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The Fall of the Stars: Capítulo 10 - O ENTSID

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 5 de abr
  • 65 min de leitura

Atualizado: 6 de abr

Volume 11 : A Prisão Dourada


Entrelinhas 

 Se concebermos o destino como o arquiteto silencioso da existência — a força invisível que amarra passado, presente e futuro em uma linha reta de obediência que ingenuamente chamamos de "ordem natural" —, então não passamos de reféns de um roteiro perfeito. No entanto, se essa amarra fosse subitamente rompida, a própria gravidade da lógica desapareceria; o "depois" esqueceria que deve nascer do "agora", a relação entre causa e efeito evaporaria no vazio, e a realidade colapsaria em um pandemônio absoluto — um abismo de fragmentos e paradoxos tão caótico e ensurdecedor que a própria mente humana enlouqueceria antes mesmo de conseguir imaginá-lo.

Parte 1

A primeira percepção não foi a dor, mas o peso oco da sua ausência.

Onde o cérebro exigia o cheiro metálico de sangue, o ardor do ozônio e o calor do asfalto, havia apenas um vácuo límpido. O chão não era de terra ou pedra; era um espelho vítreo que refletia um céu idêntico ao de cima, fazendo com que nuvens lentas flutuassem tanto sobre suas cabeças quanto sob seus calcanhares. A mente precisava de tempo para aceitar a escala daquele infinito.

No horizonte impossível, um sol e uma lua de tons azuis coexistiam, ambos fraturados. O único som no purgatório era um ruído muito sutil, parecido com vidro sendo moído: pedaços de luz se desprendiam das bordas dos astros, esfarelando-se em uma poeira cintilante que caía, rítmica, pelo espaço, como a areia de uma ampulheta quebrada.

Sentados lado a lado naquele chão de nuvens, Dante e Kiara compartilhavam a mesma postura irregular. Pendiam levemente para o lado, desequilibrados pela falta do próprio peso. O choque traumático anestesiava os nervos, deixando apenas uma dormência pesada e piedosa em seus sistemas.

Afinal, a ambos faltava um pedaço. O lado direito de Dante exibia um coto enfaixado e bruto sob a camisa esfarrapada. O braço de Kiara, que minutos antes havia colidido contra Lysander com a força de uma estrela, agora terminava em um desastre de ossos pulverizados e carne carbonizada na altura do ombro.

O silêncio estendeu-se por minutos, tão denso quanto a poeira azulada.

Dante piscou devagar. Sem mover o pescoço, quebrou a quietude com a casualidade morna de quem pede uma bebida no balcão de um bar vazio de madrugada.

— E esse braço aí?

Kiara não desviou os olhos da lua que morria à distância. A respiração dela erguia o peito de forma assimétrica.

— Perdi socando a cara do meu pai.

Um som seco escapou de Dante, transformando-se em uma risada.

— Hahahaha. Que medo desses delinquentes de hoje em dia.

Ela girou o rosto lentamente. Um sorriso minúsculo repuxou o canto da boca da Princesa das Cinzas enquanto seus olhos desciam para a ausência no ombro do Caçador.

— E o seu? O que aconteceu?

Dante ergueu o único ombro que lhe restava, um encolher natural que o fez tombar de leve para o lado.

— Eu cortei.

Kiara estreitou os olhos. A gargalhada rasgou sua garganta no segundo seguinte, subitamente alta e ecoando no vazio.

— Quem é você para me julgar, seu maldito zumbi? Haha!

Dante acompanhou a risada, o som dos dois se misturando sem qualquer freio. Eles não fizeram perguntas. Não havia questionamentos sobre a catástrofe recente ou o paradeiro de seus corpos. Apenas riam até o fôlego faltar, assistindo à paisagem desmoronar.

Dante apoiou a única mão espalmada no chão de céu para se estabilizar.

— Sabe... pensando bem... — ele murmurou —, essa é, de longe, a pior fantasia de casal que a gente poderia ter inventado para usar.

A risada de Kiara ganhou um timbre rasgado e maculado por pura exaustão. Ela puxava o ar com dificuldade, tentando nivelar a voz.

— Não tem graça, seu maldito. Esse era o meu braço dominante.

— E você acha que também não era o meu?

A catarse, porém, esgotou-se junto com o oxigênio em seus pulmões.

À medida que o eco das vozes enfraquecia, o ambiente reagiu. A poeira parou de cair. A luz fria que banhava o purgatório vacilou, piscando de forma irregular como o filamento de uma lâmpada velha. O ciclo estava acabando. As sombras projetadas por seus corpos começaram a se esticar pelo chão espelhado, rastejando como uma maré de escuridão faminta que engolia lentamente a claridade.

O tom da conversa afundou com a mesma velocidade. A dormência cedeu espaço a um frio físico e aterrorizante.

— Sabe... eu nunca pensei nisso — a voz de Kiara encolheu, perdendo os traços de ironia.

Usando apenas a perna e o braço esquerdo, ela escorregou as costas pelo chão de vidro até deitar-se. As nuvens no céu acima começavam a escurecer, espelhando a mistura de alívio e pavor em seu rosto.

— Eu passei a minha vida inteira imaginando o dia em que eu salvaria Morpheus, entregando o trono para a minha mãe... Eu também cheguei a imaginar o teórico dia em que finalmente acabaria matando o meu pai. Eu ensaiei até mesmo o dia em que eu morreria tentando entregar o futuro para as pessoas em quem confiava. — Ela piscou devagar para as trevas que se fechavam acima. — Mas eu nunca... nem por um único segundo... pensei no que viria depois.

Dante escutou em silêncio. O frio começava a morder sua pele, apagando a anestesia. Ele assentiu com um movimento lento de cabeça e tentou se espreguiçar, um gesto torto e desajeitado pela assimetria do próprio corpo.

Com os olhos fixos na mancha negra que agora engolia completamente o espelho aos seus pés, ele soltou um suspiro longo, rasgado. Quando falou, a confusão e a paz fraturada de Kiara refletiam-se em seu próprio olhar.

— É... Agora fodeu de vez.

Parte 2

O corte foi súbito e violento. O vazio azul e anestésico se partiu como uma fita de cinema rompida, arremessando-os de volta à gravidade.

O estrondo que se seguiu não apenas ecoou; ele estilhaçou o silêncio, esvaziando os pulmões de Dante. O cheiro de ozônio e ferrugem encheu suas narinas, misturado à fumaça espessa de carne queimada. Morpheus derretia ao redor deles, a paisagem escorrendo e borrando como cera sob uma temperatura impossível.

Dante materializou-se no ar e caiu de joelhos contra as costas de Maysa, o corpo arruinado gritando em protesto. Ele escorregou pelos ombros da mulher, atingindo o chão com o peso morto. As botas esmagaram o cascalho vitrificado enquanto o coto enfaixado do seu braço direito despertava em uma agonia pulsante. Ele forçou o pescoço para cima, a visão turva tentando acompanhar a velocidade do desespero.

Eliza passou por ele como um borrão. O grito dela falhou na garganta quando deslizou de joelhos, derrapando na poeira, até alcançar o corpo caído e ensanguentado de Kiara. À direita, entre as pedras lascadas, Anna e Yuki fincavam os pés no chão, puxando os braços inertes de Teth para arrastar o Cavaleiro Branco para fora da poça do próprio sangue.

Uma coreografia de impotência. E, rasgando o centro daquela tragédia rastejante, erguia-se uma calmaria que revirava o estômago.

Irene permanecia no epicentro da cratera. A mulher sustentava uma postura intocável, as mãos cruzadas à frente do corpo com a placidez de quem assiste a uma ópera de um camarote exclusivo, imaculada sob a chuva de fuligem.

— É de uma beleza sem igual… não concorda, Dante? — Ela sequer desviou os olhos da própria obra. — Uma cena que pouquíssimos teriam a oportunidade de presenciar… o fim de um mundo.

Dante forçou os olhos para o céu. A magnitude do que pairava acima das nuvens congelou o sangue em suas veias.

Lysander, o tirano que havia sacrificado a própria humanidade e a sanidade da filha, havia de fato tombado sob o punho de Kiara. Mas a queda do Rei foi apenas o substrato. Aproveitando-se da ambição fraturada e do corpo destroçado do homem, Irene afundara o Livro do Fim em seu peito, forçando um parto antinatural.

O que dominava o horizonte já não era humano, nem divino. Era uma abominação que colidia a pureza de um Sonho com a podridão de um Pesadelo.

A mutação colossal abriu as asas. De um lado, milhões de penas de luz agressiva; do outro, penas mergulhadas em trevas, cada uma ostentando um olho aberto e observador. Do tronco massivo irrompiam duas cabeças de dragão. A da direita exibia escamas brancas e pupilas douradas, intocável e majestosa. A da esquerda era um leviatã de ossos negros expostos, babando um Éter roxo e necrótico que sibilava ao tocar a atmosfera.

As asas bateram.

Não houve som de vento. Houve apenas a detonação atmosférica. A onda de choque esmagou o oxigênio, criando um vácuo instantâneo que colapsou os pulmões de todos na cratera.

O impacto varreu o chão. Dante foi ejetado como um boneco quebrado, rolando com violência pelas pedras irregulares. Os músculos recém-costurados rasgaram-se outra vez, e a cura pífia que seu Éter tentava forçar ardeu nas fraturas abertas como ácido. Pela pura e insana força de vontade, ele fincou as botas na terra.

Maysa, ancorando-se contra a pressão gravitacional do monstro através de sua própria densidade predatória, esticou o braço longo e agarrou Dante pelo colarinho, puxando-o de pé para o seu lado.

Na mente de Dante, a voz das Luvas vibrou em pânico:

— Parceiro! Eu tô sentindo as dimensões tremerem de verdade! Grande parte de Morpheus simplesmente começou a ser apagada! Temos que achar um jeito de fugir daqui agora!

Maysa estreitou os olhos escuros. A arrogância que sempre vestia desapareceu diante da escala do céu.

— Agora entendi... — A voz dela soou fria e cortante. — Era por isso que vocês causavam essas anomalias dimensionais desde o começo. Queriam rasgar o teto para conectar este mundo ao reino superior. Vocês precisam dessa ponte... para que essa fera possa se alimentar da energia divina diretamente da fonte, através dos Signets!

Irene virou o rosto por cima do ombro, com um sorriso desenhado nos lábios finos.

— Então, no final das contas, a "Deusa Violenta" não era apenas uma porta gigantesca com um design bonito. — A bruxa suspirou com falsa melancolia. — Que pena que percebeu isso tarde demais para se tornar uma peça relevante no meu tabuleiro.

Dante rangeu os dentes, ignorando o filete quente de sangue que escorria pelo queixo. Ele apoiou o peso no ombro de Maysa, a indignação rasgando-lhe a garganta.

— Do que vocês estão falando?! — ele berrou, a voz competindo com o ruído do mundo em colapso. — Do que adianta fazer tudo isso?! Vocês da Horizon dizem que querem criar um mundo melhor! Olhem em volta! Olhem para essas mortes, para essa destruição maldita! Onde, no meio de toda essa tragédia, existe base para a porra de um mundo melhor?!

A serenidade da bruxa não se quebrou. Ela girou o corpo, caminhando alguns passos na direção de Dante. A expressão dela assumiu um contorno perturbadoramente maternal, observando-o com a pena de quem vê um filho ralar os joelhos e perguntar por que dói.

— Meu pobre Dante... — A voz de Irene flutuou aveludada, pesada de uma tristeza sádica. — Infelizmente, você ficou com a pior parte. Envolveu-se com os males deste mundo sem saber de absolutamente nada... e agora está nessa situação miserável.

Ela olhou para o alto, o sorriso se apagando.

— Eu realmente gostaria de parar, pegar uma cadeira e te explicar tudo. Mas, infelizmente, o tempo acabou. O espaço físico e conceitual desta dimensão está ruindo. Sem o núcleo, Morpheus logo entrará em colapso total.

A bruxa ergueu sua Chave de Cristal. O ar abriu-se, materializando uma porta de luz que banhou os escombros em um brilho clínico.

— Tenho que buscar Katsuragi e me despedir. Mas, como um agradecimento formal por ter sido um ator tão bom em nosso teatro de sonhos, te darei um último aviso: achem um jeito de fugir enquanto podem. Levem seus amigos. Logo não haverá mais chão para pisar.

O sangue de Dante ferveu. O instinto implorava para que ele saltasse, arrancasse a espada das costas e cortasse a prepotência do rosto daquela mulher.

Mas a mente do Caçador enxergava a realidade. Seu corpo era um farrapo. Anna, Yuki, Teth e Kiara sangravam, vulneráveis, logo atrás. Puxar uma briga ali não seria heroísmo; seria o suicídio que condenaria os seus companheiros.

Travando as botas no chão para engolir a fúria, Dante gritou uma última vez:

— O que você quer, afinal?! Por que fez tudo isso?! Não me venha com o papo de vingança contra os Astreus! Não diga que sente raiva deles por criarem um mundo ruim, quando você acabou de destruir esta dimensão e fez todos nós sofrermos a mesma coisa!

Irene parou. A mão repousou com leveza sobre a maçaneta de luz. Ela girou o pescoço, o olhar encontrando o de Dante. O sorriso que ela lhe deu não era mais sádico, nem maternal. Era mortalmente sincero.

— Bem... acho que não tem problema te dizer — Irene sussurrou, a voz projetando-se limpa dentro da mente de Dante. — Afinal, é bem simples. O que eu quero... é exatamente o mesmo que todo mundo quer…

Parte 3

A fechadura cedeu, mas o estrondo nunca veio. O som foi engolido antes mesmo de nascer. A gravidade simplesmente desligou, como uma corda sendo subitamente cortada.

Dante não despencou, nem flutuou. A própria espinha dorsal perdeu qualquer referência do que era "chão" ou "céu", deixando o estômago suspenso em um vácuo de orientação.

O espaço ao redor não era um breu vazio. Era uma vertigem abissal. Fios pretos e brancos rasgavam o infinito, cruzando-se e torcendo-se num ritmo colossal. Movimentavam-se como as correntes invisíveis de um oceano sem fundo, ou um gigantesco DNA mecânico. A rotação engolia o campo de visão.

O Caçador tentou piscar, a mente engasgando no processo. Onde estava? Morpheus havia ruído há segundos? Ou aquilo era o molde antes mesmo do universo existir? Ele olhou para o próprio ombro. O coto estava lá, sangrando e latejando... mas, na fração de segundo seguinte, o braço direito estava perfeitamente intacto, com os dedos vivos. Então, desfez-se novamente, substituído por um ardor fantasma. O futuro sangrava no passado. As memórias recentes da guerra mesclavam-se com o frio da Cidade Cristal, meses atrás. Ele vivia o antes e o depois trancados no mesmo milissegundo.

O instinto o fez abrir a boca em um arco tenso. Não havia oxigênio para os pulmões, mas a asfixia não vinha. Foi então que o silêncio quebrou.

Não por uma voz humana, mas por um zumbido. Uma frequência primordial, grave e profunda, que não entrou pelos ouvidos; ela fez as obturações dos dentes de Dante vibrarem e o osso do crânio zumbir de dentro para fora. A vibração moldou-se em palavras puras no seu córtex:

«Prazer em te conhecer. Já faz muito tempo que não nos encontramos.»

A contradição retorceu as entranhas de Dante. Os olhos bicolores varreram a tempestade de fios ao redor. Não havia entidade para encarar. Faltava a garotinha de olhos em espiral que conhecera antes da guerra.

A Rotação estava na vastidão trançada; estava na órbita invisível dos elétrons de seu próprio sangue; estava na respiração predatória das galáxias. Ele era tocado por ela o tempo inteiro, mas ela era monumentalmente indiferente à sua presença.

«Se você se perder demais tentando entender onde o ontem termina e o amanhã começa, você nunca começaria de fato,» o zumbido ressoou. A apatia do tom era tão vasta que esmagava o ar.

— Você... — Dante sussurrou. A vibração da própria voz não agitou o espaço físico, mas reverberou como pensamento na malha do vazio. O pavor rastejou para o lado, abrindo espaço para uma fúria instintiva. Ele cerrou o punho, a memória perfurando o delírio. — A Rotação.

Ele projetou a mente, engrossando o volume.

— O que você queria, afinal? Naquela época... antes dessa merda toda estourar. Quando apareceu na forma daquela garota... por que não avisou? Por que não disse como deter a Irene, o Lysander ou o fim de tudo?! Por que gastou o nosso tempo me avisando sobre o "Uzumaki"? Aquilo não fez o menor sentido!

O zumbido modulou a frequência. Era o som de bilhões de pedras girando e sendo moídas umas nas outras.

«Está me dizendo que eu vou te avisar sobre a espiral... sobre o Uzumaki?», a Rotação questionou, com uma curiosidade desprovida de inflexão humana.

— Do que você está falando?! — Dante rosnou, o queixo travado. — Foi você mesma quem disse! Me mandou tomar conta dele, me deu um aviso!

«Compreendo», a frequência achatou-se de forma pacífica. «Eu não me lembro de ter dito isso a você. Mas... eu direi. Já que você afirma que eu já falei, então não tenho escolha a não ser dizer. Portanto, neste exato momento, eu já estou dizendo.»

A lógica circular esmagou a mente de Dante. Causa e efeito não importavam. Era um horror existencial insuportável; ele estava desferindo golpes contra um espelho atemporal.

— Chega! — A frustração rasgou o limite de sua sanidade. — É um desperdício de tempo! Por que me arrastou até aqui?! Eu já entendi que vocês, Astreus de merda, não planejam ajudar! Eu sei que não se importam com quem morre em Morpheus! Então, por que se dar ao trabalho de me puxar para este buraco?!

O fluxo de fios pretos e brancos acelerou. O zumbido ressoou em um compasso picotado, o equivalente cósmico de uma risada ríspida e afiada.

«Às vezes, as coisas que você diz são genuinamente engraçadas, humano. Arrastar você até aqui?»

A constatação desceu pela espinha de Dante com o peso de uma âncora de gelo.

«Você sempre esteve aqui, para começo de conversa.»

Dante olhou para baixo.

O horror o desmontou. Ele não estava “boiando” entre os fios. Ele era feito deles. As pontas dos seus dedos, a curva do seu braço, os feixes de seus músculos… tudo se desfiando lentamente. Seu corpo não passava de uma teia temporária, desfiando-se nos mesmos fios pretos e brancos, atrelado ao exato ritmo hipnótico da imensidão. Ele não estava visitando a Rotação; ele era um fiapo minúsculo dentro da engrenagem impiedosa.

A raiva evaporou. Em seu lugar, espalhou-se o oco de um luto absoluto. Uma impotência tão violenta que ele quis apenas chorar, ainda que nem canais lacrimais físicos restassem ali. Anna, Kiara, Lysander, Morpheus... poeira tragada pelo mesmo ralo cósmico.

«Você está triste», a Rotação constatou, com a mesma frieza de quem assiste a uma folha tocar a água. «É uma pena que a sua biologia reaja assim. Mas você se sentirá muito melhor quando o seu raciocínio entender que não adianta se apegar às engrenagens.»

Dante fechou o que sobrava de suas pálpebras, aceitando a dormência entorpecente que engolia sua estrutura biológica.

«Desde o exato início do giro deste ciclo... a dimensão de Morpheus já havia acabado. Não há por que se irritar com aquilo que não poderia ter tido um final diferente, uma vez que já começou com esse fim.»

Parte 4

A espiral esmagadora da Rotação começou a perder sua inércia aterradora. Os infinitos fios pretos e brancos, que antes cortavam o vácuo com a brutalidade de navalhas, afrouxaram. A tensão cósmica cedeu. As linhas pálidas perderam a rigidez geométrica, ganhando textura, maciez e perfume, derretendo-se de forma surreal até se transformarem nos longos cabelos brancos de uma mulher.

A vertigem atemporal deu lugar a uma memória cristalina. Um fragmento roubado de uma alma recém-apagada.

O cenário ancorou-se ao redor da ilusão com o frescor de pedra úmida. Eram os corredores frios e imponentes de um castelo ancestral. Ajoelhado sobre um tapete espesso, um menino de traços excessivamente delicados e andróginos estudava o próprio reflexo em um espelho escuro, antes de erguer o olhar para a mulher de cabelos brancos.

— Mamãe... — o pequeno Lysander perguntou, a inocência transbordando nos olhos escuros —, por que eu não tenho uma contraparte-pesadelo, como todos os outros do nosso reino?

A mulher sorriu de forma triste. O farfalhar de seu vestido ecoou levemente quando ela se abaixou, com as mãos gentis acomodando-se no rosto liso do garoto.

— Não se preocupe com a sua aparência, meu querido. Você é apenas alguém muito especial. Um dia, quando for mais velho, você irá entender.

O carinho maternal afundou. O calor da palma da mãe desfez-se contra a pele do menino, transformando-se abruptamente na brisa viva de um pátio ensolarado. A transição foi suave como um piscar de olhos.

O chão agora era terra e grama. Lysander estava encolhido. A poucos metros, botas esmagavam o gramado enquanto garotos maiores apontavam o dedo para ele, com os risos cruéis rasgando a tranquilidade do ar.

— Olhem para ele! O reizinho menininha! Tão delicado que parece que vai quebrar!

O som de pedras cortando o vento silenciou as risadas.

Uma garotinha feita de pura sombra rastejante, sem um rosto definido para expressar raiva, postou-se como um escudo diante de Lysander. O baque surdo de pedras pesadas atingindo ombros e testas ecoou em rápida sucessão, impulsionado por uma fúria protetora.

— Corram! A Princesa-Pesadelo vai devorar a gente!

Os garotos gritaram, tropeçando uns nos outros enquanto fugiam apavorados, com o sangue escorrendo pelos rostos.

A sombra sacudiu as mãos, espanando a sujeira seca, e virou-se. Lysander chorava, com os joelhos encolhidos contra a casca áspera de uma árvore.

— Isobel... você não deveria fazer isso — ele soluçou, a voz engasgada por uma empatia que não cabia em si. — Jogar pedras pode machucar alguém de verdade...

— E está tudo bem! Eles mereciam! — retrucou a sombra. Ela cruzou os bracinhos escuros, em uma postura rígida de indignação perante a covardia.

— Não é verdade — Lysander balançou a cabeça, as lágrimas caindo gordas e molhando a terra. — Ninguém merece sofrer. Ninguém.

A garotinha sem rosto inclinou a cabeça.

— Como você diz uma coisa dessas quando está aí, chorando e sofrendo, mas não faz absolutamente nada para impedi-los?

Lysander tocou o próprio rosto, notando a umidade. Com as costas das mãos delicadas, esfregou os olhos com força, tentando estancar o choro.

— Está tudo bem. Eu já estou acostumado... Eles têm razão, Isobel. Se um dia formos batalhar contra as feras das florestas além do castelo... o Rei dos Sonhos não pode ser uma garotinha chorona. Eu preciso mudar. Se eu não for durão, nunca serei um bom rei para eles...

A sombra diminuiu a distância entre os dois. Ela ajoelhou-se na grama e envolveu as mãos do menino, afastando-as do rosto manchado de terra e lágrimas.

— Isso é uma grande bobagem — falou Isobel, o timbre sombrio vibrando com um amor incondicional. — Você não precisa mudar nada. Eu sei que você será o melhor rei de todos. Você vai criar um mundo muito feliz, Lysander... não por ser o mais forte, mas por ser o mais gentil.

As palavras dela ecoaram, límpidas e suspensas no tempo.

PAAAH!

O estalo do tapa rasgou a memória ao meio.

A grama verde estilhaçou. O cheiro doce de terra e flores foi violentamente substituído pelo gosto acobreado de sangue. Os joelhos de Lysander agora afundavam nos tapetes carmesins de seus aposentos reais. Sangue quente escorria de seu lábio inferior rachado.

Sua mãe estava de pé, monumental e aterrorizante. O rosto antes gentil estava repuxado em um nojo visceral.

— Nunca mais... repita isso! — ela gritou, com a mão ainda suspensa e tremendo no ar.

Lysander levou os dedos à boca, o olhar cravado nela, afogado em pânico e confusão.

— Eu não entendo! Por quê?! Por que você é tão contra os meus sentimentos?!

PAAAH! O segundo impacto foi mais pesado, derrubando o garoto de lado.

— Acha que está indo contra mim?! — A voz dela esganiçou-se, rasgada pela histeria fervorosa. — Seu garoto tolo! Você está indo contra a Vontade Divina! Eu sujei a minha alma e te contei aquele segredo imundo para poder impedir que você cometesse esse erro antes que fosse tarde demais! Como você pode me dizer que, mesmo assim, não entende algo tão óbvio?!

— E-Eu não ligo pro segredo! — Lysander engasgou. O desespero cego atropelava a dor física. — É porque eu a amo! Eu amo a Isobel mais do que tudo! Eu não me importo com as regras deles!

A mulher avançou. As mãos agarraram o colarinho das roupas finas do menino, puxando-o para cima até que seus pés quase perdessem o chão.

— Sua criança tola! Está tentando atrair a fúria de Deus sobre nós?! Recite! Recite agora mesmo as leis!

Tremendo, o estômago revirando em náusea, o jovem Lysander fechou os olhos. O refúgio de seu mundo gentil havia desmoronado.

— "Nenhum homem..." — O choro fraturou as palavras, a voz espremida de uma alma machucada. — "...nenhum homem se chegará a qualquer parenta de sua carne..."

O eco do Levítico 18:6 misturou-se ao pranto. O aperto no colarinho afrouxou, e a imagem da mãe histérica dissolveu-se na refração colorida de vitrais imensos. A transição o arrastou, mantendo-o de joelhos, do quarto abafado para a laje de pedra gelada de uma catedral gótica vazia.

Lysander, um pouco mais velho e com o rosto pálido talhado pelo sofrimento crônico, mantinha as mãos trancadas em prece. Mas não havia resignação ali. As lágrimas deslizavam silenciosas sobre os nós de seus dedos brancos.

— Por que, Pai? — ele sussurrou para o altar deserto. A semente da revolta vibrava em suas cordas vocais. — Por que me fizeste sentir isso, se é um pecado tão imundo? Se tal desejo é tão corrupto assim... se é tão pecaminoso a ponto de merecer o inferno... por que simplesmente não me criaste sem ele?

A acústica do templo engoliu a pergunta. Deus manteve-se calado. Porém, cortando o silêncio eclesiástico, o toque seco e rítmico de sapatos femininos ecoou pela nave da igreja.

— Minha cara criança... que bobagem você diz. — Uma voz aveludada, espessa de malícia, rastejou pelo ar frio. — Existem muitos desejos impuros neste mundo torto. Mas o amor jamais seria um deles.

Lysander abriu os olhos, o corpo retesando-se. Ele girou o pescoço em direção à penumbra.

— Quem é você?

Caminhando com uma fluidez predatória pelo corredor iluminado pelos vitrais, a figura emergiu. As vestes dela eram um sacrilégio: o hábito de uma freira, mas retalhado e ajustado de uma forma que profanava o próprio ambiente. O sorriso repuxado nos lábios pintados era a materialização da rebelião.

— Olá, minha cara criança. — Ela parou, os olhos exóticos em formato de fechadura capturando a luz. — Meu nome é Irene.

O vitral atrás dela brilhou até cegar a visão. O branco sagrado do templo manchou-se de um vermelho sujo e cárnico em uma última transição.

O cheiro de incenso foi subitamente asfixiado pela fumaça negra e pelo fedor gorduroso de carne calcinada. A mesma igreja estava agora enfeitada com flores brancas matrimoniais... mas as pétalas afogavam-se em sangue fresco. O fogo estalava e devorava os bancos de madeira ao redor.

No centro do altar destroçado, um rei feito de sombras puras, sem rosto — uma réplica colossal e grotesca da garotinha Isobel —, agonizava de costas no chão. A coroa negra do Rei dos Pesadelos tilintou ao rolar pelas pedras polidas.

O som elegante de couro contra a pedra se aproximou. Lysander, a postura agora ereta, o rosto esculpido em um vazio morto e absoluto, caminhou até a joia. Abaixou-se sem pressa, ergueu a coroa negra e a depositou sobre os próprios cabelos brancos.

O menino gentil estava morto sob as cinzas. O tirano solitário acabara de respirar.

Ele apoiou a bota sobre o peito do Rei das Sombras caído. A ponta de sua espada, pingando sangue grosso, desceu até encostar na garganta da criatura.

O Rei dos Pesadelos engasgou, o próprio Éter vazando por ferimentos invisíveis.

— Como ousa fazer isso, seu garoto maldito... — A voz sem rosto borbulhou, ácida e trêmula de ódio. — Acha que isso será permitido? Não importam os sentimentos que você tenha por ela, isso foi longe demais! Você será julgado pelo seu pai, o Rei dos Sonhos, e será lançado ao abismo!

A cabeça de Lysander inclinou-se de forma lenta, o pescoço estalando. Um riso oco e sombrio vazou de sua boca.

— Pai? — A risada subiu de tom, os ombros de Lysander sacudindo sob a ironia. — É assim que você ainda vai chamá-lo?

A sombra abaixo de sua bota congelou. O ardor do ódio deu lugar ao frio do pavor.

— Você... não me diga que ela te contou...

Lysander estreitou os olhos. O sorriso maníaco esticou as feições de seu rosto andrógino.

— Se a minha mãe me contou o seu segredo sujo? Relaxa. Ela contou apenas para mim e não poderá contá-lo a mais ninguém, agora que a matei.

A revelação esmagou a criatura. O monstro entrou em pânico cego, debatendo-se e arranhando a bota que lhe prendia o peito.

— O QUE VOCÊ DISSE?! Seu monstro!

Lysander jogou a cabeça para trás. A gargalhada explodiu, ensurdecedora, competindo com o estalar das chamas. Era o riso de quem finalmente havia quebrado as correntes de sua própria bússola moral. Ele cobriu os olhos com a mão suja de sangue e, quando a abaixou, a diversão havia sumido. Restou apenas um poço negro e gélido.

— Que cômico. Que poético, não acha? — Lysander sussurrou, a ponta da espada afundando milímetros no pescoço de sombras. — Que ironia maravilhosa você mencionar isso agora. Se eu sou o monstro desta história... o que exatamente é você? Um ser imundo que passa a vida batendo no peito, dizendo-se apegado aos desejos divinos e à vontade de Deus... mas não hesitou um único segundo em rastejar para a cama de uma mulher comprometida e violar um mandamento. Você é uma fraude. Uma falha enojante.

O Rei dos Pesadelos paralisou, o medo exalando como vapor.

— Eu até posso ser um monstro — Lysander concluiu, a voz assentando no tom aveludado e cirúrgico que o acompanharia por séculos. — Mas você, majestade... não passa de um animal sarnento.

Ele ergueu a mão esquerda. Fios de Éter verde e agressivo dispararam de seus dedos, cravando-se diretamente na estrutura da alma do Rei caído. A criatura urrou, o som rasgando as paredes da igreja enquanto sua forma conceitual começava a ferver e a se quebrar.

— Espere! ESPERE! — o Rei esganiçou-se. Os ossos das sombras estalavam, sendo reconfigurados à força. — O que você está fazendo?!

— Fazendo bom uso de um animal de estimação, é claro. — Lysander ajeitou a coroa negra, assistindo à tortura com olhos apáticos. — Eu preciso que alguém tome conta daquele par de luvas até que chegue o momento certo.

Os fios verdes rasgaram a anatomia humanoide. A sombra foi esmagada contra o chão, forçada a apoiar-se sobre quatro patas. Garras projetaram-se da escuridão, e o Éter espesso transformou-se em pelos rijos e presas bestiais. A dignidade de um rei foi moída até restar apenas a submissão de uma fera.

— Agora, Totó... — Lysander abaixou-se e acariciou a cabeça do monstro trêmulo. Um sorriso sádico e minúsculo brincava em seus lábios. — Proteja este lugar para mim, está certo? Seja um bom menino. Ninguém pode passar.

As chamas ganharam força, rugindo alto e engolindo as bordas da visão. A igreja desvaneceu, queimando até virar cinzas, encerrando o nascimento do Rei.

Parte 5

A escuridão atemporal quebrou-se com uma inalação brusca. O vazio encheu os pulmões de Dante com um ar estático e denso — o aroma agridoce de couro gasto, papel envelhecido e poeira secular. Sob suas botas, o nada endureceu. Ele estava no sopé de uma escadaria de madeira escurecida.

A cada passo, a estrutura rangia. Ele forçou as pernas arruinadas a subir. O esforço queimava os músculos, mas a arquitetura do lugar zombava de seus sentidos: a cada degrau vencido para cima, o peso em seu estômago puxava-o para uma descida contínua. Vertigem. O espaço ao redor desdobrou-se em uma biblioteca infinita e impossível. Prateleiras colossais erguiam-se até onde a vista alcançava e despencavam para um abismo escuro sob seus pés. O farfalhar constante de páginas preenchia o ar enquanto livros flutuavam, como pássaros planando em correntes invisíveis. Estantes inteiras deslizavam na penumbra com um som surdo, redesenhando as paredes a cada piscar de olhos.

No centro de um platô de madeira que flutuava no abismo, ela aguardava.

A Astreus da Memória. A postura perfeitamente alinhada na poltrona de veludo escuro era a mesma da mulher aristocrática que outrora caminhara pela Cidade Cristal. Dedos pálidos traçavam a lombada de um livro de capa escura em seu colo. O som da respiração rasgada de Dante morreu na garganta quando a mulher ergueu o rosto. Seus olhos não capturavam a luz trêmula da biblioteca; em vez disso, orbitavam. Galáxias inteiras giravam em um silêncio absoluto dentro de suas íris.

O salto das botas de Dante soou oco ao atingir o platô. Ele ancorou os pés ali, o peito subindo e descendo em espasmos. A frustração de mil mortes travava o maxilar.

— Você... — rosnou. A voz falhou, áspera pelo cansaço cósmico. — Seus jogos são péssimos.

O livro fechou-se com um baque contido, cortando o farfalhar das páginas voadoras. A Memória não recuou. O canto dos lábios desenhou um sorriso sereno, milimetricamente alinhado.

— Você só diz isso porque perdeu a partida, Caçador.

A tranquilidade dela diante do apocalipse reverberou no corpo de Dante como um golpe físico. Os punhos se cerraram até os nós dos dedos empalidecerem. Ele avançou um passo pesado. O cérebro latejava, arranhando a própria sanidade para encaixar peças de um tabuleiro virado. Faltava algo. Tinha que faltar.

— Fala logo! — A exigência rasgou a quietude. O peito de Dante se abriu em um timbre cru, desesperado. — Todos eles morreram?! A Anna, as meninas, o Teth... Morpheus foi realmente destruída?! Eu falhei de novo, é isso?!

Um suspiro leve escapou da mulher. Ela se ergueu, alisando uma dobra invisível na saia impecável, e deslizou em direção a um corredor de estantes. Os movimentos carregavam o luto silencioso de quem assiste a um jardim queimar, mas as mãos repousavam nas laterais. Uma espectadora perfeita.

— Sabe, Dante... — A ponta dos dedos dela roçou as lombadas de couro à medida que caminhava. — Aquelas histórias monótonas que sempre terminam com a frase "e todo mundo morreu"... eu as acho bem sem criatividade. Uma escrita preguiçosa, eu diria.

— Então para de falar em charadas e leva isso a sério! — O berro explodiu, ecoando pela imensidão. O corpo de Dante tensionou, resistindo à gravidade das próprias palavras. — Eu não aceito isso! Tem que ter uma maneira. Um buraco nas regras, uma rota não calculada! Tem que ter um jeito de salvar todo mundo!

Em um solavanco agressivo, ele ergueu o braço esquerdo. Os dentes prenderam o tecido esfarrapado da manga e o rasgaram para cima. Sob a luz difusa da biblioteca, a insígnia geométrica pulsava, cravada em sua carne.

— Foi por isso que você me deu esta marca quando jogamos naquela época! — Ele apontou o braço ferido como uma arma. A água se represava nos olhos bicolores, contida por pura teimosia. — Este é o seu Signet, eu tenho certeza absoluta! Você me disse que só podia interferir diretamente no roteiro uma única vez, e escolheu fazer o que pôde me dando isso! Se você quebrou a própria regra como leitora, é porque quer salvar Morpheus! É porque se importa com o final dessa porra de história!

O fôlego acabou. Os joelhos bateram contra a madeira com um estalo seco. O impacto quebrou as pernas de Dante e sua represa interna; a raiva esvaiu-se, deixando para trás apenas os ombros sacudindo em um pranto contido.

— Por favor... — o sussurro arranhou a garganta. Uma lágrima escapou, manchando o piso escuro. — Me ajuda. Me diz como eu acho uma forma de salvar os meus amigos...

Os dedos da Astreus pararam sobre o couro de um livro. Ela voltou o rosto por cima do ombro. O giro lento das galáxias em seus olhos pareceu congelar, opaco sob uma melancolia milenar. Com passos inaudíveis, ela cruzou a distância e parou diante dele, a barra da saia roçando a madeira. Em silêncio, estendeu a mão, oferecendo o livro escuro.

— Se despedir de uma história que amamos é sempre triste, Dante — o timbre ressoou no vazio, macio como uma cantiga, mas com o peso de terra caindo sobre um caixão. — Mas nós nunca poderemos começar a ler a próxima... sem aceitar dizer adeus à primeira.

O olhar de Dante desceu para o objeto oferecido. A lógica fria daquelas palavras alojou-se em seu peito, esmagando a última brasa de negação. O ar de seus pulmões saiu vazio.

A esperança evaporou.

— AAAAAAAAAAAAAAAAAHH!

O grito rompeu não da garganta, mas das entranhas. O som bestial engoliu o farfalhar das páginas. Ele desabou para a frente, o punho são caindo como uma marreta contra o assoalho mágico. Uma, duas, três vezes. A madeira gemia sob os golpes, a pele rasgando e misturando sangue ao pó. Ele urrava contra o teto infinito, contra o roteiro, contra a própria carne inútil.

No frenesi da queda, um espasmo descontrolado jogou seu cotovelo contra a mão estendida da Astreus. Os dedos finos afrouxaram.

O livro de capa escura deslizou pelo ar e despencou no chão com um baque surdo.

Parte 6

O mundo emudeceu. No lugar do som, um zumbido agudo e metálico perfurava a base do crânio de Dante, como uma agulha em brasa girando sem parar.

Quando ele abriu o único olho são, a realidade vacilou. A cor havia sido drenada do universo. Tudo era cinza — a poeira que caía do céu, os escombros, a pele das pessoas. O único contraste rasgando a névoa morta era o azul. Um azul radioativo e doentio que tingia o fogo e até mesmo o sangue que manchava seu próprio corpo. A mente patinou na poeira. Aquele era o presente? Ou um delírio terminal projetando fantasmas em um inferno já consumado? Não importava. A resposta estava além do seu alcance.

O cenário desdobrava-se em uma lentidão assustadora, como os segundos finais de um filme rodando antes da obliteração total. O céu era uma abóbada de vidro estilhaçado vomitando chamas. No epicentro da devastação, a abominação de duas cabeças que um dia fora Lysander debatia-se contra o solo de Morpheus. O monstro ardia de dentro para fora. Não era fogo comum; era magma azul, uma anomalia tão instável que derretia a própria textura do espaço ao redor das escamas. Ao fundo, as raízes do continente estalavam. A árvore colossal cedia milímetro a milímetro, uma majestade fúnebre desabando seus galhos astrais sobre o fim do mundo.

Um solavanco brusco sacudiu os ombros de Dante. Dedos apertavam seu colete, tentando ancorá-lo no chão. Ele piscou pesadamente, limpando parte da névoa.

Sora e Safira. Os rostos das duas eram máscaras de fuligem, com lágrimas abrindo caminhos claros na sujeira. Elas estavam ajoelhadas sobre ele, os lábios movendo-se em um frenesi desesperado, berrando ordens ou súplicas que o zumbido mastigava e engolia. Ele não ouvia uma única sílaba.

O coração batia compassado, irrealisticamente lento, perdendo a guerra contra a exaustão. Tentar se lembrar de como o mundo havia chegado àquela carnificina fez o cérebro protestar. As memórias eram cacos afiados e dispersos. Apenas um fragmento brilhava intacto: uma voz.

Límpida. Aveludada. Maternal. O eco de Irene no vazio, milissegundos antes de a bruxa girar a maçaneta de luz e abandoná-los à própria sorte. O zumbido recuou apenas o suficiente para a resposta projetar-se na caixa craniana arruinada:

— Bem... acho que não tem problema te dizer — a voz sussurrou, pacífica demais para aquele inferno. — Afinal, é bem simples. O que eu quero... é exatamente o mesmo que todo mundo quer... um mundo de esperança, sem fome, miséria ou dor. Simples assim.

O impacto das palavras dilatou a pupila de Dante. A contradição era ácida. Um paraíso construído sobre as cinzas de todos que ele amava? Antes que o cérebro pudesse dar nome ao que sentia — fúria? Luto? Vazio? —, a biologia assumiu o comando.

Ignorando o peso das mãos de Sora e Safira, o corpo moveu-se sozinho. Não havia heroísmo no gesto, apenas a tração mecânica de um soldado que se recusa a deitar na trincheira bombardeada. Ele empurrou o chão de vidro estilhaçado e ergueu-se.

Era uma heresia médica. O braço direito não estava lá, apenas um coto decepado e grotescamente enfaixado. Faltava um pedaço do pé esquerdo, arrancado em alguma explosão esquecida. Sangue jorrava a cada batimento. Os ossos estavam moídos; as fibras musculares, rasgadas. Mas a dor não existia. O colapso do sistema nervoso central havia erguido uma anestesia perfeita.

Na periferia de sua visão, a guerra seguia. Maysa, a gigante arrogante, saltava pelos destroços, rasgando o flanco esquerdo do dragão com brutalidade muda. Do outro lado, Yuki conjurava redes de eletricidade contra as escamas colossais.

Dante não desviou o olhar para elas.

Ele deu um passo torto. Depois outro. A bota estilhaçada arrastou-se no asfalto com um raspar surdo. Era um homem marchando pelo purgatório, a medula espinhal ditando o ritmo onde a sanidade já havia morrido. O alvo era o clarão radioativo. O dragão de duas cabeças que urrava em silêncio. Dante não escutava os baques de Maysa. Não sentia a temperatura do ar; a metros da fornalha azul, sua pele poderia estar derretendo ou congelando — era-lhe indiferente.

A mão esquerda, coberta por uma crosta de sangue escuro, esticou-se. Os dedos pálidos fecharam-se com firmeza ao redor de um cabo de obsidiana cravado nos escombros. Raguel. Com um movimento bruto e arrastado de alavanca, ele arrancou a espada pesada da pedra.

O punho cerrou-se ao redor da arma. O único olho bicolor refletiu as chamas que apagavam a realidade.

Surdo, anestesiado e em pedaços, Dante continuou marchando em direção ao monstro. Apenas uma pequena e miserável mariposa, arrastando-se estoicamente para a luz que iria devorá-la.

Parte 7

O caos de cinza e azul apequenava todos. Por mais que as explosões rugissem e os gritos de desespero de Eliza rasgassem o ar, eles não passavam de estalos engolidos pela vastidão da guerra. Eram ecos abafados. Exatamente como os gritos silenciosos que reverberaram muito tempo atrás.

O cheiro estéril de cloro misturava-se ao ferro do sangue. Sobre a chapa de aço inoxidável, o corpo esguio e frágil de Stella repousava. O cabelo de um azul vibrante e elétrico espalhava-se como tinta derramada no metal rígido, roubando o pouco calor de sua pele. Tiras grossas de couro mordiam seus pulsos, tornozelos e pescoço. Uma mordaça úmida repuxava os cantos de sua boca, transformando qualquer apelo em gemidos sufocados e líquidos.

Acima, o zumbido ininterrupto de uma lâmpada cirúrgica colossal fritava o ar, derramando uma luz branca e cegante sobre a mesa. Ao redor da garota, figuras envoltas em jalecos manchados de fluidos antigos moviam-se com precisão milimétrica e calma gélida. Bisturis, pinças, afastadores. Não eram médicos. Eram açougueiros clínicos.

— Incrível... — A voz abafada pela máscara transbordava um fascínio rasteiro. — Olhem a taxa de replicação tecidual na incisão abdominal. É um milagre biológico puro.

O corpo de Stella arqueou-se. As tiras de couro estalaram enquanto a lâmina fria abria caminho pela musculatura viva de sua barriga. As veias do pescoço saltaram sob a pele fina. O gemido agônico engasgou no tecido sujo da mordaça, misturando-se às lágrimas e ao suor.

— A biologia dela possui uma memória infinita — outro homem pontuou. O metal de um afastador raspou contra a carne, forçando a ferida aberta para expor o fígado pulsante. — O DNA não apenas armazena o código; ele guarda o estado perfeito baseado nessas memórias. É uma regeneração guiada por memória celular. Cortamos, e o corpo "lembra" que ali deveria haver pele.

— E a melhor parte... — O primeiro homem enfiou os dedos enluvados na cavidade exposta, apalpando os órgãos com a indiferença de quem manipula peças em uma engrenagem. — Se transplantada, essa capacidade vai junto. Membros amputados, doenças terminais... Uma fonte inesgotável de cura.

Eles tocavam em um milagre com as próprias mãos, inebriados pelo orgulho de suas descobertas. Para a garota pregada à mesa, o milagre era o abismo.

"Por favor... por que estão fazendo isso? Eu não aguento mais."

Incapaz de lutar ou protestar, ela apenas suportava. O olhar suplicante encontrava os olhos acima das máscaras médicas, mas não havia empatia em troca. Eles não viam uma humana; viam um recurso. Gado aberto para um bem maior.

— Doutor... — o cientista mais jovem hesitou, a mão pairando sobre a bandeja. O olhar pesou sobre o rosto contorcido da garota. — Por que não a apagamos? Ou... por que não usar anestesia? Esses gritos estão desestabilizando a equipe.

— Você é tolo, rapaz? — A justificativa veio áspera, entregando aos outros a máscara moral necessária para que continuassem a carnificina. — Para manter os poderes ativos após a extração, a regeneração precisa estar no pico de estresse. Se houver anestesia, o choque celular morre. O órgão vira carne morta em minutos. A dor dela é o motor da nossa pesquisa.

Stella absorvia cada palavra. Não era uma paciente; era um reator biológico alimentado pela agonia. Os ossos da clavícula perfuravam a pele translúcida, evidenciando o definhamento do corpo.

— Mas, doutor... — o segundo cientista apontou para os monitores cardíacos, que emitiam bipes em um ritmo quebrado. — Ela está recusando comida de novo. Esse protesto passivo já afeta a qualidade da colheita. Se ela morrer, perderemos a matriz original.

— Sem problemas. "Aquele Homem" já nos enviou diretrizes sobre isso. — O cirurgião-chefe limpou o sangue da lâmina no próprio avental, com movimentos metódicos. — Prossigam com o protocolo de inseminação. Vamos engravidá-la. Precisamos garantir a continuidade do código genético caso o pior aconteça.

O mundo de Stella perdeu as cores. O cinza esmagou sua mente. O suor frio desceu pela têmpora enquanto o bipe do monitor disparava em um tamborilar enlouquecido.

Não. Não. Não. Não. Não.

O terror absoluto engoliu a dor física das entranhas expostas. Presa na própria carne triturada, impotente e amordaçada, restou-lhe uma única saída. Um urro gutural vibrou no fundo da garganta — o som de uma besta ferida encurralada contra a parede. Stella contraiu os músculos do pescoço com toda a força de seu desespero e chicoteou a cabeça para trás.

THWACK.

O osso do crânio chocou-se contra o aço da mesa. O impacto seco e ríspido estalou na sala cirúrgica, paralisando momentaneamente as mãos dos açougueiros.

— Ei! Contenham a paciente! — o médico vociferou.

Ela não parou. A dor latejante na nuca era uma distração divina, uma fuga temporária da barbárie em seu ventre. Ela projetou a cabeça para a frente e, com o dobro da violência, atirou-a contra o metal de novo.

THWACK. O aço vibrou. Mais uma vez. E outra. Ela queria rachar a mesa. Queria estilhaçar a si mesma. Implorava em silêncio para que o crânio cedesse, para que o cérebro se partisse e para que o zumbido daquela lâmpada cirúrgica colossal finalmente, e para sempre, se apagasse.

Parte 8

A escuridão era absoluta. Não havia teto. Não havia chão.

Dante despencava. A gravidade arrastava seu espírito para o abismo, e a fricção dessa queda abriu uma fissura em seu próprio núcleo. A dúvida escorreu, envenenando o que restava de sua Vontade.

"Será que eles tinham razão?" — o pensamento ardeu, turvando a visão. — "A Irene... o Lysander... a Horizon inteira. Depois de ver os esforços de todos serem jogados no vazio, era impossível não questionar. Seria o mundo um palco inerentemente podre? Um poço sem fundo de onde tragédias grotescas brotavam sem motivo, ceifando vidas de forma assimétrica e sádica?"

"Se for assim... a única forma de nos libertarmos dessa tortura não seria mesmo chutando o tabuleiro?" — a ideia, outrora impensável, ganhava raízes. — "Começar tudo do zero, em um lugar onde a maldade desses deuses não pudesse nos alcançar?"

No momento em que o pensamento tomou forma definitiva, o breu foi rasgado.

Uma luz dourada e absoluta explodiu. Não era apenas claridade; era uma presença física que cegava os olhos e parecia pesar sobre a própria alma. Dante arquejou, cobrindo o rosto com o antebraço. A vertigem cessou. Ele não caía mais. Estava sentado.

Quando a visão se ajustou à claridade incandescente, o cenário revelou-se: um Tribunal Dourado. Monumental. Sufocante. As colunas de mármore erguiam-se além do limite da vista, e o ar ali dentro era denso de autoridade. Sob si, Dante sentiu a rigidez de uma cadeira de madeira pesada. A cadeira da defesa.

No púlpito colossal à frente, forçando-o a quebrar o pescoço para olhar para cima, não havia um ancião barbudo ou um monstro abstrato. Havia um menino. Cabelos perfeitamente brancos, roupas formais e antiquadas, e olhos lisos, milimetricamente simétricos. Sem um pingo de empatia humana.

O juiz olhou para baixo. Uma risada fria, cortante como vidro, tilintou no ar luminoso.

— Quanta imaturidade... — A voz infantil ecoou, metálica. — Então até você vai usar essa desculpa barata, Caçador? Vai jogar o peso do seu fracasso nas costas dos deuses e dizer que o único jeito de consertar as coisas é começando tudo de novo? Que piada lamentável.

O deboche rasgou o último fio de sanidade de Dante.

Ele esmurrou a mesa da defesa com o único braço. A cadeira raspou no chão de ouro com um guincho ríspido quando ele se pôs de pé.

— Então me diga por quê! — A voz de Dante falhou em revolta e impotência. — Me explique por que o mundo tem que ser desse jeito doente! Qual é o maldito motivo por trás de toda essa dor, de toda essa miséria cega?!

Atrás do juiz, os cabos de uma balança dourada e titânica rangeram. O prato esquerdo desceu com um baque pesado, fazendo a estrutura pender.

O menino apoiou o queixo nas mãos entrelaçadas.

— Pois bem, humano. Em nome da Ordem, fingirei que você tem um caso. Mas advirto: não há como vencer essa causa.

À direita, a Promotoria deu um passo à frente. Era uma garota, os cabelos escuros puxados em um coque tenso. O rosto era uma réplica idêntica à do juiz, partilhando da mesma apatia mecânica e perversa.

— Meu caro jovem... — a voz dela soou fria e matemática. — Como ousa dizer que esta tragédia é responsabilidade nossa? Você caminhou pela lama. Viveu pelos esgotos. Deveria saber melhor do que ninguém: no fim da linha, absolutamente todo o sofrimento que atinge os humanos... origina-se da própria humanidade.

— Vocês não vão me enganar com esse cinismo! — Dante rosnou, o dedo em riste apontando para o púlpito. — Não joguem isso na minha cara! Se existe a capacidade para a maldade extrema, se o sofrimento está na equação, é porque vocês nos fizeram assim! Quando criaram este mundo, vocês escolheram as regras!

A garota não piscou. O cabo de aço da balança gemeu de novo. O prato subiu, nivelando-se em um equilíbrio frio e perfeito.

— Você não está errado em sua lógica de causa primária — a Promotora concedeu. — Mas sua visão é rasteira. Não enxerga o todo. Tudo o que existe foi forjado para o Equilíbrio. Para que vocês pudessem compreender o conceito de "felicidade", o contraste do "sofrimento" era estritamente necessário. O sabor da vitória exige o amargor da derrota. A luz do milagre exige as trevas da tragédia. E o amor incondicional só tem peso frente à maldade extrema.

— Mas por quê?! — Dante esmurrou o próprio peito. A respiração estava curta. — Por que essa lógica doentia?! Era só criar um mundo diferente! Um lugar onde só existisse a felicidade!

Os gêmeos se olharam. Em uníssono, riram da cara dele. O som era brando, infantil, mas carregava séculos de superioridade predatória.

— Meu caro... você sequer faz ideia do que seria um mundo assim? — O juiz inclinou-se.

— Um mundo sem dor, sem desespero e sem perdedores... — a Promotora concluiu, a lógica implacável dissecando a ingenuidade do garoto. — Isso nunca seria um paraíso. Seria o ápice da estagnação. Um plano vazio, plastificado e monocromático, afogado em puro tédio. Vocês apodreceriam de inércia... até nos implorarem para morrer.

A saliva na boca de Dante sumiu. O conceito cravou-se em sua mente, mas o coração humano lutava em negação.

— Mas... ainda assim... tinha que ter outra maneira. Tem que ter outro jeito!

Toc. Toc.

A base do martelo de ouro bateu contra o mármore. O som estourou como um trovão, engolindo os protestos do Caçador.

— Chega — ditou o menino, a voz afundando em autoridade cósmica. — Para começar, a sua afirmação não tem lógica. Pense, humano: se fôssemos seres de pura malícia, se nossa diversão fosse o sofrimento gratuito... por que criaríamos a capacidade do "descontentamento"?

Dante paralisou.

— Se o objetivo fosse a tortura — o juiz continuou, cada sílaba soando como um prego em um caixão —, teríamos criado um mundo de tragédia absoluta, onde ninguém sequer pudesse pensar em mudar as coisas. Nós criamos a dor, o descontentamento e o livre-arbítrio para que vocês fizessem algo a respeito das suas próprias falhas. Mas a humanidade prefere sentar, cruzar os braços e jogar a culpa da própria incompetência nos deuses. Usam a desculpa do destino para aceitar a dor passivamente.

As pernas de Dante cederam ligeiramente. O Tribunal pareceu aumentar, esmagando-o sob um peso microscópico. A última pedra de seu orgulho desmoronou: sua rebelião não era um ato de coragem; era a birra de uma criança diante da própria falha.

O menino ergueu o martelo dourado de novo.

— Vocês não têm um caso — a sentença ribombou pelas colunas de luz. — Fizeram uma bagunça completa no próprio planeta, incendiaram o universo e agora tentam macular um Astreus para lavar as próprias mãos sujas de sangue!

Toc!

O mármore estalou. Fissuras negras rasgaram o chão de ouro do Tribunal, abrindo caminho para o nada.

— Se tivessem usado metade dessa Vontade tentando salvar o mundo em vez de tentar matar quem o criou... — a voz do juiz desbotou à medida que o brilho dourado engolia a realidade —, talvez ele não chegasse tão cedo ao fim.

Parte 9

Esqueletos de pedra pontilhavam o horizonte de Morpheus. Há muitos ciclos, capelas e igrejas se erguiam por todos os lados, mas o propósito de sua existência havia evaporado. Para aqueles nascidos após a coroação de Lysander, eram apenas construções inúteis, lugares que um dia abrigaram algum significado engolido pela história.

Mas, no coração do reino dos pesadelos, uma dessas estruturas resistia. O teto havia desabado, a pintura era uma memória desbotada, mas, em vez de abandono, o interior pulsava.

O som de risadas infantis ecoava pela nave principal. O cheiro quente e rústico de um ensopado de legumes espantava o frio da pedra. Passos firmes soaram pelo piso desgastado enquanto Kiara caminhava entre as colunas centrais, até encontrar quem procurava.

Asmodea.

A mulher estava diante de um caldeirão de ferro improvisado sobre o fogo. O som rítmico da concha de madeira batendo no metal parou. Asmodea virou o rosto por cima do ombro. Os olhos dela carregavam o peso de milênios de cansaço, sustentados por uma paz teimosa e frágil.

— Kiara... — Asmodea murmurou, apoiando a concha na borda de pedra. — Eu soube que você viria.

Kiara manteve a postura rígida, o rosto focado.

— Asmodea. Vim te chamar pessoalmente. Uma nova batalha decisiva vai acontecer em três dias na cidade de Akumatsu. Eu preciso de você nas linhas de frente.

O silêncio desceu entre elas, preenchido apenas pelo crepitar do fogo. Asmodea suspirou. Ela desviou o olhar para o fundo da paróquia, onde crianças magras, vítimas que haviam perdido tudo na guerra, corriam entre os escombros segurando bonecos de pano.

— Você sabe o que eu fiz deste lugar, Kiara — Asmodea falou, a voz mansa, mas firme. — Esta velha igreja quebrada... eu a transformei em um orfanato. Um refúgio. Achei adequado. Dizem que, no passado, esses locais representavam a salvação.

Kiara acompanhou o olhar dela. Em silêncio. Para a princesa, o conceito de salvação ali era alienígena; eram apenas escombros que Lysander havia ordenado destruir muito tempo atrás.

Asmodea caminhou até uma mesa de madeira envergada, enxugando as mãos em um pano áspero.

— Você me recrutou anos atrás. Nomeou-me um dos seus Lordes Pecado. E eu sempre me perguntei o porquê. Se queria o meu poder para a sua guerra, Kiara, bastava derrotar-me em um duelo. Usando a sua Autoridade, você exigiria a minha submissão total. Teria sido tão simples.

A mulher de olhos antigos fixou o olhar na princesa, dissecando a armadura emocional da garota.

— No entanto... você me ofereceu o cargo com dignidade. E passou todos esses anos sem exigir absolutamente nada. Sem me forçar a manchar as mãos de sangue de novo. Pelo contrário: você continuou mandando mantimentos, remédios e cobertores para mim e para as crianças. Por quê?

Kiara desviou os olhos por uma fração de segundo. A mandíbula travou; os dentes cerrados tensionavam o maxilar.

— Você está mudando de assunto, Asmodea. Eu a recrutei porque vi habilidades em você. Habilidades úteis para vencer. O resto... não importa.

Um sorriso despontou nos lábios da velha guerreira. Pequeno, sábio e triste.

— Eu nunca a vi me chamar para uma batalha antes, Kiara. Para vir aqui pessoalmente... o motivo deve ser enorme. Algo que exija estritamente a minha presença.

— Talvez — Kiara respondeu, com a voz seca como poeira.

— E mesmo assim... — Asmodea deu um passo à frente, diminuindo a distância. O tom aveludou-se. — Você não usa o seu Controle para me forçar. Você me dá a escolha.

Ela estendeu a mão. Os dedos de Asmodea tocaram levemente o ombro blindado de Kiara.

— É por isso que, mesmo odiando esta guerra com cada fibra do meu ser... eu realmente espero, do fundo do meu coração, que você vença, Kiara — Asmodea confessou, a esperança brilhando nas íris cansadas. — Eu quero ver o mundo que os punhos desta garota podem criar.

A poucos metros dali, mãos pequenas escorregaram. Um copo de vidro despencou em direção ao chão de pedra.

CRACK.

O estilhaçar foi ríspido. E, no reflexo daqueles cacos estourados pelo chão, o tempo partiu-se. O instante fragmentou-se e avançou.

O "depois" foi uma lâmina cega no pescoço.

O calor do ensopado de legumes desapareceu, substituído por uma lufada espessa e tóxica que arranhava a garganta. O ar cheirava a óleo acelerante, madeira apodrecida e carne carbonizada.

Asmodea e Kiara pararam na soleira do arco de entrada. Estavam sujas, vindas da batalha. Atrás delas, uma dúzia de novos órfãos resgatados dos escombros de Akumatsu espreitava, com os olhos miúdos buscando o prometido novo lar.

Mas não havia nada para olhar.

A velha catedral estava eviscerada. As pedras cinzentas estavam enegrecidas, tomadas por uma fuligem espessa. O que restava do teto havia desabado de vez, esmagando o centro da nave. Fumaça preta rastejava como serpentes por baixo das vigas fumegantes. Os colchões, os pratos, os bonecos de pano e as crianças que haviam ficado para trás — o fogo devorara tudo com uma fome irrestrita.

O silêncio do lugar era tumular. Não havia choro nem gemidos. Apenas cinzas mortas, dançando lentamente ao vento.

Parte 10

A mente de Dante afundou.

A Biblioteca, o Tribunal, o asfalto derretido de Morpheus — tudo evaporou. Ele estava deitado de costas em uma piscina rasa e infinita. A água cristalina espelhava um céu opaco, cinzento, desprovido de sol ou estrelas. Não havia vento, não havia som. Havia apenas uma asfixia psicológica. O peso denso, esmagador e frio da indecisão.

O Caçador olhava para aquele céu nulo, aprisionado no labirinto de suas próprias indagações. No final, nada fazia o menor sentido. Os Astreus afirmavam que a tragédia era o contraste necessário para a felicidade existir; justificavam a podridão do mundo como o "motor" do livre-arbítrio. Em contrapartida, a Horizon — aqueles que se recusaram a aceitar essa lógica sádica e tentaram subverter o sistema — acabou empilhando cadáveres e gerando uma carnificina ainda pior.

"O que eu deveria fazer? O que eu deveria ter feito?", Dante pensou, enquanto a água fria ensopava suas costas e infiltrava-se pelos poros. "O que é certo e o que é errado? Quem é o vilão? Quem é o herói?"

— É você quem diz.

A voz era grave, serena e cortou o silêncio sem emitir ecos.

Dante virou o rosto na água. A poucos metros, quebrando o espelho cristalino da piscina, estava um homem de terno. Uma faixa escura vendava seus olhos. Na mão esquerda, a mesma balança que no Tribunal parecera titânica agora repousava perfeitamente equilibrada e miúda. Na direita, o aço reto e letal de uma espada de carrasco.

— Por acaso acha que a Justiça é algo absoluto? — o homem vendado perguntou, o tom ressoando diretamente nas fundações da alma de Dante. — Acredita que, para toda tragédia, sempre haverá uma "resposta certa" pronta, escrita em um manual divino? Se estiver procurando pelo caminho fácil, Caçador, não terá escolha a não ser afundar.

O homem ergueu a espada. A ponta de aço apontou direto para o peito de Dante.

— Será mais fácil simplesmente morrer. Pois, do jeito que você está, não haverá diferença em permanecer no mundo dos vivos...

O estalo seco de uma gota caindo na água marcou o compasso de uma sincronização invisível.

O Dante "de dentro" ajoelhou-se na piscina infinita, a água da indecisão escorrendo de seus cabelos. O Dante "de fora" caminhava pelo asfalto de vidro de Morpheus.

No mundo real, ele estava completamente oco. Os olhos bicolores, vidrados, refletiam o clarão de um vazio aterrorizante. O dragão profano de duas cabeças urrou. A mandíbula demoníaca abriu-se, cuspindo uma torrente radioativa de fogo azul diretamente contra o garoto.

Parecia o fim. Ele estava prestes a aceitar. A espada do carrasco ou as chamas do dragão; a morte física ou o suicídio espiritual.

Mas algo no fundo do peito ainda ardia. O instinto primordial alojado na medula berrou em recusa.

NÃO.

A fibra muscular reagiu antes do pensamento. Dante rolou violentamente pelo asfalto de vidro e chamas. O calor do plasma lambeu suas costas. Os ossos recém-remendados rangeram sob o impacto da esquiva. A dor excruciante deveria tê-lo apagado, mas ele fincou o que restava da bota no chão, impulsionou o corpo mutilado e continuou andando. A marcha arrastada acelerou para uma corrida manca e desesperada.

Ao longe, as vozes de Sora, Safira e Eliza rasgaram a fumaça berrando seu nome, um coro de pânico abafado pelo zumbido latejante em seus tímpanos.

Dentro de sua mente, o céu cinzento colapsou. Nuvens negras, espessas de fúria, engoliram o horizonte. A primeira gota caiu. Depois, a segunda. E então o mundo interno explodiu em uma tempestade torrencial. O vento uivou, refletindo o fim da letargia.

O Dante "de dentro" levantou-se, o rosto voltado para o carrasco enquanto a espada descia em um golpe letal. Ele desviou.

No mundo real e no mental, ele correu. Para a frente. Contra a nevasca de dor e contra a fúria dos deuses. Sem rumo. Sem entender a lógica do próprio movimento.

Para onde estou indo? O que eu devo fazer?

Não havia bússola. Não havia ninguém para segurar sua mão e ditar a resposta. E, no epicentro do caos, a epifania desabou sobre ele com o peso de um raio.

— Não existe resposta certa — os olhos bicolores deixaram a apatia, ganhando um brilho selvagem e violento. — No final, todos eles estavam certos e todos estavam errados. Os Astreus, a Horizon, Lysander... cada um corria cegamente atrás da própria verdade. Mas e eu?

O Dante "de dentro" caiu de joelhos na água. O Dante "de fora" pisou em falso. Sem o contrapeso do braço direito, o eixo falhou. Ele tombou, derrapando no asfalto em brasa e esfolando o ombro esquerdo. Pele e carne queimaram contra a pedra. Ele cuspiu sangue amargo. Os dedos se cerraram no cabo de obsidiana de Raguel. Usando a espada como âncora, forçou-se a ficar de pé de novo.

— Eu fui o mais hipócrita, o mais fraco, o pior de todos eles — a confissão rasgou a garganta em fúria. — Senti raiva do mundo, julguei quem tentava mudá-lo... mas eu mesmo não fiz nada além de me lamentar!

A chuva em sua mente virou um furacão.

— E quando decidi agir, fiquei paralisado procurando a "escolha correta", apenas para mascarar a minha covardia de aceitar que eu poderia errar!

A dezenas de metros, o dragão divino recuou o pescoço. Ambas as mandíbulas se abriram. O Éter acumulou-se em uma esfera cegante e densa, condensando o terror cósmico. A fera cuspiu uma onda colossal de plasma azul — um tsunami divino projetado para apagar a própria existência. Uma muralha de aniquilação vinda em direção a Dante.

Ele parou de correr. Ele não desviou.

Fincou a bota estilhaçada no chão e ergueu a espada escura. Os músculos do braço esquerdo tensionaram até as cordas vocais repuxarem.

— Mas se este mundo já não faz o menor sentido... — As íris queimaram, injetadas com a Vontade absoluta que se recusava a morrer. — Então eu também não vou fazer!

A onda térmica o engoliu. Dante balançou a pesada lâmina de Raguel em um arco ascendente perfeito. O aço negro encontrou a luz incandescente. Com um urro primitivo, capaz de rasgar a própria carne, o Caçador ancorou o peso do próprio espírito e rebateu a aniquilação divina.

A força bruta do impacto repeliu o plasma. O fogo azul inverteu a trajetória em um feixe concentrado e brutal, cravando-se direto no monstro.

A explosão desestabilizou o ar. O impacto obliterou a cabeça direita do dragão angelical, pulverizando osso e luz em uma chuva de cinzas douradas e sangue radiante. A fera bramiu, tombando pesadamente para o lado.

Quando a nuvem de Éter se dissipou, Dante estava lá. Sangrando pelos olhos, ouvidos e boca, com as roupas desfazendo-se em fumaça. Mutilado. Mas erguido. Absoluto em seu próprio pilar.

“Se o mundo machuca as pessoas... se as regras deste universo torturam quem não merece... eu serei o escudo.” A mente finalmente estava clara e incisiva. “Vou destruir essa lógica de merda com a minha própria mão.”

Ele não era mais o garoto do Tribunal.

Vou dizer NÃO à ordem deste mundo. E recuso-me a usar a desculpa de "apagar o quadro". Vou continuar vivo neste inferno — a mão apertou Raguel — e vou construir o meu próprio paraíso em cima dele!

— AAAAAAAAAAAAAAAHHHH!

O grito rasgou a barreira do som e das dimensões.

Ele disparou para a frente. Uma arrancada predatória e suicida diretamente contra a divindade mutilada. A cabeça restante do dragão cuspiu jatos rápidos de fogo, tentando incinerar o rato atrevido. Dante atravessou as labaredas. A pele chamuscou, exalando fumaça. Ele engolia o próprio sangue e avançava, a lâmina de obsidiana rasgando o chão e soltando faíscas.

A cem metros de distância, ancorados uns aos outros durante o terremoto final do reino, Eliza, Maysa, Sora, Safira e Teth assistiam, paralisados. O ar sumiu de seus pulmões.

Aquele não era um cruzado lutando por dogmas, nem um fantasma buscando vingança cega. Era um mortal quebrado, destituído do amparo dos deuses e esvaziado de medo, avançando de peito aberto contra o divino. Porque ele, e somente ele, havia decidido que o mundo não as machucaria mais.

Parte 11

O cenário desolador dissolveu-se ao redor da consciência de Dante mais uma vez. O asfalto e as chamas deram lugar, subitamente, ao silêncio. Ele estava de volta à Biblioteca Infinita, sentado sobre a madeira polida. Mas, desta vez, as lágrimas haviam secado. A negação evaporara.

A alguns passos, a Astreus da Memória o estudava. A mulher de olhos orbitais dissecava a súbita ancoragem do garoto com uma frieza cirúrgica.

— Criar o seu próprio paraíso? — A voz aveludada ressoou, cética, deslizando pelas estantes sem fim. — Mas isso não é exatamente o que a Horizon quer? Ficou surdo para a própria hipocrisia, Dante, ou está apenas correndo em círculos? Isso não tem lógica.

O livro de capa escura fechou-se em suas mãos com um baque punitivo. A expressão divina endureceu.

— Não importa a paixão em seu coração. É impossível. O que pretende fazer agora? Morpheus acabou. Todos estão mortos ou agonizando. E, mesmo que, por um milagre perverso, você os salve, o que vem depois? A cada degrau em direção a essa "felicidade", a gravidade trará mais inimigos, mais tragédias. É a Ordem deste universo. Como você, um estilhaço mortal, espera parar a maré do cosmos?

Dante não respondeu com palavras. Ele se levantou.

No instante em que as botas quebradas encontraram a madeira, o Éter do Caçador estourou. Não era a aura caótica de um garoto acuado; era a encarnação crua, febril e predatória do Desejo. Chamas alaranjadas e ardentes irromperam de seus poros. O velho cachecol negro chicoteou o ar e serpenteou pelo seu pescoço, brilhando como se os fios tivessem sido fiados no próprio magma.

A espada de obsidiana, Raguel, materializou-se em sua mão esquerda com o peso da gravidade. Os olhos bicolores, antes vazios, travaram na deusa. Nenhuma hesitação. Nenhum recuo.

— Não me importa se é impossível — o rosnado de Dante vibrou em uma frequência desumana. — Pouco me fode o que vocês ou as regras dizem. Eu não vou parar só porque o mundo acha que não dá. Vou rasgar cada barreira que aparecer até pegar o que é meu. E prestem muita atenção... cada um de vocês, malditos Astreus.

As chamas alaranjadas expandiram-se, lambendo as estantes milenares. A Biblioteca Infinita, o cofre absoluto das lembranças, incendiou-se e ruiu em cinzas em um piscar de olhos.

O cenário foi obliterado. Chão e teto sumiram.

Dante e a Memória pairavam agora no centro do vácuo cósmico. Acima, um céu asfixiante, crivado de estrelas gigantes e anômalas. Sob as botas do Caçador, o chão era um oceano vítreo e raso de puro fogo alaranjado.

Ele ergueu a pesada lâmina de obsidiana. Não apontou para a mulher à sua frente, mas para cima. Para os astros que o vigiavam.

— Eu vou construir este paraíso! — O urro do humano fendeu a eternidade. — E vou trazer quem eu quiser comigo! O aviso está dado: se quiserem ajudar, não vou recusar. Mas se qualquer um ousar entrar no meu caminho... não importa que sejam deuses, eu vou abrir cada um de vocês ao meio!

No mundo físico de Morpheus, o corpo trucidado e anestesiado de Dante finalmente alcançou a fornalha.

No epicentro da cratera, o garoto ergueu o coto sangrento que outrora fora um braço, usou a mão esquerda e cravou a lâmina inteira de Raguel no peito do dragão profano.

O contato foi cataclísmico. As chamas radioativas azuis engoliram Dante, incinerando sua pele viva. O monstro urrou, dragando reservas colossais de Éter da Árvore Dourada, que desabava ao fundo, tentando desintegrar o invasor.

A consciência das Personoarmas debateu-se na mente do garoto. Sora, Safira, Asuka... ecos de desespero preenchiam o crânio. Entre a estática e a dor, o sussurro fraco de Anna:

— Dante!

Mas ele não recuou. A destruição biológica não significava nada diante da Vontade recém-forjada. Ele empurrou a espada, adentrando o coração do núcleo azul e forçando o próprio corpo a ser engolido pelo plasma.

De volta ao vácuo estrelado, a Astreus da Memória não estava ofendida.

A fachada aristocrática desmoronou. Ela escancarou um sorriso extasiado.

— Sim... — sussurrou ela, as galáxias em seus olhos girando em um frenesi descontrolado. — Era exatamente esta loucura... este desejo predatório e sujo que eu esperei este tempo todo.

No teto do universo, as estrelas coloridas piscaram e despencaram.

Um a um, os deuses materializaram-se diante do mar de fogo alaranjado. Entidades em receptáculos humanos, anomalias cósmicas e pesadelos primordiais. O panteão supremo reunido em silêncio absoluto para encarar a formiga que, de peito aberto, declarava guerra contra a bota que a esmagaria.

A Memória abriu os braços, qual mestre de cerimônias no apogeu de seu circo de horrores.

— Senhoras e senhores! — a voz divina cintilou. — Apresento-lhes aquele em quem mantiveram seus olhos fixos em segredo! Alguns cobiçaram seu poder. Outros riram de sua insignificância. Houve quem desejasse provar sua essência e quem depositasse fé em seus passos curtos.

Ela apontou para o humano em chamas.

— Um bípede que tocou o trono divino e cuspiu nele! Vocês mentiriam se dissessem que a vida fugaz dessa anomalia não lhes prendeu a atenção. E agora... a rebelião escancarou as presas. Elas estão apontadas para as nossas gargantas! — O sorriso da Memória desafiou seus pares. — Me digam: o que os senhores farão a respeito?

A resposta foi uma gargalhada predatória. Uma garota com chifres colossais de dragão saltou à frente, o olhar cravado em Dante com fome pura.

— Conseguiu mesmo, Memória! Que diversão divina! Pois bem, humano! Afie essas garras, torne-as incandescentes e aponte-as para o meu pescoço! Porque, se hesitar... a minha guerra reduzirá o seu precioso paraíso a escombros! — E a dragoa desapareceu em brasas.

Próxima a ela, uma figura de cabelos brancos e mechas azuis, enredada em correntes, soltou um estalo de língua.

— Outro primata arrogante tentando segurar o cosmos com as mãos. Digno de pena. Mas você ganhou minha atenção, Dante. Gravarei o seu nome. E farei questão de mostrar, pessoalmente, o quão microscópico você é. — Sumiu na escuridão.

Uma terceira divindade sorriu. Dela emanava o cheiro de leite materno misturado ao chorume de cadáveres.

— Minha criança deseja cortar o cordão umbilical. Mas aviso-lhe: por mais bela que seja a vida, ela apodrecerá enquanto a Morte não se ajoelhar. Caso queira um paraíso imune à decadência... venha até mim. Uma mãe jamais rejeita os seus. — A deusa maternal evaporou em névoa doce.

Longe do grupo, largado no ar em postura letárgica, um borrão amorfo de cartas, fichas de cassino e dados vibrou em risos.

— Hahaha! Hilário. O garoto que quebrou o Enigma. Um conselho: leia as letras miúdas dos seus próximos acordos. A trapaça, Caçador, mora nos detalhes. — Um estalo seco de dedos, e o caos sumiu.

A projeção colossal de Maysa surgiu no zênite. Cruzou os braços imensos, o rosto uma máscara de escárnio aprovador.

— Se o meu marido não fosse capaz de carregar um Desejo dessa escala, eu mesma já o teria estrangulado. — O sorriso perigoso reluziu antes de a gigante derreter nas sombras.

Os gêmeos do Tribunal flutuaram lado a lado.

— Quer o todo sem pagar o preço equivalente? — o menino cético murmurou.

— A ordem dos seus desejos é um insulto — a garota completou. — Vejamos como você fará isso, humano. Afogue-se no seu próprio mar.

O homem de terno, com a balança e a espada de carrasco, inclinou a cabeça sob a venda grossa.

— Então, essa é a sua Justiça. Segure-a. E, acima de tudo, não a deixe cair.

Uma a uma, as personificações absolutas do multiverso proferiram seus vereditos e se dissolveram no nada. Apenas uma permaneceu.

Uma garota de cabelos bicolores, o punho descansando casualmente na empunhadura de uma katana. Os olhos vermelhos perfuravam a neblina laranja, pesados e absolutos. Dante sabia exatamente quem ela era. Ele esmagou o cabo de Raguel, devolvendo o olhar vermelho sem piscar.

A garota não sorriu. Inclinou levemente o pescoço.

— Ela queria que você vivesse... — O timbre era baixo, forjado em velhas promessas. — Então vê se não desperdiça o desejo dela tentando fazer merda de que não dê conta, seu idiota.

E a última estrela foi engolida pelas trevas.

No vácuo absoluto, Dante e a Astreus da Memória restaram. A divindade ajeitou a postura impecável. O cinismo desapareceu. Em seu lugar, apenas uma reverência profunda, o respeito de quem assiste à coroação do caos.

— Agora sim... — O sussurro da Memória ressoou como a primeira nota de uma sinfonia. — Já é hora de começar a andar... Rei dos Sonhos.

O título apertou o gatilho.

No mundo físico, o olho de Dante escancarou-se no centro da fornalha radioativa. A íris bicolor incendiou-se. A represa no cérebro do Caçador estourou, o bloqueio imposto pela deusa finalmente cedeu, e as memórias roubadas despencaram em sua mente.

A última frase dita por ela no encontro do passado reverberou perfeitamente nítida:

"Eu quero que você se torne o novo Rei de Morpheus, pirralho."

A anestesia da Vontade calou qualquer ruína biológica. Dante concentrou a gravidade de seu ser, a totalidade de suas chamas e de sua teimosia no punho esquerdo e marchou para dentro do núcleo de Éter. Ele não lutava mais contra a abominação; ele a devorava.

Mergulhou no plasma azul até a realidade exterior sumir, substituída por pura e espessa escuridão. E, no centro daquele abismo letal, a grandiosa chama azul radioativa tremulou. Ela debateu-se, enfraquecendo sob uma pressão invisível.

De repente, uma faísca laranja rasgou o centro do azul. O fogo da Vontade canibalizou as chamas da abominação. O azul foi engolido. As trevas foram carbonizadas. E a chama alaranjada do Caçador explodiu, iluminando o abismo do reino morto. Não como o suspiro final de um mundo... mas como uma estrela supernova forjando a gravidade do próximo.

Parte 12

A luz branca e absoluta engoliu tudo. As chamas azuis da obliteração, as vermelhas da fúria, o rugido colossal do dragão e o colapso da Árvore Dourada — tudo apagado em um único milissegundo de estática muda e ofuscante.

Quando Dante piscou, a dor não estava mais lá. O inferno havia sido desintegrado.

Ele estava deitado de costas, e a superfície sob seu corpo era fina e morna. Areia. O som ensurdecedor da guerra havia sido substituído pelo sussurro rítmico, manso e hipnótico das ondas espumando contra a costa. Acima, um céu crepuscular sangrava em tons de laranja e violeta. Era uma beleza tão melancólica que apertava a garganta.

A serenidade esmagadora do lugar era asfixiante.

Eu morri?, o pensamento deslizou solto. A respiração entrava e saía dos pulmões sem esforço. Fomos apagados? É isso que sobra no final?

Dante forçou o tronco, sentando-se na areia clara. Ao olhar para o lado direito, a resposta desceu gelada: faltava o braço. A manga rasgada balançou com a brisa litorânea.

E então, ele a viu.

Caminhando na água rasa, com a barra de um vestido leve colando na pele devido às marolas, havia uma figura inconfundível. Silence. A garota-sacerdotisa do passado. Mas havia algo fundamentalmente distorcido nela. Os cabelos vermelhos haviam dado lugar a um azul profundo, cósmico e estrelado, como uma galáxia presa em fios de seda.

Pesando nos pulsos finos e nos tornozelos da entidade, repousavam grossas correntes de metal negro, antigas e espessas. Porém, os elos estavam quebrados. Ela não estava presa a nada. As correntes rompidas apenas arrastavam-se pela areia, desenhando um rastro de liberdade bruta.

A garota parou. Olhou para ele. Um sorriso leve e complacente.

Dante firmou a bota na areia e ergueu-se, ainda atordoado pela transição.

— Tá certo... — A voz dele saiu arranhada, quebrando o som do mar. — O que diabos tá acontecendo agora?

— Se você ficar dissecando muito os detalhes, vai acabar enlouquecendo — o timbre dela era macio, mas ecoava com o peso de uma ressonância divina. — Achei que a minha irmã já tivesse te ensinado isso.

A palavra bateu no córtex do Caçador como uma granada. O corpo mutilado de Dante reagiu instintivamente, saltando um metro para trás em postura defensiva.

— Você... Você é um Astreus! — rosnou ele, as íris bicolores fechando-se em focos de predador.

A garota piscou. Inclinou a cabeça, curiosa.

— Não consegue me reconhecer de verdade?

— Se você quer ser reconhecida, por que está usando a cara da Silence? — ele rebateu, hostil.

A entidade de cabelos azuis tocou o queixo.

— Entendo. Na sua mente, essa é a minha forma. Faz sentido. A Silence foi a única das minhas crias com quem você teve um encontro direto até hoje.

A agressividade de Dante recuou ligeiramente. Um frio escorreu pela base do pescoço. A memória puxou as falas antigas da sacerdotisa.

— O Destino.

O sorriso radiante voltou ao rosto dela. Ela caminhou até a areia seca, sentou-se e bateu as palmas das mãos ao lado do corpo, em um convite mudo. Dante engoliu em seco, mas o cansaço cobrou o preço. Caminhou até ela e sentou-se de pernas cruzadas.

— Se você diz "a única", quer dizer que existem outras? — ele puxou o fio da meada.

— Tenho a Bern... mas isso é outra história. Vamos focar no essencial.

O Caçador travou a mandíbula. Com deuses, o "essencial" costumava ser uma ameaça de obliteração ou uma charada sádica. Mas a frase seguinte furou todas as suas defesas.

— Já sei. Acho que devo começar... pedindo-lhe desculpas.

Dante piscou, cego. O Destino olhou para as correntes pesadas no próprio pulso.

— De certa forma, eu manipulei as peças do tabuleiro. Guiei seus passos e os daquela garota por esse inferno. Acabei te arrastando para esta guerra. E fiz isso... porque precisava parar as lágrimas da minha irmã.

Ela ergueu o olhar para o crepúsculo.

— A Memória nunca suportaria perder o jardim de Morpheus. Mas, graças à imprudência da Vida, da Morte e da Guerra... o jardim nasceu condenado. A anomalia de Lysander atrairia a Horizon todas as vezes. E o fim seria a destruição, todas as vezes.

Uma faísca trêmula iluminou o olho de Dante.

— Quer dizer que eu consegui?! Eu parei a destruição?!

— Não. — A palavra cortou a faísca como uma guilhotina. — A Morpheus que você conhecia virou pó cósmico neste exato segundo.

Dante desabou para trás na areia. A mão esquerda cobriu o rosto.

— Eu sabia! Merda! Ahhhhhhh! — Ele esmurrou o chão em frustração, fazendo a areia espirrar.

Largado ali, olhando para o teto alaranjado, ele murmurou, exausto: — O que realmente aconteceu no fim? A realidade parecia estar derretendo... a ordem das coisas se quebrou.

O Destino ergueu os braços finos, sacudindo as correntes estilhaçadas. — Bom... eu morri. E, nesse processo, a dimensão de Morpheus inteira foi queimada apenas pela existência da arma que a Irene forjou para me matar.

Dante sentou-se num solavanco, com a testa franzida. — Peraí... O dragão não tinha nem disparado um golpe quando eu o acertei!

A garota sorriu com indulgência. — Dante. Se uma arma precisa "ser disparada" para funcionar, ela nunca alcançaria um Astreus. Algo submisso às leis banais do tempo e do espaço jamais tocaria em mim. Não acha óbvio?

A mente bélica dele girou e encaixou a engrenagem. — Entendi. O dragão ainda estava "evoluindo" para um conceito letal? E o simples processo de existir e ser montado... já foi suficiente para engolir a dimensão?

Ela assentiu. Dante balançou a cabeça, sentindo as têmporas latejarem. — Calma. Se você morreu... como estou conversando com você numa praia?

— A morte de um Astreus não é biológica. — Ela cavocou a areia com os dedos. — Nós somos constantes. Leis. Se o multiverso acabar num vácuo, eu continuarei lá como uma constante invisível.

— Então não diga que morreu! — O tom dele subiu, irritado. — Puta bagunça.

— Mas, conceitualmente, eu morri — ela insistiu, mansa.

Dante massageou a testa com os dedos cobertos de sangue seco. — Escuta, eu odeio enigmas e charadas, e você sabe disso. Me dá uma explicação que faça sentido.

Ela ponderou. — Tentar explicar o extradimensional para a sua biologia é duro, mas pense em uma estrela. O astro colapsa e morre no vácuo escuro, mas o seu brilho viaja pelo espaço e continua sendo visto por anos.

— Ah — ele acompanhou. — Você morreu no núcleo, mas sua "imagem" continua chegando até mim.

— Quase. — Ela ergueu um dedo. — Eu iniciei um novo ciclo. Tudo cicla. Até os deuses. Minha consciência primária, este "Eu" que estava ativo, apagou-se. Um ciclo de morte e renascimento do zero.

— Agora falou a minha língua. — Dante estalou os dedos.

A garota bateu palmas, animada. Ele revirou os olhos.

— Sério? Parece que estou no jardim de infância aprendendo que dois mais dois são quatro — ele bufou. — E quanto tempo demora para a nova versão aparecer?

As palmas pararam.

— Já apareceu.

A irritação explodiu de novo.

— Caralho! E você diz que isso é não falar em enigmas?!

— Eu acabei de dizer que o tempo linear não me afeta — ela riu baixo. — O ciclo já ocorreu no grande esquema.

— E por que você ainda está aqui conversando comigo?!

O sorriso murchou, cedendo lugar a uma tristeza profunda.

— Porque estou me despedindo. Esta versão que desenhou a praia, as minhas memórias de agora... este "eu" vai sumir. Outra consciência, outra "pessoa", já sentou no meu trono. E eu, honestamente, não faço ideia de como essa nova pessoa é.

Dante processou o baque. O ego ia morrer. A identidade estava no corredor da morte cósmica.

— Entendi... — a raiva evaporou. — Olha, se você teve o trabalho de vir pedir desculpas antes de se apagar... não me parece uma pessoa tão ruim. Sinto muito não ter conseguido evitar isso.

O Destino deu um riso fraco e sem humor.

— Tome cuidado, Caçador.

— Por quê?

— Porque, para vocês de Morpheus, que estão presos no tempo linear, o "trono" está temporariamente vazio. A humanidade rompeu as correntes, e o destino não está mais talhado em pedra. Vocês estão cegos, no centro do furacão.

As correntes soaram secas na areia. Dante coçou a nuca esfolada.

— Sem ofensa... mas isso não é bom?

A deusa arregalou os olhos. E então riu, uma gargalhada genuína pela petulância dele em bater de frente com a predeterminação.

— Vocês verão os resultados do livre-arbítrio bruto em breve — a expressão dela, porém, pesou. — Mas, no tempo em que o trono parecer oco, alguém tentará roubá-lo. Haverá "candidatos". Talvez até caia no seu colo. Mas eu imploro, Caçador: o trono do Destino é a última coisa que você vai querer carregar.

— Peraí. Como assim, candidato? — A testa de Dante enrugou. — Se a nova versão já assumiu...

O silêncio desceu de súbito. O Destino não respondeu.

Os pés da garota de cabelos cósmicos começaram a transmutar-se. A matéria física virava água cristalina e subia em direção ao céu na forma de gotas de orvalho.

— Ei! — Dante se atirou para a frente. — Não faz a merda de sumir na parte mais importante!

Ela virou o rosto para ele. Metade do corpo já estava translúcido.

— Há uma última coisa que quero saber, Dante.

Ele paralisou.

— O quê?

— Aquele seu paraíso... — A cabeça divina tombou de lado. — O reino de pura felicidade. Como pretende alcançá-lo? Qual é o plano prático?

Dante congelou. A boca abriu-se, mas nada saiu. Ela ergueu a sobrancelha, com meio corpo já feito de água.

— Não me diga que vai pensar nisso só agora.

— É lógico que não! — ele bufou, na defensiva. — Vou arrumar um jeito! Só achei que você, que conhece todas as rotas do tempo, já soubesse!

A deusa da onisciência deu de ombros, sorrindo com um misto de alívio catártico e luto.

— Pois é, Dante... Pela primeira vez na eternidade, eu não sei. — O tronco virou água. — Então me dê o spoiler. O que vai fazer?

O garoto relaxou os ombros. Olhou para a deusa moribunda. E um sorriso autêntico quebrou a fuligem em seu rosto — cansado, sangrento, sem o braço, mas irredutível.

— Vou criar um reino — a voz de Dante não vacilou. — Não faço ideia de como. Não tenho nem o primeiro prego. Mas vou garantir, com a porra da minha alma, que todos lá dentro sejam felizes. Ninguém vai sofrer. Nunca mais.

Os olhos da garota se fecharam. A névoa aquática desfez seu rosto, mas o sorriso de satisfação perdurou.

— Meu único arrependimento real nesta morte... é não estar lá para ver isso.

Dante sorriu de volta para o vazio.

— Deixa comigo. Quando sua nova versão renascer... vou esfregar esse paraíso na cara dela.

Nenhuma resposta veio. O corpo de água evaporou. O vento apagou o cheiro da maresia. A divindade não estava mais ali.

O silêncio pesou toneladas. Dante olhou para a direita. Para a esquerda. Levou a única mão à cintura.

"E agora? Como diabos saio dessa metáfora de praia?"

Ele caminhou. Um passo e depois outro, arrastando as botas na areia deserta. Mas o chão perdeu a firmeza. A cada passo, a praia se desfazia. O sussurro do mar sumiu em um chiado elétrico. O céu crepuscular sugou toda a cor e a luz.

A praia evaporou.

Dante caiu no vazio estéril — aquele espaço nulo onde o chão espelhava um falso céu e não havia gravidade. A luz fria vinha de um sol pálido e de uma lua rachada. Os astros eram tingidos por um azul profundo — a exata cor cósmica dos cabelos do Destino —, sangrando pó na escuridão.

No horizonte apático, uma silhueta encolhida rasgava a monotonia do piso de vidro.

Kiara.

A princesa exibia um corte visceral. O braço direito dela também não estava lá.

Dante arrastou-se pelo purgatório espelhado. Sem pressa. Aproximou-se e deixou o corpo ceder no chão invisível, sentando-se ao lado da sombra da realeza de Morpheus. O ciclo havia se fechado. Ele olhou para o ferimento limpo da garota e, em seguida, para a lua azul sangrando no horizonte.

— E esse braço aí? — a voz de Dante quebrou o silêncio, áspera, cruzando o vazio.

Parte 13

O ar rasgava os pulmões de tão gélido. Longe da fornalha radioativa de Morpheus, longe de praias metafóricas ou do vácuo estelar, o salão da base principal da Horizon era um poço de penumbra absoluta. O silêncio pressionava os ombros, espesso e solene como em um santuário profano.

No centro da escuridão, uma fenda de luz dourada rasgou o espaço com um zumbido elétrico. A porta de Irene materializou-se no ar morto.

A maçaneta girou. A bruxa cruzou o batente primeiro, com a respiração curta. O vestido elegante estava em farrapos e a pele, coberta por queimaduras em carne viva. Atrás dela, o portal cuspiu uma segunda figura antes de colapsar e desaparecer no ar.

CRASH!

Katsuragi despencou. O impacto foi o de um meteoro de carne e metal chocando-se contra a rocha, um estrondo seco que sacudiu o piso polido. E então, um guincho agudo e estrangulado fuzilou a atmosfera fúnebre do lugar.

— QUE IDEIA É ESSA DE CAIR BEM EM CIMA DE MIM?!

A voz esganiçada ecoou, espremida debaixo do corpo de Katsuragi. Era Ceto. A garota-tubarão, enfiada em seu casaco extravagante de pirata, estava prensada contra o mármore gelado. A barbatana debatia-se freneticamente sob o casaco, e os dentes serrilhados mordiam o ar em desespero.

— Socorro! Eu vou morrer! — Ceto choramingou, batendo as mãos espalmadas contra a pedra. — Meus órgãos estão virando patê!

A densidade muscular de Katsuragi era uma anomalia biológica; o corpo largado ali pesava o equivalente a uma tonelada de aço. E a guerreira não moveu um músculo para aliviar o peso. Com o rosto ainda amassado contra o chão, Katsuragi suspirou.

— Eu não vou sair do meu quarto por um mês inteiro... — murmurou, com a voz borrada pela mais profunda exaustão.

— Então rola pro seu quarto e SAI DE CIMA DE MIM! — Ceto engasgou, as pernas chutando o vazio.

Ignorando o caos pastelão no piso, Irene avançou. Os saltos estalaram contra a pedra, um clack-clack afiado que viajou pelas abóbadas escuras. No extremo oposto do salão, as sombras cederam ligeiramente. Sentado de pernas cruzadas sobre um encosto escuro, o líder aguardava.

— Vejo que voltaram, Irene — a voz de Niklaus ressoou pelo ambiente. Grave, monótona e completamente inescrutável.

A bruxa parou no limite dos degraus e fez uma mesura leve, apesar de os ferimentos repuxarem a sua pele.

— Sim. Mas, infelizmente, houve imprevistos colossais no roteiro. O monstrinho do Lysander deu mais trabalho do que o esperado. Não consegui estabilizar o Astreus artificial que planejávamos.

Niklaus não piscou. A postura imaculada era a de um predador combatendo o tédio.

— Relaxe. Eu não contava que daria certo tão facilmente, de qualquer forma. Não há por que apressarmos esse projeto ainda. — Ele inclinou a cabeça milímetros para a frente. A pouca luz delineou um sorriso afiado no rosto do líder. — Mas percebo que, apesar do contratempo, você conseguiu matar a consciência atual do Destino.

Irene ergueu uma sobrancelha. O canto dos lábios queimados repuxou em um sorriso ladino.

— Como percebeu tão rápido?

— Consigo ver nos seus olhos. Essa felicidade sombria não mente. — Niklaus recostou-se. O timbre baixou de temperatura. — Além disso... há poucos segundos, todos nós fomos atingidos por uma sensação estranha.

Irene estreitou os olhos.

— Sentiram o quê?

— Foi algo como... a sensação de algo se quebrando. — Os olhos frios de Niklaus calculavam engrenagens invisíveis. — Quando senti a anomalia, mandei Ceto investigar as redes do mundo imediatamente.

Ainda esmagada sob o peso de chumbo da colega, Ceto forçou os pulmões e arrumou a ponta amassada do chapéu de pirata com a única mão livre.

— Aconteceu no mundo todo ao mesmo tempo... — ofegou a garota-tubarão, com a voz rouca. — As assinaturas de Éter despencaram. Simplesmente... pararam de nascer Gifteds. A taxa de novos Gifteds caiu para o zero absoluto.

Irene girou o pescoço para trás. Os olhos de fechadura escancararam-se em choque genuíno.

— Oh... confesso que não previ esse efeito colateral.

— Mas os benefícios superam os imprevistos. — A voz de Niklaus voltou a preencher o vazio arquitetônico. — Nós alcançamos o objetivo primordial. Com a morte da consciência do Destino, todos os videntes do planeta tornaram-se incapazes de prever o futuro. A precognição morreu. O mesmo se aplica às Crias do Destino. O universo está oficialmente cego.

A bruxa assentiu devagar, digerindo a escala da vitória.

— Um ponto extremamente positivo para os nossos próximos passos. Mas... — Irene voltou os olhos para o trono, sondando as sombras. — Apesar de uma notícia tão esmagadora e da morte de um Astreus... noto que o senhor não parece satisfeito.

Niklaus soltou um suspiro curto, afiado como uma navalha.

— O problema, Irene, é que outros imprevistos piscaram no radar enquanto vocês estavam fora. — Ele desviou o olhar para o mármore. — Katsuragi. Solte a Ceto e ponha-se de pé. Enviarei você e Love em outra missão imediatamente.

Ceto, que estava quase conseguindo puxar a cauda debaixo do peso-morto, congelou.

— O QUÊ?! O senhor vai enviar ELA até lá?!

— Só pode ser brincadeira! — Katsuragi impulsionou o corpo para cima, empurrando o chão e soltando Ceto. O rosto exibia pura irritação. — Eu acabei de voltar de um moedor de carne!

— Não se preocupe. — O tom de Niklaus era brando, mas não abria margem para debate. — É um serviço simples. Apenas agir como transporte para trazer alguém de volta para a base.

Katsuragi cruzou os braços maciços.

— E por que mandar logo a mim e ao Love para servir de táxi? Alguém com os portais da Irene não faria muito mais sentido e seria mil vezes mais rápido?

Niklaus apoiou o cotovelo no descanso do trono e entrelaçou os dedos.

— O plano inicial era despachar Kali. Mas ela já foi enviada em outra missão com Adam. O que nos coloca, neste exato momento, em uma péssima situação. Estamos severamente sem opções de logística.

O líder da Horizon, conhecido por manter a serenidade vítrea até no meio de carnificinas absolutas, exibia um incômodo real. Apoiando as mãos nos joelhos, Niklaus levantou-se lentamente do trono.

A alteração de postura foi tectônica. O ar no salão condensou-se. A gravidade da presença dele esmagou qualquer traço de conforto que ainda restasse ali dentro.

— Farei o anúncio do sucesso parcial da missão de vocês aos demais membros. E, aproveitando a ocasião, instaurarei uma nova diretriz imediata — declarou Niklaus, o timbre agora um alerta vermelho inquestionável. — A partir de hoje, está terminantemente proibido para qualquer membro da Horizon abaixo do Rank 2 colocar os pés em Siracusa.

O salão caiu em um silêncio absoluto e sepulcral.

O sangue fugiu do rosto de Katsuragi. As pupilas de Irene dilataram-se. As duas mulheres mais letais da organização trocaram um olhar de incredulidade crua e, em uníssono perfeito, quebraram a quietude:

— O quê...?!

Parte 14

O chiado corrosivo da chuva ácida fustigava o vidro encardido do apartamento. Do lado de fora, esmagado pela neblina de poluição e pelas luzes saturadas de neon, um letreiro holográfico colossal piscava em curto-circuito: CIDADE DE BAIXO.

O ar dentro do cômodo era espesso. Fedia a ferrugem, a óleo de motor queimado e ao ferro doce do sangue fresco.

Um pequeno robô circular de limpeza zumbia pelo piso de taco de madeira. O motor elétrico choramingava enquanto a escova giratória espalhava uma poça rubra e espessa, transformando a tentativa de faxina em uma pintura macabra. O apartamento era um matadouro. Dezenas de cadáveres jaziam amontoados pelos cantos. Eram híbridos — carne retalhada fundida a implantes cibernéticos baratos. Vestiam couro sujo e ostentavam máscaras cravejadas de pregos e zíperes, a estética brutal de uma seita de rua.

No centro do caos, usando a maior pilha de corpos como um pufe acolchoado, Trouble jantava.

— Na moral... — Ele sugou o macarrão de forma ruidosa, balançando os hashis de madeira no ar. — O lámen do Iazuhiro é maravilhoso. O troço é bom. Não sei como você não gosta disso.

No outro extremo do cômodo, a elegância do terno de Homura era um contraste quase ofensivo ao abate ao redor. A mulher arrancou um dardo de aço do gesso esburacado da parede.

— Você só fala isso porque nunca comeu um verdadeiro lámen de Sakura — Homura respondeu. Ela girou o dardo entre os dedos, o metal capturando um feixe de neon sujo. — Além do mais, Trouble... quando foi a última vez na sua vida que você botou alguma coisa na boca e não disse que estava gostosa?

Trouble paralisou o hashi no meio do caminho. Olhou para o teto úmido, pensativo, e voltou a mastigar.

— Sei lá. Agora que você falou, eu nem lembro.

Homura revirou os olhos. Sua atenção voltou para o centro do alvo.

Amarrado a uma cadeira de metal, o único cultista sobrevivente tremia. Ele vestia o mesmo couro dos colegas, mas a metade superior de sua máscara havia sido arrancada. O suor frio escorria pelas têmporas. O homem arfava, com o peito sacudindo em hiperventilação. Seus olhos estavam arregalados; as pálpebras, violentamente puxadas para trás e presas na testa e nas bochechas por tiras grossas de fita crepe. O ressecamento ardia em suas retinas, mas ele estava fisicamente impedido de piscar.

THWACK!

O braço de Homura chicoteou. A agulha de aço cravou-se na madeira a exatos três milímetros do globo ocular esquerdo do prisioneiro. Um guincho estrangulado rasgou a garganta do homem.

— Então, vamos logo com isso — disse Homura. O tom era o de quem discute a lista de compras do mercado. — Nós não temos todo o tempo do mundo. Responda a uma das perguntas e eu posso até prometer que você não acabará como os seus amigos ali no chão.

Do alto de sua montanha de mortos, Trouble virou a tigela, bebeu o caldo e murmurou de boca cheia:

— Que mentirosa...

— Repetirei as opções de múltipla escolha mais uma vez — Homura o ignorou, alinhando um segundo dardo.

Conforme a voz letal dela ecoava pelo apartamento, as engrenagens ocultas de Siracusa pareciam girar, ilustrando a podridão da metrópole em lampejos simultâneos pelo submundo.

— Primeiro: quem é o verdadeiro líder da Rosa-Cruz? Ele está escondido nos esgotos da Cidade de Baixo ou brincando na sádica Cidade de Cima?

As portas duplas abriram-se para uma mansão opulenta e decadente. Um templo blasfemo erguido no alto da cidade. Tapeçarias de demônios, cruzes invertidas de neon e cálices de ouro maciço repousavam sobre o mármore. Deslizando pelo salão principal, um homem de cabelos cacheados exibia o rosto oculto por uma pesada máscara de gás modificada. No canto escuro, sob o tremeluzir de velas, um autômato manchado de tinta finalizava a pintura macabra da figura mascarada.

— Segundo: qual é a exata conexão entre vocês e a nova droga nas ruas? É a Rosa-Cruz que distribui a Areia Escarlate?

Nos becos encharçados da metrópole, vultos encapuzados trocavam cápsulas. O pó dentro delas pulsava com uma luminescência escarlate e doentia. O efeito devastava os quarteirões ao sul: usuários e Gifteds entravam em combustão mágica. Com as veias do pescoço saltadas e brilhando em vermelho, a magia explodia de seus corpos sem travas, derretendo o asfalto, arremessando carros flutuantes e afogando os distritos esquecidos em um puro caos flamejante.

— Terceiro: quem invocou os Abissais para este mundo? E quem segura a coleira deles?

Em um corredor asséptico e blindado, o horror caminhava. Duas silhuetas transitavam com uma estética demoníaca de punk rock. Uma garota andava à frente; chifres curvos e negros brotavam-lhe da testa, e a cauda de demônio chicoteava o ar atrás dela. Ao seu lado, a abominação bípede: a estrutura óssea de um porco infernal fundida à forma humana. O monstro vestia couro repuxado, a pele espetada por ganchos e piercings pesados de ferro. Fios de aço rasgavam os cantos de sua boca, pregando-lhe no focinho um sorriso sanguinolento e sádico.

Na cadeira de metal, o cultista suava tanto que a cola da fita crepe começava a ceder nas bordas do maxilar. O ardor ocular era insuportável enquanto ele encarava a agulha fincada na madeira ao lado de seu nariz.

Homura soltou um suspiro lento. O estalo de seus sapatos quebrou a monotonia do robô de limpeza. Ela cruzou a sala e parou diante do prisioneiro, a poucos centímetros de distância.

— E, por último... só mais uma vez... a pergunta mais importante.

Ela deslizou a mão para o bolso interno do terno e sacou uma fotografia amassada. Colocou a imagem exatamente em frente à visão forçada e ressecada do homem. Uma mulher de olhar doce, um menino, uma garotinha menor; uma família banal e sorridente.

Toda a casualidade evaporou. O ar na sala pareceu congelar. Homura ergueu a mão direita, com o dardo preso entre o polegar e o indicador, e moveu-o milímetro a milímetro. A ponta gélida de aço parou, pairando exatamente sobre a pupila dilatada do prisioneiro, a um fio de cabelo de perfurar a esclera.

— Você já viu esta família? Ou estas crianças? — O sussurro de Homura era veneno puro. — Responda. Pense muito bem nas sílabas que vai escolher... ou eu garanto que a sua morte não terá nada de pacífica.

O prisioneiro engoliu em seco. O peito subia e descia em espasmos de terror. O pânico travou em sua garganta, um engasgo mudo e desesperado, enquanto a ponta da agulha tocava, microscópica, a umidade superficial do seu olho escancarado.

A quilômetros de distância do abatedouro, a superfície da metrópole fervia sob a chuva.

O guincho metálico dos freios magnéticos estilhaçou o barulho da tempestade. A composição parou nos trilhos suspensos, cuspindo jatos espessos de vapor pressurizado que se fundiram à neblina poluída. O chiado pneumático destrancou as portas.

— Atenção, passageiros — a voz feminina e perfeitamente artificial do sistema de som ressoou pela plataforma lotada. — Parada atual: Cidade Siracusa. Cidade Siracusa.

A maré de operários de cabeça baixa, androides utilitários e guardas fortemente armados abriu-se de forma quase instintiva. Pelo meio do corredor humano, com passos pesados e absolutos, um jovem desembarcou.

Chuya. O rapaz de pele morena e cabelos brancos esmagou a brasa de um cigarro na sola da bota.

— Ah... esse cheiro de fumaça e confusão... — murmurou, o ar denso enchendo os pulmões. — Sem dúvida, não mudou nada. Aqui eu nem preciso fumar. Já tem nicotina suficiente rasgando a garganta só no oxigênio.

Ao seu lado, um segundo garoto ajeitou as lapelas de um terno branco impecável. Luck. Os cabelos vermelhos dele eram um contraste violento contra a fuligem cinzenta da estação.

— Tá legal... eu não esperava mesmo que a sua casa fosse assim — o olhar de Luck varreu a sujeira do teto de vidro. — Mas que tal me dizer por que decidiu me trazer no lugar da sua fiel escudeira?

Chuya voltou a caminhar, com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco.

— Ouvi uns boatos péssimos sobre o lugar, então decidi trazer um reforço pesado. E sobre não trazer a Miguel... me dê alguns minutos aqui e você vai entender.

Luck não precisava de minutos. Bastava respirar fundo. A vibração daquele lugar cravava-se na alma. A opressão exalava do concreto. Era uma atmosfera suja, predatória e familiar demais, quase idêntica ao lixão onde ele mesmo havia crescido.

— Péssima nostalgia, devo dizer — Luck suspirou, abandonando as perguntas e acompanhando o colega para dentro do fluxo da metrópole.

Enquanto os dois desciam as escadas principais, no extremo oposto da plataforma, outra porta do mesmo trem se abria. Um outro colega de classe de Dante pisou em Siracusa, movido por engrenagens e propósitos completamente diferentes.

Kai tinha os olhos fundos. As olheiras roxas e pesadas contrastavam de forma doentia com o cabelo branco e as íris de um azul desconcertante. Sem pressa, o olhar dele dissecava o cenário, processando as pessoas não como transeuntes, mas como obstáculos.

Ele parou na beira do asfalto. Os reflexos dos letreiros de neon escarlates e azuis dançavam na superfície fria de seus olhos. Com um movimento mecânico, ajeitou a alça de couro sobre o ombro, centralizando nas costas um estojo longo, rígido e negro — uma arma disfarçada grosseiramente como uma capa de guarda-chuva.

Observando o fluxo incessante da engrenagem metropolitana, ele levou a mão ao bolso do casaco. Puxou uma pequena fotografia. As pupilas gélidas varreram o rosto impresso no papel amassado com uma precisão matemática.

Sem mudar a expressão, Kai dobrou a foto e a guardou no bolso interno. A língua estalou no céu da boca.

Tck.

O som seco e impaciente cortou o ruído da estação.

— Vamos logo com isso — murmurou para o próprio colarinho.

E deu o primeiro passo, sendo engolido pelas sombras e pela chuva ácida da cidade de Siracusa no Reino de Elysium.

FIM DO VOLUME 11

Dante retornará em...

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