The Fall of the Stars: Capítulo 1 - Bem vindo ao Titanic
- AngelDark

- 14 de jul. de 2025
- 57 min de leitura
Atualizado: 27 de nov. de 2025
Volume 2: Enigma
Parte 1
Nas entranhas do colossal "Titanic", a recém-inaugurada joia da coroa do continente de Elysium, pulsava um refúgio secreto. Longe dos salões de baile dourados e das suítes de luxo, existia a sala de descanso dos trabalhadores — o coração operário que mantinha o monstro de metal vivo.
Após turnos exaustivos, era para lá que a tripulação convergia, buscando o silêncio como um bálsamo. Embora fosse uma área restrita aos empregados, sua beleza rivalizava com as áreas nobres. As paredes à direita, quando ativadas no modo espelho, deixavam de ser metal frio para se tornarem janelas panorâmicas para o infinito. Revelavam paisagens de planetas distantes e a vastidão silenciosa do cosmo, uma pintura viva e exclusiva que permitia às mentes cansadas flutuarem para longe da rotina brutal.
No entanto, naquele momento, o habitual caos de redes, malas e conversas paralelas estava ausente. O silêncio reinava, denso e pesado. A maioria cumpria suas funções nos conveses superiores, deixando o recinto deserto, exceto por duas figuras.
A primeira era um homem alto, de pele morena e cabelos brancos e lisos, esparramado em uma rede. Ele dormia com uma tranquilidade invejável, seus roncos rítmicos sendo a única coisa a quebrar a quietude do lugar. A segunda figura era uma garota, parada ao lado dele como uma sombra, cutucando-o incessantemente.
— Ei… — Ronc! — Ei… — Ronc!
A frustração da garota era visível na tensão de seus ombros. Diante da completa falta de resposta, seus olhos percorreram o ambiente em busca de uma solução. Sem hesitar, ela levou a mão ao nó que sustentava a rede.
Um puxão seco. A gravidade fez o resto.
— AI! QUE DROGA! — O homem despencou no chão, acordando no susto.
— ...
Ele se levantou, massageando as costas, os olhos injetados de sono e fúria.
— Mas que diabos você acha que está fazendo, pirralha maldita?
— ...
— Você é muda por acaso? Merda, minha cabeça já parecia um sino tocando por causa da bebida de ontem, agora isso... Droga.
— Quer que eu busque água?
Chuya piscou, a surpresa sobrepujando a raiva momentânea.
— ENTÃO VOCÊ SABE FALAR?!
— ...
— Quer saber? Esquece. — Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos brancos bagunçados. — Quem é você e por que diabos me acordou?
— Já passou da hora de acordar. O pessoal da nossa equipe já foi.
— Bom, isso eu meio que percebi pelo silêncio, mas o que é que tem? Por acaso você é uma daquelas certinhas que vai dedurar quem não trabalha direito?
— Não… Eu apenas queria ver onde você iria trabalhar quando acordasse.
Chuya a analisou de cima a baixo, seus olhos semicerrados focando no uniforme impecável dela.
— Não me diga que… Pensando bem, pela sua roupa, você é uma das novatas despachadas do recrutamento para auxiliar o time de viagem, né?
— ...
— Tá, comecei a entender. — Um sorriso de canto apareceu em seu rosto. — Lembrei de você. A garota que foi movida do time dos novatos e jogada no nosso colo porque o número estava ímpar. Aposto que te esqueceram aqui e você não faz ideia de onde é seu posto, então ficou me esperando feito um patinho perdido.
— …
— Por que não foi com os outros?!
— Eles estavam conversando em grupos… Não queria me intrometer…
— Aí resolveu esperar alguém sair sozinho, e o único mané solitário fui eu… — Cansado, ele levou a mão à cabeça. — Você é tímida demais. Deveria ter só pedido ajuda, sabia?
— …
— E lá vem o silêncio mortal de novo. Quer saber, esquece. Melhor eu ir prestar algum serviço para deixar minhas imagens registradas nas câmeras, senão acabo sem salário este mês também. — Ele começou a ajeitar a própria roupa, alisando as dobras do uniforme. — Não vou saber explicar o seu trabalho, mas se quiser me seguir e observar o que eu faço, não vou te expulsar.
— … — Acenando em silêncio, ela confirmava com a cabeça.
— Você realmente não é de conversar, né?
— …
— Tsk, tanto faz. Meu nome é Chuya. E o seu?
— … Meu nome é Miguel.
Chuya parou por um segundo.
— Miguel? Que bizarro. Esse nome não é masculino demais para você?
— …
O olhar dela permaneceu inalterado.
— … Hum, quer saber, esquece. Não é da minha conta. Vamos.
A dupla caminhou pelos corredores labirínticos de serviço por algum tempo até emergir na Área Superior. A transição foi brusca: do silêncio metálico dos corredores para uma explosão sensorial.
O Bar do Navio era vasto. Miguel e Chuya assumiram imediatamente suas posições como garçons, misturando-se à multidão para servir bebidas. O bar-cassino do Titanic não era apenas um local de jogos; era um santuário de prazer desenfreado. Paredes revestidas de ouro refletiam a luz de lustres de cristal.
A música pulsava no ar: uma mistura sofisticada de jazz sintético e clássicos, criando uma trilha sonora que engrandecia cada movimento. Jogadores se aglomeravam em torno das mesas, disputando fortunas em cartas, dados e máquinas caça-níqueis que tilintavam incessantemente.
Miguel, que até então mantinha uma fachada impenetrável, arregalou levemente os olhos. Sua cabeça girava com rapidez, absorvendo cada detalhe, cada luz, cada som.
— Hum, já sei o que você está pensando — comentou Chuya, equilibrando uma bandeja vazia. — "Como um lugar assim pode existir dentro de um navio", certo?
— …
— Pois é, eu tive a mesma reação quando vi as plantas. E acredite, isso aqui é só a ponta do iceberg. Para os "mais normais", existem outros bares; para os "elevados", o luxo é ainda mais absurdo. Como esta é uma viagem inaugural especial, tudo está aberto, por isso este bar mais simples está meio vazio. — Ele gesticulou discretamente para o teto. — O lado ruim é que, com menos gente, as câmeras focam mais em nós.
A garota o olhou, processou a informação e voltou a escanear o ambiente em silêncio.
— Hum…
— O que foi? — Chuya seguiu o olhar dela.
No canto do salão, a harmonia do jazz foi quebrada por gritos. Um homem, com o rosto vermelho de ira, batia na mesa de feltro verde, confrontando o croupier.
— Mas que história é essa?! Eu não quero saber de desculpas, quero o meu dinheiro!
O croupier manteve a voz gélida e profissional:
— Infelizmente, isso está fora de questão, senhor. Detectamos o uso de sua habilidade para alterar o resultado. O senhor quebrou as regras da casa.
— Não inventa! Eu não usei merda nenhuma!
— Não adianta negar. Temos leitores de fluxo de éter e câmeras espectrais. O registro da alteração é claro.
— Que merda! Eu não concordei em ser vigiado por essas porcarias!
— Não é exclusivo para o senhor. É o protocolo padrão para qualquer apostador.
— Ah, é? — O homem se ergueu, o ar ao redor dele tremeluzindo perigosamente. — Então o que você vai fazer se eu me recusar a pagar e levar as fichas que "perdi"?
— Não recomendaria isso, senhor.
— Isso não é você quem dec...
O som de impacto foi seco e brutal.
Antes que o homem pudesse terminar a ameaça ou conjurar qualquer poder, Chuya surgiu em seu ponto cego. Com um movimento fluido, ele desferiu um chute lateral direto na têmpora do arruaceiro, que desabou como um saco de batatas sobre a mesa de jogo, espalhando fichas para todos os lados.
Com a perna ainda estendida, Chuya calmamente levou um isqueiro à boca, acendendo um cigarro.
— Olhe as regras do recinto antes de dar uma de engraçadinho, amigo — disse ele, tragando profundamente e soltando a fumaça sobre o corpo inconsciente. — Ao aceitar viajar neste navio, lembre-se: quebrar as regras resulta em uma surra por cortesia da casa.
O silêncio voltou ao bar por alguns segundos, antes de a música e as conversas retomarem o volume normal, como se nada tivesse acontecido.
Minutos depois, Miguel se reaproximou de Chuya, que agora limpava um copo distraidamente.
— O que foi, baixinha? — perguntou ele.
Ela apontou sutilmente para a direção onde a segurança arrastava o homem desmaiado.
— Ah, aquilo? Só um idiota tentando ganhar vantagem usando uma habilidade Shaper. Nada fora da rotina… — Ele olhava para o homem sendo arrastado e tirava o cigarro da boca, irritado. — Tsk, esse tipo de gente sempre me dá trabalho extra.
— Shaper?…
Chuya parou de limpar o copo e a encarou.
— O quê? Você não sabe o que é um Shaper? De que buraco você saiu, garota?
Ela hesitou. Seus olhos desviaram por um momento antes de responder com um sussurro:
— Gaia.
— Ah... Entendi. — A expressão de Chuya suavizou, perdendo o tom de escárnio. — Bom, já que não posso te dar o treinamento oficial sobre sua função, vou ser um veterano legal e depois te dar um tutorial de vida. Mas você vai ficar me devendo essa.
— Não, obrigada — a garota respondeu, já dando as costas para retomar o serviço.
— Espera, por quê? — O cigarro de Chuya escorregou de seus lábios.
— Você não parece muito esperto.
Ela fez um leve aceno de cabeça após o comentário. Enquanto Chuya ainda processava a resposta, ela caminhou devagar pelo balcão, recolhendo os copos vazios.
Parte 2
No banheiro privativo de uma das suítes de luxo do Titanic, o vapor quente embaçava o espelho. Debruçado sobre a pia, um homem lavava o cabelo com vigor. A água que escorria pelo ralo levava consigo uma tintura amarela artificial, revelando, aos poucos, a verdadeira natureza dos fios: um branco prateado, quase metálico.
Ele ergueu o rosto, sacudindo as gotas que voavam como estilhaços.
— Klaus disse que eu deveria mudar a cor do meu cabelo até entrar no Titanic, mas não se deu ao trabalho de explicar o motivo exato — resmungou para o reflexo, passando a toalha com força. — Que droga. É por isso que sempre digo para aquele desgraçado só me mandar em missões de combate.
Jogando a toalha molhada de lado, ele caminhou até a cama. Vestiu a jaqueta, cujo peso lhe era familiar, e ajustou os óculos escuros, escondendo o olhar predatório. Deu uma última conferida no espelho; a imagem agora condizia com quem ele realmente era. Sem mais demora, saiu do quarto, seus passos ecoando pelo corredor acarpetado.
Porém, não andou muito.
— Hum. Olha só quem diria — soltou ele, parando bruscamente.
Diante dele, bloqueando o corredor estreito, estava uma garota.
— Adam, é você?
Adam inclinou a cabeça, analisando-a.
— Então você também foi despachada para cá, Ceto?
Os dois se mediram em silêncio por um instante. Enquanto Ceto mantinha um sorriso tranquilo nos lábios, a expressão de Adam endureceu, tornando-se agressiva.
— Me diga, Sardinha... — ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. — Se você está aqui, também deve ter recebido ordens diretas de Klaus, não é?
— O que você quer dizer com "Sardinha"? — ela perguntou, ignorando a hostilidade. — Mas, deixando os apelidos de lado... Sim, eu vim. Confesso que nunca achei que a missão fosse tão crítica a ponto de precisarem enviar duas duplas.
Adam estreitou os olhos.
— Ceto, como você é uma das novatas, pode não ter a dimensão da coisa. Deixa eu te explicar: nunca, na história da nossa organização, duas duplas da Horizon foram movidas para o mesmo local.
O sorriso de Ceto vacilou por um milésimo de segundo.
— Nossa... quer dizer que a missão dessa vez vai ser difícil a esse ponto?
Antes que Adam pudesse responder, a temperatura no corredor pareceu cair drasticamente. Uma terceira figura emergiu das sombras, caminhando em direção a eles com uma aura pesada.
— Não, isso pode simplesmente significar que Nicklaus queria que víssemos algo. — Kali voltou seus olhos cheios de fúria contida para Adam. — Ceto, ignore-o. É uma perda de tempo.
Adam virou o rosto lentamente.
— Então, a dupla da Sardinha e minha sobrinha preferida? Kali, seus chifres estão tão magníficos quanto de costume.
Um triângulo de tensão se formou. Ceto permanecia sorridente e neutra, como a calmaria antes da tempestade, mas o Éter de Kali e de Adam entrou em um silêncio absoluto e aterrador. Não era ausência de poder, mas a supressão dele — como o recuo do mar antes de um tsunami.
— O que foi isso? Não vai dar nem um "olá" para o titio? — provocou Adam, com um sorriso de canto.
— Cortado, queimado, esfolado ou simplesmente com um tiro na cabeça. Aproveite esta rara oportunidade para me dizer como gostaria que eu o matasse, Adam — retrucou Kali.
— Hum... Que medo! Quer dizer que sou um alvo da Princesa da Ruína? — Adam a examinou de cima a baixo.
O ar vibrou. Na mão direita de Kali, uma katana longa emanava uma pressão esmagadora.
— Que foi? — Adam nem piscou. — Magoei seus sentimentos falando do seu passado, Kali?
Ceto deslizou para o meio dos dois, as mãos erguidas em um gesto pacificador.
— Calma, calma! Lembrem-se de que estamos em missão. Não temos tempo ou permissão para disputas de ego.
Kali sustentou o olhar sobre Adam por mais alguns segundos.
— Não faz diferença; no final, serei eu quem vai te matar. Vamos logo, Ceto.
Kali girou nos calcanhares e começou a caminhar, sua postura rígida. Ceto acenou brevemente para Adam, um adeus silencioso, e seguiu sua parceira, deixando o homem de cabelos prateados sozinho no corredor.
— Hum. Aquela pirralha... — Adam bufou, relaxando os ombros. — Mal posso esperar pelo dia em que ela tentará concretizar essa ambição.
Ele balançou a cabeça, afastando os pensamentos.
— Até lá, é melhor ir beber alguma coisa.
O bar do Titanic era um espetáculo de opulência e luzes douradas. Adam caminhou até o centro do balcão e sentou-se, pedindo uma bebida. Enquanto o líquido ambarino girava no copo, sua mente trabalhava.
O que poderia ser tão importante para Klaus enviar duas duplas de elite? E por que ele e Lúcia foram mantidos no escuro, operando como peças soltas no tabuleiro? A liberdade era inebriante, mas a falta de informação era inquietante.
Um estrondo vindo do salão do cassino anexo quebrou seus devaneios.
Adam girou o banco apenas o suficiente para ver a cena: um homem, provavelmente um aristocrata bêbado fazendo confusão, foi arremessado através do salão como uma boneca de pano. O corpo chocou-se contra a parede com um estalo seco, fruto de um chute impecável de um dos mordomos.
O reflexo no espelho atrás das garrafas mostrava um ambiente aquecido, cheio de vida alheia, mas, para ele, a temperatura ao redor de sua banqueta parecia ter despencado subitamente. Pelo canto do olho, ele percebeu a presença antes mesmo do movimento. Alguém puxou o banco ao seu lado. Não foi um gesto fluido; foi pesado, arrastado, o som da madeira raspando o chão. Parecia que a gravidade, naquela pequena órbita, funcionava com o dobro da intensidade para aquele recém-chegado.
— Tem algo forte o suficiente para fazer o barulho parar?
A voz era jovem, quase infantil, mas arranhava a garganta ao sair. Era o som seco de algo que havia gritado até a exaustão há pouco tempo.
Adam baixou o olhar lentamente, sem pressa. Era um garoto. O corpo era pequeno, roupas sobrando nos ombros, mas a postura era de um homem velho e destruído.
— Esqueça, esse barulho a que se refere nunca para, garoto — Adam respondeu. — Engraçado, você não tem cara de quem foi rejeitado por uma paixonite da escola. Você tem o olhar de quem acabou de ver o mundo acabar.
O "garoto" não olhou para ele; em vez disso, fitava o líquido no copo à sua frente. Com os punhos cerrados, flashes de memória inundavam sua mente.
— "O Mundo Acabar"... — Dante sussurrou, com um sorriso amargo. — Ironicamente, você chegou bem perto da verdade.
Uma pontada aguda rasgou sua têmpora. Aos poucos, a dor piorava; ele conseguia sentir que sua mente estava se partindo, fragmentos de quem ele era deslizando para longe, perdidos na correnteza.
— Mesmo assim, você não acha que é jovem demais para afogar essa mágoa na bebida? — perguntou Adam, enquanto servia mais bebida em seu copo.
— Já que não quero causar a impressão errada, aviso logo que meu corpo foi alterado recentemente, o que resultou nesta forma. No entanto, isso não significa que me tornei uma criança.
Adam não riu. Ele girou o corpo levemente, analisando a figura encolhida com uma frieza clínica, quase cirúrgica.
— Entendo, imprevistos sempre podem ocorrer — Adam murmurou, quase para si mesmo. — Mas já que vamos beber juntos, que tal me falar um pouco sobre o que te perturba? Está triste por ter perdido alguém?
— Triste? — Dante levantou a cabeça lentamente, o olhar vago. — Não é tristeza. É como se eu ainda estivesse caindo. Minha cabeça pulsa, como se estivesse sob a pressão do mar por ter mergulhado fundo demais...
Enquanto falava, Dante pegou o copo com bebida à sua frente e levou-o à boca, o vidro batendo nos dentes quando ele virou o líquido de uma vez, num desespero para buscar qualquer âncora sensorial, qualquer coisa que o prendesse à realidade.
Mas, assim que o álcool tocou sua língua, sua expressão se contorceu em uma mistura de repulsa e confusão genuína. Ele tossiu, engasgando, e empurrou o copo para longe violentamente. O vidro rodopiou, derramando gotas na madeira.
— Isso... isso tem gosto de cinzas. — Dante encarou as próprias mãos abertas, flexionando os dedos.
Adam suspirou, o som pesado de quem reconhece um diagnóstico fatal. Ele girou o gelo em seu próprio copo, o tilintar soando alto demais, agressivo, no silêncio denso que se formou entre eles.
— Você não mencionou que passou por uma transformação há pouco tempo, garoto? — A voz de Adam cortou o ar, destituída de qualquer consolo barato.
Dante sentiu um calafrio percorrer sua espinha, eriçando os pelos do braço. A cada minuto, a sensação e a percepção de que realmente estava preso em um corpo estranho, um impostor vestindo a própria pele, aumentavam, fazendo-o aceitar cada vez mais que não era mais o mesmo.
— Que merda... — Dante cobriu o rosto com as mãos, escondendo-se na escuridão de suas palmas. A apatia estava começando a vencer o pânico. Ele tentou evocar a imagem de Nero, mas não conseguia chorar pela morte dela em seus braços; a tristeza parecia distante, abafada pela água escura e densa que o cercava. Ele só sentia o vazio, vasto e aterrorizante.
Adam observou o desespero silencioso de seu companheiro de bebida. Ele já tinha visto muitos homens quebrarem, e reconhecia bem os sintomas que o garoto demonstrava.
— Escute, garoto. Se você deixar isso prosseguir, vai acabar morto. — Adam inclinou-se, diminuindo a voz. As sombras do bar pareciam envolver os dois. — Não há adversário mais poderoso do que os demônios que moram na sua mente. Se essa sombra crescer e você continuar se afogando nesse sentimento, a morte será inevitável.
Dante observou o homem de cabelos prateados pela primeira vez. Havia nele um perigo palpável, uma escuridão ancestral, mas também o olhar de alguém que conhecia a dor exata que ele sentia naquele momento.
— Se você não encontrar logo uma âncora para impedi-lo de continuar a afundar, não haverá álcool, mulheres ou trivialidades que o farão sentir algo. — Adam sorriu.
Um silêncio pesado caiu sobre a mesa, isolando-os do resto do mundo. A luz amarelada do bar parecia incapaz de penetrar a aura densa ao redor dos dois.
Parte 3 –
No oitavo piso inferior do Titanic, longe do brilho dos lustres e do som do jazz, o ar tinha um cheiro de graxa. Em uma das áreas de carga, destinada a bagagens pesadas, a atmosfera era opressiva. Um grupo de homens não usava os uniformes da tripulação, mas sim ternos pretos impecáveis, que contrastavam absurdamente com o ambiente industrial. Eles moviam caixas grandes e pesadas para dentro de caminhões de serviço internos, veículos blindados usados para transporte logístico no ventre do leviatã de metal.
Pelas protuberâncias nos paletós e a postura rígida, era óbvio: eram clandestinos. E do pior tipo.
— Isso ainda faz parte do "trabalho"? — perguntou a voz feminina, baixa e inexpressiva.
Chuya engoliu em seco, observando a cena.
— E o que está parecendo para você, Miguel?
— ... — A garota, inexpressiva mesmo naquela situação, simplesmente encolheu os ombros em sinal de genuína dúvida.
A dupla estava parada diante da operação. Antes que pudessem recuar, o clique metálico de dezenas de travas de segurança sendo destravadas ecoou pelo galpão. Rifles e pistolas voltaram-se para eles em uníssono.
Do meio dos homens de terno, uma figura se destacou. Usava um conjunto branco, imaculado, caminhando com a confiança de um rei em seu castelo.
— Parece que você está sem sorte hoje, Chuya.
Chuya soltou um suspiro pesado, erguendo as mãos lentamente.
— Não me diga! Comecei a suspeitar quando seus gorilas apontaram fuzis para a minha cara, Barone.
— ... Ele tem razão — comentou Miguel, com sua habitual falta de tato.
Chuya, que trabalhava naquele turno com Miguel a pedido do bartender do cassino, deveria apenas pegar pacotes na logística. Mas o que encontraram foi Barone, um dos capitães da Família Salazar — uma das doze famílias que controlavam o submundo do continente Elysium.
— Não comece a falar só para dizer o óbvio e zombar de mim, pirralha — resmungou Chuya para Miguel, antes de voltar seu olhar afiado para o mafioso. — Quer saber? Esquece. Estou esquentando a cabeça com a pessoa errada. Ei, Barone, jogue limpo: o que diabos está acontecendo aqui? Mesmo que os Salazar tenham comprado ingressos nos leilões, duvido que a segurança do Titanic permitisse um exército particular a bordo.
Barone sorriu, um sorriso que não alcançava os olhos.
— Que coisa curiosa de se perguntar, Chuya. Especialmente quando foi você quem me ajudou a trazer a maioria deles para cá.
O sangue de Chuya gelou.
— O quê?
— Não se lembra daquele dinheiro fácil? A grana extra para despachar a "bagagem excedente"?
A mente de Chuya foi puxada para dentro de suas memórias.
A Cidade de Metal fervilhava. Enquanto a elite embarcava pelo portal principal, os portadores de ingressos de leilão passavam por checagens rigorosas. As regras eram claras: limite de acompanhantes, proibição de familiares diretos para evitar golpes de estado a bordo, e uma varredura minuciosa em cada grama de bagagem.
Em um canto afastado, sob a sombra de um guindaste, Chuya encontrava Barone.
— Então, Chuya, acredito que já tenha se decidido — disse Barone, acendendo um cigarro.
— Bom, você sabe como eu sou. Não gosto de decepcionar os meus amigos, especialmente os que pagam bem.
— Esse é o meu garoto. Mas... como vai fazer para colocar as minhas cargas lá dentro? A segurança está dobrada.
Chuya sorriu, confiante, apoiando-se em uma das caixas que ele acreditava conter drogas ilícitas.
— Calma lá, Barone. Você sabe como funciona: eu não faço perguntas demais e você faz o mesmo. Aposto que não quer que eu fique xeretando suas "bagagens suspeitas".
Na mente de Chuya, a equação era simples: Barone estava contrabandeando a droga "Medusa" para fora da cidade, fugindo da fiscalização local. Era apenas contrabando. Crime comum.
Os dois apertaram as mãos e o pacto foi selado.
— Pois bem — disse Barone. — Não irei mais atrapalhar. Assim que o carregamento estiver lá dentro, vá até meu quarto e eu darei o pagamento.
A dura realidade atingiu Chuya no presente, fazendo-o reconhecer que tinha sido iludido por aquilo em que escolheu acreditar.
— Acho que sua regra de "não fazer perguntas" acabou de quebrar para o seu lado, amigo — zombou Barone.
— Merda... — Chuya olhou para as caixas, horrorizado. — Então você trouxe homens dentro daquelas cargas...
— Exato. — Barone abriu os braços, orgulhoso. — Mas isso é só o começo. Trouxemos também um Cristal de Teleporte de nível militar.
— Um Cristal de Teleporte?! — Chuya gritou, a voz falhando. — O que você está armando, Barone? Vocês não vão se safar se iniciarem uma guerra aqui dentro!
— Acha mesmo? Pois nós não achamos.
— "Nós"?... Não me diga que... quem mais está vindo, Barone?!
— Você é esperto, garoto. Já deve ter entendido.
Um suor frio percorreu a espinha de Chuya. O coração martelava contra as costelas. Ele não havia contrabandeado drogas. Ele havia contrabandeado uma invasão. Ele era o responsável por colocar a segurança de todo o navio em xeque. Miguel o observava de soslaio, notando a mudança drástica em sua expressão, do sarcasmo para o pânico puro.
— Homens — ordenou Barone, estalando os dedos. — Levem a garota para o caminhão. Vamos usá-la para extrair informações sobre as rotas dos funcionários e os códigos de acesso.
— Barone, seu desgraçado! Ela não tem nada a ver com isso! Deixe-a fora disso!
— Tecnicamente, é verdade. — Barone deu de ombros, enquanto dois homens agarravam Miguel pelos braços. — Mas o que mais poderia acontecer? Essa garota estava destinada à desgraça no momento em que começou a andar com você, Chuya.
Ao ouvir aquilo, Chuya baixou a cabeça, mordendo o lábio com força até sentir gosto de ferro. Miguel não resistiu, sendo arrastada para o veículo sem mudar sua expressão neutra. O motor da van rugiu, e o cheiro acre do escapamento misturou-se ao aroma adocicado do tabaco de Barone.
— Espero que entenda, Chuya. Não é nada pessoal. Eu realmente te considerava um amigo. Mas sabe como é... os interesses da Família Salazar sempre vêm antes do pessoal.
— Tsc... — Chuya ergueu o rosto, um sorriso amargo nos lábios. — Pelo menos eu não vou estar aqui para ver o pior cenário.
— Hahaha! Está vendo? É por isso que eu te adoro! — Barone riu, genuinamente. — Você deveria ter largado essa vida de trabalhador e se juntado a nós.
— Será que ainda tenho tempo de enviar meu currículo?
— Infelizmente, não. O RH está fechado para cadáveres. E logo o Chefe estará aqui. Quando Stefan pisar neste convés, não quero pontas soltas.
— Entendi. Então o próprio Stefan vem aí... Realmente não tem jeito.
Barone sacou uma pistola prateada, apontando para o peito de Chuya.
— Que bom que entende. Mas me diga, tem algum último desejo? Vou te dar uma morte rápida e indolor, em respeito aos velhos tempos. Meus homens estão nervosos porque sabem que você é um Shaper, então não tente nada estúpido.
Chuya relaxou os ombros, derrotado.
— Está tudo bem, eu entendo... Último pedido, é? — Ele olhou para a fumaça que subia da mão do mafioso. — Esse seu cigarro está me tentando já faz um tempo. Sei que você só fuma os importados de Elysium. Que tal dividir com um homem morto?
Barone sorriu, balançando a cabeça. Ele caminhou até Chuya e soprou a fumaça na direção do garoto.
— Foram bons dias de aventura que tivemos juntos, Chuya.
Chuya respirou profundamente, o brilho da brasa iluminando seus olhos.
— Eu digo o mesmo.
O silêncio dominou a sala. Apenas o crepitar do tabaco era ouvido.
Então, Chuya expirou.
Mas o que saiu de seus pulmões não foi uma nuvem comum. Foi uma erupção vulcânica de fumaça densa, negra e oleosa, que se expandiu instantaneamente, preenchendo cada centímetro cúbico da garagem em menos de um segundo. A visibilidade caiu a zero.
— O que é isso?! — gritou um dos guardas, tossindo.
No meio da escuridão artificial, um ponto laranja brilhou intensamente: a brasa do cigarro.
Swoosh!
Uma lâmina de fogo puro, condensada a partir do calor da brasa, rasgou a escuridão. O arco de chamas foi preciso e letal, cortando as armas dos soldados e atingindo Barone no peito antes que ele pudesse puxar o gatilho.
— AARGH!
Sem perder o ímpeto, Chuya girou o corpo. A fumaça ao redor de seus pés se solidificou e aqueceu, transformando-se em uma prancha de propulsão térmica.
— Segura firme! — ele gritou para si mesmo.
Com um estouro sônico abafado, ele disparou. A lâmina de fogo cortou a parede de metal da garagem como se fosse papel-manteiga. Chuya saiu "surfando" pelo corredor de serviço, deixando um rastro de brasas para trás. Seus olhos brilhavam em laranja, focados em um fio de fumaça quase invisível que se estendia à sua frente — um marcador térmico que ele havia deixado sutilmente em Miguel.
Ele rasgava o ar, mais rápido que qualquer veículo, desviando de tubulações e caixas. À frente, a van de carga acelerava, tentando fugir.
— Achei você...
Dentro da Van
Miguel estava sentada no banco de trás, observando a estrada pela janela traseira com tédio aparente.
— Acho que ele terminou de conversar — disse ela, calmamente.
O motorista olhou pelo retrovisor, confuso.
— Que susto! Essa garota estava tão quieta que achei que fosse uma boneca.
— Ei, não é hora para papo! Olha pra frente!
No instante em que seus olhos encontraram o retrovisor, o copiloto percebeu o alarme equivocado. Contudo, em vez de ver a garota no banco de trás, ele viu mais ao fundo ainda um demônio de fumaça e fogo que deslizava pela estrada, vindo em sua direção.
— O que é aquil—?
Não houve tempo.
Chuya alcançou a van. Com um movimento fluido, a lâmina de calor fatiou a lataria traseira e o teto do veículo como se fosse uma lata de sardinha. Antes que a estrutura colapsasse, Chuya saltou de sua prancha de fumaça, agarrou Miguel pela cintura e usou a explosão de calor para se impulsionar para fora, rolando pelo chão de metal.
Atrás deles, a van, agora sem controle e com o motorista morto pelo corte preciso, chocou-se contra uma coluna estrutural e explodiu em uma bola de fogo.
Chuya parou de rolar, tossindo um pouco, e soltou Miguel. Ele tirou o cigarro, agora apenas um toco, da boca e o jogou longe.
— Pois é, Barone... — ele murmurou para as chamas. — Você meio que estava certo no fim. Qualquer um que se envolve comigo só pode esperar fumaça e desgraça.
Alguns minutos de silêncio se passaram. A sirene de emergência do navio começou a tocar ao longe.
— Afinal — Chuya quebrou o gelo, limpando a fuligem do rosto —, como você percebeu que eu estava chegando, garota?
— Eu senti que o fio de Éter que você prendeu na minha roupa estava começando a aquecer — respondeu Miguel, ajeitando o cabelo como se nada tivesse acontecido.
— O quê?! Você percebeu quando eu coloquei? Espera, você sabe o que é Éter?!
— ... — Miguel voltou para seu silêncio habitual, olhando para o nada.
— Esquece. Eu ainda não sei por que eu tento.
A garota, então, o encarou; embora não dissesse nada, ele sentia que ela parecia querer saber o que eles deveriam fazer a seguir.
Chuya olhou para o corredor destruído, para os corpos dos homens de Barone e para a van em chamas.
— Não é óbvio? — Ele suspirou, cansado. — Eu tenho que acabar com o resto dos homens de Barone e limpar toda essa sujeira antes que eles ativem aquele cristal e tragam os figurões da família Salazar para cá. Precisamos evitar o pior cenário.
— Pior cenário?…
Chuya olhou para ela com terror genuíno nos olhos.
— Onde eu acabo demitido.
Parte 4
O som das fichas de pôquer estalando umas contra as outras não era apenas um ruído; era um metrônomo para a ansiedade. Click, clack, click. Luck manipulava a pilha de cerâmica entre os nós dos dedos, fazendo-as dançar de uma mão para a outra com uma destreza distraída, quase automática. Seus olhos, geralmente cheios de vida, permaneciam focados, mas algo além do salão — uma memória que ainda tentava processar — fazia com que o local fosse um borrão de luzes e cores passando à sua frente sem que ele conseguisse registrar nada.
Ao seu lado, Kurokawa o observava em silêncio. Ela ignorava o giro hipnótico da roleta à frente, focando apenas nas mãos dele. Apesar da fluidez com que as fichas se moviam, havia uma falha no ritmo. Seus dedos estavam trêmulos, uma vibração sutil, elétrica, que ele tentava mascarar com o movimento perpétuo do jogo.
— "A maré vai virar" — ela repetiu a frase dele, a voz suave cortando o barulho caótico das máquinas caça-níqueis como uma lâmina de veludo. — Você disse isso nas últimas três mesas. E perdeu em todas.
Luck parou o movimento por um milésimo de segundo, soltando uma risada curta e anasalada. Ele lançou uma ficha vermelha para o alto, observando-a girar, e a pegou no ar com um estalo seco.
— É a lei da probabilidade, Kurokawa. Quanto mais eu sangrar agora, maior o jackpot que o universo me deve depois. O contador só está começando a girar.
— O contador do jogo ou o da sua preocupação? — Ela foi direta, seus olhos azuis perfurando a fachada de despreocupação dele, desarmando o sorriso torto que ele tentava sustentar. — Deveríamos ir atrás do Dante. Ele saiu daqui parecendo meio estranho, e você está aqui, fingindo que se diverte.
Luck congelou. A ficha vermelha ficou imóvel, prensada entre o indicador e o polegar. O sorriso não desapareceu, mas a pele ao redor de seus olhos tencionou, revelando a exaustão por trás da máscara.
— Você é gentil demais, sabia? — Ele suspirou, o ar saindo pesado, e deixou a pilha de fichas cair na mesa com um som desordenado. — Sobre o Dante... Se eu for lá agora, com a minha própria bagunça, só vou ser mais uma âncora puxando ele para baixo. O que ele precisa agora é de espaço e tempo.
— Você fala como alguém que tem experiência no que ele está sentindo.
Luck desviou o olhar para o lustre de cristal monumental acima deles. As luzes prismáticas refletiam em suas pupilas, mas não iluminavam a sombra densa que passava por elas.
— É porque… — a voz dele se tornou mais grave. — A dor de ver alguém que você ama escorrer por entre seus dedos… Conheço essa dor muito bem, muito mais do que as palavras necessárias para ajudar alguém que se sente assim.
Kurokawa hesitou, recuando levemente ao perceber a mudança na pressão atmosférica ao redor dele.
— Você...
— Não faça essa cara. — Ele forçou o sorriso de volta. — Acho que contar uma história triste pode te distrair de pensar naquele maníaco por um minuto.
O ruído incessante do cassino pareceu diminuir, abafado pela névoa cinzenta da memória que invadia a mente de Luck, arrastando-o para longe do luxo e de volta para a lama.
Terminal Cinza. O lugar onde a esperança ia para tossir sangue e morrer.
A chuva lá nunca era limpa; era uma sopa química fria que tinha gosto de fuligem e ferro na língua. O pequeno Luck corria pelos becos enlameados, o peito ardendo como se tivesse engolido brasas. Seu cabelo vermelho, encharcado e grudado na testa suja, era o único ponto de cor, um farol trágico naquela cidade monocromática.
— Pega o demônio ruivo! — A voz gutural ecoou atrás dele, misturada ao som de botas pesadas chapinhando na água suja.
Ele não parou. Não podia. Em casa, o som que o assombrava não eram os gritos dos bandidos, mas a tosse de Felicia. Um som seco, rasgado, como vidro moído sendo expelido de uma garganta infantil a cada espasmo.
Luck vivia naquele ciclo infernal: servir de saco de pancadas na rua por ser diferente, e sorrir em casa para não partir o coração da irmã. Sua mãe fazia o mesmo dueto trágico, voltando de madrugada cheirando a álcool barato e desespero, escondendo os hematomas roxos sob mangas longas. Eles eram atores em um palco podre, encenando uma felicidade que não podiam pagar.
Mas tudo mudou naquele dia.
O pequeno garoto carmesim invadiu o território do vendedor do mercado negro. O medo da morte de sua irmã superou o medo da própria dor.
— Apenas um frasco!... Por favor, minha irmã não sobreviverá assim e gastamos toda a nossa economia — ele clamou, atirando-se contra a figura volumosa do traficante e ajoelhando-se a seus pés. — Pagarei depois, juro pela minha vida!
A resposta foi um soco de punho inglês que o fez ver constelações onde só havia nuvens de poluição. Luck caiu de cara na lama, o gosto de cobre e sangue enchendo a boca. Eram três contra um. Chutes nas costelas estalavam como galhos secos, pisões esmagavam seus dedos. A dor era alucinante, branca e aguda, mas a imagem de Felicia morrendo sozinha em sua cama era um tormento pior.
— "Levanta!" — sua mente gritava, uma voz que não parecia a dele. — "Se você não levantar e lutar, ninguém fará isso por você."
Foi a primeira vez que aconteceu. Em meio à agonia, algo dentro dele estalou. Não foi um som físico, foi uma ruptura na realidade. Como uma alavanca enferrujada sendo puxada no fundo de sua alma. Acima de sua cabeça, o Éter se condensou violentamente, formando três roletas de neon fantasmagórico girando no ar sujo.
Gira. Gira. Gira.
JACKPOT.
Uma onda de energia dourada e violenta explodiu de seu corpo pequeno, repelindo a chuva. Luck não sabia o que estava fazendo; ele era apenas um canal, um fio desencapado para uma fúria bruta. Ele socou, e ouviu ossos se partindo com facilidade antinatural. Ele chutou, e homens adultos voaram contra paredes de tijolos. Quando a névoa vermelha baixou, ele estava de pé, ofegante, segurando os frascos de remédio com mãos ensanguentadas que tremiam incontrolavelmente. O terror nos olhos dos bandidos foi a primeira recompensa de seu poder recém-nascido.
Ele correu. Correu como se o diabo estivesse mordendo seus calcanhares, rindo e chorando ao mesmo tempo, a chuva misturando lágrimas e sangue.
"Eu sou um Shaper. Eu posso salvá-las. Tudo vai mudar. A sorte virou."
O garoto acreditou cegamente naquilo que pensava. Isso durou até que ele virou a esquina de sua rua e o mundo parou.
Não havia música de vitória. Apenas o som mecânico de um motor a diesel em marcha lenta e homens rindo.
Luck viu sua mãe. Ela não estava de pé. Ela estava sendo arrastada, inerte, o corpo desenhando um rastro na lama. Foi jogada na caçamba de um caminhão como um saco de lixo indesejado.
— Que desperdício — disse um homem de terno impecável, limpando as mãos com um lenço branco que contrastava com a imundície do local. — Ela lutou demais. Podia ter valido uns trocados no leilão de escravos, mas agora é só carne morta.
Os frascos de remédio escorregaram das mãos dormentes de Luck, estilhaçando no chão. O som do vidro quebrando foi minúsculo, mas, para ele, soou como uma bomba atômica.
Luck gritou, um som primitivo, desumano, e avançou. Mas ele era apenas uma criança exausta que tinha acabado de despertar um poder que não controlava. O homem de terno nem piscou. Com tédio burocrático, sacou uma pistola e atirou.
O impacto no peito de Luck foi frio, depois infernalmente quente. Ele caiu de costas na lama, olhando para o céu cinzento enquanto o caminhão se afastava, levando o corpo de sua mãe para o esquecimento. A chuva começou a cair mais forte, lavando seu sangue, diluindo sua consciência na sarjeta.
...
Dias se passaram em um borrão febril, um pesadelo de dor e sede. Quando acordou, estava em uma tenda improvisada, o cheiro acre de tabaco no ar. O homem que o vigiava era um dos guardas que ele havia espancado dias antes.
— Por que...? — Luck sussurrou, a garganta parecendo lixa.
— Capricho. — O guarda tragou o cigarro, olhando para o vazio, evitando os olhos do garoto. — Você não me matou quando podia. Eu não te deixei morrer na rua. Estamos quites. Os remédios... consegui outros. Estão ali. Agora suma antes que eu mude de ideia.
Luck se arrastou. Cada passo era uma tortura, a ferida de bala pulsando em protesto, queimando a cada movimento, mas ele caminhou. Ele precisava ver Felicia. Ela devia estar com medo. Ela precisava do remédio. Só mais um pouco.
Ele chegou à casa. A porta estava entreaberta, balançando com o vento. O silêncio lá dentro era pesado, denso como chumbo derretido.
Não havia tosse.
Luck caiu de joelhos na sala vazia. A poeira dançava na luz fraca. Um vizinho entrou logo depois, o rosto contorcido em pena, segurando um boné surrado nas mãos.
— Luck... a tosse parou no dia em que levaram sua mãe. O médico disse que... o coração dela não aguentou.
O grito que Luck deu naquele dia não foi humano. Foi o som de algo quebrando de forma irreparável, uma alma se partindo em estilhaços que nunca mais se encaixariam. Ele bateu a cabeça contra o chão de madeira, de novo e de novo, tentando substituir a dor na alma por qualquer dor física, implorando para sentir qualquer coisa que não fosse aquele vazio absoluto.
Luck encarava a mesa de pôquer, mas seu olhar estava focado em fantasmas que dançavam sobre o feltro verde.
— Eu caí fundo depois daquilo — ele disse, a voz quase inaudível, vibrando com a memória. — Virei um animalzinho acuado, sobrevivendo de restos, brigando com ratos, esperando a morte vir terminar o serviço que começou naquele beco. Eu não tinha propósito. Eu era só... má sorte encarnada.
Ele pegou uma carta da mesa e a virou lentamente. Um Ás de Copas. O coração vermelho parecia zombar dele.
— Foi quando ele apareceu. Dante. Sorrindo como um idiota no meio daquele lixão, intocado pela sujeira. Ele não me olhou com pena. Ele me olhou com interesse. E me desafiou, dizendo:
— "Ouvi falar que tinha um delinquente se chamando de 'Rei da Briga' por aqui. Achei um super desperdício de elenco, então que tal fazermos isso de forma simples? Se eu vencer, você vem comigo pra Babylon."
— E ele venceu? — perguntou Kurokawa, completamente envolvida na narrativa sombria.
Luck riu, balançando a cabeça, um brilho de afeto genuíno surgindo em seus olhos.
— Claro que não. Eu limpei o chão com ele. Mas foi a primeira vez em muito tempo que me diverti tanto em uma luta. — Luck apertou a carta na mão, amassando-a levemente até o papel estalar. — Aquele idiota me deu um motivo para levantar quando eu não tinha mais nada além de ódio. Ele me salvou de mim mesmo.
Ele se virou para Kurokawa, a expressão séria, vulnerável pela primeira vez desde que ela o conhecera.
— É por isso que eu estou aqui, Kurokawa. Eu preciso levantar, pois agora é minha vez... Eu preciso ser o farol dele. Eu preciso estar forte o suficiente para arrastá-lo de volta se ele cair, nem que seja na porrada. Essa é a minha aposta final.
Kurokawa abriu a boca para responder, mas o momento foi estilhaçado.
CABUM!
O chão do cassino tremeu violentamente, uma convulsão estrutural. Lustres balançaram perigosamente e pilhas de fichas desmoronaram das mesas como prédios ruindo. O som veio do lado de fora, uma onda de choque abafada pelas paredes, mas poderosa o suficiente para vibrar nos ossos.
Em um segundo, a melancolia de Luck evaporou. O olhar perdido deu lugar ao foco afiado, gélido, de um predador. Ele já estava de pé antes que os outros clientes começassem a gritar.
— O que foi isso? — Kurokawa se levantou, alarmada, segurando a borda da mesa.
Eles correram para a saída lateral, empurrando as portas duplas. Lá fora, a fumaça preta já subia em espirais grossas e oleosas contra o céu noturno. Uma van havia colidido contra a lateral do prédio anexo, as chamas lambendo a estrutura metálica retorcida com voracidade.
— Um acidente? — Kurokawa murmurou, vendo a multidão se formar. Funcionários do navio já estavam isolando a área, acenando freneticamente para que todos voltassem. "Nada para ver aqui, apenas uma falha mecânica, sem feridos!", gritava um supervisor suando frio, a voz falhando.
Luck semicerrou os olhos. O sorriso em seu rosto desapareceu completamente, substituído por uma frieza calculista que lembrava o garoto que sobrevivera ao Terminal Cinza. Ele farejou o ar, mas não buscava cheiro de gasolina.
— Luck, volte, eles disseram que está tudo bem... — Kurokawa começou, puxando-o pelo braço, mas parou ao ver a expressão dele. Era a face de alguém que reconhecia a morte.
— Eles estão mentindo — Luck sussurrou. Ele deu um passo à frente, ignorando a linha de isolamento. — Tem cheiro de ozônio e carne. Éter queimado. E aquilo ali... — Ele apontou discretamente para uma distorção sutil no ar acima da van em chamas, como ondas de calor, mas erradas. — É uma Ilusão de ocultação. Tem corpos lá dentro, Kurokawa.
Ele estalou os dedos, e a aura de jogador despreocupado desapareceu como fumaça.
— Pessoas estão morrendo nesse navio de luxo e alguém está tentando varrer as cinzas para debaixo do tapete. — Luck olhou para ela, e havia um brilho perigoso, quase radioativo, em seus olhos verdes. — Estava mesmo procurando algo para me distrair e me focar, então vamos descobrir o porquê.
Parte 5
O corredor de hóspedes da aeronave era opulento, revestido em mogno polido e carpetes espessos, mas agora era apenas um túnel de tensão silenciosa. Anna, vestindo um uniforme de colegial impecável que parecia ter sido gerado em seu corpo, saltitava levemente. Seu cabelo loiro-claro balançava no ritmo da marcha, e o sorriso em seu rosto era de pura alegria, como o de quem está em um passeio de campo.
Sora, com o cenho franzido, marchava logo atrás, sua postura tensa exalando a frustração contida. Ela mal conseguia olhar para a garota à sua frente.
— Ei, pirralha... — A voz de Sora era um resmungo rouco. — O seu nome é Anna, não é?
Anna parou, girando o corpo no eixo com uma fluidez não humana. Inclinou a cabeça em um ângulo perfeitamente errado, o sorriso fixo.
— Eu já disse, "pirralha" é a mãe. — A voz dela era estranhamente modulada. — Não fique se prendendo ao meu tamanho, para começar. Assim que meu Éter voltar ao normal, meu corpo também deve voltar à sua estrutura original.
Sora esfregou a testa, a exasperação vencendo.
— Eu não perguntei isso, tsk. Quer saber, vamos tentar de novo... Anna, por que decidiu vir com a gente e não com o Dante e os outros quando nos separamos?
Anna levou o indicador aos lábios, encenando uma profunda reflexão. Seus olhos, grandes e fixos, pareciam escanear o ambiente em busca da resposta mais lógica.
— "Amigos"?... — Ela repetiu o termo, como se estivesse tentando relembrar o significado da palavra. — Bom... não tem um motivo em especial. É só que senti que o Dante estava querendo ter um momento sozinho, e não faz tanta diferença com quem eu vou estar.
Nyan, que estava calada, finalmente falou, sua voz baixa e hesitante expressando o desconforto de todos.
— Como assim, não faz diferença? Ele... ele parecia muito mal. A gente viu como ele se fechou...
A expressão de Anna mudou. O sorriso esvaziou-se, substituído por uma seriedade analítica, uma imitação de preocupação que ela tinha visto milhares de vezes. Era como se ela tivesse trocado uma máscara em um milissegundo.
— Vocês viram como ele estava? Eu senti que ele estava triste e precisava ficar sozinho. — A voz estava um tom mais grave agora. — Nesse momento, não havia nada que eu pudesse fazer.
Leon cruzou os braços, a testa vincada.
— Sinceramente, tudo o que você faz me confunde...
O silêncio do corredor foi estraçalhado. Não por um chamado, mas por um som primitivo, agudo, gutural. Um grito que rasgou o ar e ecoou pelas paredes metálicas da aeronave, levando o grupo do tédio à adrenalina pura.
Sora praguejou, o medo substituindo a raiva, e disparou na direção do som. Leon e Nyan a seguiram, tropeçando na pressa.
Anna, no entanto, não correu. Ela girou no lugar, seus braços esticados para os lados, em um movimento de celebração. Seu sorriso voltou, mas desta vez era de euforia satisfeita.
— Mas que merd— Sora começou, parando abruptamente na soleira de uma sala de estar, seus olhos grudados no que estava dentro.
Anna chegou ao lado dela, a respiração calma em contraste com o ofegar do grupo.
— É isso que eu estava esperando! Agora sim a aventura pode verdadeiramente começar! — Seus olhos brilhavam, refletindo a luz artificial do corredor. — Sinceramente, vocês, humanos, nunca me decepcionam.
Anna sorria, mas o trio mal a ouvia. Todos os olhos, agora arregalados e fixos, estavam na direção da parede de madeira escura da sala.
A Câmera Lenta
A luz ambiente era suave, mas agora parecia manchada. Pregado na parede, no centro de uma sala luxuosa, estava um cadáver, horrivelmente transformado.
Não estava apenas morto; estava crucificado em um ritual de exibição.
O corpo, nu da cintura para cima, tinha a pele pálida e fria. Em vez de pregos, longos e finos estiletes de metal polido atravessavam a carne em pontos precisos. Dois deles, mais grossos e brilhantes, atravessavam as palmas das mãos, prendendo os braços abertos em uma pose macabra de adoração forçada. Outros dois fixavam os tornozelos, forçando os pés a se cruzarem.
Por todo o torso e membros, incontáveis pedaços de metal pontiagudo formavam um padrão assustador, como agulhas de acupuntura perversas. O sangue, espesso e escuro, havia escorrido lentamente, formando um efeito de gotejamento vertical que parecia planejado.
Ao lado da cabeça, escrita com o sangue da vítima em letras grandes e macabras, estava a mensagem:
"Tentem me encontrar".
Sora deu um passo para trás, engasgando. Leon ficou paralisado, a imagem brutal do cadáver gravando-se em sua retina.
Anna, no entanto, moveu-se. Ela se aproximou do corpo como um biólogo examinando uma amostra rara. Não havia repulsa, nem medo. Havia apenas curiosidade. Ela inclinou a cabeça, estudando a precisão geométrica da colocação dos metais.
— Parece que alguém começou a jogar.
Entrelinhas 1
O ar na sala de veludo era denso, saturado com o aroma inebriante de papel envelhecido e poeira de estrelas. Não era apenas uma biblioteca; era um limbo. Em qualquer direção que se olhasse, estantes de veludo escuro se perdiam na neblina, guardando volumes que contavam histórias além do infinito. Você não tinha que andar para chegar até ela; a própria perspectiva se dobrava, colocando-a bem à sua frente.
No centro desse universo de palavras, sentada casualmente sobre uma montanha de tomos, estava Alpha.
Seus olhos, com misteriosas pupilas em forma de estrela, estavam fixos em você, com uma familiaridade perigosamente sedutora. Ela não sorria, mas havia uma satisfação maliciosa no canto de seus lábios. Ela estava esperando, e não parecia ter dúvidas de que você viria.
— Finalmente...
A voz dela era um sussurro quente e aveludado, como a promessa de um segredo guardado apenas para você.
— Como já devem imaginar, aqui estamos nós. De novo. Antes que a curiosidade o consuma... Sim, eu serei uma presença recorrente. Inevitável, eu diria.
Ela inclinou a cabeça, o olhar deslizando por você, como se estivesse avaliando cada detalhe da sua alma.
— Não me olhe assim. Está confuso? Desorientado com a ordem dos eventos? Sente que perdeu o primeiro ato? É natural. Afinal, eu comecei este livro pela metade.
Ela deu de ombros.
— O que foi? Vai me julgar? Eu estava... ansiosa para ver o final. Tenho meus próprios motivos, e acredite, eles são muito mais interessantes do que os seus. Mas, já que alguém tão atraente quanto você se deu ao trabalho de me fazer companhia, não vejo problema em esperar um pouco.
Alpha estendeu a mão lentamente, pousando-a sobre o livro aberto em seu colo. O volume não tinha capa, apenas páginas amareladas tremulando.
— Meu nome, para aqueles que o esqueceram ou ainda não tiveram o prazer... é Alpha.
Ela fez uma pausa teatral, os olhos brilhando intensamente.
— Lembrem-se bem dele.
Com um estalo quase inaudível, ela fechou o livro. As páginas, porém, não ficaram em repouso. Diante de seus olhos, as folhas começaram a se mover sozinhas, recuando, virando-se para trás com a velocidade de um filme acelerado, até pararem no primeiro capítulo — ou o que parecia ser ele.
— Já que vamos do início... — Ela pegou uma taça de cristal que parecia ter surgido do nada e virou o líquido escuro nela com um movimento elegante. — Devo lhes apresentar um certo homem. Esteve presente desde o primeiro suspiro, embora poucos, muito poucos, tenham notado a sua sombra.
O sorriso dela se tornou enigmático, quase uma premonição.
— Mas não se engane, meu caro. Assim como os demais, ele também tem seu véu de responsabilidade sobre a torrente de eventos que está prestes a acontecer.
Enquanto Alpha pronunciava a última frase, as letras no livro recém-aberto explodiram em um brilho azul, como eletricidade fria.
A sala de veludo se desintegrou. E a História, por ordem de Alpha, recomeçava.
Parte 6
19 de Julho, 17:00 — Grande Salão de Festas do Titanic
O ar dentro do Titanic tinha um cheiro distinto: uma mistura inebriante de perfume caro, verniz fresco e a eletricidade estática sutil que emanava das máquinas de Elysium. Quando os passageiros foram finalmente conduzidos ao Grande Salão de Festas, o murmúrio de centenas de vozes se chocou contra o brilho dos lustres de cristal, cujas luzes dançavam sobre o chão.
No meio daquele oceano de smokings rígidos e vestidos de seda, uma figura cortava a multidão com uma fluidez que desafiava a etiqueta rígida do local.
Drake Dampier caminhava sem pressa. Seu longo casaco de couro negro, com lapelas bordadas em fios de prata quase invisíveis, balançava levemente, como se estivesse sob uma brisa marítima inexistente ali dentro. Seus olhos varriam o ambiente, não com deslumbramento, mas com a precisão de um falcão.
Uma garçonete passou apressada, equilibrando uma bandeja de prata com coquetéis efervescentes. Drake sorriu, um sorriso de canto, quase felino. Seus dedos, adornados com anéis de prata pesada, moveram-se como fumaça. Num segundo, a bandeja estava cheia; no seguinte, uma taça repousava na mão dele. Ele bebeu o líquido âmbar em um gole suave e, antes que a moça pudesse sequer piscar ou notar o peso diferente, a taça vazia já estava de volta à bandeja.
Ele fez uma reverência sutil para as costas da garçonete, limpando os lábios com elegância.
— Mas que tragédia lastimável... — Uma voz rouca e carregada de desprezo cortou o momento. — Parece que, não importa o luxo, os ratos sempre encontram uma maneira de infestar o convés.
Drake não precisou se virar. O tom arrastado e a arrogância eram inconfundíveis. Ele manteve o sorriso, mas seus olhos, agora voltados para o nada, endureceram.
— Pois é — respondeu Drake, girando nos calcanhares lentamente para encarar o homem. — Estou sinceramente decepcionado com a equipe de dedetização deste navio tão elegante. Diga-me, Barone... quando será que virão jogar você para fora?
Barone Salazar estava parado ali, impecável em seu terno risca de giz, cercado por dois guarda-costas que pareciam armários de carne. Ao ouvir o insulto, o mafioso fez menção de avançar, o rosto ficando vermelho.
Imediatamente, uma mão pesada pousou no ombro de Barone. Um de seus homens sussurrou, urgente:
— Senhor, não aqui. Lembre-se das ordens da Família. Estamos em público.
Barone travou o maxilar, ajeitando as abotoaduras com violência contida.
— Eu sei disso — sibilou ele, recuperando a compostura fria. — Não preciso perder a paciência com um rato.
— E de ratos você entende bem, não é? — provocou Drake, a voz suave como veludo, dando um passo à frente, invadindo o espaço pessoal do mafioso.
O ar entre os dois crepitou. A tensão era palpável, prestes a explodir em violência, quando uma terceira voz, calma e jovial, dissipou a nuvem de agressividade.
— Ora, ora, cavalheiros. O oceano é vasto demais para que nossos egos colidam tão cedo. Que tal não deixarmos rixas antigas mancharem o tapete deste belo salão?
Drake e Barone se viraram simultaneamente.
Caminhando em direção a eles, com uma aura de autoridade relaxada, estava o novo Rei de Valoisia. Ele era um contraste vivo com a rigidez de Elysium: um dos últimos monarcas da terra de aço e tecnologia. Ao seu braço, estava sua esposa, a Rainha Susana. Sendo uma elfa de sangue puro, sua beleza era quase dolorosa de se olhar; ela parecia brilhar com uma luz própria, etérea e intocável.
— Afinal — continuou o Rei, lançando um olhar significativo para um canto do salão, onde o chefe da segurança do navio falava em um comunicador —, não queremos dar motivos para que os cães de guarda mordam antes mesmo do jantar, não estou correto?
Barone bufou, recuando um passo, embora seus olhos continuassem fixos em Drake com ódio puro.
— Entendo o que Vossa Majestade diz. Mas aconselho cautela ao escolher as companhias. Como o senhor vem de terras afastadas do mar, talvez não reconheça o cheiro de enxofre e sal. Este é Drake Dampier. O infame "Rei dos Ladrões". Um pirata.
Em vez de se ofender, Drake abriu os braços e curvou-se exageradamente, numa reverência teatral e zombeteira para o rei.
— Com uma introdução tão calorosa do meu "companheiro de palco", eu me apresento, Majestade. E, claro, à bela dama. — Drake tomou a mão enluvada da Rainha Susana, beijando os dedos dela.
A rainha o observou, um brilho de diversão inteligente nos olhos amendoados.
— Vejo que temos um cavaleiro ousado a bordo.
Drake piscou para ela, endireitando-se. O Rei riu, apreciando a audácia.
Barone, no entanto, fervia.
— Se eu fosse a senhora, verificaria se seus anéis ainda estão nos dedos. Ratos do mar têm hábitos... pegajosos.
— Muito engraçado ser julgado por você, Barone — retrucou Drake, o sorriso sumindo para dar lugar a um olhar afiado. — Como pode um mafioso, que lucra com a miséria alheia, reclamar de um pirata que vive da liberdade?
— E você acha que isso nos coloca em pé de igualdade? — Barone cuspiu as palavras.
— Claro que não. Mesmo vivendo no lixo do cais, piratas ainda cheiram melhor que a escória da máfia.
Foi a gota d'água. A mão de Barone deslizou para dentro do paletó, buscando o cabo de uma pistola. A mão de Drake pairou sobre o punho de sua espada.
Mas antes que o aço pudesse brilhar, a temperatura ao redor deles pareceu cair dez graus.
Duas figuras surgiram de trás do Rei, flanqueando-o como sombras letais.
— Acho bom recolherem as garras — disse uma voz feminina, fria e metálica. — A menos que queiram testar a durabilidade deste assoalho com seus próprios corpos.
O Rei riu alto, quebrando o gelo, embora o aviso fosse sério.
— Hahaha! Relaxem, vocês duas. Eles são apenas rapazes entusiasmados. Tenho certeza de que, se vieram para este navio, valorizam suas vidas o suficiente para não fazerem bagunça agora.
As figuras se revelaram sob a luz do lustre.
Uma era uma mulher humana de cabelos brancos como a neve, vestindo roupas de alta costura que deixavam o umbigo à mostra, revelando uma pele pálida e perfeita.
Mas era sua presença que assustava; ela exalava poder bruto.
— Vossa Majestade deveria ter mais critério com as amizades que faz — disse a mulher de cabelos brancos, seus olhos varrendo Drake e Barone como se fossem insetos insignificantes. — Como sua guarda-costas, é exaustivo limpar a bagunça quando o senhor decide socializar com... elementos instáveis.
A coragem de Barone vacilou instantaneamente. O suor frio brotou em sua testa.
— Veja só... — gaguejou o mafioso, recuando. — Não é sempre que vemos alguém tão ilustre. Aradia. Um dos Generais Mecânicos de Elysium.
— Eu sabia que estava sentindo o lendário cheiro de açúcar no ar — disse Drake, esforçando-se para manter a compostura.
Aradia deu um passo à frente. O som de seu salto no mármore soou como um tiro.
— Ser reconhecida por um dos chefes da família Salazar e pelo antigo Coroado Marinho prova que minha reputação precede minha chegada.
Drake engoliu em seco. O instinto de sobrevivência gritava, mas o orgulho falava mais alto.
— Bom, a dama elegante que pode nos desintegrar com um estalar de dedos eu já conhecia de nome... — Drake desviou o olhar para a segunda figura. — Mas e quanto à senhorita ao lado dela? De beleza tão... silenciosa?
A segunda guarda-costas era uma garota elfa de cabelos pretos e orelhas pontudas. Ela carregava uma espada enorme. Seus olhos azuis encontraram os de Drake com uma neutralidade absoluta, quase entediada. Ela parecia não estar ali, ou desejar estar em qualquer outro lugar.
— Hahaha! — O Rei colocou a mão afetuosamente sobre a cabeça da elfa. — Senhor Cavaleiro do Mar, esta é ninguém menos que a minha filha mais velha. Pode chamá-la de Noelle.
— Oh. Encantado, senhorita — disse Drake, estendendo a mão com seu charme habitual.
Noelle não se moveu. Ela apenas piscou, olhando para a mão estendida dele como se fosse um objeto estranho, antes de voltar a olhar para o vazio. O vácuo foi constrangedor e hilário ao mesmo tempo.
De repente, a tensão foi quebrada por uma explosão de energia vinda do corredor.
— Oh, olha! É a Noelle! — exclamou uma voz aguda.
Uma garota de cabelos azuis presos em maria-chiquinhas surgiu saltitando, seguida por outra garota alta de cabelos pretos.
— Oh, se não é a senhorita Benadetta em pessoa — disse o Rei, sorrindo. — Não esperava vê-la aqui sem a sombra do Stefan.
Benadetta correu e agarrou as mãos de Noelle, sacudindo-as. Barone parecia querer intervir, mas se manteve petrificado.
— Por que a Noelle está nessa forma? — perguntou Benadetta.
Noelle, finalmente mudando de expressão, respondeu com um sorriso tímido:
— Eu queria ajudar na escolta do meu pai. Como a senhorita Aradia mencionou, ele tem um talento natural para ficar próximo de quem não deve.
— Até você, filha? — O Rei enxugou o suor da testa com um lenço de seda, enquanto a Rainha Susana ria discretamente atrás do leque.
— Entendi, faz sentido — disse Benadetta, olhando ao redor e finalmente notando as companhias. — Ele acabou bem ao lado do Barone. Mas relaxa, apesar da cara de quem vai roubar doce de criança, ele não é tão ruim assim.
Barone murmurou, incrédulo:
— Eu deveria levar isso como um elogio?
Percebendo que o foco do salão havia se deslocado totalmente para aquele núcleo bizarro de realeza, magia e poder militar, Drake viu sua chance.
Como uma sombra se desprendendo de uma parede, ele recuou. Passo a passo, silencioso, ele deixou o círculo de luz.
Ele caminhou até uma mesa de petiscos afastada, pegando um canapé com a mesma destreza com que roubara a bebida. Mastigou lentamente, observando o grupo de longe.
— Família Salazar, Família Real de Valoisia e até uma General Mecânica... — sussurrou para si mesmo. — Como esperado de um navio de luxo. Onde há ouro, há monstros.
Enquanto se afastava em direção aos corredores laterais, cruzou com um grupo de pessoas vestindo roupas que lembravam hábitos religiosos, mas com um corte militar rígido e tecidos balísticos.
— Até o Trono de Deus está por aqui... — A expressão de Drake tornou-se séria. — Realmente, essa viagem vai ser um barril de pólvora.
Ele deslizou para um corredor lateral, onde o barulho da festa se tornou um eco distante. Encostada na parede, fingindo admirar um quadro, estava uma mulher de vestido longo, que destoava levemente de sua postura alerta.
— Então, Remi? — Drake perguntou, sem parar de andar. — Teve alguma sorte?
Remi desencostou da parede, caindo no passo dele imediatamente, mantendo a voz baixa.
— Por enquanto, nada concreto. Existem muitas salas de mantimentos, a prisão e áreas de acesso restrito aos mecânicos. Achar a sala de tesouros desse navio... não vai ser como roubar doces, Capitão. A segurança é pesada.
Drake riu baixo, um som que prometia confusão.
— Bom... Por que a pressa? — Ele parou e olhou para trás, na direção do salão onde os poderosos do mundo conversavam. — Enquanto estamos presos nesta gaiola de ouro flutuante, podemos muito bem aproveitar a viagem. Afinal, o jogo fica mais divertido quando as apostas são altas, não concorda?
— Se o Capitão diz... — respondeu Remi, com um suspiro resignado, seguindo-o para as sombras do navio.
Parte 7
Algumas horas depois – Área de Lazer do Titanic
A ala das piscinas do Titanic não era apenas um local para nadar; era uma afronta à natureza, uma demonstração de poder. O teto não era vidro comum, mas uma liga transparente de polímero reforçado com magia rúnica, permitindo uma visão desimpedida das constelações, enquanto o ambiente interno mantinha uma temperatura tropical perfeita. A água brilhava com uma bioluminescência suave, e garçons autômatos deslizavam entre espreguiçadeiras flutuantes.
Drake caminhava pela borda, o som da água e das conversas abafando o clique sutil ao ativar seu comunicador.
— Remi — sussurrou ele, os olhos protegidos por óculos escuros, analisando o perímetro. — Você não vai acreditar na vista.
A voz da imediata estalou em seu ouvido, seca como areia:
— Conhecendo o Capitão, "vista" é eufemismo para algum rabo de saia bebendo coquetéis coloridos, não é? Concentre-se.
Ele riu, acenando discretamente para um grupo de mulheres que o observava.
— Você me fere com essa desconfiança, minha cara. Mas não está totalmente errada.
— Por favor, Capitão... Estamos operando sob camuflagem. A frequência mágica é segura, mas não é indetectável se ficarmos jogando conversa fora. Desligue se não houver emergências.
— Tsk. Você precisa urgentemente aprender a relaxar, Remi. O estresse causa rugas. — Drake tocou o dispositivo, encerrando a chamada com um suspiro dramático.
Seu olhar, treinado para encontrar valor e perigo, varreu o segundo andar do deck. Seus olhos se estreitaram.
Em uma área reservada, um grupo de jovens conversava. Eles não tinham a postura relaxada dos turistas ricos. A aura ao redor deles distorcia levemente o ar.
— Pela quantidade de Éter... — murmurou Drake, focando em uma garota de cabelos brancos no centro do grupo, que parecia irradiar calor. — Entendi. A segurança privada não bastou, então trouxeram os prodígios da Academia Babylon? Droga. Por que sempre envolvem Caçadores? Custava facilitar a vida de um ladrão honesto?
Decidido a evitar o radar daquele grupo, ele girou nos calcanhares e começou a descer as escadas laterais, buscando as sombras das colunas decorativas.
Ele estava tão focado em mapear as saídas de emergência que não notou o vulto subindo apressado.
BAM.
O impacto foi sólido. O rapaz loiro com quem Drake colidiu cambaleou, quase caindo degraus abaixo, se não fosse pelo reflexo rápido do pirata que segurou seu braço.
— Opa! Calma lá, marujo. — Drake o firmou. — Minha culpa. Estava admirando a arquitetura e esqueci de olhar para o chão.
O garoto, pálido e tremendo, murmurou um pedido de desculpas, mas quando ele ergueu a cabeça, o sorriso de Drake vacilou. Sob a gola frouxa da camisa de uniforme, marcas vermelhas e vivas subiam pelo pescoço do rapaz. Não pareciam arranhões; pareciam queimaduras geométricas, punições calculadas.
Instintivamente, Drake ajeitou o colarinho do rapaz, cobrindo as feridas com uma delicadeza paternal que surpreendeu a ambos.
— Bom, como um cavalheiro experiente, devo aconselhar: sejam quais forem seus "hobbies noturnos", meu jovem, tente escondê-los melhor em público. As pessoas nesse navio adoram uma fofoca.
O garoto arregalou os olhos, levando a mão ao pescoço em pânico.
— O-obrigado... senhor.
— Alphonse, certo? — Drake leu o crachá prateado. — Equipe de Segurança Interna.
— S-sim. O senhor... precisa de ajuda? Algum problema?
Drake sorriu, aquele sorriso enigmático que usava para desarmar guardas e duquesas.
— Problemas todos temos, Alphonse. Mas temo que os meus não se resolvam com seguranças.
Alphonse assentiu e fez menção de correr escada acima, mas Drake sentiu uma pontada na base do crânio. Um déjà vu violento.
— Espere. — Drake girou, a voz perdendo a jovialidade por um segundo. Ele se aproximou, invadindo o espaço pessoal do garoto. — Agora, olhando bem... Eu conheço você. Tenho certeza.
Alphonse recuou, prensado contra o corrimão, o suor frio visível.
— O quê? N-não... Eu nunca vi o senhor antes. Juro.
— Tem certeza? — Drake estreitou os olhos. — A sensação é forte. Será que eu dormi com sua mãe? Talvez sua esposa? Ou te devo dinheiro de algum jogo de cartas?
— N-não! Eu sou solteiro e não jogo! O senhor deve estar me confundindo! — Alphonse se desvencilhou, o pânico em sua voz parecia desproporcional à pergunta. — Com licença!
O garoto disparou pela multidão como se o próprio diabo o perseguisse.
Drake ficou parado no degrau, coçando o queixo.
— Sério? Geralmente dizem que sou inesquecível... — Ele deu de ombros. — Deve ter sido impressão. Talvez o tenha visto servindo bebidas no salão de festas.
Ele terminou de descer as escadas, voltando sua atenção para a passarela principal da piscina.
— Foco, Drake. Você precisa encontrar o acesso aos dutos de ventilação da ala leste...
Ele deu dois passos para trás para ter uma visão melhor do teto e—
PLAF.
— Ai! — uma voz feminina gritou.
Drake se virou a tempo de ver um pequeno drone esférico girando no chão, soltando faíscas azuis, e uma garota esfregando o cotovelo.
— Ah, não! A live caiu! — Ela pegou o drone, batendo na lateral dele. — Droga, droga! Estava no pico de audiência! — Ela se levantou, furiosa, apontando o dedo para o peito de Drake. — Ei! Olha por onde anda! É bom você se responsabilizar p—
A voz dela morreu. Os olhos da garota subiram do peito dele até o rosto, e suas bochechas ganharam um tom violento de vermelho.
Drake, sem perder o ritmo, abriu um sorriso galanteador, ignorando completamente que a culpa técnica fora dele.
— Ora, ora... Por que será que essa frase me persegue? "Assuma a responsabilidade". É quase meu sobrenome a essa altura. Mas, como diz meu velho código: se vem de uma bela dama, até veneno eu aceito.
Ele pegou a mão dela — que ainda apontava o dedo — e beijou as pontas dos dedos.
— O-obrigada... quer dizer! Desculpe! — Ela gaguejou, o computador interno de seu cérebro parecendo reiniciar.
— Não se preocupe, de fato, eu encerrei sua transmissão prematuramente. — Drake soltou a mão dela suavemente. — Nada mais justo do que eu arcar com o prejuízo, oferecendo algo melhor para ocupar seu tempo. Que tal eu pagar um jantar para compensar os seguidores perdidos?
A garota deu um pulinho, os olhos brilhando.
— Jantar?! Espera, sério? Tipo... agora? Eu poderia gravar isso? Isso daria muitas views!
Drake piscou, surpreso com a mudança instantânea de timidez para o oportunismo digital.
— Claro. Se isso significa comer na companhia de uma rosa da tecnologia moderna, por que não?
Enquanto isso, em um corredor escuro e úmido longe dali, Alphonse falava em um comunicador antigo, a mão tremendo sobre as cicatrizes no pescoço.
— Relaxa, ele não percebeu nada. — Sua voz era um sussurro aterrorizado. — Mas isso está ficando perigoso. Quando vamos começar?
Uma voz feminina respondeu:
— Paciência. As peças estão sendo movidas. Quando o "sinal" tocar, a festa acabará. Mantenha sua posição.
De volta ao restaurante, Drake servia chá para a garota.
— Entendo... Então a senhorita é a Luana, do Goutube? — Drake tentava acompanhar, embora os termos modernos às vezes lhe escapassem. — É fascinante que alguém tão jovem tenha uma legião de seguidores.
Luana corou, quase engasgando com seu bubble tea luminescente.
— O quê?! Eu não sou ninguém! Ainda mais recebendo elogios de alguém como você!
Drake ergueu uma sobrancelha, divertido.
— "Alguém como eu"? Sou apenas um viajante com um casaco de couro.
Luana bateu as mãos na mesa, eufórica, esquecendo a etiqueta.
— Não se faça de bobo! O senhor é Drake Dampier! O homem que rejeitou a segurança de Elysium, se lançou ao Mar de Monstros e sobreviveu! Você travou batalhas lendárias em Alexandria, desafiou Umbra e fundou o Reino Pirata "Caribe". Você é uma lenda viva!
Drake riu, mas o som saiu melancólico. Ele girou o anel em seu dedo.
— Lendas... Isso é história de quando eu era um Coroado. Hoje, sou apenas poeira ao vento, Luana. Perdi meu reino, perdi meus títulos. Não mereço essa glória.
— O senhor só perdeu porque enfrentou a própria Kallen! — Luana insistiu, apaixonada. — Kallen derrotou exércitos inteiros. O fato de você estar aqui, respirando e sorrindo, é a maior vitória. Você inspira pessoas... como eu.
Drake a olhou com renovado interesse.
— Fico feliz que meu fracasso sirva de inspiração. Mas, já que vou aparecer no seu vídeo, que tal uma troca justa? Percebo que você sabe muito a meu respeito, mas, infelizmente, não posso dizer o mesmo. Conte-me sua história. O que leva uma garota de Elysium a querer ser famosa?
Luana hesitou, brincando com o canudo do copo.
— Minha história não tem dragões ou espadas... Eu só... — Ela hesitava em falar, envergonhada, mas ganhava coragem ao notar a atenção com que ele observava. — Em Elysium, tudo é metal, óleo e rotina. Ninguém é especial, somos todos engrenagens. Eu queria provar que existo. Queria deixar uma marca digital que o tempo não apagasse. Queria ser lembrada, como você.
Drake estendeu a mão sobre a mesa e tocou a dela suavemente.
— Como imaginei. No minuto em que te vi, senti o cheiro de alguém com sede de liberdade.
Manhã Seguinte
TOC. TOC. TOC.
— Capitão? Ei, acorde! O sol já está alto e temos rotas para revisar! — A batida na porta era ritmada e irritante. Remi não esperou resposta. Girou a maçaneta. — Aberta? Sério, Drake, você precisa levar a segurança a sério...
Ao entrar, Remi parou. O quarto era o caos habitual de Drake, mas havia elementos estranhos: sapatos de salto alto perto da poltrona, um vestido jogado sobre a mala e, na cama, dois volumes sob o edredom.
Um sorriso perverso, quase demoníaco, curvou os lábios da imediata. Ela encheu os pulmões.
— ACORDA, CAPITÃO! MOTIM NO CONVÉS! O NAVIO ESTÁ AFUNDANDO!
Drake pulou da cama, sacando uma adaga debaixo do travesseiro num movimento fluido, os olhos arregalados de pânico.
— O QUÊ?! ONDE?! PROTEJAM O RUM! — Ele olhou em volta, desorientado, até focar em Remi. — Ah... é você. Você quer me matar do coração?!
Ao lado dele, um gemido sonolento surgiu. Luana sentou-se, o cabelo desgrenhado, esfregando os olhos.
— Hmmm... Bom dia... Que barulho é esse?
Ela abriu os olhos e viu Remi, parada com os braços cruzados e o uniforme impecável.
— AHH! — Luana puxou o lençol até o pescoço. — O-o que está acontecendo?! Quem é ela?!
Drake começou a fazer gestos frenéticos de "corta essa" para Remi, sussurrando:
— Sai! Vai embora! Agora não!
Remi ignorou. Seus olhos brilharam. Ela se jogou de joelhos no chão, num drama digno de novela.
— COMO PODE, DRAKE?! — A voz dela tremeu com um choro falso perfeito. — Como pôde fazer isso comigo?! Na nossa cama?!
— Ei! Remi! Para com isso! — Drake estava pálido.
— Quer dizer que eu nunca signifiquei nada? — Remi continuou, soluçando sem lágrimas. — Eu... eu te dei os melhores anos da minha vida no mar... E você me troca por essa... essa garota?!
Luana, vermelha como um pimentão, levantou-se tropeçando, tentando vestir as roupas por baixo do lençol.
— E-eu não quero atrapalhar lares! Achei que ele fosse solteiro! Desculpe, moça! Eu não sabia!
Remi olhou para Luana com uma expressão de pena devastadora.
— Oh, querida... Ele vai te dizer que você é única. Que "Tem sede por liberdade". Mas amanhã? Amanhã você será apenas mais uma passageira bloqueada nas redes sociais dele.
— É mentira! Luana, não escuta ela! — Drake tentava vestir as calças, pulando num pé só. — Ela nem gosta de homens! Remi, pelo amor de Deus, ela vai acreditar!
Remi levantou-se subitamente, pegou a camisa de Drake do chão e jogou na cara dele.
— SEU SAFADO! SEU PIRATA DE ÁGUA DOCE!
Luana, já vestida de qualquer jeito e segurando os sapatos nas mãos, correu para a porta.
— Desculpa! Desculpa! Felicidades ao casal!
— E O NOSSO FILHO, DRAKE?! — Berrou Remi para as costas de Luana. — O PEQUENO DRAKE JÚNIOR?!
Ao ouvir a palavra "filho", Luana ativou uma velocidade que deixaria atletas olímpicos com inveja e desapareceu no corredor.
O silêncio reinou no quarto por três segundos. Drake terminou de abotoar a calça, derrotado. Ele olhou para Remi. Remi sorria, ajeitando uma mecha de cabelo, a imagem da serenidade.
— Está feliz agora? — Drake perguntou, a voz rouca.
— Extremamente — respondeu ela.
— Que papo é esse de "filho"? Você odeia crianças! Você disse que se um dia tivesse um filho, o jogaria ao mar para aprender a nadar!
— Pô, Capitão. Pense comigo: planejar um roubo perfeito, cuidar dos detalhes, ver ele crescer e dar frutos... não é metaforicamente como criar uma criança?
— QUE LÓGICA É ESSA?! — Drake bateu a mão na testa. — Droga... Ela era gente boa. Tinha até drones legais.
Drake suspirou, pegando seu casaco.
— Vou tentar explicar o mal-entendido. Se eu não voltar, diga ao "nosso filho" que morri bravamente.
— Não demore. Temos trabalho.
Drake saiu para o corredor, correndo.
— Ei, Luana! Espera! Foi só uma piada de mau gosto da minha subordi—
BAM.
Pela terceira vez em 24 horas, o mundo girou.
— Ai! — Drake cambaleou para trás. — Mas que inferno! Será que eu virei um ímã de gente distraída?!
Desta vez, no entanto, não houve pedido de desculpas. A garota com quem ele colidiu usava um uniforme de manutenção, mas tinha cabelos verdes escuros e desgrenhados. Ela não olhou para ele. Seus olhos verdes estavam vidrados, focados em algo que só ela via.
— Não... não... — ela murmurava, a voz trêmula e rápida. — Se o Drake ativar a relíquia agora... Todos morrem...
Drake congelou. O arrepio que desceu por sua espinha não teve nada a ver com frio.
— Espera... O que você disse? — Ele segurou o braço dela. — Como sabe meu nome?
A garota piscou, parecendo voltar à realidade por um milésimo de segundo, mas o terror em seus olhos era absoluto.
— Não... o padrão mudou. Dante deveria estar aqui. Sem ele a fusão vai ser perfeita.
— Dante? Padrão? Fusão? — Drake a sacudiu levemente. — Ei! Olha para mim! Quem é você? O que quer dizer com "todos morrem"?
A garota soltou um grito abafado, empurrou Drake com uma força surpreendente e saiu correndo, virando o corredor.
— Ei! Volta aqui!
Drake olhou para o chão. Onde ela estivera, havia um pequeno caderno de couro gasto. Ele o apanhou. Ao abrir, suas mãos suaram. As páginas estavam cobertas de diagramas do Titanic, horários exatos e nomes.
— Mas que diabos... — Ele folheou, sentindo o estômago embrulhar. — Isso não é um plano de ataque. Isso parece...
De repente, um som abafado veio de trás da parede ao lado dele. Um som de algo caindo, assim como gritos atônitos.
Antes que Drake pudesse sacar a espada, a mão de Remi fechou em seu ombro.
— Achei você! — Ela disse, puxando-o. — Chega de correr atrás de saias! Precisamos revisar a planta da sala do tesouro agora. A segurança mudou o padrão.
— Remi, espera! — Drake tentou resistir, segurando o caderno com força. — Tem algo muito errado aqui.
Remi o arrastou para longe. Drake olhou para trás uma última vez, para o caderno em sua mão e para a parede de onde o barulho veio; sem dúvida, algo estava acontecendo.
Parte 8
Do lado oposto da parede onde Drake se encontrava, o grupo de Dante, que havia sido surpreendido e teleportado por Alaya, finalmente chegava ao local.
Dante sentiu o estômago revirar, mas não foi o teletransporte que o fez vacilar. Foi a cabeça. Uma pontada aguda, como um prego sendo martelado atrás dos olhos, o fez levar a mão à têmpora. O som ao redor parecia vir de muito longe, abafado, como se ele estivesse ouvindo através de uma parede de água espessa e gelada.
Ele piscou, forçando a realidade a entrar em foco. O grupo finalmente saiu da pilha amontoada no chão. Leon, trêmulo, já se levantava, o suor frio visível em sua testa.
— Caralho... — Luck sussurrou, olhando ao redor com um misto de pavor e fascinação técnica. — Eu ouvi rumores de uma nave espacial sendo projetada em Elysium, mas pronta em vinte anos? Isso é...
— Isso não é nada bom — completou Sora, ajudando Nyan a se levantar. — Se formos pegos aqui, "prisão" será um eufemismo. Seremos dissecados.
Dante ouvia as vozes, mas elas não pareciam reais. Ele olhou para as próprias mãos. Elas tremiam levemente? Não, estavam firmes. Era sua mente que tremia.
"Droga, isso é o efeito da fusão?" — ele se perguntou. Seus olhos se fixaram em Anna, que desviou o olhar da janela para ele por um instante, antes de voltar a observar a paisagem do lado de fora.
Ela sabia. Ela sentia o eco da morte de Nero dentro dele, mas manteve o silêncio, observando-o com olhos indecifráveis.
Antes que pudessem formular um plano, as portas de aço sibilaram.
Guardas armados inundaram a sala com precisão militar, seguidos por um homem de terno impecável e óculos escuros, cuja postura gritava burocracia perigosa.
— Detectamos uma distorção espacial não autorizada — disse Danael, a voz fria e metálica. — Identifiquem-se. Vocês estão sob custódia por invasão de propriedade federal.
O grupo congelou. O pânico começou a se instalar nos olhos de Sora. Era o momento de agir. Dante sentiu o oceano frio dentro de si subir até o pescoço. O sorriso surgiu em seu rosto: automático, vazio, mas convincente.
— Isso vai ser um problema, chefia. — Dante deu um passo à frente, ignorando as armas apontadas. — Minha agenda está cheia, não estou a fim de ser preso hoje.
— Acredito que nenhum criminoso esteja — retrucou Danael, ajustando o comunicador. — Mas regras são regras.
— Hum, então o segredo é deixar de ser criminoso, certo? — Dante encostou-se numa caixa de carga, fingindo uma descontração que fazia seus músculos doerem. — Se eu virar passageiro agora, tecnicamente, sou apenas um cliente VIP que chegou de forma... exótica.
— E como você faria isso? Dinheiro não compra assentos nesta nave, garoto.
— Relaxa. Eu tô quebrado literalmente. — Dante riu, um som seco. — Mas que tal me emprestar esse comunicador? Ligue para a família Scarlune.
O homem hesitou. O nome "Scarlune" pesou no ar como chumbo.
— Por que eu faria isso? Eles não se importam com ninguém fora da família.
— "Se importar com a família"? Meu Deus, o que rolou nesses vinte anos? — Dante murmurou para si mesmo, chocado, antes de falar mais alto: — Apenas ligue. Diga que "O Dante Scarlune está vivo".
Havia uma certeza tão absoluta na voz de Dante que o homem, movido pela curiosidade ou pelo medo, acatou. A chamada foi feita. Segundos depois, uma voz do outro lado respondeu. Dante não precisou ouvir para saber o resultado.
— Liberte-os — ordenou a voz no comunicador, audível no silêncio tenso da sala. — Adicione-os à minha lista pessoal. Minha cota de convidados estava vazia mesmo.
O homem de terno olhou para Dante como se ele fosse uma bomba-relógio.
— Tudo bem...
Enquanto os guardas abaixaram as armas, Dante sentiu a adrenalina cair e a exaustão bater. Luck se aproximou, colocando a mão no ombro dele. O toque parecia distante.
— Você mandou bem.
Dante olhou para Luck. Ele viu a preocupação nos olhos do amigo.
— É… — Dante respondeu, mas o sorriso não chegou aos olhos.
Horas depois, após interrogatórios superficiais que foram descartados pelo simples peso do nome "Alaya" e "Scarlune", eles foram levados aos aposentos.
O quarto era um insulto. Um luxo desmedido com vista para o cosmos infinito. Paredes de vidro mostravam as estrelas — frias, distantes, mortas. Nyan corria de um lado para o outro, tocando nos móveis de design, tagarelando sobre a tecnologia.
— Eu não acredito que nos safamos! — exclamava Sora.
A porta se abriu novamente. Uma garota de cabelos brancos e olhos vermelhos entrou. Sua presença era afiada, cortando o ar. Ela caminhou direto até Dante e se curvou em um ângulo perfeito de noventa graus.
— Vejo que está vivo, Mestre Dante. Vim confirmar as notícias para a Família.
— Ah... qual é a dessa reverência? — Dante tentou manter o tom leve, mas a formalidade o irritava. — Você é uma Scarlune também, certo? Pare com isso.
— Embora também seja da família, o senhor é o único remanescente da Terceira Casa e da Geração Anormal. Esta particularidade o tornou, de forma oficial, o líder da Casa durante estes vinte anos.
Luck e Kurokawa trocaram olhares confusos.
— O que isso significa? — perguntou Kurokawa, a voz trêmula.
Levy se endireitou, o rosto inexpressivo.
— Há 14 anos, na Noite da Lua Escarlate, os membros da Terceira Casa da Família Scarlune foram exterminados. Mais de cem membros, incluindo o líder da casa, foram mortos. Dante é o único sobrevivente.
O silêncio que se abateu sobre eles era opressor. Enquanto o grupo de Sora já estava familiarizado com a história, ela atingiu Luck e Kurokawa como uma bomba inesperada.
Para Dante, era algo trivial.
— Entendi... — Dante disse, olhando para o teto.
Kurokawa deu um passo à frente, indignada.
— Dante, você está bem? Sua família morreu! É isso que você tem a dizer?
— É. O que mais eu diria? — Ele virou o rosto para ela. — Eu nunca os conheci. Mortos ou vivos, eles são estranhos para mim. Por que eu choraria por estranhos quando...
Ele parou. "Quando não consigo nem chorar por Nero".
Levy interveio, fria como gelo.
— A reação dele é adequada, senhorita. Os Scarlune não são criados com amor. Somos criados com ambição. O código genético da nossa família prioriza o poder e o objetivo acima de laços sanguíneos. O luto é uma ineficiência.
Kurokawa recuou, horrorizada, abraçando a si mesma. Luck apenas observava Dante, os punhos cerrados. Ele sabia que aquela apatia era uma represa prestes a estourar.
"Ineficiente... estou vendo esse que você chama de líder prestes a se afogar nessa ineficiência" — Luck pensou, sentindo-se frustrado, sem saber o que dizer.
— Mestre Dante — Levy chamou sua atenção, já na porta. — O relatório da última missão que você teve há vinte anos mencionava que a senhorita Nero estava com você. Ela sobreviveu?
O mundo parou. O som do oceano rugiu nos ouvidos de Dante, ensurdecedor. A pressão na cabeça triplicou. Por um segundo, ele não estava na nave; estava de volta àquele chão sujo, sentindo o calor do corpo dela esfriar contra o seu peito. Mas se via de fora do corpo, como se aquelas sensações, aqueles sentimentos, não fossem dele.
— Não — a voz saiu rouca, arranhada. — A Nero morreu…
Levy parou, mas sem se virar.
— Entendi. Solicitarei que alguns caçadores sob meu comando sirvam de guarda-costas para vocês. Com licença.
Ela saiu, deixando uma sala confusa para trás.
Dante precisava sair dali. O ar no quarto estava viciado, pesado com as memórias que Levy desenterrou.
— Vou dar uma volta — murmurou, sem esperar resposta.
— Espere, Dante! — gritou Kurokawa, tentando impedi-lo, mas Luck segurou seu braço, detendo-a.
— Deixe-o ir, ele precisa de um tempo sozinho… — disse Luck, embora a tremedeira no braço que segurava Kurokawa denunciasse sua aflição.
Ele caminhou pelos corredores do navio. O saguão era magnífico, uma catedral de vidro e metal flutuando no vazio, mas Dante mal registrava a beleza. Ele olhava para as estrelas através do teto transparente.
Ele se sentia vagando no meio do mar. A dor de cabeça era uma companheira constante agora, um lembrete de que ele ainda estava vivo, infelizmente.
Distraído, perdido na própria mente, ele não viu a figura vindo na direção oposta. O impacto foi sólido. Dante cambaleou, mas não caiu. Ele baixou os olhos, demorando para focar. À sua frente estava uma garota pequena, mas que emanava uma aura de pura agressividade punk.
Os espectadores ao redor começaram a rir da diferença de altura e da situação. Dante, ouvindo os risos, agiu de forma automática.
— Cuidado por onde anda, baixinha — ele soltou, mais agressivo do que o normal.
O tempo pareceu congelar. A veia na testa da garota pulsou.
— O que... você disse?
Antes que Dante pudesse processar, o mundo girou violentamente. Um impacto brutal atingiu seu peito. Ele foi arremessado pelo ar, colidindo com a parede de metal a metros de distância. CRACK. A dor física explodiu em suas costelas.
Por um segundo, a dor física silenciou o oceano em sua mente e ele conseguiu voltar ao presente.
Ele deslizou pela parede, tossindo, enquanto a garota — uma fúria compacta — era segurada por sua companheira.
— ME SOLTA! EU VOU CHUTAR A ALMA DESSE IDIOTA PARA FORA DO CORPO! — ela gritava, arrastando a amiga como se fosse uma boneca de pano.
— Bea! Controle-se! Estamos no amarelo, lembra?!
— Mas ele me chamou de anã!
— Quantas vezes terei que repetir que não quero chamar a atenção neste maldito navio?!
Beatrice bufou, ajeitando a jaqueta. Ela caminhou até Dante, que ainda estava no chão, tentando lembrar como se respirava.
— Ei, Palito. Meu nome é Beatrice Dragonroad. Qual o seu?
— Dante... Scarlune... — ele respondeu, sentindo o gosto de ferro na boca.
— Ótimo, Scarlune. Reze para não cruzar meu caminho quando não tiver ninguém para me segurar.
A outra garota se aproximou de Dante, que estava no chão.
— Desculpa pela minha amiga, ela é um pouco sensível quanto à altura dela — ela disse, esforçando-se para não rir. — É melhor cuidar desse machucado; eu sei como ela consegue bater forte quando quer. Bom, a gente se vê por aí.
Dante permaneceu no chão, tentando se recompor. Sua mente estava agora mais clara, para o bem ou para o mal, mas tudo em que ele conseguia pensar era que logo voltaria àquela mesma sensação.
— Preciso de algo forte para beber...
Parte 9
Diante da porta de uma das suítes principais, duas figuras montavam guarda, imóveis como gárgulas de mármore.
Eles vestiam o branco imaculado do clero, mas a santidade terminava nas vestes. O homem, trajado como um padre, era uma montanha de músculos contidos sob o tecido esticado; suas mãos, cruzadas em prece, exibiam nós dos dedos calejados e cicatrizes de batalhas antigas. Ao seu lado, a mulher em hábito de freira não emanava a serenidade de um convento, mas a letalidade silenciosa de uma víbora. Seus olhos varriam o corredor com uma frieza predatória, prometendo violência imediata a qualquer interrupção.
Dentro do quarto, o ar parecia vibrar com uma eletricidade estática. O luxo da cabine havia sido convertido em um santuário improvisado. No centro, sentada em uma poltrona de veludo como se fosse um trono real, estava a matriarca.
Ela era a definição de uma beleza etérea. Seus longos cabelos loiros caíam como cascatas de ouro sobre os ombros, e seu rosto possuía uma serenidade tão perfeita que beirava o inumano — uma máscara angelical que escondia um abismo. Ao redor dela, oficiais e agentes com uniformes táticos adornados com crucifixos prateados aguardavam, prendendo a respiração.
A mulher ergueu o queixo, seus olhos varrendo a sala antes de focar em algo além das paredes do navio.
— O tempo do silêncio acabou — sua voz era suave, melódica, mas carregava uma autoridade absoluta. — Nós, o Trono de Deus, transformaremos esta travessia no marco zero.
Nesse instante, a realidade pareceu se fragmentar.
A milhares de quilômetros dali, em uma sala de reuniões corporativa em Gaia, os olhos de uma jovem secretária perderam o foco, revirando-se até restar apenas o branco. Na testa dela, um símbolo intrincado começou a brilhar em um tom dourado febril sob a pele.
Simultaneamente, nas favelas chuvosas do Terminal Cinza, uma menina deitada em um catre miserável sentou-se abruptamente, exibindo o mesmo brilho na testa.
Em um bunker militar em Umbra, outra jovem parou de limpar armas e virou-se para os generais presentes.
A voz da mulher no navio não saiu apenas de sua garganta. Ela ecoou, em perfeita sincronia, através das bocas de dezenas de "Receptáculos" espalhados pelo mundo. As meninas, em um uníssono assustador e mecânico, repetiram as palavras da líder para suas respectivas audiências atônitas:
— ... uma reunião com as filiais de todo o mundo. É hora de discutirmos, de uma vez por todas, o câncer que corrói a humanidade há vinte anos.
No navio, a mulher loira inclinou-se para a frente, e a temperatura da sala pareceu cair dez graus.
— Chegou a hora de decidirmos o destino dos Astreus e seus avatares.



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