The Fall of the Stars IF: Capítulo 1 - O Tabuleiro de Gelo
- AngelDark

- 8 de jul.
- 56 min de leitura
Volume 1 : Gelo e Raio (Gakuen)
Entrelinhas
Em outro mundo, uma certa família havia se quebrado por forças fora de controle. Tragédias, destinos e maldições. Coisas que fogem do alcance de qualquer mortal. No entanto, para estilhaçar um lar, o sobrenatural é um luxo desnecessário. A ruína humana é muito mais banal. Às vezes, as fundações que juramos inabaláveis — aquelas que ignoramos pelo puro conforto do hábito — desmoronam ao menor toque de negligência. E são exatamente essas estruturas invisíveis, essas pequenas peças do cotidiano, que se tornam as mais difíceis de reerguer depois de fraturadas.
Quem foi que pintou o mundo com essa coloração?
O clique seco do plástico quebrou a penumbra. O dedo de Kiara afundou o botão do relógio três segundos exatos antes que o alarme tivesse a chance de berrar. A pergunta arrastava-se no fundo de sua mente desde que sua cognição infantil despertara. Enquanto outras crianças absorviam um espectro vibrante e caótico, as retinas de Kiara filtravam a realidade de forma clínica. Seu universo limitava-se ao branco estéril, ao cinza melancólico e ao abismo negro. Com o tempo, ela compreendeu: o mundo lá fora pulsava em cores. A anomalia residia nela. Contudo, saber que os outros enxergavam uma aquarela viva não mudava um único fato: nenhum daqueles tons jamais a representaria. Tudo sempre foi igual. Tudo sempre seria. Uma linha reta, imutável e opaca.
Os pés tocaram o chão frio. Kiara deslizou para fora dos lençóis e, com dois movimentos precisos dos braços, alisou o tecido da cama até não restar um único vinco no algodão. O ar no quarto cheirava a poeira intocada, um mausoléu mantido com alta precisão. Nas prateleiras, alinhados com a simetria de soldados de chumbo, os troféus de xadrez e as medalhas capturavam a pouca luz da manhã em seu metal gelado. Nenhuma pelúcia. Nenhuma tela de computador. Nem mesmo o brilho de um celular na cabeceira. Apenas o espaço vazio pressionando os móveis.
O espelho do banheiro devolveu o mesmo fantasma. Seus olhos não refletiam frustração, nem transbordavam raiva; apenas engoliam a claridade gélida que rebatia nos azulejos. O chiado da água despencando no box preencheu o ambiente. Ela lavou a pele e vestiu o uniforme, abotoando a camisa com o ritmo inabalável de uma engrenagem, imersa em um silêncio tão esmagador que fazia os próprios tímpanos zumbirem.
Na cozinha, a atmosfera morta persistia. Sobre a mesa centralizada no piso, um vaso exibia flores que, para qualquer outra pessoa, ostentariam a vivacidade da natureza. Para as pupilas de Kiara, eram apenas borrões cinzentos afogando-se na água estagnada. Escorada no vidro do vaso, uma carta. O atrito de seus dedos pálidos contra a celulose produziu um estalo baixo. A caligrafia apressada da mãe preenchia o centro da página: dizia que saíra cedo para visitar a irmã de Kiara antes do trabalho. Dizia que chegaria tarde. Sentia muito por não estar ali no primeiro dia de aula. O bilhete encerrava com um genérico "boa sorte".
Nenhum músculo de seu rosto cedeu. O peito subiu e desceu no mesmo compasso. Ela dobrou o papel, vincando a dobra com a unha, e o guardou no fundo do guarda-comidas, sepultando as palavras na sombra da madeira. Em seguida, marchou até o fogão.
Crack.
A casca se partiu contra o metal, e a clara atingiu a frigideira. O chiado agressivo do óleo quente cortou o silêncio em um arco agudo. Com destreza robótica, ela moveu a espátula, impedindo que as bordas queimassem. Montou o prato com fatias secas de pão de forma. Mastigou em intervalos contados. Não havia paladar, apenas a fricção mecânica dos dentes estocando energia para manter a máquina do corpo operando por mais um dia.
Louça lavada. Gavetas fechadas. O ciclo estava completo. A sola dos sapatos arrastou-se pelo assoalho, medindo os passos exatos até a saída. Pendurado na parede ao lado da porta, um porta-retratos exibia um milagre de cujo som ela mal se lembrava. Um homem, uma mulher, a própria Kiara e uma garota com um sorriso largo, emoldurado por cabelos azuis brilhantes — fios que os olhos amaldiçoados de Kiara traduziam apenas como laços de grafite estático.
O pescoço de Kiara não girou um único milímetro. O olhar manteve-se cravado na textura áspera da porta fechada. A mão engoliu o metal gelado do trinco.
— Até logo.
O sussurro saiu rouco, um fiapo de voz atirado contra o vazio. Um protocolo cumprido instantes antes de girar a chave, deixando que o corredor fosse devorado, mais uma vez, pelo silêncio opressor de uma família em pedaços.
Parte 1
O sol matinal despencou sobre Nova Astris com uma claridade agressiva, rebatendo nas fachadas espelhadas sem que uma única nuvem suavizasse o impacto. A metrópole pulsava sob uma ordem milimétrica, um ecossistema moldado em vidro, aço e neon. Nas ruas largas, os pneus dos veículos produziam um zumbido contínuo e estéril, operando como as veias de um motor gigantesco que drenava e guiava o fluxo de milhares de cidadãos em direção aos seus postos.
No centro desse maquinário urbano, as calçadas fervilhavam com o atrito das solas e do tecido dos uniformes escolares. Era o dia da reabertura. No meio daquela maré barulhenta e caótica de adolescentes, uma única engrenagem movia-se fora do compasso. Kiara caminhava em linha reta. Seus passos eram curtos, ritmados e absolutamente mudos contra o concreto. Ao seu redor, a atmosfera parecia perder temperatura. Os grupos de alunos instintivamente abriam caminho, rachando a multidão como a proa de um navio cortando a água pesada, enquanto os sussurros começavam a vazar pelas frestas.
— Ei... espera aí. Aquela ali não é a Kiara? — uma aluna murmurou, o tecido da mochila estalando quando ela cutucou o ombro da amiga, ocultando a boca com a mão. — É ela mesma. Sabia que ela ia bater o ponto logo cedo no primeiro dia.
— É bizarro... ela ainda nem é a presidente oficial e já anda com essa aura de quem manda no colégio inteiro.
Um garoto mais atrás estalou a língua, ajeitando o nó da gravata torta.
— Tá, mas você acha que tem como ela perder a eleição? A Lucifer já fez o trabalho sujo. Passou o ano passado inteiro pavimentando o terreno, apresentou a garota pra todas as turmas, a colocou de secretária e a deixou como a responsável principal por tudo. É praticamente meio caminho andado.
— Pode crer. Ela já ganhou.
A fricção daquelas palavras não arranhou a blindagem de Kiara. O pescoço permaneceu rígido; o ritmo da respiração, inalterado. Para os seus ouvidos e para o seu mundo monocromático, as fofocas ao redor reduziam-se ao ruído estático de um rádio mal sintonizado.
Longe dali, vários andares acima do asfalto, o cheiro áspero de tabaco queimado brigava com a brisa asséptica que subia da cidade. Escorado na grade de metal da varanda, que vibrava sutilmente com o tráfego abaixo, um homem de cabelos verdes exalou uma nuvem espessa de fumaça cinzenta. O tapa-olho branco de hospital cobria seu lado esquerdo, marcando um contraste rústico com as linhas cristalinas da metrópole. Seu único olho bom estava cravado na silhueta distante dos portões do colégio.
Atrás dele, na penumbra da sala, a voz sintetizada da locutora pingava pelas caixas de som do rádio:
— ... mais um dia absurdamente agradável na nossa Nova Astris! O clima continua ótimo, fresco e aberto. E hoje, com a reabertura dos colégios, as ruas já estão infestadas de estudantes logo pela manhã. Dá até uma saudade melancólica da juventude, não concorda, Ryunosuke?
A risada grave do comentarista invadiu a frequência, distorcendo levemente o alto-falante.
— Até concordo. Mas, cá entre nós, senhorita Luna... é muito cedo pra você vir com esse papo de nostalgia. Não faz tanto tempo assim que você mesma estava batendo perna pelos corredores do colégio.
— Hahaha! Olha só, o nosso convidado realmente sabe como conversar com uma mulher!
O homem na varanda puxou mais um trago, sentindo o calor do filtro do cigarro contra os dedos. O tédio pesava em sua postura enquanto a locutora mudava a marcha da conversa.
— Mas, indo direto ao ponto que a nossa audiência quer... quais são as suas apostas para os próximos jogos? O Adam, lá da escola Ubria, está causando um alvoroço monstruoso na liga. Tanto em popularidade quanto em força destrutiva pura.
— É verdade — Ryunosuke ponderou, a voz assumindo o tom clínico de um estrategista. — Ele é, inegavelmente, uma das estrelas em que o mundo está de olho. Mas... eu ainda não apostaria minhas fichas nele.
— Sério?! Por quê?
— Falta sinergia. Falta companheirismo. O Adam é uma bomba-relógio que esquenta rápido demais e coleciona cartões amarelos de forma estúpida. No último jogo, ele perdeu a linha e simplesmente agrediu o Gawain, do time Royal. Um vexame.
— Um caos total! A mídia quase desmoronou em cima disso.
— Exato. E é exatamente por causa dessa instabilidade que a minha aposta para Jogador do Ano tem nome carimbado: Ethan. O calouro que acabou de entrar no Royal. Ele pode ser um novato, mas já está esmagando as expectativas e se consolidou como a arma secreta do time, fechando a trindade ao lado do Gawain e do Galahad. O Royal estava sedento por um novo ás absoluto desde que o Arthur pulou fora do barco.
— E que loucura foi essa, né?! Quem no mundo ia esperar que o Arthur fosse abandonar o time, largar o colégio e jogar tudo pro alto pra seguir a vida como músico?! O cara contrariou todas as estatísticas!
— Pois é. Mas confesso... as músicas dele são realmente boas.
Click. O polegar do homem de cabelos verdes pressionou o botão do aparelho, decapitando o som. O silêncio repentino encheu a sala. Ele soltou a fumaça pelas narinas e esmagou a bituca contra o fundo do cinzeiro de vidro, onde o calor morreu em um último estalo.
— Isso só mostra como aquele idiota não tá ensinando esses alunos direito — murmurou com uma aspereza cansada, a voz raspando na garganta seca.
Afastou-se da varanda e enfiou os pés descalços num par surrado de havaianas; o estalo da borracha contra o chão de madeira quebrou a solidão do apartamento. A caminho da porta, seus passos estancaram. Sobre a cômoda, uma fotografia o encarava sob o vidro empoeirado. A imagem capturava-o ao lado de um gigante — um homem loiro, de músculos talhados como rocha e um sorriso radiante que parecia emitir luz própria. O homem de tapa-olho sustentou o olhar por alguns segundos. A expressão endurecida não cedeu, mas a voz baixou um tom.
— Vê se faz o seu trabalho direito, Love.
Ele girou a maçaneta e sumiu no corredor.
Enquanto a porta do apartamento batia com um baque surdo, a milhas dali, o sorriso estonteante de Love Scarlune dominava os imensos portões principais do colégio. O gigante loiro estava plantado na entrada, distribuindo cumprimentos impregnados de carisma. A cada "bom dia", alunos e alunas pareciam perder o fôlego diante daquela presença massiva.
Foi então que a marcha robótica de Kiara cruzou seu radar.
— Bom dia, Kiara! — a voz de Love soou aveludada e profunda, elevando-se sem esforço sobre o burburinho da multidão. — A Lucifer já chegou. Aparentemente, ela quer falar com você o mais rápido possível na sala.
A garota parou. O eixo do seu corpo girou mecanicamente na direção do gigante, com os olhos mantendo o mesmo vazio cinzento.
— Obrigada.
O murmúrio estéril saiu desprovido de vida. Sem aguardar resposta, ela pivotou os calcanhares e retomou a caminhada rígida em direção ao prédio principal. Atrás dela, a máscara de simpatia de Love trincou por um instante. O sorriso desmoronou, e uma linha de preocupação escureceu as feições do professor enquanto seus olhos a acompanhavam.
A apreensão, contudo, não teve tempo para criar raízes. O radar do gigante loiro apitou.
Com a sutileza de uma sombra rastejando pelo rodapé, Dante tentava se esgueirar pelo ponto cego da recepção. O garoto andava curvado, os ombros caídos pelo torpor da preguiça, espremendo o corpo contra o muro de pedra para evitar a interação social matinal.
A mão titânica de Love cortou o ar com um estalo rápido. Swish. Os dedos do professor fecharam-se em torno da gola traseira da camisa de Dante, içando-o alguns centímetros do chão e travando o plano de fuga.
— E aí, Dante? — Love disparou, recuperando o sorriso largo com a mesma rapidez de antes. — Tentando fugir pelo canto de novo?
Pego no flagra, Dante apenas soltou o peso do corpo, os olhos semicerrados transbordando um tédio crônico.
— Bom dia, Love... — Ele suspirou, usando a mão livre para esfregar a nuca.
— Qual o problema com a sua roupa? — O professor franziu o cenho, correndo o olhar pelo estado desalinhado do garoto.
— Ah, qual é... — Dante resmungou, forçando os ombros para trás na tentativa de se soltar do aperto firme. — Essa coisa de uniforme engomadinho simplesmente não combina com a minha biologia. É asfixiante.
— Todos os alunos devem usar o uniforme, Dante. É a regra do prédio.
— Mas hoje é o primeiro maldito dia! Não deve nem ter aula de verdade! É só aquela apresentação chata no auditório e...
— Talvez isso sirva pros calouros do primeiro ano — Love o cortou, a voz assumindo uma rigidez polida. — Mas não se esqueça de que você está no segundo ano agora. O tratamento é outro.
Alguns metros à frente, alheia ao sermão, a marcha de Kiara travou. Por uma minúscula fração de segundo, os ruídos da portaria invadiram o vácuo de sua cabeça. Muito lentamente, ela olhou por cima do ombro. Seus olhos monocromáticos cruzaram o espaço e pousaram diretamente na figura de Dante, que ainda se contorcia feito um gato preguiçoso para escapar da mão de Love. O processamento da imagem durou menos de um piscar de olhos. Nenhuma faísca acendeu em sua expressão. Kiara girou o pescoço de volta para a frente e, engolida novamente pela maré de alunos, continuou a andar.
Parte 2
A sala do conselho estudantil operava sob uma gravidade própria. Era o topo absoluto da cadeia alimentar do colégio, um ecossistema projetado para esmagar os fracos e isolar os monstros. E, no epicentro dessa sala, reinava o monstro perfeito.
Lucifer estava sentada na cadeira da presidência. Cabelos loiros caíam em cascatas milimetricamente alinhadas sobre os ombros. Ela possuía o tipo de beleza descomunal e opressiva que parecia ter sido esculpida em laboratório, uma anomalia genética que unia intelecto brutal, notas intocáveis, carisma magnético e um atleticismo impecável. Não era à toa que ela havia usurpado a coroa do conselho ainda no seu primeiro ano e se mantido fincada no trono, de forma inquestionável, até agora, no último.
Aos olhos do colégio, Kiara era a sua sucessora natural. Afinal, a própria Lucifer passara o último ano inteiro pavimentando esse terreno: arrastando Kiara pelas salas, moldando-a como secretária e entregando-lhe as rédeas das maiores responsabilidades. Mas, nos corredores, os sussurros pintavam uma guerra fria. Apesar de ser mais nova, Kiara ostentava um título que machucava o orgulho da presidente: a Rainha do Xadrez. O único campo de batalha lógico onde nem mesmo a "perfeição" de Lucifer foi capaz de derrubá-la. Para muitos, Kiara estava apenas parasitando a influência da loira para devorá-la no final.
Plaft. O som de uma pesada pilha de documentos batendo contra a mesa de mogno cortou o silêncio.
— Pois bem. — O sorriso de Lucifer era deslumbrante, mas a voz carregava uma autoridade inegociável. — Agora que todos os preparativos de base estão resolvidos, eu já vou começar a transferir o peso da papelada e os serviços braçais diretamente para você, Kiara. Pretendo usar o que me resta de tempo para focar puramente nos meus estudos.
Na ponta da mesa, a chefe do comitê de disciplina, Emilia, trincou o maxilar. O som do couro da cadeira estalou quando ela se inclinou para a frente.
— Presidente, não me diga que você planeja simplesmente largar o trabalho sujo nas mãos da novata e lavar as suas?!
— É exatamente isso que eu planejo, Emilia — Lucifer rebateu, sem desfazer o sorriso ofuscante. A chefe de disciplina apoiou as mãos na mesa, pronta para se levantar e protestar, mas a presidente levantou o dedo indicador, podando a rebelião na raiz. — E antes que você espume de raiva pela ética do conselho, saiba que isso também é exatamente o que a nossa secretária deseja.
Emilia travou. Seus olhos dispararam para Kiara. A garota de cabelos escuros e mechas loiras estava de pé ao lado da mesa. Não havia espanto em seu rosto. Não havia sequer uma fagulha de vida nas íris que encaravam o vazio.
— Não foi você mesma quem me disse no ano passado, Kiara? — Lucifer tombou a cabeça para o lado, o tom mergulhado num veneno doce. — Que queria o meu posto, sim, mas que só o aceitaria se pudesse me varrer da equação o mais rápido possível? Só para não ter que se preocupar com a minha sombra atrapalhando as suas mudanças? Não é verdade?
Os olhos monocromáticos de Kiara piscaram uma única vez.
— É verdade. — O tom foi metálico. Estéril. Direto como uma lâmina sem fio.
— Hahaha! — A gargalhada estourou no fundo da sala. Zenobia, escorada na parede, não conseguiu conter o escárnio diante daquela brutalidade robótica. — Caramba, ela não tem nem um pingo de filtro!
As retinas azuis de Lucifer giraram lentamente, fixando-se em Zenobia. O sorriso não sumiu do rosto da presidente, mas a temperatura na sala despencou. Uma pressão atmosférica súbita, pesada e predatória esmagou o ar. O oxigênio pareceu virar chumbo. A gargalhada de Zenobia engasgou na garganta. O suor frio brotou em sua nuca no mesmo milésimo de segundo. Com a postura rígida de um soldado sob a mira de um fuzil, a garota endireitou a espinha e sentou-se corretamente na cadeira, engolindo em seco. Satisfeita com a submissão instintiva, Lucifer fechou os olhos e o sorriso voltou a aquecer a sala. O perigo havia passado.
Ainda recuperando o fôlego, Zenobia pigarreou, forçando um tom casual.
— M-mas, ainda assim... que sorte a sua, hein, Kiara? Se você queria virar presidente, ter a própria Luci liderando o caminho de mãos dadas com você deve ter sido o cenário perfeito. Ela praticamente te entregou o trono numa bandeja de prata.
— Errado. — A voz cortante veio do canto da mesa. Mordred, a tesoureira, ajeitou os óculos sobre o nariz, as planilhas holográficas de seu tablet iluminando suas feições calculistas. — Ela ainda não foi definida como presidente. A matemática do colégio não funciona à base de coroação. Lembrem-se de que ainda temos as eleições nas urnas.
Zenobia revirou os olhos e estalou a língua.
— Qual é, Mordred? É uma vitória esmagadora já garantida. Todo mundo conhece o nome dela, do primeiro ao terceiro ano. Não esquece que, além de a Lucifer ter feito o tour da fama com ela no ano passado, o torneio de xadrez em que ela esmagou geral foi transmitido ao vivo! A "Princesa de Gelo" é famosa pra caralho! Não tem como ela perder!
— Não tem? — Lucifer cruzou os dedos sobre o colo. — Curiosamente, eu dei uma olhada no fórum dos alunos agora de manhã para checar a amostragem dos votos. E o quadro é o seguinte: a Kiara detém cinquenta por cento dos votos declarados. É uma vantagem colossal, sim. Mas... — A presidente fez uma pausa cirúrgica. — Logo atrás dela, arrastando trinta e cinco por cento, está Dante Scarlune. E ele continua ganhando terreno todos os dias. Os quinze por cento que ainda estão em branco podem facilmente migrar para o lado dele, empurrados por puro e simples carisma barato.
Zenobia bufou, incrédula.
— Impossível! Aquele garoto até pode ser querido por uma galera que curte o estilo dele, mas ele também é absurdamente odiado! Você por acaso não lê o que falam sobre ele nas redes sociais, Luci?!
— Eu não sou muito adepta dessas modernidades digitais — a presidente suspirou, folheando um documento de papel timbrado.
— Nós temos a mesma idade! — Zenobia berrou, indignada com o argumento de tia velha.
— Galinha. Safado. Destruidor de corações. Cafajeste crônico — Mordred começou a metralhar os títulos sem tirar os olhos da planilha, a voz fria e técnica enumerando a ficha criminal acadêmica. — "O Cara das Cinco Namoradas". E dezenas de outros adjetivos da mesma categoria repulsiva.
Lucifer piscou devagar.
— Nossa. As pessoas são realmente cruéis hoje em dia. Mas algo não fecha. — Ela estreitou os olhos. — Se ele carrega tanto ódio e rótulos venenosos nas costas... como diabos ele conseguiu arrebanhar trinta e cinco por cento das intenções de voto dessa mesma escola?
— Essa, presidente... — Zenobia murmurou, as sobrancelhas franzidas — é uma excelente pergunta.
O debate sociológico estava armado, mas Kiara esmagou a dinâmica em um único segundo.
— Se vocês já acabaram — a voz de Kiara cortou a mesa, insensível e oca —, eu gostaria de voltar para a minha sala. Preciso me apresentar ao meu professor.
A sala inteira calou a boca. Zenobia abraçou os próprios ombros, arrepiada com o desdém brutal.
— Credo... que frieza desgraçada. Dá pra ver direitinho por que te chamam de Princesa de Gelo.
Kiara nem sequer moveu uma sobrancelha. A provocação quicou nela e caiu no chão.
— Certo, certo. Por ora é só. — Lucifer cedeu, mas a engrenagem tática em sua mente já ditava os próximos passos. — Mas, como você precisa se preparar para engolir as tarefas de presidente, vou deixar a Zenobia e a Mordred coladas em você hoje. Elas vão te passar a rotina. As aulas normais vão atrasar por conta da apresentação dos professores no pátio. — A presidente apontou a caneta para Kiara. — Enquanto isso acontece, como candidata à presidência, é seu dever cívico e político se apresentar ao diretor e à banca de professores. E mais uma coisa: veja se consegue arrastar o Dante com você.
A ordem fez Mordred parar de digitar.
— Não dá pra saber se aquele garoto realmente tem chances de te virar na urna, mas faz parte do regulamento do conselho avaliar os candidatos. E querendo ou não, aposto que vai ser taticamente muito útil para você ficar próxima de alguém com um nome tão barulhento. Seja pelo ódio ou pela fama... usar o peso do nome dele vai depender inteiramente de você.
— Entendido. — Kiara sequer processou o conselho maquiavélico. Ela não perdeu tempo com despedidas; virou as costas, girou a maçaneta e sumiu no corredor, deixando um vácuo no ar.
Zenobia e Mordred trocaram um olhar exausto e marcharam atrás dela, batendo a porta.
O silêncio reinou na sala do conselho. Lucifer permaneceu sentada. Ela não olhou para as planilhas, não olhou para o relógio. Seus olhos apenas rastreavam as ranhuras de madeira na porta fechada. A fachada de mentora sorridente derreteu por completo, dando lugar a uma expressão endurecida, predatória e profundamente incomodada.
No fim das contas, a garota é um poço vazio... Lucifer apertou a caneta entre os dedos até as juntas estalarem. Continua exatamente com a mesma droga de olhar sem vida de quando pisou em mim e me venceu naquela maldita partida de xadrez.
Parte 3
O corredor principal da academia era uma detonação sensorial contínua. Um ecossistema febril, abarrotado de adolescentes girando em órbitas caóticas. Cores vivas, vozes sobrepostas, vida em saturação máxima.
BOOM!
O impacto abafado fez os vidros das janelas vibrarem nas esquadrias. Da sala de química, uma língua de fumaça cinzenta pontilhada por faíscas esverdeadas lambeu a fresta da porta, seguida de perto pelos berros esganiçados do professor Maicon.
Rasgando a neblina química, gargalhadas histéricas batiam contra a fileira de armários. Mio e Ludmilla, as duas forças da natureza do time de basquete, fugiam da cena do crime em uma disparada pesada, atropelando quem ousasse cruzar o caminho. Logo à frente, o trânsito humano simplesmente engarrafou para abrir alas à realeza. Agravain e Tristan, os pilares do esquadrão Royal, avançavam a passos lentos e medidos. Sugavam a gravidade do corredor para si, cercados por satélites de alunos fascinados.
Tudo ao redor pulsava, gritava e transbordava. Mas, para Kiara, o mundo permanecia um cadáver.
No epicentro daquela tempestade, a garota monocromática caminhava aprisionada em seu próprio vácuo. O silêncio que a blindava era cirúrgico. A tagarelice ao redor morria como um chiado estático antes de alcançar seus tímpanos. Ela não quebrou o ritmo quando Zenobia cravou os calcanhares no piso para bater boca com um grupo de calouros. Não piscou quando o braço de Agravain se ergueu sobre a maré de cabeças para acenar a Mordred.
Kiara era uma flecha de chumbo em trajetória balística. Atravessou a massa e chegou à sua classe. Diante da professora Lilith, executou uma apresentação milimétrica e estéril. Trinta segundos exatos. Um giro sobre os calcanhares e a marcha estava retomada. O próximo item: apresentar-se à diretoria. Sem margem para desvios.
O corredor da administração central operava em outra dimensão. Os tapetes espessos engoliam o atrito das solas, estrangulando os ruídos. Kiara estancou. A centímetros da pesada porta de carvalho, a mão pairou no ar, sem tocar o metal da maçaneta. A acústica do ambiente permitia que o som vazasse pelas frestas da madeira, e a engrenagem lógica de Kiara ditava que interromper o diretor configuraria uma quebra de protocolo. Ela permaneceu estática, uma escultura de gelo, escutando.
— Eu realmente sinto muito por isso, diretor. — A voz masculina soava relaxada, desprovida de qualquer gravidade institucional. — Pode deixar que mais tarde, quando chegarmos em casa, farei questão de dar uma bronca nelas direitinho.
Uma risada curta e debochada cortou o ar lá dentro.
— Pff... Acho que ele vai brigar com você de verdade hoje, Kali — provocou Velvet. O escárnio pingava pesado de cada sílaba.
— Tsk, cala a boca… — Kali rebateu no mesmo milésimo de segundo, a voz vibrando com puro ódio adolescente. — Vê se não finge que a culpa disso também não é sua…
Um assobio agudo e cínico de Velvet foi a única resposta. Então, o rangido de passos pesados cruzou a sala. O baque surdo de algo sendo apertado.
— Ai! — as duas choramingaram em uníssono.
— Na verdade, o problema aqui são vocês duas. — A voz de Nicklaus desceu um tom, tranquila, mas ancorada na força bruta de suas mãos, que agora prensavam o topo das cabeças das garotas.
— Desculpa... — resmungaram, a postura murchando sob o peso.
Do outro lado da mesa, um suspiro longo arrastou-se pelo ar. O som denso de um homem esmagado por dores de cabeça crônicas.
— Vocês deveriam tentar ser um pouco mais comportadas — o diretor Aleister repreendeu, a voz cansada de quem massageia a ponte do nariz. — Não veem o quanto é difícil para o Nicklaus administrar um orfanato inteiro? Cuidar daquilo lá não é pra qualquer um. E, ainda assim, vocês fazem essa bagunça monstruosa no primeiro dia de aula? Não veem que só estão causando mais problemas para ele?
O silêncio pesou sobre a sala. O sermão pareceu ancorar.
— Sentimos muito... — as duas murmuraram para o chão.
A trégua durou exatamente um segundo. O tecido de uma jaqueta chicoteou o ar quando o dedo de Velvet apontou para o rosto da outra.
— Foi culpa dela! Ela ficou falando mal do Dante!
— É claro que eu falei! — Kali explodiu, tapeando o braço de Velvet para longe. — Você fica aí babando e elogiando aquela tripa seca caolha bem na minha frente!
— Tá vendo, Aleister?! Foi só por isso que eu peguei a minha cadeira e joguei na cabeça dela!
— E eu só retribuí o favor na mesma moeda!
Plaft! Plaft!
O estalo duplo e seco de dois petelecos impiedosos ricocheteou nas paredes da diretoria.
— Ai!
— Eu já disse para vocês não ficarem julgando a visão de mundo das outras pessoas — suspirou Nicklaus, recolhendo os dedos como quem espanta mosquitos barulhentos. — Lembrem-se da regra de ouro: cada um tem a sua própria "verdade". Não devemos empurrar a nossa perspectiva goela abaixo dos outros só porque achamos que estamos certos. Entenderam?
As duas esfregaram as testas avermelhadas.
— Desculpa... de novo.
— Ótimo, contanto que tenham entendido o ponto principal, tudo bem. — Nicklaus soltou uma risada nasal, e a gravidade de sua voz evaporou. — Ah, e na próxima vez que vocês quiserem tentar arrancar a cabeça uma da outra... pelo amor de Deus, sejam mais espertas e briguem lá fora, num canto onde ninguém do colégio veja, ok?
O couro da cadeira do diretor guinchou com um solavanco brutal.
— EI! O QUE DIABOS VOCÊ ESTÁ ENSINANDO PRA ELAS, NICKLAUS?! — Aleister rugiu, a diplomacia completamente pulverizada pela pedagogia criminosa do cuidador.
A única resposta foi a gargalhada estrondosa e solta de Nicklaus, que fez a própria porta de carvalho tremer levemente nas dobradiças.
Do lado de fora, Kiara continuava estática. Os dedos a um milímetro do metal gelado da maçaneta. A respiração dela, antes perfeitamente calculada e invisível, sofreu uma fratura.
Tum-tum.
Aquela gargalhada. A dinâmica caótica daquelas duas garotas em apuros, tomando bronca lado a lado enquanto um guardião tentava contornar o desastre de forma estúpida. Aquele quadro perfurou a armadura monocromática de Kiara com a brutalidade de uma broca girando contra o titânio. Um curto-circuito engasgou sua lógica. O corredor de tapetes finos piscou. O silêncio absoluto que selava sua mente estilhaçou-se em milhares de cacos cinzentos.
E, pela rachadura em sua parede de memórias, um fantasma emergiu.
O som do couro esticado de uma cadeira idêntica rangendo sob o peso. A agressividade fria do ar-condicionado pinicando seus braços finos de criança. O calor vívido do braço de sua irmã mais nova roçando contra o seu, ambas sentadas lado a lado, as cabeças curvadas para o chão. A visão embaçada de duas silhuetas enormes em pé logo atrás delas.
A porta de carvalho à sua frente dissolveu-se, engolida pelo abismo do passado.
Parte 4
O carvalho maciço da porta da diretoria dissolveu-se diante de seus olhos, esfarelando no ar. A acústica abafada do corredor foi instantaneamente engolida por um zumbido agudo e contínuo, e o ar-condicionado perfeitamente regulado de Nova Astris cedeu lugar ao frio pinicante e anestésico de uma sala de coordenação infantil.
A memória a laçou pelo pescoço, arrastando-a para trás.
A Kiara sentada naquela cadeira do passado era um organismo completamente diferente. Faltava-lhe a rigidez glacial. Faltava-lhe o vazio. Aquela garotinha vestia um uniforme esfarrapado, os cabelos curtos desgrenhados como um ninho caótico, e os nós dos dedos exibiam a crosta escura de sangue seco. Mas o detalhe mais assustador, para a espectadora do presente, eram os olhos de sua versão infantil: eles queimavam. Faiscavam com uma fúria crua, viva e indomável. Ao seu lado, a silhueta frágil de Stella repousava. A irmã mais nova era o avesso absoluto: pele de cera translúcida, pálpebras pesadas e uma letargia que parecia drenar sua vitalidade a cada respiração.
Na retaguarda das cadeiras, os pais formavam um escudo. Lysander mantinha a coluna ereta, o rosto esculpido em uma serenidade inabalável. Isobel, por outro lado, tamborilava as unhas no encosto de madeira, irradiando uma energia elétrica e impaciente que não cabia na cartilha de disciplina escolar.
À frente do quarteto, a voz do professor Vlad pingava exaustão pura.
— Sinceramente... — o homem suspirou, o polegar e o indicador massageando as têmporas. — Apesar das notas impecáveis, o nível de destruição que a Kiara consegue arquitetar me assombra a cada dia. Para deixar o relatório claro: ela comprou briga com um grupo de alunos três anos mais velhos, destroçou metade do mobiliário do pátio leste e, no processo, ainda nocauteou dois professores que tentaram apartar o massacre.
Isobel piscou. Um sorriso letal rasgou os lábios da mãe. Ela inclinou o tronco para a frente e sussurrou, alto o bastante para preencher a sala:
— E é bom que você tenha ganhado, hein.
Kiara abriu um sorriso pontiagudo e, sem vacilar, ergueu os dedos em um "V" de vitória.
Uma veia saltou na testa de Vlad. A pressão do Éter no ambiente ferveu; a indignação do professor tornando-se espessa, quase tátil. Antes que a detonação ocorresse, Lysander deu um passo à frente, espalmando a mão no ombro da esposa para assumir o controle tático do desastre.
— Querida, por favor... — ele pigarreou, ancorando os olhos na filha. — Kiara, você sabe perfeitamente que não deve resolver as coisas dessa forma, entendeu?
O orgulho bélico da garota rejeitou o freio. Kiara saltou da cadeira, os punhos cerrados batendo nas laterais do corpo.
— Mas, pai! Aqueles idiotas estavam espancando um cachorro amarrado! Pessoas assim são lixo biológico! Eles merecem ser moídos na porrada até os dentes caírem! Ou o quê?! Eu devia cruzar os braços e deixar eles terminarem a sessão de tortura?!
Lysander hesitou. A bússola moral da filha era irretocável, o que transformava a repreensão num labirinto.
— Bom... não é bem isso, mas...
Plaft!
Um canudo de papéis enrolados estalou no topo da cabeça de Kiara. A garota resmungou, encolhendo os ombros e levando as mãos aos fios bagunçados. Vlad agora estava de pé, debruçado sobre a mesa.
— De fato, o seu senso de justiça aponta para o norte correto — o professor declarou, a voz assumindo o gume de uma lâmina acadêmica. — Eu não serei ilógico a ponto de discordar. Trastes humanos que torturam indefesos merecem, sim, a base do castigo.
— Viu só?! — Kiara inflou o peito, o rosto iluminado pela razão.
— Mas entenda a equação inteira, sua idiota! — Vlad a silenciou, implacável. — Nesses casos, a sua função primária não é ser a executora. É proteger o cachorro e acionar as autoridades competentes. Se você tenta consertar um erro brutal cometendo outro erro selvagem, não está provando que é melhor do que eles. Você só se torna um tipo diferente de traste. E o pior: não arrasta apenas você para o buraco, mas destrói a reputação dos seus pais junto.
As palavras atingiram Kiara como um bloco de concreto frio. A lógica cirúrgica encontrou a fenda exata na sua teimosia. Ela recuou um passo, os ombros cedendo ao peso das consequências invisíveis. Olhou por cima do ombro para Isobel e Lysander, que agora lhe ofereciam sorrisos compreensivos. A fornalha em seus olhos apagou. A garotinha curvou a espinha em obediência à matemática implacável do mundo adulto e murmurou um pedido de desculpas autêntico.
— Você é uma garota esperta, Kiara. — Vlad afrouxou a postura, empurrando os óculos pela ponte do nariz. — Se você gastar um pouco dessa sua energia bruta para pensar e ler a situação, eu garanto que você sempre saberá o caminho certo a seguir para dar orgulho a eles.
Ainda de cabeça baixa, mastigando o gosto da derrota moral, Kiara sentiu um puxão fraco na manga.
— Mas... eu achei incrível. — A voz de Stella era um sopro de papel rasgado. A caçula sustentava um sorriso anêmico. — Mesmo eles sendo enormes... você foi lá sem medo e bateu em todo mundo. Você foi minha heroína.
Uma nova faísca acendeu no rosto de Kiara. Isobel e Lysander trocaram um olhar enternecido.
Cough... cough, cough!
O sorriso estilhaçou. Stella levou as duas mãos miúdas ao peito, a coluna arqueando-se num espasmo violento. O pouco de cor que habitava seu rosto drenou instantaneamente, deixando a pele cinzenta. Lysander mergulhou, segurando os ombros trêmulos da filha até que o ataque perdesse a força.
A temperatura da sala desabou. O espectro médico engoliu a família.
— Sobre a Stella... — Vlad retomou, a voz afundando em gravidade sombria. — O quadro é exatamente o mesmo. Ela apagou nos corredores hoje de manhã, de novo. Está mais fraca a cada dia. Notamos também que o corpo dela está rejeitando as refeições da cantina. Houve alguma evolução clínica nos exames recentes?
Lysander balançou a cabeça. A máscara de serenidade não escondia o desespero por trás dos olhos.
— Não sabemos. Ela só afunda mais rápido. Não consegue mastigar ou digerir proteínas. Dores de cabeça crônicas. Vômitos. Nós a arrastamos por dezenas de hospitais, mas os biólogos e os médicos não enxergam nada. É um mistério genético total. O corpo dela simplesmente... não funciona.
Vlad fechou os olhos.
— Eu detesto ter que sugerir isso, Lysander. Mas, pensando puramente no bem-estar dela, a administração escolar acha que já passou da hora de vocês avaliarem a educação domiciliar. É perigoso permitir que ela continue frequentando ambientes abertos e desmaiando de exaustão dessa forma. Ela precisa ficar confinada em segurança.
Stella estremeceu inteira. O terror puro desfigurou suas feições. O pânico de ser trancafiada em uma gaiola antisséptica, de nunca mais sentir o cheiro da grama ou ver a insanidade vibrante do mundo lá fora. Os dedos brancos agarraram o tecido da jaqueta do pai, tremendo.
Mas, antes que o medo criasse raízes, Kiara rompeu a formação.
A garota de joelhos ralados marchou e plantou os pés firmes, erguendo-se como uma barricada humana bem na frente da cadeira da irmã. Estufou o peito. Seus olhos voltaram a faiscar, desta vez contra o professor e contra o próprio destino.
— Está tudo bem! — a voz de Kiara estalou, estridente, uma promessa selada a fogo. — Ela não precisa estudar em casa! Eu vou proteger ela! Não importa o quão fraca ela fique, eu vou ser a força dela! Eu garanto que nada de ruim vai encostar um dedo nela, então vocês não precisam se preocupar com nada!
Isobel e Lysander cruzaram olhares silenciados. A promessa irrefreável da primogênita foi recebida pelo peso confortante da mão de Lysander bagunçando os cabelos de Kiara. Nas costas da muralha, Stella sussurrou um obrigada rouco, ancorando-se àquela rocha.
E então, o mundo falhou. A memória sofreu uma fratura exposta. O ecossistema sensorial colapsou.
Wee-woo. Wee-woo.
Luzes estourando a retina em um giro nauseante. Azul e vermelho. A imagem de Stella de joelhos no asfalto cru, o corpo quebrando, a pele mimetizando um cadáver. O rugido gutural e ensanguentado de Lysander atirando um nome contra o céu vazio. O fedor cáustico de antisséptico barato rasgando as narinas. A cor sendo obliterada do universo. O sangue vermelho fervendo no chão, esfriando, oxidando, até transformar-se em um poço estagnado de tinta negra e cinzenta.
O baque metálico dos trincos reais chocou-se contra seus tímpanos como o golpe de um martelo.
Click.
A pesada porta de carvalho da diretoria se abriu para fora.
Kiara engasgou. Seus pulmões sugaram o oxigênio filtrado e gelado do corredor. A consciência capotou de volta para as coordenadas de Nova Astris, colidindo frontalmente com a realidade. Bem ali, a centímetros de seu rosto, o trio disfuncional — Nicklaus, Velvet e Kali — paralisou na soleira, os olhos arregalados para a secretária do conselho.
— Kiara! Ei, por que diabos você travou aí?! — o grito esganiçado de Zenobia ricocheteou pelo corredor. Ela e Mordred vinham em uma marcha acelerada para alcançá-la. Contudo, ao reduzirem a distância, as duas também travaram. A respiração de ambas morreu na garganta.
Uma única gota escorria pelo rosto perfeitamente inexpressivo de Kiara. Uma lágrima morna e intrusa, rasgando o mármore da Princesa de Gelo.
A estática tomou conta da entrada da diretoria. Nicklaus ergueu milimetricamente uma sobrancelha. Velvet e Kali congelaram num choque silencioso.
A máquina biológica de Kiara forçou a reinicialização. Em um movimento mecânico e estritamente calibrado, o polegar subiu e interceptou a trilha salgada antes que ela atingisse o queixo. A voz que saiu de seus pulmões era um bloco sólido de gelo, estéril de qualquer remorso ou emoção.
— Havia poeira no ar-condicionado.
Ela não esperou réplica. Não ofereceu um único grau de contato visual. Deslizando por entre Nicklaus, Velvet e Kali com a fluidez de um espectro intangível, Kiara transpôs a soleira e adentrou a sala do diretor Aleister. A pesada porta de madeira girou e bateu em suas costas, trancando Zenobia e Mordred do lado de fora, no silêncio perplexo do corredor.
Parte 5
A marcha de Nicklaus, Velvet e Kali pelo corredor principal formava uma bolha caótica de ruído, destoando da calmaria estéril do bloco administrativo.
— Vocês têm certeza absoluta de que querem me escoltar até a porta da rua? — Nicklaus perguntou. Ele lançou um olhar de soslaio para as duas, o som de seus passos pesados marcando o compasso. — O normal dessa fase da adolescência não seria vocês terem alergia a caminhar do lado de uma figura paterna na frente dos outros?
Kali revirou os olhos com tanta força que quase viu o próprio cérebro.
— Isso é uma bobagem estúpida.
— O Dante definitivamente não é do tipo que liga pra essas idiotices de imagem pública — Velvet disparou. O sorriso cínico rasgou seu rosto, afiado como uma lâmina cutucando uma ferida aberta.
A veia na testa de Kali saltou no mesmo milésimo de segundo.
— POR QUE DIABOS VOCÊ TÁ TRAZENDO O NOME DAQUELE IDIOTA PRA CONVERSA DE NOVO?! — ela berrou. O ódio ferveu nas íris enquanto as mãos dela disparavam para agarrar o colarinho da outra.
— Calma, calma! Pelo amor de Deus, abaixem as garras, vocês duas! — Nicklaus interveio. Ele se enfiou no meio do fogo cruzado, uma barreira física, espalmando as mãos e empurrando as garotas para longe uma da outra.
As duas bufaram, cruzando os braços em uníssono e virando as costas, os sapatos rangendo no piso polido. O cuidador soltou um suspiro pesado e massageou a ponte do nariz.
— Certo. Mudando o curso da conversa antes que vocês destruam outro corredor... quem era aquela garota?
Velvet e Kali giraram os rostos. A fúria adolescente evaporou instantaneamente diante da curiosidade crua na voz do mais velho.
— A garota de cabelos escuros com mechas amarelas que entrou na sala do Aleister logo depois de nós — Nicklaus detalhou.
Velvet descruzou os braços, ajeitando a postura para assumir o monopólio da informação.
— Aquela é a Kiara. A atual nêmesis do Dante nas eleições do conselho. Você não sabe quem é? É a "Princesa de Gelo". A mesma garota que aniquilou a concorrência no campeonato de xadrez do ano passado.
— Ah... — Nicklaus coçou a barba rala, o som áspero ecoando perto do colarinho. — É verdade. Eu ouvi dizer que uma aluna do primeiro ano tinha levado a taça, mas não cheguei a assistir à transmissão. Eu estava ocupado servindo de saco de pancadas no treino do time do Adam.
Kali franziu o cenho. O processamento lógico da garota tropeçou na contradição da cena que acabara de presenciar.
— A fama não bate com o chassi. Eu cansei de escutar pelos cantos que essa garota era uma estátua humana. Alguém oca, fria e completamente castrada de emoções. Mas, quando ela parou na porta... ela estava chorando.
— Talvez ela só tenha esbarrado em alguma lembrança da família — Velvet ponderou, dando de ombros com indiferença.
Nicklaus tombou a cabeça.
— E por que exatamente lembrar da família faria uma garota entrar em colapso no meio do corredor?
Velvet travou os pés. Ela olhou de Nicklaus para Kali, a incredulidade marcando a palidez do seu rosto.
— É sério isso? Vocês dois não sabem de absolutamente nada? — A garota estalou a língua, um ruído seco de pena e deboche. — Já vi que o nosso orfanato é uma bolha de desinformados.
— Nem todo mundo tem o tempo livre que você tem pra ficar sugando fofoca alheia o dia inteiro na internet, Velvet! — Kali rebateu, mostrando os dentes.
— Vou fingir que acredito que você não se importa, Kali. — Velvet sorriu, um corte pontiagudo no canto da boca. Então, ela abaixou o tom de voz. O ar leviano evaporou, abrindo espaço para uma gravidade letal. — O papo é o seguinte. Aparentemente, quando elas ainda estavam no fundamental, a irmã mais nova da Kiara tinha um quadro clínico terrível. Era absurdamente frágil, uma garotinha que vivia apagando pelos cantos.
O ritmo dos passos de Nicklaus desacelerou, os sapatos arrastando ligeiramente.
— Até que, um dia, o corpo dela desligou de vez no meio da rua. Um apagão completo enquanto elas voltavam para casa. E o timing foi o pior possível. Um acidente horrível aconteceu. Eu não tenho os detalhes, mas o resultado é de conhecimento público: a irmã dela nunca mais acordou. O cérebro desligou. Ela está vegetando em coma nas máquinas do hospital até hoje.
O ar no corredor pareceu perder a temperatura.
— Meu Deus... — Nicklaus murmurou. — E os pais dela? Como é que uma família sustenta uma carga dessas?
— Não sustenta. A estrutura rachou ao meio — Velvet continuou, implacável na sua entrega. — A mãe dela ainda está de pé. Trabalha até os ossos pra bancar os custos médicos e manter as coisas rodando. Mas o pai... o sistema do cara derreteu. O luto mastigou a sanidade dele. Ele afundou no álcool de um jeito tão destrutivo e violento que perdeu totalmente o controle. A família não teve escolha a não ser assinar os papéis e interná-lo numa clínica psiquiátrica.
Os pés de Kali colaram no chão de pedra. A mente agressiva da garota tentava forçar a matemática humana a fazer sentido.
— Espera um pouco... por que diabos ele faria isso?! — Kali engasgou, a indignação arranhando a garganta. — É a própria filha dele! Era o momento em que a esposa e a Kiara mais precisavam que ele fosse um pilar de concreto, e o cara simplesmente decide encher a cara e jogar a toalha?!
— Eu já disse que não conheço os detalhes, Kali! — Velvet rosnou, cruzando os braços na defensiva.
— Isso não faz o menor sentido! Não tem lógica, Velvet! Você deve ter lido a porra da fofoca errada!
— Não, Kali. — A voz de Nicklaus cortou a discussão. O timbre soou pesado, denso com a exaustão e o conhecimento sombrio da maturidade. — Provavelmente a Velvet está perfeitamente certa.
Kali virou-se para ele, os olhos arregalados de incompreensão.
— Não tem como você criar uma fórmula exata para prever como a mente de alguém vai colapsar sob a pressão do luto — o cuidador explicou. O olhar vago estava cravado na porta dupla de saída no fim do corredor. — Mas se esse pai for o tipo de homem que vivia e respirava por aquelas filhas... a dor de falhar como protetor, a impotência de não poder salvar o próprio sangue... é exatamente o tipo de veneno que frita a fiação de um homem de dentro para fora. Ele não afundou porque não se importava. Ele afundou justamente porque se importava demais.
O silêncio engoliu as duas garotas. A brutalidade irrefutável daquela lógica as silenciou. Nicklaus alcançou as portas de vidro, sacando o guarda-chuva preto que descansava no encosto da parede.
Antes que ele destravasse o cabo, Velvet atirou a última peça.
— Tem mais um detalhe... A Kiara. Os boatos dizem que, antes daquele dia no asfalto, ela não era assim. Ela era enérgica, caótica, uma bagunceira irrefreável. O exato oposto dessa máquina morta que anda pelos corredores hoje. Depois que o sangue esfriou e o pai foi internado, foi como se ela tivesse apagado a própria personalidade.
Nicklaus parou com a mão na maçaneta de metal. O instinto apitou no fundo da mente. Havia camadas muito mais densas sob aquela escuridão, engrenagens quebradas que a fofoca escolar jamais conseguiria mapear. Ele girou o rosto pela metade.
— Bom... nós não temos como montar esse quebra-cabeça agora. Mas, se for possível, mantenham os olhos de vocês nela. Se em algum momento parecer que a blindagem daquela garota está rachando ou que ela precisa de uma âncora... tentem estender a mão. Vocês duas, melhor do que ninguém nesta academia inteira, sabem muito bem o quanto a herança de uma família quebrada pode rasgar a carne de alguém.
As farpas habituais sumiram. Velvet e Kali acenaram em uníssono, um movimento rígido.
— Certo.
Nicklaus empurrou a porta. A lufada de ar gélido e úmido de Nova Astris atingiu seu rosto como um golpe físico. Começava a garoar. Uma chuva fina, opaca e cinzenta, que lavava a fuligem das ruas, mas falhava em limpar o peso do mundo. Ele abriu o guarda-chuva com um estalo seco e caminhou em direção aos portões. A mente latejava com o gosto metálico da injustiça. Por que a realidade cobra um pedágio tão sujo?, pensou, escutando o murmúrio da água batendo no tecido preto acima de sua cabeça. Por que uma criança que nem sequer teve a chance de viver precisa ter as costas esmagadas por uma tragédia dessas? Será que a engrenagem deste mundo quebrado... realmente não tem conserto?
Enquanto a melancolia de Nicklaus se afogava na garoa lá fora, a atmosfera dentro do prédio operava em outra frequência.
Tap. Tap.
O impacto monótono das gotas batendo contra a imensa janela de vidro blindado era o único som a sobreviver na sala da diretoria. Kiara estava de pé, perfeitamente alinhada. Os olhos monocromáticos, idênticos à paleta fria do céu de Nova Astris, observavam a água escorrer.
Ela não enxergava a melancolia romântica da chuva. Não enxergava o sofrimento oculto do mundo sangrando nas nuvens. Enxergava apenas a física crua: partículas cinzentas colidindo contra uma barreira invisível, caindo e sumindo no nada. Exatamente como a engrenagem cega e inabalável que ditava as leis de seu próprio universo.
E, enquanto a voz do diretor Aleister soava como um ruído anestesiado no fundo da sala, a Princesa de Gelo não moveu um único músculo.
Parte 6
As horas foram moídas pelas engrenagens de Nova Astris. O sol escalou o céu de vidro e aço, arrastando o cronograma para a tarde. Nas salas de aula, nos corredores e no comitê, o corpo de Kiara operava com a eficiência assustadora de sempre. Assinava formulários em milissegundos, carimbava autorizações e sustentava o olhar gélido diante dos professores. Por fora, a Princesa de Gelo detinha o controle absoluto.
Por dentro, o sistema colapsava.
Por quê? A pergunta girava em sua mente como um vírus, corrompendo seu foco. A biologia de seu corpo executava tarefas no piloto automático, mas a consciência estava esmagada contra a parede da diretoria. Por que aquela lágrima caíra? Não havia lógica. A equação não fechava. Nada no mundo exterior mudara. A tragédia continuava a mesma, o coma da irmã continuava o mesmo, a ausência de cores em sua visão continuava a mesma. A situação era estática.
Então, por que o seu corpo a traíra?
Caminhando pelo corredor central ao lado de Mordred e Zenobia, a pressão atmosférica dentro do peito de Kiara atingiu um nível crítico. O oxigênio queimava nos pulmões. Um composto de exaustão, pânico e luto ameaçava vazar pelos poros. Não. Eu não posso dar esse mole estúpido agora. Não posso deixar essa bobagem patética me controlar! Ela cerrou os dentes. Eu jurei. Prometi que seria a muralha inabalável que eles precisavam!
A fervura subiu pelo pescoço. Se permanecesse ali por mais um segundo, a blindagem estilhaçaria. Com uma mudança de rota animalesca, Kiara quebrou a formação. Deixou Mordred e Zenobia falando sozinhas e marchou em disparada, empurrando as pesadas portas do banheiro feminino.
BAM!
Invadiu a última cabine. O trinco de metal estalou. O isolamento acústico falhou. As pernas de Kiara cederam, e ela desabou no chão de azulejos frios.
As lágrimas, reprimidas durante anos de hibernação forçada, começaram a rasgar seu rosto. Ela cravou as unhas nos ouvidos, pressionando as palmas contra a cabeça com força brutal para abafar o som, para esmagar os pensamentos. Mas a mente humana é sádica. Quando a represa rompe, ela vomita tudo de uma vez. Quanto mais tentava não pensar, mais a mente focava.
O azulejo branco do colégio piscou, substituído pelo branco estéril de um corredor de UTI. O cheiro cáustico de antisséptico invadiu as narinas. Sentiu a textura da gaze apertando os arranhões em seu braço, enquanto, do outro lado do vidro à prova de som, a realidade desmoronava. Lysander. O pai inabalável banhado em lágrimas e sangue, agarrando o jaleco de um médico e berrando palavras que o vidro ocultava. Mas Kiara não precisava do som. Seus olhos focaram nos lábios do médico. Ela os leu. A sentença de morte biológica desenhada em câmera lenta: Distúrbio... do Ciclo da Ureia... de Início Tardio.
O choque a afogou. Ela, que escapara apenas com arranhões do asfalto, não era o foco do diagnóstico. Ali, percebeu que a junta médica finalmente descobrira a falha no código de Stella. A anomalia que o corpo da irmãzinha escondia. E era tarde demais.
Os flashbacks metralharam sua mente. A imagem do pai, semanas depois, o rosto afundado na escuridão, rugindo de ódio enquanto esmagava o telefone contra a parede após uma briga furiosa com o avô. A visão da mãe, Isobel, as olheiras fundas cavadas no rosto fantasmagórico, as mãos tremendo de exaustão sob a luz da cozinha, mal conseguindo segurar a xícara de café antes de sair para o terceiro turno.
As memórias eram garras arrancando sua frieza de dentro para fora, retalhando a apatia construída com tanto esforço. A respiração de Kiara tornou-se um chiado rasgado. O ódio pela própria fraqueza ferveu nas veias. O punho direito se fechou. Os ossos estalaram. Ela puxou o braço para trás, pronta para explodir a porta de metal num único soco de frustração.
CREAK.
A porta principal do banheiro se abriu. Os freios de Kiara travaram o punho a milímetros do metal. Duas vozes femininas, preenchidas pelo tédio escolar, ecoaram enquanto a torneira se abria.
— Você viu a presidente hoje no pátio? — uma garota perguntou, a voz abafada pela água.
— Tá falando da Lucifer?
— Não, sua lerda. Tô falando da Kiara. A nova presidente.
— Pera aí, nem rolaram as eleições ainda.
— Ah, qual é! É óbvio que ela vai engolir a coroa. Olha pra ela. Primeiro dia de aula e a garota já tá enquadrando os presidentes de clube e resolvendo burocracia como se fosse o braço direito do diretor. Já conversa com os professores de igual pra igual.
O secador de mãos elétrico zumbiu, grave.
— Ela é realmente incrível... — a garota suspirou de inveja. — Aposto que, se eu fosse uma máquina perfeita daquele jeito, meus pais ficariam tão orgulhosos que me dariam literalmente tudo o que eu quisesse.
— Pior que é verdade — a amiga concordou, a torneira morrendo. — Mas, cá entre nós... deve ser um inferno viver daquele jeito.
— Lógico, eu queria muito a moral que ela tem, mas nem morta eu conseguiria ser tão blindada o tempo todo. Sou uma pessoa normal. Não sou a droga de um robô.
Os passos se afastaram. A porta bateu, devolvendo o silêncio denso ao banheiro.
Na penumbra da cabine, a "máquina perfeita" desmoronou. Kiara abaixou o punho trêmulo. Lentamente, recolheu os joelhos, puxando as pernas contra o peito, encolhendo-se no chão sujo. Abraçou as pernas com força esmagadora, as lágrimas molhando a saia.
Um robô. A ironia rasgava sua carne. O colégio a venerava como uma divindade de gelo, como uma fortaleza inquebrável, invejando a armadura que fora forçada a forjar para não acabar num hospício ao lado do pai.
Você tem que aguentar. A voz ecoou fria, ditatorial. Ela engoliu o soluço. Macerou a dor. Compactou o luto, a culpa e o desespero até que a radiação emocional virasse um ponto isolado no fundo do cérebro.
Dez minutos se passaram. A fechadura estalou. Kiara emergiu. Foi até a pia e ligou a torneira. A água fria lavou qualquer rastro salgado. O olhar fixou-se no espelho. As retinas voltaram a ser poços negros e absorventes, vazios de vida. A Princesa de Gelo estava inteira.
Empurrou a porta e pisou no corredor. Mordred e Zenobia recostavam-se na parede, a poucos metros, a tensão estampada nos rostos. Ao ver a expressão estéril de Kiara, a tesoureira pigarreou, quebrando o gelo de forma pragmática.
— É verdade... Kiara. Antes do último período, o protocolo diz que devemos ir à biblioteca central. Precisamos confirmar se todos os livros solicitados nas férias já voltaram ao acervo.
Kiara não confirmou com palavras. Sequer diminuiu a velocidade. Alinhando o eixo do corpo em direção ao pavilhão leste, passou direto pelas duas, com o rosto à frente. A caminhada robótica ditando o ritmo do mundo. As duas trocaram um olhar rápido e marcharam logo atrás, engolidas de volta pela rotina impecável de Nova Astris.
Parte 7
O santuário da biblioteca central operava em uma frequência de silêncio quase religioso. O cheiro seco de papel oxidado, poeira suspensa e cera de assoalho preenchia o espaço entre as fileiras colossais de prateleiras, que se erguiam como pilares sustentando o teto do colégio.
No balcão de atendimento, a aluna responsável pelo acervo engoliu em seco. Sob a pressão do olhar monocromático e inexpressivo de Kiara, tentava estruturar um relatório coerente.
— B-bom... alguns alunos realmente vieram mais cedo para devolver os livros solicitados para as férias. Mas o fluxo foi bagunçado. Eu ainda não tive tempo de cruzar os dados do sistema. Estava exatamente indo colocá-los de volta nas prateleiras para fazer a recontagem manual e confirmar se todos voltaram.
Kiara não perdeu um milissegundo. Suas mãos pálidas avançaram, os dedos firmes recolhendo uma coluna pesada de volumes grossos de uma só vez.
— Nós vamos ajudar. Isso vai agilizar o processo.
A atendente arregalou os olhos, abanando as mãos num princípio de pânico diante da secretária do conselho.
— N-não! De jeito nenhum! Você não precisa se preocupar com trabalho braçal, Kiara! Podem ir adiantando os seus assuntos que eu resolvo a papelada e o empilhamento aqui sozinha antes do sinal bater!
— Negativo. — A voz de Kiara cortou a hesitação como uma guilhotina. — As coisas devem ser feitas da forma certa, na ordem certa. Não podemos ficar pulando etapas ou terceirizando obrigações livremente só porque a conveniência exige.
Sem esperar resposta, girou os calcanhares na direção de Mordred e Zenobia.
— Peguem o resto. Vocês também vão ajudar.
Zenobia travou. A veia da indignação saltou na têmpora.
— Pera aí! Por que diabos eu tenho que virar empacotadora de livro?! Nós devíamos só supervisionar o trabalho dela e...
Kiara já havia dado as costas, a marcha ecoando de forma rítmica corredor adentro. Não registrou a reclamação. Ignorada de forma monumental, Zenobia bufou, agarrou uma pilha de má vontade e arrastou os pés, acompanhando Mordred até a seção de literatura.
Longe do radar da Princesa de Gelo, no fundo mal iluminado do corredor de humanas, a dupla do conselho começou a trabalhar.
Slap.
Zenobia jogou um livro de história no nicho sem o menor cuidado, sibilando para não ecoar pelo salão:
— Parece que a muralha de gelo em volta dela voltou ao normal, no fim das contas.
Mordred deslizou um volume pela madeira polida, os olhos afiados brilhando por trás das lentes dos óculos.
— É o que está parecendo. Mas confesso que foi bizarro. Eu nunca tinha visto a estátua perdendo a compostura daquele jeito no corredor.
— Nem eu! Eu nem sabia que a Princesa de Gelo tinha ponto de fusão pra derreter! — Zenobia soltou uma risadinha ácida. — Mas faz sentido. Afinal... gelo derrete, né?
O sorriso de Zenobia morreu ao perceber que a tesoureira não acompanhava a zombaria.
— Eu estou preocupada com o futuro dela. — A voz de Mordred soou clínica, mas ancorada em um peso tátil.
Zenobia arqueou uma sobrancelha, surpresa.
— Nossa. Que raridade. Você, com pena de alguém?
— Não é pena, Zenobia. É matemática política — Mordred corrigiu, empurrando os óculos pela ponte do nariz. — Se ela continuar nesse ritmo... ela não vai aguentar. Pense na engrenagem. O presidente do conselho é quem escolhe os membros do seu gabinete. Historicamente, amigos de extrema confiança e aliados políticos assumem esse papel para dividir a carga.
Mordred virou o pescoço e a encarou nos olhos.
— Me diga... você acha que a Kiara tem algum único amigo neste colégio? Alguém em quem ela confie cegamente?
Zenobia abriu a boca, mas a resposta morreu na garganta.
— Pois é. Do jeito isolado que ela opera, eu aposto o meu cargo que a primeira coisa que ela vai dizer quando assumir a presidência é: "Eu sou perfeitamente capaz de fazer tudo sozinha." Ela vai tentar engolir o mundo. Vai tentar carregar todo o peso do conselho, dos alunos e da diretoria nas próprias costas, sem delegar nada. E é exatamente por isso que eu me preocupo com o futuro dessa garota.
Zenobia suspirou, o desdém habitual diluído numa resignação pesada.
— Bom... não tem muito o que a gente possa fazer sobre isso agora. A Lucifer olhou na nossa cara e nos deu uma ordem direta: "Confiem nela". Se a presidente absoluta aposta as fichas nessa máquina, a única coisa que nos resta é apostar também.
Encerraram o sussurro, engolidas novamente pelo trabalho braçal.
Alguns corredores para a direita, a "máquina" executava o seu código.
Clack.
Um livro de cálculo empurrado para a prateleira.
Clack.
Um compêndio de química perfeitamente alinhado.
Kiara deslizava os livros para seus nichos exatos com uma fluidez assustadora. Aquela repetição mecânica não era apenas organização; era um mantra. Uma âncora tática. Ela usava o som áspero do papel raspando na madeira e a ordem alfabética para forçar o próprio cérebro a existir puramente no presente. Nada de futuro. Nada de passado. Apenas a física do agora.
Até que a mão pálida deslizou sobre a capa dura do próximo volume. O título dourado brilhou sob o zumbido das lâmpadas fluorescentes: Tratado Avançado de Patologias e Distúrbios Metabólicos Raros.
O ar nos pulmões de Kiara solidificou.
Os dedos longos travaram sobre o couro sintético. O peso daquele livro não estava na gramatura das páginas. Estava na memória radioativa que ele exalava. A visão do quarto escuro de sua infância. As montanhas de compêndios médicos idênticos empilhados sobre a escrivaninha. As madrugadas infinitas, a ardência nos olhos vermelhos e secos, a mente infantil devorando terminologias acadêmicas na caçada por uma falha genética, uma cura, um milagre. Qualquer maldita coisa que a biologia de Nova Astris tivesse ignorado.
O aperto na garganta ameaçou fechar a traqueia. As emoções bateram contra a barricada mental com o impacto de um aríete. Mas, desta vez, a Princesa de Gelo rejeitou o colapso.
Não.
Cravou as unhas na capa. Forçou a respiração a desacelerar, puxando o ar estéril da biblioteca. O maquinário cerebral injetou nitrogênio líquido em suas veias emocionais. Ela esmagou a fraqueza até transformá-la em pó. Eu não posso ser fraca. Eu não posso cair. Em um movimento seco e brutal, enfiou o livro médico na prateleira, fechando a lacuna com força desnecessária. O estrondo oco ecoou na madeira.
O passado estava trancado de novo.
Dez minutos depois, o trio convergiu no balcão principal. A missão estava concluída, mas a engrenagem do sistema acusou uma falha.
— Três livros... — Kiara murmurou, os olhos correndo pela planilha digital no terminal luminoso. — O mapeamento diz que o acervo está incompleto. Faltam exatos três livros solicitados.
A garota do balcão engoliu em seco, recuando um passo.
— E... e nenhum outro aluno assistente da biblioteca desceu para assumir o turno ainda. Eu não posso abandonar a recepção sem ninguém para me cobrir.
Kiara sequer precisou olhar para a tela outra vez. Sua memória fotográfica já cruzara os dados das assinaturas ausentes. Ela sabia perfeitamente o nome e a sala dos três imbecis que não haviam cumprido o prazo. Atrás dela, Zenobia abriu um sorriso preguiçoso, farejando a atmosfera bélica que subitamente emanava de Kiara.
— Bom, eu já sei muito bem onde isso vai dar.
Kiara virou o rosto. A apatia gélida de antes fora substituída pela determinação implacável de uma executora da lei.
— Você pode deixar esse problema com a gente — ela declarou para a atendente, as mãos ajustando perfeitamente os punhos da blusa do uniforme.
Girou os calcanhares e marchou em direção às portas duplas, com Zenobia e Mordred em seu encalço.
— Nós três vamos atrás desses livros. E vamos encontrá-los antes que o tempo se esgote.
Parte 8
O sistema estava entrando em colapso, mas a inércia da rotina ainda empurrava Kiara para a frente.
O baque seco de suas botas contra o piso do segundo ano marcava um compasso puramente matemático: localizar e enquadrar os três alunos listados na prateleira da biblioteca. Entre eles, Dante Scarlune. No entanto, antes que sua mente pudesse mapear as coordenadas da sala correta, a acústica do corredor foi rasgada por uma comoção crua e explosiva.
— Ei, vocês viram?! Tá rolando uma pancadaria brutal ali fora!
— O quê?! Tá brincando?! Logo no primeiro dia de aula?! Quem é o imbecil que faz isso?!
Atrás de Kiara, Zenobia e Mordred estalaram as línguas. O som denotava uma exaustão nítida. Sério que esses animais não conseguem se segurar nem por algumas horas?
Mas a mente de Kiara não teve tempo para formular uma crítica. Antes mesmo que o processamento lógico ditasse uma ordem, a memória muscular assumiu o controle. O instinto bélico, enterrado sob camadas de permafrost durante anos, disparou. Seu corpo moveu-se como um projétil, rasgando a multidão rumo ao pátio antes que a própria consciência autorizasse a ação.
Ela rompeu a barricada humana. O centro da roda era um desastre. No chão áspero de concreto, três garotos mais velhos gemiam, contorcendo-se em uniformes rasgados, com narizes sangrando e hematomas florescendo na pele. E, de pé, pairando sobre a carnificina com a postura relaxada de quem sequer havia suado a camisa, estava Dante Scarlune. Ao redor dele, dezenas de alunos assistiam à cena com as pupilas dilatadas de puro pânico.
O cérebro exausto de Kiara cruzou os dados. O garoto com a ficha criminal inundada de boatos venenosos. O aluno irresponsável da biblioteca. A agressividade gratuita e animalesca no meio do pátio. O pavio curto dela, encharcado de luto reprimido e estresse radioativo, finalmente detonou.
Kiara avançou. A mão pálida espalmou com violência contra o peito de Dante, um solavanco rígido que o arremessou para trás.
— O que diabos você acha que está fazendo?! — a voz dela explodiu, quebrando a frequência estéril e monótona de sua fachada. — Você não está vendo a comoção imbecil que está causando?! Logo no primeiro dia de aula, armando uma bagunça patética dessas?! Por acaso não tem a menor vergonha na cara?! Acha que ainda é uma criança do fundamental?!
Pego totalmente de surpresa pelo impacto, Dante cambaleou meio passo para trás. O garoto piscou. Mas ele não devolveu a agressão. Não tentou se justificar. Ele apenas cravou os olhos em Kiara, as íris transbordando um misto de choque e fascínio cru. Observar a "Princesa de Gelo", a garota robótica, espumando de raiva e gritando a plenos pulmões... era uma anomalia tão bizarra que a curiosidade o deixou literalmente surdo para as acusações.
A virada de mesa veio das costas de Kiara.
— E-espera! Calma! Não é nada disso!
Kiara girou o pescoço. No chão, encolhido atrás de onde Dante estava, um garoto menor e trêmulo erguia a mão, segurando uma caneta-tinteiro amassada.
— Esses caras... — o garoto apontou para os corpos caídos —, eles estavam tentando me espancar pra roubar essa caneta! É a única lembrança que eu tenho da minha avó! Quando eu tentei revidar, eles me atacaram. O Dante só se meteu no meio pra me salvar!
A gravidade no pátio se inverteu. O oxigênio nos pulmões de Kiara cristalizou.
“Nesses casos, a sua função primária não é ser a executora. É proteger... e acionar as autoridades. Se você tenta consertar um erro brutal cometendo outro erro selvagem, você só se torna um tipo diferente de traste.”
O sermão de Vlad. A memória engatilhada da diretoria. O julgamento precipitado. Ela acabara de fazer exatamente a mesma coisa. O peso da vergonha despencou sobre os ombros de Kiara como uma bigorna de chumbo. A engrenagem parou.
Os sussurros começaram a rastejar pela multidão, lixando a mente fraturada da garota.
— Que isso... ela até que tá certa pela política do colégio, mas não acha que foi rude demais?
— Ela simplesmente chegou empurrando o cara sem nem saber o que tava rolando.
— Beleza que o Dante quebrou as regras batendo neles, mas a atitude dela foi meio...
O concreto sob suas botas parecia derreter. Rompendo a roda, Zenobia e Mordred emergiram ofegantes.
— Kiara! O que aconteceu? — Mordred perguntou, a voz tensa.
O fluxo de curiosos só aumentava. Mais longe, o grito de Emilia tentava abrir caminho na força bruta para aplicar a disciplina, mas a muralha de alunos bloqueava a passagem. O cerco apertava. Os cochichos subiam de volume.
— Nossa... não sabia que ela era agressiva assim.
— Será que dá mesmo pra confiar os votos numa pessoa que julga e bate nos outros do nada?
O rosto de Kiara perdeu os últimos traços de cor. A respiração falhou, travando numa hiperventilação silenciosa. A máquina ia quebrar na frente do colégio inteiro.
Foi então que o radar de Dante apitou. O garoto enxergou perfeitamente o curto-circuito brilhando nos olhos da secretária. E, com o instinto afiado de quem sabia dançar no caos, seu corpo moveu-se para desarmar a bomba.
— Hahaha! — uma gargalhada relaxada, madura e incrivelmente magnética cortou o pátio. Dante passou a mão pelos cabelos bicolores, espreguiçando-se com a postura mais desleixada e brincalhona possível. — Ai, ai... acho que dessa vez eu realmente exagerei na dose, né?
Ele piscou para o público, assumindo toda a culpa com um charme canalha de quem se recusa a levar o mundo a sério.
— Foi mal, galera. A presidente aqui tem toda a razão. Aposto que, se a Emilia já estivesse aqui, ela também me daria uma bronca gigantesca por ter saído distribuindo socos antes de tentar resolver na conversa! Foi mal, foi mal!
No fundo da multidão, a voz esganiçada da chefe de disciplina finalmente estourou:
— Ah, eu tô aqui sim, seu idiota! E espera só eu botar as mãos em você!
Dante arregalou os olhos num susto cômico, fingindo limpar um suor frio da testa.
— Ixi... agora lascou de vez!
A reação foi instantânea. A tensão no pátio vaporizou. Os alunos caíram na risada, o clima pesado sendo varrido pela palhaçada carismática do garoto. Mas, para garantir que os sussurros não voltassem a mirar na liderança de Kiara, ele precisava selar a paz de forma visível. Com um sorriso amigável, Dante deu um passo na direção dela. A intenção era puramente tática: um toque casual para mostrar ao público que não havia ressentimentos, que o empurrão não fora nada demais. Ele estendeu o braço. A mão tocou o ombro da garota.
— É sério, gente. Tá tudo bem por a...
A agulha perfurou o tanque de pressão.
A sobrecarga sensorial, o pânico engarrafado, a culpa paralisante e o calor daquele toque repentino. O hardware de Kiara fritou completamente. A reação evadiu o cérebro; foi puro reflexo de sobrevivência animal. Ela pivotou o tronco. A cintura acompanhou o torque, e o punho direito cortou o ar como um míssil.
SMMMAAASH!
O soco aterrissou limpo, úmido e brutal, bem no meio do rosto de Dante. A força cinética do golpe arrancou os pés do garoto do chão, atirando-o para trás até que suas costas colidissem contra o concreto com um baque surdo.
Gritos de horror estouraram na plateia. Zenobia e Mordred recuaram, os queixos caídos, paralisadas pelo choque absoluto.
Dante gemeu, apoiando os cotovelos no chão para erguer o tronco. O sangue quente desceu de imediato por sua narina direita. Ele esfregou o rosto, atordoado. Para um garoto com o orgulho dele, levar um soco na frente do colégio inteiro deveria ser o estopim de uma guerra letal. Mas, quando ele ergueu os olhos, a fúria morreu em seu peito antes de nascer.
Kiara estava diante dele, as mãos tremendo violentamente, o peito subindo e descendo em arfadas rasgadas e desesperadas. As retinas da garota, antes abismos vazios e impenetráveis, agora estavam injetadas, transbordando lágrimas de um pânico incompreensível. Ela encarava o próprio punho como se os ossos não pertencessem ao seu corpo.
A visão daquela explosão de vulnerabilidade nua e crua obliterou qualquer instinto de retaliação em Dante. Ele ficou estático no chão. Embasbacado.
O som agudo dos gritos da multidão engoliu Kiara. O medo primitivo a possuiu. Sem dizer uma única palavra, ela apertou os olhos com força, esmagou os punhos junto ao corpo e simplesmente virou as costas.
Ela correu. Cortou a multidão como um fantasma alucinado, o atrito de seus ombros rebatendo contra os alunos, inalcançável. Zenobia e Mordred finalmente quebraram o transe, gritando o nome da secretária, mas a Princesa de Gelo já havia sido engolida pelo corredor. Dante, ainda no chão, sentindo o gosto de sangue no lábio, apenas assistiu à fuga.
Ela correu. Passou como um borrão pelas portas do colégio, rasgou os portões de Nova Astris e invadiu o concreto das calçadas da metrópole. Não olhou para trás. Não acionou os freios até que o oxigênio queimasse como ácido em seus pulmões e ela batesse a porta de sua própria casa.
Trancada no escuro de sua solidão, Kiara escorregou pela madeira até o chão, agarrando a própria cabeça enquanto o silêncio da casa zumbia em seus ouvidos. Por quê? Sua mente estilhaçava na confusão. Por que eu fiz aquilo? Por que eu perdi o controle? Pela primeira vez em anos, a engrenagem perfeita estava em pedaços, e ela não fazia a menor ideia de como consertá-la.
Parte 9
BEEP! BEEP! BEEP! BEEP!
O alarme eletrônico berrava, uma lâmina de som rasgando o silêncio denso do quarto. Para uma garota cujo relógio biológico sempre vencia o cronômetro com três segundos exatos de antecedência, aquele ruído estridente era a prova material de que o maquinário perfeito havia entrado em colapso.
Kiara abriu os olhos. O teto parecia pesar uma tonelada. Ela arrastou o corpo para fora dos lençóis, o impacto da sola descalça contra o assoalho gelado ecoando como um martelo batendo o veredito de sua culpa. No espelho do banheiro, o reflexo não devolveu a Princesa de Gelo. Devolveu um desastre. Os olhos, antes poços frios e calculistas, estavam injetados, vermelhos e grotescamente inchados. A estátua havia derretido na frente do colégio inteiro.
O pânico devorou o roteiro da manhã. Ela marchou até a cozinha, com os passos atropelados. Recolheu o bilhete rotineiro da mãe, jogou-o no guarda-comidas e acendeu o fogão. Quebrou o ovo na frigideira. Mas, quando o ponteiro do relógio de parede fisgou sua visão periférica, a engrenagem engasgou. Estava tragicamente atrasada. Ainda vestia o pijama amassado; o chuveiro continuava seco, e a escova de dentes, intocada. Correu de volta ao banheiro. O chiado da água da pia misturou-se à respiração irregular enquanto tentava, em desespero, lavar os traços do próprio colapso.
O cheiro ácido e acre de fumaça invadiu o corredor. Ela arregalou os olhos e disparou de volta para a cozinha. O fundo da frigideira estava carbonizado. As bordas da clara haviam se transformado em uma crosta negra, rígida e intragável. O dia desmoronava em sua forma mais primitiva e caótica.
Sentada à mesa milimetricamente alinhada, Kiara tentou mastigar. O gosto de carvão arranhou a língua, e o estômago contorceu-se de imediato. Uma náusea violenta escalou sua garganta. Ela soltou o pão. A repulsa não vinha da comida estragada, mas da radiação gerada pela memória do dia anterior.
O baque úmido do soco. O sangue quente escorrendo do nariz de Dante. O grito agudo da multidão rasgando o pátio.
Não tem como esconder.
A mente girava num vórtice sombrio. Eu soquei um aluno. Perdi o controle. Assinei a minha derrota na eleição e pulverizei a minha reputação. O terror puro infiltrou-se em sua espinha ao imaginar a voz diplomática do diretor Aleister discando o número de sua mãe. O medo de decepcioná-la, de fazê-la chorar de exaustão por causa de uma suspensão, era um veneno paralisante. Ela não queria cruzar aquela porta. Não queria pisar no concreto da rua. Mas a inércia do dever a agarrou pelo colarinho e a arrastou.
O trajeto até Nova Astris foi a marcha solitária de um condenado em direção à guilhotina. Mas, de forma bizarra, a lâmina nunca caiu. As calçadas fervilhavam com o atrito dos uniformes e das mochilas, mas nenhum dedo foi apontado. Ninguém riu. As pessoas passavam por ela murmurando o mesmo "bom dia" apático de sempre, sem cochichos, sem desviar os olhos. A ausência de julgamento apenas adensou a ansiedade de Kiara, transformando a caminhada num pesadelo de confusão lógica.
Os portões colossais do colégio se ergueram no horizonte. Love Scarlune estava ali, a muralha loira distribuindo sorrisos e carisma matinal. Kiara apertou o passo, com os ombros encolhidos, esperando o peso da mão da disciplina despencar.
— Bom dia — ela murmurou, mantendo o olhar cravado no asfalto.
— Kiara. Espera um minuto.
A voz aveludada do gigante a travou no lugar. É agora. O fim da linha.
Love suspirou. O sorriso radiante recuou, dando lugar a uma expressão de solidariedade genuína.
— Sobre o Dante... foi mal. É sério. Eu sei perfeitamente o quanto aquele garoto consegue ser irritante às vezes. Sinto muito pelos problemas e pela vergonha que ele te fez passar ontem.
Kiara piscou. A respiração travou nos pulmões. O quê?
— Mas, da próxima vez, não precisa sujar as suas mãos e acabar se machucando — Love continuou, oferecendo uma piscadela cúmplice. — Deixa que eu mesmo resolvo e dou uma surra nele por você, tá legal?
A secretária do conselho apenas acenou com a cabeça num movimento robótico e transpôs o portão. O curto-circuito em sua mente era absoluto.
Na sala do conselho estudantil, a temperatura parecia graus abaixo do normal. Lucifer conversava em voz baixa com Emilia. Quando a porta rangeu e Kiara pisou no carpete, o silêncio dominou o ambiente.
— Bom dia — Kiara disparou. O tom estéril, já preparado para absorver o decreto de sua expulsão.
Lucifer cruzou as pernas. Os olhos azuis escanearam a garota de cima a baixo, a voz desprovida do veneno habitual.
— Você está bem? Tem certeza de que queria mesmo vir hoje? Eu sei o que você me disse no ano passado, mas... eu posso cobrir as suas funções hoje. Ninguém reclamaria se você tirasse o dia para respirar.
A confusão transbordou do recipiente lógico de Kiara. A matemática do mundo havia sido assassinada.
— Do que... você está falando? — a voz da Princesa de Gelo vacilou.
— Viu só?! Não vai me dizer que foi um choque tão traumático que a sua mente simplesmente apagou o assédio da memória?! — Lucifer perguntou, genuinamente desarmada pela reação apática.
Emilia espalmou as duas mãos na madeira da mesa, a fúria puritana fervendo.
— É claro que ela prefere esquecer, presidente! Coloque-se no lugar dela! Uma garota jovem, pura e de futuro brilhante sendo molestada na frente do colégio inteiro daquele jeito! Eu disse e repito: nós não devíamos só suspender aquele arruaceiro! Nós devíamos expulsá-lo de uma vez! É inacreditável que um mau exemplo saia apalpando os outros sem sofrer uma mísera punição!
O processador de Kiara engasgou. Molestada? Apalpando?
— Ah, qual é, Emilia. Foi só um toquezinho rápido, não dá pra expulsar o garoto só por isso — Lucifer rebateu, girando a caneta entre os dedos com extremo tédio.
Zenobia descruzou os braços, desgrudando as costas da parede.
— Sinceramente, eu nem entendi nada na hora. Eu tava literalmente do lado, mas nem vi ele fazendo isso. Eu só vi o Dante indo na direção dela e, no segundo seguinte, a Kiara estilhaçando a cara dele num soco.
Mordred ajustou os óculos. O brilho da tela do tablet refletiu nas lentes grossas.
— É. Mas a narrativa ficou cristalina logo depois, quando o próprio Dante explicou a situação pra enfermeira e pro comitê. Ele assumiu em público que a Kiara percebeu que ele estava tentando tocar nos seios da Rainha de Gelo no meio da confusão, só para ver se conseguia marcar mais uma "conquista lendária" na lista patética dele. Foi por isso que ela o esmurrou.
O mundo ao redor de Kiara perdeu a gravidade. A sala, o som, as cores — tudo reduziu-se a um vácuo branco e ensurdecedor. O pânico matinal foi obliterado por uma epifania esmagadora. Ele disse isso? Mas... por quê? Ele só estava colocando a mão no meu ombro para acalmar a multidão. Era óbvio que a intenção dele era pacífica.
A memória das fofocas que circulavam nos fóruns invadiu sua consciência. Galinha. Safado. O Cara das Cinco Namoradas. Se um garoto com a reputação repulsiva de Dante Scarlune admitisse que tentou assediar a presidente intocável... seria uma narrativa que o colégio engoliria sem mastigar. Mil vezes mais fácil de digerir do que a verdade nua e crua: que a imaculada Princesa de Gelo havia sofrido um colapso, surtado e espancado alguém puramente por estar com a mente fraturada.
Dante usou a própria lama como um escudo de chumbo para blindá-la. Não apenas a salvou da guilhotina escolar; ele se atirou voluntariamente na fogueira para garantir que ela saísse intacta. Mas por quê?
Após o conselho arquivar o assunto — concluindo que não poderiam punir Dante severamente sem que a "vítima" prestasse uma queixa formal —, Kiara arrastou-se para fora da sala, o corpo movendo-se em estado de letargia.
No meio do fluxo barulhento do corredor, suas botas travaram no piso.
Vindo na direção oposta, engolido por uma roda de amigos estridentes, estava Dante. Um curativo branco e espesso cruzava a ponte do nariz fraturado. Os passos do garoto também estancaram. O burburinho ao redor pareceu afundar em um túnel distante. A Princesa de Gelo paralisou.
Mas Dante? O garoto de cabelos bicolores sustentou o ombro dos amigos, ostentando o exato mesmo sorriso canalha, maduro e estupidamente relaxado de sempre. Não havia a menor assinatura de ressentimento em sua postura. Nenhum traço de orgulho ferido pela humilhação pública ou pela dor física. Pelo contrário. Ao cruzar o olhar com Kiara, as íris dele brilharam com uma curiosidade viva, quase felina. Ele se moveu, a boca entreabrindo-se com aquele carisma despretensioso, prestes a lançar uma pergunta provocativa.
Antes que a primeira sílaba rasgasse o ar, os amigos o agarraram pelo pescoço em uma chave de braço rústica, arrastando-o para a próxima aula em meio a risadas ecoantes. Ele foi puxado pela maré, cedendo à brincadeira e sumindo na multidão. Mas a pergunta não dita continuou queimando na garganta de Kiara.
As horas vazaram como água por uma torneira trincada. No fim do expediente letivo, a estrutura de Nova Astris esvaziou, devolvendo o silêncio imperial ao prédio.
Sozinha na sala de aula, Kiara alinhava as carteiras. Pela primeira vez desde o som oco do corpo de Stella batendo no asfalto, a mente da garota não estava asfixiada pelo peso da tragédia, tampouco pela pressão esmagadora de ser uma muralha inquebrável. Seu processador operava em hiperfoco, rastreando uma única anomalia. O mistério da atitude irracional de Dante havia sequestrado seu raciocínio, oferecendo um alívio bizarro e entorpecente à dor real.
Ela encaixou a última cadeira na base da mesa, perfeitamente consciente de que aquela calmaria não duraria. Amanhã a blindagem congelaria novamente, a responsabilidade cobraria seu pedágio e a frieza precisaria ser restaurada. Mas, enquanto deslizava o apagador para limpar o quadro-negro, um movimento fora do vidro capturou sua atenção.
Kiara virou o pescoço em direção à janela.
Na passarela do prédio vizinho, banhado pela luz alaranjada de um pôr do sol que as retinas dela filtravam apenas como diferentes tons de cinza estático, estava Dante. Ele estava escorado na grade de metal, o peso do corpo relaxado, as mãos afundadas nos bolsos da jaqueta escolar. Observava a sala dela.
Através do abismo que separava os dois blocos, os olhos monocromáticos de Kiara encontraram as íris do garoto. Nenhum dos dois moveu um músculo. Não houve aceno, não houve sorriso. O silêncio que se esticou entre eles no vazio da tarde, pela primeira vez em anos, não era o ruído fantasmagórico de uma máquina quebrada. Era o som preciso e perfeito de uma nova engrenagem, finalmente, encaixando-se no sistema.
Parte 10
A distância entre a janela de Kiara e a passarela do pavilhão vizinho era um abismo cortado por correntes de ar gélido e silêncio.
Encarando Dante do outro lado do fosso, a engrenagem lógica de Kiara travou. O núcleo racional do seu cérebro disparava perguntas em uma metralhadora muda: Por que você me ajudou? Por que se atirou na fogueira por mim? Qual é a matemática por trás dessa atitude? Simultaneamente, a biologia da culpa corroía sua garganta. Ela queria pedir desculpas. Queria curvar a espinha e assumir o erro de ter engolido o veneno dos fóruns da internet.
Mas as palavras morreram antes da laringe. O protocolo da Princesa de Gelo acionou as travas de segurança. Gritar de uma janela para a outra no meio do colégio? Que tipo de histérica faria uma cena patética dessas? Não ela. A filha perfeita deveria manter a postura. A secretária do conselho deveria seguir a etiqueta. O cálculo final era cirúrgico: ela executaria uma reverência formal de quinze graus para demonstrar gratidão, daria as costas e retomaria o vácuo de sua rotina.
Mas, antes que o pescoço dela dobrasse um único milímetro, o maquinário da realidade falhou.
Do outro lado do abismo, o atrito do tecido contra o metal ecoou. Dante havia enfiado uma perna por fora da grade de proteção. O garoto torcia o próprio ombro, espremendo-se pelas barras como um gato encurralado, ancorando o peso do corpo para saltar o precipício que separava os dois prédios.
O choque obliterou a blindagem de Kiara. O firewall derreteu.
— MAS O QUE DIABOS VOCÊ ESTÁ FAZENDO?! — a voz rasgou a acústica do pátio vazio. O volume estourou completamente a escala de seus próprios padrões.
Dante parou, com metade do tronco balançando sobre a queda letal. Virou o rosto por cima do ombro, os cabelos bicolores esvoaçando no vento, e abriu um sorriso incrivelmente displicente.
— Indo pra esse lado, ué.
— Por acaso você perdeu o cérebro?! — Kiara gritou, as unhas cravando no parapeito da janela. A frieza evaporou, engolida pelo pânico nu e cru. — Se você errar a porcaria do pulo, vai despencar direto pro asfalto!
— Que nada, é mó perto! — ele soltou uma das mãos da grade para medir o vento, piscando com uma presunção absurda.
Kiara sentiu a veia da têmpora latejar. A estupidez daquele garoto ofendia a ordem do universo.
— Se você quer vir até aqui, faça o favor de usar as escadas e os corredores! O caminho normal! As grades foram soldadas aí exatamente para impedir a seleção natural de imbecis como você!
Dante fez bico, a mão livre coçando o queixo.
— É, eu até poderia ir andando. Mas e se eu der a volta no prédio inteiro e, quando chegar aí, você já tiver metido o pé?
— Eu não vou a lugar nenhum! — Kiara rebateu, os pulmões ofegantes. — Eu espero! Então desce daí agora!
O sorriso canalha se alargou. O brilho caótico nas íris dele parecia ter encontrado exatamente o que procurava.
— Jura? Então beleza. Fica aí, não foge não.
Com um impulso ágil, ele desfez o contorcionismo, saltou de volta para o concreto de seu corredor e sumiu da vista da janela.
Na sala de aula vazia, Kiara ficou estática. O silêncio voltou a preencher o espaço, mas agora o som rítmico de seu próprio coração espancava as costelas. Ela encostou a testa no vidro gelado da janela. O processamento lógico girava em falso, tentando montar o quebra-cabeça. Foi realmente aquele idiota imprudente que me salvou ontem?
Por uma fração de segundo, o instinto de defesa ofereceu uma rota de fuga mental. Talvez ele seja só um tarado. Talvez só tenha tentado aproveitar o caos. Mas Kiara fechou os olhos e negou com a cabeça. A mentira não tinha base lógica. Ele absorvera o impacto para blindar o nome dela.
A respiração encurtou. Ele está vindo. Ele vai cobrar a fatura. Fosse para devolver a agressão, suborná-la com o segredo do surto ou exigir imunidade política na academia, a matemática era irrefutável: Dante criara um déficit, e ela teria que pagar o preço.
BANG.
A porta da sala escancarou, rebatendo contra o batente. Dante entrou caminhando, o atrito macio das botas quebrando a quietude. As mãos estavam afundadas nos bolsos da jaqueta, e o curativo espesso no nariz alinhava-se perfeitamente com aquele sorriso maduro.
— Achei! Caramba, fiquei caçando a sua sala por todos os corredores do segundo ano e não achava de jeito nenhum.
O corpo de Kiara enrijeceu. Os punhos se fecharam junto às costuras da saia. O tremor começou a subir pelos calcanhares. É agora. Eu preciso me curvar. Eu preciso pedir desculpas.
Dante cruzou o espaço até o centro da sala. Com a ponta da bota, puxou uma cadeira de forma rústica, o metal arranhando o piso. Sentou-se de frente para a mesa da secretária e, em um movimento fluido, enfiou a mão na mochila pendurada num ombro só.
CLACK.
Ele bateu um tabuleiro de madeira maciça sobre a mesa. As peças de xadrez já estavam alinhadas, polidas, pesadas. Prontas para o massacre. Dante encostou as costas na cadeira, cruzou os braços e a encarou.
— E aí? Vai querer jogar com as brancas ou com as pretas?
Os circuitos lógicos de Kiara fritaram.
— Como é que é? — A voz saiu aguda, fraturada.
Dante tombou a cabeça.
— Ah, é verdade. Falha minha. Normalmente a gente faz um sorteio pra ver quem fica com as brancas pra ter a iniciativa no tabuleiro, né? Malz aí.
— Não é isso que eu estou perguntando! — Kiara cortou o ar com a mão, os olhos arregalados. — Eu estou perguntando o que diabos você quer com esse tabuleiro! Eu achei que você tinha atravessado o colégio inteiro pra falar sobre ontem! Pra falar do meu soco!
Dante piscou devagar. O sorriso cínico, carregado daquela displicência provocadora, reassumiu o controle. Ele gesticulou com a mão para o vazio, varrendo a tragédia do dia anterior como se espantasse fumaça.
— Ah, aquilo? Esquece aquilo. — Ele apoiou os cotovelos na borda da mesa, encurtando a distância e cravando as pupilas nela. — Muito mais importante do que aquilo... você é a famosa Rainha do Xadrez, não é? Então senta aí e vamos jogar.
Kiara permaneceu de pé por longos cinco segundos. Encarou a geometria do tabuleiro. Encarou a postura largada do garoto. Aquela peça orgânica à sua frente simplesmente repelia o raciocínio matemático. Ele contrariava a física, a etiqueta, a lógica primária de ação e reação. Ele era caos puro.
Mas... por algum motivo inexplicável, estar no raio de alcance daquele epicentro de irresponsabilidade operava um milagre biológico. A gravidade esmagadora, o luto denso que pressionava a coluna de Kiara contra o chão todos os dias... evaporou. O peso sumiu no ar, sugado pelo vácuo gerado pelo sorriso de Dante.
Silenciosamente, a Princesa de Gelo puxou a própria cadeira. O atrito sutil da saia plissada ecoou quando ela sentou de frente para ele. A postura estéril morreu ali. Ela curvou a espinha, inclinando-se sobre o tabuleiro. O olhar, antes vazio, acendeu-se, cruzado por uma faísca afiada, fria e letal. A assinatura inconfundível de uma predadora absoluta.
— Eu não jogo de brincadeira — o sussurro cortou o espaço, denso como nitrogênio líquido.
Dante sorriu de volta. A mesma eletricidade. O mesmo desafio suicida.
— Então pode vir com tudo, presidente. Até porque... eu definitivamente não planejo perder.



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