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The Fall of the Stars: Capítulo 1 - A Boneca que Aprendeu a Sangrar

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 14 de jul. de 2025
  • 57 min de leitura

Atualizado: 23 de dez. de 2025

Volume 3: Sentido da Vida


Parte 1

Em Luvania, o “sol” não era uma certeza, mas uma lenda distante.

A cidade jazia perpetuamente sob a sombra do reino de Alexandria, envolta em uma névoa densa e pegajosa que se agarrava às roupas e à pele como um sudário úmido. Ali, a luz do dia morria antes mesmo de tocar o chão, filtrada pelas copas de árvores ancestrais e distorcida pela bruma eterna. O ar tinha um gosto metálico, uma mistura nauseante de umidade florestal e do cheiro acobreado que nunca abandonava as ruas de paralelepípedos: o cheiro de sangue velho.

Não havia silêncio em Luvania. Mesmo quando os gritos cessavam, o eco do medo permanecia.

Em um beco estreito, longe da vista das poucas patrulhas humanas que ainda ousavam resistir, o som úmido de carne sendo rasgada rompeu a quietude. Um vampiro, ou o que restara de sua humanidade, estava agachado sobre o corpo de um mercador. Não havia elegância naquele ato, apenas uma glória grotesca e esfomeada. A criatura tremia; não de frio, mas de êxtase.

Para eles, o sangue não era apenas alimento; era a única coisa real num mundo cinza. Era um deleite sádico. Cada gole enviava ondas de choque elétrico por seus nervos mortos, um mergulho na loucura que, por breves segundos, afastava a dor agonizante da sede. O vampiro ergueu o rosto, os olhos injetados e insanos, a boca manchada de carmesim, soltando um suspiro que era metade gemido de prazer, metade rosnado animal. Eles eram uma praga. Uma doença que transformava homens em monstros viciados, varrendo a humanidade como gafanhotos em uma plantação.

No alto da torre do relógio, contudo, uma figura observava a cena sem se mover.

Carmilla permanecia estática como uma gárgula de mármore pálido. O vento frio agitava seus cabelos longos e brancos e as bordas de seu vestido vitoriano, mas sua postura era imperturbável. De onde estava, ela podia ver as manchas escuras que pontilhavam a cidade — os corpos das vítimas inocentes deixados para trás como lixo.

Ela sentiu a própria garganta arder. Era uma queimação seca, profunda, como se tivesse engolido brasas vivas. A Fome. Ela a chamava, sussurrando promessas de alívio se ela apenas descesse lá e tomasse o que quisesse. Carmilla podia ouvir o coração do vampiro lá embaixo, podia ouvir o sangue correndo nas veias dos poucos humanos escondidos em suas casas trancadas.

Ela fechou os olhos e respirou fundo, ignorando a dor.

Carmilla não era como os outros. Ela já fora, séculos atrás, uma lenda do terror, uma senhora da guerra que banhara campos inteiros em vermelho. Mas aquela Carmilla morrera no dia em que ele partiu.

Seus dedos, longos e elegantes, apertaram o parapeito de pedra da torre. Ela aprendera a suportar. A dor era sua penitência; o controle, sua oferenda. Ela só se alimentaria quando seu corpo estivesse à beira de ressecar, e nunca por prazer. Era o mínimo que podia fazer para honrar a memória do homem que amou e para proteger aquilo que restou dele.

Seus olhos dourados se desviaram do massacre no beco e se fixaram em uma construção específica, mais ao longe, onde uma luz fraca de lamparina ainda brilhava através da névoa: o hospital. Ou melhor, o consultório improvisado de Lucius.

— Eu protegerei o seu legado — sussurrou ela para o vento, sua voz carregada de uma tristeza antiga. — Mesmo que este mundo tente devorá-lo.

Lá embaixo, o vampiro saciado largou o corpo e correu para as sombras, buscando a próxima vítima. Lá em cima, a Rainha observava, uma guardiã solitária no inferno que ela mesma ajudou a criar.

Parte 2

Dentro das paredes de pedra fria do que um dia fora uma biblioteca e agora servia de clínica, o ar cheirava a antisséptico barato e ferrugem.

Lucius Vrykolaka limpou as mãos em um pano encardido, sem desviar o olhar do paciente à sua frente. Era um vampiro jovem, transformado há não mais que uma década, com o ombro estraçalhado por uma bala de prata que ele havia demorado demais para remover. O ser rosnava, as presas à mostra, os olhos dilatados de dor e fome contida.

— Fique quieto — ordenou Lucius, com uma calma que beirava a apatia. Ele pegou uma pinça longa. — Se você se mexer, a prata vai queimar mais tecido.

O vampiro avançou o tronco num espasmo de agressividade, a boca abrindo-se para atacar a jugular exposta do médico. Mas, no último segundo, ele parou. O nariz da criatura se contraiu, farejando o ar próximo ao pescoço de Lucius.

Havia um cheiro ali. Sutil, antigo e aterrorizante. O cheiro da Rainha Demônio.

O vampiro recuou, encolhendo-se na maca como um cão chutado.

— Ela... ela está vigiando? — gaguejou a criatura, o terror superando a fome.

— Ela sempre está — respondeu Lucius, indiferente, voltando a suturar o ferimento.

Ser "propriedade" de Carmilla era o único motivo pelo qual o coração de Lucius ainda batia. Ele era intocável. Um humano caminhando entre lobos, protegido pelo fantasma de um amor que ele, pessoalmente, mal compreendia, mas aceitava como seu fardo. Ele terminou o curativo e dispensou o paciente com um aceno cansado.

Assim que a porta se fechou, o silêncio retornou, pesado. Lucius suspirou, esfregando as têmporas. A exaustão era sua companheira constante. Mas não houve tempo para descanso.

Um som abafado veio da sala adjacente. Um gemido baixo, trêmulo, de alguém tentando desesperadamente não fazer barulho.

O rosto de Lucius mudou instantaneamente. A apatia profissional desapareceu, substituída por uma preocupação urgente. Ele atravessou o corredor e abriu a porta dos fundos.

Kamui estava sentada no chão, abraçada aos próprios joelhos, no canto mais escuro da sala.

A visão era de partir o coração. Kamui, a mulher cuja gentileza desafiava a natureza de sua espécie, estava se desfazendo. Sua pele, normalmente pálida como porcelana, estava com um tom acinzentado e seco, parecendo pergaminho prestes a rasgar.

— Kamui... — Lucius se ajoelhou ao lado dela.

Ela levantou o rosto. Seus olhos vermelhos estavam marejados, nadando em lágrimas de pura dor física.

— Não chegue perto, Lucius. — A voz dela era um chiado rouco. — Por favor. O cheiro... seu sangue...

Lucius ignorou o aviso. Ele segurou as mãos dela. Estavam frias, mas não o frio natural dos mortos-vivos; era um frio de vazio, de ausência de energia. As veias em seu pescoço e têmporas não eram azuis, mas negras, pulsando e latejando violentamente contra a pele, como se quisessem estourar. O corpo dela tremia com espasmos musculares incontroláveis.

— Há quanto tempo? — perguntou ele, embora já soubesse a resposta.

— Três dias — ela sussurrou, fechando os olhos com força. — Eu tentei... eu tentei comer ratos, tentei sangue animal... mas meu corpo rejeita. Dói, Lucius. É como se tivesse vidro moído nas minhas veias.

A fome de um vampiro verdadeiro não era apenas um apetite; era uma abstinência de droga. O corpo "resseca" por dentro. Os órgãos entram em colapso doloroso. A mente se fragmenta.

Lucius viu a luta interna dela. A besta dentro de Kamui gritava para que ela o atacasse, para que ela drenasse a vida daquele humano frágil à sua frente. Mas a mulher, a alma gentil que Lucius amava, segurava a fera com correntes feitas de pura força de vontade e amor.

Ele não podia vê-la sofrer assim. Não mais.

Sem dizer uma palavra, Lucius puxou a manga de sua camisa branca, expondo o antebraço. Ele pegou um bisturi limpo do bolso do jaleco.

— Não... — Kamui balançou a cabeça, chorando abertamente agora. — Eu sou um monstro. Eu não quero te machucar. Eu prometi que acharia outro jeito...

— Ainda não achamos outro jeito, Kamui. Mas vamos achar — Lucius disse com firmeza, embora sua mão tremesse levemente. — Até lá, você precisa viver.

Ele fez um corte rápido e preciso no pulso.

O cheiro de sangue fresco e oxigenado preencheu o pequeno quarto instantaneamente. As pupilas de Kamui dilataram até cobrir quase toda a íris. O instinto assumiu o controle. Ela segurou o braço dele com força — força demais, machucando a pele de Lucius — e aproximou os lábios da ferida.

Ela bebeu.

Lucius cerrou os dentes, sentindo a vertigem o atingir enquanto ela sugava. Ele acariciou os cabelos dela com a mão livre, sussurrando palavras de consolo que ela provavelmente não conseguia ouvir através do frenesi da alimentação.

Quando ela parou, minutos depois, o frenesi deu lugar imediato à vergonha. Kamui soltou o braço dele como se tivesse queimado a mão. Ela recuou para o canto, limpando a boca freneticamente, soluçando de nojo de si mesma.

— Me desculpe, me desculpe, me desculpe... — ela repetia, encolhida, odiando o vigor que o sangue roubado lhe devolvia.

Lucius enfaixou o próprio pulso, sentindo o peso daquela cena esmagar sua alma. Ele olhou para a mulher que amava, reduzida a um animal choroso pela biologia maldita.

— Eu vou curar isso, Kamui — Lucius jurou, a voz baixa e perigosamente séria. — Eu vou criar um sangue que sacie essa sede. Eu vou livrar você desse inferno, nem que eu tenha que desafiar os próprios Astreus para isso.

Naquele momento, na penumbra daquele quarto, a semente da obsessão de Lucius foi regada não com água, mas com as lágrimas de culpa da mulher que ele amava.

Parte 3

Quatro dias.

Quatro ciclos de sol e lua haviam se arrastado desde que Lucius violara a própria integridade para lhe dar seu sangue. Desde então, ele se tornara um fantasma no laboratório improvisado ao lado de Rover. Noites insones sangravam umas nas outras, medidas apenas pelo tilintar febril de vidro contra vidro, testes fracassados e o cheiro acre de compostos químicos. Ele mal pisara em casa, convencido, em sua arrogância científica, de que sua ausência seria um escudo; que, ao remover a tentação de suas veias pulsantes, ele a protegeria.

Ele estava terrivelmente enganado.

A fome de Kamui não retornou como um simples apetite. Voltou como um castigo, uma possessão visceral que a biologia não tinha palavras para descrever. Não era fome; era um parasita devorando-a de dentro para fora, arranhando as paredes de seu estômago, gritando em seus ouvidos.

Naquela noite fatídica, o céu de Luvania chorava. Uma chuva torrencial e gélida castigava os telhados, lavando a fuligem das ruas de paralelepípedos, mas impotente para limpar o pecado impregnado na alma da cidade.

Kamui deixou a casa. O ar lá dentro, impregnado com o cheiro residual de Lucius nas roupas, tornara-se irrespirável — um lembrete tortuoso do sangue que ela desejava com cada fibra de seu ser corrompido. Ela precisava respirar. Precisava fugir da própria sombra antes que a besta tomasse o controle e atacasse o homem que ela amava quando ele retornasse.

Ela cambaleava por uma ruela deserta, a figura encharcada tremendo violentamente, os braços cruzados sobre o peito numa tentativa fútil de conter o vazio que se expandia em seu interior.

Foi então que o destino, com seu senso de humor macabro, armou sua peça.

Uma mulher humana dobrou a esquina apressada, lutando contra o vento, uma cesta de pães protegida sob o braço. O impacto foi inevitável. Corpos colidiram. A mulher soltou um grito abafado, a cesta foi ao chão, e ela desabou sobre as pedras molhadas.

— Oh, céus, me perdoe, eu não vi... — a mulher começou, a voz trêmula, agachando-se para recolher seus pertences.

Mas Kamui congelou. O tempo parou.

O joelho da mulher havia raspado na pedra bruta. Um fiozinho de sangue, insignificante, uma linha rubra e tênue, brotou na pele pálida. Para o mundo, era apenas um arranhão. Para Kamui, foi como se um relâmpago tivesse atingido o chão a seus pés. O cheiro de cobre e ferro invadiu suas narinas: doce, potente, devastador.

O mundo cinzento de Kamui tingiu-se de vermelho carmesim. O som da chuva desapareceu, engolido por um ritmo novo, ensurdecedor e hipnótico: Tump-tump. Tump-tump. O coração da estranha não batia; ele trovejava.

— Senhora? — a mulher chamou, o medo começando a surgir ao notar dois orbes brilhando de forma inumana na escuridão da ruela.

O ataque não foi uma escolha. Foi mecânico, predatório, inevitável.

Kamui avançou com a velocidade e a ferocidade de um animal encurralado. Mãos pálidas, agora garras, fecharam-se sobre os ombros humanos, derrubando a mulher na lama fria. As presas desceram. O grito de terror da vítima foi silenciado abruptamente quando Kamui enterrou o rosto na curva macia de seu pescoço.

O gosto.

Doce, quente, vibrante. A essência da vida explodindo na língua morta. Uma euforia elétrica disparou pelo cérebro de Kamui, silenciando a dor, a fome, o frio. Por um segundo, houve apenas o êxtase.

Mas então, o eco do grito da mulher alcançou a consciência soterrada de Kamui. Não. Não, não, não!

Com um esforço titânico, contrariando cada instinto de seu corpo que gritava por mais, Kamui se arrancou de cima da vítima. Ela se jogou para trás, as costas colidindo dolorosamente contra a parede de tijolos ásperos. Ela cuspiu o sangue, horrorizada, limpando a boca freneticamente como se fosse veneno.

A mulher, sangrando mas viva, levantou-se em pânico cego e correu, seus gritos de socorro ecoando, desaparecendo na noite chuvosa.

Kamui permaneceu ali, sentada na imundície, o gosto metálico impregnado no paladar. Ela havia cruzado a linha invisível. Não havia mais humanidade a ser preservada. Ela era, em essência e ato, o monstro que Lucius jurara que ela não era.

Horas depois, o horizonte a leste começou a sangrar um cinza pálido e doentio. A névoa de Luvania, espectral e fina, rastejava pelo chão naquela manhã.

Lucius corria. O pânico não corria em suas veias; ele as congelava. Ele chegara a uma casa vazia, silenciosa como um túmulo. O rastro dela não fora difícil de seguir para alguém que conhecia a cadência de seus passos e o peso de seu desespero.

Ele a encontrou na clareira nos limites da cidade, onde a vegetação morria e as árvores retorcidas pareciam dedos esqueléticos apontando para o céu.

Kamui estava de pé, virada para o leste, uma silhueta frágil contra a luz nascente. Em suas mãos trêmulas, ela segurava o estoque de verbena roubado do marido. Ela reunia não a coragem para viver, mas a determinação sombria para fazer o que sentia ser sua única redenção.

— Kamui! — O grito de Lucius rasgou o silêncio sepulcral da manhã.

Ela não se virou. Seus ombros caíram.

— Não venha, Lucius. Acabou. Eu machuquei alguém. Eu... eu gostei... — A voz dela quebrou, um som de vidro estilhaçado. — Eu não posso viver sendo isso.

Antes que ele pudesse dar mais um passo, ela levou a verbena à boca. Não uma dose, mas tudo.

Para um humano, seria um desconforto digestivo. Para Kamui, foi ácido sulfúrico concentrado.

No instante em que a erva tocou as mucosas, a reação foi violenta. A carne começou a chiar, fumaça subindo de seus lábios. Sua garganta entrou em combustão química, a pele do interior da boca derretendo, o fogo alastrando-se para o esôfago, estômago, veias. A agonia era absoluta.

Ela gritou — um som gutural, inumano — e caiu de joelhos. Mas ela não tentou cuspir. Ela abraçou a dor. Ela a aceitou como seu julgamento final.

— NÃO!

Lucius se lançou sobre ela, ignorando qualquer autopreservação. Ele arrancou seu pesado sobretudo de couro e o jogou sobre o corpo fumegante de Kamui, abraçando-a contra o peito, enfiando os dedos na boca dela, desesperado, tentando fazê-la vomitar o veneno que a consumia.

Ela se debatia violentamente, contorcendo-se em espasmos de agonia pura.

— Me deixa ir! Dói! Deixe-me morrer! Eu sou um monstro!

Lucius a segurou com uma força brutal, ignorando as queimaduras químicas que agora marcavam suas próprias mãos, ignorando o cheiro nauseante de carne queimada — a carne da mulher que ele amava. O rosto dela estava desfigurado, a beleza distorcida por bolhas e feridas abertas, as lágrimas evaporando instantaneamente na pele febril.

— Você não vai morrer! — Lucius rosnou, as lágrimas escorrendo pelo seu próprio rosto, misturando-se à fuligem e ao sangue dela. — Eu não permito. Ouviu? Eu não permito!

Ele a esmagou contra si, absorvendo os tremores dela, sentindo o corpo amado convulsionar em dor e arrependimento.

Ali, sob a sombra da árvore morta, enquanto os soluços de Kamui diminuíam para gemidos de inconsciência, algo fundamental dentro de Lucius se partiu. Foi um som silencioso, mas definitivo.

A compaixão, a ética hipocrática, a esperança ingênua de que a "natureza" seguiria seu curso benigno... tudo isso morreu naquela manhã, junto com a inocência de sua esposa.

Ele olhou para o céu cinzento, indiferente ao sofrimento abaixo. Seus olhos secaram. Sua expressão, antes contorcida pelo pânico, endureceu, transformando-se em uma máscara de frieza aterrorizante, desprovida de qualquer calor humano.

Se a natureza não podia salvá-la, ele quebraria a natureza. Se Deus permitia que ela sofresse daquele jeito, ele o destronaria e tomaria seu lugar.

Ele levantou Kamui, agora flácida e inconsciente pela dor excruciante, em seus braços. Ela parecia uma boneca quebrada, destruída pelo mundo que ele falhara em controlar.

— Rover estava certo — ele sussurrou para o vazio, virando as costas para a luz da manhã e caminhando resoluto de volta para a escuridão do laboratório. — Estamos pensando pequeno demais...

O médico bondoso havia morrido na clareira. O que caminhava de volta para a cidade era algo muito mais perigoso.

Parte 4

Lucius deixou o corpo febril de Kamui sob os cuidados de Rover e partiu antes que a coragem lhe faltasse. Seu destino não era um lugar onde homens de Deus ousavam pisar.

A Mansão Winchester erguia-se na amaldiçoada Threshold, longe da névoa úmida de Luvania, sob um céu que parecia perpetuamente tempestuoso. Era o lar dos Scarlune.

Ao cruzar os portões de ferro retorcido, Lucius sentiu o peso do sacrilégio. O que ele estava prestes a fazer violava os dogmas mais sagrados da Ordem da Rosa Cruz. Criar vida artificial não era apenas impossível devido à Sombra do Astreus da Vida — a barreira metafísica que impedia que criações humanas tivessem alma —, mas era um tabu que fez o conhecimento sobre a criação de quimeras e homúnculos ser queimado há séculos.

Mas Lucius não se importava mais com punições divinas ou humanas.

O interior da mansão era um desfile de decadência aristocrática. Veludo vermelho, ouro manchado e um cheiro adocicado que tentava, sem sucesso, mascarar o odor de formaldeído.

— Lucius Vrykolaka — uma voz melódica e fria ecoou pelo salão principal. — O médico da Rainha Demônio em nossa humilde morada? Que delícia inesperada.

Descendo a escadaria dupla, as irmãs Scarlune surgiram como visões de um pesadelo.

Rani descia com a elegância de uma predadora, seus olhos analisando cada microexpressão de Lucius como se o dissecasse vivo. Mas foi a outra, Ashley, quem prendeu a atenção dele. Ashley Scarlune movia-se com uma fluidez líquida, um sorriso nos lábios que prometia tanto o paraíso quanto a perdição eterna. Elas eram belas, deslumbrantes, mas havia algo errado. Uma aura de artificialidade que fazia o instinto primitivo de Lucius gritar "perigo".

— Rani. Ashley. — Lucius fez uma reverência rígida. — Eu vim propor uma troca.

Ashley riu, um som cristalino que fez o ar esfriar. Ela se aproximou dele, ignorando qualquer noção de espaço pessoal, seus dedos gélidos roçando o colarinho do casaco de Lucius.

— Uma troca? — Ashley sussurrou, os olhos brilhando com malícia e curiosidade. — Você cheira a desespero, doutor. O que poderia um homem que serve a uma pacifista querer com seres como nós?

— Eu preciso do código genético de vocês — Lucius disse diretamente, sustentando o olhar de Ashley, embora sentisse um arrepio percorrer sua espinha.

Rani parou ao lado da irmã, cruzando os braços. A diversão em seu rosto desapareceu, substituída por um interesse clínico.

— O código Scarlune? — Rani inclinou a cabeça. — Para quê?

— Para quebrar a Sombra do Astreus — respondeu Lucius. O silêncio que se seguiu foi pesado. — Eu tentei criar clones. Tentei cultivar a vida. Mas tudo o que obtenho são cascas vazias. Incapazes de saciar a fome de um vampiro. A Rosa Cruz garantiu que o segredo dos homúnculos fosse perdido... mas vocês não deveriam existir.

Lucius deu um passo à frente, sua voz carregada de obsessão.

— Vocês são uma afronta à regra. Pela lógica do Astreus da Vida, vocês nem deveriam existir. Mas estão aqui. O sangue dos Scarlune possui a chave que a natureza escondeu. Eu quero essa chave.

Ashley circulou Lucius, parando atrás dele e sussurrando em seu ouvido. A proximidade dela era intoxicante, uma mistura de perfume caro e o cheiro sutil de ozônio e sangue.

— Você quer brincar de Deus, Lucius? — A voz de Ashley era seda pura. — Você quer criar vida? A Rosa Cruz o esfolaria vivo apenas por pensar nisso. É... excitante.

— Minha mulher está morrendo — Lucius confessou, a vulnerabilidade vazando por sua armadura. — Eu preciso criar um receptáculo perfeito. Um ser artificial cujo sangue possa sustentar vampiros. Preciso criar uma nova espécie. E só o sangue de vocês pode ancorar a alma à carne.

Rani trocou um olhar significativo com Ashley. Havia uma comunicação silenciosa entre elas, uma conexão que ia além da irmandade. Os Scarlune eram conhecidos por serem retalhos, existências profanas, mas ver a ambição daquele humano despertou algo nelas. Não era piedade. Era entretenimento.

Ashley voltou a ficar de frente para ele, colocando a mão no peito de Lucius, sobre o coração que batia descompassado. Ela sorriu, e naquele sorriso, Lucius viu o abismo. Ele sentiu uma atração magnética, escura e terrível por aquela criatura que exalava perigo.

— Nós aceitamos — disse Ashley, seus dedos traçando o maxilar dele. — Vamos dar a você nosso sangue, nosso DNA.

— Mas saiba disso, doutor — Rani completou, seu tom solene e cortante. — Quando você quebra as leis do mundo, o que você cria nunca é puramente seu. E o preço de usar nosso sangue... bem, digamos que a loucura é um efeito colateral comum.

— Eu já estou louco — Lucius respondeu, sem desviar os olhos de Ashley. — Eu só preciso dos meios para transformar minha loucura em salvação.

Ashley mordeu o lábio inferior, fascinada pela escuridão que crescia dentro daquele homem aparentemente nobre. Ela se aproximou ainda mais, seus lábios a milímetros dos dele, selando o pacto não com um beijo, mas com uma promessa sussurrada:

— Então venha, Lucius. Vamos criar monstros juntos.

Naquela sala opulenta e sombria, sob o olhar faminto das irmãs Scarlune, Lucius Vrykolaka vendeu o que restava de sua humanidade. Ele tinha o ingrediente final. A barreira do impossível estava prestes a ser quebrada.

Parte 5

O laboratório subterrâneo, antes um local de esperança estéril e silenciosa, havia se transformado.

Nas semanas que se seguiram à visita à Mansão Winchester, o santuário de Lucius converteu-se em uma masmorra de vidro e metal. Onde antes havia apenas microscópios e centrífugas, agora erguiam-se grandes tanques cilíndricos, preenchidos com um líquido amniótico de uma cor âmbar doentia, iluminados por uma luz pulsante que lembrava o bater de um coração arrítmico.

Rover, o amigo de infância e colega leal, caminhava por entre os corredores de cabos e tubos, sentindo a bile subir à garganta.

O cheiro era o pior. Não era o cheiro de morte — a morte era limpa, definitiva. O cheiro ali era de vida forçada. Cheirava a carne crua, a eletricidade estática e, perturbadoramente, ao perfume doce e enjoativo que impregnava as amostras enviadas pelas irmãs Scarlune.

— Lucius? — Rover chamou, sua voz ecoando no espaço cavernoso.

Ele encontrou o amigo debruçado sobre uma mesa de dissecação no fundo da sala. Lucius não parecia ter dormido desde o incidente com Kamui. Sua pele estava pálida, olheiras profundas marcavam seu rosto como hematomas, e suas pupilas estavam dilatadas, focadas obsessivamente na massa de tecido à sua frente.

Ao redor deles, os resultados das primeiras tentativas flutuavam nos tanques como fantasmas abortados.

— A Cobaia 04 falhou — Lucius murmurou, sem levantar a cabeça. Sua voz era um zumbido mecânico, desprovido de emoção. — O tecido humano rejeita a infusão do éter. A Sombra do Astreus... é persistente. Ela corta a conexão neural antes que o cérebro possa se formar. É como se o universo estivesse ativamente sufocando o que tentamos criar.

Rover olhou para o tanque mais próximo. Dentro dele, algo que deveria ter sido um clone humano flutuava inerte. Não tinha rosto, apenas uma massa de carne lisa. Era uma casca. Uma zombaria.

— Lucius, olhe para isso — Rover implorou, agarrando o ombro do amigo. — Isso não é ciência. Isso é necromancia disfarçada. Você está misturando genética com... com o que quer que aquelas bruxas tenham te dado. Nós estamos violando leis que nem sabíamos que existiam.

Lucius se virou lentamente. Seus olhos, antes cheios de paixão pela medicina, agora eram poços frios de pragmatismo.

— Magia é, no fundo, apenas uma ciência ainda não compreendida, Rover. Não permita que a terminologia o afaste do que é verdadeiramente essencial.

Ele apontou o bisturi para um novo frasco contendo um sangue que parecia se mover sozinho dentro do vidro. O sangue das Scarlune.

— Os clones humanos falharam porque são frágeis. Sem alma dentro de seus corpos, o éter que desenvolvemos cria um sangue ralo, incapaz de saciar a fome de um vampiro. — Lucius pegou o frasco, fascinado. — Mas isto... as irmãs Scarlune quebraram o código. Elas existem na brecha da Sombra do Astreus. Elas não são humanas, Rover. Também não parecem ser quimeras. Se eu usar a base genética delas não apenas como aditivo, mas como o alicerce...

— Você vai criar um monstro — Rover sussurrou, horrorizado. — Você quer criar algo baseado em um Scarlune? Eles são demônios, Lucius!

— Eu não me importo se eles são o próprio diabo — Lucius retrucou, voltando-se para seus papéis, onde diagramas complexos de dupla hélice se misturavam a símbolos alquímicos proibidos pela Rosa Cruz. — Se o diabo tem a cura, eu beberei do cálice dele.

De repente, um dos monitores apitou. Uma luz verde piscou em uma das incubadoras menores, isolada no centro da sala.

Lucius largou o bisturi e correu até lá. Rover o seguiu, hesitante.

Dentro da incubadora, um aglomerado de células estava se dividindo. Mas não era a divisão caótica e cancerígena das tentativas anteriores. Era ordenada. Rítmica. A Sombra do Astreus, aquela força invisível que sempre esmagava a vida artificial, parecia recuar diante da agressividade do DNA Scarlune.

— Está estabilizando — Lucius sussurrou, um sorriso maníaco curvando seus lábios secos. — O código Scarlune está devorando a rejeição humana. Está criando uma nova matriz.

Ele olhou para Rover, e pela primeira vez em semanas, havia vida em seus olhos. Mas não era a vida de um homem são. Era o brilho de quem acabou de descobrir como incendiar o mundo.

— Prepare o Tanque Principal, Rover. Vamos iniciar o Projeto Velvet.

Rover olhou para o aglomerado de células, pulsando com uma energia vermelha e maliciosa. Ele sabia, em seu íntimo, que deveria destruir aquilo. Deveria quebrar o vidro, queimar o laboratório e salvar a alma de seu amigo.

Mas ele pensou em Kamui, chorando de dor no andar de cima. Pensou na lealdade que devia a Lucius.

Com um suspiro derrotado, que soou como o último suspiro de sua consciência, Rover assentiu.

— Vou preparar o éter — disse Rover, a voz sumindo.

Lucius não ouviu. Ele já estava digitando novos códigos, murmurando para a incubadora como um pai conversando com o filho ainda no ventre.

— Cresça — ordenou Lucius para as células. — Cresça e seja perfeita.

Nas sombras do laboratório, entre o zumbido das máquinas e o borbulhar dos fluidos, a Era da Inocência havia terminado. A Era dos Monstros estava apenas começando.

Parte 6

O tempo no laboratório havia se dissolvido.

Dias e noites perderam suas fronteiras, fundindo-se em uma vigília cinzenta e interminável. O único marcador de realidade era o zumbido grave e constante do Tanque Principal, uma canção de ninar elétrica para a abominação que florescia em seu interior.

O DNA das irmãs Scarlune não se comportava como material genético comum; agia como um invasor, um catalisador agressivo e voraz. O feto não se "desenvolveu" no sentido biológico; ele conquistou a matéria. A carne se tecia com uma velocidade aterrorizante, esculpida em uma simetria tão perfeita que feria os olhos, ignorando as falhas e assimetrias que tornam os humanos... humanos. A "Sombra do Astreus", a barreira divina imposta pela natureza para impedir que a consciência habitasse a carne artificial, não foi apenas transposta — foi estraçalhada pela virulência daquele sangue maldito.

Finalmente, a luz de monitoramento no tanque, antes de um vermelho de alerta, suavizou-se para um verde límpido e venenoso.

— Está pronto. — A voz de Lucius era um sussurro rouco, arranhada pela desidratação e pelo peso esmagador de sua própria húbris. — Drene o fluido.

Rover, com as mãos tremendo violentamente, puxou a alavanca de metal frio. O líquido amniótico sintético, de uma cor âmbar espessa, começou a escoar com um som gorgolejante e úmido, revelando lentamente a figura suspensa no centro do vidro.

Não era um bebê. A aceleração celular e o coquetel de hormônios de crescimento haviam roubado a infância daquela criatura antes mesmo de ela respirar. O que flutuava ali aparentava ser uma criança de três ou quatro anos. Sua pele era imaculada, translúcida e pálida como o luar refletido em um túmulo de mármore. Cabelos longos e prateados, como fios de seda molhada, colavam-se ao corpo pequeno e inerte.

O vidro do tanque se abriu com um silvo agudo de descompressão. Uma nuvem de vapor gélido escapou, rastejando pelo chão do laboratório como névoa em um cemitério.

Lucius avançou, tropeçando em sua própria ansiedade, uma toalha branca estendida nas mãos como uma oferta de paz. Ele estava pronto para receber sua criação, sua redenção, sua "filha".

— Velvet... — Ele pronunciou o nome como uma oração. O nome que prometia a maciez e o conforto que o mundo cruel lhe negara.

A menina tombou para a frente, caindo nos braços dele, mole e pesada como um cadáver recente. Lucius a envolveu freneticamente, sentindo o calor febril e antinatural que irradiava daquele corpo sintético.

Rover observava da escuridão, paralisado. Um arrepio subiu por sua espinha, um aviso primal que nada tinha a ver com a temperatura da sala.

Havia silêncio. Um silêncio absoluto e errado. Um recém-nascido, mesmo forjado em vidro e aço, deveria engasgar com o primeiro ar. Deveria gritar pelo choque brutal da existência.

Mas Velvet não chorou.

Lentamente, como se estivesse apenas acordando de um sonho agradável, as pálpebras dela se abriram.

Lucius soltou um soluço quebrado, meio riso, meio choro, ao encarar aqueles olhos. Eram grandes, líquidos, brilhando com uma cor amarela hipnotizante.

— Olá, minha pequena... — Lucius chorava abertamente, as lágrimas pingando no rosto impecável da menina. — Eu sou seu pai.

Para Lucius, aquela era a visão de um milagre. A inocência encarnada. A prova viva de que ele havia vencido Deus em seu próprio jogo.

Mas Rover, do seu ângulo privilegiado pelo medo, viu a verdade. E a verdade era um abismo.

Velvet não estava confusa. Seus olhos não vagavam erraticamente em busca de foco como os de uma criança. Eles travaram instantaneamente no rosto de Lucius com uma clareza cirúrgica e predadora.

A mente de Velvet era um vasto oceano frio e escuro. Não havia alma humana ali, apenas "algo", uma escuridão senciente.

Ela piscou. Uma imitação mecânica e perfeita de um movimento infantil.

Então, os lábios dela se curvaram, e um sorriso apareceu, algo que forçava qualquer um que a visse a sentir uma detonação de empatia humana.

— Pa... pa... — A voz dela saiu suave, doce como mel.

Lucius desmoronou. Ele a abraçou com força, enterrando o rosto nos cabelos úmidos dela, soluçando de um alívio que doía fisicamente.

E foi nesse momento, sobre o ombro trêmulo de Lucius, que o rosto de Velvet mudou sutilmente. O sorriso doce permaneceu congelado nos lábios, mas os olhos... os olhos ficaram vazios. Ela olhou diretamente para Rover.

Rover sentiu o sangue gelar. Velvet inclinou levemente a cabeça para Rover e, com uma lentidão deliberada, sorriu para ele também. Um gesto simples, mas que causava desconforto.

Mas quando Lucius se afastou para admirá-la novamente, a máscara de inocência estava de volta ao lugar, sem uma única falha. Velvet riu, um som de sinos prateados, e estendeu as mãozinhas pálidas para tocar o rosto do pai, emanando uma aura de pureza angelical.

— Ela é perfeita, Rover! — Lucius exclamou, a voz embargada de adoração, cego pela própria luz que acendera. — Ela é a nossa salvação.

Rover tentou falar, mas a voz morreu em sua garganta seca.

— Sim... — ele sussurrou, desviando o olhar daquele pequeno tabu. — Perfeita.

Parte 7

Os meses que se seguiram ao nascimento de Velvet foram um delírio febril de felicidade doméstica, construído sobre um alicerce de vidro frágil.

O laboratório, outrora um palco de horrores biológicos, suavizou-se. Brinquedos de madeira e bonecas de pano agora dividiam espaço com as centrífugas. Desenhos feitos com giz de cera cobriam as paredes de metal frio, retratando figuras palito felizes sob um sol quadrado e sorridente.

Rover observava a cena da porta, uma caneca de café morno na mão. No centro da sala, Lucius estava de quatro no chão, fingindo ser um cavalo enquanto Velvet, agora aparentando uma menina de cinco anos, cavalgava em suas costas, rindo e puxando seus cabelos.

Aquele momento de terror no nascimento parecia agora um pesadelo distante, fruto da exaustão e da paranoia de Rover. Velvet era doce. Curiosa. Um pouco... intensa, talvez, mas que criança não era?

— Mais rápido, papai! — Velvet gritou, sua voz cristalina ecoando.

Lucius obedeceu, rindo como Rover não o via rir há anos. A obsessão científica havia sido substituída pela adoração paterna. Velvet havia trazido luz para a escuridão deles.

No entanto, havia momentos...

Mais tarde naquele dia, enquanto Lucius subia para verificar Kamui, Rover ficou cuidando de Velvet. Ela estava sentada no chão, desmembrando uma boneca de pano com a boca. Não com raiva, mas com curiosidade. Ela havia separado a cabeça do corpo e estava tentando costurar a perna no lugar do pescoço.

— O que você está fazendo, Velvet? — Rover perguntou, tentando soar casual.

Velvet ergueu os olhos. Aquele tom de amarelo brilhava com inocência.

— Eu quero ver se ela continua sendo ela se eu mudar as peças, tio Rov — ela respondeu calmamente. — ...se eu tirar tudo, onde fica o amor dela?

Rover sentiu um calafrio, mas forçou um sorriso.

— Bonecas não têm amor, querida. Pessoas têm.

Velvet parou. A agulha ficou suspensa no ar.

— Amor... — ela testou a palavra, como se provasse uma fruta exótica. — O papai ama a mamãe Kamui, não é? Ele faria qualquer coisa por ela...

— Sim... é um jeito de dizer.

— Que legal... Eu... eu também quero isso — Velvet sussurrou, voltando a espetar a boneca, agora com um pouco mais de força. — Eu quero que alguém me ame assim...

Rover decidiu ignorar a estranheza. Ela era apenas uma criança confusa com o mundo adulto.

A primeira vez que a levaram para fora foi numa noite de lua cheia, quando a névoa de Luvania estava baixa.

Eles a levaram para o jardim murado nos fundos da casa de Kamui. Lucius estava nervoso, segurando a mãozinha dela com força.

Quando a brisa noturna tocou o rosto de Velvet, ela parou. Seus olhos se arregalaram, absorvendo as cores prateadas da noite, o cheiro de terra molhada, o som dos grilos.

— É muito grande, papai — ela disse, a voz trêmula de emoção genuína.

Ela correu para um canteiro de rosas brancas. Lucius e Rover sorriram, emocionados com a pureza da cena. Velvet tocou uma pétala. Ela parecia maravilhada.

— É tão bonito... — ela murmurou. — Tão vivo.

Então, sem aviso, a mão dela se fechou. Ela arrancou a rosa do caule com um movimento brusco. Espinhos rasgaram a palma de sua mão pequena, fazendo sangrar o sangue artificial perfeito que Lucius criara.

— Velvet! — Lucius correu até ela. — Você se machucou!

Velvet olhou para o sangue escorrendo, misturando-se às pétalas brancas esmagadas em seu punho. Ela não chorou. Ela parecia fascinada.

— Eu queria segurar a beleza — ela explicou, confusa, olhando para a flor agora morta e amassada em sua mão. — Por que ela quebrou, papai? Eu só apertei porque gostei muito dela.

— As coisas vivas são frágeis, querida — Lucius explicou, limpando a mão dela, o coração doendo pela "ingenuidade" da filha. — Você tem que ser gentil.

— Gentil... — Velvet repetiu, olhando para a flor morta. Seus olhos não mostravam remorso, apenas um cálculo. — Entendi. Na próxima vez, eu não vou quebrar. Vou prender numa caixa para ela não fugir.

Lucius riu, achando que era uma metáfora infantil. Rover, no entanto, desviou o olhar, sentindo novamente aquela pontada de medo que ele se esforçava tanto para esquecer.

A visita de Carmilla aconteceu uma semana depois.

A Rainha Demônio entrou na casa não como uma governante, mas como uma matriarca curiosa. Ela usava um vestido vitoriano escuro e trazia um ar de melancolia antiga.

— Então esta é a criança — Carmilla disse, observando Velvet, que estava sentada no sofá, balançando as pernas.

— Vovó! — Velvet desceu do sofá e, ignorando qualquer etiqueta ou medo que os vampiros normais tinham de Carmilla, correu e abraçou as pernas da Rainha.

Carmilla, pega de surpresa, hesitou por um segundo antes de pousar a mão pálida na cabeça da menina. Havia calor ali?

— Olá, pequena — Carmilla disse, um sorriso raro e suave suavizando seu rosto severo.

Mais tarde, enquanto Lucius preparava chá (sangue para Carmilla, chá para Rover), Velvet sentou-se no colo de Carmilla. A vampira antiga contava histórias sobre os tempos antes da névoa.

Velvet ouvia atentamente, seus dedos traçando os anéis nas mãos de Carmilla.

— Vovó, você tem filhos? — Velvet perguntou de repente, interrompendo uma história sobre uma guerra esquecida.

O sorriso de Carmilla vacilou.

— Não, minha querida. Lucius é o mais próximo de um filho que eu tenho.

Velvet franziu a testa, parecendo genuinamente triste por ela.

— Isso é triste. O papai me fez num vidro. Ele juntou pedaços e puf, eu nasci.

Ela se inclinou para perto, sussurrando como se compartilhasse um segredo.

— Eu quero ter os meus um dia. Muitos deles.

— Você quer ser mãe quando crescer? — Carmilla perguntou, achando a ambição adorável.

— ... — Velvet ficou em silêncio.

Carmilla sentiu um arrepio que não experimentava há séculos. Não era uma ameaça explícita. O que a perturbou foi a natureza do comentário, ou, mais precisamente, o que foi omitido. Ela havia decidido não prolongar a conversa, mas como uma criança poderia possuir tamanho discernimento para julgar o que deveria ou não ser dito?

— Velvet... — Carmilla começou, mas a menina já havia mudado.

O sorriso doce voltou. Velvet pulou do colo dela e correu para pegar um desenho.

— Olha, vovó! Eu desenhei você! — ela mostrou um papel.

O desenho era Carmilla, mas com dentes enormes e cercada por flores vermelhas que pareciam olhos.

— É... lindo, querida — Carmilla mentiu, o coração morto batendo um compasso de alerta. Ela olhou para Lucius, que sorria orgulhoso da cozinha.

"Ele não vê", pensou Carmilla. "Ele está tão desesperado para ser feliz que não vê o que está crescendo no jardim dele."

Velvet voltou a brincar, cantarolando uma melodia suave. Ela não percebia o efeito que causava. Para ela, o desejo de "criar", de "possuir" e de "quebrar para consertar" era tão natural quanto respirar. E ninguém, nem mesmo a Rainha Demônio, parecia disposto a impedi-la enquanto ela sorrisse daquele jeito.

Parte 8

A mudança para a casa de Kamui foi marcada por uma chuva torrencial, típica de Luvania, mas dentro da residência, o clima era de uma primavera artificialmente forçada.

Kamui ainda estava acamada, recuperando-se da ingestão de verbena e da inanição crônica. Seu quarto cheirava a lavanda. Ela parecia um espectro: magra, os ossos do rosto proeminentes, os olhos fundos e sem brilho. A culpa pela tentativa de suicídio e pelo ataque à humana ainda pairava sobre ela como uma mortalha.

Lucius entrou no quarto com passos firmes, segurando um frasco de vidro contendo um líquido escarlate, denso e rico. Atrás dele, Rover trazia Velvet pela mão. A menina usava um vestido branco impecável e segurava um ursinho de pelúcia que parecia ter sido costurado e descosturado várias vezes.

— Kamui — chamou Lucius, a voz trêmula de esperança. — Acabou. Nós conseguimos.

Kamui virou o rosto lentamente. Seus olhos caíram sobre o frasco.

— Lucius... não... — ela sussurrou, a voz fraca. — Eu não vou beber sangue humano. Eu prefiro morrer.

— Não é humano — Lucius mentiu. A facilidade com que as palavras saíram de sua boca assustou Rover, que permaneceu parado à porta. — É o resultado da pesquisa. O composto definitivo. Sintético. Sem vítimas, sem dor.

Ele se sentou na beira da cama e abriu o frasco. O cheiro invadiu o quarto. Não cheirava a produtos químicos. Cheirava a vida. Cheirava a uma vitalidade tão potente que a boca de Kamui salivou involuntariamente, suas presas doendo ao descerem.

— Beba, meu amor — insistiu Lucius, levando o frasco aos lábios dela. — Por favor. Volte para mim.

Kamui hesitou, mas a fome era uma besta impaciente. Ela bebeu.

No momento em que o líquido tocou sua língua, a transformação foi visível. A cor voltou às suas bochechas cinzentas. As veias negras que pulsavam dolorosamente em seu pescoço suavizaram. A dor constante, aquele ruído branco de agonia que a acompanhava há anos, silenciou. Era doce. Era perfeito. Era melhor do que qualquer sangue humano que ela já tivesse provado em seus dias de trevas.

Ela terminou o frasco e suspirou, lágrimas de alívio escorrendo pelo rosto.

— É um milagre... — ela chorou. — Vocês fizeram um milagre.

Foi então que ela notou a menina.

Velvet havia se soltado de Rover e se aproximado da cama silenciosamente. Ela observava Kamui com aqueles olhos grandes, amarelos, que não piscavam o suficiente. Ela olhava para os lábios manchados de vermelho de Kamui com uma curiosidade intensa.

— Quem... quem é ela? — perguntou Kamui, limpando a boca rapidamente, envergonhada por ter sido vista se alimentando.

— Esta é Velvet — Lucius sorriu, puxando a menina para perto. — Carmilla a encontrou abandonada nas fronteiras. Ela não tem ninguém, Kamui. E nós... nós temos muito espaço agora.

A mentira final. Lucius estava entregando a Kamui não apenas a cura, mas o sonho da maternidade.

Kamui estendeu a mão trêmula. Velvet não recuou. Ela se aproximou e encostou a bochecha na mão da mulher, fechando os olhos.

— Você está quentinha agora — disse Velvet, sua voz suave. — O remédio do papai consertou você.

Kamui soluçou e puxou a menina para um abraço desajeitado.

— Olá, Velvet. Eu sou a Kamui. Obrigada... obrigada por estar aqui.

Velvet abraçou de volta, afundando o rosto no pescoço de Kamui. Rover, observando da porta, viu o momento exato em que Velvet inalou profundamente, sentindo o cheiro do próprio sangue emanando dos poros de Kamui.

A menina abriu os olhos sobre o ombro da "mãe". Ela olhou para o frasco vazio na mesa de cabeceira e depois para Rover. Um sorrisinho cúmplice, quase imperceptível, curvou seus lábios. Ela sabia. De alguma forma instintiva, ela sabia que aquilo que Kamui bebeu tinha saído dela.

E ela não estava com medo. Ela parecia... orgulhosa.

Nas semanas seguintes, a rotina se estabeleceu.

Rover assumiu a tarefa sombria de "coletar" o sangue. Ele levava Velvet para o laboratório (agora reduzido a uma sala trancada no porão da nova casa) sob o pretexto de exames de rotina.

— Vai doer só uma picadinha, Velvet — dizia Rover, preparando a agulha grossa necessária para a extração do volume diário. Ele odiava fazer aquilo. Sentia-se um carniceiro.

Velvet, sentada na maca alta, balançava as pernas. Ela estendia o braço voluntariamente, sem medo.

— Está tudo bem, tio Rov — dizia ela, observando o sangue vermelho-vivo encher a bolsa de coleta. — É para a mamãe ficar feliz.

— Sim... é para a mamãe — Rover murmurava, evitando os olhos dela.

— Eu gosto quando ela bebe — Velvet comentou casualmente um dia, enquanto Rover aplicava um curativo sobre as inúmeras marcas de agulha no braço dela. — Quando ela bebe, ela sorri. E quando ela sorri, ela me penteia e me chama de anjo.

Ela olhou para a bolsa de sangue cheia e tocou o plástico morno.

— É como se eu estivesse entrando nela, né? — Velvet inclinou a cabeça, com aquela lógica infantil distorcida. — Um pedacinho de mim vai morar dentro da mamãe todo dia. Então eu sou a dona dela um pouquinho, não sou?

Rover derrubou o rolo de esparadrapo. O barulho foi alto no silêncio do porão.

— Não diga isso, Velvet — ele disse, ríspido pelo nervosismo. — Você está ajudando. É caridade. Não é... posse.

Velvet deu de ombros, voltando a sorrir com aquela doçura fabricada.

— Tá bom, tio. Caridade.

Ela desceu da maca e correu para a porta.

— Vou lá em cima! A mamãe prometeu me ensinar a plantar lírios hoje!

Rover ficou sozinho no porão, segurando a bolsa de sangue quente. Ele tentava se convencer de que Velvet não entendia o peso do que dizia. Que era apenas uma criança tentando racionalizar o processo médico. Mas a frase "eu sou a dona dela um pouquinho" ecoava...

Lá em cima, no jardim, a cena era idílica. O sol estava encoberto pelas nuvens, permitindo que Kamui ficasse fora. Ela e Velvet estavam ajoelhadas na terra.

— Veja, Velvet — Kamui explicava, cobrindo um bulbo com terra preta. — Precisamos ser delicadas. Se apertarmos demais, a planta sufoca. Se dermos água demais, ela se afoga. Amar é saber a medida certa.

Velvet olhava para a terra. Suas mãos pequenas estavam sujas de lama.

— Medida certa... — ela repetiu, franzindo a testa. Aquilo não fazia sentido para ela. Amor deveria ser tudo. Inundar. Sufocar até que a outra pessoa não pudesse ver nada além de você.

Mas ela sorriu para Kamui, o sorriso que ela sabia que Kamui queria ver.

— Entendi, mamãe. Vou cuidar para não afogar.

Kamui beijou a testa da menina, sentindo-se a mulher mais afortunada do mundo. Ela tinha seu marido, seu amigo, e agora uma filha perfeita. Ela não sabia que a terra onde plantava seus lírios estava sendo regada com mentiras, e que a menina que ela abraçava estava, lentamente, aprendendo a mimetizar o amor apenas para consumi-lo.

À noite, Velvet deitava em sua cama, ouvindo as risadas de Lucius e Kamui no quarto ao lado. Ela tocava o curativo em seu braço, sentindo a dorzinha pulsante onde a agulha entrara.

Ela sorria no escuro.

Eles estavam felizes por causa dela. A felicidade deles dependia do sangue dela. Portanto, eles eram dela.

E Velvet adormecia com a certeza reconfortante de que, contanto que ela sangrasse, ela seria o centro do universo daquelas pessoas.

Parte 9

Três anos se passaram como um suspiro de alívio.

Para o mundo exterior, Luvania continuava sendo um purgatório de névoa e medo. Mas dentro dos muros da propriedade Vrykolaka, o tempo parecia ter parado em um verão eterno. Kamui estava saudável, radiante, nutrida diariamente pelo "remédio" que Rover trazia do laboratório. Lucius havia recuperado o peso e o brilho nos olhos.

E Velvet... Velvet cresceu.

Fisicamente, ela aparentava agora ter sete ou oito anos. Sua beleza era inquietante: cabelos prateados longos, pele de porcelana e aqueles olhos que pareciam enxergar através das paredes. Ela era a criança perfeita. Educada, silenciosa, sempre disposta a agradar. Mas Rover, que passava mais tempo com ela do que qualquer um, notava as peculiaridades.

Naquela tarde fatídica de outono, o ar estava particularmente frio.

— Vamos, Velvet — chamou Rover, vestindo seu casaco grosso. — Vamos buscar ervas na orla da floresta para o chá da sua mãe.

Lucius ficou na varanda, acenando enquanto eles partiam. Ele abraçava Kamui pela cintura. A imagem da felicidade. Foi a última vez que Rover viu seu melhor amigo sorrir de verdade.

A caminhada até a orla da floresta foi tranquila. Velvet cantarolava uma melodia sem ritmo, chutando pedras.

— Tio Rover? — ela perguntou, parando para observar um corvo morto na estrada. — Por que o papai não conserta todo mundo?

Rover parou, ajustando os óculos.

— Como assim, querida?

— O papai consertou a mamãe com o meu sangue. — Ela falava disso abertamente quando estavam sozinhos. — Se o meu sangue conserta, por que tem gente gritando na cidade à noite? Por que os vampiros ainda têm fome? O papai está sendo egoísta?

A pergunta pegou Rover desprevenido. A lógica dela era implacável.

— Não é tão simples, Velvet. O mundo é complicado. Não podemos salvar a todos, apenas quem amamos.

Velvet franziu a testa, processando a informação.

— Então, se a gente ama, a gente salva. Se não ama, deixa quebrar. Entendi.

Antes que Rover pudesse corrigir aquela interpretação terrível, o vento mudou.

O cheiro atingiu Rover primeiro: podridão e fúria.

Surgindo da névoa densa, três silhuetas esqueléticas bloquearam o caminho. Eram "Caídos" — vampiros que haviam sucumbido totalmente à fome, perdendo a racionalidade e tornando-se bestas.

Eles não olharam para Rover. Seus olhos injetados focaram imediatamente na menina. O cheiro do sangue que corria nas veias de Velvet era como um farol no escuro, um perfume irresistível.

— Doce... — sibilou um dos monstros, a boca espumando. — Tão doce...

— Velvet, corra! — Rover gritou, empurrando a menina para trás de si. — Corra para casa! Agora!

Mas Velvet não correu. Ela parou, a cabeça inclinada, observando as criaturas com fascínio. Eles eram feios, quebrados, desesperados. E eles a queriam.

— Eles estão com fome, tio Rover? — ela perguntou, sem medo na voz.

— CORRA!

O primeiro vampiro atacou.

Rover não era um guerreiro. Ele era um cientista, um homem de livros e microscópios. Mas ele amava Lucius como um irmão, e amava aquela família estranha que haviam construído.

Ele se jogou na frente da besta.

O som foi nauseante. Garras rasgando tecido e carne. Rover gritou, um som agudo e terrível que cortou a névoa. Ele caiu no chão, o vampiro sobre ele, dentes rasgando seu ombro e pescoço.

— TIO! — Velvet gritou. Não foi um grito de pânico, mas de surpresa. O padrão havia sido quebrado. O tio Rover não deveria cair.

Os outros dois vampiros avançaram, mas hesitaram diante do sangue fresco de Rover derramado no chão. A distração momentânea foi o suficiente.

Um baque surdo ecoou.

Lucius aterrissou no meio da estrada como um raio vingador. Ele ouvira o grito. Ele correu mais rápido do que a humanidade permitia, impulsionado pelo pavor puro.

Com uma pistola de balas de prata em uma mão e um bisturi de prata na outra, Lucius não lutou; ele executou. Foi uma dança de violência e precisão médica. Tiros na cabeça, cortes nas artérias. Em segundos, os três vampiros eram cinzas e pó no chão úmido.

O silêncio voltou, quebrado apenas pela respiração irregular de Rover.

Lucius largou as armas e caiu de joelhos ao lado do amigo. O pescoço de Rover estava destruído. O sangue, vermelho escuro e humano, empapava a terra.

— Rover... não, não, não... — Lucius pressionou as mãos sobre o ferimento, tentando estancar o fluxo, mas o sangue escapava por entre seus dedos. — Fique comigo! Eu vou costurar isso. Eu posso consertar!

Rover olhou para o céu cinzento. Seus óculos estavam quebrados a um metro de distância. Ele tentou falar, mas apenas sangue borbulhou em seus lábios. Sua mão, trêmula, buscou a manga do casaco de Lucius.

Ele olhou para Velvet, que estava parada a poucos passos, o vestido branco respingado de sangue. Ela não estava chorando. Ela olhava para o corpo dele com uma expressão de... estudo. Como se observasse a boneca que desmembrara anos atrás.

Rover quis avisar Lucius. Quis dizer "Cuidado". Mas a vida se esvaiu antes. A mão de Rover caiu inerte. Seus olhos ficaram vidrados, fixos no nada.

— Rover? — Lucius chamou, a voz quebrando. Ele sacudiu o amigo. — ROVER!

O grito de Lucius foi gutural, um uivo de dor que fez os pássaros da floresta levantarem voo. Ele abraçou o corpo do amigo, sujando-se com o sangue do homem que estivera ao seu lado em cada passo daquela jornada maldita.

Velvet se aproximou devagar. Seus sapatos de verniz pisaram na poça de sangue sem hesitação. Ela tocou o ombro de Lucius.

— Papai? — a voz dela era suave. — O tio Rover quebrou?

Lucius levantou o rosto, banhado em lágrimas e fúria. Ele olhou para os vampiros mortos, depois para Rover, e por fim para a filha.

— Sim, Velvet... — ele sussurrou, a mente fraturando sob o peso da culpa. — Ele quebrou. Porque eu fui fraco. Porque eu escondi a cura aqui dentro em vez de salvar o mundo.

A culpa o atingiu como uma marreta. Se ele tivesse compartilhado o sangue... se ele tivesse saciado aqueles vampiros antes... eles não teriam atacado. A morte de Rover era culpa dele.

Velvet olhou para o corpo de Rover. Ela sentiu uma pontada estranha no peito. Era tristeza pela perda, mas do tipo que dava para ser racionalizada. Rover era gentil. Ele trazia doces. Agora ele era apenas carne parada.

— Então conserta ele, papai — disse Velvet, friamente pragmática. — Você sempre conserta tudo.

Lucius a encarou, os olhos arregalados. Ele havia se esquecido de que aquilo à sua frente não era um ser humano. Ela estava lhe pedindo para quebrar o mais sagrado dos tabus como se fosse algo trivial. Mas isso acontecia porque ele já o tinha feito antes: ele criou o que estava ali, fingindo ser sua filha.

Ele não era capaz de consertar Rover. A morte era o limite intransponível, mesmo para sua vontade. No entanto, ele podia assegurar que mais ninguém morresse, lembrando-se do seu verdadeiro propósito.

Ele se levantou, deixando o corpo do amigo no chão. A expressão de dor desapareceu, substituída por aquela mesma determinação gélida do dia em que Kamui se queimou. Mas agora era pior. Agora não havia Rover para ser sua consciência.

— Vamos para casa, Velvet — disse Lucius, a voz morta. — Acabou o tempo de brincar.

Ela pegou a mão ensanguentada de Lucius.

— Sim, papai.

Enquanto caminhavam de volta, deixando o cadáver para trás para ser recolhido depois, Lucius Vrykolaka não olhou para Kamui que esperava na varanda. Ele olhou para o laboratório subterrâneo.

A paz tinha acabado. A obsessão havia retornado, e desta vez, ela exigiria muito mais do que apenas algumas gotas de sangue.

Parte 10

A casa mergulhou em um silêncio sepulcral após a morte de Rover.

Não houve cerimônia, nem pedras marcadas. Nos fundos da propriedade, sob um céu cinzento e indiferente, Lucius entregou o corpo do único amigo ao fogo. Uma pira improvisada crepitou contra a chuva, a fumaça subindo pesada, misturando o cheiro de carne queimada com o odor úmido da terra.

Kamui desmoronou. Trancada no quarto, entorpecida por uma dose cavalar de sedativos, ela chorava um luto viscoso e interminável.

Mas Velvet não chorou.

Ela esperou na sala de estar, as mãos pequenas cruzadas no colo sobre o vestido impecável, os olhos fixos na porta do porão. Sua mente calculava a nova variável. Rover era a logística. Rover fazia a coleta. Rover foi subtraído da equação. Logo, o Papai assumiria a função.

Quando Lucius finalmente entrou na sala, ele não trouxe consigo o calor habitual. Ele não olhou para ela; ele olhou através dela, como se ela fosse feita do mesmo vidro que o tanque lá embaixo.

— Venha, Velvet.

A voz dele não carregava mais a melodia carinhosa de antes. Era seca, áspera como lixa em madeira bruta, despida de qualquer afeto.

Velvet saltou do sofá, alisando as dobras da roupa com precisão mecânica.

— Vamos fazer a coleta, papai? — perguntou ela, a voz tilintando no silêncio opressor. Ela o seguiu obediente em direção à porta pesada. — Eu posso segurar a bolsa sozinha hoje. Eu já sou grande.

Lucius não respondeu. O silêncio dele era uma porta fechada. Ele girou a maçaneta e desceram a escada em espiral, mergulhando na terra.

O laboratório havia mudado. Lucius passara a noite anterior ali embaixo, expurgando qualquer traço de humanidade do ambiente. As luzes quentes e amareladas, que imitavam o sol, haviam sido assassinadas, substituídas por lâmpadas halógenas de um branco clínico, impiedoso e cegante. Os desenhos infantis de Velvet haviam sido arrancados das paredes, deixando marcas de fita adesiva como cicatrizes. Os brinquedos haviam desaparecido.

No centro da sala, o Tanque Principal — o útero de vidro onde ela fora forjada — zumbia novamente. Mas ao lado dele, erguia-se agora uma nova estrutura: uma cela de vidro reforçado. Um cubo estéril contendo apenas uma cama branca, um vaso sanitário e uma mesa de metal aparafusada ao chão.

Não parecia um quarto. Parecia um terrário. Um zoológico para uma única besta.

— Sente-se ali. — Lucius apontou para o interior da cela.

Velvet estacou. Seus olhos varreram o ambiente, pousando na cadeira de coleta habitual e depois voltando para a caixa transparente.

— Mas a cadeira é ali, papai — disse ela, um sorriso incerto tremulando nos lábios. — Aquele quarto de vidro é feio. É frio. Não tem cor.

— Entre. Agora.

O tom de voz dele foi um estalo de chicote no ar gélido. Velvet recuou fisicamente, o coração falhando uma batida. Ela nunca, jamais, ouvira aquela tonalidade vinda dele. O Papai era sorrisos. O Papai era o cavalo de brincadeira. O Papai era o homem que sussurrava que ela era um milagre.

Com o lábio inferior tremendo, Velvet caminhou lentamente. Seus passos ecoaram solitários no concreto até que ela cruzou o limiar da caixa de vidro.

No instante em que ela entrou, Lucius acionou um painel. Com um zumbido hermético, a parede invisível de energia e vidro blindado se selou. O som do laboratório ficou abafado, distante. O cheiro de antisséptico ficou preso lá dentro com ela, sufocante.

— Papai? — Velvet pressionou as palmas das mãos contra o vidro frio. — Quando eu posso sair? Eu prometi para a mamãe que veríamos os lírios hoje.

Lucius estava do outro lado, de costas, preparando agulhas. Muitas agulhas. Uma fileira prateada cintilando sob a luz branca. Ele não se virou.

— Você não vai ver os lírios, Velvet. Não por muito tempo.

— Por quê? — A voz dela falhou, um guincho agudo de desespero infantil. Um nó genuíno, doloroso e real, formou-se em sua garganta. — Eu fiz algo errado? Foi porque eu não corri dos monstros? Eu prometo que corro na próxima vez! Eu prometo ser rápida!

Lucius parou. Ele se virou lentamente e caminhou até o vidro. Seus olhos estavam injetados, vermelhos de exaustão e de loucura silenciosa. Ele encostou a testa no vidro, encarando-a face a face, separados por polegadas de blindagem transparente.

— O mundo é um lugar cruel, Velvet. Rover morreu porque eu fui fraco. Porque eu brinquei de casinha enquanto pessoas reais morriam lá fora. — A respiração dele embaçou o vidro. — Você é a cura. Você é o recurso. Eu não posso me dar ao luxo de amar você como uma filha. Eu preciso amar a humanidade. E para salvar a humanidade... eu preciso usar você.

Velvet não entendeu a filosofia utilitária. Ela não compreendeu o conceito de "bem maior". O que o cérebro dela traduziu foi simples e devastador: Eu não amo mais você.

— Mas... eu sou sua filha... — ela sussurrou, as lágrimas quentes escorrendo, traçando caminhos ardentes em suas bochechas pálidas.

— Você é o Projeto Velvet — Lucius corrigiu, sua voz desprovida de emoção, cortando o último laço. — E temos muito trabalho a fazer. Vamos começar a coleta. Preciso de material genético para as réplicas.

Ele se afastou e apagou as luzes principais, mergulhando a sala na penumbra, deixando Velvet iluminada apenas pelo brilho espectral dos monitores de suporte vital.

Velvet escorregou pela parede de vidro até o chão. Ela abraçou os joelhos, encolhendo-se até se tornar pequena.

O medo veio primeiro. Um terror atávico, escuro e primitivo de estar enjaulada. De não ter saída. Mas logo depois, veio a desolação. Uma tristeza negra, densa e pegajosa como piche, inundou seu peito.

Ela olhou para as próprias mãos trementes. Eram as mesmas mãos que Lucius beijava quando ela se arranhava nos espinhos do jardim. Ela olhou para o próprio reflexo distorcido no vidro. Era o mesmo rosto que ele jurava ser a coisa mais linda do mundo.

Então por que ele me jogou no lixo?

A mente de Velvet, brilhante, quebrada e perigosamente adaptável, começou a processar o trauma com uma lógica distorcida e cruel.

Ele parou de sorrir. Rover quebrou, e o Papai parou de me amar. O amor não é eterno. O amor é uma bateria. Eu gastei a minha. Eu fui usada, a carga acabou, e agora sou lixo.

Ela soluçou, um som feio, engasgado e solitário. A dor no peito era insuportável. Era pior do que a fome de sangue, pior do que qualquer ferida física. Era a dor absoluta do descarte.

Uma memória surgiu: ela mesma, arrancando os braços de suas bonecas de porcelana e jogando-as no canto escuro do quarto quando ficava entediada com elas.

Ah... — pensou ela, horrorizada com a epifania. — Eu sou a boneca agora.

Naquela cela fria, enquanto Lucius manipulava tubos de ensaio e lâminas do lado de fora, a parte "filha" de Velvet morreu silenciosamente. O que restou ali dentro foi uma criatura aterrorizada que aprendeu, da maneira mais brutal possível, a lição mais perigosa de todas:

O amor é condicional. O amor é frágil. E se você não for útil, se você não for perfeita, você é trancada no escuro.

Velvet limpou as lágrimas com as costas da mão. O choro cessou abruptamente, substituído por um vazio gélido e calculista. Ela ergueu os olhos, fixando-os nas costas de Lucius.

Se o amor acaba quando a gente não serve mais... — ela pensou, e na penumbra da cela, seus olhos rosa-sangue brilharam com uma intensidade radioativa. — Então eu tenho que fazer ele precisar de mim. Para sempre.

Eu nunca mais vou deixar ninguém me jogar fora.

E assim, encolhida no chão frio daquele laboratório, nasceu a verdadeira obsessão de Velvet Dolly. Não o desejo inocente de ser amada, mas a necessidade patológica, sombria e eterna de ser indispensável.

Parte 11

A descida de Lucius à loucura não foi um grito, foi uma equação matemática.

Para saciar a fome de um único vampiro, Velvet bastava. Mas para saciar um reino? Para impedir que outro Rover morresse? Ele precisava de escala. Ele precisava de uma indústria.

Nas semanas que se seguiram, o laboratório subterrâneo foi expandido. As paredes foram quebradas, revelando cavernas naturais que foram rapidamente convertidas em alas de incubação. Lucius trabalhava como um homem possuído, seus olhos fundos brilhando com a luz febril da insônia e da anfetamina.

Velvet assistia a tudo de sua cela de vidro.

Ela viu quando os grandes cilindros de metal chegaram. Viu quando Lucius misturou o sangue dela — extraído dolorosamente todos os dias. E, com um horror silencioso e crescente, ela viu o que crescia dentro daqueles doze novos tanques.

Eram ela.

Doze reflexos de si mesma. Doze meninas de cabelos prateados e pele pálida, flutuando no líquido amniótico, crescendo em ritmo acelerado.

Lucius parou diante do Tanque 01, tocando o vidro com uma reverência que ele costumava reservar apenas para Velvet.

— Perfeitas... — ele sussurrou, anotando dados em uma prancheta. — A estabilidade genética é de 99%. A capacidade de regeneração sanguínea é superior à da Matriz Original.

Matriz Original.

Velvet, sentada em sua cama dura, sentiu o gosto amargo da bile. Ela não era mais "Velvet", a filha. Ela era a "Matriz". E aquelas coisas nos tanques... aquelas cópias baratas... eram o novo foco da adoração dele.

— Elas não são reais — Velvet disse em voz alta. Sua voz, rouca pelo desuso, bateu contra o vidro da cela.

Lucius não se virou. Ele continuou ajustando a temperatura do Tanque 03.

— Elas são vazias, papai! — Velvet gritou, batendo a palma da mão no vidro reforçado. — Elas não sabem assobiar! Elas não sabem que você gosta de café sem açúcar! Elas são só carne!

Lucius finalmente parou. Ele girou e caminhou até a cela dela. Sua expressão era de um cansaço irritado.

— Elas são a salvação — disse ele, friamente. — Elas não precisam saber assobiar. Elas só precisam sangrar. E, ao contrário de você, elas não foram contaminadas pelo apego. Elas serão puras.

Ele virou as costas e voltou para suas "filhas" silenciosas.

Velvet escorregou pela parede até o chão. O ciúme era uma criatura viva dentro dela, devorando suas entranhas. Ela olhou para as doze cópias flutuantes. Ela as odiava. Odiava cada célula delas. Se pudesse, ela quebraria aqueles vidros e rasgaria aquelas gargantas com os dentes.

Eu sou a única, ela pensou, abraçando a si mesma, cravando as unhas nos braços. Eu sou a Velvet.

O mundo lá fora, no entanto, não se importava com os sentimentos dela. O mundo precisava desesperadamente do que Lucius Vrykolaka estava cozinhando.

Carmilla desceu ao laboratório um mês depois. A Rainha Demônio caminhou entre os doze tanques, seu rosto uma máscara impenetrável. Ela viu as crianças flutuando. Viu Velvet encolhida na cela, olhando para ela com olhos suplicantes e furiosos. E viu seu filho, Lucius, transformado em um espectro de jaleco sujo de sangue.

— Isso é necessário... — Lucius se adiantou, segurando um frasco do novo produto. O líquido era vermelho vivo, viscoso e potente. — Eu o chamo de B2. É o sangue artificial definitivo. Com essas doze unidades e a Matriz, podemos produzir milhares de litros por mês. O suficiente para Luvania. O suficiente para parar a guerra.

Carmilla pegou o frasco. Ela sentiu a energia emanando dele. Era vida. Vida roubada, vida fabricada, vida profana. Mas era vida.

Ela olhou para Velvet na cela. A menina correu para o vidro, apoiando as mãos, gritando sem som: Vovó! Me tira daqui! Vovó!

Carmilla fechou os olhos por um breve momento. A dor em seu peito era profunda. Se ela libertasse a menina, Lucius desmoronaria. A guerra continuaria. Milhares morreriam, incluindo, provavelmente, seu próprio filho, consumido pela culpa da morte de Rover.

O peso da coroa era feito de escolhas impossíveis.

— Está feito — Carmilla disse, abrindo os olhos. O vermelho de suas íris estava frio. — Eu imporei o tratado.

Naquela semana, a Rainha Demônio convocou os Lordes Vampiros. Sob a ameaça de aniquilação total pelo seu poder esmagador, e com a promessa do fim da Fome Eterna, o Tratado de Paz foi assinado.

O sangue B2 foi apresentado ao mundo. A narrativa oficial era um triunfo da ciência: Lucius Vrykolaka sintetizou a vida. Ninguém perguntou sobre os ingredientes. Ninguém perguntou por que o médico herói nunca mais foi visto à luz do dia.

Os vampiros beberam. A loucura da fome cessou. As ruas de Luvania foram limpas dos corpos. A paz reinou.

Mas no subsolo, o inferno estava em plena operação.

As doze réplicas — nomeadas de "Um" a "Doze" — "nasceram". Elas foram retiradas dos tanques, vestidas com camisolas brancas idênticas e colocadas em celas adjacentes à de Velvet.

Elas eram silenciosas. Seus olhos, da mesma cor amarela, eram vagos. Elas não tinham a faísca de inteligência de Velvet. Eram gado.

Velvet as observava através das paredes de vidro que separavam as celas.

Um dia, a "Número Três" olhou para Velvet, sorriu um sorriso bobo e vazio, e acenou.

Velvet não acenou de volta. Ela se aproximou do vidro, seus olhos estreitados com um desprezo venenoso.

— Não sorria para mim — Velvet sussurrou, sabendo que o som não passava, mas a intenção sim. — Você é lixo. Você é peça de reposição. Quando o papai cansar de você, ele vai te jogar fora.

A Número Três, sem entender, continuou sorrindo e balbuciando.

Velvet sentiu uma onda de satisfação sombria. Sim, pensou ela. Sejam estúpidas. Sejam vazias. Quanto mais vazias vocês forem, mais ele vai perceber que a única coisa real aqui sou eu.

Lá em cima, Kamui vivia em um paraíso de ignorância. Ela acreditava que Velvet estava em um internato de elite para crianças superdotadas, protegida por Carmilla, longe dos perigos que mataram Rover. Ela bebia seu B2 todas as manhãs, agradecendo a Lucius por salvar o mundo, sem saber que o "mundo" estava trancado no porão, sendo drenado gota a gota, alimentando seu ódio tanto quanto alimentava os vampiros.

Lucius Vrykolaka havia se tornado o Salvador. E Velvet Dolly havia se tornado a Prisioneira Zero, a Rainha de um reino de bonecas quebradas, esperando o dia em que poderia provar que o amor é, na verdade, apenas uma questão de quem detém o controle da dor.

Parte 12

O isolamento era absoluto.

Lucius, consumido pela paranoia de que o afeto poderia atrapalhar a "produção", decretou o silêncio. As celas de vidro eram sarcófagos herméticos, blindados contra o som e contra a misericórdia. Velvet não sentia o toque de outro ser vivo há meses, exceto pela borracha fria das luvas de látex de Lucius durante as coletas invasivas.

Ela estava definhando.

Encolhida no canto mais escuro de sua caixa transparente, Velvet parecia um espectro de uma criança. Sua pele, outrora luminosa como porcelana, tornara-se cinzenta e translúcida, revelando a rede de veias azuladas por baixo. Ela mal tocava na pasta nutricional insípida que os assistentes empurravam pela escotilha mecânica. A comida não tinha gosto. O mundo não tinha gosto.

Exceto... pela fome nova.

Não era um apetite gástrico. Era uma coceira na base do crânio, uma vibração elétrica, que o estresse e a inanição estavam despertando. Às vezes, quando um assistente de laboratório passava perto do vidro, Velvet não via um rosto humano. Ela via a carótida. Ela via o pulso rítmico sob a pele fina. Uma vontade incontrolável subia pela sua garganta — não de beber, como um vampiro, mas de morder.

Ela desviava o olhar, trêmula, focando nas suas cópias nas celas vizinhas. As "irmãs" flutuavam em seu vazio mental, rechonchudas, rosadas e saudáveis, preservadas como espécimes perfeitos.

Velvet fixou os olhos no braço macio da Número Quatro. Ela parece... doce, pensou, a língua passando involuntariamente sobre os lábios secos e rachados, a boca salivando com a imaginação da carne crua.

Para fugir dessa voracidade reptiliana e do silêncio ensurdecedor, a mente de Velvet estilhaçou-se e se recompôs em um labirinto de espelhos.

Ela se arrastou até a parede de vidro que a separava da Número Quatro. Ergueu a mão esquelética, tocando a superfície gélida. No reflexo, sua imagem fantasmagórica se sobrepôs à da irmã. Em seu delírio febril, a barreira física dissolveu-se.

Velvet começou a mover a mão no ar, uma pantomima delicada, como se passasse uma escova imaginária nos cabelos prateados da outra garota através do vidro.

— Shhh... fique quieta, Quatro — Velvet sussurrou para o vidro, a voz rouca, os olhos febris focados em um ponto que não existia. — Você está muito bagunçada. O Papai odeia bagunça.

Ela continuou a escovar o ar, coreografando o carinho que ela mesma não recebia.

— Se você estiver feia, ele não te olha. E se ele não te olhar, você não existe.

Ela encostou a testa no vidro frio, sua respiração fraca embaçando a superfície com uma mancha branca efêmera.

— É por isso que eu deixo ele ter vocês — explicou ela para sua plateia silenciosa, com uma lógica de mártir distorcida. — O meu amor é grande demais para um corpo só. Ele transborda. Então eu me divido. Se formos muitas... se formos um exército de amor... talvez ele fique feliz. Talvez ele sorria de novo.

Era uma estratégia de sobrevivência patológica. Ela aceitava ser substituída, contanto que a substituição fosse uma extensão do seu próprio amor, servindo ao propósito supremo de agradar o "receptor" de seu amor.

Na mente distorcida pela fome e pelo isolamento, a loucura fazia sentido. Elas não o amavam como ela — ninguém amava —, mas ela as fazia perfeitas para parecerem amá-lo. E tudo bem se ele as amasse de volta, porque, no fundo, elas eram apenas oferendas do amor dela para ele.

No andar de cima, porém, o destino marchava com passos pesados.

Kamui despertou de um sono químico e agitado. O efeito do composto B2 estava metabolizando mais rápido ultimamente, e sua intuição gritava como um alarme de incêndio. Lucius estava desaparecido no laboratório há três dias seguidos.

Ela sabia, sempre soube que havia algo errado, mas em todas as oportunidades escolheu ignorar a verdade. O amor que sentia por ele era grande demais. No entanto, a dúvida finalmente a dominou, e a ausência dele, que antes a acalmava, a impulsionou a abrir os olhos, pelo menos desta vez.

Ela desceu as escadas, guiada por um pressentimento nefasto. A porta de metal do porão, que sempre permanecia trancada com três voltas de segurança, estava apenas encostada. A exaustão extrema de Lucius o tornara negligente.

Ao empurrar a porta pesada, o cheiro a atingiu como um soco físico. Não era apenas o odor estéril de produtos químicos. Era o cheiro de cativeiro. De medo fermentado.

Kamui desceu a rampa, o coração martelando na garganta, cada batida dolorosa. Quando chegou ao salão principal e seus olhos se ajustaram à luz branca e impiedosa, o grito morreu em sua boca antes de nascer.

Ela viu os tanques. Viu as doze meninas idênticas. E viu Velvet.

A menina estava de joelhos, falando sozinha com o reflexo, esquálida, suja, com olheiras roxas tão profundas que faziam seus olhos amarelos parecerem dois buracos de bala na caveira.

— Velvet... — Kamui sussurrou, o horror paralisando seus pulmões.

O som da voz dela quebrou o transe hipnótico de Velvet. A menina virou a cabeça lentamente, com movimentos segmentados, como um inseto. Ao focar em Kamui, um sorriso fraco, quebrado e doloroso distorceu seu rosto.

— Mamãe? — A voz dela era um chiado de estática. — Você veio ver? Nós somos muitas agora. O Papai fez um jardim inteiro de mim... você não vai morrer.

Kamui sentiu as pernas falharem. A crueldade daquela lógica era inimaginável.

— LUCIUS! — O grito de Kamui rasgou o ar estéril do laboratório, vibrando nas paredes de vidro. — ONDE VOCÊ ESTÁ?

Lucius surgiu de trás de uma bancada de monitores como um espectro. Ele parecia um cadáver ambulante, a pele cerosa, os olhos injetados de sangue, segurando frascos de reagentes com mãos trêmulas. Ao ver Kamui ali, a expressão dele se contorceu em uma mistura grotesca de pânico e irritação.

— Você não deveria estar aqui, Kamui! Saia! Agora! É perigoso, o ambiente é controlado!

— Controlado?! — Kamui avançou sobre ele, tremendo de uma fúria e nojo que queimavam como ácido. — Isso é um campo de concentração! Você trancou nossa filha! Você criou... coisas... para servirem de comida!

— Elas não são filhas! — Lucius rugiu, a máscara de sanidade finalmente caindo e estilhaçando-se no chão. — São remédios! Olhe para você! Você está viva! Está corada! Graças a elas! Graças ao meu sacrifício!

— Eu prefiro estar morta! — Kamui gritou, os olhos cheios de lágrimas, correndo em direção ao painel de controle das celas. — Eu vou libertá-las. Eu vou acabar com isso agora!

— NÃO!

Lucius correu para interceptá-la. O medo era absoluto. Se ela abrisse as celas, o projeto ruiria. A fome voltaria. O mundo queimaria.

— Você não entende o quadro geral! — Ele tentou segurá-la pelos braços.

— Me solta, seu monstro! — Kamui se debateu violentamente, as unhas rasgando o rosto dele.

No calor do momento, cego pela exaustão e pelo medo primitivo de perder sua obra-prima, Lucius reagiu instintivamente. Ele usou sua força — uma força ampliada por anos de contato direto com o éter líquido — e a empurrou para longe do painel.

Foi apenas um empurrão para afastar. Mas foi forte demais. Desajeitado demais.

Kamui voou para trás. Seus pés perderam o contato com o chão. O tempo pareceu desacelerar enquanto o vidro da passarela sob ela cedia.

Ela despencou através do chão transparente, caindo diretamente no andar inferior. O som foi nauseante: o crânio dela se chocando contra o solo de concreto, seguido pelo estilhaçar de cabos de energia e prateleiras. Inúmeros tubos de ensaio e recipientes choveram sobre a vampira caída, inundando a sala não apenas com o vermelho do sangue, mas com uma mistura tóxica de substâncias experimentais.

Não houve os espasmos de um ser vivo lutando, nem o silvo característico da regeneração vampírica; apenas um desligamento súbito. Foi uma morte completamente inesperada, crua, desprovida de qualquer dramaticidade romântica ou beleza sobrenatural.

O laboratório mergulhou em um silêncio absoluto. Apenas o zumbido indiferente das máquinas persistia, ignorando a tragédia.

Lucius ficou parado no alto, a mão ainda estendida no ar, a respiração presa na garganta.

— Kamui...?

O choque se dissipou, dando lugar ao pânico. Ele correu, descendo as escadas metálicas aos tropeços, ignorando as poças de químicos que queimavam suas botas, e caiu de joelhos com um baque surdo ao lado dela. Ele sacudiu os ombros da esposa freneticamente. A cabeça dela pendeu para o lado, solta. Os olhos estavam abertos, vidrados, fixos em uma eternidade vazia.

— Não... não, amor, levanta... por quê? Por que você não levanta? — A voz de Lucius falhava, oscilando entre o sussurro e o grito. — Ela é uma vampira... ela vai se rege...

De repente, a realidade fria começou a perfurar sua negação. Ele viu que as feridas não se fechavam. A pele não se emendava. Os motivos atropelavam sua mente, mas nada parecia fazer sentido. Ela estava se alimentando, estava forte... Teria sido a mistura corrosiva dos produtos químicos que a encharcava? Ou algo pior?

Ele olhou para cima, seus olhos atravessando o buraco no teto de vidro e focando na escuridão acima, onde a presença de suas experiências pairava.

Então, ele começou a rir. Um som quebrado, histérico, puramente insano.

— Fui... eu? Ha ha ha... Não me fode! — Ele gritou, a blasfêmia ecoando nas paredes de metal, enquanto sua mente ardia em ódio. — Esse é o preço por desafiar um Astreus? Isso foi o que recebi por mexer com os Scarlunes? Me diga, Vida! Se você existe, me diga onde eu errei!

Enquanto o sangue escorria lentamente pelo canto da boca de Kamui, misturando-se à sujeira do chão, a "Vida" parecia ter cobrado seu preço final.

Lá de cima, segura em sua cela, Velvet assistiu a tudo.

Ela viu Lucius, trêmulo, carregar o corpo inerte de Kamui nos braços. Ela não gritou. Ela não sentiu vontade de chorar. Ela apenas pressionou o rosto contra o vidro, seus olhos grandes e alienígenas observando o homem que ela tentou agradar desesperadamente, agora soluçando, sujo de sangue e loucura, abraçado ao corpo da mulher que ele jurou proteger.

A mente de Velvet, afiada pela fome, pela traição e pela loucura, processou a cena com uma frieza aterrorizante. Ela se lembrou da lição no jardim, meses atrás. Cuidar com gentileza. Não apertar demais os caules.

O Papai apertou demais.

— Você quebrou ela... — Velvet sussurrou, a voz destituída de qualquer emoção humana. — Você é desajeitado, Papai.

Naquele momento exato, o pedestal onde ela colocava Lucius ruiu e virou pó. Ele não era um Deus. Ele era um fracasso. Um homem fraco que matou a sua pessoa amada.

Velvet sentiu algo morrer dentro de si.

— Você não merece o amor — ela disse para o vidro, olhando para as costas trêmulas de Lucius com desprezo absoluto.

Ela se afastou do vidro lentamente e se deitou na cama dura, virando as costas para a cena da morte de sua mãe. Seus olhos amarelos fitaram a parede cinza da cela.

Alguém que mereça meu amor.

Lucius não era mais esse alguém. Ele agora era apenas o carcereiro.

Parte 13

O enterro de Kamui não teve flores, nem orações.

Houve apenas fogo. E a eficiência brutal da máquina.

Lucius entregou o corpo de sua amada aos fornos de incineração biológica do laboratório. O crematório industrial rugiu, um som grave e faminto. Ele assistiu através do vidro temperado, com olhos secos e mortos, enquanto as chamas laranjas lambiam a pele pálida e consumiam a única razão pela qual ele havia descido àquele inferno. A fumaça subiu, negra e espessa, levando consigo a alma da mulher que ele falhou em proteger.

Quando o ciclo terminou e as cinzas esfriaram, ele não subiu para a casa vazia para o luto. Ele foi para a mesa de autópsia.

Antes do fogo, em um último ato de profanação científica, ele havia drenado amostras do sangue de Kamui. Ele precisava saber. A dúvida era um ácido corroendo o pouco que restava de sua sanidade: Por que ela não se curou?

Ele colocou a lâmina sob a lente do microscópio eletrônico. O zumbido do aparelho era o único som no mundo.

O que ele viu fez seu estômago revirar.

As células vampíricas de Kamui, organismos que deveriam ser agressivos, imortais e dominantes, estavam inertes. Estagnadas. O composto B2, extraído das Velvets, não estava apenas alimentando-a; ele havia substituído o sistema imunológico dela. O sangue que ele criou não era um remédio; era um parasita. Ele havia saciado a fome, sim, mas ao custo de desligar a capacidade regenerativa natural, tornando uma vampira tão frágil e quebrável quanto um humano doente.

Lucius recuou da mesa como se tivesse sido queimado. Com um movimento violento, ele varreu o microscópio da bancada. O aparelho estilhaçou-se no chão.

— Lixo... — ele sussurrou, a voz trêmula, carregada de auto-ódio. — Tudo o que eu fiz... é lixo.

Ele levantou os olhos para o salão. Olhou para as celas iluminadas. Para as doze meninas idênticas flutuando em sua ignorância beatífica. E para Velvet Dolly, deitada de costas no chão frio, cantarolando uma melodia sem nexo para a parede.

O sangue delas era veneno disfarçado de ambrosia. Se ele continuasse a distribuir aquilo, os vampiros não seriam salvos; eles se tornariam dependentes, viciados e frágeis, escravos biológicos de uma cura defeituosa. Ele não havia criado a salvação. Havia criado a extinção lenta.

A raiva tomou conta dele. Não uma raiva quente e passional, mas uma fúria gélida, clínica e absoluta. O cientista assassinou o pai dentro de si.

Ele caminhou até o painel de controle central, seus passos ecoando como sentenças de morte.

Protocolo de Descarte — ele digitou. Seus dedos, ainda manchados com a fuligem invisível da cremação de sua esposa, dançaram sobre o teclado.

Um alarme silencioso piscou em vermelho carmesim acima das celas das clones. O gás começou a ser injetado pelos dutos de ventilação. Não era doloroso. Não havia cheiro. Era apenas um convite químico ao esquecimento, seguido de uma parada cardiorrespiratória induzida.

Velvet Dolly, sensível a cada mudança de pressão no ar, ouviu o silvo sutil nas celas vizinhas. Ela se levantou e pressionou o rosto contra o vidro.

Ela viu a Número Um cair no sono, deslizando pela parede. Viu a Número Quatro — a "irmã" cujos cabelos ela penteava em sua imaginação — oscilar e desabar suavemente no chão, como uma boneca cujas cordas foram cortadas por uma tesoura invisível.

Uma por uma, em uma coreografia macabra de dominós caindo, as "irmãs" morreram.

Velvet não sentiu pena. A empatia era um luxo que ela não possuía mais. Mas ela sentiu medo. Um medo gelado e racional. Ela olhou para o duto de ventilação de sua própria cela, esperando o silvo. Esperando o fim.

Mas o gás não veio para ela.

A voz de Lucius ecoou pelos alto-falantes, distorcida, metálica e onipresente, como a voz de um deus cansado.

Matriz Preservada.

A porta da cela de Velvet se destravou com um clique mecânico pesado.

Lucius estava parado do lado de fora, na penumbra do corredor. Ele não parecia mais um homem. Parecia uma estátua de cera derretida, esculpida em dor, apatia e cinzas. Em sua mão, brilhava uma seringa de sedativo de alta dosagem.

— Por que...? — Velvet perguntou, parada no limiar de sua prisão, os olhos percorrendo os doze cadáveres infantis ao redor. — Por que elas quebraram e eu não?

— Porque você é a Fonte — Lucius respondeu. Ele não olhou nos olhos dela; olhou para a veia em seu pescoço. — E porque eu ainda não terminei. O B2 falhou porque a consciência de vocês interfere na pureza do composto. O ódio, o medo, a loucura... tudo isso altera a química. Tudo isso envenena o sangue.

Ele avançou em direção a ela, inexorável.

— Vamos começar de novo, Velvet. Sem consciência. Sem mente. Sem sonhos. Apenas carne e produção.

Velvet não lutou. O choque e a inevitabilidade a paralisaram. Ela sentiu a agulha fria perfurar seu pescoço, o líquido queimando ao entrar. Enquanto sua visão escurecia e seus joelhos cediam, ela teve um último pensamento lúcido, um grito silencioso na escuridão de sua mente:

Socorro...

Mas Lucius cometeu um erro fatal. Ele subestimou a resistência da Matriz Original. O sedativo a derrubou, sim, mas não apagou o que ela era. A escuridão que Velvet cultivara no isolamento, alimentada pela rejeição e pela loucura, era profunda demais para ser limpa quimicamente. Ela não dormiu; ela aguardou.

Lucius arrastou o corpo inconsciente de Velvet para um novo tanque, isolado nos fundos, reforçado com aço e feitiçaria tecnológica. Ele olhou para o laboratório, agora um cemitério de falhas e corpos pequenos.

— Um ano — ele murmurou para o vazio e para os fantasmas. — Em um ano, eu terei a Série Perfeita. Sem nomes. Sem rostos. Sem falhas.

Ele apagou as luzes principais. Apenas a luz de emergência vermelha permaneceu, banhando o tanque onde Velvet Dolly flutuava suspensa, sonhando sonhos febris de vingança e amor eterno.

A Era da Inocência havia morrido na pira com Kamui. A Era da Indústria, fria e sangrenta, estava prestes a começar.

Parte 14

Um Ano Depois.

Não houve a utopia asséptica e brilhante que Lucius prometeu aos céus. Não houve a linha de produção silenciosa e eficiente. Havia apenas o inferno.

O laboratório subterrâneo, outrora um templo de vidro imaculado e luz branca, degenerara em uma caverna de fumaça, sombras e ruína industrial. Sirenes de emergência, danificadas pelo tempo e pela violência constante, soluçavam um lamento arrastado e distorcido, um pulso sonoro que ecoava pelos corredores de metal retorcido como o batimento cardíaco de um gigante moribundo.

Woooop... zzzzt... Woooop...

No meio desse caos, pés descalços e feridos corriam sobre tapetes de cacos de vidro e poças de fluidos químicos viscosos.

Velvet Dolly corria.

Sua camisola, antes branca como a inocência, agora era um trapo encardido de fuligem, graxa e sangue seco. Seus cabelos prateados, cortados de qualquer jeito e desgrenhados, chicoteavam o ar atrás dela como uma bandeira de rendição rasgada.

Ela saltou sobre os destroços fumegantes de um tanque de incubação estilhaçado. Lá dentro, o cadáver de uma quimera disforme — uma tentativa grotesca de Lucius de mimetizar a vida sem a forma humana — apodrecia, a carne fundida aos cabos elétricos, exalando o cheiro adocicado da decomposição acelerada.

O lugar estava infestado. O sonho de Lucius havia se tornado um pesadelo fértil.

Nas sombras onde as luzes de emergência vermelhas não ousavam alcançar, coisas se moviam. Eram os "filhos" rejeitados desse último ano de loucura. Experimentos forjados sem ética, sem sono e sem sanidade. Massas de carne trêmula com dentes demais, clones com membros extras e inúteis, bestas cegas guiadas apenas pelo olfato apurado para o medo.

Velvet fez uma curva fechada no corredor, os pés derrapando no lodo do chão. Sua respiração ríspida era o único som humano naquele abismo.

Grrr-krak.

A grade de ventilação à sua direita explodiu para fora, metal rasgando metal.

Uma criatura feita de músculos expostos, nervos vibrantes e mandíbulas alongadas, vagamente humanoide, projetou-se para o corredor, bloqueando a passagem. Ela não possuía olhos, apenas fendas nasais que se dilataram obscenamente ao capturar o aroma do sangue puro de Velvet.

A garota estacou. Ela não gritou. O medo já havia queimado há muito tempo. Encurralada contra uma porta de metal emperrada, seus dedos pequenos se fecharam em torno de um fragmento de chapa afiada que apanhara do chão. Sua mão tremia — não de pavor, mas de uma antecipação fria, calculista e fatalista. Ela era pequena. A besta era uma montanha de instinto assassino.

A criatura rugiu, um som úmido e gutural, tensionando as pernas traseiras poderosas. O concreto estalou sob suas garras quando ela disparou no ar, uma massa de morte certa pronta para devorá-la.

Velvet firmou os pés.

Então, o mundo engasgou.

A realidade pareceu tropeçar. Por uma fração de segundo, o rugido da besta distorceu-se, tornando-se grave e infinitamente lento, como uma fita cassete sendo mastigada. O ar no corredor ficou denso, pesado, saturado com o cheiro metálico de ozônio e a pressão da estática pura.

Crrrak.

Não foi um som de corte. Foi o som violento de metal sendo arrancado da própria estrutura do prédio.

Faíscas vermelhas e azuis dançaram no ar, crepitando ao lado da besta suspensa em seu salto desacelerado pelo tempo. No centro daquela tempestade estática, um borrão se materializou.

Dante não estava correndo; ele estava deslizando pela realidade.

Com um movimento fluido, quase líquido, ele girou o corpo, agarrando um cano de ferro exposto na parede destruída. A eletricidade azul correu de seus dedos para o metal como um veneno vivo, superaquecendo o ferro instantaneamente até ele brilhar. Com um puxão seco e brutal, ele arrancou o cano das abraçadeiras de aço como se fosse um graveto podre.

O tempo estalou de volta à velocidade normal com um estrondo sônico.

Dante usou o impulso cinético do próprio tempo para girar sobre o calcanhar, transformando o cano eletrificado em um chicote rígido de destruição. O impacto foi devastador. O ferro, zumbindo com éter concentrado, conectou-se com o pescoço da besta no meio do ar.

A força foi tão absurda que a cabeça da criatura não foi apenas cortada; foi obliterada do tronco pela pressão e pela velocidade.

O corpo maciço da besta, agora sem direção e sem vida, passou voando por Velvet, um projétil de carne morta, e colidiu com a parede à esquerda com um baque úmido e pesado, deslizando até o chão em uma poça de fluidos escuros.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. A fumaça do éter se dissipava lentamente, deixando rastros de luz azulada flutuando no ar como poeira cósmica.

Velvet baixou o pedaço de metal, o coração martelando violentamente contra as costelas, ameaçando quebrar o esterno. Seus olhos amarelos se arregalaram.

Parado onde a besta deveria ter aterrissado, estava um garoto.

Ele girou o cano de ferro fumegante na mão uma última vez antes de soltá-lo com um tilintar metálico e definitivo no chão. Ele não parecia pertencer àquele matadouro. Vestia roupas escuras e práticas de caçador, mas o tecido sobrava nos ombros e as mangas estavam dobradas — grandes demais para sua estrutura, como se ele estivesse vestindo a pele de um homem morto.

Ele sacudiu o pé, limpando o sangue negro que manchava sua bota, com a indiferença casual de quem pisa em uma poça de lama. Ele não devia ter mais que oito ou nove anos, a mesma idade aparente de Velvet, mas a eletricidade residual que ainda percorria seus dedos contava uma história muito diferente.

O garoto levantou o rosto.

Cabelos negros como azeviche caíam sobre a testa suada, cortados agressivamente por mechas de um vermelho violento, como feridas abertas na escuridão. Mas foram os olhos que prenderam a alma de Velvet.

O olho esquerdo era de um azul gélido, profundo e impiedoso como o oceano onde as esperanças se afogam. O olho direito era vermelho carmesim, ardente como o inferno que queimava ao redor deles.

Ele não disse nada. Ele apenas olhou para Velvet. Seu olhar não tinha a fome dos monstros, nem a loucura de Lucius, nem a pena de Carmilla. Era um olhar de normalidade.

O coração de Velvet, que estava frio e dormente desde a morte de Kamui, deu um salto violento, quase doloroso, no peito.

Ele não quebra, pensou ela, hipnotizada pela solidez daquele estranho.

Ali, no meio dos destroços fumegantes do sonho de seu pai, iluminados pela luz agonizante de um laboratório morto, os olhares de Velvet Dolly e Dante Scarlune se cruzaram pela primeira vez. E o mundo mudou de eixo.


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