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The Fall of the Stars: Capítulo 9 - Vontade Inabalável

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 2 de abr.
  • 71 min de leitura

Volume 11 : A Prisão Dourada


Parte 1

A densa floresta de madeira petrificada, arrancada do chão pela fúria divina de Thor, agora servia, ironicamente, como um refúgio sombrio. Longe da tempestade apocalíptica de relâmpagos e crateras da praça central, o silêncio ali era denso, quebrado apenas pelo farfalhar áspero das folhas de cinza e pelo chiado úmido da respiração pesada do Caçador.

Dante estava deitado. Sua cabeça, suja de poeira e sangue seco, repousava no colo de Anna.

A garota, ainda ostentando a palidez de quem acabou de voltar do abismo, deslizava os dedos de forma inconsciente pelos cabelos arruinados de Dante. Ao redor deles, o grupo formava um círculo tenso entre os troncos monumentais. Sora, agora em sua forma física de carne e osso — uma lolita gótica com roupas de couro escuro, rasgadas e chamuscadas pela batalha —, estava sentada sobre uma raiz grossa, balançando as pernas em silêncio. Safira, também em forma humana e exibindo suas curvas fartas de gyaru, abraçava os próprios joelhos no chão, com os olhos grandes ainda vermelhos e inchados do choro recente.

— Então... — murmurou Anna. Sua voz saiu fraca, mas perfeitamente lúcida, rasgando a redoma de silêncio. — Quando o Dante perdeu a cabeça e foi para cima do Lysander, vocês ficaram para trás com a Irene?

Eliza assentiu, cruzando os braços sobre o peito.

— Exato. A Kiara sentiu na hora que deixar o Livro do Fim dando sopa no chão, no meio daquele caos, era perigoso demais. Ela quase foi lá pegar...

— Hunf... aquela humana tola. Se eu não tivesse avisado, teria se matado sem nem saber — interrompeu Maysa, com um suspiro desdenhoso. A mulher imponente, de cabelos negros como a noite, olhou para Anna com uma frieza analítica, avaliando o "conserto" feito pelo Caçador.

Yuki balançou a cabeça, confirmando a história de Eliza.

— E foi aí que a Irene abriu a boca. Ela ficou olhando para a gente com aquele sorriso estranho e perguntou se íamos mesmo ficar ali, perdendo tempo, enquanto o seu corpo começava a apodrecer, Anna.

— Apodrecer? — Anna franziu a testa. Seus dedos pararam por um segundo no meio dos fios de cabelo de Dante.

— Ela disse que você iria morrer de verdade — continuou Eliza, suspirando de frustração ao lembrar da cena. — Mas que o Dante poderia te trazer de volta. Só que... a Irene usou uma palavra bem específica para provocar a gente. Ela disse que ele poderia te trazer de volta, claro, mas não "totalmente".

Anna piscou devagar. Ergueu as próprias mãos pálidas contra a fraca luz de Morpheus e depois tocou o próprio peito.

— Não totalmente... Era isso que vocês queriam me perguntar antes? Se eu me sinto diferente?

— E você sente? — perguntou Yuki, inclinando-se para a frente com curiosidade genuína.

— Eu... sinto. — Anna tocou o peito novamente, buscando as palavras certas. — Mas eu não sei explicar direito o que é. Tem algo fundamentalmente diferente na minha base.

Maysa descruzou os braços longos, a postura majestosa dominando instantaneamente o espaço apertado entre as raízes.

— Não é de se estranhar. Uma parte de você, de fato, morreu, Anna. O que o Dante fez não foi "curar" você. Ele usou a própria Autoridade para reacender a fogueira que sobrou no seu corpo.

— Ela fica falando isso toda hora com essa pose de deusa, mas o que significa de verdade? Ela não tem a função de tradutor instalada nesses balões infláveis gigantes? — murmurou Eliza, irritada, com os olhos fuzilando o tórax da mulher de dois metros de altura.

— Hum... Ela está tentando dizer que o Dante não me trouxe de volta inteira. Ele criou uma nova essência idêntica, preenchendo as lacunas que o Livro arrancou com as suas próprias propriedades. É bem parecido com o que eu fiz com ele quando nos fundimos pela primeira vez.

Anna baixou o olhar para o rosto exausto de Dante, que continuava apagado em seu colo. O olhar da garota suavizou-se imensamente. Um sorriso fraco, melancólico, mas genuíno, desenhou-se em seus lábios enquanto ela voltava a acariciar o rosto machucado do Caçador.

— Eu não tenho o menor direito de reclamar — sussurrou Anna para si mesma. — De qualquer forma... pelo menos eu não estou morta.

Limpando a garganta, Anna ergueu o rosto e olhou diretamente para Eliza.

— Mas e a Kiara? O que aconteceu com ela no meio disso tudo? Por que ela não está aqui?

Eliza revirou os olhos, com a expressão misturando tristeza e exasperação.

— Porque ela é teimosa pra cacete. A Kiara sentiu na hora que o conselho da Irene era uma armadilha. A mulher podia até estar falando a verdade sobre você, mas era coincidência demais ela entregar o segredo da salvação de tão bom grado. A Irene só queria nos afastar do Livro.

— E a Irene sequer escondeu isso — acrescentou Yuki, lembrando da ousadia da ex-diretora. — Ela reconheceu a inteligência da Kiara abertamente, mas jogou o jogo mais baixo possível. Olhou nos olhos da Kiara e perguntou: "Mesmo sabendo que é uma manipulação óbvia para afastá-las, você vai escolher não ouvir e deixar a Anna morrer de vez?"

— Ela aceitou os termos do jogo. Disse que ia salvar você, mas que também protegeria o maldito Livro com a própria vida. Ela ficou lá para lutar sozinha e mandou a gente trazer o seu corpo o mais rápido possível para cá, para que a gigantona da Maysa explicasse ao Dante o que ele tinha que fazer — concluiu Eliza, cruzando os braços.

Anna olhou para a mulher gigante de cabelos pretos, genuinamente surpresa.

— E você aceitou vir de boa, Maysa? Não lembro de você ser do tipo de monstro que se importa com laços fraternos com os outros.

Maysa virou o rosto para o lado com uma arrogância altiva, empinando o nariz.

— Claro que não! Mesmo sabendo que você também é um Astreus, não tenho qualquer memória ou conexão com você. E, mesmo que tivesse, eu preferia mil vezes ter ficado lá e esmagado a cabeça daquele inimigo metido do meu marido. Eu não entendia por que tinha que dar ouvidos e obedecer às ordens de uma humana irritante.

— Então, como foi que conseguiram convencê-la a vir? — Anna se virou para Eliza e Yuki, achando graça da situação absurda.

— A Kiara virou para a Maysa no meio do caos e perguntou: "Por que você fica chamando o Dante de marido toda hora?" — Yuki começou a recontar a cena com um sorriso contido.

Maysa corou, as bochechas pálidas ganhando cor, e pigarreou alto para disfarçar.

— E-Eu disse a ela a verdade. Que ele me venceu em combate. E, portanto, foi o escolhido pelas leis do mais forte.

— Por que você fica com vergonha de dizer isso de novo, sua maluca?! — reclamou Eliza em voz alta, apontando para o constrangimento estranho da mulher. — Pera aí, foi isso que você falou para ela naquela hora?! Você falou tão baixo que eu nem tinha entendido do outro lado!

— E a Kiara perguntou qual foi a exata resposta do Dante para isso — Yuki interrompeu a reclamação da princesa para focar na fofoca. — E a Maysa ficou num silêncio mortal, parecendo que ia explodir!

— Já esperava. Típico do Dante — acrescentou Anna, contendo uma risada fraca.

— Aí a Kiara sorriu, com aquela cara de quem tinha acabado de descobrir uma falha crítica na armadura de um chefe, e falou bem alto: "Imagina o quanto ele ficaria grato se você fosse a pessoa a guiar a salvação da Anna, já que ele acabou ficando naquele estado de loucura justamente por causa de quem zombou da morte dela!" — Yuki balançou a cabeça, rindo do truque psicológico sujo da princesa das sombras.

— E a todo-poderosa Maysa passou uns dois segundos quieta, piscando, e do nada soltou um: "Eu vou. Mas não é porque você está mandando!" — continuou Eliza, imitando a voz orgulhosa da mulher.

Anna, Sora, Safira, o holograma de Asuka e até mesmo a espada Raguel, cravada no chão, pensaram exatamente a mesma frase em uníssono, olhando para a majestosa Maysa:

"Que mulher fácil."

— A Ludmilla acabou ficando para trás no altar também — retomou Eliza, fechando a história. — A Kiara disse que aquilo lá ia virar um problema feio de pai e filha e mandou ela sair, mas a Ludmilla retrucou, dizendo que não ia se envolver no drama familiar de jeito nenhum. Disse que ia ficar lá apenas de olho na Irene, que, com toda a certeza do mundo, ia tentar passar a mão no Livro na primeira brecha de distração dos dois.

— A Kiara concordou, e a Ludmilla ainda soltou um: "Eu não pedi autorização, só estou avisando". — Yuki imitou o tom rebelde de Ludmilla com perfeição. — E a Kiara rebateu na mesma moeda afiada: "Tarde demais, eu já dei a autorização, agora só aceite".

— Essa combinação de personalidades me assusta seriamente — murmurou Anna, sentindo uma dor de cabeça fantasma só de imaginar as duas juntas.

Anna balançou a cabeça lentamente, absorvendo todo o cenário diplomático e perigoso que estava acontecendo lá fora. Ela abaixou o olhar novamente para o colo. Dessa vez, os olhos pararam no coto horrivelmente enfaixado e mutilado no ombro direito de Dante.

— E esse idiota... — sussurrou Anna. A voz embargou e a garganta apertou enquanto as pontas dos seus dedos traçavam a linha da mandíbula machucada dele. — Ele decidiu simplesmente arrancar o braço para me devolver a Autoridade. Ele sempre exagera na conta...

Yuki cruzou as pernas sobre a pedra, com a estática estalando nas pontas dos fios platinados.

— Falando nisso, como foi que aquele Rei engomadinho conseguiu fazer um estrago tão absurdo nele? O corpo do Dante está em frangalhos, parece que foi mastigado!

— Não foi o Lysander — corrigiu Anna, com os olhos obscurecendo-se diante da lembrança pesada. — Foi o Thor. Ele estava parado a poucos metros daqui, bloqueando o caminho.

Yuki arregalou os olhos violeta, com o queixo caindo.

— Espera... como é que você sabe disso?!

— Então ele era um dos ratos que estavam observando a bagunça... — continuou Maysa, em tom desdenhoso. — Bom, meu marido não podia mesmo perder para uma mera sombra divina se quisesse casar comigo.

Sora suspirou pesado, com a expressão sombria varrendo a animação do grupo.

— É verdade. Foi o Deus do Trovão. Mas como você sabia, Anna? Você estava apagada!

— Foi por causa das memórias residuais dele. — Anna tocou a própria testa com o indicador. — Quando o Dante passou a Autoridade de volta para mim através da amputação, não veio só a energia pura do Astreus. As memórias traumáticas da luta vieram coladas junto no sistema nervoso, como um pacote extra.

Yuki empalideceu, com o cérebro finalmente processando a informação.

— Ele... ele venceu um Deus do Trovão?! Sozinho?! Vocês podem dar mais atenção a esse detalhe absurdo?!

— Não — respondeu Maysa, seca, cortando o ânimo. — Se ele quer ser um marido digno de um Astreus lendário, esmagar um deus menor deve ser só o aquecimento do que ele ainda tem que matar.

— Como é que eu vou dar atenção para isso se eu nem sei o que vocês querem dizer com "Thor"?! Tudo o que eu sei desse cara é o que passava naqueles filmes de super-herói daquele mundo falso que a Anna criou na ilusão — acrescentou Eliza, frustrada por estar boiando na mitologia.

— Eu assisti em primeira pessoa a como foi a luta inteira dentro da cabeça dele... e não consigo ficar muito animada para comemorar, sabendo que a "sorte matemática" foi um fator bem importante para ele não morrer — confessou Anna, com a voz carregada de preocupação.

— ... Esquece. — Yuki se virou, emburrada e de braços cruzados, murmurando baixo para o Caçador adormecido: — Perdeu uma das raríssimas chances de me ver te elogiando, seu idiota.

— Chamar o que aconteceu ali de "vitória" é uma palavra muito forte e bondosa para o estado dele — explicou Sora, cruzando os braços de couro negro. — O Dante teve que se arrebentar inteiro de propósito, usar cada maldita gota de cérebro que tinha e ainda depender de uma sorte matemática impossível para conseguir fazer o corpo impenetrável daquele monstro colapsar.

Maysa estalou a língua no céu da boca, visivelmente irritada com o nível atual do seu "marido".

— Isso significa que devo começar a treiná-lo para valer o mais rápido possível. Mas, antes disso, como prometido... vou caçar a cabeça do inimigo do meu marido. — O sorriso predatório, letal e inumano de Maysa voltou a rasgar seu rosto perfeito enquanto ela se levantava. — Talvez arrancar a espinha daquele sujeito com as próprias mãos faça o Dante ficar ainda mais agradecido quando despertar.

Eliza e Yuki levantaram-se no mesmo instante, com a poeira voando de suas roupas.

— Eu vou também — disseram as duas em uníssono, virando os rostos para se encararem com surpresa.

Yuki colocou a mão no ombro sujo da princesa.

— Não. Você deveria ficar aqui, Eliza. Alguém precisa cobrir as costas do Dante e da Anna.

Eliza virou-se para discutir, com a faísca subindo à cabeça.

— O quê?! Eu não vou fi—

A voz de Eliza morreu na garganta. Sumiu por completo.

A princesa olhou nos olhos de Yuki e, no milésimo de segundo seguinte, um tremor violento, incontrolável e gelado subiu pela base da sua espinha até a nuca. Toda a cor fugiu do rosto sardento de Eliza. Ela empalideceu. Abriu a boca, mas as cordas vocais simplesmente se recusaram a emitir som.

Agora que a adrenalina absurda de todos os acontecimentos frenéticos da guerra finalmente estava baixando e dando espaço para a mente processar o trauma... o soco brutal de todas as memórias e revelações daquele dia voltava a atingir a mente de Eliza com o peso de uma bigorna.

Yuki franziu a testa, confusa com o súbito estado de choque e mudez da amiga platinada.

— Eliza? O que foi? Você está pálida...

Eliza tentou forçar as cordas vocais, com os olhos arregalados ainda fixos no rosto preocupado de Yuki. Mas, antes que pudesse gaguejar uma única sílaba sobre o terror de que havia se lembrado, o olhar de Yuki foi desviado pelo movimento repentino de outra pessoa.

Maysa.

A imponente mulher de cabelos pretos estava estática. A arrogância natural e o sorriso de caçadora haviam sumido completamente do seu rosto perfeito. Maysa olhava para baixo, com uma expressão indecifrável e estranhamente tensa.

Para Dante.

Eliza seguiu o olhar fixo de Maysa e engoliu em seco ao ver que Anna também havia parado o carinho. A mão da loira estava paralisada no ar, com os músculos tensos. Anna estava rígida como uma tábua de madeira, com os olhos arregalados e fixos no peito e nos ombros do garoto em seu colo.

— O que foi?! — perguntou Eliza, com a voz finalmente saindo num guincho assustado.

No chão sujo, com o corpo ainda coberto de escoriações, sangrando pelos poros e quebrado pelas leis da física divina, Dante se movia.

Usando apenas a força do braço esquerdo, tremendo de dor a cada centímetro, ele se forçava a empurrar o chão e tentar se levantar. Era um movimento autômato, como se dissesse para a própria mente em colapso: "Ainda não. Você ainda não pode apagar." De olhos fechados, respirando sangue, ele murmurava. Sem forças para gritar, o som saiu quebrado, mas carregado daquela Vontade doentia e inquebrável que assustava os deuses.

— Me levem... até... a batalha.

Parte 2

O vento uivava através das ruínas silenciosas do altar, arrastando-se pela madeira petrificada e pelos escombros de vidro derretido como um lamento fúnebre. A própria tempestade de Morpheus parecia prender a respiração; o ar, pesado e eletrificado, aguardava o inevitável choque de titãs.

Afastadas do epicentro da colisão iminente, duas espectadoras solitárias observavam o palco de posições diametralmente opostas, ancorando a realidade daquele pesadelo.

À esquerda, engolida pelas sombras projetadas de uma raiz colossal, Ludmilla mantinha os olhos estreitos e predatórios cravados nas duas silhuetas no centro do altar.

— “Eu admito que não consegui escavar tanto sobre as entranhas e os segredos deste mundo quanto o Dante parece ter feito…” — pensou a Caçadora, com os dedos da mão direita apertando instintivamente o cabo de sua arma até os nós ficarem brancos. — “Mas eu não preciso ser detetive para ler os números na minha frente. Só de sentir a densidade esmagadora e o peso bruto do Éter exalando daqueles dois... e comparar com a monstruosidade dos Cavaleiros Reais que encontrei antes, a matemática é simples. Sem a menor sombra de dúvida, aqueles dois são os ápices da cadeia alimentar de Morpheus. Esta luta não vai ser um duelo. Vai ser um abatedouro.”

Do lado oposto, alheia à tensão tática da Caçadora, Irene encostava-se de forma lânguida e graciosa contra um pedestal de mármore quebrado. O sorriso indecifrável, bordado com uma malícia sutil, adornava o rosto da misteriosa membra da Horizon enquanto ela assistia à trágica reunião familiar de camarote.

— “Então, finalmente a grande revanche vai acontecer. A herdeira renegada vai desafiar o Rei pelo trono de cinzas…” — Irene tombou a cabeça para o lado, com os olhos brilhando de puro entretenimento enquanto corrigia a própria linha de raciocínio. — “Não. Pensando bem, o termo 'revanche' é formal demais. Talvez a forma mais precisa de descrever o que está prestes a explodir seja uma simples discussão em família.”

No centro do palco dourado, a distância física entre pai e filha parecia encolher psicologicamente a cada milissegundo, com a gravidade distorcida pelo choque de suas auras invisíveis.

— Já que você está tão a fim de falar de forma honesta... — a voz de Kiara rasgou o silêncio. Não havia o menor traço de tremor nas cordas vocais, apenas um rancor espesso e condensado, afiado por décadas de abandono. — Por que não me diz de uma vez o motivo de ter feito aquilo com a minha mãe? Você a usou como uma incubadora de luxo? Para gerar a mim e à minha irmã e nos usar como engrenagens no seu plano doente, seu merda?

O Rei dos Sonhos não piscou. A expressão de Lysander permaneceu polida, aristocrática e inatingível — um lago congelado que se recusava a trincar sob o peso de acusações mortais.

— Não me recordo de ter assinado nenhum contrato que me obrigue a te dar explicações sobre o passado — respondeu Lysander. A voz aveludada flutuou pelo ar, desprovida de uma única gota de remorso ou empatia. Ele inclinou a cabeça, e o olhar escuro, vasto como um abismo, pesou sobre os ombros dela. — Não deixe que os meus elogios sinceros façam você esquecer o seu lugar e a sua posição perante mim.

— A minha posição? — Kiara abriu um sorriso feroz. Os dentes apareceram como as presas de um lobo encurralado. A aura negra e sufocante ao seu redor estalou, chicoteando o chão. — E a qual posição exata você se refere? À de lixeira que vai ter o trabalho sujo de remover o lixo chamado "Rei dos Sonhos" de Morpheus?

Lysander soltou um suspiro baixo e arrastado, um som teatral que simulava uma falsa e condescendente decepção paternal.

— Vejo que andar na companhia constante e mundana daqueles garotos acabou arruinando de vez a sua linguagem. — O Rei ergueu a mão pálida e ajeitou a manga escura de sua roupa com uma lentidão insultante. — Você, por acaso, não sabe que deve manter os seus modos e a sua classe intactos até mesmo quando se está prestes a entrar em uma luta até a morte?

Kiara trincou a mandíbula. O sarcasmo pingou de seus lábios como ácido sulfúrico puro.

— Foi mal. É que a merda do meu pai nunca esteve lá para me ensinar isso.

O clima congelou em zero absoluto.

A tensão tornou-se tão densa, tão absurdamente absoluta, que a atmosfera pareceu pesar o dobro. Era o equivalente místico a um clássico duelo de faroeste: aquele microssegundo sufocante e eterno antes do saque dos revólveres, em que o relógio simplesmente para de bater e o universo inteiro prende a respiração em agonia.

Em combates de Éter, o espaço vazio entre dois oponentes deixa de ser apenas distância; torna-se um tabuleiro de xadrez invisível, letal e minado. A vitória ou a aniquilação raramente são decididas no último golpe cataclísmico que destrói a arena, mas sim no primeiro. Aquele que domina a inércia inicial, que consegue roubar o primeiro milímetro de movimento e impor o próprio ritmo violento, engole o tempo de reação do inimigo e dita as regras de toda a carnificina que se seguirá.

Era um jogo mental de pressão esmagadora. Um piscar de olhos prolongado, uma expiração fora do ritmo adequado ou uma contração muscular precipitada seriam o gatilho irreversível para a morte.

E quem puxou o gatilho primeiro... foi Kiara.

Sem qualquer aviso prévio, sem gritos de guerra clichês ou acúmulo luminoso e telegrafado de magia, a Princesa da Violência obliterou o asfalto sob a sola de seu pé de apoio.

Ela não desferiu um soco grandioso que abriria sua guarda, nem conjurou um feitiço espalhafatoso de longa distância. Aproveitando cirurgicamente o ponto cego da própria arrogância estática e aristocrática do pai, ela lançou um teep — um chute frontal reto, seco e de uma velocidade brutal. O golpe nasceu de uma biomecânica perfeita de quadril, focado em repelir o alvo, destruir o equilíbrio de Lysander e quebrar aquela maldita postura inabalável.

A bota de Kiara rasgou a barreira do som com um estalo ensurdecedor, mirando, sem piedade, o centro do osso esterno do Rei, com a única intenção de estilhaçar suas costelas, arruinar seus pulmões e escancarar a guarda para o massacre.

O acerto de contas havia começado.

Parte 3

O impacto do teep de Kiara soou pela cratera com a violência acústica do disparo de um canhão naval. O golpe seco da bota blindada contra o peito imaculado do Rei dos Sonhos gerou uma onda de choque concussiva tão densa que estilhaçou o asfalto vitrificado ao redor deles, erguendo um anel perfeito de poeira e detritos rumo aos céus escuros de Morpheus.

A força biomecânica bruta arremessou Lysander para trás como um míssil. Seus pés rasgaram dois sulcos profundos no chão quebrado enquanto ele deslizava.

Mas a inércia, para o Rei, era apenas uma sugestão matemática.

Naquela minúscula e caótica fração de segundo em que a sola de Kiara conectou e o empurrou, os dedos da mão esquerda de Lysander já dançavam no ar. Com um peteleco cirúrgico, elegante e imperceptível, ele chicoteou um único e finíssimo fio invisível de Éter verde, colando-o exatamente à têmpora da filha.

Ainda voando descontrolado para trás, Lysander fechou a expressão, cerrou o punho esquerdo... e puxou.

A tração absoluta engoliu as leis da física. Kiara, que ainda recolhia a perna do chute voador, teve seu centro de gravidade roubado. Fisgada pelo crânio como uma presa em um anzol de aço, ela foi arrastada para a frente. O tranco antinatural fez seus braços se abrirem involuntariamente, escancarando o peito e o rosto para o contra-ataque.

Simultaneamente, a mão direita de Lysander agiu. Sem olhar, ele disparou duas estacas maciças de Éter verde diretamente nas ruínas de asfalto abaixo de si. Os fios grossos retesaram como os cabos de aço de uma ponte suspensa, freando o recuo do Rei em um solavanco estático que desafiou a gravidade. Usando as âncoras mágicas como pivô, Lysander cravou as pontas dos pés no chão, rotacionou o quadril em alta velocidade aproveitando a energia acumulada da frenagem e converteu a própria inércia em um contragolpe devastador, aguardando que Kiara fosse puxada direto para a zona de impacto de seu punho.

O soco pesado e impiedoso encontrou o rosto escancarado da princesa em cheio.

CRACK.

A onda de impacto distorceu o ar ao redor do rosto dos dois. O pescoço de Kiara chicoteou para o lado, e a inversão abrupta do vetor de força a arremessou em um parafuso aéreo descontrolado. Contudo, no ápice vertiginoso de sua queda, a princesa ativou seus instintos predatórios. Ignorando a concussão iminente, ela dobrou os joelhos sobre o peito em um contorcionismo absurdo, alterando seu próprio eixo de rotação no ar. Cravou as duas botas no chão com um baque surdo. Suas garras e uma das mãos rasgaram o asfalto em uma derrapagem feroz de vários metros, levantando faíscas, até que a fricção brutal a fizesse parar.

O silêncio reinou na cratera por um segundo inteiro. E, então, os ombros tensos de Kiara começaram a tremer. Ela começou a rir.

Foi uma risada baixa no início, que logo escalou para um som áspero, visceral e animalesco, manchado pelo sangue espesso que já escorria do canto de seus lábios rompidos.

A trinta metros dali, Lysander ajustou a postura. Ele espanou a poeira invisível do ombro com uma calma gélida e irritante. Seu rosto assumiu uma severidade régia, quase professoral e inexpressiva.

— Não é muito elegante ficar rindo dessa forma maníaca no meio de uma batalha, Kiara — repreendeu o Rei. A voz aveludada flutuava, carregando o peso de um patriarca genuinamente decepcionado com a falta de etiqueta. — A compostura é a armadura da mente.

Kiara cuspiu um coágulo de sangue escuro no chão, erguendo o rosto com um sorriso feroz, quase aliviado, que repuxava a pele de suas bochechas.

— Foi mal... mas eu não consigo evitar — riu ela novamente, com a catarse sombria e violenta vazando de seus olhos brilhantes. — É que a adrenalina não abaixa. É a primeira vez na vida que eu sinto isso. Eu finalmente vou poder apenas socar a sua cara... sem precisar pensar num "motivo maior". Chega de filosofias baratas sobre o que é "certo" ou "errado". Eu posso simplesmente usar o seu rosto perfeito para descontar todas as minhas frustrações.

Lysander observou a sede de sangue crua, honesta e egoísta estampada na expressão da filha. O Rei não se enfureceu com a blasfêmia. Pelo contrário. Aos poucos, ele sorriu de canto de boca, com um orgulho genuíno e profundamente distorcido cintilando no abismo de suas íris escuras.

— Pois venha. — Lysander abriu os braços em uma acolhida letal, com o manto flutuando enquanto sua aura verde pulsava no exato ritmo de sua respiração compassada. — É o dever fundamental de um pai abraçar todos os sentimentos violentos de uma filha rebelde.

A última sílaba da provocação do Rei mal cortou o ar, e Kiara já havia quebrado a barreira do som mais uma vez.

Ela avançou em um zigue-zague caótico e predatório. Seu centro de gravidade estava tão baixo que seus joelhos quase roçavam o vidro derretido, camuflando seu avanço nas sombras densas da poeira suspensa. Em um piscar de olhos imperdoável, ela emergiu do ponto cego de Lysander, disparando verticalmente do chão com um uppercut ascendente, carregado por toda a pressão de sua aura destrutiva.

Mas o punho da princesa parou no ar. Travou a exatos três centímetros do nariz intocável do Rei.

Lysander não havia se esquivado um único milímetro. Apenas com um fechar de mãos, seus dedos haviam tecido o ar invisível. Dezenas de microfios de Éter verde, afiados como navalhas moleculares, formavam uma tridimensional e letal "cama de gato", bloqueando o trajeto exato do soco. O braço de Kiara havia mergulhado fundo na armadilha; a tensão imediata e implacável dos fios rasgou a manga grossa de sua roupa e fatiou profundamente as fibras musculares de seu antebraço. Sangue carmesim vaporizou no ar sob a pressão dos cortes.

Qualquer lutador são e racional teria recuado, berrando de dor e segurando o braço mutilado. Mas a Vontade de Kiara operava sob uma lógica própria, banhada em ódio.

Sem quebrar o contato visual furioso com o pai por um décimo de segundo sequer, ela tensionou a musculatura do braço ferido até as veias saltarem, prendendo e esmagando as minúsculas lâminas de Éter dentro da própria carne exposta. Ignorando a mutilação retalhante, usou a própria armadilha mortal do Rei como um degrau fixo e sólido no espaço. Pressionando a alavanca de seu osso ferido contra os fios cortantes, ela impulsionou seu corpo em um salto acrobático ainda mais alto.

Girando no ar como um pião blindado, manchando o oxigênio com seu sangue, Kiara disparou um chute lateral de canela que cortou o ar com o peso e a intenção de um machado de execução, mirando diretamente a têmpora descoberta de Lysander.

O Rei não piscou. Não demonstrou pânico. Ele simplesmente espalmou a mão livre na altura da própria cabeça. Entre suas falanges pálidas e esticadas, novos fios de Éter estalaram como eletricidade estática, formando uma teia geométrica hiperdensa e inquebrável. Ele interceptou a força esmagadora da canela de Kiara exatamente com essa rede minúscula.

A força absurda do impacto gerou um tufão focalizado que varreu a poeira da praça em um raio de dez metros, mas o braço do Rei continuou absolutamente estático, sustentando o golpe letal. Ele havia bloqueado uma marretada de toneladas apenas com a tensão dos dedos.

Com uma rotação fluida, elegante e impiedosa do pulso, a teia de Lysander ganhou vida. Os fios se desenrolaram como cobras de luz verde, enlaçando a perna interceptada e o braço já fatiado da princesa. Transformando o próprio corpo inabalável em um eixo central, o Rei rodopiou. Ele usou os fios de Éter como as correntes de um guindaste profano para erguer a filha cativa em um arco hiperbólico bem acima de si, antes de chicoteá-la com toda a força de volta contra o chão de Morpheus.

BOOM.

Kiara colidiu contra as fundações vitrificadas com a energia cinética de um meteoro caindo. A onda de choque fragmentou o asfalto, afundando o corpo da princesa em uma nova cratera repleta de rachaduras fumegantes.

Mas a batalha não conhecia o luxo de pulmões vazios.

Antes mesmo de os escombros de vidro começarem a cair de volta da explosão, a princesa, deitada de costas no fundo do buraco, cravou a mão intacta na terra arrasada. Com um urro gutural, primitivo, que rasgou a própria garganta, ela recrutou cada fibra rasgada das pernas e do braço. Em um espasmo de pura força bruta, ela arrancou das fundações um bloco colossal de asfalto e pedra, três vezes maior e infinitamente mais pesado que ela mesma. Em um movimento biomecânico explosivo, Kiara arremessou o monólito para cima, diretamente na rota de visão do Rei.

Lysander ergueu o rosto, com a expressão inabalável. Com dois movimentos suaves, quase musicais, ele cruzou os dedos indicadores em formato de "X", e as lâminas invisíveis cortaram o ar da praça. A pedra colossal dividiu-se em quatro quadrantes cirurgicamente perfeitos em pleno voo. As partes fatiadas desmoronaram ao redor de Lysander em uma pesada avalanche de entulho e fumaça que engoliu a visão local.

Os olhos de Lysander se semicerraram, com sua mente fria rastreando a cratera abaixo através das frestas das rochas que despencavam ao seu redor. A cratera estava perfeitamente vazia.

— “O teto.” — o intelecto assustador do Rei decodificou a intenção do xadrez em um microssegundo. O arremesso monumental da pedra não fora artilharia cega para esmagá-lo; fora apenas uma colossal tela de fumaça e uma distração vertical.

A chuva de sujeira que caía sobre a cabeça de Lysander explodiu de cima para baixo. Kiara, que havia se esgueirado e usado a própria rocha que arremessara como plataforma de impulso em pleno ar, despencou através da fumaça do corte transversal como um cometa enfurecido.

Sem fios. Sem geometria complexa. Sem truques mágicos de Éter. Apenas peso, aceleração terminal e dor convertida em força absoluta.

O soco desceu mergulhando. Ele perfurou a guarda em transição de Lysander — que ainda desfazia o "X" com os dedos — e explodiu com precisão milimétrica em seu alvo sagrado. O osso perfeito do maxilar do Rei estalou sonoramente sob a pressão avassaladora da junta da luva blindada. O impacto lançou o rosto pálido do patriarca em um giro lateral violento e contranatural. Pela primeira vez em décadas, gotas de sangue real e quente espirraram de seu nariz aristocrático, desenhando um arco rubro e humilhante no ar poeirento do altar.

A centenas de metros dali, seguras e longe da zona de obliteração primária, as duas espectadoras solitárias sentiram as ondas de pressão vibrarem em seus próprios ossos.

Ludmilla engoliu em seco e apertou ainda mais o cabo da própria arma. Seus olhos dilatados tentavam acompanhar e processar a velocidade absurda e a violência daquela dança macabra.

— Ela não para... — sussurrou a Caçadora, mais para si mesma do que para a outra. — Ela sacrifica a própria carne e fura a própria defesa apenas para conseguir ancoragem no espaço e criar um ângulo letal. Sem hesitar, sem perder um único milissegundo de inércia...

Do outro lado do cenário quebrado, Irene observava de braços cruzados, com a postura relaxada não condizendo com a atenção absurda que seus olhos prestavam. A mente da membra da Horizon operava em uma frequência analítica e letal.

— Um espetáculo físico, de fato — ponderou a mulher, com a voz grave e contida cortando o barulho ensurdecedor dos escombros colidindo ao fundo. — E a parte que realmente gela a espinha e causa terror não é a força... é entender que isso é apenas o aquecimento musculoesquelético de ambos. Nenhuma magia de escala foi conjurada. Nenhum poder conceitual foi invocado. E, mesmo assim, não há um único golpe cego de fúria ou desespero ali.

Ambas as espectadoras, veteranas forjadas na fornalha de incontáveis batalhas, terminaram a linha de raciocínio, pensando em um uníssono aterrador enquanto encaravam os dois monstros no altar:

“Cada um deles já calculou e ensaiou perfeitamente uma ação letal e uma reação impiedosa para cada micromovimento do inimigo. Sem dúvida, esta batalha não é uma briga. É um xadrez jogado em alta velocidade por duas bestas.”

Parte 4

O impacto do soco de Kiara no rosto do pai foi uma detonação em miniatura. As ruínas sagradas de Morpheus gemeram sob a pressão, e uma onda concussiva circular varreu a poeira do chão, fazendo os destroços de vidro derretido e metal retorcido chacoalharem ao redor deles.

Lysander foi ejetado para trás. Seus sapatos finos de couro rasparam contra o asfalto vitrificado em um chiado agudo, freando a inércia colossal com pura técnica de postura. A compostura milimétrica e inabalável do Rei havia sido arranhada de forma inédita, mas seu córtex tático operava muito além do mero choque físico. No exato instante em que seus calcanhares travaram no chão destruído, anulando o recuo, o dedo indicador de sua mão direita deu um peteleco sutil no vácuo.

Um único fio invisível retesou no ar.

O instinto predatório de Kiara apitou na base do crânio. “O puxão invisível de novo…” Ela não hesitou. Expandindo sua aura violenta, flexionou os joelhos e cravou as botas nas fissuras do solo, transformando o próprio corpo em uma âncora viva de carne e Éter escarlate para resistir ao arrasto iminente.

Mas a tração em seu peito nunca veio. O movimento do Rei fora uma finta de mestre.

O fio invisível não estava amarrado à princesa; estava fisgado no centro do pedregulho colossal que ela mesma havia estilhaçado momentos antes. Com um estalo de chicote que quebrou a barreira do som, uma placa maciça de concreto armado foi ejetada dos escombros bem às costas dela. O projétil girou no ar e colidiu contra a nuca e a lateral do rosto de Kiara.

A pedra explodiu em uma nuvem espessa de calcário e poeira estilhaçada. Os detritos cortantes rasgaram a pele do rosto da princesa e entupiram seus olhos com uma argila seca e ardente. A visão dela foi apagada em um piscar de olhos.

Aproveitando a cegueira tática perfeita da filha, Lysander usou os próprios fios ancorados no cenário como um estilingue biomecânico. Ele foi disparado para a frente, obliterando a distância entre eles em um borrão verde. Surgindo como um fantasma na frente da filha atordoada, o Rei afundou um soco devastador direto na boca do estômago dela.

O ar abandonou os pulmões de Kiara em um engasgo úmido, e ela foi lançada girando para trás.

Sem conceder um único milímetro de respiro, Lysander abriu a palma da mão direita na direção da trajetória de voo dela. Cada um de seus cinco dedos brilhava, conectados a pontas de Éter verde e hipercortante. Com um movimento de garra descendente, impiedoso, ele disparou. Cinco linhas invisíveis fatiaram o oxigênio, o asfalto e as leis da física, sibilando como guilhotinas astrais diretamente contra a filha cega.

Rodopiando no ar, sem visão e com sangue escorrendo pelo supercílio, Kiara desligou o pânico. Ela abandonou os olhos inúteis e mergulhou sua percepção na audição aprimorada pelo Éter.

“Um zumbido de alta frequência rasgando o vento... Estão vindo pelo meio!”

No milésimo de segundo exato em que o assobio agudo da morte tocou seus tímpanos, Kiara esticou o braço direito para baixo em plena queda livre. Ela cravou a mão espalmada contra um pilar caído e tensionou todos os músculos do braço como uma mola de aço. Em uma explosão acrobática insana, ela impulsionou o próprio corpo em um salto vertical e invertido. As cinco lâminas de Lysander passaram zunindo a meros centímetros da sola de suas botas, abrindo cinco trincheiras profundas e fumegantes no chão exato onde ela estaria.

Ainda suspensa no ar, Kiara piscou repetidas vezes, forçando lágrimas misturadas com sangue a lavarem a poeira de suas pupilas. A imagem do mundo voltou a focar.

Mas Lysander já a esperava no teto do mundo.

O Rei havia calculado a rota de fuga vertical com perfeição matemática. Ele pairava flutuando acima da posição dela, a gravidade já puxando sua perna em uma joelhada descendente, fria e angular, mirando o centro exato do crânio da princesa.

A colisão soou como a batida frontal de dois carros em alta velocidade.

O pescoço de Kiara chicoteou para trás em um ângulo grotesco. Qualquer outro ser vivo teria a base do crânio estilhaçada e a consciência ejetada do corpo para sempre, mas a Vontade da princesa cuspiu na biologia básica. Recusando o apagão neural iminente, ela cerrou os dentes manchados de vermelho. Em um contorcionismo de puro ódio, ela envolveu a perna atacante de Lysander com os dois braços, travando-o no ar. Usando a inércia da queda dele e o próprio peso morto como alavanca rotatória, Kiara girou a cintura de forma absurda e o arremessou de cabeça contra o asfalto derretido.

Lysander atingiu o chão com a energia cinética de um meteoro, fragmentando a rua em uma colossal teia de aranha de asfalto quebrado.

Kiara caiu montada sobre o peito dele, travando a guarda do Rei com os dois joelhos prensando seus braços. Suas íris rasgaram a penumbra da poeira, brilhando em um escarlate selvagem e predatório. Ela engatou a marcha do massacre. Seus punhos, pesados com uma aura letal e massiva, desceram como martelos pneumáticos em um ritmo alucinante contra o rosto imaculado do pai. Um. Dois. Cinco golpes esmagadores consecutivos que faziam o chão inteiro ceder a cada impacto sonoro.

Mas, no sexto golpe, a textura física sob suas luvas mudou. A carne do rosto de Lysander não cedeu aos ossos; ela simplesmente se desfez. O corpo sob os joelhos de Kiara desmoronou em um emaranhado denso e caótico de linhas verdes brilhantes.

— Um clone de fios?! — Kiara arregalou os olhos, com o soco paralisado no ar.

— Uma cadência impressionante, filha. — A voz aveludada do verdadeiro Rei soou polida, fria e cristalina, a poucos centímetros das costas expostas dela. — Mas dolorosamente óbvia.

Lysander, de pé em seu ponto cego absoluto, desferiu um corte limpo em formato de arco com a mão nua. Uma tesoura de fios invisíveis rasgou as costas de Kiara em um X sangrento, estraçalhando o couro tático de sua roupa e fatiando a musculatura exposta por baixo.

O sistema nervoso de Kiara gritou, mas, antes que ela pudesse girar para o contra-ataque, linhas verdes e espessas enrolaram-se em sua cintura. Com um movimento sutil de maestro, o Rei a ergueu do chão como um boneco de pano inerte, girou seu corpo no ar e a chicoteou de volta contra a fundação de pedra. O impacto abriu uma nova cratera, tirando todo o fôlego restante da princesa.

Lysander não parou para assistir à queda da adversária. Aproveitando o microssegundo de imobilização física da filha, ele ergueu a mão esquerda. Mas ele não apontou para Kiara no chão. Apontou para o céu arruinado de Morpheus.

Fios de um Éter radicalmente diferente — roxo, espesso, viscoso e doentio — dispararam na vertical, cravando-se no nada absoluto.

Longe dali, escondida, Ludmilla prendeu a respiração, com o pavor tático gelando seu sangue nas veias.

“Ele não está laçando uma estrutura física lá em cima... Aquela magia... Ele está amarrando os fios em um conceito abstrato!”

No epicentro da luta, a genialidade profana de Lysander se revelou. Os fios roxos ancoraram-se na própria lei da física local. Ele fisgou o conceito intangível da Gravidade. Com um puxão sádico e brutal do pulso elegante, o Rei arrastou a malha cósmica para baixo.

O efeito foi instantâneo e apocalíptico. Uma massa gravitacional esmagadora e invisível despencou do céu sobre a zona exata onde Kiara tentava se levantar. O chão afundou três metros de uma só vez, com um estrondo monumental. A princesa foi esmagada de bruços contra a terra, com os ossos estalando sob a pressão repentina de milhares de toneladas, como se um buraco negro de bolso tivesse nascido em suas costas. Um anel de pressão varreu a fumaça ao redor em uma onda de choque contínua, nivelando o asfalto.

Com a presa contida sob o peso da física, Lysander sorriu. No ar à sua frente, fios invisíveis se trançaram, formando pequenos degraus sólidos. Caminhando para cima com a elegância impecável de quem desce as escadarias de um baile de gala, o Rei subiu pelo ar, parando a dez metros de altura. Ele olhou com soberba inatingível para a filha prensada no abismo.

Ele uniu as palmas das mãos longas. Dezenas de cabos de Éter verde condensaram-se no vácuo, trançando-se em espiral em alta velocidade até formarem uma colossal lança letal. A arma zumbia, distorcendo a luz e o ar ao seu redor com a promessa de uma perfuração absoluta e divina.

Com um movimento fluido, Lysander arremessou o dardo de luz direto no coração de Kiara.

Enquanto era esmagada pela anomalia gravitacional, o cérebro de Kiara calculou a derrota física. A musculatura, atrofiada pela pressão, não tinha a velocidade necessária para uma esquiva lateral. Se não podia mover o próprio corpo a tempo, ela moveria o cenário.

Canalizando absolutamente cada gota de seu Éter escarlate restante para o punho direito livre, ela rasgou a própria garganta em um urro bestial e afundou um soco hipercondensado no solo vitrificado sob o próprio peito.

BOOOOOOM!

A detonação sísmica do Éter viajou pelo subsolo e estilhaçou a fundação da cratera de baixo para cima. Placas tectônicas inteiras de terra e vidro foram ejetadas para o ar, criando um gêiser violento de terra e fumaça que desestabilizou o vetor contínuo do feitiço gravitacional do Rei por um milissegundo letal.

Foi a fresta na porta de que ela precisava. Kiara usou o microalívio de pressão para torcer o quadril na sujeira. A lança de Lysander rasgou o gêiser de fumaça como um relâmpago verde, errando o coração da princesa por meros centímetros. A lâmina mágica pegou de raspão na lateral de seu abdômen, abrindo um rasgo fumegante em sua pele antes de se cravar na terra armada ao seu lado com um estrondo surdo.

Ignorando o sangue fervente que manchava sua cintura, Kiara agarrou a haste da lança, que ainda vibrava com a magia opressora do pai. Transformando a arma letal inimiga em sua própria alavanca física, ela cravou as botas na base da madeira mágica e, com a força de um pistão hidráulico, catapultou-se para fora do poço gravitacional em um salto colossal.

Voltando para o chão nivelado, Kiara travou os olhos na figura flutuante e inalcançável do pai. A fúria cega cedeu espaço para a frieza cortante de uma caçadora. Com um chute devastador em um dos pedregulhos que foram arrancados do chão no seu último ataque, ela lançou o projétil massivo como um meteoro na direção de Lysander.

O Rei suspirou, o tédio aristocrático mascarando sua genialidade tática. Com um movimento preguiçoso de dois dedos cruzados, ele fatiou a rocha em dezenas de pedregulhos menores e inofensivos, que choveram ao seu redor.

Mas o arremesso não era um ataque real. Era uma porta.

Usando a sombra transitória dos destroços em queda livre para cegar o rastreio visual do pai, Kiara correu em arco, esgueirando-se para trás do Rei antes de saltar na direção dele.

— Sério, filha? O mesmo truque primário de distração visual? — murmurou Lysander. A voz aveludada não oscilou um único semitom diante da emboscada.

A velocidade de reação do Rei desafiava as próprias engrenagens do tempo. Ele rotacionou o tronco inteiro com uma fluidez líquida. Sem sequer olhar para trás, seu dedo indicador direito já estava apontado como o cano letal de um revólver de grosso calibre. Um único fio invisível, espesso e contundente como um vergalhão balístico, disparou à queima-roupa.

O cabo de Éter perfurou o lado esquerdo do abdômen de Kiara em pleno voo, atravessando sua carne de lado a lado e explodindo em um spray grotesco de sangue escuro pelas costas. O líquido rubro choveu e respingou no paletó branco, antes intocável, de Lysander.

O choque hemorrágico e o trauma orgânico catastrófico deveriam ter causado paralisia instantânea, fazendo a princesa despencar do céu como um pássaro abatido.

Mas Kiara não gritou. Os olhos dela não reviraram de dor.

Forçando a própria carne rasgada a deslizar mais fundo contra a haste que a empalava, ela travou sua inércia brutal com a própria agonia, freando a parcos dois centímetros do rosto imperturbável do Rei. Os dentes de Kiara, manchados de carmesim, abriram-se em um sorriso glorioso, doentio e predatório.

Ela fixou as íris vermelhas e caóticas na escuridão ancestral dos olhos de Lysander.

— Eu ordeno que fique parado. — A voz de Kiara cortou o vento uivante, carregada com o peso irrefutável de uma rainha.

O efeito no ambiente físico foi nulo, mas o efeito interno em Lysander foi absoluto. O Rei travou no ar. Suas pupilas negras dilataram-se uma fração de milímetro.

O cérebro supercomputador de Lysander reconheceu a ordem no mesmo instante. Era o Royal Board, a infame habilidade conceitual de controle absoluto que a filha possuía. Seu sistema nervoso impenetrável acionou protocolos de defesa neural de nível vermelho, erguendo muralhas místicas e preparando-se para a invasão mental avassaladora.

Mas, na mesma fração de segundo em que erguia os escudos, a lógica perfeita do Rei processou os dados reais da batalha:

“Ela só pode usar essa habilidade uma única vez em alguém por embate, ou ter o controle contínuo de quem já se submeteu a ela. No entanto, ela já gastou essa habilidade no nosso confronto passado, contra mim.”

Para ler a tática de blefe da filha, acessar a própria memória das regras limitadoras do feitiço, escanear o ambiente em busca de Éter oculto que justificasse a falha e desligar os próprios escudos neurais massivos, confirmando a segurança... a mente incomparável de Lysander precisou de exatos dois segundos de processamento ininterrupto.

Dois segundos de pane fria. Dois segundos em que a máquina perfeita e onisciente duvidou de sua própria invulnerabilidade divina. Dois segundos de puro e mortal atraso de hardware biológico.

Era a eternidade que a Princesa das Sombras havia comprado com o próprio sangue e carne.

Antes que a postura inabalável do Rei pudesse se reiniciar após o blefe mental, Kiara agarrou o meio do fio balístico que ainda atravessava suas próprias entranhas. Ignorando a dor alucinante e paralisante da fricção esfolando seus órgãos internos vivos, ela enrolou a linha grossa na luva tática com um puxão violento de brutalidade crua.

A armadilha havia se invertido. Ela transformou a arma perfurante de Lysander na coleira dele.

O puxão bestial varreu o chão invisível de Éter sob os pés de luz do Rei. Lysander foi arrancado de sua base de controle no céu com um solavanco humilhante, sugado para a gravidade real em queda livre.

Em perfeita sincronia predatória com a queda desamparada dele, Kiara girou o eixo do próprio corpo empalado no ar, cavalgando o impulso para se posicionar acima do peito desprotegido do pai.

Com a mão esquerda, ela agarrou o colarinho de seda da roupa outrora impecável, cravando os dedos no tecido e travando-o no lugar. Com a direita, ela recuou o punho cerrado até o limite máximo de sua escápula, o osso estalando. A aura escarlate explodiu ao redor de seu braço como uma supernova, hipercondensando-se na superfície compacta e mortal dos nós de seus dedos de aço.

Em um único milissegundo suspenso no teto do céu, Kiara somou o peso esmagador da gravidade, o brilhantismo sádico de seu blefe tático e a densidade infinita de sua fúria secular em um único vetor de aniquilação absoluta, pronto para descer e esmagar a divindade de volta ao pó.

Parte 5

O punho escarlate de Kiara não apenas encontrou o rosto de Lysander; ele pareceu reescrever as próprias leis da física ao redor deles.

Não foi um soco comum. Suspensa no teto do mundo, Kiara torceu o próprio corpo no ar, usando a anomalia gravitacional que havia virado contra o pai como a corda tensionada de um estilingue cósmico. A força bruta de seu ódio visceral, somada à aceleração terminal da queda livre, resultou em um impacto de nível apocalíptico. O asfalto de Morpheus não rachou sob eles — simplesmente se desintegrou em uma nuvem atômica sob a pressão.

Um gêiser colossal de terra negra, escombros vitrificados e pura destruição cinética irrompeu para os céus sombrios, engolindo pai e filha no epicentro de uma cratera que se expandiu por quarteirões inteiros. A onda de choque circular varreu a área, arrancando placas de pedra maciça e retorcendo as vigas de aço expostas ao redor como se fossem delicadas folhas de papel-alumínio.

Ao longe, a brutalidade da expansão forçou Ludmilla a manobrar. A Caçadora saltou para trás repetidas vezes, usando acrobacias rápidas e instintivas, cravando as botas nas ruínas instáveis para não ser tragada pela borda da cratera que desmoronava. Ela ergueu o braço direito para proteger o rosto do vento cortante e cheio de lascas de vidro, mas seus olhos experientes não piscaram. Estava boquiaberta.

— “É loucura…” — pensou Ludmilla, estabilizando a postura sobre um pilar caído. — “É óbvio para mim que o Lysander é um Gifted, um dos pouquíssimos que conseguiu a absurda e mítica façanha de atingir os 120% da própria capacidade existencial. Ele é uma anomalia ambulante com reservas de Éter quase divinas. Mas o que me assombra não é ele. É ela.”

Ludmilla estreitou os olhos afiados, focando na silhueta de Kiara, que lutava em meio à tempestade de poeira e caos.

— “Aquela garota está trocando golpes mortais e ganhando terreno tático contra um monstro de 120%, usando puramente a própria aura para reforçar as fibras musculares. Ela não ativou uma única habilidade mágica até agora…”

Do outro lado do campo em colapso, a mente analítica de Irene dissecava outra camada do combate. O vento ensurdecedor gerado pela detonação bagunçou os cabelos alinhados da bela mulher, mas o sorriso fascinado e indecifrável em seus lábios não vacilou um único milímetro.

— “A força de vontade inquebrável e a agressividade brutal dela são espetáculos incríveis, de fato” — ponderou Irene, com os olhos acompanhando o fluxo invisível de energia no campo de batalha destroçado. — “Mas o que realmente não pode ser subestimado é a inteligência cruel dessa garota. A tática daquele blefe... ela sabe o peso psicológico aterrorizante que o seu Royal Board representa para ele.”

Na mente prodigiosa de Irene, a cena do salto passava em câmera lenta, enquanto ela analisava, como uma cirurgiã, as microdecisões que Kiara havia tomado desde o segundo em que saiu da cratera, empalada.

— “O Royal Board é uma carta na manga tão opressora que funciona como uma arma de destruição em massa sem sequer precisar ser ativada. O simples terror instintivo de Lysander ao cogitar cair novamente sob as ordens irrevogáveis dela foi o que o forçou a recalcular tudo e abrir aquela guarda impenetrável. Mas... calcular um blefe suicida desses no meio de uma cadência de ataques em altíssima velocidade, sangrando em queda livre? Isso exige uma capacidade de processamento sob pressão beirando o inumano.”

Apesar de maravilhadas pela genialidade tática e pela força colossal da Princesa das Sombras, as duas espectadoras — ambas guerreiras veteranas especializadas em ler o fluxo irreversível de uma luta — chegaram à mesma conclusão fria no mesmo milissegundo. O diagnóstico silencioso pairou no ar estático:

“Mas, ainda assim... batendo de frente desse jeito, ela vai perder.”

No centro fumegante da devastação, um borrão escuro e rápido cortou a nuvem de terra. Era Kiara, saltando para trás em arcos baixos para ganhar a distância tática necessária para respirar. A princesa cravou os calcanhares nos destroços, derrapando até parar. Sua respiração estava falha e úmida; o peito subia e descia sob a roupa rasgada. Sangue escuro e espesso jorrava do ferimento perfurante em seu abdômen, e a musculatura das costas, fatiada pela “cama de gato” anterior, punia cada mísero movimento seu com choques de agonia. Rápida e focada, ela concentrou sua aura na barriga, criando um torniquete de energia escarlate crua apenas para estancar a hemorragia antes de desmaiar.

No fundo do epicentro de poeira levantada, a silhueta imponente de Lysander ergueu-se. O Rei dos Sonhos estava ofegante. Suas vestes brancas, outrora impecáveis e intocáveis, estavam manchadas e arruinadas. O soco monumental da filha havia fraturado o lado esquerdo de seu rosto perfeito, desalinhando o maxilar com um inchaço grotesco. O sangue rubro e divino escorria grosso de sua testa pálida e de seus lábios rompidos. O orgulho paternal havia sido cobrado e pago com dano físico gravíssimo.

Mas a diferença cruel e abissal entre uma tática genial e um Gifted a 120% logo revelou sua face monstruosa. Sem desviar os olhos sombrios e vazios de Kiara por uma fração de segundo sequer, Lysander ergueu as duas mãos à frente do corpo. Ele não usou o Éter para preparar um contra-ataque; em vez disso, centenas de microfios cirúrgicos de Éter verde começaram a brotar da ponta de seus dedos, voltando-se para o interior do próprio corpo do Rei.

Como vermes de luz agindo de forma autônoma, os fios mergulharam sob a pele pálida. O som agoniante e úmido de ossos faciais estilhaçados sendo realinhados estalou pelo ar quieto; músculos faciais rompidos foram suturados com magia, e órgãos internos perfurados pela inércia foram remendados em tempo real. A regeneração celular forçada era uma visão grotesca e repulsiva, porém de uma eficiência termodinâmica perfeita e inegável.

— Ele está se costurando por dentro?! — Kiara rangeu os dentes manchados de sangue, com a fúria faiscando em seus olhos vermelhos.

Ela sabia melhor do que ninguém que não podia dar a um monstro daqueles o luxo do tempo de cura. Agindo para quebrar o ritmo, Kiara não avançou de forma previsível. Com um chute rotativo brutal e rasteiro no chão, lançou três enormes blocos de concreto na direção do rosto do Rei, criando uma cortina grossa de fumaça e escombros voadores para bloquear seu rastreio visual. Usando o ponto cego gerado pelos blocos, ela disparou, flanqueando pela extrema esquerda com os punhos armados com aura, pronta para obliterar o Rei antes que o feitiço de cura terminasse.

Lysander, com o maxilar estalando ruidosamente de volta ao lugar perfeito e o sorriso aveludado ressurgindo intacto no rosto ainda ensanguentado, sequer pausou a cirurgia interna. Com um movimento preguiçoso e desdenhoso de uma das mãos livres, esticou os dedos longos em direção ao céu rasgado de Morpheus.

Os fios roxos brilharam na escuridão. O conceito de gravidade foi novamente distorcido, laçado e puxado para o chão. A pressão invisível e esmagadora desabou sobre toda a arena, como se a fundação de chumbo de um arranha-céu invisível tivesse caído do céu.

O ataque letal de flanco de Kiara foi esmagado no meio da corrida. Ela tentou cruzar os braços acima da cabeça para suportar o impacto atmosférico, mas a força monumental a obrigou a cravar os dois joelhos e as palmas das mãos no asfalto estilhaçado para impedir que a própria coluna cervical fosse pulverizada. O chão ao redor dela cedeu em um círculo de contenção perfeito, afundando-a como uma âncora de navio na rocha.

Com a filha absolutamente imobilizada pelo peso cósmico, Lysander ergueu a outra mão relaxada à frente do próprio peito. Fios hipertensos de Éter verde esticaram-se no ar de forma vertical e horizontal, alinhando-se com uma precisão matemática assustadora. Em um piscar de olhos, os fios brilhantes assumiram a forma luminosa, intrincada e letal de um instrumento de cordas.

A postura do Rei deixou de ser a de um lutador. Tornou-se a de um maestro insano prestes a reger a obra-prima final de sua vida.

— Harpa dos Sonhos — murmurou Lysander para a poeira. Os olhos escuros e insondáveis brilhavam agora com uma crueldade puramente artística e aristocrática.

Ele ergueu a mão direita pálida e dedilhou a primeira corda de Éter verde. O som emitido não foi musical; foi o grito áspero, agudo e mecânico do próprio tecido do espaço sendo rasgado ao meio. Cada nota que vibrava na corda gerava uma ondulação hipersônica instantânea que condensava a atmosfera local, convertendo a vibração do som em uma lâmina de vácuo incompressível e invisível a olho nu.

O ar assobiou. Kiara, cravada de joelhos e trincando os dentes sob a gravidade, mal teve tempo de tensionar os músculos do ombro esquerdo antes que a primeira lâmina invisível chegasse. O vácuo rasgou a aura, a roupa blindada e sua carne até o osso. O sangue espirrou em uma linha reta perfeita na poeira.

Lysander não parou para apreciar a primeira nota. Ele fechou os olhos e começou a dedilhar a harpa de luz com a graciosidade letal, rítmica e inabalável de um músico virtuoso em seu clímax sinfônico.

Ting. Ting. Ting. O som metálico tornou-se uma sinfonia de execução militar.

Dezenas de lâminas longas de vácuo cruzaram a cratera em trajetórias oblíquas e caóticas. Kiara apertou os olhos ensanguentados, tentando ler o movimento antinatural da poeira ou captar o chiado do vento estático para prever os ângulos dos cortes, mas, presa pela âncora gravitacional, seus reflexos sobre-humanos eram inúteis. Ela havia se tornado o alvo estacionário e indefeso de um fuzilamento acústico.

As lâminas invisíveis começaram a rasgar seus braços cruzados, suas pernas firmadas e o couro de seu peito. A força cinética e o impacto repulsor dos cortes concentrados eram tão violentos que a repulsão começou a superar a própria pressão gravitacional do Rei. O corpo ensanguentado e retalhado de Kiara passou a ser lançado de um lado para o outro no ar restrito da cratera, como uma folha presa em um liquidificador. Ela quicava com baques surdos e rolava pelo asfalto em meio a explosões de impacto e filetes de sangue, tentando proteger a garganta e os órgãos vitais com os braços cada vez mais retalhados.

E, durante toda a duração do massacre sinfônico, os fios cirúrgicos no interior do corpo de Lysander continuavam seu trabalho autônomo, macabro e silencioso. Ele estava fatiando a filha viva enquanto voltava, segundo após segundo, aos inatingíveis 100% de vitalidade divina.

Longe dali, Ludmilla trincou os dentes com força, com a mandíbula doendo enquanto observava a figura régia do Rei dedilhando o ar.

— “Mesmo depois de distorcer o peso do mundo, alterando a gravidade, curar as próprias células rompidas em tempo real e manifestar essa tempestade ininterrupta de vácuo... a densidade de pressão do Éter desse maldito não diminuiu nem um maldito por cento!” — concluiu a Caçadora, suando frio e sentindo o desespero tático diante daquele absurdo estatístico. — “Se ele tem um poço inesgotável de magia somado a essa anomalia de absorção de 120%... é matematicamente impossível vencer esse homem em uma guerra de atrito usando apenas força física, resistência orgânica e reflexos afiados. Não importa o tamanho da Vontade dela. O corpo humano, de carne e osso, vai quebrar primeiro.”

Irene, assistindo com frieza inumana ao corpo de Kiara ser jogado como uma mera boneca de pano ensanguentada sob a chuva incessante de lâminas invisíveis, suspirou baixinho. Uma sombra de genuína e profunda decepção cruzou seu sorriso indecifrável.

— Parece que você chegou ao seu limite, Princesa... — murmurou Irene para o vento estático, cruzando os braços e deixando que seu veredito sombrio e irrevogável ecoasse nas ruínas monumentais daquela batalha unilateral.

Parte 6

As lâminas invisíveis de vácuo continuavam a assobiar em uma cadência implacável e enlouquecedora. Elas rasgavam o asfalto em trincheiras fumegantes e chicoteavam o corpo esfolado de Kiara de um lado para o outro, como uma boneca de pano presa em um liquidificador acústico. O sangue da Princesa das Sombras já pintava as ruínas de um vermelho-escuro e brilhante, mas, lá do alto, caminhando sobre degraus tecidos de puro ar, Lysander não sorria com deboche. A expressão do Rei dos Sonhos era de uma paciência quase religiosa.

— Eu sei que isso não é tudo o que você pode fazer, filha. — A voz aveludada de Lysander desceu dos céus, imperturbável diante do som molhado da carne de sua herdeira sendo retalhada. — A sua Vontade não se quebraria com tão pouco. Eu confio na sua capacidade de ir além.

Caída no fundo da cratera, arfando e coberta de cortes diagonais que expunham o músculo vivo, Kiara não recuou. Ela apoiou as mãos trêmulas e ensanguentadas no chão estilhaçado. Ignorando a poça rubra que se formava sob seu peito, forçou os joelhos. Os ligamentos estalaram em protesto, mas ela se ergueu, com a espinha reta e o queixo altivo.

— Eu não preciso ouvir isso de você, seu merda. — Kiara cuspiu uma grossa poça de sangue escuro, com os olhos vermelhos faiscando através da poeira.

Desta vez, em vez de tensionar a musculatura e assumir a base de saltos curtos, rígidos e agressivos de um boxeador, a princesa mudou o ritmo de sua existência. Ela fechou os olhos. Inspirou profundamente, enchendo os pulmões perfurados com o ar carregado de ozônio e cinzas, e expirou.

No segundo seguinte, deixou o próprio corpo desabar.

Toda a tensão muscular desapareceu. O centro de gravidade dela caiu para o asfalto. Ela tornou-se fluida, relaxada e imprevisível, desmoronando como água escorrendo por uma fenda. E, no último milésimo de segundo, exatamente quando seu corpo pendia para a frente, simulando um colapso total de exaustão, ela converteu essa energia potencial acumulada em uma explosão cinética maciça.

Sem um único pingo de hesitação, ela obliterou o chão de vidro sob seus pés e disparou em uma linha reta, cega e letal, direto na direção do pai flutuante.

Afastada dali, Irene estreitou os olhos brilhantes, tentando ler o fluxo caótico do Éter.

— Tolice. Uma investida reta e relaxada contra uma tempestade invisível que fatia o aço?

Do outro lado, Ludmilla apertou os punhos em torno de sua arma, com os olhos dilatados pela adrenalina vicária.

— Ela enlouqueceu de vez?! Um ataque direto e suicida, de peito aberto assim, não vai funcionar contra um monstro tático como ele!

No teto do mundo, Lysander apenas moveu os dedos longos mais rápido, dedilhando a Harpa dos Sonhos em um frenesi aristocrático e implacável. Dezenas de cortes de vácuo desceram em uma malha geométrica perfeita. Era uma guilhotina em rede tridimensional, projetada para fatiar a garota em centenas de pedaços organizados.

Mas Kiara não abriu os olhos. Ela havia descartado a visão e a audição, sentidos biológicos lentos e inúteis contra lâminas que superavam a velocidade do som. Em vez disso, expandiu a própria aura escarlate ao redor do corpo. Não a condensou como uma armadura para aguentar o impacto, mas a espalhou como um radar sensorial finamente sintonizado. Permitiu, de forma suicida, que o domínio cortante de Lysander invadisse seu espaço pessoal.

E, no exato e incalculável microssegundo em que a distorção letal do vácuo tocava a borda de sua aura, a meros milímetros de rasgar sua pele, ela reagia.

BOOM. BOOM. BOOM.

Clarões escarlates começaram a pipocar em pleno ar ao redor dela como fogos de artifício. Eram miniexplosões de aura detonando em áreas milimétricas ao redor do corpo em movimento de Kiara. Ela não estava tentando bloquear ou rebater a densidade do vácuo; estava gerando detonações pontuais de calor que desestabilizavam a pressão atmosférica do feitiço. Criava "túneis" caóticos e temporários de ar neutro, que lhe permitiam escorregar ilesa pela rede de cortes mortais.

Era uma exibição de microgerenciamento de Éter tão absurda que beirava a insanidade divina.

Lysander arregalou os olhos. A surpresa genuína finalmente trincou sua máscara de porcelana aristocrática. O Rei ergueu a mão esquerda, com os dedos curvos, pronto para puxar o conceito de gravidade mais uma vez e esmagá-la no asfalto antes que a distância zerasse.

Mas Kiara foi mais rápida que as leis da física.

Canalizando a totalidade absoluta de seu Éter escarlate puramente para a sola da bota de arranque, ela obliterou as amarras da inércia. Catapultou a si mesma no meio do salto original, rasgando a barreira do som e transformando o próprio corpo ensanguentado em um míssil hipersônico.

O punho escarlate de Kiara encontrou o rosto do Rei com uma brutalidade ensurdecedora.

O impacto não fez um estrondo; ele fez o ar gritar. A força deformou as feições imortais de Lysander e gerou uma onda de choque circular que varreu as nuvens num raio de um quilômetro. Lysander foi ejetado do céu, arremessado para trás como uma marionete com as cordas cortadas. Ele girou descontroladamente no ar, cuspindo um longo e denso rastro de sangue dourado que brilhou na escuridão de Morpheus.

Lá embaixo, Irene e Ludmilla prenderam a respiração, maravilhadas. A princesa havia furado a defesa absoluta.

Mas o instinto de sobrevivência veterano de Ludmilla apitou primeiro, gelando sua espinha.

— Ainda não acabou!

Girando no ar em uma velocidade alucinante e estonteante, o corpo quebrado de Lysander se recusou a ceder o controle à inércia. Transformando o próprio giro caótico em um eixo de ataque giratório, o Rei esticou os braços e liberou um furacão onidirecional de milhares de fios verdes e radioativos de dentro de seu paletó. Era uma detonação defensiva desesperada, um ouriço de puro pânico tático.

Os fios espalharam-se em todas as direções como uma flor letal desabrochando. Kiara foi forçada a abortar a continuação do combo. Torcendo a espinha no ar de forma antinatural, ela saltou para trás. As linhas cortantes passaram a centímetros de seu rosto, espalhando-se pelo cenário e fatiando os arranha-céus flutuantes de Morpheus ao redor deles em cubos perfeitos de vidro, aço e concreto.

O alcance geográfico do ataque em área foi tão massivo que Irene e Ludmilla foram obrigadas a recuar centenas de metros de seus camarotes. As duas deslizaram, correram e saltaram pelos escombros que colapsavam apenas para não serem desmembradas pela fúria dispersa do Rei.

Lysander aterrissou. Ele cravou as pontas das botas no asfalto vitrificado, derrapando por dezenas de metros, rasgando o chão até finalmente parar de joelhos.

Suas vestes de seda, outrora um símbolo de intocabilidade, estavam em farrapos irrecuperáveis. O rosto aristocrático estava banhado em uma mistura espessa de sangue dourado e rubro. Ele ofegava, os ombros subindo e descendo, mas, ao erguer os olhos escuros para a filha através da pesada cortina de fumaça e poeira... o Rei estava sorrindo.

Um sorriso extasiado, febril, sombrio e maníaco.

— Era exatamente isso que eu esperava... — sussurrou Lysander. A voz aveludada não continha um pingo de raiva pela humilhação, apenas uma admiração doentia e profunda.

Ele se levantou, com os ossos estalando, e limpou o sangue espesso do queixo com as costas da mão esfolada.

— Este é o poder restrito. O poder que apenas aqueles que desistiram de absolutamente tudo pelos seus objetivos podem alcançar. Aqueles que descartaram amigos sem olhar para trás, que jogaram a própria família no lixo, que cortaram os próprios laços com a sanidade e apostaram a vida sorrindo na beira do abismo... Eu não estava enganado em investir em você, Kiara. Você é exatamente igual a mim.

A Princesa das Sombras limpou o suor, a fuligem e o sangue da testa com o antebraço. Os olhos dela queimavam com um ódio escarlate tão denso que parecia palpável no ar.

— Cala a boca e luta — rosnou Kiara, com a voz animalesca. Ela apertou os punhos machucados até os nós dos dedos estalarem em um protesto sonoro. — Eu ainda não te esmurrei nem metade do que eu queria.

Lysander soltou uma risada grave, um som de barítono que ecoou melancólico e vasto pelas ruínas do reino morto.

— Seria maravilhoso continuarmos com essa dança física, minha filha. Seria um prazer. Mas já passou da hora de fechar as cortinas e acabar com isso. Este mundo quebrado já não suporta nem mais um segundo preso neste inferno de sofrimento transitório... Ele aguarda um salvador definitivo.

O Rei abriu os braços como um messias sombrio. Uma aura verde, incrivelmente densa e viscosa, começou a vazar de seu corpo, engolindo a luz do ambiente e distorcendo as leis do espaço ao seu redor.

— Eu queria comprovar o limite da sua força, Kiara. E você a provou com maestria. Mas agora... para provar a magnitude da minha para você, eu não irei mais me conter de forma alguma.

O oxigênio ao redor de Lysander tornou-se rarefeito, pesado, quase irrespirável, como se a gravidade do planeta tivesse se focado apenas nele.

— Eu vou lançar um ataque forjado com a totalidade da massa e do poder que conquistei através da minha Vontade solitária. É assim que a nossa história familiar deve ser resolvida: com o limite absoluto da sua existência profana em choque direto com o ápice intocável da minha.

Lysander ergueu as duas mãos abertas na direção do céu estilhaçado de Morpheus, com os dedos apontados para a abóbada celeste.

O mundo inteiro pareceu prender a respiração em pavor. E então, o céu começou a girar.

Longe do epicentro, Ludmilla, Irene e, no altar, Kiara... as três guerreiras ergueram os rostos simultaneamente. Suas pupilas se dilataram ao máximo, refletindo o apocalipse puramente geométrico em formação no alto.

Lysander não estava mais controlando fios invisíveis no campo de batalha. Não estava mirando no corpo da filha. Ele estava tricotando a própria estratosfera do planeta.

O Rei dos Sonhos convertia as nuvens escuras de tempestade, as correntes de vento de alta altitude e a própria umidade do ar atmosférico em cordas massivas, sólidas e quilométricas de Éter puro. A atmosfera inteira da dimensão começou a girar em um tufão colossal, espiralando e uivando em direção a um único ponto de gravidade concentrada no espaço sideral acima deles.

Milhões de toneladas de nitrogênio, carbono e oxigênio estavam sendo esmagadas, retorcidas e cristalizadas em formato sólido por sua Autoridade inquestionável de 120%. Ele não estava apenas criando uma arma mágica; estava, literalmente, puxando o teto do mundo para baixo.

— A Agulha de Deus — batizou Lysander, com sua voz de veludo, o fim de todas as coisas.

Lá no alto, além das nuvens, o tufão monumental condensou-se na forma de uma lança infinitamente longa e de densidade incalculável. Escura, massiva e rodopiante, a arma apontava, como a Espada de Dâmocles, diretamente para o coração da crosta de Morpheus.

A física da anomalia era bizarra e aterrorizante: a densidade do ar hipercomprimido ali era equivalente à massa de milhares de porta-aviões de aço empilhados. A arma era tão pesada que a "Agulha" começou a gerar seu próprio campo gravitacional no céu. Ela rasgava e dobrava a luz ao redor da lâmina, criando uma lente térmica alaranjada na atmosfera antes mesmo de ser disparada.

A quilômetros de distância, Irene observou a distorção térmica rasgando o firmamento. A bruxa intocável da Horizon arregalou os olhos. Abriu um sorriso nervoso, suando frio pela primeira vez e, quebrando a tensão tática com puro instinto de sobrevivência, simplesmente começou a assobiar uma melodia desafinada.

— Ei, ei, ei… você tá brincando, Lyszinho… — disse Irene rapidamente, com a voz falhando e sumindo na garganta. Em um movimento fluido e apressado, sem perder um segundo, ela sacou sua Chave prateada. Girou-a no vácuo e conjurou uma porta dimensional, rasgando o nada. Bateu a mão na maçaneta, atravessou a soleira em um pulo e desapareceu do plano de existência sem sequer olhar para trás.

Ludmilla engoliu em seco. O pavor primordial esmagou o fundo de seu estômago, superando qualquer instinto lógico de combate e honra que possuía.

— Ele é louco... um monstro completamente louco! — praguejou a Caçadora a plenos pulmões, com a voz aguda. Ao dar as costas para o marco zero do fim do mundo, ela converteu todo o seu imenso reservatório de Éter em pura tração e velocidade nas pernas. Disparou como um raio prateado através dos escombros, correndo como um animal acuado para tentar fugir do incalculável raio de aniquilação termonuclear.

No centro absoluto do altar em ruínas, bem sob a sombra da ponta da lança celestial, Kiara não correu. Não recuou. Apenas ergueu o queixo banhado em sangue e olhou para o pai.

Lysander abaixou o rosto e sustentou o olhar da filha. Não havia ódio, raiva ou decepção nos olhos mortos do Rei. Havia apenas a serenidade gélida, distante e intocável de um criador supremo disposto a atear fogo ao próprio quadro para recomeçar a pintura a partir das cinzas.

— Veja, filha. Contemple a destruição do mundo... para a criação de um novo.

Lysander abaixou as duas mãos.

A Agulha de Deus despencou.

A lança cósmica rasgou a troposfera a uma velocidade absurda, quebrando a barreira de Mach 10 em uma fração de segundo. A energia cinética acumulada na queda livre não fora projetada para vaporizar o mundo, mas sim para perfurá-lo. Os trilhões de fios de ar supercomprimido giravam em espiral em velocidades incalculáveis, fazendo com que a Agulha agisse como uma broca atmosférica colossal. O atrito apocalíptico com o ar incendiou o oxigênio ao redor, transformando a arma escura em um pilar vertical de plasma incandescente.

O impacto primário com o solo não produziu barulho. A brutalidade do choque empurrou o ar para longe com tanta força que roubou do epicentro a capacidade de propagar o som.

A perfuração tectônica rasgou a crosta de Morpheus. A Agulha não explodiu na superfície; ela mergulhou nela. A onda de choque sísmica obliterou o altar dourado e varreu os arranha-céus que flutuavam ao redor, transformando milhares de toneladas de concreto e aço em pura poeira atômica em um raio de dezenas de quilômetros. O impacto gerou um terremoto brutal que fraturou a placa continental de todo o reino onírico.

E então, quando a broca atingiu a rocha-matriz no subsolo profundo e a pressão mágica dos fios de ar cedeu, a matéria comprimida tentou voltar ao estado gasoso de uma só vez.

Uma explosão termobárica massiva detonou de dentro para fora da terra.

Uma redoma colossal de fogo mudo engoliu o horizonte do epicentro. Um tsunami de pressão varreu a placa continental, rachando Morpheus de ponta a ponta. Ravinas quilométricas se abriram na terra com rugidos surdos, engolindo partes de cidades-fantasmas a dezenas de quilômetros de distância do impacto original.

Longe dali, escondidos nas bordas da floresta petrificada, onde o restante do grupo se refugiava, o chão ondulou, monstruoso. Eliza, Yuki, Safira e a imponente Maysa foram arremessadas de joelhos. O pânico cru tomou conta das garotas enquanto o céu noturno acima delas era lavado por um brilho branco e ofuscante vindo do horizonte.

Dante, recém-desperto, mutilado e ainda sangrando, moveu-se por puro instinto protetor. Ele se jogou sobre Anna no chão que tremia com a força de um terremoto de nível 9, cobrindo o corpo pálido da garota com o seu próprio, enquanto as imensas árvores de pedra petrificada ao redor estalavam sob os ventos da explosão e desmoronavam em uma chuva mortal de destroços.

No centro da planície devastada, a dezenas de quilômetros da zona zero, até mesmo a imponente Árvore Dourada — o farol cravado no centro de tudo — chacoalhou sob a magnitude da onda expansiva continental. Seus imensos galhos celestes gemeram e se curvaram sob a pressão do ar, enquanto pedaços colossais de luz sólida que formavam sua copa quebravam-se, despencando do céu escurecido pela poeira e ardendo em chamas como meteoros dourados apocalípticos.

A crosta do continente havia sido rasgada como papel. Onde antes existia o campo de batalha, agora repousava uma cratera titânica, fumegante e profunda como um cânion.

O mundo de Morpheus estava desmoronando de dentro para fora.

E, sem a menor sombra de dúvida ou negação científica... a força absurda que estava rasgando as fundações daquele universo pela raiz não era magia humana. Era o reflexo e o peso de um terror e um poder restritos unicamente a um verdadeiro Deus.

Parte 7

O silêncio que se seguiu ao colapso tectônico da Agulha de Deus não era pacífico; era a mudez absoluta e aterrorizante de um mundo agonizando. O asfalto vitrificado, os escombros da terra partindo-se em grandes ravinas... O golpe havia criado uma ferida na existência em um raio de dezenas de quilômetros. Mesmo à distância, o mundo, que parecia se desmanchar, também se mostrava afetado.

No campo de batalha, diante da grandiosa árvore de luz, o que restava no fundo daquela cratera continental era a fundação nua e exposta de Morpheus: veias abertas de um magma azul e místico que sibilava através das fendas tectônicas profundas, iluminando a fumaça espessa e sufocante com um brilho fantasmagórico e irreal. Relâmpagos residuais e estáticos estalavam no ar seco, saturado pelo cheiro metálico de ozônio e pela destruição absoluta.

No centro daquele inferno azulado, a figura soberana e outrora intocável do Rei dos Sonhos vacilou. Lysander cambaleou. Um zumbido agudo e ensurdecedor perfurava seus tímpanos. Sangue escuro e espesso escorria de seus ouvidos, descia por suas narinas e borbulhava entre seus lábios finos. Sua biologia gritava em colapso total. O corpo inteiro queimava de dentro para fora, como se o próprio Éter superaquecido estivesse derretendo a medula de seus ossos.

Com os dedos pálidos, trêmulos e manchados de sangue, ele manifestou um único e fraco fio invisível. Com um movimento letárgico, puxou o Livro do Fim — que havia sobrevivido intacto à aniquilação, repousando a poucos metros dali. Lysander arrastou o grimório de couro pelo chão em sua direção. Mas, quando tentou dar o primeiro passo doloroso para alcançar o artefato que moldaria a realidade, as pernas do Rei simplesmente cederam sob o peso da falência celular.

Ele caiu de joelhos sobre a terra fervente, arfando, com os braços pendendo sem força ao lado do corpo arruinado. A poucos metros de distância, o ar distorceu-se com um zumbido metálico. Uma porta dimensional rasgou o vazio, e Irene pisou nas ruínas fumegantes com a leveza felina de sempre.

Seus olhos astutos e impenetráveis varreram a aniquilação ao redor antes de pousarem, incrédulos, na figura do todo-poderoso Rei.

— Você perdeu o resto do juízo que tinha? — perguntou a agente da Horizon. A voz dela oscilava perigosamente entre o sarcasmo habitual e um choque real e palpável diante da escala do dano autoinfligido. — O que diabos você queria provar com isso, Lysander?

Lysander tossiu, com o peito roncando enquanto respingava sangue escuro no chão brilhante de magma. Ele ergueu o rosto. Um sorriso fraco e trêmulo, porém genuinamente orgulhoso e satisfeito, rasgou-lhe os lábios manchados.

— Eu apenas... respeitei a Vontade e a coragem da minha filha com a minha própria. Ela não hesitou em dar tudo de si para alcançar seu objetivo... Então, eu reconheci o poder dela, atacando de volta sem me conter um único milímetro.

Mas, antes que Irene pudesse tecer uma resposta para aquela loucura paternal, o céu estilhaçado de Morpheus rugiu de forma não natural. Algo rasgou as nuvens de fumaça cinzenta da estratosfera em um mergulho fulminante e suicida.

Lysander, mesmo prostrado de joelhos e à beira da morte, forçou o pescoço para cima, com o olhar frio travando no alvo. Uma espada larga, forjada de puro Éter denso, desceu como um raio celestial vingativo, cortando o vento na direção da jugular exposta do Rei.

Ele mal moveu o braço arruinado; os dedos tremeram ao erguer uma barreira compacta de fios espessos que bloqueou a lâmina sagrada a míseros centímetros de fatiar seu pescoço. O impacto gerou faíscas cegantes.

Atrás da espada voadora, com asas brancas de Éter batendo e banhado em lágrimas de puro luto e fúria, estava Teth. O Cavaleiro Branco aterrissou nas pedras quentes, com os joelhos quase cedendo e os dentes trincados em um desespero cego.

— POR QUÊ?! — berrou Teth. A voz do garoto quebrou em um soluço agoniado, rasgando a própria garganta enquanto ele olhava de relance para o horizonte dilacerado. — Eu escutei os gritos lá de longe, Lysander! Cidades inteiras engolidas! Inocentes pegos no raio de expansão! Por que tanta destruição absurda?!

Lysander não se alterou um único grau térmico.

Mesmo de joelhos, sangrando, arfando e segurando a lâmina de Teth a um milímetro de seu rosto, os olhos escuros do Rei transbordavam um desdém esmagador e gélido. Ele suspirou e, com um esforço masoquista, expandiu o resto de sua aura radioativa. A detonação causada pela expansão da aura repeliu a espada de Teth com assustadora facilidade. A onda de choque varreu o chão, arremessando o cavaleiro alado pelos ares como se fosse um inseto atingido por um para-brisa.

Irene recuou um passo elegante. Estava levemente impressionada, não com a força do Rei, mas com a tenacidade suicida e irracional do garoto alado.

— Você não tem o menor direito de saber o porquê de nada — respondeu Lysander, com a voz fria e polida cortando o chiado do magma borbulhante. — Você não está participando desta luta, Teth. Apenas aqueles que tiveram a coragem, a Vontade e a força para desafiar "Deus" estão presentes neste palco. Dante... Kiara... Eliza... Mas você? Você foi fraco. Não tem o necessário para pisar neste campo de batalha. Saia.

Com um movimento mínimo e desdenhoso do pulso ensanguentado, Lysander traçou um rápido "X" no ar com os dedos. Dois cortes maciços de vácuo comprimido atingiram Teth em pleno voo, diretamente no centro do peito. A força cinética rasgou a armadura como se fosse papel-crepom e fatiou a carne do cavaleiro. Teth foi ejetado, rodopiando para trás até colidir com um estrondo de ossos contra os escombros da borda da cratera.

O esforço irresponsável fez o Rei tossir outra poça abundante de sangue no asfalto.

— Não exagere, Majestade — alertou Irene friamente, de braços cruzados e olhos semicerrados, avaliando o estado dele. — Você já está extrapolando os limites. Se não se concentrar em se recuperar, vai acabar morrendo.

A dez metros dali, gemendo de dor excruciante, Teth cravou a espada sagrada no chão derretido. O sangue jorrava, mas, forçando a própria coluna a não ceder, ele se levantou a qualquer custo. O peito do cavaleiro sangrava em forma de cruz, manchando a luz branca de vermelho, mas a pura indignação moral o mantinha de pé.

— Como você se atreve... — O Cavaleiro Branco cuspiu o sangue da boca, com os olhos faiscando de ódio. — Como você ousa fazer isso com este mundo? Com Morpheus?! Você acha que tem o direito de apagar milhares de vidas como se fossem números, só porque carrega a coroa de um Rei?!

Uma risada baixa, rouca, rasgada e profundamente sombria escapou dos lábios rompidos de Lysander. O som era grotesco. Ao longe, a milhares de quilômetros de distância, pedaços de Morpheus começavam a se quebrar e a desaparecer; o mundo, aos poucos, estava se desmanchando em decorrência da destruição.

Apoiando-se na tensão artificial de seus fios invisíveis injetados nos próprios músculos, o Rei dos Sonhos forçou as articulações dos joelhos a se endireitarem. Ele ficou de pé. Trêmulo, pálido como um cadáver, porém inegavelmente imponente. Por pura e orgulhosa força de vontade, obrigou o próprio núcleo exaurido de Éter a queimar ainda mais alto. A pele pálida do rosto e do pescoço de Lysander começou a carbonizar nas bordas e a escurecer. A aura dele cresceu majestosamente, engolindo a luz azul mística da cratera.

Ele olhou profundamente nos olhos de Teth, regozijando-se ao ver o cavaleiro moralista tremer e afundar os joelhos sob o peso opressor da pressão de sua aura.

— Não é porque eu sou um Rei, garoto — sussurrou Lysander. A acústica da voz dele mudou de forma aterrorizante; ela não ressoou nos tímpanos de Teth, mas ecoou de forma perturbadora e direta na alma e no cérebro do cavaleiro, como uma lei imutável da natureza. — É porque eu sou um Deus.

A gravidade brutal do Éter de Lysander esmagou os ombros alados de Teth contra o chão de vidro.

— Para salvar este mundo podre de forma definitiva, o poder de um mero cavaleiro, de uma revolucionária ou mesmo de um rei não é, e nunca será, o suficiente. Apenas uma divindade pode mudar tudo desde as raízes e criar um novo mundo onde a verdadeira e eterna felicidade possa ser alcançada. — Ele abriu os braços enquanto olhava para a gigantesca árvore de luz ao longe e aumentava ainda mais sua aura. — E para me tornar essa engrenagem divina... eu abandonei tudo e subi a um patamar que a sua Vontade quebradiça e inútil nunca poderia entender. Isso é o destino. Isso é ser um Deus.

Teth cerrou os punhos contra as pedras quentes com tanta força que o tecido das luvas estalou.

O suor frio escorria de sua testa. Ele forçou um passo arrastado e miserável na direção do Rei, com os próprios ossos da perna rangendo em agonia sob a pressão invisível de toneladas.

— Um deus... — rosnou Teth, com o ódio e a frustração vazando pelos dentes. — E que porcaria de deus você deveria ser?!

Lysander ergueu o queixo pontiagudo. A silhueta macabra do Rei, banhada em uma aura radioativa e coberta pelo próprio sangue escuro, parecia colossal e inalcançável no centro daquele inferno.

— É natural que você não entenda. Um ser humano falho jamais será capaz de compreender as engrenagens da divindade. Os seres vivos de nosso mundo são corrompidos desde o primeiro choro no berço.

Ao longe, vendo a destruição enquanto abraçava a amiga com todas as forças, a pequena Silence orava para que o destino as salvasse, enquanto Yukina chorava, sem entender o que estava acontecendo.

— Os humanos são peças manchadas por sentimentos fúteis e defeituosas, afogados eternamente em ganância, orgulho, ira, avareza, preguiça, luxúria e gula. Mas... por acaso já passou por essa sua cabeça oca o motivo exato de possuirmos sentimentos que só destroem e apodrecem tudo o que tocamos?

Teth parou de rastejar. A respiração do garoto prendeu-se dolorosamente na garganta.

— É simples — sorriu Lysander friamente, como um predador encurralando a mente da presa. — Porque essa foi a vontade de um deus. Foram eles que nos fizeram assim. Defeituosos... E o motivo? Simplesmente porque eles são deuses e nós, não.

— E é nessa mesma sujeira que você quer se transformar?! Em seres egoístas assim?! — gritou Teth, com a voz falhando e desafinando diante do absurdo cósmico.

— Um deus verdadeiro jamais seria vencido por um simples humano — decretou Lysander. Os olhos escuros e opacos brilhavam agora com uma certeza fanática, gélida e inabalável. — Seria ridículo. Seria logicamente impossível. Por isso, para deter um deus caprichoso, sádico e onipotente, é necessário engolir a moralidade e se tornar outro. Eu rasgarei as amarras deste mundo corrupto. Alcançarei o paraíso inatingível. Invadirei as portas do Reino de Deus... e os matarei, um por um, manchando minhas mãos para criar um mundo limpo, onde não exista mais nenhum deus.

A confissão monumental, banhada em um niilismo messiânico de proporções bíblicas, tirou o resto do oxigênio e as palavras da boca de Teth. O cavaleiro não tinha contra-argumentos. A lógica de Lysander era distorcida, brutal e herética, mas a Vontade apocalíptica do Rei era colossal e inabalável demais para ser refutada com ideais vazios. Para matar os deuses sádicos e salvar a humanidade inteira de um ciclo eterno de sofrimento, Lysander decidiu abrir mão da própria humanidade e vestir o manto do carrasco.

Como Teth poderia argumentar o contrário com meras palavras bonitas, se ele, um simples cavaleiro real, mal conseguia ficar de pé sob a aura esmagadora e absoluta daquela entidade?

Mas, antes que a sombra do desespero filosófico engolisse a luz do cavaleiro por completo... uma força cega e invisível atingiu o lado direito do rosto de Teth com a violência cinética e absurda de um trem de carga descarrilado.

CRACK.

O Cavaleiro Branco foi lançado sem aviso para o lado, voando vários metros e caindo de bruços, esfolando a armadura nas pedras afiadas e derretidas. Teth, Irene e até mesmo Lysander congelaram, confusos e em alerta máximo. Não havia ninguém fisicamente posicionado ali. Não havia feitiço visível sendo conjurado, nenhum fio de Éter esticado, nenhuma distorção no espaço. Teth esfregou o maxilar inchado e sangrento, sentindo na pele e no osso o impacto de um soco humano fechado e furioso, mas o ar ao seu lado estava completamente vazio.

Então, um som delicado, farfalhante e profundamente aterrador preencheu o silêncio fúnebre da cratera. O bater sincronizado e fantasmagórico de milhões de asas minúsculas.

Do centro do magma azul fervente, brotando das chamas ardentes e do caos da destruição absoluta no fundo escuro do abismo... um oceano vermelho começou a subir.

Borboletas. Incontáveis e infinitas borboletas carmesins e etéreas, tecidas a partir de pura energia residual, memórias e calor, voavam em uma espiral hipnótica, densa e magicamente aterrorizante para fora da fumaça negra. E, caminhando calmamente por entre o mar rodopiante de asas vermelhas que se abriam respeitosamente para lhe dar passagem, uma voz feminina, severamente ferida, porém inabalável e predatória, ecoou nas ruínas mortas:

— Não entre no meu caminho, Cavaleiro Branco.

Irene parou de respirar. A mulher impassível, que sempre assistia a tudo com sarcasmo seguro, arregalou os olhos, com os lábios entreabertos em um choque mudo.

Kiara emergiu do fogo azul e da morte. A Princesa das Cinzas estava horrivelmente machucada.

O sangue escuro e fresco manchava sua pele pálida, encharcava seus cabelos negros e arruinava o resto de suas roupas blindadas, mas a postura dela — a coluna reta, o queixo erguido e os ombros relaxados — não carregava um único traço de derrota. A aura escarlate que a envolvia já não era apenas uma defesa tática ou um reforço muscular; era uma coroa densa, majestosa e apavorante. O oxigênio ao redor dela literalmente fervia de pura e incontrolável Vontade.

— Me responda, pai... — Kiara falou. O som de seus passos ecoava com uma autoridade predatória e inata que rivalizava diretamente, sem medo algum, com o peso gravitacional do Rei. — Então era esse o grande, nobre e patético objetivo que você perseguiu, pisando em cadáveres a vida inteira? Foi essa filosofia a "fonte" da sua preciosa Vontade que transformou as nossas vidas e este mundo em um inferno? Para você, os humanos são criaturas tão patéticas e inerentemente pequenas comparadas aos deuses que... nós simplesmente não temos outra opção a não ser fugir de nós mesmos e nos tornarmos deuses também?

Lysander estreitou os olhos mortos. O orgulho inabalável e a postura aristocrática do Rei misturaram-se, pela primeira vez na batalha, a uma raiva contida, ofendida e venenosa.

— Isso não é óbvio, minha filha? Depois de tudo o que aconteceu aqui, você ainda precisa de mais provas para entender a sua própria pequenez? Olhe para você! Olhe para o seu corpo destruído! Você, que possuía uma Vontade próxima à minha e alcançou o ápice, o máximo que um frágil corpo humano poderia atingir... e, no fim das contas, com todos os seus truques e sua Vontade, não foi capaz de me deter. Me diga com fatos, Kiara: como mãos humanas, fracas e mortais, poderiam sequer sonhar em arranhar ou alcançar um deus?

Kiara não parou de caminhar em direção a ele. A cada passo lento, firme e irredutível, as solas de suas botas blindadas esmagavam o vidro derretido em um som agonizante de triturar ossos, marcando o ritmo da execução.

— Se é nisso que você realmente acredita, do fundo podre da sua alma, pai... — Ela ergueu o rosto banhado em sangue. Os olhos vermelhos, caóticos e furiosos perfuraram sem esforço as defesas mágicas e as muralhas conceituais, invadindo e dissecando o núcleo frágil da alma do Rei dos Sonhos. — Então você jamais irá se tornar um deus.

Um arrepio frio, violento e completamente alienígena subiu pela espinha de Irene. Até mesmo Lysander, a anomalia divina intocável, sentiu o próprio coração falhar uma batida no peito em um momento de puro choque humano.

O oceano de borboletas do caos subiu para a estratosfera estilhaçada de Morpheus. Elas não vinham apenas das cinzas quentes da cratera; a magia conceitual transcendia a geografia. Longe dali, a dezenas de quilômetros de distância, Rum observava o céu maravilhado ao lado de Isobel; Sora e Safira erguiam os rostos, atordoadas, nas ruínas poeirentas da floresta petrificada; Drake Dampier arregalava os olhos para o céu ao lado do corpo de Ragnar.

Dezenas, centenas de milhares de borboletas vermelhas brotavam e nasciam silenciosamente dos corpos, das lembranças e da dor de todos aqueles que haviam morrido, sangrado e sofrido atrocidades nas engrenagens quebradas de Morpheus. Era um exército infinito de vontades e esperanças fragmentadas, voando em um uníssono deslumbrante para o céu morto — atraídas, consoladas e unificadas pela Vontade inquebrável, quente e empática da princesa.

Lysander cerrou os dentes com força. Ele ignorou a dor biológica dilacerante que retalhava seu cérebro e empurrou seu Éter para um novo limite hiper-radioativo e suicida. Começou a caminhar, arrastando os sapatos arruinados na direção de Kiara. O calor opressor e tóxico de sua aura era tão extremo que a pele de Teth, ainda caído muito longe, começou a empolar e a queimar em feridas vermelhas apenas por existir na mesma zona geográfica do Rei.

— Como assim, minha filha?! — exigiu Lysander, com a compostura rachando. A voz aveludada do Rei perdeu a polidez pela primeira vez em milênios, ganhando um tom de urgência aguda, agressiva e desesperada de quem vê a própria fundação ideológica tremer. — Logo você, a única criatura em toda a história que foi capaz de se aproximar de mim... como você pode ser incrivelmente tola a ponto de não entender?!

Kiara parou.

A aura escarlate ao redor do corpo arruinado dela explodiu para cima com o rugido de um vulcão despertando, rasgando as nuvens escuras de cinzas e subindo em um pilar ininterrupto de luz vermelha até as estrelas mortas de Morpheus. Não era apenas força bruta; era a manifestação física de uma determinação resoluta, absoluta e emocional que desafiava e cuspia na própria lógica fria da criação.

— Você enche a boca para dizer que a sua Vontade fria e solitária é absoluta e inabalável — acusou Kiara. O tom de voz dela era o de um juiz proferindo uma sentença de morte inegável. Ela ergueu o braço ferido, com o sangue escorrendo pelo cotovelo, apontando o dedo indicador sem tremer na direção do rosto pálido e divino do pai. — Você se gaba aos quatro ventos de que nada pode mudar a sua decisão e de que seguiria em frente mesmo tendo que passar, como um trator covarde, por cima da minha mãe, da minha irmã e de todo o resto do universo se fosse preciso. Mas me diga a verdade, pai...

A voz da princesa engrossou. E a verdade metafísica daquele embate, o diagnóstico perfeito da fraqueza inimiga, atingiu o tendão de Aquiles psicológico de Lysander como a lâmina de um machado de execução.

— Não é verdade que, bem no fundo da sua alma solitária e miserável... você já desistiu de ser um humano?

Lysander travou no lugar. As pernas trêmulas do Rei pararam de obedecer ao cérebro. O fluxo contínuo e letal de seu Éter radioativo simplesmente gaguejou e afundou, falhando no ar.

— Você aceitou a derrota há muito tempo, não foi? — Kiara desferiu o golpe conceitual sem a menor piedade, dissecando e expondo a farsa covarde que moldava a mente do Rei. — Você olhou para a imensidão do céu e aceitou que as suas mãos humanas frágeis nunca poderiam superar o peso imposto pelos deuses. Você acreditou, com todo o seu medo, que o seu punho jamais, em hipótese alguma, seria capaz de tocá-los e mudar as regras. E é exatamente por causa dessa fraqueza profunda... por conta dessa dúvida patética, desse medo e dessa hesitação... que você jamais poderá alcançar e se tornar um deus!

Lysander ficou mudo.

O arrepio gelado do terror existencial engoliu o calor de sua aura. As pupilas escuras e infinitas do Rei tremeram em expansão febril. A boca dele abriu-se milimetricamente, mas nenhum som saiu. Pela primeira vez em séculos de planejamento impecável, sua mente travou, incapaz de formular uma única e miserável resposta de defesa. O silêncio absoluto que se seguiu ao estilhaçar irreversível de sua arrogância divina foi mais alto e ensurdecedor que a queda da própria Agulha de Deus. Kiara continuou a marchar, implacável, invadindo o espaço do patriarca paralisado.

— Mas... você tem razão sobre uma coisa, papai. Esses deuses de merda dos quais você tem tanto medo, que negam o esforço suado e a dor dos seres vivos, que permitem que as pessoas apodreçam sozinhas em rios de sofrimento, que criaram de forma sádica as engrenagens podres deste mundo doente... eu não os aceito. Eu os rejeito com cada célula esmagada do meu corpo. Eu não preciso de nenhum deus assim!

As chamas escarlates da aura de Kiara atingiram uma temperatura surreal e impossível. A carne do rosto de Irene começou a queimar dolorosamente apenas por testemunhar o fenômeno térmico. Os fios de Lysander que ainda estavam no ar simplesmente derreteram, incendiaram-se e viraram cinzas ao entrarem em contato com a simples radiação de calor da Vontade brutal da filha.

— Lysander, recue! — gritou Irene, com os olhos arregalados, perdendo o sarcasmo e a compostura, genuinamente apavorada com a anomalia que via nascer ali. — Não se aproxime dela!

Mas Lysander não conseguia se mover um milímetro para trás. O salto de fuga não obedecia. O Rei dos Sonhos estava consumido por uma emoção humana, crua e esquecida, que não sentia há eras: o puro, frio e destilado terror da morte. A verdade irrefutável da filha o havia paralisado por dentro. Ele estava nu, exposto diante da própria covardia que tentara mascarar com um poder esmagador. Ele não era um salvador; era um homem apavorado fugindo da própria mortalidade.

— Mesmo que você diga que é impossível de verdade para os humanos alcançarem e esmagarem a face de um deus... — Kiara ergueu o braço direito na altura do ombro, puxando o punho machucado para trás, tensionando os músculos fatiados até as veias do pescoço saltarem. — Eu não vou desistir de tentar! Eu não vou fugir da dor! Eu não vou me amedrontar diante do universo ou me esconder atrás do título de um ser divino! Eu vou quebrar todos eles com estas mesmas mãos!

Como uma resposta cósmica e maravilhosa ao seu grito de guerra, o oceano infinito e vermelho de borboletas desceu em uma espiral veloz dos céus enegrecidos. Elas não a cercaram como uma barreira protetora; condensaram-se freneticamente, fundindo-se e sendo absorvidas sem resistência direto no punho cerrado e sangrento da princesa. O Éter hipercondensou-se de tal forma, armazenando, validando e engolindo a Vontade, as memórias e a força de um mundo inteiro de almas que acreditaram nela, que o braço e a luva de Kiara brilharam, cegantes. Emanavam o calor branco, a luz ofuscante e o peso gravitacional de uma pequena estrela vermelha pronta para a ignição.

— Eu farei com que a minha Vontade queime tudo isso até o fim! — rugiu Kiara. As cordas vocais da princesa se rasgaram, e a voz trovejante ecoou pelas montanhas, rasgando as nuvens e a fumaça de Morpheus. — Eu farei com que o meu próprio punho humano alcance até mesmo o céu! Porque... essa é a vontade de uma humana... que realmente deseja salvar este mundo!

A dúvida, o medo e a hesitação profana caíram sobre os ombros de Lysander com um peso tão esmagador, tão absoluto e definitivo, que ele sentiu as próprias pernas fraquejarem. Ele abriu a boca manchada de sangue para falar, para tentar argumentar, mas não havia som ou verdade no universo capaz de defendê-lo daquela realidade.

— Vamos, pai! — O grito agudo e final de Kiara rachou o próprio oxigênio restante na cratera. — Se você quer tanto ser um deus, então fique aí e me mostre que a sua divindade pode parar toda a minha Vontade humana!

A Princesa das Sombras obliterou as leis da inércia, triturou o asfalto e disparou como um flash de luz estelar contra o Rei paralisado. Irene, tomada pelo pânico, tentou erguer a mão e girar sua Chave no ar, buscando parar Kiara ou abrir uma porta para salvar o tolo Rei. Mas a simples pressão gravitacional e o calor expansivo da aura escarlate de Kiara eram tão intensos, tão abrasadores, que lançaram a mulher para fora da borda da cratera continental como uma mera e inútil folha seca varrida por um furacão.

Sem fios. Sem ilusões. Sem Royal Board.

O punho incandescente e estelar de Kiara chocou-se em cheio contra o centro do peito exposto de Lysander. O impacto colossal rasgou todas as camadas invisíveis de fios hiperdensos que restavam no Rei. O punho esmagou, afundou e pulverizou em pó branco o osso do esterno de Lysander. A força brutal não parou ali; ela varou de um lado a outro de suas costas, rompendo a essência divina que ele tentava forjar e proteger com tanto desespero.

E, no último milésimo de segundo flutuante no tempo, exatamente enquanto o impacto destrutivo e quente da estrela dilacerava o interior de seu corpo... o grande Rei dos Sonhos, Lysander, teve um único, patético e honesto pensamento que apagou tudo em que ele acreditava: “O que... o que, afinal de contas, é um ser humano?”

A Vontade blindada e friamente fabricada do Rei colapsou, derretendo sob o calor inegável do punho escarlate afundado em seu peito.

“Será mesmo que... desde o início... a Vontade de um simples humano... poderia ter desafiado a Vontade de um deus?”

Parte 8

A quilômetros de distância do abismo escarlate que consumia o coração latejante de Morpheus, o fim do mundo não era uma cacofonia de violência. Era um espetáculo silencioso, melancólico e terrivelmente belo.

Nas ruínas isoladas da antiga Cidade Cristal, o vento uivava baixo, soprando uma fina tempestade de poeira de quartzo e cinzas através dos imensos e destroçados portões de ferro da velha Biblioteca Celeste. Ali, deslizando como um fantasma alheio ao colapso gravitacional que rasgava a dimensão ao meio, uma figura solitária caminhava.

Seus passos eram lentos, rítmicos e graciosos, percorrendo o jardim de flores raras que, em um ato de resistência cega contra o apocalipse, ainda insistiam em desabrochar por entre as pedras quebradas. Era uma mulher envolta em vestes de uma elegância imaculada e profundamente aristocrática. O tecido fino não oscilava com pressa; flutuava.

Sua pele era como porcelana intocada, um contraste gritante e quase ofensivo, livre de qualquer vestígio microscópico da fuligem, do suor ardente ou da carnificina que manchava o resto do mundo vivo. Seus olhos, brilhantes e abissalmente insondáveis, observavam com uma serenidade assustadora o horizonte distante, onde o céu de fuligem e a terra de vidro se estilhaçavam.

— A Vontade para desafiar Deus... — murmurou ela. A voz suave e límpida flutuou entre o farfalhar das folhas e o tilintar dos cristais partidos. — A Vontade para desafiar um deus. Será que tal coisa realmente existe na natureza?

Ela parou os passos silenciosos diante de um canteiro isolado de flores luminosas.

Suas pupilas dilatadas refletiam, como espelhos d'água, o clarão vermelho e apocalíptico da explosão térmica que ainda ecoava e pulsava no firmamento.

— E, se essa anomalia existe, quem deveria possuí-la por direito? — Ela inclinou o rosto para a luz da flor. — Os humanos, que vivem pouco acima dos animais, rastejando, sangrando e sofrendo por causa de provações que, teoricamente, lhes foram forçadas de cima para baixo pelas divindades? Ou os deuses, que, ao fim das rigorosas contas, são apenas sombras etéreas, forjadas de forma impensada e alimentadas pelas próprias crenças desesperadas que esses humanos depositam no escuro?

A mulher tombou a cabeça levemente para o lado, com a mente viajando pelas engrenagens do universo.

— Talvez os Astreus, as peças que criaram todo esse ciclo infinito e doentio... — Ela semicerrou os olhos brilhantes. — Ou, talvez, algo muito além da nossa compreensão. Talvez o único ser que detenha essa resposta seja aquilo que deu à luz e gerou as próprias fundações matemáticas dos Astreus.

Um sorriso sutil, irônico e carregado de uma melancolia milenar curvou os lábios perfeitos da mulher.

Ela estendeu a mão pálida, com os dedos finos roçando as pétalas luminosas com extremo cuidado, antes de colher uma das flores pelo caule, separando-a das raízes.

— Mas, no final das contas... essa pergunta realmente importa? — continuou ela, com a voz caindo para um sussurro íntimo enquanto erguia a flor à altura do próprio rosto. — Aqueles que perdem tempo demais olhando para o céu, questionando-se e desejando encontrar respostas cósmicas, tendem a ser os que estão mais afastados de alcançar essa Vontade absoluta. É muito mais cômodo e fácil para as pessoas chorarem e dizerem que o controle lhes foi tirado pelo destino... do que terem a coragem de admitir que, desde o início dos tempos, elas nunca o possuíram.

Ela fechou os olhos. Os lábios se entreabriram e ela assoprou suavemente o miolo luminoso. As pétalas se soltaram do caule. Voaram, rodopiando graciosamente, levadas pela correnteza do vento elétrico em direção ao céu rasgado de Morpheus.

Ao abrir os olhos brilhantes, ela assistiu ao macrocosmo imitar o microcosmo. A morte da própria física desenrolava-se no horizonte distante: pedaços gigantescos de terra — massas continentais colossais, do tamanho de metrópoles inteiras — eram arrancados do chão com a mesma facilidade das pétalas de sua flor. A crosta terrestre simplesmente flutuava, em um silêncio aterrador, rumo à estratosfera, sugada e esmagada pela descompressão do núcleo de Morpheus, apenas para ser apagada e desaparecer no vazio.

— Logo, este belo jardim também irá desaparecer — sussurrou para o ar vazio.

Com uma calma inabalável, ela ajeitou a gola da roupa impecável, sem demonstrar um único traço primitivo de pânico ou instinto de sobrevivência.

— Eu já fiz tudo o que me era possível fazer. O meu papel expirou.

O olhar vítreo e imortal dela pareceu cruzar instantaneamente a distância física do espaço, a barreira invisível do tempo e as correntes turbulentas do Éter. Sua atenção ancorou-se com precisão cirúrgica na alma do Caçador que, em alguma floresta petrificada a dezenas de quilômetros dali, vomitava sangue e forçava o próprio corpo mortal e arruinado a se levantar do pó mais uma vez.

— Mas e você, Dante? O que vai fazer agora? — indagou a mulher à conexão invisível, com a voz ganhando um tom vibrante de antecipação silenciosa. — Vai ficar sentado aí no escuro também, sangrando, apenas observando e aceitando o que o destino já escreveu na pedra? Ou a sua Vontade imprevisível irá levá-lo ainda mais longe do que as regras deste mundo morto permitem?

O chão estremeceu violentamente. Ela virou as costas para o apocalipse geológico, caminhando de forma rítmica e lenta de volta para as sombras frias e reconfortantes do saguão da Biblioteca Celeste, enquanto os grossos pilares milenares de mármore ao redor começavam a rachar e ruir sobre a própria base.

— Eu sou apenas uma leitora neste conto. Por isso, tudo o que posso e devo fazer é observar as páginas virarem...

O sorriso dela aqueceu o vento gélido e cortante das ruínas continentais, carregado de uma fé cega, inexplicável e inquebrável.

— Mas, do fundo do meu coração... eu acredito que os humanos são as únicas criaturas capazes de desafiar, e rasgar, a face do próprio destino.

Parte 9

A neblina espessa e sufocante de fumaça tóxica rastejava como um predador moribundo pelas ruínas do que, um dia, fora o epicentro intocável de Morpheus. O som constante de pedras vitrificadas desmoronando e o chiado úmido do magma azul borbulhando nas entranhas abertas da terra formavam a trilha sonora fúnebre de um mundo em seus últimos suspiros.

Em meio ao cascalho derretido e às chamas escarlates isoladas que ainda teimavam em consumir o pouco oxigênio restante, uma figura caminhava com passos arrastados e atípicos. Um chiado rasgou o silêncio. Irene tossiu, expelindo uma espessa nuvem de fuligem negra.

A misteriosa agente da Horizon estava irreconhecível. Suas roupas, outrora belas, não passavam de trapos esfarrapados e carbonizados grudados ao corpo. Sua pele de porcelana estava agora coberta por queimaduras feias, abertas e latejantes — um lembrete físico e doloroso do terror absoluto da radiação térmica da Vontade estelar de Kiara.

— É sério isso? — Irene resmungou, com a voz rouca, seca e totalmente destituída de seu habitual tom lúdico ou teatral. — Depois de tantas eras... depois de incontáveis ciclos dedicados a tecer um plano perfeito, é assim que as cortinas se fecham? Uma piada de mau gosto?

Ela parou de caminhar. Aos seus pés, estirado sobre a terra morta, estava Lysander. O Rei dos Sonhos estava se apagando. Os batimentos cardíacos da divindade autoproclamada haviam se tornado intervalos ocos, rasos e espaçados, diminuindo a cada segundo. Ele não conseguia sequer mover os músculos do pescoço quebrado. Seus olhos escuros e insondáveis agora estavam semicerrados e leitosos, com a vida esvaindo-se lentamente, embora as pupilas ainda tentassem, de forma patética e errática, focar na silhueta embaçada da mulher acima dele.

Pela primeira vez desde que pisara naquele mundo de sonhos, o sorriso misterioso de Irene sumiu por completo. Em seu lugar, uma expressão de desapontamento profundo, gélido e incalculável tomou conta de seu rosto machucado. Seus olhos exóticos, moldados no formato bizarro de fechaduras perversas, mergulharam no buraco massivo e escancarado no peito do Rei — a cratera fumegante, com bordas de carne carbonizada, deixada pelo soco inegável de Kiara.

Irene suspirou pesadamente e desviou o olhar. Muito ao longe, nos limites esfumaçados da destruição, a silhueta de Kiara também estava caída, inerte e esparramada no asfalto quebrado, tendo esgotado até a última gota celular de Éter que possuía para forjar aquele milagre.

— Tudo culpa daquela criança... — Irene murmurou, a irritação vazando acidamente pelos dentes trincados. — Eu nunca imaginei que ela acabaria alterando o roteiro desse jeito. Quem iria imaginar, em sã consciência, que era sequer possível concentrar e aquecer o Éter de todas aquelas borboletas do caos de uma vez só?

A mulher balançou a cabeça, analisando a anomalia que acabara de presenciar.

— Bom, agora não importa se aquelas borboletas eram a manifestação das vontades despedaçadas de quem te odiava, ou o lamento dos inocentes que morreram desejando um mundo melhor. A catarse foi feita. Agora que ela finalmente despejou todo esse rancor acumulado e te derrotou, as vontades não têm mais motivo ou âncora para permanecer na terra. O milagre acabou. — Irene baixou os olhos para o Rei moribundo, com a voz pingando desdém. — Mas que pequeno monstro incontrolável você gerou, Lysander.

Lysander não respondeu; ele não conseguia mais ouvi-la. Seu cérebro já colapsava em trevas sob o peso da falência múltipla de órgãos. Ainda assim, seu olhar fixo e vidrado acompanhava, de forma fantasmagórica, os movimentos dela.

— Sério... você tem ideia do quanto essa sua mortezinha dramática frustra tudo o que eu planejei? — Irene cruzou os braços, o escárnio e a impaciência contorcendo-lhe os lábios. — E tudo por conta dessa bobagem romântica de uma "Vontade capaz de atingir um deus". Ou toda essa ladainha existencial sobre o que são humanos ou o que são deuses. Quem é que se importa, no final das contas? Seja um mundo criado por deuses arrogantes ou por humanos patéticos, no fim da história, a única coisa que realmente deveria importar não é quem pinta a tela, mas...

Irene parou de falar no meio da frase. Olhou para a devastação ao redor, para o céu em pedaços e, então, estalou a língua com irritação, cortando a própria linha de raciocínio.

— Esquece. Não faz o menor sentido eu ficar filosofando e perdendo tempo agora.

A postura da agente da Horizon mudou abruptamente.

A raiva e a frustração evaporaram como água no fogo, dando lugar a um pragmatismo assustador.

— Agora que chegamos neste ponto sem volta, não tenho escolha a não ser engolir meu orgulho e admitir minha derrota nesta rodada. Aquela sua garotinha sanguinária conseguiu dar um belo xeque-mate no meu jogo perfeito.

Irene agachou-se, o tecido de sua calça roçando a poça de sangue ao lado da cabeça de Lysander.

— Não dá para testar o nosso Astreus Artificial com você nesse estado... Você mal deve durar alguns segundos após se transformar antes de virar pó.

Irene ergueu a mão direita à altura do rosto do Rei. Entre os dedos finos e queimados da bruxa, sua icônica Chave materializou-se com um brilho espectral.

— Mas, bem... — Um sorriso sombrio, afiado e completamente livre de qualquer emoção humana desenhou-se no rosto de Irene, repuxando a pele queimada de sua bochecha. — Já que o Plano A falhou de forma tão espetacular... vamos extrair o máximo de dados possível do Plano B.

Irene não conjurou uma magia de ataque para finalizar o Rei. Ergueu a Chave e, com um movimento de pulso absurdamente preciso e delicado, girou a maçaneta invisível da própria realidade a um mero palmo de distância acima do buraco escancarado no peito de Lysander.

O ar contorceu-se com um guincho metálico. Uma pequena e escura fenda dimensional abriu-se no vazio, pairando sobre as costelas pulverizadas do Rei caído. Da escuridão do portal, um objeto denso, rústico e carregado de uma pressão cósmica escorregou lentamente para fora.

 O Livro do Fim. O artefato maldito, o núcleo de Morpheus composto pela autoridade de oito Astreus, despencou da fenda. Puxado pela gravidade, o livro caiu pesadamente. Ele aterrissou com um baque molhado e repulsivo diretamente dentro da cavidade peitoral destroçada de Lysander, afundando sem piedade na carne ensanguentada, nos pulmões expostos e no miocárdio esmagado do Rei.

A reação do universo não esperou um segundo sequer. No exato instante em que o couro cósmico e vibrante do livro tocou as entranhas mortais do Rei dos Sonhos, as próprias engrenagens de Morpheus deram um grito mudo de horror sísmico. O Éter instável e massivo do livro começou a vazar violentamente, como um reator rompido, reagindo em tempo real à faísca da Vontade agonizante e à anomalia genética mutável do corpo de Lysander.

Irene ergueu-se de forma fluida. Ela deu um passo calculado para trás, cruzando as mãos nas costas e observando o início da mutação bizarra com a frieza fascinada de uma cientista dissecando um sapo.

— Deuses que querem destruir deuses... Humanos que querem vencer deuses... — Irene recitou as antigas ambições ideológicas da família real como se fossem a letra de uma canção infantil. O sorriso dela alargou-se, tornando-se algo genuinamente perverso e profano. — Fiquem quietinhos e observem. Deixem que eu mostre para vocês o que é realmente importante. Deixem que eu ensine como se faz para matar um Astreus.

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