The Fall of the Stars: Capítulo 3 - Máscaras
- AngelDark

- 14 de jul. de 2025
- 37 min de leitura
Atualizado: 7 de dez. de 2025
Volume 2: Enigma
Parte 1
A aura esmeralda não era apenas luz; era pressão. O antigo Titanic já não era mais uma estrutura inerte; era um organismo vivo, as veias de metal saturadas pelo Éter verde e caótico de Drake. O ar vibrava com uma frequência baixa, um zumbido que fazia os dentes doerem.
Dante parou, ofegante. Não por escolha, mas porque o próprio ar parecia engolir sua respiração. Ao tocar a parede do corredor para se apoiar, sentiu a pulsação do navio.
— Uma "Black Box"... — A memória da Torre de Dates passou por sua mente como um filme queimado. — Alguém transformou o Titanic em um Domínio Pessoal... Isso é mesmo possível?
Ele chacoalhou a cabeça com violência, tentando afastar a névoa estática que cobria seus pensamentos. — Não posso ficar perdendo tempo. Tenho que achar aquela garota...
Seus instintos de Caçador, lapidados pela dor, gritaram: MORTE. Dante não pensou. Ele jogou o corpo para trás, seus calcanhares rasgando o metal do chão.
ZUUUM.
No milésimo de segundo em que ele saiu do eixo, um chute atravessou o espaço onde sua garganta estava. A dona do golpe não veio do corredor. Ela emergiu do chão. O metal sólido do convés ondulou como mercúrio líquido e expeliu a garota como se ela fosse feita da mesma substância.
O ar chicoteou com o vácuo deixado pelo golpe. Se Dante tivesse hesitado um piscar de olhos, sua cabeça teria sido arrancada do pescoço.
A figura pousou com uma graça predatória. Cabelos ruivos como um pôr do sol violento e um corpo cuja sensualidade era ofuscada pela promessa absoluta de letalidade.
— Nada mal. — Mio ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha, como se estivesse descartando um fiapo irritante, e não como se tivesse acabado de tentar uma decapitação. — Ei, garoto. Que tal bancar o bom menino e não complicar o meu trabalho? Tem pessoas nesse navio com quem não quero me encontrar, então chega de turismo.
Dante estreitou os olhos, o único olho bom focado na postura relaxada dela. "Intangibilidade? Não... Manipulação de estado da matéria?"
Ele assumiu a postura de combate, a eletricidade vermelha faiscando fraca em seus dedos. — Sai da frente. — A frase não era uma ordem; era um pedido desesperado. — Preciso chegar nos meus amigos.
Mio cruzou os braços, suspirando. — Relaxa. Eu já disse: minha missão é te proteger. Ordens da Comandante Levy. Eu te levo para um lugar seguro, te dou um suquinho, e depois eu e a Bea buscamos seus amiguinhos.
— E como eu vou saber que já não é tarde demais?!
Dante explodiu em movimento. Um passo em falso para a esquerda, um corte brusco para a direita. Ele foi rápido, fluido, um borrão vermelho. Ele tentou ultrapassá-la pela lateral. Mas Mio não bloqueou; ela o antecipou.
— Você realmente não gosta de conversar, né? — Ela riu. — Parece um pouco com a Bea.
Mio não se virou. Ela apenas pisou no chão. O metal sob os pés de Dante se liquefez por um instante, prendendo o pé dele, e solidificou imediatamente. Preso. Mio girou o corpo num chute rodado reverso.
BAM!
O impacto no peito de Dante foi como ser atropelado por um trem de carga. Ele foi catapultado para trás, arrancando o pé da armadilha de metal, e colidiu contra as caixas de suprimentos, transformando madeira e plástico em estilhaços.
Dante rolou, ficando de pé instantaneamente. Ele levou a mão direita para as costas, escondendo-a. Pequenos arcos de eletricidade azulada começaram a percorrer sua luva.
Os olhos de Mio afiaram-se, e ela começou a prestar atenção nas costas de Dante.
"Ela notou..." — Ele analisou. — "Ela também é uma Caçadora e tem uma boa capacidade sensorial. Criar uma distração não vai ser fácil."
Mio então se afastou um pouco com um salto para trás. "Nada mal… Ele escondeu a mão de propósito para ver minha reação." — O que foi? — Mio sorriu, mostrando os dentes caninos levemente pontiagudos. — Está planejando algo, Coelhinho?
— Não é muito elegante levantar as pernas alto assim sendo uma dama — Dante provocou, a voz trêmula.
— Hah! Quem se prende a elegância num duelo é quem morre bonito — Mio riu, mas por um milésimo de segundo, seus olhos desviaram para a própria saia.
— AGORA!
A mente de Mio viajou por meio segundo. Foi o suficiente. Dante puxou a mão que havia ido para dentro do bolso enquanto a outra chamava a atenção para suas costas. Ele não puxou uma arma, e sim seu par de óculos steampunk quebrados da batalha contra Niklaus.
Ele usou o eletromagnetismo de seu corpo não apenas para arremessar, mas para criar um trilho magnético improvisado.
ZZZPT!
O objeto, envolto em estática ionizada, disparou como um dardo azulado, mirando entre os olhos de Mio. Mio não piscou. Ela nem sequer se moveu para desviar. Ela inclinou a cabeça dois centímetros para a esquerda. O projétil passou raspando sua orelha, cortando alguns fios ruivos, e explodiu na parede atrás dela.
— Truque barato — zombou ela.
Mas quando ela voltou os olhos para frente, Dante não estava lá. Ele havia usado o brilho do disparo como cobertura. Ele estava baixo, deslizando pelo chão como uma sombra, passando por baixo da guarda dela.
— Liberar Arquivo: Segundo Modo — Deus da Velocidade.
O mundo desacelerou. O coração de Dante bombeou adrenalina pura. Ele passou por ela. A saída do corredor estava a dez metros. Cinco metros. Três metros.
A dor. Não foi muscular. Foi cerebral. A dor de cabeça não era mais um martelo; era um prego enferrujado sendo martelado no córtex frontal. A visão de Dante falhou. O corredor distorceu. As luzes verdes viraram borrões. Ele tropeçou nos próprios pés.
BAM.
Um muro apareceu na frente dele. Mio não correu. Ela "nadou" pelo chão e solidificou-se na frente dele num piscar de olhos. O punho dela estava escuro, denso, transformado em metal.
O soco atingiu Dante na fusão entre a mandíbula e o ouvido. Não houve resistência. O garoto foi arremessado lateralmente, quicando no chão duas vezes antes de bater contra uma parede de ferro com um som úmido de ossos estalando.
— Cof... — Dante cuspiu uma orquídea de sangue no chão polido. O sabor de ferro inundou sua boca.
Mio caminhou até ele. A diversão desapareceu do rosto dela; restou apenas a responsabilidade fria. — Droga... exagerei! — Ela estalou a língua. — Ei, garoto. Fica no chão. Acabou.
Dante não respondeu. Ele socou o chão para se levantar. Seus braços tremiam como varas de bambu no vento. O sangue escorria de seu nariz, desenhando um mapa de dor em seu queixo. Ele ficou de pé. Ele correu.
TACK!
Mio suspirou e chutou o peito dele. Ele voou. Dante caiu. Levantou. Correu. Mio o derrubou com um tapa de costas de mão que parecia uma marretada. Caiu. Levantou. Correu.
Não era um combate. Era um ciclo de masoquismo. O corpo de Dante era uma máquina de porcelana que se recusava a aceitar que estava quebrada.
— Por que...? — Mio perguntou, a voz rouca de incompreensão, vendo-o levantar pela décima primeira vez. O olho esquerdo dele estava inchado, fechado. — Por que continua levantando, garoto?
— Esqueça... — Dante limpou o sangue na manga. O gesto não era de dor, era ritualístico. Mecânico. — Pode me derrubar mil vezes. Eu continuarei me levantando para...
Ele engasgou. A pausa foi uma falha no sistema. Uma tela azul em sua alma. — ...para ajudá-los. Para chegar neles.
Mio parou. Ela inclinou a cabeça, analisando-o não como inimiga, mas como predadora que sente o cheiro da doença na presa. — As palavras. A atitude. A recusa em ficar no chão... você tem o espírito de um Caçador. — Ela deu um passo à frente. — Mas por que... por que eu não sinto vontade nenhuma vindo de você?
O sorriso torto de Dante desmoronou. A boca abriu para retrucar, mas o som morreu.
— Você grita, você corre, você sangra. Mas é vazio. — Mio continuou, implacável, seus olhos perfurando a alma dele. — Apesar de toda essa ferocidade de lobo faminto, tudo o que sinto é que estou batendo em alguém que já morreu e esqueceu de deitar.
Dante olhou para as próprias mãos. Elas tremiam. — Não importa... — O sussurro não era de desistência; era de resignação. — Meus amigos estão precisando. Enquanto eles precisarem de mim, eu tenho que levantar. É o meu trabalho.
Mio suspirou, sentindo os olhos pesarem. Olhar para o garoto agora provocava um incômodo físico no peito, atravessado por uma estranha corrente elétrica. Era um reconhecimento. Ela já tinha visto aquele mesmo olhar no espelho.
— Você pode tentar enganar o mundo com esse sorriso. Mas ninguém vai acreditar enquanto você não for capaz de enganar a si mesmo.
— O quê?
— Esquece. — Mio estalou o pescoço. — Você não vai desistir. Já entendi. Você quer que eu te apague. — Ela assumiu a postura. Os pés firmes afundaram levemente no metal. A pressão do ar condensou. A expressão dela já não era a mesma de antes; não tinha mais aquela felicidade e relaxamento. — Vou te levar, mesmo que seja inconsciente e em pedaços, para um lugar seguro.
Ela disparou. Dante também. Mas era diferente. Dante não via Mio. Ele olhava através dela. Seus golpes eram lentos, telegrafados, desesperados. Mio esquivava sem esforço. A cada soco que ela conectava no corpo dele, o nível do oceano dentro da cabeça de Dante subia. A superfície, onde a consciência residia, estava cada vez mais longe.
O corpo gelado de Nero. A garota de cabelos verdes. A visão de todos morrendo. O aviso de Adam no bar, as palavras de Niklaus e a advertência de Maicon – tudo isso agora parecia um conjunto de correntes, arrastando-o cada vez mais fundo no oceano.
Sua alma afundava, pesada como uma âncora, enquanto seu corpo se debatia na superfície, movido apenas por memória muscular.
BAM!
Um soco direto no esterno. Dante foi arremessado contra a parede. O impacto amassou a chapa de aço com o formato das costas dele. Ele caiu de joelhos, vomitando bile e sangue.
Mio parou, ofegante, o braço voltando à cor de pele natural. Ela olhou para o garoto que, pateticamente, tentava apoiar as mãos no chão para se erguer.
— Então era isso... O tempo todo. — Ela cuspiu as palavras com nojo. — Você disse que estava lutando por alguém, pelos seus amigos... mas não tem desejo de vitória nesse punho!
Ela caminhou até ele e o segurou pelo colarinho, erguendo-o até que seus pés saíssem do chão. — Na verdade, você só está procurando uma desculpa para morrer, não é?! Então, está me usando apenas para ter uma morte heroica?
A acusação pulverizou a fachada. Dante travou. O olho bom arregalou-se. "Procurando uma desculpa para morrer?"
A frase ecoou no vazio de sua mente. Ele viu o rosto de Nero. Não o cadáver. O sorriso. A promessa. "Não morra… meu amado idiota."
Algo estalou dentro dele. Não foi um osso. Foi a tranca de uma porta que ele mantinha fechada a sete chaves.
Dante segurou o pulso de Mio. — É ÓBVIO QUE EU NÃO POSSO MORRER!
Mio arregalou os olhos e o soltou, recuando um passo com a intensidade do grito. A máscara de apatia de Dante estilhaçou-se. Lágrimas não escorriam; elas rasgavam o rosto sujo de sangue e fuligem. Ele não era mais o Caçador. Ele era uma criança quebrada e furiosa.
Dante apertou os punhos até as unhas rasgarem a pele das palmas, o sangue pingando no chão. — Eu... eu não sinto mais o cheiro dela... as memórias estão ficando cada vez mais borradas, como se fossem de outra pessoa... — Ele soluçava, a voz rouca, feia, crua. — Mas eu lembro da sensação! Da promessa que fiz…
O Éter vermelho começou a vazar dele. Não eram faíscas fracas. Eram arcos voltaicos violentos, instáveis, que chamuscavam o chão.
— Eu prometi que continuaria vivo! E eu não vou quebrar a única coisa que... que me restou dela! Eu tenho que viver, droga!
A pressão do Éter de Dante fez as luzes verdes do navio piscarem em vermelho.
Mio encarava-o, o choque transformando-se lentamente em um sorriso de compreensão dolorosa. Não importava quem era o fantasma que ele carregava. Havia uma corrente arrastando-o pela vida, uma obrigação mais forte que a gravidade.
— Entendi... — Mio sussurrou. E desta vez, havia respeito no som.
Dante enxugou as lágrimas com as costas da mão, misturando sal e sangue. Ele ergueu a guarda. O Éter vermelho em seus punhos estabilizou. Não era mais apenas eletricidade estática. Era a vontade condensada de alguém que descobriu o porquê de ainda estar respirando.
Parte 2
O silêncio nos andares subterrâneos não era vazio; era pesado, como se o ar fosse feito de chumbo. O grupo formado por Anna, Danael, Sora, Nyan, Leon e Alphonse avançava, engolido pelas sombras longas que as luzes de emergência projetavam no aço frio.
Eles caminhavam em direção à localização rastreada de Benedetta quando a realidade do navio sofreu um espasmo.
Não houve aviso sonoro. Sem cerimônia, o vermelho pulsante e alarmante das luzes de emergência morreu. Um segundo de escuridão total engoliu o corredor, fazendo o coração de Sora falhar uma batida. Então, a luz voltou. Mas não era vermelha. Era um verde-esmeralda tóxico e vibrante.
Não era apenas eletricidade. O Éter de Drake pulsava através das paredes, fazendo as placas de metal gemerem e dilatarem como se o Titanic tivesse ganhado veias vivas e expostas. A pressão do ar aumentou, carregada de uma vontade caótica.
BIP.
O comunicador de Danael cortou a tensão com um som agudo. Ele levou o aparelho ao ouvido, e seus traços endureceram instantaneamente. Foi uma mudança sutil — um tensionar da mandíbula, um estreitar de olhos — como se uma porta de cofre se fechasse em seu rosto.
Anna, com sua percepção afiada, captou a microexpressão no rosto do detetive, assim como outro detalhe curioso em um de seus companheiros. Mas, com uma fluidez praticada, ela desviou o olhar, fingindo interesse fascinado na arquitetura de uma tubulação enferrujada para não denunciar que sabia demais.
— Mas o que é isso agora? — A voz de Sora tremeu, seus olhos refletindo o brilho espectral verde que banhava tudo. — É a habilidade de alguém?
— Se for, é de uma natureza desconhecida — respondeu Leon, os dedos ficando brancos de tanto apertar o cabo da espada. — Nunca senti uma pressão espiritual cobrir uma área tão vasta.
Nyan pressionou a palma contra o metal da parede. Suas orelhas tremeram. — Está vibrando... Mantenham a calma. Lembrem-se da primeira regra do Éter: o pânico é o assassino da lógica. Por isso, não tirem conclusões precipitadas.
— Talvez alguém tenha infundido seu Éter com a estrutura do navio? — sugeriu Alphonse, a palidez do rosto acentuada pela luz verde.
— Será que é o assassino? — Sora sussurrou, e o medo em sua voz era um vírus contagiante.
Enquanto o grupo se perdia em conjecturas aterrorizadas, Anna recuou um passo silencioso, isolando-se na penumbra esverdeada. Um sorriso de triunfo curvou seus lábios pequenos. A arrogância intelectual era seu vício, sua droga. Eles estavam perdidos, assustados, cegos. Ela estava prestes a girar nos calcanhares, estalar os dedos e iluminar aquelas mentes inferiores com sua dedução brilhante quando...
Ssssss...
Sussurros. Não nos ouvidos. Nas sinapses. Vozes invadiram sua mente, não como som, mas como centopeias rastejando na escuridão de seu crânio, arranhando a parte de dentro de sua testa.
"Olha lá... ela está sorrindo de novo." "Que garota estranha." "Aberração." "O que há de errado com ela? Por acaso a tragédia a diverte?" "Ela não é humana. É um monstro vestindo pele de gente."
O sorriso de Anna fraturou-se como porcelana barata. Um suor gélido desceu por sua espinha. Seu coração martelou contra as costelas, frenético, um pássaro preso em uma gaiola pequena demais. A respiração travou. A realidade física do corredor derreteu. O verde-esmeralda, o cheiro de óleo, o rosto preocupado de Sora... tudo escorreu e se desfez em fumaça cinza.
De repente, ela não estava mais no navio. Ela flutuava. O chão era um oceano de chamas negras que não queimavam, apenas consumiam o calor da alma. Acima, não havia teto, apenas um vazio branco infinito onde padrões geométricos dourados — cubos, tetraedros, espirais áureas — orbitavam como engrenagens de uma lógica divina e incompreensível, girando em um silêncio absoluto e ensurdecedor.
Anna olhou ao redor, e o pavor transmutou-se em uma fúria defensiva. — O que você acha que está fazendo?! — ela gritou para o abismo, sua voz ecoando sem encontrar paredes para retornar.
— Hahaha! O que foi, maninha?
A voz não vinha de um lugar. Vinha de todos. Era onipresente, gotejando escárnio e uma familiaridade doentia. — Você parece tão... emotiva. Por que a irritação? No fundo, você sabe que é exatamente isso que eles pensam quando olham para você.
— Não se intrometa! SAIA DA MINHA CABEÇA! — Anna cerrou os punhos.
— Como sempre, o monstro rejeita sua própria natureza... — A voz suspirou, uma teatralidade cruel. — Eu fui cortês, chamei-a de "maninha". Nenhum crédito pela gentileza familiar?
— Você não me considera família… Você só quer brincar com a minha sanidade!
— Olha só! Alguém acha que decifrou o enigma. Mas é justo, afinal, eu decifrei você, querida Anna. Eu vejo as rachaduras na sua máscara de vidro.
Diante dela, o vazio coagulou. A Sombra se ergueu. Uma blasfêmia visual. Era uma dualidade encarnada: o lado esquerdo, feminino e feito de ouro líquido, irradiava uma santidade insuportável; o lado direito, masculino, era feito de trevas abissais e estática. Não havia rosto, apenas a ausência. Dois pontos — um de luz absoluta, outro de escuridão total — onde deveriam estar os olhos, e uma boca que era um corte vertical sangrando através das duas realidades.
A figura agigantou-se, tornando a pequena Anna insignificante, uma boneca quebrada sob sua sombra. — Por acaso você alcançou sua utopia? Agora você se considera "humana", não é?
— É ISSO MESMO! — Anna gritou, e lágrimas de impotência e raiva queimaram seus olhos. — Eu sou humana! Eu sinto, eu existo! Diferente de você, seu monstro!
A boca da sombra se contorceu em um sorriso que rasgou o espaço mental. — Sério? Eu sou o monstro? Hahahaha...
— SAI DAQUI!
Anna avançou, um grito primal escapando de sua garganta. Ela desferiu um golpe com toda sua vontade, mas seu punho atravessou a figura como se fosse neblina. A inércia a fez tropeçar. A entidade se dissipou e reapareceu instantaneamente atrás dela, colando-se às suas costas, sussurrando na nuca dela.
— Você finge ser a garota confiante, a detetive excêntrica fascinada por mistérios... — A voz era fria como hélio líquido. — Ao mesmo tempo, tenta simular empatia, forjando sentimentos, copiando reações para não ser rejeitada.
A entidade circulou-a, predatória, seus passos criando ondas no chão negro. — Mas não percebe a falha lógica, Anna? As duas máscaras são incompatíveis. Elas não encaixam. A "Gênia Fria" e a "Amiga Emotiva". Você falha em ambas.
Anna girou e chutou, acertando apenas o vácuo. A sombra orbitava, rindo, desconstruindo-a peça por peça. — Pobre criança... Incapaz de se conectar. Incapaz de ter amigos de verdade. Você constrói camadas de mentiras porque sabe a verdade: se eles virem o que está por baixo dessas máscaras, ninguém vai querer te ter por perto. Hahaha.
— JÁ MANDEI CALAR A BOCA! — Anna berrou, a compostura estilhaçada. Seu coração doía fisicamente, uma compressão no peito que tornava o ar rarefeito, irrespirável. Ela caiu de joelhos.
— Veja só... falar deve ser exaustivo para você. Uma vida inteira de silêncio e esquecimento... Mas não tema. Seu "irmãozão" vai brincar com você agora. Só espere meu Avatar terminar a fusão.
A sombra cresceu, preenchendo o horizonte mental, tornando-se um titã. — Falando em Avatar, preciso admitir: você encontrou uma joia rara. Aquele garoto, Dante... a mente dele é um labirinto de traumas fascinante. — A entidade inclinou-se, íntima e cruel. — Ele é o par perfeito para você. Dois brinquedos quebrados, peças defeituosas tentando formar um todo... Seria poético se não fosse patético. Hahahaha!
— EU MANDEI VOCÊ SE CALAR!
Uma onda de choque dourada explodiu do núcleo de Anna. Não foi um ataque físico; foi uma rejeição existencial violenta. O espaço mental trincou como um espelho e explodiu em fragmentos de luz e memória.
PLAF.
Anna foi arremessada de volta à realidade. O chão de metal frio bateu contra seus joelhos com força. Seu corpo estava fraco, trêmulo, coberto de suor frio, à beira do colapso.
— Anna! Você está bem?! — Sora estava ao seu lado num instante, amparando-a pelos ombros.
O mundo parou. O zumbido verde continuava, indiferente. Danael, Leon, Nyan, Alphonse... todos pararam e a encaravam.
Anna levou a mão ao peito, puxando o ar com dificuldade, os olhos arregalados e vazios. Por um segundo eterno, a máscara caiu. Não havia a detetive genial. Não havia a excêntrica misteriosa. Havia apenas uma menina aterrorizada, frágil como vidro, com os lábios tremendo prestes a chorar diante do abismo que só ela via. O medo em seu rosto era cru, feio e humano demais.
Ao perceber o peso dos olhares sobre sua pele exposta, o sistema de defesa de Anna disparou. O instinto de sobrevivência superou o trauma. Ela se endireitou bruscamente, rejeitando o toque de Sora como se queimasse. Virou-se de costas para o grupo. Inspirou profundamente, engolindo o choro com uma violência interna dolorosa.
Um. Dois. Três.
Quando ela se virou para eles novamente, o sorriso enigmático e blindado estava de volta, colado ao rosto com cola fresca, embora seus olhos ainda estivessem vermelhos.
— O inimigo... astuto como é... tentou neutralizar a mente mais brilhante da sala. — A voz dela saiu um pouco aguda demais, mas firme. — Terei que dar o devido crédito pela audácia.
O grupo relaxou visivelmente. Sora soltou o ar que prendia. Eles foram confortados pelo retorno da excentricidade familiar.
Danael, no entanto, não relaxou. Ele continuou encarando-a com os olhos semicerrados. Aquela fração de segundo de vulnerabilidade crua não passara despercebida pelo detetive. Ele viu a rachadura na porcelana. Mas decidiu escolher o silêncio.
— Bom... mas o que devemos fazer a seguir? — perguntou Leon, quebrando o silêncio desconfortável, a mão ainda na espada.
Danael guardou o comunicador, retomando o controle. — Devemos ir até a Sala de Transmissão Central. Precisamos acessar as câmeras internas se quisermos encontrar Benedetta.
Todos concordaram com acenos de cabeça. A marcha recomeçou pelo extenso corredor esverdeado, o som de passos metálicos ecoando.
Anna seguia um passo atrás de todos. O sorriso em seu rosto permanecia fixo, uma pintura perfeita. Mas suas mãos, enterradas fundo nos bolsos do casaco, tremiam violentamente, as unhas cravadas na carne para lembrar a si mesma que ainda era real.
Eles avançavam rapidamente, o som de seus passos ecoando no metal, quando o mundo parou.
Não houve barulho. Não houve aviso. No limiar da escuridão do corredor, bloqueando a única rota de fuga como um espectro, uma silhueta emergiu. Ela não caminhava; ela existia estática, como se o espaço ao redor dela tivesse medo de se mover.
A mulher possuía cabelos brancos que pareciam feitos de platina líquida, drenando a pouca luz verde do ambiente. Seus olhos vermelhos brilhavam com a intensidade de rubis sob um holofote, frios e famintos. Sua pele, de uma palidez cadavérica, contrastava com o ar que, subitamente, tornou-se gélido, fazendo a respiração de todos virar vapor.
Danael sentiu um calafrio percorrer não sua pele, mas sua medula. Seus instintos de detetive, lapidados por anos caçando criminosos, gritaram uma única palavra: PREDADOR.
— Alguém a reconhece? — A voz de Danael saiu tensa, baixa, a mão indo instintivamente para o coldre.
— Não... — O sussurro coletivo foi trêmulo.
Danael analisou a postura dela. Relaxada. Mãos soltas. Nenhuma guarda levantada. A arrogância de quem não vê ameaça. — Então só pode ser problema. VOLTEM AGORA!
O comando foi um estalo de chicote. O medo primitivo tomou conta, e eles giraram, forçando as pernas a bombear adrenalina.
— Se ela é a assassina, deveríamos lutar! Estamos em vantagem numérica! — reclamou Leon, a mão no cabo da espada, embora seus pés obedecessem à ordem de fuga.
— Esqueça a honra, garoto! — Danael negou, sem diminuir o passo. — Tudo aponta para Benedetta. Só quando descartarmos o principal suspeito podemos mudar o alvo. Não lutamos contra variáveis desconhecidas!
— Mas por que estamos correndo?! — Sora perguntou, a voz embargada, olhando para trás. — Ela pode ser apenas um passageiro… Não?
— Infelizmente não — Danael explicou, o suor frio escorrendo pela testa. — Naquela hora que meu comunicador apitou... foi uma mensagem automática do sistema de segurança, para todos os membros da equipe. Setenta por cento das assinaturas vitais do navio sumiram instantaneamente. Uma evacuação forçada via teleporte foi ativada.
— O quê?! — O grito de Alphonse ecoou. — Como isso é possív—
— Não importa o "como"! — Danael interrompeu, ofegante. — O importante é o que isso significa: aquela mulher não foi teleportada. Logo, ela não é uma passageira comum.
— Mas por que nós não fomos teleportados? — Nyan indagou, a pergunta pairando no ar como fumaça.
Danael não respondeu. Ele não sabia, e essa ignorância o aterrorizava mais do que qualquer monstro.
O arrepio coletivo foi interrompido por Anna, olhando para trás com seus olhos analíticos. — Ela não está nos perseguindo.
Danael olhou por cima do ombro. A mulher estava estática no fim do corredor, a cinquenta metros de distância. Mas o ar ao redor dela... O ar começou a vibrar. Um zumbido elétrico, agudo como o zunido de mil vespas, preencheu o corredor. Pequenos arcos de eletricidade azul começaram a dançar no chão de metal. O cheiro de ozônio saturou o ambiente em um segundo.
— Droga... — Danael sentiu os pelos do braço se eriçarem com a estática. Seus olhos se arregalaram. — ABAIXA!
Ele agarrou Sora e Anna, arremessando-as contra a parede lateral com violência brutal, tirando-as da linha reta.
CRAAAAACK!
O mundo ficou branco. Não foi um raio comum; foi uma lança de energia pura que rasgou o espaço entre eles. O som do trovão confinado no corredor de metal explodiu os tímpanos de todos, um BOOM sônico que fez os dentes vibrarem.
Danael gritou quando o calor cauterizou a pele de seu braço de raspão. Leon, Nyan e Alphonse foram jogados como bonecos de pano pela onda de choque, corpos convulsionando enquanto arcos voltaicos remanescentes dançavam sobre suas roupas.
No epicentro da descarga, onde o raio havia terminado — exatamente onde o grupo estava um segundo atrás —, a eletricidade não se dissipou. Ela se condensou. O raio espiralou, freou e solidificou. A forma de luz tornou-se carne. Lucia estava lá. Ela havia viajado através do relâmpago.
Danael tentou se erguer, mas seus nervos estavam em curto-circuito, os músculos tremendo e recusando comandos. — Gifted... — ele cuspiu sangue, o gosto de cobre na boca.
Lucia varreu o grupo caído com um olhar de desdém absoluto, limpando uma partícula de poeira imaginária de seu ombro. — Conveniente. — Sua voz era suave, culta e terrível. — Meus alvos ainda não foram teleportados pelo "Capitão".
Seus olhos vermelhos se afiaram, focando em Alphonse e depois em Anna. "Quem é o alvo?" — A pergunta mental atingiu Danael. — "Ela veio buscar algo específico."
Lentamente, com uma elegância letal, Lucia levou a mão à cintura. O som do metal deslizando da bainha foi o único ruído no silêncio pós-trovão. Uma rapiera. Fina, longa, brilhando com uma energia azulada que prometia cortar átomos. Ela ergueu a lâmina para o pescoço de Danael. Ele sabia, com uma clareza mórbida, que não conseguiria se mover. Era o fim da linha.
BANG!
Um projétil rasgou o silêncio, visando a têmpora de Lucia. Sem sequer piscar, num borrão de movimento que desafiava a física, a lâmina de Lucia moveu-se. Tlim. Ela interceptou a bala no ar, cortando o chumbo ao meio verticalmente. As duas metades tilintaram no chão, inofensivas.
Todas as cabeças giraram para a origem do tiro. Saindo das sombras densas, com a fumaça saindo do cano de sua pistola e um sorriso insolente nos lábios, estava um homem de sobretudo longo e aura verde.
— Calma lá, Milady. — Drake Dampier girou a pistola no dedo indicador antes de guardá-la, a atitude exalando uma arrogância quase palpável. — Onde estão seus modos? Apresentações antes de execuções. Regra básica de etiqueta em qualquer navio.
Lucia o encarou. Nenhuma surpresa. Apenas um tédio letal renovado. — Se eu desperdiçasse segundos com cada verme que preciso esmagar, ficaria parada no tempo, Pirata.
Drake soltou uma risada rouca, caminhando para frente, colocando-se entre o monstro e o grupo de Danael. — Ah, mas o desperdício de tempo não é o maior privilégio dos imortais?
Os olhos de Lucia se estreitaram perigosamente. Ela deslizou para trás, criando espaço. — Como você sabe sobre isso?
Drake, com um floreio teatral, sacou sua espada pirata — uma lâmina curva, negra, pulsando com Éter verde. O aço cantou ao sair da bainha. — Só há um jeito de descobrir, querida... Concede-me esta dança?
Lucia assumiu a postura de esgrima, a ponta da rapiera vibrando. Drake relaxou os ombros, uma postura enganosamente aberta e bêbada. Auras começaram a vazar dos corpos — um verde-esmeralda denso e caótico contra um azul elétrico crepitante e ordenado. A pressão no corredor aumentou até se tornar sufocante, amassando as paredes de metal.
"Parece que consegui a atenção dela. Agora é rezar para não morrer nos próximos dez segundos" — pensou Drake.
Eles desapareceram.
O corredor se tornou um estroboscópio de violência. Não eram golpes visíveis; eram feixes de luz colidindo. Faíscas verdes e azuis explodiam como fogos de artifício letais a cada impacto. O som do metal contra metal não era ritmado; era um grito contínuo, agudo.
Lucia era a tempestade — rápida, precisa, linear, avassaladora. Drake era o mar revolto — absorvendo o impacto, redirecionando a força, girando, dançando no fio da navalha.
— Habilidoso... — A voz de Lucia surgiu ao pé do ouvido dele, acompanhada de uma estocada que rasgou o colarinho de couro de Drake. — Para um pirata.
Ela acelerou. O mundo de Drake virou um borrão azul. Ele viu o golpe fatal vindo; rápido demais para aparar com a espada, rápido demais para esquivar. Mirava seu coração.
Em um milissegundo de insanidade tática, Drake fez a escolha. Ele não recuou. Ele avançou. Drake girou o torso minimamente, sacrificando a defesa. SHLICK. A lâmina de Lucia perfurou seu ombro esquerdo. O aço atravessou músculo, raspou no osso e saiu pelas costas.
Lucia sorriu, o triunfo brilhando nos olhos. Ela tinha prendido a presa. O sorriso de Drake, entretanto, foi selvagem. — Te peguei.
Com o braço direito livre, ele não atacou com a espada. Ele sacou a pistola novamente, que estava escondida sob o casaco, e pressionou o cano frio diretamente contra o abdômen dela. Os olhos de Lucia se arregalaram em compreensão tardia.
— Nunca leve uma espada para um tiroteio, querida.
BOOOOM!
O disparo à queima-roupa foi ensurdecedor. A bala não era comum; estava superaquecida e envolta em todo o Éter verde que Drake conseguiu concentrar. A detonação lançou Lucia para trás como se tivesse sido atingida por um trem de carga. Ela atravessou uma, duas, três paredes de aço, sumindo em meio a uma nuvem de escombros e poeira de concreto.
Drake desabou de joelhos, o sangue jorrando do ombro destruído, a espada caindo de sua mão. — Cof... Não espere honra... de um pirata... — Ele rangeu os dentes, forçando-se a ficar de pé, cambaleando, segurando o ferimento.
Ele se virou para o grupo, que assistia à cena paralisado. — O QUE ESTÃO ESPERANDO?! CORRAM AGORA!
Eles despertaram do transe, levantando-se aos tropeços. — Você não vai ficar sozinho com aquela coisa! — gritou Leon, dando um passo à frente.
Drake nem se deu ao trabalho de responder com gentileza. — Oh, garoto burro! Sai daqui ou vai morrer! — Sem ligar para o orgulho, Drake se virou e saiu correndo o mais rápido que podia, acompanhando Danael, que estava na frente do grupo.
Vendo a aura elétrica ainda emanando do fundo dos destroços onde Lucia fora jogada, e tremendo mais do que queria admitir, Leon se virou frustrado, agarrando Nyan e correndo.
Enquanto corria sem desacelerar o passo, Drake enfiou a mão no bolso manchado de sangue e arremessou um diário de couro gasto para Danael. — Ei! O Sr. Segurança! Pela sua roupa... você é o pai da Sofia, certo?
Danael pegou o caderno no ar. O nome de sua filha, dito por aquele estranho, atingiu-o com mais força que o raio de Lucia. — Qual sua ligação com ela?! Onde ela está?!
— Leia o diário e você vai entender tudo... — respondeu Drake, virando os olhos para trás por cima do ombro. A poeira onde Lucia caíra começava a brilhar em azul forte. — Vocês precisam pegar o cúmplice! Mantenham a Horizon longe dele! Agora SUMAM DAQUI!
O corredor atrás de Drake começou a chiar. A temperatura despencou. Lucia estava se erguendo dos escombros. Suas roupas estavam rasgadas, mas sua pele pálida estava intocada. A eletricidade ao redor dela agora estava descontrolada, furiosa, crepitando como chicotes.
Um trilho de raios se formou no ar, mirando as costas de Alphonse, que era o último da fila. De repente, o corpo de Lucia se desfez, virando eletricidade pura que percorria os trilhos elétricos em uma velocidade sobrenatural.
Drake girou. Ignorando a dor, ele interceptou o raio com a lâmina de sua espada, como um rebatedor de baseball acertando um home run.
ZZZZT!
A força do impacto jogou a garota novamente para trás, assim como o rebote lançou Drake violentamente na direção oposta.
— VÃO! — Ele rugiu, a voz falhando.
O grupo obedeceu, mergulhando em uma passagem de manutenção lateral. Mas Danael travou na porta antes que ela se fechasse. Ele olhou para trás, apertando o diário com força. — MINHA FILHA... ELA ESTÁ BEM?!
Drake, sem olhar para trás, limpou o sangue que escorria do queixo. Ele se levantou, trêmulo, mas ereto. — Faça o que está escrito aí, e ela ficará bem!
— Você garante isso?!
— A palavra de um pirata não vale muito... — Drake riu, um som seco e amargo. — Mas eu dei minha palavra a ela. E essa eu pretendo cumprir até o inferno congelar.
Danael assentiu, um entendimento silencioso passando entre os dois homens. — Obrigado. — Ele mergulhou na escuridão da passagem, as portas de aço se fechando e selando o destino de Drake.
Drake ficou sozinho na ruína do corredor. Lucia emergiu completamente da nuvem de poeira. A aura dela estava aumentando. — Por que um pirata está interferindo? — A voz dela vibrava com estática, distorcida pela raiva. — Você não tem nada a ganhar aqui além de uma cova.
Drake sorriu, girando o ombro ferido para testar o limite da dor. A dor era boa. A dor o mantinha focado. — Bom, Milady... Digamos que eu fiz uma aposta. E para ganhar, receio que terei que adiar a morte daquele Avatar.
Lucia entendeu. Sua aura explodiu, saturando cada centímetro do corredor com uma voltagem capaz de vaporizar aço. — Não sei como obteve essas informações... mas agora, não posso permitir que sua cabeça permaneça sobre seus ombros.
— Pois então venha! E não ouse se conter!
Drake ergueu a espada na mão direita e a pistola na esquerda. Seus olhos verdes brilharam com uma loucura desafiadora. — Mas deixo o aviso, sanguessuga: se nem as chamas do inferno e nem as profundezas do oceano conseguiram clamar a alma deste pirata... eu duvido muito que seja uma vampirinha elétrica que vai conseguir!
— MORRA!
As auras colidiram. Verde contra Azul. O corredor desapareceu em um clarão de luz branca e som de trovão.
Parte 3
De volta aos depósitos de carga
O silêncio era uma entidade pesada, interrompido apenas pela respiração descompassada e áspera dos combatentes. A tensão entre os dois grupos parecia sólida, uma corda de violino esticada a ponto de arrebentar e cortar gargantas.
Chuya e Luck se mediam. Músculos rígidos, suor frio escorrendo, Éter queimando nas pontas dos dedos. Estavam prontos para reiniciar a batalha a qualquer milissegundo.
Chuya afastou o cigarro dos lábios, a fumaça desenhando espirais no ar estagnado. Seu próximo movimento já estava engatilhado, quando a realidade ao redor deles estremeceu.
ZUUUM.
Não foi um som; foi uma vibração óssea. A aura verde de Drake explodiu a partir do centro do navio, não como um ataque direcionado, mas como uma maré invisível varrendo o Titanic de proa a popa. A pressão atmosférica despencou instantaneamente. O ar vibrou em uma frequência baixa e gutural, fazendo as luzes de emergência piscarem e morrerem, substituídas por um brilho esmeralda que emanava das próprias paredes, banhando o metal frio do depósito.
O instinto de sobrevivência falou mais alto. Chuya saltou para trás, as solas das botas chiando no chão, os olhos semicerrados contra a pressão espiritual esmagadora. Luck reagiu em espelho, recuando num movimento fluido para se colocar como escudo humano entre a onda de energia, Kurokawa e a inconsciente Benedetta.
O silêncio que se seguiu foi sepulcral. O verde pulsava nas paredes como sangue em veias expostas.
— Mas que diabos foi isso?! — A voz de Chuya rasgou a calmaria forçada. Seus olhos varriam as sombras projetadas pela luz nova, procurando ameaças.
— O que foi que vocês fizeram? — perguntou Chuya, também tentando entender o que havia acontecido.
Luck manteve a guarda alta, mas as chamas azuis em seus dedos oscilaram, perdendo a intensidade. — Acha que fomos nós? Não seja idiota — retrucou Luck. — Esse Éter... é completamente diferente do meu.
— Ele tem razão.
A voz de Miguel cortou o ar, monótona e tranquila, como se estivesse comentando sobre a previsão do tempo. Ela estava sentada na pilha de caixas, encarando o teto metálico onde resquícios daquela energia verde ainda pulsavam como fantasmas.
Chuya virou a cabeça bruscamente para ela, uma veia saltando na têmpora, denunciando seu limite de estresse. — Sério que você vai abrir a boca só para concordar com o inimigo, sua traidora?! — resmungou ele, embora a agressividade em sua voz já estivesse dando lugar à exaustão.
Internamente, o instinto de Chuya gritava que eles estavam certos. Aquele poder não pertencia a nenhum dos presentes.
— Droga... O pior é que o ruivinho está certo.
Chuya soltou um suspiro longo, deixando os ombros caírem alguns centímetros. Com um movimento de desdém, jogou o cigarro fora, observando a brasa se apagar no chão metálico agora esverdeado. "Julgando pelas perguntas idiotas que eles fizeram antes e pela cara de pânico, tem chance deles serem realmente apenas passageiros azarados... Mas isso não explica por que estão protegendo uma Oficial da Máfia".
Do outro lado, Luck percebeu a mudança sutil na linguagem corporal de Chuya. A postura de ataque havia se desfeito; restava apenas a cautela de um predador confuso.
— Kurokawa... — Luck sussurrou, sem desviar os olhos de Chuya. — Você tinha razão. Algo estranho está realmente acontecendo. Fala aí, o que você acha?
Kurokawa estendeu a mão nua, analisando as partículas de Éter verde que se dissipavam no ar como poeira luminosa. Seus olhos tentavam decifrar o enigma. — Eu não sei. Tudo ainda está muito confuso.
"Parece com a sensação de estar em uma 'Black Box', tipo a da Torre de Dates" — Luck tentava entender o que estava acontecendo. Mas, na hora que relembrou da torre, o peso do trauma antigo roçou sua mente, por isso ele decidiu guardar a suspeita, sem saber como Kurokawa iria reagir.
BIP. BIP. BIP.
O som eletrônico agudo quebrou o clima místico, vindo dos comunicadores de Chuya e Miguel em uníssono. A mensagem automática acabou sendo reproduzida por seus comunicadores; a voz sintética da I.A. ecoou no depósito vazio, fria e indiferente ao caos, mas com aquela distorção rouca de pirata ao fundo:
"Atenção. Protocolo de Evacuação Forçada Iniciado. 70% dos passageiros evacuados. Destino: Seguro. O resto... boa sorte."
A informação pairou no ar, pesada como chumbo. Chuya e Luck trocaram um olhar que transcendia a rivalidade: a pura descrença.
— Setenta por cento?! — Chuya passou a mão pelos cabelos brancos, rindo de nervoso. — Bom, não posso mais esperar para não chegar no "pior cenário". Já estamos atolados nele até o pescoço.
Ele pescou um novo cigarro do maço, mas não o acendeu. Apenas o girou entre os dedos, um tique nervoso para ajudar a raciocinar em voz alta. — Agora só tem duas opções: ou os mandachuvas descobriram a verdade sobre a invasão e teleportaram todos para evitar um massacre, ou outra pessoa fez uma besteira maior que a minha.
Miguel então se levantou. — Ou alguém tomou controle sobre o navio.
— Impossível — Chuya respondeu, embora, olhando em volta para o navio com aura verde, ele mesmo começasse a ter dúvida sobre o que realmente era impossível. — De qualquer forma... sinto que meu bônus de fim de ano já era.
Ele moveu novamente o olhar, fixando-o em Luck e Kurokawa com uma seriedade nova, afiada. — Escutem. Já percebi que vocês não são da Máfia. Mas também vejo que não são passageiros comuns. Então, eu quero a verdade, aqui e agora: que diabos está acontecendo?
Luck, percebendo a abertura e a sinceridade bruta do oponente, deixou as chamas azuis se extinguirem completamente. Baixou os punhos, um gesto universal de trégua. — Isso é o que a gente queria saber também.
— Olha, eu estou dando o braço a torcer aqui — disse Chuya, levantando as mãos vazias, palmas à mostra. — Estou escolhendo confiar ao invés de continuar lutando e gastando energia à toa numa luta que não vai pagar minhas contas. Mas se vocês não abrirem o bico, ficaremos estagnados aqui até o navio afundar ou explodir.
Kurokawa deu um passo à frente, sua voz calma servindo como âncora no meio da tempestade. — De fato, não sabemos de nada concreto. Chegamos aqui de surpresa por conta de um teleporte feito por... Alaya. Nos separamos do nosso grupo e acabamos no meio desse ataque terrorista.
Ao ouvir o nome "Alaya", o Rei Demônio Louco, um calafrio percorreu a espinha de Chuya. "Ótimo", pensou ele, massageando as têmporas. "Agora tem Reis Demônios envolvidos". Ele decidiu arquivar essa informação numa gaveta mental trancada para preservar sua sanidade.
— E essa garota? — Chuya apontou o queixo para o corpo inerte de Benedetta. — Vocês dizem que não sabem de nada, mas estão carregando uma das chefes da operação nas costas.
— Acontece que ela nos salvou — explicou Luck, o tom sério e defensivo. — Ela usou poderes para matar os próprios companheiros que nos atacavam. Além disso, a aura que ela emanou... era idêntica à de uns companheiros nossos e a um incidente no qual acabamos envolvidos. Precisamos saber a relação dela com eles. Por isso, temos que levá-la viva até eles.
— Ela matou os próprios companheiros? — Chuya franziu a testa, a confusão genuína suavizando suas feições duras. — Fogo amigo? Isso não parece com os Salazar. Eles são cães leais...
Ele suspirou. — Bom, entendi em parte a bagunça. Dessa vez, vou manter minha palavra. O inimigo do meu inimigo é meu problema para depois. Agora, preciso confiar em vocês para sairmos desse impasse.
— Algo a sugerir? — perguntou Luck.
Chuya olhou para Miguel. A garota continuava com sua expressão vazia, balançando as pernas, alheia à gravidade da conversa e chupando um novo pirulito. — É tão reconfortante discutir estratégias com alguém que te responde... — ironizou Chuya para o nada.
Luck piscou, confuso com a dinâmica da dupla, mas Chuya retomou o foco, a voz assumindo um tom de comando prático: — Esquece ela. O plano é o seguinte: como todos estamos no escuro, sugiro que vamos até a Sala de Transmissão Central. De lá, invadimos o sistema de câmeras de segurança.
— Para ver o quê? — indagou Luck.
— O panorama geral. O que aconteceu com o navio, onde estão os outros oficiais e, principalmente, encontrar os amigos perdidos de vocês.
Os olhos de Kurokawa brilharam. A lógica era sólida. — Entendi. Podemos usar as câmeras para localizar o Dante e o grupo da Anna.
— Bingo — disse Chuya, estalando os dedos.
— Mas... — Luck interrompeu, a desconfiança ainda sombreando seu olhar. — Como vamos saber que você não vai tentar matar ela no meio do caminho?
Chuya encarou Luck. Olho no olho. Fogo contra fogo. — Confiança é uma via de mão dupla, ruivinho. Eu estou apostando minha vida que vocês não vão me apunhalar pelas costas, então vocês terão que engolir o orgulho e confiar que eu não sou um traidor barato.
Luck avaliou o homem de cabelos brancos. A jaqueta desleixada, a postura de delinquente preguiçoso...
Nesse momento de hesitação, Miguel, por um milagre divino, decidiu intervir. Ela desceu da caixa com um pulo leve. — Está tudo bem.
Todos os olhares se voltaram para a pequena figura loira. — Apesar de parecer um idiota, o Chuya é confiável.
Chuya travou. O elogio torto pairou no ar por um segundo antes de ele explodir. Ele avançou sobre ela, apertando as bochechas inexpressivas de Miguel e puxando-as com força, numa mistura de frustração e camaradagem estranha.
— Você fala pelos cotovelos com os outros para me insultar, mas comigo é um túmulo, né?! — Chuya reclamava, esticando o rosto de borracha da garota enquanto ela permanecia impassível. — E ainda vive me chamando de idiota na frente dos civis! Acho que estou começando a entender... você tem algo pessoal contra mim, não é, tampinha?! É porque eu ri do seu nome?! DIGA ALGO!
Miguel não respondeu, apenas deixou ser balançada como uma boneca de pano, os olhos mortos fixos no nada, o pirulito balançando na boca.
Vendo aquela cena, Luck soltou um suspiro longo, sentindo a tensão assassina evaporar de seus ombros. Era impossível manter a guarda alta diante daquilo. — Tudo bem, você tem razão. — Luck relaxou a postura de vez. — Não vamos conseguir nada parados aqui. Eu confio.
Chuya soltou o rosto de Miguel, que voltou ao normal instantaneamente, e se jogou na direção de Luck em um salto, estendendo o punho fechado. — Sábia decisão.
Luck tocou o punho dele com o seu. TUM. Um pacto silencioso selado entre chamas azuis e laranjas.
— Bom, então vamos logo acabar com isso — disse Chuya, ajeitando a gola da jaqueta e retomando a liderança, caminhando em direção ao corredor principal. — Pois eu odeio trabalhar pós-expediente.
O grupo começou a se mover, os passos ecoando ritmados no metal. Luck carregava Benedetta com cuidado, Chuya ia à frente abrindo caminho como um farol, e Miguel seguia como uma sombra silenciosa.
Kurokawa, no entanto, ficou parada por um segundo a mais. O corredor estava vazio, mas a atmosfera verde parecia espessa, carregada de segredos. Ela olhou para as costas de Benedetta, balançando inerte nos ombros de Luck.
Uma sensação incômoda apertou seu peito, fria e aguda como uma agulha. "Tem algo errado..." — pensou ela, franzindo a testa, os olhos estreitos em suspeita clínica. — "Estou esquecendo de algo. Um detalhe importante que passou despercebido no meio da confusão..."
Ela pensava parada. "70% dos civis foram evacuados? Mas por que nós não fomos? Será que isso novamente tem conexão com aquele incidente de 20 anos atrás?" Kurokawa sentia que deixou passar algum detalhe importante que estava diante de seus olhos.
"Além do mais, se na batalha que estava acontecendo tínhamos dois grupos, os mafiosos e membros da tripulação, e Benedetta estava atacando os mafiosos, isso significava que ela não estava com eles. Mas se Chuya também não sabia sobre ela ser traidora..." Ela percebia que algo nas ações de Benedetta não se encaixava.
"Então ela também não estava com o navio? Ela realmente decidiu atacar todo o exército sozinha? Se ela era uma oficial, ela devia conhecer o poder do próprio grupo. Então por que fazer algo tão desesperado... ou será que ela não está sozinha?"
A intuição gritava que aquele detalhe esquecido faria uma diferença fatal, mas a memória lhe escapava como fumaça entre os dedos.
— Kurokawa? Vem! — a voz de Luck a chamou, já distante.
— Estou indo!
Ela correu para alcançá-los, deixando a escuridão do depósito para trás. Mas a sombra da dúvida se agarrou a ela, prometendo não ir embora tão cedo.
Parte 4
Nos corredores onde a batalha fervia, o som do impacto final não foi apenas metal contra metal; foi o som de ossos protestando contra a física.
Dante foi arremessado para trás, suas botas rasgando sulcos profundos no chão de aço até que o atrito o forçasse a parar, a metros de distância. O ar queimava em seus pulmões, misturado com o gosto acobreado de sangue e a eletricidade estática do Éter verde que saturava o navio. Mas havia algo diferente.
Seus olhos, antes nublados pela dúvida e pela apatia suicida, agora brilhavam com uma ferocidade límpida. Mio também ofegava, o peito arfando, a pele voltando para a carne. A garota sentiu um calafrio percorrer sua espinha; não esperava que aquele garoto possuísse um abismo de energia tão vasto. E o pior: o Éter dele não minguava com a dor. Pelo contrário, tornava-se mais denso.
Dante olhou para as próprias mãos. Elas tremiam incontrolavelmente, espasmos de adrenalina pura. Mas o barulho estático em sua mente havia desaparecido. Ele se ergueu, limpando um filete de sangue do canto da boca com as costas da mão.
— Você é forte... — Dante murmurou, a voz rouca.
Então, a máscara de trauma trincou. Um sorriso pequeno, quase imperceptível, mas dolorosamente genuíno, curvou seus lábios inchados.
Mio arregalou os olhos levemente. Aquele não era o sorriso falso de antes. — Olha lá... — Ela soltou uma risada curta, o corpo relaxando por uma fração de segundo. — Até que você consegue dar um sorriso de verdade, Lobo de Latão.
— Acho que tenho que agradecer a você — admitiu Dante, o Éter vermelho crepitando suavemente ao seu redor. — Mas não espere clemência só porque estamos nos entendendo.
Mio sorriu de volta, mostrando os dentes caninos. Um sorriso predatório e feroz. — Se parasse só por isso, na verdade, eu ficaria insultada.
O ar entre eles vibrou, saturado de expectativa. Eles eram dois cometas em rota de colisão final. Mio flexionou os joelhos. Dante cerrou os punhos.
— ESPEREM! PAREM VOCÊS DOIS!
O grito rasgou a tensão como uma pedra quebrando uma vitrine. Remi e Sofia surgiram na curva do corredor, a urgência estampada em seus rostos sujos de fuligem. Remi estancou imediatamente, a mão voando para o cabo da espada, os olhos de águia varrendo o cenário de destruição para identificar o perigo.
— Qual deles é a ameaça?! — perguntou a imediata, focando a intenção assassina em Mio.
— Nenhum deles! — gritou Sofia, lançando-se na frente de Remi com uma imprudência desesperada.
Dante focou na garota de cabelos verdes. A imagem do cassino, o caos, a garota correndo, o aviso sobre "Todos morrerem"... tudo convergiu num estalo. — É você... — Dante baixou a guarda, o Éter dissipando-se levemente.
Sofia não respondeu. Ela caminhava na direção de Dante como se estivesse em transe, ignorando o campo de batalha, os destroços e o sangue.
Mio, vendo uma variável desconhecida e civil se aproximar de seu protegido, agiu por instinto puro. — Ei! — Mio avançou, interceptando o caminho. Sua mão disparou e fechou-se como uma garra de ferro no braço fino de Sofia. — Onde pensa que v—
A frase morreu na garganta de Mio, asfixiada. Sofia virou o rosto para ela. Não houve agressividade nos olhos da garota de cabelos verdes. Não houve o medo comum de uma civil diante de um Gifted. Havia apenas uma exaustão tão pura, tão antiga e dolorosa, que atingiu Mio como um impacto físico no estômago.
Mio soltou o braço dela instintivamente, recuando um passo, a pele arrepiada. Era como tocar um fantasma. Livre, Sofia continuou sua peregrinação até Dante. Ela parou diante dele, trêmula, lágrimas acumulando-se como orvalho nos cantos dos olhos.
— Por que é sempre assim...? — A voz de Sofia quebrou, frágil como vidro. — Sempre que eu te encontro, você está lutando. Sangrando. Ou caminhando para a morte.
Dante franziu a testa, uma confusão gelada se instalando em seu peito. — Do que você está falando? Nós... já nos encontramos antes?
— Para você, esta é a primeira vez. — Sofia levantou as mãos, hesitando, como se ele fosse desaparecer se ela o tocasse. — Mas eu te conheço.
Mio, recuperando-se do choque momentâneo, sacudiu a cabeça. — Ei! Se afasta del—
CLANG.
Aço cantou contra o ar. Remi bloqueou o caminho de Mio, espada desembainhada, a ponta a centímetros da garganta da ruiva. Um sorriso frio e profissional nos lábios. — Um passo a mais e você perde o pé.
— Sai da frente ou eu vou te fazer voar — rosnou Mio, sua pele assumindo o brilho letal do metal.
— Perdão, querida — respondeu Remi, irremovível como uma rocha. — Mas tenho ordens estritas do meu Capitão. Ninguém toca nela.
— Está tudo bem, Mio! — Dante gritou.
O silêncio caiu, pesado. As guerreiras pararam, armas em punho, medindo-se. — Você é idiota?! — gritou Mio, a frustração evidente. — É minha missão te manter vivo! Essa garota e essa espadachim são suspeitas!
— E parece que ela quer me ferir? — Dante rebateu, a voz calma ancorando a cena.
Mio olhou para Sofia novamente. Lembrou-se do vazio naqueles olhos. Não era malícia. Era luto. Mio bufou, desativando a pele de metal, mas mantendo os punhos cerrados. — Se ela tentar qualquer gracinha, eu quebro ela.
Sofia ignorou a ameaça. Toda a sua existência estava focada em Dante. — Você sempre é assim... — Sofia resmungou. — Mas me diz... como consegue ter tanta certeza de que não vou te machucar?
Dante encarou Sofia. Ele viu além da superfície. — Os seus olhos não são de alguém que quer lutar — disse Dante, suavemente. — São os olhos de alguém que está se afogando e precisa desesperadamente de uma mão para não afundar.
Sofia soltou um sorriso triste, desprovido de alegria, carregado de uma ironia amarga. — Sabe... eu diria que seus olhos são espelhos perfeitos dos meus.
Dante retribuiu com o mesmo sorriso melancólico. — Eu realmente sinto muito, Dante Scarlune — sussurrou Sofia, as mãos pairando a centímetros das têmporas dele, o Éter verde começando a brilhar na ponta de seus dedos. — Eu sei que isso será violento. Vai doer. Vai parecer que sua cabeça está sendo partida ao meio. Mas me disseram que você era a única chave para essa fechadura.
— Quem te disse isso? — perguntou Dante.
— Você.
O mundo parou. Antes que Dante pudesse processar o paradoxo, Sofia tocou seu rosto com as duas mãos.
FLASH.
Não foi uma transmissão telepática suave; foi uma violação. A barreira entre mentes se estilhaçou. Uma represa de tempo rompeu-se sobre a consciência de Dante.
Memórias que não eram dele — mas que possuíam seu DNA emocional — invadiram seu córtex como um vírus.
Ele viu o fim. Viu o céu do navio se rasgar. Viu o monstro de sombras e geometria dourada, o Astreus, devorando a luz e a lógica. Sentiu o cheiro de ozônio, enxofre e sangue. Viu o corpo de Drake, quebrado e sem vida, a moeda do caos caída ao lado. Viu Mio perfurada por lanças de luz, a luz de seus olhos se apagando. Viu Remi cair protegendo Sofia. Ouviu o grito de Kurokawa, um som que rasgava a alma.
E viu a si mesmo. Morrendo. De novo. E de novo. Decapitado. Esmagado. Desintegrado. Mil mortes em um segundo.
Sua cabeça parecia prestes a ruir.
Em um fragmento de memória vívido, um Dante mais velho, coberto de sangue e desespero, agarrava os ombros de Sofia em meio a um apocalipse flamejante:
"Eu descobri, Sofia! Esse é o único jeito! Eu preciso fazer a fusão antes que aquele monstro se complete! Você precisa me fazer lembrar na próxima volta! Não importa o custo! ME FAÇA LEMBRAR!"
E então, a escuridão absoluta.
No mundo real, o corpo de Dante colapsou nos braços de Sofia. Ele gritou, um som gutural, e caiu de joelhos. Mas sua mente já não estava lá.
O mundo era água.
Dante estava se afogando, retornando ao pesadelo familiar que o assombrava desde a morte dela. O oceano escuro, denso e frio o envolvia, a pressão esmagando seus pulmões, comprimindo sua existência. Ele tentava nadar para cima, mas correntes pesadas, feitas de culpa e luto, agarravam seus tornozelos, arrastando-o para o fundo abissal.
Ele abriu a boca para gritar, mas a água invadiu sua garganta, salgada como lágrimas, gélida como a morte.
"Desista," a escuridão sussurrava, sedutora. "É tão mais fácil apenas afundar. Ela está aqui embaixo. Venha dormir."
Mas outra voz perfurou o silêncio subaquático. Uma voz vinda de cima, distorcida pela refração.
"Aja agora, Dante! Ou então todos que você ama vão morrer de novo! LEVANTE-SE!"
O pânico foi um choque elétrico. Todos vão morrer. Drake. Mio. O navio. Ele começou a se debater. As correntes apertaram, cortando a pele, e o sangue flutuou na água negra como fumaça vermelha. Ele chutou, arranhou, lutou contra a própria inércia com a fúria de quem se recusa a ser esquecido.
Lá em cima, muito distante, havia luz. Uma mão rompeu a superfície da água, estendendo-se em direção a ele através do vácuo líquido. Uma mão pálida, delicada, salvadora.
Dante esticou o braço, os dedos roçando o nada, desesperados. Pelo reflexo distorcido da água, ele vislumbrou o rosto de seu salvador. Cabelos pretos com mechas vermelhas. Olhos gentis e severos. Nero.
O coração de Dante falhou uma batida. Suas forças, esgotadas, incendiaram-se em uma última explosão de saudade e esperança. — Nero! — ele gritou mentalmente.
Ele agarrou a mão com força desesperada.
SPLASH.
Ele foi puxado com violência para fora do abismo. A gravidade inverteu-se. O ar invadiu seus pulmões queimando como fogo, e ele caiu de quatro em uma superfície sólida e macia, tossindo água e bile, o corpo tremendo em espasmos incontroláveis.
Ele abriu os olhos doloridos, a visão turva, desesperado para ver o rosto dela. Para pedir perdão. Para ver Nero mais uma vez. — Nero...? — O nome saiu como uma oração.
Mas quando sua visão focou, o mundo congelou. A realidade pregou-lhe uma peça cruel.
Eles não estavam em um barco. O oceano escuro havia desaparecido, drenado pelo ralo da realidade. Eles estavam em um campo vasto e infinito. Um jardim onírico repleto de flores brancas que balançavam sob uma brisa que não existia.
O céu era um teto branco cheio de portas sem fim, sem nuvens, apenas caminhos silenciosos.
E a garota que segurava sua mão... Ela estava encharcada também, ofegante, o cabelo dourado grudado no rosto e uma expressão visivelmente irritada e confusa. Não era Nero. Era Anna.
Dante recuou, soltando a mão dela como se tivesse se queimado com ferro em brasa, olhando ao redor freneticamente. — O que... o que está acontecendo?
Anna, ajoelhada à sua frente no meio das flores, torceu o cabelo molhado com um gesto pragmático, ignorando o surto dele. Ela respirou fundo, tentando estabilizar a própria mente que acabara de ser arrastada junto com a dele. Quando ela olhou para ele, não havia o sorriso debochado de sempre.
— Eu é que quero saber — disse Anna, olhando para o céu de caminhos infinitos.



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