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The Fall of the Stars: Capítulo 3.5 - Máscaras

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 7 de dez de 2025
  • 47 min de leitura

Volume 2: Enigma Parte 5

Área de Segurança Máxima (7º Andar)

O silêncio não era paz, mas a ausência ensurdecedora do som, sublinhada apenas pelo gotejar lento do que parecia ser metal derretido. O chão do 7º andar, agora uma mistura de Obsidium queimado e placas de armadura derretidas, cheirava a ozônio, sangue e desgraça.

Então, veio o rompimento do silêncio e da matéria.

ZUUUM.

A onda de choque de Éter verde-esmeralda preencheu o lugar. Ela irrompeu dos níveis inferiores, atravessando reforços de titânio e explodindo na Área de Segurança Máxima. O cenário de destruição foi banhado em uma luz verde, fazendo as sombras dançarem como demônios.

Kali, parada no epicentro dos destroços, não se moveu. Sua postura, rígida e esguia, parecia desafiar a lei da gravidade em meio ao caos. Seus olhos, carmesins e frios, não demonstravam espanto, apenas analisavam a frequência vibratória do Éter invasor.

— Uma Moeda do Caos foi usada... — Ela murmurou, o tom desprovido de qualquer calor. Seus lábios mal se moveram. — O navio, de fato, abandonou a rota.

Ela balançou a katana uma última vez, o movimento rápido e preciso como o chicote de um mestre. O sangue negro de Mordred voou em gotas minúsculas, evaporando no ar etéreo. A lâmina retornou à bainha com um clique suave, seco e final.

— Não faz mais diferença. Minhas ordens primárias estão encerradas.

Kali se virou para encarar o Cofre de Obsidium, uma fortaleza atrás da destruição. Não havia fechadura que pudesse detê-la, apenas a precisão de um único corte. Em um flash, a liga maciça da porta foi atravessada; a seção superior deslizou diagonalmente para a direita e despencou no chão com um KRRRUUUM que reverberou pela espinha dorsal do navio.

Do interior da escuridão, uma fumaça roxa começou a vazar, serpenteando para fora. Não era fumaça comum; era Éter denso, quase líquido, com um peso opressor, carregando o aroma de incenso antigo e uma decadência intoxicante.

Lentamente, uma figura começou a se levantar. Os sons eram viscerais: ossos estalando alto, articulações rangendo, como alguém que se desembrulha de uma mortalha de décadas. Era um despertar antinatural, doloroso e, ao mesmo tempo, prazeroso.

— Ahhh... O ar... — Um gemido arrastado, mas carregado de uma profunda satisfação, ecoou. — Finalmente... um pouco de liberdade para essa alma velha.

O homem saltou da cela com uma agilidade surpreendente, sem o menor vestígio da rigidez de um sono prolongado. Ele possuía longos cabelos pretos e desgrenhados, barba espessa, e roupas de monge esfarrapadas que pareciam absorver a luz. No entanto, o que chocava era seu rosto: uma jovialidade bizarra e atemporal, em contraste com a selvageria de seus cabelos.

O sorriso que ele abriu era paradoxalmente carismático e aterrorizante. O Éter roxo que irradiava era palpavelmente distorcido, uma aura de pura loucura e corrupção que deveria provocar repulsa. E, no entanto, seu olhar era magnético, prometendo segredos e prazeres proibidos. Era o tipo de monstro que, com um aceno, faria a vítima caminhar alegremente para ser devorada.

Kali ignorou completamente o teatro. Ela já estava dando o primeiro passo para ir embora, a expressão de quem havia cumprido a tarefa e não tolerava atrasos.

Tap. Tap. Tap.

O som agudo e rítmico dos pés do homem batendo no metal do chão foi o único aviso. Em um piscar de olhos — rápido demais para ser visto, lento demais para ser teletransporte —, o homem desapareceu e reapareceu na frente de Kali, bloqueando seu caminho.

Com uma delicadeza exagerada, que parecia uma zombaria, ele pegou a mão enluvada dela. — Ah, sinto muito, minha Princesa. Não é do feitio de Grigori Rasputin deixar as donzelas esperando.

Ele beijou o dorso da luva com um estalo audível. Ao erguer os olhos, ele encontrou um rosto contorcido em puro e gélido desgosto, mais afiado do que qualquer lâmina.

— Acredito que eu não preciso explicar por que estou aqui — disse Kali, puxando a mão de volta com violência, como se tivesse tocado em lixo.

Rasputin riu, endireitando a postura e juntando as mãos atrás das costas como um acadêmico. — Não, não. Niklaus foi muito específico nos sonhos. O Grande Plano está em movimento. E este, se não me engano, é o maravilhoso... Titanic?

— Na realidade, infelizmente, as coisas saíram dos trilhos — informou Kali, seca. — Parece que outra força inesperada se envolveu, e agora os planos devem ter sido alterados. O Éter verde é prova disso.

Rasputin deu um pequeno sorriso compreensivo, acariciando a barba desgrenhada com a ponta dos dedos. — É a natureza do Éter, não é? Sempre trazendo o caos. — Ele analisava o Éter ao redor das paredes, sem demonstrar qualquer sinal de que estava impressionado. — Todo grande plano deve contar com medidas de contingência. E este velho deve imaginar que nós somos essas medidas. Já faz muito tempo que eu não vejo nada fora daquela odiosa jaula... — Seus olhos brilharam. — Estou muito contente com a minha libertação. Então, não vejo problema algum em dar uma mãozinha...

Ele começou a expandir sua aura roxa, uma nuvem opressora que parecia dobrar a luz ao redor, pronto para causar uma destruição ainda maior. Kali levantou a mão, cortando o gesto dele como um raio. — Não. Não se envolva.

Rasputin piscou, a nuvem roxa diminuindo de imediato, substituída por uma confusão intrigada. — Perdão?

— Você é um novato. Não sabe como as coisas funcionam aqui — disse Kali, voltando a caminhar em direção à saída, ignorando o homem parado. — Então, deixe-me esclarecer. Dentro da Horizon, existem quatro Regras Internas. Se quebrá-las, você morre.

Ela não hesitou em dizer aquilo na frente dele. Rasputin, intrigado, começou a caminhar ao lado dela, com as mãos nas costas e um sorriso travesso. — Oh? Regras de conduta. — Ele parecia agora um aluno travesso e ansioso. — Então as esclareça para este velho, por favor.

Kali ergueu um dedo, sem olhar para ele. — Primeira Regra: É proibido lutar contra um companheiro com a intenção de matar de verdade.

Rasputin sorriu largamente. — "De matar de verdade", é? — Ele rapidamente entendeu a nuance. — "Então surras amigáveis e desmembramentos não letais são permitidos." — Que ambiente de trabalho saudável.

Kali ergueu o segundo dedo. — Segunda Regra: Não investigue o passado dos outros membros. O passado de qualquer um é fora dos limites, a menos que o próprio membro decida te contar.

— Fácil — concordou Rasputin, balançando a cabeça. — Este velho não é alguém curioso a este ponto. Segredos são o tempero da vida.

— Terceira Regra: — Kali parou de novo, e desta vez olhou diretamente em seus olhos, sua voz baixa e cheia de ameaça fria. — A menos que seu companheiro peça ajuda explicitamente, é terminantemente proibido roubar a presa de outra pessoa ou interferir na missão dela.

Rasputin levou a mão ao queixo, entendendo. — Ah... Então é esse o motivo para não nos envolvermos no caos lá fora. O Avatar e os invasores são a "presa" de outra pessoa neste momento.

— Exato — confirmou Kali, retomando a marcha. — Minha missão acabou quando libertei você. O resto da operação, seja a captura do Avatar ou a luta contra os invasores, não é problema nosso enquanto ninguém pedir ajuda. Nós seremos apenas observadores.

Eles continuaram pelos corredores destruídos, a figura selvagem de Rasputin e a precisão letal de Kali formando um contraste chocante.

— Verdade. E qual seria a Quarta Regra? — perguntou Rasputin, sua voz voltando ao tom de monge curioso.

Kali parou por um segundo na porta de saída. Ela o olhou de cima a baixo, sua análise pesando cada fibra de seu Éter roxo, julgando sua dignidade para a informação. — Não é importante agora. Uma outra hora eu irei contar.

Rasputin deu de ombros, sem se ofender. A recusa apenas aumentava seu interesse. — Justo. Mistérios para depois.

De repente, enquanto passavam pela cratera da batalha anterior, Rasputin parou abruptamente. Seus olhos pousaram sobre o corpo bissectado de Mordred. A mesma havia sido cortada ao meio com uma precisão cirúrgica, mas brutal.

Ele assobiou, impressionado. O olhar dele sobre o cadáver da Cavaleira era antigo, carregado com a memória de séculos. — Ora, ora. Um trabalho verdadeiramente lindo.

Ele se virou para Kali. — Um aviso, senhorita, vindo desse velho cheio de experiência... Os imortais e aqueles que reencarnam costumam ser extremamente rancorosos e vingativos.

Kali parou. Ela olhou para o corpo de Mordred uma última vez, e o vazio em seus olhos era absoluto. Não havia medo, nem arrependimento, nem mesmo o vislumbre de respeito pela lenda que jazia ali. — Não dou a mínima.

Com isso, a Princesa da Ruína desapareceu nas sombras do corredor, seguida pelo Monge Louco, deixando para trás apenas o cadáver de uma lenda e o cheiro persistente de Éter e destruição.

Parte 6

Nos Destroços Fumegantes do Cassino Royale

O ar não apenas tremulava; ele gemia, distorcido como uma miragem infernal e crepitando com eletricidade estática. O cheiro de metal fundido e quartzo queimado era esmagador, fruto do calor insano que irradiava de Adam. Levy era um borrão branco, uma tempestade de velocidade e precisão cirúrgica. Adam, no entanto, era o Caos encarnado, rindo alto enquanto se defendia de forma desleixada, sua temperatura corporal subindo em uma curva exponencial de entropia.

A barreira azul turquesa de Yuri, que continha aquele apocalipse particular, gemia e estalava, soando como vidro prestes a ceder à pressão das profundezas. Do lado de fora, no corredor adjacente, Yuri limpou o suor da testa com as costas da mão, seus olhos arregalados de pavor refletindo a luz azul pulsante.

— Kaiser... prepare-se — alertou ela, a voz tensa e quase quebrada pelo esforço. — A temperatura lá dentro atingiu o ponto crítico. A barreira está colapsando. Não vou conseguir manter por muito tempo.

Lá dentro, Adam recuou com um salto para trás, criando um vácuo súbito na batalha. Levy estancou o movimento, assumindo uma postura defensiva, seu Éter Carmesim pulsando, pronta para calcular um recuo estratégico. Mas, ao encarar os olhos incandescentes do Dragão, ela não encontrou hesitação. Encontrou o êxtase da loucura pura.

— Ah... — O suspiro dele foi vapor quente que se dissipou em segundos. — Já fazia eras que eu não sentia esse tipo de prazer! — Adam rugiu, abrindo os braços num gesto teatral, como se abraçasse a própria destruição. — Sinto que nossa dança está no fim, seja pelo colapso desta estrutura ou pela interferência dos seus aliados. Mas, em gratidão a essa felicidade que você me concedeu, demonstrarei minha honra dracônica.

Ele juntou as mãos num gesto de oração profana, e o inferno ao redor obedeceu. As chamas, o magma e a destruição espiralavam e condensavam-se em matéria sólida.

— Eu a presentearei, pela primeira vez, com um golpe verdadeiro.

Um machado colossal, forjado de plasma estelar e chamas laranja-esbranquiçadas, materializou-se em suas mãos. O calor era absoluto; o chão de mármore abaixo da lâmina não apenas derreteu, ele sublimou instantaneamente em fumaça.

— Além disso — continuou Adam, um sorriso sádico rasgando seu rosto —, saiba que este machado opera sob uma Restrição Autoimposta. Para que ele atinja o ápice de seu poder, sou obrigado a revelar seu funcionamento e permitir que meu inimigo desfira um golpe direto, sem defesa alguma.

Ele abriu a guarda completamente, se desfazendo de sua aura e expondo o peito coberto de escamas, oferecendo o coração.

— Ou seja: esta é sua única chance de me matar, Caçadora Branca.

Levy recuou um passo, o instinto de sobrevivência gritando perigo. Do lado de fora, Kaiser bateu a mão na testa, gritando: — Mas que loucura é essa?! Ele venceria pela resistência bruta! Por que recorrer a uma aposta tão suicida?!

— Eu avisei, Kaiser. Você não entende a lógica das batalhas de Éter — sussurrou Yuri, fascinada e aterrorizada. — No combate de Éter, o risco é o combustível do poder. Esse é o princípio fundamental da Restrição. Aqueles dispostos a apostar a própria vida são os que verdadeiramente transcendem os limites da força.

A voz de Adam trovejou, mais pesada do que o ferro. — O decreto deste machado é simples: assim que a lâmina iniciar a descida, ela devorará todo o calor do campo de batalha e converterá todo o dano que sofri em um único vetor de aniquilação total.

O machado começou a pulsar, batendo como o coração de uma estrela prestes a virar supernova.

— Agora... ofereça seu melhor. Ou torne-se cinzas na história.

Levy estalou a língua, fria diante da fornalha. — Não precisa me dizer o óbvio.

O Éter Carmesim inundou sua perna direita, denso como sangue arterial, o cheiro de ozônio intensificando-se ao redor dela. Seus olhos vermelhos dissecaram a anatomia de Adam, mapeando as microfissuras imperceptíveis na armadura de escamas. Ela sabia: se a força fosse aplicada naquele ponto com precisão absoluta, o coração do dragão pararia.

Mas era uma aposta contra a morte. Se falhasse, a guilhotina de fogo desceria, apagando-a instantaneamente.

"A hesitação é a morte."

Levy flexionou os joelhos e o chão explodiu em um buraco negro sob a pressão. Ela disparou, rompendo a barreira do som, o ar se abrindo com um crack ensurdecedor.

— VAI! — berrou Kaiser.

Foi nesse milésimo de segundo que o destino reescreveu o roteiro.

ZUUUM.

A onda de Éter verde-esmeralda de Drake varreu o cassino, vindo dos níveis inferiores. O chão, o teto, o próprio ar — tudo foi banhado em esmeralda fantasmagórica. Yuri e Kaiser, ao verem a mudança de cor do mundo, não puderam evitar a distração.

Mas para Levy e Adam, completamente focados e concentrados na linha tênue entre a vida e a morte, a recoloração do mundo não passou de um pequeno e trivial detalhe. Levy já era uma flecha disparada.

— Presa Dupla: Julgamento dos Lobos Gêmeos!

O primeiro impacto foi tectônico. A sola do pé direito de Levy, reforçada por Éter, afundou no abdômen desprotegido de Adam, encontrando a falha mapeada na armadura draconiana.

— ARGH!

Adam cambaleou, sentindo a dor — real, aguda, lacerante, a primeira dor significativa que sentira. Mas, ao invés de pânico, seus olhos brilharam com gratidão selvagem. Sangue fervente escorreu por seus dentes.

— MUITO BEM, CAÇADORA BRANCA! É ASSIM QUE UMA BATALHA DEVE SER!

As chamas do machado rugiram, iniciando a descida do juízo final.

Mas a dança de Levy não havia terminado. Usando o corpo dele como eixo, ela girou no ar, convertendo a inércia em violência pura, e desferiu o segundo golpe. O calcanhar dela colidiu com a têmpora direita de Adam com a força de um meteoro.

O objetivo não era perfurar. Era reverberar o cérebro dentro daquele crânio indestrutível, desligar a consciência antes que ele pudesse finalizar o ataque. Com toda sua força aplicada naquele segundo chute, o corpo colossal de Adam foi arremessado como um boneco quebrado, atravessando parede após parede, demolindo a arquitetura do navio até ser soterrado em um salão distante.

...

Silêncio. Poeira. Apenas o crepitar moribundo da barreira de Yuri restava.

— AINDA NÃO ACABOU!

Adam eclodiu dos escombros em um pilar de fogo, a fúria e a empolgação misturadas em um rugido primordial. Ele saltou de volta ao cassino em um único impulso que desafiou a gravidade.

— Vamos lá, Caçadora!

Ele travou.

O cassino era um túmulo vazio. Levy, Yuri, Kaiser... todos haviam evaporado. Apenas ruínas fumegantes e o silêncio zombeteiro restavam.

— O quê...? — Adam girou, desorientado, o fogo em sua pele tremeluzindo. — Fugiram? Não... Aquela pirralha não tinha o cheiro da covardia. Ela estava pronta para morrer.

Ele franziu a testa, a mente enevoada pela concussão tentando processar a lógica. — Agora que percebo... Não houve impacto ao cruzar a barreira. Ela sumiu antes que eu fosse arremessado.

Um toque frio em seu braço.

Adam girou com violência homicida, o machado de chamas recriado por instinto, a lâmina buscando uma cabeça.

— Ei, calma aí. Sou eu.

A lâmina de plasma estancou a milímetros da jugular de Ceto. A garota-tubarão o encarava com olhos cheios de provocação, mascando seu pirulito com um crac rítmico e irritante.

Adam baixou a arma, mas sua aura continuava assassina. — Ceto, sua maldita! Foi você quem os escondeu?! Onde está a Caçadora Branca?! Nossa batalha ainda não foi concluída!

— Até parece que eu faria isso — respondeu Ceto, revirando os olhos. — Eu sigo as regras, sabia? Diferente de certo neandertal flamejante.

Adam inspirou fundo, o ar queimando em seus pulmões, tentando conter o coração que ainda batia no ritmo da guerra. — Então explique. O que aconteceu?

— Seu idiota... Ainda não percebeu, montanha de músculos? — Ceto apontou o pirulito para o ar brilhante. — Olhe ao redor. Sinta o gosto do ar.

Adam finalmente focou seus sentidos. O ambiente estava saturado, pesado com um Éter verde desconhecido que parecia cheirar a metal frio e menta. — Mas que merda é essa?

— Interferência Externa — diagnosticou Ceto. — Parece que alguém decidiu brincar e fez com que o Roteiro fosse alterado. Embora eu ainda não saiba como.

— E isso sequestrou minha presa?

— Sem dúvidas. Após essa aura se espalhar, vários passageiros foram teleportados à força, por motivos desconhecidos. Eu rastreei o fluxo. O Éter verde se comportou como um tsunami a partir de um epicentro.

Um sorriso predatório, cheio de dentes pontiagudos, rasgou o rosto de Adam. — Entendi... Então existe um "Ponto de Origem".

— Sim.

— Então me leve até lá. — Adam estalou os dedos. — Se esse desgraçado ousou interromper meu duelo, é bom que esteja pronto para assumir a responsabilidade.

Ele deu as costas para Ceto, seguindo o rastro de energia como um cão de caça.

— Eu esperava que você dissesse isso... — Ceto suspirou, o som de quem lida com uma criança problemática.

Assim que Adam deu o terceiro passo, os olhos de Ceto brilharam em vermelho. — E é exatamente por isso que vim. Um animal raivoso só atrapalharia o restante da missão.

O chão sólido ao redor de Adam liquefez-se instantaneamente em uma massa negra e borbulhante.

— Tubarões do Abismo.

Não era água comum. Era pressão líquida densa e escura. Dezenas de formas tubarõescas, feitas de água pressurizada capaz de cortar aço, saltaram do chão, cravando as presas na carne de Adam e o arrastando para baixo.

— SARDINHA MALDITA! — Adam rugiu, vaporizando as bestas aquáticas com os punhos. — O que pensa que está fazendo?! Isso é contra as regras!

— É, eu sei, é uma chatice — respondeu Ceto calmamente, seu pirulito em movimento. — Mas você quebrou uma regra interna ao tentar usar a Restrição no auge do poder sem autorização. E iria quebrar uma regra principal: "Proibido roubar os alvos e a missão de outra pessoa".

A sala inundou em segundos. A água subia, escura e pesada, sufocando as chamas de Adam com o peso do oceano.

— Deveria me agradecer — continuou Ceto, um sorriso cruel nos lábios. — Estou salvando você de ser executado pela lâmina de Kali. Considere isso um Game Over temporário.

— ISSO NÃO VAI FICAR ASSIM! — gorgolejou Adam, enquanto uma esfera de água pressurizada, fria como o fundo do mar, o engolia por completo.

A bolha de água colapsou sobre si mesma com um som abafado e final. POP. Adam desapareceu, tragado pelo abismo.

Ceto ficou sozinha nas ruínas encharcadas, o silêncio retornando, pontuado apenas pelo som de seu pirulito. — Ufa... Agora que despachei o problema incandescente para casa...

Ela caminhou até uma poça d'água límpida entre os destroços. Com um movimento sutil da mão, a tensão superficial da água parou, transformando-se em um espelho negro. A imagem que surgiu não era seu reflexo, mas uma janela para um lugar de escuridão e opulência.

Um homem estava sentado em um trono de pedra polida, usando o braço do trono para sustentar o queixo, o olhar perdido em tédio milenar.

Ceto curvou-se respeitosamente diante da poça, sua postura relaxada desaparecendo e dando lugar à sua frieza habitual. — Mestre Niklaus. Tenho atualizações críticas sobre o estado do navio e a localização dos alvos. O Roteiro precisa de ajuste. Aguardo suas ordens para a próxima jogada.

No mesmo instante, o teto da sala do trono se abriu em um vórtice de água salgada e escura. Adam despencou, encharcado, humilhado e furioso, aterrissando com um baque molhado e ensurdecedor aos pés de seu mestre.

Parte 7

O som da batalha de Drake e Lucia já era um eco distante de destruição, mas a tensão era palpável, como um arame farpado esticado entre o grupo. O cheiro de ozônio e metal retorcido pairava. As lâmpadas de emergência, piscando em um ritmo febril e inconsistente, criavam sombras distorcidas que pareciam engolir o fôlego de cada um.

Leon, correndo, olhava para trás a cada cinco passos, cerrando os dentes. O som de seus tênis no metal parecia um tambor de frustração.

— Droga! Não deveríamos ter fugido — rosnou ele, a voz baixa, mas carregada. — Se tivéssemos lutado juntos, teríamos uma chance maior de vitória!

— Você está louco?! — gritou Nyan, ainda ofegante, parando abruptamente para se apoiar na parede fria e úmida. — Aquela Gifted não era normal! Ela se transformou totalmente no elemento da sua habilidade! Isso não é fácil de fazer! E, mesmo assim, senti que a aura dela nem tremeu depois daquele uso todo de Éter. Ela é, no mínimo, uma especialista de Rank A Ouro! Contra esse tipo de monstro, não há nada que possamos fazer!

Leon parou bruscamente, o corpo tremendo de raiva. Ele fechou os punhos com tanta força que o som das unhas cravando na palma da mão foi um pequeno e seco estalo no meio do corredor silencioso.

— E o que está dizendo? Que deveríamos só desistir e fugir? — Ele sibilou. — Eu me recuso a aceitar uma estratégia covarde assim! Não foi para enfrentar esse tipo de situação que viramos Caçadores!

— Por favor, Leon... — Sora tentou acalmar a situação, mas sua voz mal passava de um sussurro trêmulo, forçado pela adrenalina. — Caçadores não são idiotas que saem lutando sem pensar. Eles também sabem escolher as batalhas. Aquela definitivamente não era a nossa.

Leon ignorou. O calor do orgulho e da frustração o impulsionava. Ele estava prestes a dar meia-volta e iniciar uma corrida suicida.

— Se você realmente planeja ir, garoto... eu não irei impedi-lo. — A voz de Danael cortou o ar, densa e fria como névoa em uma noite de inverno. O detetive continuava andando, lendo freneticamente o diário amarelado e gasto, cujas páginas farfalhavam. Ele só parou forçando o grupo a alcançá-lo. — Dito isso... se está de fato pensando em fazer isso para ser um "bom Caçador", saiba que está tomando a pior decisão de todas.

Leon virou-se para ele, o rosto contorcido de fúria, mas travou ao notar a calma quase sobrenatural do detetive.

— O que você sabe sobre isso?

Danael finalmente parou de ler e olhou para Leon por cima do ombro. Seus olhos estavam cansados e cheios de peso. Aquele olhar era a mais pura e inegável prova de experiência.

— Eu sei que um Caçador tem muito mais responsabilidades do que apenas vencer todas as lutas. Garantir a sobrevivência dos seus companheiros também se enquadra nisso, estou errado?

Leon travou, o ímpeto paralisado pela lógica implacável.

— Saiba que os perigos desse navio estão longe de acabar — continuou Danael, implacável, o olhar fixo. — Caso você saia agora, além de não poder garantir a própria vida, estará diminuindo drasticamente as chances de sobrevivência das suas companheiras. E tem mais: mesmo que volte, não conseguirá vencer aquela mulher. Diga-me: além de falhar no que deseja, também estará quebrando o princípio básico do que é ser um Caçador.

Ele ergueu o livro, gesticulando.

— Como eu disse, se este for o seu desejo, eu não vou impedi-lo. Mas te pergunto: é realmente esse tipo de Caçador que você quer ser?

Leon hesitou. Ele olhou para Sora e Nyan, cujas faces estavam pálidas. Fechou o punho uma última vez, engoliu o orgulho até sentir o gosto amargo na boca e voltou a correr com o grupo.

— Vamos logo.

Eles continuaram em direção à Sala de Monitores pelo novo caminho. O silêncio era pesado, apenas quebrado pelos passos apressados e pelo farfalhar das páginas do diário na mão de Danael. O livro, envolto em couro escuro e desgastado, parecia incrivelmente antigo.

— Afinal... — Sora quebrou o gelo, incapaz de conter a curiosidade. — O que é esse livro que o pirata Drake deixou com o senhor?

Danael fechou o diário com um estalo seco. Sua expressão estava vazia, assombrada; o peso da leitura era visível.

— É o diário da minha filha.

— O quê? — Nyan piscou, confusa. — Por que ele estava com isso?

— Essa não é a pergunta importante. — A voz de Anna interrompeu a todos. Ela caminhava um pouco atrás, com seu sorriso maquiavélico habitual, a expressão de quem sabia o final da piada antes de todo mundo. — Não é "como" ou "por que", mas sim o "o quê" — explicou Anna, erguendo a mão para gesticular. — O pirata sabia de bem mais coisas. Ele agiu como se já soubesse que seríamos atacados. Além do mais, aquela mulher assassina... ela ignorou o pirata após o impacto e voltou a focar em nós.

Ela ergueu um dedo, listando os fatos com ritmo crescente.

— Também tem o fato de que não fomos teleportados como os outros passageiros. São conexões demais para não vermos que somos algum "ponto especial" nesse incidente todo. E o mais interessante é que o pirata confiou que este diário velho e gasto explicaria a situação. Pelo estado, a filha de Danael deveria tê-lo escrito há mais tempo do que essa viagem durou. Mas Danael não o reconheceu até ler.

Anna sorriu para Danael, o predador olhando o predador.

— Mais importante do que saber como o pirata pegou o diário, seria crucial saber o que estava escrito dentro dele.

Danael a encarou.

— Como sempre, seu raciocínio está afiado, pirralha.

Ele se virou para o grupo, erguendo o livro como se fosse uma prova de tribunal.

— Aqui diz que as pessoas que foram teleportadas eram aquelas que não tinham conexão direta com a cadeia de eventos que vai acontecer.

— O que você quer dizer com isso? — Nyan perguntou, a voz tensa.

— É difícil até para mim explicar... porque é difícil para mim aceitar e acreditar — Danael apertou o livro com força, os nós dos dedos brancos, a dor da revelação mais profunda do que a dor física. — Se for verdade, eu vou ter falhado bastante como pai.

Ele parou de andar. Todos fizeram o mesmo, o ar ficando tão denso que era quase impossível respirar.

— Se isso for verdade, preciso provar. Um detetive de verdade se baseia em mais do que especulações, não concorda, Anna?

Anna sorriu, satisfeita, como se a peça final estivesse a caminho.

— Em uma das páginas, um certo capítulo falava algo... "Parece que meu pai e Anna tinham uma teoria parecida." — Danael citou o texto com uma precisão que beirava a hipnose. — Mas a autora, sendo minha filha, não entrou em detalhes totais, pois ela não nos acompanhou o tempo todo. Pelo visto, seja qual de nós tenha contado os relatos para ela no futuro, não pôde entrar em muitos detalhes. Mas, de acordo com o diário, apesar de termos a mesma teoria, a guardamos para nós por falta de provas contundentes.

— Ah... — Anna entendeu, e seus olhos brilharam com a compreensão. — Então você também estava teorizando sobre isso.

Sora ficou pálida, sentindo que a realidade estava escorrendo entre seus dedos.

— Espera, do que vocês estão falando?! Eu fiquei completamente confusa! Como assim vocês tinham a mesma teoria? Teoria sobre o quê? E como um diário já escrito poderia saber disso sendo que vocês não se encontraram com ela e ainda nem conversaram sobre essa teoria?!

— Uma vidente — disse Leon, a voz um pouco mais calma, mas ainda carregada de mistério.

— Sua filha tem poderes de ver o futuro? — perguntou Nyan, chocada. — Espera, sério? Então ela é uma das raras videntes de Elysium!

— Difícil — retrucou Sora, balançando a cabeça. — Os videntes registrados sumiram do mapa ou estão sob forte vigilância. Se uma estivesse andando assim livre pelo Titanic, isso teria repercutido muito.

— Vocês estão quase certos — disse Danael, a voz baixa, permitindo que a solução pairasse no ar.

Alphonse, que estava inquieto e com medo até agora, falou, a voz um pouco alta demais no silêncio do corredor:

— Ela despertou os poderes recentemente. E por isso começou, durante a viagem, a escrever o que iria acontecer. É assim que Drake sabia. E é por isso que ele achava que o livro explicaria para nós.

Danael arrancou o adesivo de nicotina do braço e colou um novo no pescoço, um gesto de vício que sublinhava a tensão.

— Vocês estão bem perto da verdade.

Foi quando a ficha de Sora caiu.

— Ainda assim, teria algo estranho... Por que o diário seria velho? Caso ela tenha escrito agora, seria apenas um diário novo, completo.

Anna deu a cartada final, e o som de sua voz foi o clique de uma engrenagem se encaixando perfeitamente.

— Ela não viu o futuro. Ela voltou no tempo. Ela deve ter visto e descoberto tudo, falhado, e então, após anotar tudo que aconteceria, voltou no tempo trazendo seu diário gasto de outras linhas temporais.

O silêncio caiu no corredor, um silêncio total, de tirar o fôlego. Todas as peças, de repente, se encaixaram em uma imagem aterrorizante.

— É por isso que ele disse que ela escreveu apenas o que contaram para ela sobre a nossa teoria — murmurou Anna, com os olhos fixos na capa gasta do diário. — Caso ela tivesse visto nossa teoria acontecer, saberia de tudo. Mas em um loop temporal, as informações variam.

— Mas espera! — Sora entrou em pânico, seus olhos arregalados. — Voltar no tempo é proibido! É a Regra Número 1 que todo usuário de manipulação temporal aprende! O Tempo odeia quando brincam com ele. Sempre que alguém tenta, é preso com um futuro pior do que o original!

— Calma, Sora, isso aí é só uma lenda urbana... — começou Nyan, tentando acalmar a amiga.

— Na verdade, até onde eu sei, isso é bem verdade — interrompeu Leon, a expressão séria e sombria. — Muitos falam que, no início, o viajante do tempo enfrentará um ciclo de loops temporais tentando quebrar o ciclo. E mesmo aqueles que conseguem, ficam destinados a uma vida de miséria e tragédia como uma punição eterna. Por isso nem mesmo os maiores magos da história tentaram mexer com o passado.

— Vocês estão fugindo do importante! — Anna alertou, impaciente, batendo o pé no chão. — Eu já disse que o "como" e o "porquê" não são relevantes agora, e sim o "o quê". Pensem: uma viajante do tempo viu o futuro, e esse futuro foi tão desesperador ao ponto de, sabendo dessa lei universal, ainda se atrever a tentar voltar ao passado. Agora eu pergunto: o que pode ter sido tão devastador?

Danael olhou para Anna, seu olhar aprovador.

— O motivo de não termos sido teleportados... estamos envolvidos na cadeia de eventos — disse Sora, sua voz fraca, mas a mente finalmente funcionando.

— Garota esperta — murmurou Anna, com um brilho de aprovação.

— Vejo que já tem uma boa ideia, mesmo sem eu falar — disse Danael, dando um passo para trás e abrindo a palma da mão em um gesto de cortesia. Ele cedeu o palco. — Então, se quiser, acho que pode falar, Anna. Já que essa teoria era tanto minha quanto sua originalmente, e eu trapaceei dando uma espiada no futuro.

Anna sorriu de forma arrogante, arrumou o cabelo e tomou o centro do corredor. A luz de emergência piscava apenas sobre ela, como um holofote.

— Bom, agora irei explicar. Acontece que, dentre nós... há um Impostor.

Todos se entreolharam, a desconfiança subitamente se voltando uns contra os outros.

— Vou explicar por ordem cronológica — começou Anna, a voz calma, mas cortante. — Alguns pontos, desde o início, pareciam não se encaixar. Para um recruta movido especialmente para ser secretário de Danael, ele estava assustado e confuso demais. Parecia estranho, tendo em vista que seria normal explicarem um pouco sobre Danael antes de mandá-lo.

Ela olhou diretamente para Alphonse.

— Além disso, quando Danael recebeu a mensagem automática sobre os teleportes forçados, ele disse que toda a equipe de segurança foi informada. Dito isso, existiu um outro agente ao nosso lado que, além de não receber a mensagem no próprio comunicador, acabou se mostrando bem assustado e alarmado com a informação — bem mais do que Danael, que tentou esconder sua reação para testar as nossas.

O clima pesou. Todos estavam agora focados em Alphonse, que desviou o olhar.

— E também há alguém entre nós que não parece ter uma conexão direta com tudo isso à primeira vista, mas ainda assim não foi teleportado. Nós fomos enviados para cá por Alaya. Danael é o pai de Sofia, a viajante no tempo que começou todo esse incidente. Mas Alphonse... apenas um guarda novato e comum, sem conexões, está no meio disso tudo?

Anna sorriu para ele, um sorriso predador.

— E também sabia o nome do nosso amigo pirata, não estou correta, Alphonse?

Todos viraram os olhos para o guarda loiro.

Alphonse, que até então estava encolhido, fingindo tremor, abaixou o rosto. O som de seus ombros parando de tremer foi mais alto do que qualquer grito.

Heh...

Ele levantou a cabeça. O medo havia sumido, substituído por uma frieza gélida e um sorriso perfeitamente cruel. A mudança em seu olhar foi imediata e impactante.

— Quando você começou a desconfiar?

— Desde que vi a foto de Benedetta — respondeu Anna, com a arrogância de quem venceu um jogo de xadrez em três movimentos. — Afinal, mesmo tendo gêneros diferentes, não sendo gêmeos idênticos e tentando disfarçar as semelhanças... para aqueles que prestam atenção, elas acabam sempre sendo gritantes.

— Drake também sentiu que tinha me visto antes logo no primeiro olhar — admitiu Alphonse, relaxando a postura em um movimento que era pura ameaça. — Devia ter percebido que, para alguém que já viu minha irmã, mesmo por uma foto, seria impossível disfarçar.

De repente, ele se moveu. Alphonse correu na direção de Leon, transformando-se em um borrão de velocidade. Todos avançaram para impedi-lo, mas Alphonse, que estava com a mão no bolso, acionou algo.

BOOM.

Uma granada de luz e som explodiu no corredor. O flash branco puro, total e cegante, queimou as retinas de todos, seguido por uma onda de choque que parecia arrancar o ar dos pulmões e um ruído ensurdecedor que bloqueou todo e qualquer pensamento.

Quando a visão retornou, embaçada e dolorida, a cena havia mudado drasticamente, paralisando a todos.

Alphonse estava atrás de Leon, aplicando um mata-leão com o braço esquerdo, a mão direita pressionando uma pistola contra a têmpora do garoto.

Mas o que chocou a todos foi a perna de Alphonse. A coxa direita estava explodida, queimada e sangrando profusamente — o resultado brutal de detonar a granada dentro do próprio bolso para pegar todos de surpresa. O cheiro de carne queimada misturava-se ao metal. Ele mal se aguentava em um pé.

— NINGUÉM SE MOVE OU A CABEÇA DELE VAI VOAR! — gritou Alphonse, a voz rouca de dor e fúria, os olhos injetados, mas focados.

— Você é maluco?! — gritou Sora, horrorizada, as mãos cobrindo a boca. — Explodiu a própria perna?!

Alphonse riu, um som seco, maníaco, enquanto gemia baixo de dor.

— Acha que isso iria me deter?! Não seja idiota! Isso aqui nem chega a ser classificado como dor!

Flashbacks invadiram a mente de Alphonse: ser chicoteado. Ver sua irmã ser usada. Ser tão irrelevante que nem lembravam seu rosto. A dor física não era nada comparada àquelas lembranças.

— Do que você está falando?! — murmurou Anna, tentando manter a compostura.

— O que foi, senhorita detetive? Você não é um gênio? Descubra sozinha!

Alphonse olhou para Danael, que o observava com interesse sádico, o plano original frustrado.

— Agora, Senhor Danael... Agora que sei que o fracasso do nosso plano foi causado pela sua filha, não tenho escolha. Terei que matá-la e levar esse diário para sabermos o que aconteceu com o resto da Máfia. E você vai me entregar isso, caso não queira ver a cabeça desse garoto rolando pelo chão!

Leon tentou se soltar, movendo-se com desespero.

— Seu idiota! Pegou o refém errado! Por que ele trocaria a própria filha por mim?!

Alphonse riu, o som seco e sem humor.

— E você que é idiota. Se não notou, esse cara é bem reservado e, até onde mostrou, tem poucas coisas que o fazem se importar verdadeiramente, como a filha dele. Mas ainda assim, ele fez todo aquele discursinho motivacional só para te manter vivo, não fez? Drake também interveio e até falou para você não ficar lá e morrer. A conexão de ambos era esse diário.

Alphonse apontou para o livro na mão de Danael.

— O que me faz acreditar que a sua conexão com os eventos futuros seja muito grande. E como ele disse: "caso ele não ache um jeito de mudar os eventos com a ajuda de vocês, ele falhará como pai". O resto é só somar um mais um. Ele pode não saber se só me dar o livro vai garantir a morte da filha, mas ele sabe que, se você morrer, bem provavelmente o futuro não poderá ser alterado.

— Seu maldito... — Leon rosnou, a raiva fervendo.

— CALA A BOCA! — Alphonse apertou o cano da arma contra a cabeça de Leon, o metal frio contrastando com a pele quente. — Um movimento errado e sua cabeça voa!

Anna suspirou, balançando a cabeça com um misto de decepção e fascínio.

— Quem diria... Então até sua burrice era fingimento, Alphonse.

— Parece que você não é a única que esconde coisas, loirinha — retrucou Alphonse, enquanto respirava pesado e tremia um pouco por conta da dor.

— Faz sentido. — Anna deu um passo à frente, imperturbável. — Então, como sua veterana nessa de esconder segredos, vou te contar uma coisa.

— O que foi? — Alphonse estreitou os olhos. — Se estiver pensando em tentar me fazer mudar de ideia, desista.

— Relaxa, não vai ser nada assim. É apenas que eu tenho que dizer que você fez um ótimo trabalho escondendo sua face. Melhor até do que eu. Pois você notou o melhor jeito de fingir algo.

— O que você quer dizer?

— É que a melhor mentira é aquela que tem uma ponta de verdade. O seu disfarce de burro foi tão bom porque, no fundo, você também é um idiota.

Alphonse se irritou, a máscara de frieza rachando.

— O que você quer dizer com isso, maldita?! Está querendo ver a cabeça do seu amigo voar?!

— Anna! Pare! — gritou Sora, à beira das lágrimas.

Anna levantou a mão, exigindo silêncio.

— Sério, você ainda não entendeu? Então eu vou te explicar uma última vez.

— Que segredo você vai contar? Eu já revelei tudo! — Alphonse gritou, impaciente e perigosamente distraído.

— Não vai ser sobre você — disse Anna, sorrindo. — Será sobre nosso caro amigo, Danael.

Todos olharam para Danael, encostado na parede, parecendo estranhamente relaxado apesar da situação com refém acontecendo bem à sua frente.

— O que ele está escondendo agora? — Alphonse perguntou, desconfiado.

— Sabe... Detetives são bem dramáticos e pomposos. Em outras palavras, gostamos de nos exibir — explicou Anna, caminhando lentamente, o som de seus saltos seco e alto. — Mesmo que tenhamos adquirido uma pista através de uma trapaça, normalmente iríamos querer ajudar na explicação, mesmo que pouco, para podermos mostrar o quão inteligentes somos.

Anna apontou para Danael, que agora tinha um sorriso quase imperceptível.

— Mas, como um ilusionista, às vezes, para podermos fazer algo mais inteligente ainda, precisamos sair de cena e deixar os holofotes para os outros.

Danael, com um sorriso de canto, murmurou apenas três palavras, com a voz baixa e carregada de vitória:

— Entrega de Relatório.

Alphonse sentiu um arrepio gélido percorrer suas costas. Ele finalmente entendeu a dança de Anna.

— Pois, como todo bom ilusionista — concluiu Anna, o sorriso em triunfo —, todo detetive deve saber as vantagens e desvantagens que vêm da atenção focada.

SWISH! SWISH! SWISH!

A ação irrompeu com uma coreografia brutal e precisa. Vários aviões de papel, feitos com as páginas amareladas do diário e encharcados de Éter cortante, voaram das sombras atrás de Alphonse e perfuraram suas costas como adagas de gelo.

— ARGH!

Alphonse gritou de dor, perdendo o equilíbrio ao sentir o Éter rasgando sua carne. Naquele momento exato, Leon aproveitou a distração, se soltou do mata-leão e chutou Alphonse no peito, jogando-o para trás com força.

Sora entendeu tudo num estalo. Enquanto todos estavam focados em Anna explicando a teoria, Danael havia rasgado páginas de seu caderno, feito os aviões, deixando-os prontos no ar, prevendo exatamente o que iria acontecer. A leitura do diário não foi a preparação; foi a distração.

— Malditos... — Alphonse tentou se levantar, muito ferido, tossindo sangue.

Danael caminhou lentamente até Alphonse caído no chão. Retirando uma arma da cintura, que estava escondida sob o sobretudo, encostou o cano na cabeça de Alphonse.

— Agora, queira me acompanhar...

Alphonse socou o chão em frustração.

De repente, Anna caiu inconsciente no chão com um baque surdo, o sorriso congelado em seu rosto.

— ANNA! — Sora gritou em pânico, correndo até ela. Nyan fez o mesmo.

Danael não se virou. Ele manteve a arma fixa em Alphonse, o foco total.

— Está tudo bem! Não se preocupem! — Danael gritou. — A história só está seguindo seu Roteiro natural.

Parte 8

Enquanto o navio era devorado pela maré apocalíptica de Éter verde, o combate prosseguia com uma violência febril, alheio à evacuação em massa. Beatrice não corria; ela era uma força da natureza, uma locomotiva de músculo e fúria. Paredes explodiram diante de seu avanço, tratadas como meras cortinas de papel.

Atrás dela, uma sombra viva a caçava. Hinata, a mafiosa de cabelos róseos, movia-se com a fluidez de um pesadelo, sua foice de escuridão sibilando com uma fome letal.

— Morra de uma vez, nanica!

Num movimento fluido e instintivo, Beatrice deslizou sobre os escombros de um balcão, arrebatou o fuzil de um guarda morto ainda no ar e girou. O cano cuspiu fogo, descarregando o pente numa cadência ensurdecedora contra a perseguidora. As balas rasgaram o ar, zumbindo promessas de morte.

Hinata sequer piscou. A escuridão em sua foice se expandiu como a mandíbula de uma besta abissal, engolindo o chumbo quente antes que tocasse sua pele. As balas simplesmente deixaram de existir, absorvidas pelo vácuo sombrio.

— Balas? Sério, pirralha? — A voz de Hinata pingava escárnio. Ela girou a foice, transformando-a num vórtice negro que visava decepar o pescoço de Beatrice. — O que acontece se formos pegos nessa luz verde maldita? Qual é sua habilidade, afinal?

Ignorando a provocação, Beatrice mergulhou sob a lâmina da morte, sentindo o frio do vácuo passar a milímetros de seu couro cabeludo. Seus tênis guincharam no piso polido, buscando tração para a próxima ação.

Hinata sorriu, esperando a fuga desesperada ou uma invocação complexa. Mas Beatrice quebrou a expectativa. Ela travou os pés, o chão rachando sob a pressão do Éter, girou nos calcanhares e explodiu para a frente. A distância desapareceu num instante. Beatrice materializou-se na guarda de Hinata antes que a sinapse da mafiosa pudesse registrar o movimento.

— Cala a boca e lute!

O ar explodiu. Beatrice desencadeou uma tempestade de punhos. Hinata tentou condensar as sombras numa armadura reativa para absorver o dano, mas a física estava contra ela. Aquilo não era apenas força bruta. Era Energia Cinética Pura. O Éter de Beatrice, flamejante e alaranjado como o núcleo de uma estrela, formava espirais violentas a cada impacto. Cada soco detonava como uma granada de mão contra a defesa de Hinata, causando microabalos sísmicos que faziam os ossos da mafiosa vibrarem até a medula. Beatrice lutava com a técnica letal do Muay Thai fundida à selvageria de um Berserker.

"O Éter dessa garota... é monstruoso!" — Hinata engasgou mentalmente, sentindo as costelas estalarem sob a pressão esmagadora.

Beatrice finalizou a sinfonia de violência com um salto, girando no eixo e conectando um chute duplo devastador no esterno de Hinata.

CRASH!

O impacto foi avassalador. Hinata foi catapultada, perfurando a parede e atravessando para o salão adjacente em uma nuvem de escombros. A luz verde da onda de Drake se aproximava, banhando o corredor atrás delas com um brilho fantasmagórico.

Furiosa, com sangue nos dentes, Hinata ergueu-se das ruínas. Ela girou a foice, fragmentando a lâmina em dezenas de estilhaços de sombra afiados como navalhas, e os disparou contra as fontes de luz. Pop. Pop. Pop. As lâmpadas estouraram. A escuridão absoluta reivindicou o ambiente.

— Vem! Pode vir, Pirralha! — A voz de Hinata ecoou de todos os cantos, distorcida pelas sombras. "Terei alguns segundos até o Éter verde inundar esta sala", calculou Hinata, um sorriso sádico invisível no breu. "Neste domínio, a escuridão é minha aliada. Vou fatiá-la em mil pedaços de carne irreconhecíveis!"

Mas antes que o pensamento se concluísse, dois faróis de puro ódio laranja acenderam na escuridão. O som do ar sendo rasgado precedeu o impacto. Beatrice atravessou o breu como um meteoro.

JET PROPULSION!

Convertendo a própria vitalidade em propulsão cinética, ela detonava ondas de choque a partir de seus membros. Beatrice não voava; ela se disparava como um míssil humano guiado pela fúria.

— O quê?! — A reação de Hinata foi lenta demais. Beatrice executou uma acrobacia aérea impossível, desviando da foice cega, e colidiu com a mafiosa, desferindo uma cabeçada brutal. O som de crânio contra crânio foi nauseante.

— ARGH!

Hinata foi arremessada para trás, seu corpo perfurando não uma, mas três paredes consecutivas. Beatrice a seguiu, voando baixo, os punhos brilhando como ferro em brasa.

Hinata levantou-se cambaleando, o sangue jorrando do nariz destruído, misturando-se ao pó de concreto. Sua aura roxa explodiu, saturada de ódio puro. As sombras ao redor ganharam vida, contorcendo-se em formas grotescas e famintas.

— Corte a Lua em Dois: BENI-ENMA!

A realidade tremeu. A foice de Hinata sofreu uma mutação na escuridão, tornando-se branca, crepitando com relâmpagos vermelhos e dobrando de tamanho.

— NÃO SUBESTIME A MÁFIA SALAZAR!

Ela desceu a lâmina num arco de aniquilação total.

Beatrice, flutuando no olho do furacão, apenas sorriu de canto. Um sorriso frio, decepcionado.

— Sinceramente... — Ela suspirou, o tédio palpável em sua voz. — Quando comecei a lutar, achei que ao menos você serviria como um bom saco de pancadas. Mas isso está tão unilateral que sinto até pena. Quer mesmo continuar a humilhação?

Hinata gritou, um som gutural de ódio, e completou o movimento da foice. Beatrice deslizou pelo ar por um triz, o vento do corte rasgando o tecido de sua jaqueta. Aproveitando a abertura fatal do ataque emocional, ela girou o tronco, mergulhando o punho direito em uma concentração massiva, quase crítica, de Éter laranja.

— Perfure os Céus: Furadeira das Estrelas.

O soco conectou diretamente no centro do rosto de Hinata. CRACK! O som não foi de osso quebrando; foi de osso pulverizando. A onda de choque resultante estourou todas as janelas da sala instantaneamente.

Hinata foi disparada como uma bala de canhão humana em direção à parede oposta. Mas, fração de segundo antes de seu corpo destroçado atingir o concreto, a onda de Éter verde de Drake finalmente alcançou o recinto.

ZUUUM.

No instante em que a luz esmeralda tocou Hinata, ela foi apagada da existência. Teleportada.

Beatrice aterrissou com a leveza de uma pena, o punho ainda fumegando pelo atrito. Ela encarou o vazio onde sua oponente estivera um segundo antes.

— Bom... agora sabemos o que o Éter verde faz — comentou ela, baixando os olhos para o chão.

Lá, brilhando palidamente no escuro, jazia um dente quebrado de Hinata.

— É bom que, para onde quer que ela tenha ido, eles tenham um cirurgião plástico.

Beatrice ajeitou o casaco, espanou o pó imaginário dos ombros e retomou a corrida.

— É melhor eu ir atrás da Mio.

Enquanto disparava pelos corredores em ruínas, uma sensação gélida a atingiu. O Éter das pessoas estava desaparecendo. Dezenas de assinaturas vitais piscavam e sumiam do radar mental simultaneamente.

— Algo estranho está acontecendo... — murmurou, a ansiedade crescendo.

De repente, ela estancou. Um arrepio violento percorreu sua espinha, eriçando cada pelo de seu corpo. Uma onda de Éter, fria, emergiu de alguns andares abaixo. O ar ficou pesado, difícil de respirar. Beatrice ocultou sua presença por puro instinto de sobrevivência. Seu estômago revirou numa mistura nauseante de pavor absoluto e uma esperança dolorosa.

— Não pode ser...

Movida por uma mistura de esperança e desespero, e na urgência de uma resposta, a garota saiu da sala. Atravessou o corredor e, sem usar seu Éter para não revelar sua posição, forçou a abertura das portas de um elevador e saltou no poço, deslizando pelo cabo de aço em direção à escuridão inferior. Seu coração batia tão forte que doía no peito, um tambor frenético ecoando no silêncio. Uma parte dela gritava para fugir, mas a outra precisava ver. Precisava confirmar.

Ela abriu a porta do andar inferior e correu pelo corredor deserto. Então, o tempo parou.

No fim do corredor, caminhando de costas para ela, estava uma silhueta inconfundível. Cabelos brancos, coroados por longos chifres negros e curvos.

Beatrice travou. Seus pulmões esqueceram como bombear ar. Era ela.

No outro extremo, Kali parou. Ela sentiu o olhar queimando em suas costas como uma ferida aberta. Lentamente, com a majestade entediada de uma divindade, a Princesa da Ruína se virou. Seus olhos vermelhos, poços de sangue, encontraram os de Beatrice.

Atrás de Kali, Rasputin parou, uma sobrancelha erguida em curiosidade. — Oh?

Kali deu um passo na direção de Beatrice.

O pânico primordial sequestrou o corpo da garota. Beatrice recuou, tropeçando nos próprios pés, e se jogou para dentro da primeira porta aberta — uma sala de bingo vazia, um beco sem saída.

Ela tentou recuar, mas quando se virou, a figura de Kali já preenchia a soleira da porta, bloqueando a única rota de fuga e devorando a luz do corredor. Rasputin surgiu logo atrás, espiando por cima do ombro da companheira.

— Então esta criança também foi rejeitada pelo teleporte? — comentou o monge, acariciando a barba suja. — Isso implica que, assim como nós, ela possui encantamentos de proteção. Se ela mesma for a artífice, é um feito prodigioso para alguém de tal idade...

— Não seja idiota — a voz de Kali cortou o ar, fria como o zero absoluto. — É óbvio que ela não teria capacidade para tecer algo tão complexo e delicado... e ela não é tão nova quanto aparenta.

Rasputin sorriu, seus olhos dançando entre as duas, saboreando a tensão elétrica no ar. — Este velho percebe as coisas... há um fio invisível entre vocês. Devo presumir que se conheçam?

Kali o olhou de soslaio. A intenção assassina que emanou dela foi tão densa que a temperatura da sala despencou. Rasputin ergueu as mãos, rendendo-se à ameaça implícita.

— Eu sei, eu sei. As regras são absolutas. Como disse, a curiosidade deste velho tem limites. Deixarei as duas a sós.

Ele piscou e saiu, fechando a porta atrás de si. O clique da fechadura soou como um tiro, isolando as irmãs num silêncio sufocante.

Kali suspirou, um som de tédio profundo, e olhou para Beatrice. — Pela sua expressão, duvido que estivesse tentando me encontrar. Mas não acredito em acasos. O responsável pelos teleportes deve ter te deixado aqui como um peão para me atrasar.

Beatrice ouvia, mas as palavras chegavam abafadas, como se estivesse debaixo d'água. Ela tremia violentamente, os dentes batendo audivelmente. O medo a paralisava.

Kali, percebendo que não obteria resposta da figura trêmula, deu de ombros com indiferença e se virou para sair. — Bom. Sendo assim, não darei a ele o prazer de cair na armadilha. E vejo que você não tem nada a me dizer.

A mão pálida tocou a maçaneta. O movimento foi o gatilho. O desespero de Beatrice superou o terror paralisante.

— ESPERA!

Kali parou. Não se virou. Beatrice cravou as unhas na própria coxa, buscando na dor física a força para falar.

— Irm... — A palavra morreu, sufocada. Ela não tinha o direito. — Eu... eu te procurei por todos os lugares! Eu revirei o mundo! Eu me tornei uma Caçadora só para te encontrar!

Kali virou o rosto levemente. — Bom... então pode descartar esse objetivo.

Beatrice arregalou os olhos, o choque substituindo o medo. — O quê?

Kali se virou completamente, a expressão indecifrável, vazia de qualquer afeto. — Eu não estou perdida. Não estou desaparecida. Logo, não há necessidade de busca.

Beatrice engasgou, as lágrimas começando a queimar seus olhos. — Mas... Quando você vai voltar?!

Kali sorriu. Não era um sorriso de alegria. Era cruel. — Voltar? Por que eu faria algo assim?

Beatrice travou, a mente em branco. — A Coroa... você... E você quem deve ser a...

— Antes que vomite mais bobagens — a voz de Kali era uma lâmina no pescoço de Beatrice —, advirto: não tenho o menor interesse em reinar sobre aquela terra.

— O quê...?

— Pequena e tola irmãzinha...

Kali desapareceu. Num piscar de olhos, ela reapareceu a centímetros de Beatrice, prensando-a contra a parede. A mão gélida de Kali pousou sobre a cabeça da garota, como quem afaga um animal prestes a ser sacrificado. Beatrice congelou, o coração batendo como um pássaro enjaulado, esperando a morte.

Kali inclinou-se, os lábios roçando a orelha dela, sussurrando: — Por que eu desejaria ser Rainha de um pedaço de terra num mundo ilusório, podre e amaldiçoado? Eu não tenho intenção alguma de voltar. E se você, de fato, jogou fora sua vida após minha partida tentando me achar... sugiro que pare com essa tolice patética. Vá e encontre algo útil para fazer enquanto ainda lhe resta tempo.

Kali afastou a mão e recuou, como se o contato a entediasse. — Mas, claro... como você desperdiçará sua vida insignificante não é problema meu.

Ela se virou e caminhou para a porta, a aura de autoridade inabalável. As pernas de Beatrice cederam. Ela desabou de joelhos, estendendo uma mão trêmula e inútil na direção das costas da irmã.

— Espera... não...

Kali parou na soleira, a silhueta recortada contra a luz do corredor. Sem olhar para trás. — Além disso, um último conselho: não cruze meu caminho novamente. A estrada que trilho é pavimentada com espinhos demais para alguém frágil como você suportar.

Kali saiu. A porta se fechou.

Beatrice ficou sozinha. O silêncio retornou, pesado, agora pontuado apenas por soluços quebrados. As lágrimas caíam livremente no carpete sujo do bingo.

— Droga... Droga!

Ela mordeu o lábio até sentir o gosto ferroso do sangue e socou o chão com o punho fraco, desprovido de qualquer força. A presença esmagadora da irmã havia drenado tudo.

— Desculpa... desculpa... — ela soluçava, pedindo perdão ao vazio, consumida por sua própria impotência.

No corredor, Rasputin aguardava, recostado na parede como uma gárgula paciente. Kali saiu da sala, a expressão plácida, como se tivesse apenas verificado o clima. Retomaram a caminhada.

— Agora, algo ficou claro — disse Kali, com o olhar fixo à frente.

— O que seria? — indagou Rasputin.

— Seja quem for que está tentando mover as peças e interferindo... é ignorante sobre nossa natureza.

— Elabore.

— Se soubesse, veria a futilidade dessa ação.

Rasputin acariciou a barba, um brilho de compreensão nos olhos. — Que fato, profundo e trágico. — Rasputin sorriu, mostrando dentes amarelados. — Vejo que tentar usar "ela" como distração para você... foi de uma idiotice ímpar.

Kali não respondeu. Apenas continuou marchando em direção à escuridão, deixando o passado para trás mais uma vez, sem um pingo de remorso.

Parte 9 

Dante abriu os olhos, piscando contra uma luz sem fonte, um infinito branco leitoso que não tinha origem nem sombra. O oceano escuro havia sumido, substituído por um vazio absoluto. O "céu" não possuía sol, mas irradiava luminosidade total, como se a própria ausência de cor fosse a fonte de tudo.

O chão era coberto por uma tapeçaria infinita de flores brancas, delicadas e pálidas — o Asphodelos de um limbo esquecido. Acima deles, a antítese do chão pacífico: o teto era um labirinto perturbador de portas flutuantes, corredores que se curvavam para lugar nenhum e silhuetas de arquitetura impossível, desafiando a gravidade e a geometria euclidiana. Era um espaço frio e desolador, mas impregnado de uma paz estranhamente letal.

— Esse lugar... é real? — perguntou Dante, a voz rouca, engolida pelo silêncio vasto.

Anna estava a alguns metros, uma figura esguia de costas para ele, no meio das flores. — Mais ou menos...

Ela começou a caminhar, e não era um andar comum, mas um deslizar calculado entre as hastes pálidas. Dante a seguiu, a confusão misturada a um fascínio repentino. Enquanto a observava, percebeu a mudança sutil, porém total, após a fusão. Não apenas o tamanho, mas a cor de seus olhos, a postura, a aura em volta de seu corpo.

"Agora que reparei... eu nunca tinha olhado para ela de verdade até agora" — o pensamento de Dante era uma onda silenciosa.

Anna parou bruscamente. Ela girou sobre o calcanhar com uma velocidade etérea que fez as flores ao redor tremerem. Seus olhos azuis perfuraram o ponto onde a mente dele se concentrava. A irritação dela não era raiva; era a frustração silenciosa de quem esperou demais.

— Só agora percebeu?

Dante cambaleou para trás. — Espera... Como você sabe o que eu estou pensando?!

Ela coçou a cabeça, bagunçando os cabelos. Um gesto de humanidade forçada, quase uma máscara que falhava. — Depois que nós nos fundimos, Dante, o conceito de 'eu' se tornou uma falácia conveniente. Existe um fio, não um cabo, mas um fio de prata conectando nossas consciências. Quando estamos próximos, pensamentos e memórias acabam atravessando a barreira.

Ela voltou a caminhar, mas agora com passos mais pesados, as flores brancas sendo levemente esmagadas a cada pisada — uma coreografia da angústia.

— Mas por que eu não consigo saber o que você está pensando? — Dante acelerou, tentando entrar na órbita dela.

Anna nem sequer o olhou. — Porque para ler o meu silêncio, você precisa antes silenciar o seu barulho.

— O quê? — Dante se confundiu com o enigma.

— Se não consegue descobrir sozinho, não espere que eu responda. — Ela evitava mostrar a expressão, embora a orelha vermelha a entregasse.

Eles continuaram. A caminhada não era um deslocamento, mas um ritual sem fim. O tempo estava suspenso. A paisagem era uma tapeçaria que se repetia. Várias portas flutuavam no alto, levando a lugar nenhum, como infinitas escolhas sem destino visível.

Exausto de tanto caminhar sem destino, Dante afundou nas flores. — Droga... Mas o que estamos fazendo aqui? Continuar só caminhando não vai levar a lugar nenhum!

Anna parou, o corpo tenso. A quietude dela era uma ameaça iminente. — O que você quer dizer, Dante?

— O que eu quero dizer? — Dante levantou a voz. — Aonde vamos, Anna? Para onde você quer ir? Se não me disser, não vou conseguir entender!

Anna girou, e a virada foi a ruptura da represa. Sua expressão era: raiva, tristeza e frustração. Ela correu até ele com uma agilidade quase violenta, agarrou-o pelo colarinho e o jogou nas flores, caindo sobre ele.

— ENTÃO VOCÊ SABE DISSO, NÃO É?! — Ela não gritou com a garganta, mas com a alma, a voz baixa e tremida, o rosto a centímetros, os olhos marejados, vermelhos como sangue na neve. — Agora sabe como é apavorante o eterno "só caminhar"?!

O choque de vê-la à beira das lágrimas furou a neblina mental de Dante. Ele entendeu. A ficha não caiu; ela o esmagou.

Era exatamente isso que ele era. Desde a morte de Nero, ele estava "apenas caminhando". Ele falava de objetivos, mas suas ações eram apenas reflexos, a reação vazia de um corpo que esqueceu a vontade. Ele nunca olhou para Anna, sua nova companheira, que agora dependia da bússola quebrada dele.

— Anna... — Dante sussurrou, a voz sumindo.

Ela bufou, um som de escárnio amargo, e se afastou dele. Quando ele tentou segurar-lhe a mão, ela a bateu para longe com uma força surpreendente. — Não me venha tentar uma desculpa barata agora.

Eles se sentaram lado a lado, dois naufragados em um mar de flores brancas, olhando para o horizonte.

Neste momento de silêncio denso, a cabeça de Dante começou a latejar. As memórias do futuro, o veneno implantado por Sofia, lutavam para emergir, rasgando sua sanidade. Ele levou a mão à têmpora, gemendo, curvando-se.

Anna agiu com rapidez e com carinho, apesar da raiva. Ela segurou o pulso dele com firmeza, os dedos apertando pontos de pressão. — Pare com isso! Se continuar tentando forçar essas memórias agora, sua autoimagem colapsará de vez e você afundará neste mar branco. E se cair fundo demais... eu não vou ter força para te puxar outra vez.

Dante a olhou, a dor o forçando a aceitar o óbvio: foi realmente ela que o salvou. — O que é isso, Anna? Que lugar é este? Você sabe mais do que está contando. Meus amigos precisam de mim. Eu preciso de respostas!

Anna se virou para ele. — O que você acha que vai fazer chegando lá? Se for lutar com aquela vontade que estava mostrando antes, vai só morrer. E pior: vai arrastar todos com você.

O futuro de Sofia surgiu na mente de Dante: os corpos destroçados de Luck e Kurokawa. Ele não podia negar a lógica fria dela.

Anna abraçou os joelhos, encolhendo-se como se quisesse compactar sua existência, protegendo-se da vastidão do lugar. — Então, Anna... O que é este lugar, realmente? — perguntou Dante novamente, tentando quebrar o silêncio opressor.

— É a manifestação do seu Espaço Mental — respondeu Anna, a voz baixa, quase uma prece. — É um lugar que existe e não existe. Todos têm um dentro de si, conectado com tudo, mas também irremediavelmente solitário.

— E por que estamos aqui?

— Você tentou completar a fusão.

— Completar? Mas nós já não estávamos fundidos?

Anna soltou um longo suspiro, a confissão pairando no ar. — Naquela hora, para criar os corpos e nos dar um novo começo, eu tive que fundir e depois separar nossas essências. Nós "morremos", e dois novos "nós" nasceram. Para criar esses novos "eus", eu colei todos os seus pedaços: alma, corpo, memórias, sentimentos, ego... e a Vontade.

Ela olhou para ele com uma tristeza profunda. — Mas você não estava inteiro. Seu ego, sua vontade de viver plenamente, estava mais despedaçada do que eu imaginava. Eu colei tudo, mas as rachaduras persistiram. Foi como consertar um espelho quebrado; o reflexo continuou fragmentado. Nossa fusão não se completou de verdade.

Ela apontou para o peito dele, um gesto que era quase uma acusação. — O reconhecimento de si era a peça-chave. Mas quanto mais o tempo passava, mais ele se perdia. Não nos reconhecemos, e por isso o mundo não nos reconhecia. Esta falha se tornava cada vez mais perigosa.

— Mas por que isso aconteceu com você também? Eu entendo que tenha acontecido comigo, mas... — Dante expressou, visivelmente preocupado.

Anna, com um olhar que, embora triste, parecia conformado, respondeu: — Acho que você sabe a resposta... Quem mais poderia me reconhecer além de você? E como me reconheceria se nem sequer tentou olhar para mim?

Dante simplesmente não tinha como se desculpar; ele sabia, melhor do que qualquer um, o quão verdadeira era aquela acusação.

— Então... quando houve um choque na minha mente por conta das várias memórias sendo inseridas... — Dante raciocinou. — O choque fez minha autoimagem colapsar e tentar se reconstruir com o que sabia, forçando a fusão a se completar.

Anna se surpreendeu com as palavras de Dante: — Espera... memórias de si mesmo?

— Sim. Sofia me deu novas memórias. Ela veio do futuro.

Anna ficou estática. — A filha do Danael?! Você encontrou com ela?!

A emotividade de Anna era tão intensa que Dante estranhou. Ela tossiu, voltando rapidamente à sua máscara de indiferença fria.

— Tenho mais duas coisas que preciso saber, Anna — disse Dante, levantando-se. Anna também se levantou, aceitando o novo ritmo. — O que realmente está acontecendo neste navio? Qual a verdade por baixo de tudo?

Anna hesitou, caminhando em silêncio por um tempo. Ela sentia o peso do olhar dele. Ele finalmente estava tentando enxergar ela, e esconder a verdade agora seria um ato de traição. — Eu disse naquele dia, vinte anos atrás... Os Astreus estavam caindo e vindo a este mundo.

— E o que tem isso?

— Demorou para alguns completarem a viagem. Assim como nós... chegaram vinte anos atrasados.

Dante parou, a revelação o atingindo como um soco gélido. — Está dizendo que tem um Astreus tentando nascer aqui?

— Um Astreus está tentando despertar, completando uma fusão com alguém para poder manifestar-se neste mundo. Mas isso é apenas o catalisador. Parece que vários outros problemas resolveram celebrar a festa ao mesmo tempo.

Dante soltou uma risada.

Anna parou e olhou para ele, confusa. — Do que está rindo?

— Bom, isso é bem natural, não é? É quase um princípio básico do mundo: tudo sempre pode ficar mais caótico. A vida não aceita a simplicidade.

— Eu não entendi a graça — disse Anna, seca, mas a tensão em seu corpo era visível.

— O que você vai fazer? — perguntou Dante.

— Eu não quero deixar que esse Astreus nasça — Anna respondeu, tremendo levemente, uma rara vulnerabilidade. — Eu não gosto nada dele. E não o quero por perto.

— Esse é o Astreus da Morte?

— Não.

Dante sorriu, um sorriso firme e confiante. — Tudo bem. Eu vou ajudar a chutar esse idiota para longe, de volta para o céu ou inferno de onde ele saiu.

Anna olhou para ele, chocada com a rapidez da decisão. — Por quê? Por que essa súbita... lealdade?

— Para ajudar você, é óbvio — respondeu Dante, instantaneamente, sem hesitação.

Anna corou violentamente, um rubor que ia do pescoço até as pontas das orelhas, e virou o rosto para esconder a reação inesperada.

— Além do mais — continuou Dante, sem notar o efeito que suas palavras causaram —, ele planeja matar meus amigos e muita gente inocente apenas por nascer. Eu não lembro tanto desses futuros, mas só do que eu lembro... já estou cheio de vontade de chutar a cara dele.

— Ah... entendi — murmurou Anna, ainda de costas. O tom era uma mistura de alívio e decepção.

— Eu tenho uma última pergunta — disse Dante, o tom agora tornando-se a personificação da seriedade.

Anna parou. O corpo dela enrijeceu. Ela sabia que essa pergunta era inevitável. Era a barreira final.

— Eu realmente planejo te ajudar. E a partir de agora, não vou fingir que você não está aqui. Mas eu preciso saber. Eu disse antes de nos fundirmos que faria de tudo, até um contrato com o diabo, pela minha vingança. Mas eu preciso saber...

Ele deu um passo à frente. — Eu sei que você não mostrou a verdadeira "você" para nós. Você sempre escondeu algo. Desde que começou a andar pela terra, mostrou várias faces, várias máscaras.

Dante respirou fundo; a honestidade o queimou por dentro. — Eu não vou perguntar por que você faz isso. Ou por que está se escondendo. Apenas uma coisa importa agora: eu posso mesmo confiar em você, Anna?

As mãos de Anna tremeram visivelmente. Ela respirou fundo, trêmula de medo. Pela primeira vez, ela decidiu baixar todas as máscaras. Era um risco de exposição total.

Ela se virou para ele. Seus olhos azuis brilhavam com uma honestidade crua e dolorosa, sem indícios de manipulação ou indiferença. Era a verdade de uma alma nua. — Eu não quero mais ficar sozinha.

O silêncio do jardim branco engoliu a confissão.

Dante ficou paralisado. Ele imaginou várias respostas. Mas nunca aquilo. A dor de Anna era tão intensa, tão humana, que o desarmou.

Ele respirou fundo. Ele conhecia aquela dor. Ele sabia o quão frio era o abismo da solidão e o desespero para sair dele. Ele ainda não sabia quem Anna realmente era, mas aquela resposta... aquela resposta era a única verdade que importava.

Dante caminhou lentamente até ela. — Então, você pode guiar o caminho — Dante disse, seguindo-a devagar.

— Tem certeza? Você ainda não sabe para onde estou indo, nem se tenho algum lugar para chegar — Anna respondeu, com uma nova máscara assumindo seu rosto.

— Realmente não sei, mas vou confiar em você.

"... Obrigado…" — pensou Anna, escondendo o rosto.

— Você acabou de dizer obrigado? — Dante perguntou, confuso.

— Eu não faço ideia do que você está falando — Anna continuou, seguindo em frente.

Diante deles, brotando do mar de flores brancas, surgiu um túmulo de pedra rústica, coberto de musgo etéreo.

Dante olhou para Anna, confuso. — Para nos completarmos de verdade dessa vez... o passado precisa ser enterrado, Dante — disse Anna suavemente, apontando para a lápide. — Precisa ser real.

Dante se ajoelhou diante da pedra fria. Ele entendeu que não era apenas uma memória, mas uma aceitação. — Me desculpa, Nero... — A dor ainda era forte no peito, não havia sumido, mas agora também tinha aceitação. — Eu realmente sinto muito por não poder te salvar. Mas eu também não posso te acompanhar. Porque eu, de fato, não morri naquele dia.

Assim que ele disse as palavras, a lápide começou a desintegrar-se em pó de estrela, subindo em um pequeno vórtice. O nome escrito na pedra não era Nero. O nome era Dante Scarlune.

Ele finalmente aceitou. Ele não estava morto. Ele estava vivo.

Dante levantou, estendendo a mão para Anna. — Vamos.

No mesmo instante, as flores brancas se transformaram em pétalas de luz dourada, voando para o labirinto de portas no céu, preenchendo o vazio com calor e cor. O mundo branco começou a se dissolver em um turbilhão de luz.

Parte 10

O som era a única constante no abismo. Um metrônomo macabro marcando o tempo da morte.

Plic. Plic. Plic.

Gotas de sangue pesado colidiam contra o aço frio, alimentando uma poça negra que se alastrava lentamente, como óleo. O ar era pesado, frio e metálico. O andar não estava apenas destruído; fora estripado, um cemitério de vigas retorcidas e concreto pulverizado, onde o cheiro de ozônio queimado se misturava ao odor ferroso de sangue fresco.

A escuridão era uma mortalha densa, violada apenas pelo espasmo de um cabo de alta tensão rompido que pendia do teto como uma serpente ferida.

ZZZAP!

Um clarão azul-elétrico, violento, rasgou o breu. Por um milésimo de segundo, o flash estroboscópico congelou a cena em um quadro de horror absoluto, antes que as sombras devorassem tudo novamente.

No clarão, a imagem se queimava na retina: Drake Dampier, o infame Rei dos Piratas, havia sido crucificado. Não havia cordas ou correntes. Ele estava pregado a uma antepara de aço reforçado, suspenso do chão por uma viga de metal industrial que perfurava seu abdômen, fundindo sua carne à estrutura do navio. Seus braços estavam pregados abertos, imobilizados por fragmentos de lâminas e, numa ironia cruel, por sua própria espada pirata, cravada até o punho através de seu antebraço direito. Ele era uma escultura de agonia imóvel. A cabeça pendia, o cabelo encharcado de suor e sangue ocultando o rosto.

Diante dele, Lucia permanecia de pé. A "imortal" não estava ilesa; estava ofegante, o uniforme branco imaculado agora manchado de fuligem e escarlate, um corte profundo na bochecha chorando sangue. Ela encarava o corpo quebrado do pirata com uma intensidade quase religiosa, esperando um espasmo, um gemido, uma última piada infame.

Mas o silêncio devolvia apenas o Plic. Plic.

De repente, o som úmido e grotesco de líquido borbulhando rompeu a quietude.

Ao lado de Lucia, uma poça d'água suja começou a ferver, desafiando a gravidade, ascendendo em espirais antinaturais. Ceto emergiu da forma líquida, a transição de água para carne ocorrendo com um som viscoso. Ela sacudiu o cabelo molhado e ajeitou a jaqueta, o olhar varrendo a destruição com absoluto tédio.

— Vejo que a caçada ao Alvo Principal sequer começou... — A voz da garota-tubarão ecoou, carregada de desdém.

Lucia não se virou. Seus olhos carmesins permaneciam ancorados em Drake.

— Tive imprevistos — respondeu. — Aquele homem foi... uma anomalia. Mais problemático do que qualquer cálculo previu. Mas irei atrás do garoto agora.

— Relaxa, não será necessário — Ceto interrompeu, estourando uma bola de chiclete com um estalo que soou como um tiro no silêncio. — O Chefinho enviou novas diretrizes.

Lucia finalmente desviou o olhar, uma ruga de tensão surgindo em sua testa pálida.

— E então? Devo presumir que ele está descontente com nossa falha em conter o caos?

Ceto riu, um som gorgolejante que revelou fileiras de dentes serrilhados.

— Pelo contrário. Ele disse que o "novo futuro" forjado nesta destruição despertou seu interesse.

— O que isso significa?

— As palavras dele foram exatas: "Deixem a captura do Alvo para nosso novo companheiro, pois esta batalha será essencial para o fortalecimento dele."

Lucia piscou, a confusão dando lugar a uma compreensão sombria.

— Ao Rasputin? Mas ele tem condições de combate? Ele acabou de sair do confinamento...

— Não, sua tola. Você está olhando para o tabuleiro errado. — O sorriso de Ceto se alargou, malicioso e cruel. — Não era ao Rasputin que ele se referia.

Os olhos de Lucia se arregalaram levemente. A peça final se encaixou.

— Entendo... Então "ele" vai lutar.

— Pois é. — Ceto passou a língua pelos dentes afiados. — Não está tremendo de ansiedade? Estou indo para lá agora. Quero assistir de camarote.

Lucia soltou um suspiro longo, embainhando sua rapiera.

— Bom. Pelo visto, o pirata já cumpriu seu papel e não pode mais me oferecer entretenimento. Mudar o foco é aceitável.

Ela deu as costas a Drake e caminhou em direção às escadas de emergência. Ceto, no entanto, permaneceu. Ela inclinou o corpo, observando o pirata crucificado com uma curiosidade puramente predatória.

— Hum... Vai deixar a carcaça aí? — perguntou Ceto, a voz salivando. — Se quiser, eu faço um favor a vocês dois. Posso devorar a cabeça dele agora. Assim, meu "senpai" terá uma morte digna, entregue às profundezas do meu estômago, como um verdadeiro homem do mar. E você não quebra sua promessa.

Lucia parou no primeiro degrau de metal. O som de sua bota ecoou. Ela olhou para Drake por cima do ombro, uma última vez.

— Não.

— Não? — Ceto tombou a cabeça, os olhos negros sem vida.

— Eu me diverti — disse Lucia. Um sorriso sutil, quase imperceptível, curvou seus lábios. — Gostaria de dançar com ele novamente no futuro. Se o destino permitir.

Ceto olhou para o estado deplorável de Drake: perfurado, sangrando, pregado na parede como um inseto numa coleção macabra.

— Suas palavras não têm lógica, Lucia. Acha mesmo que ele poderá erguer uma espada depois disso?

Lucia voltou a subir as escadas, sua silhueta branca sendo engolida pela penumbra.

— Ele pode, sim. Eu sei disso.

Ceto deu de ombros, indiferente.

— Tsc. Tanto faz. Desde que eu veja sangue jorrar lá em cima, estou feliz.

A garota-tubarão girou a cabeça com estilo e caminhou seguindo sua companheira.

O silêncio absoluto retomou seu trono no andar destruído. Apenas o som da morte persistia.

ZZZAP!

A faísca azul iluminou o vazio.

Plic. Plic.

O sangue continuava a cair, medindo o tempo de vida restante. Drake estava sozinho no escuro. A viga em seu estômago era um sol de agonia queimando suas entranhas. Seus pulmões, colapsados, lutavam por míseras moléculas de oxigênio. Era o fim. Tinha que ser.

Mas então... um tremor. Os dedos da mão esquerda de Drake, aquela livre da espada, contraíram-se.

ZZZAP!

No breve e violento clarão de luz estroboscópica, iluminando o rosto coberto de sangue, fuligem e suor frio... um sorriso apareceu. Não era um sorriso de alívio. Não era o esgar da morte. Era o sorriso insolente, selvagem e indestrutível de um homem que havia apostado sua alma contra o próprio diabo e estava trapaceando no jogo.


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