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The Fall of the Stars: Capítulo 1 - Expresso Para o Frio

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 14 de jul. de 2025
  • 76 min de leitura

Atualizado: 22 de abr.

Volume 5 : Trem Escarlate


Parte 1

O vento em Threshold trazia um zumbido agudo antes de golpear. Não era um sopro, mas o atrito de navalhas invisíveis rasgando a pele exposta. A tempestade engolia a plataforma aberta da Estação Central em um ruído contínuo e ensurdecedor. Nos cantos, as árvores de Sakura holográficas travavam uma batalha inútil contra o clima. Os emissores chiavam. O brilho das pétalas artificiais oscilava e sumia sob o peso da neve úmida, que bloqueava as lentes e reduzia a ilusão de primavera a um clarão cinzento e intermitente.

Na linha principal, a besta aguardava. O trem roubava a pouca luz da manhã com sua lataria de metal negro e fosco, texturizado por uma crosta áspera de geada. O calor dos motores estalava ao encontrar o ar congelante. Na frente, limpa-neves colossais apontavam para os trilhos como mandíbulas de ferro cerradas, desenhadas para triturar a tempestade. O cheiro de ozônio e metal frio pairava no ar, uma lembrança física de que aquele território isolado e arcaico apenas vestia a máscara da alta tecnologia.

O embarque seguia essa mesma lógica brutal. Sem fiscais, sem vozes automatizadas pedindo bilhetes, sem o papel ou o plástico do mundo exterior. Apenas o zumbido mecânico de uma catraca solitária, bloqueada por uma haste de aço e vigiada por um feixe de luz.

Dante deu o primeiro passo. Suas botas esmagaram a camada de gelo acumulada no chão até ele parar, dando as costas para a máquina. Em silêncio, puxou a bainha da camisa para cima. O mecanismo zumbiu, e um filete de laser vermelho deslizou por sua lombar. Ao toque da luz, a biologia Scarlune reagiu: a marca de um Triskelion acendeu sob a pele, pulsando viva como ferro na forja. O sistema emitiu um estalo seco. A catraca cedeu.

Logo atrás, Kai não deu tempo para a máquina reiniciar. Com um puxão brusco e impaciente, arrastou a gola do casaco grosso para baixo e cravou os pés no chão, expondo a clavícula ao laser. O feixe varreu o osso, e o mesmo Triskelion ardeu na pele, atestando em silêncio o sangue que lhe corria nas veias.

E então, quebrando totalmente a atmosfera de seriedade imponente e sombria...

— Atchim!

O espirro estalou alto e desajeitado, ecoando perto das catracas.

Mio Mortifer encolheu os ombros no momento exato em que uma placa espessa de neve cedeu da marquise e desabou direto sobre sua cabeça. O impacto úmido enviou um choque térmico fulminante para sua espinha. Ela sacudiu a cabeça freneticamente, espalhando lascas de gelo para todos os lados, e abraçou o próprio tronco. O frio parecia perfurar seus ossos. O som rápido de seus dentes batendo se misturava ao caos da estação.

Ao redor, o barulho de rodinhas de bagagens extravagantes raspava contra o piso congelado. Dezenas de figuras marchavam pela plataforma, cruzando o espaço em passos rápidos e precisos. O fluxo contínuo desviava de Mio de forma automática, raspando em seus ombros sem um único olhar; para a multidão, ela não passava de mais uma estátua de gelo esquecida no caminho.

Esfregando os braços com força na tentativa inútil de gerar algum atrito quente, ela encheu os pulmões.

— Mas que diabos de lugar é esse?!

O grito rasgou sua garganta. No mesmo milésimo de segundo, uma lufada violenta de vento varreu a plataforma, engolindo o som por completo. Nenhuma cabeça se virou. Nenhum passo hesitou. Absolutamente ninguém prestou a mínima atenção.

Parte 2

Mio esfregava os braços com tanta urgência que o atrito ameaçava esfolar a própria pele. De repente, o zumbido contínuo do vento foi abafado. Uma sombra larga bloqueou a fúria da nevasca, engolindo as duas em um oásis momentâneo de calmaria.

Diante delas, a figura imponente desafiava o clima. O homem era alto, de ombros largos e músculos evidentes sob as roupas, mas sua postura não carregava um pingo de agressividade. Os fios longos e loiros esvoaçavam no ar gelado, movendo-se com fluidez contínua, emoldurando um rosto de serenidade quase angelical. Era Love Scarlune.

— Peço perdão pela demora.

O timbre aveludado deslizou pelo ar, um tom pacífico que ignorava completamente o caos da estação. Ele estendeu as mãos, oferecendo dois bilhetes de embarque e um par de casacos de tecido grosso.

— Demorei mais do que o esperado para conseguir os convites de vocês duas. Por favor, vistam isso. Sinto muito mesmo por ter deixado duas crianças passando frio aqui fora.

Mio não hesitou. Suas mãos avançaram e arrancaram o tecido dos dedos de Love. Ela se enrolou no casaco com a urgência de quem se agarra a uma corda de resgate, soltando um longo e trêmulo suspiro pelo nariz assim que o peso quente do forro envolveu seus ombros. Beatrice, no entanto, puxou a segunda peça com uma lentidão letárgica. Vestiu o casaco em movimentos arrastados e desinteressados, os olhos impassíveis, como se o frio de Threshold fosse apenas um incômodo menor.

Mas a última palavra de Love havia ficado suspensa no ar.

Uma veia saltou na testa de Beatrice. A garota de visual punk cravou o olhar no rosto tranquilo à sua frente. O mau humor matinal acendeu de imediato, inflamado pelo ódio crônico de ter sua altura questionada. Ela plantou os pés no chão e abriu a boca para disparar, mas uma massa pesada de tecido cortou sua linha de visão.

Enrolada até o pescoço como um casulo, Mio saltou entre os dois, balançando as mãos no ar.

— Espera, espera, Bea! Abaixa as armas! — Mio forçou uma risada aguda, ainda tremendo levemente. — Ele não tá falando do seu tamanho! Ele também me chamou de criança, não ouviu?!

Love piscou, surpreso pela repentina agitação. A tensão se dissipou assim que ele abriu um sorriso calmo, inclinando levemente a cabeça e fechando os olhos em uma expressão franca.

— Ah, queiram me perdoar. Não estou julgando de forma alguma pela aparência de vocês. Apenas senti um ar de juventude muito bom e vibrante que emana das duas... a mesma juventude que sinto no Dante e no Kai.

Beatrice estalou a língua, um som afiado que cortou o assobio do vento. Cruzou os braços com firmeza sobre o peito e virou o rosto para a nevasca.

— Tsk. Se era isso, devia ter falado direito logo de cara.

Love não desfez a expressão serena. Apenas sorriu, estendendo a mão aberta para indicar o caminho em meio ao piso congelado.

Sob o peso quente do tecido do casaco, os músculos de Mio finalmente pararam de tremer. Mais relaxada, ela espichou o pescoço, tentando enxergar por cima do mar de malas luxuosas e chapéus de frio. O zumbido grave dos motores da besta de ferro fazia o chão vibrar sob as solas das botas. Foi quando seus olhos focaram na plataforma de acesso. Lá estava Dante, no topo da escada metálica, a um passo de entrar no vagão.

— Ei! Seu maldito! — Mio esticou o braço, apontando o dedo na direção dele com fúria. — Não vai nem esperar a gente?!

O grito atravessou o ruído da estação. No topo dos degraus, Anna girou o corpo, os olhos arregalados procurando a origem da voz no meio da multidão branca. Dante, em contraste absoluto, sequer moveu um músculo de sua postura curvada e letárgica. Com as pálpebras caídas pela clássica falta de vontade de existir ali, ele não disse uma palavra. Apenas fechou a mão no colarinho do casaco de Anna e puxou para trás. A garota foi arrastada para dentro da escuridão do vagão como se ele recolhesse um gato de rua pela nuca. Antes de ser engolido pelas sombras da máquina, Dante ergueu a mão livre e mexeu os dedos em um tchauzinho lento e zombeteiro.

— Ah, você vai ver só quando eu entrar aí! — Mio rosnou, batendo o pé com tanta força que triturou a crosta de gelo no chão.

Mais à frente, perto das portas principais do trem negro, a figura de Vivian se destacava contra a lataria escura. A coluna ereta e o queixo levemente erguido passavam por cima da fuligem e da ventania, mantendo a aura de rainha intocada em meio ao cenário de ferro e opressão. Ela os observou se aproximarem antes de cruzar os braços lentamente.

— Sinceramente, não entendo por que vocês duas decidiram vir também. — O suspiro de Vivian condensou no ar frio, carregando mais exaustão do que arrogância. — Essa viagem é uma chatice sem igual.

Mio abriu um sorriso largo e amarelo. A mão direita subiu rápido para coçar a nuca, um gesto claro de defesa.

— Bom, a Capitã Levy tava atrás dos "amigos" do Dante para virem também. Ela disse que talvez isso o motivasse ainda mais a não fugir das responsabilidades... e disse que iria oferecer um belo prêmio em dinheiro caso os amigos dele aceitassem vir, então...

A expressão de Vivian permaneceu uma máscara inquebrável. Ela ergueu milimetricamente uma das sobrancelhas.

— Mas ela certamente não estava falando de vocês duas...

O sangue de Mio congelou instantaneamente nas veias. O calor do casaco desapareceu. Ela jogou o olhar em puro pânico para Love, que aguardava a dois passos dali, com os braços cruzados nas costas e um sorriso pacífico no rosto. O pescoço de Mio girou de volta para Vivian em um solavanco, os olhos arregalados, piscando e apontando desesperadamente na direção do gigante loiro em um apelo silencioso para que a frase morresse ali.

— Do que você tá falando?! — A voz de Mio estalou aguda, atropelando o final da frase de Vivian. Ela soltou uma risada ruidosa e plástica, os ombros subindo quase até as orelhas. — Nós claramente somos as melhores amigas do Dante! Não somos?!

Vivian sustentou o olhar. Observou o piscar de olhos espasmódico e exagerado de Mio. Em seguida, desviou as pupilas milimetricamente na direção de Love. O peso da mentira pairou no ar por um segundo inteiro antes de a jovem Scarlune fechar os olhos. O ar escapou de seus lábios em um suspiro lento, carregado com a resignação polida de quem não tinha energia para desmontar aquele teatro.

— É... verdade — Vivian concedeu, os dedos finos subindo para massagear o centro das têmporas. — Tanto faz. Não importa o motivo de quererem vir. Quem sou eu para rejeitar passageiras agora. Vamos entrar logo.

O grupo avançou, cruzando as pesadas portas de uma cabine de segurança envidraçada. O chiado cortante da nevasca foi subitamente abafado pelo vidro grosso, substituído pelo zumbido contínuo dos aquecedores internos e pelo murmúrio denso dos passageiros. O cheiro de metal quente e casacos úmidos tomou conta do ar.

Enquanto caminhavam pelo corredor transparente, Mio girou o pescoço. A dimensão real da Estação Central finalmente se revelava. A estrutura de concreto e aço engolia o horizonte. Nas plataformas distantes, outras bestas de ferro negro e prateado roncavam. O vapor fervente cuspido por seus escapes subia em colunas grossas, rasgando a cortina de neve. Protegida da ventania, cercada pelo pulsar rústico daquela tecnologia pesada e pelo som abafado dos passos apressados, Mio sentiu os músculos cederem. O frio, antes mortal, agora parecia quase acolhedor.

Seu olhar vagou pela multidão embarcando logo abaixo. Eram dezenas de silhuetas marchando rumo aos vagões. Carrinhos carregavam bagagens extravagantes de couro e ouro, cruzando com sobretudos volumosos que falhavam em disfarçar os contornos rígidos de armamentos pesados.

Quantas pessoas vão embarcar nessa loucura?, ela pensou.

O aquecedor da cabine soprou um ar quente em seu rosto, mas, ainda assim, um arrepio pontiagudo subiu pela base de sua espinha — um frio súbito que, dessa vez, não tinha absolutamente nada a ver com a neve.

Parte 3

A pesada porta de metal deslizou pelos trilhos e travou com um chiado sibilante de despressurização. O uivo violento da tempestade morreu no mesmo instante. A transição foi tão brusca que os ouvidos de Mio estalaram, engolidos por um silêncio repentino.

O corredor à frente não guardava qualquer resquício da brutalidade de Threshold. Era como cruzar o limiar de um ryokan de alto luxo. O baque rígido das solas no chão deu lugar ao afundar ceder dos tatames. As paredes exibiam a precisão simétrica de portas shoji de papel de arroz e madeira polida, enquanto o ar exalava um calor milimetricamente controlado, impregnado por um aroma brando de incenso.

A única testemunha do mundo deixado para trás eram as placas de vidro grosso ao longo do corredor. Do outro lado da transparência, a nevasca continuava a esmurrar a superfície em ataques mudos e frenéticos. O ambiente transpirava calmaria, mas o impacto silencioso da neve a centímetros de distância injetava uma sutil claustrofobia no ar. O conforto absoluto do vagão servia apenas como uma lente de aumento para a letalidade lá de fora.

Mio, no entanto, ignorou o abismo térmico e filosófico daquele cenário. Seus olhos varreram o espaço, maravilhados. Ela avançou quase flutuando, arrastando as pontas dos dedos pelos frisos de madeira e erguendo o queixo para inspecionar o design das luminárias. A ideia de tamanho conforto dentro das entranhas de um trem de ferro beirava o absurdo.

Alguns passos à frente, o ritmo de Vivian contrastava com a euforia da garota. A caminhada era fluida e elegante, mas a tensão ancorava seus ombros para baixo. Um longo suspiro escapou de seus lábios. Estava exausta por antecipação. Apenas projetar mentalmente o inferno burocrático e a dor de cabeça colossal de esbarrar com a mãe naqueles vagões já lhe drenava a energia.

O torpor do luxo, porém, foi quebrado no meio do caminho.

Caminhando logo atrás de Mio, Beatrice travou os pés no tatame. Seu queixo ergueu levemente, as narinas inflando duas vezes ao puxar o ar quente. Imediatamente, seu rosto se desfez em uma careta de puro e profundo nojo.

— Ugh... — Beatrice engasgou, levando os dedos ao nariz com rapidez. O aroma morno de incenso falhava em mascarar a nota etérea e adocicada que flutuava no ar. — Cheiro de fada. Como eu deixei você me arrastar pra cá? Só de pisar aqui meu estômago embrulha.

Mio largou a luminária de papel no mesmo instante. Com um giro rápido sobre os calcanhares, afundou os pés no tatame e cravou as mãos na cintura, projetando o corpo para a frente.

— Não se esqueça da fortuna que você me deve pelas casas que você demoliu na nossa última missão!

Beatrice recuou meio passo, os ombros cedendo como se a frase tivesse a força física de um soco na boca do estômago. Mio não deu espaço para o ar retornar aos pulmões da amiga e disparou a segunda investida:

— E esqueceu quem precisou implorar de joelhos pro fazendeiro da vila Syrian depois daquela sua confusão com o lobo gigante?!

Um segundo golpe invisível conectou. Beatrice desviou o olhar para o rodapé do corredor, uma gota de suor frio escorrendo pela têmpora.

— Você devia me agradecer! — Mio estufou o peito, a voz vibrando pelo espaço confinado e sereno. — Se eu não fizesse o controle de danos, a gente tava na rua. Ninguém ia contratar a gente nem pra varrer um quintal!

O rosto da garota punk ferveu. Ela ergueu as duas mãos na altura do peito, sacudindo-as em uma rendição desesperada.

— Tá bom, tá bom! Eu entendi! — resmungou, a voz estrangulada de frustração. — Eu vim, não vim? Tô pisando nesse lugar. Dá pra parar de esfregar isso na minha cara?

Mio ergueu o queixo. O sorriso que despontou em seus lábios era o retrato de uma vitória absoluta e presunçosa.

— Que bom que entendeu.

O som abafado dos passos sobre a palha de arroz voltou a ditar o ritmo no corredor estreito. Mio deslizava o olhar pelas marcações das portas shoji, procurando o quarto designado. Atrás dela, Beatrice caminhava de cenho franzido, as engrenagens mentais rangendo em uma tentativa inútil de fechar a própria matemática financeira. De repente, seus pés desaceleraram.

— Mas peraí... — Beatrice estreitou os olhos, cravando a visão na nuca de Mio. — O que aconteceu com a recompensa da missão no Titanic? A Capitã Levy pagou uma fortuna, não pagou?

— Ah, sim! Foi uma bolada! — Mio rebateu. O tom era solto, a postura relaxada. Seus olhos sequer deixaram a busca pelos números talhados na madeira. — Mas eu gastei tudo em lanches.

Vivian, que andava um pouco mais à frente, parou abruptamente. O choque foi tão grande que a garota Scarlune virou o rosto lentamente, olhando para Mio com uma expressão de absoluta descrença. 

Que tipo de lanches eram esses?, a mente de Vivian deu um tranco, entrando em curto-circuito. Eles eram banhados a ouro maciço?!

Beatrice, por outro lado, apenas soltou o ar dos pulmões de uma vez. Os dedos subiram para as têmporas, esfregando a pele em círculos com a exaustão crônica de quem já esperava exatamente por aquilo.

— De novo? Desse jeito você vai engordar.

O corredor perdeu seu silêncio morno. Mio tombou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada de peito cheio. O som alto bateu contra a madeira polida das paredes enquanto ela acertava um tapa estalado e animado no ombro de Beatrice.

— Hahaha! Minha amiga está falando coisas tão maldosas! — As palavras saíram espremidas pelo sorriso largo. — Ainda mais sabendo que a sua amiga não pode engordar.

As pupilas de Beatrice giraram para o teto.

— Você adora colocar essa teoria à prova, né?

Antes que Mio pudesse preparar o próximo contragolpe, o tatame tremeu sob suas botas. Não foi um solavanco, mas um ronco contínuo, nascido bem no fundo das entranhas da máquina. O zumbido grave subiu pela estrutura principal, fazendo as finas armações das portas shoji vibrarem em uníssono ao redor delas. Um baque surdo de engrenagens colossais se encaixando ecoou debaixo do piso, seguido imediatamente pelo estrondo do ferro maciço esmagando e rasgando o gelo dos trilhos.

A inércia puxou seus corpos milimetricamente para trás. A besta de aço despertou, deslizando sua massa escura para dentro da fúria da tempestade.

A viagem havia começado.

Parte 4

O Vagão Restaurante era um santuário de madeira escura e polida, projetado para amortecer a fúria do mundo. O ranger suave dos painéis absorvia a vibração dos trilhos. Pelas grandes janelas de vidro grosso, a nevasca esmurrava o trem em uma massa contínua e branca, mas, do lado de dentro, o ar cheirava a café quente e ao óleo cítrico da fruta nas mãos de Dante.

Em uma das mesas laterais, o tinido de prata contra o cristal rompeu o som de fundo. Anna segurava uma colherzinha com ambas as mãos. Seus olhos não desgrudavam da taça à sua frente, onde descansava um sorvete de maracujá denso e adornado com folhas frescas de hortelã. Bastou a ponta da colher tocar seus lábios para que a névoa de melancolia que a acompanhava desde a plataforma sumisse. A tensão em seus ombros derreteu, substituída pelo brilho imediato de uma felicidade puramente infantil.

Do outro lado da mesa, Dante puxava a casca de uma laranja com a lentidão meticulosa de quem tinha todo o tempo do mundo. Ele assistiu à mudança instantânea na expressão da garota. O ar escapou de suas narinas em um suspiro curto. Você é feita de açúcar, mulher, pensou, jogando um gomo inteiro na boca.

— Você não pode me julgar com esse olhar — Anna murmurou. A voz soou mansa, mas ela sequer piscou, a atenção totalmente engolida pela taça. — Nós dois estamos comendo frutas.

A mandíbula de Dante travou. Ele parou de mastigar. As pupilas desceram para a metade descascada da laranja e depois saltaram para a montanha de creme artificial do outro lado da mesa. Lentamente, arrastou a cadeira para trás e ficou de pé. Espalmou as mãos sobre a madeira e curvou o corpo para a frente, o rosto contorcido em uma indignação cirurgicamente teatral.

— Isso que você está comendo não é uma fruta! — O dedo dele disparou como uma arma na direção da taça.

— É praticamente igual. — Anna deslizou a colher pelo creme mais uma vez e a levou à boca, o olhar sereno e letárgico.

— É praticamente um atentado à natureza! Peça desculpas agora mesmo para todas as frutas do mundo! — Dante elevou o tom de voz, batendo na mesa e exigindo uma retratação urgente de uma garota que não poderia se importar menos.

Antes que Anna pudesse sequer processar a fala para ignorá-lo de novo, um vulto rasgou o ar do vagão.

Mio cortou a distância como um projétil humano. Ela saltou por cima da quina da mesa e projetou o tronco, cravando uma cabeçada brutal direto na boca do estômago de Dante. O baque surdo da colisão ressoou alto. O oxigênio abandonou os pulmões do Scarlune em um engasgo esganiçado. O peso do golpe o catapultou para trás, e ele desabou de costas no piso do trem, esmagando a cadeira sob seu próprio corpo em um estrondo violento de madeira e osso.

A inércia do baque mal havia passado quando Mio o apertou em um abraço esmagador no chão. A falsa demonstração de afeto, porém, durou o tempo de um piscar de olhos. Em um giro rápido e fluido de quadril, ela escorregou para as costas dele, passando o antebraço pelo pescoço e travando o bíceps em um mata-leão milimetricamente executado.

— Então! — A voz de Mio estourou perto do ouvido dele, o aperto no pescoço ficando mais rígido. — Pra quem era aquele tchauzinho na porta do trem, hein, seu maldito?!

— So... corro... — Dante ofegou. O oxigênio sumiu de seus pulmões, o rosto tingindo rapidamente de vermelho. A mão direita espalmou e começou a bater freneticamente contra o piso de tatame em um sinal clássico e desesperado de desistência. A mão livre tremia no ar, esticando-se na direção da mesa. — Anna... me ajuda...

Anna piscou devagar. Suas pupilas desceram até a cena do estrangulamento aos seus pés. O olhar impassível subiu de volta para o cristal. O tilintar metálico da colher soou delicado enquanto ela cavava mais uma porção caprichada de sorvete de maracujá, levou aos lábios e fechou os olhos, apagando a existência de Dante da sua realidade.

O som de passos pesados quebrou a cena. Beatrice parou na entrada do vagão restaurante, soltando um suspiro longo e arrastado ao flagrar o nível de humilhação no chão. Aos poucos, a porta continuou abrindo. Os outros membros do grupo entraram, o som das cadeiras de madeira raspando no assoalho preenchendo o espaço enquanto se amontoavam ao redor da mesa de Anna.

Quando a pressão no pescoço finalmente cedeu, Dante rastejou de volta para a cadeira, massageando a traqueia e puxando lufadas ruidosas de ar. A partir daí, o caos se acomodou.

Quase como se tivessem ensaiado, Dante, Kai e Vivian engataram uma sinfonia de lamúrias em uníssono. O tom azedo e esgotado dos três se misturava em reclamações fervorosas: o frio cortante, as reuniões burocráticas, as regras engessadas e a sensação mastigante de perda de tempo.

Mio, que já havia se sentado e mastigava um salgado surrupiado do balcão de serviço, parou com as bochechas cheias. Ela apontou a ponta do lanche na direção do trio.

— Sabe, acho que essa é a primeira vez que eu vejo eles três no mesmo sinal. Estão totalmente sincronizados.

— É verdade — Anna concordou, a voz mansa flutuando por cima do coro de reclamações. — Não é muito normal.

Dante deixou o tronco despencar para a frente. O baque surdo de sua testa colidindo contra a madeira maciça da mesa começou a ditar um ritmo depressivo e constante. Tuc. Tuc. Tuc. — É bem normal, na verdade! — Ele gritou, a voz saindo abafada e esganiçada contra o tampo da mesa. — Porque não existe nenhum Scarlune nesse mundo que ficaria feliz em uma situação dessas...

— Olá! Todos estão bem por aqui? Precisam de alguma ajuda com o cardápio?

A pergunta flutuou sobre os ombros deles, gentil, suave e irradiando uma positividade tão quente que chegava a ofuscar. De pé logo atrás do grupo, Love Scarlune ostentava um sorriso largo e pacífico, com sua aura de serenidade absolutamente intacta.

O braço de Mio disparou por cima da mesa. O dedo indicador travou a milímetros do nariz de Love, mas seus olhos fuzilavam Dante com pura indignação.

— Seu mentiroso maldito!

Love piscou, surpreso. O sorriso educado, no entanto, não vacilou em nenhum momento. Movendo-se com uma fluidez silenciosa, ele puxou uma cadeira vazia, a madeira raspando levemente no assoalho, e acomodou-se na roda. Após Mio despejar o contexto do teatro de Dante no chão, uma risada baixa e aveludada escapou dos lábios do gigante loiro enquanto ele servia um pouco de chá fumegante em sua xícara de porcelana.

— Ah, entendo. Bem, é perfeitamente compreensível que eles estejam frustrados — Love ponderou, o timbre assumindo a cadência paciente de um professor. — O motivo central desta viagem é a eleição do novo Rei Escarlate. Normalmente, ninguém gosta de vir para a Reunião Anual em Threshold, mas o comparecimento é obrigatório. O problema é que, quando se trata de uma eleição, as engrenagens do processo se tornam infinitamente mais densas. Cada detalhe vira um gargalo burocrático, o que torna tudo exaustivamente mais lento.

Mio engoliu o resto do salgado a seco, a massa descendo pesada pela garganta. Ela inclinou a cabeça, juntando as sobrancelhas.

— E é tão ruim assim porque as eleições são muito disputadas? Tipo, todo mundo se matando pelo poder e rolando facada pelas costas?

Vivian levou aos lábios uma xícara de café expresso — um líquido tão espesso e escuro que espelhava a exaustão em seu olhar. Ela bufou, o ar quente dissipando o vapor da borda da louça.

— É justamente o contrário. Ninguém quer ser o Rei.

— Ninguém?! — Mio arregalou os olhos.

— Os Scarlunes são, por sua própria natureza, um bando de egoístas — Vivian prosseguiu, usando a xícara para gesticular em um arco curto. — A Coroa não traz a glória que as pessoas lá fora imaginam. Sentar naquele trono significa ser soterrado por montanhas colossais de papelada, engolir o ego inflado dos líderes das outras Casas e apodrecer em reuniões intermináveis e vazias. E o pior de tudo: o Rei Escarlate não pode sair deste continente. Nunca.

— Nunca?! — A voz de Mio subiu meia oitava. — Mas por que uma regra bizarra dessas existe?

Kai afundou na cadeira, cruzando os braços com força e amarrando a cara em um silêncio emburrado. Ao lado dele, Dante nem se deu ao trabalho de levantar a cabeça; apenas rolou o rosto sobre o tampo da mesa, a bochecha esmagada contra a madeira.

— Quem sabe… — Vivian deu de ombros, tomando um gole amargo. — Já é assim desde que me lembro.

— Eu sou bem mais velho que ela — a voz de Dante saiu abafada contra a mesa — e também não tenho ideia.

— Então por que o Rei simplesmente não... sei lá, quebra essa regra logo? Muda a lei!

O tinido fino e afiado da porcelana cortou a conversa. Love repousou a xícara no pires com uma precisão delicada. Com as mãos pousadas sobre a mesa, ele assumiu novamente a explicação.

— Porque, na nossa sociedade, ditar uma nova lei é simples. Mas quebrar um pilar antigo e fundamental exige girar uma engrenagem pesada demais. — Love manteve o tom calmo, a voz fluindo com naturalidade. — Para começo de conversa, se um Rei decide quebrar ou alterar uma regra dessa magnitude, a mudança não tem efeito imediato. Ela só entra em vigor no mandato do próximo Rei.

Mio franziu o cenho. As engrenagens de sua mente rangeram visivelmente enquanto tentava fechar a matemática daquela lógica.

— Espera. Então...

— Exato. — O sorriso de Love se alargou de forma pacífica. — Essa lei opera como uma trava de segurança. Ela existe para provar que a decisão de mudar a regra foi feita em benefício do povo, e não para o conforto do próprio monarca que assinou o papel. E, como você mesma ouviu da Vivian... nós somos egoístas.

Ele fez uma pausa pontual, deixando o peso da verdade assentar sobre as xícaras de chá e café.

— Nenhum Scarlune está disposto a suportar o fardo de apodrecer neste continente de gelo e burocracia apenas para que o seu sucessor possa herdar a coroa e desfrutar livremente do mundo lá fora. Portanto... até hoje, nenhum deles mudou a regra.

Um silêncio espesso afundou sobre a mesa. O único som no vagão passou a ser o impacto abafado da nevasca contra a vidraça dupla. A massa branca esmurrava o vidro em um ritmo violento e constante, isolando-os ainda mais do resto do mundo.

Mio girou o pescoço milimetricamente. Seu olhar rastreou a mesa, pulando da postura largada de Dante para os braços cruzados de Kai, até parar na xícara de Vivian. Os três vestiam a exata mesma máscara: uma exaustão profunda e um rancor enraizado contra um sistema que eles próprios se recusavam a consertar por puro orgulho e preguiça.

Apoiando os cotovelos na madeira escura, Mio encaixou o queixo entre as mãos. Encarou o grupo com uma sinceridade afiada.

— Vocês Scarlunes são um povo meio amargurado, hein?

Dante, Kai, Vivian e até mesmo Anna — que rasparia o fundo da taça em breve — moveram os pescoços no mesmo milésimo de segundo. O aceno de concordância foi tão mecânico e letárgico que parecia ensaiado.

— Sim — responderam em um uníssono oco e desprovido de qualquer vontade de viver.

Parte 5

O ritmo da conversa no Vagão Restaurante engatou de vez, mergulhando nas engrenagens e bizarrices de Threshold. Mio mastigava, a mente ainda tropeçando na escala absurda de tudo aquilo. Ela engoliu o alimento e balançou a cabeça.

— Mas é impossível que não tenha nenhum outro tipo de transporte que funcione direito por aqui além desses trens colossais — pontuou, os dedos já avançando sobre a mesa para capturar mais um salgado do prato.

— Por incrível que pareça, é a mais pura verdade. — A voz de Love preencheu o espaço, carregada daquela mesma cadência paciente e polida. — Threshold é um continente isolado e... peculiar. Carruagens puxadas por animais ou veículos menores tendem a quebrar, congelar ou simplesmente ser destroçados pelo ambiente antes mesmo de avistarem a próxima cidade. Quanto aos céus... — Ele fez uma pausa leve, o olhar vagando até a tempestade na janela. — A força magnética e gravitacional do continente é um caos absoluto. Puxaria qualquer aeronave para o chão em questão de minutos. Transportes menores só sobrevivem dentro das redomas de segurança das cidades. Para rasgar o continente de ponta a ponta, apenas o peso e o ferro desses trens suportam o tranco.

Com um movimento fluido de pulso, Love indicou o espaço ao redor.

— E para não enlouquecer os passageiros com a monotonia de uma prisão de aço, o conselho determinou que cada linha adotasse o estilo de uma região ou cultura diferente. Este em que estamos, por exemplo, foi forjado sob a estética de Sakura.

O rosto de Mio se iluminou. Ela girou o pescoço, agora prestando atenção de verdade. Seus olhos rastrearam os veios polidos da madeira escura, a leveza do papel esticado nas portas shoji e os relevos milimétricos de pétalas entalhados nas vigas do teto.

— Ah, então é por isso! Eu senti mesmo essa vibe. É a primeira vez que eu vejo o estilo de Sakura tão de perto, é incrível!

Um estalo áspero da língua no céu da boca cortou a empolgação. Kai atirou as costas contra o encosto da cadeira, a cara fechada em uma máscara de aborrecimento.

— Tsk. É só um trem idiota — ele rosnou, o tom descendo agressivo. — Se você quer tanto ver essas coisas de Sakura, devia logo sair dessa merda e caminhar pelo norte de uma vez.

Mio parou com o salgado a meio caminho da boca, piscando devagar para absorver a hostilidade repentina. Ao lado, Vivian soltou o ar pelo nariz. Ela levou a xícara aos lábios, engolindo o amargor do expresso antes de assumir sua função não remunerada de tradutora oficial.

— Traduzindo o que ele quis dizer: "Se quiser conhecer mais sobre essa cultura, você deveria fazer uma visita à região Norte. Várias das construções e relíquias originais de Sakura foram movidas pra lá. Você não vai perder nada e provavelmente vai gostar".

A surpresa no rosto de Mio derreteu em um sorriso largo e genuíno.

— Ah! Obrigada pelo conselho, Kai!

O sangue subiu rápido pelo pescoço de Kai, tingindo suas bochechas com um leve tom de vermelho. Ele tensionou o maxilar, cruzou os braços com força e virou o rosto inteiro para a nevasca além do vidro, recusando-se terminantemente a dizer mais uma palavra.

— Eu não pedi agradecimentos de ninguém! — Kai esbravejou, a voz rasgando o ruído abafado do trem.

Do outro lado da mesa, Dante escorava o peso da cabeça na palma da mão. Seus olhos semicerrados avaliavam o garoto enquanto uma única palavra piscava em letreiros de neon no escuro de sua mente: Tsundere.

O peso do julgamento mudo cruzou o espaço entre eles. Kai sentiu o golpe. Ele girou o pescoço em um solavanco violento, cravando as pupilas furiosas no rosto de Dante.

— Tá olhando o que, seu maldito?!

Dante quebrou o contato visual no mesmo milésimo de segundo. Seus olhos vagaram para o teto de madeira e um assobio fino e propositalmente desafinado escapou de seus lábios.

— Nada não, nada não...

A risada solta de Mio engoliu o assobio. Ela balançou a cabeça, escorregou os cotovelos sobre a mesa e inclinou o tronco na direção de Dante.

— Mas mudando de assunto, achei bem estranho você estar aqui. Pelo jeito que a Capitã Levy falou, eu tinha quase certeza de que você ia tentar fugir. Acabou que você aceitou vir até que de boas... quer dizer, ignorando o fato de que tiveram que ir te buscar arrastado no seu quarto.

Um lamento longo e esganiçado subiu do fundo da garganta de Dante. Sua espinha simplesmente cedeu, fazendo o corpo afundar no estofado da cadeira como se não possuísse mais ossos.

— Eu até pensei em fugir... — admitiu, as sílabas arrastadas por uma preguiça crônica. — Mas aí eu lembrei daquela piada ridícula de me colocarem como líder de uma Casa enquanto estive fora. Eu quero abdicar desse posto estupidamente burocrático o mais rápido possível. Foi só por isso que eu vim pra essa merda de viagem. Quero jogar esse trabalho no colo de outra pessoa o quanto antes.

As mãos largas de Love se cruzaram sobre o tampo da mesa com um leve farfalhar de tecido.

— Ah, quanto a isso, você pode relaxar, Dante. Dá para te retirar desse posto de forma bem fácil e rápida.

Todo o ar nos pulmões de Dante esvaziou em um suspiro denso de puro alívio. A tensão de seus ombros finalmente derreteu.

— Graças a Deus...

— ...Isso é, se o Rei Escarlate aprovar e assinar os papéis.

O complemento pousou suavemente no ar. Love não piscou. O sorriso pacífico e radiante em seu rosto não vacilou um único milímetro.

— O que significa — o gigante loiro concluiu, a voz aveludada transbordando gentileza — que você vai ter mesmo que ajudar ativamente nessa eleição para garantir que tenhamos um Rei para assinar sua demissão.

As palmas das mãos de Dante afundaram contra o próprio rosto. Ele esfregou a pele com tanta força que o som áspero do atrito se misturou ao zumbido vibrante dos trilhos sob o chão. Em sua mente, uma prece silenciosa e desesperada implorava para que o teto de aço da besta cedesse de uma vez e esmagasse seu crânio ali mesmo.

Vivian observou a crise existencial desmoronar sobre a mesa e repousou sua xícara no pires com um tinido contido.

— Você não precisa entrar em desespero. A dinâmica dos líderes de Casa hoje é infinitamente mais simples do que era há vinte anos, na sua época. Além disso, como você é tecnicamente o único integrante da sua Casa, a gestão de pessoas é zero. Não há com quem se preocupar.

Dante escorregou as mãos pelo rosto, revelando os olhos marcados de cansaço, mas não levantou a cabeça. Seu olhar continuou cravado na madeira escura.

— Essa história de mudança nas regras é séria mesmo? — A pergunta saiu arrastada, mastigada pelo ceticismo de quem conhecia a teimosia crônica dos Scarlunes.

Vivian acenou com a cabeça. O movimento foi curto e exato.

— Sim. Descora, Bishamon e Zubel deram início a várias reformas recentemente. Até mesmo o sistema de "Missões para as Crianças" foi sumariamente abolido.

A respiração de Dante simplesmente parou. Cada músculo do seu corpo enrijeceu no mesmo instante, o choque varrendo qualquer vestígio de letargia do seu rosto.

Alheia à carga daquela revelação, Mio tombou a cabeça para o lado, o cenho franzido.

— Missões para as crianças? O que era isso?

Kai afundou ainda mais na cadeira e revirou os olhos, a impaciência transbordando.

— Era só uma desculpa covarde. Os Scarlunes pegavam os pirralhos e os mais fracos e atiravam eles em missões inúteis e suicidas, só pra testar se eles não eram um desperdício de espaço.

Uma risada curta e engasgada escapou da garganta de Love. Uma gota fria de suor trilhou um caminho pela sua têmpora, engatilhada pela brutalidade verbal do garoto.

— Bem... a essência não está incorreta, mas definitivamente existiam formas mais didáticas de explicar.

Dante atropelou o resto da frase. Suas mãos espalmaram sobre a mesa com um baque surdo, a madeira tremendo sob o impacto. Ele projetou o tronco para a frente, as pupilas fixas em Love, a preguiça dissipada como fumaça.

— Espera aí. É sério que eles rasgaram essa regra desgraçada?!

O olhar de Love encontrou o dele. Desta vez, o sorriso do gigante loiro perdeu o verniz diplomático e assumiu o brilho cru de uma vitória suada.

— Sim. Mas, como já discutimos, não é uma alteração gravada em pedra. Sem o selo da Coroa, o novo Rei Escarlate pode restaurar todo o sistema com uma simples canetada. Nosso objetivo agora é apresentar resultados concretos. Provar para a família que extirpar essa regra foi uma evolução real.

O corpo de Dante recuou centímetro por centímetro até as costas colidirem de volta com o encosto da cadeira. O ronco do trem e o assobio do vento retornaram aos seus ouvidos, mas ele os ignorou, processando a informação. Pela primeira vez em décadas, aquela família disfuncional parecia estar tentando remendar os próprios ossos quebrados.

Do outro lado da mesa, mastigando em silêncio, Mio não deixou passar. Com os olhos atentos, ela notou claramente a faísca inédita de respeito e puro assombro que acendeu e se instalou no olhar de Dante.

Love limpou a garganta. O som contido e educado bastou para ancorar a atenção da mesa de volta ao presente. Ele girou o pescoço, direcionando seu sorriso pacífico para Vivian.

— Aliás, aproveitando o momento, eu preciso corrigir uma informação que a Vivian acabou de passar.

Dante piscou. A centelha de surpresa e respeito em seus olhos se apagou de imediato, puxando-o de volta de seus pensamentos.

— O quê?

— Não é verdade que a Casa do Dante está vazia e que ele é o único membro — Love explicou. A tranquilidade em sua voz era uma planície sem vento, polida e inabalável. — Na verdade, tem outra garota que também faz parte daquela Casa agora. A sua noiva.

O Vagão Restaurante mergulhou em um silêncio tão espesso que engoliu até o impacto da nevasca contra o vidro. O tilintar das colheres parou. Ninguém puxou o ar.

Dante paralisou na cadeira. Suas pupilas dilataram até o limite, esvaziando-se em duas esferas absolutamente ocas. O sangue drenou de sua pele na velocidade de um relâmpago, varrendo qualquer traço de vida e deixando seu rosto com um tom de giz opaco e doentio. Seu maxilar destravou e caiu. E, lentamente, como se os lábios gelados da própria morte tivessem encostado nos seus, uma pequena massa branca e translúcida começou a escorregar de dentro de sua boca semiaberta.

— ...O quê!? — a alma de Dante sussurrou.

O eco saiu fino e fantasmagórico, desprendendo-se do corpo letárgico e flutuando devagar em direção às vigas de madeira no teto do trem.

Parte 6

Enquanto a pequena massa translúcida mantinha sua ascensão letárgica rumo às vigas de madeira do vagão, a represa de silêncio se rompeu.

Kai atirou a cabeça para trás. O garoto não segurou. Uma gargalhada ruidosa, rasgada e que vinha do fundo do estômago estourou na mesa. Ele ria sem o menor pudor do pânico cru e absoluto congelado no rosto de Dante.

Do outro lado, Anna sequer quebrou o ritmo do metal batendo no cristal. Ela raspou mais uma camada do doce, levou a colher à boca e cravou o olhar letárgico na casca vazia do Scarlune desabada na cadeira.

— Mandou bem, garoto — a voz mansa deslizou com a mesma naturalidade de quem comenta sobre o clima. — Já garantiu que não vai morrer virgem.

Mio havia prensado as duas mãos contra o rosto. Seus ombros tremiam em espasmos curtos e violentos. Love desviou o olhar para a garota, e um sobressalto genuíno apertou seu peito. Oh, não, ele pensou, a testa franzindo em compaixão. Ela nutria sentimentos por Dante? A notícia partiu seu coração? A preocupação durou até um estrangulado "pfft" escapar pelas frestas dos dedos de Mio.

Love piscou. O tremor nos ombros não era choro. Ela usava cada músculo do corpo como um torniquete, travando os dentes e lutando desesperadamente contra a própria biologia para não explodir em gargalhadas diante da expressão destruída do amigo.

Até Beatrice, perpetuamente armada em sua postura espinhosa, cedeu. O canto dos lábios subiu em um raro e presunçoso sorriso.

— É — a garota punk suspirou, cruzando os braços com força. — Pelo visto não tem ninguém do seu lado nessa.

Como se a frase carregasse um campo magnético, a alma de Dante despencou do teto e foi sugada de volta para o peito com um engasgo ruidoso. O ar invadiu seus pulmões rasgando a garganta. Ele cravou as duas palmas contra a madeira da mesa. O impacto surdo fez as xícaras vibrarem nos pires. Dante projetou o tronco, fuzilando o próprio grupo com indignação.

— Tô vendo isso! Bando de traidor! Não teve um pra ficar do meu lado!

O pescoço dele girou em um solavanco, o dedo indicador voando feito um dardo na direção do rosto do loiro.

— Que história é essa, Love?! A única parte suportável dessa bomba de família desgraçada era justamente que não existia essa obrigação antiquada de casamento político!

Os gritos arranharam as paredes do restaurante, mas Love não tencionou um único músculo. O sorriso pacífico não sofreu qualquer alteração enquanto ele inclinava o bule de porcelana, servindo-se com um fio contínuo e silencioso de chá fumegante.

— E não existe. Essa regra funciona perfeitamente bem para as pessoas comuns em situações comuns. Mas você, Dante, é o Líder de uma Casa. E, mais do que isso, você e a sua noiva são praticamente os dois primogênitos diretos de suas respectivas linhagens. É o procedimento padrão tentar reconstruir as Casas unindo os dois.

— Eu nego! — Dante cruzou os braços em um "X" rígido na altura do peito. — Eu não vou me casar! Muito menos pra ajudar a reconstruir essa bomba-relógio que vocês chamam de família!

Love deu de ombros, a expressão transbordando uma compreensão pacífica.

— Tudo bem. Cancelar um casamento político é muito fácil, na verdade.

Os braços de Dante voaram para o teto.

— ISSO! Graças a—

— Mas só o Rei Escarlate pode assinar a anulação.

O ar no vagão pareceu congelar. Com as mãos ainda erguidas, Dante travou. Lentamente, ele abaixou os braços e curvou o tronco sobre a mesa de madeira escura. Seu corpo deslizou para a frente em um movimento rastejante e contínuo, até que seu rosto ficasse a poucos centímetros da face de Love. Suas pupilas cravaram no fundo dos olhos calmos do loiro.

— Você tá zoando com a minha cara agora, né, Love maldito?

Sem desfazer o sorriso, Love ergueu a mão direita e espalmou os dedos contra a testa de Dante, empurrando o rosto dele para trás com uma força suave e irredutível.

— Por que eu brincaria com algo tão sério? Você mesmo deve saber que uma anulação dessas, envolvendo Líderes de Casa, só faria sentido legal se fosse chancelada diretamente pelo Rei.

O tronco de Dante cedeu. Ele despencou para trás, as costas afundando no estofado macio do banco como se a gravidade do vagão tivesse dobrado. A realidade o esmagava.

— Então eu vou ter mesmo que ajudar a eleger um Rei pra essa bagaça... — o murmúrio escapou oco e abafado, espremido contra o próprio peito.

A alguns palmos dali, o ar de Kai finalmente faltou. O garoto ria tanto que precisou esfregar as costas da mão no canto do olho para enxugar uma lágrima. Uma veia grossa pulsou na têmpora de Dante. Ele estourou do assento no mesmo instante, o punho cerrado.

— Kai, seu maldito! Já nem tem mais graça!

— Tem sim! — Kai rebateu, os dentes à mostra em um sorriso abertamente sádico. — A sua cara de idiota tá muito engraçada agora!

O raciocínio de Dante sumiu. Ele tensionou as pernas e atirou o corpo por cima do tampo da mesa, as mãos já moldadas como garras para esganar o pescoço de Kai.

— Essa é minha cara normal, sabia, maldito!

Mas antes que ele alcançasse o alvo, Vivian ergueu o braço. Seus olhos não desviaram um milímetro do líquido escuro dentro de sua xícara de café. O couro da luva estalou com um baque surdo ao espalmar em cheio contra o rosto de Dante. Os dedos dela afundaram nas bochechas dele, absorvendo o impacto e travando o avanço do seu corpo inteiro no ar com um único, rígido e impecável movimento.

O couro da luva de Vivian ainda afundava nas bochechas de Dante, travando o corpo dele no ar, quando ela girou o pescoço na direção de Love. A curiosidade genuína transbordou, ignorando completamente o caos do garoto se debatendo ao seu lado.

— Mas quem é essa garota, afinal?

— É a Cyfera — Love respondeu.

Vivian travou. A pressão de seus dedos no rosto de Dante afrouxou. Lentamente, ela virou o queixo para o loiro, a postura de rainha inabalável rachando ao meio diante do choque.

— A... Cyfera? E ela aceitou isso?

— Ela não demonstrou nenhuma reclamação ou oposição. — A voz de Love flutuava mansa sobre a vibração contínua dos trilhos sob o chão. — Se bem que o plano original do conselho era casar ela com a Hyori.

Aproveitando a guarda baixa, Dante deu um puxão para trás e finalmente arrancou o rosto da mão de Vivian. Ele piscou repetidas vezes, balançando a cabeça para afastar a tontura do impacto.

— O quê? Hyori? Quem é essa?

— Durante a sua ausência de vinte anos, a Hyori foi colocada para gerenciar a sua Casa como sua substituta — Love explicou, os dedos longos acariciando a alça de porcelana da xícara. — Ninguém sabe exatamente qual é a linhagem genética dela, mas há fortes suspeitas de que ela também seja filha do Ryu.

Dante retorceu os lábios em uma careta torta e subiu a mão para coçar a nuca, escavando a memória em busca daquele nome.

— Tá, legal. Mas quem é Ryu mesmo?

O movimento da xícara travou no ar, a dois dedos da boca de Love. O gigante loiro piscou devagar. O sorriso polido hesitou por uma fração de segundo enquanto ele encarava Dante, como se o outro tivesse feito a pergunta mais óbvia e estúpida do mundo.

— É o seu pai, oras.

O ruído da tempestade esmurrando o vidro lá fora pareceu invadir o vagão de repente. A mesa inteira mergulhou em um silêncio denso e sepulcral. Mio, que acabara de romper a massa de um salgado fresco com os dentes, paralisou com as bochechas cheias. Os olhos dela dobraram de tamanho. Ela engoliu a seco.

— Como assim você não sabia disso?! Você não conhece o próprio pai?!

O tecido da jaqueta de Dante roçou pesado quando ele deu de ombros, absolutamente indiferente.

— Nunca me encontrei com ele. Sei lá quem é.

O pescoço de Mio girou em câmera lenta na direção de Kai. Sentindo o raio laser daquele olhar, o garoto enrijeceu a mandíbula, cruzou os braços com violência e fuzilou a paisagem gélida da janela.

— Não olha pra mim. Eu não tenho pai. Fui criado só pela Rani.

O rosto de Mio continuou seu giro robótico, parando a mira em Vivian. A jovem Scarlune soltou um suspiro de exaustão profunda e deslizou os dedos pelas mechas do próprio cabelo, devolvendo cada fio ao seu devido lugar.

— Eu também só me encontrei com a minha mãe.

Os lábios de Mio se abriram em um choque silencioso. O ar frio do ar-condicionado bateu em seu rosto enquanto a mente trabalhava freneticamente, encaixando as peças soltas daquele quebra-cabeça genético caótico e irremediavelmente disfuncional. Ela ergueu o braço, esticando o dedo na direção do rosto de Dante com uma expressão de pura gravidade.

— Então quer dizer que esse tal de Ryu é o Scarlune comprador de cigarro?!

Dante cortou o ar com a mão, afastando o comentário de Mio como se espantasse uma mosca.

— Isso não importa agora! — Ele projetou o tronco sobre a mesa, o desespero cru atropelando qualquer traço de preguiça. — Eu quero saber como está a situação dessa maldita eleição! Quem são os favoritos? Eu vou ajudar qualquer um a ganhar essa bagaça, porque nem morto que eu vou continuar sendo líder de Casa e muito menos noivo!

Love inspirou e abriu a boca para responder. O som, no entanto, foi engolido pelo estalo seco e agudo dos alto-falantes embutidos no teto de madeira. Uma onda de estática chiou pelo vagão restaurante, seguida imediatamente por uma voz metálica e impessoal que exigia a presença de Love Scarlune na cabine principal, na extremidade frontal do trem.

O gigante loiro fechou a boca, e o sorriso pacífico retornou instantaneamente aos seus lábios. Apoiando os dedos no tampo da mesa, ele se ergueu com uma fluidez silenciosa que desafiava sua própria altura.

— Ah, me perdoem. Parece que o dever me chama. Conversamos sobre os candidatos mais tarde. Com licença.

Ele fez um aceno polido, virou as costas e deslizou para fora do ambiente, sumindo pelo corredor em passos ritmados.

O silêncio voltou a pesar sobre a mesa. Sem a resposta que precisava, a gravidade de sua própria tragédia — uma liderança burocrática e um noivado forçado — despencou de uma vez sobre os ombros de Dante. Os músculos de suas pernas simplesmente desligaram. Ele escorregou devagar pelo couro macio do assento, o atrito da jaqueta chiando contra o estofado, até desabar sentado no chão do trem com um baque surdo e patético. Largado contra a base do banco, os olhos esvaziados encaravam o rodapé do vagão, a alma novamente abandonando o corpo.

O tilintar da porcelana ecoou quando Vivian virou a xícara, engolindo a última gota do seu expresso. Kai apertou o cruzamento dos braços, o queixo erguido e a cara amarrada.

Sem gastar um único miligrama de empatia, a dupla baixou o olhar para o corpo derrotado de Dante no chão.

— Boa sorte — disseram, em um uníssono oco e letárgico.

Parte 7

Com a saída de Love, o silêncio afundou sobre a mesa. O único som constante no vagão era o baque surdo da nevasca esmurrando o vidro duplo da janela, que agora competia com os resmungos incoerentes de Dante. Largado de costas no assoalho do trem, o Scarlune delirava com os olhos vidrados no teto. Palavras soltas como "noivado", "papelada" e "fuga" vazavam de seus lábios em um mantra arrastado de puro pânico interno.

Mio observou a cena, os ombros relaxando ao perceber que a energia daquela longa conversa havia morrido. O peso da viagem começava a cobrar seu pedágio na paciência coletiva do grupo.

Kai foi o primeiro a romper a inércia. Ele esticou os braços para o alto, soltando um bocejo ruidoso e espasmódico que atropelou o clima fúnebre ao redor de Dante.

— Tsk. Essa merda de viagem ainda vai demorar pra caramba — ele resmungou. O garoto esfregou os olhos com as costas da mão e empurrou a cadeira para trás, a madeira raspando áspera contra o chão. — Eu vou pro meu quarto tirar um cochilo. Vivian, se alguma coisa importante acontecer ou se o trem explodir, me acorda.

Vivian não desviou o olhar de sua bebida. Apenas ergueu a xícara milimetricamente no ar, selando o acordo em um aceno mudo. Kai virou as costas, enfiou as mãos nos bolsos e começou a arrastar as botas em direção aos dormitórios.

Foi acompanhando a silhueta do garoto se afastar pelo corredor que as engrenagens na cabeça de Mio deram um tranco violento. A epifania a atingiu como um choque físico, arregalando seus olhos no mesmo instante.

— Espera aí! — Mio projetou o corpo para a frente e espalmou as duas mãos na mesa com um estrondo que fez a louça tremer, arrancando os olhares de Vivian e Anna. — Se o Kai tem poderes espaciais, por que ele simplesmente não usou a habilidade dele pra teleportar todo mundo direto pro local da reunião?! A gente não precisaria estar passando por esse inferno de neve!

O fundo da xícara tocou o pires com um tilintar polido e frio. Vivian fechou os olhos e o ar escapou de seus lábios em um suspiro longo. Ela ajustou a postura na cadeira, o rosto adotando instantaneamente a cadência paciente e exausta de quem estava prestes a explicar o funcionamento do mundo para uma criança de cinco anos.

— Como o Love já mencionou, Threshold possui campos magnéticos e gravitacionais completamente bizarros — explicou Vivian. O couro de suas roupas rangeu levemente quando ela cruzou as pernas, reajustando a postura na cadeira. — Mas o que ele omitiu é que essas anomalias afetam diretamente as correntes de Éter das Linhas Ley. O espaço aqui é distorcido.

Mio tombou a cabeça para o lado.

— Por causa disso — Vivian prosseguiu, o tom sereno contrastando com a gravidade da revelação —, usar qualquer habilidade de manipulação espacial neste lugar é um risco absurdo. É quase suicídio. Se o Kai tentasse abrir um portal ou teleportar a si mesmo, as coordenadas seriam trituradas no fluxo rompido. Ele poderia se materializar dentro de uma rocha maciça, ou simplesmente acabar perdido no escuro, no meio do nada.

Mio piscou lento. A imagem de Kai enterrado até o pescoço em uma montanha de gelo despontou em sua mente, e um arrepio afiado desceu por sua espinha.

— Ah... tá. É, faz muito sentido. Trem de Sakura é bem melhor que roleta-russa de teleporte. Entendido.

Com o mistério desvendado, a inércia voltou a incomodar. O atrito contínuo do trem contra os trilhos fazia o chão vibrar, e a estática começou a pinicar sob a pele de Mio. Ficar parada ouvindo reclamações drenava sua alma. Ela espalmou as mãos contra as coxas com um estalo seco e catapultou o corpo da cadeira.

— Bom, já que a viagem vai ser longa, eu não vou mofar aqui! Esse trem é incrível, vou dar uma explorada por aí. Bea, o que me diz? — Ela girou sobre os calcanhares, abrindo um sorriso largo para a amiga. — Quer vir comigo caçar o que tem nos outros vagões?

O zumbido hipnótico da locomotiva já vencia suas defesas. Com as pálpebras caídas e a bochecha esmagada contra a palma da mão, Beatrice apenas fez um movimento arrastado de negação com a cabeça.

— Nem morta. O cheiro de fada misturado com esse balanço do trem tá desligando meu cérebro. Eu vou pro quarto dormir também.

Mio repuxou os lábios num biquinho, mas deixou o convite morrer. Em seguida, espichou o pescoço e rastreou o restante da mesa, pescando qualquer faísca de companhia.

A paisagem era desoladora. Vivian permanecia imaculada, saboreando o retrogosto do café de olhos cerrados, drenando todo e qualquer milissegundo de silêncio antes de ser afogada pelos deveres da sua Casa. Perto de suas botas, a situação era pior. Dante não havia se movido um único centímetro. Largado contra a base do sofá, ele continuava reduzido a uma poça de murmúrios letárgicos, soterrado pela própria crise existencial sobre como cancelar um noivado do qual sequer tinha conhecimento.

Por fim, o olhar de Mio pousou em Anna. A taça de cristal diante da garota loira agora exibia apenas o fundo vazio. O queixo dela descansava na palma da mão, e o rosto estava virado para a janela. A euforia infantil e luminosa que a acompanhara durante o doce havia evaporado por completo. Em seu lugar, a densa névoa de melancolia retornou. Havia um abismo nas pupilas de Anna, um distanciamento letárgico, como se a tempestade branca que esmurrava o vidro fosse apenas o reflexo de uma batalha invisível que ela travava sozinha em sua mente.

É... acho que vai ser só eu mesma, Mio pensou. Um instinto claro a avisou de que aquele não era o momento para quebrar o silêncio e puxar assunto.

Ela esfregou as palmas das mãos e bateu uma vez, um estalo seco e limpo que cortou o murmúrio do vagão.

— Certo! — anunciou, a voz vibrando de volta à sua energia habitual. — Eu volto depois. Não destruam o trem enquanto eu estiver fora!

Sem esperar resposta, Mio girou sobre os calcanhares. O solado de suas botas marcou um ritmo rápido e decidido contra o piso enquanto ela cruzava o vagão restaurante. A porta automática de shoji detectou sua presença e deslizou pelos trilhos com um sussurro suave de papel e madeira. Assim que ela atravessou, o painel se fechou às suas costas, engolindo-a para dentro do longo corredor polido e dando início à sua exploração solitária pelas entranhas da besta de aço.

Parte 8

Cruzar as portas além do setor residencial era como atravessar a fronteira de um país estrangeiro. O Trem Escarlate devorava os trilhos em uma vibração grave e contínua, mas, por dentro, sua largura colossal anulava qualquer sensação de confinamento. Aquilo não era um veículo; era uma vila linear de alto luxo, rasgando o caos de gelo a centenas de quilômetros por hora.

A cada painel que deslizava, o ecossistema do trem mudava de forma abrupta. Mio cruzou vagões afundados em meia-luz, onde as notas arrastadas de um saxofone se misturavam ao cheiro espesso de fumaça de charuto e álcool envelhecido. Em seguida, o barulho abafado do jazz foi atropelado pelo tilintar agudo de fichas e engrenagens em salões de jogos cintilantes. Poucos passos depois, a temperatura subiu. O ar tornou-se denso: ela caminhava pelo corredor de um verdadeiro onsen, onde o vapor quente, carregado com o aroma relaxante de madeira e óleos florais, escapava pelas tramas das portas de bambu. O contraste entre a letalidade branca esmurrando a janela e a vida pulsando ali dentro era o retrato cru da extravagância de Threshold.

O fluxo, no entanto, não acompanhava o luxo. O acesso que conectava ao vagão-bar formava um gargalo estreito, agora completamente bloqueado por adultos imponentes. Muralhas de ombros largos e sobretudos caros fechavam o caminho em rodas de conversa cerradas.

Mio travou os pés a poucos passos da multidão e cravou as mãos na cintura. Pedir licença gastaria uma paciência que ela definitivamente não possuía. O canto dos lábios subiu em um sorriso torto.

Sua pele irradiou um brilho brando. Sob os músculos, as juntas e articulações estalaram em um ritmo rápido e fluido, deslizando como água. A gravidade puxou seu centro de massa de uma vez. Em um piscar de olhos, o corpo adulto cedeu, e as pesadas roupas de frio desabaram em dobras enormes, engolindo os ombros de uma Mio que agora não passava dos sete ou oito anos de idade.

Sem perder o impulso, ela avançou.

Pequena e veloz, Mio mergulhou por entre o mar de pernas, ziguezagueando por baixo dos casacos longos com a agilidade de um ratinho em fuga. Essa é a melhor parte, ela pensou, os sapatos menores batendo contra o assoalho polido enquanto um sorriso sapeca tomava seu rosto. Quando eu viro criança, posso correr igual uma doida e ninguém liga! E a realidade confirmava a teoria a cada passo. Quando os Scarlunes sentiam um esbarrão no joelho, baixavam o olhar. Ao flagrarem apenas uma garotinha passando como um raio, a expressão rígida dava lugar à indiferença. Eles simplesmente afastavam as botas, davam de ombros e retomavam as discussões em voz baixa, ignorando por completo a figura que acabara de cruzar o bloqueio.

Enquanto abria caminho, a pequena Mio percebeu que as excentricidades não se limitavam ao trem. O luxo escancarado servia apenas de moldura para a verdadeira "bagunça genética" da família.

Na meia-luz do vagão-bar, um homem virou um copo de uísque; quando o vidro capturou a pouca luz, pupilas verticais de fenda brilharam em dourado, como as de um réptil antigo. Poucos metros adiante, uma mulher ajustou a aba do chapéu com dedos enluvados e, por uma fração de segundo, revelou orelhas afiladas e absurdamente pontiagudas rasgando a lateral do cabelo. Perto dali, um rapaz explodiu em uma risada alta ao puxar as fichas da roleta. Quando seus lábios se repuxaram, não havia molares normais, apenas fileiras perfeitamente cerradas de dentes serrilhados, afiados e ameaçadores. A diversidade daquele sangue não era apenas ampla; era crua e sutilmente intimidadora.

Distraída pelo sorriso de tubarão, Mio deixou de olhar para o chão polido à sua frente. Suas botas infantis deslizaram pela madeira assim que ela dobrou o corredor do próximo vagão. O impacto foi surdo.

— Ai!

Ela despencou de costas e caiu sentada sobre os tatames, esfregando a testa com ambas as mãos.

Ao piscar para afastar a tontura, seu olhar subiu. O que bloqueava o caminho era uma dupla inusitada. A primeira pessoa era uma garota cuja fisionomia era impossível de ignorar. Os fios de cabelo eram cortados em uma simetria brutal: metade exibia um negrume espesso, enquanto a outra metade era branca como o gelo lá fora. Acima da franja, duas orelhas felinas escuras se contraíram em um espasmo rápido, reagindo ao ruído do baque.

Ao lado dela, a figura contra a qual Mio havia esbarrado era a antítese do caos familiar. O homem exibia um terno milimetricamente alinhado, segurava uma cartola clássica e apoiava o peso em uma bengala de madeira escura encimada por prata. Ele baixou o rosto e abriu os lábios. O sorriso era o retrato da cortesia polida, mas não alcançava os olhos. Os músculos em torno da boca pareciam tensos, como se a expressão não passasse de uma máscara de gesso recém-colocada.

— Ah, sinto muito, pequena senhorita — a voz dele rolou suave, perfeitamente controlada. Ele inclinou a cartola com a mão livre e firmou a postura na bengala. — Espero não ter atrapalhado o seu caminho.

Presa na própria ilusão de criança, Mio chacoalhou as mãozinhas no ar e soltou uma risadinha aguda e forçada.

— Não, não! Não foi nada! Eu que tava correndo sem olhar!

O homem confirmou com um aceno silencioso e aristocrático. A garota de orelhas de gato sequer piscou, os olhos vazios escorregando por cima de Mio antes de retomar os passos. Os dois seguiram em frente, as silhuetas afundando e sumindo no fluxo denso de passageiros do corredor.

Mio apoiou as palmas no tatame e ficou de pé, batendo no tecido sobressalente do seu casaco gigante. No entanto, seu pescoço continuou virado, os olhos pregados no exato ponto onde a dupla havia desaparecido.

O sorriso engessado daquele homem havia deixado um gosto de ferrugem e tensão na boca do seu estômago. Mas foi a garota que fez seu cérebro travar.

Ela passou o polegar pelo próprio queixo, os olhos estreitos. Sinto que já vi esses dois em algum lugar... Mio revirou a memória, o assobio do trem silenciando por um momento em sua cabeça. O flash foi repentino e claro. As orelhas felinas, o formato do maxilar, o vazio cirúrgico no olhar... Aquela garota de cabelos bicolores se parecia, e muito, com Luck.

O pensamento martelou na base do seu crânio por mais alguns segundos, acompanhando o compasso vibrante e pesado da locomotiva sob os tatames. Mas logo a lógica cortou a paranoia. Ali dentro, espremida entre metamorfos, herdeiros com presas de tubarão e dragões disfarçados em um trem cruzando o inferno gelado, a fisionomia era absolutamente a moeda menos confiável do mercado.

— Ah, deve ser só impressão minha — murmurou, sacudindo a cabeça de um lado para o outro em uma tentativa física de espantar a teoria.

A pele de Mio cintilou de forma breve quando ela cortou o fluxo da habilidade. A musculatura puxou, os ossos estalaram em uma expansão fluida e indolor, e as dobras gigantescas do casaco voltaram a esticar, moldando-se perfeitamente aos contornos e ao peso do seu corpo adulto. O ar escapou de seus lábios em um suspiro longo e satisfeito.

Ajeitando o tecido sobre os ombros, ela cravou as botas no chão e retomou a marcha pelo corredor de madeira polida. A besta de ferro ainda escondia um labirinto de segredos atrás daquelas portas shoji, e Mio estava disposta a caçar absolutamente todos eles.

Parte 9

O sol afundou por trás da cortina branca de Threshold, engolido pela tempestade. Em resposta à noite que apagava as janelas, a rede elétrica do Trem Escarlate reduziu sua frequência. O branco clínico das lâmpadas desvaneceu, derretendo em um âmbar denso. O longo corredor de madeira polida mergulhou em meia-luz, alongando as sombras sobre o piso. Sem a distração dos passageiros pelo caminho, a acústica do vagão se transformou. O baque bruto do ferro contra os trilhos — clack-clack, clack-clack — subiu pelas botas de Mio e tomou conta do ar, ditando o ritmo da caminhada como o bater de um metrônomo metálico e hipnótico.

Ela cruzou o engate, entrando na área de dormitórios de alta patente. As divisórias de shoji ali eram mais espaçadas; não escondiam simples cabines, mas sim verdadeiros apartamentos privativos de luxo.

Pelas raras frestas nas portas de correr, vislumbres de uma rotina excêntrica vazavam para o corredor. O chiado de líquidos fervendo no escuro denunciava um quarto convertido em laboratório químico. Dois passos adiante, a madeira revelou armações onde lâminas antigas repousavam, o aço exalando uma névoa fria de Éter azulado. De outra porta, escapou um aroma acre de especiarias desconhecidas, enquanto bandejas de prata flutuavam silenciosamente ao redor de mesas baixas.

A calmaria do corredor era espessa e quase sedativa, até o tatame ranger perto da penúltima porta.

Uma fresta mínima deixava escapar o sussurro de uma voz. O timbre era rouco, baixo e melodioso. Quem quer que estivesse falando, arrastava as sílabas de propósito, usando a escuridão crescente e o baque rítmico das rodas para dar gravidade à narrativa. O instinto de autopreservação de Mio hesitou, mas a curiosidade crônica falou mais alto. Ela segurou a respiração, tombou o tronco e encostou o ouvido a milímetros do painel de arroz.

— ...e assim, a garotinha percebeu que o inverno rigoroso engoliria seus ossos — a voz flutuou, mansa e letal. — Ela não tinha uma única flor para vender. Isso até capturar o sussurro dos caçadores sobre o extremo Norte. Eles falavam de uma árvore ancestral, decepada por uma besta no tempo dos esquecidos. De suas raízes, rosas vermelhas brotavam rasgando a neve. Flores que jamais desabrochavam... porque eram forjadas a partir das almas dos soldados tombados na Grande Guerra.

A base da espinha de Mio travou. Um calafrio pontiagudo cravou em suas costas, um gelo que definitivamente não pertencia aos aquecedores do trem. Seu cérebro comandou um recuo imediato, mas os músculos não obedeceram. As solas de seus sapatos pareciam coladas ao tatame.

— Ela colheu as rosas da alma, caule por caule, e desceu para a cidade — a narrativa desacelerou, cada palavra caindo pesada no ar. — E, por algumas semanas, a prata comprou pão. Mas almas rancorosas odeiam o comércio. Meses depois, os caçadores refizeram a trilha. Não havia mais passos ou vozes na cidade. Não havia risos. Apenas um oceano denso de pétalas vermelhas devorando as ruas desertas. No epicentro do silêncio, encontraram a garotinha. Sua carne havia ressecado, convertida em casca grossa de árvore. Seus tornozelos haviam se partido em raízes violentas, enterradas profundamente no mármore. E com os últimos resquícios de humanidade presos no olhar, ela apenas sussurrou: "Desculpe... eu só queria algumas rosas..."

O silêncio afundou no corredor como uma pedra. A narrativa mórbida encerrou, deixando no ar apenas o ranger crônico das vigas de madeira e a vibração constante do metal rasgando os trilhos. Encolhida do lado de fora, a respiração de Mio travou na base da garganta. O sangue esvaiu de seu rosto. No breu das lâmpadas apagadas, sua mente sobrecarregada projetava os galhos secos e a carne retorcida da menina-árvore emergindo das sombras do próprio trem.

Click.

A trava mecânica estalou. A porta shoji deslizou para trás em um solavanco brusco, quebrando a penumbra.

— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHH!

O grito esganiçado explodiu na garganta de Mio. O susto cruzou seu corpo como uma descarga elétrica repentina. Ela impulsionou o tronco para trás em puro instinto de fuga, mas os calcanhares das botas se embaraçaram. Perdeu o eixo de uma vez. Ela desabou de costas sobre o tatame com um baque surdo, os braços chicoteando o ar em pânico absoluto.

No vão iluminado da porta, a figura paralisou. A luz do quarto emoldurava uma garota de cabelos longos, de um branco puríssimo, que contrastava violentamente com a alfaiataria negra e impecável de suas roupas de inverno. Ela baixou o olhar para o caos estirado no chão. A expressão em seu rosto não oscilava; cravava-se em uma neutralidade absolutamente glacial.

— Eu não esperava por uma visita a esta hora.

A voz rolou mansa pelo ar frio. Era o exato mesmo timbre rouco e cadenciado de segundos atrás, mas agora desidratado de toda a carga teatral macabra.

Caída, Mio amassava o tecido sobre o próprio peito com as duas mãos. Seus dedos apertavam a roupa com força, numa tentativa inútil de forçar as costelas a frearem o coração que esmurrava seu esterno.

— Você... você... você quase me matou! — as sílabas saltaram estranguladas enquanto ela esticava o braço, disparando o dedo trêmulo na direção do quarto.

Pelo espaço da porta aberta, a visão de Mio cruzou o cômodo e esbarrou em uma segunda presença. No interior do dormitório, outra figura feminina descansava confortavelmente no estofado, segurando um livro de capa grossa repousado no colo. Ela sequer tencionou os ombros com a gritaria; apenas arqueou milimetricamente uma sobrancelha para a cena lá fora.

Ainda no batente, a garota de cabelos brancos inclinou o pescoço para o lado. Seus olhos varreram o rosto pálido de Mio, avaliando-a com o escrutínio cirúrgico de quem analisa um espécime novo e curioso. Lentamente, a rigidez intocável da fisionomia cedeu. Cyfera abriu um sorriso sutil e pontiagudo para a invasora no chão.

— Bom… acho que quanto mais ouvintes, melhor. 

Parte 10

O luxo espesso do dormitório não era suficiente para afastar o frio paralisante que havia se instalado no ar. O ambiente era um campo de batalha entre o conforto absoluto e o mais puro terror psicológico.

Afundada no estofado de couro macio, Mio Mortifer tremia de forma incontrolável. Uma fina camada de suor gelado cobria sua nuca enquanto seus dedos apertavam a xícara de porcelana com tanta força que os nós estavam brancos. A poucos centímetros de distância, a outra garota no sofá tentava sustentar uma máscara de pedra. Com a coluna ereta e os olhos fixos nas páginas de um livro grosso, ela parecia o retrato da indiferença. O teatro só desmoronava por um pequeno detalhe físico: o volume em suas mãos vibrava com tanta violência que o farfalhar contínuo das páginas lembrava um terremoto particular de magnitude sete.

Mio escorregou as pupilas para o lado, sem mover a cabeça. Espera aí... até você tá morrendo de medo?! Então por que diabos topou essa brincadeira de ficar escutando história de terror no escuro?!

Na poltrona à frente delas, a mulher de longos cabelos brancos quebrava completamente aquele pânico mudo. O couro rangeu suavemente quando ela cruzou as pernas com fluidez e elegância. O canto dos lábios subiu em um sorriso imperceptível, os olhos brilhando com uma diversão letal e silenciosa.

— Bem, creio que já tivemos uma pausa suficiente. Podemos continuar. — O timbre aveludado e imponente flutuou sobre a vibração grave do trem.

Os olhos de Mio dobraram de tamanho. Em um sobressalto, ela tentou engolir o café quente rápido demais. O líquido desceu rasgando a traqueia.

— Espera, espera, calma, calma! — O desespero na voz foi cortado por um acesso violento. — Cof, cof, cof! Mio soltou uma das mãos da xícara e começou a socar o próprio peito repetidas vezes, tossindo até os olhos marejarem.

A mulher de cabelos brancos piscou devagar. O rosto pálido assumiu imediatamente a expressão polida de quem acaba de cometer uma gafe imperdoável em um chá da tarde.

— Oh, pois não. A verdade é que me esqueci das boas maneiras. Eu deveria ter servido uns biscoitos para acompanhar o café, não é?

Ela apoiou as mãos nos braços da poltrona para se erguer, mas Mio disparou a mão livre no ar, chacoalhando-a na direção dela como quem tenta parar o trânsito.

— Não é isso! Calma! Eu só preciso... respirar! — Mio arquejou. Ela cravou a xícara na mesinha de centro com um baque áspero que fez o café respingar no pires. Puxou uma lufada desesperada de ar, inflando os pulmões, e apontou o dedo trêmulo para as duas. — Por que vocês tão contando história de terror no escuro?! E por que eu vim parar aqui dentro?! Mas, mais importante... quem são vocês?!

Intocável diante do surto, a mulher de cabelos brancos sorriu pacificamente. Ela ignorou o apelo, levantou-se e deslizou até um pequeno balcão no canto do quarto. Retornou um segundo depois, pousando na mesa um prato de porcelana carregado com biscoitos finos e amanteigados.

Aproveitando a quebra de tensão, a garota do livro fechou a capa com um estalo e esticou os dedos. O tremor em sua mão ainda era perfeitamente visível quando ela pinçou um doce. Ela mastigou, engoliu e virou o rosto para Mio. O medo em seus olhos havia sido rapidamente substituído por um olhar engessado de superioridade forçada.

— Histórias de terror? Hmph. Não vai me dizer que ficou com medo daquilo? — a garota disse. A voz soou um tom mais aguda do que a frieza que ela tentava projetar.

Mio semicerrou os olhos e esticou o braço, apontando o dedo indicador a centímetros do nariz da outra.

— Para de esconder! Você tava tremendo tanto que quase desmontou o sofá agora há pouco!

— Até parece que eu teria medo de uma historinha infantil! — ela rebateu de imediato. O orgulho ferido fez o sangue bombear mais rápido, tingindo suas bochechas com um vermelho vivo de pura indignação.

Uma risada leve e musical cortou a discussão. O tecido da poltrona cedeu com um sussurro quando a mulher de cabelos brancos acomodou o peso do corpo, exalando classe em cada milímetro de seu movimento.

— É verdade. Acho que devo começar me apresentando. Meu nome é Cyfera Scarlune. E essa garota emburrada e cheia de orgulho ao seu lado é a Justia Scarlune.

Mio piscou. As engrenagens de sua mente giraram rápidas até o nome fazer um baque seco em sua memória. Cyfera. A noiva do Dante! — Meu nome é Mio Mortifer, e eu... — Mio inflou o peito e abriu os lábios, mas a frase morreu no ar.

— Você é uma estudante que foi trazida para ajudar a convencer o seu "amigo" a vir também, não é? — Cyfera a cortou. O timbre era calmo, polido e assustadoramente cirúrgico. — Mas suponho que exista algum truque por trás disso. Talvez você tenha se interessado pela recompensa financeira que ofereceram e simplesmente fingiu ser a tal amiga próxima dele, o que acabou te arrastando por acidente para o meio dessa viagem burocrática.

O maxilar de Mio despencou. O choque foi tão visceral que ela soltou o ar dos pulmões de uma vez, os olhos arregalados capturando o reflexo fraco da iluminação do quarto.

— Como... como você sabe disso?!

O som áspero de papel raspando quebrou o estupor. Justia virou uma página do seu livro grosso com brutalidade e revirou as pupilas para o teto.

— Ela não "sabe". Ela deve ter só deduzido para se exibir.

Ignorando a garota emburrada, Mio jogou o tronco para a frente. O couro do sofá rangeu sob a mudança abrupta de peso. Ela cravou o olhar em Cyfera, o rosto contorcido em uma mistura de pânico e fascínio, quase implorando para entender como sua alma havia sido lida e dissecada em menos de cinco minutos. Cyfera apenas sustentou o sorriso brando, cruzando as mãos sobre o colo com a graciosidade intocável de quem possuía o controle absoluto do tabuleiro.

— Bom, a Justia tem razão. Não havia como eu saber os detalhes exatos. Digamos apenas que foi um palpite muito bem fundamentado nas informações que captei. — Cyfera explicou. O olhar perspicaz brilhava com frieza sob a meia-luz do quarto. — Por exemplo: diferente de uma pessoa comum, você controla o Éter ao redor do seu corpo com uma precisão invejável, mantendo-o em um estado neutro perfeito. Você não exibe sua força, mas o esforço para ocultá-la é quase imperceptível. Isso denuncia que você possui treinamento prático e intenso. Combate ou infiltração.

Mio engoliu a seco, o nó descendo pesado pela garganta. Aquela mulher não deixava absolutamente nada passar.

— E por que não uma Scarlune? — Cyfera continuou, o tom cadenciado acompanhando a vibração contínua dos trilhos sob o chão. — Simples. Ninguém em Threshold chamaria um caçador de fora para atuar aqui, já que a região transborda Scarlunes e perigos letais. Além disso, mesmo a caminho de uma reunião infernal e de uma eleição que toda a família abomina, você irradia um ânimo quase infantil. É comum que alguns membros tragam convidados para amenizar o tédio, mas, quando isso acontece, eles não desgrudam de seus anfitriões. Você, pelo contrário, estava correndo animada pelo trem, bisbilhotando os corredores escuros sozinha, sem a menor pressa de voltar para o seu grupo. Juntando essas peças e temperando com um pingo de intuição... a história se escreve sozinha.

O som de palmas lentas e espaçadas preencheu o quarto. Mio batia as mãos, o rosto tomado por um fascínio genuíno, sentindo-se como a testemunha ocular de um detetive de filme noir.

O couro do sofá rangeu quando Justia afundou mais no assento. — Não elogia demais, se não ela não vai parar de fazer isso o resto da viagem — resmungou, virando a página do livro com aspereza.

Mio travou as mãos no ar, quebrando o transe, e sacudiu a cabeça. — Peraí, isso não era o mais importante! Eu ainda quero saber por que diabos vocês tão aí no escuro contando histórias de terror!

Cyfera inclinou a cabeça lentamente, os fios brancos escorregando pelo ombro escuro da roupa. — Você não gosta?

Mio escorregou alguns centímetros para baixo no estofado, encolhendo os ombros. A postura defensiva escancarou sua culpa no mesmo segundo. — Bom... não é exatamente o meu tipo favorito de passatempo.

Uma risada soprada e polida escapou dos lábios de Cyfera, mas foi a voz de Justia que rasgou o ar. — Eu já te disse. Não são histórias de terror.

Mio virou o pescoço de supetão, cravando na garota um olhar de pura, absoluta e silenciosa incredulidade.

— Você ouviu o mesmo que eu?! A menina virou uma árvore assombrada numa cidade fantasma lotada de rosas de sangue! Isso é a definição absoluta de uma história de terror!

— Você está quase certa. E, no entanto, totalmente errada. — A voz de Cyfera perdeu qualquer resquício de encenação, assumindo a cadência polida e clara de uma sala de aula. — De fato, soa como uma lenda macabra. Mas é um registro real. Um incidente verídico ocorrido na "Cidade das Rosas", uma ruína fronteiriça situada exatamente entre Gaia e Umbra.

O rosto de Mio perdeu toda a expressão. Um arrepio afiado, rasgando como gelo quebrado, subiu pela base da sua espinha. O reflexo de autopreservação foi imediato: ela chacoalhou os ombros e o tronco de uma vez só, como se pudesse expulsar o frio fisicamente.

— O quê...?! Não, não, não, não! Para com isso! — ela choramingou, encolhendo-se contra o estofado do sofá.

Imperturbável, Cyfera apenas alargou o sorriso plácido. Ela mergulhou a mão no bolso da calça de alfaiataria negra e sacou o celular.

— Gostaria de ver?

O aparelho deslizou pelo tampo liso da mesinha de centro com um chiado rápido, parando a centímetros das mãos de Mio. O brilho artificial da tela rasgou a penumbra do quarto. Exibia uma galeria de fotografias de arquivo em alta resolução: a arquitetura de uma metrópole antiga e completamente despovoada. Ruas de pedra cinzenta, janelas despedaçadas e telhados curvados estavam absolutamente estrangulados por infinitas roseiras de um vermelho denso e brutal. Não havia uma única sombra humana. O silêncio mórbido das imagens vazava pelo vidro do celular.

Mio encarou o visor. Seu cérebro engasgou, lutando para alinhar a fantasia macabra com a realidade documental.

— Mas... espera aí... — o murmúrio saiu fraco. Ela ergueu os olhos, encarando a figura serena à sua frente. — Se isso é um fato histórico, por que você tava no escuro, fazendo vozinha assustadora e pausada como se estivesse contando lenda em um acampamento de verão?

— Porque boas narrativas grudam na mente com muito mais eficácia do que dados áridos — Cyfera respondeu, esticando o braço de volta para recolher o aparelho.

Com a tela apagada e o quarto devolvido ao escuro confortável, a Scarlune de cabelos brancos revelou o peso por trás do seu teatro. Cyfera era arqueóloga. Dedicava os dias a escavar o passado, desenterrando culturas mortas e traduzindo relíquias que o tempo havia feito questão de soterrar. Mas sua verdadeira ambição não era reter a história, e sim transmiti-la. Aquela performance inteira era um ensaio prático. Ela estava lapidando sua didática, preparando-se para prestar os rigorosos exames que lhe garantiriam uma cadeira como professora universitária em Marte.

— Enquanto os testes não chegam, eu uso meu tempo livre para afiar a forma como transmito o que descubro — Cyfera disse, as mãos desenhando o ar com movimentos suaves e precisos. — Eu sei muito bem que quase ninguém tem estômago para aulas teóricas densas, soterradas em datas e relatórios burocráticos. Mas todo mundo para o que está fazendo para ouvir uma boa história. Seja ela um romance, uma aventura, uma trama política ou terror puro. É possível ensinar a queda de um império inteiro se você souber costurar os fatos em uma narrativa envolvente. Diferente de um quadro-negro apagado, uma lenda bem contada gruda nos ossos e nunca mais é esquecida. Por isso eu faço isso. Além de arqueóloga, pode me chamar de "Caçadora de Histórias".

A capa de couro do livro estalou com um baque surdo quando Justia o fechou. Ela soltou o ar pelo nariz em um suspiro cansado.

— Por motivos que não vêm ao caso, sempre que encontro a Cyfera, exijo que ela me conte sobre suas novas escavações. Ajuda no treino dela para os exames de Marte e serve perfeitamente aos meus próprios objetivos. Quando você despencou na porta berrando feito uma gralha, ela estava apenas me passando um relatório de campo disfarçado.

O quebra-cabeça da cena finalmente se encaixou na cabeça de Mio. O alívio, no entanto, não apagou o fato de que seu coração ainda esmurrava as costelas.

— Tá, beleza... Mas aquela narrativa foi tão macabra que eu quase tive uma parada cardíaca! — Mio reclamou, a voz subindo de tom. — E por que diabos você me puxou pra dentro do quarto depois de me assustar?! Fica sabendo que eu não tô a fim de virar cobaia de história de terror!

Uma risada aveludada flutuou pelo quarto. Cyfera inclinou o bule de prata, e o fio escuro de café quente encheu sua xícara, exalando um aroma amargo e reconfortante que contrastava com a tensão do ambiente.

— Acalme-se. Acontece que é extremamente produtivo observar a reação de uma mente não condicionada. Se eu pretendo ser uma professora de excelência, preciso aprender a lidar com todos os perfis de ouvintes na sala de aula, não acha?

— Mas ainda assim! — Mio cruzou os braços em um nó apertado contra o peito. — Não acha meio bizarro sair pescando as pessoas do corredor pra dentro do seu quarto no escuro? E se eu não quisesse ouvir nada e simplesmente fosse embora agora mesmo?

A pequena colher de prata tilintou contra a porcelana com um ritmo cirúrgico. Clink, clink. Cyfera dissolveu duas medidas rasas de açúcar no café, mexendo o líquido com uma lentidão hipnótica e calculada.

— É seu direito. Você é perfeitamente livre para ir embora, se assim desejar. A porta não está trancada. — Ela levou a borda da xícara aos lábios, tomou um gole minúsculo e fixou as pupilas nas de Mio, o olhar cortando por cima da fumaça fina. — Mas me diga... você tem consciência de que não deveria estar zanzando por aí a esta hora, certo? Se a patrulha de guardas do trem a flagrar vagando sozinha pelos corredores agora, você vai ser enquadrada em uma bela dor de cabeça disciplinar.

O pescoço de Mio girou em um solavanco.

— Por quê?!

— Não é óbvio, sua idiota? — Justia atravessou a conversa, a impaciência destilando em cada sílaba. — Para não atrapalhar o sono dos outros passageiros. O toque de recolher dessa lata de sardinha burocrática é infernal.

Mio bufou, os ombros cedendo pesadamente contra o sofá. A frustração de estar completamente encurralada estampou-se em seu rosto.

Cyfera desceu a mão, repousando a louça de volta no pires. O clique polido soou como o bater de um relógio de xadrez, selando o xeque-mate silencioso que agora se abria em um sorriso perfeito em seus lábios.

— Já que você não parece estar com sono, por que não fica? — Cyfera sugeriu, a voz deslizando macia pelo ambiente. — Vamos ouvir mais algumas. Prometo que vou tentar evitar as histórias de terror.

— "Tentar..." — Mio repetiu em um murmúrio, cerrando os olhos com desconfiança.

— Em troca — a Scarlune continuou, ajeitando a postura —, eu só quero ouvir uma história sua também.

Mio piscou rápido. A mentira quase escorregou torta pelos dentes.

— Uma história minha? Mas eu não tenho nenhuma história especial! Sou só uma mercenária genérica... quer dizer, uma estudante!

— Relaxe. Eu sou uma mulher curiosa, não precisa ser nada grandioso. Qualquer vivência serve. — O tecido escuro da manga roçou o apoio da poltrona quando Cyfera acomodou o queixo na palma da mão. O olhar, antes plácido, subitamente ganhou o peso agudo de uma lâmina. — Aposto que uma garota nativa de Elysium deve ter uma ou duas histórias interessantes na manga.

O chão sumiu debaixo das botas de Mio. A vibração constante da locomotiva pareceu desaparecer do vagão, engolida pelo bater surdo e descompassado do seu próprio coração — um ritmo apertado e urgente, o gosto metálico da adrenalina sendo completamente diferente do susto provocado pela narrativa macabra de antes.

— Como... como você sabe que eu sou de Elysium? — a voz falhou, arranhando a garganta seca.

— Ah, eu só reconheci o nome. Mio Mortifer. — Cyfera pronunciou o sobrenome devagar, saboreando a densidade de cada sílaba no ar. — Eu já andei bastante por Elysium durante minhas escavações. Seria impossível não tropeçar nesse sobrenome por lá.

Um farfalhar áspero veio do sofá. Justia franziu a testa e fechou o livro de vez, a curiosidade rachando sua fachada de superioridade indiferente.

— Mortifer? É um sobrenome importante de lá por acaso?

Cyfera ergueu um ombro em um movimento polido. Um sorriso enigmático desenhou-se no canto dos seus lábios.

— Faz sentido que os Scarlunes mais obcecados por força bruta não conheçam a fundo a história por trás desse nome...

Uma gota de suor gélido escorregou pela têmpora de Mio. Ela cravou as unhas no próprio casaco gigante, o rosto contorcido em puro e silencioso desespero. Seus olhos se cravaram em Cyfera, implorando para que a arqueóloga não desse mais um único pio.

Cyfera capturou o olhar de pânico e o devolveu envolto em pura gentileza. A chantagem, no entanto, era afiada e translúcida como cristal.

— Sabe, Justia... se a nossa nova colega decidir ficar, nós não teremos tempo para falar sobre isso agora. Mas, caso ela resolva ir embora e nos deixar sozinhas... talvez dê tempo para eu te contar a fascinante história por trás da família Mortifer.

A resistência de Mio desintegrou-se no mesmo milésimo de segundo. A tensão escorreu pelos seus músculos, e os ombros despencaram contra o encosto do sofá em uma imagem de absoluta derrota.

— Tá bom, tá bom! Já entendi! Eu vou ficar! Que saco!

O sorriso de Cyfera se iluminou no quarto, perfeitamente radiante e satisfeito com o desfecho do tabuleiro.

— Perfeito. Então, vamos para a próxima rodada de histórias. E quem sabe, uma dose extra de café.

Parte 11 

Longe do aroma espesso de café e do calor da luz âmbar que preenchia o quarto de Cyfera, a besta de ferro mantinha sua marcha ininterrupta. Uma visão panorâmica engoliria a noção de escala: o Trem Escarlate não parecia um veículo, mas uma centopeia colossal rasgando a escuridão absoluta de Threshold. O farol dianteiro furava a muralha de neve como uma lança.

Dentro da estrutura, o pulso frenético da viagem finalmente desacelerou. O silêncio drenou a vida dos corredores. As portas dos bares foram trancadas; pesados tecidos de veludo cobriram o feltro das mesas de aposta. O bloco de passageiros — os herdeiros predatórios, burocratas e líderes — recuou para a privacidade de seus dormitórios extravagantes, entregando-se aos lençóis densos e ao balanço anestésico dos trilhos.

Com as vozes e a música caladas, a realidade de isolamento do continente pressionou a lataria. Na extremidade frontal da locomotiva, o apito colossal de ferro soou. Um estrondo melancólico e ensurdecedor explodiu contra a tempestade, anunciando a presença do gigante ao vazio branco. Para os ocupantes, no entanto, o aviso não existiu. Protegidos pela complexa malha de runas de isolamento acústico gravadas na madeira e nos vidros duplos, o interior dos vagões permanecia um vácuo de segurança inquestionável. A hostilidade letal lá fora não passava de um filme mudo passando nas janelas.

A paz era absoluta. Mas, longe das mentes distraídas e dos olhos adormecidos, o mecanismo afundado na neve agiu.

Lá fora, sob a crosta de gelo negro, a espinha de aço do continente se moveu.

Os trilhos mudaram de direção.

Silenciosa e precisa, a locomotiva engatou no desvio oculto. As engrenagens pesadas cederam à curva e guiaram milhares de toneladas de metal para o leste, abandonando de vez a rota principal e segura que os levaria até os portões da eleição do Rei Escarlate.

Nenhum chiado cortou os alto-falantes. Nenhuma luz vermelha de emergência manchou as portas de shoji. A viagem sequer perdeu velocidade. Houve apenas um solavanco surdo — o deslize lateral das rodas trocando de junta —, que foi imediata e sumariamente engolido pelo uivo da nevasca.

Devorado pela tempestade, o longo corpo negro do trem mergulhou na escuridão, desaparecendo por completo por uma trilha que não existia no mapa. 

Parte 12

Enquanto o Trem Escarlate devorava os trilhos em sua nova e silenciosa rota, a penumbra engolia as cabines, ditando o ritmo da noite para cada passageiro.

Em um dos dormitórios, a escuridão era rasgada apenas pelo brilho doentio e fosforescente de líquidos reagindo dentro de frascos de vidro. Debruçado sobre a bancada, um homem de tapa-olho dissecava a química meticulosamente. A ponta metálica de sua caneta pairava sobre as folhas de um pequeno caderno.

Então, o pulso travou.

Ele não ouviu o desvio, mas sua biologia registrou a mudança. Uma alteração quase microscópica na força centrífuga; um leve puxão da inércia desequilibrando o labirinto do ouvido. O couro da capa estalou com um baque seco quando ele fechou o caderno. O homem caminhou até a janela. O reflexo no vidro devolveu a imagem de seu único olho, que brilhava com uma frieza analítica, calculando o abismo branco lá fora sem deixar vazar um único pensamento.

A alguns vagões de distância, a tensão era nula. Kai estava largado atravessado no colchão, a respiração afundando em um ronco compassado — o sono pesado e absoluto dos irresponsáveis.

No dormitório vizinho, no entanto, a insônia reinava. Vivian não tocava os lençóis. Sentada na poltrona do quarto, a herdeira Scarlune mantinha as costas rigidamente retas, a postura impecável não cedendo sequer ao fato de estar sozinha. Seus olhos, duas brasas vermelhas brilhando na penumbra, estavam pregados no vidro, varrendo a escuridão caótica da tempestade.

Mas, enquanto uns vigiavam o breu e outros apagavam, a dinâmica em um dos corredores principais quebrava completamente qualquer resquício de paz.

— Qual é, Bea, diz que sim! Não vai te matar, vai?

O eco da voz de Dante ricocheteou pelas vigas de madeira do corredor vazio. Os nós de seus dedos batiam contra a porta de correr em uma insistência rítmica e irritante.

Do outro lado, a resposta atravessou a fibra do painel, abafada pelo tecido das cobertas e carregada de puro ódio:

— Esquece! Não enche o meu saco!

Dante cedeu o peso do corpo para a frente, encostando a própria testa na porta com um baque surdo.

— Só um pouquinho, vai! — choramingou. — Você disse que ia me ensinar!

— Eu disse aquilo apenas pra você parar de me encher a paciência na hora! — Beatrice gritou de volta, o ranger da cama denunciando que ela estava se revirando. — Me deixa dormir e vaza daqui!

— Mas eu preciso aprender a controlar a minha aura como você faz! — Dante espalmou a mão contra a madeira, batendo de novo. — Só o básico, vai lá. Não precisa ser tudo!

— Esquece e vai dormir! — A paciência dela arrebentou. — Eu achei que vocês, Scarlunes metidos a besta, tinham o seu próprio método de luta! Por que se dar ao trabalho de aprender a manipular aura agora?!

A testa de Dante escorregou alguns centímetros para baixo contra a porta.

— Porque se esse negócio de "método Scarlune" funcionasse direito, eu não perdia tanto pra todo mundo! — admitiu, esvaziando a voz da mais absoluta e miserável gota de orgulho.

Uma risada nasal, banhada em pura crueldade, atravessou a fibra da porta.

— Que pena pra você. Vai lá pedir pra sua "esposa" te dar umas dicas, então.

As costas de Dante rasparam contra a madeira. A gravidade venceu a pouca dignidade que lhe restava, e ele escorregou até desabar sentado no tatame do corredor. Apoiou a nuca no painel e soltou a voz, empapada de uma tristeza genuína e miserável:

— Qual é... vai mesmo ser malvada assim? Abre aí, vai lá. Nem vai doer, eu prometo que vou ser bem educado e gentil dessa vez.

A acústica do corredor mudou. O silêncio noturno tornou-se repentinamente denso. Atrás das divisórias vizinhas de shoji, o farfalhar dos lençóis cessou, e o leve raspar de corpos se movendo indicava que orelhas atentas começavam a se colar contra a madeira.

— Vamos, vai ser rapidinho! — Dante insistiu. Em sua mente, o apelo era forjado na mais cristalina inocência de quem apenas implorava por um treino marcial. — Você sabe que eu sou rápido com essas coisas!

Do outro lado do painel, a respiração de Beatrice engatou. O sangue subiu pelo pescoço, tingindo seu rosto com um tom perigoso e fervente de vermelho.

O ranger de um assoalho próximo denunciou a plateia. Pela fresta de um dos quartos, um sussurro perfeitamente audível vazou para o corredor:

Ei, tá ouvindo? Parece que tem um rapazinho tentando a sorte com a garota ali do lado... — Ai, ai, esses jovens de hoje em dia não se aguentam nem na primeira noite de viagem...

O estômago de Beatrice despencou. O sangue ferveu sob a pele, espalhando uma vergonha tão ácida que a palma de suas mãos começou a suar frio.

— Qual é, Bea, não vai ser a sua primeira vez! — O eco da voz de Dante ricocheteou pelo corredor, tragicamente cego para o campo minado de duplos sentidos que construía a cada sílaba. — Pelo jeito que você falou antes, você já tem experiência nisso!

O rosto da garota atingiu a temperatura de uma fornalha. Ela abriu a boca, mas o choque travou o ar em seus pulmões.

Absolutamente alheio ao fato de que as portas ao longo do corredor agora deslizavam frestas milimétricas, revelando olhos curiosos ávidos pela fofoca, Dante elevou o tom do seu discurso passional:

— Se você não abrir, eu vou continuar aqui deitado na sua porta durante a viagem inteira! Qual é, Bea, aposto que você também vai gostar! Eu juro que deixo você ser rigorosa. Pode até me bater se quiser!

A bolha estourou. Mais sussurros escandalizados e risinhos abafados pipocaram de porta em porta.

Nossa, ouviu aquilo?! Ele gosta que batam nele! — Que ousadia, e logo no meio do corredor!

— Qual é, vai lá! — Dante espalmou a mão contra a madeira mais uma vez, o baque ressoando alto sob o escrutínio do vagão inteiro.

Zzzt. A porta de shoji recuou em um solavanco violento, o impacto ecoando no trilho de madeira.

As mãos de Beatrice dispararam para o corredor e agarraram o colarinho do casaco de Dante com a força desproporcional de um furacão. O rosto dela estava em chamas, inundado por um vermelho febril, e os olhos marejavam de pura, absoluta e dolorosa mortificação.

— Tá bom, tá bom, seu maldito! Entra logo e cala a porra dessa boca agora! — ela sibilou, a voz espremida pela fresta dos dentes cerrados.

A expressão de vira-lata abandonado de Dante evaporou. Seu rosto se iluminou de orelha a orelha, celebrando a vitória.

— Sério?! Ah, eu te amo, Bea!

Foi o estopim para o corredor. Algumas portas vizinhas deslizaram abertas de vez. Uma salva de palmas baixas e contidas explodiu na penumbra do vagão, acompanhada de incentivos sussurrados:

Aê, garoto! Manda bala! — Conseguiu, garotão!

Dante piscou, virando o pescoço a tempo de ver uma fileira de Scarlunes de pijama acenando e comemorando em sua direção. Antes que ele pudesse sequer processar a cena, os punhos de Beatrice deram um puxão colossal. Ela arremessou o peso morto dele para dentro do quarto e bateu a porta com toda a força, isolando o corredor com um estalo brutal.

Despencando de costas no tatame, Dante apoiou os cotovelos no chão. Ele olhou para a porta trancada e coçou a nuca, a confusão genuína misturando-se a um orgulho inflado.

— Rapaz... eu não esperava que iria ter gente perdendo o tempo de sono pra ficar torcendo pra eu conseguir um treinamento. — O sorriso convencido voltou a desenhar seus lábios. — Mas olha só! Agora parece até que o universo quer que você me ajude, Bea. Não tem mais motivos pra negar.

Beatrice não emitiu um único som. Com o rosto ainda fervendo, ela prensou as duas mãos sobre os olhos marejados, apoiou o peso do corpo contra o painel da porta e deixou a cabeça cair para a frente.

O som oco do seu crânio chocando-se contra a madeira ecoou pelo quarto em um ritmo cadenciado, letárgico e profundamente deprimido.

Thud. Thud. Thud.

Fechada em seu escuro particular, Beatrice perguntava-se intimamente se, em alguma vida passada, havia chutado um Buda ou cuspido no altar de alguma divindade vingativa para merecer aquele nível de castigo divino.

Do lado de fora, a acústica do vagão não perdoou. O ritmo abafado e contínuo das batidas surdas vibrando na madeira apenas derramou gasolina no incêndio das fofocas. Os vizinhos trocaram sorrisos repletos de malícia no corredor escuro, assentiram em aprovação e, finalmente, deslizaram de volta para suas camas.

Parte 13

O restante do trem já afundava no silêncio denso e letárgico da madrugada, mas o quarto de Cyfera resistia, ancorado pelo calor das xícaras de porcelana e pelo brilho raso da meia-luz.

A arqueóloga deslizava pelas palavras de sua segunda narrativa. A voz, embora baixa para não ferir o silêncio do vagão, carregava o peso de séculos. Ela desenterrava a figura do 11º Rei Escarlate: Abhartach, o Tirano.

— Ele forjou as bases da nossa sociedade a golpes de sangue — ela explicava. O olhar de Cyfera perdeu o foco na mobília, como se assistisse aos massacres projetados nas sombras do quarto. — Após coroado, Abhartach não buscou tréguas. Ele rasgou as fronteiras do continente promovendo guerras implacáveis. Foi a mão dele que assinou a lei do treinamento compulsório, atirando crianças de quatro anos em regimes militares brutais. Era um monarca que respirava a fumaça do campo de batalha, cego para as montanhas de cadáveres que deixava para trás.

Mio e Justia absorviam a história em absoluto silêncio.

— Muitos historiadores defendem que essa barbárie não era mero cálculo político — a cadência de Cyfera continuou, hipnótica. — A teoria é que o sangue de Abhartach era assustadoramente puro. Essa pureza o condenava a carregar a mesma sede incontrolável por emoções extremas e carnificina que consumia o Fundador de toda a nossa raça. O ancestral primordial dos Scarlunes... Daemon.

O corpo de Mio deu um solavanco violento no sofá. O nome a atingiu como uma descarga elétrica.

— Espera aí! — Ela espalmou as mãos nos joelhos, projetando o tronco para a frente com os olhos arregalados. — O nome do ancestral de vocês é Daemon?!

Justia, que até então estava espremida contra o estofado e abraçada a uma almofada felpuda como se fosse um escudo tático, fuzilou Mio com um olhar carregado de ódio.

— Não interrompe do nada! Você quebrou a tensão da história, sua idiota!

O rosto de Cyfera, no entanto, apenas se iluminou com um sorriso contido, divertindo-se com a quebra repentina de ritmo.

— É, sim. Esse é o nome do nosso progenitor... ou, pelo menos, é o que os pergaminhos oficiais registram. Por quê? Já cruzou com essa lenda por aí?

Mio piscou repetidas vezes. O sobressalto passou, e ela escorregou as costas devagar contra o encosto do sofá.

— Não, sobre o fundador de vocês não. Mas eu conheço outra pessoa com esse exato nome.

Cyfera ergueu os ombros em um movimento fluido e levou a borda da xícara aos lábios, tomando um gole curto.

— O mundo é vasto. É estatisticamente normal que nomes se repitam por pura coincidência, ainda mais com um abismo de tempo tão absurdo separando as duas existências.

— É, tem razão... — Mio murmurou. Ela cruzou os braços sobre o casaco e esfregou o polegar no queixo, as engrenagens de sua mente girando rápido sob a luz amarelada. — Mas eu tava aqui pensando... será que a pessoa que deu esse nome a ele fez isso por algum motivo específico? Tipo uma homenagem direta ou alguma conexão bizarra?

O fundo da xícara tocou o pires com um leve tilintar. A arqueóloga arqueou uma única sobrancelha, o brilho plácido de seus olhos subitamente afiado por uma faísca de pura curiosidade.

— O que você quer dizer com isso?

— Ah, talvez seja cedo demais pra eu tirar conclusões sem saber mais sobre o tal do Daemon de vocês. — Mio projetou o tronco para a frente, a tensão sumindo sob a faísca de um sorriso ansioso. — Pode me contar mais sobre ele?!

Cyfera recuou as costas contra o encosto da poltrona. A porcelana tilintou, suave e precisa, quando ela devolveu a xícara ao pires. Seus olhos estudaram o rosto de Mio por uma fração de segundo, calculando silenciosamente o valor daquela troca de informações.

— Bom... já temos as três histórias de hoje programadas. Quem sabe em outra noite durante a viagem.

— Queee?! — Mio soltou um muxoxo arrastado, atirando a nuca contra o topo do sofá em pura frustração. — Ah, qual é!

Cyfera deixou escapar uma risada fina, polida e musical. — Relaxe. Teremos tempo de sobra.

Lentamente, porém, o frescor do sorriso abandonou os olhos da arqueóloga. Cyfera girou o pescoço. Sua atenção foi inteiramente sugada pelo vidro duplo da janela, onde o caos branco da nevasca chicoteava a noite. Uma sombra de cálculo denso, gélido e quase predatório cruzou seu rosto pálido. Os lábios dela mal se moveram quando o murmúrio vazou, baixo o suficiente para quase ser engolido pela vibração contínua do assoalho:

— De qualquer forma... parece que vamos demorar um pouco mais do que o previsto para chegarmos ao nosso destino mesmo...

Mio e Justia paralisaram. O silêncio repentino as fez virar os rostos em sincronia, seguindo a mira da Scarlune até o vidro. Apenas a escuridão e a hostilidade do gelo devolveram o olhar. O isolamento mecânico daquele dormitório de luxo era tão perfeito que nenhuma das duas havia registrado fisicamente o solavanco, a mudança de eixo ou a troca dos trilhos.

Cyfera quebrou o próprio transe. O rosto virou novamente para o centro do quarto, e a máscara de serenidade intocável retornou à sua face como se nunca houvesse se movido. Os dedos longos pinçaram a alça da xícara mais uma vez.

— Mas, voltando para a história do Tirano—

— Falando nisso! — A voz de Justia cortou o ar em um rompante agudo. — Cyfera, a gente não pode deixar o resto da história para amanhã de manhã?

O movimento da xícara travou. Cyfera desviou a atenção para a garota encolhida no sofá. — Por quê? Já está com sono?

O aperto de Justia esmagou o estofamento da almofada contra o peito. O tecido rangeu sob as unhas dela. Ela empinou o nariz, forçando uma frieza inabalável que foi sumariamente traída pelo leve tremor em sua voz.

— Também. Mas é que essa próxima parte dele... sabe, a parte onde ele é assassinado pelo próprio irmão e depois volta dos mortos... me incomoda um pouquinho. Bem de leve, sabe? Eu prefiro ouvir a parte dos zumbis à luz do dia.

A espinha de Mio enrijeceu de imediato. O pescoço dela girou em câmera lenta na direção da poltrona, os maxilares travados fazendo os dentes rangerem.

— Voltando dos mortos?! Ei! Você disse que ia evitar histórias de terror na próxima rodada!

Em vez de justificar a mentira descarada, Cyfera apenas transferiu o olhar para Justia. Um vinco de repreensão puramente teatral e brincalhona desenhou-se na testa da mulher de cabelos brancos.

— Ei, de onde tirou a ideia de jogar spoilers no meio da minha narrativa? — O tom de Cyfera carregava uma falsa indignação.

— Relaxa! — Justia rebateu. O calor da vergonha voltou a tingir suas bochechas, rachando a postura defensiva. — Mesmo sabendo o final, quando você conta, o arrepio é o mesmo!

Mio girou o pescoço, embasbacada com o nível daquela contradição.

— É sério isso?! Você é ainda pior do que eu pra aguentar esse tipo de coisa! Por que diabos continua ouvindo, então?! Só manda ela parar!

Justia cerrou as pálpebras com força, apertando a almofada contra o estômago como se tentasse espremer dali alguma coragem heroica. O tremor sutil em seus ombros não cedia.

— É para... alcançar o meu objetivo! — A justificativa saiu arrastada, soando absolutamente vazia e incompreensível para a caçadora.

Uma gargalhada genuína e despojada escapou de Cyfera. A dinâmica daquelas duas covardes no sofá era impagável.

— Beleza, beleza. Façamos um acordo. Vamos avançar só mais um pouco. Se eu esvaziar minha xícara de café antes de terminar a história inteira, encerramos por hoje. Fechado?

O olhar de Mio despencou, cravando-se na porcelana apoiada entre os dedos da arqueóloga. Um tremor espasmódico tomou conta de seus joelhos. O cérebro entrou em curto-circuito. Espera aí! Ela chegou a encher aquela droga de bule de novo desde que começou a falar?! A xícara tá cheia ou tá vazia?!

Ao seu lado, a outrora orgulhosa e inabalável Justia havia colapsado. Com as palmas das mãos prensadas em uma oração fervorosa e o queixo quase tocando o peito, ela sussurrava para qualquer divindade que estivesse disposta a interceder:

— Por favor, que esse café acabe logo... Buda, seca logo essa xícara...

Mio estalou a palma da mão contra a própria testa, esgotada.

— Pelo amor de Deus! Se você não quer ouvir sobre o fantasma do Rei morto, é só abrir a boca e mandar ela parar!

Mas o martelo já havia batido. A voz de Cyfera voltou a rastejar pelo quarto escuro, deslizando sobre a vibração do trem para desfiar os segredos de um passado manchado de sangue.

A noite finalmente esmagou os passageiros do Trem Escarlate. As horas se arrastaram, letárgicas e asfixiantes, sob a pressão contínua da tempestade magnética que açoitava os vidros.

Longe da ilusão de segurança das cabines, a fera de aço devorava a rota alterada, embrenhando-se cada vez mais para o leste, direto para as fauces do desconhecido. O bater metódico e pesado das rodas nos trilhos engoliu o resto da madrugada. Quando o breu absoluto finalmente cedeu, a noite foi rompida por um clarão pálido, doentio e cinzento que rasgou o horizonte.

A manhã despontou sobre Threshold. 

Parte 14

A manhã despontou sobre Threshold letárgica e pálida. A luz cinzenta e fria do amanhecer escorria pelas grossas janelas duplas do Trem Escarlate, diluindo as sombras da madrugada e devolvendo a embarcação colossal à vida.

Nos corredores de madeira polida, o movimento recomeçava de forma arrastada. O som de portas shoji correndo em seus trilhos pontuava o ambiente enquanto os passageiros emergiam de suas cabines. Alguns esticavam os músculos entorpecidos com bocejos longos; outros caminhavam apressados, com toalhas felpudas penduradas sobre os ombros, buscando o calor dos vagões termais para arrancar a umidade gelada que a nevasca insistia em jogar contra os vidros.

Em um dos corredores principais, a calmaria foi quebrada por um baque seco. Uma porta deslizou para trás e, em uma sincronia quase bizarra, a porta do quarto exato à sua frente fez o mesmo movimento.

Kai atravessou o batente atirando os braços para o teto. Ele torceu o tronco em um espreguiçar violento, a musculatura repuxando até que os ossos da coluna estalassem alto no corredor vazio. A linguagem corporal era bruta, o peso cedendo em uma postura largada que lembrava um animal de grande porte sendo enxotado da toca. O ar escapou de sua garganta num resmungo gutural e mastigado que, com muito esforço interpretativo, poderia significar um "bom dia".

Do outro lado do corredor, a antítese o aguardava.

Vivian emergiu de seu dormitório com a postura de quem não possuía o direito de sentir sono. Não havia um vinco em suas roupas ou fadiga em seu olhar. Ao testemunhar o despertar selvagem do irmão, a máscara de rigidez da herdeira cedeu por uma fração de segundo, e um sorriso gentil e genuíno puxou o canto de seus lábios.

— Bom dia para você também, Kai. — A voz dela ecoou calma sobre o som contínuo dos trilhos.

Antes que Kai pudesse organizar as cordas vocais para devolver outra sílaba rústica, o som de passos leves e milimetricamente ritmados tocou o tatame.

— Ah, vejo que acordaram cedo.

Love Scarlune surgiu na extremidade do vagão. A aura intocável e serena o precedia, a alfaiataria impecável acompanhando seus movimentos fluidos, e o sorriso polido perfeitamente moldado no rosto.

O alongamento de Kai parou na metade. Ele deixou os braços caírem pesadamente ao lado do corpo, estalou a língua contra o céu da boca com irritação e virou o rosto para a parede. Ignorando a hostilidade gratuita do irmão, Vivian assumiu a dianteira da conversa.

— Pois é. A vibração constante do trem não deixa o sono ser dos mais profundos.

Love abaixou levemente o queixo em um aceno cortês.

— Compreensível. Falando nisso, vi Blade saindo do quarto agora há pouco também. Fiquei me perguntando... será que todos os irmãos despertam no exato mesmo horário?

Os dedos de Vivian roçaram o próprio queixo. O olhar rubro desfocou por um momento, pescando lembranças antigas na memória.

— Talvez... — ela murmurou, o tom ganhando uma sombra de cinismo. — Sinceramente, se eu descobrisse que essa sincronia do nosso relógio biológico é só mais um resultado de alguma coisa maluca que a Rani fez com nossos corpos ou rotinas enquanto éramos crianças, eu não acharia nem um pouco estranho.

A risada de Love rolou leve e polida pelo corredor.

— Bom... isso é bem a cara dela, de fato.

Ele repousou as mãos na cintura, o olhar subindo para as vigas de madeira do teto enquanto simulava uma reflexão.

— Mas eu ainda não esbarrei com o Dante esta manhã. Será que ele foge à regra de vocês nesse aspecto?

A menção do nome foi como riscar um fósforo em uma sala saturada de pólvora. O torpor matinal no rosto de Kai desintegrou-se em um milésimo de segundo. A mandíbula dele travou com força, e os músculos do pescoço tencionaram sob a pele.

— Quer fazer o favor de não pronunciar o nome daquele merda na minha frente logo cedo?! — o rosnado estourou da garganta de Kai, ricocheteando brutalmente contra os painéis de papel e rasgando a calmaria do trem.

Love sequer piscou. Apenas ergueu as palmas abertas na altura do peito, em um gesto ensaiado de rendição pacífica.

— Oh, me perdoe. Não era minha intenção irritá-lo.

Kai não recuou um milímetro. Ele afundou as mãos nos bolsos do casaco com tanta violência que o tecido estalou. Sem oferecer outra palavra, girou nos calcanhares e começou a marchar. O baque pesado de suas botas contra o assoalho ecoava como marteladas enquanto ele se afastava a passos largos.

— Droga... — os murmúrios vazavam entre os dentes, venenosos. — Além de dormir mal, ainda fico com um gosto horroroso na boca. Merda de dia...

As mãos de Love desceram lentamente. Ele acompanhou a silhueta agressiva do garoto ser engolida pela penumbra do corredor. O sorriso de porcelana cedeu, abrindo espaço para uma sombra de preocupação que parecia perfeitamente genuína.

— Ele ainda não superou isso — murmurou Love, a voz aveludada flutuando no espaço vazio. — Talvez alguém devesse sentar e ter uma conversa séria com ele. Todo esse rancor contra o Dante será um veneno para o seu crescimento no futuro...

Vivian não havia movido um único músculo. Seus olhos rubros continuavam pregados no ponto exato onde Kai desaparecera, as pupilas afiadas em uma leitura fria e impenetrável. Ela provou a palavra na língua, soltando-a em um sussurro reflexivo:

— ...Rancor?

Pelo canto do olho, Love pescou a discordância e girou o rosto.

— O que foi?

O atrito do couro quebrou o silêncio quando Vivian cruzou os braços contra o peito, cerrando a própria postura.

— Bom... não dá para negar que, no início, era exatamente isso que ele sentia pelo Dante. Pura raiva e frustração cega. Mas...

— Mas agora a situação mudou? — Love rebateu de imediato, o tom subitamente afiado por um interesse investigativo.

Vivian afundou no silêncio. Ela blindou os pensamentos, trancando a resposta na garganta e não oferecendo mais nenhuma palavra a Love. Como irmã, a anatomia daquela fúria era um livro aberto. O atrito crônico não nascia do ódio puro. Nascia do peso asfixiante que Kai arrastava nos ombros por carregar o estigma biológico de ser um clone. Ela conhecia a necessidade esmagadora e doentia que ele tinha de se provar, e como a simples existência do "Filho Perfeito" estraçalhava o seu orgulho. Aquilo não era rancor. Era uma tempestade letal de rivalidade, um complexo de inferioridade afogado em arrogância, e o grito violento de alguém em uma busca desesperada por reconhecimento.

Mas Vivian conhecia o tabuleiro em que pisava. Ela não ofereceria aquela vulnerabilidade em uma bandeja para Love.

Ela descruzou os braços com fluidez. O atrito do tecido marcou o som no corredor enquanto o ar escapava de seus lábios num suspiro baixo, encerrando o interrogatório com uma parede de classe gélida.

— Bom, é melhor eu ir tomar o meu banho. Quero conseguir um horário no onsen antes que ele encha de gente barulhenta. Com licença.

Sem conceder tempo para a resposta, Vivian girou os calcanhares no sentido oposto ao de Kai. Suas botas soaram em passos limpos e milimétricos pelo tatame de bambu, afastando-se com a elegância de uma sombra até que Love ficou completamente sozinho.

O Scarlune permaneceu imutável. Durante longos segundos, apenas o bater frenético e letal da nevasca contra a janela dupla preencheu o corredor. O baque surdo do vento era constante, afogando os demais ruídos do trem. Love girou o pescoço e fixou o rosto no vidro opaco. A parede de gelo lá fora era um bloqueio compacto e caótico; o sol da manhã não passava de um rastro anêmico, lutando para escorrer sobre a imensidão branca de Threshold como uma luz quase cadavérica.

O peso no peito de Love finalmente cedeu, e o ar foi expulso em um suspiro profundo que balançou seus ombros. As pálpebras se fecharam, escondendo o mundo por um breve instante. Quando voltaram a abrir, o sorriso dócil já havia sido restaurado no lugar, mas o brilho plácido no fundo das pupilas havia endurecido em uma determinação afiada e puramente gélida.

— O que será que eu deveria fazer agora...? — a respiração dele embaçou o vidro frio no sussurro.

A própria intuição ditou o próximo movimento. Love inalou o ar ralo e seco, reerguendo a postura, como quem alinha a própria coragem.

— Bom... eu só posso fazer aquilo que consigo fazer. E, por enquanto, acho que terá que ser apenas conversar.

Ele cortou o olhar do abismo branco e girou o corpo de vez. As solas de seus sapatos deslizaram silenciosas sobre a madeira enquanto ele mergulhava na meia-luz do corredor, rastreando o mesmo caminho violento por onde Kai havia sumido.

Parte 15

A porta do dormitório de Cyfera deslizou com lentidão pelo trilho. Mio atravessou o limiar arrastando os pés no tatame, o corpo inteiro pesando uma tonelada. Ela esticou os braços em direção ao teto num espreguiçar torto e dolorido. O som da cartilagem estalando ecoou no corredor, um protesto físico das juntas contra a noite mal dormida no sofá.

Esfregando os olhos inchados, a lembrança da madrugada bateu como um bloco de concreto. É sério, não acredito nisso, ela pensou, balançando a cabeça em uma negação exausta. Ela enrolou de propósito! Demorou o resto da história inteira pra beber aquelas malditas últimas gotas de café! Quando eu percebi a armadilha, o cansaço já tinha esmagado minha cabeça e eu apaguei ali mesmo no estofado. Mio espiou a porta fechada por cima do ombro, e um calafrio ríspido escorregou por sua espinha. Aquela mulher é perigosa. Se eu ficar muito tempo perto dela, sinto que minha expectativa de vida vai ser inteiramente sugada por pura exaustão psicológica. Apesar de toda a fadiga cobrando seu preço, o anzol da curiosidade já estava cravado na mente da garota. O mistério deixado no ar coçava seu cérebro. Mio não aguentou o silêncio. Ela abriu a boca num bocejo longo e murmurou para o vazio:

— Mas agora eu quero tanto saber a história sobre esse tal de Daemon...

— Relaxe. Prometo que te conto antes de chegarmos.

As solas das botas de Mio saíram do chão num pulo assustado. Atrás dela, a madeira correu com um sussurro ágil. Cyfera cruzou o batente. A Scarlune estava de forma irritante e inquestionavelmente impecável. Os fios puríssimos de cabelo caíam soltos sobre a alfaiataria escura, e uma toalha de algodão macio descansava dobrada sobre o ombro. A pele do rosto não exibia a mais rala sombra de olheira, inchaço ou fadiga.

— Agora, que tal irmos tomar um banho para despertar? — A voz da arqueóloga deslizou amigável, já alinhando a caminhada na direção dos vagões termais.

Mio soltou o ar preso nos pulmões, deixando a adrenalina do sobressalto baixar.

— É verdade. Mas antes eu tenho que passar no meu quarto pra pegar uma toalha limpa e uma troca de roupas.

— Tudo bem, então. Vou ficar te esperando lá no onsen. — Cyfera sequer freou os passos ou virou o pescoço. Ela apenas ergueu a mão em um aceno polido e sumiu suavemente na curva do corredor.

Mio ficou plantada no lugar, o olhar pregado na quina por onde a mulher havia desaparecido.

— Rapaz... mesmo depois de dormir tão tarde socando história macabra na cabeça da gente, ela nem parece abalada — sussurrou, a voz pingando perplexidade. — Essa aí deve ter bateria infinita, não é possível.

Mas a reverência logo cedeu espaço ao orgulho. Apoiando as mãos na cintura, um sorriso largo, presunçoso e cheio de malícia puxou o canto de seus lábios. Ela estufou o peito, sentindo-se a grande espiã da viagem.

— Agradeça aos céus, Dante! Sua grande e íntima amiga Mio acabou de fazer o reconhecimento de campo e confirmou que você, de fato, arrumou uma baita de uma esposa! — Ela soltou uma risada vitoriosa para o teto. — Agora ninguém pode dizer que nós não somos próximos, né? Afinal de contas, eu já até dormi com a sua mulher!

O sorriso de Mio congelou no rosto.

A expressão presunçosa desmanchou. Ela piscou uma, duas vezes, o silêncio do corredor devolvendo o peso exato do absurdo que havia acabado de ricochetear nas paredes de madeira.

Peraí... A testa de Mio franziu, formando uma expressão leve de constrangimento. Acho que isso pega meio mal. É, melhor eu não usar essa frase em público.

Ela balançou a cabeça, um solavanco rápido para espantar a própria gafe interna, e retomou a caminhada em direção ao seu quarto. O balanço constante do trem ditava o ritmo de seus passos no corredor. Ao passar pela longa fileira de janelas, virou o rosto de forma distraída. Lá fora, a tempestade de neve mantinha seu açoite incansável, mas a pálida luz da manhã agora rasgava o branco, permitindo que a visão alcançasse distâncias maiores.

O solado de suas botas travou no chão de supetão. Mio estreitou os olhos, inclinou o corpo e colou o rosto no vidro. O frio cortante da superfície pinicou sua bochecha instantaneamente.

Espera aí... A engrenagem geográfica em sua cabeça girou, emperrada e confusa. Eu achei que a mansão principal para onde estávamos indo ficava bem no centro do continente. Mas se nós estamos indo para o centro de Threshold... por que é que ainda dá pra ver a linha do oceano no horizonte?!

Lá no fundo, rompendo as densas cortinas de neve, uma faixa vasta e revolta despontava. Eram as águas costeiras, agitadas e escuras, fundindo-se com o cinza opaco do céu. Eles não estavam adentrando o continente. Estavam contornando a costa.

Mio permaneceu imóvel, o hálito embaçando uma pequena mancha no vidro enquanto a dúvida fincava raízes. O som abafado do vento chocando-se contra a lataria do trem preenchia a quietude do vagão. Então, a letargia matinal pesou nos ombros, somada à sua absoluta falta de familiaridade com a geografia daquele mundo.

Ah, bom, sei lá. Mio deu de ombros, desgrudando o rosto do frio da janela. Eles é que moram aqui e conhecem essas estradas bizarras. Vai ver a rota é toda torta por causa daquelas paradas magnéticas e místicas das Linhas Ley que a Vivian comentou ontem. Melhor eu só ir lá explicar pra Bea por que eu não voltei pra dormir e pegar logo uma roupa limpa.

Ela girou os calcanhares, pronta para seguir caminho, quando um ronco gutural e prolongado reverberou do seu próprio centro, quase tão alto quanto o ruído dos trilhos.

Rooooooooonc.

Mio espalmou as duas mãos contra o abdômen. O vazio do estômago se contorcia em um protesto físico e feroz pelo atraso do café da manhã. Ela lançou um olhar por cima do ombro, medindo a distância até o vagão restaurante, e depois virou o pescoço de volta, encarando o corredor que levava ao seu quarto.

— Quer saber? — ela murmurou, pivotando o corpo e mudando de rota no mesmo instante. — Melhor eu ir comer alguma coisa antes. Com fome eu não resolvo mistério nenhum.

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