The Fall of the Stars: Capítulo 1 - A Elite dos Problemáticos
- AngelDark

- 14 de jul. de 2025
- 48 min de leitura
Atualizado: 4 de jan.
Volume 4 : Fragmentado
Parte 1
4 de Agosto de 2018, 06:00 da Manhã – Hotel "Starlight", Distrito Comercial de Apocalypse.
O som rítmico da caneta arranhando o papel era a única coisa que ousava quebrar o silêncio do quarto compartilhado. A luz artificial da alvorada de Apocalypse filtrava-se timidamente pelas frestas da cortina, desenhando linhas sobre as páginas do caderno que Sofia havia elogiado dias atrás. Respirei fundo, o cheiro de hotel misturado com o ar-condicionado enchendo meus pulmões, enquanto relia as últimas linhas trêmulas que eu havia acabado de escrever, numa tentativa desesperada de organizar o caos das últimas duas semanas.
"... E assim, o incidente do Titanic finalmente saiu das manchetes principais, mas as cicatrizes continuam. Aleister Crowley cumpriu sua promessa, mas a que custo?..."
Parei a caneta no ar, o peso daquelas palavras afundando em mim. Eu tinha ouvido boatos sobre ele, mas vê-lo pessoalmente... a aura dele tornava tudo assustadoramente real. Agora, a frase de Dante ecoava na minha mente com um novo sentido: "Ele é uma falha como ser humano".
Voltei a escrever, a tinta fluindo mais rápida:
"A Família Salazar foi exposta. Não apenas como cúmplices, mas como os arquitetos da catástrofe. A Horizon, por algum motivo, foi totalmente encoberta nas informações e Drake foi pintado como um herói improvável. O público está confuso; eles se interessam pela História ao mesmo tempo que odeiam as manchetes por causa do ódio contra o próprio Drake."
Mordi a ponta da caneta, um tique nervoso. Queria mesmo saber como ele era de verdade... A visão que a Sofia tinha dele era tão boa, tão diferente da visão pública de monstro. Balancei a cabeça para afastar o pensamento e voltei a anotar; precisava tirar aquilo do peito.
"Falando nisso, a situação política de Elysium virou um verdadeiro barril de pólvora. O Rei de Valoisia, furioso com a evacuação desastrosa da Luminary Labs, lançou um ataque direto à empresa. Com o apoio de Siracusa e seu líder misterioso nas sombras, a Rosa Cruz está tentando manter tudo sob controle. Mas como tanto Valoisia quanto Siracusa operam quase independentes do estado principal, parece que a qualquer momento uma guerra civil pode estourar dentro de Elysium."
— Bom... — murmurei para mim mesma, fechando o diário com um estalo suave. — Não sei se é sorte ou azar, mas pelo menos agora que voltei para Apocalypse, isso já não é mais problema meu.
Aqui dentro deste quarto, a minha preocupação era muito mais... tangível.
Olhei ao redor. Malas prontas encostadas na parede. Uniformes passados pendurados como sentinelas. Havia uma ironia amarga no ar.
— Já acordada, Kuro? — A voz cristalina e alegre de Sofia veio da direção da porta do banheiro. Ela secava o rosto com uma toalha, parecendo fresca como uma rosa, ignorando totalmente o peso do mundo lá fora.
— Sofia, eu ainda estou uma pilha de nervos. Que tipo de maldade é essa? — bufei, enfiando o diário na mochila com um pouco mais de força do que o necessário. — Alguém ter que passar pelo nervosismo do primeiro dia de aula duas vezes no mesmo mês? Isso não faz o menor sentido.
Sofia riu, jogando a toalha sobre a cadeira e começando a pentear o cabelo.
— Bom, não é sempre que alguém viaja no tempo, né? E eu já disse: não precisa ficar me chamando de Sofia. Pode me chamar só de Sophi, ou eu que vou ficar com vergonha te chamando só de Kuro.
— Ops. Foi mal, o hábito fala mais alto.
De repente, a montanha de cobertores na cama ao lado se moveu. Um gemido longo e sofrido ecoou, e Anna emergiu dos lençóis como um zumbi saindo da tumba, o cabelo numa explosão estática que desafiava a gravidade.
— O que é... todo esse barulho agora? — Anna resmungou, a voz rouca, esticando os braços até as articulações estalarem.
— Bom dia, Anna! — Sophi cantarolou, já perfeitamente arrumada.
— Dia... Sophi... — Anna murmurou, esfregando um olho enquanto travava uma batalha perdida contra a gravidade das pálpebras.
— Ei, Anna, é melhor acordar logo ou vai acabar se atrasando — avisei, indo em direção ao meu uniforme.
Pelo canto do olho, vi Anna começar a inclinar perigosamente para o lado, quase perdendo a consciência sentada mesmo.
— Dá mais uns minutos pra ela, Kuro. Ela foi uma das últimas a terminar de preencher toda a papelada ontem — Sophi defendeu, rindo baixo.
— Por favor, não me lembra daquilo — gemi.
A burocracia de Babylon foi impiedosa. Por termos ficado "fora" por 20 anos — mesmo que para nós tenha sido num piscar de olhos —, nossa grade curricular foi considerada obsoleta. O resultado? Dante e Luck, veteranos do terceiro ano, foram matriculados no primeiro ano. Todo o histórico, todo o prestígio... apagados. Eu tive um pouco mais de sorte; como já era caloura, Aleister considerou minha "experiência de combate" no Titanic e na Torre como créditos extras. Mas eles... eles teriam que engolir o orgulho e voltar a ser novatos.
A porta do quarto se abriu silenciosamente.
— Alguém quer rosquinhas? — Miguel sussurrou, entrando como uma contrabandista, segurando uma caixa colorida.
O efeito foi instantâneo.
— ME DÁ ESSAS ROSQUINHAS AGORA!
Anna despertou num grito, os olhos antes pesados agora focados na caixa como se tivessem miras a laser teleguiadas. Ela praticamente teleportou da cama para frente de Miguel.
— Precisa gritar só por isso? Virou uma delinquente ou algo assim? — murmurei, abotoando a camisa enquanto observava a cena.
"Bom, pelo menos nós resolvemos isso voltando alguns anos na matrícula. Para os casos especiais, a coisa foi bem mais complicada...", pensei, sentindo um aperto no peito ao olhar para as três garotas se reunindo na cama da Anna para atacar o doce.
A situação da Sophi, por exemplo. Ela nunca estudou em Babylon. Ela não tinha licença de Caçador. E, o pior de tudo...
Minha mente foi puxada para um flashback rápido do teste de nivelamento, três dias atrás. A sala fria de testes, o alvo de medição de Ether... e o silêncio constrangedor que se seguiu quando Sophi tentou usar sua habilidade. Nada. Nem uma faísca. Ela relatou calmamente que seus poderes haviam desaparecido após o incidente, com um sorriso triste, como se fosse um fato corriqueiro. Mas eu vi. Eu vi como as mãos dela tremiam sob a mesa.
Uma humana comum. Sem Ether. Sem defesas. E ainda assim, ela bateu o pé contra os conselheiros que recomendaram a desistência. "Eu tenho meus motivos", ela disse. E Aleister, aquele diretor enigmático, mexeu seus pauzinhos para matriculá-la mesmo assim.
— Mas e você, Sophi? Já está pronta? — perguntei, afastando as memórias ruins.
Ela se virou para mim. O sorriso estava lá, radiante como sempre, mas não alcançava os olhos.
— Hum... eu não sei. Também tô meio ansiosa. Essa coisa de Babylon simular um colégio só torna tudo mais estranho, e olha que eu já terminei o colégio.
Anna, agora com as bochechas inchadas de tanto mastigar, gesticulou com a rosquinha.
— Relaxa. Não tem por que se preocupar com isso. É o primeiro ano mesmo, você pega o ritmo com o tempo.
Fiquei olhando para ela, incrédula. "Espera, você nem estudou aqui direito, como tá dando conselhos?!"
— Mas se está mesmo ansiosa se perguntando se tá todo mundo pronto... — Anna engoliu o pedaço de doce e apontou para a porta com um sorriso malicioso de quem vai jogar a bomba no colo de outro. — Tem outro grupo com quem você deveria estar mais preocupada, não acha?
Franzi a testa, confusa. Mas, aos poucos, as engrenagens na minha cabeça giraram. O silêncio no corredor...
Olhei para os lados e soltei um suspiro longo e pesado, já aceitando meu destino.
— Acho que alguém tem que ir para o quarto deles, se não eles não vão acordar nunca.
Parte 2
Quarto 304
Se alguém entrasse no quarto 304 esperando encontrar a tranquilidade do sono dos justos, teria dado meia-volta na porta. Contra todas as probabilidades, o trio já estava de pé. Luck estava sentado na cama, as costas tão retas que pareciam ter uma viga de aço no lugar da coluna, folheando um livro grosso com a precisão de um autômato. No banheiro, Dante travava sua batalha diária contra a placa bacteriana, escovando os dentes com uma violência desnecessária.
O silêncio era pacífico, quase sagrado. Até que Chuya decidiu que a paz era um conceito superestimado.
— DROGA, DANTE! ESTAMOS COM PROBLEMAS SÉRIOS!
O grito não apenas ecoou; ele explodiu no quarto como uma sirene de ataque aéreo nível 5.
No banheiro, Dante engasgou violentamente. A escova de dentes raspou perigosamente em sua úvula, os olhos quase saltaram das órbitas e seu coração disparou com a certeza absoluta de que o hotel estava desabando. Luck, por sua vez, baixou o livro com a velocidade de um reflexo treinado, os olhos varrendo o perímetro em busca de inimigos invisíveis.
Dante saiu do banheiro tropeçando, os olhos lacrimejando e a boca transbordando espuma branca como um cachorro raivoso. Ele esperava ver fogo, monstros do abismo ou a polícia. O que viu foi Chuya, plantado no centro do tapete felpudo, braços cruzados e uma expressão de gravidade tão intensa que faria um general de guerra parecer relaxado.
— Que porra foi essa?! — Dante conseguiu articular, cuspindo perdigotos de espuma na toalha. — Quer me matar do coração, desgraça?! Quase engoli a escova inteira!
— Seu tolo! — Chuya retrucou, o queixo erguido, sem um pingo de remorso. — Não temos tempo para sua higiene bucal medíocre. A situação é crítica!
Dante suspirou, sentindo a adrenalina se dissolver em pura irritação.
— "Crítica"? Você tá dando esse show todo só porque você e o Luck já se arrumaram e eu não...
Ele se virou para voltar à pia, mas o grito de Chuya o deteve como um puxão na gola da camisa.
— SEU IDIOTA! NÃO VÊ QUE O DESTINO DA NOSSA PAZ ESTÁ EM JOGO? — Chuya apontou para o teto, como um profeta anunciando o apocalipse. — Estou falando sobre... Garotas. É óbvio!
Houve um silêncio coletivo. O som do ar-condicionado parecia altíssimo. A mente de Dante tentou processar a conexão lógica entre "situação crítica" e "garotas" e encontrou um erro 404. Luck franziu a testa, igualmente perdido.
— Onde que tem "óbvio" nisso, mané? — Dante perguntou, a voz abafada pela toalha.
— Na verdade, eu também perdi a linha de raciocínio no meio do grito — Luck admitiu calmamente.
Chuya estalou a língua, balançando a cabeça com a decepção de um professor lidando com alunos repetentes.
— Tsk. Será que vou ter que desenhar? Escutem! Estamos entrando num colégio. Pode ser uma academia de caçadores, onde todo mundo tem cara de quem já paga imposto, mas a estrutura social é a de um colégio! O que vocês pensam quando lembram de "vida escolar"?
— Comida — o estômago de Dante respondeu antes do cérebro.
— Aulas — o cérebro de Luck respondeu logicamente.
Chuya cobriu o rosto com a mão, uma pose de sofrimento.
— Luck, você é puro demais, chega a doer. E Dante... por favor, não tente explicar como sua mente chegou em comida, isso vai ser triste demais.
Dante revirou os olhos.
— O ponto é: Colégio significa hormônios! Significa a perda de tempo colossal dos adolescentes tentando acasalar!
— Ah... — Dante piscou, a compreensão lenta chegando. — Agora que você falou, isso é plot básico de anime, né?
— Exato! — Chuya abriu os braços, girando nos calcanhares. — E pensem um pouco. É um fato inegável, científico e observável: nós três somos muito bonitos.
— Isso que é autoestima — Dante comentou, genuinamente impressionado. — O cara mandou essa em voz alta e nem gaguejou.
— Bom, independente da beleza — Luck analisou friamente, fechando o livro —, o Dante está ferrado de qualquer jeito. O sobrenome "Scarlune" funciona como um repelente natural para qualquer pessoa com um pingo de sanidade.
— Ei! Isso aí é preconceito! — Dante protestou, apontando a escova de dentes como uma arma.
— Ignorem os detalhes! — Chuya continuou, apaixonado pelo próprio discurso. — Imaginem o cenário: alunos misteriosos, heróis da internet, bonitões... Assim que pisarmos lá fora, seremos bombardeados! Confissões atrás da escola, cartas no armário, stalkers, talvez até alguns homens confusos! Não teremos descanso! Como eu vou ter a minha vida sossegada se, sempre que eu for tirar um cochilo, alguém aparecer corando para se declarar?!
Dante e Luck se entreolharam. A solução parecia ridiculamente simples para suas mentes.
— É só rejeitar elas — disseram em uníssono, com o tom de quem diz "é só beber água".
Chuya os encarou, os olhos arregalados de incredulidade.
— "Sério"? Vocês dizem isso como se fosse fácil? Pois eu tenho orgulho em dizer que nunca na minha vida rejeitei alguém! Como diabos se faz isso?!
Dante parou. Ele tentou simular a situação em sua cabeça e, novamente, tela azul.
— Na verdade... parando pra pensar, eu também não faço a menor ideia.
— Sério? — Luck perguntou, erguendo uma sobrancelha.
Imediatamente, os olhares predadores de Dante e Chuya se voltaram para Luck. O "Senhor Perfeitinho".
— É verdade... — Dante sorriu, um sorriso malicioso se abrindo no rosto. — Luck, você era o popularzinho antes, né? Aposto que sabe como fazer.
— Oh! Ilumine nosso caminho, Luck-Sensei! — Chuya sacou um bloco de notas do nada, aproximando-se perigosamente.
— Saiam de perto! — Luck gritou, as orelhas ficando vermelhas, mas acabou suspirando derrotado e sentando na cama. — Ah, que saco... Escutem. Para rejeitar, você tem que entender os sentimentos da pessoa. Ser cordial, educado, sincero e direto. Um "não" firme, mas gentil.
— Certeza? — Dante questionou, cético. — Se uma garota me rejeitasse "na lata", pouco importaria a cordialidade. Eu ia acabar em posição fetal no chuveiro.
— Hum... ponto válido — Chuya anotou furiosamente.
— E como você acha que deveria ser, então, ô gênio?! — Luck retrucou, a paciência esgotando.
— Bom... — Dante se levantou. Ele limpou a garganta, ajeitou o cabelo e caminhou até Luck com um olhar intenso, digno de protagonista de romance.
O clima no quarto mudou. Dante encurralou Luck na cama e segurou seu queixo com firmeza.
— Se fosse comigo, eu gostaria que fosse assim... — Dante sussurrou com a voz suave, olhando no fundo dos olhos do amigo. — Eu entendi seus sentimentos... Eu realmente consegui ver o quanto você gosta de mim...
— ISSO! — Chuya vibrou ao fundo, escrevendo tão rápido que a caneta soltava fumaça. — Mostra como se faz, Dante-Sensei!
Luck estava vermelho como um pimentão maduro, paralisado pelo constrangimento absoluto.
— Poha, isso não tá ficando meio... estranho...?
— Então, sobre o que você sente... infelizmente, tudo o que posso dizer é... — Dante fez uma pausa dramática, um brilho nos olhos, sorriu encantadoramente e concluiu: — Que eu aceito seu pedido. Vamos namorar.
POW!
O som do impacto foi seco e brutal. O chute de Luck foi instintivo, técnico e perfeito. Dante voou através do quarto como um boneco de pano, colidindo com a parede oposta e escorregando até o chão.
— ONDE QUE ISSO É REJEITAR ALGUÉM, POHA?! — Luck berrou, a veia da testa pulsando.
Chuya rasgou a folha do caderno com desgosto.
— Tsk. Inútil. Perdi meu tempo.
— Caralho... — Dante gemeu no chão, massageando as costelas. — Eu só disse como eu queria que fosse! Se vocês têm ideias melhores, falem!
Chuya colocou a mão no queixo, assumindo a postura do Pensador de Rodin.
— Acho que identifiquei a falha. O real problema é que não somos capazes de entender a profundidade dos sentimentos femininos. É um terreno desconhecido, alienígena.
— Faz sentido — Luck concordou.
— Então é caso perdido — Dante se levantou, limpando a poeira da calça como se nada tivesse acontecido. — Eu nunca vou entender como uma garota se sente.
— Por que tanta certeza? — Chuya indagou.
— Não é óbvio? — Dante começou a gesticular freneticamente, seus olhos brilhando com a loucura das teorias da conspiração. — Pra começar: como elas têm coragem de andar de saia? Pensa bem, uma saia não é defesa baixa demais?! É uma falha tática! Parece armamento de nível 1 num RPG! A gente vive numa ilha flutuante, caramba! O vento vem de baixo para cima! Qualquer brisa mal-intencionada pode levantar a saia e expor a calcinha! Já imaginou viver sob tal pressão psicológica?! Eu enlouqueceria em dois dias!
Luck olhou para ele com o desprezo reservado a vermes.
— Você é burro ou se faz? É claro que elas usam shorts por baixo.
— Não... — Chuya interrompeu, o olhar distante, conectando pontos invisíveis. — Pensando bem, eu perguntei para a Miguel. Ela disse que usa só calcinha mesmo.
— Nem ferrando — os olhos de Luck se arregalaram em choque genuíno.
— NÃO FALEI?! — Dante gritou, vitorioso. — É viver no limite! Adrenalina pura!
Chuya estalou os dedos. O som foi como um veredito.
— Beleza. Então não tem jeito. Para entendermos a magnitude dos sentimentos femininos, precisamos de imersão total. Dante, vista um uniforme feminino.
A mente de Dante travou. O universo parou por um segundo.
— Você tá maluco?! — ele gritou, a voz falhando. — Eu não uso nem o masculino direito!
— Seu problema é só com o uniforme? — Luck perguntou, com um sorriso irônico de canto de boca.
— E onde eu acharia um, pra começo de conversa?! — Dante argumentou desesperado.
Chuya caminhou até o armário de Dante com a confiança de quem sabia exatamente onde o tesouro estava enterrado. Abriu a porta e, triunfante, puxou um uniforme feminino completo, ainda no cabide.
— Dante... seu pervertido... — Luck murmurou, recuando um passo.
— NEM VEM! — Dante se defendeu, as mãos para o alto. — Eu não roubei nada! Isso é armação!
— Ele diz a verdade — Chuya confirmou, analisando a saia contra a luz. — Eu vi a Anna deixando isso aqui ontem.
— Ainda bem — Luck suspirou aliviado.
— Olha esse alívio na tua cara! Achou mesmo que eu tinha roubado, né?! Que tipo de amigo é você?! — Dante reclamou.
— Chega de papo furado! — Chuya jogou a roupa na cama.
— Isso não faz o menor sentido! Por que eu que tenho que usar, afinal?! — Dante gritou.
— Porque eu ficaria com vergonha. Não é óbvio? — Luck e Chuya disseram juntos, com uma sincronia assustadora.
— VÃO PRO INFERNO!
— Tsk... então tudo bem, covarde. Vamos decidir na lei suprema: Jokenpo. Quem perde, veste. — Chuya falou, indo para o meio deles.
A democracia do Jokenpo era absoluta. Os três prepararam as mãos, uma aura de batalha emanando deles. Dante pensava: "Por que eu tô fazendo isso? Eu nem queria rejeitar ninguém!" Luck pensava: "Se eu perder, jogo eles pela janela. Se o Dante perder, eu tiro fotos."
— JAN... KEN... PO!
Dante: Tesoura. Luck: Tesoura. Chuya: Papel.
O tempo congelou. O destino havia falado. Chuya olhou para sua mão aberta, derrotado pela própria arrogância.
— HAHAHAHA! — Dante riu histericamente, apontando o dedo. — Olha só! O machão vai usar a sainha! Ou será que tá com medinho de gostar, hein?
— Medinho de descobrir um novo hobby... — Luck completou, venenoso.
Chuya fechou os olhos. Respirou fundo. E então, seus olhos se abriram com a determinação flamejante de um guerreiro prestes a entrar no Valhalla.
— Quem é o covarde agora?
Num movimento que desafiava a física, Chuya saltou para trás num mortal carpado. No ar, houve um borrão de movimento — suas calças voaram para longe (ninguém entendeu como), a saia girou, e ele aterrissou com a pose de uma Magical Girl, já vestindo a peça xadrez.
Dante e Luck ficaram mudos, de boca aberta.
— Poha... — Dante admitiu, a voz sumindo. — Até que... combinou.
— Na moral — Luck analisou clinicamente. — Com esse cabelo branco, a pele morena e o corpo magro... ele parece uma garota mesmo.
— É uma Gyaru andrógina de anime! — Dante exclamou. — E aí? A iluminação veio? Entendeu os sentimentos femininos?
— Só senti um vento gelado nas pernas... mas pior que não — Chuya admitiu, olhando para as próprias coxas.
— Veste a camisa também — Dante sugeriu, pegando a peça e se aproximando, prestativo. — Talvez a imersão completa ajude a desbloquear o Éter feminino.
Dante começou a ajudar Chuya a desabotoar a camisa masculina, enquanto Luck assistia do canto, questionando profundamente todas as escolhas de vida que o levaram àquele momento absurdo.
Foi nesse instante exato, com o timing cômico cruel do universo, que a porta se abriu.
Kurokawa entrou, pronta para dar uma bronca pelo atraso.
— É melhor que vocês já tenham se arrum...
A frase morreu na garganta. A cena diante dela era uma pintura renascentista do caos e da depravação: Luck encolhido no canto com cara de terror existencial. Dante despindo Chuya com dedicação. E Chuya, sem calças, vestindo uma saia escolar curta, com uma expressão séria e digna.
Kurokawa fechou a porta lentamente. O silêncio reinou no corredor e no quarto.
— Ela... foi embora? — Dante sussurrou, suando frio.
A porta se abriu novamente. Desta vez, ela caminhava devagar, a franja cobrindo os olhos, uma aura negra e densa emanando de seu corpo, fazendo a temperatura do quarto cair dez graus. Na mão direita, ela empunhava uma faca de frutas com a firmeza de uma assassina profissional.
Os rostos dos três rapazes perderam a cor simultaneamente, ficando num tom de cinza cadavérico.
— Por que pararam? — a voz dela era um sussurro gélido que prometia dor física e espiritual. — Continuem...
— KURO! KURO! PRA QUE ESSA FACA?! — Dante gritou, recuando até bater as costas na parede. — QUE OLHAR ASSASSINO É ESSE?! A GENTE PODE EXPLICAR! NÃO É O QUE PARECE!
O grito de terror masculino foi tão agudo, desesperado e cheio de falsete que atravessou as paredes do hotel, desceu pelos dutos de ventilação, chegou ao saguão e fez Sofia derrubar seu café lá embaixo, sujando o tapete da recepção.
Parte 3
Campus de Babylon – Quadra Externa, Setor Leste
Enquanto o caos reinava no Hotel Starlight, a vida no campus de Babylon seguia seu curso — ou o mais próximo de "normal" que uma escola para a elite super-humana poderia aspirar.
Na quadra externa, o som estridente da borracha dos tênis chiando no asfalto misturava-se a pequenas explosões de energia. Um grupo de alunas do primeiro ano jogava basquete, mas as regras da física eram meras sugestões. Uma garota de cabelos curtos usava microrrajadas de vento para fazer a bola quicar no ar, driblando a gravidade, enquanto sua marcadora cobria as mãos com chamas azuis frias para tentar um roubo de bola fulminante.
Era dinâmico, frenético, quase um treino de combate disfarçado de esporte. O suor pingava, os risos ecoavam.
Até que a bola foi interceptada no ar por uma mão pesada e indesejada.
O jogo parou instantaneamente. A atmosfera leve evaporou. Um grupo de quatro garotos do segundo ano invadiu a quadra. O uniforme deles estava deliberadamente desleixado, e a arrogância estava estampada em seus sorrisos de canto. Eles cercaram as calouras como tubarões sentindo cheiro de sangue, passando a bola roubada de um para o outro em um triângulo de provocação, mantendo-a cruelmente fora do alcance das meninas.
— Ei, devolve! — a líder do time, uma garota destemida de rabo de cavalo, tentou avançar, mas um muro de músculos bloqueou seu caminho.
— Calma aí, gracinha. Só estamos querendo participar — o líder do grupo riu, girando a bola na ponta do indicador com destreza irritante. — Vocês estão levando essa brincadeira de "escolinha" muito a sério. Se querem ser Caçadoras de verdade, deviam parar de jogar bola e vir ganhar... experiência com quem entende do assunto.
— É — um segundo rapaz completou, os olhos varrendo as garotas de cima a baixo com uma malícia indisfarçável. — Se vocês pedirem com jeitinho, a gente pode levar vocês numa missão de rank baixo. Mas claro, não dá pra proteger todo mundo... vamos levar só as quatro com o rostinho mais bonito.
O grupo riu em coro. As garotas do primeiro ano fecharam os punhos, tremendo de raiva e humilhação, mas cientes da hierarquia brutal de Babylon. Brigar com veteranos não era a decisão mais inteligente. Dependendo da sorte, elas poderiam ser pegas pelo comitê disciplinar e expulsas ou, em casos piores, se eles não fossem só papo e realmente fossem fortes, poderiam transformar seus dias de colégio em um verdadeiro inferno.
— Vamos, relaxa — o terceiro rapaz sorriu para a líder, que estava vermelha de fúria contida. — Você com certeza é uma das escolhidas.
Numa tentativa desesperada de recuperar a dignidade e a bola, a garota flexionou os joelhos e saltou, usando um pulso de Ether para se impulsionar.
Prevendo isso, o líder bufou, entediado.
— Tão lenta.
Ele saltou muito mais alto, usando sua força física superior para interceptá-la no ar e lançar a bola com violência desnecessária para longe, em direção às grades de proteção que cercavam a quadra.
— Oops. Escapou — ele zombou, aterrissando com leveza.
A bola cruzou o ar como um projétil laranja e foi parar, rolando suavemente, nos pés de alguém que caminhava perto da grade. Uma figura pequena, quase imperceptível.
— Ei! Nanica! — o líder gritou, estalando os dedos, sem nem se dignar a olhar direito para quem estava lá. — Manda a bola de volta, vai. Se eu tiver que esperar você andar até aqui com essas pernas curtas, a gente vai ficar o dia todo.
Os garotos começaram a rir sem se controlar, enquanto, do lado das garotas, o silêncio que se seguiu foi pesado. O vento até parou de soprar.
A figura pequena parou. Ela olhou para a bola nos seus pés. Depois, levantou o olhar lentamente para os rapazes. Beatrice Dragonroad se abaixou e pegou a bola com uma calma aterrorizante.
— Ah? — ela murmurou enquanto pegava a bola. As franjas laranjas de seu cabelo cobriam seus olhos, escondendo sua expressão, mas sua voz carregava o peso de uma tempestade iminente. — Então é pra eu jogar daqui?
O rapaz riu, cruzando os braços, confiante em sua superioridade.
— É, joga logo, anã de jard...
BOOM!
Não foi um arremesso. Foi um disparo de canhão. A bola, subitamente envolta numa aura de Ether laranja violenta, rasgou a barreira de arame entre ela e o garoto. O ar se distorceu ao redor do objeto esférico. O líder nem teve tempo de piscar. O instinto de sobrevivência dele nem sequer ativou.
O projétil de borracha atingiu seu estômago com a força de um meteoro. O corpo do rapaz dobrou ao meio no ar, formando um "V" perfeito de dor. O impacto foi tão brutal que ele voou para trás como um boneco de pano, atravessou a grade de proteção da quadra dos fundos também, rasgando o metal reforçado como se fosse papel-manteiga, e continuou voando até afundar na parede de concreto do prédio do outro lado da rua, ficando preso na cratera, as pernas balançando comicamente.
A poeira baixou lentamente. Os outros três veteranos olharam para o buraco na parede, de boca aberta. Depois olharam para a garota pequena que limpava as mãos na roupa, com uma expressão de raiva.
— Ei... — um deles gaguejou, o suor frio escorrendo pela têmpora. — Que ideia é essa, sua louca?! Você matou o cara!
— Escritora de rodapé... — outro murmurou, a memória ativando tardiamente. Ele reconheceu a aura assassina, mas o orgulho ferido falou mais alto que a inteligência. — Vamos ensinar uma lição pra essa pirralha!
Eles começaram a marchar na direção de Beatrice, ativando suas próprias auras. As garotas do basquete, assustadas, pensaram em gritar para ela fugir, mas Beatrice apenas sorriu. Um sorriso selvagem. Cheio de dentes afiados.
— Olha só — ela disse, estalando os dedos das mãos. — Mesmo depois de verem o amigo voando, não fugiram. Acho que é a primeira vez que vejo macacos tão corajosos. Ou tão burros.
Os veteranos estavam prestes a atacar quando alguém saindo do nada tocou suavemente no ombro de um deles. Ele se virou, irritado, e viu seu amigo, que havia sido arremessado para longe.
— Ei, Kurt, você tá bem? — O amigo disse.
— Tô, tô... — Kurt respondeu. — Ela só me deu um susto. Que tal só esquecer e dar o fora?
— Que papo é esse? Vai deixar uma primeiranista se achar tanto? A gente não pode deixar barato. Vamos acabar com ela.
— Imaginei que diria isso. — O "Kurt" sorriu. Um sorriso largo demais.
— E você deve estar querendo se vingar também, né?
Quando o garoto se virou para perguntar para Kurt, viu um punho fechado ocupando todo o seu campo de visão. O soco atingiu o centro do rosto dele com um som úmido e crocante de cartilagem se partindo. O garoto foi arremessado para o lado oposto, rolando pelo asfalto já inconsciente antes de parar de girar.
Os outros dois veteranos recuaram, o choque paralisando seus movimentos.
— Que ideia é essa?! Kurt, seu maldito, por que bateu nele?! Você enlouqueceu?!
O "Kurt" começou a rir. Mas não era mais a voz grave de Kurt. Era uma risada feminina, melodiosa e aterrorizante. O corpo do rapaz começou a derreter. Um Ether vermelho, viscoso como sangue líquido, borbulhou sobre a pele, desfazendo o disfarce. A silhueta masculina bruta encolheu e se remodelou em curvas femininas elegantes e perigosas. O líquido se dissipou numa névoa escarlate, revelando uma mulher alta, de longos cabelos vermelhos como sangue e um olhar predatório.
Mio Mortifer ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha, sorrindo para os dois sobreviventes que agora tremiam visivelmente.
— Parece que eles querem mesmo se divertir com algumas garotas — Mio disse, batendo um punho contra o outro. — Acho que podemos emprestar nosso tempo pra eles, não acha, Bea?
Beatrice caminhou até ficar ao lado de Mio. A aura laranja ao redor dela cresceu, fazendo o asfalto sob seus pés rachar.
— Eu ia fazer isso independente do que você fizesse, Mio. Mas já que está aqui...
Elas estalaram os dedos ao mesmo tempo. Click.
O que se seguiu não foi uma luta. Foi um massacre unilateral. As garotas do basquete assistiram, paralisadas, a uma sinfonia de violência. Eram borrões de movimento: socos que criavam ondas de choque, chutes altos e precisos, seguidos por gritos agudos de homens adultos pedindo perdão e chamando pela mãe. Durou menos de trinta segundos.
Ao final, a poeira baixou. Os quatro veteranos estavam empilhados no canto da quadra, gemendo baixinho, formando uma escultura moderna de dor e arrependimento.
Mio se alongou, esticando os braços acima da cabeça com a graça de um gato, fazendo as costas estalarem.
— Bom... foi um aquecimento decente pra aula.
— Tá na hora de achar o Kintoki — Beatrice disse, chutando uma pedrinha e ignorando completamente os corpos no chão. — Aquele idiota sumiu de novo.
A líder do time de basquete, tremendo, deu um passo trêmulo à frente.
— E-Ei... — ela chamou, a voz falhando. — Obrigada p-por...
Antes que ela terminasse, suas amigas a puxaram violentamente para trás, tapando sua boca com urgência.
— Você tá louca?! — uma delas sussurrou histericamente no ouvido da líder. — Não fala com elas! Não se misture!
— M-Mas elas salvaram a gente...
— Você não sabe quem elas são?! — a outra amiga sibilou, os olhos arregalados de terror genuíno. — Elas são o Trio Demoníaco da Classe -13! Aquela é a Mio Mortifer e a Beatrice Dragonroad! Se você respirar errado perto delas, você morre!
Beatrice e Mio pararam de andar. Lentamente, como em um filme de terror, elas se viraram para as calouras aterrorizadas. Houve um segundo de tensão absoluta onde ninguém ousou respirar.
— Relaxa — Mio piscou um olho, charmosa. — Não foi nada.
— Mas agora tamo de saída — Beatrice completou. — Tenham um bom dia, crianças.
E então, com sorrisos radiantes e angelicais que contrastavam perfeitamente com a carnificina atrás delas, as duas levantaram as mãos e, em perfeita sincronia, mostraram o dedo do meio para o grupo inteiro de garotas.
Sem dizer mais nada, elas se viraram e caminharam tranquilamente para longe da quadra, discutindo onde comprar doces.
Enquanto as duas figuras se afastavam, deixando um rastro de destruição e veteranos traumatizados, a líder do time engoliu em seco, sentindo as pernas bambas, e murmurou a única verdade que passava pela cabeça de todos ali:
— A Classe -13... é realmente estranha.
Parte 4
Coliseu de Treinamento – Arena Central
Enquanto a quadra de basquete se tornava palco de um massacre unilateral, no Coliseu de Treinamento — uma estrutura titânica de pedra negra e aço reforçado, projetada para suportar calamidades naturais (e adolescentes superpoderosos) —, o clima era de uma guerra civil controlada.
O cheiro de ozônio e concreto pulverizado não apenas enchia o ar; ele impregnava o paladar com um gosto metálico de sangue e eletricidade. A plateia na arena central não apenas vibrava, mas tremia em ressonância com o combate, como se o próprio estádio fosse desmoronar.
No centro da cratera que um dia foi um ringue, o representante da Sala 5 era uma montanha de músculos retesados. As veias em sua têmpora pulsavam como cabos hidráulicos prestes a estourar. Ele abriu os braços, puxando o ar para os pulmões com um som de vácuo, e então, com um movimento violento de guilhotina, chocou as palmas das mãos.
— HAAAA!
Não foi apenas um som. Foi uma detonação atmosférica.
O impacto gerou uma cúpula de pressão translúcida. O ar comprimido explodiu para fora como um maremoto invisível, arrancando pedaços do piso de concreto que, ao tocarem a onda de choque, eram reduzidos a pó instantaneamente.
Do outro lado, o oponente da Sala 3 não correu. Ele fluiu.
Ágil e calculista, seu corpo parecia perder a coesão sólida. Milhares de fios de aço ultrafinos irromperam de seus poros, brilhando sob os holofotes. Ele não estava apenas desviando; estava costurando o campo de batalha. Ele lançou ganchos de fibra contra os escombros voadores, usando-os como âncoras para se impulsionar em ângulos geometricamente impossíveis, ziguezagueando pelas brechas da onda sônica.
Os fios sibilavam como serpentes metálicas, tentando criar uma rede de contenção ao redor do gigante. Porém, a cada vez que o aço se aproximava, a vibração emanada pelo brutamontes fazia o metal "gritar" e ricochetear.
O gigante, percebendo o cerco se fechar, firmou os pés no chão, rachando a fundação. Ele estufou o peito, concentrando toda a vibração em suas cordas vocais, e liberou não uma onda, mas um canhão de som linear.
— MORRA!
O rugido foi devastador. O feixe sônico rasgou o ar em linha reta, obliterando os fios de aço e atingindo a barreira de proteção da arena, que estilhaçou em uma chuva de vidro energético e faíscas. A força do recuo afundou o gigante centímetros no solo.
Por um milésimo de segundo, o silêncio reinou, sugerindo o fim.
— TOLO! — A voz sussurrada veio de trás, fria como o aço.
No trajeto da destruição, onde o corpo do aluno da Sala 3 deveria estar, havia apenas tiras de tecido e pele falsa tremulando ao vento. Ele havia desfeito sua própria integridade física no último segundo, transformando-se em uma nuvem de fitas soltas que surfaram a onda de choque ao invés de resistir a ela.
Antes que o gigante pudesse girar sua massa pesada, os fios se reuniram nas suas costas num estalo seco. O corpo do oponente se rematerializou no ar, já em posição de ataque, com dez fios de navalha esticados entre os dedos, descendo em direção ao pescoço exposto para o xeque-mate.
Nas arquibancadas superiores, na área VIP dos docentes, um professor de braços cruzados observava a batalha com um olhar analítico, porém profundamente entediado. Ao seu redor, um grupinho de alunos explicava a situação com o entusiasmo de narradores esportivos amadores.
— MUITA ATENÇÃO, SENHORAS E SENHORES! ESTAMOS A MINUTOS DE TESTEMUNHAR O SURGIMENTO DO ALUNO MAIS FORTE DO 3º ANO! — exclamou um aluno, com os olhos brilhando.
O professor ergueu uma sobrancelha, sem desviar o olhar da arena.
— O "mais forte"? Bobagem. Duvido que os monstros da Turma 1 ou da Turma 2 aceitem esse resultado. Eles nem se deram ao trabalho de vir assistir.
— Ah, professor... — o aluno riu nervosamente, coçando a nuca. — O senhor sabe como é. Todos sabem que as salas de 1 a 2 são intocáveis. Ninguém teria coragem de desafiar a elite. Então, é melhor resolver as coisas assim, entre nós, os "mais normais".
O professor soltou uma risada seca, sem nenhum humor.
— "Ninguém desafiaria". Ha... Vocês estão cometendo tantos erros de cálculo que chega a ser engraçado.
Os alunos se entreolharam, a confusão estampada nos rostos.
— O que o senhor quer dizer?
O professor descruzou os braços e apoiou as mãos no parapeito metálico, olhando para o horizonte com o peso de quem já viu muitos anos letivos desastrosos.
— Não importa o ano em que estejam. Não importa a sala. Existe um grupo que não liga para regras, hierarquia, meritocracia ou "elites intocáveis". Eles são os problemáticos entre os problemáticos. Sempre que aquela sala específica é aberta, nós, professores, sabemos: um ano de catástrofes está prestes a começar.
— Catástrofes...? — O aluno franziu a testa. — Está falando "daquela" sala? Mas eles são calouros, professor...
KABOOM!
A frase foi interrompida não por um argumento, mas por uma explosão ensurdecedora no centro exato da arena. Não foi magia. Não foi som. Foi um impacto físico tão brutal que levantou uma coluna de poeira de dez metros de altura, engolindo os dois lutadores veteranos que estavam no clímax da batalha. O chão do Coliseu tremeu como se um meteoro tivesse atingido o local.
O estádio inteiro silenciou. O eco da explosão morreu, deixando apenas o som de pedras caindo.
O professor suspirou, fechando os olhos e massageando as têmporas.
— Era disso que eu estava falando...
Ele saltou da arquibancada com agilidade, pousando na arena para verificar os danos, mas parou no meio do caminho quando a cortina de fumaça começou a se dissipar com o vento.
O cenário era desolador. O aluno dos fios estava caído, inconsciente, enterrado numa cratera com o formato exato de um corpo humano. O aluno das ondas sônicas, o gigante da Sala 5, estava sendo erguido no ar pelo colarinho, balançando inerte como uma boneca de pano, completamente apagado, com os olhos virados.
Quem o segurava com apenas uma mão, sem esforço algum, não era um professor. Era um garoto.
Ele tinha cabelos brancos curtos, espetados e bagunçados, desafiando a gravidade e o senso estético. Usava óculos escuros pretos — mesmo em um ambiente fechado —, cobrindo os olhos. Seu corpo era uma escultura de músculos definidos, mal contidos por um sobretudo preto de gola alta, cuja bainha estilizada dançava dramaticamente com o vento residual da explosão. Calças pretas largas completavam o visual de pura intimidação.
O garoto olhou para o corpo desmaiado em sua mão, depois para a plateia silenciosa.
— Se vocês estavam lutando para ver quem era o mais forte do terceiro ano, mas perderam pra mim... — A voz dele era rouca, carregada de uma alegria selvagem e uma pitada de desprezo. — Isso significa que eu sou o mais forte agora, não é?
O professor sentiu uma veia saltar na testa. "Os arruaceiros que não ligam para a ordem natural. A Classe -13."
— Ei, você! — O professor gritou, recuperando a postura de autoridade. — Solte esse aluno imediatamente! Você não tem autorização para intervir em duelos oficiais! Kintoki! De novo causando confusão! Prepare-se para uma punição severa!
Kintoki Sakata abriu a mão. O corpo do veterano caiu no chão com um baque surdo e seco, tratado como se fosse um saco de lixo. Ele ajeitou os óculos escuros com o dedo indicador e sorriu. Um sorriso largo e predador.
— Punição? — A risada de Kintoki cortou o ar. Ele jogou a cabeça para trás, expondo o pescoço em um gesto de total desdém. — Bom, eu entrei aqui esperando muito do famoso "Terceiro Ano" de Babylon. É realmente uma pena... saber que os fracotes daqui não servem nem de degrau de escada para a minha subida ao topo.
O silêncio que se seguiu durou um segundo, antes de ser incinerado. Um murmúrio de fúria percorreu a arquibancada como um incêndio em palha seca banhada a gasolina. "O que ele disse?!" "Fracotes?!" "Quem esse calouro pensa que é?!"
O orgulho ferido falou mais alto que a lógica. Do anel superior das arquibancadas, um grupo de vinte alunos do terceiro ano saltou em uníssono. Eles aterrissaram na arena levantando poeira, formando um círculo de morte imediata ao redor de Kintoki.
— Ei, seu merda! Repete o que você disse! — O líder da turba avançou um passo, a mão direita materializando uma espada larga de Ether que crepitava com eletricidade azul.
Kintoki apenas inclinou a cabeça para o lado, os olhos brilhando com uma diversão perversa. O sorriso provocador se alargou, rasgando o rosto até se tornar algo quase demoníaco.
— Eu sou alguém legal, sabe? Então não gosto de me repetir. Se não escutaram... — Ele estalou os dedos, o som ecoando no tenso silêncio. — ...deviam fazer um exame de ouvido no hospital para onde eu vou mandar vocês.
— MATEM ELE!
O comando foi o gatilho. O ar explodiu em cores.
Vinte veteranos atacaram simultaneamente. Bolas de fogo, lâminas de vento, martelos de pedra e espadas encantadas convergiram para o centro da arena, visando obliterar o calouro.
O que se seguiu não foi uma luta. Foi uma humilhação coreografada.
Kintoki não ativou sua aura. Não houve o brilho do Ether nem o cântico de feitiços. Houve apenas a perfeição da carne e do osso.
O tempo pareceu desacelerar para ele. Uma lança de chamas veio em direção ao seu rosto. Kintoki não recuou; ele avançou. Com um movimento de pescoço minimalista, ele deixou o fogo passar a milímetros de sua pele, sentindo o calor lamber sua bochecha.
Simultaneamente, o espadachim líder desceu um corte horizontal decapante. Kintoki dobrou os joelhos, mergulhando sob a lâmina. Aproveitando o momento de inércia da descida, ele girou o quadril e disparou o punho direito num uppercut curto, direto no plexo solar do espadachim.
POW!
O som foi nauseante, seco e visceral. Não houve magia, apenas a transferência brutal de energia cinética. As costas do aluno estufaram, a roupa rasgando com a pressão da onda de choque interna. Ele dobrou sobre o punho de Kintoki, cuspindo uma mistura de bile e sangue, antes de ser arremessado para trás como um projétil humano.
O corpo do líder colidiu com três magos que preparavam feitiços na retaguarda, derrubando-os como pinos de boliche em um strike violento.
— O que vocês vão fazer sobre isso?! É só isso que têm?! — Kintoki rugiu, a adrenalina pura queimando em seus olhos.
Sem perder o ritmo, ele usou a perna de apoio para pivotar. Um usuário de adagas tentou flanqueá-lo pela direita. Kintoki previu o movimento. Ele girou o corpo num chute alto, a perna chicoteando o ar.
O calcanhar de Kintoki encontrou a têmpora do atacante com a precisão de um martelo pneumático. O aluno girou duas vezes no ar, os olhos virando para trás, e apagou antes mesmo da gravidade puxá-lo para o chão.
Era o triunfo da força bruta. Pura, simples e avassaladora.
Kintoki dançava no meio do caos. Quando uma barreira de gelo foi erguida à sua frente, ele não a contornou; ele a socou no centro geométrico, estilhaçando a magia em mil pedaços de cristal com a mão nua. Quando uma espada tentou perfurá-lo, ele a agarrou pela lâmina — o aço gritando contra a densidade de sua pele — e puxou o oponente para uma cabeçada brutal.
Ele tratava aço, fogo e magia como se fossem brinquedos de criança, e a cada golpe conectado, mais um veterano era enviado voando em direção às paredes da arena, amassados como papel.
O professor, assistindo ao massacre de seus alunos veteranos por um único calouro que nem sequer estava suando, passou a mão no rosto, desacreditado. Ele suspirou, derrotado, e pegou o comunicador do bolso, discando um número que ele esperava nunca ter que usar.
— Ryunosuke... — o professor falou, a voz cansada de quem precisa de férias urgentes. — Um dos seus alunos está fazendo problema no Coliseu. É, é o Kintoki. Vem logo buscar ele antes que ele mande metade do terceiro ano para a UTI.
Enquanto isso, no centro da arena, Kintoki pisava triunfante no peito do último oponente de pé. Ele limpou a poeira imaginária do ombro, ajeitou a gola do sobretudo e gritou para a plateia aterrorizada com os braços abertos:
— VENHAM TODOS QUE SE SENTIREM CONFIANTES! MAS JÁ AVISO: SE A SALA 1 E 2 NÃO APARECEREM, EU MESMO VOU ATÉ O QUARTO ANO!
Parte 5
Corredores Centrais de Babylon – A Passarela da Fofoca
Nos corredores abertos que conectavam os prédios principais, a fofoca corria mais rápida que a velocidade do som e mais potente que qualquer feitiço de vento. Alunos de diversas turmas caminhavam em grupos, o burburinho adolescente misturando-se ao eco distante e abafado da explosão que acabara de ocorrer no Coliseu.
— Vocês ouviram esse barulho? — comentou um garoto do segundo ano, ajustando a mochila com um ar de importância. — Parece que o pessoal do terceiro ano está se matando de novo.
— Bobagem — respondeu o amigo ao lado, balançando a mão com descaso. — Eles querem decidir quem é o "mais forte". Mas todo mundo sabe: os verdadeiramente fortes não precisam fazer esse circo todo. A força real é silenciosa.
— Concordo. Ainda mais este ano... — O primeiro garoto baixou o tom de voz, olhando ao redor como se compartilhasse um segredo de estado. — Temos tantas figuras chamativas. Quem é a sua aposta para o destaque do ano?
— Bom, considerando tudo o que já aconteceu e a aura que essa pessoa carrega... eu acho que o "Príncipe" vai ocupar o posto principal logo, logo. Ouvi dizer que até os veteranos da Elite do quarto e quinto ano convidaram "ele" para se juntar aos grupos.
Enquanto discutiam filosoficamente, um som agudo cortou o ar, estourando os tímpanos de quem estava perto. Gritos. Suspiros. O som inconfundível de garotas perdendo o fôlego.
— Kyaaaa! É o Príncipe! — Ele está olhando pra cá! — Príncipe, por favor, case comigo! Eu lavo, passo e cozinho!
Os garotos que conversavam fecharam a cara instantaneamente. A admiração filosófica virou inveja pura e destilada.
— Tsk. Esquece o que eu disse. — O garoto cuspiu no chão. — É melhor que esse "Príncipe" suma. Temos que impedir essa ascensão a todo custo. Se continuar assim, não vai sobrar nenhuma garota pra gente!
Eles trocaram olhares conspiratórios, unidos pela força mais poderosa do universo masculino: o ciúme.
No centro daquela comoção, caminhando pelo pátio como se estivesse numa passarela de Milão, estava um trio improvável.
Megumi Azazel caminhava com passos firmes e irritados, sua postura prática gritando que ela preferia estar em qualquer outro lugar. Ao lado dela, Daemon Hakurei, líder da Black Dragons, deslizava com uma indiferença gélida. Seus olhos eram poços escuros, desprovidos de luz, exalando uma aura tão cortante que o ar parecia baixar de temperatura ao seu redor.
E entre eles, a causa de todo o tumulto.
— Esquece, Hakurei — Megumi dizia, gesticulando. — Eu não tô a fim de fazer parte do seu grupinho, não importa o quanto você tente vender seu peixe.
A expressão de Hakurei não mudou um milímetro. Ele não piscava.
— Escolha é uma ilusão, Megumi. — Sua voz era monótona, fria como gelo seco. — Você tem um teto. Sozinha, você estagna. A Black Dragons oferece os recursos para quebrar esse teto. São apenas fatos. Matemática simples.
— Tá, mas só por causa disso eu deveria me juntar a você? — Megumi retrucou, cruzando os braços. — Eu não conheço bem a sua gangue, mas, do pouco que sei, consigo cheirar o perigo de longe. Não vou me juntar a pessoas tão suspeitas. E acho melhor você também não fazer isso, Ludmilla.
Megumi virou-se para a garota ao seu lado, esperando apoio moral.
Mas Ludmilla Farnese não estava ouvindo. Com uma postura impecável de nobreza natural, ela acenou para uma garota aleatória que gritou. O movimento foi coreografado: um sorriso de canto galante, um brilho nos olhos vermelhos e uma leve inclinação de cabeça. A fã desmaiou instantaneamente nos braços das amigas, espumando pela boca de felicidade.
Ludmilla ajeitou a gola do uniforme com um charme irresistível, murmurando para si mesma:
— Tanta energia di prima mattina... carine. (Tanta energia de manhã cedo... fofas.)
— Ei! Concentra! — Megumi estalou os dedos na frente do rosto dela.
Ludmilla piscou, as "flores imaginárias" ao seu redor sumindo enquanto ela voltava à realidade.
— Ah? Megumi?
— Por acaso escutou alguma coisa que o Daemon falou?
— Ah... — Ela suspirou. — Já disse que não me prendo a grupos. No entanto, se quiserem companhia para uma missão ou outra, eu não me importo em ajudar... — Ela se virou para Daemon, invadindo o espaço pessoal dele com um olhar intenso, porém inocente. — E você, Hakurei... olhe para essas garotas gritando. Seria indelicado da minha parte monopolizar a atenção de alguém quando elas claramente buscam esse tal "Príncipe" com tanto fervor, não acha? — Ela deu um sorriso um pouco malicioso, quase como se achasse que estava provocando o garoto.
Hakurei e Megumi trocaram um olhar. Megumi estava confusa; Daemon, inexpressivo como uma parede.
— Do que você está falando? — Megumi perguntou.
Ludmilla inclinou a cabeça para o lado, adoravelmente confusa.
— Vocês não ouvem? Elas gritam pelo Príncipe delas. Temos que dar espaço para o romance alheio.
Houve um silêncio constrangedor. Daemon apenas piscou uma vez, lentamente, processando a informação.
— A sua capacidade de ignorar a realidade é quase admirável. — A voz dele era um fiapo de som.
— Eu não sei se você tá zoando ou se é lerda nesse nível nuclear... — Megumi murmurou, massageando a testa. — Mas elas não estão falando com ele.
Ludmilla franziu a testa, genuinamente surpresa.
— Aspetta... (Espera...) então quem é o afortunado?
Megumi suspirou fundo e apontou o dedo indicador diretamente para o nariz perfeito de Ludmilla. Daemon apenas moveu os olhos na direção dela.
— Você.
A máscara de "Calma" de Ludmilla se estilhaçou com o som de vidro quebrando. O rosto dela explodiu em um tom de vermelho violento que competia com a cor de seus olhos. Ela recuou, tropeçando nos próprios pés, perdendo toda a compostura.
— C-Cosa?! (O quê?!) — Ela gaguejou, a voz afinando duas oitavas. — Como assim?! Eu sou uma garota, sabiam?! — “Che imbarazzo, oddio!” (Que vergonha, meu Deus!)
— É claro que a gente sabe — Megumi revirou os olhos.
Mas a fama de "Melhor Caçadora do Primeiro Ano" apenas aumentava o mito. Ela era, para todos os efeitos, o Príncipe Perfeito que não sabia que era um Príncipe.
Daemon observava o surto de Ludmilla com o tédio de quem assiste à tinta secar na parede.
— Irrelevante. A percepção delas é a realidade delas.
Enquanto isso, no segundo andar, logo acima de onde o trio conversava, a conspiração dos garotos invejosos atingia seu clímax. Um grupo de cinco alunos, com lágrimas nos olhos, segurava um balde enorme cheio de tinta azul permanente.
— Tem certeza disso? — um deles sussurrou, tremendo.
O líder olhou para baixo, focando em Ludmilla, que ainda abanava o rosto corado de vergonha.
— Ela é tão... ela é tão linda... — Ele soluçou, mordendo um lenço. — Sim, ela seria a namorada perfeita! Mas age como um homem melhor que nós! Se não fizermos nada agora, nossa masculinidade será apagada!
— É verdade! — os outros concordaram, chorando copiosamente. — Se preparem! Provavelmente, como vingança, ela vai acabar com a nossa raça. Homens, entreguem seus corações! Sasageyo!
Eles se apoiaram na grade para virar o balde. Mas a grade velha, cansada de tanta estupidez, cedeu com o peso.
— AAAHHHH!
O grito foi coletivo. Os garotos, o balde de tinta e a grade de metal despencaram em direção ao corredor abaixo. Lá embaixo, as garotas que admiravam Ludmilla não tiveram tempo de reagir. Uma chuva de desastre balístico descendo diretamente sobre as cabeças de duas calouras paralisadas no andar de baixo.
O impacto seria catastrófico. Mas o que veio primeiro não foi o som de ossos ou metal, e sim um silvo agudo.
Shing!
No segundo em que o perigo se tornou real, a expressão envergonhada e fofa de Ludmilla não apenas sumiu; ela foi incinerada. Sua postura relaxada travou em retidão militar. Seus olhos vermelhos se estreitaram, tornando-se fendas luminosas, frias e absolutamente aterrorizantes.
Uma pressão avassaladora emanou dela — uma "Intenção Assassina" tão densa que pesou no ar como chumbo, silenciando o canto dos pássaros e fazendo a temperatura do corredor despencar. Não era mais uma estudante ali; era um predador de topo no auge de seus instintos.
Antes que uma sinapse nervosa pudesse processar o medo, Ludmilla já havia desaparecido de sua posição original.
De sua cintura, a Corrente Dourada explodiu. Não como um objeto inanimado, mas como uma extensão viva de sua vontade letal. O metal dourado chicoteou o ar, desenhando arcos de luz complexos, desafiando a física. A corrente se dividiu e serpenteou com precisão cirúrgica, laçando os tornozelos dos três garotos e envolvendo a grade de metal em pleno ar.
Com um puxão seco e força bruta, a corrente esticou-se, travando a queda dos objetos pesados a meros centímetros do concreto, deixando os garotos pendurados de cabeça para baixo em choque absoluto.
Mas a ameaça líquida ainda caía.
Simultaneamente ao disparo da corrente, o corpo de Ludmilla surgiu na zona de impacto. Ela deslizou pelo chão como se estivesse sobre gelo, interpondo-se entre as calouras e a trajetória do balde.
Com um movimento fluido de valsa, ela passou os braços pelas cinturas das duas meninas. Usando o momento de sua própria corrida, Ludmilla executou um pivô perfeito, girando os corpos delas em um arco gracioso e retirando-as do raio de colisão com uma firmeza inabalável.
SPLAT!
O balde colidiu com o chão vazio no exato ponto onde elas estavam um milésimo de segundo antes. A tinta azul explodiu em um gêiser violento, criando uma cortina líquida que subiu atrás de Ludmilla, mas nenhuma gota sequer roçou o uniforme das meninas.
Ludmilla cessou o movimento, congelando em uma pose final digna de uma pintura barroca. O cenário era o caos de tinta azul e corpos pendurados, mas, no centro, havia a perfeição.
Ela segurava as duas garotas inclinadas para trás, os rostos a centímetros de distância, numa pose clássica de capa de revista de romance. Ludmilla aproximou o rosto do delas, a respiração nem um pouco alterada, os olhos vermelhos ainda queimando com a intensidade da batalha, escaneando cada centímetro de pele delas em busca de qualquer arranhão.
Aquele era o rosto que fazia reinos ruírem e corações pararem: destemido, violentamente protetor e devastadoramente lindo.
— State bene, principesse? (Vocês estão bem, princesas?) — ela perguntou. A voz saiu rouca, baixa, um sussurro magnético que fez os joelhos das garotas cederem.
O rosto das meninas derreteu em vermelho vivo. As outras alunas ao redor colocaram a mão no peito, hiperventilando com a visão daquela "heroína".
— Ela é perfeita... — Me protege também! — Me xinga em italiano, por favor!
Ludmilla soltou as garotas gentilmente, e sua expressão endureceu novamente ao olhar para cima. Os garotos pendurados pela corrente dourada foram descidos devagar até o chão. Assim que seus pés tocaram o piso, eles caíram de joelhos, chorando de terror diante daquela aura opressora que prometia dor física.
— DESCULPA! NÃO ERA A INTENÇÃO! FOI SEM QUERER! — eles mentiram, desesperados.
As fãs de Ludmilla começaram a avançar, furiosas, pegando pedras e sapatos.
— Como assim sem querer?! Vocês quase sujaram o Príncipe! — Vamos acabar com eles!
Os garotos tremeram. Não havia escapatória. Daemon observava tudo a alguns metros de distância, sem mover um músculo, como uma estátua de gelo desinteressada.
Ludmilla levantou uma mão.
— Parem.
O silêncio foi imediato. A multidão obedeceu. Ludmilla caminhou até os garotos ajoelhados. A aura assassina diminuiu, sendo substituída por um sorriso angelical, doce e maternal. Um sorriso que prometia perdão e carinho.
— Olhem para mim.
Eles olharam, hipnotizados e aterrorizados pela beleza dela.
— Vocês refletiram sobre suas ações? — ela perguntou, a voz suave como mel.
— SIM! JURAMOS! NUNCA MAIS! — eles berraram, com esperança nos olhos.
Ludmilla fechou os olhos e abriu um sorriso ainda mais radiante, inclinando a cabeça levemente para o lado com uma doçura infinita, as mãos cruzadas na frente do corpo.
— Siete proprio un branco di idioti inutili. (Vocês são mesmo um bando de idiotas inúteis.)
O tom era tão gentil, tão afetuoso, que soou como uma bênção divina aos ouvidos ignorantes deles. Eles sentiram uma absolvição aquecer seus corações.
— Beh, non c'è nulla da fare. Chi è idiota, rimane idiota. (Bom, não há nada a fazer. Quem é idiota, permanece idiota).
Ela manteve o sorriso doce e a voz de quem conta uma história de ninar.
— Príncipe... obrigado pela misericórdia... — os garotos suspiraram, apaixonados e aliviados por estarem vivos, sem entenderem uma palavra do insulto.
Ludmilla deu as costas, jogando o cabelo com um charme natural devastador. A corrente dourada se recolheu para sua cintura automaticamente com um click satisfatório. Ela murmurou um "Che fastidio" (Que incômodo) com um biquinho emburrado, antes de voltar a caminhar até Megumi e Daemon.
Ao chegar perto dos dois, a aura "cool" e assassina desapareceu completamente. Ela voltou à sua expressão casual e levemente alheia, como se tivesse apenas espantado uma mosca.
— Que coisa... — Ludmilla comentou. — Agora, voltando ao assunto... que papo é esse de Príncipe?
Megumi olhou para ela, incrédula, a boca levemente aberta. Daemon apenas desviou o olhar, decidindo que interagir mais seria um desperdício.
— Você tá de brincadeira, né? — Megumi suspirou, derrotada.
Ao fundo, o coro de lamentos começou. O grito de frustração coletiva ecoou pelo pátio, subindo aos céus:
— POR QUE FIZERAM O PRÍNCIPE SER DA SALA -13?
Parte 6
Longe do tumulto causado pelo "Príncipe" e da poeira que assentava no Coliseu, uma nota aguda e cristalina rasgou a densidade do ar.
Fiu-fiu... Fiu-fiu... 🎶
Não era apenas um assobio; era uma afronta. Uma melodia pop, açucarada e irritantemente alegre, ricocheteava pelas paredes de pedra fria.
Então, ela surgiu. Ou melhor, irrompeu em cena.
A garota não caminhava; ela fluía pelo corredor numa dança particular, saltitando nas pontas dos pés com uma leveza que desafiava a gravidade. Um par de chifres curvos, de um vermelho laqueado, coroava uma cascata de cabelos prateados, bagunçados propositalmente, onde mechas em rosa-choque gritavam por atenção.
Seu casaco oversized, um borrão preto e vermelho, escorregava displicentemente por um ombro nu, ameaçando cair a qualquer segundo, mas mantido no lugar pelo ritmo de seus passos. Por baixo, a regata branca e os shorts curtos expunham uma pele imaculada — limpa demais para a reputação que a precedia.
A multidão não se abriu; ela fendeu.
Não havia a reverência silenciosa dada a Ludmilla, nem o recuo trêmulo causado pela força bruta de Kintoki. O que acontecia ali era uma repulsa biológica. Os alunos se espremiam contra as paredes, encolhendo os estômagos, como se o simples toque da bainha do casaco dela pudesse transmitir uma doença terminal.
O som dos passos saltitantes dela — toc, toc, toc — era o único ruído além do assobio.
— É ela... — O sussurro escapou de um segundanista, o som arranhado de quem tem a garganta seca. Ele não apontou; tinha medo de que ela visse o gesto. — A única que voltou da Torre Dates.
O colega ao lado empalideceu, os olhos vidrados na figura saltitante. — A garota transferida pra Classe -13? Disseram que a equipe inteira dela foi exterminada. Não sobrou nada, nem corpos para enterrar.
— Exato. — O primeiro engoliu em seco. — E olha para ela. Nem um arranhão. Nem um pesadelo.
O corredor parecia cair em temperatura à medida que ela avançava. A aura que orbitava aquela figura não era de ameaça, mas de uma ausência perturbadora. A lógica humana exigia sequelas. Quem atravessa o inferno deve cheirar a fumaça, deve carregar o peso dos mortos nos ombros, deve ter o olhar de mil jardas de distância.
Mas ela parou subitamente no meio de um passo de dança. Girou nos calcanhares, o casaco rodopiando como uma capa, e encarou o vazio com um sorriso largo, mostrando dentes brancos demais. Seus olhos amarelos brilhavam com uma vivacidade elétrica, quase infantil.
Ela parecia ter acabado de ganhar um prêmio na loteria, e não de ter emergido sozinha de um banho de sangue onde seus companheiros foram desmembrados de formas que os relatórios oficiais tarjaram com tinta preta.
— Como...? — Uma garota na multidão abafou um soluço, sentindo a pele arrepiar. — Como ela consegue assobiar depois de tudo aquilo?
Ninguém respondeu. A resposta era um nó na garganta coletiva.
Aquele não era o sorriso da superação, nem a alegria do alívio. Era a alegria da indiferença absoluta. Havia uma desconexão fundamental na existência daquela garota, um erro de sintaxe na realidade: a tragédia ocorrera, mas a emoção correspondente fora deletada.
Ela retomou o passo e continuou seu caminho, a melodia pop ecoando como uma trilha sonora macabra.
Os alunos desviaram o olhar, incapazes de sustentar o contato com aqueles olhos amarelos. O instinto de cada um ali gritava a mesma verdade silenciosa: aquilo que caminhava pelo corredor não era uma sobrevivente sortuda.
Parte 7
Pátio Norte
Longe da histeria causada pelos fãs de Ludmilla e da violência gratuita no Coliseu, dois alunos completamente perdidos caminhavam — ou melhor, discutiam aos berros — por um dos pátios mais afastados e silenciosos do campus.
— Tá vendo?! — Dante gesticulava freneticamente, frustrado. — Só por sua causa nos separamos do resto do grupo! Eu nem tentei memorizar onde fica a minha sala. Se não acharmos o Luck, a coisa vai ficar bem feia. Ele é o nosso GPS humano!
Ao lado dele, Anna caminhava com a leveza de quem passeia no parque, segurando uma caixa de doces amassada contra o peito como se fosse um tesouro sagrado. Ela mordeu uma rosquinha com cobertura rosa-choque, sujando o canto da boca de glacê.
— Eu precisava comer, Dante. Prioridades. — Ela mastigou ruidosamente. — Você não tá vendo que eu estava em estado crítico de desnutrição? O cérebro não funciona sem glicose. É ciência.
— E por que eu tive que pagar?! — Dante retrucou, incrédulo.
— Devia agradecer a honra de eu deixar você pagar pra mim — Anna respondeu com a boca cheia, num tom de rainha benevolente concedendo um favor ao plebeu. — Ou você preferiria lidar com a minha fúria e abstinência de açúcar? Acredite, é pior que enfrentar um Astreus.
— Tá brincando comig...
VUP!
Um som agudo sibilou, cortando o ar e a discussão. Algo metálico passou zunindo a milímetros do nariz de Dante, cortando um fio solto de seu cabelo, e cravou-se no chão de pedra à frente deles com um baque pesado, barrando o caminho.
Eram tesouras. Não uma tesoura de papelaria. Mas uma peça maciça de metal escuro, com lâminas afiadas e gravuras góticas complexas, vibrando com a força do impacto.
Dante parou, olhando para o objeto cravado no chão. Ele suspirou longamente, passando a mão no cabelo bagunçado.
— Tsk. Também era por isso que eu não queria me separar do grupo.
Anna parou de mastigar por um segundo, olhando para a tesoura com curiosidade de gato.
— Como assim?
— Você não reconhece, Anna? — Dante apontou para o cenário com didatismo cansado. — Pátio vazio. Alunos novos perdidos. Essa é a situação clássica dos animes escolares: o evento obrigatório onde os valentões vêm intimidar e roubar o dinheiro do lanche do protagonista.
Os olhos de Anna se arregalaram em pânico genuíno e absoluto. O terror tomou conta de sua alma. Ela abraçou a caixa de doces com força protetora, recuando um passo.
— As minhas rosquinhas... eles não vão pegar!
— Até parece que eles querem isso. — Dante revirou os olhos.
Uma risada feminina, alta, estridente e ligeiramente maníaca ecoou pelo pátio vazio.
— Ahahaha! Finalmente!
Uma garota surgiu de trás de um pilar de mármore, caminhando com passos firmes e predatórios. Ela tinha uma presença marcante: cabelos brancos curtos num corte assimétrico, olhos vermelhos vibrantes e orelhas pontudas que lembravam as de um vampiro ou elfo nobre. Seu uniforme estava customizado — ou vandalizado — com correntes prateadas e rasgões propositais que gritavam rebeldia.
— Eu estava realmente ansiosa... — ela disse, passando a língua nos lábios enquanto caminhava em direção à tesoura no chão. — Depois de todos os boatos, de todas as histórias que a mamãe contava... eu não estava me aguentando de esperar.
Ela estendeu a mão. A tesoura no chão brilhou com uma luz arroxeada e voou magneticamente para a mão dela. Com um estalo de Ether audível, o objeto cresceu instantaneamente, transformando-se numa lâmina gigantesca, maior que uma espada, que ela segurava com uma facilidade assustadora, apoiando-a no ombro.
Dante observou a arma com respeito técnico. Anna voltou a comer, aliviada ao perceber que as rosquinhas não eram o alvo da operação.
A garota apontou a ponta da tesoura gigante diretamente para o peito de Dante.
— Eu estava realmente ansiosa para me encontrar com você, Dante.
O cérebro de Dante, ainda tragicamente afetado pela "conferência estratégica" de mais cedo com Luck e Chuya sobre romances escolares, fez uma conexão neural imediata. E totalmente errada.
"Garota bonita. Encontro predestinado num pátio vazio. Ansiedade confessada. Abordagem agressiva... É uma tsundere clássica!"
— Não pode ser... — Dante murmurou, chocado, levando a mão ao peito.
A garota sorriu, um sorriso afiado, achando que ele tinha entendido a gravidade do duelo iminente.
— Então percebeu, não é?
— Quem é ela, Dante? — Anna perguntou, limpando migalhas da bochecha.
— Você... — Dante deu um passo à frente, com um olhar sério e compenetrado de galã de novela.
— Vamos. Diga. — A garota apertou o cabo da tesoura, os olhos brilhando, esperando o reconhecimento.
A tensão no ar era palpável. O vento parou. Uma folha seca rolou pelo chão. Anna engoliu o pedaço de rosquinha num glup sonoro.
Dante estendeu a mão dramaticamente.
— Você veio se declarar para mim.
...
O som de um grilo imaginário cantou ao fundo. O universo parou por um segundo para processar a estupidez.
O rosto da garota travou como um computador velho. A aura assassina dela vacilou, piscou e foi substituída por uma confusão absoluta e, em seguida, por uma vergonha furiosa e vulcânica. O rosto pálido dela ficou vermelho neon, combinando perfeitamente com seus olhos.
— O QUÊ?!
Ela estalou a língua com ódio genuíno. Click-clack! Ela desencaixou as lâminas da tesoura gigante, transformando-as em duas espadas curvas letais, e lançou um corte em "X" violento na direção dele.
— TÁ MALUCO?! — ela gritou, a voz falhando de indignação enquanto atacava para matar.
Dante saltou para trás num reflexo puro de sobrevivência, sentindo o vento do corte rasgar o ar exatamente onde seu nariz estava um milésimo de segundo antes.
— Ei! Quase me acertou! Isso é jeito de lidar com rejeição?!
— ERA PRA ACERTAR MESMO, SEU IDIOTA! — Ela bateu o pé no chão, rachando a pedra, as lâminas tremendo de raiva em suas mãos. — Seu burro narcisista! Por que diabos eu me declararia pro meu próprio irmão?!
O tempo parou novamente. Dante piscou, confuso. Anna parou com a rosquinha a meio caminho da boca aberta.
— Espera... — Dante gritou, as mãos na cabeça. — Irmão de QUEM?!
A garota bufou, ajeitando o cabelo com irritação, tentando recuperar a dignidade.
— Tsk. Então esse era o famoso Dante Scarlune sobre quem a Rani falava tanto? Não me parece grande coisa. Se for só isso... acho que me decepcionei com a lenda. É só um idiota.
Ela olhou para trás, por cima do ombro, para a sombra densa do corredor de onde tinha saído.
— E você? O que acha, Kai?
Dante e Anna viraram a cabeça simultaneamente. Passos pesados, rítmicos e calmos ecoaram na pedra. Toc. Toc. Toc.
Um garoto saiu das sombras.
— Não importa se ele é inteligente ou burro como uma porta — a voz do garoto era fria, metálica, sem modulação. — Essa merda não faz diferença nenhuma. No fim, o que importa é outra coisa: o quão forte esse merda realmente é.
Quando a luz do sol da manhã bateu no rosto do recém-chegado, Dante e Anna entraram em choque sistêmico. O ar faltou nos pulmões de Dante como se ele tivesse levado um soco.
Diante dele estava... ele mesmo. Ou quase.
O garoto tinha os mesmos traços faciais angulares de Dante. A mesma altura. A mesma constituição física atlética. Mas era como olhar para um espelho do mundo bizarro com as cores invertidas. Seus cabelos eram brancos prateados e revoltos, cortados por mechas em azul-ciano elétrico que pareciam brilhar. Vestia uma jaqueta branca esportiva aberta sobre uma camisa escura estampada com flocos de neve estilizados. As calças desciam em um degradê de brilho azulado futurista.
Era uma versão gélida, negativa e hostil de Dante Scarlune.
— Mas que poha é você?! — Dante exclamou, recuando um passo instintivo.
Assim que ele terminou a frase, um arrepio percorreu sua espinha. Instinto assassino puro, concentrado e letal. Dante saltou para trás novamente, sem pensar, o corpo reagindo antes do cérebro.
ZUM!
No instante exato em que os pés de Dante deixaram o chão, o espaço vazio que ele ocupava foi preenchido por um chute alto devastador. O ar explodiu com o impacto. O garoto novo, Kai, havia se movido numa velocidade que desafiava a visão humana. Se Dante não tivesse saltado, aquele chute teria arrancado sua cabeça do pescoço limpo.
Kai baixou a perna lentamente, com total controle, olhando para Dante com olhos penetrantes e levemente decepcionados.
— Bons instintos de barata.
A garota, agora rindo da confusão e do quase óbito de Dante, girou a tesoura nos dedos com habilidade circense.
— Bom, caro irmãozinho, deixa eu te reiterar, já que você ficou vinte anos afastado da família brincando de viagem no tempo. Meu nome é Vivian Scarlune.
Ela apontou a lâmina curva para o garoto de mechas azuis ao seu lado.
— E esse ser de poucas palavras aí na sua frente é Kai Scarlune. Em resumo, para o seu cérebro processar: somos seus irmãos.
Kai ajeitou a gola da jaqueta, encarando Dante com um sorriso de canto, frio.
— Embora, no meu caso, seja algo bem mais... próximo.
Ele deu um passo à frente, a imagem espelhada e distorcida invadindo o espaço pessoal de Dante.
— E aí, Original? Me diz: qual é a sensação de dar uma boa e longa olhada na merda do seu próprio clone?
Parte 8
O Panóptico do Diretor
No pináculo da ilha flutuante, onde os ventos da estratosfera uivavam contra o vidro reforçado, o escritório central de Babylon repousava em um silêncio artificial. Era um santuário de caos organizado, abarrotado de relíquias arcanas e engrenagens de latão que giravam sem propósito aparente.
Aleister Crowley, a mente que orquestrava aquela instituição, estava curvado sobre um telescópio de proporções absurdas. O instrumento, cheio de lentes e manivelas, apontava como um canhão de observação para o pátio da escola, quilômetros abaixo.
— Hum... — Ele ajustou o foco milimetricamente, um sorriso lascivo curvando o canto dos lábios. — O ângulo de incidência solar está perfeito hoje.
Ele se afastou da lente por um segundo, acariciando o queixo com a gravidade de um general estudando um mapa de guerra.
— Sabe... a física é uma amante tentadora. Se eu criasse uma leve corrente de ar ascendente agora... digamos, a uns 15 nós... seria apenas um fenômeno meteorológico natural, certo? — Ele gesticulou para o vazio, simulando o vento levantando saias invisíveis. — Ninguém culparia o diretor por respeitar as leis da termodinâmica.
— Cof.
O som foi seco, curto e cortante como o estalo de um chicote.
— WAAH!
Aleister deu um solavanco, os cotovelos batendo no telescópio, e girou em um movimento desengonçado, agarrando o tecido da camisa sobre o coração.
— Vlad!? — Aleister exalou, os olhos arregalados. — Você não tem outra pessoa para assombrar? Aparecer assim nas costas de um homem idoso... meu coração não é mais o mesmo!
Vlad não se moveu. Ele estava parado no centro da sala, uma coluna de gelo e elegância em um terno impecável. Sua expressão era de um desprezo tão profundo que parecia baixar a temperatura da sala.
— Se tentar me dar outra lição de moral sobre etiqueta... — A voz de Vlad era um sussurro sibilante, e seus olhos brilharam num vermelho carmesim enquanto as presas se alongavam sutilmente. — ...eu juro que arranco sua cabeça aqui mesmo.
Aleister riu, um som nervoso que quebrou a tensão, e ergueu as mãos em rendição teatral.
— Suas ameaças têm um charme visceral, Vlad. Gosto disso. — Ele deslizou até sua cadeira de couro, girando-a e se jogando nela com a displicência de uma criança. — Mas diga, o que te traz dessa vez? Problemas com o Grêmio? Se Levy e Emilia estão se matando, jogue o problema para o Blade. Foi ele quem escolheu as peças daquele xadrez.
— Isso já é passado — Vlad cortou, caminhando até a mesa. Seus passos não faziam som no tapete persa. — Emilia renunciou. Disse que não apreciava o "rumo das coisas".
A cadeira de Aleister parou de girar abruptamente. Ele piscou, uma surpresa genuína trincando sua máscara de palhaço.
— A pequena Emilia desistiu? — Ele tamborilou os dedos no braço da poltrona. — Fascinante...
— Não vim discutir política estudantil.
Com um movimento seco de pulso, Vlad lançou uma pilha de pastas sobre a mesa de mogno. Elas deslizaram e pararam exatamente diante de Aleister. As fotos 3x4 encaravam o teto: Dante. Luck. Kurokawa. Sofia. Chuya. Anna.
Vlad apoiou as duas mãos na mesa, inclinando-se sobre o diretor. Sua sombra engoliu a luz da mesa.
— Você vai mesmo jogar todos eles naquela sala? — A pergunta não era um pedido, era uma acusação. — Adicionar ainda mais alunos na Classe -13 é insanidade, Aleister. Eles são diamantes brutos com potencial. Jogá-los no lixo é sabotagem.
Aleister pegou a ficha de Dante. Ele a girou entre os dedos longos e finos, como se fosse uma carta de baralho. O sorriso brincalhão desapareceu, substituído por uma serenidade enervante.
— Eu sei o que se passa nessa sua mente imortal, Vlad.
— E eu sei o que se passa na sua. — Vlad estreitou os olhos. — Você está tentando criar um Veneno Gu.
O silêncio estendeu-se pela sala. Aleister levantou-se lentamente e caminhou até a janela panorâmica, dando as costas para Vlad e olhando para o horizonte artificial de Babylon.
— O Veneno Gu... — A voz de Aleister mudou. Tornou-se profunda, professoral, ecoando com uma admiração antiga. — Uma prática fascinante. Trancar centenas de insetos peçonhentos em um jarro selado. Escorpiões, centopeias, víboras... deixados lá para devorar uns aos outros na escuridão.
Ele virou o rosto de perfil, o reflexo do vidro mostrando um olho brilhando com loucura contida.
— A lenda diz que o único sobrevivente não é apenas o mais forte. Ele absorve a toxicidade de todos que consumiu. Ele se torna uma calamidade viva. O veneno perfeito sob os céus.
— O risco é inaceitável! — Vlad golpeou a mesa, fazendo as pastas tremerem. — O Gu exige o desperdício de centenas para criar um monstro.
Aleister girou nos calcanhares. O "diretor bobo" havia sumido completamente. Ali estava o mago, o estrategista frio.
— Você me ofende, Vlad. Acha mesmo que eu seria tão... primitivo?
Vlad recuou meio passo, pego de surpresa pela mudança drástica na aura do diretor.
— Mas... esse é o propósito da Classe -13. Sobrevivência do mais apto.
— Ah, meu velho amigo... sua visão é limitada pelo tempo que você viveu nas sombras. — Aleister caminhou de volta, contornando a mesa como um predador cercando a presa. — O Gu é sobre morte. O que eu faço... é arte.
Ele entrelaçou os dedos, apoiando o queixo nas mãos, os olhos fixos em Vlad.
— Eu não quero que eles se matem. O desperdício me entedia. Meu objetivo não é criar um único monstro tóxico, mas sim usar a pressão daquele ambiente para transformar carvão em diamante. — Ele sorriu, e pela primeira vez, o sorriso não chegou aos olhos. — Relaxe, Vlad. Eu garanto que farei essas suas "pedras preciosas" brilharem tanto que cegarão o mundo. Agora, volte para sua aula.
Vlad sustentou o olhar de Aleister por longos segundos, procurando uma mentira, mas encontrando apenas um abismo insondável. Ele estalou a língua, recolhendo seus livros com um movimento brusco.
— Eu estarei vigiando, Aleister — Vlad rosnou, caminhando até a porta. Ele parou com a mão na maçaneta, sem olhar para trás. — E se eu perceber que você está destruindo o futuro deles naquele lixão... não me importa que o professor responsável seja o Ryunosuke. Eu vou intervir e desmantelar aquela sala maldita pessoalmente.
A porta bateu com um estrondo pesado, deixando o eco da ameaça pairando no ar.
Aleister permaneceu imóvel por um momento. Então, lentamente, seus ombros relaxaram. Ele pegou a ficha de Dante Scarlune novamente, erguendo-a contra a luz do sol que entrava pela janela. Um sorriso lento, predatório e terrivelmente satisfeito se espalhou por seu rosto.
— Estamos contando com isso, Vlad... — ele sussurrou para a sala vazia, como quem acaba de posicionar a rainha no tabuleiro. — Estamos contando exatamente com isso.



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