The Fall of the Stars: Capítulo 4.5 - Um Novo Começo
- AngelDark

- 8 de dez. de 2025
- 41 min de leitura
Volume 2: Enigma Parte 7
O campo de batalha não era mais um saguão; era um inferno de ruído, metal retorcido e destruição sensorial. O cheiro de ozônio e carne queimada era quase sólido.
Chuya tossiu, uma nuvem densa de sangue misturada com fumaça acre saindo de seus lábios, pintando o chão metálico de vermelho vivo. Uma autoanálise rápida, feita em meio a espasmos de dor que percorriam sua espinha, confirmou o óbvio: três costelas quebradas perfurando a carne, colapso parcial do pulmão esquerdo e hemorragia interna severa. Para qualquer humano normal, era o fim da linha, o momento de fechar os olhos e aceitar o frio. Para Chuya Lindell, era apenas uma terça-feira ruim.
— Cof... — Ele puxou um cigarro amassado do bolso, as mãos trêmulas manchadas de vermelho, e o acendeu na brasa de um destroço em chamas ao seu lado. A nicotina bateu com um alívio momentâneo, acalmando os tremores. — Tsc. Aquele desgraçado bate forte. Mas agora vamos logo fechar o expediente.
Ao lado dele, uma pilha de escombros explodiu para fora, lançando placas de metal longe. Beatrice se erguia, cambaleante, apoiando-se em um pilar torto. Seu corpo pequeno estava coberto de hematomas roxos e cortes profundos. O Éter laranja que a envolvia falhava e piscava como uma lâmpada fluorescente prestes a queimar, chiando no ar, mas seus olhos... seus olhos queimavam com uma determinação nuclear. Ela limpou o sangue que escorria da testa, misturando-o com poeira, e cerrou os dentes com força suficiente para trincá-los.
— Eu me recuso... — ela rosnou, forçando seus joelhos a travarem, o chão rachando sob a pressão de sua aura — ...a perder para uma coisa feia dessas.
Mais atrás, o cenário era de desespero contido. Nyan correu até Luck, que jazia inconsciente após o sacrifício brutal de Leon. Suas mãos brilhavam com magia de cura suave enquanto ela aplicava primeiros socorros de emergência, tentando estabilizar o fluxo de Éter dele que vazava perigosamente. Kurokawa e Sora corriam entre as crateras fumegantes, verificando os feridos que haviam sido lançados do andar de cima na explosão inicial.
No centro da cratera principal, o Enigma gritava. Não era um grito de dor, mas de puro poder, uma ressonância que fazia os dentes de todos vibrarem. A aura dourada e roxa colapsava e expandia dentro dele como uma estrela instável, distorcendo a gravidade local e fazendo a estrutura inteira do navio gemer sob a pressão, rebites estourando como tiros nas paredes distantes.
Em uma passarela suspensa nas sombras, protegida por um véu de ocultação, longe o suficiente para não serem vaporizados, mas perto o suficiente para ver cada gota de sangue, os membros da Horizon observavam o espetáculo como deuses assistindo a gladiadores.
— Ele finalmente chegou... — murmurou Rasputin, acariciando a barba longa, os olhos brilhando com uma curiosidade acadêmica e perversa, analisando os fluxos de energia. — Então aquele é o nosso "novo companheiro", Dante Scarlune?
— Sim — respondeu Ceto, sentada na borda da passarela, balançando as pernas no vazio como uma criança em um parque, alheia ao massacre abaixo. — Pelo jeito que ele luta, ele é promissor. Mas lembrem-se: o Chefinho e ele são tecnicamente "inimigos" por enquanto. Então, se for se aproximar dele, é melhor não contar sobre sua afiliação conosco.
Rasputin franziu a testa, confuso com a lógica. — Se eles são inimigos, por que Niklaus o recrutou?
— Ele disse que viu algo de especial no garoto — explicou Ceto, com um sorriso enigmático que mostrava seus dentes afiados. — Acredita que um dia ele virá para o nosso lado por vontade própria. Até esse momento, devemos agir como se ele fosse um membro, só que... não informado.
Ela olhou para os outros, o tédio dando lugar à empolgação de jogadora. — Vamos deixar isso mais interessante? Que tal uma aposta para decidir quem irá vencer? O Novato ou o Enigma?
— Eu aposto no Novato — disse Lucia imediatamente, sua voz firme, os olhos fixos na determinação de Dante.
Kali bufou, cruzando os braços, sua aura gélida criando geada no metal da passarela e fazendo o vapor da respiração condensar. — Eu aposto na morte dele. Agora que estou vendo de perto... o Éter dele é instável, caótico. Ele parece uma vela prestes a apagar.
— Hahaha! — Rasputin riu, um som grave que reverberou no peito. — Bom, este velho confia na previsão analítica da Senhorita Kali. Aposto na morte.
Ceto sorriu, os olhos brilhando com malícia. — Se é assim... eu aposto a favor do Dante. O caos sempre favorece o inesperado, e eu adoro uma zebra.
Lá embaixo, no olho do furacão, Dante respirou fundo. O ar tinha gosto de ozônio, cinzas e eletricidade estática. A sensação era estranha, dual; metade dele queria fugir, a outra metade queimava em antecipação.
Ele se virou para Anna, a urgência clara em sua voz, gritando para ser ouvido sobre o rugido da energia do Enigma: — Tá, mas e agora? Como essa tal fusão funciona? Acho que não tenho tempo para um tutorial completo.
Anna negou com a cabeça, seus cabelos flutuando na corrente ascendente de poder. — Mesmo que tivesse tempo, não seria simples. Diferente deles, que estão fundidos em corpo, alma e personalidade, nossas existências estão amarradas, mas continuamos fisicamente separados. — Ela respirou fundo, focando. — Resumindo: você não vai conseguir extrair todo o meu poder, pelo menos não agora.
— Droga... O melhor bônus sempre fica com o vilão. — Dante praguejou, chutando um pedaço de metal.
— De qualquer forma — continuou ela, ignorando a reclamação —, entre mim e você, é você quem deve conseguir usar o poder de Astreus com mais eficiência.
Ele franziu o cenho, confuso. — Espera, por quê? Você era a Astreus. Não faria mais sentido você usar melhor?
Anna hesitou por um segundo, desviando o olhar e revirando os olhos em seguida, impaciente. — Explicar isso agora seria impossível. Por enquanto, só se concentre em acabar com a raça daquele monstro!
Ela guiou a mão dele até o centro de seu peito. No instante do toque, o mundo físico pareceu dobrar. Ele pôde sentir a alma de Anna: o Éter dela explodiu em uma aura dourada cegante, entrelaçando-se com a dele vermelha como duas serpentes de luz. Instintivamente, Dante mergulhou o braço direito no peito dela, atravessando a carne e o osso como se fossem água morna.
O monstro avançou para atacar, uma avalanche de sombras, mas foi interceptado. Chuya, que havia saturado o ambiente com uma densa nuvem de partículas microscópicas, detonou a armadilha.
— Andem logo com isso, não temos muito tempo! — gritou ele, estalando os dedos.
O ar ignizou instantaneamente. Uma violenta explosão de pó termobárico engoliu a criatura em chamas alaranjadas, criando uma parede de fogo temporária.
Aproveitando a distração, Dante puxou o braço de volta, seus músculos tensos com o esforço de arrastar algo pesado de outra dimensão. Ele extraiu do corpo de Anna uma obra de arte letal: uma katana de lâmina prateada que parecia cantar ao ser exposta ao ar. A guarda parecia feita de raízes orgânicas — ou talvez um dragão metálico enroscado na base da lâmina. O longo cabo terminava em um pomo esculpido na forma de uma besta, mas o verdadeiro perigo estava na ponta. O metal não apenas brilhava; vibrava com um calor alaranjado tão intenso que distorcia o ar ao redor, criando ondas de calor visíveis.
O elo físico se desfez e ambos recuaram, recuperando o fôlego. O olho direito de Dante agora ardia com uma chama de Éter dourado e alaranjado, dançando como uma labareda viva que vazava para fora da órbita. Ao cruzar seu olhar com o dela, a comunicação transcendeu o som.
"Use-a bem, Dante" — a voz de Anna ecoou límpida em sua mente, como se fosse seu próprio pensamento.
Foi quando Dante percebeu que tanto ele quanto Anna voltaram aos seus tamanhos originais, a energia condensada agora pulsando na arma.
— Ruiva, me tira de perto — pediu Anna, sentindo seu ether se esvair.
— Espera, o quê? — Mio, que já se aquecia para o combate, encarou-a irritada. — Agora que cheguei, eu também vou lutar. Até a Bea está na briga!
— Ouça o que ela diz, Mio — interveio Bea. — A habilidade dela é a predadora natural da sua, já que ela gera matéria inexistente.
— Além disso, se o time principal falhar, precisaremos agir como reforço — completou Anna. O cansaço parecia aumentar a cada segundo, mesmo com ela imóvel.
— Eu também ia pedir para você recuar. Preciso que fique de olho na Sofia — disse Dante, lançando um olhar de soslaio para Mio.
— Droga... Tudo bem. Mas é bom vocês não perderem — resmungou Mio, enquanto colocava Anna em suas costas e começava a se afastar.
O rugido do Enigma rasgou o ar e dissipou as chamas de Chuya, interrompendo o momento. A entidade estendeu os braços e o teto destruído do navio se encheu com uma chuva de tetraedros dourados. Eles não apenas caíam; zumbiam, girando em alta rotação, vibrando com uma energia instável pronta para aniquilar a matéria.
Dante segurou a katana com as duas mãos, a postura baixa.
— Liberar Arquivo: Segundo Modo — Deus da Velocidade.
Dante desapareceu.
Não houve som de passos, nem o bater de botas no chão. Houve apenas o estouro do vácuo preenchido abruptamente, um POP sonoro que estourou os tímpanos de quem estava perto. Ele ziguezagueou por entre o caos das explosões, deixando para trás rastros residuais de luz vermelha tão intensos que queimavam a retina de quem tentasse acompanhá-lo, desenhando linhas de néon no ar esfumaçado.
Para Dante, o mundo estava em câmera lenta. Os destroços flutuavam como penas. Ele achava que usava eletricidade; era o seu padrão. Mas, quando sua lâmina encontrou o primeiro tetraedro dourado em rota de colisão, a física da batalha mudou.
A espada não colidiu. Ela não cortou por impacto. Ela atravessou.
VWOOM.
O som foi abafado, como água caindo em chapa quente. A matéria dourada, supostamente indestrutível, vaporizou instantaneamente ao toque da lâmina. O calor que emanou daquele único corte foi tão violento que chamuscou as sobrancelhas de Dante mesmo através de sua aura, o ar ao redor da lâmina tornando-se um plasma branco.
"Isso é quente..." — pensou Dante, seus instintos gritando enquanto ele inclinava o pescoço, desviando de um tentáculo de sombra por milímetros; ele podia ver os poros da escuridão. O mundo ao seu redor parecia derreter sob sua passagem. — "Parece fogo... mas se comporta como líquido e raio ao mesmo tempo."
— PARE DE FUGIR, SEU INSETO! — bramiu o Enigma, sua voz arrastada pelo efeito Doppler da velocidade de Dante.
A criatura aumentou a ofensiva, transformando o campo de batalha em um inferno de ouro e escuridão. Para os espectadores, Dante era um borrão, uma falha na realidade que parecia estar em vários lugares ao mesmo tempo, desviando de golpes mortais no último microssegundo com uma elegância aterrorizante.
"É denso. Ionizado..."
Mesmo no olho do furacão, a mente de Dante dissecava o fenômeno. A energia que sempre estivera ao seu lado, agora transbordando e se fundindo à sua aura, revelava sua verdadeira face. E a compreensão bateu com a força de um trovão, clareando sua mente em meio ao caos.
— Plasma.
Seu Éter nunca foi apenas eletricidade. Agora, com a magnitude de seu poder vazando, ele percebia a verdade crepitando em sua pele. Era o quarto estado da matéria. O fogo das estrelas.
— Agora! — gritou Dante, sua voz distorcida e amplificada pela estática no ar.
Chuya reagiu instantaneamente, como se tivesse ensaiado aquele momento por anos. Ignorando a dor lancinante em seu peito, ele convocou o restante de suas forças. Uma plataforma de cinzas solidificou-se sob seus pés e ele deslizou pelo flanco esquerdo do campo de batalha como um surfista do apocalipse, contornando os detritos.
— Reino de Cinzas: Prisão de Fumaça!
Ele bateu as mãos com um estrondo seco. Uma nuvem densa, cinza e sufocante colapsou sobre o Enigma, bloqueando a visão da entidade e entupindo seus sensores com particulados sólidos abrasivos.
Do alto, rompendo a barreira do som com um estrondo sônico, veio Beatrice. Ela descia impulsionada por explosões visíveis como anéis de distorção no ar.
— Motor C: Martelo Descendente!
Ela girou o corpo no ar, convertendo toda a inércia em um chute de calcanhar brutal. O impacto acertou o topo da cabeça do Enigma, esmagou as defesas de sombra que tentavam proteger o monstro cego e criou uma onda de choque que limpou o topo da cortina de fumaça em um círculo perfeito.
O monstro vacilou por um milissegundo, atordoado, os joelhos dobrando, tentando recalibrar seus sentidos. Foi o suficiente.
Dante avançou.
Mas ele não visou o corpo do Enigma. Em vez disso, ele começou a dançar ao redor da criatura em velocidade hipersônica. Ele desferia cortes no ar vazio, desenhando padrões complexos, trançando uma geometria invisível ao redor do inimigo.
Swish. Swish. Swish.
O Enigma riu, recuperando o equilíbrio, sua voz dupla ecoando com desprezo de dentro da fumaça dissipada. — Você enlouqueceu, humano? Está atacando o vento? O medo o deixou cego?
Dante parou abruptamente de costas para o monstro, a cinco metros de distância. A postura era relaxada, quase arrogante, a fumaça saindo de seus ombros. Com um som metálico suave, ele começou a embainhar a espada lentamente.
No ar, onde a lâmina havia passado, a realidade cobrava a conta. Rastros físicos de luz alaranjada brilhavam intensamente, recusando-se a dissipar. Parecia uma teia de aranha tridimensional, feita de pura energia solar, flutuando suspensa e letal ao redor do monstro, enjaulando-o.
— Foi mal, é que eu nunca lutei com espada — disse Dante, casualmente. O som do metal deslizando na bainha parecia alto demais no silêncio repentino.
Click. A guarda bateu na bainha, selando a arma.
— Então vou tentar lembrar do que vi nos jogos.
Os olhos de Dante brilharam quando ele ativou sua habilidade Chronos nos rastros de plasma residual.
— Rasgue e Queime, Corte do Meio Dia.
Dante ergueu a mão e estalou os dedos. Snap.
O tempo, que estava "pausado" para aqueles cortes específicos, acelerou instantaneamente. A polaridade magnética do plasma se inverteu com um zumbido agudo.
Os vinte cortes flutuantes "descolaram" do tecido do espaço e voaram simultaneamente na direção do Enigma, convergindo para o centro como mísseis teleguiados.
— O QUÊ?!
O Enigma tentou erguer uma barreira, mas a física não estava mais ao seu lado. Os cortes vieram de todas as direções — cima, baixo, trás, lados — ignorando qualquer defesa frontal.
SLASH-SLASH-SLASH-SLASH!
O plasma, agora com densidade de diamante e temperatura estelar, fatiou a armadura dourada e os tentáculos de sombra como se fossem papel molhado. O Enigma urrou de dor, um som inumano e gorgolejante, enquanto seu corpo era retalhado por lâminas que "já haviam acontecido", mas só agora cobravam o preço, sangue de luz espirrando nas paredes.
Dante tentou respirar, mas o ar em seus pulmões parecia vidro moído. Ele tossiu, e não foi apenas ar que saiu; foi fumaça seca e gotículas de sangue que evaporaram antes de tocar o chão. Sua pele estava vermelha, febril.
— Dante! Seus músculos estão entrando em ebulição! — A voz de Anna soou em pânico na mente dele. — Esse modo está consumindo sua vitalidade mais rápido do que podemos regenerar! Se continuar assim, você vai virar cinzas antes de derrotá-lo!
"Droga… melhor não exagerar com isso" — Dante percebeu o mesmo. Cada movimento rápido rompia microfibras musculares, que eram cauterizadas instantaneamente pelo calor do plasma interno. Ele estava cozinhando.
No canto do saguão, longe da zona de morte, Sofia corria tropeçando entre os escombros fumegantes.
— Pai!
Ela viu Danael encostado em uma parede, a perna enfaixada improvisadamente e sangrando muito, sendo protegido pela figura estoica de Miguel.
— Sofia... — A voz dele falhou, rouca.
Danael tentou se levantar, movido pelo instinto paterno, mas suas forças cederam e ele caiu de joelhos. Sofia se jogou nos braços dele, chorando copiosamente, ignorando o sangue e a sujeira que manchavam suas roupas.
— Você está vivo! Você está vivo! — ela soluçava, apertando-o como se ele fosse desaparecer se ela o soltasse.
Danael acariciou o cabelo verde da filha, lágrimas quentes escorrendo por seu rosto sujo de fuligem, misturando-se ao sangue seco.
— Me desculpe... — ele sussurrou, a culpa pesando mais que os ferimentos. — Me desculpe por não ter estado lá quando você precisou. Me desculpe por ter falhado em todas as outras vezes.
— Não importa! — Sofia sorriu em meio às lágrimas, o rosto iluminado pelas explosões distantes do duelo de Dante. — Você está aqui agora. Isso é tudo que importa.
Perto dali, abrigadas atrás de uma viga de aço maciço, Remi e Luana observavam a batalha. A boca de Luana estava aberta em um "O" perfeito, os olhos arregalados refletindo os flashes de plasma estroboscópicos.
— I-Inacreditável... — gaguejou a streamer, a mente oscilando entre o terror absoluto e a oportunidade de ouro. — Isso... isso é conteúdo de nível divino! Nem os filmes de orçamento milionário conseguem esses efeitos! A renderização da realidade está quebrando!
Remi balançou a cabeça, incrédula, segurando sua arma com força. — Nunca imaginei que veria em vida uma batalha entre dois Astreus... É como ver lendas ganhando carne.
Ao ouvir aquilo, Luana recuperou o espírito profissional. O medo foi substituído pela ganância de views. Ela puxou um drone de reserva do bolso (o anterior havia sido destruído).
— Ei! Me ajuda! Eu preciso chegar mais perto! O ângulo aqui está péssimo!
— O quê?! Você ficou maluca? — Remi rosnou, puxando-a para baixo quando um pedaço de metal voou sobre elas. — Eu não quero participar disso!
— Você me deve! — retrucou Luana, ligando o drone, que zumbiu para a vida. — Foi o seu Capitão que decidiu não me teletransportar! Se estou presa aqui, vou fazer valer a pena! Vamos mostrar ao mundo o que está acontecendo!
Remi olhou para a garota, depois para a batalha onde Drake havia apostado a vida e agora Dante lutava pela de todos.
— É por isso que eu sempre falo para ele não se apaixonar por qualquer rabo de saia... — Remi suspirou, derrotada. — Tudo bem. Vamos. Mas se você morrer, eu não vou carregar seu corpo.
Ela agarrou Luana pela cintura e saltou com agilidade felina em direção a uma viga mais próxima da ação. O drone zumbiu, estabilizou e começou a transmitir para o mundo, a luzinha vermelha de "AO VIVO" piscando incessantemente.
O Enigma urrou de dor, mas sua resposta foi instantânea e devastadora. A entidade não aceitaria ser humilhada por um mortal.
— ACHA QUE ISSO É O BASTANTE?
O chão ao redor do Enigma explodiu em gêiseres de ouro líquido e sombras sólidas. Dezenas de lanças geométricas foram disparadas em todas as direções, transformando o saguão em uma zona de morte inavegável, perfurando paredes e chão.
Dante não recuou. Ele sorriu, o sangue fervendo com a adrenalina do combate, ignorando a dor de seus músculos.
— Vamos aumentar o ritmo.
Ele se agachou, desviando de uma lâmina de sombra que passaria na altura de seu pescoço, cortando alguns fios de seu cabelo. No mesmo movimento, ele rolou para a frente, passando por baixo das lanças flutuantes, sentindo o zumbido da morte roçar em sua jaqueta de couro.
Dante chutou o chão de metal do navio com o calcanhar, infundindo plasma no pé.
BOOM!
O metal cedeu e, em resposta, uma chapa de aço do piso se soltou, levantando-se no ar girando. Ele girou a katana, segurando-a como um taco de beisebol, e canalizou plasma na lateral da lâmina, fazendo-a brilhar como um pequeno sol.
— Strike Um!
CLANG!
Ele bateu na placa de metal suspensa. O impacto sônico disparou o pedaço de aço como uma bala de canhão incandescente, o metal derretendo em pleno voo. O projétil improvisado atingiu a cara da entidade com precisão brutal, estilhaçando a máscara dourada e fazendo sua cabeça ricochetear para trás com a força cinética.
Furioso, Enigma se virou enquanto sua máscara se refazia magicamente, mas mais uma vez não conseguiu encontrar o garoto. Ele já estava novamente em movimento, correndo em direção à parede lateral do saguão.
Suas botas faiscaram, o plasma fundindo a sola com o metal da parede. Ele correu verticalmente, desafiando a gravidade, tornando-se uma linha vermelha na periferia da visão do monstro.
— O que foi... tá parecendo meio lentinho, Enigma.
Dante saltou da parede, girando no ar como um pião de lâminas vivas. Ele caiu sobre o ombro do Enigma, acertando a nuca dele com o cabo da espada e o esmagando contra o chão, criando uma cratera, só para girar e liberar um outro corte de plasma acelerado à queima-roupa, explodindo-o no chão onde estava.
"Mas o que está acontecendo... a criatura não está conseguindo reagir," — Chuya ponderou, recolocando o braço deslocado com um estalo seco, assistindo maravilhado.
"Essa coisa não tem experiência de combate; não está acostumada a lutar contra coisas mais rápidas," — analisou Beatrice, percebendo uma fraqueza fundamental. "É puro poder bruto sem técnica."
Dante pousou e, correndo em alta velocidade novamente, chegou em cima do Enigma. Agora sem espaço para a espada, ele desferiu um soco revestido de plasma condensado no diafragma da entidade. O impacto criou um vácuo instantâneo, seguido por uma explosão térmica que rachou a armadura peitoral do Enigma.
A entidade cambaleou para trás, tossindo luz. Dante não parou. Ele era um borrão, uma tempestade contida em forma humana.
Corte nos tendões do joelho. Esquiva perfeita para a direita. Corte ascendente novamente com a espada abrindo a guarda.
O Enigma tentou materializar uma barreira, mas Dante usou o magnetismo gerado por sua velocidade para puxar os destroços do navio ao redor. Vigas, parafusos e placas de metal voaram em direção ao monstro, criando uma prisão de sucata momentânea que prendeu os braços da entidade.
Enigma estava começando a perceber sua própria fraqueza. Humilhado. Superado na técnica, na velocidade e na pura audácia de um humano.
O corpo da entidade começou a tremer e brilhar com uma intensidade cegante, uma supernova prestes a acontecer.
— Malditos... VERMES!
A forma do Avatar começou a mudar novamente. A parte masculina e o ouro derreteram como cera quente, escorrendo para o chão.
Em seu lugar, surgiu uma nova forma, transcendendo o gênero. Totalmente feminina em silhueta, nua, mas sem traços humanos definidos. Seu corpo parecia feito de um recorte do próprio cosmos — um vácuo escuro e infinito preenchido por galáxias espirais e estrelas que giravam lentamente sob a "pele" translúcida. Apenas o contorno lembrava vagamente Benedetta.
Ao redor dela, os padrões geométricos dourados tornaram-se fractais complexos, formando halos e mandalas que zumbiam com energia destrutiva, girando lentamente atrás de sua cabeça.
Mas havia algo errado.
Rachaduras de luz branca, violentas e irregulares, começaram a aparecer na "pele" cósmica da entidade. Ela gritou, e o som foi como vidro temperado se estilhaçando em câmera lenta, misturado com estática de rádio.
— Dante! — A voz de Anna soou urgente, na mente dele. — Olhe! A fusão dela está ficando instável! O corpo da Benedetta não está aguentando o poder total do Astreus, e a mente dela está em conflito com a Entidade!
Dante, ofegante, o suor evaporando instantaneamente pelo calor de sua própria aura, segurou sua espada com as duas mãos trêmulas.
— Ela está quebrando... — Dante observou, vendo as falhas na armadura divina, onde o universo vazava.
— Sim! — confirmou Anna. — Podemos usar isso! Se acertarmos o núcleo da fusão com força total enquanto ela está instável, podemos separá-los ou destruir a forma física!
Dante tentou sorrir, mas o gosto de ferro em sua boca o impediu. A verdade era inegável e aterrorizante: aquela forma cobrava um preço altíssimo. Ele olhou para suas mãos. A pele estava descascando, revelando a carne viva por baixo, que não sangrava porque estava cauterizada. Fumaça branca saía de seus ombros. Seus ossos rangiam sob a pressão da velocidade.
"Só mais um pouco..." — ele implorou ao próprio corpo, que gritava para desligar. Se ele perdesse a concentração por um segundo, a própria pressão de sua aura o vaporizaria de dentro para fora.
— Beatrice! Chuya! — Dante gritou, sua aura de plasma explodindo em um pilar carmesim que tocou o teto destruído, iluminando o saguão. — Me deem um caminho! Vamos acabar com isso agora!
Beatrice, mal conseguindo ficar em pé, com sangue escorrendo pelo nariz, sorriu com ferocidade. — Esse sempre foi o meu plano, seu idiota.
Chuya tragou o cigarro até o filtro, queimando os lábios, e jogou a bituca nas cinzas encharcadas de sangue. — Só não erre, garoto.
A rodada final estava prestes a começar. E seria sangrenta.
Parte 8
Dante cambaleou, o calcanhar raspando no metal frio do convés. O mundo oscilou violentamente diante de seus olhos, as luzes de emergência do corredor transformando-se em borrões néon.
Seu corpo estava gritando. Não era apenas dor; era dissolução molecular. A pele de seus braços estava rachando como cerâmica velha e seca, revelando um brilho vermelho pulsante e magmático por baixo. Fumaça acre, com cheiro de ozônio e carne queimada, saía de suas juntas. O "Deus da Velocidade" estava cobrando o preço: a fricção interna o estava cozinhando de dentro para fora.
— Dante! — A voz de Anna soou fraca, ecoando em sua mente como uma transmissão de rádio moribunda. — Mais trinta segundos. Se passar disso, seu coração vai explodir.
O Enigma, agora uma silhueta feminina feita de constelações distantes e ódio puro, avançou flutuando. O espaço ao redor dela se distorcia. Uma mão feita de vácuo absoluto, sugando a luz ao redor, tentou agarrar a cabeça de Dante.
Ele não tinha forças para desviar. Seus tendões travaram.
VWOOM.
O ar foi deslocado com violência. Um borrão laranja colidiu com a mão do monstro, desviando-a com um estrondo sônico que fez as placas do teto vibrarem. Beatrice pousou na frente de Dante, o impacto de suas botas amassando o chão de aço, seus punhos fumegando pelo atrito atmosférico.
— Não ouse morrer agora, seu idiota inútil! — gritou ela, sem olhar para trás, a postura baixa, pronta para explodir em movimento. — Se você cair, eu te mato de novo!
Chuya deslizou pela direita, suas botas levantando faíscas no metal enquanto ele freava a inércia, sua espada de cinzas girando e deixando um rastro de brasa morta no ar.
— Menos papo, vamos acabar com isso logo! — Chuya rugiu, os olhos fixos na entidade.
A partir desse momento, não houve palavras. Houve apenas ritmo. O som de metal retorcido e carne rasgada compôs uma dança brutal e desesperada.
O Enigma tentou esmagar Beatrice com um pilar de gravidade. Ela usou suas ondas de choque para se impulsionar horizontalmente, deslizando por baixo das pernas da entidade como um disco de hóquei, faíscas voando de suas costas. Ela freou violentamente, girando o quadril para maximizar o torque e chutando a parte de trás da articulação do monstro.
Houve um estalo úmido e cósmico. A perna do monstro dobrou para o lado errado. O Enigma vacilou, a galáxia em seu corpo tremeluzindo.
Instantaneamente, Chuya estava lá. Ele usou uma viga exposta da parede para pegar impulso, saltando não para atacar o corpo, mas os olhos. Ele girou no ar e soprou uma nuvem densa e sufocante de cinzas superaquecidas diretamente na "face" cósmica.
— Cegueira Cinzenta!
O Enigma rugiu, um som de estrelas colidindo, levando as mãos ao rosto enquanto as cinzas queimavam sua percepção onisciente. O peito ficou exposto, brilhando como um alvo.
Era a vez de Dante.
Ignorando a agonia de seus músculos rasgados, ele disparou. O chão sob seus pés derreteu com a arrancada. Não havia tempo para técnica refinada. Ele usou a inércia do movimento de Chuya e a fumaça de cinzas como cobertura visual.
— Corte de Plasma: Estocada Relâmpago!
A katana de prata e fogo tornou-se um feixe de luz sólida. Ela perfurou o peito estrelado da entidade com um assobio agudo de vaporização. O plasma derreteu a defesa cósmica, fazendo "sangue" de luz líquida jorrar, queimando o chão onde caía.
— ARGH! — O Enigma gritou, liberando uma onda de choque omnidirecional que jogou Dante para longe, fazendo-o colidir contra um painel de controle.
Mas Beatrice já estava no ar, girando. Ela havia escalado a parede lateral durante a distração.
— Não acabou!
Ela caiu como um meteoro sobre o ombro do Enigma. O impacto foi tão pesado que afundou a entidade no chão de metal, dobrando as vigas de sustentação abaixo deles.
— Chuya! Agora!
Chuya cravou sua espada de chamas no chão, penetrando o aço do convés.
— Inferno de Cinzas!
O chão explodiu. Espinhos de fogo vulcânico e cinza sólida irromperam do metal, criando uma jaula improvisada que prendeu os membros do Enigma.
— Dante! Corta! — Beatrice ordenou, sua voz rouca de esforço enquanto segurava o braço do monstro.
Dante, mal conseguindo ficar em pé, obedeceu. Ele correu pela parede verticalmente, desafiando a gravidade, saltou do teto e desceu girando como uma serra.
SLASH!
Um corte profundo cruzou o peito do Enigma, dividindo nebulosas.
SLASH! SLASH!
A coordenação atingiu o ápice. Chuya atacou pela esquerda, desviando golpes com explosões de cinzas. Beatrice pela direita, seus socos criando vácuos de pressão. Dante pelo centro, aproveitando cada milissegundo de abertura.
Era uma trindade de violência. O Enigma tentava se defender, mas a sinfonia era perfeita. Assim que ele bloqueava o fogo de Chuya, o impacto cinético de Beatrice quebrava sua postura, desequilibrando-o. Quando ele tentava revidar em Beatrice, o plasma de Dante queimava seus nervos ópticos e motores.
O corpo cósmico começou a rachar. Fissuras de luz branca cobriam a pele de galáxias como vidro quebrado. A fusão estava colapsando.
— CHEGA!
A voz do Enigma reverberou não no ar, mas nos ossos deles. Ele explodiu em fúria pura.
— AXIOMA: PRESSÃO DE UMA ESTRELA DE NÊUTRONS.
A gravidade na sala aumentou mil vezes em um nanossegundo. O ar tornou-se sólido como chumbo.
CRACK.
O som de ossos quebrando foi uníssono e nauseante.
Dante, Beatrice e Chuya foram esmagados contra o chão. Eles não caíram; foram achatados. O metal do navio gritou sob o peso, rebites estourando como balas. O chão afundou meio metro, criando uma cratera instantânea ao redor deles. O sangue jorrava de seus narizes e bocas, pintando o aço cinza de vermelho vivo.
O Enigma flutuou acima deles, livre da gravidade, ofegante, sangrando luz, mas vitorioso. Ele ergueu as duas mãos, a matéria escura se condensando para formar uma esfera de aniquilação dourada do tamanho de um carro, zumbindo com a promessa de morte.
— Vocês lutaram bem, ratos. Mas a brincadeira acabou.
Dante tentou mover a espada. Seu braço não respondeu; o úmero estava fraturado. Sua visão escureceu, o túnel da morte se fechando. Acabou?
— Ei... coisa feia.
Uma voz fraca, mas carregada de uma arrogância suicida, veio da lateral.
O Enigma parou, a esfera pairando. Dante forçou o olho inchado a abrir.
Luck estava de pé.
Ele estava coberto de bandagens improvisadas, apoiado em uma parede amassada, as pernas tremendo violentamente. Nyan gritava para ele parar, mas ele a ignorou, limpando o sangue do queixo.
O Jackpot havia acabado. Ele não tinha buffs. Ele mal tinha sangue no corpo. Mas ele tinha um sorriso torto e desafiador.
— A sorte... — Luck cuspiu um dente no chão metálico com um tink audível. — ...ainda não acabou.
Ele apontou a mão trêmula, os dedos manchados de sangue seco.
— Impacto Supernova!
Luck não disparou o fogo. Ele detonou todo o Éter que lhe restava dentro dos canais de magia do próprio braço.
Uma explosão de chamas azuis descontroladas irrompeu, não como um feixe, mas como uma onda de calor caótica na direção do Enigma. Não era forte o suficiente para matar, mas era brilhante. Ofuscante como um flashbang mágico. E carregava a vontade inquebrável de um amigo.
A explosão atingiu o rosto do Enigma, cegando-o e quebrando sua concentração por um segundo precioso.
A gravidade aliviou. O ar voltou aos pulmões.
Foi tudo o que Beatrice precisava.
— AGORA!
Beatrice se levantou, os ossos estalando ao se realinharem na marra, movida por pura raiva e adrenalina. Ela agarrou Dante pela gola da jaqueta com uma força descomunal, girando o corpo como uma lançadora de martelo olímpica.
— O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO?! — Dante gritou, confuso, sentindo a força G esmagá-lo.
Beatrice completou o giro, suas botas rasgando o metal do chão para ganhar tração.
— Vira munição, Palito! E NÃO ERRA!
Ela o lançou.
Não foi um arremesso. Foi um disparo de canhão humano. O ar estourou atrás de Dante enquanto ele era catapultado, transformando-se em um projétil vivo, uma flecha de carne e lâmina na direção do Enigma.
No ar, o tempo parou. As partículas de poeira flutuavam estáticas.
Dante estava voando direto para o peito da entidade, a velocidade rasgando a pele de seu rosto.
— Olho direito, Dante! — Anna gritou, sua voz cortando o silêncio. — Olhe!
O olho direito de Dante, aquele com a chama dourada, focou com precisão cirúrgica.
O mundo ficou transparente. Ele viu através da pele de galáxias. Viu através das sombras rodopiantes. Viu através do ódio de Benedetta e da divindade do Enigma.
Lá no fundo, protegido por camadas de realidade, no abdômen, havia um ponto. Um núcleo pulsante, vibrando em dissonância, onde as duas almas se conectavam. O nó górdio da fusão.
Dante segurou a espada com as duas mãos, ignorando a dor nos ossos quebrados. O plasma rugiu, consumindo a última gota de sua vitalidade, transformando a lâmina em uma extensão de sua própria vida.
— CHRONOS SLASH!
Ele colidiu com o Enigma. A inércia do arremesso de Beatrice somada à velocidade de Dante criou um impacto devastador.
A espada penetrou o abdômen.
Não houve resistência. A lâmina atravessou o núcleo como se cortasse água.
Dante gritou, liberando tudo o que tinha, sua voz se misturando ao rugido da energia.
— Vê se morre, inferno!
KABOOOOOOOOOM!
Uma explosão de aura, combinando branco, dourado e vermelho, engoliu o saguão. A pressão resultante foi tão intensa que expandiu e deformou as paredes do Titanic. Os vidros, mesmo sendo resistentes, não suportaram, forçando a nave a entrar no modo de sobrevivência. Imediatamente, as barreiras mágicas foram ativadas com a energia restante para evitar que todo o ar interno vazasse para o espaço.
Dante, Beatrice, Chuya, Luck e os fragmentos do Enigma foram arremessados em direções opostas, silhuetas negras perdidas na luz branca da aniquilação.
O silêncio caiu, absoluto e gélido.
Parte 9
A explosão foi absoluta.
Não havia sons de vitória. Apenas o silêncio da devastação e o estalo de metal esfriando.
Chuya estava desmaiado sobre uma viga retorcida, o sangue secando em seu queixo. Luck jazia imóvel sob escombros, sua sorte finalmente esgotada. Beatrice tentava se erguer, trêmula, mas suas pernas não respondiam; ela era uma boneca de porcelana quebrada em um cenário de guerra.
No centro da ruína, a poeira baixou lentamente.
Benedetta estava caída. A forma cósmica do Enigma havia se desfeito, evaporada, deixando para trás apenas o corpo humano da garota, inconsciente e sangrando.
Tack. Tack. Tack.
Passos ecoaram no silêncio, precisos como um relógio, pesados como uma sentença.
Kali caminhava lentamente sobre os destroços. Ela parecia não pertencer àquele lugar; suas roupas estavam impecáveis, sem uma partícula de poeira. Sua respiração era calma, rítmica. Ela era a própria imagem da morte vindo coletar, caminhando sobre o inferno sem sujar as botas.
Ela parou diante de Benedetta, olhando para a garota como quem avalia uma mercadoria danificada.
— O prêmio... — Kali murmurou, sua voz cortando o ar rarefeito, estendendo a mão pálida para pegar o corpo da garota pelo pescoço.
De repente, outra mão, coberta de sangue coagulado e fuligem, agarrou o pulso de Kali.
— Não... toque... nela.
Era Dante.
Ele estava irreconhecível. Sua pele estava em carne viva, queimada pelo próprio plasma, brilhando com o calor residual. Ele mal conseguia ficar em pé, sustentado apenas por pura teimosia e ódio, o corpo tremendo violentamente pelo esforço de simplesmente respirar. Mas seus olhos... seus olhos estavam fixos nos de Kali, afiados como lâminas quebradas, recusando-se a apagar.
Kali olhou para a mão suja de sangue segurando seu pulso imaculado. O contraste era gritante.
— Essa é a segunda vez hoje que algo toca minha mão sem meu consentimento — disse ela, a voz fria como o vácuo absoluto, sem demonstrar irritação, apenas um fato. — Por acaso sabe o que está fazendo, verme?
— Eu senti... — Dante tossiu sangue, manchando o chão metálico. — Senti alguém nos observando enquanto a batalha acontecia. Não sei o que você quer... mas não vem lotear a recompensa dos outros quando nem participou da luta!
— Quer que eu participe? É isso?
BOOM.
Kali não moveu um músculo, mas sua Aura explodiu. A pressão espiritual foi tão densa que agiu como um impacto físico, uma marreta invisível de gravidade. O ar foi expulso dos pulmões de Dante. Ele foi arremessado para trás como uma folha seca em um furacão, rolando violentamente pelos escombros, o som de seus ossos batendo no metal ecoando até colidir contra uma parede remanescente.
Kali voltou sua atenção para Benedetta, limpando o local onde Dante a tocara com um gesto de nojo, estendendo a mão novamente.
Zun!
Algo cortou o ar com um assobio agudo.
Kali inclinou a cabeça levemente para o lado, um movimento fluido e preguiçoso. Uma pedra, um pedaço de destroço afiado arremessado com velocidade supersônica, passou raspando por sua bochecha.
Um fio fino, quase imperceptível, de sangue carmesim apareceu na pele de Kali.
Ela tocou a ferida, olhou para o sangue na ponta do dedo e depois virou os olhos lentamente para a direção do ataque.
Dante estava tentando ficar de pé novamente. Ele não tinha mais Éter. Ele não tinha mais forças. Ele havia jogado uma pedra com a força bruta de seus músculos rasgados e a desesperança de um animal encurralado.
— Você... — Os olhos de Kali se estreitaram. A temperatura no convés caiu.
A mão dela foi para o cabo da katana. O som do polegar destravando a guarda foi ensurdecedor no silêncio.
— PARE!
Antes que a lâmina saísse da bainha, lanças elétricas e correntes de água surgiram ao redor dela.
Lucia segurou o braço direito de Kali com uma mão, e Ceto agarrou o esquerdo. Rasputin materializou-se na frente dela, bloqueando o caminho com um sorriso.
— Calma lá, Kali! — gritou Ceto, o pânico evidente na voz. — Nada de exagerar! Você conhece bem as regras e sabe o que matar ele significaria!
Ao fundo, Beatrice, que tentava se arrastar para ajudar, congelou ao ver a irmã.
Kali olhou para seus companheiros, analisando a audácia deles.
— Até quando planejavam ficar me segurando?
A voz dela não estava alterada, mas a promessa de violência era tão clara, tão palpável, que Lucia e Ceto a soltaram imediatamente, recuando como se tivessem tocado em magma.
Kali passou por Rasputin, ignorando-o como se ele fosse fumaça, e caminhou até Dante. O som de seus passos recomeçou.
Tack. Tack. Tack.
— Kali, pensa direito... — Ceto avisou, preparando uma barreira defensiva.
— Relaxa. Eu não vou fazer nenhuma bobagem.
Kali parou na frente de Dante, que tentava erguer os punhos trêmulos, numa guarda que não defenderia nada. Ela riu. Um som seco, desprovido de humor, que gelou a espinha de Dante.
— Sabe... Quando eu fiquei sabendo sobre o "candidato" a nosso companheiro que lutou contra o Mestre Niklaus e sobreviveu... confesso que fiquei bastante interessada.
Ela se inclinou, ficando cara a cara com ele, seus olhos vazios refletindo o rosto destruído do garoto.
— Mas depois de ver o seu "máximo" aqui hoje... simplesmente me decepcionei.
O mundo de Dante parou. A palavra "Niklaus" ecoou, ferindo mais que o fogo.
— Agora eu entendo — sussurrou Kali, cruelmente. — Entendo perfeitamente por que você não conseguiu proteger sua amiga naquele dia. Com essa força patética... a morte dela foi inevitável.
O silêncio caiu sobre a Horizon. Ceto cobriu os olhos. Rasputin assobiou baixo, desviando o olhar. Ela havia pisado na mina terrestre de propósito. Ela havia enfiado o dedo na ferida aberta.
A imagem de Nero morrendo inundou a mente de Dante. O rosto de Niklaus. O sangue quente em suas mãos. A culpa que nunca dormia.
— CALA A BOCA!!!
Dante explodiu em fúria cega. Um rugido gutural rasgou sua garganta. Ignorando a dor, ignorando a lógica, ele canalizou a última gota de vida que tinha e saltou contra Kali, visando matá-la com as próprias mãos nuas.
Kali não sacou a espada. Ela nem mesmo fechou o punho.
Com as costas da mão, num movimento casual, como quem espanta uma mosca irritante num dia de verão, ela desferiu um tapa no ar.
PÁ!
A onda de choque do movimento atingiu Dante no peito antes mesmo da mão tocá-lo. Suas costelas estalaram em uníssono. Ele foi lançado como um projétil humano, atravessando uma parede de aço com um estrondo metálico e caindo do outro lado, imóvel, no meio dos destroços.
Kali desapareceu e reapareceu ao lado dele antes mesmo dele terminar de cair, sem deslocar ar.
— Está vendo só? — disse ela, olhando para ele de cima, com tédio absoluto. — Apesar de se achar rápido... para mim, é como se estivesse vendo um filme em câmera lenta.
SHINK.
Ela pegou a própria katana dele, que estava caída no meio das ruínas, e a cravou com violência no chão de metal, a milímetros do pescoço de Dante. A lâmina vibrou com o impacto, emitindo um zumbido letal que roçou a pele da jugular dele.
Dante, com a visão turva, olhou para o aço frio. Ele sabia. Ela poderia ter cortado sua cabeça antes que seus neurônios processassem o movimento. A diferença era um abismo.
— Te matar agora seria inútil — disse Kali, endireitando-se. — Seria um desperdício de tempo. Prefiro esperar para ver se você realmente tem algum potencial ou se é apenas lixo.
Ela deu as costas para ele.
— Aprenda a usar esse novo poder. Controle essa chama. E quando nos virmos de novo... lutaremos de verdade.
Ela começou a andar em direção aos seus companheiros, que já haviam recolhido o corpo inerte de Benedetta.
— Isso é claro... — Kali parou e olhou para trás por cima do ombro. — Se você sobreviver até lá.
Ela passou os olhos pelo campo de batalha, parando por um segundo em Beatrice, que ainda estava paralisada. O olhar de Kali não demonstrou nada. Nem pena, nem reconhecimento. Apenas o vazio.
— Vamos — ordenou Kali.
Ceto suspirou aliviada, desfazendo a tensão nos ombros.
— Bolha do Abismo.
Uma esfera de água escura e distorcida envolveu a Horizon e Benedetta. Com um som de estouro abafado, como uma bolha de sabão no fundo do oceano, eles desapareceram, deixando os heróis quebrados sozinhos na escuridão e no frio do navio destruído.
Dante ficou deitado, o corpo dormente. A humilhação queimava mais que as feridas, mais que o plasma, mais que o fogo.
— Eu vou... — ele sussurrou para as estrelas, uma promessa feita de sangue e vergonha, antes que a inconsciência misericordiosa o levasse. — Eu vou ficar mais forte.
Parte 10
Alguns minutos depois, um silêncio sepulcral havia tomado o convés principal. A sinfonia de alarmes havia morrido, não por segurança, mas por exaustão. A maioria das luzes já havia se apagado, engolida pelas sombras, restando apenas o brilho anêmico e intermitente de alguns monitores que lutavam para não morrer. O ar era gelado, cheirava a ozônio queimado e cobre.
Danael estava lá, isolado no centro da ponte de comando. Ele digitava freneticamente no teclado, o som das teclas ecoando como tiros secos na sala vasta. O suor frio desenhava trilhas na fuligem de seu rosto pálido, e cada movimento era uma batalha contra a dor lancinante de sua perna destruída, esticada de forma antinatural sob o painel.
— Pai?
A voz trêmula cortou a sala, pequena demais para aquele espaço imenso. Danael congelou. Suas mãos pairaram sobre o teclado por um segundo eterno. Ele fechou os olhos, sorriu tristemente para o reflexo na tela escura à sua frente e, lentamente, girou a cadeira.
Sofia estava parada na entrada, uma silhueta frágil recortada pela luz de emergência do corredor. Ela se apoiava no batente da porta, o peito subindo e descendo em espasmos dolorosos, o corpo coberto pela poeira da batalha.
— Ainda bem que você está bem, filha... — a voz dele saiu rouca, forçando uma normalidade que não existia mais. Ele voltou a encarar o monitor, os dedos retomando o ritmo frenético.
— Quando acordei, te procurei por todo lado. O pânico quase me venceu... até que vi um rastro de sangue fresco no corredor. Segui a dedução lógica de que você viria para cá.
Ele soltou uma risada fraca, que logo se transformou em uma tosse seca. — Boa nos detalhes, como sempre. Logo vai ser uma detetive melhor do que eu.
Sofia não sorriu. Ela sentiu um aperto físico no peito, como se a gravidade na sala tivesse aumentado. O ar parecia pesado, definitivo, carregado de uma eletricidade estática que arrepiava a nuca.
— Pai... — ela se desencostou da porta, arrastando a perna ferida, o som de seus passos ecoando metálico e solitário. — Em nenhum dos loops até agora você falou assim comigo sem motivos. E sei que agora não vai ser uma exceção. Para de fazer rodeios. — Ela parou atrás dele, a respiração presa. — O que você está fazendo?
Danael suspirou, o som de um homem que carrega o peso do mundo. Ele parou de digitar. O silêncio voltou, mais alto do que antes. Ele girou a cadeira devagar. Com um gesto suave, quase cerimonial, chamou-a para perto.
— Sente-se aqui, Sophi.
Ele apontou para uma caixa de metal caída ao lado dele. Sofia obedeceu, sentindo-se subitamente minúscula, uma criança novamente diante do olhar daquele homem. Danael segurou as mãos da filha; o choque térmico foi imediato — as dela, geladas pelo medo; as dele, quentes de febre e sangue.
— Eu realmente sinto muito — começou ele, a voz baixando um tom, tornando a conversa íntima, excluindo o universo ao redor. Ele olhava no fundo dos olhos dela, decorando cada detalhe. — Sinto muito por não ter estado com você.
— De novo isso? — Sofia balançou a cabeça com veemência, as lágrimas quentes começando a transbordar, desenhando caminhos limpos em seu rosto sujo. — Não precisa ficar voltando nisso. Está tudo bem! E mesmo que você diga que não estava... todas as vezes, em todas as linhas do tempo, você estava lá! Sempre que eu precisei, sempre que eu procurei. Se em algum loop você não estava, foi porque eu evitei te encontrar para te proteger!
Danael apertou as mãos dela com firmeza, ancorando-a, interrompendo o fluxo de palavras desesperadas. — Não é isso, garota. Não é só por agora.
Ele soltou uma das mãos e, com o polegar trêmulo, limpou uma mancha de fuligem na bochecha dela. O toque era áspero, mas de uma ternura devastadora.
— Me desculpe por não estar lá de verdade para perceber o quanto você havia crescido. Como você se tornou essa mulher forte, determinada e incrível que eu estou vendo agora. — Os olhos dele brilharam, úmidos. — Você passou por tudo isso... voltou no tempo, enfrentou o inferno... só para me proteger. Para proteger a todos desse navio.
A voz dele embargou, quebrando na garganta. — Eu simplesmente não tenho palavras para dizer o quão orgulhoso eu estou de ser seu pai.
Sofia vacilou. O coração dela falhou uma batida. Ela abriu a boca para perguntar, mas a resposta não precisava ser dita; estava estampada na resignação pacífica do rosto dele. O entendimento a atingiu como um soco físico no estômago, tirando-lhe o ar.
— Por que...? — ela sussurrou, a voz quebrando em mil pedaços. — Por que isso agora? Dessa vez eles venceram! Como o Drake prometeu, eles conseguiram! Ninguém morreu para o Avatar. Os passageiros foram salvos. Então... por quê? Por que você tem que morrer de novo?!
Danael desviou o olhar para o monitor central. Uma barra de progresso vermelha pulsava lentamente, como um batimento cardíaco moribundo: ENERGIA CRÍTICA.
— Você sabe disso, Sophi. A nave já está totalmente sem energia. Ela foi muito além do máximo suportado. O Drake usou a reserva vital do núcleo para teleportar os civis. Agora, sem ele sustentando o sistema, a nave não tem mais energia nem para manter o suporte de vida. — Ele fez uma pausa, olhando para o teto escuro. — O oxigênio vai acabar em minutos. O frio do espaço vai entrar e congelar tudo.
Ele apontou para um botão protegido por uma capa de acrílico no console. — Se não formos embora agora, todos morreremos aqui. No entanto... o sistema automático pifou. Para ativar o teleporte de emergência para o grupo restante, alguém tem que fazer o bypass manual e segurar o disjuntor de energia.
A realidade desabou sobre Sofia. — E quando o teleporte for usado... todo o restante de energia será consumido.
— Exato. — Danael sorriu, um sorriso triste e corajoso. — O suporte de vida desliga.
— Mas desse jeito você vai morrer! — Sofia gritou, a dor explodindo em fúria. Ela levantou-se abruptamente, a caixa de metal tombando com o barulho, e se jogou nos braços dele. — ISSO NÃO É JUSTO!
Danael a abraçou com toda a força que lhe restava, sentindo o corpo da filha soluçar violentamente contra o seu peito ferido. Ele enterrou o rosto nos cabelos dela, inalando o cheiro dela uma última vez, fechando os olhos para eternizar aquele segundo.
— Sophi... — Ele usou o apelido de infância. O som fez a espinha dela arrepiar. — Todos aqui fizeram o máximo para salvar o nosso futuro. O futuro da minha filha. Como pai... eu não posso permitir que pessoas que fizeram tanto por alguém que eu amo morram aqui. É minha responsabilidade retribuir.
— Mas eu também não quero te ver morrer! Eu fiz tudo isso por você! — O grito dela ecoou, ricocheteando nas paredes frias da ponte.
— Escuta, Sophi.
Ele a afastou gentilmente, segurando-a pelos ombros, forçando-a a olhar para ele. O rosto dela estava banhado em lágrimas, contorcido em agonia.
— Eu sei que você não quer. Mas, infelizmente, assim é a vida. Para os pais, é natural acabarmos morrendo antes dos filhos. É a ordem natural das coisas. É assim que sabemos que fizemos um bom trabalho: quando deixamos alguém melhor que nós para trás. — Ele sorriu, e uma lágrima solitária escorreu pelo rosto dele. — Você já cresceu tanto... e ainda tem tanto para crescer.
— Mas se você morrer... não vai ter adiantado de nada! — ela soluçou, quase sem voz.
— Nunca fale isso.
A voz de Danael endureceu, tornando-se firme, quase severa, mas seus olhos transbordavam amor.
— O seu sacrifício não foi em vão. Eu quero que sempre se lembre disso. Graças a você, milhares de pessoas escaparam. Graças a você, seus amigos sobreviveram. Graças a você, o mundo tem um futuro amanhã.
A severidade se dissolveu em uma paz absoluta.
— E está tudo bem. Até porque... se a maldição do tempo fosse real e eu vivesse à custa de você ter uma vida de sofrimentos, eu nunca iria me perdoar. Mas agora... eu posso estar aqui. Posso viver esses minutos a mais que você me concedeu para poder me despedir da mulher que você se tornou.
Ele se inclinou e beijou a testa dela. Um beijo demorado, uma bênção final.
— Eu sei que você sempre quis ver o mundo. Conhecer, explorar, investigar mistérios. Mas, para me acompanhar, para viver junto comigo, você largou tudo isso. Agora... você não precisa mais se conter.
Ele a soltou. O calor das mãos dele desapareceu, deixando-a com frio. Danael girou para o console e colocou a mão sobre o botão.
— Viaje, Sofia. Conheça o mundo. Viva. E eu prometo que um dia iremos nos reencontrar. E quando isso acontecer... tudo que eu te peço é que tenha boas histórias para me contar.
Sofia avançou para segurá-lo, mas um som hidráulico sibilou. Uma barreira de vidro de segurança subiu do chão entre eles com velocidade brutal, selando hermeticamente Danael na cabine de comando.
— PAI! NÃO!
O impacto das mãos dela contra o vidro foi surdo.
— Eu não sei se vou aguentar viver sozinha! — ela gritou, a voz abafada pela barreira espessa. Ela esmurrou o vidro, impotente.
Do outro lado, no silêncio da cabine isolada, Danael sorriu. Sua mão pairava sobre a tecla final, trêmula, mas decidida.
— Você vai, sim. — Ele disse, sem som, apenas movendo os lábios. — Pois eu sei que você é mais forte do que qualquer um de nós.
Ele apertou o botão.
Nos andares de baixo, o zumbido da energia residual cresceu até se tornar um rugido. Uma luz azul etérea começou a brilhar, subindo pelas paredes.
Nyan terminava de enfaixar o braço de Luck com tiras de tecido rasgado; o rapaz recuperava a consciência, grogue, os olhos vidrados refletindo a luz azul.
Mio, com as pernas trêmulas, carregava Beatrice nas costas. A pequena, mesmo exausta, apontava para Anna, indicando onde o corpo inerte de Dante estava caído, garantindo com gestos fracos que ninguém fosse deixado para trás.
Luana olhava para a lente estilhaçada de sua câmera com profunda tristeza, mas virou-se para Remi, gritando sobre o zumbido: — Tenho certeza que consegui transmitir a melhor parte!
Remi apenas suspirava, descrente.
Sora chorava silenciosamente, as lágrimas caindo sobre o rosto pálido de Leon. Ela segurava a mão fria dele contra o próprio rosto.
Kurokawa e Miguel, com esforço hercúleo, retiravam o corpo de Chuya dos destroços; a mão do fumante ainda segurava seu maço de cigarros amassado, apertando-o como se fosse um talismã sagrado.
Um por um, a luz azul os envolveu, dissolvendo a matéria em partículas de luz. Eles olharam para cima, sentindo o Éter puxá-los, uma força irresistível.
Na sala de comando, Sofia encostou a testa no vidro frio. Seus olhos estavam fixos nos de seu pai. — Adeus, pai.
Danael, do outro lado, apenas acenou. Uma despedida simples para um amor complexo.
ZUUUUUM.
O ar se expandiu e contraiu violentamente. Em um instante, a sala estava cheia de vida e dor. No outro, estava vazia.
Danael ficou sozinho. O silêncio do Titanic, agora absoluto, era ensurdecedor. As luzes do painel piscaram uma última vez, uma despedida elétrica, e morreram. O zumbido reconfortante do suporte de vida cessou, substituído pelo estalo do metal esfriando. A escuridão total tomou conta, densa e pesada, exceto pela luz pálida e indiferente das estrelas que entrava pela grande janela frontal.
Danael recostou-se na cadeira, o corpo finalmente relaxando, a dor desaparecendo à medida que a adrenalina sumia. Com movimentos lentos, pegou o cigarro que Chuya lhe dera — agora apagado e torto — e o colocou entre os lábios, apenas pelo conforto do hábito, sentindo o gosto de tabaco e fim.
Ele olhou para o cosmos infinito lá fora, para a beleza fria do abismo. — Boa viagem, filha.
O Titanic, agora um túmulo de metal flutuante e sem vida, seguiu seu curso silencioso, navegando lentamente para a escuridão eterna.
Parte 11
O mundo girou, distorceu-se em um vórtice de cores nauseantes e, com um baque seco que reverberou nos ossos, solidificou-se.
O grupo materializou-se em uma plataforma de pouso de concreto. O impacto sensorial foi imediato e avassalador: o ar era limpo, dolorosamente fresco, sem o cheiro metálico de ozônio, sangue ou Éter queimado, mas o ambiente parecia pesar toneladas. A gravidade natural do planeta puxava seus corpos exaustos para baixo, como se a própria terra quisesse abraçá-los e nunca mais soltar.
Eles estavam além do limite. Luck desabou assim que seus pés tocaram o solo, os joelhos cedendo sem protesto. Kurokawa, com os braços tremendo pelo esforço sobre-humano, segurava Anna, que dormia um sono profundo e sem sonhos. Sofia caiu de joelhos, as mãos espalmadas no chão áspero, as lágrimas ainda quentes traçando caminhos em seu rosto sujo de fuligem. O luto por seu pai não era apenas uma tristeza; era uma mão física esmagando seu coração, dificultando cada respiração.
Mas não houve o silêncio respeitoso que a dor pedia. Houve um estalo elétrico. E então, o caos.
— ELES CHEGARAM!
Uma muralha de flashes estourou como uma tempestade de relâmpagos estroboscópicos, cegando os sobreviventes que ainda tentavam ajustar a visão. Centenas de repórteres, drones de notícias zumbindo como enxames de vespas mecânicas e jornalistas frenéticos se acotovelavam contra uma barreira mágica translúcida que tremeluzia com a pressão da multidão.
O som era uma onda física de gritos sobrepostos:
— O que aconteceu com o Astreus?! — gritou uma voz estridente, furando o bloqueio.
— Aquele garoto de cabelos pretos... ele é o Dante Scarlune?! — berrou outro, apontando uma lente telescópica invasiva.
— É verdade que Drake Dampier sequestrou o navio?!
— Como todo o incidente começou?!
O caos era ensurdecedor, uma cacofonia que fazia as cabeças dos sobreviventes latejarem em agonia.
À frente do grupo, tentando protegê-los como um escudo humano frágil, estava o Diretor da Luminary Labs. Ele estava pálido, encolhido, suando frio diante do desastre de relações públicas, parecendo um rato encurralado.
Ao lado dele, porém, erguia-se uma figura que emanava uma calma absoluta, um ponto de silêncio no meio do furacão.
Um homem alto, impecável em um terno vitoriano roxo de corte perfeito, as mãos enluvadas descansando sobre uma bengala de prata polida. Seus cabelos brancos longos caíam como cascatas de seda, e seus olhos roxos brilhavam com uma inteligência antiga, parecendo ver através da alma de todos.
Aleister Crowley, o Diretor da Academia Babylon.
Os repórteres gritavam, exigindo respostas, famintos pela tragédia como abutres. Aleister suspirou, um som de tédio quase teatral, mas que carregava um peso magnético. Ele levou o dedo indicador longo e elegante aos lábios.
— Shh.
Não foi um pedido. Foi uma ordem à própria realidade.
Uma onda de choque de magia roxa, suave, mas absoluta, varreu a multidão, expandindo-se a partir dele. Foi instantâneo. As bocas dos repórteres continuavam se movendo, os rostos contorcidos em gritos, os drones continuavam zumbindo visualmente, mas nenhum som saía. O vácuo sonoro caiu sobre a praça, pesado e antinatural. O único som restante era o vento roçando a capa de Aleister.
— Obrigado — disse Aleister. Sua voz não precisava ser alta; ela era a única coisa audível no mundo, ressoando com clareza cristalina e uma polidez aterrorizante. — Como eu havia dito antes... Após uma negociação rápida e agressiva com a Luminary Labs, tanto as investigações quanto a gestão desta crise ficarão sob a jurisdição de Babylon.
Ele sorriu para as câmeras silenciosas, um sorriso que curvava os lábios, mas não chegava aos olhos frios e calculistas.
— Portanto, não adianta tentar fazer essas pobres crianças responderem a perguntas. Eles viram o inferno hoje. Eu os levarei para Babylon, onde receberão o melhor tratamento que a magitecnologia pode oferecer.
Ele girou nos calcanhares, o terno balançando com elegância, e olhou para o grupo de sobreviventes feridos e quebrados.
— E farei uma oferta pessoal: aqueles que sobreviveram a este incidente e ainda não são estudantes... estão convidados a se juntar à minha Academia. Vocês provaram seu valor no fogo.
Aleister caminhou até onde Dante estava sendo sustentado por uma Mio exausta. Ele analisou o rapaz com curiosidade clínica, como quem examina um espécime raro.
— Quanto à curiosidade sobre o "Astro" da transmissão... Direi apenas isto para a imprensa: ele é um Scarlune de vinte anos atrás. Um antigo aluno nosso. O que faz dele minha responsabilidade e meu segredo.
Ele se virou para dar o comando de partida, quando um som aterrorizante — como o tecido do universo sendo rasgado violentamente — ecoou nos céus, rompendo até mesmo o feitiço de silêncio.
Todos, sobreviventes e repórteres mudos, olharam para cima.
No espaço sideral, visível até da superfície devido à magnitude colossal, um buraco surgiu no firmamento. Mas não era a escuridão de um buraco negro. Era um Buraco Branco, uma distorção espacial violenta que vomitava luz em vez de absorvê-la.
O buraco engoliu o Titanic. O navio, que estava à deriva como um cadáver de metal, foi sugado para dentro daquele túnel de luz ofuscante. Em um piscar de olhos, a estrutura quilométrica desapareceu sem deixar rastros, como se nunca tivesse existido.
— O navio... sumiu? — murmurou Kurokawa, descrente, protegendo os olhos da luz.
Aleister franziu a testa ligeiramente, o único sinal de surpresa genuína. Ele ergueu a mão, conjurando um espelho mágico no ar para ampliar a visão da órbita.
— Interessante... — Ele se virou para o homem ao seu lado. — Pelo menos todos os que faltavam foram evacuados antes disso, correto? — perguntou Aleister ao Diretor da Luminary.
O Diretor balançou a cabeça, os lábios trêmulos.
— Não... — A voz dele falhou. — Um dos membros da segurança, o detetive Danael... ele ficou para trás.
Um soluço estrangulado escapou de Sofia ao ouvir o nome do pai. Ela se encolheu, abraçando o próprio corpo, como se tentasse se segurar para não se desfazer.
— Além disso — continuou o Diretor, baixando os olhos —, a streamer Luana, a imediata Remi Stuart e o próprio Drake Dampier... nenhum deles está aqui.
O silêncio sobrecarregou o grupo, tornando-se sufocante. Kurokawa, Mio, Nyan e Sora — todas ainda conscientes e capazes de se mover — olhavam ao redor, confusas. Luana e Remi estavam com eles até pouco tempo; a questão agora era o motivo do desaparecimento de ambas.
Aleister observou o céu vazio por um momento longo. Um brilho de reconhecimento, quase imperceptível, passou por seus olhos roxos. O canto de sua boca se curvou minimamente em divertimento.
— Imprevistos sempre acontecem.
Ele bateu a bengala no chão com força.
CLACK.
Um pentagrama gigante brilhou em violeta sob os pés dos sobreviventes. O mundo girou novamente, e eles desapareceram da praça pública, deixando para trás apenas o eco de sua presença e centenas de repórteres mudos e confusos.
O cenário mudou instantaneamente para o branco clínico e a pulsação suave de máquinas de suporte à vida. Eles reapareceram no centro médico de alta tecnologia da escola. O caos organizado tomou conta imediatamente. Equipes de cura com vestes imaculadas correram para atender Luck, Dante e Chuya. Macas flutuantes zumbiam pelo ar, levando os feridos críticos para as alas de trauma.
Aleister permaneceu parado, observando Dante sendo levado às pressas.
"Bem-vindo de volta, Dante Scarlune..." — pensou o Diretor, seus olhos estreitando-se. — "Ou devo dizer... Astreus da Possibilidade?"
Seu olhar então varreu a sala e caiu sobre Sofia. A garota estava sentada, isolada em sua própria bolha de miséria, abraçando os joelhos contra o peito, devastada.
Aleister caminhou até ela, os passos silenciosos no piso estéril. Com um movimento suave e preciso, ele estendeu a mão enluvada e retirou algo que estava preso no cabelo verde dela, camuflado por um feitiço de ocultação tão sutil que ninguém mais havia notado.
Era um pequeno avião de papel. Mas ele estava invisível, tremeluzindo sob uma fina camada de Éter.
— Sabe de uma coisa curiosa, garota? — Aleister sussurrou, sentando-se ao lado dela, ignorando o caos da enfermaria ao redor como se estivessem em um chá da tarde.
Sofia nem levantou a cabeça. Ela olhava para o chão, perdida no abismo.
— No passado... — continuou ele, girando o avião de papel invisível entre os dedos longos. — Drake Dampier era chamado de "Rei dos Mares". Mas isso não era apenas por sua força bruta ou sua frota. Era porque ele parecia reinar sobre a própria geografia do oceano.
A menção ao nome de Drake fez Sofia levantar o rosto lentamente. Seus olhos inchados e vermelhos tentaram focar no Mago.
— Enquanto para a maioria viajar pelos oceanos infinitos de Hortus Parvus é loucura... Drake tinha a capacidade milagrosa de desaparecer em um ponto e reaparecer em outro, mundos de distância. Diziam que ele "furava" o mar. Criava buracos na realidade que conectavam águas distantes. Atalhos impossíveis.
Ele parou de girar o papel e olhou para o teto, como se pudesse ver através do concreto, direto para o espaço onde o fenômeno ocorrera.
— Engraçado... Como aquele buraco branco que sugou o Titanic parecia exatamente com um desses "atalhos" dele, não é?
Ele colocou o avião de papel no colo de Sofia delicadamente e se levantou, ajeitando as lapelas do terno.
— Descanse, criança. As aulas começam em breve.
Aleister se afastou, rindo baixinho, deixando Sofia sozinha com o objeto invisível lentamente tornando-se visível em seu colo.
Com as mãos trêmulas, o coração batendo descompassado na garganta, Sofia pegou o avião.
— Essa é a habilidade do meu pai... — ela sussurrou, a voz rouca. — Escrita Automática em papel.
Mas algo estava errado. A aura de seu pai era Azul. O papel em suas mãos estava brilhando em um verde-esmeralda intenso.
Ela desdobrou o papel com urgência desesperada. Dentro, não havia um testamento, nem palavras de amor eterno ou despedidas finais. Havia uma mensagem escrita com uma caligrafia apressada, garranchosa. Logo abaixo, um desenho tosco, feito a caneta, de uma caveirinha mostrando a língua.
A mensagem tinha apenas uma frase:
"Regra Número 1: Piratas mentem."
Sofia olhou para a mensagem, os olhos arregalados. Depois olhou para o teto da enfermaria. As lágrimas voltaram, transbordando. Mas, dessa vez, não queimavam como ácido. Um calor avassalador preencheu seu peito, expulsando o frio do luto, fazendo-a puxar o ar com força pela primeira vez em horas.
Ela apertou o papel amassado contra o coração, fechou os olhos e, pela primeira vez em incontáveis loops temporais de sofrimento, sorriu verdadeiramente. Um sorriso trêmulo, incrédulo e cheio de esperança.



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