The Fall of the Stars IF: Capítulo 3 - O Zumbi e a Delinquente
- AngelDark

- 12 de jul.
- 71 min de leitura
Volume 1 : Gelo e Raio (Gakuen)
Entrelinhas
O cheiro de antisséptico e terra molhada dividia o pátio interno da clínica psiquiátrica. O local era silencioso, monitorado de perto por enfermeiros e guardas de postura discreta, mas vigilante — uma exigência inegociável do protocolo de segurança, mesmo para pacientes que, como Lysander, já exibiam saltos expressivos no processo de reabilitação.
Sentada no banco de madeira polida, Isobel engoliu em seco. À sua frente, Lysander não parecia mais a sombra de um homem à beira da aniquilação absoluta. A palidez ainda marcava sua pele, e a magreza denunciava os meses de confinamento, mas o sorriso que moldava seu rosto — exausto, porém límpido — carregava a serenidade de um oceano após a tempestade.
As palavras teimavam em travar na laringe de Isobel. E ele, melhor do que qualquer ser humano no mundo, lia com exatidão matemática o porquê daquele silêncio.
— Será que eu posso perguntar... — Lysander iniciou, a voz aveludada, quebrando o vácuo —, como você tem estado?
Isobel soltou o ar preso nos pulmões. Ela tentou forçar um sorriso firme, mas a exaustão rasgou a sua fachada. Para Lysander, observar aquele sorriso custou como um golpe físico no peito. As olheiras profundas e roxas escavadas na face de sua esposa, a perda severa de massa muscular em seus braços... aquele quadro era um relatório cruel e nítido de todo o luto que ele havia jogado sobre os ombros dela quando o seu próprio cérebro derreteu.
— E como anda a Kiara? — ele sussurrou, apertando as mãos sobre os joelhos.
O sorriso cansado de Isobel vacilou.
— Aquela garota... ela acabou crescendo rápido demais, Lysander. — A voz da mãe saiu trêmula, afogada em remorso. — Eu falhei. Não consegui ser o escudo que ela precisava. Eu roubei o direito da minha filha de ser uma adolescente comum e a forcei a carregar uma muralha de concreto nas costas por minha causa.
A mão pálida de Lysander avançou, cobrindo a dela sobre o banco. O calor do toque cortou o frio do pátio.
— Não ouse dizer isso. — O olhar dele era incisivo, transbordando uma gravidade protetora. — Se você quer colocar a culpa em alguém, olhe pra mim. Fui eu quem desmoronou no meio da guerra. Fui eu quem deixou vocês duas esmagadas sob os escombros porque fui covarde demais para sustentar o meu dever como pai.
Isobel apertou a mão dele, as unhas quase marcando a pele do marido.
— Isso é uma mentira absurda, Lysander. Quando aquilo aconteceu, todos nós ficamos abalados. Ninguém tem o direito de te guilhotinar por não ter aguentado a pressão biológica daquela perda. Sinceramente? Eu mesma me pergunto como não apaguei do mesmo jeito.
— Mas você não apagou. — Ele abriu um sorriso pontiagudo e molhado. — Você continuou de pé, batendo de frente. E eu tenho a mais pura certeza de que, sem a sua teimosia, a Kiara teria sucumbido também. Nós acumulamos uma dívida monstruosa com o passado, Isobel. Cometemos erros gravíssimos. Mas a física deste universo é inflexível: não dá pra reescrever o que ficou pra trás. Só podemos moldar o que vai nascer amanhã. E para o futuro que nos espera... eu me recuso a criar novos arrependimentos.
O silêncio reinou por alguns segundos, não por dor, mas por uma trégua selada em concreto.
— Eu concordo. — Isobel ergueu o queixo, uma chama teimosa acendendo em suas íris. — Dessa vez, nós não vamos falhar.
Eles sorriram juntos, um reflexo do casal inabalável que haviam sido um dia.
— Mas... o motivo real da minha visita hoje não é pra gastar o nosso tempo chorando miséria e culpa. — Isobel endireitou a espinha, a voz assumindo uma energia radioativa de alívio. — Eu tenho uma atualização médica, Lysander. A junta biológica de Nova Astris finalmente conseguiu estabilizar o quadro da Stella na UTI. O sistema dela parou de degenerar.
Os olhos do homem se arregalaram.
— O que eles disseram é que, se nós conseguirmos localizar um doador com a compatibilidade exata... eles têm total certeza de que conseguirão acordá-la. Nossa filha vai acordar.
O lábio inferior de Lysander tremeu. A serenidade estilhaçou-se em mil pedaços. As lágrimas jorraram do rosto do homem sem qualquer controle, descendo pelo queixo enquanto ele engasgava num soluço de pura salvação.
— Graças a Deus... — ele chorava como uma criança. — Graças a Deus...
— Olha só pra isso! — Isobel provocou, embora a própria voz já estivesse falhando. — Passou dez minutos despejando filosofia madura na minha cara e agora tá aí, derretendo feito um chorão patético!
— E o que você queria?! — Lysander riu no meio dos soluços, enxugando o rosto com a manga do uniforme do hospital. — É a nossa menininha, Isobel! Como eu não vou chorar?!
A barreira da mãe também desabou. As lágrimas escorreram soltas pelas bochechas de Isobel, mas ela sustentou a provocação, segurando o rosto dele com as duas mãos:
— Trata de recompor essa pose agora mesmo! Se você estiver com essa cara lamentável quando nós quatro nos reunirmos de novo em casa... a Kiara vai rir da sua cara pelo resto da vida!
O eco das risadas chorosas dos dois preenchia a clínica de reabilitação. O inverno estava no fim para a família Ashworth.
Enquanto isso, a milhares de quilômetros de distância, a física atmosférica operava em outro extremo do globo. O sol escaldante do Havaí queimava a areia branca e refletia nas águas cristalinas do Pacífico.
Rasgando a arrebentação das ondas, uma figura imponente emergiu do oceano carregando uma prancha de surfe debaixo do braço. O homem aparentava estar no auge físico. Cabelos curtos nas laterais, com mechas brancas desordenadas misturadas aos fios negros escorrendo pela água do mar, e uma musculatura absurdamente densa, talhada como mármore grego sob o sol tropical. Na calçada da praia, um grupo de turistas cochichava enquanto ele passava:
— Caramba, olha lá praquele coroa! O cara tá num shape insano! Será que é gringo?
Ryu Scarlune ignorou os comentários. Ele parou na areia quente, cravou a prancha no chão e esquadrinhou o horizonte azul com um sorriso largo, incrivelmente relaxado.
— Que clima espetacular... — ele murmurou, esfregando o sal do queixo. — Eu preciso achar um jeito de forçar aquela mulher a colocar os pés fora de casa e pisar na areia comigo.
A algumas centenas de metros da praia, no interior de uma luxuosa casa de veraneio com vista panorâmica para o mar, o "alvo" de Ryu operava numa frequência oposta. A sala de estar parecia um laboratório de biologia que havia sofrido uma detonação. Béqueres com reagentes químicos se amontoavam na mesa de centro, cercados por dezenas de tomos botânicos abertos sobre a anatomia de uma flor endêmica e rara do arquipélago havaiano.
No meio daquele caos acadêmico, estava Rani Scarlune. Ela usava apenas um biquíni preto rústico, coberto por um jaleco branco de pesquisa completamente aberto. Seus longos cabelos brancos caíam como cascatas de neve pelas costas, e sua pele era tão absurdamente alva e pálida que parecia um absurdo fotográfico ela existir dentro de um clima tropical sem se desintegrar.
Segurando um smartphone entre o ombro e a orelha enquanto manipulava uma pipeta com precisão letal, a voz fria e desinteressada de Rani cortou o silêncio da casa:
— O que você quer, Elixia? Eu estava no meio de uma análise laboratorial sobre a estrutura celular da Flor Cicatriz.
Do outro lado da linha, a voz de Elixia suspirou com exaustão sem igual:
“Ah, como sempre... você só respira por essa maldita ciência! Sinceramente, eu sinto uma pena genuína do Ryu. O cara tá ilhado com você nesse paraíso tropical e você provavelmente tá tratando a existência dele como um fantasma irrelevante.”
Rani não piscou.
— Ryu? Quem seria esse sujeito?
“EI!”
— É apenas uma brincadeira, Elixia. — O canto dos lábios de Rani repuxou um milímetro. — Ele está perfeitamente bem. Sempre que resolve aparecer aqui na sala, ele fica abanando o rabo invisível dele igual a um cachorro de rua que achou dono.
“Meu Deus... é assim que uma mulher respeitável se refere ao próprio marido? Sádica.”
— Se você me ligou numa chamada internacional puramente para encher a minha paciência com conselhos matrimoniais de revista, eu vou desligar na sua cara agora mesmo.
“Espera, espera! Não desliga!” Elixia berrou, o tom mudando para uma fofoca afiada. “O ponto principal da ligação é o seu filho. Ele tá participando do Torneio Mundial de Xadrez.”
A mão de Rani parou. A gota do reagente ficou suspensa na ponta da pipeta.
— Desde quando, na linha temporal biológica deste universo, o Dante possui qualquer interesse por xadrez?
“Liga a televisão da sala aí pra você ver com os próprios olhos.”
Rani largou a pipeta no suporte. Ela pegou o controle remoto na mesa bagunçada e ligou o gigantesco painel de LED fixado na parede da sala de estar. A tela piscou, exibindo o coliseu de Nova Astris. E lá, em altíssima definição, no centro de uma chave eliminatória pesada, estava o rosto de Dante. O garoto não parecia estar jogando; parecia estar caçando.
— Oh... — As sobrancelhas pálidas de Rani se ergueram de verdade. — Ele conseguiu avançar tão fundo na chave de eliminação?
“Pois é!” Elixia concordou, empolgada. “Até eu tava em dúvida se ele só tinha entrado pra fazer uma palhaçada de adolescente ou se tava levando a sério, mas o placar já deu a nossa resposta.”
— Errado, Elixia. A sua dedução é amadora. — A voz de Rani baixou de temperatura, assumindo a gravidade de um gênio analítico dissecando uma cobaia. — O Dante não é um organismo tão simplista. Se ele realmente está queimando neurônios e forçando o próprio cérebro a operar nessa rota de esforço... não se trata apenas de 'levar a sério'. Algo externo à rotina dele precisou atuar como catalisador para despertar um desejo real de conquista na biologia daquele garoto.
Os olhos de Rani deram um zoom na tela, capturando o olhar do filho — aquele vermelho e azul brilhando em pura antecipação predatória —, apontando para a câmera.
— Realmente fascinante... — Ela umedeceu os lábios frios. — Para ele ostentar esse padrão neuroquímico no olhar, agora sim a minha curiosidade científica foi provocada.
Clique.
Rani pressionou o botão vermelho da tela do telefone e o jogou sobre um livro de botânica. No vácuo da linha cortada, a voz esganiçada de Elixia ecoou no além:
“SÉRIO ISSO?! ELA DESLIGOU NA MINHA CARA DE NOVO?!”
A porta de vidro da varanda correu nos trilhos. Ryu entrou na casa de praia, trazendo o calor do sol e o cheiro de maresia. Ele chacoalhou os cabelos molhados e apontou o polegar para a praia fora da janela.
— Ei, Rani! Que tal largar essas plantas por meia hora e vir dar um mergulho comigo? A água tá um espetáculo!
Ele foi completamente ignorado. A mulher de jaleco não desviou os olhos da televisão nem por meio milímetro. Ela permaneceu sentada na ponta do sofá, observando a movimentação de peças de Dante no tabuleiro com uma atenção cirúrgica e absoluta. E, no silêncio de sua mente, a mãe formulou a única hipótese lógica capaz de explicar aquela anomalia:
“Será que aquele moleque idiota... finalmente se apaixonou?”
Parte 1
O ar de Nova Astris parecia ter sido substituído por chumbo fundido. Dentro do coliseu, a atmosfera da semifinal era tão densa e asfixiante que respirar exigia esforço físico. Os telões colossais transmitiam a mesa central em detalhes microscópicos, e os alto-falantes da arena praticamente estalavam com o histerismo do locutor:
“INACREDITÁVEL! NÓS ESTAMOS TESTEMUNHANDO UM MILAGRE NA HISTÓRIA ENXADRISTA!” O narrador berrava, a voz falhando pela pura adrenalina. “O NOVATO FANTASMA REALMENTE ESCALOU A CADEIA ALIMENTAR E CHEGOU À SEMIFINAL! MAS AGORA, A BRINCADEIRA ACABOU! DIANTE DELE ESTÁ A MURALHA ABSOLUTA DA EUROPA: ALONE! O PRODÍGIO QUE CRUZOU O GLOBO DIRETO DA RÚSSIA, REPRESENTANDO A DINASTIA DOS ANTIGOS CAMPEÕES MUNDIAIS E O PAÍS QUE MAIS ESCULPIU MONSTROS NESTE ESPORTE!”
CLACK! Uma peça de marfim bateu na madeira. CLACK! A resposta veio no mesmo milissegundo, cortando o eco da primeira.
No centro da arena, Dante e Alone operavam em uma frequência assustadora. Os primeiros minutos de jogo não foram uma partida; foram uma caçada predatória. Alone havia avançado suas peças com a brutalidade de um exército imperial, tentando asfixiar o garoto de Nova Astris na abertura. Mas Dante, esbanjando aquela resiliência absurda, absorveu o impacto, estabilizou o próprio código e emparelhou o ritmo, respondendo golpe por golpe.
Percebendo que a presa se recusava a morrer de cara, Alone parou a mão sobre o tabuleiro. O prodígio russo ergueu o rosto. Os olhos dele eram frios, cirúrgicos e carregavam o peso de uma aristocracia secular. Um sorriso irônico, encharcado de escárnio, repuxou seus lábios.
— Que patético... — A voz de Alone cortou o silêncio da mesa, macia e venenosa. — Eu atravessei continentes, saí do frio da Rússia esperando encontrar uma guerra que fizesse o meu sangue correr... mas é este o teto que um torneio mundial tem a oferecer? Se o nível da humanidade se resume a isso, eu finalmente consigo compreender o tédio abissal que destrói a sanidade da Kallen. Hahaha...
Dante não recuou um milímetro. Apoiou o queixo na palma da mão, inclinando o tronco sobre o tabuleiro com aquele sorriso canalha e displicente que ofendia a física do ambiente.
— Hahaha, é realmente muita falta de sorte a sua, russo. — Dante respondeu com uma risada na mesma altitude. — Pra ser bem sincero, quem tá no lucro aqui sou eu. Antes do meu prato principal contra a Kiara, o universo teve a decência de me mandar um ótimo aquecimento.
Os olhos heterocromáticos do garoto faiscaram em desafio.
— Então vamos fechar um acordo, Alone: me mostra exatamente o que a elite dos profissionais consegue fazer, que eu vou tentar fazer um esforço pra lembrar do seu nome depois que te varrer daqui.
A veia no pescoço do russo pulsou. O verniz de superioridade trincou.
— Você tem uma arrogância repugnante para um novato que mal sabe segurar uma peça, moleque. Eu vou te ensinar a distância abissal entre as nossas ligas. Com este único movimento... o seu jogo acaba.
CLACK! CLACK! CLACK!
A cada troca de ofensas, as peças voavam. O tabuleiro virou um açougue tático. Rotas eram abertas, sacrifícios sangrentos eram executados e armadilhas eram desarmadas no limiar da contagem do relógio. A velocidade do processamento era tão monstruosa que a multidão nas arquibancadas perdeu a capacidade de murmurar. A arena inteira afundou em um silêncio sepulcral.
Na grade de proteção, Luck mantinha os olhos arregalados, os nós dos dedos brancos de tanto apertar o metal.
— Droga... — o ruivo engasgou. — Eu tô observando esse russo já faz um tempo. Achei que ele era só mais um babaca arrogante metido a besta, mas... o cara é um monstro de verdade. Ele tá jogando com umas três estratégias diferentes rodando em paralelo!
— Errado. Não são três. Ele está operando com dezenas de matrizes somadas.
A voz grave, profunda e cortante veio das sombras atrás do esquadrão. O grupo girou o pescoço. Plantado logo atrás deles estava Heisen, o irmão de Love, sustentando a sua habitual expressão de indiferença clínica, com o próprio Love acenando polidamente ao lado dele.
Chuya bocejou, coçando o olho.
— Dezenas de estratégias? Mas que diferença faz ter tanta teoria na cabeça se a física do jogo só te permite executar um movimento por vez?
— Essa é a visão patética e superficial dos amadores.
Uma terceira voz, feminina, científica e afiada como um bisturi, ecoou de trás da silhueta maciça de Love. Paracelso emergiu da penumbra, os olhos ciano brilhando com fascínio analítico enquanto dissecava o tabuleiro no telão.
— O que vocês estão assistindo não é um jogo linear, crianças — a cientista explicou, ajeitando as luvas. — Cada uma das estratégias que eles estão processando naquelas cabeças está, sim, rodando simultaneamente em campo. No xadrez profissional, cada vez que uma mão move um peão, uma rota de futuro é decapitada, mas outras cinco se abrem no mesmo milissegundo. Como o tabuleiro opera em possibilidades infinitas, se o jogador não tiver um plano de contingência engatilhado para o exato momento em que a sua tática original falhar... a guilhotina desce. Essa capacidade de cálculo de sobreposição... é a barreira evolutiva que separa um amador de um verdadeiro monstro profissional.
— E é exatamente essa barreira que vai esmagar o Dante em poucos turnos.
A sentença não veio dos adultos. Veio de Nero. A garota de cabelos vermelhos e pretos estava de braços cruzados, encarando o monitor com uma severidade dura e sombria. O esquadrão inteiro virou o rosto para ela em choque.
Vivian tombou a cabeça para o lado, um sorriso sutil e pontiagudo desenhando seus lábios.
— Nossa... que estranho. Logo você, Nero? A primeira da fila a elogiar qualquer idiotice que o Dante faz, agora tá prevendo a desgraça dele em público?
As bochechas de Nero pegaram fogo instantaneamente. O carmesim rasgou o rosto da garota, mas ela não recuou.
— E-Eu não fico elogiando aquele imbecil porque eu quero ou porque eu gosto dele! — ela berrou, espumando de vergonha. — Eu só trabalho com a matemática dos fatos, sua idiota!
Nero deu uma tosse seca, forçando a compostura a voltar, e apontou para o tabuleiro.
— Nos últimos dias, aquele viciado não parava de me perturbar lá em casa. Ele me usou como saco de pancadas pra treinar e calibrar as linhas de ataque dele antes do torneio.
Luck franziu o cenho.
— Falando nisso... eu sempre achei bizarro. Você manja tanto de xadrez, Nero. Por que diabos não se inscreveu pra esse torneio também?
Nero deu de ombros, desviando o olhar.
— Eu sempre joguei, mas nunca tive vontade de participar de coisas como competições. Não me interessava. Mas... confesso que, depois de passar noites assistindo àquele idiota queimar os neurônios de um jeito tão obstinado e febril... me deu uma vontade real de ter entrado nessa briga.
Chuya chacoalhou a cabeça, impaciente.
— Tá, tá, chega dos papos paralelos. Cadê a explicação? Por que você disse que ele vai ser esmagado?
SLAP!
O som do alto-falante cortou a conversa.
“UMA PERDA CATASTRÓFICA! O NOVATO DANTE ACABA DE TER A SUA TORRE DECAPITADA NO CENTRO DO TABULEIRO! A BALANÇA DO PODER ESTÁ VIRANDO COM UMA VIOLÊNCIA BRUTAL! SERÁ QUE O COMETA PRETO E VERMELHO ACABA DE ATINGIR O SEU LIMITE?!”
Todos os olhos se voltaram para o telão. O tabuleiro de Dante estava sangrando. Nero começou a suar frio enquanto apertava a mão:
— O Dante evoluiu como uma aberração desafiando a Kiara todos os dias, isso eu sou obrigada a admitir. O jeito como ele encurrala o adversário, a agressividade das peças... sinto muito em falar isso, Luck, mas aquele maldito tem talento.
Luck trincou os dentes ao ouvir a palavra proibida, mas Nero continuou, implacável:
— Só que existe um limite. Ele aprendeu a imitar com perfeição a capacidade de criar rotas esmagadoras da Rainha de Gelo. Mas ele ainda é só isso: um amador talentoso segurando a espada de um rei. Ele está replicando um padrão. O Dante ainda não possui a fiação neural para recalibrar rotas destruídas em tempo real e gerar ramificações infinitas como os verdadeiros profissionais fazem. E quando o plano principal dele bate em um muro... a lacuna de experiência engole ele vivo.
Na mesa de jogo, o oxigênio de Dante havia sumido. O garoto estava com a testa banhada em suor frio. As pupilas vermelha e azul se moviam freneticamente, caçando uma saída no tabuleiro, mas cada casa que ele olhava estava minada.
Alone não parava de avançar. A mão do russo se movia como uma foice, capturando mais uma peça com um baque seco.
— Está vendo agora, amador? — O sussurro de Alone era uma promessa de morte. — A sua imitação barata de xadrez acaba aqui. Reconheça a sua mediocridade, abaixe essa cabeça e fique de joelhos diante da realeza.
CLACK!
Mais um bispo de Dante foi ejetado do tabuleiro. O flanco esquerdo do garoto colapsou por completo. A área de domínio de Alone expandiu-se como um câncer, devorando o território preto e vermelho.
Dante cerrou os dentes até o maxilar estalar. O sorriso canalha havia desaparecido, substituído por uma expressão de pura e crua agonia tática. Alone ergueu a mão para a peça decisiva. O ar ao redor do russo pareceu distorcer, esquentando sob a pressão de uma aura opressiva e monstruosa. Quando o prodígio ergueu os olhos, a aristocracia fria havia sumido. As íris de Alone queimavam, irradiando um fogo dourado, intenso e predatório — a cor absoluta e aterrorizante de um gênio no topo da cadeia alimentar.
— E agora, moleque... — A voz de Alone ecoou na mente de Dante, pesada como o desabar de uma montanha. — Eu vou te mostrar o abismo. Uma dimensão que um amador como você... jamais terá a capacidade de vislumbrar.
A mão de Alone desceu em direção ao tabuleiro. O tempo na arena paralisou. A carnificina estava pronta para ser selada.
Parte 2
O vidro à prova de som da sala de espera dos competidores recortava a arena de Nova Astris em silêncio.
Kiara estava em pé, imóvel diante da janela panorâmica. Seus olhos monocromáticos acompanhavam a sangria no tabuleiro da mesa quatro. A fisionomia em curto-circuito, que havia fraturado durante o anúncio das preliminares, havia sido obliterada. A estátua de gelo havia sido reconstruída por completo. Mesmo assistindo de camarote ao estrangulamento tático, ao massacre lento e agonizante que Dante estava sofrendo sob as garras do prodígio russo, os traços de Kiara permaneceram estéreis, gélidos e absolutamente inexpressivos.
O eco de sapatos de salto batendo no carpete rasgou o isolamento da sala. Lucifer cruzou a soleira da porta. A presidente do conselho caminhou lentamente até parar a poucos palmos da sua sucessora, fixando o olhar azul no perfil inabalável da garota.
— Até mesmo agora... você insiste em sustentar essa cara de defunto, é? — a voz de Lucifer pingava um misto de tédio e decepção.
Kiara não girou o pescoço. Não emitiu um único som de resposta.
Lucifer soltou um suspiro longo, cruzando os braços diante da vista da arena.
— É realmente uma pena lamentável. — A loira balançou a cabeça. — Eu confesso que estava querendo tentar a minha sorte contra o "Novato Milagroso" na próxima chave. Seria uma disputa verdadeiramente caótica e interessante. Mas, olhando o tabuleiro agora... pelo visto, vou ter que me contentar em esmagar aquele russo escandaloso e arrogante na final.
A presidente do conselho permaneceu congelada em seu silêncio protocolar. A indiferença robótica finalmente estourou o pavio da presidente.
SWISH!
O passo de Lucifer foi agressivo, cortando o espaço entre as duas. Kiara pivotou os calcanhares no mesmo milésimo de segundo, virando-se de frente, pronta para engolir a reclamação institucional ou rebater qualquer quebra de conduta com a sua matemática vazia. Mas não houve sermão.
— Por que diabos você continua fingindo que não se importa?! — Lucifer disparou, o tom perdendo a elegância e rasgando o ar em pura exigência.
As sobrancelhas pálidas de Kiara se aproximaram milimetricamente, armando a defesa.
— Do que é que você está falando agora, Lucifer? Está tentando me desestabilizar de novo? Tentando sujar a minha concentração antes do jogo?
— Para de fingir que não liga, sua idiota! — Lucifer deu mais um passo, invadindo o espaço pessoal da garota. — Assume a sua vontade! Você está espumando por dentro pra gritar na minha cara, não está?! Quer dizer com todas as letras que não tem como eu enfrentar nenhum dos dois na final porque eu vou ser obrigada a passar por você antes! Quer berrar que o Dante não vai perder essa porcaria de partida porque ele ainda nem mostrou tudo o que consegue fazer no tabuleiro! Não é verdade?!
Os circuitos de Kiara travaram por uma fração de segundo, mas o robô forçou a reinicialização imediata. Ela engoliu a seco e disparou a resposta em sua frequência mais metálica e cortante:
— Isso não é verdade. Eu não estou pensando em absolutamente nada disso. Tentar prever resultados com emoção barata é uma idiotice, Lucifer. — Ela apontou o queixo para o vidro panorâmico, a voz saindo dura como pedra. — O que tiver que ser, vai ser. Talvez o Dante perca agora mesmo. A estatística lógica aponta pra isso. Ele é só um novato imprudente, mal entende a profundidade de como o xadrez opera de verdade. E o oponente dele não é apenas um profissional; é um dos maiores monstros do continente europeu. É perfeitamente normal e esperado que um amador tenha alcançado o teto do próprio esforço e bata de frente com o muro.
Kiara endireitou a coluna, sustentando o olhar contra a presidente.
— E quanto a me gabar contra você... isso não mudaria uma única variável na nossa disputa. Nós iremos sentar à mesa, iremos lutar, e o cérebro mais forte vai vencer. É simples assim. Achar, desejar ou torcer por algo não faz a menor diferença no resultado de uma guerra.
A resposta fria acendeu uma fúria real nos olhos azuis de Lucifer.
SLAP!
A mão da ex-presidente avançou com precisão felina. Os dedos longos de Lucifer agarraram o queixo de Kiara num puxão firme, levantando o rosto da garota e puxando-o para tão perto que a respiração quente de ambas se chocou.
— Eu realmente não acredito em você... — Lucifer sibilou, as íris ardendo com um desprezo quase violento. — Eu simplesmente não consigo engolir isso. Ter sido derrotada no ano passado por alguém tão pateticamente covarde... por uma estátua que tem tanto medo de assumir o próprio ego e a própria vontade... é algo que me causa ânsia de vômito, Kiara.
Com um solavanco ríspido, Lucifer soltou o queixo da garota, empurrando-o levemente para trás. Kiara cambaleou meio passo, mantendo o equilíbrio por instinto bélico.
— Mas não importa, não é? — O sorriso deslumbrante e cruel de Lucifer voltou aos lábios, embora seus olhos continuassem frios como facas. — Afinal de contas, a perdedora não tem o direito de latir contra a vencedora. A história é escrita pelos reis. Pois bem... continue exatamente assim, Kiara. Continue fugindo como uma covarde da sua própria vontade. Continue sufocando, amordaçando e matando o seu ego no escuro.
A ex-presidente caminhou em direção à porta de saída, mas parou antes de tocar na maçaneta, olhando por cima do ombro.
— Mas fique sabendo de uma coisa, Princesa de Gelo: se você continuar agindo dessa forma patética... não apenas vai ser esmagada e humilhada por mim na nossa próxima rodada... como também vai perder a capacidade de acompanhar os passos daquele garoto muito em breve. Você vai ficar para trás. Sozinha. No frio que você tanto ama.
A blindagem de Kiara sofreu uma fratura. Um tremor involuntário subiu pelos seus braços.
— O que você quer dizer com isso? — a voz dela cortou a sala, raspando na garganta com uma irritação real que ela não conseguiu esconder.
Lucifer nem se virou. O desdém era absoluto.
— Não cabe a mim tentar te ensinar a enxergar o mundo, estátua.
Kiara trincou o maxilar, girando o corpo, indignada com o enigma barato. Mas, antes de puxar a porta, Lucifer lançou a última granada incendiária na sala.
— Bom... já que você se recusa a torcer pelo Dante por causa desse seu medinho patético de quebrar a postura... deixa que eu mesma torço por ele hoje. — A loira deu uma risada baixa, encharcada de malícia. — E quer saber mais? Depois que esse torneio acabar... talvez eu pegue aquele garoto pra mim. Sinceramente? Eu duvido muito que alguém com aquele nível de fogo no olhar vá querer continuar desperdiçando o tempo dele andando do lado de uma garota tão oca, insossa e fraca como você.
CLICK. BAM.
A porta da sala de espera foi fechada com uma batida seca. Kiara girou sobre os calcanhares no mesmo instante, mas só encontrou a madeira maciça. A respiração da garota disparou. O peito subia e descia em arfadas curtas. A pressão dentro de seu crânio latejava. Algo na fundação da Princesa de Gelo estava rangendo, estalando, a um milímetro de estilhaçar por completo. Ela só está tentando me desestabilizar! A mente robótica gritou em pânico, aplicando compressas de gelo sobre a própria ferida. Ela quer entrar na minha cabeça! Não perca o foco, Kiara! Falta muito pouco! Você está a dois passos de salvar a sua mãe!
Ela fechou os olhos com força, puxando o oxigênio até o fundo dos pulmões, forçando o ritmo cardíaco a desacelerar na marra. A Lucifer e o Dante são dois idiotas. Ela cerrou os punhos até as unhas marcarem a pele das palmas. Eles não entendem a física da realidade. Não é com conceitos ilusórios, românticos e abstratos como "vontade", "ego" ou "afeto" que se vence uma guerra de verdade. O mundo é cruel. O asfalto não tem pena de ninguém. Você só vence através de força bruta, cálculo e estratégia. Se você não for uma máquina absolutamente perfeita... você vai perder.
O mantra frio desativou o tremor. Kiara abriu os olhos. O monocromático estéril estava de volta às retinas. Ela se ergueu, caminhando de volta para a grade de vidro para checar a contagem de tempo da mesa quatro.
E, no exato segundo em que seus olhos focaram no tabuleiro, a transmissão do locutor explodiu nas caixas de som com o peso de uma marcha fúnebre:
“MEU DEUS DO CÉU! PARECE QUE CHEGAMOS AO FIM DA LINHA PARA O COMETA DE NOVA ASTRIS!” o narrador gritava, a voz embargada pelo drama da eliminação iminente. “NÃO EXISTE MAIS NENHUMA ROTA DE FUGA NO TABULEIRO! O CERCO ESTÁ FECHADO! ALONE ESTÁ SE ENCAMINHANDO PARA UMA VITÓRIA INCONTESTÁVEL E ESMAGADORA, MARCANDO O SEU NOME NA FINAL!”
No telão, as peças pretas e vermelhas de Dante estavam encurraladas num espaço minúsculo. Era o abate de um amador que havia ousado voar perto demais do sol. A estatística se cumpriu. O cálculo de Kiara estava 100% correto.
A Princesa de Gelo apoiou a mão na superfície fria do vidro blindado. Eu sabia. Ela engoliu a saliva, sentindo um gosto amargo e ácido rasgar a sua garganta. A matemática era perfeita. Eu sabia que ele ia ser esmagado. Era o único resultado lógico.
Os dedos dela se curvaram, arranhando o vidro sem que ela percebesse. A estátua estava inteira por fora, mas por dentro, o robô sangrava em silêncio. Então por quê...? A mente de Kiara vacilou, a névoa do pânico cobrindo sua visão monocromática enquanto ela encarava a figura encurralada de Dante na tela. Se eu estava certa... por que ver essa derrota me incomoda tanto?!
Parte 3
Sobre o tabuleiro da mesa quatro, a madeira maciça parecia estar prestes a derreter sob o peso da energia cinética.
Alone havia destravado o seu domínio absoluto. Para as retinas de Dante, as peças pretas do prodígio russo deixaram de ser meras esculturas de marfim; elas começaram a pulsar, emitindo uma radiação dourada e letal que riscava o ar com trajetórias invisíveis. Mesmo sem o adversário mover um único dedo, o cérebro de Dante era espancado pela visão simultânea de milhares de ataques em cadeia. Era um combo infinito, uma teia geométrica perfeitamente trançada para aniquilar e moer qualquer tentativa de defesa que o garoto de Nova Astris ousasse arquitetar.
O russo recostou-se na cadeira, o olhar banhado em uma soberba aristocrática e inabalável.
— Permita-me lecionar sobre o abismo que nos separa, calouro. — A voz de Alone ecoou mansa, mas pesada como uma lápide. — O que os seus olhos amadores estão tentando processar agora é o que nós, da elite, batizamos de Jogada Divina. As Arts do tabuleiro. É uma mecânica de cálculo de sobreposição que apenas um profissional legítimo consegue sustentar no córtex cerebral. Eu acabei de selar este campo de batalha com milhares de rotas absolutas.
O relógio digital na lateral da mesa bipou, iniciando a contagem regressiva para o turno de Dante.
— Pode se debater, pode agonizar e pode queimar até o último dos seus neurônios, pirralho — Alone sentenciou, um sorriso sádico trincando seu rosto pálido. — Não faz a menor diferença. O seu destino já foi carimbado nas entrelinhas. É exatamente nesta casa... que você vai morrer.
O tempo parecia escorrer como melaço. Dante permaneceu imóvel, com os braços apoiados na mesa e os olhos heterocromáticos escaneando o tabuleiro. A física era cruel: cada peça que ele cogitava tocar engatilhava uma reação em cadeia de devastação no seu processamento mental. Ele estava cercado por todos os flancos. A asfixia era real. Ele finalmente sentiu o peso opressivo, denso e esmagador que separava um amador talentoso de um monstro lapidado por anos de circuito profissional. Dante estava afundando no oceano sombrio do xadrez mundial, tendo os ossos esmagados por um tsunami colossal chamado Alone.
Mas, lá no fundo do abismo oceânico, onde o oxigênio e a esperança já haviam sido aniquilados... a máquina falhou em se render.
O garoto de cabelos bicolores ergueu lentamente o rosto. Não havia desespero em suas feições. Não havia o pânico suado de um calouro derrotado. Os lábios dele se separaram, rasgando um sorriso largo, afiado e carregado de uma excitação animalesca e febril. Alone piscou, a sobriedade trincando por um milésimo de segundo. Por que... por que esse imbecil está sorrindo?
— Caramba... eu admito — Dante sussurrou, a voz vibrando com uma adrenalina pura e contagiosa. — Já faz muito, mas muito tempo que eu não me divirto assim.
Ele tombou a cabeça para o lado, a íris vermelha brilhando sob as luzes do coliseu como uma estrela prestes a entrar em colapso.
— Então é esse o teto de habilidades de um profissional legítimo? É essa a paleta de cores e o mundo intocável que você e a Kiara conseguem enxergar no tabuleiro? — O sorriso de Dante se alargou ainda mais, mostrando os dentes em um desafio suicida. — Que maravilha. Porque, adivinha só, russo...
A mão de Dante chicoteou em direção à madeira.
— Eu também consigo fazer a porra dessa mágica.
CLACK!
A peça foi movida. Alone estreitou os olhos, o escárnio voltando de imediato:
— Tente o quanto quiser, pirralho arrogante! A realidade é implacável! Um amador nunca vai superar uma Art pro...
CLACK!
A frase de Alone morreu na garganta. O russo havia movido sua peça em resposta automática, mas antes mesmo que os dedos dele soltassem a madeira, a mão de Dante já havia cruzado o tabuleiro e executado outro movimento.
CLACK! CLACK! CLACK!
O compasso da batalha quebrou. Uma sucessão de movimentos mecânicos, instantâneos e brutais começou a estalar na mesa quatro. Não havia mais pausa para raciocínio. Não havia o delay do pensamento. A cada bote letal que Alone desferia, Dante rebatia no milissegundo seguinte com a precisão de uma guilhotina em queda livre.
Na arquibancada principal, o narrador de Nova Astris mantinha o microfone colado na boca aberta. Mas nenhum som saía de seus pulmões. Não era falha no equipamento. Não era esquecimento. A voz do locutor simplesmente havia sido castrada pelo choque. E ele não estava sozinho: a arena inteira, abarrotada de milhares de espectadores, mergulhou em um silêncio sepulcral e assustador.
O motivo era de uma simplicidade biológica brutal: no segundo anterior, o inconsciente coletivo daquela arena já havia assinado o atestado de óbito de Dante Scarlune. A estatística decretava zero chances, zero rotas de fuga. Aquele era o único futuro aceitável. No entanto... peça após peça, o "cadáver" continuava agindo. E o maldito e inevitável xeque-mate de Alone... simplesmente se recusava a cair.
Dante continuava sorrindo, bêbado pela própria evolução. E então, a maré do tsunami inverteu. A caçada mudou de lado. As peças de Alone começaram a ser ejetadas da mesa, voando pelo ar e batendo contra o chão de concreto do palco como estilhaços de vidro.
No camarote VIP, atrás do vidro panorâmico, os olhos monocromáticos de Kiara se arregalaram até o limite absoluto. As mãos pálidas da Princesa de Gelo se espalmaram contra a janela, a respiração travando na garganta enquanto ela testemunhava a lógica do universo sendo assassinada ao vivo.
A represa de silêncio do ginásio finalmente estourou.
“E-EU... EU... EU NÃO ESTOU ACREDITANDO NO QUE AS MINHAS RETINAS ESTÃO VENDO!” o locutor voltou à vida, berrando tão alto que o som distorceu nas caixas. “ISSO É CIENTIFICAMENTE IMPOSSÍVEL! O TABULEIRO ESTÁ SENDO ENGOLIDO!”
Na mesa, a aristocracia de Alone esfarelou de vez. O prodígio russo sentiu o ar ao seu redor congelar. A confiança granítica que ele sustentou a vida inteira começou a ruir como um castelo de cartas sob um terremoto. Como...?! Os olhos dele dançavam freneticamente pelo tabuleiro sangrento. Como esse pirralho... como esse desgraçado amador está conseguindo me ler?!
Nas arquibancadas próximas, Luck e Chuya arregalavam os olhos, completamente perdidos na matemática da coisa.
— O que rolou?! — Chuya engasgou, esquecendo a preguiça. — Eu não entendi porra nenhuma! O Alone não tava com a guilhotina engatilhada no pescoço dele agora há pouco?!
Ao lado deles, Nero estava congelada. A garota suava frio, os olhos fixos na tela, incapaz de formular uma única palavra para explicar o milagre. E ela não era a única: os monstros adultos da retaguarda — Heisen, Paracelso e o gigante Love — estavam estáticos, os rostos talhados em pura e reverente incredulidade diante daquela anomalia de alta octanagem.
BANG! As pesadas portas de entrada do setor VIP foram empurradas com violência. Três novas silhuetas cortaram a penumbra da arquibancada. Liderando o grupo, envergando uma camisa havaiana estridente, bermuda de praia e arrastando duas malas de rodinhas pesadas, estava Ryu Scarlune. Logo ao lado dele, com o jaleco de pesquisa cobrindo as roupas de veraneio e os cabelos brancos fluindo como neve, estava Rani, acompanhada de perto por Elixia.
— Ainda bem. — A voz calma e analítica de Rani cortou o barulho da torcida. — Pelo visto, a matemática do nosso voo foi precisa. Chegamos exatamente a tempo do clímax.
O esquadrão de Nova Astris virou os pescoços em choque.
— Mãe?! — Vivian engasgou, perdendo o sorriso felino ao ver a figura pálida de Rani ali. — O que diabos você tá fazendo aqui?!
— Eu não acredito... — Elixia murmurou, também entrando no salão do torneio. — Vocês realmente atravessaram o oceano por causa disso?!
— Mãe?! — Agora era Nero que se virava em pânico ao escutar a voz de Elixia.
Rani ignorou a surpresa infantil. Os olhos científicos da mulher já estavam cravados no telão principal, escaneando as sinapses invisíveis que ferviam na cabeça do filho.
— Não há a menor margem para dúvidas biológicas — Rani declarou, a voz fria como um bisturi lecionando para uma sala de cirurgia. — Aquele garoto acabou de dominar a arte de sintetizar novas rotas neurais em tempo real. Neste exato milissegundo, sob a pressão letal de uma partida em andamento, o Dante devorou toda a estrutura da Jogada Divina que o Alone executou. Ele canibalizou a teoria, processou o código e acabou de parir a sua própria versão evoluída da habilidade.
No centro da arena, Dante deu uma risada baixa, rouca e maravilhada.
— Que coisa estupidamente divertida... — O garoto murmurou, estalando o pescoço enquanto movia mais um Bispo. — Eu sinto que as minhas engrenagens estão só aquecendo. Eu ainda posso usar muito, muito mais disso.
Alone estava sendo asfixiado no próprio domínio. O russo tentava, com o desespero de um animal encurralado, engatar contra-ataques e reerguer a sua muralha. Mas, a cada manobra que ele tentava forçar, Dante sacava do bolso uma tática ainda mais violenta, implacável e predatória do que a anterior. De novo. E de novo. E de novo.
A analogia no cérebro de Paracelso se desenhou perfeita: o garoto que, até cinco minutos atrás, lutava empunhando uma única espada crua e rudimentar, forjada na pressa, agora havia se transformado numa forja infinita. Ele criava uma lâmina nova a cada rodada do relógio, e cada uma delas era infinitamente mais afiada, letal e pesada do que a anterior.
CLACK!
O Cavalo de Alone foi capturado e arremessado para fora do tabuleiro.
“INACREDITÁVEL! A CAÇADA VIROU DE FORMA INDISCUTÍVEL!” o narrador estourou os pulmões no microfone. “DANTE SCARLUNE ACABA DE TOMAR A DIANTEIRA ABSOLUTA DA PARTIDA! O EXÉRCITO RUSSO FOI MASSACRADO! RESTAM APENAS ALGUMAS PEÇAS NO FLANCO DE ALONE, E A SOMBRA DO XEQUE-MATE JÁ ESTÁ PROJETADA SOBRE A MESA!”
Alone travou. A mão do prodígio europeu congelou no ar. Uma gota gélida de suor escorreu por sua têmpora, pingando diretamente na madeira polida da mesa. Ele estava paralisado. Sem reação. Sem oxigênio. Ele ergueu o rosto, o pânico distorcendo suas feições aristocráticas, e fuzilou o calouro:
— O que... o que diabos você é?! O que você fez com o meu tabuleiro?!
Mas, quando Alone cravou o olhar no fundo das pupilas de Dante, o córtex cerebral do russo simplesmente parou de funcionar. Não havia mais um humano ali sentado. Havia um incêndio. A íris vermelha do garoto queimava com uma intensidade radioativa, transmitindo a sensação tática de um predador do topo da cadeia que continuava evoluindo, crescendo e expandindo a sua presença a cada segundo que respirava. O cérebro de Alone congelou. As milhares de rotas absolutas de vitória que ele jurava possuir simplesmente evaporaram. Ele estava cego no escuro.
Na calmaria aterradora que antecede a execução, Dante inclinou o tronco sobre o tabuleiro. O sorriso canalha continuava lá, mas a voz do garoto soou com o peso esmagador de um caçador selando o caixão da presa:
— E então, gênio... não vai jogar?
Aquelas palavras não foram uma provocação; foram uma onda de choque de pressão atmosférica pura. O terror primitivo esmagou a razão de Alone. Pressionado pelo olhar do monstro, o russo agiu por puro e cego reflexo instintivo, empurrando uma de suas últimas peças defensivas para a frente na tentativa patética de respirar.
No milissegundo em que a peça tocou a madeira, a lucidez voltou para o russo. E o sangue dele virou gelo. Droga! Não! Isso foi um erro! NÃO PODE SER!
Dante não perdoou a falha nem por um fio de cabelo. A mão desceu como um raio. O movimento foi tão cirúrgico e rápido que deixou um rastro de borrão na transmissão.
CLACK!
A penúltima peça de Alone foi varrida do mapa. O Rei branco estava completamente nu, encurralado na borda do tabuleiro sem uma única célula de fuga.
Dante soltou a peça capturada sobre a mesa, encostou as costas na cadeira e declarou, com a calma de um rei assumindo o trono:
— Xeque-mate.
“INACREDITÁVEL! É EXATAMENTE ISSO QUE AS SUAS ORELHAS ESTÃO OUVINDO, MINHA GENTE!” o locutor praticamente chorava no som da arena, enquanto o ginásio explodia na maior detonação de gritos, aplausos e rugidos da história de Nova Astris. “O NOVATO ESTRELADO! O RAIO MILAGROSO E FANTASMA DE NOVA ASTRIS ACABA DE ANIQUILAR A RÚSSIA E SE QUALIFICAR OFICIALMENTE PARA A GRANDE FINAL DO CAMPEONATO MUNDIAL!”
A arquibancada virou um mar de caos e euforia descontrolada. No centro da mesa quatro, Dante exalou um suspiro longo e trêmulo. O suor escorria pelo seu rosto, o corpo inteiro ardendo de exaustão pela sobrecarga de ter forçado o cérebro a rodar em overdrive neural para devorar as Arts do russo. Ele estava fisicamente drenado.
Mas ele não comemorou. Não ergueu os braços para a multidão que gritava o seu nome e não olhou para as câmeras que o cercavam. Muito lentamente, Dante virou o rosto para o alto. Seus olhos heterocromáticos cruzaram a vastidão da arena destruída e travaram em linha reta, conectando-se diretamente com o abismo negro do vidro panorâmico da sala VIP.
Ele encontrou o olhar monocromático de Kiara lá em cima. Não houve sorrisos canalhas dessa vez. Apenas a gravidade silenciosa e absoluta de dois predadores que finalmente compartilhavam o mesmo topo da cadeia alimentar. E, sem precisar mover os lábios, a mensagem de Dante atravessou o vidro blindado e detonou diretamente na mente da Rainha do Xadrez:
Eu cheguei, robô. A próxima... é a sua vez.
Parte 4
O rugido da arena de Nova Astris foi lentamente desacelerado pela voz amplificada do sistema de som:
“SENHORES E SENHORAS! APÓS ESSA DETONAÇÃO TÁTICA HISTÓRICA, NÓS IREMOS FAZER UMA PAUSA TÉCNICA NA TRANSMISSÃO!” o narrador ecoava, limpando o suor da testa. “PRECISAMOS RECALIBRAR OS SISTEMAS, FAZER ANÚNCIOS PATROCINADOS E DAR TEMPO PARA QUE OS COMPETIDORES DA SEGUNDA CHAVE SE PREPAREM NO VESTIÁRIO! POR FAVOR, NÃO SAIAM DO PAVILHÃO! MUITO EM BREVE, CONHECEREMOS O MONSTRO QUE IRÁ DISPUTAR A COROA CONTRA DANTE SCARLUNE!”
Enquanto a multidão respirava, os bastidores operavam em outra frequência.
SLUMP.
O som de massa orgânica morta desabando contra o estofado cortou o silêncio do vestiário leste. Dante havia se jogado no sofá de couro do camarote. Ele estava esparramado, com os braços e pernas pendurados como um boneco de fios cortados. O processamento insano de devorar as Arts do russo havia fritado a sua fiação neural. O cérebro dele parecia ter sido banhado em ácido lático e chumbo fundido.
O barulho de saltos batendo no chão se aproximou. Uma sombra cobriu o sofá.
— Boa, garoto. — A voz feminina soou casual, mas eficiente. — Fez um estrago decente lá fora.
Dante abriu um único olho, a íris vermelha girando sem foco. Ele olhou para a garota que segurava uma bandeja com garrafas de água gelada e rosquinhas de chocolate.
— Ah... valeu. Você é a... a... — O cérebro engasgou. A memória de curto prazo estava deletada. — Quer saber? Esquece. Eu não faço a menor ideia de quem você é. A minha placa-mãe tá fritando.
A veia na têmpora da garota saltou. A expressão de suporte técnico virou puro asco.
— Eu sou a Mikaela, seu animal! Eu já te disse que sou membro da equipe técnica de apoio da delegação umas cinco vezes só hoje! — Ela girou os calcanhares, puxando a bandeja para longe. — Quer saber? Cansei de ser caridosa com amador amnésico. Vou levar essa água e esse combustível pra outro vestiário.
O instinto de sobrevivência biológica ressuscitou Dante dos mortos.
— NÃO! PERA AÍ! — O garoto se ejetou do sofá, jogando-se de joelhos no carpete e agarrando a barra do casaco dela num desespero patético. — Desculpa, Mikaela! Pelo amor de Deus, foi mal! A minha glicose zerou! Volta aqui com essa bandeja, senão eu vou morrer desidratado antes da final!
Enquanto a humilhação do cometa de Nova Astris se desenrolava no vestiário, o corredor atrás das arquibancadas altas fervia em uma guerra familiar de alta octanagem.
— O que diabos você tá fazendo aqui?! — A voz de Nero perdeu completamente o tom aveludado e calmo. Ela estava de braços cruzados, fuzilando Elixia com um olhar de pura indignação.
Elixia ergueu as mãos em defesa, tentando se explicar:
— Você não pode me culpar! Assim que a Rani pousou no aeroporto, ela me ligou exigindo que eu pedisse um táxi urgente pra trazer ela até o pavilhão. Na hora, eu fiquei sem acreditar que ela realmente tinha vindo! Eu só vim pra confirmar com os meus próprios olhos!
Rani ajeitou a gola do jaleco.
— Isso é uma dedução absurdamente idiota, Elixia. Por qual outro motivo lógico eu teria requisitado um veículo de transporte se eu não estivesse fisicamente presente na cidade? A matemática básica te assusta?
— Quem se importa com isso?! — Vivian a cortou, dando um passo à frente, espumando. — A pergunta central continua sem resposta: o que você veio fazer aqui, Rani?!
O canto dos lábios da cientista repuxou um milímetro para cima. Um sorriso provocador, cirúrgico e de alto nível intelectual.
— Que mudança brusca de tratamento é essa, querida? Não faz nem dez minutos, você abriu a boca pra me chamar de "mãe". Você sabe perfeitamente que eu prefiro que você utilize esse termo na nossa relação biológica.
O rosto de Vivian enrijeceu. A garota de cabelos pretos desviou o olhar, visivelmente constrangida e com um ódio profundo de ter deixado o instinto filial vazar em público.
A poucos metros de distância da DR familiar, a dinâmica masculina descia para o nível do esgoto.
THUD.
Ryu Scarlune largou as duas pesadas malas de rodinhas no chão do corredor, estalando as costas largas com um suspiro de alívio. Mas, antes que o surfista pudesse respirar o ar-condicionado de Nova Astris, ele foi cercado. Chuya e Luck orbitavam ao redor do homem maior como duas hienas avaliando um búfalo desconhecido.
Chuya coçou o queixo, os olhos letárgicos esquadrinhando a musculatura rochosa de Ryu.
— Então... esse aí é o famoso pai biológico do Dante? Não parece absolutamente nada com ele.
Luck cruzou os braços, assumindo a postura de um detetive.
— Isso é pura ilusão de óptica, Chuya. É o famoso "Efeito Maromba" te enganando. Se você raspar essa camada excessiva de músculos e tirar essa camisa havaiana ridícula, a estrutura óssea é a mesma. O cara ostenta perfeitamente aquela mesma cara de cafajeste canalha que vive caçando dezenas de garotas por onde passa.
A veia na testa de Ryu saltou, grossa e roxa.
— QUE TIPO DE INSULTO É ESSE PRA SE JOGAR NA CARA DE UM HOMEM CASADO E RESPEITÁVEL, SEU PIRRALHO?!
— Ele tem toda a razão. — A voz fria, acadêmica e implacável cortou o corredor. Heisen se aproximou, ajeitando os óculos com o dedo médio, olhando para Ryu com um desprezo secular. — Desde que assinou o contrato de casamento com a Rani, ele realmente foi domesticado e parou de latir por aí. Mas não se enganem pela aliança na mão dele, garotos. Na nossa época de juventude, esse lixo aí era reverenciado pelas esquinas como o "Cafajeste Divino".
Luck e Chuya arregalaram os olhos simultaneamente, apontando o dedo na cara do surfista:
— AÍ! TÁ VENDO SÓ?! O DNA DO DANTE NÃO MENTE! "Cafajeste Divino"?! Que apelido repugnante! Hahahaha!
O rosto de Ryu ferveu em vermelho vivo. Ele avançou um passo, apontando o dedo de volta para o nariz de Heisen.
— EI, HEISEN! ESSA SUA LÍNGUA VENENOSA É PURA INVEJA ACUMULADA! VOCÊ AINDA TÁ SANGRANDO POR DENTRO PORQUE EU FIQUEI COM A RANI NO FINAL, SEU MALDITO! VOCÊ JÁ TÁ CASADO HÁ ANOS, SUPERA ESSA MERDA!
Heisen não recuou um centímetro. A aura gelada do arcanista sênior se expandiu.
— Eu não faço a menor ideia do delírio alucinógeno que você está projetando, seu primata. E para deixar o registro claro: o fato de eu ser um homem casado não altera em absolutamente nada o nojo biológico que eu sinto pela sua existência, seu canalha.
A tensão estava pronta para explodir em homicídio no corredor VIP. Mas, antes que o primeiro soco fosse desferido, uma sombra titânica cobriu os dois. Love Scarlune surgiu, espremendo-se entre Ryu e Heisen. A mão pesada e enorme do loiro abotoou o ombro de cada um com uma força esmagadora, mas o rosto de Love sustentava aquele sorriso radiante, ofuscante e pacificador de sempre.
— Calma lá, vocês dois! — Love riu, embora o aperto de seus dedos nos ombros deles fosse de ferro. — Nós estamos num evento cívico e internacional. Vamos evitar regredir a mentalidade e voltar pros nossos velhos tempos, está bem?
Chuya tombou a cabeça para o lado, curioso.
— "Velhos tempos"? — ele murmurou para Luck.
— Nem olha pra mim, não sabia que eles se conheciam. — Luck respondeu.
Psst.
Uma respiração cortou a orelha dos dois garotos. Paracelso havia surgido como um fantasma bem atrás de Chuya e Luck.
— Bom, crianças, digamos que esses três aí eram a sua geração anterior; eles viviam juntos e engalfinhados em brigas por qualquer idiotice.
— É difícil imaginar o Love brigando com alguém por algum motivo. — Luck murmurou, e Chuya concordou.
— Sério? Pois saibam que a rotina diária deles se resumia ao Love ter que entrar no meio da rinha dos dois e espancar o Ryu e o Heisen até eles se acalmarem, e só depois obrigá-los a apertar as mãos e fazer as pazes.
Luck e Chuya começaram a suar frio, imaginando o Love como um gorila esmagando o Ryu e o Heisen crianças.
— Tá, beleza... mas isso aí é história de quando eles tinham uns sete ou oito anos de idade, né? — Chuya perguntou.
Paracelso balançou o dedo indicador em negativa, o sorriso sádico se alargando:
— Não, não, não. Essa rotina patética de apanhar do Love pra parar de chorar... é o histórico de quando eles já estavam no último ano do Ensino Médio.
O silêncio desceu sobre a dupla. Luck e Chuya viraram os pescoços lentamente em direção a Ryu, que ainda rosnava para Heisen sob o aperto de Love. As feições dos dois adolescentes se contorceram numa careta de julgamento moral, vergonha alheia e repulsa absoluta.
— Eeeeeeeee... — os dois emitiram em uníssono, um som ruidoso e prolongado que exalava o mais puro desprezo pela imaturidade da geração anterior.
Enquanto o circo dos adultos pegava fogo no centro do corredor, a retaguarda operava no silêncio da observação. Miguel estava encostada na parede oposta, um pouco afastada da algazarra, com Kurokawa ao seu lado. A garota de cabelos curtos mantinha os olhos calmos varrendo as extremidades do pavilhão, monitorando o fluxo de pessoas.
Foi então que o radar de Miguel apitou. Na extremidade oeste do corredor, uma pesada porta estalou ao ser aberta.
Miguel estreitou os olhos. A garota esticou a mão em silêncio e puxou levemente a manga da camisa de Kurokawa. Kurokawa virou o rosto para a amiga, percebendo a mudança dela.
— O que foi, Miguel? — Kurokawa sussurrou, o tom se tornando sério de imediato. — Aconteceu alguma coisa?
Miguel não respondeu com palavras. Ela apenas ergueu o braço e apontou o dedo indicador na direção da porta que se abria no fundo do corredor, onde os passos da próxima tempestade finalmente começavam a ecoar.
Parte 5
A pesada porta de acesso restrito no fundo do corredor oeste abriu-se com um estalo seco do trinco metálico. O esquadrão do Orfanato Horizon havia invadido a arena. Liderando a marcha com um espreguiçar de braços que exalava o mais absoluto tédio, estava Ceto.
— Caramba... eu realmente não acredito que a gente atravessou a cidade inteira pra enfiar a cara num ginásio de intelectuais — Ceto resmungou, bocejando. — Sabia que era mil vezes mais interessante ter ficado lá no quarto jogando com a Katsuragi.
— Nem me fala. — Kali vinha logo atrás, o maxilar trincado, estalando os nós dos dedos em pura frustração bélica. — Eu preferia mil vezes ter ido assistir ao treino de esgrima da Akame do que ficar presa aqui.
O pavio de Velvet acendeu no mesmo milissegundo. A garota de cabelos brancos girou nos calcanhares, a saia do uniforme rodopiando enquanto ela abria os braços, bloqueando a passagem do grupo com os olhos faiscando em fanatismo cego.
— Negativo! Abaixem a bola, vocês duas! — Velvet decretou, a voz estridente ecoando pela alcatifa do corredor. — Sou eu quem manda hoje, ouviram?! Absolutamente todo mundo que estava sem agenda obrigatória tem o dever moral e cívico de comparecer pra assistir à grande final do Dante! Eu não vou aceitar nenhuma vírgula de objeção!
Kali jogou a cabeça para trás, esfregando a palma da mão no rosto com uma exaustão cósmica. Atrás das garotas, a figura alta e cansada de Nicklaus surgiu. O cuidador soltou um suspiro pesado, ajeitando a gola do casaco, tentando intermediar o caos antes que a segurança do coliseu fosse acionada.
— Vamos lá, gente... — Nicklaus murmurou, a voz carregada daquela paciência infinita de quem administra um manicômio juvenil. — Se ela faz questão do nosso suporte na arquibancada, o mínimo que podemos fazer é nos esforçar pra acompanhar.
— É exatamente por causa dessa sua forma de lidar com ela que essa garota tá ficando cada vez mais mimada, Nicklaus — Adam disparou do fundo do grupo, com as mãos nos bolsos e um olhar incisivo e frio cortando a cena.
Antes que Velvet pudesse rebater a ofensa de Adam, o som de saltos batendo contra os degraus de mármore atraiu a atenção do esquadrão. Descendo a escadaria de acesso aos camarotes superiores, uma figura feminina de porte aristocrático se aproximou. Era Irene. A jogadora inglesa havia trocado o uniforme de competição por um casaco longo de inverno, mas a frustração do massacre recente ainda sombreava suas pupilas.
— Olha só... — Irene abriu um sorriso pequeno, sem humor. — E eu aqui, na minha inocência, jurando que vocês tinham vindo até o pavilhão puramente para torcer pela minha chave.
Nicklaus parou, um sorriso receptivo aquecendo o rosto do cuidador ao vê-la se aproximar.
— Então... a sorte não brilhou pra você no tabuleiro de hoje, pelo visto?
— Pois é. — Irene suspirou, parando no último degrau. — Minha probabilidade de sobrevivência bateu num muro de concreto. Zero sorte.
O sorriso fanático de Velvet se alargou até rasgar o rosto. A garota deu um passo na direção da escada, os olhos brilhando com um veneno canalha e inocente:
— É claro que você teve sorte, Tia Irene! Você teve a honra histórica de ser obliterada em tempo recorde só pra fazer a glória do meu Dante brilhar com uma intensidade mil vezes mais esmagadora no telão! Servir de escada pra perfeição dele não é pra qualquer mortal! Eu tenho uma dívida eterna de gratidão com o seu sacrifício!
A veia na têmpora de Irene saltou. A aristocracia britânica evaporou.
— Me poupe dos seus elogios, garota.
Nicklaus riu pelo nariz, mudando a trajetória da conversa para salvar a integridade física de Velvet.
— Mas e então, Irene? Como estão as coisas por lá? A rotina na Inglaterra tem sido gentil com você?
— É exatamente como eu calculei quando decidi arrumar as malas e ir embora daqui, Nicklaus. — A postura da mulher suavizou, o olhar perdendo o fio da lâmina. — O ecossistema de lá é excelente, mas... tem os seus gargalos. Carrega seus próprios fantasmas.
Nicklaus inclinou a cabeça, um brilho astuto e carregado de história cruzando seus olhos.
— Aposto as minhas fichas que a abstinência de não ter o Arcanum por perto pra te salvar nas piores horas é um dos maiores gargalos, não é?
O rosto de Irene pegou fogo. O carmesim subiu pelo pescoço da ex-competidora numa velocidade recorde.
— Ora, seu... não vem jogar o passado na minha cara agora! — ela gaguejou, espumando de vergonha. — Eu acabei de ser humilhada em rede mundial por um novato e você ainda tá tentando me fazer chorar aqui no corredor?!
Os dois sustentaram o olhar por alguns segundos. A provocação se dissolveu num sorriso silencioso, compartilhado e contido — o tipo de comunicação muda que só duas pessoas que dividiram histórias antigas conseguem sustentar.
Mas a trégua durou pouco. Irene recompôs a postura, limpou a garganta e cravou os olhos em Velvet.
— Mudando de foco... aquele monstro de cabelos bicolores que me decapitou na mesa quatro. É nele que você está despejando essa sua obsessão radioativa, não é, garota?
Velvet estufou o peito, radiante.
— É óbvio! É o amor da minha vida! Você reparou na linguagem corporal dele?! O meu Dante tá exalando uma energia pura, feliz e estupidamente animada hoje!
Irene estreitou os olhos. A mente analítica da enxadrista relembrou a aura opressiva da mesa de jogo.
— Animado ele estava, sem dúvidas. Mas presta atenção, Velvet: quando eu sentei à mesa contra ele, o meu radar apitou na hora. A concentração daquele garoto não estava focada na coroa do torneio. O combustível dele vinha de outro lugar. — Irene fez uma pausa cirúrgica, jogando a granada no corredor. — Depois que eu caí, eu dei uma circulada pelas sombras dos vestiários e absorvi uns relatórios. Tudo indica que aquele moleque está queimando neurônios e jogando como um condenado... puramente por causa de uma garota.
A temperatura no setor VIP despencou para o zero absoluto. O silêncio que se seguiu foi paralisante. Nicklaus, Kali, Adam e Ceto congelaram no lugar. O oxigênio pareceu virar chumbo. O grupo inteiro prendeu a respiração, girando os olhos em pânico na direção de Velvet, esperando que o sistema da garota entrasse em um curto-circuito de ciúmes e implodisse o prédio.
Antes que a bomba detonasse, Ceto abriu a boca, jogando gasolina no incêndio por pura lentidão social:
— Ah, pensando bem... agora que você mencionou, eu escutei da veterana Zenobia, dias atrás, que esse tal Dante começou a se infiltrar na sala do conselho estudantil todos os dias, mesmo sem ter cargo nenhum lá dentro, só porque tava caçando a presidente atual, a Princesa de Gelo.
SLAP!
A mão de Kali chicoteou como um raio, estampando a boca de Ceto com força desproporcional para calar a idiota.
— Não jogue lenha na fogueira... — Kali rosnou através dos dentes, suando frio.
Mas já era tarde demais. A informação estava no ar. O esquadrão inteiro enrijeceu os músculos, esquadrinhando cada milímetro do rosto pálido de Velvet, prontos para segurar a garota antes que ela arrancasse a própria pele ou marchasse até a arena para cometer um homicídio.
Velvet piscou devagar. Os olhos brancos da garota não se arregalaram em fúria. A boca não espumou. Em vez disso, ela caminhou com passos calmos até a grade de proteção do mezanino, debruçando os cotovelos sobre o corrimão e olhando para o vazio da arena lá embaixo.
— É. — A voz dela saiu baixa, aveludada e incrivelmente serena. — Eu também já tava sabendo disso tudo.
Kali tirou a mão da boca de Ceto, o maxilar caindo em choque.
— Pera aí... você já sabia?!
— Como assim você já sabia e não quebrou nenhuma parede, Velvet?! — Ceto engasgou, esfregando os lábios atordoados. — Você não devia estar surtando?! O cara que você persegue tá fisicamente correndo atrás de outra mulher na frente do colégio inteiro!
Velvet não virou o rosto. O vento do ar-condicionado balançou seus fios brancos.
— Eu acho que vocês têm uma visão muito amadora e egoísta sobre a física do afeto.
O grupo estancou. Adam franziu a testa, a indiferença dando lugar à curiosidade clínica.
— O que você quer dizer com isso? Então a sua obsessão por ele morreu? Você não ama mais o garoto?
Velvet girou o tronco. As costas se apoiaram no corrimão, e ela abriu um sorriso limpo, desprovido de qualquer sarcasmo ou loucura. Um sorriso que exalava uma maturidade assustadora e bela.
— É claro que eu amo o Dante. Eu amo aquele garoto mais do que qualquer coisa que exista neste mundo. — A voz dela vibrou com uma sinceridade crua, que tocava a alma. — E é exatamente porque o meu amor por ele é tão absoluto, tão imenso... que o meu único e verdadeiro desejo é ver ele feliz. Se para ele alcançar a felicidade, se para aquele sorriso continuar brilhando, a pessoa correta pra estar ao lado dele for outra pessoa... eu aceito. Eu quero que ele seja feliz, não importa com quem seja.
O corredor emudeceu. A beleza daquele sacrifício atingiu o esquadrão como uma onda de calor. No degrau da escada, Irene sentiu uma pontada física, aguda e melancólica perfurar o centro do seu peito. A enxadrista abaixou os olhos, absorvendo a profundidade daquele amor altruísta e silencioso — um sentimento que ela conhecia intimamente, tatuado em suas próprias cicatrizes do passado.
Nicklaus ergueu o queixo, os olhos do cuidador brilhando com um orgulho paternal genuíno ao ver a evolução espiritual daquela garota quebrada. Até Kali, a garota rústica e insensível que vivia em pé de guerra com Velvet, sentiu a armadura derreter. A garota de cabelos escuros se aproximou em silêncio, esticou a mão e afagou o topo da cabeça de Velvet com um carinho raro e desajeitado.
— Você amadureceu de verdade, Velvet... — Kali murmurou, impressionada.
O momento de poesia lírica estava coroado. A humanidade havia vencido.
E então, Velvet quebrou o tabuleiro.
O sorriso sereno e maduro na boca da garota sofreu uma mutação bizarra num piscar de olhos. Os caninos apareceram. As íris brancas se dilataram, reativando a psicopatia pura e canalha que vivia no seu código-fonte.
— E de qualquer jeito — Velvet emendou, a voz subindo para uma frequência alegre e absolutamente sociopata —, a minha estratégia de longo prazo continua intacta! Eu só preciso ter paciência, sentar aqui e esperar ele suar sangue pra conquistar essa tal Princesa de Gelo. E aí, quando ela baixar a guarda... eu entro em campo e roubo ele pra mim!
Ela deu uma risadinha animada, batendo as palmas:
— Afinal de contas, a matemática é simples: mesmo que eles cometam a loucura de casar no papel, isso não significa que eu tenha que desistir da minha caçada, né?! Uma aliança no dedo é só um obstáculo que precisa ser ultrapassado!
CRASH.
A música de violinos se espatifou contra o chão de concreto. O carinho de Kali paralisou no topo da cabeça da garota. A mão da lutadora escorregou lentamente pelo rosto, afundando a própria face na palma em uma descrença tão profunda que quase transpassava o crânio. Ao redor delas, Nicklaus, Adam, Ceto e Irene simplesmente travaram. A feição de orgulho e melancolia do grupo evaporou no mesmo milissegundo, sendo substituída por aquela careta morta, anestesiada e exausta de quem lembra que a loucura não tem cura.
Kali puxou o ar, enchendo os pulmões, os olhos transbordando um vazio clínico enquanto encarava a sociopata de cabelos brancos.
— Sabe de uma coisa, Velvet... — Kali começou, a voz monótona e desprovida de qualquer esperança na humanidade. — Eu tenho a mais absoluta e límpida certeza de que, algum dia no futuro, você vai estar escondida dentro do armário da casa do Dante. E quando ele te achar, ele vai chamar uma viatura da polícia militar para te prender em flagrante por invasão de domicílio e perseguição.
Kali apontou o dedo para o meio dos olhos da garota, implacável:
— Quando esse dia histórico chegar... faça o favor de não olhar pra nós. Porque absolutamente ninguém deste orfanato vai gastar um único centavo pra pagar a porcaria da sua fiança.
Velvet tombou a cabeça para o lado, piscando os cílios brancos com uma inocência diabólica e inabalável.
— Ah, qual é! Deixa de ser mentirosa, Kali! É lógico que vocês vão pagar a minha fiança! Vocês me amam!
O esquadrão inteiro fechou os olhos em uníssono, um suspiro coletivo e pesado drenando o oxigênio do local. Não tem jeito. O pensamento foi um bloco maciço e unânime na cabeça de todos ali presentes. A cabeça dessa garota é um caso perdido. Ela nunca vai aprender.
Ignorando majestosamente o julgamento moral da sociedade, Velvet virou as costas para o grupo. A garota começou a saltitar de um pé para o outro ao longo do mezanino, cantarolando uma melodia animada enquanto esquadrinhava o telão da arena, esperando, com uma fome de caça, o início do próximo e definitivo confronto do seu amado monstro.
Parte 6
O som da água batendo contra a porcelana da pia era o único ruído no banheiro do setor VIP.
Kiara estava curvada, jogando punhados de água fria contra o próprio rosto. A pele não estava suja, mas o maquinário interno da Princesa de Gelo estava operando em temperatura crítica. Ela precisava forçar o resfriamento do sistema.
A vitória impossível de Dante. As palavras venenosas de Lucifer. Tudo isso chicoteava a sua mente num loop radioativo. Eu estou errada?, a dúvida perfurava a sua couraça. Mas a resposta do sistema de defesa era imediata e brutal: Não. Você só está exausta, e a sua mente está tentando cavar uma rota de fuga. Uma desculpa barata para largar o peso da sua responsabilidade. A sua mãe suportou turnos triplos até os ossos trincarem e nunca fugiu. Por que você teria o direito de ser covarde e falhar agora?
Kiara fechou a torneira com força. Ainda pingando água fria, ela ergueu o rosto e encarou o próprio reflexo no espelho. Os olhos eram os mesmos poços de escuridão absoluta. O mundo monocromático a engolia. Não importava mais. Aquele ponto já não permitia retorno. Ela havia enterrado a sua humanidade fundo demais para tentar cavar de volta agora. Tudo o que restava era marchar em frente, carregar a dor da família nas costas e operar naquele mundo de gelo estéril, mesmo que a sua mente estilhaçasse no processo. Por elas.
Ela esticou a mão para alcançar a toalha de papel.
BZZZ. BZZZ.
O celular vibrando no bolso da saia a sobressaltou. Kiara franziu o cenho. Tirou o aparelho do bolso, e a respiração falhou no mesmo milésimo de segundo. A tela exibia o identificador de chamadas: Mãe.
O pânico substituiu o foco de batalha. Aconteceu alguma coisa com a Stella? Um código vermelho no hospital?! Ela deslizou o dedo na tela e colou o aparelho na orelha.
— Mãe?! O que aconteceu?!
“Kiara, meu anjo...”
A voz de Isobel soou do outro lado da linha. Estava embargada, trêmula, mas não de desespero.
“Eu... eu não estou te atrapalhando, não é? A sua partida já começou?”
— Não, eu ainda estou no intervalo pré-jogo. Mas... mãe, o que houve? Tem certeza de que a senhora pode estar me ligando agora? E o seu turno no trabalho?
Houve um fungado úmido do outro lado da linha.
“Eu sei que eu não deveria estar te ligando a essa hora. Eu queria fazer uma surpresa quando você chegasse em casa com o troféu. Mas eu vi na transmissão que as chaves afunilaram e os seus próximos oponentes são poderosos. Eu precisava que você soubesse disso antes de sentar naquela cadeira, Kiara. Para que você pudesse jogar... apenas como quiser.”
As sobrancelhas pálidas de Kiara se uniram. A lógica não batia.
— Do que você está falando, mãe?
“Me perdoe, minha filha...” O choro de Isobel transbordou, livre e pesado. “Me perdoe por ter sido uma mãe tão fraca. Por ter jogado o peso do mundo nas suas costas de criança e te forçado a carregar uma cruz que era minha. Mas... acabou, Kiara.”
O oxigênio no banheiro pareceu rarefeito.
“Acabou. Eu recebi uma promoção extraordinária no departamento hoje cedo. O nosso déficit financeiro está zerado. E não é só isso... os médicos ligaram. A Stella teve um quadro de melhora. Eles acharam a raiz do problema. A sua irmã vai viver, Kiara!”
A mão que segurava o celular começou a tremer violentamente.
“Eu explico os detalhes matemáticos quando nos virmos em casa. Mas o que importa agora, meu amor, é que você não precisa mais carregar isso. Você não precisa mais vencer por nós. Nós já temos o dinheiro. Nós logo estaremos todos reunidos de novo. Juntos! Então, por favor... jogue por você mesma hoje. Apenas por você.”
“SENHORES COMPETIDORES DA FINAL, DIRIJAM-SE AOS SEUS VESTIÁRIOS!”
O eco estridente dos alto-falantes do pavilhão vazou pela parede do banheiro.
“O intervalo terminou! Eu não posso mais roubar o seu foco.” Isobel riu em meio às lágrimas. “Eu vou estar na frente da TV, torcendo por você. Eu te amo, Kiara. Mais que tudo.”
Clique. A linha ficou muda.
Kiara abaixou a mão devagar, colocando o celular sobre o mármore da pia. O silêncio do banheiro afogou a garota. Ela olhou para o próprio reflexo. Os lábios dela tremeram, e os cantos se ergueram, forçando o desenho de um sorriso aliviado.
Ainda bem. Ainda bem... acabou. A mãe vai descansar. A Stella vai viver. Vai ficar tudo bem.
Mas o sorriso não se sustentou por mais de dois segundos. Junto com o alívio, uma lágrima grossa, quente e densa escorreu pelo seu rosto. Depois outra. E outra. Kiara olhou para o espelho, completamente confusa e atordoada. O mundo não era mais apenas preto e branco; as paredes de azulejo começaram a encolher, sufocando-a num abismo claustrofóbico.
Ela puxou o ar.
Arf... Arf...
Não vinha oxigênio. Os pulmões estavam em colapso. A mente de Kiara entrou num estado de fervura nuclear. A equação havia sido resolvida do lado de fora, mas o resultado interno era um apocalipse matemático.
Espera..., o terror primário arregalou seus olhos mortos. O que isso significa? Se a minha mãe tem dinheiro e a Stella vai ser salva... significa que eu não preciso mais vencer?
Os pensamentos intrusivos começaram a chover como meteoros, rachando a sanidade da garota.
Significa que a minha força não é mais necessária? Significa que eu... que eu sou inútil agora?
O pânico rasgou a sua garganta num chiado agudo. Para suportar o peso daquela vida miserável, Kiara havia amputado a própria personalidade. Ela havia matado a criança feliz e caótica que era, forjando-se no inferno para se tornar a "Princesa de Gelo". Ela moldou toda a sua identidade, todo o seu intelecto e toda a sua existência com um único propósito letal: ser a salvadora de uma família quebrada. Mas... se aquele propósito não existia mais... quem era ela? Por quem ela estava lutando? Por que ela estava respirando?
Que merda eu tô fazendo?!, Kiara agarrou os próprios cabelos, as unhas cravando no couro cabeludo, as lágrimas borrando a sua visão monocromática. Eu deveria estar feliz! Elas vão viver! Então por que eu me sinto como se estivesse morrendo?! Por que a minha utilidade evaporou e me deixou apenas com esse vazio podre?! A raiva contra si mesma espumou como ácido. Que tipo de monstro grotesco eu sou... que prefere ver a própria mãe sangrando de exaustão apenas para sentir que a minha própria existência tem algum valor?!
O rosto no espelho a julgava. Frio. Morto. Inútil. Você não é nada agora, o abismo sussurrou na mente dela. Você é apenas sucata fria.
— NÃO! NÃO! NÃO!
A voz de Kiara rasgou o banheiro num berro gutural e bestial, puramente animal. A Princesa de Gelo aniquilou a própria racionalidade. Com um movimento violento, o braço dela varreu a pia. O celular foi arremessado contra a parede, estilhaçando-se no piso. Os frascos de sabão e toalhas voaram pelo ar.
E, com a fúria de quem tenta matar o próprio monstro, Kiara fechou o punho direito e o afundou direto no centro do espelho.
CRASH!
O vidro explodiu em milhares de estilhaços. A força cinética do impacto rachou a parede atrás do espelho e rasgou os nós dos dedos da garota. O sangue vermelho — a única cor que parecia pulsar no escuro da mente dela — começou a gotejar pelo mármore branco da pia. Mas a dor física na carne não diluiu o vazio crônico em seu peito.
O corpo dela perdeu a tensão. Os joelhos falharam. Kiara desabou no chão do banheiro, encolhida no meio dos estilhaços e do sangue, em um colapso catatônico absoluto. O cérebro dela simplesmente desligou, engolido pela escuridão de uma identidade assassinada.
O barulho do vidro estilhaçado acionou o protocolo de emergência do pavilhão. A porta do banheiro foi escancarada num solavanco brutal. Três membros da equipe médica e da administração invadiram o local, com os rostos brancos de pânico ao verem a finalista do Mundial atirada no chão, banhada em sangue e vidro.
— MEU DEUS! TRAGAM UM KIT DE PRIMEIROS SOCORROS, AGORA! — um dos médicos berrou pelo rádio.
A equipe mergulhou sobre Kiara. Mãos enluvadas agarraram o braço dela, enrolando gazes brancas em volta dos nós dos dedos sangrentos, aplicando pressão. As vozes ao redor dela formavam um eco confuso, perguntas apressadas sobre o que tinha acontecido. Mas, para Kiara, o tempo estava parado. A mente dela era um vácuo surdo. O branco estéril do seu mundo havia desaparecido, restando apenas um abismo negro onde ela flutuava, completamente sozinha, sem propósito, sem âncora.
“ATENÇÃO! QUE OS COMPETIDORES SE APRESENTEM IMEDIATAMENTE AO TABLADO PRINCIPAL!” O chamado final do locutor estremeceu o chão do banheiro.
Um dos administradores, pálido de desespero, levantou-se com a prancheta na mão.
— Acabou. Cancelem a chave dela. Avisem à direção do torneio que iremos encerrar e dar W.O. no próximo jo...
A mão ensanguentada de Kiara espalmou-se no piso. Como um cadáver operado por fios elétricos, o corpo da garota ergueu-se do chão. A postura era torta, rígida. O olhar era muito mais aterrorizante do que o vazio de gelo de antes; era o olhar de um buraco negro prestes a engolir a luz ao redor.
— Não. — A voz dela saiu raspando, rouca e inumana. — Está tudo bem. Eu estou indo para a mesa.
— Espera, não! Você não tem condições de... — o administrador tentou segurá-la pelo ombro.
— Senhor, afaste-se dela! — o médico-chefe interveio, esticando o braço para barrar o funcionário, suando frio. — Não tente freá-la. Ela está no epicentro de um surto violento de adrenalina e choque. Tentar contê-la à força agora só vai gerar um rebote perigoso!
— E o que diabos nós devemos fazer?! — o homem engasgou, em pânico. — Não podemos soltar uma participante num estado psicótico desses numa arena transmitida para o planeta inteiro!
— Nós vamos deixá-la passar. — A voz cortante, casual e implacável veio da porta.
Mikaela cruzou os braços, a expressão de suporte técnico endurecida. A garota que outrora havia sido chutada por Dante no vestiário agora assumia o controle do caos.
— Senhorita Mikaela?! Mas as regras de seguran...
— Se essa é a vontade dela neste momento, nós não devemos impedir a inércia — Mikaela sentenciou, os olhos acompanhando a figura de Kiara marchando trôpega, mas irrefreável, para fora do banheiro. — Mas espalhem a porcaria de uma equipe médica de trauma nas sombras, a dois metros da mesa de xadrez. Não vamos permitir que um colapso em rede mundial suje a credibilidade da nossa organização. Fui clara?
— E-Entendido, senhora!
A equipe debandou pelo corredor, correndo contra o relógio para armar a contenção invisível.
Sozinha no banheiro destruído, Mikaela suspirou, o cheiro de sangue e poeira de vidro incomodando o nariz. Ela caminhou até a pia. O olhar dela foi fisgado por um pedaço de sucata eletrônica no canto do piso. Ela se agachou e pegou o celular de Kiara.
A tela do aparelho estava esmagada, dividida em centenas de fissuras irregulares pelo impacto contra a cerâmica. Quando a ponta do dedo de Mikaela roçou no botão lateral para checar se a bateria havia estourado, o visor acendeu com um brilho fraco. A tela de bloqueio iluminou-se sob a teia de aranha de vidro.
A imagem de fundo era um retrato de família. Lysander, Isobel, Kiara e a pequena Stella. Uma imagem de anos atrás, capturando um instante de felicidade pura e intocada. Mas, esmagada sob os cacos de vidro, a foto parecia ter sido retalhada por uma lâmina afiada. Os rostos estavam distorcidos e separados por fissuras profundas, o reflexo físico e exato da mente da garota que, naquele exato segundo, marchava para a arena para assinar a própria aniquilação.
Parte 7
O trajeto dos vestiários até o palco principal era um corredor de luzes brancas, mas, para Kiara, era uma marcha através do vácuo.
Aproveitando o trabalho malfeito da equipe médica, a garota usou os dentes e a mão esquerda para apertar as ataduras, escondendo os nós dos dedos esfolados e os cacos de vidro microscópicos que ainda pinicavam sua pele. Não havia dor física. A anestesia do colapso mental era absoluta. O mundo ao seu redor havia sido deletado. Quando ela subiu os degraus do tablado e sentou-se na cadeira de couro de frente para Lucifer, a visão periférica de Kiara estava morta. Ela não enxergava os milhares de pessoas na arquibancada, nem os telões, nem as luzes estroboscópicas. Apenas as sessenta e quatro casas geométricas do tabuleiro.
Lucifer cruzou as pernas, os olhos azuis descendo imediatamente para a mão enfaixada da adversária. O sorriso deslumbrante e venenoso rasgou o rosto da presidente.
— Olha só pra isso... — Lucifer murmurou, a voz pingando ironia. — Por acaso você mutilou a própria mão no vestiário só para ter uma desculpa patética pronta pra quando for esmagada por mim?
Mas o sorriso da ex-presidente vacilou. Quando os olhos de Lucifer subiram e finalmente encontraram as retinas de Kiara, o sangue da loira esfriou. Um arrepio primitivo, instintivo e brutal desceu por sua espinha. A escuridão naqueles olhos não era a velha frieza calculista da Princesa de Gelo. Era um abismo necrosado. O olhar de alguém que já não habitava o próprio corpo.
— Ei... garota. — A voz de Lucifer perdeu o escárnio, substituída por um alerta genuíno. — Você...
“SENHORAS E SENHORES!”
A voz do apresentador estourou nos alto-falantes, interrompendo o confronto na mesa.
“PEDIMOS AS MAIS SINCERAS DESCULPAS PELO PEQUENO ATRASO NO CRONOGRAMA! FOMOS INFORMADOS DE QUE UM ACIDENTE MÉDICO OCORREU NOS BASTIDORES HÁ POUCO, MAS, PELO VISTO, O PROBLEMA JÁ ESTÁ RESTABELECIDO E PODEMOS PROSSEGUIR!”
Longe dali, cortando os corredores do pavilhão como um míssil, Dante ouviu o anúncio. O garoto derrapou nas escadarias da arquibancada leste, o peito arfando, caçando um espaço livre na grade de proteção de onde pudesse ter uma visão limpa da mesa central. O pavilhão estava em ponto de ebulição. Aquela era a revanche mais aguardada do continente: a finalista regional contra a lenda intocável do colégio. E, depois da hecatombe que Dante causara, o nível das apostas para aquela semifinal havia estourado o teto.
Mas, enquanto a multidão delirava, a elite analítica da arena diagnosticava o velório. Rani Scarlune abaixou os óculos no rosto.
— Aquela garota... — a cientista sussurrou, a frieza acadêmica dando lugar a uma surpresa mórbida. — A rede neural dela colapsou. Ela não está nada bem. O sistema inteiro está em frangalhos.
Ao lado dela, o gigante Love franziu o cenho, os punhos cerrados de pura apreensão:
— É sério que a administração vai deixar uma partida assim continuar ao vivo?
Chuya e Luck, espremidos na grade, tentavam forçar a visão.
— O que foi? O que aconteceu com ela? — Eles não possuíam o radar calibrado o suficiente para enxergar o vazio que os mais velhos viam.
Na fileira de baixo, Nicklaus fechou os olhos com força. O cuidador esmagou o próprio pulso, a culpa e a impotência rasgando o seu peito. Mas que droga... eu sabia. Eu sabia que a pressão ia fritar a cabeça daquela garota uma hora ou outra, mas a bomba realmente tinha que explodir logo agora?!
“E QUE O CRONÔMETRO COMECE! O JOGO TEM INÍCIO!”
CLACK. CLACK. CLACK.
As peças começaram a se mover. Lucifer franziu a testa, o desconforto aumentando a cada jogada.
— O que foi que aconteceu com você no vestiário? — Lucifer sussurrou, movendo um Bispo. — Que acidente foi esse que o narrador falou?
Nenhum som voltou do outro lado. Apenas a mão trêmula e enfaixada de Kiara avançando um Peão de forma apática. A jogada não tinha cobertura. Não tinha tática. Era um suicídio geométrico puramente vazio. Nos primeiros três minutos, o público não percebeu a anomalia. Mas, conforme a partida avançava, a decomposição tática da Princesa de Gelo tornou-se grotescamente visível nos telões.
Os murmúrios começaram a espumar na arquibancada.
— O que diabos tá acontecendo? — Ei, ei, ei?! Essa é uma partida de semifinal?! Que lixo é esse?! — Uuuuuuuuu! — A primeira vaia estourou no fundo do pavilhão. — Joguem direito, porra! Que papelão!
Toda a empolgação heroica, toda a vibração que o jogo de Dante havia construído na arena, começou a apodrecer e ruir. Na mesa, Lucifer sentiu o estômago revirar. A ex-presidente não conseguia sequer olhar para as arquibancadas para xingar o público. O desgosto e a agonia de participar daquele abatedouro eram sufocantes. Lucifer ergueu os olhos para a cabine dos juízes, implorando em silêncio: Até quando vocês vão permitir que essa carcaça morta continue jogando?! Parem essa merda!
Mas o jogo continuava.
CLACK. CLACK.
A marcha autodestrutiva de Kiara era uma tristeza biológica sem igual. A garota estava afogada no escuro. Movia a mão sem propósito, sem cálculo, entregando as próprias peças de graça para a guilhotina da adversária. A cada peça de marfim que caía morta no cesto, Kiara sentia o seu próprio corpo trincando como vidro. Por que eu fiz tudo isso?, o pensamento ecoava no vácuo de seu crânio. Por que eu quebrei as minhas pernas para chegar tão longe? Ainda há algum sentido nisso tudo? Ela não conseguia respirar. Droga... droga... eu tô sentindo que tô me perdendo. E, mesmo assim, como uma máquina sem botão de desligar, o braço continuava se movendo e sacrificando o tabuleiro.
No setor VIP, Elixia virou o rosto para a parede, incapaz de suportar a visão.
— Droga... o que é isso? Eu nem aguento mais olhar. Isso não é xadrez, é um massacre.
O narrador pegou o microfone, a voz perdendo todo o brilho histérico, substituída por um luto quase fúnebre:
“Senhores... nós vemos que, infelizmente, a jogadora Kiara parece não estar apresentando muita garra ou vontade de agir no tabuleiro hoje... Acho que, depois de toda essa espera... não poderemos entregar uma partida tão instigante aos nossos espectadores nesta chave.”
Na cabine de comando, os administradores do torneio cercaram Mikaela, apavorados com o desastre de audiência.
— Ei, senhorita! Tem certeza de que devemos deixar a partida continuar?! — um engravatado berrou, apontando para o telão. — Isso já tá virando uma atração ridícula! O rating da transmissão tá desabando!
Mikaela não tirou os olhos do monitor. A postura da supervisora era de ferro.
— Se vocês queriam dar W.O. pra ela antes, deveriam ter tido peito pra fazer. De qualquer jeito, não reclamem agora. E parem de tremer como covardes. Se algum conselheiro for assumir a responsabilidade moral e administrativa por essa decisão no final do dia, serei eu. Então façam um favor a si mesmos: fiquem quietos e prestem atenção na mesa.
O amargor na garganta do público era físico. Crianças na plateia, que nem sequer compreendiam as regras do xadrez, começavam a chorar apenas por absorverem a aura depressiva que emanava do palco. Os pais perdiam os sorrisos. Até mesmo a gangue de arruaceiros que estava vaiando perdeu as forças, sentando-se em silêncio.
E então, o estopim de Nova Astris arrebentou.
— EI, GAROTA! MAS O QUE DIABOS VOCÊ TÁ FAZENDO?!
A voz de Velvet rasgou o ginásio. A sociopata de cabelos brancos estava debruçada sobre o corrimão da arquibancada, berrando a plenos pulmões, o rosto retorcido de ódio:
— SE VOCÊ É A RIVAL OFICIAL DO DANTE, NÃO OUSE PERDER DESSE JEITO PATÉTICO! LEVANTA A CABEÇA, IDIOTA!
Ela tentou continuar gritando, mas a voz de Velvet engasgou. A fúria sumiu, e, para o choque completo de todos ao redor, grossas lágrimas começaram a rolar pelo rosto da garota. A empatia microscópica que habitava o código de Velvet entrou em ressonância com a dor vazia que irradiava de Kiara. Kali, vendo o desespero cru da colega, avançou. A lutadora abraçou Velvet por trás, prendendo os braços da garota num abraço esmagador de contenção e consolo.
— O que você tá fazendo, Kali?! Me solta! Eu tenho que gritar com ela... — Velvet tentou se debater, chorando incontrolavelmente. Mas Kali não cedeu. Ela afundou o rosto no ombro de Velvet e apertou o abraço, até que as forças da garota de cabelos brancos finalmente minguassem, e ela apenas desabasse chorando contra a amiga.
Na arena, o tempo era ditado apenas pelo relógio.
CLACK. Tick. Tock.
A cadência, que antes era uma tempestade de adrenalina e choque tático, agora havia se transformado no ritmo arrastado de uma marcha fúnebre. A escuridão mental de Kiara engolia o ginásio inteiro, incomodando a alma de dezenas de milhares de pessoas. O coliseu estava mergulhado no fundo de um oceano gelado e morto.
Até que uma anomalia aconteceu.
— EI! QUEM É VOCÊ?! O QUE PENSA QUE TÁ FAZE...
PIIIIIIIIIZZZZZZZZZ!
Um ruído agudo, violento e ensurdecedor de microfonia estourou em absolutamente todas as caixas de som de Nova Astris ao mesmo tempo. O estrondo foi tão absurdo que a multidão inteira encolheu os ombros, cobrindo os ouvidos em agonia. O tabuleiro tremeu. Os juízes saltaram de suas cadeiras, atordoados pelo curto-circuito na cabine de narração.
E, no segundo seguinte, o som parou. Um silêncio aterrador tomou conta do ginásio. Centenas de milhares de pares de olhos giraram num instinto primitivo e cravaram-se diretamente nos gigantescos telões da arena.
Parte 8
O chiado da microfonia ainda cortava o ar quando o telão principal da arena piscou, cortando a imagem estéril do tabuleiro para exibir um absoluto circo ao vivo.
Dentro da cabine principal de narração de Nova Astris, Dante Scarlune havia tomado a bancada de assalto. O garoto estava debruçado sobre os controles, agarrando o microfone principal com as duas mãos, as veias do pescoço saltando enquanto ele berrava com a força de um motor a jato:
— SUA IDIOTAAAAAAAAAAAAAAAAA!
O estrondo sônico varreu as arquibancadas de ponta a ponta. Milhares de pessoas encolheram os ombros simultaneamente, tapando os ouvidos diante do absurdo decibélico. Na área técnica, os engravatados da administração entraram em pânico.
— Como caralhos vocês deixaram aquele moleque invadir a cabine de transmissão?! Onde estava a equipe de segurança?!
O chefe da guarda suou frio, gaguejando no rádio:
— É que... como a instrução anterior foi pra concentrar todo o cordão de isolamento ao redor do tablado por causa do risco de surto da garota... a entrada do mezanino ficou desguarnecida!
— Vocês são uns inúteis! — berrou o diretor. — Vão até lá e arranquem esse animal do microfone agora mesmo! Isso tá passando ao vivo em rede mundial!
No centro da arena, a voz amplificada bateu contra a mesa de jogo. Lucifer e Kiara ergueram os rostos na mesma hora, os olhos cravando-se nos colossais painéis de LED do teto.
No vídeo, Dante cerrou o punho livre com tanta força que os nós dos dedos estalaram. O rosto do garoto estava contorcido numa mistura crua e visceral de pura indignação, frustração e fúria incendiária.
— MAS QUE DROGA DE BOBAGEM VOCÊ ACHA QUE TÁ FAZENDO AÍ EMBAIXO, KIARA?! — a voz dele explodiu pelo sistema de som, sem filtro, rasgando o protocolo aristocrático do torneio. — Que palhaçada é essa de sentar na mesa e jogar como se já estivesse morta?! Que porcaria de olhar vazio e covarde é esse no seu rosto?!
Ele puxou o ar, a memória destravando em seu córtex. A lembrança do passado colidiu em sua mente: o dia em que a enxergou pela primeira vez naquela tela de vitrine no meio da rua, jogando a final contra Lucifer. O dia em que viu a faísca viva debaixo do gelo.
— Eu não faço a menor ideia do que aconteceu com você! E, pra falar a verdade, eu nem quero saber agora! — Dante rugiu no microfone. — Mas escuta aqui: se você subiu nesse tablado... se você tomou a decisão de sentar nessa cadeira pra lutar... EU NÃO ACEITO QUE VOCÊ FAÇA ESSA CARA DE DEFUNTO! EU ME RECUSO A ACEITAR QUE VOCÊ OLHE PRO TABULEIRO COM ESSES OLHOS DE QUEM DESISTIU!
Na arquibancada VIP, Love Scarlune esmagou o corrimão, tenso.
— Mas o que diabos esse idiota tá pensando?! Ele é cego?! Não tá vendo que a garota tá sofrendo um colapso nervoso?!
Ao lado dele, Rani não moveu um músculo para censurar o filho. A cientista ajustou o jaleco, os olhos brilhando em absoluta e silenciosa compreensão. O canto de seus lábios se ergueu num sorriso fascinado.
— Humm... — Rani murmurou. — Entendi. Então o catalisador que mudou ele... foi realmente ela.
Na tela, a voz de Dante perdeu a raiva agressiva, caindo para uma frequência rouca, pesada e transbordando uma sinceridade tão íntima e crua que fez a arena inteira prender a respiração.
— Antes de ver aquela sua partida no ano passado... eu achava o meu mundo até que bem tolerável. Só que sempre existiu um ruído. Uma sombra. Eu sentia um frio, achava tudo cinza demais e nunca conseguia entender onde estava o calor que as pessoas normais tanto diziam enxergar na vida. — Dante fechou os olhos por um instante, antes de cravá-los de volta na câmera com uma intensidade feroz. — Mas, no dia em que eu parei na calçada e te vi jogando daquele jeito... no exato milissegundo em que eu enxerguei aquele brilho insano rasgando a sua pupila... eu entendi a matemática. Eu percebi que a faísca e o calor que eu passei a vida inteira procurando... existiam de verdade no mundo.
Ele deu um sorriso de canto, maroto, desafiador e completamente alheio às centenas de milhares de pessoas que o assistiam.
— E então, eu finalmente te encontrei, Kiara. E quando eu te conheci de perto... você era uma maluca estranha! Uma garota esquisita, estupidamente violenta, uma delinquente arrogante que vivia forçando uma pose ridícula de princesa comportada! Um verdadeiro caos mental sem o menor sentido lógico!
Um murmúrio abafado correu pela plateia. As bochechas das mulheres na arquibancada começaram a queimar. A vergonha alheia e o choque daquela declaração despudorada deixaram o público em curto-circuito. Ao lado de Dante, na bancada, o narrador oficial da partida havia coberto o próprio rosto com as mãos, olhando para o teto em pura descrença.
Na área técnica, Mikaela estalou a língua, suando frio:
— Meu Deus do céu... o que é que esse imbecil tá falando em rede nacional?!
O monstro no microfone ignorou o mundo. Ele só enxergava a estátua lá embaixo.
— Mas quer saber da maior verdade?! Em absolutamente todas as vezes em que nós sentamos um de frente pro outro na sala do conselho... todas as 150 vezes em que eu joguei contra você... eu vi aquele mesmo brilho no fundo da sua retina! Eu via perfeitamente como você se divertia me humilhando, como o seu ego queimava de vontade de vencer, por mais que você fingisse ser um robô insosso!
Dante bateu no próprio peito, a voz ecoando como um trovão pela acústica do coliseu:
— E foi puramente pra ser digno de alcançar esse seu brilho... foi só pra conseguir sentar na sua frente de igual pra igual e ter o direito de te vencer... que eu suei sangue e escalei esse inferno de torneio! Eu destruí os meus limites pra ficar forte! ENTÃO QUE PORCARIA DE IDIOTICE É ESSA QUE VOCÊ TÁ FAZENDO AGORA, SUA COVARDE?!
BANG!
A porta de vidro da cabine de narração explodiu abaixo de pontapés. Quatro seguranças pesados invadiram a sala, avançando sobre Dante como cães de guarda.
— NÃO OUSE PERDER ESSA PARTIDA, KIARA! — Dante berrou, antes que mãos brutais agarrassem sua jaqueta. — Me solta, porra! Ei! — O garoto tentou se desvencilhar, acotovelando os guardas.
— Para com essa baderna agora mesmo, moleque! — rosnou o chefe da segurança, aplicando um mata-leão para arrastá-lo para longe da bancada. — Acha que tá na sala da sua casa pra transformar um campeonato mundial no seu circo pessoal?!
Mesmo sendo arrastado pelo piso por quatro homens o dobro do seu tamanho, Dante esticou o braço, enganchou os dedos na fiação da bancada e puxou o microfone de volta para perto da boca em um último esforço bestial. E, com todo o oxigênio que restava em seus pulmões, ele disparou o golpe de misericórdia na televisão nacional:
— É BOM VOCÊ VENCER! TRATA DE VENCER E CONTINUAR ALIMENTANDO ESSE BRILHO! ESSE BRILHO QUENTE E ABSURDO QUE EU PASSEI A VIDA PERSEGUINDO... E O ÚNICO BRILHO PELO QUAL EU ME APAIXONEI DE VERDADE! TÁ ME OUVINDO, SUA DELINQUENTE IDIOTA?! ATÉ O DIA EM QUE EU TE DESTRUIR NO TABULEIRO... VOCÊ NÃO TEM A PORRA DA MINHA PERMISSÃO PRA PERDER PRA MAIS NINGUÉM!
O cabo de áudio foi arrancado do painel com um estalo seco. A transmissão da cabine cortou. Dante foi sumariamente arrastado para fora do cômodo pelos seguranças, xingando os guardas a plenos pulmões no corredor, enquanto a tela da arena voltava ao sinal estático do painel de patrocínio.
O silêncio que caiu sobre o pavilhão de Nova Astris durou dois segundos precisos. E então, a sociedade colapsou.
O rubor facial foi coletivo. O público nas arquibancadas parecia ter sido atingido por uma onda de calor.
— Eu... eu não acredito no que acabei de ouvir! — engasgou uma espectadora, com as mãos nas bochechas ardendo. — Ele se confessou?! Ao vivo?! Na frente de milhões de pessoas em rede mundial?! QUE VERGONHA!
O esquadrão do Orfanato Horizon entrou em delírio. Kali cobriu o rosto com as duas mãos, querendo se enterrar no chão de tanta vergonha alheia:
— Que idiota... meu Deus do céu, que aberração social...
Já Velvet havia desabado no tapete do corredor. A garota de cabelos brancos rolava de um lado para o outro, contorcendo-se como uma lagarta em puro êxtase romântico e histérico, com um sorriso rasgado de orelha a orelha:
— QUE FODA! QUE COISA LINDA! Ai, Dante! Eu quero ser humilhada e xingada em rede nacional com uma confissão agressiva dessas também! Me chama de delinquente, meu amor!
O resto dos órfãos explodiu em gargalhadas incontroláveis diante do vexame histórico.
Na ala da retaguarda, Ryu Scarlune piscou devagar, completamente perdido, apontando para o telão apagado.
— Mas... quem caralhos é aquele moleque maluco que acabou de parar o torneio pra gritar com uma garota?!
Ao lado dele, Heisen e Love suspiraram fundo, massageando as têmporas em uníssono antes de responderem:
— É o seu filho biológico, Ryu.
O cérebro do surfista travou:
— Eeeeeeeee...?!
Mais abaixo, Nero e Vivian não pareciam nem um pouco surpresas. As duas riam com a naturalidade de quem convive com um animal irracional todos os dias.
E, sem perder um único segundo, Chuya e Luck — os arquitetos da estratégia do caos — bateram os punhos cerrados no ar em uma celebração coreografada, deram meia-volta e saíram correndo em disparada pelos corredores, indo resgatar o amigo das garras da segurança patrimonial. Atrás de todos, Rani apenas sustentava o seu sorriso calmo, cínico e genuinamente orgulhoso.
Enquanto o mundo ao redor derretia em vergonha e histerismo, o centro da mesa quatro operava numa gravidade isolada.
Lucifer encostou as costas na cadeira de couro. A ex-presidente do conselho passou a mão pelo rosto, soltando uma risada seca e desacreditada:
— Mas que patetice... Eu já tinha catalogado na minha mente que o Dante era um imbecil de marca maior, mas, sinceramente? Isso aí já ultrapassou todos os limites da demência humana. Que escândalo insuportável.
A loira girou os olhos azuis de volta para a frente da mesa. E a risada dela morreu na garganta. Uma única lágrima, límpida, quente e pesada, havia escorrido pela bochecha de Kiara e pingado bem no centro da madeira do tabuleiro.
A atual presidente do conselho estava de cabeça baixa. A pele pálida da garota, antes cadavérica como a de um zumbi, agora havia sido incendiada por um tom de vermelho tão violento e profundo que rivalizava com a jaqueta do próprio Dante. Ela ergueu a mão enfaixada e esfregou os olhos com força, a voz saindo engasgada, rouca, mas transbordando uma vida que há muito tempo parecia morta:
— Aquele... aquele zumbi imaturo... ele não tem cura. Que desgraça... o que diabos ele acha que tá ganhando abrindo a boca pra falar uma merda dessas num momento desses... e na frente de todo mundo?!
Lucifer apoiou o queixo na mão, um sorriso verdadeiramente deslumbrante, aliviado e afiado rasgando o seu rosto de predadora.
— Eu não acredito... — a presidente provocou, o veneno voltando a dançar em sua voz. — É sério que a intransponível Princesa de Gelo de Nova Astris derreteu igual a um picolé por causa de uma confissão agressiva e mal-educada de um garoto?
Kiara fungou, enxugando o rosto com o pulso enquanto fuzilava a loira:
— Não fala besteira, Lucifer. Eu tenho absoluta certeza de que ele não usou a palavra "apaixonado" nesse sentido romântico idiota. Ele só estava falando do xadrez. Da lógica do jogo.
Lucifer arqueou uma sobrancelha, irônica e cínica até a medula:
— Ah, é mesmo? Tem certeza de que a estatística aponta pra isso, estátua?
— Calada. — Kiara cortou o ar com a mão enfaixada, respirando fundo, o peito subindo e descendo no ritmo da sua própria circulação restabelecida. — Não importa o sentido. Tá tudo bem agora. Aquela baderna já me ajudou a pensar. Eu já decidi o que vou fazer.
Os olhos de Lucifer brilharam em pura antecipação:
— Decidiu o quê?
Kiara descruzou as mãos e endireitou a coluna. A armadura de gelo não voltou para o seu rosto; o que emergiu em seu lugar foi uma expressão soberba, feroz, inteiramente humana e assustadoramente linda.
— Pelo visto, a matemática me proíbe de perder esta rodada. Eu me recuso a morrer aqui... não até eu arrancar a cabeça daquele zumbi no tabuleiro e ensinar o exato lugar dele.
A presidente soltou uma gargalhada baixa, deliciada com a audácia:
— Um raciocínio bem petulante para uma carcaça que estava quase desmaiando há dez minutos, não acha? A minha vantagem territorial no tabuleiro é avassaladora. A vitória já está praticamente selada no meu nome.
Kiara abriu o seu primeiro sorriso real do dia. Um sorriso canalha, predatório e com a exata mesma energia perigosa que Dante ostentava em suas caçadas. Ela estalou o pescoço e levou a mão diretamente para a sua próxima peça.
— Nem sonhando, Lucifer. — A voz de Kiara era puro aço cortante. — Eu só espero, do fundo do coração, que você e aquele idiota tenham absoluta certeza das consequências do que acabaram de fazer.
Lucifer estreitou os olhos azuis:
— Como assim?
— Vocês dois passaram meses me atormentando. Ficaram me cutucando, forçando e insistindo como dois doentes para que eu jogasse a sério e mostrasse o meu ego de verdade... — O peão de Kiara bateu contra o tabuleiro com a força de um disparo de artilharia. — Então façam o favor de não chorar e nem reclamar depois que eu passar por cima dos dois e esmagar as suas coroas.
No exato milissegundo em que a peça tocou a madeira, a anomalia biológica de Kiara colapsou em glória. O abismo monocromático, a escuridão estéril e morta que aprisionava as pupilas da garota desde o ensino fundamental, foi sumariamente obliterado. O brilho que antes vivia amordaçado e confinado no fundo de sua alma expandiu-se com a violência de uma supernova. As íris de Kiara acenderam-se, transbordando um dourado absoluto, febril e radioativo — a cor pura, inegável e majestosa de um talento que se recusa a se ajoelhar diante do universo.
Lucifer arrepiou-se dos pés à cabeça. A loira jogou a cabeça para trás e riu, um som vibrante de pura satisfação guerreira, enquanto seus próprios olhos azuis faiscavam em resposta ao desafio.
— Eu não poderia pedir absolutamente nada mais perfeito do que isso para a minha semifinal. — Lucifer debruçou-se sobre a mesa, com os dentes à mostra. — Agora sim... vamos jogar uma guerra de verdade, Kiara!
— Sim. Vamos jogar.
CLACK! CLACK! CLACK!
A partida foi reiniciada numa velocidade vertiginosa. E, a cada movimento de mão, a cada peça que cruzava as casas brancas e pretas, os cacos estilhaçados do cérebro de Kiara se reconstruíam. As cores retornavam à sua visão. Ela finalmente havia compreendido a equação central da sua vida: não era uma mentira. Não havia sido tudo em vão. O sacrifício por sua mãe e por Stella não tinha sido um erro, e agora que aquele peso havia sido erguido de suas costas, ela percebeu que não estava largada num abismo de inutilidade. Havia alguém ali. Um idiota de cabelos bicolores que apareceu na sua janela sem ela pedir, que invadiu seu espaço, que comprou as brigas dela e para quem a sua existência, o seu ego e o seu calor ainda eram fundamentais.
Ela não havia perdido tudo. Ela não estava mais sozinha no escuro. E se a realidade agora permitia que ela fosse simplesmente a Kiara — sem algemas, sem atuações, sem precisar ser o sacrifício de uma tragédia familiar —, e se era exatamente essa a versão caótica e ardente que aquele maldito tanto desejava caçar... então por que não jogar o seu próprio coração na mesa?
Ela jogou. Arriscando cada rota, cada estratégia, cada pedaço da sua sanidade e do seu orgulho num jogo ofensivo e devastador. Ela aceitou o risco de que poderia errar o cálculo e até mesmo ser derrotada no final daquela rodada. Mas o medo havia evaporado. Porque, pela primeira vez em toda a sua vida, ela tinha a mais absoluta e inabalável certeza de que, mesmo que tropeçasse e caísse no asfalto... haveria uma mão estendida no fim da arena, pronta para ajudá-la a se levantar.
Parte 9
O coliseu de Nova Astris havia se transformado no centro gravitacional do planeta.
O término da semifinal entre Lucifer e Kiara não foi apenas o fim de uma partida de xadrez; foi uma detonação cultural. As redes sociais haviam colapsado. Os portais de notícias globais, canais de esportes tradicionais e até mesmo noticiários da grande mídia que nunca haviam coberto um tabuleiro na vida agora transmitiam, em looping frenético, a invasão da cabine de áudio por Dante e o despertar dourado da Princesa de Gelo. O mundo inteiro havia parado, prendendo a respiração diante de seus monitores para assistir ao desfecho daquela insanidade.
No camarote da coroa, Kallen se ergueu de seu trono. A mulher mais forte do mundo tomou os microfones da coletiva de imprensa, o olhar gélido agora faiscando com uma excitação predatória que ela não sentia há oito anos.
Enquanto o mundo fervia em febre e apostas no interior do pavilhão, o lado de fora operava no silêncio da exaustão.
No terraço superior dos fundos, longe das câmeras e da multidão, Lucifer estava encostada no parapeito de concreto. O vento gelado de Nova Astris balançava os cabelos loiros da presidente. Ela estava sozinha, os olhos azuis perdidos na imensidão do céu cinzento da metrópole. O corpo doía, a mente arfava pela sobrecarga de ter exigido o máximo de suas sinapses, e o gosto amargo da derrota na semifinal ainda queimava na base da sua garganta. Ela havia jogado com tudo o que tinha, mas a supernova dourada de Kiara havia sido imparável.
Lucifer piscou devagar. A blindagem aristocrática cedeu por um milésimo de segundo no isolamento do terraço, e o ardor nos olhos forçou a descida de uma única lágrima de frustração e alívio pela sua bochecha.
PLOP.
Antes que o dedo da presidente pudesse tocar o rosto para enxugar a gota, uma toalha branca e grossa caiu voando sobre a sua cabeça, cobrindo-a por completo.
— Mas que diabos de ideia é essa?! — Lucifer rosnou, arrancando o tecido do rosto com os dentes trincados.
Encostado na porta de metal de acesso ao terraço, com as mãos enfiadas nos bolsos e um sorriso canalha, incrivelmente relaxado e provocador, estava Arthur.
— Bom... eu acabei de assistir à sua derrota fenomenal nos telões lá de dentro — Arthur comentou, dando de ombros com a maior naturalidade do mundo. — Imaginei que o ego da grande presidente estaria sangrando e você iria precisar de um pano de chão pra enxugar o choro sem passar vergonha na frente dos outros.
Lucifer soltou uma risada baixa, irônica e anasalada, jogando a toalha por cima do ombro.
— Ah, cala a boca. Eu me recuso a aceitar pena e caridade vindas de um vagabundo desistente como você, Arthur.
— Hahahaha! É assim que se fala! — Arthur riu, empurrando a parede e caminhando até ela. — Então o que você prefere? Que eu componha uma música triste e melancólica no meu violão pra eternizar a sua surra histórica no tabuleiro?
— Não, muito obrigada. Eu prezo pela integridade da minha audição. Mais uma nota da sua música e eu caio esticada aqui mesmo.
— Quanta crueldade com a minha arte... — Arthur balançou a cabeça, fingindo dor no coração, antes de apontar o polegar para a saída do beco. — Então que tal a gente descer e caçar um restaurante pra comer um lámen bem gorduroso na esquina? Eu pago.
Lucifer passou as costas da mão no rosto, enxugando o último vestígio da lágrima, e o sorriso soberbo de sempre voltou aos seus lábios.
— Tá. Beleza. Eu aceito falir a sua carteira.
Os dois começaram a caminhar lado a lado em direção à escadaria de incêndio.
— Excelente — Arthur emendou, abrindo um sorriso maroto enquanto desciam os degraus. — Já fechei o conceito do meu próximo álbum. A faixa principal vai se chamar: "As Lágrimas da Minha Irmãzinha Diabo".
Os passos de Lucifer travaram no degrau. A aura assassina da presidente explodiu, fuzilando as costas do garoto:
— Escreve uma única palavra dessa merda na sua folha, Arthur... e eu juro por Deus que quebro o braço da sua maldita guitarra no meio da sua cabeça, seu desgraçado! E quem caralhos você tá chamando de "irmãzinha" aqui?!
O eco das risadas e xingamentos dos dois se perdeu pelo beco, deixando o passado para trás.
No centro do tablado principal da arena, a gravidade era absoluta.
As luzes estroboscópicas haviam sido apagadas, restando apenas um foco de luz branca e violenta cortando a penumbra e iluminando a mesa número um. Câmeras de altíssima definição orbitavam o palco, transmitindo cada detalhe respiratório dos dois finalistas para bilhões de espectadores ao redor do globo.
De um lado da mesa, Kiara sustentava a postura. Mas do outro... a paz era impossível. Dante estava sentado na cadeira de couro, mas seu corpo agia como se tivesse injetado um litro de adrenalina pura na veia. O garoto sorria de orelha a orelha, mal conseguindo manter a bunda encostada no assento. Ele saltitava, batendo a ponta dos tênis no tablado num ritmo frenético, estalando os dedos, a respiração curta e as íris — uma vermelha e a outra azul — queimando com uma empolgação quase infantil e bestial.
Kiara estreitou os olhos monocromáticos, agora com o aro dourado pulsando forte, e bateu a caneta levemente na borda da mesa.
— Dá pra manter um mínimo de decência e postura de ser humano normal, Dante? — a garota repreendeu, embora o tom falhasse em esconder um divertimento contido. — Nós estamos sendo transmitidos ao vivo em rede mundial, caso o seu cérebro tenha esquecido.
— E você acha que tem como eu me controlar, caramba?! — Dante rebateu, inclinando o tronco sobre o tabuleiro até quase bater a testa na dela. — Depois de ter assistido de perto à loucura que foi aquele seu último jogo contra a Lucifer?! Você tem noção do quanto a minha empolgação tá fritando pra te enfrentar agora?!
Kiara soltou um suspiro longo, balançando a cabeça com um sorriso cínico.
— Tá, tá, seu masoquista viciado em combate. Respira fundo e relaxa a espinha... porque já, já eu vou varrer esse tabuleiro com a sua cara.
— Hahaha! Até parece que eu vou deixar você encostar um dedo no meu rei, sua delinquente!
A palavra estalou no ar. Kiara piscou, as sobrancelhas subindo em surpresa antes de o canto da sua boca repuxar de forma perigosa.
— Que diabos de ideia de apelido idiota é esse agora? "Delinquente"?
— Ué, eu achei que combinou perfeitamente com você! — Dante sorriu, presunçoso. — Toda essa pose de princesa intocável, mas por dentro é só uma arruaceira agressiva que sai quebrando espelho na porrada!
— Ah, é? — Kiara reclinou-se na cadeira, estalando os nós dos dedos recém-enfaixados. — Pois fique sabendo que, se você abrir a boca pra me chamar de delinquente de novo... eu vou passar o resto do ano te chamando de zumbi na frente do colégio inteiro, ouviu bem?!
— Hahahaha! Zumbi?! Justo!
Os dois riram juntos, o barulho caótico e íntimo daquela conversa rasgando a atmosfera estéril e aterrorizante que um campeonato mundial deveria ter.
Mas então, o riso de Kiara cessou. O rubor facial subiu pelas bochechas da garota, superando o calor dos holofotes. Ela abaixou os olhos para as peças brancas à sua frente, os dedos brincando nervosamente com o topo da Rainha. A lembrança do berro dele no microfone — a maldita frase sobre ter se "apaixonado" por aquele brilho — ecoava como um alarme em seu ouvido.
— Éééé... então, Dante... — ela murmurou, a voz perdendo a agressividade.
— O que foi agora? — Dante inclinou a cabeça, piscando devagar, cravando aquele par de olhos heterocromáticos com uma atenção tão absoluta e focada no rosto dela que o sistema da garota entrou em curto.
Ela travou. A coragem para perguntar o que diabos ele havia tentado dizer com "apaixonado" evaporou completamente de suas cordas vocais.
Não aguentando a pressão do olhar do monstro, Kiara desviou o rosto e engatou uma rota de fuga de emergência no assunto:
— Nada, deixa pra lá. É só que... eu fiquei pensando aqui numa hipótese teórica. Só supondo, claro! Já que é matematicamente óbvio que eu não vou perder esta final pra você. Mas... no cenário improvável em que eu perdesse e você vencesse hoje... o que você faria depois?
Dante franziu a testa, confuso:
— Como assim, "o que eu faria"?
— Você vive chorando pelos corredores que só encheu o saco na sala do conselho porque não tinha planos de sumir dali até conquistar a sua vingança e me humilhar no tabuleiro — Kiara explicou, os olhos dourados fixos nele. — Mas... e se você conseguir a sua vitória hoje? Qual é o seu plano pro dia seguinte?
Dante parou. O balançar frenético de suas pernas cessou. O garoto encostou as costas na cadeira, cruzou os braços e ficou encarando o teto do coliseu por alguns segundos, processando a matemática da pergunta com uma seriedade quase poética.
— Bom... — Dante abaixou o rosto, o sorriso afiado voltando com uma suavidade inesperada. — Pensando de forma lógica... mesmo que eu ganhe o troféu mundial hoje de você, o nosso placar histórico geral ainda vai ser cento e cinquenta derrotas pra mim contra apenas uma única e mísera vitória.
O peito de Kiara se encheu de oxigênio, mas ela insistiu, provocando, querendo cavar até o fundo da certeza dele:
— Tá, beleza. Mas e no dia distante em que você empatar o placar histórico? E o que acontece se, depois disso, você continuar ganhando e passar na minha frente de verdade? E aí?
Dante não hesitou nem por um milésimo de segundo. Ele descruzou os braços, debruçou-se sobre a mesa e olhou bem no fundo dos olhos dourados de Kiara, a voz saindo com a gravidade inabalável de uma promessa eterna:
— Humm... se isso acontecer, eu acho que simplesmente vou resetar as peças, sentar na sua frente de novo... e te desafiar para mais uma partida.
O silêncio na mesa número um foi quebrado pelo som da risada de Kiara. A garota cobriu a boca com as costas da mão enfaixada, rindo de forma limpa, verdadeira e desimpedida, sentindo o último fragmento de trauma, solidão e medo de abandono esfarelar em seu crânio.
— Que idiotice... — ela riu, balançando a cabeça em pura incredulidade aliviada. — Como assim?! Você tá apenas inventando desculpas infinitas e sem vergonha nenhuma pra continuar lutando comigo de novo e de novo, pra sempre! Tá vendo só?! Você é um maldito de um zumbi teimoso mesmo!
— Ei! A culpa é sua se a caçada nunca perde a graça!
E, enquanto os dois riam sob a luz dos holofotes e o narrador anunciava os dez segundos finais para o início da guerra, Kiara fechou os olhos por um instante.
Eu imaginei, a mente dela sussurrou, ancorada numa paz espiritual e num calor que ela nunca havia sentido desde a infância. Eu fui uma idiota por ter ficado com tanto medo no banheiro. Eu não tenho mais por que temer o escuro ou o futuro... porque eu sinto, com todas as células do meu corpo, que no final das contas... esse idiota imaturo vai estar sempre aqui. Exatamente do outro lado da minha mesa.
Ela abriu os olhos. O monocromático estava morto para sempre. O dourado radioativo de sua retina queimou em potência máxima, colidindo frontalmente com o vermelho e azul de Dante. As mãos de ambos avançaram simultaneamente em direção ao tabuleiro.
Mas é muito bom você se preparar, zumbi..., Kiara abriu um sorriso feroz, imponente e absolutamente apaixonado enquanto seus dedos tocavam a madeira da primeira peça. Porque, a partir de agora... esta delinquente aqui também não tem o menor plano de deixar você ir.
CLACK!
A Grande Final começou.



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