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The Fall of the Stars: Capítulo 7 - Inverno vs. Infinito

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 29 de mar.
  • 69 min de leitura

Atualizado: 29 de mar.

Volume 11 : A Prisão Dourada


Parte 1

O cheiro ácido de ozônio, misturado com a poeira asfixiante de calcário carbonizado, impregnava cada centímetro do ar rarefeito.

As ruínas da verdadeira Morpheus pareciam o cenário de um pesadelo implodido de dentro para fora. O chão de asfalto derretido ainda fumegava sob as botas do trio, exalando um calor fantasmagórico que distorcia a visão e transformava o ar em uma gelatina trêmula. Mas o que realmente esmagava a sanidade de quem ousasse pisar ali não eram as carcaças dos prédios dilacerados; era a colossal Árvore Dourada.

O pilar de luz e Éter rasgava o centro da cidade e engolia o horizonte. Emitia um brilho tão denso e opressor que fazia as sombras projetadas pelos escombros parecerem vivas, contorcendo-se no chão como serpentes desesperadas tentando escapar daquela iluminação punitiva e divina. Era um cenário de grandeza apocalíptica, sagrado e aterrorizante. O tipo de visão que faria deuses caírem de joelhos e filósofos arrancarem os próprios olhos.

E, cortando todo aquele silêncio de reverência cósmica, vinha o som de uma discussão incrivelmente trivial.

— Eu só quero deixar registrado... — Danael resmungou, a voz áspera pela fumaça. Ele chutou um pedaço de concreto derretido que quicou pelo asfalto morto até bater com um baque surdo na lataria de um carro capotado. — Que o seu senso de direção, Dampier, é pior que o de uma formiga cega com labirintite.

Mais à frente, no meio da rua destroçada, Drake Dampier parou. O pirata astral ajeitou a gola de seu sobretudo de couro gasto e girou nos calcanhares, abrindo os braços com a teatralidade de um capitão defendendo a honra de seu navio invisível.

— Formiga cega? Eu me ofendo profundamente, meu caro detetive! — Drake bradou, ignorando o suor que escorria por sua testa. — A minha navegação foi absolutamente impecável! Eu disse que ia nos tirar da Terra do Nunca, não disse? — Ele apontou dramaticamente para a gigantesca Árvore Dourada que perfurava a estratosfera. — E, sem sombra de dúvidas, este lugar com certeza não é a Terra do Nunca!

— Isso, capitão. Olha pelo lado positivo. — Remi passou por ele a passos duros. O rosto dela era iluminado pelo brilho azul de um pequeno dispositivo que apitava freneticamente em suas mãos. — Vamos fingir que você não trouxe a gente para o literal apocalipse bíblico. Droga… eu deveria ter ouvido meu pai. Você é o pior.

A postura teatral de Drake murchou instantaneamente. Ele franziu a testa e começou a segui-la: — Ei, que papo é esse? Quando eu te encontrei, você tinha fugido de casa justamente por conta desse tal pai! Isso aí é só para eu ficar pior na fita, não é?

Remi, que estava com uma mão espalmada sobre o rosto para bloquear o brilho ardente da Árvore, abriu apenas o espaço entre dois dedos. O suficiente para encará-lo, piscar e mostrar a língua de forma infantil.

— Sucumba, Remi — Drake resmungou, voltando a caminhar a passos irritados, chutando as próprias pedras pelo caminho.

Atrás deles, Danael passou a mão pelo rosto, manchando a pele com a fuligem escura que cobria seus dedos, e soltou um suspiro que parecia carregar o peso de cem segundas-feiras juntas. O detetive odiava estar ali: — Quando eu voltar para casa, nunca mais vou conseguir olhar para um navio da mesma maneira… — murmurou ele, ajeitando a gravata amarrotada. — Nem assistir a filmes de pirata.

— Drama, drama, drama — Drake cantou, esticando os braços acima da cabeça até os ombros estalarem. — Pensa pelo lado bom, Danael! É uma aventura única na vida de um homem. Como dizer não para tal romance?

— Como, por todas as porcarias desse universo, isso aqui deveria ser um romance?! — Remi girou nos calcanhares, parando de supetão e quase fazendo o detetive trombar nela.

— Isso aqui está mais para um filme de terror pós-apocalíptico — Danael concordou, com os olhos semicerrados contra a luz dourada.

— Qual é, vocês entenderam a metáfora! — Drake continuou marchando, gesticulando para o nada. — O romance da exploração! O desconhecido!

— Ele tem razão, Danael — Remi abriu um sorriso ácido. — Perdoa o capitão. É que, como o único "romance" que ele já teve na vida foi com um polvo gigante e assassino, o conceito de romantismo dele está meio quebrado.

— Ei! Eu tenho sentimentos, sabia? — O pirata astral parou novamente, levando a mão ao peito em uma falsa ofensa. — E que papo é esse? Eu tive vários relacionamentos normais, tá legal?

Remi ergueu uma sobrancelha: — Sério? Fala qual foi o que mais durou.

Drake desviou o olhar para os escombros, coçando a nuca: — Tipo… aquele lá…

— Ele deve estar falando da GouTuber — Danael intrometeu-se, permitindo-se um sorriso cansado. O detetive cruzou os braços. — Lembra o que foi que ela falou mesmo, Remi? "Sério, você é até legal, mas sinceramente, se eu acordar mais um dia olhando para a sua cara, eu pulo deste navio."

— A garota nem sabia nadar! — Remi apoiou, apontando para o detetive. — E ela já estava até pedindo para eu ensinar!

— Sabia que ela até pensou em um plano de motim? — Danael comentou com Remi, ignorando o capitão completamente.

— Não brinca! Por que ela não fez? — Remi soltou uma risada anasalada. — Eu teria apoiado ela como capitã.

— Foi porque eu disse a ela que estava exagerando quando sugeriu jogar o Drake para os tubarões com os braços e pernas amarrados enquanto gritava "Comam!" — Danael deu de ombros.

— Danael, que isso, deixa a criatividade da garota fluir — ironizou a imediata do navio. — Pelo menos ela não montou uma balestra para atirar na cabeça dele enquanto dormia.

Drake olhou de Remi para Danael, os ombros caindo em genuína derrota: — Sério, vocês dois… não acham que já estão exagerando? Eu realmente tenho sentimentos, tá? — A voz dele saiu em um tom quase choroso.

— Exagero foi eu ter atirado no seu travesseiro uma noite enquanto você dormia, depois de ter me feito passar um mês navegando por Alexandria só para você poder se encontrar com a Amira no Bordel das Succubus! — Remi gritou com um tom mais sério do que deveria.

Drake arregalou os olhos: — Eu sabia! Remi, foi você?! Eu bem que tinha falado que não existiam ratos espaciais que comiam algodão de travesseiro!

Remi apenas deu de ombros, enquanto retomava a caminhada.

— Não aja como se não tivesse sido nada! Maldita, você realmente tentou me matar!

— Se eu pensei nisso só depois de passar uns meses com você, deveria agradecer por ela ainda não ter te matado — Danael murmurou, acompanhando-os.

Eles continuaram a marcha pelo cemitério de Morpheus. O contraste era esmagador: a imponência aterrorizante do apocalipse divino servindo de plano de fundo perfeitamente pintado, enquanto três forasteiros discutiam como se estivessem perdidos em uma viagem de família com o GPS quebrado.

Parte 2

A piada sobre a tentativa de assassinato morreu na garganta de Remi no exato instante em que dobraram a esquina da rua destroçada. O cenário mudou com a brutalidade de uma cortina se abrindo para um palco de horrores.

O caos aleatório dos quarteirões anteriores — prédios desmoronados e montanhas de entulho — cedeu lugar a uma vasta e perturbadora clareira. Não era uma praça, tampouco uma cratera comum. Era uma arena forjada à força, onde a destruição obedecia a uma lógica doentia e cirúrgica.

As ruínas ali não estavam simplesmente caídas; estavam fatiadas. Vigas de aço maciço, espessas como troncos de árvores, apresentavam secções transversais perfeitamente lisas, brilhando sob a luz bizarra da Árvore Dourada como se tivessem sido cortadas por uma lâmina de calor absurdo. O chão de concreto armado formava crateras concêntricas, desenhando padrões geométricos que insultavam as leis da física e da gravidade de um desastre natural.

O ar ficou instantaneamente mais denso. O calor que irradiava das pedras ao redor deixou de ser um fantasma no ambiente e tornou-se tangível, sufocante, grudando na pele como uma manta térmica.

Drake estancou no lugar. A postura relaxada e teatral do pirata ofendido evaporou em um piscar de olhos, substituída por uma tensão fria e predatória. Ele ignorou completamente os insultos de segundos atrás. Em absoluto silêncio, caminhou a passos lentos e calculados até a beira de um corte perfeito no asfalto. Agachou-se, passando os dedos protegidos pelas luvas de couro sobre a borda do buraco derretido, sentindo a textura vítrea da rocha fundida.

— Isso não foi a explosão principal — Drake murmurou. A voz áspera rasgou o silêncio, completamente desprovida do humor fanfarrão de antes. Ele apontou o queixo para os destroços espelhados. — Isso foi um combate. E dos grandes.

Atrás dele, Danael franziu a testa. O instinto adormecido do detetive despertou como um cão de caça sentindo o cheiro da presa. Ele avançou pela clareira geométrica, os passos curtos e precisos, os olhos semicerrados varrendo cada centímetro do ambiente. Analisava as marcas de impacto em forma de estrela, os respingos de algo que brilhava como ouro líquido no concreto e a poeira fina que ainda dançava, hesitante em pousar.

— Vocês acham que a gente cair de paraquedas nesse mundo, justo no momento exato em que a poeira tá baixando, é um acidente? — Drake levantou-se devagar, os olhos fixos no topo monumental da Árvore Dourada que perfurava os céus à distância. — Existe uma vontade invisível movendo as peças desse tabuleiro.

Remi abraçou os próprios braços, esfregando os ombros. Um calafrio violento subiu por sua espinha, ignorando completamente o calor infernal da clareira.

— Você tá falando do “Destino”, capitão? — a voz dela saiu um pouco mais aguda que o normal.

Drake sequer olhou para trás. Balançou a cabeça, um sorriso fino e desprovido de qualquer alegria esticando seus lábios.

— O destino é para os poetas mortos e para os tolos que gostam de correntes, minha cara. Eu chamo isso de sincronicidade.

Enquanto isso, Danael parava perto do que parecia ser o epicentro de um dos impactos. Havia pegadas profundas, literalmente cravadas no asfalto derretido, e um cheiro espesso e acobreado de sangue brigava ferozmente com o odor químico de ozônio.

— Sincronicidade ou destino, o fato é que quem quer que tenha transformado essa avenida num quadro de geometria letal não fez isso ontem — declarou Danael. O tom do investigador era gélido, focado e estritamente profissional.

Com um movimento fluido, ele enfiou a mão no bolso interno do paletó amassado e puxou um pequeno diário de capa de couro escuro. O detetive não sacou uma caneta. Em vez disso, abriu o caderninho soltando-o no ar. O objeto levitou, girando suavemente até parar a poucos centímetros de seu peito.

Os olhos de Danael ganharam um brilho sutil, a manifestação silenciosa da ativação do seu Éter. Nas páginas amareladas do diário, veios de tinta escura começaram a brotar do nada. As linhas corriam frenéticas, formando letras, números e diagramas arquitetônicos complexos em tempo real, documentando fisicamente a velocidade com que a mente do detetive processava as pistas.

— Cortes de alta precisão... — Danael ditava em voz baixa, as palavras se arranjando sozinhas no papel flutuante. — Ausência de estilhaços irregulares. Força de impacto capaz de ignorar a resistência do aço reforçado. Sangue fresco nas zonas de recuo.

Ele abaixou o olhar para uma poça escura acumulada perto da ponta de seus sapatos sociais sujos. O líquido espesso borbulhava de leve, recusando-se a coagular sob a iluminação doentia da Árvore Dourada.

O silêncio na clareira tornou-se repentinamente ensurdecedor. A comédia da viagem disfuncional em família estava oficialmente morta e enterrada. O que restava era a constatação nua e crua de que haviam acabado de invadir o centro de um matadouro. E o chão ainda estava quente.

Remi engoliu em seco, o som parecendo alto demais. Ela olhou das costas tensas de Drake para a postura rígida de Danael.

— Danael... — ela chamou, a voz vacilante. — Quão fresco?

O diário fechou-se com um estalo seco, cortando o ar como um tiro, e voou direto de volta para o bolso do detetive. Danael ergueu o rosto marcado pela fuligem, a expressão sombria refletindo o caos opressor do céu de Morpheus.

— Fresco o suficiente para que o dono desse sangue ainda esteja respirando neste exato quarteirão.

Parte 3

A poça de sangue escuro aos pés de Danael sequer teve tempo de esfriar. O eco da sua última sílaba foi subitamente degolado.

Antes que Drake pudesse processar a dedução sombria do detetive, ou que Remi pudesse engolir o pânico que subia por sua garganta, o tecido da realidade sofreu um solavanco violento. Não foi um tremor sísmico que chacoalhou as pedras sob suas botas; foi um tropeço nauseante na própria malha do espaço-tempo. Uma vertigem absoluta, como se o disco do universo estivesse girando perfeitamente e, de repente, fosse arranhado por uma agulha colossal.

E então, o som simplesmente deixou de existir.

O crepitar frenético do asfalto derretido, a respiração ofegante de Remi, o atrito áspero do casaco de couro de Drake... tudo foi sugado e estrangulado por um vácuo absoluto. A praça geométrica mergulhou em um silêncio tão denso, tão anormal e inquebrável, que a ausência de ruído se tornou uma agressão física. A pressão esmagou os tímpanos dos três exploradores, sugando o oxigênio direto de seus pulmões.

Eles não tiveram tempo de sacar as armas. Não tiveram tempo de trocar olhares, de correr ou de gritar.

A explosão silenciosa os atingiu.

Não houve uma bola de fogo letal, nem uma onda de choque térmica para arremessá-los longe. Foi um impacto puramente metafísico. Uma força invisível, de uma densidade opressora e esmagadora, desabou do céu estilhaçado de Morpheus diretamente sobre os ombros do trio.

Drake, Danael e Remi foram atirados de joelhos contra o concreto estilhaçado em violento uníssono, os ossos estalando sob a força do impacto. A gravidade do planeta não havia mudado uma vírgula, mas, de repente, os corpos mortais deles pesavam toneladas.

E o impacto físico foi apenas o prelúdio. No milissegundo seguinte, a mente dos três entrou em colapso total.

Foi como se o crânio de cada um deles tivesse sido arrombado com um pé de cabra invisível, permitindo que oceanos de informações brutas, cruas e incompreensíveis fossem injetados à força em seus córtices cerebrais. A sinestesia cósmica os rasgou de dentro para fora: eles enxergaram fragmentos de galáxias morrendo, ouviram o som ensurdecedor da cor vermelha, sentiram na língua a textura áspera do tempo, degustaram o gosto metálico da gravidade. Conceitos de uma geometria impossível, dobrada em trinta e seis dimensões, invadiram a arquitetura frágil de seus cérebros humanos de uma única vez.

O terror cósmico os engoliu, mastigando o que restava de sua humanidade.

O dispositivo de Remi escorregou de suas mãos dormentes, estilhaçando-se no chão. Ela agarrou a própria cabeça, cravando as unhas no couro cabeludo. Sua boca se abriu em um grito largo, mudo e agonizante, enquanto lágrimas espessas jorravam de seus olhos arregalados, a sanidade esticando-se como uma corda de violão prestes a arrebentar.

A mente analítica de Danael quebrou. O detetive desabou de bruços, o peito arfando pesadamente contra a terra quente. Seus dedos arranharam o asfalto derretido de forma animalesca, rasgando a pele até que as unhas sangrassem. Ele sentia como se o próprio cérebro estivesse fervendo no crânio, derretendo sob a pressão desesperada de tentar processar uma matemática divina, grande demais para a sua lógica mortal.

Até mesmo Drake cedeu. O pirata astral, que havia navegado pelos piores mares do universo, que zombava do perigo e ria na cara da morte, caiu de quatro. O sobretudo de couro pesando como chumbo, ele tremia violentamente, os dentes trincados até quase racharem e o rosto contorcido na mais pura e abjeta agonia. Todo o seu orgulho virou pó.

Não era um feitiço de ilusão de um mago qualquer. Não era telepatia de um inimigo hostil. Era o mero, casual e devastador efeito colateral de estarem no lugar errado, na hora errada.

Eles não passavam de formigas insignificantes tentando compreender as ranhuras da sola da bota que as esmagava. A bolha de realidade de Morpheus havia sido perfurada, e os três forasteiros acabavam de ser atropelados pela presença crua, monstruosa e inabalável da própria divindade em fúria.

O silêncio absoluto e o peso do infinito os prendiam contra o asfalto quente. Ali, não havia estratégia. Não havia luta. Todos apenas tentavam sobreviver à presença de um Deus.

Parte 4

Um milissegundo antes de a sanidade dos três se estilhaçar de forma irreversível, o universo piscou.

A pressão esmagadora, o vácuo asfixiante e os terabytes de lixo cósmico injetados em suas mentes desapareceram com a mesma violência brutal com que haviam surgido. A transição foi tão brusca que o atrito da realidade cobrou seu preço: Drake, Danael e Remi despencaram em um chão duro, vomitando o ar e puxando oxigênio de volta para os pulmões com o desespero de quem acaba de ser resgatado do fundo do oceano.

Eles não estavam mais na praça geométrica.

O som havia voltado — abafado, mas real. O cheiro de sangue e ozônio foi substituído pelo aroma espesso de seiva antiga e madeira úmida. Eles haviam sido arrancados do matadouro e atirados para dentro de uma fenda escura e estreita, literalmente espremida entre duas das raízes colossais da Árvore Dourada. O espaço era claustrofóbico, cheirava a musgo, mas era seguro.

Envolvendo a fenda, pulsava uma aura dourada, morna e intransponível. Funcionava como uma redoma invisível, um cobertor pesado que os isolava completamente da nevasca de terror absoluto que rugia lá fora.

— Respirem fundo. O cérebro humano demora alguns segundos para entender que não está mais sendo frito.

A voz era polida, inabalável e carregava uma autoridade inata que exigia obediência imediata.

Apoiado casualmente contra a parede de madeira e Éter, observando-os com uma tranquilidade que beirava o absurdo, estava um homem. Seus cabelos eram de um branco gélido, e ele usava óculos de lentes azuis que refletiam a fraca luminosidade do refúgio. Impecavelmente bem-vestido, exalando um estilo que contrastava violentamente com a sujeira e o fim do mundo lá fora, ele irradiava uma energia gigantesca. Era a aura dele que agora servia como escudo para o trio.

Danael, ainda de joelhos, com uma das mãos cravadas no peito arfante, ergueu o rosto manchado de fuligem. Quando seus olhos focaram na figura impecável, as pupilas do detetive dilataram-se em puro choque. Ele até esqueceu de buscar ar:

— Você... — Danael engasgou, a voz falhando em um sussurro incrédulo. — O que diabos o Caçador mais forte do mundo tá fazendo aqui?!

Drake, que usava a parede da raiz para forçar os joelhos trêmulos a ficarem de pé, olhou para o homem de cabelos brancos com os olhos semicerrados e confusos. O pirata astral, acostumado com viagens intergalácticas e alheio à política terrestre das últimas décadas, não fazia a menor ideia de quem era a maior celebridade de Hortus Parvus. Para ele, era só um engravatado estiloso.

O homem de óculos azuis inclinou levemente a cabeça, ajeitando a armação no rosto com o dedo indicador:

— Eu é que deveria perguntar o que três civis mundanos estão fazendo no epicentro de uma fissura dimensional, mas... — Zero cortou a própria frase. Seu olhar desviou-se de imediato para a fresta entre as raízes, que dava uma visão panorâmica para uma imensa caverna subterrânea logo abaixo deles. — Sinceramente? A burocracia pode ficar para mais tarde. Eu me arrependeria para o resto da vida se tirasse os olhos daquela garota por mais de um segundo.

Remi, ainda tremendo incontrolavelmente, forçou-se a falar, pouco se importando com a patente ou fama do homem à sua frente:

— Isso não importa agora! — ela ofegou, a voz rasgada pelo choro recente e pelo terror. — O que... o que foi aquilo?! O que acabou de acontecer com a gente lá em cima?!

Zero não olhou para trás. Sua atenção estava magneticamente colada na fenda:

— Vocês se aproximaram demais — ele explicou. O tom era grave e clínico, totalmente desprovido de arrogância. — Entraram no raio de alcance e sentiram a aura dela. Crua. Sem filtros. Vocês não foram atacados, garota. Foram simplesmente esmagados pelo peso de existir na mesma sala que o infinito.

A respiração do trio travou simultaneamente. De quem ele estava falando?

Movidos por um misto de terror residual e um fascínio suicida, Drake, Danael e Remi se arrastaram até a beira da fresta para espiar o que o Caçador mais forte do mundo vigiava com tanta cautela.

A visão era um privilégio amaldiçoado.

Lá embaixo, muito além do asfalto destruído de onde vieram, estendia-se a verdadeira cratera. Era absurdamente vasta, cercada pelas raízes douradas da Árvore que se retorciam para formar algo semelhante às arquibancadas de um coliseu macabro.

E no centro exato daquele inferno geométrico, repousava um trono de madeira escura, entalhado com runas que feriam os olhos.

Havia alguém sentada nele.

Era uma jovem de beleza etérea, mas inegavelmente venenosa. Ela estava sentada com as pernas cruzadas, esbanjando uma elegância felina e desafiadora que zombava abertamente de todo o caos ao seu redor. Seus olhos, de um azul-safira penetrante e incandescente, varriam o ambiente com uma confiança letal, enquanto um sorriso travesso e quase entediado curvava os cantos de seus lábios.

Mas a postura de realeza da garota era uma contradição grotesca com a violência infligida ao seu corpo.

Ela era uma prisioneira. Dezenas de correntes grossas, forjadas em aço e Éter puro, irrompiam de pequenos portais rasgados no ar, serpenteando e enrolando-se brutalmente em seus braços, pernas e pescoço. Grossos pregos de ferro negro estavam cravados diretamente em sua carne pálida, fixando seus membros à madeira do trono em poças de sangue contido. Centenas de papéis de selamento cobriam seu corpo e o chão ao redor, tremulando freneticamente sob o calor invisível de seu poder.

E ainda assim... mesmo perfurada, acorrentada como um monstro e soterrada por feitiços, ela sorria como se fosse a dona do mundo.

Um tremor involuntário subiu pelas pernas de Drake, espalhando-se rapidamente pelos braços de Danael. Mesmo protegidos pelo escudo de Zero, blindados contra a radiação letal daquela energia, ambos os homens reconheceram a assinatura espiritual instantaneamente. A garganta de Drake fechou. Danael sentiu o gosto fantasma de bile na boca.

Era uma presença idêntica à da última divindade que quase os aniquilou no passado, mas exponencialmente mais densa. A simples imagem dela parecia distorcer o cenário de Morpheus, fazendo-a recortar-se do tecido do universo como um erro cósmico.

A garganta de Drake estalou no silêncio da fenda:

— Aquilo... — o pirata sussurrou, a voz falhando diante da profanação que seus olhos testemunhavam. — Aquilo é um Avatar de Astreus.

Zero virou o rosto apenas alguns centímetros. Por trás das lentes azuis, seus olhos demonstraram uma surpresa genuína:

— Impressionante. Vocês deduziram a natureza dela apenas com o olhar, mesmo por trás da minha barreira. Nada mal para "civis".

O Caçador voltou a encarar a anomalia sorridente no trono de tortura, a tensão sutil em seus ombros evidenciando que até ele, o ápice da força humana, caminhava no fio da navalha.

— Bom... não sei o quão precisa é a sua nomenclatura, já que estamos lidando com entidades de fora do nosso cosmos — Zero murmurou, o tom descendo uma oitava, solene e letal. — Mas aquela garota no trono se apresentou como Nazuna. O Avatar do Astreus do Infinito. 

Parte 5

O espaço vazio acima da cratera não se abriu como um portal comum. Ele estilhaçou.

Um estrondo ensurdecedor, idêntico ao de uma abóbada de vidro monumental sendo marretada, ecoou por toda a extensão arruinada de Morpheus. O próprio tecido da realidade rachou em linhas escuras e irregulares, sangrando o vácuo de um abismo interdimensional. De dentro dessa fratura cósmica, quatro silhuetas desceram flutuando, pousando com precisão milimétrica nas bordas do asfalto derretido.

No exato milissegundo em que as botas daquelas entidades tocaram o solo, a gravidade do quarteirão inteiro pareceu implodir.

Dentro da fenda segura, mesmo protegidos pela barreira espessa de Zero, Drake, Danael e Remi sentiram os joelhos cederem brutalmente. Os três desabaram contra o chão de madeira da raiz, esmagados por uma opressão invisível, absoluta e paralisante. O ar tornou-se rarefeito, pesando nos pulmões como mercúrio. Aquilo não era apenas poder bruto; era o peso de uma Autoridade letal. Era a manifestação física de um esquadrão de execução.

Zero não caiu. Mas, pela primeira vez, o Caçador mais forte do mundo ajeitou os óculos azuis com o dedo médio em um gesto tenso, a expressão endurecendo enquanto observava o quarteto através da fresta:

— Então eles já chegaram... — Zero sussurrou para si mesmo, os olhos semicerrados. — Foram mais rápidos do que eu previ.

Lá embaixo, cercando a garota acorrentada no trono de madeira, estavam os Coroados. Os Matadores de Deuses.

Yorubel, Melusine, Radamanthys e Ragnar.

Melusine deu um passo à frente. Sua postura era aristocrática e o queixo estava erguido. Ela olhava para Nazuna não como quem avalia uma ameaça cósmica, mas como quem encara uma mancha de vinho num tapete de palácio:

— Você cruzou a fronteira imperdoável da heresia — Melusine sentenciou. Sua voz era polida, afiada e desprovida de qualquer emoção, cortando o ar quente como uma lâmina de gelo. — Intitular-se um Astreus e causar caos generalizado no reino dos Deuses é uma ofensa direta à ordem natural. Nós viemos escoltá-la de volta ao Tribunal do Olimpo. O seu julgamento aguarda.

Ao lado dela, Yorubel girou nos calcanhares, balançando a capa de seu uniforme escuro de forma exagerada e dramática. Ele cobriu metade do próprio rosto com a mão, deixando apenas um olho brilhar fanaticamente por entre os dedos:

— As correntes do abismo finalmente a alcançaram! — Yorubel proclamou, a voz transbordando uma teatralidade mística. — O Olho do Julgamento selou o seu destino, falsa divindade! A escuridão primordial irá devorar os seus pecados mortais!

Mas a burocracia fria e o teatro sombrio não agradavam a todos.

Radamanthys cruzou os braços grossos, o rosto retorcido em uma carranca de puro escárnio. A impaciência fervia em cada músculo tensionado de seu corpo:

— Tsc. Quanta baboseira irritante — Radamanthys rosnou, cuspindo no asfalto derretido e quebrando o protocolo divino sem a menor cerimônia. Ele fixou em Nazuna um olhar carregado de ódio cru. — Pra que perder tempo arrastando esse lixo de volta pro Olimpo? Seria muito mais fácil eu simplesmente limpar a culpada aqui mesmo. Eu pulverizo ela, a gente termina logo com isso e volta pra casa.

No centro daquele cerco de aniquilação iminente, Nazuna sequer piscou.

Presa por pregos de ferro negro, estrangulada por correntes cósmicas e soterrada sob centenas de papéis de selamento, a garota do Infinito apenas tombou a cabeça para o lado. Os pregos rangeram contra a madeira.

E então, ela riu. Foi uma risada genuína, leve e cristalina, como se estivesse assistindo a uma comédia colegial de péssimo gosto:

— Hahaha! Ai, ai, Radamanthys... — Nazuna abriu um sorriso preguiçoso e travesso, os olhos azul-safira brilhando com uma arrogância inalcançável. — Se você fosse mesmo capaz de fazer isso, docinho, nós não estaríamos aqui tendo essa conversa fiada para começo de história.

Ela soltou um suspiro longo, projetando o lábio inferior em um bico de decepção quase infantil:

— Pobres crianças... parece que eu realmente superestimei vocês. Nem mesmo os famigerados "Matadores de Deuses" conseguem atingir a sombra do Infinito. Infelizmente, parece que não serão vocês a me darem aquilo que eu busco. Que tédio.

A provocação foi o estopim. Uma veia grossa saltou na testa de Radamanthys, seu orgulho guerreiro esfaqueado no peito. A aura ao redor dele explodiu em chamas de fúria cega, derretendo e estilhaçando as pedras sob suas botas:

— O QUE VOCÊ DISSE, SUA DESGRAÇADA?! EU VOU TE MOSTRAR QUEM NÃO CONSEGUE—!

Ele deu um passo violento à frente, os punhos cerrados para obliterar o trono e a garota de uma vez só. Mas um braço espesso, rígido como uma viga de aço, chocou-se contra o seu peito, parando-o no ato com um baque surdo.

Ragnar suspirou pesadamente. O gigante das artes marciais divinas tinha os pés firmemente plantados no chão, exalando a calma brutal e prática de um veterano de mil guerras. Ele sabia reconhecer a diferença de peso entre dois lutadores no ringue:

— Segura a onda, Radamanthys. Não faça bobagem — Ragnar repreendeu, a voz grave vibrando como um trovão distante. Ele olhou para Nazuna com um respeito cauteloso e letal. — Ela não está totalmente errada, e você sabe disso. Nós viemos até aqui apenas para buscá-la e garantir a contenção. Não faça o que não é necessário.

Nazuna revirou os olhos azuis, visivelmente farta do esquadrão de execução:

— Desista de tentar colocar coleira em mim, Ragnar. Eu não vou sair daqui. — Ela acomodou-se no encosto do trono, ignorando a carne sendo repuxada pelos pregos em seus braços. — Como vocês quatro foram uma decepção formidável e não conseguiram me dar o que eu queria, eu decidi que vou ficar sentadinha aqui e assistir ao show.

Ela ergueu o queixo, o olhar perdendo o foco, como se contemplasse algo acontecendo a galáxias dali, no espaço ou no tempo:

— A minha Cria resolveu bater de frente contra aquele garotinho tentando alcançar o céu. Talvez... apenas talvez... um dos dois possa me proporcionar a diversão e a resposta que vocês não puderam.

Lentamente, ignorando os quatro Deuses furiosos que a cercavam, a garota do Infinito girou o pescoço.

Seus olhos azul-safira subiram pelas raízes da Árvore Dourada. O olhar dela pareceu fatiar a madeira de Éter, ignorar a barreira de invisibilidade e cravar-se, com uma exatidão cirúrgica e apavorante, diretamente nos olhos de Zero.

Ela piscou para ele.

— Se bem que... — Nazuna murmurou. A voz dela não ecoou pela cratera; em vez disso, viajou como um sussurro fantasma, alto o suficiente apenas para que o Caçador de cabelos brancos a ouvisse perfeitamente dentro da fenda. Um sorriso predatório de orelha a orelha desenhou-se em seu rosto. — Parece que tem mais alguém escondido por aqui com um nível bem interessante.

Dentro da raiz, o ar sumiu de vez dos pulmões de Danael. Drake apertou o cabo do revólver em seu coldre até os nós dos dedos ficarem brancos. Eles haviam sido notados. Estavam na mesma jaula que o monstro.

Zero não moveu um músculo. O Caçador mais forte do Mundo sustentou o olhar da garota do Infinito em absoluto silêncio, o travar sutil de sua mandíbula sendo o único sinal visível de que o tabuleiro de xadrez cósmico acabava de virar de cabeça para baixo.

Parte 6

Dentro da fenda protetora, o ar pareceu despencar dez graus. O contraste entre o poder esmagador da divindade lá embaixo e a fragilidade mortal dos exploradores espremidos entre as raízes era paralisante.

Drake Dampier não conseguia desgrudar os olhos do quarteto que cercava o trono. O pirata astral engoliu em seco, a voz saindo em um sussurro arranhado:

— O que diabos está acontecendo? Por que os Juízes de Citrinitas desceram para o mundo humano? Aqueles figurões não saem do Olimpo por qualquer bobagem.

Zero virou o rosto lentamente. Os olhos azuis, ampliados pelas lentes dos óculos, analisaram o pirata com um nível de interesse repentino. Um sorriso minúsculo, quase imperceptível, cruzou o rosto do Caçador:

— É verdade... Você é Drake Dampier. Séculos atrás, você também ostentava o título de Coroado, não é?

Mas Zero não deu espaço para o choque se instalar. Ele voltou sua atenção para a fresta, assumindo um tom calmo e professoral que contrastava histericamente com o fim do mundo acontecendo lá fora.

— Havia uma grande cúpula em Éden. Aparentemente, uma batalha colossal estava prestes a estourar entre Kallen e August, e eu decidi ir até lá observar, apenas para passar o tempo — relatou Zero, ajustando a armação dos óculos com a ponta do dedo. — Só que, antes dos desafiantes pisarem na arena, bem no meio de todos os deuses presentes... aquela garota simplesmente se materializou.

Ele apontou com o queixo na direção de Nazuna:

— Ela provocou o panteão inteiro. Chamou os deuses de "formigas brincando com coroas" e perguntou se pelo menos um deles era capaz de arranhar a própria sombra dela.

— Todos os Astreus têm tendências suicidas? — Remi murmurou, o rosto pálido como cera.

— Foi um pandemônio — Zero continuou, a voz imperturbável. — Os Juízes precisaram intervir antes que a fúria cega destruísse o Olimpo de dentro para fora. Quando Nazuna finalmente foi subjugada pelo selamento de Yorubel e acorrentada pelos outros Coroados, ela... simplesmente perdeu o interesse. Ela bocejou no meio do julgamento, rasgou o tecido da realidade na pura força bruta e saltou para longe. Fiquei curioso. Rastreei a assinatura dela até aqui.

Danael franziu a testa, as engrenagens da sua mente de detetive girando em velocidade máxima. Ele estreitou os olhos:

— Espera. Me dá mais detalhes. — O investigador apontou para o buraco lá embaixo. — É impossível ela ter saído "facilmente" depois de apanhar do panteão inteiro e ser selada!

— E não foi facilmente, Dampier — Zero corrigiu, o tom descendo uma oitava. — Os Coroados tiveram que usar força letal para segurar os próprios deuses que queriam despedaçá-la. E, mesmo assim, imobilizada e coberta de selos, ela saltou para este reino. Um lugar fora dos radares divinos.

Danael sentiu um estalo na espinha. Um frio absoluto lavou seu rosto sujo de fuligem. O detetive olhou para a clareira perfeitamente fatiada do lado de fora, com suas crateras geométricas, e depois voltou o olhar para Nazuna, presa ao trono:

— Espera um pouco... — Danael sussurrou, a voz trêmula. — Se ela acabou de chegar aqui... e já chegou sentada e acorrentada... e os Juízes acabaram de descer atrás dela... isso significa que não foram eles que causaram toda aquela destruição na praça!

O silêncio na fenda ficou ensurdecedor.

— Outra coisa fatiou essa cidade — Danael concluiu, apavorado.

Antes que o trio pudesse processar a implicação aterrorizante de que outro monstro estava à solta, o céu de Morpheus rugiu.

Não foi o som de vidro quebrando. Foi o estrondo cataclísmico de um trovão que fez os dentes dos três baterem. Do mesmo buraco dimensional no firmamento, um pilar de pura eletricidade dourada despencou como um míssil balístico.

O relâmpago colidiu no centro da cratera, estilhaçando raízes e levantando um cogumelo de fumaça, pedra fundida e faíscas que cegavam.

De dentro da cratera incandescente, uma silhueta se ergueu. Era um garoto de cabelos loiros e espetados. A eletricidade estática relampejava ao redor de seu corpo como chicotes violentos, queimando o oxigênio a cada passo furioso que ele dava em direção ao trono. Seus olhos faiscavam com uma intenção assassina desenfreada.

— FALOU TODAS AQUELAS MERDAS LÁ EM CIMA, MAS NO FINAL FUGIU COM O RABINHO ENTRE AS PERNAS, NÃO FOI?! — O garoto berrou. O ódio rasgava sua garganta, e as veias saltavam de seu pescoço. — Não vem com essa historinha de "Astreus", sua vadia arrogante! Ou eu vou te esmurrar até a morte e arrancar essa coroa de merda da sua cabeça!

Lá do alto, abrigado na raiz, Zero soltou um suspiro longo e cansado:

— Era óbvio que aquele idiota viciado em briga iria aparecer.

Lá embaixo, os quatro Matadores de Deuses olharam para o garoto com um aborrecimento mortal:

— Tsc. Só faltava esse moleque barulhento — Radamanthys rosnou, cruzando os braços. — Como se a gente já não tivesse lixo suficiente pra limpar hoje, o Thor resolveu atrapalhar.

Thor ignorou o esquadrão de execução completamente. Seus olhos elétricos e psicóticos estavam cravados exclusivamente em Nazuna.

A garota do Infinito, por sua vez, não moveu um único músculo. Continuava com as pernas cruzadas no trono de madeira, o corpo perfurado por pregos e soterrado por selos. Ela olhou para o deus do trovão com um sorriso de pena tão doce que chegava a ser venenoso.

— Nossa, quanta energia gasta à toa — Nazuna suspirou, a voz melodiosa transbordando deboche. — Se você tentar encostar em mim, docinho, você vai morrer. Simples assim. Você late alto demais pra um cachorrinho tão pequeno.

— CALA A BOCA! — Thor rugiu, o chão estourando sob suas botas. Ele apontou o dedo trêmulo de raiva para o rosto dela, um sorriso maníaco rasgando sua expressão. — Você tá se achando muito pra quem tá amarrada como um porco no abate! Tá toda selada, inútil! Vai fazer o quê?!

Nazuna soltou uma risada frouxa, tombando a cabeça para trás:

— Ai, ai. A diferença entre nós, Thor, é que eu faço o que me dá vontade. É assim que os fortes de verdade vivem. — A diversão sumiu do rosto dela. Seus olhos azul-safira brilharam com a frieza de um abismo insondável. — Eu estou neste buraco porque escolhi estar. Eu estou coberta por essas correntinhas ridículas porque quis testar o peso delas.

Ela inclinou o corpo milimetricamente para frente. A voz baixou para um tom letal que fatiou o ego do deus ao meio:

— Já você... você está aqui porque tem a mente frágil. Lá no fundo, você sabe que é fraco. Você não suportava a ideia de que existe um teto intransponível acima de você. Por isso, veio correndo atrás de mim, latindo e babando, só pra tentar provar pra si mesmo que não é um inútil. E adivinha? Você ainda é.

A sanidade de Thor evaporou:

— EU VOU TE MATAR, SUA DESGRAÇADA!!!

O corpo do deus do trovão tornou-se uma bomba nuclear de raios. A explosão de eletricidade expandiu-se, engolindo a cratera inteira em uma cúpula de destruição branca e cegante.

Na fenda das raízes, Zero não hesitou. Com um estalar de dedos, o espaço se dobrou ao redor deles. Em um piscar de olhos, o Caçador teleportou a si mesmo, Drake, Danael e Remi várias dezenas de metros para o alto, jogando-os em um galho seguro, longe do raio de obliteração da tempestade elétrica.

Lá embaixo, Melusine, Yorubel, Ragnar e Radamanthys já haviam saltado para as bordas distantes da cratera, escapando da onda de choque varredora do próprio aliado:

— Que pirralho irritante... — Melusine murmurou, sacudindo a poeira de seu uniforme impecável enquanto olhava para a nuvem de raios e destroços.

O estrondo elétrico rugiu por intermináveis cinco segundos. E então, foi degolado pelo silêncio.

A fumaça espessa de ozônio começou a se desfazer, varrida pelo vento quente de Morpheus. Drake, Danael e Remi prenderam a respiração no alto da Árvore, esperando ver o corpo desintegrado da garota arrogante. Mas, quando a poeira finalmente baixou, a realidade brutal daquela luta foi esfregada na cara do Olimpo.

Thor estava no chão. O deus do trovão estava esparramado de bruços no asfalto derretido, tossindo sangue escuro. Suas roupas estavam queimadas e seus olhos, arregalados em puro choque. Seus braços tremiam violentamente enquanto ele tentava, em vão, erguer o próprio peso. Ele havia sido esmagado contra a terra antes mesmo de conseguir desferir o primeiro golpe.

E acima dele, pairando graciosamente no ar carregado de estática, estava Nazuna.

O trono de madeira maciça havia virado pó. Os selos absolutos de Yorubel estavam reduzidos a cinzas flutuantes. As correntes inquebráveis do Tribunal pendiam estilhaçadas. A garota do Infinito estava completamente livre.

Ela flutuava relaxada, sentada de lado sobre a lâmina plana de uma espada absurdamente colossal — uma arma forjada de pura energia opressora, cuja ponta afiada estava cravada a centímetros do rosto ensanguentado de Thor.

Nazuna apoiou o queixo nas mãos, balançando as pernas no ar de forma infantil. O sorriso travesso permanecia intacto enquanto ela olhava para o deus humilhado.

— Então... — Nazuna murmurou, a voz pingando decepção. — Era só isso?

Parte 7

O sorriso debochado de Nazuna, que até então parecia ter sido esculpido em pedra de forma inabalável, vacilou.

Pela primeira vez desde que havia invadido o Olimpo, pisoteado o orgulho de centenas de divindades e humilhado o deus do trovão com um estalar de dedos, a expressão da garota do Infinito rachou. Uma única e incômoda gota de suor frio escorreu por sua testa pálida. Os olhos azul-safira abandonaram o corpo quebrado de Thor no asfalto e fixaram-se, com uma intensidade predatória, no céu estilhaçado de Morpheus.

— Tsc... — Nazuna estalou a língua no céu da boca. A doçura infantil sumiu de sua voz, substituída por um tom rasgado e genuinamente perigoso. — Vocês, falsos deuses, são piores que baratas. É só piscar, e sempre aparece mais um rastejando para o abate.

No mesmo milissegundo, a atmosfera dentro da fenda protetora na Árvore Dourada simplesmente desabou.

Zero, o Caçador impecável que mantinha uma postura quase entediada até aquele instante, arregalou os olhos azuis por trás das lentes. A aura morna e reconfortante que ele projetava para proteger Drake, Danael e Remi explodiu. O escudo invisível tornou-se espesso, pesado e tangível, brilhando com a rigidez de uma redoma de aço espiritual.

— Foi mal... — Zero murmurou, a voz tensa, os dentes trincados de forma que o maxilar desenhou-se sob a pele. Pela primeira vez, suor frio brilhava em suas têmporas. Ele não ousou desviar os olhos da fresta para encarar os três humanos atrás de si. — Acho que eu calculei mal a escala da plateia desse show. Eu deveria ter mandado vocês de volta para a Terra muito antes. Porque talvez agora... eu não consiga mais proteger vocês.

Lá embaixo, na borda da cratera fumegante, o gigante Ragnar sentiu a anomalia cósmica rasgando a estratosfera antes mesmo dela se materializar. O sangue fugiu do rosto do veterano:

— Tirem o Thor daqui! AGORA! — Ragnar berrou, a voz trovejando em um pânico cru e raro.

Radamanthys não discutiu. O guerreiro orgulhoso sentiu o cheiro da morte descendo do céu e transformou-se em um borrão de velocidade. Ele agarrou o corpo inconsciente de Thor pelo colarinho da armadura destruída e arrastou-o brutalmente para longe do epicentro, fugindo antes que fosse tarde demais.

Nazuna não moveu um dedo para impedi-los. Ela apenas ergueu o queixo, aguardando o céu se abrir mais uma vez.

Ragnar recuou dois passos pesados, os punhos cerrados até os nós dos dedos estalarem. Droga..., ele pensou, a mente girando em frenesi. Então ela ficou sabendo do que aconteceu. Achei que o jogo dela contra Alaya iria demorar muito mais do que isso...

O céu rasgou-se novamente. Mas, desta vez, não houve o estrondo de um trovão, nem o som de vidro quebrando.

Houve o som do zero absoluto.

A fenda colossal que se abriu acima de Morpheus congelou as nuvens instantaneamente. A umidade do ar escaldante solidificou-se no vácuo, transformando a atmosfera em uma tempestade letal de agulhas de gelo navalhadas. A temperatura despencou com uma brutalidade tão extrema que as chamas do asfalto derretido morreram sufocadas no mesmo microssegundo, estalando em cristais congelados.

E, de dentro da fratura polar, uma rajada de Éter puro — denso, avassalador e negro como o fundo de um abismo — desabou sobre a terra.

A pressão daquele Éter não era feita para cortar; era feita para esmagar estrelas. O solo ao redor da cratera cedeu com um rugido apocalíptico, afundando sob o próprio peso e literalmente dobrando o tamanho do buraco original antes mesmo que a recém-chegada tocasse os pés no chão.

Ela era a personificação implacável do inverno. Uma majestade aterrorizante e sombria.

Morgan, o Rei Demônio Coroado, aterrissou no centro da destruição com a leveza de uma pluma e o peso de um meteoro. Cabelos platinados chicoteavam em fúria ao redor do rosto pálido sob a ventania gélida. Chifres sombrios e imponentes, curvados como coroas de obsidiana, erguiam-se acima de sua cabeça. Ela vestia um traje de combate tático colado ao corpo — perfeitamente desenhado para a matança fluida —, pesadas botas blindadas e um longo sobretudo escuro que tremulava furiosamente nas costas como as asas de um corvo gigante.

Descansando casualmente sobre o ombro direito, ela carregava uma monstruosa espada montante forjada do mais puro gelo eterno.

A presença de Morgan injetou um frio necrótico direto na alma de todos os presentes. O nível de poder que irradiava dela era tão massivo, tão sufocante e absurdamente arrogante, que Yorubel e a inabalável Melusine deram um passo involuntário para trás, movidos pelo instinto animal de sobrevivência.

Morgan girou o pescoço, estalando as vértebras. Seus olhos brilharam com uma sede de sangue sádica e um deboche intrínseco. Ela abriu um sorriso largo e afiado:

— Foi mal — Morgan riu, a voz ecoando pela cratera congelada com um sarcasmo navalhado. — O trânsito estava meio ruim no abismo. Acabei demorando um pouquinho pra chegar.

Radamanthys, que havia acabado de largar Thor a uma distância segura, rosnou, o vapor saindo de sua boca pelo frio repentino. O orgulho ferido do Juiz falou mais alto que a razão:

— Vai embora daqui, Morgan! — o Coroado berrou, furioso. — Ninguém te chamou pra essa missão! O Tribunal não autorizou a sua presença neste reino!

Morgan ignorou Radamanthys com a naturalidade sublime de quem ignora um mosquito zumbindo no escuro. Ela cravou o olhar diretamente no Avatar do Infinito:

— Vocês deviam estar de joelhos no gelo me agradecendo, seus engravatados inúteis — Morgan declarou, o sorriso sádico se alargando ainda mais. — Essa pirralhinha estava a exatos três minutos de explodir todos vocês e varrer esse reino patético do mapa de uma vez só.

Nazuna piscou, genuinamente surpresa, antes de soltar uma risada cristalina que ecoou como sinos batendo na nevasca:

— Hahaha! Como você notou a minha armadilha? Impressionante. — Os olhos de Nazuna brilharam. — Mas é tarde demais, chifruda... Eu já perdi completamente o interesse nesses Coroados fracos.

Morgan tirou a espada colossal do ombro, girando o pulso e cravando a ponta de gelo no asfalto carbonizado com um estrondo ensurdecedor. O olhar do Rei Demônio mudou, assumindo a pureza de um instinto predador absoluto:

— Relaxa com essa sua síndrome de solidão do topo, garota — Morgan provocou, soltando o cabo da espada com uma das mãos para apontar o dedo na cara do Avatar do Infinito. — Deixa que eu vim pra resolver o seu tédio crônico.

O sorriso infantil e complacente de Nazuna morreu instantaneamente. O rosto da garota tornou-se uma máscara fria e inumana. Os olhos azul-safira brilharam não com arrogância, mas com a fúria e o peso esmagador de um universo inteiro.

— É melhor não me provocar muito, demônio. — A voz de Nazuna caiu uma oitava, uma frequência letal que fez as pedras soltas no chão vibrarem sozinhas. — Se você me deixar animada demais... todos aqui podem morrer acidentalmente.

O sorriso de Morgan rasgou o próprio rosto de ponta a ponta, revelando uma excitação grotesca e insana:

— Não se preocupa. Eu garanto que não vou deixar essa sua excitação ser sem motivo! Eu demorei pra chegar, mas foi pra trazer o seu fim definitivo!

A explosão de Éter que se seguiu não poderia ser descrita em línguas mortais.

O próprio espaço dobrou-se sobre si mesmo. A realidade distorceu-se em ondas visíveis de Éter azul-celeste e negro-abissal colidindo violentamente. A repulsão de energia foi tão absurda, tão imensurável, que até as colossais raízes da Árvore Dourada — intocáveis por qualquer desastre até aquele segundo — começaram a chacoalhar e rachar sob a ventania cósmica.

Foi em um milissegundo. Não houve tempo de conjurar feitiços verbais, não houve tempo para ensaiar posturas de artes marciais.

Morgan simplesmente desapareceu.

A realidade estalou, e ela reapareceu a centímetros do rosto de Nazuna. Com um giro brutal de cintura que rasgou a física tridimensional do local, o Rei Demônio girou a espada colossal de gelo, acertando a garota do Infinito em cheio com a lateral plana da lâmina.

O impacto não fez o som de um corte; fez o som de uma ogiva nuclear detonando no fundo do oceano.

Nazuna foi lançada contra o chão como um meteoro azul, afundando na crosta do planeta falso com uma violência estarrecedora. O asfalto e as rochas milenares não apenas racharam; eles foram obliterados. O impacto da garota contra a terra expandiu a cratera em uma onda de choque sísmica que engoliu as ruínas, vaporizando quarteirões inteiros ao redor em uma tempestade de poeira e gelo.

Lá no alto, na fenda entre as raízes chacoalhantes, a barreira dourada de Zero brilhou em sua capacidade máxima de contenção.

Mas não foi o suficiente. A pressão absurda da colisão física entre duas divindades de nível apocalíptico vazou microscopicamente pela redoma.

Drake Dampier desabou de joelhos, os olhos arregalados de terror, agarrando o próprio peito enquanto uma grossa golfada de sangue escuro e quente espirrou de seus lábios, manchando o assoalho de madeira. Danael caiu de lado, a mente em curto-circuito, o sangue vivo escorrendo em linhas contínuas de dentro de seus ouvidos estourados. Remi tossiu violentamente, sujando as mãos de vermelho enquanto o mundo girava fora de eixo, a biologia humana dos três falhando miseravelmente e cedendo à hemorragia interna... apenas por cometerem o erro de respirar na mesma dimensão em que o Infinito e o Inverno decidiam colidir.

Parte 8

Lá embaixo, o inferno não apenas congelou; ele estilhaçou.

Nazuna e Morgan colidiram. Aquilo não era uma troca de golpes comum, com paradas e defesas. Era uma contradição cósmica: o choque direto e contínuo entre a distorção absoluta do Infinito e a brutalidade necrótica do Inverno. A cada vez que a espada colossal de gelo eterno se chocava contra as barreiras de energia azul-safira de Nazuna, a própria malha da realidade gritava em agonia.

O espaço vazio ao redor da cratera começou a apresentar fraturas visíveis, ramificando-se no ar como se a atmosfera fosse feita de vidro vagabundo trincando sob o peso de uma marreta industrial.

No alto, espremido na fenda entre as raízes, Zero cerrou os dentes. O Caçador espalmou as duas mãos contra a superfície interna de sua própria redoma invisível, injetando uma torrente brutal de Éter para estabilizar o escudo a cada onda de choque que os atingia:

— Isso é realmente ruim... — Zero sussurrou. Pela primeira vez, uma gota de suor escorreu pela lateral de seu rosto até então impecável. — O tecido dimensional não vai aguentar essa pressão por muito tempo.

No chão de madeira atrás dele, Danael tossiu violentamente, engasgando antes de cuspir um coágulo espesso de sangue escuro. O detetive forçou o pescoço para cima, os olhos arregalados de dor e puro terror refletindo os clarões da batalha:

— Que... cof... que porra de monstro é aquele?! — Danael arquejou, os pulmões queimando por oxigênio.

Drake Dampier limpou o sangue quente que escorria livremente de seu próprio nariz e queixo com as costas da mão trêmula. O pirata astral olhou para a mulher de chifres negros e cabelos platinados que obliterava o chão de Morpheus:

— Aquela é a Morgan... — o pirata revelou, a voz assombrada e rouca. — O Rei Demônio.

— Isso é impossível! — Danael retrucou, cravando as unhas na madeira para se forçar a ficar de joelhos.

Remi, com filetes de sangue escorrendo dos dois ouvidos e a visão turva balançando, chacoalhou a cabeça em uma negação quase histérica:

— A lenda diz que o Rei Demônio foi selado eras atrás! — ela gritou, a voz falhando. — Ela deveria estar apodrecendo nas profundezas do abismo!

Zero não desviou os olhos da destruição cataclísmica lá embaixo, mas confirmou as palavras da garota:

— O seu capitão não está errado. Mas eu entendo perfeitamente o porquê de vocês acharem que é um delírio. Até eu perdi o chão quando descobri a verdade por trás do mito dela.

Um novo estrondo sacudiu a Árvore Dourada. Drake apertou o peito dolorido, assumindo a explicação enquanto a barreira de Zero tremia violentamente sob mais um impacto massivo:

— As pessoas não sabem... argh... não têm todas as informações porque a memória sobre a Morgan foi intencionalmente apagada da história dos mundos. É verdade que ela foi selada... mas o selo dela não foi uma jaula comum. Foi único.

O pirata astral engoliu em seco, sentindo o gosto de ferro na boca:

— Nenhum selo convencional era capaz de conter a força bruta de um monstro daquele calibre. Eles apagaram o nome dela da humanidade porque queriam enfraquecer o lado 'fada' dela... já que as fadas perdem poder quando caem no esquecimento. Mas nem isso foi o suficiente para trancafiá-la.

Drake ergueu o rosto suado, fixando o olhar apavorado de Danael:

— Então, para aumentar a força desse feitiço ao limite absoluto, os antigos inverteram a lógica. Ao invés de tentarem prender a Morgan em um único buraco, o selo teve o efeito oposto. Ela ficou completamente livre. Solta para vagar por todo o universo e ir para onde quiser... exceto para cá. Ela foi amaldiçoada a nunca mais colocar os pés em Hortus Parvus. A jaula dela... é o lado de fora. Foi a única forma de salvar a humanidade de ser varrida do mapa.

Enquanto a magnitude aterrorizante do "Selo Inverso" esmagava o que restava da sanidade do trio, na borda da cratera fumegante, os quatro Matadores de Deuses observavam o fim do mundo se desenrolar.

Ragnar, o gigante de feições severas, cruzou os braços monumentais. Os olhos do veterano varreram o céu trincado e os galhos da colossal Árvore Dourada, que agora gemiam e balançavam em uma instabilidade crítica:

— As coisas vão tomar um rumo irreversível se essas duas continuarem lutando com força total no reino mortal — Ragnar alertou. Sua voz grave e disciplinada cortou a cacofonia das explosões de gelo. — E o pior: estamos em uma zona onde as dimensões já estão fragilizadas por conta do nascimento dessa maldita árvore. Se o espaço quebrar de vez aqui, o colapso vai ser em cadeia. O universo inteiro pode implodir.

Ao lado dele, Yorubel balançou a capa escura num floreio seco. Com um movimento incrivelmente rápido e teatral, a Coroada cobriu o olho humano com a mão, deixando apenas o olho mágico e brilhante exposto, e apontou o dedo acusatório diretamente para o alto das raízes superiores.

— As correntes do destino exigem uma aliança profana para evitar a aniquilação! — Yorubel proclamou com sua teatralidade fanática, a voz ecoando pelas ruínas. — A única solução para selar o Inverno e o Infinito nesta noite de caos é trabalharmos em conjunto com o Viajante Oculto nas Sombras!

Com o dedo esticado, Yorubel mirou o ponto exato onde Zero e os humanos sangravam. O esconderijo "perfeito" do Caçador já havia sido detectado pelo Tribunal de Citrinitas.

Radamanthys não perdeu tempo com discursos ou protocolos. Fervendo de raiva, com o orgulho pulsando nas veias, o Juiz disparou pelo ar como um cometa enfurecido. Em uma fração de segundo, ele parou pairando no ar, a centímetros da raiz, separado de Zero apenas pela fina redoma de Éter azulado.

— Desce logo daí e aparece, seu bisbilhoteiro miserável! — Radamanthys ordenou, a voz trovejando com fúria divina e autoridade absoluta.

Apenas o fato daqueles dois estarem frente a frente já era um desastre. Do lado de fora, Radamanthys irradiava a Autoridade massiva do Olimpo. Do lado de dentro, Zero emanava o ápice incontestável do Éter mortal. O choque estático das duas presenças gigantescas colidindo criou um campo de pressão gravítica bizarro e sufocante no espaço espremido.

E, mais uma vez, a conta daquela proximidade caiu sobre a fragilidade biológica dos humanos.

Danael despencou de bruços contra a madeira, o ar sendo expulso de seus pulmões com um chiado doloroso. Drake trincou os dentes com tanta força que a gengiva sangrou, sentindo a própria estrutura óssea estalar sob o peso invisível de dois predadores alfa se encarando.

Zero ajeitou os óculos azuis de forma contida. Ele olhou para baixo, observando os três civis que agonizavam e se contorciam sob suas botas, e depois ergueu o olhar gelado para o Juiz furioso que flutuava lá fora.

O Caçador soltou um suspiro longo, arrastado e que soava genuinamente decepcionado com a vida:

— Que pena. Eu realmente queria assistir ao restante dessa luta de camarote sem precisar sujar o meu terno... — Zero murmurou para si mesmo, afrouxando sutilmente a gravata. — Mas parece que a etiqueta me obriga a participar. O tempo do intervalo acabou.

Ele ergueu a mão direita à altura do ombro. E estalou os dedos.

SNAP.

O espaço em volta deles não rasgou, ele dobrou-se com absoluta obediência. A luz da fenda distorceu-se e escureceu e, em um único piscar de olhos, Zero e os três exploradores sangrando desapareceram da raiz alta, teleportando-se verticalmente para baixo.

Eles se materializaram direto no chão estilhaçado da borda da cratera, surgindo perfeitamente alinhados ao lado de Ragnar, Melusine e Yorubel, com Radamanthys aterrissando logo em seguida. A aliança profana estava formada.

Parte 9

— Hahaha! Que entrada, chifruda! — Nazuna riu. Sua voz cristalina cortou a tensão como uma navalha, carregada de um sarcasmo quase infantil. — Eu até que estava precisando de um ar-condicionado depois daquele showzinho de luzes do deus do trovão, mas se esse é o seu melhor truque, eu vou ficar entediada bem rápido. Eu sou Nazuna. A personificação do Infinito. E você... me parece só uma criança que começou a se achar demais depois de receber meia dúzia de elogios.

Morgan parou. A postura era régia, fria, impecável. Ela girou o pulso levemente, deixando a ponta da sua gigantesca espada repousar contra o asfalto.

Um círculo de geada necrótica explodiu do ponto de impacto. Em um piscar de olhos, uma expansão térmica congelou o campo de batalha em um raio de cem metros, transformando o asfalto derretido em um rinque de patinação letal.

— Heresia... ou apenas um delírio patético? — Morgan respondeu. Sua voz era grave e arrastada, reverberando no peito de Nazuna com uma arrogância ancestral que faria montanhas tremerem. — Chame do que quiser, pirralha. Mas essa sua língua solta é o que vai te matar. A única coisa "infinita" em você é o tempo que vai demorar para o seu sangue esfriar no gelo. Você não é um Astreus. É só uma cópia malfeita. Um erro de cálculo daquele Tribunal de imbecis.

O sorriso de Nazuna esticou-se até os limites do rosto. As safiras em seus olhos brilharam com uma loucura pura e assassina. Ela inclinou o corpo para frente, apoiando o queixo nas mãos enquanto flutuava:

— E caso seja verdade... então os Astreus originais não são lá grande coisa no fim das contas. Vamos ver até quando essa sua arrogância vai durar, criança.

Estalo. O som dos dedos de Nazuna ecoou, e o próprio tecido do espaço atrás dela fraturou-se. Milhares de portais astrais brilhantes abriram-se simultaneamente, tingindo o céu escuro de Morpheus com uma luz alienígena e cegante. Do interior de cada portal, a ponta de uma arma diferente apontou para baixo.

Foi um disparo em uníssono. O céu caiu.

Um bombardeio apocalíptico desabou: machados pesados que invertiam a gravidade ao girar, lanças conceituais que corrigiam a própria rota buscando um "acerto inevitável" no alvo, e foices vibrando em uma frequência tão absurdamente alta que deixavam rastros rasgados no Éter visível.

Diante daquela chuva de meteoros metálicos projetada para obliterar continentes inteiros, Morgan não correu. Não recuou um único milímetro. Sua lógica como o Rei do Inverno não era a esquiva desesperada; era a acumulação passiva.

Com um movimento incrivelmente suave, quase preguiçoso, Morgan ergueu a mão esquerda.

O chão congelado à sua frente obedeceu, erguendo-se em espirais vítreas e conjurando o Gelo Ilusório. Dezenas de placas glaciais, perfeitamente polidas como espelhos dimensionais, passaram a orbitar seu corpo em alta velocidade.

Quando o arsenal do infinito chocou-se contra o gelo, o som foi ensurdecedor. Porém, os espelhos não cederam ao impacto de imediato. Em vez disso, as placas absorveram a força física e a energia cinética, refratando a imagem de Morgan repetidas vezes. Em meio segundo, dezenas de clones ilusórios do Rei Demônio espalharam-se pela arena.

A verdadeira Morgan iniciou uma dança macabra. Ela deslizava pelo asfalto de gelo entre as ilusões. Não bloqueava os golpes diretos; ela os redirecionava. Moveu o pescoço exatos três milímetros para deixar uma lança conceitual raspar seu ombro sem cortá-la; girou a lâmina de sua espada colossal em um arco perfeito, pescando uma foice pelo cabo e usando o próprio peso imensurável da arma inimiga para cravá-la inofensivamente no chão.

(O motor está girando...), Morgan pensou. Seus olhos gélidos rastreavam as trajetórias impossíveis em um estado de foco absoluto.

Uma fraca aura prateada começou a pulsar sob sua pele, iluminando seus músculos por baixo do traje. A energia cinética do bombardeio, a fricção violenta do ar sendo rasgado, a força repassada pelas lâminas defletidas... seu núcleo termodinâmico engolia tudo.

Lá em cima, sentada confortavelmente em sua espada voadora, Nazuna parou de balançar as pernas. Seus olhos azuis operavam na velocidade da luz, decifrando as leis do universo e a resposta física de Morgan como se estivesse lendo o código-fonte de um software.

(Hm... Passiva demais para a intenção assassina que ela exala), Nazuna analisou, estreitando os olhos curiosa. (A densidade do Éter dela está mudando. O ar ao redor do corpo dela não está só ficando mais frio, está ficando mais pesado. E a velocidade de conjuração daqueles espelhos inúteis aumentou 12% desde a primeira rajada...)

A mente de Nazuna conectou os pontos no milissegundo seguinte. (Ela não está gastando energia se defendendo... ela está devorando o impacto! Uma bateria cinética? Que bonitinho!)

O sorriso zombeteiro de Nazuna voltou com o dobro de força. Se a inimiga escalava o próprio poder com o atrito físico, ela só precisava reescrever as regras da física daquela arena ali mesmo.

— Você quer brincar de absorver? — Nazuna gritou, a voz ecoando acima do barulho do metal. — Vamos ver se o seu motorzinho aguenta processar isso!

Nazuna ficou de pé sobre sua espada voadora e abriu os braços como um maestro:

— Criação de Habilidade: Chuva de Fótons Infrangíveis!

Os portais astrais pararam de cuspir metal sólido abruptamente. Em vez disso, feixes de pura energia luminosa — brilhando de forma doentia como o núcleo de estrelas mortas — dispararam.

Sem massa. Sem atrito cinético. Ignorando a termodinâmica básica. Os fótons atravessaram as defesas do Gelo Ilusório como se os espelhos simplesmente não existissem, perfurando as ilusões e viajando em uma linha reta implacável direto para o coração da verdadeira Morgan.

Pela primeira vez na noite, os olhos de Morgan se arregalaram. (Ela acabou de inventar uma magia de energia pura no meio da luta só para burlar a absorção física das minhas defesas?! Interessante!)

Sem espaço físico ou matéria palpável para acumular a energia do ataque passivamente, Morgan agarrou o cabo de sua espada colossal com as duas mãos. As botas blindadas racharam o gelo sob seus pés enquanto ela flexionava os joelhos.

O bônus de velocidade que ela havia armazenado até aquele momento explodiu de seus músculos de uma só vez. O som ambiente desapareceu quando Morgan rompeu a barreira do som apenas com o giro insano de sua cintura. Ela cravou a espada no chão com uma violência impensável, erguendo um iceberg instantâneo — uma muralha brutal de gelo eterno de trezentos metros de altura por cinquenta de espessura.

A barreira ergueu-se no exato milissegundo em que os fótons colidiram.

A detonação luminosa não cortou o gelo; ela o obliterou. A colisão gerou uma cúpula de energia destrutiva que varreu o que restava da cratera. O ar foi sugado para o centro do impacto e depois vomitado em uma onda de choque cataclísmica.

As duas titãs foram arremessadas como bonecas de pano na tempestade.

Nazuna foi ejetada para trás, girando descontroladamente pelos ares enquanto ria histericamente, completamente embriagada pela adrenalina da quase morte. Morgan deslizou de costas em altíssima velocidade, cravando as botas e a espada no chão para rasgar o solo e frear o próprio corpo, sendo ejetada violentamente para fora dos limites da arena principal.

A poeira baixou a quilômetros dali. Elas haviam caído nas ruínas densas e enevoadas da antiga Floresta do Delírio.

O cenário era uma aberração geográfica. Ali, a gravidade parecia confusa, puxando a neblina em ângulos esquisitos. Árvores colossais, com troncos da largura de arranha-céus, retorciam-se como músculos necrosados em direção a um céu despedaçado. Uma névoa espessa, leitosa e tóxica cobria o chão pantanoso.

Morgan aterrissou agachada, perfeitamente equilibrada sobre um galho gigantesco a cem metros de altura. No microssegundo em que a sola de sua bota tocou a madeira onírica, o frio absoluto expandiu-se como um vírus agressivo. A árvore colossal inteira estalou, transformando-se de raiz a copa em uma estátua grotesca de gelo negro e translúcido.

A cinquenta metros de distância, Nazuna surgiu rasgando a névoa do delírio. Seu vestido azul esvoaçava loucamente enquanto a redoma invisível de seu campo infinito repelia o ar tóxico ao redor. Flutuando de cabeça para baixo com uma graça bizarra, ela conjurou dez clavas gravitacionais maciças. Com um soco displicente no ar, disparou todas como balas de canhão contra a posição de Morgan.

A árvore de gelo negro explodiu sob o impacto das clavas, chovendo bilhões de estilhaços afiados sobre a floresta como vidro estilhaçado.

Mas Morgan já não estava lá.

(Atrito Mágico: Carga Nível 3), o Rei Demônio calculou friamente no ar. Ela sentia a própria musculatura vibrar, quase a ponto de rasgar a pele, com a energia cinética brutal que havia acabado de absorver daquela explosão luminosa gigantesca.

A percepção cósmica de Nazuna apitou. Uma sombra massiva eclipsou a pouca luz acima de sua cabeça.

Morgan havia se impulsionado para o céu trincado. Sua velocidade de movimento agora era apenas um borrão prateado, desafiando a biologia de qualquer ser vivo. Girando no ar, o Rei Demônio desferiu um golpe descendente com a espada colossal, trazendo o peso literal de um iceberg na ponta da lâmina direto contra o crânio de Nazuna.

A garota do Infinito não recuou. Seus olhos brilharam com pura antecipação:

— Criação de Habilidade: Égide Refletora!

Um intrincado escudo de fractais dourados e matemáticos surgiu em seu antebraço no último centésimo de segundo. A espada montante de Morgan chocou-se contra a Égide.

Um estrondo semelhante ao bater de um sino monumental reverberou pela floresta, a onda sonora dissipando a névoa em um raio de quilômetros. O escudo fractal cumpriu seu papel e repeliu o fio de corte da espada... mas magia não apagava a Física do impacto bruto.

A inércia monstruosa do golpe de Morgan engoliu Nazuna por inteiro.

A garota do Infinito foi atirada para baixo como um asteroide azul. Ela quebrou galhos da grossura de pontes suspensas com as costas e atravessou os troncos de cinco árvores gigantescas antes de finalmente colidir e abrir uma cratera profunda no solo pantanoso da floresta.

Sem dar um único segundo para o inimigo respirar, Morgan rodopiou a espada no ar, os chifres negros e os olhos pratinados brilhando no meio da queda livre:

— Criação Glacial!

A umidade da densa névoa ao redor foi sugada em um redemoinho instantâneo e congelante. Duas massas colossais de gelo condensaram-se, tomando a forma perfeita e aterradora de Dragões Ancestrais.

Com rugidos que estilhaçavam a madeira ao redor, as bestas glaciais despencaram do céu, serpenteando de forma caótica entre os troncos em uma investida predatória direta para o fundo da cratera de Nazuna. Suas mandíbulas trituravam as árvores do Delírio pelo caminho, transformando o campo de batalha em um labirinto em queda livre de poeira e destruição congelada.

Lá no fundo da vala, enterrada na lama fria e nos destroços de madeira, Nazuna tossiu, espanando distraidamente a poeira e uma farpa do ombro. Ela ergueu o rosto, vendo o céu escurecer com os dois dragões glaciais descendo em espiral com as bocarras abertas, prontos para engoli-la inteira.

— Ai, ai... Você bate bem firme para uma pirralha! — Nazuna riu abertamente, os dentes à mostra.

A adrenalina pulsava em suas veias astrais como combustível premium. Quanto mais a luta a esmagava, mais sua mente se expandia. Ela não precisava de armas maiores; precisava de conceitos maiores.

Nazuna uniu as palmas das mãos em um aplauso seco que ecoou na vala:

— Criação de Habilidade: Fogo Conceitual de Ruptura!

Entre seus dedos sujos de lama, uma chama alienígena nasceu. Era de um azul-escuro profundo, fria ao toque e ignorava completamente as regras da termodinâmica. Nazuna abriu as mãos e, num sopro calmo, disparou o fogo na direção das feras gigantes.

Quando as chamas tocaram os focinhos dos dragões, o gelo eterno não derreteu. Em vez disso, a chama devorou a informação da magia. Ela rastreou a ligação invisível de Éter que Morgan usava para animar os construtos e simplesmente "cortou o fio" da marionete.

As feras colossais, outrora vivas e furiosas, tornaram-se subitamente milhares de toneladas de gelo morto e inerte no ar, desmoronando sem forma e esmagando o que restava da floresta em um terremoto ensurdecedor ao redor de Nazuna.

Do alto do coto de um tronco congelado recém-partido, Morgan assistiu aos seus dragões perfeitos virarem entulho inútil. Longe de se irritar, o Rei Demônio curvou os lábios. Um sorriso sádico e puramente primitivo rasgou suas feições perfeitas e gélidas.

O combate havia se tornado um ciclo de retroalimentação aterrador. Nazuna quebrava as regras do universo criando habilidades do nada; mas o caos contínuo, a fricção ininterrupta da destruição e o ar sendo deslocado por todo o ecossistema colapsando alimentavam diretamente o reator insaciável de Morgan.

O ar ao redor do Rei Demônio começou a distorcer visualmente, tremeluzindo sob o frio extremo. Blocos de gelo maciço do tamanho de carros blindados começaram a flutuar lentamente ao redor dela, erguidos da gravidade apenas pela pressão passiva de seu motor termodinâmico operando no limite vermelho. Seus olhos platinados agora brilhavam como duas poças de pura escuridão faminta.

(Atrito Mágico: Carga Nível 5), Morgan sussurrou em sua própria mente, o corpo inteiro vibrando com a contenção brutal do poder de um furacão categoria cinco.

— Você é um bichinho fascinante, pirralha! — Morgan rugiu, abandonando de vez o tom sussurrado.

A voz desceu como uma avalanche enquanto ela dobrava os joelhos e se atirava da árvore, transformando-se em um míssil negro disparado direto para o confronto corpo a corpo.

O ar cedeu, incapaz de suportar a massa crítica das duas entidades. A temida Floresta do Delírio começou a ser reduzida a pó gelado e cinzas conceituais apenas com o choque passivo da aproximação violenta de suas auras. Aquele "aquecimento" bizarro havia chegado ao fim; e a própria existência contínua do ecossistema de Morpheus seria o preço pago por elas continuarem aquela dança absurda.

Parte 10

O míssil negro colidiu contra a lama pantanosa do Delírio.

Não houve um estrondo imediato. A velocidade de Morgan era tamanha que o ar foi expelido da zona de impacto com tanta violência que gerou um vácuo absoluto de meio segundo, seguido pelo som agudo do espaço colapsando sobre si mesmo. A onda de choque cinza e prateada achatou a floresta em um raio de dois quilômetros, transformando árvores da largura de arranha-céus em palitos de dente triturados que choviam como farpas gigantes.

No epicentro da aniquilação, a trocação à distância morreu. O que se seguiu foi um pesadelo de combate corpo a corpo em uma velocidade que faria os olhos de um deus sangrarem.

Morgan não brandia sua espada colossal como um peso morto; ela a usava como um pêndulo. Girando a arma monumental com uma única mão, a inércia do iceberg contido na lâmina cortava o ar em arcos perfeitos. O Rei Demônio avançava com a brutalidade fria de um predador ápice. Ela desferiu uma estocada que rasgou o tecido dimensional; quando Nazuna esquivou deslizando para a direita, Morgan não recuou a espada — ela usou o peso da lâmina afundada no chão como eixo, girando o próprio corpo no ar para desferir um gancho de esquerda que congelou o oxigênio ao redor de seus nós dos dedos.

Nazuna não recuou um milímetro. Embriagada pela violência, a garota do Infinito sorria de orelha a orelha. Ela abriu as mãos nuas para interceptar o soco letal:

— Criação de Habilidade: Manoplas de Inércia Nula! — Nazuna sussurrou.

O espaço ao redor de seus antebraços distorceu-se em fractais geométricos. Quando o punho de gelo eterno de Morgan colidiu com as mãos abertas de Nazuna, o som foi abafado. O peso absurdo e a força destrutiva de Morgan foram engolidos no ponto de contato e redirecionados verticalmente. A energia dissipada foi jogada para o chão, afundando as duas combatentes dez metros terra abaixo, rachando a lama morta de Morpheus a cada nova troca de golpes em alta velocidade. Defesa, esquiva, contra-ataque. Nenhuma cedia.

(Atrito Mágico: Carga Nível 6), Morgan contou friamente em sua mente, sentindo o reator em seu peito ferver.

Aproveitando a proximidade extrema, Morgan soltou o cabo da espada por um milésimo de segundo. Ela agarrou o colarinho de Nazuna, puxou-a para quebrar sua postura, girou nos calcanhares e usou o torque insano de seu corpo para cravar uma joelhada massiva direto no estômago da garota.

A inércia nula não foi rápida o suficiente. Nazuna cuspiu uma lufada de ar misturada com saliva e foi ejetada para trás, deslizando de pé pela lama congelada e abrindo duas trincheiras com as botas.

Morgan avançou no mesmo instante, recuperando a espada em um giro fluido para não dar respiro. Seus olhos platinados, no entanto, não estavam apenas focados em matar; eles rastreavam, calculavam, dissecavam a biologia mágica da inimiga.

(O fluxo de Éter dela...) Morgan estreitou os olhos, parando uma cotovelada conceitual de Nazuna com a parte chata da lâmina. (Quando ela conjurou aquele escudo fractal lá em cima, o nível de energia dela despencou para 2%. Eu vi. Eu senti o cheiro do esgotamento biológico. Mas no milésimo de segundo seguinte... cravou em 100% de novo. E agora, criando essas manoplas, a reserva caiu e resetou instantaneamente mais uma vez.)

A lâmina de Morgan desceu como uma guilhotina, rachando a defesa invisível de Nazuna com uma chuva de faíscas azuis e prateadas.

(Ela não tem um poço sem fundo de mana), a mente do Rei Demônio concluiu na velocidade da luz. (O Éter dela se esgota, sim. Mas, a cada nova habilidade que ela inventa, a própria fricção de alterar a malha da realidade gera uma nova faísca conceitual. Ela reescreve a regra e a energia da reescrita a recarrega. Um reator de moto-contínuo perfeito. Uma guerra de desgaste não funciona contra o Infinito. Ela nunca vai ficar sem munição.)

Do outro lado das lâminas, Nazuna aparou um soco congelante cruzando os braços, os pés cravados no chão enquanto o asfalto sob elas implodia em pó. A garota azul-safira ergueu o rosto através da guarda, o sorriso transbordando uma admiração genuína e psicótica:

— Sabe, chifruda... você bate de verdade — Nazuna riu, os olhos brilhando enquanto o sangue escorria pelo canto da boca. — Eu reconheço. Se fosse um dos meus irmãos aqui no meu lugar... se fosse a Vida, ou até a Morte parados na sua frente, você com certeza teria uma chance real de matá-los. Eles estariam sangrando agora com esse seu nível de absurdo.

Aproveitando uma brecha milimétrica na postura de Morgan, Nazuna girou o pulso direito em um movimento circular de Aikido conceitual. Ela capturou a energia cinética do próximo soco de Morgan, inverteu o vetor e a devolveu com um impacto espalmado no peito do Rei Demônio. Morgan foi arremessada dezenas de metros para trás, rasgando o asfalto com as botas de armadura e fincando a espada no chão para frear a derrapagem.

— O grande problema para você, majestade... — Nazuna abriu os braços. A aura azul-escura do Infinito começou a vazar para a atmosfera. Não era apenas luz; era a falha da própria realidade. O céu rachou em feixes roxos. — É que você não está lutando contra a Morte. Você está de frente para o próprio Infinito. E o Infinito não pode ser superado por matemática ou força bruta.

A arrogância de Nazuna era palpável, densa o suficiente para esmagar a alma de mortais. O ecossistema de Morpheus começou a gritar em agonia. O chão estilhaçou-se violentamente, não por impactos físicos, mas pela simples presença dela. Ravinas quilométricas se abriram pela floresta do delírio, engolindo árvores inteiras de gelo negro para um abismo sem fundo. O hardware daquele universo não suportava mais o software daquela luta.

Morgan, a trinta metros de distância, não se abalou. Levantando-se lentamente, o Rei Demônio sacudiu a poeira do sobretudo. Em um gesto de desrespeito absoluto, ela enfiou a mão esquerda no bolso da calça, enquanto a direita descansava a espada colossal preguiçosamente sobre o próprio ombro.

Ela olhou para Nazuna com a condescendência gélida de um adulto observando uma criança mimada fazer birra no mercado:

— Você bate bem, pirralha, mas está entendendo alguma coisa fundamentalmente errada na mecânica do mundo — Morgan provocou, a voz grave cortando o rugido dos terremotos. O sarcasmo pingava como veneno de cada palavra. — Você fala demais sobre o quão inalcançável você é. Você joga a sua carteirada de 'Astreus' na mesa como se esse título de nobreza fosse me impressionar.

Morgan deu um passo à frente. O estalo de sua bota no chão soou como o gatilho do fim do mundo. A aura prateada que antes corria sob suas veias agora eclodiu, ofuscante e aterrorizante:

— Mas você esqueceu a hierarquia deste palco. Você é a anomalia que caiu no meu quintal. Você é a desafiante. E o Rei Demônio não tem a menor obrigação de provar a própria força para quem vem latir de baixo.

A aura das duas divindades explodiu simultaneamente. Uma espiral titânica de Éter negro-prateado colidiu contra o pilar azul-abissal do infinito. A pressão atmosférica destruiu a gravidade no epicentro, fazendo rochas do tamanho de prédios começarem a flutuar ao redor delas como asteroides em órbita.

Morgan flexionou levemente os joelhos, preparando-se para o bote letal. A lâmina em seu ombro zumbiu.

A trinta metros, Nazuna sentiu o ar repuxar de forma estranha. A garota do Infinito piscou. O sorriso zombeteiro vacilou por uma fração de segundo, substituído por uma testa franzida em pura e genuína confusão tática ao ler os vetores físicos emanando de Morgan:

— Uma pergunta, majestade... — Nazuna sussurrou, o instinto de sobrevivência furando a bolha do deboche. — Por que você continua ficando cada vez mais rápida e mais forte a cada vez que a gente se bate?

A quilômetros de distância daquele epicentro apocalíptico, a percepção do mundo mudou abruptamente. O som ensurdecedor da destruição tornou-se um trovão distante.

Longe das ravinas que se abriam e do asfalto que derretia, no alto do que sobrou do terraço de um arranha-céu seguro, a respiração humana era o único som imediato. Os quatro Coroados do Olimpo e os três civis estavam reunidos.

Danael tossia, limpando uma linha de sangue dos ouvidos com a manga rasgada do paletó, os pulmões queimando ao lado de Drake e Remi. O pirata estava sentado, as costas coladas em uma pilastra de concreto rachado, os olhos arregalados e fixos na tempestade de Éter azul e prata que rasgava as nuvens no horizonte de Morpheus.

Ragnar, Radamanthys, Melusine e Yorubel não estavam descansando. Haviam formado um cerco tático no terraço. A comunicação silenciosa entre os quatro evidenciava que não eram meros espectadores; um plano intrincado havia sido costurado naqueles breves e preciosos segundos de trégua forçada.

Mas, completamente afastado do grupo, escorado na beirada do prédio sem proteção alguma, estava Zero.

Com as mãos nos bolsos da calça social, o Caçador Mais Forte do Mundo observava as explosões dimensionais iluminarem o céu noturno. O vento cósmico e caótico bagunçava seus cabelos brancos, fazendo seu sobretudo bater violentamente.

Zero ergueu uma mão e ajeitou os óculos azuis. O brilho gélido das lentes ocultava a velocidade com que seu cérebro calculava a letalidade do que via à distância. Ele soltou um suspiro longo, exausto. Um som carregado de uma preguiça tão profunda e mundana que contrastava de forma cômica com o fim do mundo acontecendo logo ali:

— Eu achei que hoje poderia apenas assistir uma luta e comer pipoca... — Zero murmurou para si mesmo. Ele inclinou o pescoço de um lado para o outro. O som dos ossos estalando não soou humano; soou como o engatilhar pesado de uma arma de grosso calibre. — Que saco. Parece que eu vou ter que me envolver de novo.

Parte 11

A dança da destruição atingiu um platô de força esmagadora. A majestosa Floresta do Delírio já não existia; havia apenas uma cratera colossal e fumegante, pavimentada por lama tóxica e gelo negro estilhaçado.

Pairando no ar, com o vestido azul rasgado nas bordas e o peito arfando pesadamente, Nazuna parou de atacar às cegas.

Pela primeira vez desde que pisou em Morpheus, a garota do Infinito hesitou. Suas íris azul-safira oscilaram freneticamente, as pupilas dilatando-se com violência até se fraturarem em engrenagens geométricas brilhantes e bizarras.

Eram os Olhos Demoníacos do Infinito.

A visão cósmica de Nazuna descascou a realidade. Ela ignorou a carne, o sangue e a espada de Morgan, lendo diretamente o código-fonte do universo operando ao redor do Rei Demônio. (Ela parou de se mover ativamente...), Nazuna estreitou os olhos brilhantes, o sorriso presunçoso finalmente vacilando. (O núcleo termodinâmico dela... está vermelho-vivo. Ela não estava apenas absorvendo o impacto dos meus golpes para não se machucar. Ela acumulou uma quantidade colossal de buffs passivos de atrito, peso e aceleração com cada movimento defensivo. A Carga Cinética atingiu o limite crítico. Ela não está recuando; ela está engatilhando a execução!)

Longe dali, seguro no topo de um arranha-céu arruinado, Ragnar arregalou os olhos. O gigante suou frio, os pelos dos braços erguendo-se ao sentir a mudança brutal na pressão atmosférica. O ar simplesmente afinou, como se o oxigênio estivesse fugindo com medo:

— AGORA! — Ragnar urrou. A voz do veterano trovejou em um pânico genuíno que fez os outros Coroados estremecerem. — Ela não está brincando! A Morgan realmente planeja soltar aquilo no mundo mortal!

Zero, que até então assistia à carnificina escorado na beirada do prédio com um inabalável ar de tédio, finalmente tirou as mãos dos bolsos. Com um único e silencioso passo à frente, o espaço-tempo ao redor do Caçador começou a distorcer, curvando a luz como se ele próprio fosse um buraco negro supermassivo despertando para engolir a paisagem.

Lá embaixo, Morgan repousou a parte chata da sua gigantesca espada de gelo no ombro direito. A arrogância do Rei Demônio era densa o suficiente para esmagar diamantes, distorcendo visualmente o ar ao seu redor pela pura pressão de sua aura. Ela olhou para Nazuna com um desdém ancestral, lendo com perfeição milimétrica o ego frágil da falsa divindade.

— Sabe, pirralha... eu estava aqui pensando — Morgan provocou. A voz grave e pingando sadismo ecoou pelas ruínas, lenta e calculada. — Você adora encher a boca pra falar que é inalcançável. Que é a porra de um Astreus. O suposto Infinito intocável. Mas, mesmo com todo esse seu discurso grandioso... eu aposto a minha coroa que você não teria a audácia de receber o meu próximo ataque de peito aberto.

Morgan abriu os braços, um sorriso cruel rasgando o rosto impecável:

— Você sabe que morreria. A sua própria biologia barata tá gritando isso agora. Então... eu vou ser boazinha. Eu deixo você fugir. Vai ser muito mais divertido apostar se você é capaz de correr rápido o suficiente antes da minha lâmina te alcançar!

Na borda do arranha-céu, Radamanthys trincou os dentes. (Sério?! Uma provocação barata de colégio?!)

Mas Morgan era uma predadora absoluta, e sabia exatamente onde as presas sangravam. A máscara de deboche de Nazuna trincou. As veias azuis saltaram em sua testa, os Olhos Demoníacos girando e brilhando em fúria cega. O ego de uma entidade que se enxergava como o topo inquestionável da cadeia alimentar cósmica simplesmente não permitia o recuo.

— Como é que é?! Tá deixando os meus elogios subiram à sua cabeça, chifruda?! — Nazuna berrou. A aura azul explodiu em pura birra infantil misturada com poder bruto e assassino. — Pode mandar o seu melhor! Eu não vou recuar um único milímetro! Eu vou engolir o seu ataquezinho e cuspir na sua cara!

(Ela caiu!), Melusine arregalou os olhos aristocráticos, chocada com a eficácia grotesca da armadilha psicológica.

No exato milésimo de segundo em que Zero pisou no ar para entrar na zona de conflito, os quatro Juízes do Olimpo agiram em uníssono instintivo.

Eles não atacaram. Em vez disso, cravaram as mãos violentamente no asfalto derretido do prédio, levantando uma barreira conceitual titânica. Não era uma jaula para prender as combatentes; era um escudo de contenção cego e desesperado para tentar impedir que o ataque iminente de Morgan partisse o planeta Morpheus e a dimensão inteira ao meio.

Lá embaixo, Nazuna fincou os pés descalços no chão de lama e gelo. A adrenalina urrava em seus ouvidos. Ela forçou a mente a velocidades da luz para tentar criar a defesa matemática perfeita contra o que estava por vir.

Mas a matemática cósmica apitou em vermelho em sua cabeça. (Droga!), Nazuna percebeu, uma gota gélida de suor escorrendo pela têmpora. (Para criar um conceito absoluto de anulação contra um ataque de nível de aniquilação, eu tenho um delay mental de exatos três minutos de concentração pura! Ela não vai me dar nem três segundos…)

Morgan sorriu. O núcleo termodinâmico em seu peito atingiu a massa crítica:

— Corte da Morte Entrópica.

O Rei Demônio brandiu a gigantesca espada de gelo em um único, letal e perfeito arco horizontal.

Não houve explosão sonora. O mundo simplesmente ficou mudo.

A lâmina montante não cortou; ela atingiu o estado impossível de Condensado de Bose-Einstein, ignorando completamente o conceito de durabilidade física, blindagem ou resistência mágica. No instante em que a lâmina tocou o ar, ela "desligou" a Força Nuclear Forte. A matéria não foi fatiada, foi apagada do servidor do universo.

O ar, a névoa tóxica, as árvores petrificadas e a própria redoma de energia infinita de Nazuna desfizeram-se em uma poeira quântica letárgica — um pó subatômico brilhante que flutuava inerte no vazio criado. Os átomos perderam a capacidade matemática de se manterem unidos. O arco da espada deixou um rastro visual negro de estase absoluta no espaço; um vácuo limpo onde o próprio tecido dimensional congelou e morreu.

Mas a Física daquele universo sempre cobrava o seu preço. A onda massiva de deslocamento que se seguiu para preencher aquele vácuo repentino foi cataclísmica.

O som retornou como o rugido de cem furacões. A pressão atmosférica empurrada pela aniquilação foi tão absurda que fissurou instantaneamente a barreira dourada dos Juízes. No topo do arranha-céu, a ventania cósmica varreu o teto. Danael e Remi foram arremessados pelos ares como folhas de jornal em uma tempestade.

— SE SEGURA! — Drake urrou com a força dos pulmões.

O pirata astral enfiou a lâmina de sua espada pesada até o cabo no concreto reforçado do telhado, ancorando-se com a mão esquerda. Com uma força bestial impulsionada pelo desespero, ele agarrou o tornozelo de Danael com a mão direita, cravou os dentes na gola da jaqueta de Remi de forma animalesca e travou o maxilar. Os músculos dos seus braços e pescoço estalaram, quase rasgando a pele, enquanto os corpos dos três humanos flutuavam horizontalmente sobre o abismo, hasteados como bandeiras de carne sob o furacão entrópico.

No fundo do que restou da floresta, a névoa estelar brilhante da destruição finalmente baixou.

Morgan ofegava levemente, o peito subindo e descendo. A inércia colossal exigida pelo golpe havia esgotado a refrigeração natural do seu motor interno. A espada intransponível em suas mãos começou a derreter, pingando água no chão queimado.

À frente dela, o cenário era profano.

O corpo intocável de Nazuna estava despedaçado. O braço esquerdo, o ombro perfeito e toda a metade esquerda de seu torso simplesmente não existiam mais, convertidos em pó estelar varrido pelo vento. A garota do Infinito havia conhecido a morte absoluta.

Contudo, desafiando a lógica biológica e escarnecendo da própria sanidade, os restos mortais de Nazuna começaram a se debater. O sangue não escorreu para a terra; ele desafiou a gravidade e subiu, retornando às veias inexistentes. Músculos, ossos brancos e tecidos astrais teciam-se agressivamente a partir do nada, como linhas de costura costurando o vácuo.

(Essa foi por muito pouco...), Nazuna pensou. Uma risada histérica, úmida e engasgada de sangue escapou de seus lábios mutilados enquanto a carne se reconstruía furiosamente. — Que azar o seu… cof… Ainda bem que, antes de descer pro parquinho, eu criei o conceito de "ancoragem de alma". Enquanto existir um único maldito átomo meu operando neste universo... eu regenero e volto!

Morgan assistiu ao milagre da ressurreição impossível em silêncio. Mas, em vez de frustração cega, o sorriso sádico do Rei Demônio apenas se alargou, mostrando todos os dentes afiados.

— Perfeito! — Morgan gargalhou, a voz rouca, os olhos platinados brilhando com a promessa de um massacre sádico e prolongado. — Tá ótimo pra mim! Você acabou de comprovar que não é imortal, apenas assustadoramente difícil de matar! Tudo o que eu tenho que fazer... é te desintegrar continuamente até não sobrar nem a porra das suas cinzas!

Foi então que o "Custo da Fissão" foi finalmente cobrado.

O ataque de aniquilação quântica havia gerado uma liberação termodinâmica insana no núcleo de Morgan. A refrigeração falhou por completo. A Transição aconteceu.

A água e o gelo que restavam ao redor de Morgan não derreteram; eles evaporaram instantaneamente em uma explosão de vapor superaquecido que cegava. O Rei Demônio abandonou de vez a postura fria e calculista do inverno, irrompendo da névoa como um avatar letal de agressividade pura. O poder acumulado no núcleo entrou em combustão espontânea.

Ela havia entrado na Fase 2: O Fogo do Rei Demônio.

O longo casaco escuro de Morgan tremulou violentamente para cima. Suas mãos, pernas e a própria aura gélida foram engolidas pelas Chamas Fátuas — um fogo alienígena de coloração negra e púrpura, denso e grudento como piche. Aquele fogo não era projetado apenas para derreter armaduras físicas; ele foi criado para consumir ativamente a Mana, o Éter e a Estamina de qualquer coisa viva que ousasse tocar.

A Sobrecarga Cinética encheu as pernas do Rei Demônio com uma mobilidade absurda. Ela não ia mais esperar passivamente; ela ia caçar a garota do Infinito como um cão raivoso, até que a Exaustão Térmica cobrasse seu limite biológico.

Morgan dobrou os joelhos, as chamas púrpuras derretendo o asfalto sob suas botas, engatilhando as pernas para o bote letal. Do outro lado, Nazuna ergueu as mãos recém-regeneradas e pálidas, o sorriso sanguinário de volta ao rosto manchado, a mana azul fervendo ao redor de seu corpo remendado.

Mas, no exato milésimo de segundo antes de as duas forças colidirem, o ar entre as divindades simplesmente deixou de existir.

Das sombras retorcidas e derretidas no chão, ignorando completamente as pressões esmagadoras da aura de Fogo e do Infinito repulsivo, uma figura impecável emergiu no mais absoluto silêncio.

Zero parou cirurgicamente no ponto cego de colisão entre as duas potências. Ele ajeitou a armação dos óculos azuis com a ponta do dedo médio, o tecido de seu paletó balançando suavemente contra o vento cósmico. A expressão em seu rosto, por trás das lentes, era a de um abismo calmo e impenetrável.

As duas deusas da destruição arregalaram os olhos. A surpresa impossível quebrou o foco da carnificina, ambas incapazes de frear o próprio ímpeto assassino a tempo de desviar do humano.

— Black Box: Variável Dimensional. — Zero pronunciou.

A voz não era um grito desesperado; era a imposição de uma lei inabalável.

O espaço ao redor da tríade implodiu. As regras do universo físico, os conceitos criados por Nazuna e a termodinâmica de Morgan foram todos temporariamente e brutalmente suspensos. Um cubo gigantesco e matematicamente perfeito, feito de pura escuridão estática e espaço irrefutável, materializou-se no ar. Ele engoliu Zero, o corpo remendado de Nazuna e as chamas púrpuras de Morgan em uma fração microscópica de segundo.

Lá no alto do prédio arruinado, Ragnar viu as arestas retas da caixa negra se formarem e deu o sinal verde, a voz esganiçada pela urgência e pelo suor:

— FECHEM A BARREIRA! AGORA!

Radamanthys, Yorubel, Melusine e o próprio Ragnar injetaram tudo o que lhes restava de Éter divino no chão. Sangue dourado escorria de seus narizes e olhos pelo esforço excruciante de forçar a realidade.

A barreira conceitual dos Juízes desabou do céu como um domo maciço de ouro sólido, cobrindo hermeticamente o cubo de escuridão de Zero. Eles comprimiram a Black Box com a força de quatro Matadores de Deuses, trancando a pressão apocalíptica da tríade em seu interior perfeito.

E então, com o estrondo doentio do espaço-tempo sendo brutalmente arrancado do lugar, o Tribunal teleportou a caixa preta inteira... banindo-a diretamente para as profundezas frias, silenciosas e inquebráveis das celas de contenção definitivas em Citrinitas.

O vento parou de soprar.

A Floresta do Delírio ficou de repente vazia. Onde antes duas divindades travavam a guerra do fim do mundo, restaram apenas cinzas flutuando letárgicas, crateras incandescentes e um silêncio fantasmagórico que pesava tanto quanto a batalha.

Parte 12

A caixa preta de Zero e a redoma dourada dos Juízes desapareceram em um click mudo, deixando para trás um vácuo silencioso que foi rapidamente preenchido pelo som líquido do asfalto derretido esfriando.

A tempestade apocalíptica havia sido teletransportada com sucesso para Citrinitas, mas a ravina dilacerada onde antes ficava a majestosa Floresta do Delírio continuava sendo um ambiente letal. O Éter residual deixado pela colisão entre Morgan e Nazuna era tão denso, pesado e radioativo que o oxigênio parecia ter virado chumbo nos pulmões mortais.

Drake, Danael e Remi desabaram no chão trincado. Os três arquejavam com desespero, os peitos queimando em agonia enquanto tentavam forçar seus organismos a processar uma atmosfera envenenada por divindades. Eles mal conseguiam sustentar o próprio peso sobre os joelhos.

O som de botas pesadas esmagando o cascalho vítreo anunciou a aproximação.

Ragnar e os outros três Coroados caminharam até os humanos caídos, ilesos pela radiação. Yorubel, sacudindo a capa escura para afastar as cinzas, parou na frente do trio. Ela ergueu as mãos e começou a murmurar com a sua teatralidade característica, o olho exposto brilhando no escuro:

— Que as correntes da escuridão recuem perante o véu do submundo! — Yorubel recitou em alto e bom som. Ela cobriu o olho normal com uma mão enquanto uma redoma de energia pálida se expandia, envolvendo Drake, Danael e Remi. — Fronteira do Éden Caído!

A barreira isolou imediatamente o Éter radioativo de Morpheus. Os três humanos sentiram o ar clarear no mesmo instante. A Autoridade de Yorubel não era focada em magia médica, mas o interior purificado do campo permitiu que a biologia deles reagisse: os tímpanos rompidos pararam de sangrar e a pressão interna cedeu, trazendo um alívio espasmódico e imediato.

Radamanthys cruzou os braços maciços, ignorando completamente os humanos no chão:

— O que a gente faz agora? — O Juiz olhou para o céu despedaçado e letárgico. — Não temos como saber por quanto tempo aquele Caçador arrogante vai conseguir manter aquelas duas aberrações dentro da caixa preta.

Melusine ajeitou os punhos de sua blusa aristocrática, sacudindo a poeira invisível com uma expressão gélida:

— Nós devemos retornar imediatamente. Se o selo dele quebrar em Citrinitas, o Tribunal inteiro estará em risco. Precisamos garantir a contenção no andar de cima.

Yorubel, ainda sustentando a barreira com uma das mãos, apontou dramaticamente para a colossal Árvore Dourada que iluminava as ruínas ao longe com seu brilho doentio:

— O pilar da falsa Yggdrasil sangra a realidade! — Yorubel declarou, a voz ecoando. — As dimensões deste reino de mentira ficaram ainda mais frágeis com o choque das deusas! Essa árvore parasita está se alimentando do Éter denso que vazamos no ambiente para se manter estável. Se nós, as âncoras celestes, formos embora... ela vai morrer de fome e desaparecer no abismo.

Ragnar assentiu devagar, filtrando a tática militar por trás do teatro excessivo da garota:

— Ela tem razão. Se o nosso Éter sumir daqui de repente, a árvore colapsa por inanição. Mas precisamos garantir que a queda dela não destrua as barreiras dimensionais que já estão por um fio.

Radamanthys estalou a língua em desgosto:

— A gente também precisa investigar o que causou tudo isso pra começo de conversa. Quem plantou aquela merda brilhante ali? E quem destruiu a praça antes das duas chegarem?

— Sim, Radamanthys, mas a prioridade número um é a evacuação e a contenção de danos — Ragnar interveio, assumindo o controle da situação com a voz inabalável de um general veterano. — Vocês três voltem para Citrinitas na frente. Se o feitiço do Viajante falhar, a Autoridade de vocês será muito mais útil em uma batalha de contenção direta lá em cima do que a minha. Eu vou tirar esses três humanos do campo de batalha, mando eles de volta para casa e, depois, resgato o idiota do Thor que ainda tá apagado ali atrás.

Os Juízes concordaram silenciosamente com a lógica tática. Melusine e Radamanthys começaram a canalizar a Autoridade em uníssono para rasgar o portão de retorno.

Antes de atravessar o véu dimensional dourado, Yorubel parou. Ela olhou por cima do ombro. O olho brilhante e místico da Coroada varreu as sombras densas dos escombros derretidos, estreitando-se:

— Cuidado com os sussurros do abismo, Guardião... — Yorubel murmurou para Ragnar.

Desta vez, não houve teatro em sua voz. Era um aviso oco e assustadoramente sombrio.

— Os olhos que habitam a escuridão não piscam. E eles nunca estão sozinhos.

Com isso, os três Coroados desapareceram em um feixe de luz que subiu aos céus.

A barreira de cura de Yorubel desfez-se em partículas cintilantes que choveram sobre os humanos. O ar voltou a pesar nos ombros deles, mas o Éter tóxico já estava se dissipando rapidamente, sendo engolido e sugado pelas raízes colossais da Árvore Dourada ao longe.

Drake soltou um longo suspiro, estalando o pescoço tensionado enquanto se levantava e oferecia a mão para ajudar Remi a ficar de pé:

— Sério... por que esse tipo de apocalipse bizarro sempre acontece em volta da gente? — Remi reclamou, limpando o sangue seco abaixo do nariz, a exaustão transbordando em cada palavra. Ela olhou feio para o pirata. — Dampier, você foi amaldiçoado no berço? Alguém jogou praga no seu navio?

Drake soltou uma risada seca e sem muito humor, espanando a fuligem do sobretudo de couro:

— Não fala bobagem, Remi. E não se sinta tão especial assim. Esse tipo de coisa, por mais letal que seja, não é anormal de ocorrer quando se é um Shaper. A gente distorce as coisas naturalmente para nós mesmos.

Danael, ajeitando a gravata que agora era apenas um trapo arruinado, resmungou com os olhos pesados de puro cansaço:

— Por mais que eu odeie concordar com esse idiota, a teoria faz sentido. É como se nós, Shapers, fôssemos ímãs malditos de confusão.

Ragnar, que observava a interação dos mundanos com a calma pétrea de uma estátua, interveio:

— É o preço pelo poder cósmico que vocês carregam — o gigante decretou, cortando a conversa.

Ele ergueu a mão imensa, cravando os dedos grossos no ar vazio e rasgando o espaço como se fosse uma folha de papel. Um portal circular azulado se abriu. De dentro dele, vazou o cheiro familiar de chuva no asfalto e as luzes neon distantes de Hortus Parvus.

— Essa é a passagem segura para casa. Vão.

— Finalmente — Danael murmurou, arrastando os sapatos em direção ao portal ao lado de Remi. — Eu preciso de um café extraforte que não tenha gosto de radiação e morte.

A imediata atravessou a fenda primeiro, desaparecendo na luz. Danael deu o passo seguinte, o sapato tocando a borda do portal.

Mas, no exato milésimo de segundo em que a luz limpa da Terra tocou o rosto sujo do detetive, a engrenagem fria em seu cérebro girou e travou no lugar. As pistas soltas finalmente se encaixaram com um estalo violento.

A dedução de que outra pessoa havia fatiado a praça geométrica. O aviso final e enigmático de Yorubel sobre "olhos que não piscam".

Eles não haviam ficado sozinhos.

Danael girou o rosto para trás, o pânico absoluto distorcendo suas feições em uma máscara de terror:

— RAGNAR! NÃO BAIXA A G—!

Foi tarde demais.

As sombras dos escombros não se moveram; elas simplesmente atacaram em silêncio absoluto. Algo imperceptível, veloz o suficiente para burlar o próprio instinto divino e a percepção de Ragnar, surgiu diretamente nas costas largas do gigante.

Drake, cujo corpo estava moldado por décadas de assassinatos nos mares astrais, reagiu antes mesmo que seu cérebro processasse a imagem do medo. O pirata atirou-se para frente como um cão raivoso. Ele agarrou o braço de Ragnar com as duas mãos e jogou todo o peso do próprio corpo para trás, puxando o guerreiro colossal do Olimpo com uma força irracional e desesperada.

O portal dimensional atrás deles colapsou com um chiado agudo, fechando-se instantaneamente e trancando Remi e Danael do outro lado, perfeitamente salvos na Terra.

Drake rolou feio pelo asfalto derretido, puxando Ragnar junto com ele em um emaranhado desajeitado:

— Ragnar! Você tá b—?!

A pergunta de Drake morreu na garganta, sufocada pelo que viu.

Ragnar caiu de joelhos no asfalto com um baque surdo. O guerreiro inabalável, que minutos atrás encarava o fim do mundo e as fúrias de Morgan sem piscar, estava completamente paralisado. Os olhos do Juiz estavam arregalados, vítreos e congelados. As veias saltavam de seu pescoço grosso como cordas esticadas ao limite. Ele tentava rosnar, mas não conseguia mover um único músculo.

Drake engoliu em seco, o coração martelando contra as costelas. Ele olhou para as costas largas do Coroado.

Cravada profundamente na base da espinha dorsal de Ragnar, penetrando a pele impenetrável, os ossos e a própria Autoridade divina que o protegia, havia uma chave prateada, intrinsecamente ornamentada.

O pirata astral ergueu os olhos lentamente, rastreando o ponto exato da sombra de onde o ataque havia surgido.

Parado no asfalto em brasas, banhado pela luz decadente e doentia da Árvore Dourada, estava Lysander.

O Rei dos Sonhos finalmente se revelou, saindo do manto de escuridão. Mas permanecer escondido naquele quarteirão durante o choque de aniquilação entre Morgan e Nazuna havia cobrado um preço altíssimo até mesmo de sua biologia bizarra.

As roupas elegantes de Lysander estavam rasgadas em farrapos carbonizados. Seu corpo estava coberto de queimaduras por congelamento e cortes profundos que vazavam sangue escuro. Mas o mais grotesco não eram as feridas da batalha; era o seu braço direito.

O braço que ele havia usado para empalar Ragnar com a chave prateada estava morrendo. O uso daquele equipamento profano para perfurar um Coroado havia começado a cobrar seu preço imediato: a pele do braço apodrecia a olhos vistos, escurecendo e brilhando com uma corrupção necrosada que subia rapidamente em direção ao seu ombro.

Sem demonstrar um único traço de dor no rosto perfeitamente calmo, Lysander ergueu a mão esquerda. Com um movimento fluido de seus fios invisíveis, ele simplesmente decepou o próprio braço direito, cortando a carne e o osso antes que a corrupção alcançasse seu peito.

O braço amputado caiu no chão com um baque úmido e asqueroso, desfazendo-se imediatamente em cinzas cinzentas e pus.

Lysander ignorou a poça de sangue negro que agora se formava em abundância sob suas botas. Com o coto do ombro sangrando livremente, ele ergueu os olhos escuros e insondáveis, fixando-os no Coroado paralisado no chão e no pirata aterrorizado ao seu lado.

O sorriso cortês, implacável e assustadoramente vazio voltou a desenhar-se em seu rosto pálido.

— E assim... — Lysander murmurou. A voz aveludada flutuou pela cratera morta, carregando o peso absoluto de um tabuleiro cósmico onde ele era, e sempre foi, o único jogador movendo as peças. — As engrenagens do destino continuam em movimento.

Parte 13

O asfalto derretido sibilava, cuspindo bolhas de calor ao redor das botas de couro de Lysander. O Rei dos Pesadelos não demonstrou um único traço de dor ou choque ao ver o próprio braço corrompido esfarelar-se em cinzas negras no chão.

Drake Dampier engoliu em seco. O pirata astral estava com os joelhos esfolados contra a rocha, as duas mãos ainda agarradas histericamente ao tecido do casaco de Ragnar. O Juiz do Olimpo continuava caído e paralisado, como uma estátua grotesca de carne. A chave prateada cravada cirurgicamente em sua espinha dorsal zumbia, travando o fluxo de sua Autoridade Divina e drenando sua força vital.

O instinto de sobrevivência de Drake gritava, arranhando as paredes de sua mente. Ele ergueu o rosto suado, a mão livre deslizando milimetricamente para o cabo de madeira da sua pistola de pederneira no coldre:

— Quem diabos é você? — Drake exigiu saber, a voz saindo como lixa pela garganta entupida de fumaça. — E por que fez isso com ele?

Lysander sequer desviou os olhos escuros para olhar a arma tremula do pirata. O olhar andrógino, vazio e impecável do deus desceu sobre Drake com a mesma importância burocrática que se dá a um inseto pisado na calçada:

— Não faria o menor sentido eu revelar os meus motivos a você — Lysander respondeu, a voz aveludada e friamente educada. — Você é apenas um simples pirata humano. A sua existência, o seu nome, a sua arma... nada disso faz a menor diferença no palco desta noite.

O ar ao redor deles estalou de repente. O cheiro de sangue negro foi violentamente atropelado pelo odor metálico de ozônio queimado.

— E PARA MIM, SEU DESGRAÇADO?! VAI DIZER A MESMA MERDA PRA MIM?!

Passos pesados e enfurecidos esmagaram o concreto quebrado, estilhaçando pedras. O garoto loiro que havia sido humilhado e nocauteado por Nazuna — Thor, o Deus do Trovão — emergiu como um meteoro da fumaça espessa. As roupas dele estavam rasgadas e chamuscadas, mas os olhos faiscavam com uma fúria psicótica e incontrolável. Ele cerrou os punhos, os raios dourados serpenteando como chicotes pelos braços enquanto marchava a passos duros na direção de Lysander.

(É a minha chance), Drake pensou, os músculos das pernas tensionando como molas. (Se esse moleque elétrico for pra cima desse monstro engravatado, eu iço o Ragnar e sumo daqui!)

Mas, antes que Drake pudesse mover um único músculo para executar a fuga cega, a temperatura da arena caiu de uma forma antinatural.

Não era o frio termodinâmico e violento de Morgan; era o calafrio silencioso e profundo do abismo.

Passos suaves ecoaram das sombras das ruínas. O click-clack delicado de saltos finos tocando as cinzas.

Drake tentou virar o pescoço para ver quem se aproximava, mas a biologia do pirata travou em um curto-circuito absoluto. O pânico primitivo subiu por sua garganta e travou sua mandíbula. Não era um feitiço de paralisia como o que prendia Ragnar; era o mais puro e destilado terror biológico. A aura da recém-chegada era tão antiga, esmagadora e incompreensível que o sistema nervoso de Drake simplesmente se recusou a permitir que ele olhasse para ela, preservando o restinho de sua sanidade.

— Mantenha a paciência, Thor — uma voz feminina flutuou pela escuridão. Era um timbre aveludado, sedutor, mas carregado de uma autoridade tão pesada que distorcia a gravidade ao redor de suas palavras.

Thor estancou no lugar. O deus do trovão trincou os dentes, a veia de fúria latejando no pescoço. Estava visivelmente humilhado por estar sendo contido como um cão na coleira, mas, ainda assim, não ousou levantar a voz ou os olhos para a sombra.

— Caso esse garoto humano realmente consiga alcançar o que deseja... — a voz misteriosa continuou, caminhando lentamente fora do campo de visão periférica de Drake. — Eu aposto a minha existência que ele se tornará um oponente muito, muito mais divertido para você do que aquele Avatar do Infinito arrogante. Diga-me, cãozinho... você não gostaria de comparar a sua força bruta com alguém que tenta, de fato, devorar os céus?

A provocação deslizou perfeitamente e encontrou o ponto cego do ego bélico de Thor. O deus estalou a língua no céu da boca e, a contragosto absoluto, cruzou os braços sujos de fuligem. A eletricidade recuou, recolhendo-se sob sua pele:

— Tsc... É bom que esse merda não seja uma decepção.

Lysander ignorou a birra contida do garoto loiro. Fios finíssimos, brilhando em um tom de verde-cirúrgico, começaram a brotar do coto ensanguentado de seu ombro decepado.

Como vermes de luz agindo de forma autônoma, as linhas de Éter começaram a tecer no ar. Costuravam artérias, davam nós de pura energia espacial e reconstruíam ossos brancos, tendões musculares e pele pálida, moldando um novo braço a partir da pura vontade e do domínio profano do Rei dos Sonhos.

A figura oculta nas sombras soltou uma risada baixa e vibrante:

— Está tudo bem por aí, Majestade? Parece que você perdeu um pedaço importante da sua realeza.

Lysander flexionou os novos dedos pálidos para testar as terminações nervosas. Satisfeito, ele usou a mão recém-criada para ajustar o punho da camisa amarrotada, o olhar frio voltado para a escuridão onde a mulher habitava:

— Este foi o preço estipulado por usar a arma de Irene — Lysander murmurou, o tom clínico. — Eu já esperava que o recuo da corrupção me cobrasse um membro. O que eu não esperava... era a sua aparição furtiva. A sua presença não estava escrita no meu roteiro.

— E não é de se estranhar, querido — a voz zombou com uma doçura letal. — Seja lá quem for o tolo que esteja escrevendo este seu roteiro... ele não tem olhos capazes de me enxergar. Mas eu confesso que fiquei entediada. Queria ver o que aconteceria neste seu teatrinho de fim de mundo.

A presença invisível deu um passo indolente na direção de Ragnar:

— Então, este era o seu grande e mirabolante plano? — ela perguntou, estudando o gigante paralisado no chão. — Deixar Ragnar — ou qualquer um dos Coroados que fosse tolo o suficiente para bancar o herói e ficar para trás — preso aqui como uma simples bateria humana? Trancá-lo com essa chave só para que a Autoridade Divina dele continue vazando, alimentando as raízes da Árvore Dourada por gotejamento, até que os demais consigam sair do Livro?

— Exatamente — Lysander confirmou, o sorriso calculista e sombrio de volta aos lábios. — A Árvore precisa de Éter divino massivo para não colapsar antes do clímax. Embora... — Ele olhou de soslaio para Drake Dampier, que ainda suava frio sem conseguir piscar. — O pirata, de fato, não estivesse nos planos originais. Acredito que algumas peças do tabuleiro estejam levemente fora do lugar por causa da intromissão maldita desses mundanos.

A voz feminina soltou uma gargalhada genuína, o som cristalino ecoando pelas ruínas apagadas e causando calafrios na espinha de Drake:

— Vai saber. O caos é o melhor tempero, não acha?

O tempo hesitou. As sombras do passado se alongaram, e a memória cedeu.

(O Relógio retrocede e avança, esmagando o passado e colidindo violentamente com o Presente.)

A fumaça da cratera de Morpheus desfez-se como ilusão. O eco da voz da mulher letal desapareceu no vácuo, assim como as ruínas da floresta de gelo e lama. A narrativa finalmente fechou o seu ciclo invisível de exposição, alcançando em alta velocidade o exato microssegundo em que havia sido interromida.

Voltamos ao agora. Aos céus estilhaçados acima da praça central de Hortus Parvus.

O Rei dos Pesadelos estava no ar. Ele subia vertiginosamente, puxado implacavelmente por seus próprios fios invisíveis atados aos galhos superiores da colossal Árvore Dourada. O seu braço direito estava lá, perfeito e pálido, como se nunca houvesse sido amputado.

Ele havia deixado para trás as explicações e o embate brutal no chão.

Lá embaixo, distante e minúsculo, a guerra acontecia: suspenso em plataformas de energia Safira invisíveis, Dante, o Caçador, colidia os punhos nus e faiscantes de escarlate contra os raios dourados e a fúria psicótica de Thor. O som estrondoso de trovões e plasma detonando o ar servia como a trilha sonora perfeita e caótica para a ascensão silenciosa do Rei.

O núcleo exposto da Árvore Dourada pulsava e brilhava majestosamente a poucos metros de distância. E lá, sob as raízes cósmicas que se retorciam para formar um altar sagrado, aguardavam Kiara e Irene.

Lysander aterrissou suavemente no centro do altar de luz. O vento quente da altitude varreu a poeira cósmica de seus sapatos perfeitamente polidos.

A apenas alguns passos de distância, esquecida e caída no chão de madeira estelar, repousava a capa de couro rústica e gasta do Livro do Fim.

(Muitas coisas saíram do roteiro estabelecido nesta noite), Lysander pensou. Ele caminhou a passos lentos, ritmados e inabaláveis na direção de Kiara e do prêmio final da existência. Seus olhos escuros refletiam o brilho absoluto do artefato capaz de reescrever o próprio universo. (Mas isso não importa mais. No instante em que os meus dedos tocarem a capa rústica deste livro... todos esses detalhes mundanos, as anomalias e as lutas lá embaixo serão apenas ruído irrelevante.)

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