The Fall of the Stars: Capítulo 4 - Um Novo Começo
- AngelDark

- 14 de jul. de 2025
- 44 min de leitura
Atualizado: 8 de dez. de 2025
Volume 2: Enigma
Parte 1
7 de Abril de 19.999 — Siracusa, Elysium
O Reino de Elysium sempre foi um mosaico de culturas e contradições. Poupado das grandes guerras e calamidades que assolaram o resto do mundo, o reino desenvolveu-se de forma magistral, mas desigual.
Enquanto a política das grandes capitais evoluía para um sistema dualista — onde um governante era eleito pelo povo e o outro escolhido por meritocracia acadêmica pela Rosa Cruz —, nem todos os estados aceitaram essa "modernidade". Valoisia mantinha sua monarquia tradicional. Siracusa era algo... mais sombrio. Oficialmente, era uma ditadura com um líder populista. Na realidade, todos sabiam a verdade: as eleições eram uma farsa, um teatro de marionetes onde quem puxava as cordas era a Rosa Azul, a maior e mais temida organização mafiosa do continente. Em Siracusa, a Máfia não era o submundo; ela era o mundo.
Nesse cenário de opulência e corrupção, a família Banores brilhava com o ouro manchado de sangue. Albert Banores, um homem de sorriso fácil e aperto de mão firme, era conhecido por suas generosas doações a orfanatos e hospitais. Mas, nos bastidores, ele era o Chefe de Finanças da Rosa Azul. Ele lavava o dinheiro da morte até que ficasse branco como a neve.
Albert não se importava. Para ele, o mundo fora dos portões de sua mansão era apenas um detalhe trivial.
Até o dia em que a bolha estourou.
Durante uma viagem à "Cidade de Cobre", um estado vizinho empobrecido pela exploração de Siracusa, a família Banores foi sequestrada. Albert esperava rivais, assassinos de elite, terroristas políticos. O que ele encontrou foram pais e mães. Pessoas sujas, magras, com olhos fundos de desespero, segurando armas enferrujadas com mãos trêmulas. Eles não queriam poder; queriam comida. Eram as vítimas diretas da ganância da Rosa Azul.
O resgate veio rápido. Os "Reis Sem Coroa", os executores de elite da família, chegaram. A operação de limpeza foi conduzida com uma eficiência fria e letal.
Para o mundo, foi apenas mais um incidente abafado. Mas para os gêmeos Banores, Alphonse e Benadetta, de apenas sete anos, foi a abertura brutal da cortina.
Eles assistiram, escondidos atrás do pai, enquanto o grupo de sequestradores — desesperados e famintos — era dizimado em uma coreografia sombria e cirúrgica. Não houve gritos longos. Apenas o som seco de lâminas cortando, o estalo de ossos e a queda pesada de corpos.
Uma mulher, com o olhar ainda fixo no vazio e as mãos ossudas, caiu bem ao lado das crianças.
Alphonse, paralisado, sentiu o calor residual do corpo, o cheiro acre de medo, pólvora e sangue. Seu corpo infantil tremia, mas ele não podia fugir.
Benadetta, em estado de choque mudo, baixou a cabeça lentamente. Ela viu a bota lustrosa de seu pai coberta por uma mancha escura e lamacenta que ela soube ser sangue. O instinto incontrolável a fez estender a mão pequena e tocar o líquido viscoso e frio no chão. Ela não gritou; ela apenas olhou para a ponta do dedo manchada, tentando registrar o que aquele líquido, fruto do desespero e da morte, significava.
Albert se ajoelhou, limpou o sangue da ponta do sapato de Alphonse com a palma da mão e declarou, com a voz embargada pela repulsa e pelo trauma: — Isso acaba aqui. Nunca mais olhem para trás. Nunca mais olhem para o que eu fiz.
Para Alphonse, a cena plantou a semente da culpa e o impulso cego de se tornar o escudo, o protetor. Para Benadetta, o cheiro metálico e frio do sangue se tornaria o prenúncio de todo o mal que estava por vir.
Meses Depois
Albert recolheu sua fortuna, cortou laços com a Rosa Azul e fugiu para Astra, uma cidade neutra e pacífica. Ele tentou desesperadamente construir um jardim de inocência para seus filhos, longe do pântano da Máfia.
Por alguns anos, em Astra, eles conheceram uma felicidade artificial. Mas o passado é um cão de caça que nunca perde o rastro.
A quebra final veio durante a campanha de inauguração de um hospital pediátrico, um ato de redenção pública de Albert. A cena era toda artificial: otimismo forçado, sorrisos para as câmeras, flashes incessantes.
No meio da multidão, a luz intensa e o excesso de vozes atingiram Benadetta. A Clarividência — o Dom Raro e Temido do Éter — manifestou-se. Ela não apenas viu; ela experimentou o futuro com uma dor lancinante.
Seus olhos viraram. A íris desapareceu, e uma fina névoa de Éter, azulada e fria, começou a se condensar e escorrer entre seus dedos enquanto ela agarrava as pernas do pai. Seu corpo tremia não de frio, mas de uma dor que vinha do tempo.
— FOGE! ELES VÃO TE MATAR! — ela gritou. A voz não era dela, mas um eco do futuro.
O silêncio no evento não foi um simples silêncio; foi um vácuo sepulcral. O som estridente dos jornalistas desligando seus flashes foi como o ranger de uma porta de caixão.
Alphonse, agindo por instinto, correu e abraçou a irmã com uma força desesperada, tentando sufocar a visão e o som. Ele se tornou a âncora dela. Ele cobriu seus olhos e sussurrou, implorando: — Está tudo bem, Betta. É só um sonho ruim. Não olhe. Eu estou aqui. Não olhe.
A mídia não viu um aviso. Viram um mau agouro. Uma maldição, e também uma chance de alcançar mais audiência. Os flashes voltaram, mais frenéticos, transformando a Clarividência em espetáculo.
Albert acreditou. O medo germinou em paranoia, e ele transformou a mansão em uma prisão de luxo.
O isolamento foi lento e sufocante. A sociedade de Astra os via como monstros. Os gêmeos eram chamados de "filhos do demônio".
A mãe, antes a única fonte de luz na prisão dourada, sucumbiu à depressão. Ela não conseguia mais suportar o ódio público, a paranoia do marido e a constante sensação de que a casa estava à beira de um colapso. Ela gradualmente parou de falar, parou de sair do quarto e, mais importante para as crianças, parou de cantar a canção de ninar, o único vestígio de normalidade.
A morte dela foi o golpe mais cruel.
Em uma tarde de chuva incessante, os gêmeos decidiram ir ao quarto da mãe, na última tentativa de resgatar um sorriso.
Mas o que eles viram quebrou o jardim de inocência para sempre.
Alphonse, o protetor, gritou em um som abafado, caindo de joelhos ao lado do corpo sem vida. Ele a abraçou, tentando em vão trazê-la de volta, chorando em soluços que pareciam vir de um poço sem fundo.
Benadetta, porém, não chorou imediatamente. Ela teve uma segunda, terrível manifestação da Clarividência. Não o futuro, mas a verdade emocional do presente. Ela viu a solidão sufocante da mãe, o ódio da multidão, a loucura de Albert. Ela sentiu a causa de tudo. E, de alguma forma, sentiu que eles, os gêmeos amaldiçoados, eram a origem do colapso.
Ela se afastou do irmão e sussurrou para o vazio, a voz carregada de culpa imensurável: — Isso... é tudo culpa minha?
Albert, agora viúvo, mergulhou de vez na loucura, culpando o mundo e trancando-se em seu quarto blindado de segurança máxima, o seu último refúgio.
Um ano depois da profecia, o destino fechou o ciclo.
Albert Banores foi encontrado morto em seu quarto de segurança máxima. Não houve invasão. Não houve tiroteio. A assassina foi uma das serviçais, uma mulher humilhada e enlouquecida pela atmosfera de terror e luxúria tóxica da casa. Ela o degolou enquanto dormia, o metal frio cumprindo a profecia de Benadetta.
O crime, dentro de um quarto inexpugnável, tornou-se mais que um assassinato; tornou-se um mistério sobrenatural.
Os gêmeos foram encontrados sentados no corredor, lado a lado, limpos, mas mudos. Eles não reagiram aos policiais, aos vizinhos curiosos, à tragédia.
Aos olhos da mídia e da multidão, a dúvida foi cruel: "Ela profetizou, ele morreu. Coincidência? Ou ela tem o poder de um demônio?" Os sussurros de que a "Pequena Bruxa" havia causado tudo com seu ódio ou seu poder amaldiçoado se tornaram a versão aceita.
Alphonse encarava os rostos de ódio. Ele não chorava mais; ele apenas tornou-se granito. Seu único movimento era sempre estar meio passo à frente de Benadetta, protegendo-a do contato e do julgamento, um escudo silencioso e ineficaz.
Nenhum parente quis acolhê-los. Ninguém queria as "crianças amaldiçoadas" que levaram um império à ruína. Eles estavam sozinhos, quebrados, destinados a desaparecer no sistema de adoção.
Eles foram levados para uma sala fria e impessoal dos serviços sociais. O silêncio era a única testemunha restante da tragédia.
Foi então que um homem apareceu.
Ele veio em um carro preto, vestindo um terno impecável e um tapa-olho que lhe conferia uma aura de frieza calculada. Ele olhou para eles não com caridade, mas com avaliação. Ele viu o potencial desperdiçado, o dom aterrorizante da garota e a lealdade inabalável do garoto.
Ele não estendeu a mão em afeto. Ele a estendeu para o vazio da sala, em um gesto de domínio e posse.
Ele fixou o olhar em Benadetta. — O mundo te odeia porque você é o que eles não conseguem entender. Aquilo que chamam de maldição, eu considero uma Bênção.
O nome do homem era Stefan Salazar.
E assim, Alphonse e Benadetta Banores morreram, e os Oficiais da Família Salazar nasceram.
Parte 2
20 de Julho de 20.018
O mundo não era mais o Titanic. Era um infinito escuro e opressor. O ar era denso, pesando sobre os ombros de Benadetta como uma lápide.
O céu, destituído de estrelas, era preenchido por formas geométricas douradas — cubos, pirâmides, tesseratos — que giravam em eixos impossíveis, entremeados por fórmulas matemáticas insolúveis que brilhavam como néon. A luz fria delas não iluminava, apenas expunha o vazio. O chão não era sólido; era um mar de chamas negras frias que lambiam os pés sem queimar, apenas drenando a esperança e a vontade de existir. Era a antimatéria da sanidade.
Diante de Benadetta, flutuando a meio metro do chão, estava a Entidade.
Era uma figura divina e diabólica, um espetáculo de contraste. Metade de seu corpo, masculina, era feita de sombras, imponente, exalando uma arrogância fria e a ordem absoluta. A outra metade era feita de pura luz dourada, fluida e caótica, um vórtice de potencial destrutivo.
— Parece que seu plano não irá acontecer como você previu. — A voz da Entidade ecoou de todos os lados, desprovida de localização, mas penetrante. O lado dourado sorria com escárnio. — O seu "jogo" parecia tão divertido no início... mas acabou sendo destruído antes mesmo de chegar na metade. Que chato para você, não é, garotinha?
Benadetta estava no centro do Limiar, de joelhos. Seus joelhos rasgavam o chão de chamas negras, mas ela era indiferente à dor física. Seus olhos eram abismos sem íris, apenas poços de ódio faminto e absoluto. A dor interna era tão imensa que ela precisou de algo para ancorá-la: ela cravou as unhas na carne dos próprios ombros, rasgando a pele, concentrando-se na pontada para não sucumbir à insanidade que este lugar provocava.
— Não importa... — ela sibilou, o som arranhado na garganta. — Eu não ligo se eles fugiram. Eu não ligo se o plano falhou. Eu vou continuar perseguindo-os até matar todos. Com os seus poderes... eu vou exterminar cada um deles. Cada um daquela maldita família.
— Hahahaha!
A Entidade gargalhou. As fórmulas no céu vibraram violentamente com o som, como cordas de uma lira distorcida pela insanidade.
— Mas que garota arrogante! Querer usar os poderes de uma Divindade Suprema, um Astreus, para algo tão fútil quanto vingança humana? Você é realmente muito engraçada.
O Astreus desceu em uma lentidão calculada, ficando cara a cara com ela. A proximidade da Entidade era esmagadora, um peso de mil mundos.
— Eu não me importo! — gritou Benadetta, sangue fresco escorrendo em duas trilhas pelos braços. — Usarei tudo que estiver ao meu alcance. Eu nunca vou perdoá-los!
O Astreus inclinou a cabeça, o lado sombrio de seu rosto tremeluzindo, como se tentasse focar a forma de um sentimento que não compreendia.
— Sinceramente, eu não consigo entender. Para mim, o seu desejo não passa de pura bobagem. Você é como uma peça quebrada tentando quebrar as outras para se sentir melhor consigo mesma. E eu não poderia ligar menos para isso.
Ele fez uma pausa, e um sorriso cruel se abriu no lado dourado, um vislumbre de malícia milenar.
— Ainda assim... Acabou acontecendo de você ser um Receptáculo extremamente compatível. E como eu quero tanto brincar com minha querida irmãzinha, que deve estar por perto... não me importo de usar esse lixo de carne que você chama de corpo para nascer.
A Entidade estendeu a mão.
— Sendo assim, como viraremos um só, aceitarei seu jogo. Participarei da sua brincadeira. Vamos lá, queimar o mundo e transformar Elysium no primeiro palco para meus enigmas.
Ele a encarou profundamente.
— Agora me diga, Benadetta Banores... Qual é o seu preço? E o que está disposta a oferecer ao Enigma?
Benadetta fechou os olhos, buscando a fonte de seu ódio. A escuridão interna era mais opressora que a externa. Ela concentrou-se no passado. Não no treinamento severo, nem na humilhação trivial do dia a dia. Mas no dia em que sua alma morreu. O dia em que ela descobriu a verdade.
Benadetta, então com 14 anos, caminhava pelos corredores da mansão Salazar. A arquitetura era opulenta e fria, refletindo a alma de Stefan. Ela se movia como uma boneca, como lhe fora ensinado, orgulhosa por ter completado o novo pedido, escrito os roteiros sobre os pontos fracos de Londinium, ansiando por um raro elogio de seu salvador, aquele que ela chamava de "Pai".
Ela caminhou até o escritório de Stefan, cuja porta estava entreaberta. Uma fresta estreita de luz dourada cortava a escuridão do corredor.
— Senhor, tem certeza disso? — A voz grave de Lucian soou lá dentro, carregada de uma tensão incomum.
— Ainda tem medo, Lucian? — Stefan respondeu, com um tom de diversão gélida. O som de gelo tilintando em um copo foi ouvido. — Finalmente nossa Família está conseguindo força bélica o suficiente. Assim que obtivermos aquilo, tudo mudará.
— Mas senhor... — Lucian hesitou, e Benadetta sentiu seu corpo congelar. — Mesmo que os boatos corram dentro do Terminal Cinza, pode ser mentira. Pode ser um engano acreditar que os tais Deuses Supremos, os Astreus, estão nascendo nesse mundo. Parece algo inventado.
Stefan riu. Era um som de poder e certeza.
— Meu pobre companheiro... Isso é porque sua mente se limita demais. Saiba que eu acredito que, neste mundo, nada é definitivo. Tudo depende da imaginação. Se algo puder ser visualizado, eu acredito que esse algo pode acontecer.
Stefan caminhou pela sala, seus passos medidos e confiantes.
— Quando eu era mais novo, crescendo nos becos de imundície de Siracusa, eu falei que um dia alcançaria o topo como o governante daquela cidade. Para isso, criei minha própria família e comecei minha escalada.
— E quando cheguei ao topo, percebi que para alcançar a coroa que eu tanto desejava, e que estava sobre a cabeça de outro homem, eu precisava derrubá-lo e pisar em seu pescoço. — Uma terceira voz, feminina e estridente, surgiu completando a história de Stefan.
Hinata, com sua crueldade casual, saiu das sombras do escritório, sentando-se provocativamente na mesa.
— Bom... Você de fato não está errada. — Stefan continuou seu monólogo, agora para a plateia invisível no corredor. — De fato, tudo que falta é conquistar para mim aquela cidade que é minha por direito. Com os "Reis Sem Coroa" da Rosa Azul nos bloqueando, vejo que precisarei de uma arma invencível. E se, de alguma forma, eu puser as mãos nas lendárias entidades com poderes divinos... nada poderá me parar.
— Mas, senhor... — insistiu Lucian. Sua voz agora carregava uma nota de medo honesto. — Como vai conseguir controlar uma arma imparável? É como ter um cão de caça raivoso; alguma hora ele poderá morder a mão do dono.
Hinata gargalhou alto, jogando a cabeça para trás, o som ecoando a malícia pura.
— Ai, Lucian! Você é tão burro!
Ela se inclinou para frente, com um sorriso de cobra nos olhos. Benadetta, do lado de fora, prendeu a respiração até que seus pulmões ardessem.
— Eu explico, senhor. Deixe que eu explico para o grandalhão. Não consegue ver, Lucian? Para controlar as pessoas é muito fácil. Ele só terá que fazer como fez com a Benadoll e o irmãozinho inútil!
O mundo de Benadetta parou. O silêncio que se seguiu àquelas palavras foi mais alto do que qualquer grito.
— Tipo, olha só... — Hinata continuou, cruelmente divertida, saboreando cada sílaba. — Se ele conseguiu fazer com que as crianças que tiveram os pais assassinados a pedido dele se curvassem e o chamassem de "pai", não será tão difícil fazer o mesmo com um monstro, né?
Benadetta sentiu o chão sumir sob seus pés. Seu sangue congelou. A verdade explodiu em sua mente: o sequestro, o assassinato dos pais, a maldição... tudo havia sido orquestrado.
— Hinata! — Lucian advertiu, tenso, quase em pânico. — Eu já disse para não falar isso em voz alta. O que vai acontecer se um deles escutar?
Hinata deu de ombros, com uma indiferença que rasgou o resto da alma de Benadetta.
— O que eles poderiam fazer? Eles sabem melhor do que ninguém, a essa altura, que qualquer um que tente algo contra nós simplesmente é morto.
Stefan sorriu, o som do gelo tilintando no copo.
— Para ter controle sobre alguém, faça-o desejar ser seu aliado. Dessa forma, mesmo que descubram os fios que os manipulam, não terão escolha a não ser dançar como boas marionetes ao ritmo da minha melodia.
Do lado de fora, o mundo de Benadetta desabou. O homem que ela idolatrava. O homem que a salvou do orfanato. O homem que ela chamava de pai. Ele não a salvou. Ele criou o inferno para poder ser o Deus dela.
Benadetta abriu os olhos no infinito escuro. Não havia mais lágrimas. Apenas o vazio absoluto onde antes havia um coração humano.
Ela olhou para a Entidade à sua frente. O ódio a sustentava.
— Meu preço... — A voz dela era rouca, fria como a morte, despojada de qualquer emoção humana. — É o extermínio. A aniquilação total da Família Salazar. Eu quero que Stefan sofra. Que ele perca tudo que construiu, assim como ele fez comigo.
Ela estendeu os braços em um gesto de rendição total. O sangue em seus braços já estava seco.
— E eu ofereço todo meu corpo. Toda minha vida. Minha alma. Leve tudo. Nada mais importa. Eu aceito qualquer coisa para ver aquela família queimar.
O Enigma sorriu. O sorriso rasgou seu rosto dourado de ponta a ponta, revelando uma satisfação primordial.
— Negócio fechado.
Parte 3
Nos corredores superiores, o grupo de Sofia avançava. Era um avanço pesado, marcado pelo som das botas no metal e pela respiração compassada. Remi carregava Sofia, cujos braços pendiam exaustos, enquanto Mio sustentava Dante.
O silêncio do corredor era espesso, apenas cortado pelo zumbido distante das máquinas do navio.
— Ei... — A voz de Mio surgiu baixa, quase um sussurro, quebrando a quietude. Ela olhou de soslaio para Sofia. — Você tem certeza que ele vai ficar bem, né?
Sofia, com o rosto encostado no ombro de Remi, abriu os olhos lentamente. — Você sabe que sim — respondeu ela, a voz fraca carregando uma certeza inabalável. — Você confiou em mim. Se não confiasse, nem estaria levando ele com a gente agora.
Mio sentiu o rosto esquentar. Ela desviou o olhar para as sombras do corredor à frente, ajeitando Dante em suas costas para disfarçar o constrangimento. — Tsc. Você parece estar entendendo as coisas errado. Eu somente achei que ir até a Sala de Transmissão faria sentido, já que preciso encontrar a Beatrice. Não é como se eu estivesse preocupada com esse idiota.
Sofia riu baixinho, um som suave que ecoou brevemente. — Entendi. Fingirei que acredito.
Eles continuaram avançando, desviando dos destroços com movimentos fluidos. Foi então que o ritmo mudou. Dante, até então inerte, estremeceu.
— Argh... — Um gemido rouco escapou de seus lábios, e seus olhos se abriram, fitando o teto metálico em movimento.
Mio parou imediatamente. — Ah, a Bela Adormecida finalmente acordou — comentou ela, depositando-o no chão com um cuidado que contradizia seu tom sarcástico.
Dante piscou, o mundo girando e entrando em foco. Viu Mio, depois a silhueta de Remi e Sofia na penumbra. Levou a mão à testa, pressionando as têmporas. — Nossa... — Sua voz saiu arrastada. — Eu tive a maior dor de cabeça da minha vida.
— Reparei — disse Mio, cruzando os braços e observando-o de cima. — Antes de apagar, você ficou gritando e segurando a cabeça como um louco.
— Bom... faz sentido.
Dante inspirou profundamente e se levantou. O movimento foi lento, deliberado. Ele estalou o pescoço, o som seco ecoando no corredor. Girou os ombros, testando as articulações, e deu pequenos saltos no lugar, sentindo a gravidade retornar aos seus membros.
Mio o observava com atenção clínica, os olhos estreitos captando cada microexpressão. — O que foi? — perguntou ela, a desconfiança tingindo a voz. — Não vai fazer algo imprudente, como sair correndo por aí sem plano de novo, vai?
Dante parou os alongamentos no meio do movimento. Ele baixou os braços e olhou para ela. Um sorriso de canto, lento e significativo, desenhou-se em seu rosto. — Mais ou menos. Vou sair correndo, sim, mas não de forma imprudente.
Ele olhou para as próprias mãos, abrindo e fechando os dedos, observando a falta de tremedeira. — Eu não consegui entender todas as memórias que a Sofia me mostrou. Muitas ainda estão borradas. Mas, pelo que consegui ver... — Ele cerrou o punho com força. — Vejo que já chegou o momento de parar de ficar cabisbaixo.
Ele ergueu o rosto. A mudança foi palpável. A tristeza profunda, aquela nuvem negra que o orbitava, ainda estava lá, no fundo de suas íris, como uma cicatriz antiga e permanente. Mas ele não estava mais sendo consumido por ela. Havia clareza. Um foco afiado como lâmina.
— Como eu diria antigamente... — Dante ajeitou a gola da jaqueta rasgada com um gesto teatral. — Fim das missões secundárias. Hora da Boss Battle principal.
Mio arregalou levemente os olhos. A aura de "morto-vivo" que ele carregava havia desaparecido. O ar ao redor dele parecia mais leve, mais elétrico.
Sofia, observando das costas de Remi, sorriu aliviada, embora seus olhos estivessem pesados. — Se você completou a fusão... isso significa...
Ela tentou se esticar, mas a exaustão puxou seu corpo para baixo. Remi a firmou. — Cuidado, garota — advertiu Remi, suavemente. Ela olhou para o rapaz.
— Dante, você precisa chegar na Sala de Transmissão. — Sofia, com dificuldades para respirar, alertou.
— Pode deixar comigo.
Dante virou-se para Mio, o olhar desafiador e brincalhão. — Já sei que você não vai me deixar ir tão fácil sozinho, e eu provavelmente vou precisar de cobertura. Então... quer me ajudar?
Mio foi pega de surpresa pelo pedido direto, sem rodeios. — Tudo bem. Já que você implora... Pode ir na frente.
— Tenta me acompanhar.
A atmosfera ao redor de Dante mudou drasticamente. O ar crepitou, cheirando a ozônio. Pequenos raios vermelhos começaram a dançar ao redor de seu corpo, iluminando o corredor escuro com flashes carmesins.
— Liberar Arquivo: Segundo Modo — Deus da Velocidade.
Houve um estalo de vácuo, seguido por um estrondo abafado.
BOOM!
Dante desapareceu. Não houve corrida, apenas um rastro de eletricidade vermelha e poeira suspensa onde ele estava um milissegundo antes.
Mio não hesitou.
Ela saltou, mas em vez de pousar, seu corpo liquefez-se ao tocar o chão. Ela mergulhou para dentro do metal como se fosse uma piscina escura, desaparecendo no solo para persegui-lo por baixo da estrutura do navio.
O silêncio retornou tão rápido quanto foi quebrado.
Remi e Sofia ficaram sozinhas no corredor, tossindo levemente na poeira deixada pela partida explosiva da dupla.
— Isso vai mesmo funcionar? — perguntou Remi, olhando para o vazio deixado por eles.
— Eu não sei — respondeu Sofia, com uma honestidade brutal que pesou no ar.
Remi virou a cabeça, surpresa. — Como assim "não sabe"? Você não veio do futuro?!
— O futuro mudou no momento em que Drake fez sua aposta. As linhas do tempo se reescreveram. Agora... tudo o que podemos fazer é torcer.
Sofia fez força para se endireitar, apoiando o queixo no ombro da espadachim. — Mas seja qual for o resultado... eu o verei com meus próprios olhos mais uma vez. Vamos, Remi.
Elas recomeçaram a caminhada. Passos lentos, ecoando solitários. Mas, depois de alguns metros...
VWOOM.
Foi uma sensação física, como se o ar fosse sugado dos pulmões. A luz verde-esmeralda que banhava o navio, aquela pressão reconfortante de poder, sumiu instantaneamente. O Titanic mergulhou de volta na iluminação de emergência vermelha, fria e sombria.
Sofia gelou. — O Éter verde... sumiu.
Ela olhou para Remi, o pânico subindo pela garganta. — Remi... O Drake... Não me diga que...
Remi parou. Seu rosto permaneceu estoico, uma máscara de pedra, mas seus dedos apertaram o tecido da calça de Sofia com força suficiente para deixar os nós dos dedos brancos. Ela, melhor do que ninguém, sabia o que significava quando a aura de um Capitão desaparecia daquele jeito.
— Esqueça isso agora — disse Remi, a voz dura, forçando as pernas a voltarem a andar.
— Mas...
— Já esqueceu? Tem outra coisa que temos que confirmar. — Remi olhou fixamente para frente, recusando-se a demonstrar a fraqueza. — Vamos ver qual será o resultado da aposta do Capitão. Deixe para chorar ou ficar preocupada depois que vencermos.
Sofia respirou fundo, engolindo o choro seco. A lógica de Remi era cruel, mas necessária. — Certo. Vamos.
Elas continuaram pelo corredor, que agora parecia muito mais vasto e assustador sem a luz protetora de Drake.
De repente, um som quebrou a tensão mórbida.
Thump. Thump.
Vinha de dentro de um armário de zeladoria embutido na parede do corredor.
Sofia parou, o coração falhou uma batida. — Você ouviu isso?
— Ouvi. — Remi sacou sua espada num movimento fluido, o metal cantando. — E está ficando mais alto.
O armário tremia violentamente, como se uma fera estivesse presa lá dentro. Remi se aproximou com cautela felina, pronta para decapitar qualquer mafioso ou monstro que saltasse das sombras.
Ela chutou a porta com força. — SAIAM DAQUI!
POW!
Uma vassoura velha cortou o ar num arco desajeitado, errando a cabeça de Remi por milímetros.
Uma garota saiu tropeçando de dentro do armário, gritando em pânico absoluto, girando a vassoura como se fosse uma alabarda lendária contra um exército invisível. — NÃO ME PEGUEM! EU TENHO UMA VASSOURA E NÃO TENHO MEDO DE USAR! AHHH!
Ela se enroscou nos próprios pés e caiu de cara no chão metálico com um baque surdo.
Sofia piscou, a confusão substituindo o medo. — Espera... Quem é essa?
Remi baixou a espada lentamente, reconhecendo o cabelo desgrenhado e a roupa espalhafatosa. Ela soltou um suspiro longo, profundo e incrivelmente cansado, embainhando a lâmina. — Só pode ser brincadeira, Capitão...
A garota se virou no chão, rastejando para trás em pânico até suas costas baterem na parede oposta. — QUEM SÃO VOCÊS?! O QUE ACONTECEU COM TODO MUNDO?! — gritou Luana, a streamer, com os olhos marejados e a maquiagem borrada. — E POR QUE DIABOS EU NÃO FUI TELEPORTADA COM OS OUTROS?!
Parte 4
O grupo de Danael finalmente chegou à Sala de Transmissão Central. Era um cofre de tecnologia, um centro de comando repleto de monitores que agora refletiam o vermelho opressivo das luzes de emergência. Painéis de controle piscavam em um alerta rítmico, o único som que ousava quebrar o silêncio daquele navio moribundo.
Nyan e Sora moveram-se com a precisão de quem conhece o perigo. Levaram Anna, ainda inconsciente, para um canto seguro, longe dos painéis, usando suas jaquetas para improvisar um travesseiro macio.
Do lado oposto, Leon arrastou Alphonse. Usando cabos de energia e as algemas de Danael, ele prendeu o pulso do prisioneiro a um cano de metal exposto.
Alphonse, com a perna explodida agora enfaixada com suas próprias roupas, reclamava. — Acha mesmo que isso ainda é necessário no meu estado?
— Já ouviu falar em seguro de defunto? — Leon falou, apertando um pouco mais as cordas. — Além de não ter perdoado tanto aquela sua brincadeira de apontar a arma para minha cara.
Já Danael, com pressa, correu até o terminal principal. — Vamos lá, pirata... Não esqueça da próxima parte — murmurou ele, a voz rouca, acessando as câmeras. O sistema, hackeado anteriormente por Drake, estava mais do que criptografado; estava trancado.
De repente, a luz esmeralda etérea que banhava o navio piscou. Não foi um piscar lento, mas um soluço repentino. O intenso brilho verde-claro sugou-se para fora do ambiente, como se a cor tivesse sido deletada da realidade. O mundo voltou a ser banhado apenas pela urgência do vermelho piscante.
— A aura verde sumiu! — exclamou Leon. Ele olhou para o teto, tenso. — O que foi que aconteceu?
Todos se entreolharam, os músculos rígidos. Apenas Danael tinha a peça que faltava, anotada apressadamente na contracapa do diário de sua filha.
Ele girou a cadeira para encará-los, o rosto cansado. — Isso que sentiram foi o Éter de Drake. — A voz de Danael era um contraste gelado com a luz de emergência. — Ele usou uma certa relíquia de Éter para assumir o controle total do navio, para conseguir forçar o resgate e mandar embora todos os civis.
Alphonse, ouvindo a revelação do canto, se debateu com tamanha fúria que o cano de metal estalou. Ele cuspiu a mordaça, o rosto contorcido em incredulidade maníaca. — ESPERA! — ele gritou, a garganta em carne viva. — Então o motivo do nosso plano ter dado errado foi aquele maldito pirata?! Foi ele quem roubou o meu momento, teleportando os oficiais do Stefan para longe?!
— Fica calado. — Danael não elevou a voz, mas seu olhar era puro aço. Ele apontou o dedo, não para Alphonse, mas para a bandagem do garoto. — Ou eu vou aí apertar esse seu machucado por baixo dessa atadura.
— Seu idiota! Se quer fazer isso, faça logo! — Alphonse riu, um som seco e histérico. — Vocês são muito burros. Eu teria matado todos logo. Mas, por conta dessa misericórdia estúpida de "heróis"... serei eu quem vai matá-los. Podem apostar!
— Bom... que bom que você não está no nosso lugar — retrucou Danael, girando a cadeira para voltar ao terminal.
— Espera... — Sora interrompeu, o pânico tomando conta. — Se esse Éter era do pirata... o desaparecimento repentino... não me diga que ele...
Danael não se virou. Não mostrou reação. A única resposta foi o clique mecânico e frio de seus dedos sobre as teclas. O silêncio engoliu a sala, pesado e opressor, quebrado apenas pelo ritmo da luz vermelha.
— Nossa... — Leon torceu o nariz, o cheiro nauseabundo finalmente dominando a atmosfera. Ele seguiu o rastro de putrefação até um armário de suprimentos enferrujado no canto da sala. — Tem um cheiro horrível vindo daqui.
Ele abriu a porta com a ponta da espada. Pedaços disformes de membros humanos, ossos triturados e vísceras roxas caíram no chão em uma cascata macabra, espalhando um odor metálico e doce de decomposição.
— QUE MERDA É ESSA?! — Leon recuou, tropeçando, a mão na boca para conter o vômito.
Nyan e Sora gritaram, mas Nyan se forçou a se aproximar, os olhos trêmulos e profissionais. — Não é só carne... — Ela apontou. — Algumas partes estão... mordidas.
Ela olhou para Alphonse com um horror recém-descoberto, a implicação óbvia a atingindo. — Não me diga que você e sua irmã...
— É óbvio que não fomos nós! — gritou Alphonse, visivelmente enojado. — Nós somos assassinos, não canibais!
Danael olhou de soslaio para a pilha de carne, sua memória repassando uma passagem fria do diário: "A garota-tubarão estava comendo os corpos dos mafiosos como se fossem guloseimas."
— Realmente... eu não quero nem saber o que mais está se escondendo nesse navio — murmurou Danael, voltando ao trabalho. A repulsa o motivou a ser mais rápido.
CHI-A-RGH!
O som agudo da porta blindada do outro lado da sala começando a destrancar eletricamente cortou a tensão. Não era um arrombamento, era um acesso. Em menos de um segundo, a sala explodiu em movimento coreografado. Leon saltou para o centro com um giro, a espada cintilando. Sora preparou um feitiço de contenção, as palmas acesas com energia azul. Nyan se posicionou ao lado de Anna, as garras esticadas.
— Se for a vampira elétrica, estamos ferrados! — sussurrou Nyan.
— Não seja boba — respondeu Sora, focada. — Se fosse, ela teria transformado a porta em sucata, não usado o painel de acesso.
A porta deslizou lentamente, revelando não a assassina, mas um grupo estranho e armado: Kurokawa, Chuya, Miguel e Luck (carregando uma garota loira inconsciente nas costas) entraram na sala, armas em punho e prontos para o combate. Os dois grupos congelaram em um tenso impasse mexicano.
Danael, que já havia hackeado as câmeras e viu a chegada, levantou a mão, fazendo um sinal a Leon. — Esperem! Não ataquem!
Chuya, de colete e cigarro no canto da boca, piscou, reconhecendo a figura no assento de comando. — Espera... Sr. Nota?! Você está vivo!
— Eu já disse que esse não é o meu nome — suspirou Danael.
O alívio foi instantâneo, a tensão desmoronando. Luck e Kurokawa reconheceram os estudantes. — Achamos eles! — exclamou Luck.
— Sora! Nyan!
— Luck! Kurokawa! — Sora correu, iniciando um abraço apressado.
Os grupos se uniram, baixando as guardas. Kurokawa, no entanto, estava afobada, os olhos varrendo a sala freneticamente. — Espera! Antes de tudo... Vocês viram o Dante ou a Anna? Precisamos perguntar algo urgente a eles!
— O Dante a gente não viu — respondeu Sora. — Mas a Anna está ali.
Kurokawa correu, checando o pulso da garota loira. Luck, por sua vez, observava o estado deplorável do grupo de Danael: o prisioneiro amarrado, Leon ferido, Danael com queimaduras de choque. — O que aconteceu aqui? — perguntou Luck, abismado.
— Nota, foi você quem expulsou os mafiosos? — perguntou Chuya, claramente impressionado.
— Seus nomes são Kurokawa, Miguel e Luck, correto? — Danael ignorou a pergunta, olhando para os companheiros de Chuya. Luck assentiu. — Ótimo. Todos vocês estão reunidos. — Danael respirou fundo. — Eu ainda preferia achar minha filha primeiro, mas antes, é melhor eu situar todo mundo. Embora eu não espere que todos vão acreditar.
— Bom — disse Sora, cruzando os braços —, tirando o seu colega Chuya e a tal Miguel, já vou avisando para não se preocupar tanto, Sr. Danael. Quando o assunto é "viagem no tempo", os dois ali... — ela apontou para Luck e Kurokawa — ...têm certa experiência.
— Espera... viagem no tempo?! — Chuya arregalou os olhos.
Kurokawa, ao ouvir aquilo, sentiu um arrepio frio. Era a última peça. Ela deixou Anna com cuidado e se aproximou, o rosto grave. — Por favor... eu preciso saber o que está acontecendo.
Danael tentou pegar um adesivo de nicotina no bolso, mas percebeu que a cartela estava vazia. Ele praguejou. Chuya, vendo a cena, estendeu seu maço de cigarros. — Considerando tudo que está acontecendo e que a conversa vai começar com algo como "viagem no tempo"... acho que um cigarrinho antes de largar de vez não vai fazer tanto mal, né, Sr. Nota?
Danael olhou para o cigarro, depois para Chuya, e deu um sorriso extremamente cansado. — Bom... Considerando que hoje pode ser o dia em que eu literalmente morra... é um argumento sólido.
Ele pegou o cigarro, acendeu-o com um clique lento e deu uma longa, merecida tragada. A fumaça subiu, a única coisa se movendo em linha reta na sala vermelha. — Muito bem. Escutem com atenção. Isso não é um conto de fadas.
Danael começou a explicar tudo, mantendo o olhar firme no grupo. Ele falou de Sofia, sua filha, que antes da viagem não tinha poderes, mas que, sob o peso de ver seu pai morrer, a capacidade de trocar de linha do tempo em momentos específicos se manifestou.
— O massacre a bordo não foi simples. Foi uma convergência de eventos em múltiplos loops temporais. A Família Salazar veio pelo Astreus. O Grupo mercenário Horizon veio pelo Astreus e por um criminoso. E Alphonse e Benedetta vieram pela vingança pessoal. Todos se encontraram aqui, repetidamente.
Ele fez uma pausa, o cigarro queimando entre os dedos. — Após dezenas de tentativas falhas, Drake Dampier, o pirata, interveio. Ele usou o Éter para mudar o ponto de convergência, esvaziar o navio de civis e salvar milhares de vidas.
Ele apontou para o diário. — Para criar um cenário onde a derrota do Astreus seria possível, Drake só salvou quem não tinha conexões cruciais com o destino do monstro. Isso nos incluiu. Ele garantiu esse futuro, salvando nossas vidas que estavam sendo atacadas por Lucia — que, sim, estava tentando matar Alphonse para forçar o despertar de Benedetta.
O grupo ouvia em silêncio absoluto. Kurokawa apertava os punhos, assimilando a informação com uma dor evidente. — Então é por isso... — Luck sussurrou, olhando para Benedetta, a garota loira que carregava. — É por isso que ela emanava a mesma energia da Bomba Dimensional que vimos...
— Espera — Kurokawa levou a mão à boca, os olhos arregalados. — Isso significa que a Anna... ela realmente é o Astreus?
— Meu Deus... — Sora balançou a cabeça. — Sinto que escutei uma lenda épica e agora eu sou parte dela.
— Aê, sim! — Chuya comemorou, quebrando a tensão com um entusiasmo inoportuno. — Quer dizer que ninguém ficou sabendo da merda que eu fiz! Meu emprego tá salvo! ...Talvez.
Luck ficou completamente furioso. — Droga! Eu disse que iria proteger o Dante... Mas isso quer dizer que em todos os outros futuros, eu morri e falhei com ele?
— Eu sei que deve ser difícil para vocês acreditarem... — começou Danael.
— Acreditamos — responderam todos ao mesmo tempo.
— Como a gente iria duvidar quando literalmente viemos de 20 anos atrás? — disse Luck.
— É — concordou Leon. — Além de que aquela cena com Anna desmascarando Alphonse já removeu qualquer dúvida.
— E eu acredito no Sr. Nota — disse Chuya, dando de ombros. — Se você está falando com essa cara séria, deve ser verdade. — Ele se virou para Miguel. — E você, baixinha? O que você acha?
Miguel, que estava comendo um pacote de batatas fritas amassadas, parou com uma batata no ar. Ela olhou nos olhos de Danael por um longo segundo. — Ele parece legal. Então eu acredito.
Ela comeu a batata.
— Pera, é isso que você vai usar para decidir?! — Chuya quase caiu para trás.
De repente, uma risada quebrada, fina e insana começou a ecoar do canto da sala. — Hahahaha... HAHAHAHA!
Alphonse estava rindo. Uma risada de alívio e pura loucura. — E eu também acredito... — disse ele, levantando o rosto suado e esgotado. Seus olhos injetados brilhavam. — Agora todas as peças se encaixam! Então, de fato, em outras linhas, conseguimos o que queríamos! Obrigado! Isso deixa claro para mim que o próprio Destino quer que a gente vença e consiga nossa vingança!
— Você realmente não aprende... — suspirou Danael, atirando o cigarro no chão. — Deveria ter ficado quieto ao invés de se tornar o centro das atenções.
— Não... é que eu precisava mesmo agradecer a você por me contar essa história fantástica — disse Alphonse, com lágrimas escorrendo pelo rosto. — Isso era tudo que eu precisava ouvir antes de morrer. Saber que minha irmã enfim conseguiu tudo que queria... e que o destino está a seu favor. Agora, não me arrependo de nada.
— Você tem óbvios motivos para se arrepender — disse Danael, friamente. — E não fale como se fôssemos te matar. Você vai para uma cela bem fria. Lá, você deve conseguir perceber os motivos que tem para se arrepender.
Enquanto falava, Danael viu algo nos olhos de Alphonse, algo que a devoção havia cegado. Uma determinação final. As peças se juntaram na mente do detetive. A devoção à irmã, o autossacrifício cego e as palavras de despedida.
Danael arregalou os olhos, o grito engasgado na garganta. — MERDA! DETENHAM ELE! ELE VAI SE MATAR!
O grupo explodiu em movimento. Leon avançou com um rugido, esticando a espada para cortar as amarras. Sora e Nyan correram da outra ponta.
— Tarde demais... — sussurrou o garoto, o sorriso de alívio se transformando em uma careta de sacrifício.
Seu maxilar se contraiu. Ele abriu a boca e bateu os dentes com uma força final.
TLEC.
Não foi um som alto. Foi o mínimo som, o ruído perfeito e focalizado.
— Sinto muito, irmãzinha... Só poderei te proteger e ficar ao seu lado até aqui. Mas agora eu sei que você ficará bem e alcançará o sonho que tanto deseja. Me perdoe por não ter conseguido te dar sua felicidade como queria.
BOOM!
A Habilidade de Alphonse: Conversão Sonora. Qualquer som que possa ser interpretado como um gatilho pode virar um explosivo à sua vontade.
A cabeça de Alphonse explodiu em uma nuvem de sangue, fragmentos ósseos e Éter roxo-claro. A força da detonação, contida e direcionada, criou uma onda de choque sônica violenta, mas rápida, que atingiu o grupo como um martelo invisível.
Leon foi arremessado contra o cano onde Alphonse estava preso, seu corpo parando o impacto. Sora e Nyan foram lançadas contra os painéis de controle, gerando um coro de faíscas azuis. Kurokawa e Luck caíram, protegendo instintivamente Anna. Danael girou com a cadeira, a mão sobre o ouvido, o tímpano perfurado pelo vácuo sônico da explosão.
Fumaça, poeira e um vapor de Éter preencheram o ambiente. O alarme vermelho piscava mais freneticamente. O silêncio que se seguiu não era de paz, mas de surdez momentânea.
No meio do caos, algo aconteceu.
Benedetta, a garota loira que Luck havia carregado, estava deitada na maca improvisada, o corpo ainda inconsciente. Mas ela sentiu o choque. O elo psíquico com seu irmão se partiu. O último pilar de sua humanidade ruiu sob o impacto da perda e do sacrifício.
O corpo dela se arqueou.
Uma aura roxa e dourada, densa, escura e pesada como o vácuo do espaço profundo, explodiu de seu corpo. Não era uma luz, era uma força que distorcia a sala.
O chão de metal sob ela chiou, e o teto acima se desintegrou em uma nuvem de poeira e detritos, abrindo um buraco para o convés superior. O Éter condensado girou, formando padrões de geometria sagrada flutuante.
Benedetta abriu os olhos. Suas íris agora exibiam padrões geométricos dourados. Metade de seu corpo estava coberto por trevas vivas, enquanto a outra metade brilhava como ouro.
O Astreus havia despertado.
Parte 5
A porta da Sala de Transmissão não apenas cedeu; ela foi obliterada. Uma explosão sônica e cinética irrompeu, arremessando o grupo para fora como bonecos de pano em meio a uma chuva de estilhaços e metal retorcido.
O impacto contra o chão do antigo saguão de recepção foi brutal. A nova área, agora exposta ao vácuo parcial devido aos danos estruturais, era um cemitério de destroços mergulhado em fumaça espessa e luzes de emergência vermelhas que giravam, criando sombras dançantes e macabras. O som do vento uivando pelas brechas do casco misturava-se ao zumbido agudo nos ouvidos de todos.
Alguns tentavam se levantar, cambaleando, tossindo a poeira de concreto, com a visão turva e o equilíbrio destruído. Mas Danael, movido por uma determinação que gritava mais alto que a agonia de sua perna destroçada, arrastou-se pelo chão frio. Ele deixou um rastro de sangue enquanto alcançava Chuya e Luck.
— Vocês precisam ser rápidos! — gritou Danael, cuspindo um coágulo de sangue no chão metálico. Sua voz era rouca, desesperada. — Não temos muito tempo!
Chuya e Luck forçaram seus corpos a obedecer, levantando-se entre gemidos de dor. Mas, ao erguerem os olhos para o centro do saguão, a dor física tornou-se insignificante diante do horror.
Flutuando no epicentro da destruição, desafiando a gravidade e a sanidade, estava Benedetta. Ou o que restava da humanidade dela.
Era uma visão de pesadelo. A metade esquerda de seu corpo havia se dissolvido em uma silhueta de escuridão absoluta, uma matéria viva e viscosa pontilhada por dezenas de olhos amarelos que piscavam em ritmos caóticos, observando tudo ao mesmo tempo. A outra metade, em contraste, resplandecia com uma geometria dourada perfeita, ângulos retos e polígonos flutuantes que exalavam uma aura divina e aterrorizante.
— Mas que merda é aquela? — Chuya perguntou, o cigarro caindo de seus lábios entreabertos, esquecido.
— Aquela coisa é um Astreus... — respondeu Danael, os olhos fixos na aberração. — A fusão aconteceu antes do previsto. Mas ainda há chance. A teoria é que Dante possa vencer essa coisa, mas ele precisa completar sua própria fusão. Não sei quando vai ser, mas parece que está conectado com a Anna estar inconsciente. Temos que mantê-la longe daquela coisa até ele chegar!
— Bom, então temos uma vantagem — Luck apontou, notando a irracionalidade nos movimentos da criatura.
— Exato. Mas não vai demorar muito até ele recobrar a razão. Por enquanto, ele é movido por instinto — Danael cerrou os dentes. — E o instinto dele quer eliminar a rival.
Como se reagisse à menção de seu objetivo, a criatura parou. A massa de olhos na parte sombria girou em uníssono, focando com precisão letal no canto oposto do saguão, onde Anna estava caída, inerte.
— DROGA! ELE JÁ ESTÁ LÁ! — berrou Danael.
O detetive puxou seu caderno, o papel rasgando com a violência de seus movimentos. O Éter fluiu para as páginas.
— Escrita Automática: Voo de Interceptação!
Dezenas de aviões de papel ganharam vida. Endurecidos com Éter, eles cortaram o ar sibilando como adagas de aço, buscando criar uma barreira, uma distração, qualquer coisa. Mas o Enigma nem se moveu. Apenas o brilho dourado se intensificou.
Acima da cabeça de Anna e das garotas, o ar estalou. Um cubo dourado gigante, de dez metros de aresta, materializou-se do nada. Ele girava em alta velocidade, gerando um zumbido grave que fazia os dentes vibrarem, descendo como um martelo divino pronto para esmagá-las.
— AGORA!
Luck não correu; ele explodiu em movimento. Chamas laranjas irromperam das solas de seus pés, derretendo o metal do piso no ponto de partida. O impulso foi tão violento que rachou o chão. Ele se tornou um borrão, um cometa de fogo atravessando o saguão.
— SAI DE PERTO DELA!
Luck interceptou a trajetória do Cubo Dourado no ar. Com um rugido, ele girou o corpo e conectou uma voadora de duas pernas diretamente na face geométrica do objeto. No milésimo de segundo do impacto, ele liberou tudo o que tinha.
KABOOM!
A onda de choque varreu a poeira do saguão. A força foi tamanha que o cubo colossal foi desviado de sua trajetória letal, chocando-se contra uma parede lateral e pulverizando-a em uma chuva de concreto e vigas. O Enigma, flutuando acima, recuou meio metro no ar, a primeira reação de surpresa diante da resistência humana.
Luck pousou pesado na frente das garotas, a fumaça saindo de suas botas, assumindo a posição de liderança.
— Kurokawa! Nyan! Sora! Evacuem a Anna daqui agora! Levem-na até o Dante!
— Mas e você?! — gritou Kurokawa, os olhos arregalados de medo.
— Todos os demais que puderem lutar, não hesitem ou vão morrer! — Luck rugiu, ignorando a pergunta, seus olhos fixos no monstro flutuante, recusando-se a piscar.
Nesse mesmo instante, o Enigma estendeu a mão humana. O chão ao redor de Luck começou a ferver, não com calor, mas com escuridão.
— Interessante... — A voz da entidade ecoou, não pelo ar, mas direto na mente de todos. Soava distorcida, quebrada, como estática de rádio sintonizando canais mortos.
A sombra no chão explodiu. Tentáculos negros, cobertos de olhos amarelos que giravam freneticamente e bocas cheias de dentes, brotaram do chão como lanças, visando perfurar Luck de todos os ângulos possíveis.
— Corte de Vento: Lâmina Expansiva!
Um vulto verde surgiu ao lado de Luck. Leon, com a espada envolta em um vendaval cortante, girou sobre o próprio eixo. O movimento criou um domo perfeito de vento afiado, fatiando os tentáculos de sombra em pedaços antes que pudessem tocar a pele de Luck.
— Não pense que vai ficar com toda a glória, Luck! — gritou Leon. Suas mãos tremiam, mas sua postura era firme como uma rocha.
— Saiam logo daqui! — Luck gritou para trás, sem olhar.
Sora e Nyan agiram rápido, pegando Anna pelos braços e pernas, correndo desesperadas para o corredor oposto, protegidas pela retaguarda de Kurokawa.
O Enigma tentou flutuar para persegui-las, mas o ambiente mudou subitamente. Uma nuvem densa, cinzenta e asfixiante engoliu sua visão.
— Reino de Cinzas: Cortina de Ferro.
Chuya caminhava tranquilamente para dentro do campo de batalha. De seu corpo, exalava uma quantidade absurda de fumaça, densa como chumbo, cobrindo todo o saguão em segundos.
— Ei, coisa feia! — Chuya estalou os dedos, criando faíscas alaranjadas na penumbra cinza. — Seu oponente está aqui.
Dentro da fumaça, Chuya não corria; ele deslizava. Uma prancha formada de cinzas compactadas materializou-se sob seus pés, permitindo que ele se movesse a velocidades alucinantes, surfando no próprio caos. Ele sacou uma espada feita do mesmo material cinzento, as bordas serrilhadas girando como uma motosserra microscópica.
— Corte de Cinzas!
Ele passou pelo Enigma como um fantasma, desferindo um corte horizontal brutal no peito da entidade. A lâmina atravessou a escuridão como se fosse água, mas quando tocou a metade dourada...
CLANG!
Faíscas voaram. O som foi de metal contra diamante. Era indestrutível.
O Enigma não sangrou. Ele nem sequer recuou. Apenas girou a cabeça 180 graus, o pescoço estalando de forma antinatural, para encarar Chuya que passava às suas costas.
— Irritante.
O Enigma ergueu um único dedo. O ar ao redor deles vibrou com uma frequência baixa e nauseante.
A realidade gritou. O espaço ao redor de Chuya distorceu-se como uma pintura a óleo derretendo. Formas geométricas néon surgiram no ar, reescrevendo as leis da física naquele local específico.
A gravidade inverteu violentamente, puxando Chuya para cima com a força de um trem de carga. O teto, agora agindo como um ímã de alta potência, o recebeu com um impacto seco. Ao mesmo tempo, a brasa de seu cigarro congelou instantaneamente, queimando seus lábios com o frio absoluto.
— Mas que diabos?! — Chuya gritou, desorientado, tentando se soltar da gravidade invertida.
— Impacto Supernova!
Luck aproveitou a distração do monstro. Ele já estava no ar, vindo de cima (ou de baixo, dependendo da perspectiva), o punho carregado com o máximo de Éter que conseguia reunir sem o Jackpot. Chamas azuis começaram a se misturar com as laranjas, criando um vórtice de calor ao redor de seu braço.
Ele socou a "cabeça" do Enigma com tudo.
A explosão térmica foi cegante. O impacto quebrou a concentração do Enigma temporariamente. A realidade estalou de volta ao lugar, libertando Chuya, que caiu rolando no chão, recuperando o fôlego.
— Valeu, ruivinho! — Chuya tossiu, limpando o gelo dos lábios. — Essa coisa brinca com a realidade!
— Precisamos de mais força! — Luck gritou, ofegante, o suor escorrendo pelo rosto. — Eu preciso ativar o meu poder! Me dê cobertura!
— Entendido! — Chuya olhou para trás. — Vocês dois! Distração! Agora!
Danael, escondido atrás de um pilar de sustentação, lançou uma nova frota. Dessa vez, os papéis brilhavam com uma luz instável.
— Esquadrão Suicida!
Os aviões zumbiram ao redor do Enigma como um enxame de vespas furiosas. Eles mergulharam contra os múltiplos olhos da parte sombria, explodindo em pequenas cargas de Éter concussivo, cegando a criatura momentaneamente com flashes de luz e força.
Leon avançou pelo flanco, estendendo sua espada de vento. A lâmina invisível cresceu para três metros de comprimento.
— Estocada Vendaval!
Ele perfurou o ombro sombrio da entidade com precisão cirúrgica, interrompendo a conjuração de outro cubo dourado que começava a se formar.
— Vai, Luck! — gritou Leon, recuando antes de ser atingido por um tentáculo.
Luck avançou. O tempo parecia desacelerar. Ele precisava de três acertos críticos para girar a roleta.
Primeiro golpe. Um soco direto no abdômen. O impacto ressoou como um trovão abafado. CRÍTICO. Segundo golpe. Um chute giratório na têmpora sombria. A sombra se dispersou e reformou, mas o impacto foi sentido. CRÍTICO.
O Enigma, irritado, invocou uma pirâmide dourada pequena, mas densa, que girava como uma broca, visando perfurar o coração de Luck.
— Não vai não! — Chuya surgiu da fumaça, criando uma parede de cinzas sólidas. A pirâmide perfurou a parede, perdendo velocidade suficiente para permitir que Luck desviasse por milímetros; a ponta da pirâmide rasgou sua jaqueta.
Terceiro golpe. Luck usou o ombro de Chuya como trampolim, saltou e desceu um golpe de martelo com as duas mãos entrelaçadas bem no topo da cabeça da entidade.
CRÍTICO!
— JACKPOT! — Luck rugiu, sua voz ecoando com uma autoridade sobrenatural.
O som da batalha foi abafado por uma música eletrônica dissonante. No meio do caos, uma máquina caça-níqueis gigante e etérea se materializou atrás de Luck, as luzes néon iluminando a fumaça.
O Enigma parou. A entidade inclinou a cabeça, curiosa, absorvendo a informação que fluía para sua mente devido à Restrição de Luck.
— Probabilidade...? Humano tolo. O caos é apenas uma ordem que você não compreende.
As bobinas da máquina giraram. Tack. Tack...
♠️ ESPADAS ♠️ ♠️ ESPADAS ♠️ ♠️ ESPADAS ♠️
O som da vitória ecoou como um sino de igreja.
— MARÉ DE CHAMAS AZUIS!
Uma coluna de fogo azul-cobalto, pura e concentrada, explodiu do corpo de Luck, alcançando o teto e incinerando o ar ao redor. O calor era tão intenso que o metal do navio a dez metros de distância começou a escorrer como cera. A regeneração das sombras do Enigma parou instantaneamente onde a luz azul tocava, cauterizando a escuridão.
Luck sorriu. Seus olhos não eram mais humanos; eram duas fendas de energia azul elétrica.
— Agora a conversa é outra. Chuya! Comigo!
Chuya sorriu, tirando um novo cigarro do bolso e acendendo-o apenas aproximando-o da aura de Luck.
— Vamos fazer um churrasco de Deus.
Os dois avançaram juntos, uma tempestade de cinzas e fogo azul.
Chuya moldou a fumaça ao seu redor, criando uma criatura serpentina gigante — Ignatius — que avançou e serpenteou ao redor do Enigma, prendendo seus braços e limitando seus movimentos. Luck, impulsionado pelo buff, desferiu uma barragem de socos tão rápidos que pareciam dezenas de punhos simultâneos. Cada impacto vaporizava as sombras e fazia a parte dourada rachar com sons de vidro quebrando.
— ORA ORA ORA ORA ORA ORA!
O Enigma foi empurrado para trás, bombardeado pela combinação perfeita de cinzas cortantes e fogo anti-regeneração. A parede atrás dele cedeu sob a pressão.
— Conseguimos?! — gritou Leon, a esperança transparecendo em sua voz.
A fumaça e o fogo azul baixaram lentamente.
O Enigma estava parado no centro da cratera. Parte de seu corpo de sombra havia sido consumida, deixando buracos vazios, e havia rachaduras visíveis na geometria dourada. Mas ele não arquejava. Ele não gritava. Ele parecia... entediado.
— É só isso? — A voz estática soou decepcionada.
A entidade abriu os braços lentamente.
— Vocês me aborrecem.
As sombras no chão não se ergueram como tentáculos dessa vez; elas explodiram para cima como um gêiser.
A onda atingiu Luck e Chuya com a força cinética de um tsunami de concreto sólido. As chamas azuis de Luck foram abafadas instantaneamente, engolidas pela vastidão da escuridão. A fumaça de Chuya foi dispersada como neblina ao vento.
Os dois corpos foram arremessados, atravessando o ar e batendo violentamente contra as paredes opostas do saguão, amassando o metal com o impacto.
— Argh... — Luck caiu de joelhos, cuspindo uma grande quantidade de sangue. O buff de Espadas tremeluziu e apagou. — Ele... ele nem sentiu...
O Enigma flutuou para cima, elevando-se acima dos mortais. Centenas de formas geométricas douradas — esferas, cubos, pirâmides — apareceram ao seu redor como um halo divino, cada uma queimando com uma temperatura diferente: algumas exalavam o frio do zero absoluto, outras o calor estelar.
— Desapareçam.
Ele disparou tudo de uma vez.
Foi um bombardeio de saturação total. O chão foi rasgado. Leon tentou bloquear com uma barreira de vento, mas sua espada estilhaçou em mil pedaços e ele foi jogado para longe pela onda de choque. Danael viu a morte vindo.
Miguel, que estava escondido nas sombras observando a oportunidade, viu um Cubo de Gelo Indestrutível descendo para esmagar o crânio de Danael.
Sem hesitação, sem som. Miguel desapareceu e reapareceu. Num movimento fluido, ele empurrou Danael para o lado um milésimo de segundo antes do impacto. O cubo esmagou o chão onde a cabeça de Danael estava. Para os outros, pareceu apenas sorte divina.
O silêncio caiu sobre o saguão, quebrado apenas pelos gemidos de dor. O grupo estava no chão. Feridos. Banhados em sangue e poeira. Derrotados.
Enquanto isso, no corredor de evacuação...
Anna estava sendo carregada nos braços de Kurokawa, o balanço rítmico da corrida a trazendo de volta à consciência.
Ela abriu os olhos lentamente. O mundo girava em borrões cinzentos. O teto do corredor passava rápido demais.
— Onde... — Anna sussurrou, a voz fraca, como se viesse de muito longe.
— Anna! Você acordou! — Nyan gritou, as lágrimas de alívio escorrendo pelo rosto sujo de fuligem.
Anna tentou focar. Sua mente ainda estava fragmentada, presa no Jardim Branco, com Dante. Mas então, o chão tremeu. O estrondo de explosões atrás delas reverberou em seus ossos, puxando-a para a realidade cruel.
Ela sentiu o Éter.
— Essa presença... — Anna arregalou os olhos. — Ele já acordou?
Ela olhou para trás, por cima do ombro de Kurokawa. Através da porta destruída ao longe, no final do corredor, ela viu o brilho dourado pulsante e as sombras dançantes que engoliam seus amigos. Ela viu Luck sendo esmagado contra a parede. Ela viu o desespero absoluto.
— Não... — Anna tentou se soltar, debatendo-se fracamente. — Me solta! Eu tenho que...
— Não! — Kurokawa a segurou mais forte, apertando-a contra o peito, continuando a correr apesar das lágrimas. — Ele deu ordens explícitas, temos que te levar até o Dante!
Parte 6
A batalha continuava, mas a definição de "luta" já não se aplicava. Aquilo era um massacre unilateral, a colisão brutal entre deuses e mortais.
Luck foi arremessado como um projétil humano contra um pilar de sustentação. O som foi nauseante — o estalo seco de costelas partindo ecoou pelo saguão, mais alto que o próprio combate. O pilar de metal amassou com o impacto, e Luck deslizou até o chão, deixando um rastro de sangue. O buff de "Espadas" piscou e desapareceu, deixando-o nu, apenas com sua resistência humana já quebrada.
Ele tentou se levantar, os braços tremendo violentamente, tossindo sangue escuro no convés frio. Seus membros não obedeciam; os nervos gritavam em protesto. Sua mente chacoalhava dentro do crânio como uma pedra em uma lata, a visão turva e avermelhada focada apenas no monstro à sua frente.
O Enigma flutuava, intocável, divino e grotesco. A Entidade, ainda movida por aquele instinto primitivo de eliminação, ergueu uma mão feita de geometria dourada perfeita.
O ar vibrou. Partículas de luz sólida se condensaram no vazio, tecendo-se instantaneamente em uma lança de três pontas. Ela girava no ar como uma broca divina, emitindo um zumbido agudo que feria os ouvidos. A ponta mirava, com precisão matemática, o coração de Luck.
Leon, que estava caído a alguns metros, segurando o cabo de sua espada quebrada, viu a cena em câmera lenta. O mundo ao seu redor ficou cinza. O som da batalha abafou.
Nesse instante, a compreensão o atingiu não como uma ideia, mas como um raio físico.
"Por que eu fui poupado até agora?" — Leon pensou, o tempo parecendo congelar enquanto a lança terminava de se formar. "Eu sou o mais fraco aqui. Ele me ignorou... não por misericórdia. Mas porque eu sou irrelevante. Uma formiga não merece a atenção de um deus. A menos que..."
Seus olhos se fixaram em Luck, o único capaz de causar dano real até aquele momento, agora indefeso.
"A menos que eu sirva de escudo."
Leon não pensou. A lógica de sobrevivência foi desligada. Ele não hesitou. Ele agiu como um Caçador.
— SAI DAÍ!
Leon impulsionou-se com uma explosão final de vento concentrado nas costas, jogando seu corpo na trajetória do disparo como um míssil humano. Ele colidiu com Luck, empurrando-o para o lado com uma violência desesperada.
SHH-CHUNK.
O som foi úmido, final e terrivelmente real.
A Lança Dourada não parou. Ela atravessou o peito de Leon, rasgando carne e osso, e pregou-o no chão de metal com um baque surdo. O vento que girava ao redor de sua espada cessou instantaneamente, como uma vela apagada por um sopro.
Luck, caído ao lado, rolou e olhou para cima. Seus olhos se arregalaram, o branco invadido pelo vermelho do sangue de Leon que respingava em seu rosto.
— LEON! — O grito de Luck foi gutural, rasgando sua garganta, cheio de uma fúria e impotência que queimavam mais que fogo.
Leon, pregado ao chão como uma borboleta em um quadro, virou o rosto pálido. Ele sorriu, o sangue escorrendo quente pelos cantos da boca.
— Não... desperdice... a chance...
A luz nos olhos de Leon vacilou e apagou.
Luck rugiu, um som animalesco, forçando seu corpo quebrado a se mover. Ele tentou se lançar, socar o Enigma, rasgá-lo com os dentes se precisasse, mas seus braços estavam pesados como chumbo fundido. Ele caiu de cara no chão, as unhas arranhando o metal, chorando de raiva pura.
— Patético.
O Enigma nem se virou. Para ele, aquilo era menos que nada. Mas Chuya aproveitou a fração de segundo daquela arrogância.
Surgindo de uma nuvem de fumaça atrás da entidade, silencioso como a morte, Chuya desceu o que restava de sua espada de cinzas compactadas, visando a nuca exposta do monstro.
— MORRA!
CLANG.
A lâmina de cinzas se estilhaçou em pó ao tocar a pele dourada. Não houve corte. O Enigma apenas virou o pescoço 180 graus, as vértebras estalando, encarando Chuya com olhos de puro vazio.
— Inseto.
Uma onda de choque repulsiva explodiu do corpo da criatura, jogando Chuya para longe como se ele não pesasse nada.
Então, a transformação final aconteceu.
O lado sombrio de Benedetta começou a borbulhar, ferver e crescer, expandindo-se em massa muscular e escuridão. Assumiu uma forma mais masculina, robusta e imponente. As roupas femininas rasgadas queimaram em chamas de Éter roxo, sendo substituídas instantaneamente por um pó estelar.
O Enigma parou de grunhir. Ele endireitou a postura, crescendo meio metro. A fusão estava completa. O sadismo divino da Entidade e o ódio vingativo de Benedetta se entrelaçaram em uma nova e terrível consciência.
— Ah... Muito melhor. — A voz agora era límpida, dupla, uma harmonia dissonante que ecoava com autoridade absoluta. — Agora vejo com clareza. O palco está limpo.
Ele olhou para Luck e Chuya, caídos e quebrados aos seus pés.
— Vocês foram um aquecimento medíocre.
Ele ergueu o pé, a sola da bota sombria pairando sobre o crânio de Luck, pronto para esmagá-lo como uma uva.
— Adeus.
BOOOOOM!
O teto do saguão não apenas cedeu; ele vaporizou. Não foi um ataque; foi um evento de extinção.
Uma figura envolta em Éter laranja furioso e espirais de energia cinética colidiu com o Enigma com a força de um trem de carga em velocidade terminal. O impacto foi tão brutal que a onda de choque pulverizou as paredes. A Entidade foi arremessada contra o chão, criando uma cratera de dez metros de diâmetro que afundou o piso.
Poeira, detritos e fumaça voaram em todas as direções.
No centro da cratera, em pé sobre o peito do monstro soterrado, estava Beatrice Dragonroad.
Seus olhos não tinham a hesitação de antes. Eles queimavam com a fúria branca de um berserker. Seu corpo fumegava, a pele vermelha, consumindo sua própria vitalidade para alimentar o motor de destruição interna.
— Eu estava mesmo precisando descarregar minha raiva em alguma coisa, como um saco de lixo!
Ela girou o corpo no ar, a perna transformando-se em um borrão.
— MOTOR C: IMPACTO ROTACIONAL!
O Enigma bloqueou com os braços cruzados, mas a física estava contra ele. O chão cedeu completamente sob a pressão, e ambos afundaram para o andar inferior em meio a uma chuva de escombros.
Beatrice não parou. Ela usou suas ondas de choque como propulsores — Jet Propulsion — e mergulhou no buraco escuro atrás dele, um cometa de fúria.
Na hora que viram a convidada surpresa conseguindo competir força com aquela criatura, um pensamento percorreu a mente de Chuya: "Eu tenho que ajudá-la". Chuya, limpando o sangue que cobria metade de seu rosto, deu um sorriso torto e doloroso.
— Essa pirralha... Gostei dela.
Mesmo quebrado, movido apenas pela adrenalina, ele se levantou.
— Reino de Cinzas: Cortina de Fumaça! — Chuya disparou fumaça densa para dentro do buraco, cegando o Enigma no ambiente confinado.
— Impacto Supernova! — Luck, drenando suas últimas reservas vitais, disparou rajadas de fogo azul para iluminar o alvo e distrair a Entidade.
Lá embaixo, a batalha era tamanha que o prédio tremia a cada impacto.
Beatrice não dava espaço para o Enigma respirar. Ela era um furacão de violência.
— MORRA! MORRA! MORRA! MORRA!
Seus punhos eram brocas. Cada soco girava no momento do impacto, torcendo o ar, perfurando as defesas de sombra e fazendo a pele dourada rachar e chiar. Ela não se importava com a defesa; ela trocava dano por dano, sangrando pelos cortes que recebia, mas rindo com a loucura da batalha.
No canto do saguão superior, longe do buraco, Miguel apareceu silenciosamente ao lado de Danael, que tentava se arrastar inutilmente para a luta com sua perna inútil.
— Ei... — Miguel o pegou pelo colarinho com uma facilidade perturbadora e começou a arrastá-lo para longe da borda.
— Me solta! Eu tenho que ajudar! — protestou Danael, debatendo-se.
— Não — disse Miguel, com sua voz avoada, olhando para o teto destruído enquanto o arrastava como um saco de batatas. — Você é um cara legal. O Chuya gosta de você. Então você não pode morrer. Fica quietinho aqui.
Enquanto isso, nas sombras, em uma passarela superior destruída que dava vista para o caos...
A Horizon observava. Lucia estava sentada na borda, balançando as pernas no vazio. Ceto chupava um pirulito, os olhos brilhando fascinada com a carnificina. Kali estava encostada em uma viga, de braços cruzados, e Rasputin acariciava sua barba, analisando tudo.
— Uau... — Ceto assobiou, vendo as explosões vindo do andar de baixo. — Olha aquela baixinha. Ela luta como um animal encurralado. Me lembra o Adam quando perde o controle. Selvageria pura.
— Eu discordo — disse Rasputin, sua voz suave carregada de veneno, olhando de soslaio para Kali. — Eu diria que ela parece bastante a senhorita, Kali.
Kali estreitou os olhos, a temperatura ao seu redor caindo, mas não respondeu.
— Essa disposição para se quebrar inteira só para causar dano... — continuou Rasputin, analítico. — Esse desdém pela própria vida em prol da destruição do alvo. É fascinante. Devo assumir que é de família?
A aura de Kali tremulou, perigosa e assassina.
Lá embaixo, a situação mudou drasticamente.
O Enigma, cansado de ser pressionado por um ser inferior, rugiu, dispersando a fumaça com pura pressão espiritual.
— CHEGA!
Ele conjurou uma esfera massiva acima de sua cabeça, composta de matéria dourada e sombras líquidas que giravam em direções opostas, criando um som de rasgo na realidade.
— AXIOMA: COLAPSO GRAVITACIONAL.
Ele disparou a esfera contra Beatrice. O chão se retorceu, puxado pela gravidade do ataque.
Beatrice não desviou. Ela fincou os pés no chão, juntou as mãos, concentrando todo o seu Éter restante. Sua vitalidade estava sendo drenada a um nível crítico. Sua pele começou a rachar, brilhando como magma.
— PERFURE OS CÉUS - FURADEIRA DAS ESTRELAS!
Um cone gigante de energia espiral formou-se ao redor de seus braços unidos.
Os dois ataques colidiram.
O mundo ficou branco e preto por um segundo. Beatrice gritava, empurrando a esfera de volta, seus pés afundando no metal até os tornozelos, veias estourando em seus braços e pescoço.
— Você é forte... — A voz do Enigma ecoou na mente dela, fria e implacável. — Mas continua sendo só um Mortal.
A esfera começou a ganhar terreno, devorando a broca de energia. Beatrice estava sendo empurrada para trás, centímetro por centímetro. Seus joelhos tremiam violentamente. Sangue jorrava de seu nariz e ouvidos pela pressão interna.
— Ela vai morrer — comentou Ceto, lá em cima, terminando seu pirulito.
— Não vai fazer nada, Kali? — perguntou Rasputin, com um sorriso provocador nos lábios. — É sua irmãzinha, afinal.
Kali apertou os braços cruzados, as mãos tendo pequenos espasmos, mas permaneceu imóvel como uma estátua.
Beatrice sentiu a morte chegando. A sombra da esfera tocou seu rosto. O calor era insuportável.
— Desculpe... mana...
ZAT!
Um som de trovão rasgou o ar, mas não veio do céu. Veio de todos os lugares ao mesmo tempo.
Um vulto coberto de raios vermelhos crepitantes cruzou o campo de batalha em uma velocidade que desafiava a percepção humana. O ar explodiu em sua passagem.
Não foi um ataque frontal. Foi um chute lateral perfeito, carregado com a inércia de um cometa.
CRACK-BOOM!
Dante Scarlune atingiu a lateral da cabeça do Enigma. O impacto foi tão absurdo que a entidade foi arrancada do chão horizontalmente, atravessando três paredes de aço reforçado sucessivas como se fossem papel, o som das colisões ecoando como trovões distantes. A esfera gravitacional perdeu a sustentação e se dissipou no ar.
Beatrice caiu de joelhos, ofegante, o suor pingando no chão.
Ela olhou para cima, a visão embaçada.
Dante estava parado à sua frente, faíscas vermelhas dançando furiosamente ao seu redor, o casaco balançando na turbulência residual. Seus olhos estavam focados, elétricos, determinados.
Atrás dele, o chão se liquefez e Mio emergiu, segurando Anna com delicadeza. A garota começava a despertar completamente, confusa com o cenário apocalíptico ao seu redor.
Dante estalou o pescoço, soltando uma tensão antiga, e olhou para o buraco distante onde o Enigma havia desaparecido.
— Desculpa a demora — disse ele para Anna. — O trânsito estava horrível.
Ele se virou para Anna, que estava sendo colocada no chão por Mio



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