The Fall of the Stars: Capítulo 2.5 - Frenesi
- AngelDark

- 29 de nov. de 2025
- 36 min de leitura
Atualizado: 8 de dez. de 2025
Volume 2: Enigma
Parte 8
Sala de Transmissão Central
O silêncio na Sala de Transmissão não era paz; era o silêncio de um cemitério recém-profanado.
O ar estava gelado, mantido artificialmente frio para os servidores quânticos que zumbiam nas paredes, mas nem o frio conseguia mascarar o cheiro ferroso e doce de sangue coagulado. O piso de metal escovado desaparecera, oculto sob um tapete grotesco de cadáveres. A antiga equipe de segurança e comunicação não foi apenas morta; foi empilhada com desdém artístico, servindo agora de estrado e poltronas improvisadas para as três figuras de cabelos brancos que governavam as sombras.
Diante de um mosaico de cem monitores cintilantes, Ceto balançava as pernas, seus calcanhares batendo ritmicamente no peito de um cadáver.
A garota, cujas vestes evocavam uma pirata, ostentava uma longa e predadora cauda de tubarão que chicoteava o ar atrás dela. Ela apontou para uma das telas com um pirulito vermelho, os olhos carmesim brilhando com malícia pura.
— Dá para acreditar? — A voz de Ceto cortou o zumbido estático. — Nós cortamos a luz e a comunicação, e o que eles fazem? Transformam o local em uma zona de guerra.
Ela riu. Não era uma risada inocente; era o som de uma criança queimando formigas com uma lupa. Os monitores exibiam a ópera da destruição: o corpo crucificado de Emília no porão; Luck e Chuya colidindo como meteoros; a nobreza correndo como ratos em um labirinto.
— Humanos são tão... engraçados. É como ver comida tentando fugir do prato.
De repente, o sorriso de Ceto travou. Em uma das telas secundárias, no corredor da Suíte Real, Aradia parou. A General Mecânica, que escoltava a família real, cessou seus movimentos. Lentamente, como se soubesse exatamente para onde olhar, Aradia virou o rosto para a câmera de segurança escondida no teto. Seus olhos não encontraram a lente; encontraram Ceto. Atravessaram o vidro, a fiação e quilômetros de aço para perfurar a garota na sala de controle.
Aradia sorriu. Um sorriso mínimo, mas que dizia: "Eu vejo você, peixinho." A câmera explodiu em estática.
Ceto recuou na cadeira, o pirulito caindo de sua boca. — Ei... — O tom dela perdeu a arrogância. — Vocês... vocês não acham que ela consegue nos enxergar aqui embaixo, né?
— Não faz a menor diferença se ela pode nos ver ou não.
A resposta veio da escuridão, onde Kali, uma figura de elegância letal, repousava. Com chifres negros, cabelos de prata líquida e olhos carmesim.
— Ela não consta no roteiro como obstáculo primário — disse Kali, fechando os olhos novamente, desinteressada. — Se ela vier, eu a corto. Até lá, ignore.
— Já localizou nossos alvos? — À direita, Lucia estava parada. Sua postura era rígida, lembrando uma nobre. — Estamos com o tempo contado. O caos lá em cima é útil, mas ineficiente se não capitalizarmos.
— Com quem acha que está falando, Sangue-Suga? — Ceto recuperou a postura, bufando. — Encontrei os alvos assim que entrei no servidor. Adam está próximo de um deles... mas aquele cachorro louco está brincando de brigar com um mafioso em vez de capturar o objetivo.
No monitor central, a batalha entre Adam e Lucian derretia o Cassino Royale.
— Contanto que ele se lembre de que não temos permissão para usar nosso poder real nesta missão — disse Lucia, ajustando a postura. — Ele pode continuar. O papel dele é ser o bobo da corte.
Kali murmurou: — Vocês encontraram suas presas... mas e quanto ao meu alvo?
Ceto sorriu, mostrando dentes serrilhados. — Relaxe, Chefe. Eu achei. E devo dizer... a Luminary Labs se superou.
Ceto digitou um comando e o mapa holográfico do Titanic surgiu no centro da sala. Ela deu zoom na estrutura entre o 6º e o 8º andar. — Olhem isso. A blindagem instalada aqui é insana. É liga de Obsidium com revestimento anti-magia. Nem as ondas de choque do massacre acima estão penetrando. É como se a superfície e o fundo fossem duas dimensões distintas, separadas por um abismo artificial.
— Não é coincidência — explicou Lucia, reconhecendo os padrões energéticos. — Isso não é arquitetura de cruzeiro. É tecnologia de contenção de Classe S. A Rosa Cruz...
— Exato — Ceto interrompeu, empolgada. — O cruzeiro é uma fachada. O preço do acordo com a Luminary foi transformar o Titanic em um transporte prisional de luxo para a Rosa Cruz. É ali, no "Sétimo Andar Inexistente", que o nosso passageiro está.
— Uma gaiola móvel inexpugnável para levá-lo à prisão de Selene Hold sem chamar atenção — Lucia concluiu. — Inteligente.
Assim que ouviu aquilo, Ceto se virou para Lucia. — Mas espera... como você reconheceu a tecnologia usada? Eu nem tinha aberto o arquivo antes e era tudo sigiloso... — Ela olhava com atenção para Lucia, que encarava os monitores sem nem piscar.
— Ceto... não devemos nos envolver com o passado de outros membros. Abstenha-se de perguntas sem necessidade — Kali falou com os olhos fechados.
— Qual é? Isso foi só uma pergunta inocente... Bom, o andar inteiro está isolado do resto do navio — disse Ceto. — Kali, você terá que usar as passagens de manutenção ocultas da equipe de segurança para chegar lá. Teleporte não funciona, nem os caminhos normais.
— Não me importo... — Kali levantou-se. O movimento foi suave, mas os cadáveres ao redor pareceram se encolher. — Contanto que eu tenha a localização, as paredes são irrelevantes.
— Ah, é verdade! — Ceto continuou, a voz assumindo um tom perigosamente casual, enquanto trocava a imagem de um monitor. — Falando em paredes sendo quebradas... A baixinha ali... é sua irmã, não é? A tal Beatrice?
No monitor, Beatrice trocava golpes devastadores com Hinata. Faíscas voavam. — Ela está lutando contra uma daquelas mafiosas malucas. Ela parece bem... animada, né? Será que ela aguenta?
A atmosfera na sala congelou. Os monitores piscaram. Kali virou o rosto lentamente para Ceto. Seus olhos não demonstravam raiva. Demonstravam algo muito pior: O Nada. Uma promessa de aniquilação tão absoluta que fez a cauda de Ceto parar de balançar e se esconder entre as pernas.
— Ceto... — A voz de Kali foi um sussurro que ecoou como um trovão na mente da garota tubarão. — Não vou repetir uma terceira vez. Não se intrometa no passado dos outros.
— C-calma! — Ceto recuou, levantando as mãos, suando frio. — Só estava... fazendo um relatório tático! Juro!
Lucia suspirou. — Esqueça isso, Ceto. Foque na missão. Kali, você tem o alvo. Mas o que faremos sobre a nossa presa principal, a garota Benedetta? De acordo com a Previsão de Kanade, não podemos capturá-la até que a fusão seja concluída.
— Falando nisso... — Ceto aproveitou a mudança de assunto para limpar o suor da testa. — Vocês não acharam estranho? Normalmente, os Roteiros da Kanade são absolutos. Mas desta vez, o Roteiro tinha ramificações... A habilidade de Kanade está falhando?
— Impossível. O Mestre Niklaus confia nela cegamente — decretou Kali, caminhando até a porta blindada. — Se existem variáveis no Roteiro, significa que há interferência externa.
Kali parou, a mão na maçaneta. — Algum manipulador do tempo ou da causalidade está a bordo. O futuro está nebuloso porque alguém está reescrevendo o presente. Por isso as ordens não podiam ser rígidas.
— Um viajante do tempo... — Ceto assobiou.
— A garota Benedetta parece estar inconsciente no monitor 4 — observou Lucia. — O processo de despertar deve ter iniciado. É melhor começarmos a nos mover.
— Tá, mas e o que faremos sobre o Dante Scarlune? — Ceto indagou. — O garoto está correndo feito uma barata tonta no meio do fogo cruzado.
— Você sabe muito bem o que fazer — disse Kali, abrindo a porta. O som dos alarmes externos invadiu a sala. — Siga o Roteiro.
Kali saiu, sua capa balançando, levando consigo a pressão esmagadora.
Ceto suspirou, deixando o corpo escorregar na cadeira de forma desleixada. — "Siga o Roteiro", "Não olhe pra minha irmã"... Que chatice.
Ela girou a cadeira, olhando para o chão. — Ahhh... e esse cheiro está ficando insuportável. — Ela cutucou um braço decepado com o pé. — Talvez eu devesse ter mandado os robôs limparem essa sujeira. Sangue frio mancha as botas.
Parte 9
Cassino Royale (Em Ruínas)
O som ambiente já não era música suave. Era uma cacofonia de gritos, o chiar de máquinas caça-níqueis em curto-circuito e o tatatatata incessante de metralhadoras automáticas que tentavam, inutilmente, derrubar monstros.
Adam e Lucian eram o epicentro do furacão.
Um segurança tentou flanquear Adam, mas antes que pudesse puxar o gatilho, Adam agarrou o rosto de Lucian e o usou como um escudo humano contra a rajada. As balas ricochetearam na pele metálica do mafioso como se fossem pedrinhas de plástico.
— Hah! Você é útil, grandalhão! — Adam riu, girando o corpo para enterrar o punho no estômago do adversário.
O impacto foi tão denso que as janelas panorâmicas do andar estilhaçaram apenas com a pressão do ar deslocado. Adam, entediado, virou o pescoço, ignorando a batalha por um milissegundo para encarar uma câmera de segurança que ainda piscava com uma luz vermelha. Seu sorriso se alargou, quebrando a quarta parede com um sadismo palpável.
"É melhor eu não exagerar aqui. Tenho certeza que a sardinha já hackeou a transmissão. Se eu levar isso longe, a Kali ou a Lucia vêm atrapalhar a brincadeira."
Ele voltou sua atenção para Lucian. O oponente, aproveitando a distração, firmou os pés no chão de mármore, rachando a estrutura. O Éter azul de Lucian explodiu como um gêiser, vaporizando o sangue em sua boca. Seus músculos incharam, rasgando o terno caro, e sua pele assumiu um tom cinza-chumbo metálico.
— Absorção Completa. — A voz de Lucian saiu distorcida, grave como o ranger de engrenagens enferrujadas. — Você bate forte, Lagartixa. Mas agora... todo esse dano é meu.
Adam parou, inclinando a cabeça com curiosidade genuína. — Oh? Conversão de dano? Um Gifted do tipo Retribuição. Que clássico.
— TUDO EM DOBRO! — rugiu Lucian.
A velocidade de Lucian não era natural para alguém daquele tamanho. Ele desapareceu, deixando apenas um rastro de fótons azuis.
BOOM!
O punho de Lucian conectou com o rosto de Adam. O impacto gerou uma onda de vácuo que derrubou todos os lustres de cristal do salão. Antes que Adam pudesse voar longe, Lucian agarrou seu tornozelo.
— PARA BAIXO!
Com um movimento brutal, Lucian usou Adam como uma marreta humana, esmagando-o contra o chão. O piso do andar cedeu instantaneamente. Eles caíram em queda livre, atravessando concreto e aço, pousando em meio a escombros, fiação elétrica exposta e corpos de mafiosos azarados no andar inferior.
Lucian não parou. Ele interceptou a queda no ar, agarrou a cabeça de Adam e correu. Ele arrastou o rosto do mercenário contra uma parede reforçada de concreto por trinta metros, transformando a parede em pó de cimento, ignorando os pilares de sustentação que ele atravessava como se fossem isopor.
Ao chegar no fim do corredor, Lucian parou. Ele energizou todo o dano acumulado na palma da mão direita e a pressionou contra o crânio de Adam.
— RETRIBUIÇÃO: IMPACTO ZERO!
Uma explosão de Éter azul engoliu o corredor. O calor e a força vaporizaram as portas dos quartos e jogaram as portas dos elevadores no fosso. Silêncio. Apenas o som de concreto caindo e fogo crepitando.
Lucian, ofegante, cuspiu um dente no chão. Ele ajeitou o que restava de sua camisa, virando as costas para a cratera fumegante. — E é aqui que o excesso de confiança leva seu merda.
— Hahahahaha...
Uma risada baixa, gutural, ecoou de dentro da fumaça. Lucian congelou. Um arrepio subiu por sua espinha metálica.
Do meio das chamas azuis e escombros, uma silhueta caminhava. Adam saiu do fogo. Suas roupas estavam chamuscadas, seus óculos escuros pendiam quebrados em uma única orelha. Ele os pegou, estalou a armação e os jogou fora. A única ferida visível era um corte superficial na testa. Um fio de sangue escorria, mas evaporava antes de chegar ao queixo devido ao calor absurdo que seu corpo agora emanava.
— Touro selvagem... — Os olhos de Adam mudaram. As pupilas tornaram-se fendas verticais, reptilianas. O ar ao redor dele começou a tremular, distorcido por uma temperatura de fornalha. — Isso foi divertido. Quase senti algo.
Lucian, em pânico, preparou mais um ataque, mas a aura de Adam mudou.
— Agora é minha vez.
Adam desapareceu. Não houve som de movimento, apenas o deslocamento de ar causado pela expansão térmica. Ele reapareceu colado ao peito de Lucian. O punho direito de Adam estava envolto em chamas laranjas e uma aura densa.
— Estilo Próprio: Incineração.
Ele não apenas socou; ele atravessou. O punho conectou com o peito de Lucian. Não houve resistência. A energia de "Retribuição" tentou repelir, mas o calor de Adam era absoluto. Um feixe de chamas concentradas perfurou o peito de Lucian, saindo pelas costas e transformando tudo atrás dele — paredes, móveis, encanamento — em lava derretida e cinzas, abrindo um túnel fumegante por mais três salas.
O sistema de incêndio, detectando o calor infernal, disparou. Click. Whirrr.
Água começou a chover dos sprinklers do teto. Adam aterrissou levemente, de costas para o oponente. A água que tocava seu braço direito sibilava e evaporava instantaneamente em vapor branco, criando uma névoa densa ao seu redor.
Atrás dele, Lucian balançou. O buraco em seu peito estava cauterizado instantaneamente, impedindo o sangramento, mas o coração já não existia. O corpo maciço caiu para frente com um baque surdo e molhado.
A expressão selvagem de Adam desapareceu, substituída por um tédio absoluto. Ele caminhou até o cadáver, tocou a nuca com a ponta da bota, confirmando a morte, e suspirou, deixando as chamas de seu braço se dissiparem.
Ele olhou para cima, deixando a água fria do sprinkler lavar o sangue de sua testa. — Droga... mais um que não pode me matar — murmurou ele, passando a mão no cabelo molhado.
O silêncio no andar era quebrado apenas pelo chiar da água evaporando na pele ainda quente de Adam e pelo ding suave do elevador de serviço chegando.
Adam, entediado, esperava as portas de metal escovado se abrirem. Ele precisava subir de volta para o cassino. Assim que as portas deslizaram, revelando três figuras, ele sentiu uma pontada de reconhecimento.
Uma garota albina, pálida como a lua, estava na frente, com as mãos nos bolsos do shorts. Atrás dela, uma mulher de óculos focada em um tablet e um garoto de cabelos espetados com um sorriso nervoso.
A garota albina deu um passo à frente, bloqueando a entrada. Seus olhos vermelhos analisaram Adam como se ele fosse um espécime de laboratório.
— ...Eu te conheço? — Adam começou, inclinando a cabeça.
A resposta não foi verbal. Não houve aviso. Não houve tensão muscular visível. Em um milissegundo, Adam viu o teto do andar. No milissegundo seguinte, ele sentiu sua mandíbula quase descolar do crânio.
O chute de Levy foi um uppercut vertical perfeito. Tanta força cinética concentrada que Adam não apenas voou; ele foi lançado como um míssil terra-ar.
CRASH! CRASH! CRASH!
O corpo de Adam perfurou o teto de concreto armado, depois o chão do andar de cima, e mais um, deixando um túnel perfeitamente redondo de destruição para trás.
No lado de baixo, a porta do elevador começou a se fechar. — Vocês vão por aí — disse Levy, com uma voz monótona. — Eu pego o elevador expresso.
Ela não usou o elevador mecânico. Ela flexionou os joelhos e saltou pelo buraco que o corpo de Adam havia acabado de criar, subindo três andares em um único impulso silencioso.
Três Andares Acima — Salão de Banquetes Destruído
Adam aterrissou de costas sobre uma mesa de blackjack, partindo-a ao meio. Poeira e escombros choviam ao seu redor. — Esses idiotas amam ficar me movendo de lugar... — ele resmungou, limpando um filete de sangue do canto da boca.
Ele olhou para o buraco no chão e viu o vulto branco subindo. Adam sorriu, levantando-se e sacudindo a poeira do terno arruinado. Quando Levy pousou suavemente à sua frente, sem fazer som, ele finalmente conectou os pontos.
— Ah! Eu lembrei de você! — Adam apontou o dedo. — A "Caçadora Branca". Você foi a garota que lutou contra aquele Avatar na Noite da Lua Escarlate.
Levy manteve a expressão vazia. As mãos permaneceram nos bolsos do shorts. — Como você sabe disso?
— Quem sabe… — Adam estalou o pescoço, suas pupilas ficando verticais novamente. — Já te aviso… Se quiser me derrubar, vai ter que fazer bem mais do que me lançar no ar.
Levy piscou. Quando abriu os olhos, ela não estava mais lá.
Tack! Um chute lateral conectou com a têmpora direita de Adam. Sua cabeça estalou para o lado.
Tack! Antes que seu cérebro registrasse o primeiro golpe, o calcanhar de Levy desceu sobre sua clavícula, dobrando seus joelhos.
Tack-Tack-Tack! Levy era um borrão branco. Ela não tirava as mãos dos bolsos. Seus chutes eram uma tempestade de golpes precisos, rápidos e secos. Ela girava no ar, acertando a nuca de Adam, usava o impulso para chutar seu queixo de baixo para cima, e então descia com os dois calcanhares no peito dele.
Adam tentou agarrar uma perna, mas ela recolhia o membro mais rápido do que uma serpente. Ele tentou socar, mas ela simplesmente fluía ao redor do golpe como água e chutava suas costelas expostas.
"Do que é feito o corpo dele?" — Levy pensava, friamente, enquanto continuava a barragem.
Adam cambaleou para trás e sorriu. "Como sempre, os Scarlune são divertidos..." — Adam pensou, deliciado. — "Ela já percebeu que a força física bruta é inútil contra minhas escamas. Então ela está usando vibração. Ela está tentando fazer meu cérebro balançar dentro do crânio para me apagar."
— Sua pirralha insolente! Desse jeito você vai acabar me deixando animado! — Adam rugiu.
Ele expandiu seu Éter. Uma aura laranja explodiu dele, comportando-se como uma fogueira selvagem, incinerando o carpete e as mesas ao redor.
Levy saltou para trás com agilidade felina, pousando fora do alcance das chamas, no topo de um lustre caído. "Ele está escondendo sua Habilidade Real..." — Levy analisou. — "Isso é apenas força bruta e aura."
Adam sorriu, um sorriso maníaco. Ele assumiu uma pose de luta tradicional, algo raro para ele. — Há quanto tempo será que não uso essa bobagem de Taikou?
Levy inclinou a cabeça ligeiramente. — ...Quem perguntou?
Ela cruzou a distância entre eles em um piscar de olhos, mergulhando através das chamas residuais de Adam como se o fogo não pudesse queimá-la. Em vez de chutar e recuar, ela fez algo inesperado: tirou uma mão do bolso e agarrou o braço direito de Adam. Suas unhas cravaram na pele dura dele.
— Se eu chutar forte e você voar longe, eu teria que correr atrás de você de novo. Isso é cansativo — Levy disse, sua voz calma contrastando com a violência iminente. — Preciso que você fique parado.
A perna direita de Levy se acendeu. Não era o fogo laranja e caótico de Adam. Era um Éter Carmesim, denso, concentrado e zumbindo com um som agudo de poder destrutivo.
— Impacto Perfurante.
Ela ancorou o corpo de Adam puxando o braço dele em sua direção, enquanto simultaneamente afundava o pé banhado em chamas carmesim no estômago dele.
BOOOOM!
O som não foi de um impacto, mas de uma explosão contida. A força do chute não tinha para onde ir, pois ela o segurava. Toda a energia cinética e térmica foi descarregada diretamente nos órgãos internos de Adam.
Adam tossiu sangue, mas sorriu. Aproveitando o aperto firme dela, ele devolveu. — Estilo Próprio: Incineração.
Antes que ela pudesse soltar, ele a puxou e desferiu um soco envolto em plasma no estômago dela. Levy foi rápida. Ela usou a própria perna que chutou para bloquear, mas a força a jogou para o outro lado da sala.
Ela derrapou, parando de pé. A área do estômago em sua roupa estava vaporizada, e a pele alva por baixo tinha uma queimadura vermelha feia. — Impressionante — disse Adam, massageando o próprio estômago, onde a marca do sapato dela fumegava. — O último cara que recebeu esse ataque ganhou um buraco no peito. Você é durona, Caçadora Branca.
Levy olhou para a queimadura, inexpressiva. — Isso está ficando problemático... — murmurou ela. O calor emanando de Adam estava começando a distorcer o ar no salão inteiro.
Ela saltou para trás, criando distância. No meio do ar, com uma calma surreal, ela tirou um pirulito vermelho do bolso, desembrulhou e colocou na boca. — Você fala demais enquanto luta.
Desta vez, a quantidade de Éter em sua perna dobrou. O vermelho carmesim tornou-se quase preto no centro.
— Cannon Strike.
Ela acelerou. Desta vez, ela não visou o impacto. As chamas carmesim saíram da perna de Levy, condensando-se na sola de seu pé em uma pequena esfera de fogo ultra-comprimido. Assim que ela tocou o corpo de Adam, a esfera não explodiu para fora; ela implodiu para dentro.
Adam sentiu o calor viajar através de suas escamas, direto para o fígado. Ele grunhiu de dor real, mas sua resposta foi instintiva. Ele girou o corpo e lançou um soco devastador. Levy não desviou. Ela chutou para cima, encontrando o punho de Adam com o calcanhar.
CRACK!
A colisão de Éter Laranja e Carmesim criou uma onda de choque esférica que estilhaçou todas as janelas restantes do andar e rachou os pilares de sustentação.
Adam foi jogado para trás, dando um mortal para recuperar o equilíbrio. Ele avançou novamente, rindo, tentando um soco de direita. Levy usou a palma da mão esquerda para bater no pulso dele, desviando o curso do soco milimetricamente. O punho de Adam passou raspando a orelha dela, vaporizando uma mecha de cabelo branco.
— O que foi? — Adam sorriu, vendo a perna de Levy coberta de queimaduras leves. — Não vai tentar parar meu soco com seu chute de novo?
Aproveitando a abertura, Levy girou no ar e acertou um chute circular no topo da cabeça de Adam, fazendo-o comer o chão de concreto.
Adam levantou a cabeça do chão, rindo como um demônio, e tentou um uppercut desesperado enquanto ainda estava deitado. Levy previu. Ela pisou com força no cotovelo dele, anulando a alavanca. O punho de Adam, desviado, disparou uma coluna de fogo para cima.
ZZZRRRTT!
O fogo não atingiu o teto. Ele colidiu com uma barreira translúcida de Éter azul-celeste que apareceu do nada, absorvendo o calor e ondulando como água.
Adam parou. Ele olhou ao redor. Eles não estavam mais apenas no cassino. O andar inteiro estava cercado por um cubo perfeito de energia azul.
— Esse poder... é seu? — Adam perguntou, confuso, tentando se levantar. — Não.
Adam olhou através da barreira e das paredes destruídas, do lado de fora do cassino. A mulher de óculos e o garoto de cabelos espetados estavam observando o interior. A mulher, Yuri, segurava sua prancheta com uma mão e mantinha a outra estendida na direção do cassino, uma aura azul serena emanando dela.
— Hah... — Adam limpou o sangue do nariz. — Isso é para impedir que eu cause mais destruição... ou estão tentando me impedir de sair daqui?
— Quem sabe... — Levy respondeu, mordendo o pirulito.
No lado de fora
Yuri ajeitou os óculos com a mão livre, suor escorrendo pela testa. — Pelos dados do Banco de Caçadores, esse é um dos membros da Horizon. — Yuri falou, a voz tensa. — A resistência dele é absurda. A Capitã Levy já usou três Arts e ele ainda está rindo.
Kaiser, o garoto de cabelos espetados, estava deitado esperando, balançando as pernas. — Tá, mas a Capitã tá só brincando com ele por enquanto, né? O que me preocupa é a gente estar preso aqui dando suporte enquanto o mundo acaba.
Yuri franziu a testa. — Errado, Kaiser. A Capitã está lutando a sério faz três minutos.
Kaiser congelou. — O quê? Está dizendo que ele é mais forte que a Capitã?! Se for assim, estamos condenados!
— Se concentre e assista. — Yuri nem piscava, concentrando todo seu Éter na barreira. — Apenas poder puro não dita o vencedor, Kaiser. Como você é um novato, observe.
De repente, o ar ficou pesado. Muito pesado. Uma nova e massiva assinatura de Éter eclodiu nas profundezas do navio, fazendo a barreira de Yuri vibrar violentamente.
Os dois olharam na direção da nova fonte de poder. — Yuri... — Kaiser se levantou. — O que foi isso agora?
Yuri olhava para os dados em sua prancheta, que mostravam números vermelhos piscando. — Eu não sei. Mas seja o que for... não poderemos ajudar.
Parte 10 Área de Segurança Máxima (7º Andar - O Vazio Blindado)
O corredor de acesso ao Cofre de Obsidium não estava apenas silencioso; ele estava morto. As luzes de emergência giravam em um vermelho claustrofóbico, banhando o aço escovado em tons de sangue coagulado.
Não havia sinais de arrombamento na porta blindada de vinte toneladas. Ela simplesmente deixou de ser uma barreira. Uma explosão de Destruição Vetorial inverteu a força da blindagem contra si mesma, implodindo o metal para dentro da sala como se fosse papel alumínio amassado por um gigante invisível.
Em meio à fumaça densa e ao cheiro de ozônio queimado, Kali entrou. Ela não caminhava como uma guerreira em frenesi, mas como alguém arrastando o peso de milênios de tédio. Sua pele pálida sob as luzes vermelhas parecia mármore doente; as olheiras profundas contrastavam com o brilho frio, analítico e carmesim de seus olhos.
Ela chutou o capacete de um guarda morto, o som metálico ecoando no vazio. — ...Você é a segurança? — A voz de Kali era seca.
No centro da sala, sentada em uma cadeira de espaldar alto diante do cofre, estava uma mulher de armadura prateada polida. — Entre todos os ratos que eu esperava ver hoje, a última que imaginei foi a Princesa da Ruína — disse Mordred, sem se levantar. Seu tom era de uma arrogância régia.
— Você está no caminho — Kali respondeu, a mão pairando sobre a katana na cintura.
— Mesmo que a Távola Redonda tenha um histórico complicado contra você, não posso me dar ao luxo de ceder. — Mordred começou a se levantar. O movimento foi lento, deliberado.
O ar ao redor da cavaleira começou a vibrar, distorcido por uma pressão psíquica esmagadora. Ao seu redor, nove espadas cobertas por um Éter branco orbitavam como satélites; elas não apenas flutuavam, mas giravam em eixos complexos, cortando o vento com um silvo baixo e ameaçador, prontas para atacar por vontade própria.
Atrás, a ameaça era fria e tecnológica. Trinta Guardas de Elite da Luminary Labs ergueram rifles de plasma pesado. Trinta miras laser convergiram nas costas de Kali, pintando sua armadura com uma constelação de morte iminente.
Kali não se virou. Apenas inclinou a cabeça, sentindo a presença dos insetos atrás dela. — Esse enfeite atrás de você não vai te salvar... — Kali murmurou.
— Estou louca para ver como esse cadáver ambulante, que parece ter esquecido de ser enterrado, derrotou um Cavaleiro da Távola anos atrás — Mordred firmou os pés no chão, rachando o concreto. Seus olhos brilhavam com sede de sangue.
Os olhos de Kali permaneceram semicerrados. — Farei um último favor a alguém que vai morrer. Eu te mostrarei.
O silêncio do pátio foi quebrado. O som agudo de trinta capacitores de plasma carregando ao máximo preencheu o ar.
Kali suspirou. Um som de puro aborrecimento. — Barulhentos.
BANG.
O tempo dilatou. Antes que o primeiro dedo apertasse o gatilho, a física do momento quebrou. Kali moveu-se. Ela deixou a katana embainhada e cravou a bainha no chão num movimento de descarte desafiador, liberando as mãos.
Não foi uma corrida. Foi propulsão. O chão sob seus pés estalou. Kali saltou para trás, girando no ar de cabeça para baixo, mergulhando no centro do círculo de fogo inimigo. O mundo inverteu. Enquanto pairava no ápice do salto, desafiando a gravidade, suas mãos tornaram-se borrões. Do coldre nas costas, ela sacou duas pistolas gêmeas automáticas, modificadas.
O caos eclodiu. O clarão do cano das armas iluminou o ambiente como um estroboscópio frenético. Seus braços se cruzavam em ângulos impossíveis, disparando com precisão cirúrgica enquanto girava no ar.
Blam-Blam-Blam-Blam.
Era um réquiem de pólvora. Cada disparo coincidia com o colapso de um guarda. As balas, imbuídas de Éter perfurante, encontravam as falhas nas juntas das armaduras antes que eles pudessem disparar o plasma. Era uma dança de morte.
Ela aterrissou suavemente no chão, de costas para os corpos que caíam em uníssono.
ZWISH!
O contra-ataque de Mordred foi instantâneo. Uma das espadas orbitais voou, passando a milímetros do rosto de Kali, cortando alguns fios de seu cabelo prateado. Kali nem piscou. Ela deslizou para o lado, como se fosse feita de fumaça, desviando da morte com a elegância de quem desvia de uma gota de chuva.
Na Sala de Transmissão: — Uau! Um Cavaleiro da Távola? Esquece o Adam, isso aqui sim vai ser divertido. Aposto meu pirulito que a Mordred dura dois minutos — Ceto gritou, girando na cadeira com os olhos brilhando.
No monitor, Kali abriu os olhos completamente. A calma em sua expressão era desconcertante. Com um movimento mecânico, ela girou as pistolas nos dedos e as guardou. O som do couro estalando foi abafado pelo ruído do combate. Sem perder o impulso, suas mãos foram para as costas e retiraram uma Besta de Repetição Tática, uma arma de metal fosco e design brutal.
O mecanismo de disparo cantou. Click-thwip-thwip-thwip.
Três virotes de tungstênio cortaram o ar, deixando rastros de vapor. Para surpresa de Mordred, eles não visavam ela, mas o teto acima. Os virotes cravaram-se profundamente no concreto reforçado.
Kali caminhou lentamente na direção de Mordred, ignorando os guardas restantes. — Florescimento da Flor Cadáver.
O teto onde os virotes bateram "floresceu". A matéria distorceu. O concreto sólido transformou-se em estalactites de aço orgânico, afiadas como agulhas, que se desprenderam da estrutura. SHH-CHUNK. A chuva de metal desabou sobre a linha de frente dos reforços, empalando cinco homens instantaneamente. O som de metal perfurando carne ecoou pelo pátio.
Mordred sentiu a fúria ferver. — Dá pra pelo menos fingir que está prestando atenção em mim?! — Mordred rugiu, avançando como um trem de carga, a pressão de sua aura rachando o piso a cada passo.
A distância foi fechada em um instante. A lâmina principal de Mordred tornou-se um borrão prateado. Ela lançou uma tempestade de aço, buscando decapitar, perfurar e desmembrar.
Kali dançava na lâmina da navalha. Ela não bloqueava; ela fluía. Movia o pescoço milímetros para a esquerda, girava o tronco para a direita. A ponta da espada de Mordred passava tão perto que o deslocamento de ar queimava a pele pálida de Kali.
— Formação de supressão! Atirem agora! — gritou o sargento dos guardas restantes, tentando criar uma parede de fogo.
Kali percebeu. Com uma fluidez sobrenatural, ela deslizou para trás, suas botas guinchando no chão polido. Ela guardou a besta nas costas num movimento que parecia mágica.
Um sorriso frio curvou seus lábios pálidos. — Desse jeito vai ser mais rápido.
Ela ergueu a mão esquerda. Um dos anéis em seu dedo brilhou com uma luminescência carmesim pulsante. O metal líquido se expandiu, engrenagens microscópicas estalaram e canos grossos se materializaram do nada. Em sua mão, o anel transformou-se em uma Escopeta de Dispersão de cano serrado, uma arma brutal feita para carnificina.
Sem perder o impulso, Kali saltou diretamente contra a formação inimiga. — Droga! Saiam daí! — Mordred gritou, tarde demais.
BOOM. Clack-clack. BOOM.
O som foi ensurdecedor. O primeiro tiro disparou chumbo e fragmentos de metal imbuídos com Éter vermelho e negro. Assim que os fragmentos tocaram os inimigos, eles não apenas perfuraram; eles explodiram. E os destroços da explosão também explodiram.
— Sinfonia da Euforia — Kali murmurou, avançando através da fumaça rubra como um espectro.
Era uma reação em cadeia geométrica. O ar se encheu de estilhaços brilhantes, cada partícula agindo como uma granada viral. Escudos de energia estilhaçaram como vidro. Armaduras derreteram. Carne vaporizou.
Mordred assistia, impotente. "Eu não faço ideia de como a Habilidade dela funciona... É destruição pura." — Mordred mordeu o lábio, sentindo o gosto de sangue, e saltou na direção de Kali com sua espada erguida para um golpe de partir montanhas.
O choque foi iminente. Kali bloqueou a espada sagrada com o cano da escopeta. O metal rangeu, faíscas voando entre os rostos das duas. Aproveitando a alavanca, Kali lançou um chute frontal no peito de Mordred com a força de um pistão hidráulico, jogando a cavaleira para trás.
Kali virou a arma para Mordred e apertou o gatilho. Click. Seco. Sem munição.
Kali não recarregou. Ela levantou a escopeta vazia para o céu. — Reconstrução Escarlate.
O campo de batalha obedeceu. O Éter vermelho de tudo que ela havia destruído — destroços, armaduras, sangue — começou a brilhar. Rios de energia cor de sangue voaram na direção de sua arma, sendo sugados pelo cano. A escopeta bebia a destruição para se alimentar.
— Merda! — Mordred balançou sua espada. A lâmina brilhou como um sol nascente. — Incineração Rubra!
Ela disparou um corte de plasma em forma de meia-lua, uma onda de calor massiva que voou na direção de Kali, enquanto os soldados, percebendo que estavam na linha de fogo cruzado de dois monstros, começavam a correr desesperados.
— Senhorita Mordred, o que está fazendo!? — um soldado em pânico gritava, vendo a onda de fogo vindo em sua direção.
Kali não recuou. Com a arma agora brilhando intensamente, sobrecarregada pela energia absorvida, ela completou o movimento, finalmente descendo sua arma para baixo. Kali falava: — Sinfonia da Euforia.
O mundo ficou branco e vermelho. Novamente a arma disparava uma rajada rubra, mas agora com muito mais fragmentos de chumbo. O encontro do plasma de Mordred com o disparo de Kali resultou em uma singularidade de violência.
O chão cedeu. As paredes racharam. A onda de explosões varreu os guardas restantes, vaporizando-os ou transformando-os em combustível para a reação em cadeia, até que não restasse nada além de poeira e silêncio.
A fumaça densa e quente pairava sobre o pátio destruído, deixando apenas Mordred e Kali se encarando no centro da cratera fumegante.
O silêncio era pesado. Mordred sentiu um arrepio. Não era frio; era sua alma reconhecendo um predador superior. Aquela coisa à sua frente não tinha medo. Tinha apenas tédio.
A cavaleira rugiu, tentando afastar o terror. — REBELIÃO DAS MIL LÂMINAS!
Mordred cravou a espada no chão. O solo respondeu. Um caminho feito inteiramente de espadas de aço brotou da terra como dentes de tubarão, avançando contra Kali. Simultaneamente, as espadas orbitais atacaram em pinça, cercando-a por todos os ângulos.
Sem rota de fuga. Xeque-mate.
No epicentro da tempestade de aço, Kali fechou os olhos. O coração do mundo falhou uma batida.
Ela liberou sua Aura. Não foi uma explosão; foi uma erupção solar negra. Um sol de gravidade e ruína apareceu ao redor dela. As espadas de Mordred foram desintegradas pela pressão antes de tocarem nela. O metal derreteu e evaporou.
No meio da luz profana, a silhueta de Kali mudou. O Éter condensou-se em suas costas, formando Asas de Dragão Negras, vastas e aterrorizantes, feitas de pura aniquilação. Uma coroa de espinhos flutuava sobre sua cabeça.
O mundo ficou em câmera lenta. Kali desapareceu. Ela reapareceu ao lado de sua katana, aquela que ela havia deixado cravada no chão no início da luta. Ela a arrancou do concreto com uma suavidade perturbadora.
— Infelizmente, não posso exagerar aqui — disse Kali, a voz calma.
Ela começou a caminhar na direção de Mordred. Mordred tentou puxar suas espadas, seus nervos gritando.
Kali passou por Mordred. Ela não correu. Ela caminhou. Enquanto passava ao lado da cavaleira, ouviu-se apenas o som suave de metal deslizando para a bainha.
Click.
Kali embainhou a katana. — Vamos encerrar isso por aqui.
A realidade alcançou o movimento. O espaço entre elas não havia sido percorrido; havia sido deletado.
Mordred ficou parada. Houve um momento de suspensão. O corte fora tão limpo, tão absoluto, que as células demoraram a perceber que haviam sido separadas. Ela tentou se virar. — O... quê...?
A gravidade venceu. Uma linha fina de sangue apareceu em sua cintura. O corpo de Mordred se dividiu. O torso deslizou para a esquerda e as pernas cederam para a direita. As entranhas derramaram-se sobre o caminho de espadas que ela mesma criara.
O silêncio voltou, agora absoluto. Kali olhava para o cofre à sua frente, ignorando o cadáver atrás de si como se fosse lixo na calçada. As asas negras se dissiparam em fumaça.
— Agora... vamos terminar com isso de uma vez.
Parte 11
Naquela sala, a luz não existia. Uma escuridão densa, oleosa e viva preenchia cada átomo, roubando o fôlego e a orientação espacial. No vácuo sensorial, restou apenas um som. Não era um ruído externo, mas uma vibração que sacudia os ossos de Sofia de dentro para fora.
Tum-tum... Tum-tum...
Um tambor de guerra? Não. Era o compasso de uma vida se esvaindo. O ritmo, antes forte e protetor, agora falhava. Tornava-se espaçado. Fraco. Irregular.
Tum... ... tum...
Era o som de um coração parando.
Ao abrir os olhos, a realidade voltou em flashes estroboscópicos de dor. Sofia percebeu que não tocava o chão frio; estava suspensa, aninhada no calor de um abraço desesperado. Mas a força que a sustentava evaporou num instante. O corpo que servira de escudo humano cedeu. O peso morto desabou contra o chão com um baque surdo e úmido que soou como o fim do mundo no silêncio da garota.
Um par de óculos deslizou pelo chão, riscando o metal com um som agudo, parando apenas ao bater em uma poça de sangue que se expandia rápido demais.
— Pai...?
Sofia, com os cabelos verdes colados na testa por uma mistura grotesca de suor frio e sangue alheio, virou-se. O homem de terno, lutando contra a névoa final da morte, moveu os lábios pálidos.
— Sinto muito... Sofia... — A voz de Danael era um gorgolejar fraco, bolhas de sangue estourando nos lábios. — Parece que... cheguei tarde... de novo...
O mundo de Sofia girou. Suas mãos trêmulas tocaram a camisa social dele, agora ensopada e morna. O pânico subiu por sua garganta como ácido. — Não... não... não de novo! Pai! PAI!
Ela agarrou os ombros dele, sacudindo-o, tentando desesperadamente reacender a chama naqueles olhos analíticos que agora perdiam o foco. Ela queria puxá-lo de volta do abismo. Mas, ao tentar levantá-lo, o peso estava errado. Leve demais.
Quando seus olhos desceram para o torso dele, o grito morreu na garganta, sufocado pelo horror puro. Não havia pernas. Não havia quadris. Da cintura para baixo, Danael não existia mais. Não havia ossos quebrados ou vísceras expostas; a matéria havia sido simplesmente anulada, apagada da existência, deixando um corte liso e terrível onde a realidade terminava e o Nada começava.
— Tolo idiota...
A voz reverberou não apenas pelo ar, mas dentro dos crânios deles, carregada de um escárnio metálico e desumano. — Sacrificar-se assim... que gesto vazio. Eu vou matá-la de qualquer maneira.
Do fundo da sala. A Entidade emergiu. Não era um homem nem mulher, assim como também parecia ser ambos ao mesmo tempo. Era um erro na criação. Metade do corpo era feminina, pálida e perfeita, mas a outra metade que parecia masculina era um pesadelo feito de sombras olhos e padrões dourados que pulsavam, girando em ângulos não-euclidianos que feriam os olhos apenas de olhar. Cubos e polígonos orbitavam a criatura como satélites de um deus profano, e tentáculos de sombra brotavam do chão, conectando-a às entranhas do navio.
— Agora, Sofia... — A coisa sorriu — O que vai fazer? Por que não me diz? Como sabia que era eu?
Sofia ergueu o rosto. As lágrimas cavavam trilhas limpas em suas bochechas sujas de fuligem, mas seus olhos, antes aterrorizados, agora ardiam com um ódio antigo, nuclear. — Eu nunca vou deixar vocês vencerem! — A voz dela quebrou, mas a promessa se manteve firme como aço. — Eu prometo! Não importa quanto demore, quantas vidas leve... eu vou apagar você da história!
A criatura inclinou a cabeça, entediada. — Essa é a sua resposta? Patético.
Um estalo de dedos ecoou como um tiro de canhão. — Então morra.
O ar gritou. Um enorme cubo dourado materializou-se acima de Sofia, distorcendo a gravidade ao redor, e disparou como um meteoro na direção da garota. Sofia não tinha forças para se mover. Ela apenas fechou os olhos, sentindo o vento da aniquilação.
CABUM!
O impacto não veio. Em vez disso, uma onda de choque varreu o convés, lançando Sofia para trás. Um vulto Vermelho Carmesim havia cruzado o espaço numa velocidade supersônica. Com um chute devastador, carregado de energia cinética pura e desespero, a figura desviou o projétil geométrico, lançando-o contra a parede oposta, onde explodiu em uma chuva de luz e dados corrompidos.
O homem pousou pesadamente. A respiração dele era um chiado doloroso, como foles furados.
Dante Scarlune. Ele era uma ruína fumegante. Um de seus olhos estava selado, inchado e vertendo sangue ininterruptamente. O braço esquerdo pendia inerte ao lado do corpo, a manga do casaco rasgada revelando carne dilacerada e osso exposto, queimaduras elétricas subindo pelo pescoço. Mas sua aura... sua aura queimava como uma fornalha estelar prestes a entrar em colapso, recusando-se a apagar.
— Seu monstro maldito... — Dante rosnou, o único olho aberto fixo no inimigo, a pupila tremendo de loucura assassina. — Pare de fugir e me enfrente!
O monstro tocou o queixo, numa teatralidade insultante. — Fugir? Eu? Ah, Dante... Eu fui misericordioso. Poupei você em respeito ao sacrifício patético do seu amigo apostador.
A menção ao amigo morto foi o gatilho. O Éter de Dante explodiu, uma coluna de poder vermelho que fez o navio inteiro gemer e as luzes estourarem. — SEU DESGRAÇADO!
Dante projetou-se para a frente, pronto para a morte certa, mas uma mão firme, embora trêmula e coberta de sangue, segurou seu ombro bom, freando o impulso suicida.
— Não seja idiota, Dante! — A voz de Drake falhou.
O Pirata estava apoiado em uma viga retorcida, usando sua espada como muleta. Seu casaco de couro estava em farrapos, e ele tinha um corte profundo no abdômen que ele pressionava com uma mão. — Se você atacar com ódio cego, ele vai usar sua força contra você e te deletar.
Dante tremeu, os dentes trincados a ponto de quebrar, lutando contra o instinto primordial de matar, mas cedeu ao toque do amigo. Drake, então, olhou para o lado. Seus olhos encontraram o que restava de Danael. A pouca cor que restava em seu rosto fugiu.
— Espera... O Chefe da Segurança...?
— Ah, sim. — O monstro respondeu casualmente, como quem comenta sobre o clima, limpando uma partícula de poeira imaginária do ombro geométrico. — Eu silenciei o Danael antes de vocês chegarem. O plano era apagar a garota primeiro, mas ele se jogou na frente. Que desperdício de um bom intelecto.
Ao ouvir a confirmação cruel, o último pilar de resistência de Sofia desmoronou. O choro rompeu a barreira do choque, um lamento agudo e doloroso que cortou o ar viciado, fazendo até o Éter de Dante oscilar.
Drake mancou até ficar ombro a ombro com Dante. Ele cuspiu uma mistura grossa de saliva e sangue no chão e sorriu. Era um sorriso quebrado, selvagem, o sorriso de um homem que já aceitou o fim, mas decide como vai cair. — Quer saber, Dante? Eu também já cansei de planos. Não me importa se ele tem o poder de um Deus ou do Diabo. Já passou da hora de encerrar isso.
Dante, sem desviar o olhar do monstro, falou baixo. A voz dele não era mais um grito, mas algo sólido, pesado como chumbo derretido. — Sofia.
A garota levantou o rosto banhado em lágrimas e sangue. — Eu não vou dizer para você parar de chorar. Nem vou mentir dizendo que vai ficar tudo bem. — O único olho de Dante focou nela por um milésimo de segundo. — Mas acredite nisso: enquanto você continuar acreditando, eu vou continuar sangrando. Não importa o que seja preciso. Mesmo que ele arranque minhas pernas, eu vou me arrastar. Se ele arrancar meus braços, eu vou mordê-lo até arrancar a garganta dele. Eu vou achar um jeito de matar esse maldito.
O monstro riu. O som era uma cacofonia de mil vozes sobrepostas, distorcidas digitalmente. — Tantas promessas vazias. O Chuya disse a mesma coisa antes de ver Miguel ser desintegrada. Que tédio. Vamos acabar logo com isso. O silêncio da morte de vocês será música para meus ouvidos.
A realidade ao redor da Entidade se distorceu. O espaço-tempo dobrou. O monstro avançou. Dante e Drake não recuaram. Eles correram. Dois homens quebrados contra um deus. Eles gritaram em desafio, um som de fúria pura correndo em direção à aniquilação.
— AGORA, DRAKE! TUDO O QUE TEMOS! — PELA ÚLTIMA VEZ, DANTE!
Uma explosão de luz branca, cegante e silenciosa, começou a consumir o cenário, desintegrando matéria, som, cor e esperança.
No centro do caos, enquanto a onda de aniquilação engolia seus protetores, Sofia segurou a mão fria e inerte de seu pai. Ela fechou os olhos, ignorando a luz que devorava o mundo.
— Ele tem razão... — sussurrou ela, a voz firme em meio ao apocalipse. — Eu não posso desistir. Não agora.
Ela apertou a mão de Danael uma última vez, gravando a textura da pele dele em sua memória, transformando a dor em combustível.
— Não importa o que aconteça comigo. Não importa quantas vezes meu coração tenha que quebrar. Eu vou continuar. Eu vou fazer de novo. E de novo. E de novo. Até achar um jeito de salvar a todos.
Em meio aos gritos agonizantes de Dante e Drake sendo obliterados pela luz divina e cruel, Sofia abriu os olhos. Suas pupilas não eram mais humanas; eram mostradores de relógio brilhando com uma energia temporal aterrorizante e azul.
— Eu vou voltar tudo de novo.
Tudo voltou a ficar escuro. O som de batalha sumiu, substituído pelo zumbido distante de ventilação. Ela sentia mãos a segurando, sacudindo-a levemente.
A escuridão não se dissipou gentilmente; ela foi arrancada, como um band-aid puxado de uma ferida aberta.
Sofia tragou o ar com violência, um ganido rouco escapando de sua garganta, como alguém que rompe a superfície da água após minutos se afogando. Seus pulmões queimaram com o oxigênio "limpo". O corpo inteiro teve um espasmo, encharcado em um suor gelado que colava o pijama à pele trêmula.
A dor de cabeça não era um incômodo; era uma picareta cravada no centro de seu crânio. As memórias da morte de seu pai, de Dante e de Drake ainda estavam impressas em suas retinas.
— Ei, marujo. Calma... Respira.
A voz atingiu seus ouvidos como um bálsamo quente. Era rouca, divertida e, acima de tudo, viva.
Sofia piscou, lutando contra as manchas negras em sua visão. Aos poucos, o borrão ganhou contornos. Cabelos desgrenhados, um sorriso torto, olhos que brilhavam com travessura e uma preocupação genuína. Drake.
Ele estava ali, ajoelhado à sua frente, segurando seus ombros com firmeza para impedir que ela caísse da cama. Ao lado dele, Remi a observava, os braços cruzados, mas com a tensão evidente na postura rígida.
A visão deles — inteiros, respirando, sem sangue, sem membros arrancados pela luz branca — foi o golpe final. A represa rompeu.
— Ei, ei, o que foi? — Drake recuou um centímetro, genuinamente alarmado ao ver as lágrimas grossas transbordarem dos olhos dela. — Não fui eu, fui?
— Não seja idiota, Capitão — repreendeu Remi, sua voz suavizando ao ver o estado da garota. — Ela estava se debatendo. Gritando nomes, deve ter sido um pesadelo…
Mas a realidade bateu em Sofia com a força de um trem de carga. O alívio durou um milésimo de segundo, logo substituído pelo pânico visceral do loop. O relógio estava correndo. O monstro estava vindo. O roteiro já estava escrito.
Ela empurrou as mãos de Drake com uma força histérica, tentando se levantar, mas suas pernas eram feitas de gelatina. Ela desabou no chão metálico.
— Não... me solta! Que horas são?! Eu preciso... Eu preciso achar o Dante! Se eu não for agora, a Miguel morre! O Chuya morre!
— Opa, segura as pontas! — Drake a conteve sem esforço, erguendo-a como se fosse feita de papel. — Olha o seu estado, garota. Você está tremendo mais que vara verde em tempestade. Seu corpo está aqui, mas sua mente parece ter corrido uma maratona no inferno. Se sair agora, vai apagar antes de chegar na porta.
— Vocês não entendem! — O grito de Sofia saiu rasgado, doloroso. Ela agarrou as lapelas do casaco de couro de Drake, puxando-o, implorando para que ele acreditasse na loucura. — Se eu não for agora, todos vão morrer! De novo! Eles morrem todas as vezes! Eu já vi isso acontecer!
— A gente já sabe.
A frase caiu no quarto como uma bigorna de chumbo. Sofia parou, o soluço preso na garganta. O silêncio que se seguiu foi pesado. Ela olhou para Drake, os olhos arregalados de confusão e medo.
— Como... como assim?
Drake enfiou a mão no bolso interno do casaco e, com um movimento lento e deliberado, retirou um objeto familiar. O couro estava gasto, as páginas amareladas e amassadas. O diário dela.
— Isso aqui foi uma leitura... iluminadora — disse Drake. Não havia zombaria em sua voz, apenas um peso solene. Ele balançou o caderno suavemente. — Eu queria ver o seu rosto. Queria olhar nos seus olhos quando acordasse para ter certeza. E agora eu tive meu veredito.
Ele se aproximou, o rosto sério. — O terror na sua cara não mente. Ninguém atua desse jeito. Tudo escrito aqui é real, não é? O futuro, o massacre, o Astreus.
Sofia olhou para o diário como se fosse uma sentença de morte. Seus ombros desabaram sob o peso de dezenas de vidas vividas e perdidas. A exaustão a consumiu.
— Sim... — A palavra foi um sussurro quebrado. — Eu tentei... Tentei de novo. E de novo. Mas é impossível. O roteiro sempre se ajusta. O Chuya sempre encontra a Miguel. O Dante sempre se sacrifica. Meu pai é sempre apagado. Eu não sou capaz de impedir. Não importa o que eu faça, o fim é o mesmo.
Drake guardou o diário no bolso, perto do coração. Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos bagunçados. Mas quando olhou para ela novamente, não havia pena em seu rosto. Havia fogo.
— Bom, eu entendo o choro. Entendo que deve ter sido um inferno carregar o peso do mundo nessas costas pequenas. — Ele se levantou, a sombra dele crescendo na parede do quarto, parecendo engolir a luz. — Mas... "impossível"?
O tom de Drake mudou. A melancolia evaporou, substituída por uma eletricidade estática, uma pressão de Éter que fez o ar do quarto vibrar.
— "Impossível", você diz? Que palavra ofensiva. — Ele abriu os olhos, um brilho verde selvagem surgindo neles. — Eu já naveguei por mares onde a água queimava e o céu era feito de pedra! Eu já apostei minha alma contra demônios em mesas de bar e saí com o troco!
Ele se inclinou, o rosto próximo ao dela, um sorriso audacioso, insano e contagiante desenhado nos lábios. — O inimigo é um Ser Supremo? Ótimo! Deuses, destinos, profecias, roteiros... Se você acha que uma ondinha desse tamanho é suficiente para virar meu barco, então você não conhece o seu Capitão.
Sofia balançou a cabeça, as lágrimas ainda caindo, mas a esperança tentando, dolorosamente, brotar. — Mas... o navio é grande demais! Drake, escuta! Mesmo que a gente pare o Astreus, tem o caos! A Máfia Salazar, a Família Real, O assassino dos andares inferiores, a Horizon... Tudo interfere! O cenário sempre conspira contra nós! Eu não tenho como estar em todos os lugares ao mesmo tempo para salvar todos!
— Você não. Mas eu tenho.
— O quê?
Drake enfiou a mão no bolso mais profundo de seu casaco, um lugar onde a luz parecia ter medo de entrar. De lá, ele puxou algo. Não era ouro. Não era prata.
Era uma moeda de um metal negro, fosco, tão escuro que parecia um buraco na realidade, absorvendo a luz ao redor. Entalhada na face, uma caveira sorria, e a moeda parecia vibrar com uma frequência baixa que doía nos dentes de quem olhava.
Remi, sempre estoica e calma, engasgou. Ela deu um passo para trás, os olhos arregalados de horror. — Capitão?! — A voz dela falhou. — Você ficou louco?! Vai usar uma Moeda do Caos aqui?!
Sofia encarava a moeda sem compreender; em nenhum dos Loops anteriores ela a tinha visto.
.— Isso vale mais que o próprio Titanic! Esqueça o dinheiro, nem nossas vidas valem tanto. Essa é sua única arma contra Kallen, e você realmente vai usá-la aqui? Temos mil outras maneiras de sobreviver se abandonarmos tudo e fugirmos.
Drake girou a moeda negra entre os dedos. O ar ao redor de sua mão distorceu, como ondas de calor no asfalto. — Bom, minha cara Remi... Motivos são o que não faltam. Levei anos para encontrar uma dessas belezinhas. Planejava usar para queimar a cara daquela que tirou tudo de mim.
Ele olhou para o teto de metal, mas seu olhar atravessava o aço, visualizando o tabuleiro de xadrez gigante que era o navio. — Mas... se o que está escrito naquele diário for verdade... Se a profetica guerra dos Astreus começa aqui e agora...
Drake fechou o punho sobre a moeda. Fumaça verde-esmeralda começou a vazar por entre seus dedos, sibilando como ácido. — Então eu não serei mesquinho. Eu jogo minha vingança, minha vida e minha alma nessa mesa. Eu prometo que esse navio não vai afundar sob meu comando.
Ele se virou para Sofia e, com uma delicadeza surpreendente para um homem tão bruto, limpou uma lágrima do rosto dela com o polegar áspero. — E, de quebra, eu prometo que farei essa bela dama não ter mais motivos para chorar.
Drake virou-se para sua imediata, a ordem saindo como um estalo de chicote, autoritária e absoluta. — Remi! Use sua Habilidade. Leve a garota até o Astreus. Corte o caminho, quebre as paredes, ignore as leis da física se precisar..
— Mas e você?! — Sofia gritou. — Como vai lidar com todo o resto?!
Drake caminhou até o centro do quarto. A aura verde explodiu ao redor dele, fazendo as camas tremerem.
— Deixe a faxina comigo. Eu sou o Capitão agora.
Ele sorriu.
Drake jogou a moeda para o alto. O tempo pareceu desacelerar. A moeda girou em câmera lenta. O som que ela produziu ao cortar o ar não foi um silvo metálico, mas uma risada. Uma gargalhada fantasmagórica e rouca que ecoou psiquicamente na mente de cada ser vivo a bordo do Titanic.
— ESSA É MINHA GRANDE APOSTA! — A voz de Drake trovejou, sobrepujando o zumbido do navio, ecoando pelos dutos de ventilação. — ENTÃO FAÇA SEU MELHOR, DESTINO! POIS A PARTIR DE AGORA, TODO ESSE NAVIO É MEU!
PING.
No instante em que a moeda atingiu o ápice e desapareceu no ar, a realidade dobrou.
Uma onda de choque de Éter Verde, maciça, da cor das profundezas abissais e da ganância antiga, explodiu a partir de Drake. Ela não obedeceu às leis da física; ela atravessou matéria, tempo e espaço.
A onda percorreu o Titanic mais rápido que o pensamento.
No Corredor do 5º Andar: A onda rasgou o ar. Dante, que corria desesperado sendo seguido por Mio, parou bruscamente. O chão vibrou sob seus pés. "O que diabos é isso?!"
No 7º Andar (Cofre): A lâmina de Kali estava a milímetros de cortar o cofre. A luz verde inundou a sala blindada. O ar ficou denso como água do mar. Kali recuou, olhando ao redor, os olhos vermelhos estreitos. "Interferência espacial?"
Na Sala de Transmissão: Os cem monitores de Ceto estouraram em estática verde simultaneamente. Ela caiu da cadeira. "O sistema... está sendo reescrito?!"
O Titanic parou no meio do vazio espacial. Os motores traseiros, antes brilhando em azul tecnológico, rugiram e explodiram em chamas de um verde esmeralda furioso e mágico.
— Atenção! Protocolo de Evacuação Forçada Iniciado! — A voz da I.A. do navio soou nos alto-falantes. Não era mais a voz robótica e polida da Luminary Labs. Estava distorcida, rouca, carregada de uma energia caótica e pirata. — You Hou marujos, agora sumam Para bem longe do meu navio.
Em todo o navio, cristais de teleporte inativos acenderam sozinhos. Civis, mafiosos de baixo escalão, garçons e tripulantes irrelevantes para a batalha começaram a desaparecer em feixes de luz verde. Eles estavam sendo salvos contra a própria vontade, arremessados para fora do tabuleiro de jogo para limpar o cenário.
Na Sala de Controle, Ceto socava o teclado, o pânico deformando seu rosto perfeito. — O quê?! Acesso negado?! — Ela olhou para as telas que agora mostravam apenas um símbolo: uma caveira sorridente com tapa-olho. — O sistema raiz foi sobrescrito! Quem tem poder para dominar uma I.A. dessa magnitude?! O Caos assumiu o controle do Roteiro!
De volta ao quarto, a aura verde emanava de Drake não como uma luz, mas como labaredas de um incêndio espiritual. Ele parecia maior, intocável, um titã no comando de seu domínio. As paredes do quarto começaram a se abrir, o metal se dobrando à sua vontade para criar uma passagem direta.
Ele olhou para Sofia. A piscadela que deu foi a coisa mais arrogante e reconfortante que ela já vira em todas as suas vidas.
— Allons-y, Sofia! — gritou Drake, a energia crepitando em sua voz e eletrizando o ar. — Temos um Deus para matar e um navio para salvar!



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