The Fall of the Stars: Capítulo 2 - Frenesi

Atualizado: 16 de dez. de 2025
Volume 2: Enigma
Parte 1
Passado – Fronteira Marítima entre Alexandria e Elysium
Houve um tempo em que as ondas não pertenciam a nações, mas a um homem.
Em uma ilha estratégica na divisa entre o império científico de Elysium e o reino cavalheiresco de Alexandria, erguia-se o Reino Pirata de Sindria. Ali, o ar era uma mistura perpétua de maresia, pólvora queimada e rum barato. Canhões não eram armas de guerra; eram a trilha sonora ensurdecedora do cotidiano. A cada troar, o horizonte tremia como se o próprio mar estivesse em convulsão.
Para o exército da Távola Redonda de Alexandria, aquela ilha não era apenas um pedaço de terra roubado: era uma ferida no orgulho nacional. Drake Dampier não havia apenas tomado para si parte do reino; ele havia desafiado, com um sorriso insolente, a ordem mundial.
— FOGO!
O mar tremeu. Não apenas com o estrondo, mas com o deslocamento absurdo da água. O Guilhotina dos Reis, o navio mais resistente e lendário que já cruzou os oceanos, rasgava a linha de batalha como um tubarão entre cardumes. A embarcação, apesar de seu casco colossal, manobrava de forma impossível, inclinando-se a ângulos de 45 graus para desviar de torpedos eletromagnéticos de Elysium e de lanças de luz conjuradas pelos feiticeiros de Alexandria. Ele não navegava; ele dançava uma valsa frenética sobre as águas agitadas.
No convés, homens com bandanas encharcadas de suor riam diante da morte iminente.
— Hahaha! Capitão! Já foi mais um navio da vanguarda deles!
A porta de sua cabine se abriu com um rangido profundo. Saindo de seu santuário, Drake estava envolto em uma aura de Éter verde brilhante, tão intensa que a madeira sob seus pés vibrava em ressonância.
— Então estanquem as feridas e continuem! Mas lembrem-se: nada de desperdiçar o rum!
— AYE, CAPITÃO!
A milhas de distância, na nau capitânia da frota de Alexandria, o Cavaleiro Agravain, em sua armadura negra, golpeava o cristal de comunicação.
— Esqueça, Gawain! Não iremos continuar com isso! O flanco esquerdo cedeu!
A voz do outro lado, distorcida pela estática mágica, rugiu de volta, cortando o ar da cabine:
— Você é um covarde, irmão?! Vai mesmo fugir por conta de um único pirata?
— Sou eu quem te pergunto, Gawain! Por acaso esqueceu quem é esse homem? Drake Dampier não é só mais um soldado do mar... Ele é o próprio mal do oceano encarnado!
— Cale-se! — A fúria de Gawain era palpável, atravessando o cristal como uma onda de calor. — Não tema a morte, Agravain! O Ciclo nos trará de volta, como sempre trouxe! Então, nem que você morra, faça seu trabalho de levar todos consigo!
— SENHOR! CUIDADO! ELE FEZ DE NOVO! ESTÁ VINDO NA NOSSA DIREÇÃO! — gritou um vigia no mastro, a voz fina de terror.
Agravain virou-se a tempo de ver um projétil improvável no céu. Não era um míssil, nem uma bola de canhão. Era um barril de pólvora solitário voando em uma trajetória balística perfeita, envolto em Éter verde pulsante. Parecia um meteoro esmeralda.
— É por isso que eu odeio esse maldito... — murmurou Agravain, sabendo que era tarde demais.
KABOOM!
A explosão iluminou o horizonte, transformando a noite em um flash verde-esmeralda e branco-quente. O som engoliu todos os outros. No convés do Guilhotina, a tripulação celebrava com uma euforia bárbara.
— É ISSO! NOSSO CAPITÃO É INVENCÍVEL! A ERA DOS PIRATAS NUNCA VAI ACABAR!
Drake, alheio aos gritos de adoração, apenas arrancou a rolha de uma garrafa de rum com os dentes — um som seco e nítido em meio ao caos — e tomou um longo gole, sentindo o líquido forte queimar na garganta.
— Continuem, homens! Vamos ensinar a esses tolos quem é o verdadeiro Dono desses mares.
Ele girou nos calcanhares com a precisão de um dançarino e voltou para sua cabine. Mas, ao cruzar a soleira, o cheiro de pólvora sumiu, substituído por um perfume de rosas.
Sentada em sua mesa de guerra, com a naturalidade de quem ocupa um trono há séculos, estava uma figura feminina. As pernas longas e elegantes estavam cruzadas sobre os mapas de batalha rabiscados com coordenadas; o rosto, uma máscara de indiferença estudada, estava apoiado na mão.
Drake parou, limpando o rum dos lábios com as costas da mão. O sorriso malicioso não vacilou, mas seus olhos, sob a sombra do chapéu, ficaram intensos e frios.
— Olha só... Não me recordo de ter encomendado companhia de luxo para esta noite. — Ele sorriu, mas sua mão pairou perto da espada. — Poderia me dizer como passou pelas minhas barreiras, senhorita?
A mulher retirou os pés da mesa lentamente, cada movimento calculado para capturar a atenção. Ela se levantou, revelando uma estatura surpreendente.
— Me diga, Drake... Você se lembra de mim?
Drake caminhou em sua direção, fechando a distância até ficar frente a frente, analisando-a como um predador avalia sua presa. O Éter verde ao seu redor pareceu diminuir, em respeito à presença dela.
— Sinceramente? Não. Minha memória é seletiva, querida. E costuma apagar tudo que acontece depois da terceira garrafa de rum.
Ela riu. Não foi um riso ofendido, mas um som baixo e melódico que parecia carregar o peso de muitos segredos.
— Bom, isso não importa. Não vim atrás de vingança, nem de amor, nem de dívidas passadas.
— Agora isso é novidade para mim — Drake cruzou os braços, a guarda ligeiramente mais alta. — Então me diga: veio atrás de quê?
— Vim apenas para te desafiar para um jogo.
Ela estendeu a mão pálida e colocou sobre a superfície áspera da mesa uma única peça: um Rei de Xadrez dourado.
O Presente
— CAPITÃO! ACORDA!
Drake deu um pulo na poltrona estofada, o coração disparado contra as costelas. A imagem do Rei de xadrez dourado se desfez, substituída pelo rosto irritado de Remi.
— Opa... O que aconteceu? — Ele esfregou os olhos, desorientado, sentindo o fantasma do cheiro de pólvora sumir.
— O que aconteceu é que eu estava fazendo as últimas checagens de segurança na área que temos que invadir e te deixei aqui "lendo um livro" para ficar quieto. Mas parece que a leitura não era tão interessante, já que você acabou apagando.
Drake olhou para o colo. O livro ainda estava lá. Mas não era um livro qualquer; era o caderno de capa de couro escura que a garota de cabelos verdes havia deixado cair. Ele folheou as páginas rapidamente, os rabiscos frenéticos, os diagramas do navio, os nomes circulados em vermelho...
— Na verdade, é o oposto, Remi — disse ele, a voz subitamente séria, despojada de todo o cinismo habitual. — Achei esse livro muito interessante. Ao ponto de me fazer relembrar do passado...
Remi ergueu uma sobrancelha, cética, cruzando os braços com impaciência.
— E sobre o que ele é?
— Problemas, minha cara. Não é óbvio?
— Faz sentido te lembrar do passado, então.
— Sim... — Drake fechou o caderno com um estalo seco. Ele se levantou, a sombra de um novo propósito em seu olhar. — Só que não é apenas sobre o passado que ele me faz pensar. É sobre o futuro. E como eu, pelo visto, terei que agir de forma diferente do que pensava para conseguir alcançar o futuro que desejo.
Remi franziu a testa.
— Agora você me deixou confusa. O que quer dizer com isso?
— Bom, se há algo que não podem dizer é que, a essa altura, eu seja um homem de pouca fé. Mas antes de sair acreditando em tudo que leio, melhor eu ir em busca de alguma comprovação.
Ele começou a correr em direção à saída da biblioteca, transformando-se em uma borrão de movimento.
— Venha, Remi! Não se atrase!
— Espera! O que você está fazendo, Capitão? E o roubo?
— Se o que estiver escrito aqui for verdade, não vamos precisar nos preocupar com o roubo original!
Eles correram pelos corredores labirínticos, desviando de hóspedes e funcionários com uma agilidade de felinos, até chegarem a uma área de manutenção. Drake, guiado pelas anotações do caderno que pareciam mapas codificados, abriu um duto de ventilação.
— Capitão, é sério... O que você está pensando? Por acaso ficou louco?
Enquanto rastejavam pelo metal frio e poeirento do duto, Drake sussurrou de volta, a voz baixa e tensa:
— Dizem que alguns loucos, na verdade, são os mais sãos de todos.
— Pode até ser... Mas já convivi com você tempo o suficiente para saber que esse não é o seu caso.
Minutos depois, Drake parou diante de uma grelha de ventilação.
— Chegamos.
Eles olharam para baixo. Estavam suspensos sobre uma das áreas de carga secundárias, destinada a mantimentos e suprimentos de limpeza — teoricamente, o lugar com menor valor monetário do navio.
Remi sussurrou, a confusão aparente:
— Por que estamos aqui? Viemos para o lado totalmente oposto ao cofre!
— Minha companheira... — Drake colocou o dedo nos lábios, exigindo o silêncio. — Primeiro: silêncio absoluto. Segundo: digamos que vim buscar respostas.
— Por acaso essas respostas envolvem ficar rico rápido? Porque só assim para justificar estarmos no depósito.
Drake fez um gesto impaciente e apontou para o que estava abaixo.
Remi se aproximou da grelha para olhar. No início, viu apenas caixas, engradados de vinho e sacos de batatas. Mas então, viu as pessoas que moviam as caixas.
Homens robustos, silenciosos, em ternos pretos impecáveis. Todos armados, movendo-se com uma coordenação militar. E nas costas dos paletós, sob a luz fraca da lâmpada de manutenção, um símbolo discreto, mas inconfundível.
Remi abriu a boca para gritar, os olhos arregalados de choque, a incredulidade congelada em seu rosto.
Drake foi mais rápido. Puxou-a para trás com um braço e tapou sua boca com a mão, abafando o som.
Os olhos de Remi gritavam a pergunta que sua boca não podia fazer: — "Espera... Como assim? O que os oficiais de elite da Família Salazar estão fazendo aqui?"
Parte 2
20 de Julho, 11:00 — Nível Inferior do Titanic (Depósito de Carga e Manutenção)
Longe do brilho dos lustres de cristal e do jazz suave do convés superior, o "ventre" do Titanic era um labirinto de metal frio, cheiro de óleo hidráulico e o zumbido grave dos motores de fusão.
No centro de um hangar de mantimentos, a elite da Família Salazar formava um círculo perfeito. Dezenas de homens de terno preto permaneciam imóveis como gárgulas, com as mãos cruzadas nas costas, mal ousando respirar. O silêncio era tão pesado que o som de gotas de condensação caindo dos canos soava como tiros.
Três figuras caminhavam pelo centro desse círculo, como predadores em um zoológico, aproximando-se de um dispositivo de comunicação holográfica instalado no chão.
A primeira era Hinata. Seus cabelos eram uma mistura vibrante de rosa choque com mechas laranja, contrastando violentamente com a seriedade de seu terno risca de giz e saia lápis preta. Ela ajustava os óculos com um dedo, uma expressão de tédio mortal no rosto. O segundo, Lucian, era uma montanha de músculos comprimida em um terno sob medida. Ele andava com passos pesados, a própria imagem da força bruta contida. A terceira, Sofia, destoava de tudo. Com cabelos de um loiro desbotado e olhos azuis vidrados, ela parecia uma boneca quebrada. No topo de sua cabeça, orelhas de lobo se contorciam.
— Ei... — Sofia sussurrou, a voz arrastada. — O boato é real? O Barone virou adubo mesmo?
Hinata suspirou, verificando as unhas perfeitamente pintadas. — Sim, ele morreu. Exatamente como previmos. Aquele idiota insistiu em liderar a vanguarda para ganhar prestígio rápido. Eu avisei que a arrogância dele seria seu caixão.
Os soldados ao redor não moveram um músculo, mas a tensão no ar aumentou. A frieza com que ela descartava a morte de um oficial era a marca registrada dos Executivos da Família.
— Hinata, controle sua língua — Lucian advertiu, sua voz grave reverberando no peito. — Não se esqueça de que, no papel, você era a estrategista da missão dele. A culpa vai respingar no seu terno caro.
— Eu sei limpar manchas de sangue, Lucian — retrucou ela, sorrindo de canto. — Vou pagar por esse erro entregando uma vitória absoluta. Mas vamos deixar claro: a incompetência foi dele.
Antes que Lucian pudesse responder, o comunicador no chão acendeu. Uma luz azulada projetou um holograma instável. Imediatamente, o instinto de sobrevivência falou mais alto. Hinata, Lucian e Sofia pararam. Em um movimento sincronizado, os três se ajoelharam, baixando as cabeças. Atrás deles, todos os soldados fizeram o mesmo. O som de joelhos batendo no metal ecoou pelo hangar.
— Hinata. Lucian. Sofia.
A voz que saiu do comunicador não estava gritando, mas tinha o peso de uma geleira deslizando.
— Escutem bem. Não me importa de quem foi o erro tático. Não me importa a logística. O que eu quero que vocês processem em seus cérebros é um único fato: alguém matou um membro da minha família.
No local de origem da transmissão, Stefan Salazar caminhava calmamente por uma rua que não existia mais. Ao seu redor, prédios ardiam em chamas mágicas. Balas traçantes cortavam o ar como enxames de vespas de fogo. Explosões de morteiros levantavam terra e concreto a metros de distância.
Stefan, vestindo um casaco pesado com gola de pele e um tapa-olho sobre o olho esquerdo, segurava o celular no ouvido. Ele não desviava dos tiros. Ele nem sequer piscava.
— Esses vermes ousaram tocar no sangue dos Salazar... — Stefan disse, enquanto um soldado inimigo surgia dos escombros, disparando uma metralhadora à queima-roupa contra ele. — Então não haverá perdão.
— Mas, Chefe Stefan! — A voz de Hinata surgiu no aparelho. — Achei que o plano era manter a discrição para a profecia da Benedetta! Não iríamos usar o despertar da arma "Astreus" como barganha política contra o Trono de Deus? Se fizermos barulho...
Stefan parou de andar. A veia em sua testa pulsou. — Hinata... Eles mataram um dos meus. Será que eu preciso desenhar?
CRAAAAACK.
O som não veio do telefone, mas da realidade se partindo. O Éter de Stefan explodiu. Em um raio de cem metros, o mundo ficou cinza. O fogo das explosões congelou em esculturas de gelo estáticas. As balas que voavam em direção ao rosto de Stefan pararam no ar, suspensas em cristais de gelo. O soldado inimigo congelou instantaneamente, sua expressão de grito eternizada em uma estátua de carne e gelo.
No meio daquele inferno congelado, Stefan continuou, a voz tranquila: — Encontrem o desgraçado. Matem-no. Nem que para isso vocês tenham que afundar esse navio no núcleo de uma estrela.
— Mas a missão...
— A missão mudou. Pode considerar o assassino um homem morto. — Stefan apertou o celular. — Todos os Oficiais a bordo têm permissão. Liberem seus poderes. Se essa bagunça não estiver limpa quando eu chegar à Cidade de Metal... eu mesmo irei aí. E não sobrará nada.
Ele fechou a mão. O celular virou pó de gelo. A transmissão caiu.
O silêncio agora era de terror puro. Os soldados suavam frio, os olhos arregalados. Sussurros frenéticos começaram a se espalhar pelas fileiras: "Isso é sério? Permissão Total?" "Isso é loucura! Se os três lutarem a sério, o casco não vai aguentar!" "Vai ser igual à Cidade de Ronove... Uma catástrofe total..."
Hinata se levantou, limpando a poeira invisível dos joelhos. Um sorriso sádico se abriu em seu rosto, mostrando dentes perfeitos demais. Ela olhou para Lucian e Sofia. Os olhos de Sofia não estavam mais vidrados; agora brilhavam com uma fome lupina. Lucian estalou o pescoço, o som parecendo pedras se quebrando.
— Vocês ouviram o Chefe — disse Hinata, caminhando em direção à saída. — A coleira foi solta.
Sofia sorriu em resposta. — Vamos começar a caçada.
Lucian ignorou as duas e caminhou até um dos guardas. — Ainda não receberam nenhuma mensagem de Benedetta ou Emilia? É estranho elas não terem entrado em contato.
— Ainda não, senhor. Mas continuamos as buscas — relatou um homem de terno.
Lucian virou-se para as mulheres: — Vocês duas: se as virem por aí, tragam-nas de volta imediatamente. Como estamos prestes a iniciar uma guerra, temos que tirá-las desse navio o mais rápido possível.
Sofia assentiu com a cabeça, enquanto Hinata esboçou um sorriso malicioso. — Certo. Mas caso a Benedetta não coopere, eu posso colocar um pouco de juízo na cabeça dela, não posso?
Sofia a encarou. — Você não se aguenta perto dela, não é?
— Tanto faz — retrucou Lucian, já acostumado. — Só evite marcas visíveis. Lembre-se de que Stefan odeia quando sua bonequinha está danificada.
— Ok.
Dutos de Ventilação
Drake e Remi, espremidos no espaço apertado e escuro, assistiram a tudo através da grade. Eles engatinharam para trás o mais silenciosamente possível.
Só quando estavam a uma distância segura, em uma junção de tubos perto da lavanderia, é que pararam. Remi puxou o ar com força, pálida.
— Drake... — ela sussurrou, a voz trêmula. — Como... como eles invadiram? Quer dizer, esquece isso! O mais importante é: como você sabia que eles estavam exatamente ali? Aquilo foi uma reunião de cúpula da máfia!
Drake, que estava estranhamente calmo, enfiou a mão no casaco e puxou o pequeno caderno de couro gasto. — Estava tudo aqui, Remi. O local, o horário, os participantes. Até a frase sobre "afundar o navio no sol".
Remi estendeu a mão impulsivamente. — O que é isso, afinal? Deixa eu ver!
Drake interceptou a mão dela no ar, segurando-a com firmeza. Seu olhar era sério, sem nenhum traço da zombaria habitual. — Não. É melhor você não tocar nisso. Você sabe o que acontece com quem tenta tirar vantagem do tempo, não é?
Remi recuou, franzindo a testa. — Espera... Você não está sugerindo que...
— Sem dúvidas — Drake bateu o caderno na palma da mão. — Com certeza foi uma Viajante do Tempo que escreveu isso. Achei que nunca mais veria um espertinho tentando a sorte contra o tempo.
— Viajante do tempo?! — Remi levou a mão até o queixo. — Se ela conseguiu escrever um caderno inteiro... então eu devo interpretar que ela já viveu isso?
— Sim, ela descobriu sobre os Salazar em uma de suas investigações, usando exatamente a mesma passagem que nós.
— Em “uma”... Quantas vezes isso já aconteceu?... Não vai me dizer que estamos presos num maldito loop temporal?
— Acertou na mosca. — Drake abriu o caderno com cuidado, como se manuseasse uma bomba nuclear. — E já adianto que dificilmente este foi o único caderno que ela escreveu. — Ele apontou para as primeiras páginas. A tinta estava borrada em vários pontos. O papel estava ondulado e rígido. — Veja. Isso são marcas de lágrimas. E a caligrafia aqui no começo... é trêmula, desesperada. Quem escreveu isso deve ter testemunhado o seu próprio plano falhar várias vezes.
Um calafrio percorreu a espinha de Remi. A ideia de estar revivendo uma tragédia sem saber era aterrorizante. — Droga... Drake, o que faremos? Damos o fora daqui? Pegamos uma cápsula de fuga?
— Dar o fora? — Drake a olhou como se ela tivesse sugerido beber água do mar. — Minha querida Remi, não seja tola. A fuga é para os covardes ou para os sensatos, e eu não sou nenhum dos dois.
Ele fechou o caderno e o guardou perto do coração. — Eu preciso encontrar essa garota. Preciso olhar nos olhos da viajante e perguntar se a parte sobre "Os Astreus" é realmente verdade.
— Espera, Astreus está aqui? — Os olhos de Remi se arregalaram, mais até do que quando ele falou sobre a viagem no tempo.
— Eu comprovei que ela sabe o futuro. Mas, sinceramente? Perto dessa loucura... a história de viagem no tempo parece bobagem.
— Tá, mas e o roubo?! O plano original?!
Drake sorriu. Um sorriso de adrenalina pura. — Sério isso, Remi? Não está ouvindo o universo gritando? Temos a máfia de Elysium, uma profecia de destruição e um mistério temporal nas mãos. — Ele começou a se mover pelo duto. — Depois que salvarmos o dia, teremos todo o tempo do mundo para roubar quem sobrar vivo.
Remi revirou os olhos, mas soltou um suspiro de alívio disfarçado. — Agora sim você está parecendo o meu Capitão.
Drake olhou para trás, os olhos brilhando na escuridão. — Allons-y, Remi!
Eles dispararam pelo duto, correndo em direção ao desconhecido, enquanto o navio navegava tranquilamente em direção ao seu destino fatal.
Parte 3
20 de Julho, 11:15 — Titanic (Quarto Principal da Comitiva do Trono)
O aposento não parecia pertencer a um navio. As paredes eram cobertas por tapeçarias brancas com fios de ouro, abafando qualquer som externo. O cheiro de incenso de mirra era forte, quase sufocante, misturado ao zumbido elétrico de tecnologia avançada.
No centro da sala, sentada em uma poltrona que lembrava um trono papal, estava Helena. Ao seu redor, dispostas em um semicírculo perfeito, estavam seis garotas idênticas. Elas usavam vendas brancas nos olhos e gargantilhas metálicas que pulsavam com luz azulada. Eram as "Antenas" — conduítes vivos de uma rede global de consciência.
— O Sínodo está aberto — declarou Helena. Sua voz não saiu apenas de sua boca, mas ecoou simultaneamente das bocas das garotas vendadas, criando uma harmonia sobrenatural. — Eu, Helena, a Voz da Divina Providência, presidirei esta comunhão.
As garotas funcionavam como projetores de carne. Através delas, as vozes dos líderes espalhados pelo globo preenchiam a sala.
— Pauta Única: A Ascensão dos Astreus e a Contenção da Verdade. — Helena entrelaçou os dedos. — Tivemos sorte até agora. Os Astreus despertos preferiram as sombras. Mas o anonimato é um véu fino, e está prestes a rasgar. Se o mundo descobrir que os verdadeiros “Deuses” caminham entre nós, a paz que construímos ruirá. Uma corrida armamentista pelo poder absoluto começará.
De repente, uma das Antenas contorceu o pescoço num ângulo antinatural. Sua voz mudou, tornando-se grave, masculina e carregada de arrogância.
— Seu discurso é lindo, Helena. Digno de uma missa de domingo.
A projeção vinha da Cidade de Ignea, em Alexandria. Era Bedivere. Mesmo sem estar presente, sua aura sanguinária parecia gelar a sala. — Mas é superficial. A questão não é "como esconder a verdade". A questão é: quando esses monstros saírem do armário, nós os trataremos como deuses ou como demônios a serem abatidos?
Outra Antena, do outro lado do semicírculo, virou a cabeça. Desta vez, a voz era fria, analítica. Era Ivan, falando de um laboratório subterrâneo na Rúbia, Elysium. — Bedivere tem razão, embora o expresse com a delicadeza de um carniceiro. Mas há uma falha na sua lógica, cavaleiro. Mesmo que os declaremos inimigos... quem aqui tem poder de fogo para derrubar um Astreus?
O silêncio pesou na sala. A verdade dita por Ivan era amarga. As lendas diziam que um único Astreus poderia apagar todo o cosmo e recriá-lo em segundos. Lutar contra eles era suicídio.
— Então, para que serve esta reunião? — Bedivere retrucou, a Antena tremendo com a intensidade de sua projeção. — Se não podemos lutar, somos apenas espectadores esperando o apocalipse. Helena nos chamou aqui para admitirmos nossa impotência?
Helena abriu os olhos. Não eram olhos humanos comuns. Suas pupilas haviam desaparecido, substituídas por símbolos dourados brilhantes: quatro quadrados interligados girando lentamente.
A pressão espiritual na sala aumentou dez vezes. As Antenas arfaram em uníssono. — Cuidado com o tom, Bedivere. — A voz de Helena agora soava como metal arranhando vidro. — Eu não disse que não podemos fazer nada. Eu perguntei se você, com sua impaciência, tinha um método. Como esperado, não tem. Então, cale-se e observe aqueles que detêm o verdadeiro poder.
Antes que Bedivere pudesse responder, Ivan interveio através de sua Antena: — Helena, chega de jogos. O Vaticano e a Santa Igreja não confiam um no outro porque ninguém mostra as cartas. Desde o incidente da Lua Escarlate, sabemos que vocês escondem algo. Se quer cooperação, mostre sua mão.
Helena suavizou a expressão. Os símbolos em seus olhos diminuíram o brilho. — Justo, Ivan. Vocês querem ver minhas cartas? Pois bem. Eu trouxe dois "coringas" para este navio.
Helena estalou os dedos.
Do fundo escuro do quarto, onde as sombras pareciam mais densas, duas figuras emergiram. O ar ficou pesado, metálico. O gosto de ferrugem invadiu a boca de todos, até mesmo dos que estavam conectados remotamente.
Eram duas garotas. Uma tinha o olhar vazio, como se fosse uma boneca. A outra tinha um sorriso sedutor.
— Apresento-lhes as Filhas do Jardim — anunciou Helena, com orgulho maternal. — Receptáculos compatíveis com as Relíquias do Apocalipse.
O choque foi transmitido pela rede neural. As Antenas começaram a sussurrar freneticamente, as vozes dos líderes globais se sobrepondo: "Impossível..." "Relíquias do Apocalipse? Elas controlam?" "Além de Niklaus, achei que fosse um mito..." "A Santa Igreja conseguiu domar o Fim dos Tempos?"
Helena bateu o dedo na mesa. TOC. TOC. O som foi suave, mas a onda psíquica calou todas as Antenas instantaneamente.
— Bedivere — disse Helena, olhando para a Antena que representava o Cavaleiro. — Você perguntou sobre o propósito. Eu não vou usar essas armas para matar um Astreus. Isso seria um desperdício. — Ela acariciou o rosto de uma das gêmeas. — Eu vou usá-las para vigiá-lo. Para garanti-lo.
— Vigiá-lo? — A voz de Bedivere voltou, cautelosa. — Isso parece...
De repente, o mundo parou. Não foi uma metáfora. O som do motor do navio cessou. A poeira que flutuava no feixe de luz da janela estagnou no ar. As Antenas paralisaram, seus peitos parando no meio de uma inspiração.
Um campo de "Silêncio Absoluto" foi instaurado. Uma esfera de realidade onde o tempo não existia.
Apenas Helena e as consciências dos líderes através das Antenas podiam raciocinar. Uma nova voz ecoou. Não vinha de nenhuma Antena. Vinha de todo lugar e de lugar nenhum. Era uma voz antiga, cansada e terrivelmente poderosa.
— Vamos pular o teatro, Helena.
Helena, que até agora mantivera a compostura de uma rainha, tremeu. Ela se levantou do trono e se ajoelhou imediatamente. — Meu Senhor.
— Você foi consultar a Profeta Martha pessoalmente antes de decidir viajar no Titanic levando essas duas... Confesse sua ambição.
Helena engoliu em seco, o suor frio escorrendo pela nuca. Ivan e Bedivere, em suas sedes remotas, sentiram o medo primitivo de estarem na presença de um predador supremo.
— O Senhor vê tudo... — murmurou Helena. — Sim. Se as visões de Martha estiverem corretas, o Avatar que surgirá no Titanic não é um Astreus comum. Ele é a chave. A única força capaz de neutralizar Niklaus e parar a "Criança da Destruição" que o Reino de Sakura está cultivando. Para salvar o mundo, nós precisamos escravizar esse novo Deus.
Um silêncio tenso se seguiu. O destino de Helena — e talvez do mundo — estava na balança.
— É uma aposta arriscada, Helena — disse a Voz. — Se você falhar em controlar essa nova entidade, você pode entregar ao inimigo a chave do nosso fim. Se ele for como a calamidade de Sakura...
— Eu entendo, Senhor.
— Muito bem. Você tem minha bênção. Traga-me o Astreus. Ou morra tentando.
ZUM.
O tempo voltou a fluir. O som do motor retornou, a poeira continuou a cair. Para as Antenas e os guardas fora da sala, nem um milésimo de segundo havia se passado. Mas Helena estava ofegante, agarrada aos braços da poltrona, como se tivesse corrido uma maratona.
Ela olhou para as Antenas, recuperando a postura com dificuldade. "Não tem mais volta", pensou ela.
Parte 4
A música suave de jazz, tocada por um pianista autômato de quatro braços, contrastava cruelmente com o turbilhão silencioso na mente de Dante. Ele estava sentado no bar, girando um copo de cristal.
Ele virou o líquido âmbar de uma vez. A bebida desceu queimando, mas a sensação durou pouco. — O gosto de cinzas… não passa.
Adam, sentado ao lado dele, riu alto, atraindo olhares reprovadores da elite ao redor. — Não adianta. Você pode continuar tentando fugir da realidade com isso, mas só vai se afundar mais.
A conversa dos dois foi subitamente interrompida quando a luz sobre a mesa deles foi bloqueada. Uma sombra longa e densa cobriu os dois.
Um homem gigantesco, vestindo um sobretudo que parecia feito de sombras, tocou o ombro de Adam. Não foi um toque amigável; foi uma garra de aço.
Adam nem se virou. Continuou balançando o gelo em seu copo. — O que foi? Não está vendo que estou ocupado?
— Você é Adam, da Horizon, correto? — A voz do homem era grave.
— E se eu for?
— Sou Lucian, da Família Salazar.
O nome caiu sobre a mesa como uma bigorna. O ar esfriou instantaneamente. Dante, que tentava se manter alheio, sentiu os pelos da nuca se arrepiarem. A pressão do Éter daqueles dois era sufocante.
— Estou procurando o homem que matou um membro da minha família — continuou Lucian, a voz baixa, perigosa como um animal rosnando. — E, curiosamente, senti o rastro residual de Éter do responsável vindo direto para este cassino.
Adam suspirou, finalmente girando a cadeira. Ele olhou para Lucian com um tédio quase insultante. — E você acha que fui eu? Por que eu perderia meu tempo matando figurantes?
Os olhos de Lucian brilharam com uma luz hostil. — Não acho que tenha sido você. Mas se a Horizon está aqui, é porque vieram buscar a mesma coisa que meu Chefe deseja. Nós sabemos a verdade sobre vocês.
— "Nós sabemos", é? — Adam sorriu. Um sorriso que não chegava aos olhos, afiado como uma navalha. — E por que está me contando isso, grandalhão?
— Porque não quero ratos da Horizon roubando nosso troféu enquanto eu caço o assassino.
— Está me ameaçando? É sério? Eu hibernei e perdi alguma coisa? Desde quando a Família Salazar se sente no direito de agir assim? — Adam bebeu de seu copo e continuou. — Quem diria que o bastardo do Stefan chegaria tão longe...
Dante observava a troca de farpas quando, sem aviso, Lucian desferiu um soco. Não houve preparação. Apenas violência pura.
KABOOM.
O impacto não foi apenas físico; foi uma explosão de pressão atmosférica. A onda de choque varreu as mesas de pôquer, lançou cadeiras de veludo e clientes ricos contra as paredes douradas do cassino. O som foi como um trovão confinado em uma caixa de sapatos.
Quando a poeira baixou, Adam ainda estava sentado. Ele havia recebido o soco diretamente no rosto. Ele cuspiu um pouco de sangue no chão polido e riu.
— É só isso? — perguntou Adam.
Então, o Éter de Adam explodiu. Era quente. Opressivo. Como estar ao lado de uma estrela prestes a virar supernova. As garrafas de bebida atrás do balcão estouraram simultaneamente, o vidro derretendo e virando líquido incandescente antes de tocar o chão.
— Foi mal, Dante — disse Adam, estalando o pescoço e ficando de pé. — Parece que vou ter que levar o lixo para fora antes de continuarmos bebendo.
Dante recuou, sentindo a pele pinicar com a colisão daquelas duas auras monstruosas. Mas, antes que pudesse se preocupar em ser vaporizado, algo puxou sua atenção para o saguão externo. O navio inteiro estremeceu, gemendo metal contra metal.
As sirenes de emergência começaram a uivar. O paraíso havia se transformado em um campo de guerra.
Pelas portas duplas do cassino, o caos entrava. Homens armados com rifles de assalto e armaduras tecnológicas saltavam de cima dos mezaninos, abrindo fogo contra os guardas de segurança.
No meio da confusão, uma figura passou correndo pelo corredor lateral, visível através das portas de vidro estilhaçadas. Era uma garota. Roupas rasgadas, suor escorrendo, olhos arregalados de pavor absoluto. Ela não olhava para os tiros; ela olhava para o relógio em seu pulso.
— Eu não consegui... de novo... — Dante, com sua audição aguçada, captou o sussurro desesperado dela. — Droga! O Chuya já saiu daqui, e o Adam começou a lutar… Se eu não parar a próxima cadeia de eventos, todos vão morrer... de novo!
Ela disparou em direção às escadas de serviço que levavam aos conveses inferiores, ignorando as balas.
Dante ficou paralisado. Todos vão morrer?
Ele levou a mão ao rosto, sentindo a dor de cabeça pulsar. — É claro... — Dante sussurrou, e um sorriso nervoso, quase maníaco, surgiu em seus lábios. — É claro que tem uma Quest Principal acontecendo bem na minha frente.
Ele falava isso com um sorriso, mas seus olhos estavam vazios, sem brilho, como se fosse um ato automático. Ele tentava levantar, porém, algo parecia prendê-lo, impedindo-o de sair do lugar.
"Não fique parado, se mexa... Se continuar sentado, alguém vai morrer e você, de novo, não vai conseguir fazer nada" — gritava uma voz em sua mente, forçando-o a morder o lábio até sangrar, na tentativa de obrigar seu corpo a permanecer de pé.
Ele olhou para Adam e Lucian se matando. Olhou para o copo vazio. Se ele ficasse parado, aquele sentimento voltaria. Então, ele lembrou das palavras de Adam: — "Escute, garoto. Se você deixar isso prosseguir, vai acabar morto."
Ele precisava se levantar, caminhar e continuar caminhando... se ele tivesse um objetivo... a dor teria que esperar.
— Não vou permitir que aconteça de novo… — ele afirmou, com Luck e Kurokawa em mente. — Fui eu quem os trouxe até aqui, então é meu dever protegê-los.
Ele disparou atrás da garota que havia mencionado a morte de todos. Pela expressão de puro desespero dela, ele sentia a verdade naquelas palavras... Mas o destino interferiu. Uma pressão assassina, gelada e cortante, materializou-se na entrada principal do cassino, rasgando o ar como uma névoa fria.
Dante olhou e viu. Uma garota de terno e saia impecáveis caminhava tranquilamente entre os cadáveres dos seguranças. Ela mascava chiclete com uma indiferença assustadora. Com um movimento fluido, ela puxou de sua própria sombra uma foice negra, maior que o próprio corpo.
— Pop. — Ela estourou uma bola de chiclete rosa. — Lá vamos nós de novo.
Os instintos de Dante gritaram: Desvia!
— Droga… Não posso perder tempo com você. — Dante se virou rapidamente, tentando ativar o modo Deus da Velocidade. Contudo, o Éter em seu corpo estava muito fraco e instável, causando-lhe uma dor intensa. — Merda…
Ele conseguiu desviar, mas isso só atraiu ainda mais a atenção de Hinata.
— Ei! — A voz dela ecoou, divertida e infantil. — Como você fez isso? Você está escondendo o jogo, não é? Finalmente um brinquedo que não vai quebrar no primeiro golpe!
Ela girou a foice. — Corte Crescente.
Uma meia-lua de energia roxa rasgou o ar, cortando o tapete, o chão de metal e as mesas de jogo em direção a Dante.
— Merda! — Dante saltou, sentindo o vento do corte passar a centímetros de seus pés.
Ele rolou pelas escadas, o corpo protestando com a dor física — que era, ironicamente, um alívio para a dor mental. Ao chegar ao patamar inferior, ele tentou recuperar o equilíbrio para continuar correndo, mas virou a esquina rápido demais.
BAM.
— Ei! O que você acha que está fazendo?! — exclamou uma voz feminina.
Ao lado, uma voz muito mais rouca e irritada rosnou: — Esse idiota... Pelo visto, ele tem um radar para se jogar em cima das pessoas.
— Quanto azar é preciso para colidir conosco duas vezes?! — Mio questionou, enquanto se punha de pé.
Dante cambaleou, a mente girando. Ele olhou para frente. Eram elas. A anã punk que o chutou antes e a garota ruiva cheia de curvas.
— Vocês... — Dante piscou, tentando focar. — Saiam da frente!
A garota da foice, Hinata, pousou no topo da escada como uma pluma. Ela sorria, girando a arma gigantesca com os dedos, como se fosse um brinquedo de plástico. — Achei você, coelhinho. Não adianta correr.
Dante praguejou. — Droga!
Mio, que nem parecia ligar para a garota que havia chegado, começou a olhar para Dante com reconhecimento. — Espere... Bea, olhe o rosto dele. Esse é o alvo. Esse é o "Dante Scarlune".
— O quê?! — Beatrice arregalou os olhos. — Além de não poder espancá-lo agora, tenho que protegê-lo? Eu não concordei com isso.
— O que vocês estão dizendo? — Dante tentava acompanhar o raciocínio das duas.
— Nem ferrando! — Beatrice gritou, batendo o pé. — Eu me recuso a seguir essa ordem.
— Ordens são ordens, Bea — suspirou Mio. — Não esqueça que a presidente do comitê disciplinar é quem nos contratou desta vez. E lembre-se: estamos no amarelo.
Enquanto discutiam, Hinata perdeu a paciência. Sua aura roxa ficou negra. — Vocês falam demais! Morram todos juntos!
Ela desapareceu. Foi velocidade pura. Em um piscar de olhos, Hinata estava na frente de Dante, a lâmina da foice descendo num arco perfeito para parti-lo ao meio, do crânio à virilha.
CLANG!
O som de metal contra algo duro reverberou pelo corredor, estourando as lâmpadas do teto.
Dante abriu os olhos. Beatrice havia se colocado na frente dele. Ela não usava espadas ou escudos. Ela havia bloqueado a lâmina gigantesca da foice apenas com o antebraço. O chão de metal sob os pés de Beatrice afundou e rachou em teia de aranha, mas ela não cedeu um milímetro.
Hinata arregalou os olhos, surpresa pela primeira vez. — Oh? Não cortou? Que braço durinho você tem... tampinha.
Beatrice levantou o rosto. Seus olhos queimavam de fúria pura. — Quem você chamou de tampinha... sua cosplayer de quinta categoria?
ZUUUM.
A Aura de Éter de Beatrice explodiu. A pressão jogou Dante para trás.
— Escuta aqui — rosnou Beatrice, apertando o próprio punho. — É melhor se preparar, pois eu vou quebrar todos os dentes dessa sua boca sorridente.
— Isso é o que eu chamo de falar a coisa certa. Pelo menos agora ela deve esquecer de você, né, garoto? — Mio revirava os olhos em busca de Dante quando finalmente reparou que o garoto havia corrido assim que pararam de prestar atenção nele. — Droga, ele está fugindo!
— Vai logo! — Beatrice gritou, empurrando a foice de Hinata para trás com força bruta, criando faíscas.
Mio disparou atrás de Dante, deixando para trás um corredor prestes a ser destruído.
Hinata deu um passo para trás, girando a foice. Ela soltou uma risada estridente, um som maníaco de pura e infantil alegria. — Hum, tem certeza de que ficar sozinha comigo é uma boa ideia?
— Você tem razão... se preferir, posso esperar enquanto chama mais pessoas — Beatrice estalou os dedos.
— Está realmente querendo morrer cedo, pirralha.
O corredor estremeceu quando as duas avançaram, e o verdadeiro caos começou.
Parte 5
Suíte Imperial da Família Mortifer — Titanic
O silêncio na Suíte Imperial não foi quebrado; foi assassinado.
O quarto, um vasto domínio de veludo dourado, mármore branco e janelas panorâmicas para as estrelas, foi subitamente banhado em carmesim. As luzes de emergência não piscavam freneticamente como em um navio comum; elas pulsavam em um ritmo lento, quase hipnótico, projetadas para induzir urgência sem causar pânico na elite sensível.
Uma sirene tocou. Não era estridente. Era um acorde harmônico, grave e suave, que parecia pedir desculpas por existir.
Nos painéis de mogno das paredes, hologramas surgiram flutuando no ar. O logotipo da Luminary Labs girava suavemente antes de ser substituído pelo rosto de uma I.A. de feições perfeitas.
— Atenção, estimados convidados — a voz sintética era aveludada, desprovida de qualquer emoção humana como medo. — Detectamos uma leve flutuação nos sistemas de estabilização do Titanic. Como medida de excelência e precaução, iniciaremos o Protocolo de Desembarque Preventivo para a Classe Diamante. Pedimos que se dirijam aos pontos de teleporte privativos. Lamentamos a interrupção de sua viagem relaxante. Sua segurança é nossa joia mais preciosa.
No centro da sala de estar, o Rei de Valoisia levantou-se da poltrona de couro. A taça de vinho em sua mão tombou, derramando um líquido escuro sobre o tapete persa, parecendo uma premonição de sangue.
— "Leve flutuação"? — O Rei franziu a testa, a voz grave cortando o ar-condicionado perfumado. — Isso é um insulto à minha inteligência. A Luminary Labs demitiria um engenheiro por um arranhão na pintura. Uma falha que exige evacuação? Impossível.
Aradia, a General Mecânica, moveu-se. Em um milésimo de segundo, ela caminhou até ele. Seus olhos, frios, ainda emanavam uma calma desconcertante.
— Vossa Majestade está correto — disse Aradia, enquanto pequenas partículas de pó giravam ao redor dela. — Isso não é uma falha técnica. É uma invasão. Sinto explosões de Éter nos conveses inferiores. O sistema de segurança está sendo massacrado. É um ataque terrorista coordenado.
A Rainha Susana, que até então mantinha uma compostura gélida folheando uma revista de moda, ergueu o olhar. Seus olhos élficos eram afiados como vidro quebrado.
— Então estão mascarando um massacre como inconveniência mecânica... — Ela suspirou, levantando-se com uma graça fluida. — Típico. Preferem salvar a imagem da empresa a salvar vidas. Aradia, responda-me: os cristais de teleporte têm carga para todos? A energia desta nave é finita, e os motores de sustentação consomem 80% dela.
— A senhora foi direto ao ponto cirúrgico, Milady — respondeu Aradia, com um tom sombrio. — Enviei minhas marionetes de pó e confirmei que não há energia para evacuar todos ao mesmo tempo.
O Rei congelou. — O quê?
— E tem mais — continuou Aradia, tocando na tela de uma TV no quarto até encontrar os mapas do navio. — O aviso de evacuação foi enviado apenas para as suítes superiores. Os comunicadores dos decks C, D e dos alojamentos de serviço foram cortados.
O rosto do Rei passou do choque para uma fúria vermelha. — ISSO É ULTRAJANTE! — bradou ele. — Estão condenando milhares à morte baseados no saldo bancário?! Estão usando os pobres como escudo de carne para os terroristas enquanto nós fugimos?!
— Querido, acalme-se. Sua pressão. — Susana tocou o ombro dele, mas seus próprios olhos queimavam de indignação. Com a outra mão, ela fez um gesto elegante. As roupas, joias e documentos importantes começaram a voar sozinhos para dentro das malas, dobrando-se magicamente. — Aradia, qual a chance de defesa deles?
— A administração está comprando tempo com vidas — Aradia respondeu, fria, mas honesta. — No entanto... sinto picos de energia anormais lá embaixo. Não são terroristas. São defensores. Caçadores de alto nível, talvez mercenários da Horizon também. O caos está equilibrado por enquanto.
Susana assentiu, fechando a última mala com um estalo de dedos. — Noelle! — chamou a Rainha, a voz ecoando com autoridade materna.
A porta dupla da cozinha se abriu com um rangido. De lá, saiu uma pequena figura. Uma criança elfa de longos cabelos pretos, arrastando os pés em pantufas de coelho. Ela segurava um pote de sorvete de pistache e tinha uma colher de prata na boca.
— O que foi agora? — reclamou Noelle, a voz abafada pelo sorvete. — Por que as luzes estão vermelhas?
— Vamos embora, Noelle. O navio está sob ataque — disse a Rainha, colocando um casaco sobre os ombros da filha.
— Ataque? — Noelle piscou, desinteressada, enfiando outra colherada na boca. — Ah. Tá bom. Posso levar o frigobar?
— Aradia — o Rei interrompeu, parando na porta da suíte. Ele olhava para o corredor, cerrando os punhos. — Você poderia acabar com isso, não poderia? Com o seu nível de poder, esses terroristas seriam eliminados em minutos.
— Se for uma ordem direta de Vossa Majestade, eu transformarei este navio em um cemitério de inimigos agora mesmo — respondeu Aradia, curvando-se. A promessa de violência em sua voz era absoluta. — Mas minha diretriz primária é a segurança da linhagem real. Prefiro garantir que vocês cheguem ao ponto de extração. Como eu disse... já tem gente muito qualificada fazendo o trabalho sujo lá embaixo.
O Rei hesitou. O desejo de justiça lutava contra o dever de proteger sua família. Finalmente, ele suspirou, derrotado. — Vamos. Mas assim que pisarmos em terra firme, a Luminary Labs vai desejar ter afundado com este navio. Eu vou destruir a reputação deles.
Susana pegou a mão do marido, guiando-o para fora. — Ainda bem que não trouxemos a Emilia... — comentou a Rainha, com um sorriso nervoso, tentando aliviar o clima. — Com o senso de 'Justiça Absoluta' dela, ela já teria pulado pela janela para salvar cada passageiro, um por um.
O Rei soltou uma risada curta e seca. — É verdade. Emilia seria uma dor de cabeça heroica. Mas... eu sei quem estaria se divertindo aqui.
Susana parou no meio do corredor. O sorriso desapareceu instantaneamente. — Você está falando... dela?
A Rainha hesitou, o nome morrendo na garganta como se fosse uma maldição. — Pensando bem... considerando que Aradia mencionou caçadores e caos... eu rezo aos Deuses para que ela não tenha sido contratada para esta segurança…
Aradia, que ia à frente verificando o perímetro, permitiu-se um sorriso discreto, quase imperceptível.
— Os instintos da Rainha são, como sempre, impecáveis — murmurou Aradia para si mesma, acionando o elevador privativo. — Vamos, Majestades. O caminho está limpo.
Parte 6
Setor de Cargas e Serviços (Fundos dos Andares Superiores)
O labirinto de corredores de serviço do Titanic era um contraste brutal com o luxo dos salões de baile. Ali, o cheiro não era de perfume e champanhe, mas de graxa, ozônio queimado e medo.
Kurokawa corria, o fôlego curto queimando seus pulmões, enquanto Luck liderava o caminho como um quebra-gelo humano. Mafiosos da Família Salazar surgiam de elevadores de carga e escotilhas de manutenção, rifles de assalto cuspindo fogo.
— Sorte a deles que eu acordei com vontade de bater em alguém! — rugiu Luck.
Seus punhos se acenderam. Não era um fogo comum; eram chamas azuis, límpidas e furiosas. Com movimentos que misturavam boxe e dança de rua, ele socava o ar.
VWOOM. VWOOM.
Ondas de calor incineravam as balas em pleno voo, transformando chumbo mortal em gotas inofensivas de metal líquido que pingavam no chão.
— Fique atrás de mim, Kurokawa! Não saia da minha sombra!
Kurokawa acatou a ordem, mas suas mãos não paravam de tremer. As lembranças da missão anterior ainda a perturbavam, fazendo-a hesitar. Ela sentia o peso de estar no centro de um conflito real, e o medo a paralisava completamente. Tentando dominar o pânico, ela se encolheu atrás de uma pilha de caixotes de liga metálica.
De repente, a parede de metal ao lado dela foi rasgada como papel. Um mafioso gigantesco, com implantes cibernéticos no rosto e um lança-foguetes no ombro, surgiu rindo através da fumaça. — Achei vocês, ratos! Morram!
Luck girou, os olhos arregalados. Ele havia avançado demais. — KUROKAWA!
O dedo do homem apertou o gatilho. O foguete sibilou. Mas, antes que a morte pudesse cruzar os três metros de distância, uma figura cambaleante emergiu das sombras, arrastando os pés descalços sobre o metal frio.
Era uma garota. O vestido de festa estava em farrapos, manchado de sangue fresco. Ela pressionava as têmporas com as mãos, como se sua cabeça estivesse prestes a rachar.
— Saia daí! — gritou Kurokawa, estendendo a mão instintivamente.
O tempo pareceu congelar. O mafioso travou.
— Espera! — Um dos companheiros do atirador gritou. — Seu idiota, pare! É a Senhorita Benedetta! Não atire!
Benedetta levantou a cabeça devagar. Seus olhos não tinham íris; eram poços de escuridão rodopiante.
Dentro da mente dela, a realidade se fragmentava. "Seja uma boa garota, Benedetta." — A voz de Hinata ecoava. O som do chicote estalando. O cheiro de sangue do irmão, Stefan. As roupas que a obrigavam a usar. A humilhação. A impotência.
A represa mental rompeu. O ódio inundou o corredor, denso e sufocante como a pressão do fundo do oceano.
— Uma boa... boneca... — sussurrou Benedetta, a voz rouca e gutural.
Ela estendeu a mão aberta para o homem e fechou os dedos lentamente, como se esmagasse uma uva. A realidade obedeceu. O foguete, que já havia saído do tubo, parou no ar, vibrando violentamente. O espaço ao redor dos mafiosos distorceu.
— O que é iss—?!
CRUNCH.
Foi um som úmido e metálico. Em um piscar de olhos, a gravidade naquele ponto específico aumentou mil vezes. O foguete, o lançador, os homens e o chão de aço foram comprimidos em uma esfera perfeita e grotesca de carne e metal retorcido. Não houve gritos. Não houve tempo. Apenas o silêncio da aniquilação total.
Uma onda de choque de Éter roxo e dourado explodiu do corpo de Benedetta, estourando todas as lâmpadas do corredor. — Ah... — Ela suspirou, os olhos virando, e desabou no chão como uma marionete que teve as cordas cortadas.
— KUROKAWA! — Luck chegou derrapando, faíscas azuis morrendo em seus punhos. — Você está bem?!
— Sim... — Kurokawa ofegava, olhando para a esfera de destroços e depois para a garota caída. Ela fez menção de avançar.
— Não! — Luck agarrou o braço dela. — Não toque nela. Você viu aquilo? Ela é perigosa demais.
— Mas ela me salvou, Luck! Aqueles homens iam nos matar.
Luck hesitou. Olhou para a garota caída; ele havia visto o olhar dela pouco antes do ataque: não era heroísmo que se refletia ali. No entanto, Kurokawa já estava livre.
Ela se ajoelhou ao lado de Benedetta, checando o pulso. — Ela está viva... só exausta.
Luck se aproximou. Sob a pele pálida da garota, veias negras pulsavam ritmicamente, desenhando padrões que lembravam circuitos.
— O Éter dela... — Kurokawa franziu a testa, sentindo um arrepio familiar. — Luck, é a mesma assinatura. Lembra daquilo que aconteceu após a "Bomba Dimensional" do Niklaus?
Luck ficou tenso. — Tem razão. É a mesma frequência... Se ela tem conexão com o Niklaus... o Dante vai querer vê-la.
— Então levamos para ele? — perguntou Kurokawa.
Luck a ergueu, colocando-a nas costas com cuidado, apesar da desconfiança. — Não, vamos levá-la para Anna. Se você notar, o Éter das duas tem uma estranha semelhança; talvez ela saiba de algo. Além disso, Dante está instável demais agora. — Luck olhou em volta. — Vamos voltar para o dormitório.
Eles começaram a recuar pelas sombras, andando pelos corredores com cautela redobrada para não serem notados enquanto carregavam a garota. À medida que caminhavam, Kurokawa continuava olhando para ela; além das veias negras, a jovem tinha estranhos padrões geométricos dourados pelo corpo.
O navio tremia ocasionalmente com explosões distantes das batalhas que ainda aconteciam. Enquanto se apoiava na parede por conta de um tremor, Kurokawa começou a falar.
— Luck... — sussurrou Kurokawa. — Isso tudo é muito conveniente, não acha?
— O quê?
— Alaya... — começou Kurokawa. — Nos jogar aqui, justo antes de um ataque terrorista?
— Até onde eu sei, isso é bem a cara dela — disse Luck.
— Tá, mas... — Kurokawa mordeu o lábio, hesitante. — Mas será mesmo que ela fez isso conosco sem nenhum motivo?
— Bem, talvez o motivo tenha sido justamente esse: ela pode ter achado que seria divertido nos ver em meio a esse ataque terrorista.
— Você realmente pensa assim? — Kurokawa, visivelmente inconformada, questionou a resposta.
— Bem, não adianta ficar remoendo isso — Luck disse, ajeitando a garota em suas costas. — Pessoas fortes como ela, que já não encontram mais graça em batalhas ou aventuras, tendem a ter comportamentos extravagantes sem um motivo aparente. Tentar entender só vai te enlouquecer.
Kurokawa retomou a caminhada, silenciosa, mas sua expressão deixava claro que não havia simplesmente aceitado a situação. "Tudo bem, ela nos teletransportou até aqui porque queria nos ver no meio deste ataque terrorista. Mas, então, devemos apenas aceitar que, por um acaso do destino, 'tropeçamos' em uma garota que tem uma energia semelhante a um incidente que aconteceu 20 anos atrás?"
Eles viraram em um corredor largo que dava acesso ao depósito de bagagens VIP. Luck parou bruscamente. — Opa.
Diante deles, o cenário era de devastação controlada. Pilhas de mafiosos, amontoados como sacos de lixo. No centro da sala, um homem de cabelos brancos e pele morena segurava outro mafioso pelo colarinho, erguendo-o trinta centímetros do chão com apenas uma mão.
— Vamos! Diz logo! — gritava Chuya, a voz rouca de quem fumou maços demais. — Onde vocês esconderam o cristal de teleporte?!
Luck sussurrou: — Droga. Outra briga. Vamos dar a volta...
Mas o destino tinha senso de humor. O mafioso nas mãos de Chuya, com os olhos inchados, focou em Luck — ou melhor, na carga dele. — ...Senhorita... Benedetta! — gorgolejou o homem, antes de desmaiar de medo.
Chuya travou. Benedetta? O nome acendeu um alerta em sua mente; ele, como morador de Elysium, conhecia muito bem o nome dos "Oficiais" da Família Salazar.
Ele largou o corpo do mafioso como se fosse um trapo velho e girou nos calcanhares. Seus olhos brilharam em um laranja intenso. — TE PEGUEI!
Sem aviso, Chuya saltou. O chão sob seus pés derreteu. Uma espada de fogo puro se materializou em sua mão direita.
— DROGA! — gritou Luck.
Ele empurrou Benedetta para os braços de Kurokawa e interceptou o golpe que vinha em alta velocidade.
BAM!
Foi uma colisão de temperaturas. O punho envolto em chamas azuis de Luck encontrou a lâmina de fogo laranja de Chuya. A onda de choque térmica varreu o armazém, fazendo as malas de couro caro chamuscarem. Luck grunhiu, empurrando Chuya para trás com força bruta. — Qual é a sua, maníaco?! Já chega atacando sem pagar um café antes?!
Chuya pousou agachado, as botas rasgando o metal do piso para frear. Ele olhou para Luck, analisando a postura, e depois para Kurokawa, que segurava a garota inconsciente. — Vocês não parecem mafiosos... — Chuya estreitou os olhos. — São passageiros? Ou ladrões aproveitando a confusão?
Luck manteve a guarda alta, as chamas azuis dançando nos nós dos dedos. — E se formos? Por que a pergunta?
— Simples. — Chuya endireitou-se, sacando um maço de cigarros amassado do bolso com uma calma irritante. — Se forem da máfia, eu mato. Se forem civis, eu posso deixar vocês irem... contanto que deixem a garota aí.
— Ah, isso não vai rolar, parceiro — respondeu Luck, sorrindo de forma desafiadora.
Chuya acendeu o cigarro, tragou profundamente e soltou a fumaça pelo nariz. — Você não é da máfia. Pelo seu Éter... deve ser um Caçador.
— E você? — rebateu Luck. — Só um piromaníaco?
— Só um assalariado cansado fazendo hora extra não remunerada.
A tensão era palpável. O ar vibrava com a promessa de violência.
De repente, uma sombra se moveu. Miguel apareceu ao lado de Chuya. Ela não fez barulho. Ela simplesmente passou a estar lá. Luck sentiu um arrepio na espinha. O Éter dela era bizarro. Não era quente como o de Chuya, nem explosivo como o dele.
— Miguel — disse Chuya, sem olhar para ela. — Eu cuido do ruivo esquentadinho. Você pega as garotas e recupera o alvo. Rápido.
Mentalmente, Luck pensou: "Droga... se eles virem os dois, será que consigo proteger a Kurokawa?"
— Pelo Éter dele, será muito difícil lutar. Miguel, aproveite a oportunidade para pegar a outra garota; pelo Éter dela, ela não deve ser forte — Chuya falava soltando fumaça.
Miguel olhou para Luck. Olhou para Kurokawa. Olhou para Benedetta. E então, abriu a boca. — Não.
Chuya ficou estático. O cigarro quase caiu da boca. O cérebro dele precisou de três segundos para processar a audácia. — ...Como assim "não"? Miguel, nessas horas normalmente você tem que falar "sim", ou "entendido", ou só acenar com a cabeça!
Miguel revirou os olhos com tédio. Ela caminhou até uma pilha de caixas altas, subiu nela e sentou-se, balançando as pernas. — Por que eu tenho que me envolver? — disse ela, a voz monótona. — Não faz parte do meu trabalho...
Chuya ficou vermelho de raiva, a veia da testa pulsando. — Droga, Miguel! Eu te ajudei hoje de manhã, não lembra?! Qual o problema de quebrar essa pra mim?! Estamos numa missão de vida ou morte!
Miguel piscou, impassível, e bocejou, ficando em completo silêncio.
Chuya bufou, jogando o cigarro no chão e pisando nele com ódio. — Tá certo! Ótimo! Se não quer ajudar, beleza! Eu resolvo isso sozinho!
Luck soltou um suspiro, aliviado por não ter que lutar contra dois, mas ainda tenso. — Ei, Kurokawa... — sussurrou ele, sem desviar o olhar de Chuya. — Pega a garota e recua. Eu seguro o fumante.
Kurokawa, no entanto, estava franzindo a testa. Seus olhos analíticos iam de Chuya para Miguel, e depois para a própria Benedetta. — Espera, Luck.
Ela deu um passo à frente, ignorando o perigo. — Ei, você! O do cigarro!
Chuya parou, a espada de fogo recriada na mão. — O que foi agora? Quer se render?
— Por que vocês querem ela? — Kurokawa apontou para Benedetta.
Chuya respondeu no automático: — Ela é uma Oficial de Elite da Máfia, não é? Espera... vocês não sabiam? Por acaso são mesmo só passageiros?
— Espera... — Luck baixou os punhos, confuso. — O quê?
— Uma Oficial da Máfia? — Kurokawa balançou a cabeça, descrente. — Mas isso significa que... ela estava matando seus próprios companheiros?
Luck olhou para a garota inconsciente em choque. As peças do quebra-cabeça não se encaixavam. O que Kurokawa havia dito fazia sentido; havia algo realmente muito estranho em toda aquela situação.
Parte 7
Setor Inferior do Titanic (Corredores)
Aqui embaixo, o luxo do Titanic não existia. Havia apenas metal sujo, vapor escapando de válvulas sibilantes e uma iluminação amarela e doente que piscava intermitentemente, criando um efeito estroboscópico de pesadelo.
O ar era denso, impregnado com a mistura nauseante de óleo queimado, ferrugem e o cheiro inconfundível de cobre fresco. Sangue.
Diante do grupo de Anna, Sora, Leon e Nyan, jazia uma "instalação de arte" grotesca. Um corpo feminino, ainda vestido com sedas finas agora encharcadas de vermelho, estava pregado à parede de aço. Não havia cordas. Ela estava suspensa por uma coleção brutal de estacas de metal prateado, cravadas com precisão cirúrgica nos pulsos, tornozelos e ombros, formando uma cruz profana.
Sora cobriu a boca com as duas mãos, o rosto ficando verde. Leon desviou o olhar, trincando o maxilar tão forte que um músculo saltou em sua bochecha. Nyan recuou, os instintos animais gritando "perigo, predador, morte". A repulsa era a única reação humana possível.
Exceto para Anna.
A pequena garota de cabelos loiros deu um passo à frente. Seus sapatos de verniz estalaram no chão úmido, ecoando no silêncio horrorizado. Onde deveria haver terror, havia fascínio. Ela inclinou a cabeça para o lado, como um corvo observando uma joia brilhante. Seus grandes olhos não tremiam; eles absorviam cada detalhe com uma intensidade febril, quase devorando a cena.
Lentamente, os cantos de seus lábios se curvaram para cima. Um sorriso doce, angelical... e completamente errado.
— Uau... — ela sussurrou, a voz carregada de uma inocência dissonante que fez a espinha de Leon gelar. — É como... uma pintura vermelha viva. A simetria é perfeita.
Ela se virou para os companheiros, o sorriso largo ainda estampado no rosto, esperando compartilhar a descoberta intelectual. — Vocês viram como o sangue escorreu seguindo as ranhuras da parede? Parece uma árvore invertida.
O que recebeu em troca foi um muro de silêncio aterrorizado. Os olhares de Sora e Nyan não eram apenas de julgamento; eram de medo genuíno. Até alguns passageiros que passavam mal nos cantos pararam de vomitar para encarar a criança que sorria para a morte.
O sorriso de Anna vacilou. As engrenagens em sua mente travaram. "Por que me encaram assim?" — ela pensou, atordoada. — "Ah. É verdade. Humanos normais não acham isso interessante. Eles sentem... pena? Nojo?"
De repente, o mundo pareceu inclinar. Um zumbido agudo perfurou seus ouvidos, isolando-a. Minutos se arrastaram como horas. A equipe de segurança chegou, pastoreando as testemunhas para um saguão improvisado. Anna sentou-se no fundo, abraçando os joelhos. A cor havia drenado de seu rosto, não pelo corpo, mas pela percepção de sua própria monstruosidade social.
— É verdade... — ela murmurou para o chão, as pupilas dilatando e contraindo erraticamente. — Eu preciso... parecer triste. Tristeza é a resposta correta.
Passos pesados quebraram seu transe. Um homem alto, vestindo um sobretudo cinza sobre o uniforme de segurança, entrou no recinto. Ele parecia não dormir há semanas. Olheiras profundas, barba por fazer e um olhar que cortava o ar como bisturi.
Era Danael, o Chefe de Segurança.
Ele ignorou os subordinados que prestaram continência e caminhou direto para a parede. — Senhor Danael. Bom trabalho em chegar rápido — disse um guarda.
— "Bom trabalho"? — A voz de Danael era seca e carregada de ironia. — Temos um cadáver crucificado no meu turno, sargento. Se isso é um bom trabalho, eu odiaria ver o que você considera um fracasso.
Danael parou diante do corpo. Ele não tocou em nada. Sua mão esquerda foi à testa, massageando as têmporas. Sua mão direita segurava uma caneta sobre um caderno de couro aberto. Então, começou. A mão direita de Danael começou a se mover sozinha. Risc, risc, risc. A caneta voava sobre o papel, desenhando diagramas, escrevendo palavras soltas, conectando pontos em uma velocidade desumana. Ele nem olhava para o papel. Seus olhos estavam fixos no cadáver, varrendo cada centímetro como um scanner.
"Habilidade: Escrita Automática."
— Identificação? — Danael perguntou, a voz mecânica, enquanto sua mão continuava a escrever freneticamente. — Emília Genovesi. Sobrinha de Barone, oficial da Família Salazar.
A mão de Danael parou por um milésimo de segundo antes de riscar o papel com violência. — Barone... É claro. Eu sabia que deixar esses lunáticos subirem a bordo seria um erro. — Ele abriu os olhos, que brilharam com uma luz fria e calculista. — Já contataram o Barone?
— Senhor... perdemos contato. Todas as frequências de comunicação interna foram cortadas.
— O quê?! — A calma de Danael rachou. — Justo agora?
— E é óbvio que não é coincidência. — Uma voz infantil e monótona surgiu ao lado dele. — Acho que, a esse ponto, todos da sala de comunicação já devem estar mortos.
Danael olhou para baixo. A pequena garota de cabelos brancos estava parada ao lado dele, olhando para o corpo. — Que diabos... Tirem essa criança daqui! — Danael rugiu para os guardas. — Vocês deixam uma menor ver uma cena de crime brutal?!
Os guardas hesitaram. Havia algo no olhar de Anna que os impedia de tocá-la.
— Que isso? Estão com medo de uma criança? — Danael bufou, incrédulo.
— Tem certeza? — Anna inclinou a cabeça, o sorriso voltando, mas agora contido, uma máscara social imperfeita. — Eu posso ajudar no seu caso, Senhor Detetive.
— E como uma criança ajudaria? — Danael estreitou os olhos.
— Você não sabe ainda, né? — Anna apontou para o teto, para as tubulações que vibravam sutilmente. — Lá em cima... está acontecendo uma guerra.
— Do que você está falando?
— Consigo sentir. O Éter. Pessoas estão lutando e morrendo nos andares superiores neste exato momento.
— Impossível. — Danael zombou, embora sua caneta tivesse voltado a se mover sozinha no caderno, anotando "Guerra? Éter?". — Existe uma barreira de contenção mágica entre os setores. Ninguém consegue sentir o Éter dos andares de cima daqui de baixo. A menos que...
Ele parou. Olhou para Anna. A menos que ela fosse um monstro, um prodígio em capacidades sensoriais.
Sora, vendo a interação perigosa, correu até eles. — Anna! Volta aqui! Você não tem que se envolver nisso!
Anna virou-se para Sora, lágrimas grossas começando a brotar em seus olhos. — Mas olha aquilo, Sora! Veja como aquela garota está... Imagina o quanto deve ter doído! O criminoso vai sair impune? Eu não posso permitir uma injustiça dessas!
Sora, Nyan e Leon travaram. As palavras eram nobres. As lágrimas pareciam molhadas. Mas a entonação... era como ouvir uma IA tentando recitar Shakespeare. Havia um vale da estranheza ali que causava arrepios.
Danael, no entanto, viu utilidade naquilo. — Se quiserem, podem voltar para seus quartos. A garota fica comigo.
— Se quer ajuda de Caçadores — Leon interveio, dando um passo à frente com postura protetora —, entendo que vai colocar uma recompensa pela cabeça do assassino.
— Não preciso. — Danael sorriu sem humor. — A garota na parede é uma Salazar. Leve a cabeça do assassino para a família dela e você ficará rico. Ou morto. Provavelmente os dois.
Leon assentiu. — Aceitamos a missão.
— Não deveríamos avisar o Dante? — sussurrou Sora.
— Não sabemos onde ele está — respondeu Nyan. — Melhor seguirmos o fluxo.
Danael girou nos calcanhares, a mente trabalhando em múltiplas camadas. — Certo. Temos um cadáver VIP. Temos um blecaute de comunicação. E, se a Pequena estiver certa, uma guerra civil no convés superior. — Ele arrancou um adesivo de nicotina do bolso e colou no braço com força. — O primeiro passo é evacuação.
Ele olhou para seus tenentes. — Os mandachuvas vão querer priorizar os ricos, já que estamos com pouca energia para teleporte. Mas como a comunicação caiu... não temos ninguém para nos dar ordens estúpidas.
— Senhor?
— Movam a energia dos motores auxiliares. Deixem o Titanic parado se precisarem. Desviem tudo para os cristais de teleporte dos setores inferiores. Vamos tirar os civis e a tripulação daqui. Agora.
— Mas senhor... isso é contra o protocolo da Luminary Labs!
— Tem alguém superior a mim nesta sala? Não? Então andem logo!
Enquanto a equipe dispersava, Danael ficou com o grupo. Ele olhou para o corpo de Emília, mas sua mente viajou para outro lugar. Para sua própria filha, Sofia, que estava a bordo. Um mau pressentimento apertou seu peito. — Hum... — Ele deu um sorriso sem alegria. — Será esse o sexto sentido de pai? — murmurou ele, amargo. — Espero que você esteja bem, Sofia.
Anna, que o observava com atenção, conseguiu notar o sutil movimento de seus lábios, mas escolheu ignorar por enquanto.
— Bom. Vamos resolver esse quebra-cabeça — disse ele, voltando ao modo profissional.
— Esse é meu objetivo. — Anna sorriu, os olhos brilhando.
Nesse momento, um jovem loiro com o uniforme de segurança um número maior que o ideal aproximou-se, tropeçando nos próprios pés. — Com licença, senhor... eu trouxe o terminal...
Danael nem virou a cabeça. Sua caneta continuava riscando o caderno. — Não se apresente. Vai ser desperdício de tempo. Pegue esse terminal e comece a investigar tudo sobre uma mulher chamada Benedetta. Suspeito que ela seja uma das quatro Clarividentes do continente.
O jovem, Alphonse, piscou, pálido e suando frio. — Hã? C-clarividente? Máfia? O senhor não estava procurando o assassino?
— Entendi. Faz sentido. Tinha que ter sido uma mulher. — Anna falou de repente, acenando com a cabeça como se concluísse um cálculo matemático complexo.
Danael parou de escrever. Ele olhou para Anna, impressionado pela primeira vez. — Então você também reparou?
— Claro. Estava na cara. Literalmente. — Anna apontou para o cadáver.
Alphonse olhava de um para o outro, perdido. — D-desculpe? Como assim?
Danael suspirou, impaciente. — Alphonse, certo?
— C-como sabe meu nome?
— Crachá torto. Rosto novo, não estava nos arquivos ontem. Suor na testa, postura defensiva de quem esconde algo ou é incompetente. Vou assumir incompetência por enquanto. Agora, preste atenção.
Danael apontou para o corpo com a caneta. — O assassinato de Emília é teatral. Estacas de prata em cruz. Estilo dos "Justiceiros de Elysium", fanáticos que purificam pecadores. Mas Emília era limpa, ficha técnica impecável. O "pecado" não era dela. Era do sangue dela. O alvo real da mensagem é o tio, Barone.
— Não é só isso — Anna interrompeu, caminhando até ficar a centímetros do cadáver, ignorando o cheiro. — A forma como ela morreu. Olhe o pescoço.
Todos olharam. Sob o sangue, havia marcas roxas profundas. — Ela foi estrangulada antes — disse Anna. — As estacas foram colocadas post-mortem. O assassino queria encenar a peça, mas a morte foi passional, íntima.
— Exato — concordou Danael. — E como sabemos que foi uma mulher? E por que Benedetta?
— Marcas de mão — disse Anna, apontando. — O polegar é curto, dedos finos. Mãos de mulher. E se você olhar aquela mancha vermelha perto da carótida... não é sangue. O sangue coagula e escurece. Aquilo é brilhante.
— É esmalte — completou Danael, mostrando a tela do terminal que Alphonse segurava. — Da mesma cor específica, "Vermelho Sangue de Dragão", que Benedetta usava no salão de festas ontem à noite.
Todos os presentes começaram a encarar os dois, com expressões de incredulidade e espanto.
— Além disso — Danael virou-se para Alphonse —, Emília e Benedetta eram inseparáveis. Para o assassino saber onde Emília estaria sozinha neste labirinto... tinha que ser alguém de confiança.
O silêncio caiu sobre o grupo. Sora, Leon e Nyan encaravam Anna e Danael como se fossem alienígenas. Alphonse estava pálido como cera.
— Coincidências demais — disse Danael, fechando o caderno com um estalo seco.



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