar.

— "Safira! Crie água! Agora!" — Dante berrou telepaticamente, a mente operando no desespero da queda livre.

A gyaru mágica não entendeu a lógica. Jogar água comum em um Deus do Trovão no meio de um salto parecia a receita perfeita para fritar o próprio mestre antes mesmo de ele tocar o chão. Mas a lealdade engoliu a dúvida. Ela sabia que uma fração de segundo de hesitação custaria a vida de Dante. O grimório brilhou em um azul-safira ofuscante, conjurando uma torrente massiva e circular de água diretamente no ar, exatamente na trajetória entre o deus e o garoto.

Thor freou a investida, cravando as botas e rasgando o asfalto. Os olhos brancos se estreitaram em pura desconfiança tática.

"Água de novo? Uma armadilha óbvia", o deus analisou friamente, os músculos tensos. "Ele quer conduzir a minha estática pra me prender, ou destilá-la para cancelar meus ataques outra vez." Conhecendo a inteligência primária e irritante do humano, o deus guerreiro decidiu não avançar às cegas contra a parede líquida.

Mas a água nunca foi o alvo.

Ainda no ar, sentindo o corpo colapsar rumo à terra, Dante raspou o fundo do poço de sua energia. Usou a última fagulha de eletricidade residual fritando em seus nervos e a fundiu ao calor absurdo do plasma de suas manoplas. Em um flash incandescente de energia direcional, ele atingiu a parede de água de Safira. A torrente ferveu e evaporou em um impossível milésimo de segundo. A explosão térmica gerou uma colossal cortina de vapor superaquecido e hiperdenso que engoliu a ravina e a floresta petrificada inteiras, mergulhando a arena em uma névoa branca e impenetrável.

Dante pousou sem fazer ruído, os joelhos quase cedendo ao impacto, escondendo sua presença esmagada no coração da névoa fervente.

Do outro lado, Thor cruzou os braços maciços e plantou os pés no chão. O Deus do Trovão aguardava. A musculatura inteira estava tensionada como as engrenagens de um canhão naval, pronta para deflagrar um contra-ataque letal assim que o pirralho tentasse um bote furtivo na fumaça.

Mas Dante não se moveu. Ele ficou estático e fechou os olhos.

— Concentre-se... — Dante ordenou a si mesmo em um sussurro rouco, ignorando o gosto metálico do sangue inundando as gengivas. — Daquela vez, você conseguiu fazer. Você só precisa puxar aquela mesma sensação mais uma vez.

Ele afundou na própria mente, tateando o escuro até encontrar uma lembrança muito específica. Uma espada. Aquela arma colossal que ele empunhara outrora sob a Autoridade da Possibilidade. O conceito absoluto de peso e poder ecoou na física maleável do mundo estilhaçado de Morpheus.

— Neste mundo... as memórias têm poder real, não têm? Foi isso que você me disse... — A concentração de Dante tornou-se tangível, uma pressão atmosférica que começou a rasgar o ar úmido ao seu redor.

O braço esquerdo do Caçador acendeu em um brilho violento. Uma marca roxa, estritamente geométrica e complexa, rasgou a pele de dentro para fora, irradiando Éter em alta frequência. O ar nas costas de Dante distorceu-se e, com um som visceral de carne se rasgando e cartilagem se reorganizando, uma cauda demoníaca e pontuda rompeu a base de sua coluna, chicoteando o vapor com um estalo letal. O sangue de sua linhagem ancestral respondia ao chamado desesperado daquela memória.

Dante ergueu as mãos nuas à frente do peito. O Éter condensou-se violentamente no espaço vazio entre suas palmas, subjugando as moléculas, moldando o peso atômico e forjando a forma exata da espada arrancada de seu passado.

— Sora! Agora! Personoarma! — Dante gritou, a voz rasgando a névoa.

As manoplas de Sora reagiram à anomalia conceitual com um brilho ofuscante. O plasma derretido fundiu-se à memória sólida. A arma materializou-se, caindo nas mãos de Dante com um peso tão esmagador que quase deslocou seus ombros feridos.

Era uma claymore imponente e monstruosa, forjada de um metal alienígena preto como a obsidiana mais pura, polida com um brilho assombroso que parecia devorar a própria luz ao redor. Um contraste visual violento entre escuridão absoluta e energia predatória. O corpo maciço e escuro era atravessado por bordas incandescentes, como veias latejantes bombeando uma luz vermelha puríssima. O punho complexo exibia uma guarda curva de metal polido, unida a uma haste central escarlate. A lâmina assimétrica possuía uma curvatura voraz, alargando-se perigosamente antes de terminar em uma ponta terrivelmente afiada. Uma presença tão ameaçadora que fazia as próprias partículas de água no ar ferverem de pavor.

— "Dante... essa espada..." — Sora murmurou, a voz habitualmente feroz da manopla agora soando genuinamente atordoada diante da anomalia que abraçava.

— "É a minha aposta" — Dante respondeu.

— "Chefe... o seu olho!" — Safira alertou, o pânico agudo cortando a telepatia.

Dante grunhiu, sentindo o calor escaldante. Uma chama etérea, vibrante e espectral havia entrado em combustão espontânea, cobrindo e substituindo completamente o seu olho direito.

Imediatamente, uma torrente oceânica e insuportável de informações espaciais, vetores de inércia, cálculos de probabilidade e linhas de tensão matemática inundou o seu córtex frontal sem pedir permissão. A dor foi excruciante. Agulhas de gelo perfurando o fundo do crânio. O Olho da Verdade havia despertado, conectando a mente mortal de Dante direto ao código-fonte daquele universo morto.

— Merda... logo agora essa coisa resolve aparecer pra fritar o que sobrou do meu cérebro... — Dante trincou os dentes até ouvi-los estalar.

A visão sobre-humana de seu olho flamejante começou a decodificar os movimentos atômicos do asfalto, do vapor e do corpo de Thor em tempo real, sobrepondo o mundo com equações holográficas brilhantes.

— Não importa. Isso não muda o que deve acontecer.

Nesse exato décimo de segundo, uma voz inédita ecoou no fundo de sua mente. Era feminina, gélida, incalculavelmente orgulhosa e afiada como o fio molecular de uma navalha. Uma consciência soberana, completamente distinta de suas três companheiras habituais.

— "Vejo que finalmente resolveu me puxar de novo para brincar, Portador da Chama..." — a entidade observou.

Dante não piscou. O olho bom encarou o reflexo negro da claymore de obsidiana cravada em suas mãos. Ele já estava se acostumando de forma doentia com a sensação de abrigar vozes em sua cabeça.

— "Você lembra da nossa última batalha?" — Dante perguntou mentalmente.

— "Óbvio" — a voz respondeu, o desdém pingando com uma elegância aristocrática e cruel. — "Eu não costumo esquecer carnificinas."

— "Perfeito. Então faça o favor de confirmar a teoria pra mim..."

Lentamente, a cortina de vapor espesso começou a ceder, varrida e retalhada pela brisa estática de Morpheus.

Thor apertou os olhos brancos. A silhueta do inimigo finalmente se revelou. A trinta metros de distância, Dante estava parado. Mas a postura do garoto quebrado era um insulto imperdoável, um cuspe venenoso atirado no rosto de uma divindade soberana.

Dante segurava a nova e aterradora claymore de obsidiana casualmente apoiada no ombro direito. As pernas afastadas. O tronco virado de lado. Ele estava milimetricamente posicionado como um jogador de beisebol na base. A mesmíssima postura arrogante, zombeteira e insuportável que ele havia usado para humilhar o deus com o para-raios minutos antes.

O Deus do Trovão abriu um sorriso grotesco. Os dentes manchados de sangue apareceram enquanto os músculos faciais se retorciam em uma mistura de escárnio puro e fúria homicida.

— Sério? Você quer fazer isso de novo?! — Thor gargalhou, a voz ecoando como avalanches de pedra. — Acha que eu, o Deus do Trovão, vou cair no mesmíssimo truque magnético de primário duas vezes seguidas, moleque?! Dessa vez... a sua ciência barata não vai funcionar!

Com um controle absoluto sobre o próprio núcleo de Éter, Thor desligou a voltagem. A eletricidade morreu. As faíscas que orbitavam seu corpo desapareceram no ar. Os olhos, antes brancos e cegos pela luz, voltaram ao normal, frios e mortalmente focados. Ele não daria um único milivolt de estática para o pirralho usar como atalho direcional. Ele iria esmagar aquele saco de ossos de forma primitiva e honrada, usando pura, simples e incalculável força bruta.

"Sem a eletricidade, ele não pode isolar o impacto ou me aterrar. Ele vai ter que depender única e exclusivamente de uma disputa de força frontal com aquele pano estúpido e essa espada nova para tentar bloquear um meteoro", Thor calculou, a vitória já garantida em sua mente.

A musculatura massiva das pernas do deus tensionou-se ao ponto de afundar o chão, pronta para deflagrar uma energia cinética comparável à detonação de um propulsor aeroespacial.

A trinta metros, o olho flamejante de Dante operava em hiperspeed. O código-fonte de Morpheus escorria por sua visão. Ele viu a eletricidade da alma de Thor sumir até o zero absoluto, confirmando a isca. Ele leu a intenção brutal de cada contração muscular nas pernas da divindade através das linhas de vetor de força desenhadas no ar.

A dor em seu crânio era alucinante, uma fissão nuclear mental. A sobrecarga do Olho da Verdade ameaçava desligar o seu sistema nervoso central antes mesmo de o golpe do deus se materializar.

— "Asuka..." — Dante sussurrou, sentindo as bordas da visão escurecerem pela síncope. — "A matemática é pesada. Se o meu corpo travar ou apagar no milésimo de segundo exato em que eu precisar torcer o pulso... mova os meus braços por mim."

— "Entendido, Mestre! Até o último fio!" — O tecido negro retesou-se em suas costas, ombros e antebraços, fundindo-se cirurgicamente à pele de Dante para operar como um exoesqueleto robótico de marionete.

O asfalto sob os pés de Thor implodiu em uma cratera gigantesca.

O deus não correu; ele foi ejetado do chão. Lançado como um meteoro dourado de carne densa e osso inquebrável, Thor voou paralelo ao chão rasgado. Rompendo a barreira do som com um guincho agudo, ele canalizou todo o peso titânico de Megingjörð em uma voadora direta.

Toda a gravidade. Toda a velocidade. Todo o ódio focado em um único ponto: o centro do peito do Caçador. Aquilo não era um golpe planejado para quebrar costelas; era um impacto de esmagamento total, projetado para transformar o humano instantaneamente em uma névoa rosa de sangue e poeira.

Não havia, matematicamente, como o corpo de Dante vencer aquilo em uma disputa de força. Não havia, biomecanicamente, como esquivar a tempo.

Mas Dante não pretendia competir com a força colossal de Thor. Ele pretendia roubá-la.

A monstruosa lâmina de obsidiana zumbiu, o núcleo brilhando em um escarlate cegante e predatório. Dante cravou as botas no asfalto até a borracha chiar, o olho em chamas rastreando e desenhando o vetor matemático exato do impacto em sua retina.

O Caçador girou a cintura e torceu os pulsos com uma precisão cirúrgica irreplicável, puxando o balanço da espada monumental direto contra a bota divina que se aproximava.

— Balança de Raguel!

A claymore e a voadora divina colidiram no ponto cego da realidade.

O mundo ao redor deles silenciou. Por um milésimo de segundo impossível, a física fundamental de Morpheus simplesmente curvou-se e quebrou.

A habilidade conceitual da Balança de Raguel não tentou barrar a muralha. A lâmina interveio no código do mundo e absorveu absolutamente cem por cento da inércia e da energia cinética daquela voadora. A espada engoliu a força. Ela anulou o dano do impacto no corpo de Dante, dobrou o cálculo da carga gravitacional absorvida, fundiu a equação à fúria do plasma escarlate de Sora, e devolveu o apocalipse inteiro em um único, implacável e absoluto arco de corte. Tudo na mesma fração absurda de segundo.

CRAAAAAACK!

O som de osso e cartilagem divinos sendo obliterados contra a própria força ecoou pela ravina como a detonação de artilharia pesada.

A explosão da pressão atmosférica devolvida varreu os destroços. A onda de choque pulverizou a fumaça, arrancou as raízes da floresta e limpou a arena em um raio perfeito de cinquenta metros, criando um furacão estéril no centro de Morpheus.

A perna direita de Thor sofreu uma fratura exposta indescritível, o osso sagrado estilhaçando de dentro para fora, rasgando a musculatura perfeita e a armadura. O Deus do Trovão arregalou os olhos completamente brancos, o ar travando na garganta enquanto o choque asfixiante e inédito da dor verdadeira rompia as comportas de sua invulnerabilidade milenar.

No nanossegundo consecutivo, sem dar ao deus a chance de processar o desastre, o corte maciço do plasma hipercondensado — carregando agora o dobro do próprio peso de Thor — varreu o ar e acertou em cheio o peito já afundado da divindade.

O Deus do Trovão foi ejetado. Arremessado como um boneco de pano estraçalhado, o corpo dourado de Thor cruzou a ravina quilométrica. Ele rasgou brutalmente o asfalto, quicando como uma pedra lançada num lago violento, atravessando os troncos intransponíveis de três de suas próprias árvores colossais antes de desaparecer completamente na poeira esmagada.

Mas a física sempre cobra os juros da casa.

O recuo colossal de canalizar voluntariamente o dobro da energia cinética de uma divindade furiosa através das articulações finas de um corpo mortal aniquilou a anatomia de Dante.

Todos os músculos, tendões e cartilagens de seus antebraços, ombros, costas e pernas romperam simultaneamente. O som úmido de milhares de fibras de carne rasgando ao mesmo tempo foi nauseante. O Caçador engasgou bruscamente, tossindo uma espessa torrente de sangue escuro e coagulado que encharcou o chão. O sistema entrou em falência. Sangue fresco e vivo começou a vazar agressivamente por seus ouvidos, descer por suas narinas e escorrer profusamente do olho em chamas — que piscou uma única vez antes de se apagar instantaneamente na escuridão, devolvendo a cegueira e a ignorância abençoada.

A espinha dorsal perdeu a sustentação. O corpo mortal de Dante cedeu por completo. Ele caiu pesadamente de joelhos, o baque surdo de ossos falhos contra o vidro quebrado ecoando na ravina.

Nos últimos milissegundos de controle motor, ele cravou a ponta cega da claymore de obsidiana no chão. Com as mãos frouxas e arruinadas presas ao cabo, ele usou a arma ancestral como uma muleta desesperada. Foi apenas a tensão brutal do exoesqueleto de Asuka travando em seus ombros que impediu o Caçador de desabar de rosto e afogar-se na própria poça de sangue.

Ofegante. Cego do lado direito. O corpo tremia de forma espasmódica em um choque neurogênico irreversível pelo colapso total do sistema nervoso central. O Caçador ergueu levemente o queixo manchado.

Um sorriso oco. Cansado. Pintado de um vermelho vivo e irônico, desenhou-se dolorosamente em seu rosto pálido.

Dante encarou o vazio da poeira esmagada no horizonte, exatamente onde a divindade havia sido arremessada.

— Se eu não posso ficar mais forte que você na queda de braço... — Dante sussurrou, a voz morrendo na garganta rasgada, os olhos bicolores pesando como âncoras de chumbo. — Que tal... receber o peso da sua própria burrice de volta... idiota.

Parte 6

O mundo voltou devagar, embaçado e afogado em um zumbido agudo, quase ensurdecedor, que preenchia cada milímetro do interior de seu crânio. O gosto espesso de cobre oxidado e terra morta inundava a sua boca, descendo e rasgando pela garganta a cada respiração arrastada.

A primeira coisa que o cérebro de Dante registrou, antes mesmo de as comportas da dor se abrirem, foi uma anomalia sensorial absurda e completamente fora de lugar para um campo de batalha: algo macio e quente repousava sob a sua nuca machucada.

Ele piscou pesadamente, forçando o olho esquerdo a abrir — o direito estava inchado, cego e colado por uma crosta de sangue seco. Aos poucos, a visão turva e manchada de vermelho encontrou o foco. Acima dele, pairavam as duas garotas, de volta às suas formas humanoides de carne e osso.

Sora, com seu visual característico de lolita gótica e roupas de couro preto rasgadas pela tensão do Éter, estava sentada nos escombros afiados, ignorando a própria sujeira enquanto segurava a cabeça de Dante cuidadosamente em suas coxas. Safira, a gyaru de curvas fartas, estava de joelhos ao lado dele, curvada sobre o seu corpo quebrado. As mãos dela tremiam violentamente, brilhando com uma luz verde fraca e desesperada que empurrava contra o peitoral esmagado do Caçador. Lágrimas grossas e silenciosas escorriam pelos rostos manchados de poeira das duas.

— "Dante! Chefe, por favor, fica comigo!" — a voz de Safira soluçou diretamente em sua mente, o pânico distorcendo a telepatia e fazendo a luz curativa oscilar.

Como um gatilho sendo puxado, a memória da colisão titânica explodiu em seu córtex.

Dante engasgou violentamente. O único olho bom se arregalou em puro terror tático. O instinto de sobrevivência primitivo berrou em seus ouvidos que Thor ainda estava vindo, que a montanha dourada iria esmagá-los. Ele tentou se jogar para a frente, forçando os braços a erguerem a guarda.

Mas a biologia negou o comando.

Uma dor tão alucinante e absoluta, que o fez ver flashes brancos de cegueira, rasgou cada fibra muscular do seu ser. Antes que pudesse destruir ainda mais o próprio corpo com o movimento brusco, o cachecol ao redor de seu peito apertou-se violentamente, imobilizando-o no chão como uma camisa de força de aço vivo.

— "Não se mova ainda, Mestre!" — ordenou Asuka em sua mente. — "Os seus músculos estão desfiados. Eu estou usando o tungstênio para estabilizar a sua estrutura óssea e impedir que seus órgãos colapsem. Safira está fazendo o que pode com a magia de cura, mas... com as nossas reservas de Éter quase zeradas, isso é só um paliativo para você não sangrar até a morte!"

Dante ofegou, o peito subindo e descendo em uma respiração curta e arrastada, sentindo as costelas estalarem contra o aperto da armadura improvisada.

— O... o Thor... — ele sussurrou. A voz não passava de um chiado rasgado e úmido enquanto tentava, em vão, empurrar o chão de vidro. — Aquele maldito... ele vai levantar de novo... É impossível que... que só aquilo tenha o derrubado...

Sora deslizou as mãos frias e delicadas pelos ombros do Caçador, ajudando-o com extrema cautela a escorar as costas contra a carcaça petrificada de uma das árvores de Thor. A lolita limpou as lágrimas do próprio rosto com as costas da mão e forçou um sorriso aliviado, embora os lábios ainda tremessem.

— "Está tudo bem, parceiro. Pode relaxar. O monstro apagou de verdade."

Dante piscou, incrédulo. A mente analítica e calejada recusava a informação como um erro de cálculo impossível.

— Como...?

— "Lembra do que você viu no último milissegundo?" — explicou Sora. O tom de voz dela reassumiu uma frieza tática impressionante, embora contrastasse duramente com os olhos vermelhos e úmidos do choro. — "Ele retraiu a eletricidade. O ego daquele deus era tão gigantesco que ele recolheu toda a aura divina e o Éter defensivo para não correr o risco de cair em outra armadilha magnética sua. Ele confiou única e exclusivamente na força bruta do próprio corpo, sabendo que, no pior dos casos, os nossos ataques diretos não atravessariam a carne dele."

Sora ergueu o queixo, apontando para a gigantesca claymore de obsidiana que descansava cravada no chão de asfalto ao lado deles, o núcleo escarlate ainda pulsando fracamente.

— "Mas isso significa que, no instante em que a sua Balança refletiu o golpe, Thor recebeu o impacto do próprio ataque divino, com a força duplicada... e ele recebeu tudo isso com zero proteção mágica no corpo. A pura física rasgou a carne que o Éter não estava protegendo. Some isso ao dano interno que você já tinha acumulado nele com os combos de inércia... O corpo dele simplesmente cedeu à matemática. Você quebrou o deus, parceiro."

Dante ouviu a explicação em silêncio. A lógica processada era perfeita. Irrefutável. A armadilha de orgulho havia funcionado em sua totalidade mecânica. Ele havia vencido a entidade intocável que prometera transformá-lo em pó.

Mas não houve o menor esboço de um sorriso de vitória em seu rosto.

Lentamente, como engrenagens enferrujadas, Dante ergueu as duas mãos trêmulas na frente do rosto. Agora que Sora estava em sua forma humanoide, sem as manoplas envolvendo seus braços para esconder a carnificina, ele pôde ver a própria ruína. Seus dedos estavam de um roxo doentio, inchados de forma grotesca, tremendo incontrolavelmente de exaustão e dano celular extremo. Ele mal conseguia manter a própria coluna cervical ereta sem o apoio áspero da árvore e do tungstênio de Asuka.

O olhar bicolor de Dante escureceu. A frieza tática que o mantivera vivo derreteu abruptamente, dando lugar a um buraco negro de amargura.

Os ombros do Caçador começaram a tremer. Não de frio. Lágrimas grossas e quentes transbordaram de seu olho esquerdo, traçando caminhos limpos e dolorosos sobre a pele suja de fuligem e sangue escuro, caindo silenciosamente no asfalto quebrado de Morpheus.

Safira interrompeu o feitiço de cura por um segundo, as mãos trêmulas parando no ar, os olhos arregalados em choque ao ver o pranto do chefe.

— M-Mestre? O que foi? Onde tá doendo mais?!

— "Safira, cura ele rápido, o choque biológico deve estar piorando!" — ordenou Asuka, a voz holográfica soando estridente e desesperada.

— Eu tô curando! Eu tô dando tudo o que eu tenho!

— Quietas, vocês duas! — repreendeu Sora, a voz soando grave, madura e incrivelmente triste.

A garota vestida de couro olhou para o rosto contorcido de Dante com uma compreensão melancólica que ia além das estatísticas de batalha. Ela conhecia a alma dele.

— Vocês não entenderam... Não é dor física que ele está sentindo. É frustração.

A voz real de Safira e a telepatia urgente de Asuka soaram em um uníssono confuso:

— "Mas... por quê? Ele não venceu?"

Dante engasgou. Um soluço denso, preso na garganta, rasgou seu peito machucado.

— Eu venci... — ele sussurrou. A voz trêmula transbordava um ódio corrosivo, não direcionado aos deuses, mas inteiramente a si mesmo. — Mas não era ele quem eu deveria ter vencido.

Dante apertou os punhos arruinados, ignorando a dor absurda até os nós dos dedos roxos estalarem. A visão embaçou ainda mais pelas lágrimas enraivecidas enquanto ele desviava o olhar para o horizonte, fixando-o na direção do altar brilhante e intocado da Árvore Dourada, tão distante dali.

— Olhem pra mim... — a voz de Dante quebrou de vez, a vulnerabilidade nua e crua rasgando o ar da ravina. — Com esse corpo... nesse estado patético... Não há absolutamente nada que eu possa fazer contra o Lysander agora. Eu lutei, eu sangrei... e mesmo depois do que eu prometi, mesmo depois do que aquele desgraçado fez com a Anna... eu não vou conseguir fazer nada de novo. Eu sou inútil.

O silêncio fúnebre engoliu a ravina. O luto desabou sobre o pequeno grupo. Safira baixou o rosto, o lábio inferior tremendo enquanto chorava em silêncio de frustração. Asuka ficou em silêncio. Até mesmo Sora, sempre a âncora racional, desviou o olhar para o asfalto, sem ter palavras táticas que pudessem consertar uma alma quebrada ao meio.

Mas o sepulcro do luto foi interrompido por um brilho escarlate pulsando agressivamente no chão.

A imensa espada de obsidiana cravada no asfalto vitrificado vibrou, emitindo um zumbido baixo e ameaçador. A voz feminina, incalculavelmente orgulhosa e afiada como o fio de uma navalha molecular, cortou a mente de Dante com a sutileza de um tapa violento no rosto.

— "É só por causa disso que você está chorando e desistindo, garoto?"

Dante engoliu a seco e ergueu o rosto devagar. Piscando para afastar as lágrimas, ele encarou o reflexo sombrio e carmesim na lâmina polida de Raguel.

As outras Personoarmas instantaneamente se voltaram contra a novata com os caninos à mostra.

— Do que você está falando, sua ignorante?! — rosnou Safira em voz alta, assumindo uma postura feroz e protetora, o instinto gyaru inflamado. — Olha o estado dele! Se ele for até aquele altar enfrentar o Rei nesse estado, os órgãos dele vão virar mingau! Ele vai morrer!

A gigantesca espada pareceu ignorar solenemente os clamores histéricos ao redor, mantendo a atenção focada pura e exclusivamente no Caçador de olhos molhados.

— "Eles estão certos. O seu corpo é um lixo quebrado neste momento. Você vai morrer se der mais dez passos" — a voz gélida da espada concordou sem um pingo de remorso. — "Mas, portador... se ficar sentado aí reclamando do próprio fracasso é tão frustrante a ponto de te fazer chorar... então por que hesitar? Por que não ir?"

Dante franziu a testa, o peito ainda subindo e descendo. A lógica brutal e fria da arma cortava através da espessa cortina da sua autopiedade, obrigando-o a escutar.

— "Talvez os seus passinhos até o altar realmente sejam inúteis" — a espada continuou, a voz ressoando com um eco antigo, aristocrático e indomável na mente do garoto. — "Talvez você não faça a menor diferença no final das contas. Mas... e se for o exato oposto? E se você for a única peça que falta para conseguir a vitória? O último milímetro de dano que o universo precisa para esmagar o Rei? Ficar aí chorando, triste ou frustrado com um futuro de fracasso que ainda nem aconteceu, não resolve a sua vida nem salva a de ninguém. Por acaso, estou enganada?"

O silêncio retornou. Mas, desta vez, não carregava a textura de um velório. Era eletrizante. Cheirava a pólvora próxima a uma faísca.

As outras armas começaram a murmurar e reclamar novamente, prontas para discutir a biologia, as probabilidades matemáticas e a sobrevivência do mestre, mas Dante simplesmente ergueu a mão ensanguentada. O choro havia parado abruptamente.

Um sorriso fraco, manchado de vermelho, poeira e uma exaustão inumana, desenhou-se dolorosamente nos lábios cortados do Caçador.

— É verdade... — sussurrou Dante. A chama da Vontade, antes sufocada pelo medo do próprio fracasso, reacendeu. Era fraca, tremeluzente, mas irredutível e viva em seu olho são. — Como é que eu pude esquecer de algo tão óbvio?

Ignorando os protestos desesperados de Safira, que tentou segurar seus ombros, e a dor lancinante e branca que rasgou cada vértebra de sua espinha, Dante esticou o braço e agarrou firmemente o cabo negro da claymore. Usando a arma ancestral e colossal como uma muleta profana, ele forçou os joelhos destruídos. Seus dentes rangeram com tanta força que a gengiva voltou a sangrar.

Ele se ergueu. Não era a postura imponente de um herói invencível de lendas douradas; era a postura visceral de um cão ferido que, mesmo à beira da morte, recusa-se categoricamente a deitar para o inimigo.

Apoiado na espada, o peito arfando violentamente, ele olhou para o reflexo carmesim pulsante na lâmina de obsidiana.

— E eu aposto que você vem comigo pra esse abate, não é? A propósito... qual é mesmo o seu nome?

A lâmina vibrou com uma intensidade feroz, a luz vermelha pulsando e subindo pelas veias metálicas em sincronia com os batimentos falhos do coração do Caçador.

— "Pode apostar a sua alma que eu vou, portador. Eu não planejo sair do seu lado para começo de conversa. E o meu nome... é Raguel."

Asuka, Sora e Safira ainda orbitavam ao redor dele, as vozes sobrepostas em avisos táticos em pânico e súplicas para que ele pensasse melhor antes de jogar a própria vida triturada no lixo. Ignorando a física de seu próprio corpo, Dante deu o primeiro e agonizante passo pelo asfalto de vidro.

Mas, antes que o segundo passo de sua marcha suicida pudesse ser concluído, uma voz distante, nitidamente humana e rasgada pelas correntes do vento estático, quebrou a atmosfera morta da arena.

— DANTE! EI! AQUI!

O Caçador travou no lugar. Os músculos de seu pescoço estalaram em protesto enquanto ele virava a cabeça milimetricamente devagar em direção ao chamado.

Surgindo como fantasmas do meio da névoa de poeira e das ruínas destroçadas da floresta petrificada, três silhuetas familiares corriam em disparada na direção do fundo da ravina.

Era Eliza, exausta, sendo carregada nas costas de Yuki. Ao lado delas, corria Maysa.

Mas o que congelou o sangue nas veias de Dante, silenciando o zumbido de seu crânio e paralisando o bater de seu coração esgotado, foi a carga que elas traziam. Apoiada e amarrada firmemente nas costas de Maysa, com os braços pendendo frouxos e inertes, balançando de forma sem vida com o movimento da corrida... estava a figura familiar, com o rosto incrivelmente pálido, de Anna.

Parte 7

O vento uivava através das ruínas de Morpheus, carregando a poeira cinzenta de um mundo estilhaçado e o cheiro metálico de sangue derramado. O tempo, que antes corria em frações de segundo frenéticas durante o combate, pareceu suspender-se, congelado no exato instante em que o trio cruzou a névoa.

As explicações iniciais foram dadas em tons engasgados e sussurrados, quase abafadas pelo som da estática do Éter residual que ainda estalava no ambiente hostil.

Sentado no asfalto vitrificado, com o corpo triturado e a respiração falhando a cada inspiração, Dante estava paralisado. Seu olho bom encarava o corpo inerte de Anna, cuidadosamente deitado sobre o casaco grosso que Yuki havia estendido no chão esburacado. O peito da garota não subia nem descia. A pele dela, antes vibrante, estava pálida e opaca como mármore frio.

O olho bicolor de Dante tremia incontrolavelmente, a pupila dilatada pelo pavor. Ele ergueu o rosto sujo de fuligem, olhando de Eliza para Yuki, e depois, desesperadamente, para Maysa.

— Espera... — a voz do Caçador não passava de um fio rasgado e incrédulo, arranhando a garganta seca. Ele engoliu em seco, os ombros tensos, temendo que qualquer movimento brusco quebrasse a ilusão frágil daquela esperança. — Isso... isso é mesmo verdade?

Eliza cruzou os braços trêmulos, o peito subindo e descendo com a exaustão da corrida. O rosto manchado de sujeira da Princesa de Fogo exibia uma mistura de fadiga física e uma incerteza quase infantil.

— Foi aquela mulher bizarra… a antiga diretora Irene quem falou — Eliza começou a explicar, gesticulando para o nada, as palavras tropeçando umas nas outras. — Ela disse que a Anna não...

— Eu confirmo — Maysa interrompeu. A voz calma, madura e aristocrática da mulher cortou a hesitação no ar como uma lâmina de veludo. A Garota ajoelhou-se elegantemente no asfalto sujo ao lado de Dante, ignorando os detritos. Ela sustentou o olhar quebrado do Caçador com uma certeza inabalável e reconfortante. — É verdade, Dante. Ela está viva.

O oxigênio, que parecia estar preso nos pulmões de Dante há incontáveis minutos, finalmente escapou. Foi um soluço violento, visceral, que rasgou o seu peito.

Os ombros do Caçador desabaram por completo. O ódio incandescente, a amargura sufocante e a Vontade homicida que o mantinham de pé até aquele momento evaporaram no ar frio. Foram instantaneamente substituídos por uma torrente de alívio tão pura, tão esmagadora, que os nervos de suas pernas perderam o resto de força que possuíam. Lágrimas grossas voltaram a transbordar do seu olho são, pingando e molhando o asfalto morto. Ele curvou o corpo esmagado para a frente, as mãos tremendo violentamente contra o próprio rosto, enquanto um sorriso quebrado, exausto e manchado de sangue finalmente alcançava seus lábios.

— Ainda bem... — sussurrou Dante, a voz completamente sufocada pelo choro de gratidão que o desarmava. — Graças a Deus... ainda bem...

Mas a celebração silenciosa e sagrada foi subitamente rachada.

Caminhando para mais perto do corpo pálido, a lolita gótica franziu a testa, os olhos semicerrados em uma confusão profunda.

— "Mas espera aí..." — Sora interveio, a voz analítica e fria da arma quebrando a fragilidade do clima. — "Se ela está viva, por que ela está nesse estado de animação suspensa? Eu não consigo sentir a presença dela. O Éter dela está inexistente. É como se ela fosse um vaso vazio."

Safira surgiu logo atrás, o holograma tremeluzindo enquanto as mãos cobriam a boca em puro pânico.

— "Chefe, a Sora tem razão! Ninguém vive com o Éter zerado! O núcleo espiritual da pessoa desmorona e o corpo morre em minutos!"

Maysa olhou para as projeções físicas das Personoarmas. Uma faísca de surpresa cruzou seus olhos azuis diante da precisão analítica das garotas, mas ela logo endireitou a coluna, retomando a postura professoral e imponente.

— E ela morreria, se fosse uma humana comum — Maysa explicou, ajeitando graciosamente uma mecha do cabelo atrás da orelha. — Usar o Livro do Fim daquela forma forçou as engrenagens da própria existência dela. O artefato exauriu a essência da Anna por completo. O Éter dela praticamente secou.

A Garota ergueu a mão e apontou o dedo delicadamente para o centro do peito arruinado de Dante.

— Mas ele não zerou de forma absoluta. Ela ainda consegue absorver o mínimo necessário para manter a alma ancorada ao corpo através da ligação que tem com ele. Vocês não podem esquecer do fundamento mais básico: Dante e Anna são duas metades de um único ser conceitual. Eles dividem a mesma raiz. Se a Anna tivesse realmente morrido lá em cima, o choque metafísico teria destruído a alma de Dante no mesmo instante.

Dante ouviu a explicação de Maysa em silêncio. As engrenagens de sua mente tática, acostumadas a dissecar milagres, começaram a trabalhar rapidamente para processar a mecânica espiritual por trás daquela sobrevida. O alívio emocional recuou meio passo, dando lugar ao foco cirúrgico de um caçador. Ele esticou a mão esquerda, a única intacta, hesitando por um microssegundo antes de tocar suavemente a bochecha fria de Anna.

— Eu entendi. — Dante respirou fundo, os pulmões doendo, e secou rudemente as lágrimas no ombro esfarrapado. — Mas como eu trago ela de volta à consciência? Se o problema é a falta de Éter, eu posso transferir o que me resta. A Safira pode fazer o circuito...

— Você não entendeu a gravidade da situação, Dante — Maysa cortou imediatamente. Ela balançou a cabeça, o olhar assumindo uma seriedade sombria. — A essência dela como um Astreus foi abalada desde as fundações. Injetar o seu Éter nela agora seria como tentar encher um balde furado com água de outro balde. O seu Éter é seu, e o dela é dela. Mesmo que na origem vocês sejam o mesmo ser — o que permite que passem mana de um para o outro em batalha —, dar a sua energia não vai reconstruir a parte da essência fundadora que ela perdeu.

Dante cerrou os dentes até estalarem.

— Então o que pode devolver essa essência?

Maysa sustentou o olhar angustiado do garoto. A voz da mulher desceu para um tom solene e pesado, quase fúnebre.

— Apenas algo que seja fundamentalmente dela. Algo que carregue o DNA cósmico da época em que ela era puramente Astreus. Algo inalterado.

O silêncio caiu como uma âncora sobre o grupo. O vento estático uivou pelas carcaças de metal ao longe.

Dante piscou. A engrenagem final em seu cérebro estalou, encaixando-se perfeitamente na lógica brutal do mundo. Ele desviou o olhar do rosto adormecido de Anna e, com uma lentidão aterrorizante, virou o rosto para encarar o próprio braço direito, que descansava inerte e envolto em ataduras densas e sujas.

— A Autoridade... — Dante murmurou. Com esforço, ergueu o membro direito trêmulo. — E se eu devolver a Autoridade da Possibilidade para ela?

Maysa fechou os olhos por um breve e doloroso momento, assentindo em silêncio.

— Eu admito que isso funcionaria. A Autoridade é um fragmento puro da essência dela. Mas... — A bela e imponente mulher, com seus cabelos longos moldando o rosto sério, abriu os olhos, encarando Dante com uma severidade gélida. — Você precisa pensar muito bem antes de tomar essa decisão. Se você devolver isso a ela, o vínculo se quebra do seu lado. Você perderá a Autoridade da Possibilidade. Perderá a anomalia que o torna único neste mundo. Mesmo que continue sendo um avatar no papel, não será diferente de um humano comum na prática.

Eliza arregalou os olhos, os lábios entreabertos enquanto dava um passo instintivo à frente.

— Além disso... — Maysa continuou, implacável em apresentar a fatura daquele milagre. — Uma transferência cirúrgica dessa magnitude vai puxar absolutamente todas as últimas gotas de reserva de Éter que o seu corpo quebrado ainda tem. Se você fizer isso, o seu desejo de caçar o Lysander acaba aqui e agora. Será fisicamente impossível para você sequer se levantar daquele asfalto.

A balança cósmica estava posta sobre a mesa. De um lado: o poder divino, a Vingança contra o Rei dos Pesadelos que arruinara suas vidas e o próprio título sagrado de Avatar. Do outro: a vida silenciosa da garota à sua frente.

Dante olhou para o rosto calmo de Anna. Depois, olhou para o próprio braço.

Não houve um único quadro de hesitação em seu olho bicolor. Não houve o menor resquício de dúvida arranhando a sua alma.

Com um gemido sufocado de pura dor, Dante usou a mão esquerda para se arrastar pelo vidro quebrado, forçando a própria coluna arruinada a mantê-lo sentado ereto. Ele ergueu o queixo, fixando o olhar nas garotas.

— Maysa. Yuki. Uma de vocês pode fazer o favor de pegar a minha espada nova ali no chão... e cortar o meu braço direito fora?

O pedido casual caiu no centro do grupo com o peso de uma bomba atômica.

— O QUÊ?! — Eliza gritou. Os cabelos ruivos da Princesa quase acenderam em chamas literais devido ao choque e à fúria. Ela apontou o dedo trêmulo bem no meio da cara do garoto. — Você é doente da cabeça?! Se é só pra devolver a Autoridade, por que diabos você quer amputar o seu próprio braço, seu maluco?!

Dante suspirou. Um sorriso incrivelmente cansado, porém pacífico, curvou seus lábios enquanto ele levava a mão esquerda ao ombro direito, começando a desenrolar as faixas encardidas de sangue.

— Eliza... isso aqui não é um braço normal pra começo de conversa. — Ele puxou a última volta da atadura com um puxão seco, revelando a pele escurecida, anômala e profundamente marcada por circuitos etéreos brilhantes de seu membro direito. — Apesar da aparência humana que ele assumiu, este braço é apenas a manifestação física da Autoridade da Possibilidade que a Anna me entregou. Para devolver o fragmento original e estabilizá-la... eu preciso cortar a conexão direto na raiz.

Maysa não recuou horrorizada. O Avatar da Caça apenas virou o corpo e caminhou silenciosamente até a gigantesca claymore de obsidiana que ainda estava cravada no asfalto da batalha contra Thor. Com as duas mãos firmes, ela puxou a pesada lâmina de Raguel do chão. O metal carmesim do núcleo zumbiu e brilhou ameaçadoramente sob a luz fraca de Morpheus nas mãos dela.

— Eu aceito a tarefa — Maysa declarou. O pânico de Eliza contrastou com o sorriso aristocrático e levemente provocativo que surgiu nos lábios de Maysa. Ela caminhou de volta até Dante, parando ao seu lado como uma executora real. — Afinal de contas, é dever da esposa fazer esse tipo de sacrifício difícil pelo seu marido em momentos de crise, não é?

Dante congelou no lugar. O olho bom se arregalou em proporções cômicas enquanto ele olhava, absolutamente perplexo, para o rosto sereno de Maysa.

— ...Esposa? Ainda tá falando disso?

Eliza sentiu uma veia palpitar violentamente em sua testa. O cansaço da princesa evaporou em um microssegundo, incinerado por pura e genuína indignação.

— Como é que é, sua oferecida?! Desde quando você é a esposa de alguém aqui?!

— Desde o momento em que ele me venceu em um duelo.

— Mas que papo é esse que ela tá falando, Dante?! — Eliza girou nos calcanhares, os olhos faiscando em direção ao garoto que estava prestes a perder um membro.

Antes que Eliza pudesse pular em cima do Caçador esmagado para arrancar confissões à força, Sora interveio. A lolita gótica entrou fisicamente no meio do fogo cruzado, empurrando as costas da princesa com firmeza.

— "Vem cá, majestade esquentadinha, deixa que eu te explico..." — Sora resmungou com tédio, arrastando uma Eliza furiosa e gesticulante para longe da zona de cirurgia iminente.

Ignorando o caos mundano que fervia ao fundo, Dante voltou a focar na missão. Ele esticou o braço direito para o lado, tensionando os músculos e expondo completamente a junta do ombro. Ele olhou para a lâmina erguida de Maysa, e depois para Yuki, que havia se aproximado silenciosamente, o rosto pálido como cera.

— Tem certeza de verdade, Dante? — Yuki perguntou. A voz suave da garota carregava o peso de uma preocupação quase insuportável. Faíscas agressivas de eletricidade azul já começavam a estalar e dançar nas pontas de seus dedos finos. — Eu vou usar a minha eletricidade para cauterizar a ferida no instante em que ela cortar, para você não sangrar até a morte. Mas... você realmente vai deixar de ser um Avatar? Você não tinha o plano de enfrentar um Astreus? Sem isso... suas chances viram quase negativas.

Dante olhou para a figura deitada de Anna mais uma vez. O rosto sujo e endurecido do Caçador suavizou-se em uma ternura que contrastava violentamente com a carnificina e a destruição da praça ao redor.

— Basicamente, sim. — Dante murmurou, a voz tranquila. Ele ergueu o rosto para Yuki, sorrindo de forma gentil e desprovida de qualquer arrependimento. — Mas por mim, está tudo bem. Foi ela quem me deu essa Autoridade pra começo de conversa. Foi a Anna quem me salvou quando eu estava para morrer... Eu não vejo problema nenhum em fazer exatamente o mesmo por ela agora. Pode cortar.

Maysa olhou para a determinação cristalina e imperturbável nos olhos do Caçador. O sorriso provocativo da mulher dissolveu-se, dando lugar a uma expressão de admiração profunda e sincera pelo humano à sua frente.

— Eu elogio a coragem do meu marido — Maysa sussurrou respeitosamente, erguendo a pesada lâmina de Raguel acima do próprio ombro. — Fique tranquilo. Eu não vou fazer feio.

Os músculos de Maysa tensionaram-se. Ela desceu a lâmina de obsidiana em um arco rubro, perfeito e cirurgicamente impiedoso.

Tudo estava escuro.

A consciência de Anna flutuava em um vazio silencioso, um abismo gelado, denso e sem fundo. O conceito de tempo não existia ali; ela sentia que havia adormecido há séculos em um oceano de nada.

Mas, de repente, uma faísca solitária a alcançou. Quente. Absoluta. Uma queimação familiar e incrivelmente reconfortante pulsou com violência no centro de seu peito, como um desfibrilador cósmico.

Lentamente, o tecido do escuro começou a rachar, invadido à força por feixes de luz vermelha e dourada. O silêncio quebrou, e o zumbido furioso do vento estático tornou-se audível.

Anna abriu os olhos.

A visão dela estava embaçada, o céu quebrado e nublado de Morpheus rodando vertiginosamente acima de sua cabeça. Ela piscou várias vezes, os sentidos atordoados, o corpo pesado como chumbo. A primeira coisa que o cérebro dela conseguiu registrar foi o som de várias vozes sobrepostas gritando algo que ela demorou um segundo inteiro para decodificar.

— ANNA!

Antes que pudesse mover o pescoço dolorido para ver quem a chamava, uma sombra cobriu o seu rosto. Um braço trêmulo, exausto e manchado de sangue a envolveu em um abraço imediato e desesperado. O cheiro denso de ozônio, fuligem, couro queimado e suor invadiu suas narinas. O corpo que a apertava contra o chão tremia incontrolavelmente, o rosto escondido e afundado na curva do seu pescoço.

— Bem-vinda de volta... — a voz rouca e embargada pelo choro sussurrou contra a sua pele, a respiração quente arrepiando sua nuca. Era a voz de Dante.

Anna arregalou os olhos. As memórias da queda começaram a engrenar devagar em sua mente anestesiada. Ela ergueu as mãos instintivamente, devolvendo o abraço afetuoso e sentindo sob as pontas dos dedos os músculos incrivelmente tensos e arruinados das costas do Caçador.

— Dante...? O que... o que aconteceu? Onde nós...

Ela parou de falar no meio da frase. A voz morreu em sua garganta.

Ao deslizar a mão carinhosamente pelas costas do garoto para abraçá-lo com mais firmeza, o olhar confuso de Anna caiu sobre o lado direito do corpo de Dante, que estava levemente recuado, fora de seu campo de visão inicial.

As pupilas da garota se esbugalharam. O ar sumiu de seus pulmões como se ela tivesse levado um soco.

Onde deveria estar o braço direito de Dante... não havia nada. Apenas um coto liso, perfeitamente cauterizado na altura do ombro, a pele repuxada e marcada por cinzas elétricas recentes e escuras.

Parte 8 

Enquanto o caos da batalha e o luto engoliam as ruínas distantes de Morpheus, o epicentro da cratera, aos pés da imponente Árvore Dourada, repousava em um silêncio quase sagrado.

O Rei dos Sonhos continuava sua marcha inabalável.

Bem no centro daquele anfiteatro de destruição, caído sobre o asfalto vitrificado, estava o Livro do Fim. O artefato não era apenas um objeto inanimado; ele pulsava suavemente, emanando um calor místico, como um coração cósmico aguardando o toque daquele que, finalmente, reescreveria as leis da existência.

Lysander caminhava com a lentidão de quem não precisa correr contra o tempo. Seus passos não faziam barulho. Os olhos escuros, profundos e assustadoramente andróginos do Rei refletiam apenas o brilho absoluto do grimório no chão. A matemática de sua vitória secular estava a exatos três passos de distância.

Ele parou. Esticou a mão direita. Os dedos pálidos, longos e elegantes estenderam-se para roçar a capa de couro cósmico.

Mas, a milímetros de consumar o fim de tudo, o som de botas pesadas esmagando o vidro quebrado rasgou o silêncio do altar. Uma silhueta cruzou a luz da Árvore, projetando uma sombra densa e inamovível exatamente entre a mão do Rei e o troféu final.

Alguém havia bloqueado o caminho.

A mão de Lysander congelou no ar por um décimo de segundo. Qualquer outro ser exalaria fúria diante da interrupção no último milímetro de sua vitória, mas os lábios finos do Rei dos Pesadelos apenas se curvaram devagar. Um sorriso de profunda, quieta e genuína compreensão desenhou-se em seu rosto pálido.

— É óbvio... — Lysander sussurrou para o vento estático. A voz aveludada, quase hipnótica, carregava o tom de um erudito que acaba de encaixar a última peça de um quebra-cabeça milenar. — É claro que devia ser assim. A matemática do destino nunca falha.

Ele ergueu o queixo de forma altiva, os olhos escuros subindo milímetro a milímetro até encontrarem o olhar incandescente da pessoa que ousava se colocar entre ele e Deus.

Parada diante dele estava Kiara.

A tensão no corpo da princesa era monstruosa. Os punhos dela estavam cerrados com tanta violência que o sangue ameaçava brotar sob as unhas cravadas nas próprias palmas. Seus cabelos balançavam agressivamente sob a brisa carregada de Éter, e seus olhos queimavam com uma fúria tão densa, tão absurdamente concentrada, que a própria luz dourada da Árvore parecia se distorcer e curvar-se de medo ao redor de seu corpo.

— Sabe... — Lysander continuou, baixando a mão graciosamente e cruzando-a nas costas com uma elegância letal e aristocrática. — Quando eu estava a milímetros de pegar este livro da primeira vez, e aquela garota loira ousou me interromper e estragar o palco... eu confesso que fiquei irritado. Mas, no fundo da minha mente, por mais estranho que seja, uma intuição me dizia que algo estava fundamentalmente errado naquele clímax.

O Rei deu um passo lento e fluido para a direita, arrastando o manto escuro pelo chão como um predador estudando o ângulo de sua presa, sem nunca quebrar o contato visual com Kiara.

— Não parecia fazer sentido. Faltava algo para que a cortina se fechasse com perfeição. E agora... olhando para você aqui, vejo exatamente o que era, minha filha.

A palavra "filha" não carregou uma única gota de escárnio ou ironia. Pior do que isso: soou com uma posse absoluta, um carinho doentio e distorcido.

— Eu sentia dentro de mim que este momento não estaria verdadeiramente completo... sem você aqui, parada na minha frente, tentando me deter com as suas próprias mãos.

Kiara não recuou um milímetro. Como uma represa prestes a estourar, a aura dela, agressiva e sufocante, começou a vazar por seus poros, rachando o asfalto sob suas botas apenas com a pressão gravitacional de seu ódio.

— Devo considerar isso um elogio, pai? — A voz de Kiara era puro veneno, afiada como vidro quebrado em chamas. Cada sílaba cuspida carregava o peso dilacerante das mentiras, das manipulações e do inferno psicológico pelo qual ele a havia arrastado durante a vida inteira.

O sorriso de Lysander suavizou-se ainda mais. A máscara intocável caiu, revelando uma franqueza que beirava o inumano.

— Agora que não preciso mais mentir para mover as peças no meu tabuleiro, falarei de forma breve e direta. — O Rei dos Pesadelos mergulhou o olhar diretamente nas retinas da filha, buscando sua alma. — Sim, Kiara. Saiba que, por mais estranho, distorcido e profano que possa soar para você... e por mais que a sua moral não seja capaz de entender ou aceitar estas palavras, o que eu vou te falar agora é a mais pura verdade.

A atmosfera ao redor deles ficou irrespirável. A própria gravidade pareceu curvar-se diante da confissão íntima de um monstro.

— Eu sempre tive um orgulho imenso de você.

O impacto daquelas palavras teria quebrado a sanidade de muitos, mas Kiara não piscou.

— Você não é um peão qualquer — Lysander continuou, a voz aveludada vibrando com um respeito genuíno e letal. — Você conquistou tudo o que tem através da mais absoluta e inquebrável força de vontade. Além de mim mesmo, você deve ser a única criatura neste universo capaz de ir além do infinito e rasgar a própria carne para ter o que deseja. Essa sua ambição insaciável... essa sua coragem predatória... eu sempre as respeitei.

O silêncio que se seguiu foi asfixiante. A confissão de afeto de Lysander era a pior e mais afiada das armas psicológicas; ele a admirava não porque ela era virtuosa, mas porque via na filha o reflexo perfeitamente lapidado da mesma fome predatória que o devorava por dentro.

Kiara respirou fundo, o ar chiando por entre os dentes trincados. A chama da Vontade em seus olhos não vacilou diante do louvor envenenado do pai. Pelo contrário: consolidou-se em uma frieza inquebrável de aço.

— Bom. — Kiara descruzou os braços bruscamente. A musculatura de seu corpo retesou-se em um estalo orgânico, assumindo a tensão de uma mola pronta para a violência extrema. — Não ache que eu vou abaixar a cabeça e dizer "obrigada".

A princesa deu um passo pesado à frente, fechando a distância e invadindo o espaço do Rei. A voz engrossou em uma promessa implacável e raivosa.

— Não me importa nem um pouco o que você sente, deixa de sentir, ou o quão orgulhoso você está. As suas palavras não significam nada. Eu não vou deixar você colocar as suas mãos sujas nesse livro... e eu vou quebrar todos os seus malditos dentes por tudo o que você fez à minha mãe e à minha irmã.

Longe de se sentir insultado pela rebeldia, Lysander soltou uma risada aveludada que ecoou pelo altar, mórbida e maravilhada. Ele ergueu a mão esquerda devagar. Na ponta de seus dedos, fios de um Éter verde, doentio e radioativo começaram a brotar. Eles se condensaram em garras de luz afiadas e cirúrgicas, gadanhas de energia prontas para fatiar o próprio tecido da realidade.

— Eu sei disso perfeitamente, Kiara — Lysander respondeu, a satisfação transbordando de cada traço de seu rosto. — E, na verdade... se a sua resposta não fosse exatamente essa, aí sim eu ficaria genuinamente incomodado e decepcionado.

O Rei dos Pesadelos afastou as pernas. O manto escuro balançou quando ele abaixou o centro de gravidade, assumindo uma raríssima e aterrorizante postura de combate corporal. A aura verde e sufocante dele explodiu de seu núcleo, eclipsando e escurecendo até mesmo a luz dourada da Árvore Sagrada.

— No fim das contas, nós dois sabemos a verdade: nós somos simples bestas. Bestas irracionais que seguem os seus próprios desejos e devoram tudo ao redor para saciar as suas vontades. Por isso, é simplesmente natural que, neste ato final, nós tenhamos que chocar as nossas vontades até que uma delas se quebre em pedaços.

Lysander apontou a mão, armada com as garras de luz verde, diretamente para o rosto da filha.

— Venha, filha. — A voz do Rei engrossou repentinamente, perdendo o tom aveludado e tornando-se o rugido de um deus abissal ecoando das profundezas de um pesadelo. — Já está na hora de colocar um fim definitivo a esta história.

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