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The Fall of the Stars IF: Capítulo 2 - O Raio Vermelho e Preto

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 10 de jul.
  • 54 min de leitura

Volume 1 : Gelo e Raio (Gakuen)


Entrelinhas

O asfalto de Nova Astris fervia sob o sol da tarde, mas o calor real vinha da fricção dos egos. Um ano antes de o tabuleiro do colégio virar de cabeça para baixo, Dante caminhava pelas ruas da metrópole arrastando os pés ao lado do seu esquadrão: Luck, Chuya, Nero, Kurokawa e Vivian. O caos era a regra de ouro daquele grupo.

— Ei... — Luck quebrou o barulho do trânsito, chutando uma pedrinha de concreto com as mãos enfiadas nos bolsos. — Vocês já pararam pra se perguntar qual seria a exata cor do talento?

Nero revirou os olhos com tanta força que quase viu o próprio cérebro.

— É sério que ele vai engatar nessa fita de novo?

— Você sabe como ele é — Vivian pontuou, um sorriso afiado brincando nos lábios. — O orgulho do Luck ainda tá sangrando por ter sido esmagado pelo Ethan no último jogo. O cara não vai superar a surra tão cedo.

— Eu tô falando sério, porra! — Luck estourou, girando nos calcanhares e andando de costas para encarar o grupo. — A psicologia humana vive enchendo o saco estipulando a cor da felicidade, a paleta da tristeza... então, matematicamente, tem que existir uma droga de uma cor para o talento absoluto!

Chuya espreguiçou-se, erguendo os braços acima da cabeça e bocejando de forma crônica.

— Eu sempre fui muito fã do verde... será que a preguiça tem cor verde?

— De que buraco da sua mente você tirou isso? — Luck fuzilou o preguiçoso com o olhar.

Kurokawa ergueu a mão, entrando na sintonia quebrada:

— Mas, parando pra pensar, ninguém nunca estipulou a cor da determinação pura. Ou da coragem.

— Seria o vermelho, não é? — Dante interveio, com a voz carregada daquela maturidade preguiçosa e provocadora que era sua marca registrada, divertindo-se com o incêndio argumentativo.

O pavio de Luck queimou até o fim.

— SE A CORAGEM FOR VERMELHA, ONDE DIABOS FICA O AMOR NESSA PALETA, SEU ANIMAL?! — ele berrou para a rua movimentada. — E que se foda, eu tava perguntando outra coisa!

— Ninguém liga pro seu complexo com talentos! — Dante respondeu.

Enquanto Luck espumava, Nero suspirou fundo, exausta da bagunça, e murmurou baixinho para si mesma:

— O amor... seria vermelho e preto, não?

Ela nem percebeu a armadilha. Ao lado dela, Vivian apenas deslizou o olhar de forma oblíqua, sustentando um sorriso silencioso e puramente felino. Percebendo o olhar predatório da amiga, Nero entrou em curto-circuito.

— Só pra você saber, Vivian... o meu cabelo e o da minha mãe também são meio vermelho e preto! Foi por isso que eu disse!

— Mas eu não falei absolutamente nada sobre o seu cabelo, Nero — Vivian tombou a cabeça, cínica e letal.

O rosto de Nero ferveu, assumindo um tom violento de carmesim que rivalizava com os próprios fios. E, enquanto a retaguarda pegava fogo, Luck continuava berrando na frente, exigindo que alguém respondesse qual seria a cor do maldito talento.

Dante riu, negando com a cabeça diante daquele circo. Mas a risada dele morreu no segundo seguinte.

Seus olhos, movendo-se por puro tédio periférico, foram fisgados por uma explosão de luz. Do outro lado da calçada, uma vitrine comercial exibia dezenas de monitores em alta definição. E todos eles transmitiam, ao vivo, o mesmo cenário estéril e silencioso: a final do Campeonato Regional de Xadrez.

— Ah, é verdade — Vivian apontou, esquecendo-se de torturar Nero por um instante. — Tem uma garota do nosso ano na final dessa bizarrice.

O grupo estancou.

— Sério? Mas isso aí não é um desafio de nível elitel? Coisa pra profissionais? — Kurokawa indagou, estreitando os olhos para o monitor.

— Pois é — Chuya bocejou de novo. — Ou seja, é um talento absoluto. Exatamente o tipo de gente que o Luck mais detesta.

Os outros já estavam girando os calcanhares para voltar a caminhar, mas Dante não se moveu. A curiosidade superficial derreteu e deu lugar a um magnetismo asfixiante. No milésimo de segundo em que os olhos do garoto focaram na tela, o barulho do trânsito de Nova Astris foi silenciado. A imagem no monitor era hipnótica. A garota de cabelos escuros movia as peças com uma eficiência letal. Não havia tensão. Não havia suor. A forma como ela operava o tabuleiro era opressiva, poderosa e avassaladora, como um titã dizendo silenciosamente para o oponente adulto abaixar a cabeça e aceitar, de forma incontestável, que estava muito abaixo dela na cadeia alimentar.

A câmera focou em um close-up do rosto da jogadora. E os olhos de Dante colidiram com os dela através do vidro.

A multidão inteira que assistia àquela transmissão via a mesma coisa: uma estátua humana. Um robô morto, operando sob uma lógica fria e assustadora. Mas Dante Scarlune possuía um radar muito mais distorcido e perigoso. Onde o mundo inteiro enxergava apenas uma escuridão gélida e inexpressiva... ele enxergava o avesso. Debaixo daquela blindagem esmagadora de gelo, os olhos dele capturaram um lampejo invisível. Uma anomalia na equação. Havia uma pequena e teimosa chama ali dentro. Um espírito quente, exausto e contido, queimando em silêncio sob a máscara da máquina perfeita. O contraste era tão deslumbrante e intenso que a barreira de sarcasmo do garoto se quebrou.

— Que bonito... — Dante sussurrou. O sopro da voz escapou antes que o cérebro autorizasse.

Os ouvidos treinados do grupo não deixaram a falha passar.

— Bonito?! De que demência você tá falando, Dante?! — Luck estourou, horrorizado com o monitor. — Essa imagem é deprimente! Olha a cara de defunto que essa garota faz enquanto joga! É uma brutalidade tão insensível que tira a maldita graça de estar ali!

— É o que eu sempre digo — Chuya coçou a nuca. — Se não tem emoção e não tem diversão, pra que jogar? Muito mais útil ficar em casa cochilando.

As fofocas, as críticas e as análises lógicas choveram ao redor dele. Dante não contestou. Ele não rebateu os amigos idiotas com o seu charme afiado de sempre. Ele apenas ficou ali, plantado no asfalto, sorrindo de forma muito sutil enquanto a imagem daquele brilho dourado e intenso ficava eternamente tatuada nas suas retinas.

Um ano depois

O zumbido da energia elétrica antecedeu o nascer do sol em Nova Astris. No silêncio do seu quarto, Dante escovou os cabelos bicolores com os dedos, bagunçando-os de forma perfeitamente calculada para manter a aura desleixada. Era a manhã do primeiro dia de aula no segundo ano. O dia em que a rota de colisão finalmente aconteceria.

Apoiado na pia do banheiro, com a escova de dentes na boca, ele ergueu o rosto. O espelho devolveu o reflexo de seus próprios olhos heterocromáticos — uma íris de um vermelho letal e a outra de um azul cortante e gélido. Mas a memória não o puxou para si mesmo. A mente ágil e inquieta de Dante mergulhou exatamente um ano no passado.

Ele cuspiu a pasta de dentes. Ligou a torneira e lavou o rosto com a água gelada. Apoiando as mãos no mármore úmido, um sorriso afiado rasgou seus lábios. Ele soltou o ar pelo nariz, respondendo ao vazio do banheiro à pergunta que Luck havia feito e que ficara sem resposta.

— A cor do talento, né...? — Dante enxugou o queixo. Os olhos brilharam com o reflexo da lâmpada, mas a mente projetava o abismo dos olhos monocromáticos de Kiara. — Eu aposto todas as minhas fichas que seria um dourado intenso.

Parte 1

Meses haviam sido triturados pelas engrenagens de Nova Astris desde o colapso no pátio.

O sol matinal queimava o asfalto quando Dante cruzou os colossais portões de ferro da academia. Ele ergueu a mão preguiçosamente para devolver o "bom dia" rotineiro da muralha loira chamada Love Scarlune, arrastando os pés em direção ao pavilhão principal. A letargia crônica dominava seu corpo.

BAM! Um impacto duplo e perfeitamente sincronizado explodiu contra as suas escápulas. A força cinética do golpe arrancou os calcanhares de Dante do chão. O garoto tropeçou violentamente para a frente, precisando fazer um contorcionismo absurdo com os joelhos para não beijar o concreto do colégio.

Ele girou nos calcanhares, os dentes trincados, os olhos heterocromáticos faiscando.

— PRA QUE ESSA VIOLÊNCIA GRATUITA, SEUS MALDITOS?!

Atrás dele, Luck e Chuya caminhavam lado a lado, com expressões idênticas de tédio e superioridade moral.

— Que violência o quê... — Luck estalou a língua, enfiando as mãos nos bolsos. — A gente já tinha te avisado. Isso são só os juros do mês. Estamos puramente descontando a nossa fúria por você ter feito a idiotice de se sabotar naquelas malditas eleições.

A veia na testa de Dante latejou.

— EU NEM ENTENDI POR QUE DIABOS VOCÊS ME INSCREVERAM NAQUELA BIZARRICE PRA COMEÇO DE CONVERSA! — ele berrou, apontando o dedo na cara dos dois. — Vocês não têm o menor direito de exigir vingança por um plano de merda que eu não aprovei!

Os três retomaram a caminhada pelos corredores lotados, a fricção da discussão atraindo olhares curiosos. Chuya suspirou, um sopro longo e exausto, como se estivesse lidando com uma criança com deficiência cognitiva.

— O problema, Dante, é que te falta visão de jogo. A arquitetura do nosso plano era perfeita. A estatística dizia que você ia ganhar. E qual é a regra de ouro do estatuto? O presidente eleito tem poder absoluto para nomear o seu próprio gabinete. Você ganhava, assinava o meu nome e o do Luck como conselheiros de confiança e boom.

Chuya abriu os braços, a preguiça iluminando o seu rosto com uma paz espiritual invejável.

— O paraíso na Terra. Nós iríamos passar todos os intervalos e o período pós-aula inteiramente trancados na sala VIP do conselho. Ar-condicionado torando no máximo, geladeira estocada, sofás de couro e TV liberada. Seria a hibernação perfeita.

Dante piscou, os circuitos do cérebro tentando processar o nível abissal daquele parasitismo.

— Seus vagabundos desgraçados... e o trabalho administrativo como membros do conselho?! A papelada?! As planilhas?! Quem ia fazer?!

Luck e Chuya não hesitaram. A resposta saiu em estéreo, na mais perfeita sintonia:

— Isso a gente ia deixar com você.

— EI! — Dante rugiu, o instinto assassino quase rompendo o limite do aceitável. Ele parou no meio do corredor. Puxou o ar com força, enchendo os pulmões, forçando a temperatura do próprio sangue a baixar. Ele precisava destruir aquela lógica falha com a pura matemática dos fatos.

O garoto meteu a mão no bolso da jaqueta, sacou o celular e esfregou a tela acesa quase na cara dos dois amigos.

— Mesmo que eu não tivesse me explodido de propósito pra ajudar a Kiara... não tinha a menor chance de eu ganhar aquela eleição! Leiam isso aqui!

A tela exibia o fórum do colégio fervilhando. As notificações não paravam.

— "Galinha. Malandro. Traidor safado. O lixo tóxico que só faz as mulheres chorarem." — Dante recitou a própria ficha criminal digital com um sorriso cínico e amargo. — Prestem atenção, seus gênios da estratégia. Como diabos essa multidão de justiceiros moralistas ia botar alguém como eu na cadeira da presidência?! A escola inteira ia votar contra mim!

Chuya abafou um bocejo e balançou a cabeça em pura decepção tática.

— Sabe de nada, inocente.

Luck abriu um sorriso pontiagudo, o brilho caótico de um estrategista do mal piscando nos olhos.

— A gente já tinha o plano de contingência engatilhado pros últimos dias de campanha. A guerra fria perfeita. Nós iríamos usar o ódio deles como a nossa maior arma. Íamos vazar, em todos os canais possíveis, que a sua pior fobia era vencer a eleição, porque você ficaria atolado de trabalho burocrático e nunca mais teria tempo livre pra curtir a vida e caçar garotas.

O raciocínio maligno bateu no fundo do cérebro de Dante como um estrondo.

— Isso mesmo — Chuya completou, letal. — Nós íamos usar psicologia reversa em massa. Faríamos todos os seus haters votarem em você puramente por vingança, só para te acorrentar numa mesa cheia de papelada e transformar a sua vida num inferno. A vitória era matematicamente garantida.

O maxilar de Dante despencou. O choque paralisou suas cordas vocais. Que tipo de sociopatia brilhante era essa?

— O plano de infiltração era tão cirúrgico — Luck emendou, batendo no próprio peito com orgulho — que a gente já tinha forjado uma milícia de contas falsas no Twitter, simulando caras do terceiro ano que te odiavam mortalmente, só pra começar a espalhar a mentira da votação por ódio.

Dante esmagou a tela do celular com os dedos, incrédulo.

— Vocês... criaram contas falsas de haters meus?

Chuya coçou a bochecha, desviando o olhar para a janela do corredor.

— É. Na verdade... de vez em quando eu ainda logo na minha conta fake pra te xingar nas threads do fórum. É meio terapêutico.

Luck assentiu freneticamente, concordando.

— Pior que é. Eu também. Dá um alívio legal.

O silêncio reinou entre os três. O barulho do colégio continuava ao redor deles, mas Dante apenas ficou estático, esquadrinhando os rostos relaxados de Luck e Chuya.

— Por acaso... — A voz de Dante saiu rasgada, carregada de um pavor reverencial. — Vocês dois realmente são meus amigos... ou são a porra de dois demônios enviados para destruir a minha sanidade?

A dupla apenas soltou uma gargalhada ensurdecedora em uníssono, ignorando a crise existencial do garoto de cabelos bicolores. Sem dar chance para retaliações, eles deram as costas para ele e continuaram marchando pelos corredores, arrastando um Dante atônito e xingando para a primeira aula do dia. 

Parte 2

A engrenagem do colégio voltava a girar, mas, antes que o sinal da primeira aula estourasse nos alto-falantes, a trindade do caos precisava cumprir o seu ritual matinal intocável.

O zumbido elétrico da máquina de venda automática ecoava no fim do corredor. Dante parou diante do visor de vidro, com os olhos heterocromáticos escaneando as opções com uma preguiça letal. Ele cruzou os braços e encostou o ombro no metal frio da máquina, lançando um olhar de soslaio para os dois estrategistas diabólicos ao seu lado.

— Vocês vão pagar a minha lata de hoje — Dante decretou, em tom inegociável. — Depois de descobrir tudo isso, eu não quero nem saber de desculpas.

Luck revirou os olhos, mas enfiou a mão no bolso e puxou os créditos.

— Tá bom, seu mesquinho. Relaxa aí.

Beep. Clack. A lata laranja rolou até o compartimento inferior. Dante a pescou no ar.

Tssss. O som do gás escapando ao abrir o refrigerante de laranja — seu combustível favorito — cortou a tensão. Ele deu um gole longo, o açúcar gelado anestesiando a exaustão crônica da sua mente.

— Certo... — Dante suspirou, abaixando a lata. — Mas me tirem uma dúvida: quais foram os exatos xingamentos que vocês inventaram naquelas contas falsas?

Chuya piscou, os olhos semicerrados de sono ganhando um brilho repentino de orgulho.

— Sabe aquele comentário sobre o "lixo tóxico que só faz as mulheres chorarem"? Fui eu. — Chuya coçou o pescoço, o rosto letárgico assumindo uma aura quase poética. — E eu confesso que, quando vi aquilo viralizando e ganhando mil curtidas no fórum, acabei dando um sorrisinho sincero de canto de boca. Um momento de pura realização pessoal.

Dante cravou o olhar no amigo, a íris vermelha prometendo assassinato.

— Que maravilha. Fico muito feliz que a destruição da minha moral tenha te divertido tanto.

— A Vivian também entrou na brincadeira — Luck adicionou, entregando a retaguarda sem o menor peso na consciência. — Foi ela quem criou o boato do "namorado de cinco garotas".

Dante engasgou com o refrigerante.

— Até a Vivian?!

— É, mas ela pulou fora logo depois — Chuya explicou, dando de ombros. — O algoritmo fugiu do controle. Começaram a responder ao post dela dizendo que você, na verdade, tinha reprovado de ano de propósito só pra poder ficar na mesma sala que ela e colocar a própria irmã no seu harém.

O garoto de cabelos bicolores apoiou a testa contra o vidro da máquina de bebidas.

— Meu Deus do céu... — A voz de Dante saiu abafada, sufocada pela desesperança. — Por que caralhos a humanidade ainda permite que essa praga de rede social exista?

— O mundo é complicado, cara. — Luck deu um tapinha consolador nas costas dele.

Chuya bebeu um gole do seu próprio refrigerante, a mente lenta processando uma nova informação.

— Sabe, parando pra pensar nessa história de fórum... eu nunca te perguntei isso. Por que exatamente você tá um ano atrasado na escola?

Dante levantou a cabeça, pronto para explicar.

— Ah, isso é porq...

— É porque ele é burro — Luck interrompeu no mesmo milissegundo, com a voz limpa e cirúrgica.

Dante fuzilou o ruivo com o olhar.

— Ei! Você sabe muito bem qual é a verdade! Não vem meter essa!

— A minha versão é bem mais simples e rápida de explicar, sabia? — Luck sorriu de forma cínica. — Para de complicar a narrativa.

— Você tá só querendo ferrar pro meu lado de novo!

— Ei! — Chuya bateu palmas, chamando a atenção. — Vão me deixar boiando ou vão explicar a porcaria da história?

Dante respirou fundo, puxando a paciência de um lugar muito escuro e vazio.

— A verdade é que os meus amados pais biológicos eram doentes, obcecados pelo trabalho. Eles viviam viajando pelo globo e me arrastando feito bagagem de um lado pro outro. No meio dessa turnê infinita, a logística falhou. Acabei acumulando um buraco tão colossal de faltas em um dos colégios que o sistema me reprovou de ano por ausência. — Ele esmagou a lata vazia, a força dos dedos amassando o alumínio. — E a estatística só não piorou porque, antes de eu perder outro ano, a mãe da Nero interveio e me deixou mudar pra casa delas de vez.

Chuya processou a profundidade do abandono parental. A história de uma criança arrastada pelo mundo e salva por uma família adotiva. Ele assentiu lentamente.

— Entendi. Então, no fim das contas, foi mesmo porque você é burro.

A veia no pescoço de Dante saltou.

— SEU MALDITO! EU NÃO QUERO OUVIR ISSO DE UM CARA QUE TIRA NOTAS INFINITAMENTE MAIS BAIXAS QUE AS MINHAS!

Em perfeita sincronia, Chuya e Luck deram um passo largo para trás, afastando-se da zona de perigo. As mãos de ambos mergulharam nos bolsos, sacando os celulares na velocidade da luz. Os polegares começaram a digitar freneticamente.

— Nossa... que desumilde — Luck sussurrou de forma teatral, com os olhos cravados na tela. — Gostava muito mais dele quando era só o "repetente burro".

Chuya concordou, digitando sem parar.

— Deixou a fama de pegador subir pra cabeça. Maior babaca. Decepcionante.

— TUÍTA ISSO QUE EU CHUTO OS DOIS EM LINHA RETA ATÉ A CHINA! — Dante rugiu, avançando.

Crash. Eles riram, desviando do ataque e arremessando as latas vazias na lixeira em um movimento coreografado. A caminhada rumo à sala de aula começou, mas o silêncio de Chuya durou pouco.

— Mas, falando sério agora... — O preguiçoso arrastou os pés, o tom voltando a ser ranzinza. — Você foi meio burro, sim, estrategicamente falando. Por que não pediu para ir morar com a Nero e a mãe dela desde o começo? Você nem gosta dos seus pais mesmo.

Dante soltou um suspiro exausto. O peso da realidade adulta sempre tropeçava na simplicidade adolescente.

— Não é tão simples assim, Chuya. A logística da vida não é um anime. Eu não podia simplesmente chutar a porta delas, olhar pra tia e dizer: "Ei, bota mais um prato na mesa que eu vou morar aqui". Nós não éramos tão próximos naquela época. Faltava intimidade.

Luck cruzou os braços atrás da cabeça, cético.

— Pra mim, isso soa como pura desculpa pra burrice. Eu já vi muito bem como a mãe da Nero age com você hoje. Aposto que ela já te tratava como filho naquela época, sim. Você que não tinha visão pra perceber.

Dante balançou a cabeça, desistindo de tentar ensinar nuances familiares para aqueles dois.

Foi então que a voz de Chuya baixou algumas oitavas. O tom, de repente, ficou sombrio. Pesado.

— Mas eu entendo perfeitamente como é essa sensação, Dante. Eu também tenho os meus próprios demônios e problemas de família.

Os passos de Dante e Luck travaram. Os dois viraram o rosto para Chuya simultaneamente. A gravidade no ar mudou. Aquela era a primeira vez, desde que se conheciam, que o preguiçoso do grupo demonstrava qualquer sinal de vulnerabilidade humana. Eles assumiram uma postura séria, respeitando o espaço para o trauma.

— É que... — Chuya abaixou os olhos, com a voz carregada de uma melancolia cortante. — Quando eu era criança... uma vez, o meu pai saiu de casa à noite. Ele abriu a porta e disse que ia na esquina comprar cigarro. E...

Dante sentiu o peito apertar. A velha e trágica estatística. Ele se adiantou, com o tom transbordando empatia:

— E ele nunca mais voltou, não é? Sinto muito, cara.

Chuya levantou o rosto. O olhar vazio encontrou o de Dante.

— Não, calma aí — ele corrigiu, perfeitamente sério. — Ele voltou, sim. Entrou em casa, me deu o cigarro aceso na mão pra eu fumar... e depois ele vazou e sumiu de vez.

O silêncio no corredor foi absoluto. O som da respiração dos alunos passando, o chiado das lâmpadas fluorescentes, tudo parecia ter parado. Dante e Luck permaneceram congelados como estátuas, encarando Chuya. As feições dos dois se contorceram numa mistura indescritível de horror, choque moral e total falta de palavras diante da criminalidade absurda daquela memória de infância.

Dante ergueu o dedo indicador, apontando bem no meio do rosto de Chuya. O olhar do garoto de cabelos bicolores era afiado e carregava uma ameaça de morte real.

— Nunca mais... — Dante sibilou, cada palavra pesando uma tonelada de sanidade. — Sob nenhuma hipótese... conte a porra dessa história pra mais ninguém neste colégio.

Chuya piscou, genuinamente confuso com a reação hostil.

— Ué? Por quê?

— É sério. Pra absolutamente ninguém. Engole isso e leva pro túmulo.

Alcançando a moldura da porta da sala de aula, Chuya deu de ombros, indiferente à gravidade do trauma absurdo que acabara de compartilhar.

— Então beleza.

O trio atravessou a porta no exato instante em que o sinal estourou nos alto-falantes, e o inferno diário do segundo ano finalmente teve início.

Parte 3

O sinal do intervalo estourou nos alto-falantes, decretando a pausa letiva. Antes mesmo que o eco metálico morresse na sala de aula, uma mancha bicolor cruzou o espaço. Dante não apenas se levantou; ele se ejetou da carteira e sumiu pela porta numa velocidade que beirava a quebra da barreira do som.

Sentados na fileira de trás, Luck e Chuya sequer piscaram. Acompanharam a fuga do amigo com a mesma expressão de puro tédio.

— Lá vai o cachorrinho de madame do conselho — Chuya murmurou, apoiando o queixo na palma da mão.

— Exato. E pensar que era esse o cara que enchia o peito pra dizer que jamais trocaria os manos por causa de mulher — Luck estalou a língua, balançando a cabeça em uma decepção profunda. — É, Chuya... essa é a triste e patética vida de ser amigo de um cara popular.

Na carteira ao lado, Vivian organizava seus cadernos. Ela parou, lançando um olhar mortal e oblíquo para os dois sociopatas.

— Vocês têm plena consciência de que não estão digitando no Twitter agora, né? O veneno não precisa vazar na vida real.

— Ah, qual é, Vivian. Se a gente estivesse com o celular na mão agora, eu teria adicionado uns três xingamentos inéditos nessa frase — Luck rebateu, na maior tranquilidade do mundo.

Vivian estreitou os olhos, a descrença afundando suas feições.

— É bizarro... Vocês são mesmo amigos do Dante?

Luck e Chuya se viraram para ela, com as feições assumindo uma seriedade sepulcral e ofendida. A resposta veio em uníssono perfeito:

— Óbvio. Nós somos os melhores amigos dele.

Vivian encarou a dupla. O cérebro da garota apenas suspirou em silêncio. Como é que essa dinâmica não resultou em homicídio até hoje?!

Enquanto o julgamento moral rolava na sala, o "cachorrinho" atingia o seu destino.

Bang! A pesada porta de mogno da sala do conselho foi escancarada com um solavanco brutal, batendo contra o batente e tremendo nas dobradiças.

— OI, KIARA! CHEGUEI! BORA JOGAR! — A voz de Dante invadiu o santuário burocrático, carregada de uma energia caótica e absurdamente alta.

Ploft. A caneta-tinteiro escorregou dos dedos de Kiara, manchando o documento oficial. A Princesa de Gelo deu um pulo na cadeira. Um sobressalto genuíno, físico e descontrolado, quebrando a estátua inabalável por um milésimo de segundo. Ela arregalou os olhos, com a respiração travando no susto.

— Que diabos é isso?! — ela disparou, recuperando a compostura e fuzilando o invasor. — Não chega escancarando a porta e gritando como um animal selvagem!

Dante piscou, esfregando a nuca com um sorriso amarelo.

— Foi mal, foi mal. Empolgação. Mas e aí? Vamo jogar ou não vamo?

Kiara suspirou, um sopro longo que exalava a exaustão de lidar com aquela anomalia diária. Ela apontou para as montanhas literais de pastas que erguiam muralhas sobre a mesa presidencial.

— Eu não posso simplesmente parar o ecossistema do colégio para jogar xadrez agora, Dante. Eu ainda tenho uma tonelada de trabalho do conselho para processar.

O brilho nos olhos do garoto morreu.

— Mais trabalho...?

Em um movimento teatral dramático e completamente ridículo, as pernas de Dante cederam. Ele deslizou pelo assoalho de madeira envernizada da sala, escorregando até ficar esparramado no chão como uma gelatina sem ossos, encarando o teto num desespero mudo.

Kiara apenas observou a cena. A expressão de julgamento clínico pairava em seu rosto. Percebendo que o drama não ia comover a máquina, Dante ressuscitou. Ele saltou do chão, batendo a poeira da jaqueta.

— Beleza. Mas, depois que terminar, a gente joga, né?

— Certo. Depois, pode ser. — Kiara cedeu, voltando a pescar a caneta.

Foi então que a sombra de Dante cobriu a mesa. Ele havia marchado até ela. Sem pedir permissão, o garoto estendeu a mão aberta bem em cima dos formulários.

— Dá aqui.

Kiara ergueu o rosto, confusa.

— Dar o quê?

— A papelada. Passa pra cá. Eu vou pegar a metade. Assim a gente acaba logo com isso.

O silêncio reinou. A Princesa de Gelo piscou. E, então, o canto de seus lábios se repuxou para cima. Foi um sorriso microscópico, mas carregado de puro desdém analítico.

— Até parece que o seu cérebro consegue processar e executar metade da minha carga de trabalho, Dante. Eu te dou, no máximo, trinta por cento.

O ego do garoto sofreu um curto-circuito.

— EI! — Dante bateu a mão no peito, a indignação fervendo. — Pra sua informação, eu sou totalmente capaz de fazer absolutamente qualquer coisa que você faz!

Kiara cruzou as mãos sobre o colo, encostando as costas na cadeira de couro. A aura de rainha absoluta inundou a sala.

— Sério? — A voz dela era um veneno doce e letal. — Então vamos aplicar a estatística. Quantas vezes você já ganhou de mim no xadrez até o momento de hoje?

A pergunta foi uma adaga envenenada cravada direto no coração de Dante. O garoto travou. O orgulho engasgou na garganta. Ele desviou o olhar para o rodapé da sala, com a voz saindo como um murmúrio agonizante:

— ... Zero.

A execução continuou implacável.

— E quantas partidas nós já jogamos desde que você começou a me atormentar? — Kiara exigiu.

A dor física consumiu o rosto de Dante.

— Cento... e uma.

Kiara abriu um sorriso triunfante. Não precisava dizer mais uma única palavra. O placar genocida de 101 a 0 encerrava qualquer debate sobre a "capacidade intelectual equiparada" dos dois. Dante bufou, mastigando a própria humilhação em silêncio. Ele não rebateu. Apenas agarrou a pilha que correspondia aos trinta por cento, arrastou uma cadeira para a ponta da mesa, sentou-se de forma bruta e começou a rabiscar as planilhas.

O tempo começou a derreter na sala do conselho. O único barulho era o raspar frenético das canetas contra o papel e o tique-taque do relógio na parede. Imersa na própria burocracia, Kiara começou a desviar o olhar da rota. Ela levantava as pupilas, quase involuntariamente, e focava na figura sentada do outro lado da mesa.

Dante não estava enrolando. Não estava bufando de tédio ou tentando arrumar desculpas para fugir. Ele estava monstruosamente concentrado. O maxilar tenso, os olhos bicolores varrendo os orçamentos dos clubes, a mão preenchendo as planilhas em velocidade máxima. Ele estava suando a camisa por uma burocracia que nem sequer pertencia a ele, apenas para comprar alguns minutos a mais diante de um tabuleiro de xadrez em que ele sabia que seria massacrado de novo.

E foi aí que a falha no sistema de Kiara aconteceu. Sem que nenhum comando consciente fosse dado, os músculos de seu rosto relaxaram. A tensão crônica, o luto, a necessidade doentia de ser um robô inabalável... tudo escorreu para fora do seu corpo. Ela sorriu. Um sorriso real, aquecido e silencioso, que quebrou a máscara da Princesa de Gelo de forma absoluta. Estar na presença daquele idiota não fazia sentido estatístico nenhum, mas era o único lugar no mundo em que ela finalmente conseguia respirar.

Minutos depois, a realidade cobrou atenção.

— Eu vou precisar descer. — Kiara levantou-se, recolhendo uma pasta azul. — Tenho que entregar o orçamento corrigido diretamente no Clube de Arquearia antes do sinal bater.

Dante nem tirou os olhos do papel, com a caneta voando pela folha.

— Relaxa. Pode ir que eu mato o resto dessa pilha aqui no peito.

Kiara caminhou até a porta. Com a mão na maçaneta, ela olhou por cima do ombro. O sorriso involuntário ainda desenhava seu rosto.

— Só faça o favor de não bagunçar os meus arquivos.

Dante ergueu o polegar em um sinal de positivo, mergulhado na matemática do conselho. A porta se fechou. E, enquanto Kiara caminhava pelo corredor rumo à arquearia, pela primeira vez em meses, o silêncio de seus pensamentos não era feito de escuridão. Era feito daquele sorriso que se recusava a sumir.

Parte 4

Os corredores do pavilhão esportivo estavam quase desertos no fim da tarde.

Kiara caminhou até o Clube de Arquearia, entregou os formulários orçamentários corrigidos e aguardou em silêncio. A capitã Kouka pegou os documentos, assinando a papelada final com uma precisão cirúrgica. Mas, ao devolver a prancheta, os olhos afiados da capitã pararam no rosto da presidente do conselho.

— Sabe de uma coisa? — Kouka comentou, com a voz casual, mas carregada de observação aguçada. — É realmente muito raro ver a presidente do conselho sorrindo pelos cantos. Fica bem melhor assim, pra ser sincera.

Kiara travou. O choque foi tão genuíno que seus dedos quase deixaram a prancheta escorregar. Foi só através da observação externa de Kouka que ela percebeu: os músculos do seu rosto ainda sustentavam o sorriso que havia nascido na sala do conselho. Ela piscou. O sorriso morreu instantaneamente, varrido por uma onda de repulsa visceral. Um veneno negro e denso, um sentimento de traição absoluta, começou a inundar o seu peito. Ela se despediu da capitã com a rapidez de quem foge da cena de um crime e começou a marcha de volta para a sala da administração.

A mente de Kiara entrou numa espiral de pânico autoinfligido. É sério isso?, a consciência a esmurrava. Você estava sorrindo? Você estava se divertindo?! Que diabos de ilusão é essa?! Por acaso você já esqueceu o que você jurou fazer? Já esqueceu o seu trabalho?!

As paredes do corredor escolar piscaram, afogadas pela radiação do trauma. A visão do rosto de Isobel ressurgiu na mente de Kiara. A mãe chegava em casa de madrugada, arrastando-se pela sala de estar com olheiras cadavéricas de exaustão, com as pernas falhando até desabar quase inconsciente no chão. Na memória, Kiara era menor. Ela arrastou a mãe para a cama, segurando suas mãos calejadas enquanto chorava em desespero, implorando para que Isobel parasse, que ela não podia continuar trabalhando três turnos naquelas condições, que ela ia morrer. Isobel se ergueu trêmula na cama. A mão afagou os cabelos de Kiara. "Vai ficar tudo bem", a mãe dissera, forçando um sorriso frágil. "Eu não vou deixar você sozinha, meu amor. Eu não vou ficar doente. Eu prometo." Kiara havia sorrido na hora, aliviada. Mas, quando os olhos dela focaram nos da mãe, o alívio virou cinzas.

A verdade estava cravada nas íris negras de Isobel. "Pode relaxar...", a mãe sussurrara, num tom quase delirante de pura obstinação. "Eu ainda posso aguentar. Eu vou continuar fazendo plantões. Eu vou arrancar o dinheiro de onde for para manter as máquinas da sua irmã ligadas. Vou conseguir pagar a cirurgia. Então... por favor, meu anjo... eu sei que a carga está sendo monstruosa pra você, mas, por favor, aguente só mais um pouco. Eu juro por Deus que, em breve, nós voltaremos a ser uma família de novo."

Elas haviam se abraçado. E, no escuro do quarto, molhando o ombro da mãe com lágrimas, Kiara entendeu a matemática do sacrifício. Isobel não ia parar. Ela iria trabalhar até os próprios ossos esfarelarem, até o corpo colapsar de forma irreversível. O único jeito de impedir que a mãe morresse na linha de frente... era assumindo o controle da guerra inteira. Naquela noite, o robô foi forjado. Ela prometeu que seria a coluna de ferro daquela casa. Estudaria mais do que qualquer humano normal. Tiraria as notas perfeitas. Conquistaria a presidência do colégio para garantir o passaporte para o topo da elite acadêmica e financeira de Alexandria. Ela salvaria a mãe. Ela salvaria a irmã. Ela absorveria a dor do universo para que a família pudesse voltar a sorrir.

O corredor do colégio reacendeu nos olhos de Kiara. A raiva contra si mesma era vulcânica. E agora, olha para você, o robô acusava a garota. Se deixando distrair. Se deixando iludir e amolecer por causa daquele idiota. Pela porcaria de um sorriso!

Os passos de Kiara ficaram duros. A cadência metálica da Princesa de Gelo assumiu o controle novamente. A blindagem emocional foi reativada, com o olhar voltando a ser um par de pedras de gelo cegas. A determinação estava inteira. E exigia sacrifícios. Eu não posso criar distrações na engrenagem. Ela cerrou os dentes, dobrando o corredor. Eu não posso me dar ao luxo dessa ilusão confortável. Eu preciso continuar a caminhada sozinha, não importa o quanto as minhas costas queimem.

A decisão estava selada. Eu vou entrar naquela sala e vou mandá-lo embora. Vou dizer que é contra as regras do conselho a presença de alunos não eleitos no comitê. Vou dizer que ele está atrapalhando.

A maçaneta dourada da sala do conselho surgiu. Kiara puxou o oxigênio e encheu os pulmões. Era a decisão mais pesada e amarga que já tivera que engolir, mas o sacrifício era imperativo. Ela girou a maçaneta e empurrou a porta.

O ar da sala estava parado. A mesa presidencial, iluminada pela luz do entardecer, estava completamente vazia. Não havia Dante.

Kiara travou. Ela entrou na sala de forma hesitante, com os olhos varrendo os sofás, a mesa, os cantos escuros. Nada. O silêncio da burocracia era absoluto. No exato segundo em que o cérebro acusou o sumiço, a determinação de ferro que ela acabara de forjar no corredor simplesmente... esfarelou. O desespero afogou a razão. Onde ele foi? Onde ele tá? Será que eu demorei demais? Será que o trabalho o esgotou de vez e ele desistiu e foi embora pra casa?

A fobia do abandono. O terror microscópico de ter sido deixada para trás naquele abismo de papelada sozinha de novo foi tão absurdamente esmagador que a racionalidade da Princesa de Gelo quebrou por completo. Ela deu meia-volta e disparou. Começou a correr de volta para a porta, decidida a esquecer as regras, a rasgar o isolamento, a varrer a responsabilidade e correr pelos corredores para gritar o nome dele e pedir para que ele voltasse. Ela ia jogar as promessas no asfalto apenas para não ficar sozinha naquele exato segundo.

Mas, antes que ela pudesse atravessar a porta, uma sombra virou o corredor.

Bump. O impacto foi leve, mas o barulho da louça chacoalhando assustou os dois. Dante estava parado na entrada, segurando uma bandeja de metal com um bule fumegante de café e um pacote recém-aberto de biscoitos da máquina de vendas.

— Ah, você já voltou — o garoto ergueu as sobrancelhas, equilibrando a bandeja com maestria. — Eu aproveitei a pausa e fui ao bloco dos professores arrumar um café pra nós, porque eu vi que a pilha de planilhas de finanças ainda é absurda.

Kiara paralisou. A tempestade de emoções que a chicoteava havia acabado de bater na montanha inabalável de tranquilidade dele. As pernas de Kiara cederam. A adrenalina sumiu, deixando um vácuo no lugar. Ela agarrou o tecido da camisa de Dante com as duas mãos, o corpo inclinando-se para a frente, sentindo que ia derreter ali mesmo, chorando até não sobrar mais nada.

— Ei, ei, ei... o que foi? — Dante piscou, baixando o rosto com cuidado, tenso, duvidando se a tinha machucado no esbarrão ou se algo gravíssimo havia acontecido.

Kiara sentiu o ardor nas pálpebras. Ela ia quebrar. Não. Não seja patética. A mente dela tentou colar os cacos. Não é essa a muralha inabalável que a sua mãe precisa que você seja. Ela mordeu a ponta da própria língua até o gosto de sangue invadir a boca, usando a dor física para espantar as lágrimas. A garota juntou até o último pingo da força muscular e puxou a gola dele.

— SEU IDIOTA! — ela gritou a plenos pulmões, e desferiu uma cabeçada brutal.

Crack!

O topo da testa de Kiara chocou-se diretamente contra o queixo de Dante. O garoto travou os dentes, com as veias saltando no pescoço para não urrar de dor e para não deixar a bandeja de café voar pelo corredor. Aproveitando o baque tonto dele, Kiara empurrou o corpo de Dante, virou-se de costas numa velocidade que impedia que ele visse os olhos injetados dela, e marchou de volta para a sua cadeira.

— Que diabos de ideia é essa de sair da sala do conselho sem me avisar, seu idiota?! — a voz dela ecoou forte e afiada, recompondo a máscara ditatorial.

Dante entrou na sala esfregando o queixo castigado com a mão livre, com os olhos marejados de pura dor mandibular.

— Au... era pra isso tudo?! Foi mal, caramba. Bateu uma fome do nada.

Kiara não olhou para ele. Ela cruzou os braços e encarou a parede.

— É bom que não faça mais isso. Ouviu?

Dante riu, massageando o maxilar, pouco se importando com o escândalo.

— Tá, tá. Entendido, chefe.

— Não responda com "tá, tá" — a voz dela vacilou milimetricamente, carregada de um peso irracional. — Isso é uma promessa. Tá me entendendo, Dante?

Dante abaixou a mão do queixo. Ele observou as costas dela. O radar dele captou a minúscula contração nos ombros de Kiara, o leve tremor na mão que apertava o próprio braço. Ele era displicente, mas não era burro. Sabia muito bem ler a fragilidade que ela tentava acorrentar. Ele não forçaria a barra. Não pediria para ela se virar e não confrontaria os sentimentos dela. Porque, no fundo, ele sabia que não tinha o direito de arrancar os escudos que a mantinham viva.

— Eu prometo — Dante falou. A voz dele perdeu a piada. Era firme, profunda e sincera, ancorando o mundo caótico. — Afinal de contas, eu não pretendo arredar o pé daqui até concluir a minha vingança por você ter estilhaçado o meu nariz no pátio. Eu só saio dessa sala quando te humilhar no tabuleiro. E, por acaso, você acha que isso tá perto de acontecer?

Kiara levou o dedo até a bochecha e limpou a lágrima rala, invisível para ele. Um sorriso verdadeiro, desafiador e leve puxou seus lábios enquanto ela mantinha as costas viradas.

— Considerando as estatísticas atuais... eu acho que você vai envelhecer e morrer enterrado nessa sala — ela deu uma risada baixa, irônica.

— Aí já é pura maldade da sua parte, pô!

Dante sentou-se na cadeira à frente dela, puxando os documentos. O som da caneta voltou a arranhar o papel. E, enquanto os dois voltavam a ser apenas dois adolescentes atolados em deveres escolares, Kiara deixou a mente descansar.

Tudo bem... só mais um pouco. A engrenagem aceitou o acordo silencioso com a própria consciência. Eu não mudei. Eu não joguei a minha promessa fora. Eu apenas vou aproveitar esse vácuo e essa paz na minha cabeça... só enquanto esse idiota teimoso decidir ficar. O café foi servido. E o tempo recomeçou a fluir.

Parte 5

Os dias escorreram como água pelas engrenagens de Nova Astris.

À medida que o outono sangrou para o inverno, a dinâmica na sala do conselho se consolidou numa rotina bizarra. A guerra fria no tabuleiro de xadrez havia se tornado diária. E, no meio desse fogo cruzado, Dante acabou tão absurdamente enraizado nas engrenagens burocráticas do comitê — mesmo sem possuir uma única gota de autoridade formal — que as lendas urbanas do colégio começaram a sofrer mutações.

Nos fóruns, os boatos ganharam vida própria: falavam sobre o "Membro Fantasma Inverso", sussurravam sobre um "Conselheiro das Sombras", e as teorias da conspiração escalaram até o ponto em que alguns juravam, com absoluta certeza, que ele era o filho bastardo do diretor Aleister — uma insanidade que não tinha a menor base na realidade.

Naquela tarde, o céu de vidro da metrópole já exibia o cinza denso do inverno incipiente. Na sala administrativa, o único som era a fricção das canetas contra o papel. Dante estava esparramado em sua cadeira na ponta da mesa, de frente para Kiara, aniquilando a sua parcela de relatórios para poder cobrar o dízimo diário em formato de xadrez.

— Ei. — A voz de Dante quebrou a monotonia.

A Princesa de Gelo não levantou o rosto. Seus olhos monocromáticos continuaram varrendo a coluna de números.

Já perfeitamente vacinada contra a natureza caótica dele, ela respondeu de forma automática:

— O que foi agora?

— Imagina o seguinte cenário. — Dante encostou as costas na cadeira, com a caneta girando entre os dedos com uma destreza letal. — Você entra numa lanchonete, bate no balcão e pede uma porção de frango frito. Tudo normal. Mas, na hora em que a atendente vira pra você e entrega a maquininha de cartão, o visor tá cobrando cento e vinte reais. Qual é o seu protocolo de ação?

A caneta de Kiara estancou. Tap. Tap. A ponta de metal bateu duas vezes contra o mogno da mesa. O processamento lógico dela engatou.

— Eu diria diretamente à atendente que há algo errado — Kiara respondeu, em tom clínico. — É só uma porção de frango frito. Não existe lógica de mercado para custar tudo isso.

— Pois é, né? O cálculo não bate. — Dante sorriu, voltando a rabiscar o relatório.

Kiara ergueu os olhos, a curiosidade perfurando a estátua de gelo.

— De qual buraco da sua mente você tirou isso do nada?

— É que, nesse fim de semana, eu arrastei o Chuya e o Luck até o shopping pra gente ver aquele lançamento no cinema, do Dragon Soul. Na praça de alimentação, eu encostei num balcão e pedi um frango. E a atendente simplesmente cravou cento e vinte contos na tela pra mim.

As sobrancelhas de Kiara se ergueram milimetricamente.

— E ela teve coragem de cobrar isso? Isso é um assalto à mão armada.

Dante deu de ombros, exibindo aquela maturidade desleixada e quase irresponsável que lhe era tão natural.

— Exato. Foi o que o meu cérebro apitou. Mas, pensa comigo... eu já tinha feito o pedido. Puxar briga e causar uma comoção na fila no meio da praça de alimentação parecia um saco, dava preguiça demais. Além do mais, a falha foi minha por não ter checado o valor no cardápio antes de abrir a boca.

— Então você simplesmente enfiou a mão no bolso e pagou sem questionar a extorsão? — O tom de Kiara beirava a descrença.

— Quase. — Dante riu pelo nariz. — Quando eu puxei as notas da carteira e estendi pra pagar o absurdo, a atendente arregalou os olhos, deu um tapa na própria testa e disse: "Ah, nossa, perdão! Eu bati um zero a mais. São só vinte reais".

— Bom, a matemática voltou a fazer sentido.

— Sim, mas você concorda que o erro humano, na base, foi exclusivamente dela, não é?

— Lógico. A própria funcionária admitiu a falha.

— Pois é. Essa é a grande questão. — Dante apoiou o queixo na mão, o sorriso canalha se estreitando. — Porque, na hora em que eu entreguei os vinte e virei as costas, eu escutei claramente a garota dar uma risadinha debochada da minha cara por eu quase ter pago os cento e vinte sem falar nada.

O senso de justiça rígido de Kiara estalou.

— Mas que audácia absolutamente rude.

— E sabe o que é pior? — Dante arqueou uma sobrancelha. Kiara manteve o silêncio inquisitivo. — O Chuya e o Luck estavam a dois metros de distância, assistindo ao circo inteiro. Eles passaram o maldito resto do dia apontando o dedo na minha cara e rindo da minha humilhação.

Kiara ficou estática. A imagem mental do "lobo mau" do colégio sendo esmagado pela economia básica e ridicularizado pelos próprios idiotas que chamava de amigos forçou uma falha no seu sistema. Um som curto, cristalino e involuntário escapou de seus lábios. Uma risada minúscula.

Os olhos de Dante brilharam instantaneamente. Ele apontou a caneta na direção dela.

— Ah! Aí! Você riu também! Tá vendo só a crueldade?!

Kiara limpou a garganta, recompondo rapidamente o termostato da sala, mas a severidade nos olhos havia derretido.

— É sério. Analisando tudo o que você me disse até hoje, eu honestamente não consigo entender como você virou amigo daqueles dois.

— Acredite na minha palavra... nem eu sei. — Dante balançou a cabeça, derrotado, e o silêncio burocrático engoliu a sala novamente.

O papel raspava sob as canetas, mas a conversa apenas mudou de frequência.

— Eu vi as novas atualizações da sua ficha criminal no fórum do colégio — Kiara comentou, sem levantar a cabeça.

— Humm. E qual delas?

— A do tarado que foi visto correndo sem camisa bem na frente do banheiro feminino.

Dante soltou um suspiro longo, com a paciência escorrendo pelo ralo.

— Isso foi a praga do Chuya. Ele simplesmente sequestrou a blusa do meu uniforme logo depois da aula de educação física e disse que ia amarrar a camisa num cabo de vassoura pra criar a bandeira de uma "nova nação independente" que ele tava fundando no pátio. Eu saí correndo no corredor pra recuperar as minhas roupas antes que a inspetora visse. A perseguição apenas calhou de cruzar a porta do vestiário das garotas. Mas eu não estava tentando invadir nada.

— Eu já tinha chegado a essa conclusão. Suspeitei desde o início que a base desse rumor seria uma idiotice primária dessa magnitude.

Dante fez bico, ofendido com a frieza.

— Poxa, e você nem pra me dar umas palavras de consolo depois de eu ter sido taxado de pervertido nacional pela internet inteira?

— Você é quem insiste em chamá-los de amigos. Arque com as consequências. — Kiara foi cirúrgica, os olhos voltando aos papéis. — E quanto ao flagrante de terem visto você acompanhado do "Príncipe do Colégio" no shopping?

Dante não hesitou. Ele cravou os olhos nas planilhas, operando na mais pura tranquilidade, alheio ao campo minado em que acabara de pisar.

— Ah, a da Ludmilla. Isso é real. Eu tinha combinado com ela de irmos caçar um presente de aniversário decente pra tia dela. Era só uma saída de amigos, um favor. Mas os ratos do fórum foram implacáveis. "Traidor", "Galinha", "Pula-Cerca".

Todo aquele vocabulário venenoso. Kiara piscou devagar.

— É...

— Se bem que... — Dante riu. — Eu aposto as minhas botas que uns oitenta por cento daqueles comentários de ódio vieram direto do Chuya e do Luck farmando engajamento falso.

A caneta de Kiara parou. O tom de voz da garota desceu alguns graus Celsius.

— Mas e aí? Como foi? Vocês foram com mais alguém do time?

— Não. Só nós dois mesmo.

A pressão atmosférica na sala do conselho sofreu um impacto sutil.

— E vocês foram lá exclusivamente para efetuar a compra do presente?

Dante girou os ombros, estalando o pescoço. O garoto mantinha aquela confiança inabalável que exalava de seus poros, sem perceber que a sala estava esfriando rápido.

— Ah, não. Já que a gente tava lá, aproveitamos a viagem e esticamos pra ver um filme no cinema depois.

— E foi divertido?

— Foi. Foi bem legal.

Clack. Kiara carimbou o documento final com uma força levemente desproporcional. A madeira da mesa estremeceu. Ela juntou os papéis, o rosto assumindo uma perfeição inexpressiva e absolutamente assustadora.

— Que bom pra você... — ela sibilou, com os olhos escuros fuzilando o garoto à sua frente. — Pula-cerca safado.

A espinha de Dante gelou. A piada bateu numa muralha intransponível. Ele ergueu as mãos em sinal de rendição, o sorriso nervoso despontando.

— Ah, qual é... não me diz que você vai adotar o vocabulário da turma com tochas também!

— Vai demorar muito pra você terminar as suas obrigações? — Kiara atalhou, a voz cortando o ar como uma lâmina. — Nós já atrasamos demais o cronograma. Está na hora da partida.

Dante recolheu a última folha num piscar de olhos.

— Acabei! Partiu!

Ele saltou da cadeira, girando sobre os calcanhares para arrastar a mesinha e o tabuleiro de madeira encostados na escrivaninha lateral. O vento frio do inverno castigava os vidros da janela do conselho. Dante ajeitou os peões, esfregando as mãos para espantar o frio enquanto lançava um olhar enigmático para Kiara, que estava sentada com uma aura mortal.

— Sabe de uma coisa... — Dante murmurou, um sorriso maroto desenhando-se em seu rosto enquanto ele estudava a fúria fria nos olhos dela. — A gente deveria seriamente requisitar verba pra comprar um kotatsu. Porque tá começando a ficar absurdamente frio aqui dentro.

Parte 6

Os dias foram devorados pelo calendário. O inverno de Nova Astris não era apenas uma estação climática; era uma navalha térmica que cortava até os ossos, transformando os corredores do colégio em túneis de vento ártico.

Mas, dentro da sala do conselho estudantil, a biosfera era outra.

— Nossa... que paraíso — a voz arrastada de Chuya ecoou abafada. Ele suspirou, um som pesado e preguiçoso. — Agora, sim. Dá pra hibernar e dormir até a morte chegar. Que coisa absurda de gostosa.

Na cadeira presidencial, mantendo a postura de uma estátua de gelo perfeitamente alinhada, Kiara apertou a ponte do nariz. Seus olhos desceram para o centro da sala. Lá estava o kotatsu — uma mesa baixa de madeira coberta por um edredom grosso e equipada com um aquecedor elétrico. E, enfiados até o pescoço debaixo da coberta, estavam Dante, Chuya e Luck.

— O que diabos esses dois estão fazendo aqui? — a voz de Kiara cortou o ambiente, estéril e carregada de julgamento.

Dante, que estava com uma prancheta apoiada nas pernas debaixo da mesa térmica, ergueu os olhos bicolores, abrindo um sorriso culpado.

— Falha no sistema. Eu comentei com eles que a gente tinha rachado a compra de um kotatsu pra sala do conselho. Os dois viraram cães farejadores. Simplesmente me seguiram pelo corredor e invadiram.

— Qual é, presidente! — Luck protestou, apenas a cabeça ruiva para fora do edredom. — Seria de um egoísmo desumano só vocês dois aproveitarem essa mesa radioativa de calor num frio desgraçado desses!

Chuya, já com os olhos semicerrados e a consciência falhando, resmungou:

— Isso aí... bando de mesquinhos.

Kiara fuzilou os três com o olhar.

— Além do mais — Luck continuou, argumentando como um advogado de defesa barato —, as nossas aulas da tarde foram canceladas. E não se esqueça de que a gente te emprestou o Dante esse tempo todo sem cobrar nenhuma taxa de aluguel!

— Exato — Chuya bocejou. — A gente deixou você passear com ele sozinha até agora. Pura caridade.

A caneta de Dante parou. Ele girou o pescoço, encarando os dois amigos com uma expressão assassina e ofendida.

— Por acaso vocês me enxergam como uma propriedade intelectual ou como a porra de um cachorro?!

Kiara soltou um suspiro longo, exausto. O cérebro dela calculou que expulsá-los daria mais trabalho calórico do que ignorá-los.

— Tanto faz. Só não façam barulho.

— Entendido, chefe — os intrusos responderam em uníssono. O silêncio burocrático reinou.

Ou quase.

— Ei... — Chuya quebrou a paz, com a voz letárgica flutuando no ar quente. — Vocês já repararam que as mulheres são cheias de frescura?

As cabeças de Luck e Dante chicotearam na direção dele no mesmo milésimo de segundo. O pânico gelou o sangue de ambos.

— Ei, ei, ei! — Dante arregalou os olhos, sibilando. — Desliga o modo machista agora, seu suicida! Por acaso esqueceu que a presidente absoluta do colégio é mulher e tá sentada a três metros da gente?!

Eles giraram os rostos, apavorados. Kiara ergueu as pupilas por um segundo, com o olhar afiado feito vidro moído, e voltou a anotar as planilhas, cagando solenemente para a existência deles. Chuya sentiu a pressão atmosférica, mas o cérebro dele não processou o perigo.

— Que papo é esse de machista, caralho?! De onde vocês tiraram isso?

— Ah, sei lá, de repente do fato de você ter aberto a boca pra chamar o gênero inteiro de fresco?! — Dante ironizou, pronto para estrangulá-lo.

— Eu não falei por mal! — Chuya se defendeu. — É que a Vivian tava comentando outro dia como acha bizarro o fato de a gente se chamar de amigo e viver se atacando, trocando ofensa e soco toda hora. Foi aí que eu reparei. As garotas não fazem isso. Elas preferem não dizer a verdade pra amiga. Se a mina tá feia, elas deixam a garota sair na rua parecendo um filhote de cruz-credo em vez de olhar na cara dela e dizer: "Ei, cão, vai se arrumar". Tudo porque uma verdade dessas arruinaria a amizade de papel delas na hora.

Luck coçou o queixo, avaliando o raciocínio.

— Tirando o fato de que você elaborou essa tese da forma mais sociopata e grosseira possível... eu acho que consegui captar a lógica.

— É sério, Chuya. — Dante balançou a cabeça, assumindo uma postura madura. — Você precisa urgentemente de um filtro entre o cérebro e a boca.

Luck estufou o peito, ajeitando a gola do uniforme para soar intelectual.

— Mas pensem bem, é a biologia. As mulheres possuem uma rede neural mais conectada aos sentimentos. Elas são intelectualmente refinadas; então, emocionalmente, qualquer atrito bate mais forte e machuca o ego.

O silêncio desceu sobre o kotatsu. Dante e Chuya encararam Luck. A tensão se sustentou por três segundos antes que os dois não aguentassem e estourassem numa gargalhada ensurdecedora.

— HAHAHAHA! Olha isso! — Dante bateu na mesa, limpando uma lágrima. — O cara tá treinando discurso pra pegar alguém no fim de semana!

— É tão óbvio quando ele tá tentando impressionar garota que chega a dar nojo! — Chuya riu até tossir.

O rosto de Luck ferveu num vermelho violento.

— QUE PAPO É ESSE, SEUS IDIOTAS?! EU TÔ RESPONDENDO A DROGA DA PERGUNTA COM CIÊNCIA!

— Claro, mademoiselle. — Dante fez uma reverência irônica debaixo das cobertas. — Se quiser, o Chuya pode recitar um poema sobre como os homens são ogros descuidados também.

Luck balançou a cabeça, derrotado.

— É exatamente por causa dessa imaturidade que vocês vão morrer velhos e sozinhos.

Chuya apoiou o queixo no tampo da mesa, com a voz monótona e anestesiada de sempre:

— Fale por você. Saiba que eu me confessei ontem.

A risada de Dante e Luck morreu na garganta. O sistema de ambos travou.

— Como é que é?! — Dante engasgou. — Você se confessou pra quem?!

— Pra Miguel. É óbvio.

O silêncio na sala foi absoluto. O choque era tão denso que quase dava para cortar com uma faca.

— Meu Deus... — Dante levou a mão ao rosto, fingindo enxugar uma lágrima de emoção paterna. — Esse é o meu garoto. As crianças crescem tão rápido... achei que ia morrer virgem.

— Sério que logo você vai falar isso pra mim?

— Mas e aí?! — Luck chacoalhou o ombro do preguiçoso. — Como é que foi a tática?!

— Normal. — Chuya deu de ombros, como se estivesse relatando uma ida ao mercado. — Esses dias eu tava voltando com ela pra casa. Eu parei no meio da calçada, olhei pra cara dela e soltei: "Ei, Miguel. Você quer namorar comigo?".

Dante e Luck ficaram estáticos. Nenhuma reação. Nenhuma palavra. A falta de romantismo os deixou em choque tátil. Até Chuya se calou, sentindo que faltou algo na explicação. E foi aí que o protocolo foi quebrado. Lá no fundo, a presidente do conselho não aguentou. A sobrancelha de Kiara subiu e a curiosidade esmagou a frieza.

— Espera... e o que aconteceu depois?

Dante arregalou os olhos e ergueu a mão para Kiara, suando frio.

— Calma, Kiara! Freia aí! Isso é o código de honra masculino! Não se pergunta uma parada dessas!

— Por que não? — A garota tombou a cabeça.

— Porque é estatisticamente óbvio que o cara foi brutalmente rejeitado! — Luck sussurrou de forma ruidosa. — Não queremos pisotear a pouca coragem que restou no coração do guerreiro!

Chuya fuzilou os dois idiotas com o olhar.

— Pera aí, seus malditos! Por que vocês têm tanta certeza absoluta de que eu fui rejeitado?!

Os dois o encararam, esperando.

— Então... ela aceitou? — Dante perguntou, incerto.

— Claro que aceitou. Tamo namorando.

Dante bateu as mãos na mesa.

— Então por que caralhos você parou a porcaria da história no meio do clímax ao invés de se gabar, seu animal?!

Chuya desviou o olhar, com a vergonha batendo de forma atrasada.

— É que... antes de aceitar, ela me olhou de cima a baixo com uma cara de pura confusão e mandou um: "Isso não combina nem um pouco com você".

A sala explodiu. Dante e Luck gargalharam tão alto que os vidros da janela vibraram. Até Kiara não conseguiu segurar. Um sorriso genuíno e rápido escapou de seus lábios, antes que ela voltasse a escondê-lo atrás da papelada.

Luck se espreguiçou, rindo.

— Relaxa, irmão. Pelo menos a rota deu final feliz. Não é como o Dante...

O sorriso de Dante despencou. O radar de caça ativou.

— O que você quer dizer com isso?

Luck virou o rosto para ele, com o veneno voltando.

— Você sabe muito bem. Eu só tô me perguntando até quando você vai ficar aí, plantado e cercado de garotas, mas com zero progresso em qualquer uma das rotas.

— Sai dessa, Luck. Não é assim, e você sabe muito bem disso. — Dante tentou desconversar.

— Ééééé...

O ar da sala congelou. Não era o frio do inverno. A temperatura caiu uns vinte graus de forma letal. Dante sentiu um calafrio rasgar a base da sua nuca. As costas de Kiara estavam viradas para ele, mas a pressão atmosférica e a aura hostil emanando dela o acertaram como a mira de um fuzil de precisão. Ela não precisou dizer uma única palavra.

Alerta vermelho. O instinto de sobrevivência de Dante gritou.

— Ah, é verdade! — Dante berrou, mudando de assunto com a sutileza de uma britadeira. — Vocês viram o último episódio daquele anime, o Horikun?! Aquele focado no kotatsu?!

Chuya, com sono, embarcou sem perceber.

— Ah... vi, sim. O da semana passada foi muito bom.

— Mó roteiro idiota! — Luck entrou no embalo. — Como é que os caras dormem debaixo do kotatsu com as pernas entrelaçadas e de manhã ficam presos lá, morrendo de dor?! Qual é, a física disso nem faz sentido! Hahahaha!

A conversa derivou para o anime, e a intenção assassina de Kiara recuou para as planilhas.

Algumas horas se esgotaram. O sol de inverno despencou. Na mesa de trabalho, Kiara estava selando a última pasta. Ela ergueu a cabeça e olhou para o chão. Debaixo do kotatsu, Dante ergueu o rosto, piscando devagar, com o cabelo amassado de um lado.

— Zzz... caramba... eu caí no sono.

— Percebi — Kiara disse, em tom pragmático. — Faltam apenas esses dez registros para eu fechar a cota e liberar a sala. O que vai fazer hoje?

Dante sorriu, esfregando o olho.

— Ah, então já manda a metade pra cá que a gen...

Bzzzt. Ele tentou se apoiar para levantar.

— AAAAAAAARGH!

Um grito gutural, digno de filme de terror, rasgou a garganta de Dante. Kiara deu um pulo na cadeira. Ela o encarou em choque, confusa, enquanto o garoto suava frio, com os dentes trincados, a mão agarrando a beirada do kotatsu. Isso é só brincadeira?!

O berro acordou a retaguarda.

— Que porra é essa?! — Luck e Chuya tentaram se levantar, assustados. — Que grito foi es...

— NÃO! GENTE, NÃO MEXAM AS PERNAS! — Dante berrou, com os olhos arregalados em puro terror tático.

O aviso veio um milésimo de segundo atrasado. Luck e Chuya apoiaram os joelhos para sair.

— UÓÓÓÓÓÓÓ! — Os dois urraram de dor simultaneamente, desabando de volta no tapete como sacos de batata.

Kiara franziu a testa, com os olhos descendo para o edredom do kotatsu. O cérebro dela calculou a geometria do espaço confinado e o tempo que eles ficaram apagados. Não pode ser...

— As pernas... — Dante engasgou, a voz tremendo de dor. — A gente dormiu com elas todas embaralhadas, uns por cima dos outros. O fluxo de sangue cortou. Elas tão formigando pra porra! São milhões de agulhas perfurando a minha carne!

— Eu vou morrer! — Luck choramingou, abraçando o próprio joelho dormente.

O silêncio do escritório voltou, interrompido apenas pelos gemidos patéticos de três garotos agonizando sob uma coberta térmica. A Princesa de Gelo os observou do topo de sua mesa. Um olhar que misturava a mais pura incredulidade biológica com o desdém de quem enxerga insetos defeituosos se debatendo no chão. Sem um pingo de pena, Kiara puxou o último relatório.

— Então morram em silêncio, por favor. 

Parte 7

O tabuleiro de madeira não era um passatempo. Era uma trincheira de guerra fria.

Mais alguns dias haviam sido esmagados pela rotina de Nova Astris. Sob a luz amarela das lâmpadas do conselho, a partida rotineira atingia o seu clímax. Kiara avançou o bispo. Uma manobra clínica, silenciosa e projetada para asfixiar o rei adversário em três turnos. Mas, antes que o dedo dela deixasse a peça de marfim, a mão de Dante chicoteou sobre o tabuleiro.

Clack. O cavalo dele interceptou a rota.

O olhar de Kiara tremeu milimetricamente. Ela recalculou a rota e deslizou a rainha. Clack. A torre de Dante bloqueou o flanco.

O garoto de cabelos bicolores não estava recuando. Ele estava sorrindo. O brilho predatório e insano em suas íris estava aceso em capacidade máxima.

— Já vi isso — Dante murmurou, com a voz vibrando de pura adrenalina. — Você tentou essa mesma armadilha de estrangulamento trinta e duas partidas atrás. Eu te disse, Princesa. Dessa vez não vai ser tão fácil. Eu não vou deixar você respirar.

A sala inteira pareceu encolher. A pressão atmosférica desabou sobre o tabuleiro. Dante não estava apenas jogando; ele estava antecipando. Ele estava lendo o código-fonte da Rainha do Xadrez, bloqueando rotas de fuga antes mesmo que ela tomasse a decisão de usá-las.

O cérebro de Kiara superaqueceu. O processamento tático entrou em overdrive. A muralha que ela construía com lógica pura estava sendo infiltrada pelo mais puro e grotesco instinto de adaptação animal. Ela cerrou os dentes. Não. Eu não vou perder o meu trono no meu próprio domínio. A mão pálida dela pairou sobre o tabuleiro. Com um sacrifício absurdo e contraintuitivo, ela entregou a própria rainha aos leões.

O sorriso de Dante travou. O cálculo dele explodiu. O vácuo deixado pela rainha abriu a linha de tiro perfeita para um peão insignificante que ele havia ignorado dez rodadas atrás.

Clack! A base da peça bateu contra a madeira com a força de um tiro de misericórdia.

— Xeque-mate — a voz de Kiara cortou a sala, fria, executando a sentença.

O corpo de Dante desabou contra o encosto da cadeira. Ele jogou a cabeça para trás, encarando o teto com uma frustração agonizante.

— AAAAAAAH! MENTIRA! — O garoto esfregou o rosto violentamente. — É sério isso?! Eu passei um tempão matutando essa nova estratégia lá em casa! Eu mapeei os seus ataques! Como é que você me dá o bote com um maldito peão?!

Enquanto o garoto espumava de indignação, Kiara levantou-se da mesa. Ela marchou até o filtro de água no canto da sala. Pegou um copo de plástico. Suas mãos estavam tremendo. Uma fina camada de suor frio umedecia a base de sua nuca. Foi por pouco. A mente dela arfava, o coração espancando as costelas num ritmo que ela odiava admitir. Foi estupidamente por pouco. No início, ele era só um novato suicida que atirava as peças pra todos os lados... mas agora? A capacidade de evolução desse idiota é uma aberração biológica. Ele quase implodiu a minha defesa perfeita.

Ela virou o copo de água de uma vez, usando o frio para resetar o próprio sistema nervoso, e voltou para a cadeira presidencial.

— Revanche! — Dante já estava remontando o tabuleiro na velocidade da luz. — Revanche imediata! Eu já vi a falha. Puxa as brancas, eu vou te esmagar agora!

Kiara parou diante da mesa. Ela não se sentou. A aura de adversária de jogo sumiu, sendo instantaneamente substituída por uma parede de gelo absoluto. A mudança de densidade no ar foi tão brusca que Dante parou com um peão pairando no ar.

— A partir de hoje, nós faremos uma pausa nas partidas. — O tom era inegociável. Militar.

Dante piscou, com a frustração virando pura confusão.

— O quê? Pausa? Por que do nada?

— Porque o Campeonato Nacional de Xadrez está batendo na porta. — Kiara cruzou os braços, com a postura ereta e inabalável. — Eu passei as últimas duas semanas agilizando toda a burocracia pesada do conselho e espremendo a minha própria agenda justamente para ter tempo livre de sobra agora. E eu vou usar esse tempo para estudar novas táticas e blindar o meu sistema. Logo... eu não posso mais me dar ao luxo de ficar brincando de tabuleiro com você.

A rejeição soou ríspida. Crua. A garota preparou a armadura, esperando que ele bufasse, gritasse, jogasse na cara dela que estava com medo de perder, ou fizesse o seu habitual escândalo insuportável de criança mimada.

Mas o escândalo não veio. Dante baixou a mão. O peão tocou a madeira sem fazer barulho. O olhar infantil desapareceu do rosto do garoto. Aquele sorriso afiado, letalmente compreensivo e maduro que ele reservava para raras ocasiões tomou conta de suas feições. Ele olhou para o calendário na parede e, depois, para Kiara.

— É sério? O torneio já chegou? — Dante assentiu devagar, escorando o queixo na mão. — Entendi. Então, beleza. Não há o que fazer. Se é pro seu campo de batalha oficial, o treinamento aqui tá suspenso. — Ele apontou o polegar para a mesa térmica no canto da sala. — Mas fica o aviso: eu vou continuar aparecendo aqui todo dia pra comer biscoito e hibernar debaixo daquele kotatsu. A jurisdição da mesa é minha.

O cérebro de Kiara engasgou. Ela ficou parada, encarando a tranquilidade dele. Que atitude bizarra. Eu jurava que seria mil vezes mais difícil convencer esse parasita teimoso a aceitar uma pausa. A aceitação imediata e madura dele gerava um ruído enorme no diagnóstico que ela tinha sobre a personalidade do garoto. Mas ela não tinha tempo para investigar aquele curto-circuito. Kiara soltou o oxigênio reprimido, assentiu secamente e sentou-se. Concentrou a mente onde devia: no primeiro lugar absoluto. Não havia margem para perder.

Os dias que se seguiram confirmaram a promessa. As partidas de xadrez haviam cessado, mas a presença, não. Dante continuava cruzando a porta da sala do conselho todos os dias. Sem um motivo formal, sem um pretexto de jogo. Ele apenas aparecia, jogava a mochila num canto, afundava no kotatsu e preenchia o vácuo da sala com fofocas inúteis, perguntas sociológicas ridículas ou simplesmente o som de sua respiração enquanto dormia.

O cérebro de Kiara focava nos diagramas de mestres enxadristas, mas o seu radar biológico havia sido corrompido. Ela se adaptara. A Princesa de Gelo, que por anos construiu o seu império no mais puro isolamento e silêncio... simplesmente havia esquecido como era a acústica daquela sala sem a presença caótica de Dante ao fundo.

A contagem regressiva zerou. O ar de Nova Astris congelou de expectativa. O dia da glória ou da ruína despontou. O dia do Grande Torneio de Xadrez finalmente havia chegado.

Parte 8

O pavilhão de Nova Astris que sediaria o Torneio Mundial era colossal, mas o corredor que levava aos vestiários parecia um túnel de vácuo.

Kiara caminhava em linha reta. O som das próprias solas batendo contra o piso polido ecoava num ritmo cirúrgico, mas o silêncio da sua mente havia sido rompido há muito tempo. A barreira estava vazando.

A cada passo pelo corredor escuro, flashes esquizofrênicos da própria vida piscavam no seu campo de visão. Os dias caóticos que Dante havia forçado sobre ela nos últimos meses — as risadas histéricas dos idiotas do colégio, a fúria irracional das partidas de xadrez — se chocavam violentamente contra as raízes da sua própria formação. A visão cadavérica de Stella nas máquinas do hospital. Os olhos inchados da mãe.

Kiara piscou, e a lembrança mais antiga de todas emergiu. A memória de um tabuleiro pequeno, iluminado pela luz amarela da sala de estar. Ela era criança. Jogava contra Isobel, a mãe. O som das risadas misturando-se ao barulho das peças. Naquela época, o xadrez era só isso: brincadeira, conexão, um refúgio quente.

Tudo morreu quando o diagnóstico caiu. No ensino fundamental, a armadura da Princesa de Gelo já havia congelado suas feições. O jogo de tabuleiro virara uma mecânica inútil, até o momento em que a escola a inscreveu num torneio por puro capricho acadêmico. Ela não se importava com glória. Mas, nas entrelinhas do edital, havia uma promessa mágica: o prêmio em dinheiro. Ela varreu a competição com a apatia de quem pisa em formigas. Mas a epifania verdadeira não veio no pódio. Veio quando chegou em casa, abriu o envelope grosso e colocou as notas sobre o colo de Isobel. A mãe chorara até soluçar, agarrando Kiara num abraço desesperado, acreditando com todas as forças que o suor da primogênita havia ganhado tempo precioso para o suporte de vida de Stella.

Aquele abraço reconfigurou o código-fonte de Kiara. O xadrez sofreu uma mutação genética na mente da garota. Deixou de ser uma brincadeira infantil. Deixou de ser uma terapia. Tornou-se uma ferramenta de abate. Uma máquina bélica que servia a um único e supremo propósito: capitalizar a vitória pura, inegável e absoluta, para arrancar o dinheiro que salvaria a sua família.

Foi com essa engrenagem doentia que ela moeu a competição regional e ergueu o troféu no primeiro ano do ensino médio. E era com essa mesma engrenagem que ela estava ali agora. O Torneio Mundial. Se ela esmagasse Kallen, a lenda viva intocável que reinava no xadrez global, a recompensa financeira libertaria Isobel da escravidão dos três turnos. Ela finalmente quebraria as correntes de luto e dor da família. A matemática era simples. A frieza era a única arma letal.

Mas, diante do espelho do vestiário, a mão de Kiara tremeu. Então por que eu me sinto tão asfixiada? A Princesa de Gelo fechou os punhos sobre o mármore da pia. Por que... justo hoje... justo no dia mais crucial... eu estou sentindo falta daquelas partidas idiotas e sem sentido contra ele? O robô estava em curto-circuito. E não havia botão de reinício.

Ela empurrou a porta do vestiário e saiu para a ala de convivência dos competidores. O salão estava infestado. Treinadores, gênios regionais e competidores nervosos. E, assim que os sapatos de Kiara pisaram no carpete, os sussurros de praxe envenenaram o ar.

— Ei... aquela ali não é a Kiara?

— É óbvio que a campeã regional viria. Merda. Assim a gente não tem nem chance. E, pelo edital maníaco que a Kallen bolou pra esse ano, a Kiara já tá classificada direto pras chaves das semifinais. No fim das contas, a vaga pelo título vai ficar só pros deuses favoritos.

— Nem brinca. Sabe de uma coisa, pensando bem? Eu nem quero tentar a sorte nas preliminares.

— Tá louco? A gente pagou pra entrar! — o amigo rebateu, indignado.

— Cara, eu já ouvi relatos sobre as pessoas que caíram na chave contra essa garota. Eles ficam tão traumatizados com a forma como ela joga no tabuleiro que não conseguem nem pegar num peão por meses sem ter crise de pânico. Eu prefiro evitar passar por algo assim, muito obrigado.

Os sussurros eram a trilha sonora de sua existência militar. Kiara apenas girou o rosto e continuou caminhando. Mas a rota foi bloqueada.

Lucifer estava encostada na parede, com os braços cruzados e o uniforme impecável. O olhar azul da ex-presidente perfurou a armadura da atual presidente instantaneamente.

— Vejo que está pontual como sempre. — A ex-presidente sorriu de canto.

Kiara retribuiu com o silêncio e o habitual vazio nas pupilas.

O sorriso de Lucifer caiu. Um suspiro genuinamente desapontado, e quase irônico, escapou dos lábios da loira.

— Realmente frustrante... — Lucifer murmurou, descruzando os braços. — Eu achei, com absoluta sinceridade, que aquele garoto idiota estava conseguindo te quebrar e te consertar por dentro nos últimos meses. Mas, se esse seu olhar morto e engessado continua exatamente igual... pelo visto, ele falhou. Não conseguiu nem arranhar o centro do problema.

A sobrancelha de Kiara afundou. Uma faísca de agressividade defensiva acendeu.

— O que você está querendo dizer com isso, presidente?

— Nada. — Lucifer deu as costas, acenando polidamente por cima do ombro. — Não te desejo boa sorte. Você nem vai precisar passar pelas preliminares hoje. Apenas faça o favor de observar a chave.

Kiara cerrou os dentes. O que diabos ela quis dizer com "problema"? Ela estava seguindo as regras do mundo. Ela estava suportando a carga pela mãe e pela irmã. Como a força e o sacrifício poderiam ser o problema? O veneno da distração e do afeto idiota... aquilo, sim, deveria ser classificado como o problema que estava sabotando as engrenagens.

Ela sacudiu a cabeça, exilando a provocação de Lucifer da mente. Deixar a raiva turvar a visão antes do duelo era estupidez. O alvo não era a ex-presidente do colégio. O alvo era outra titã inalcançável. Kiara caminhou até o centro da sala de espera, onde uma imensa tela transmitia a coletiva de abertura do torneio.

Na televisão, o terno impecável do apresentador dividia a tela com a atual campeã absoluta do mundo: Kallen. Uma mulher com uma postura letal, olhos vermelhos e uma arrogância silenciosa que exalava de seus poros através das câmeras.

— ... como podem ver, senhores telespectadores! — o apresentador urrava no microfone. — Como Kallen detém a coroa do título absoluto há inacreditáveis oito anos consecutivos, ela forçou uma mudança monumental na estrutura do torneio! A campeã estabeleceu uma peneira aberta. Ela vai reunir a elite enxadrista e permitir que novatos, amadores, loucos e prodígios do mundo inteiro se engalfinhem numa matança tática nas preliminares. E o único sobrevivente desse inferno ganhará o direito de desafiá-la, junto com o prêmio que beira a casa dos milhões!

O apresentador inclinou-se para a campeã.

— Ainda assim, Kallen... não podemos negar que as estatísticas provam que o resultado já está gravado em pedra. Por que obrigar todos os gênios favoritos a esperarem? Você não acha as preliminares e o formato aberto algo... entediante?

Os olhos de Kallen se moveram lentamente em direção à lente da câmera.

— Se eu permitisse que a matemática do tédio e a lógica previsível ditassem a minha vida... eu já teria abandonado esse jogo ridículo há oito anos. — A voz da campeã mundial carregava um escárnio opressivo. — A triste realidade é que, até o presente segundo, absolutamente nenhum humano na face da Terra teve a capacidade de colocar a minha mente em perigo. Nenhum gênio entregou uma partida que prestasse. No entanto... eu apostei nessa estrutura aberta por teimosia cega. Porque eu quero acreditar que, do esgoto, do meio da rua ou dessa nova geração pífia... um monstro à altura finalmente terá a decência de aparecer.

Kallen cravou o olhar no abismo escuro da lente. Na sala de espera, os olhos monocromáticos de Kiara bateram de frente com os dela. Duas predadoras absolutas avaliando a sede de sangue uma da outra. A guerra fria transpassou a barreira do monitor.

No silêncio do seu peito, Kiara sentenciou o próprio coração. Eu agradeço, Dante. A engrenagem do robô engoliu a última gota de hesitação. Eu sinceramente te agradeço. Graças a você, e às nossas partidas idiotas, eu consegui sentir o gosto de um mundo quente, cheio de bagunça, de barulho e de sentimentos que eu sequer lembrava como doíam. Mas a brincadeira acabou. A Princesa de Gelo ergueu o queixo, as retinas voltando a ser uma superfície espelhada de frieza brutal. Eu não preciso desse seu mundo colorido para salvar a vida da minha mãe ou resgatar a minha irmã do hospital. Eu preciso ser perfeita. Para libertar a minha família, eu preciso matar esse afeto patético pela raiz e me entregar ao branco estéril e morto desse campo de batalha. Não importa o quão asfixiante e letal esse vazio seja.

O alto-falante chiou. A convocação para o massacre das preliminares começou. E a máquina estava pronta para a guerra.

Parte 9

O pavilhão de Nova Astris rugia como um coliseu romano, mas, do lado de fora das imensas portas de vidro, a pontualidade era uma piada de mau gosto.

Nero corria pela calçada, os sapatos batendo contra o concreto numa cadência desesperada. A respiração ofegante queimava os pulmões. Droga!, a garota praguejou em silêncio. Eu me atrasei de forma estúpida! Será que a rodada das preliminares já começou?

— SAI DA FRENTE! SAI DA FRENTE!

O berro histérico cortou o quarteirão. Nero freou os passos, girando o pescoço a tempo de ver um borrão correndo em sua direção. Era Kurokawa. A garota disparava como um míssil desgovernado e, presa entre os dentes, ostentava uma fatia inteira de torrada.

Nero piscou, a descrença obliterando a pressa.

— É sério isso?! — Nero gritou, esticando o braço. — Que desgraça de clichê barato de anime é esse?!

Kurokawa derrapou na calçada. Ela tirou a torrada da boca, a expressão contorcida em puro asco.

— Que merda! A textura disso é horrível! — Kurokawa ofegou, cuspindo farelos. — A torrada esfarelou e deixou a minha garganta seca, mas a ponta que tava na minha boca ficou molhada e nojenta! Isso é uma péssima ideia na vida real! Por que caralhos as pessoas fazem isso?!

— Porque ninguém na vida real faz essa estupidez, Kurokawa!

— SAI DA FRENTE! SAI DA FRENTE QUE EU TÔ ATRASADO!

Um segundo berro rasgou a rua. Luck dobrou a esquina derrapando. Numa das mãos, equilibrava um cachorro-quente transbordando mostarda e, na outra, um copo gigante de refrigerante, correndo como se estivesse fugindo de um tiroteio. Nero apenas fechou os olhos e massageou as têmporas.

— Bom, no seu caso faz mais sentido... — ela resmungou. — Pelo visto, o idiota parou no meio do caminho para estocar junk food numa barraquinha enquanto a gente perde a hora.

— Ué, vocês também se atrasaram?! — Luck parou, mastigando com a boca cheia. — O resto da galera já entrou?

— Não sei, mas é a dedução lógica. — Nero cruzou os braços. E então, o cérebro dela apontou a falha no protocolo dos dois. — Mas vem cá... por que diabos vocês dois vieram a rua inteira gritando "sai da frente" a plenos pulmões... se a maldita calçada tá completamente vazia?!

Luck e Kurokawa pararam. Olharam para o asfalto deserto. Olharam um para o outro.

— Agora que você mencionou... é uma excelente pergunta — Luck murmurou, sugando o refrigerante.

Slosh.

O som de líquido quente balançando atraiu a atenção do trio. Caminhando na mais pura paz espiritual, Chuya se aproximava. Nas duas mãos, o preguiçoso do grupo equilibrava uma tigela fumegante de cerâmica cheia de sopa, soprando o caldo devagar para não queimar a língua. Ao lado dele, Miguel caminhava com uma expressão que misturava profunda vergonha alheia e reprovação.

A veia na testa de Nero saltou com a força de um cabo de aço.

— TÁ, AGORA ISSO JÁ É BRINCADEIRA! — ela berrou, espumando. — Vocês três armaram um ponto de encontro no bairro só pra me sacanear com essas entradas bizarras, né?!

— Eu avisei pra ele — Miguel suspirou, esfregando a nuca. — Eu disse, com todas as letras, que não era uma boa ideia tentar fazer um ensopado do zero meia hora antes de o torneio começar.

Chuya virou os olhos semicerrados para a namorada.

— Eu achei que você tava dizendo isso porque sopa não combinava com o clima de manhã, não porque a gente ia se atrasar.

— Mas por que caralhos você trouxe a panela pra rua, seu doente?! — Nero exigiu.

Chuya ergueu uma sobrancelha, ofendido com o questionamento.

— Tá achando que eu tenho cara de milionário pra deixar uma sopa boa dessas esfriar e desperdiçar os ingredientes?

— Era só colocar na geladeira! — Luck pontuou, a boca suja de mostarda.

— Não teria o mesmo gosto de feita na hora.

— Se vocês já terminaram o show de horrores... — a voz polida, fria e letal vazou das portas de vidro do pavilhão. Vivian estava encostada na moldura de entrada. O sorriso sutil e pontiagudo dela reluzia sob a luz da manhã. — As preliminares já abriram lá dentro. Vocês não vêm logo?

O grupo engoliu em seco. A autoridade invisível de Vivian encerrou o teatro instantaneamente. Enquanto cruzavam os detectores de metal, Miguel olhou ao redor, analisando o perfil intelectual do evento. Havia um oceano de diferença entre um ginásio de esportes e a aura aristocrática daquele campeonato mundial de xadrez.

— Eu realmente não esperava que vocês, de todas as pessoas do mundo, viriam torcer num lugar de intelectuais assim — Miguel comentou.

— É verdade. — Kurokawa jogou a torrada no lixo mais próximo. — Definitivamente não é o nosso padrão de evento.

Vivian caminhou à frente, liderando a matilha pelos corredores acarpetados.

— É verdade. Mas a matemática de hoje é diferente.

Miguel franziu o cenho.

— Diferente?

Luck engoliu o último pedaço do cachorro-quente e Chuya tomou o último gole do caldo. Os dois idiotas se entreolharam. O mesmo sorriso enviesado, canalha e predatório rasgou o rosto dos dois simultaneamente.

— É que, dessa vez... — Luck começou, com a empolgação vibrando na voz.

— Tem um imbecil muito teimoso lá dentro que a gente não pode deixar de assistir — Chuya completou.

BOOOOOOM!

O som não foi físico, mas o rugido da multidão dentro da arena principal bateu contra as paredes com a força de uma explosão nuclear.

Vivian empurrou as portas duplas da arquibancada. A visão da arena esmagava os sentidos. Centenas de tabuleiros digitais piscavam no centro do pavilhão, mas absolutamente todos os espectadores — treinadores, figurões da mídia, grandes mestres — estavam de pé. O silêncio estéril do xadrez havia sido assassinado. No sistema de som do ginásio, a voz do narrador não estava apenas alta; ele estava berrando em puro histerismo, com os pulmões falhando pela adrenalina.

"NÃO PODE SER! EU NÃO ACREDITO NO QUE AS MINHAS RETINAS ESTÃO VENDO!"

A voz estridente do locutor fez as caixas de som chiarem.

"UM MASSACRE ABSOLUTO NA MESA QUATRO! UMA DAS GRANDES APOSTAS DA COMPETIÇÃO, A GENIAL IRENE, REPRESENTANTE OFICIAL DA INGLATERRA... ACABA DE SER OBLITERADA POR UM COMPLETO DESCONHECIDO! E ACREDITEM SE QUISEREM... COM APENAS TRÊS MÍSEROS MOVIMENTOS!"

A arena entrou num estado de delírio coletivo. Nas arquibancadas VIPs, Lucifer abriu um sorriso largo. A ex-presidente de Nova Astris cruzou os braços, os olhos azuis brilhando ao ver que o veneno estava se espalhando perfeitamente pelo sistema. No camarote blindado da campeã, Kallen se ergueu da poltrona de veludo. A aura gélida da mulher mais forte do mundo ferveu. Ela caminhou até o vidro panorâmico, apoiou a mão na estrutura e as íris dela assumiram o formato das de um predador farejando sangue no ar.

— Olha só... — Kallen murmurou, os caninos aparecendo sob o sorriso. — Parece que um monstro finalmente resolveu sair do esgoto.

Do outro lado do pavilhão, os olhos monocromáticos de Kiara rastrearam a explosão. Atraída pelo choque sísmico que rompeu o seu transe, a Princesa de Gelo se aproximou das grades de proteção, com a respiração começando a falhar. E então, a voz do locutor terminou de puxar o gatilho da execução.

"É ISSO MESMO QUE VOCÊS OUVIRAM, MINHA GENTE! NÓS ACABAMOS DE PUXAR A FICHA DO CADASTRO DELE! E ACREDITEM! SEM POSSUIR UMA ÚNICA PARTICIPAÇÃO NO REGISTRO, SEM NENHUM EVENTO OFICIAL NAS COSTAS, UM JOGADOR COMPLETAMENTE FANTASMA CAIU NESTE TORNEIO COMO UM RAIO PRETO E VERMELHO! O NOME DO EXECUTOR DA INGLATERRA É... DANTE SCARLUNE!"

Os telões colossais pendurados no teto da arena cortaram a imagem do tabuleiro para focar no rosto do jogador da mesa quatro. Quando o rosto de Dante encheu os pixels do pavilhão em altíssima definição, a biologia de Kiara entrou num curto-circuito irreparável.

A muralha inabalável da Princesa de Gelo não apenas trincou; ela se desintegrou em poeira estelar. Quem olhasse para Kiara naquele exato milésimo de segundo seria incapaz de diagnosticar o que ela estava sentindo. O rosto da garota tornou-se uma anomalia grotesca e maravilhosa. Metade de suas feições parecia travada no mais puro e gélido pânico, processando a loucura inconcebível de vê-lo ali; enquanto a outra metade tremia, com os lábios sendo puxados contra a vontade para cima, rasgando um sorriso selvagem e febril de pura e absoluta empolgação. Um dos olhos permanecia opaco e morto. O outro queimava com a intensidade de uma estrela prestes a colapsar. Ela estava fisicamente paralisada. Cega para o mundo ao redor, focada apenas na insanidade daquele telão.

No centro da arena, alheio aos gritos, Dante nem olhou para a oponente inglesa. Ele escorou o queixo na mão. Com uma lentidão letal e magnética, ele ergueu a outra mão e apontou o dedo indicador em linha reta. Ele não mirou a multidão. Não mirou o camarote. Ele apontou o dedo exatamente para o centro da lente da câmera principal.

E, no silêncio dos próprios pensamentos, os olhos bicolores de Dante rasgaram a transmissão para entregar a promessa diretamente na mente da dona do tabuleiro. Pois bem, dourado... O garoto abriu o seu sorriso mais canalha e predatório. Chegou a hora de você conhecer o vermelho e o preto.

 
 
 

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