The Fall of the Stars IF: Capítulo 4 - Muitas outras cores
- AngelDark

- 13 de jul.
- 36 min de leitura
Volume 1 : Gelo e Raio (Gakuen)
Parte 1
As semanas haviam sido devoradas pelo calendário escolar de Nova Astris desde o encerramento caótico do Torneio Mundial.
A poeira midiática finalmente havia baixado, e o coliseu deu lugar à rotina cívica da academia. Com a reestruturação da hierarquia, Dante havia sido formalmente nomeado vice-presidente do Conselho Estudantil — um título bonito que, na prática burocrática, não mudava absolutamente nada em sua vida: ele continuava sendo o escravo de luxo responsável por metade das planilhas de finanças do colégio.
Naquela tarde de outono, o sol cortava os vidros da janela da sala administrativa, pintando o assoalho de mogno em tons de ouro. O aroma do café recém-coado por Dante subia em espirais suaves, misturando-se ao som do raspão das canetas-tinteiro no papel.
Sentada em sua cadeira presidencial, Kiara tentava manter o foco nas colunas de orçamento, mas o seu sistema operacional estava falhando. A postura inabalável da Princesa de Gelo mostrava rachaduras de inquietação. A cada dois minutos, os olhos dourados dela se levantavam da prancheta, esquadrinhando o rosto de Dante na ponta da mesa, tentando se certificar de que ele não estava percebendo a sua distração.
Depois da quarta encarada furtiva, Kiara limpou a garganta, quebrando o silêncio burocrático com um tom de casualidade forçada:
— É verdade... parece que o Luck começou a namorar sério, não é?
A caneta de Dante parou no meio de uma assinatura. O garoto piscou, processando a mudança brusca de frequência no ambiente, e demorou alguns segundos para responder:
— Ah... hum. É, verdade. Pra ser bem sincero, eu e o Chuya ficamos de queixo caído. O Luck sempre vivia orbitando por aí, saindo com dezenas de garotas diferentes pelo ego. Ele até teve uns dois relacionamentos mais duradouros no ano passado, mas nunca chegou a assumir o compromisso e dizer com todas as letras pra gente que tava namorando.
Kiara assentiu devagar, os dedos girando a caneta.
— A garota é da minha turma. O nome dela é Mavis.
— Ah, tá. Então foi da sala de aula que você puxou o assunto. Faz sentido, esqueci que você também é da Classe 1-A. — Dante voltou a rabiscar os números, perdendo a nuance da conversa.
— Hoje cedo, antes de o sinal bater... — Kiara continuou, a voz descendo meia oitava —, a Mavis passou o tempo inteiro rodeada pelas outras garotas da sala. Ela estava contando sobre o encontro que teve com o Luck no fim de semana. Pelo visto, eles foram a um parque e se divertiram muito. Ela não parava de sorrir enquanto descrevia a dinâmica dos dois.
Dante sorriu de canto, escorando o queixo na mão.
— Hum, então deve ter sido o encontro do domingo passado que ele comentou que ia ter. Pior que a matemática bate: o desgraçado sumiu do mapa no domingo e só mandou mensagem pra nós na segunda à noite. Deve ter se divertido pra valer mesmo.
Kiara revirou os olhos dourados, soltando um suspiro curto pela laringe.
— E por que o silêncio dele na segunda-feira seria uma evidência disso?
Dante engasgou, sentindo o próprio rosto esquentar ao lembrar das conversas no grupo dos garotos. Ele coçou a nuca, sem graça:
— Ah, relaxa... isso aí é código interno masculino.
Kiara o esquadrinhou com um olhar desconfiado, mas assentiu:
— Entendo.
O silêncio do escritório reinou novamente por mais quinze minutos. Mas a inquietação da Rainha do Xadrez se recusava a recuar. Ela ajustou a folha na mesa e disparou outra granada indireta:
— E sabe de outra coisa? Eu fiquei sabendo nos corredores que a Miguel e o Chuya também andam tendo vários encontros consecutivos recentemente.
Dante não levantou o rosto da planilha, respondendo com a voz arrastada:
— É, sim. Ultimamente o preguiçoso tem sumido até nos fins de semana, o que é um milagre. Mas, conhecendo a peça, aposto as minhas botas que todos esses encontros foram arquitetados e exigidos pela Miguel. O Chuya não tem iniciativa ou energia nem pra chamá-la pra ir à padaria da esquina.
— Hum... — Kiara murmurou, num som baixo, transbordando frustração contida.
— Pois é... — Dante murmurou de volta, alheio ao perigo, preenchendo o último campo de gastos do Clube de Arquearia.
O tempo voltou a derreter na sala do conselho. Kiara parou de escrever de vez. A caneta dela foi pousada sobre o mogno. Tap. A garota começou a dar pequenas batidas com a ponta dos dedos no tampo da mesa. Tap. Tap. Tap. Uma cadência rítmica, impaciente e irritada. Dante, imerso em calcular a verba do festival, continuou de cabeça baixa, operando na mais pura e suicida displicência.
O termostato da paciência de Kiara explodiu.
— AHHHHHH! — A garota soltou um gemido exasperado de frustração, empurrando a cadeira para trás com um solavanco estalado.
Ela se levantou da mesa presidencial e marchou em linha reta até a ponta da mesa onde Dante estava. A sombra dela cobriu a planilha. Dante congelou no mesmo milissegundo. O instinto de sobrevivência apitou no vermelho. O garoto largou a caneta no ar e ergueu as duas mãos abertas acima da cabeça, em um sinal universal de rendição imediata:
— Tá bom! Tá bom! Foi mal, eu me rendo! Culpa minha!
Kiara parou diante dele, cruzando os braços, fuzilando-o com os olhos dourados.
— Você nem sabe pelo que está pedindo desculpas, seu idiota!
Dante abriu um sorriso nervoso e deu uma risadinha culpada enquanto avaliava a postura dela:
— Éééé... será que, por acaso... você tá querendo me chamar pra sair num encontro, Kiara?
O rosto pálido da Princesa de Gelo pegou fogo instantaneamente. O carmesim explodiu em suas bochechas, descendo até o pescoço numa velocidade recorde. A aura de autoridade imponente evaporou num piscar de olhos. Completamente sem graça por ter sido decifrada, Kiara cedeu os joelhos, abaixou-se e apoiou o queixo diretamente sobre o tampo da mesa, bem pertinho dos papéis dele, fazendo um biquinho emburrado e desviando o olhar para a janela.
O coração de Dante errou uma batida. A visão da invencível e temida Rainha do Colégio encolhida daquele jeito, com as bochechas vermelhas e fazendo bico, era um absurdo de tão fofa. Ele soltou o oxigênio preso num suspiro aliviado, sorriu com ternura e esticou a mão, afagando o topo da cabeça dela com os dedos, bagunçando levemente os fios claros.
— Se você já sabia desde o começo... por que ficou aí em silêncio me cozinhando só pra ver como eu ia reagir?! — ela resmungou contra a madeira da mesa, a voz abafada. — Isso é pura maldade, sabia?
— Pior que não foi por maldade, Kiara — Dante continuou o carinho, a voz perdendo o tom de piada e soando incrivelmente sincera. — Eu até tava sentindo a pressão na sala, mas fiquei numa dúvida real. Eu não sabia se você gostava desse tipo de coisa de casais ou se considerava encontro uma perda de tempo. Além do mais... tecnicamente, a gente já saiu junto várias vezes fora do colégio.
Kiara ergueu o rosto da mesa, os olhos dourados cravando-se nos dele com uma intensidade cortante:
— É diferente.
Dante parou a mão. Ele tombou a cabeça para o lado, prestando atenção absoluta nela. Kiara engoliu em seco, o vermelho em seu rosto se intensificando ainda mais enquanto ela forçava as palavras a saírem:
— Eu... eu nunca saí num encontro com o meu namorado antes, Dante. Eu não tenho como prever se a experiência é boa ou não se nós não testarmos antes.
A palavra namorado bateu no córtex de Dante com a força de um soco cruzado. O rosto do garoto ferveu, rivalizando com o rubor dela. Ele recolheu a mão, fazendo um bico nervoso também, desviando os olhos bicolores para o teto do escritório:
— Hum... bom... se for por esse lado técnico... eu também nunca tive um encontro oficial como namorado, então...
Antes que ele pudesse terminar a frase, Kiara se ergueu da mesa com um salto ágil, inclinou o tronco para a frente e... BONK! Uma cabeçada seca e certeira acertou o meio da testa de Dante.
— AI! AI, AI! QUE ISSO?! PRA QUE AGRESSÃO AGORA?! — Dante choramingou, esfregando a testa latejante enquanto se ejetava da cadeira, recuando estrategicamente para o sofá de couro ao lado da janela.
Kiara o acompanhou, marchando até o sofá com os punhos cerrados na linha da cintura:
— Seu mentiroso! Eu sei muito bem que você já saiu em encontros com a Nero, com a Ludmilla e com várias outras garotas por aí!
— Tá, mas isso é diferente... E, como você mesma acabou de falar, é completamente diferente quando é com a sua namorada! — Dante se defendeu, massageando o galo na testa.
O argumento foi irrefutável. Kiara parou, virando o rosto violentamente para o lado para esconder o sorriso besta que teimava em rasgar os seus lábios ao ouvi-lo usar a palavra namorada. Dante sorriu, vitorioso na retórica. Ele bateu com a mão no assento de couro ao seu lado, fazendo um sinal para que ela se aproximasse. Kiara não hesitou. Ela caminhou até o sofá, sentou-se bem ao lado dele e, perdendo o resto da marra, escorou o ombro e as costas confortavelmente contra o garoto, deixando o corpo relaxar no calor dele.
Dante perguntou em um murmúrio suave:
— E então? Tem algum lugar específico aonde você quer ir?
— Eu não sei... — ela respondeu baixinho, olhando para a poeira dançando no raio de sol pela janela. — Eu só quero descobrir como funciona um encontro de verdade. Então, você tem permissão para decidir o trajeto. A única condição inegociável é que nós dois possamos nos divertir.
Dante coçou o queixo, o olho vermelho piscando com um brilho canalha e suicida:
— Hum... "nós dois possamos nos divertir", é? Isso vai ser uma logística complicada. Que tal a gente ir pra um novo Torneio Regional de Xadrez?
O instinto assassino de Kiara ativou no nível dez:
— Ah, é?!
Ela girou o corpo no sofá, prendeu Dante contra o encosto de couro e mergulhou as duas mãos diretamente nas costelas dele, iniciando um ataque impiedoso e letal de cócegas.
— HAHAHAHAHA! NÃO! PARA, KIARA! — Dante se debatia no sofá, chorando de rir, tentando segurar os pulsos dela sem sucesso. — FOI MAL! PERDÃO! EU ME RENDO! DESCULPA, EU PROMETO QUE PENSO EM ALGUMA COISA DECENTE! PARA COM ISSO, SUA DELINQUENTE!
Kiara cessou o ataque, ofegante e sorrindo de orelha a orelha, parando com as mãos apoiadas no peito dele enquanto o garoto tentava recuperar o oxigênio perdido. Ela se ergueu devagar do sofá, ajeitando a saia do uniforme, e olhou para ele de cima:
— Ótimo. Então... quando nós vamos?
Dante se sentou no sofá, respirando fundo e calculando o calendário letivo de Nova Astris na cabeça:
— Pra gente ter o dia inteiro perfeitamente livre... que tal no próximo sábado? Sexta-feira agora é feriado, então a gente usa a sexta pra agilizar a papelada de tarefas do conselho que ainda estiver pendente, e fica com o sábado e a consciência cem por cento limpos pra curtir. O que acha?
Kiara sorriu.
— Proposta aprovada. Sábado, então. — Ela virou as costas e começou a caminhar com passos leves de volta para a sua cadeira presidencial, o aro dourado de seus olhos brilhando em pura antecipação para o fim de semana.
Escondido atrás do encosto do sofá, Dante observou-a se afastar. O sorriso confiante do garoto despencou instantaneamente, dando lugar a uma expressão de puro pânico tático e desespero logístico. Ele esmagou o próprio rosto com as duas mãos e soltou um suspiro exausto, longo e pesado, murmurando para si mesmo no silêncio de sua mente: Meus deuses... eu não acredito que vou ser obrigado a pedir conselhos de encontro justo para aqueles dois idiotas...
Parte 2
Os dias escorreram pelo relógio da semana como uma contagem regressiva para um território inexplorado.
Quando a sexta-feira de feriado nacional terminou e a madrugada de sábado finalmente despontou, a invencível Princesa de Gelo provou que era humana. No silêncio do seu quarto, Kiara passou a noite inteira acordada. O chão estava coberto por cabides e peças de roupa variadas. O cérebro que calculava milhares de rotas em um tabuleiro de xadrez em segundos agora estava em curto-circuito, fritando para resolver uma equação impossível: o que diabos se veste para um primeiro encontro?
Enquanto isso, nos bastidores da retaguarda masculina, o apocalipse logístico havia se instaurado. Dante havia cometido o erro de pedir conselhos para Chuya e Luck. O resultado foi uma sessão de tortura psicológica via chamada de vídeo:
— É óbvio o que você tem que fazer, seu imbecil! — Luck gargalhava na tela do celular, comendo um saco de salgadinhos. — Leva ela pra uma academia de musculação e desafia a estátua pro supino reto! Nada mostra mais dominância e romantismo do que hipertrofia muscular!
— Que supino o quê... — Chuya bocejou, largado no sofá de casa. — Leva ela pra um fliperama de periferia, desafia ela num jogo de luta de combo infinito e espanca o boneco dela até ela chorar. Mulher adora um cara que não alivia na competição.
— Digam pra mim que as garotas escolhem os encontros de vocês sem precisarem me falar nada! — Dante quase arremessou o celular na parede.
Exausto, em pânico e a um milímetro de cometer um homicídio contra os amigos, ele foi obrigado a engolir o restante do seu orgulho e discar o número de Nero no meio da madrugada. Do outro lado da linha, Nero soltou um suspiro cósmico de desprezo pela incompetência masculina e depois perguntou por que ela deveria explicar isso. Dante apenas se ajoelhou frente ao celular e falou que ela era a única esperança que ele tinha. Depois de insistir bastante, mesmo ainda incomodada, Nero acabou cedendo:
— Não precisa pensar demais. É pra vocês dois se divertirem, não é? Então leva ela pra um lugar calmo, verde, onde ela possa simplesmente respirar em paz. Você mesmo diz que às vezes só quer fugir do meio da cidade, então… Só não age como um idiota.
E assim foi feito.
Quando o sol de sábado subiu no horizonte, o cenário parecia ter sido pintado à mão para abençoar o trajeto. Dante escolheu uma área rústica e charmosa na periferia histórica de Nova Astris — um distrito afastado do centro urbano, cortado por ruas de pedra, árvores antigas de outono e casarões coloniais. O clima era um milagre da física: um sol dourado e radiante que aquecia a pele, perfeitamente equilibrado por uma brisa fresca e aconchegante que balançava as folhas. O canto dos pássaros substituía o barulho dos carros, e as pessoas caminhavam pelas calçadas com passos lentos e sorrisos tranquilos.
Quando Kiara surgiu no ponto de encontro, Dante perdeu a capacidade de raciocinar por quatro segundos. Sem o uniforme pesado do colégio, ela vestia um casaco leve de outono sobre um vestido simples, os cabelos soltos caindo pelos ombros. O aro dourado em seus olhos brilhava sob a luz solar com uma beleza limpa e desconcertante.
A caminhada começou tímida, mas a verdadeira natureza de Kiara não demorou a se manifestar. Mesmo estando no meio de seu tão planejado encontro, a garota simplesmente era incapaz de ignorar o ecossistema ao seu redor. Se uma senhora idosa tentava subir a ladeira com sacolas pesadas, Kiara já estava lá, segurando as alças com um sorriso educado. Se um garotinho deixava uma bola rolar para longe, ela interceptava e devolvia com um cafuné. As pessoas do bairro, encantadas com a educação impecável da garota e a guarda atenta de Dante ao lado dela, não pouparam palavras:
— Nossa, mas que casalzinho mais lindo e gentil da nova geração!
— Tão bonitinhos! Vocês formam um par perfeito!
A cada elogio que recebiam dos moradores, as bochechas de Kiara ganhavam um tom avermelhado, e ela apertava o passo para disfarçar a vergonha. Já Dante... o garoto estufava o peito, caminhando com a pose de quem havia acabado de conquistar o planeta, sorrindo de orelha a orelha.
Acostumado com o olhar das pessoas, embora dessa vez fosse ainda melhor, já que não estavam rindo dele.
Seguindo o fluxo da rua de pedras, eles desembocaram no coração do bairro: uma vibrante feira rural ao ar livre. O lugar era um banquete sensorial. Barracas rústicas de madeira se estendiam pela praça, transbordando cores e aromas. Havia frutas frescas, geleias artesanais, pastéis fritos na hora, castanhas tostadas e doces coloridos que reluziam sob a luz da manhã.
Foi aí que a Princesa de Gelo quebrou de vez. Para uma garota que viveu anestesiada pela rotina estéril da burocracia, aquela feira era um parque de diversões indescritível. Os olhos dourados de Kiara arregalaram-se de pura fascinação. A compostura aristocrática foi jogada pela janela. Ela se transformou num raio, saltitando de barraca em barraca com uma curiosidade quase infantil:
— Dante, olha aquilo! O que é isso aqui?! E essa cor, é natural?!
Ela queria provar tudo o que achava bonito. A caminhada para Dante virou um caos de alta velocidade. O garoto mal tinha tempo de enfiar a mão no bolso, puxar a carteira e pagar ao dono de uma barraca de morangos cristalizados; quando ele olhava para o lado, Kiara já havia disparado para a barraca seguinte e estava apontando para um doce de abóbora artesanal com os olhos brilhando.
— Calma aí também, eu ainda não aprendi a me teletransportar, Kiara! — Dante corria atrás dela, equilibrando sacolas de papel nas mãos.
Mas não havia uma única gota de reclamação real em seu peito. Enquanto corria para pagar os feirantes, Dante olhava para ela e sentia o próprio peito transbordar. Vê-la assim — com as bochechas sujas de açúcar, rindo livremente, experimentando sabores e mostrando um sorriso que ele ainda não conhecia — era a visão mais espetacular que ele já havia testemunhado. Ele estava conhecendo uma nova face, caótica e luminosa, da garota que ele tanto perseguiu.
De repente, uma onda de choque olfativa atravessou a praça. Um aroma denso, quente, amanteigado e absurdamente doce cortou a brisa da manhã. Os dois pararam no mesmo milissegundo, como se tivessem sido atingidos por um feitiço de rastreamento. Eles viraram os pescoços na exata mesma direção. No centro da feira, um feirante acabava de tirar do forno a lenha uma fornada de pães caseiros rústicos, gigantescos e recheados até a borda, exalando uma fumaça que fazia a boca encher de água instantaneamente.
Sem trocarem uma única sílaba, a sincronia foi absoluta. Os dois marcharam até o balcão. Ergueram os braços e apontaram o dedo indicador exatamente para o mesmo pão dourado de recheio triplo na vitrine. Eles pararam, olharam para os dedos apontados para o mesmo lugar, depois olharam um para o rosto do outro... e caíram numa gargalhada gostosa, cúmplice e perfeitamente sintonizada.
Minutos depois, eles encontraram o refúgio perfeito: o topo de uma colina gramada e silenciosa na borda da praça, abrigada sob a sombra generosa de uma árvore cujas folhas de outono dançavam ao vento. Sentados lado a lado no gramado frio, eles partiram o pão quente com as mãos, comendo e deixando o tempo fluir sem pressa.
Kiara mastigou um pedaço do pão doce, limpou o canto da boca e lançou um olhar oblíquo e astuto para Dante:
— Sabe de uma coisa... — ela começou, a voz carregando um tom maroto de provocação. — A verdade é que, quando você pegou aquele microfone na cabine e deu aquele berro ensurdecedor na TV... você não estava realmente dizendo que estava apaixonado por mim, não é? Você só tava falando da minha habilidade no xadrez.
Dante se engasgou com o pão. Antes que ele pudesse elaborar uma defesa, Kiara inclinou o tronco, esticou a mão e beliscou a bochecha dele, puxando a pele com um sorriso divertido e desafiador.
— Ai! Ai, ai! Desculpa! Foi mal, eu me rendo! — Dante choramingou com a fala embolada pela bochecha puxada. — Eu admito, eu não tava usando a palavra naquele sentido romântico na hora do surto…
Kiara soltou a bochecha dele, rindo de forma triunfante. Dante esfregou o rosto, massageando o local do beliscão, mas logo assumiu uma expressão de desespero cômico:
— Mas pensa pelo meu lado... o que caralhos você queria que eu fizesse depois que o torneio acabou?! Você tem noção de como foi o interrogatório?!
Kiara tombou a cabeça para o lado, curiosa.
— Quando a gente saiu do vestiário, a sua mãe apareceu lá no corredor! — Dante arregalou os olhos, revivendo o terror. — A Dona Isobel veio até mim com aquele sorriso doce e amável no rosto, mas emanando uma aura assassina e esmagadora que rivalizava com a da Lúcifer! Ela me encostou na parede, me olhou fundo na alma e disparou: "Ora, é claro que um jovem tão educado, bonito e corajoso jamais cometeria a loucura de fazer toda aquela cena e constranger a minha filha em rede mundial... se não fosse uma declaração formal de amor e intenção de namoro por ela, não é mesmo, rapaz?"
Dante imitou a voz maternal e aterrorizante de Isobel com perfeição, tremendo os ombros.
— A sua mãe tava pronta pra me enterrar no asfalto se eu dissesse "não"! O que mais eu poderia responder pra salvar a minha vida senão: "S-Sim, senhora! Era amor puro e verdadeiro!"?!
Kiara jogou a cabeça para trás e explodiu em risadas, o som cristalino cortando a sombra da árvore:
— Hahahaha! Essa é a minha mãe! É bom você ir se acostumando se quiser sobreviver aqui, zumbi!
— Medo... — ele murmurou, rindo também.
O silêncio confortável voltou a se instalar entre eles. Dante se deitou de costas no gramado verde, colocando as mãos atrás da cabeça, observando os raios de sol que filtravam através das folhas outonais da árvore. O sorriso brincalhão escorregou do seu rosto, dando lugar a uma expressão serena e profundamente reflexiva.
— Mas sabe de uma coisa, Kiara... — Dante falou baixinho, a voz perdendo a piada. — Pensando com calma agora... eu acho que, naquela época, eu já tava realmente apaixonado de verdade.
A respiração de Kiara falhou milimetricamente. Ela parou de mastigar, olhando para a figura dele deitada na grama.
— Eu só... eu só não tinha conseguido separar as coisas no meu cérebro — ele continuou, olhando para as folhas no céu. — Eu não sabia dizer se o que eu sentia fervendo no peito era só obsessão e admiração por aquela força que eu via você emanar no tabuleiro... ou se era por quem você era por baixo daquela armadura toda. Eu tava confuso.
Kiara se moveu. Ela engatinhou devagar pela grama até se inclinar diretamente sobre ele, a sombra do seu corpo bloqueando a luz do sol no rosto de Dante. Os olhos dourados e intensos dela cravaram-se bem no meio das pupilas bicolores dele.
— E qual é o resultado final agora, Dante? Qual é a resposta? — ela sussurrou, a voz macia, mas exigindo a verdade absoluta.
Dante sustentou o olhar dela sem piscar. Um sorriso suave, maduro e incrivelmente magnético desenhou-se em seus lábios.
— Bom... considerando que, mesmo depois de finalmente ter conseguido te vencer, eu continuo sentindo exatamente a mesma coisa queimando aqui dentro quando olho pra você... — Dante ergueu a mão e tirou um fio de cabelo claro que havia caído no rosto dela. — Eu acho que nós já temos a resposta, não temos?
O córtex cerebral de Kiara sofreu um impacto sísmico. O coração dela espancou as costelas num ritmo descontrolado. Completamente sem defesa contra aquela sinceridade desarmante, ela sentiu o rosto pegar fogo de novo e, em um reflexo puro de timidez infantil, esticou a ponta da língua para ele, fazendo uma careta fofa para esconder a vulnerabilidade.
Dante sorriu largo, encantado com a reação. Mas Kiara não ia deixar ele ficar no controle da mesa por muito tempo. Ela se sentou de volta na grama, cruzou os braços e mudou de assunto com uma provocação afiada:
— Ai, ai... mas falando sério sobre o torneio agora... que desperdício histórico. Se eu tivesse vencido você naquela hora, eu tenho absoluta certeza de que teria destruído a Kallen na grande final!
Dante se sentou no gramado com um solavanco, indignado:
— Como é que é?!
— É a mais pura verdade! — ela provocou com um sorriso maroto. — Eu fiz todo aquele sacrifício, te deixei passar... só pra você ir lá e ser obliterado pela Kallen logo em seguida! Você perder o título mundial pra ela foi um puuuuta anticlímax, Dante!
— Qual é! Não me cobra um milagre da física! — Dante protestou, gesticulando com os braços no ar em defesa do próprio ego. — O que caralhos você queria que eu fizesse?! Aquela mulher não é humana! Ela é uma aberração, um monstro de outra dimensão ou alguma coisa assim, com certeza!
Kiara riu, deliciada em ver o orgulho dele arranhado pela lenda mundial. Mas então, Dante parou de gesticular. Ele abaixou os braços, apoiou as mãos nos joelhos e olhou para a vista da feira rural lá embaixo, um sorriso tranquilo e invencível aquecendo suas feições.
— Mas quer saber? Tá tudo bem ter perdido a final pra ela. O troféu de metal e o título mundial nunca fizeram diferença no meu plano.
Kiara parou de rir, tombando a cabeça para o lado, curiosa:
— Ah, é? E por que não?
— Porque o que eu realmente tinha ido caçar naquele torneio... eu ganhei.
Ela piscou, o radar apitando:
— E o que era?
Dante virou o rosto para ela. Os olhos heterocromáticos — um vermelho e um azul — refletiram a luz da tarde com uma intensidade que transpassava qualquer defesa.
— Era ver aquele brilho, Kiara — ele sussurrou, a voz profunda e aveludada. — Era ver aquela chama dourada queimando livremente, sem correntes, sem empecilhos e sem medo. Aquilo sim foi realmente a coisa mais linda que eu poderia ver.
A estátua de gelo derreteu por completo. Um carmesim nuclear de grau máximo explodiu no rosto, nas orelhas e no pescoço de Kiara. O sistema operacional da garota simplesmente superaqueceu e colapsou sob a radiação daquele romantismo descarado. Ela abriu a boca para tentar formular uma resposta irônica, mas nenhuma sílaba conseguiu passar pela garganta.
Entrando em modo de pânico tático, Kiara ejetou do gramado como uma mola. Ela saltou de pé, virou as costas para ele na velocidade da luz para esconder o rosto completamente vermelho e deu três passos rápidos e duros colina abaixo. Ela parou, respirou fundo para tentar resfriar a fiação e olhou por cima do ombro, lançando um olhar mortal, emburrado e absurdamente apaixonado na direção do garoto sentado na grama.
— Q-Que bom pra você, então, seu zumbi imbecil! — ela gaguejou, forçando a marra com a voz trêmula de vergonha. — Agora faz o favor de parar de falar idiotice e levanta logo desse chão! O dia ainda tá longe de acabar e eu ainda quero ver muito, mas muito mais de como funciona esse tal de encontro, ouviu bem?!
Dante olhou para a garota de pé colina abaixo, com os cabelos balançando ao vento e as bochechas pegando fogo de vergonha, mas exigindo a companhia dele com aquela imperiosidade maravilhosa que só ela possuía. Ele soltou uma risada rouca, cheia de vida e de uma felicidade limpa e absoluta.
— Entendido, chefe — Dante murmurou.
Ele se levantou da grama, bateu a poeira das calças e desceu a colina correndo em passos largos até emparelhar o ritmo com o dela. E assim, lado a lado, ombro a ombro, os dois monstros de Nova Astris seguiram caminhando juntos para dentro da luz brilhante e infinita daquela tarde.
Parte 3
O sol outonal de Nova Astris começou a sangrar no horizonte, banhando as ruas históricas em tons de cobre, violeta e crepúsculo. As lâmpadas dos postes coloniais piscavam e se acendiam uma a uma enquanto Dante e Kiara caminhavam de volta em direção ao centro urbano.
Kiara estava em um estado de leveza quase hipnótico. Ela caminhava um passo à frente, com as mãos nas costas e a saia balançando ao vento da noite, contando com um sorriso vibrante no rosto sobre como havia adorado o gosto do pão caseiro da feira.
Mas a paz estética e o clímax romântico tinham data de validade na vida do vice-presidente do Conselho.
VRUUUUUUUM! SCREEECH!
O ronco agressivo de um motor de dois cilindros cortou a tranquilidade da rua de pedras. Uma motocicleta de cilindrada média derrapou feio na esquina, freou bruscamente e cortou a frente dos dois, parando bem no meio da calçada e bloqueando o trajeto.
O escapamento cuspiu uma nuvem de fumaça cinza, o descanso de pé foi chutado para baixo com um estalo metálico e dois sujeitos desceram do banco de couro, executando uma coreografia calculada e absurdamente vergonhosa. Luck arrancou o capacete com uma das mãos, jogando a franja ruiva para trás enquanto apontava o dedo indicador e o médio para a frente em formato de revólver.
Ao lado dele, Chuya ajeitou a jaqueta de couro no ombro e inclinou o tronco em um ângulo desafiador de galã de periferia.
— Ei, crianças! — os dois proclamaram em um uníssono perfeitamente ensaiado. — Tudo bem por aqui?
A veia na têmpora de Dante saltou com tanta força que ameaçou romper a pele. O garoto congelou, os olhos bicolores arregalados em puro terror: Que merda... o que caralhos esses dois estão fazendo aqui?! Ao lado dele, Kiara piscou, surpresa com a invasão brusca, mas não aguentou o impacto estético do vexame: ela cobriu a boca com as costas da mão e soltou uma risada cristalina diante da pose ridícula dos dois idiotas.
Luck marchou em linha reta até Dante, passou o braço ao redor do pescoço do amigo num mata-leão afetuoso e começou a arrastá-lo para longe da garota com um sorriso canalha:
— É que a lógica era simples, bobinho! A gente sabia desde o início que vocês teriam esse encontro hoje! E, como a gente também já tinha calculado que o seu instinto de sobrevivência não te deixaria cair na armadilha de levá-la pra um supino reto ou pra um fliperama de pancadaria como nós sugerimos... a dedução óbvia era que você iria rastejar pedindo arrego pra Nero!
— Aí ficou fácil — Chuya emendou, já com as mãos nos bolsos. — A gente só precisou cercar a casa da Nero, encher a paciência dela por umas quatro horas seguidas e torturar a sanidade da garota até ela abrir o bico e entregar exatamente o trajeto histórico e o CEP que ela tinha te mandado no mapa!
Enquanto Luck mantinha Dante imobilizado pelo pescoço, Chuya contornou a calçada e se aproximou de Kiara com um bloco de notas na mão e a caneta engatilhada, assumindo a postura de um repórter investigativo de fofocas baratas:
— Muito bem, Rainha do Xadrez. Como auditor oficial deste ecossistema, eu exijo um relatório detalhado e sem censura das últimas oito horas! Quais foram os tropeços motores? Ele engasgou com a própria saliva? Caiu no chão de maduro? Quantos momentos vergonhosos e idiotices o Dante cometeu na sua presença hoje?! Pode abrir o jogo!
— Ei! Saia de perto dela com esse bloco de notas, seu abutre! — Dante rosnou, tentando se desvencilhar do braço de Luck. — Vocês atravessaram a cidade de moto só pra fazer essa palhaçada e me espionar?!
Luck e Chuya pararam. Os dois deram um passo para trás e colocaram as mãos sobre o peito com feições dramatizadas de profunda mágoa e indignação moral.
— Você nos subestima de uma forma profundamente ofensiva, best friend... — Chuya murmurou, balançando a cabeça em decepção.
— É óbvio que nós não viemos aqui só pra rir da sua cara! — Luck estufou o peito, esbanjando uma pose de mentor espiritual. — Nós viemos com o propósito sagrado de ajudar você a elevar essa rota de encontro ao nível máximo! A gente já havia previsto que um amador como você jamais teria capacidade nem coragem pra planejar o evento final da noite!
Chuya enfiou a mão no bolso interno da jaqueta de couro e puxou um envelope preto com letras douradas em relevo, balançando-o no ar como se fosse o Santo Graal:
— Olha só a caridade dos seus manos! Nós trouxemos dois tíquetes de passe livre, sem hora pra acabar, direto pro Love Hits! Exclusivamente pra vocês dois aproveitarem o resto da noite inteira em grande estilo!
— Não precisam chorar de emoção, crianças! — Luck piscou, mandando um beijo no ar. — A gente se importa demais com a evolução biológica de vocês!
O cérebro de Dante engasgou. A palavra Love Hits bateu em seu córtex e demorou dois segundos para ser indexada. Ele começou a vasculhar a memória de curto prazo: Love Hits? Eu tenho certeza absoluta de que já escutei esse nome idiota antes... onde foi que...? A lembrança destravou como um relâmpago. Seu rosto ferveu, explodindo no tom vermelho mais violento de toda a sua vida ao se recordar da conversa de terça-feira no vestiário masculino, quando Luck passou vinte minutos se gabando de ter descoberto um novo motel de altíssimo luxo com suítes temáticas de neon na saída da rodovia que levava esse exato nome.
O termostato da sanidade de Dante foi obliterado.
— O QUE É QUE VOCÊ TÁ FALANDO, SEU MALDITO PSICOPATA?! — o garoto berrou, espumando de ódio e vergonha, projetando o corpo para a frente como um cão raivoso querendo rasgar a jugular dos amigos.
Chuya arregalou os olhos num susto cômico, recuando dois passos enquanto fingia estar ferido no coração:
— Nossa, Dante! Que hostilidade gratuita é essa?! É assim que você trata os seus salvadores?! A gente veio até aqui gastando combustível caro só pra te patrocinar no evento final que coroa todo o primeiro encontro decente!
Ao lado de Dante, Kiara tombou a cabeça levemente para o lado. A garota piscou os olhos dourados, completamente inocente e alheia à malícia do submundo masculino:
— Evento final? Do que vocês estão falando? Que lugar é esse?
O olho de Luck brilhou com uma malícia letal. O loiro deslizou pela calçada com a velocidade de uma cobra, esquivando-se da linha de defesa de Dante, e apareceu perfeitamente posicionado ao lado de Kiara. Ele inclinou o tronco, levando a mão em formato de concha até perto do ouvido da Princesa de Gelo com um sorriso canalha:
— É que, na maioria dos casais normais, Kiara... logo no final da noite do primeiro encontro, quando a temperatura sobe, um homem e uma mulher costumam ir pra um quarto fechado pra...
O instinto assassino de Dante rompeu a barreira do som:
— CALA A PORRA DESSA BOCA, SEU ANIMAL!
Dante ejetou do chão com um salto predatório, disparando um chute giratório brutal, mirando diretamente na costela de Luck para impedi-lo de terminar a frase e contaminar o cérebro de sua namorada.
Luck, que já esperava a retaliação mortal, jogou o corpo para trás com uma agilidade de gato, esquivando-se do golpe por um milímetro enquanto a sola do tênis de Dante cortava o vento com um assobio estalado. Aproveitando o embalo do giro, o ruivo deu um tapa leve no ombro de Kiara, girou nos calcanhares e disparou em desabalada carreira em direção à motocicleta, onde Chuya já estava escancarando o acelerador com o motor rugindo em alta rotação.
— MAS QUE DIABOS VOCÊ TAVA QUERENDO FALAR NO OUVIDO DELA, SEU MALDITO SUICIDA?! EU VOU MATAR VOCÊS DOIS! — Dante berrou, aterrissando no concreto e correndo atrás deles como um leopardo caçando presas.
Luck saltou para a garupa da moto em movimento. Enquanto Chuya arrancava cantando pneu no asfalto da calçada, os dois sociopatas olhavam para trás e explodiam em gargalhadas histéricas diante do desespero do amigo que corria atrás do escapamento:
— HAHAHAHAHA! Olha essa cara de careta desesperado! A gente só tá tentando te dar um empurrãozinho pra você virar homem, Dante! Aproveita a noite!
A moto dobrou a esquina em alta velocidade, sumindo na penumbra do crepúsculo sob o eco das risadas de Luck e Chuya. Dante freou no meio da rua vazia, ofegante, com o peito subindo e descendo freneticamente, agitando o punho fechado em direção ao horizonte onde os dois haviam desaparecido:
— ISSO NÃO VAI FICAR ASSIM! VAI TER VOLTA, SEUS MALDITOS! EU VOU CORTAR OS FREIOS DESSA MOTO!
O garoto ficou ali parado por alguns segundos, respirando fundo para tentar resfriar a placa-mãe superaquecida. Quando a vergonha alheia finalizou o seu ciclo no cérebro, Dante girou os calcanhares devagar, caminhando de volta para a calçada onde Kiara havia ficado esperando. O rosto dele ainda ostentava um tom de rosa-escuro. Ele passou a mão pela nuca, coçando os cabelos bicolores com um sorriso sem graça e o olhar desviado para o chão de pedras:
— Éééé... foi mal por isso, Kiara. Me desculpa de verdade. Parece que os meus supostos melhores amigos têm uma doença grave e simplesmente não fazem a menor ideia de como respeitar a privacidade alheia.
Kiara olhou para ele, o vento da noite balançando seus fios claros. Em vez de se mostrar irritada ou constrangida pelo circo, a garota soltou uma risada limpa, doce e perfeitamente tranquila, com os olhos dourados brilhando de divertimento:
— Tá tudo bem, Dante. Não precisa se desculpar por isso. Pra ser bem sincera... ter uma quebra de rotina barulhenta e caótica dessas no meio do caminho também foi absurdamente divertido.
Dante sorriu de volta, sentindo o peso da humilhação escorrer pelo ralo diante daquela resposta. Ele ia sugerir que retomassem a caminhada até o ponto de ônibus, mas Kiara parou de sorrir, franziu a testa e enfiou a mão no bolso lateral do seu casaco leve de outono:
— Mas, espera... o Luck fez um movimento estranho. Acho que ele enfiou alguma coisa aqui dentro do meu bolso naquela hora em que desviou do seu chute.
O sangue de Dante virou gelo líquido instantaneamente. Os tíquetes do motel! O alarme de pânico tático voltou a apitar no volume máximo dentro do seu crânio: Aquele desgraçado canalha não teve a audácia de jogar os passes daquela suíte de luxo no bolso dela, teve?!
— MALDITO LUCK! — Dante gritou, o desespero arregalando suas pupilas. — PERA AÍ, KIARA! NÃO OLHA ISSO! NÃO É O QUE VOCÊ TÁ PENSANDO! CALMA!
Ele avançou em disparada, correndo até ela em pânico para tentar interceptar e rasgar o envelope antes que os olhos inocentes da Princesa de Gelo lessem o logotipo erótico do Love Hits.
Mas Kiara foi mais rápida. Ela puxou o envelope de dentro do casaco, abriu a aba superior de papel e pescou dois bilhetes retangulares, impressos em papel térmico colorido e brilhante, lendo o cabeçalho em voz alta:
— Hum... parece que são dois tíquetes de acesso total com fura-fila... pra aquele enorme Parque de Diversões Temático da zona sul.
Os tênis de Dante derraparam nas pedras da calçada. Ele parou a um palmo de distância dela, congelado como uma estátua, o cérebro processando a informação em câmera lenta.
— O... O quê? — ele engasgou, incrédulo. — Parque de diversões? Não é do... do... daquele outro lugar que ele falou?
Ele esticou a mão trêmula e pegou um dos bilhetes dos dedos de Kiara. Não havia neon, não havia suítes eróticas, não havia Love Hits. O logotipo colorido no papel mostrava uma roda-gigante iluminada e uma montanha-russa colossal. Eram ingressos VIP reais, caríssimos e genuínos para o maior parque de atrações de Nova Astris, válidos exatamente para aquela noite de sábado. O teatro do "motel de luxo" havia sido apenas uma cortina de fumaça, uma provocação barata de Luck e Chuya desenhada milimetricamente para arrancar a reação explosiva de Dante e obrigá-lo a passar o maior vexame da sua vida em público, enquanto executavam, nas sombras, um patrocínio real e impecável para esticar o encontro do casal de forma inesquecível.
Dante abaixou o bilhete. Ele olhou para o papel em sua mão, depois olhou para a rua vazia onde o ronco da moto já havia sumido no silêncio da noite. A indignação ferveu por meio segundo em seu peito, mas foi imediatamente substituída por um suspiro longo, derrotado e maravilhado. O garoto fechou os olhos, balançando a cabeça com um sorriso largo, genuíno e cheio de um carinho profundo por aquela dupla de idiotas: Desgraçados... eles me pegaram direitinho. Eu realmente não tenho como competir com a falta de vergonha deles.
Dante ergueu o rosto, guardou um dos ingressos no bolso da jaqueta e devolveu o outro para Kiara. O sorriso predatório, confiante e magnético do cometa de Nova Astris voltou ao seu rosto em capacidade máxima sob a luz dos postes.
— Bom... — Dante estalou o pescoço, olhando nos olhos dela. — Já que aqueles dois malditos fizeram questão de armar todo esse circo pra interromper a nossa caminhada e patrocinar a nossa noite... eu acho que seria uma falta de educação gravíssima da nossa parte não aproveitar esse presente, concorda?
Kiara olhou para o ingresso brilhante em sua mão, depois para o rosto iluminado de Dante. O aro dourado em suas retinas pulsou com uma empolgação febril, e o sorriso largo da delinquente que amava desafios rasgou os seus lábios com perfeição:
— Óbvio, seria muito rude da nossa parte desperdiçar — ela concordou, guardando o tíquete no bolso com determinação bélica.
Sem perder um segundo, Dante estendeu a mão direita aberta para ela sob o céu do crepúsculo:
— Então vamos lá, delinquente.
Kiara não hesitou. Ela soltou uma risada limpa, ergueu o braço e entrelaçou seus dedos firmemente na mão dele, sentindo o calor e o aperto seguro que a ancorava no mundo:
— Vamos logo, zumbi!
E assim, de mãos dadas, correndo lado a lado pelas calçadas de pedra que agora refletiam o neon distante da metrópole, os dois monstros de Nova Astris dispararam em direção às luzes brilhantes e caóticas do Parque Temático, prontos para devorar cada segundo daquela noite infinita.
Parte 4
O parque de diversões temático fervia sob o manto escuro da noite de Nova Astris.
O neon das atrações rasgava o breu, projetando um oceano de cores sobre a multidão, mas, para Dante e Kiara, o universo havia encolhido para o tamanho de suas próprias pegadas. O tempo parecia se dissolver enquanto eles devoravam cada atração do mapa com uma energia inesgotável.
Eles caminharam entre os quiosques dividindo um algodão-doce azul gigantesco, com Kiara arrancando pedaços com os dedos e rindo da textura que derretia na língua. Giraram sob as luzes douradas e a música mecânica do carrossel, com Dante fazendo poses exageradas e presunçosas montado em um cavalo de fibra de vidro, arrancando risadas cristalinas da garota. E, na casa assombrada, o roteiro de terror falhou miseravelmente: enquanto os atores tentavam dar sustos saindo das sombras, foi Kiara quem quase quebrou o braço de um zumbi animatrônico por reflexo de combate, fazendo Dante chorar de rir enquanto pedia desculpas aos funcionários apavorados no meio do escuro.
Quando a exaustão física finalmente começou a cobrar o seu preço e a noite atingiu o seu clímax, eles marcharam em direção ao centro do parque para fechar o roteiro com a atração definitiva: a colossal roda-gigante.
Sentados na cabine de metal e vidro, eles sentiram o chão se afastar suavemente enquanto a estrutura começava a girar. A cidade de Nova Astris foi se revelando lá embaixo, transformando-se em uma tapeçaria infinita de luzes brilhantes que parecia espelhar as estrelas do céu.
Kiara olhou através do vidro panorâmico, os olhos dourados refletindo o brilho da metrópole. Ela soltou um suspiro longo, relaxado e carregado de uma felicidade limpa:
— É... sendo sincera, parece que eu vou ser obrigada a admitir. Encontros são muito divertidos.
Dante encostou as costas no banco, olhando para o perfil dela iluminado pelas luzes da cidade, e abriu um sorriso largo e sincero:
— Eu concordo plenamente. Foi incrivelmente divertido!
O silêncio confortável se instalou na cabine por alguns segundos. Kiara desviou os olhos da janela, moveu-se no banco acolchoado e deslizou para o lado, sentando-se bem colada a ele, os ombros se tocando enquanto a cabine subia pesadamente em direção ao topo da estrutura.
Quando eles atingiram o ápice da roda-gigante — o ponto mais alto e silencioso de Nova Astris, onde o vento balançava levemente a estrutura de metal —, Kiara virou o rosto para ele. O tom brincalhão sumiu, substituído por uma curiosidade incisiva e teimosa:
— Mas, vem cá... o que exatamente é esse tal de Love Hits que o Luck tanto falou?
O oxigênio no cérebro de Dante evaporou. O rosto do garoto pegou fogo no mesmo milésimo de segundo, o carmesim explodindo até a raiz dos cabelos bicolores. Ele gaguejou, abanando as mãos no ar em desespero:
— É-É só brincadeira idiota daquele imbecil, Kiara! Esquece isso!
— Se era só uma brincadeira idiota... por que você deu aquele chute giratório pra me impedir de ouvir o final da frase dele? — ela rebateu, os olhos dourados estreitando-se numa marcação implacável.
— Porque você não precisa escutar tudo o que aquele idiota fala — Dante se defendeu, suando frio.
Kiara não recuou um milímetro. Ela girou o tronco, escorou os cotovelos nos joelhos dele e inclinou o rosto para a frente, cravando o olhar bem no meio das pupilas de Dante:
— Ótimo. Se eu não devo ouvir pela boca dele... então me conta você. O que é?
A distância entre os dois rostos era quase nula. Dante travou, encurralado na parede da cabine:
— P-Por que você tá tão encanada e obcecada com essa besteira agora, Kiara?!
— Eu já te disse a regra do nosso dia de hoje, Dante — ela sussurrou, a voz macia, porém irrefutável. — Eu quero experimentar absolutamente tudo o que faz parte de um encontro de verdade. Se essa coisa de Love Hits for uma etapa que os casais fazem... então eu também quero fazer com você.
O coração de Dante sofreu uma parada cardíaca momentânea, seguida por um disparo nuclear que quase arrebentou as suas costelas. O garoto olhou para o rosto dela. As bochechas pálidas de Kiara também estavam acesas em um tom vermelho-vivo. Havia uma inocência limpa e fascinada em seus olhos, mas, no fundo daquela retina dourada, dançava uma nuance perigosa, silenciosa e absurdamente vulnerável — um olhar que transmitia a confiança insana de que, se ele quisesse inventar qualquer mentira ou arrastá-la para o desconhecido, ela não oporia resistência. Ela confiava nele cegamente.
O impacto biológico daquela entrega foi desproporcional. O peito de Dante doeu fisicamente pela sobrecarga neurológica. Meu Deus... O garoto fechou os olhos com força, esmagando os nós dos dedos contra o tecido das calças para não ter um colapso catatônico na cabine. Eu vou morrer... eu vou simplesmente ter uma falência múltipla de órgãos com tanta fofura concentrada em um único organismo!
Ele puxou uma arfada profunda de oxigênio, forçando o termostato da sua razão a se estabilizar na marra. Quando abriu os olhos, a vergonha havia sido substituída por um olhar sereno, incrivelmente maduro e carregado de um carinho infinito.
— Ainda assim... — Dante sussurrou, esticando a mão e tocando a ponta do nariz dela com o dedo indicador. — Eu me recuso a te dizer o que é.
Kiara franziu a testa de imediato, inflando as bochechas num biquinho emburrado e indignado pela recusa:
— Por que não, hein?!
Dante fechou os olhos por um segundo, sorriu devagar e ergueu o rosto para olhar o teto panorâmico da cabine e o céu estrelado logo acima deles.
— Porque a gente não tem a menor razão pra ter pressa. — A voz dele soou profunda, tranquila e imponente, ancorando o universo ao redor de ambos. — A verdade é que nós ainda temos a vida inteira pela frente. Nós vamos poder ter dezenas, centenas, milhares de outros encontros. E, em absolutamente todos eles, nós vamos descobrir uma rota nova e enxergar algo inédito juntos, não acha?
Ele baixou o olhar, conectando o vermelho e o azul de suas íris com o dourado dela, o sorriso se tornando desarmante:
— Então tá tudo perfeitamente bem em deixar algumas coisas faltando no nosso relatório de hoje. A gente sempre vai ter o amanhã pra fazer de novo, e de novo... e de novo.
Os circuitos da Princesa de Gelo foram sumariamente obliterados. A lógica daquela promessa de eternidade bateu em seu peito com a força de um tsunami. O rubor facial de Kiara explodiu para um nível que ela sequer sabia ser fisiologicamente possível. A garota de cabelos claros perdeu a fala, arfou e, agindo puramente pelo reflexo motor do seu curto-circuito emocional, projetou o corpo para a frente num solavanco ágil e agressivo, saltando na direção do rosto dele.
Dante arregalou os olhos. O radar tático apitou o alarme de perigo extremo. Droga! Lá vem outra cabeçada! Por instinto de sobrevivência biológica, o garoto cerrou os dentes, trincou o maxilar e fechou os olhos com força, preparando-se para o impacto ósseo que esmagaria a sua testa mais uma vez.
Mas a cabeçada nunca veio.
O que tocou os seus lábios foi o contato macio, quente e trêmulo dos dela.
O tempo em Nova Astris paralisou por completo. No exato milissegundo em que Kiara o beijou na cabine mais alta da roda-gigante, a noite decidiu coroar a cena: no parque lá embaixo, a queima de fogos de artifício que encerrava o expediente do sábado estourou nos céus.
BOOM! BOOM! CRASH!
Flores de fogo em vermelho, azul, dourado e prata explodiram através do vidro panorâmico da cabine, iluminando os dois em uma sinfonia de cores e luzes. E, enquanto se entregava ao primeiro beijo da sua vida, segurando os ombros da jaqueta dele com força, os pensamentos de Kiara se organizaram no silêncio da sua mente, límpidos e absolutos:
“É... no fim das contas, esse imbecil teimoso tinha toda a razão.”
A mente dela flutuou pelas memórias de tudo o que haviam vivido desde que ele arrebentou a porta da sua solidão.
“Naquele dia do torneio, quando eu saí daquele banheiro quebrado e vi o meu reflexo no tabuleiro... eu vi tantas cores, senti tanto brilho e tanto calor rasgando o meu peito que eu jurava ter visto tudo de bonito e intenso que este mundo tinha a oferecer. Mas a verdade... é que eu não estava nem perto do limite real.”
Os fogos de artifício iluminavam os cabelos bicolores dele sob seus dedos.
“Cada único dia que veio depois daquele torneio foi mil vezes mais insano, mais luminoso, mais quente e mais absurdamente colorido do que o anterior. E não porque o mundo mudou... mas simplesmente porque agora... eu tenho você correndo do meu lado.”
Quando os fogos começaram a cessar e a cabine iniciou a sua descida lenta, Kiara se afastou devagar.
Dante estava com as costas coladas no banco de couro, o peito arfando pesadamente, os olhos heterocromáticos escancarados em choque estelar e o rosto tão vermelho que parecia estar com febre alta. Ele havia sido completamente nocauteado pelo bote imprevisto da delinquente.
Ainda com os lábios trêmulos e o rosto aceso como um pimentão, Kiara recuperou o oxigênio, ajeitou a franja com a mão e abriu um sorriso largo, maroto, absurdamente competitivo e triunfante enquanto olhava para a cara de bobo dele:
— Hum... eu acho que isso significa 2 a 1 pra mim, zumbi.
A mente de Dante demorou quatro segundos inteiros para processar a matemática do placar. Quando o raciocínio destravou, ele interligou as variáveis: ela estava somando o soco no pátio, a vitória no Torneio Mundial e agora aquele beijo surpresa na roda-gigante.
A exaustão evaporou. O sangue do caçador de Nova Astris ferveu de novo, indignado com a pontuação do placar:
— Como é que é?! — Dante engasgou, apontando o dedo trêmulo para o nariz dela enquanto o seu sorriso canalha voltava com tudo. — Você passa o dia inteiro me chamando de viciado em combate e reclamando da minha agressividade no tabuleiro... mas é mil vezes mais psicopata e competitiva do que eu, sua delinquente!
— Ah, é?! Então tenta empatar o placar na próxima, se for capaz! — ela desafiou, com os olhos dourados faiscando.
E ali, suspensos entre as luzes da metrópole e o céu noturno, os dois monstros de Nova Astris esqueceram o resto do planeta, explodindo juntos em uma gargalhada solta, alta, contagiante e infinita que ecoou pela cabine de metal, selando o início da rota mais espetacular de suas vidas.
Parte 5
Os anos não correram; eles voaram com a leveza de uma tempestade que finalmente havia encontrado a paz.
O asfalto da estrada arborizada deslizava sob os pneus do carro de Isobel. No banco de trás, Stella olhava pelo vidro da janela. Não havia mais tubos de respiração, não havia o bipe estéril dos monitores de UTI, nem o cheiro asfixiante de antisséptico hospitalar. Sua pele ostentava uma cor saudável e aquecida pelo sol, e os olhos claros brilhavam com uma vivacidade pura e desimpedida.
— A sua irmã vai ficar tão feliz quando abrir aquela porta! — Isobel comentou no banco do motorista, com um sorriso vibrante e orgulhoso rasgando o rosto. — Ela passou a última semana inteira organizando a casa, mandou o Dante limpar o jardim três vezes e já deixou tudo perfeitamente cronometrado para comemorar a sua alta definitiva do tratamento!
Stella soltou uma risada doce, arrumando a gola do casaco.
— Ainda assim... você não acha que a gente pelo menos devia ter mandado uma mensagem de texto avisando que já estávamos chegando no quarteirão, mãe?
No banco do passageiro, ao lado de Isobel, Lysander endireitou os óculos no rosto. O homem exalava a serenidade de um patriarca completamente reabilitado e em paz com o próprio destino. Ele soltou um suspiro divertido e balançou a cabeça:
— Que nada, Stella. O fator surpresa é metade da diversão. Só... espero sinceramente que o pobre do Dante não acabe pagando o pato e sofrendo danos físicos por conta dessa surpresa.
Stella cobriu a boca, rindo gostoso da compaixão paterna pelo cunhado.
O carro virou na esquina e estacionou diante da propriedade. O cenário era a antítese absoluta do mundo frio, cinzento e monocromático no qual Kiara havia vivido durante a sua infância e adolescência. Era uma casa colonial espaçosa, incrivelmente acolhedora e banhada pela luz da tarde. Um jardim imenso e bem-cuidado cercava a varanda, com gramado verde, canteiros de flores coloridas e brinquedos infantis espalhados pela grama. A casa respirava vida, calor e barulho.
Muito barulho.
Antes mesmo de colocarem a mão no trinco do portão de madeira, o eco da algazarra doméstica transpassou as paredes da sala de estar e alcançou a calçada.
— EI, DANTE! SEGURA A KIANA E A VICTORIA AGORA MESMO! — a voz imperiosa, afiada e familiar de Kiara berrou de algum lugar perto da cozinha. — Eu preciso tirar logo essa assadeira de lasanha do forno antes que a massa queime, seu zumbi! Larga a porcaria do controle!
— PERA AÍ, KIARA! SÓ MAIS UM POUQUINHO, POR FAVOR! — o grito desesperado e dramático de Dante estourou logo em seguida na sala. — Eu tô quase conseguindo virar essa luta aqui! Pede pra Nero olhar as meninas por dez segundos que já, já eu desligo o videogame! É sério, eu tô no clímax do boss!
— Mentiroso descarado — a voz de Nero cortou o ambiente, monótona, fria e transbordando aquele desprezo acadêmico e acolhedor de sempre. — Você repetiu exatamente essa mesma desculpa nas últimas três vezes em que foi massacrado e perdeu pro Gevoudan na tela, seu idiota.
— NERO! DÁ PRA VOCÊ FICAR DO MEU LADO DA TRINCHEIRA POR UMA VEZ NA VIDA?! — Dante choramingou, espumando de indignação enquanto o som de botões sendo esmagados freneticamente ecoava pela casa.
E então, o som mais espetacular do universo completou a sinfonia. Duas vozes infantis, agudas, cheias de energia e carregando a exata mesma veia caótica e competitiva dos pais, começaram a entoar um coro provocador em sincronia, acompanhadas pelo som de passos rápidos e pezinhos correndo de um lado para o outro no tapete da sala:
— O papai não sabe jogar! O papai não sabe jogar! Perdeu de novo! Hahahaha!
— O papai é ruim! Pega ele, Kiana!
— PERA AÍ, SUAS DUAS DELINQUENTEZINHAS! ATÉ VOCÊS SE JUNTARAM CONTRA MIM?! EU VOU PEGAR VOCÊS! — Dante berrou, largando o controle no chão com um baque enquanto as garotinhas explodiam em risadas histéricas e corriam pela casa para fugir do contra-ataque de cócegas do pai.
Do lado de fora do portão, no meio do jardim ensolarado, Stella, Lysander e Isobel pararam. Os três se entreolharam e explodiram numa gargalhada profunda, aliviada e cheia de um amor incondicional diante daquela guerra doméstica perfeitamente caótica e calorosa. O abismo havia sido fechado para sempre. A família estava salva.
Isobel subiu os degraus da varanda com passos leves, ergueu a mão e deu três batidas firmes na porta maciça de madeira:
— CHEGAMOS! — a matriarca anunciou em voz alta, com um sorriso largo.
O barulho da correria na sala paralisou por um segundo. Passos rápidos — firmes, decididos e acompanhados pelo som leve de chinelos domésticos — se aproximaram pelo corredor. O trinco girou.
A porta se abriu de par em par, e a luz do sol da tarde inundou o hall de entrada, iluminando o sorriso dourado, caloroso e absolutamente feliz de Kiara, dando-lhes as boas-vindas à sua casa, ao seu mundo e à sua vida ao lado do garoto que a ensinou a enxergar todas as cores do universo.
Fim.
Posfácio
Muito obrigado a todos que decidiram ler este What IF!
Quando decidi escrever este volume especial, toda essa história já estava inteira na minha cabeça. Como nas limitações do Volume 11 eu não pude mostrar os vários mundos onde o Dante e a Kiara acabam juntos, senti que seria o momento perfeito para abrir essa janela e mostrar como essa jornada se desdobraria em outro universo.
Como vocês puderam ver, também tivemos a presença de vários personagens de diversos volumes aqui. Cada um deles carrega um universo próprio, com suas próprias histórias e cicatrizes — narrativas fascinantes que, confesso, às vezes também sinto uma vontade imensa de contar.
Seja como for, estou extremamente feliz com o resultado deste volume especial e ainda mais animado para descobrir, junto com vocês, como a história desses dois vai terminar na saga principal!
Vejo vocês em uma próxima ocasião e, novamente, muito obrigado por tudo!



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