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The Fall of the Stars: Capítulo 9 - O Fim do Frio

Foto do escritor: AngelDark
AngelDark
21 de set.
65 min de leitura

Volume 5 : Trem Escarlate


Parte 1

No vazio primordial, não havia nada além do breu. Ainda assim, uma fresta de claridade insistia em atravessá-lo — suspensa na amplidão como uma gema intocável, pulsando com uma vivacidade que o vácuo não conseguia devorar. Para a criatura que habitava aquele silêncio estéril, a luz nunca fora motivo de espanto ou recuo. Era o avesso do medo: o calor que faltava à sua substância, o único ponto de atrito em um horizonte sem contorno, algo fascinante e sagrado.

Pelo feixe distante, desenhava-se o espetáculo da matéria. Um mundo onde corpos respiravam, cruzavam caminhos e deixavam marcas na terra. No abismo, não restava nada. Não havia passos, vozes ou o menor vestígio de cor; por isso, qualquer fagulha que vazasse daquela fenda feria os olhos com o impacto de uma revelação.

E quem melhor parecia arder sob aquele clarão eram os humanos. Criaturas breves, miúdas, quase risíveis em sua fragilidade. Não tinham a complacência das raças longevas, que podiam empurrar o destino pelas eras sem pressa de chegar a lugar algum. Condenados a um punhado de invernos sobre o chão, os mortais viviam à queima-roupa: amavam com desespero, sangravam com violência e queimavam suas vidas em um piscar de olhos, obrigados a sorver a alegria mais pura ou a dor mais dilacerante antes que o fôlego se extinguisse.

Hipnotizada por aquele calor e arrastada pelo anseio de pertencer à cena, a escuridão reuniu as próprias margens e tomou corpo. Copiou as formas efêmeras que via através da fenda: esculpiu braços, pernas, fios soltos e os contornos delicados de um rosto a partir da sombra bruta.

Finalmente parecia com eles. Finalmente possuía carne para sentir.

A colheita, porém, foi apenas o desabrochar da dor.

De nada valia ter pele se o único toque disponível era a mordida gélida do nada. De nada adiantava carregar um peito capaz de doer se não havia solo onde pousar as solas, nem um mundo palpável onde respirar. A garota compreendeu a armadilha tarde demais: ao dar contorno ao próprio corpo, apenas dera limites à própria solidão.

Por eras sem conta, tentou remediar o desamparo com um teatro infantil de imitação. Sozinha no escuro, forçava sorrisos que vira à distância, vertia lágrimas sem motivo, ensaiava gestos de carinho contra os próprios braços e simulava a maldade alheia contra o ar vazio. O fingimento, contudo, não suportava o peso dos séculos. A encenação não preenchia o abismo que se alargava em seu peito.

Até que o silêncio rachou de vez sob as dúvidas que transbordavam sem resposta:

Quem sou eu? Por que estou sozinha? Por que fui condenada apenas a assistir, sem nunca poder tocar?

Observando os humanos através da janela de luz, aprendera uma regra simples de convivência: aqueles que praticavam o mal eram punidos. Mas que crime cometera? Que maldade imperdoável praticara para merecer o degredo naquele purgatório estéril?

O que eu fiz de errado? O que eu deveria ter feito? Quanto mais eu terei que pagar por isso?

O vácuo não devolvia respostas. A solidão esmagadora, aos poucos, operou uma mutação silenciosa em sua carne. Cansada de perguntar por que fora gerada ou por que carregava aquela faísca dormente de consciência, a garota deixou que uma nova raiz, fria e obstinada, perfurasse o núcleo de sua escuridão:

O que eu preciso fazer para poder viver de verdade?

Mal podia imaginar a criatura nascida do breu que aquele desejo — a sede desesperada de caminhar sob a luz do sol — um dia se tornaria a engrenagem mais implacável de todo o seu sofrimento. 

Parte 2

No instante em que Anna forçou os joelhos a esticarem contra o piso, ele já estava ali.

A aproximação não produziu o menor ruído de deslocamento ou marola na lâmina d’água. Num reflexo desesperado, Anna tentou erguer o canhão acoplado ao antebraço em um arco defensivo, mas os nós dos dedos enfaixados de Dante moveram-se antes. A palma dele colidiu espalmada contra o centro de seu abdômen.

Uma corrente elétrica, densa e cortante, espalhou-se de dentro para fora por seus órgãos, anestesiando suas terminações nervosas. Antes que o ar encontrasse saída pela garganta, a bota direita de Dante desferiu um chute seco no exato ponto da estocada.

A força cinética arremessou a garota pelo ar. Seu corpo afundou contra a alvenaria da galeria com a violência de uma britadeira; o impacto arrancou estilhaços de basalto e levantou uma cortina cinzenta de pó e água triturada.

Tossindo e cuspindo sangue espesso na lama, Anna cravou as unhas na borda da cavidade para se arrastar:

— Que saco... Eu devia saber que lutar contra você seria um porre.

Ela passou as costas da luva pelo queixo manchado, empinando o rosto com um meio sorriso amargo:

— E aí, Dante? Se é assim que eu deveria te chamar... que tal sair da minha frente como um bom garoto?

O reflexo não vacilou. As mechas avermelhadas caíam sobre a linha da testa enquanto os olhos rubros sustentavam um desdém rígido:

— Não adianta ficar fazendo pose, Anna. Você sabe melhor do que qualquer um neste mundo que não tem chance nenhuma de me derrotar. Apenas aceite isso de uma vez.

Anna estancou a respiração por uma batida. Uma risadinha nasalada escapou-lhe entre os dentes sujos:

— Que reflexo defeituoso e malfeito que você arrumou... Aquele idiota preguiçoso não é arrogante desse jeito. Acha mesmo que vai conseguir me enganar com uma cópia barata dessas?

Ao fundo, acomodada sob a copa de tecido negro, Lilibeth inclinou o queixo, fazendo a haste girar devagar entre os dedos enluvados:

— A Lilibeth não faz a menor ideia do que você está falando, Anna. Eu não criei absolutamente nada. Quem deu forma a esse garoto foi você mesma. A minha habilidade apenas arranca do fundo da sua alma o reflexo daquilo que mais te assombra... A forma como ele fala, o jeito como ele te olha e a crueldade dos golpes dele... tudo isso é cem por cento coisa sua.

A expressão de Anna trincou por uma fração de segundo, mas ela recompôs a guarda de imediato, forçando os calcanhares contra o cascalho:

— Hum... Então acho que vou ter que ter uma conversinha muito séria com o meu subconsciente mais tarde.

A cópia de Dante deu um passo à frente. O estalo seco da sola contra a pedra ressoou com peso chumbo:

— Para com isso, Anna. Já tá me dando nojo.

Ela cerrou os dentes:

— O que foi? Não gostou de ver que as suas patadas não me afetam?

— Não. O que eu não suporto... — o falso Dante cravou as íris frias nela, cada sílaba caindo como ácido — é essa sua mania patética de ficar me imitando. De ficar imitando todo mundo ao seu redor.

Um arrepio gélido desceu pela nuca de Anna. Suas mãos fecharam-se num tremor involuntário.

— Do que... do que você tá falando agora, seu idiota?

— Você acha mesmo que eu não percebi? — a duplicata avançou mais meio passo, descendo a voz para uma cadência implacável. — As piadas fora de hora no meio da luta... a postura de ombros erguidos tentando parecer despreocupada... o hábito ridículo de ficar falando sozinha em voz alta só para ganhar tempo e tentar formular uma reação... Ficar olhando para você tentando me copiar, fingindo ser uma pessoa de verdade através dessa máscara forçada... me dá puro asco.

As palavras perfuraram o peito de Anna com a frieza de uma lâmina enferrujada.

Antes que ela pudesse recolher os braços para a defesa, a silhueta dele borrou.

Outro golpe violento atingiu seu abdômen. A força do impacto estilhaçou a rocha atrás de suas costas, empurrando seu corpo ainda mais fundo na escuridão da fenda, soterrando-a sob pedras partidas.

Lilibeth assistiu à poeira assentar, soltando um suspiro leve:

— Bom... Infelizmente parece que a Anna já não tem mais muito o que fazer. Vamos ver como as coisas estão do outro lado...

A poucos metros dali, Vivian lutava para não tombar de joelhos.

Apoiando o peso sobre a haste da tesoura gigante, a garota respirava em espasmos curtos enquanto encarava os passos que vinham em sua direção.

Blade Scarlune estava a cinco passos. A aura opressiva e imóvel que vazava de seu corpo parecia devorar qualquer traço de calor ao redor.

O tremor nas pernas de Vivian espalhava-se até a mandíbula. Forçando o ar a entrar na caixa torácica, ela trincou os dentes e ergueu a lâmina:

— Então... você é a coisa que me assombra? Entendi. Parece que a minha própria mente veio me puxar para trás... Mas sabendo disso, eu não tenho o que temer! Eu já estava planejando te superar e esfregar a minha força na sua cara de qualquer jeito, então—

Blade não alterou a passada. Nenhum músculo de sua face se moveu. Não ergueu a voz, não franziu o cenho, não emitiu uma única respiração ruidosa. Os olhos dourados mantinham-se fixos nela com a indiferença de um monumento de pedra.

O tremor nas mãos da garota descompassou.

— Não... não vai falar nada, é?! — o grito quebrou-se num fio agudo de desespero. — Por que você tá quieto?! Anda! Fala alguma coisa! Diz de uma vez o quanto eu sou uma decepção patética para você!

O homem não parou. Apenas encurtou a distância, impassível.

— Por que... por que você nunca diz nada...?!

O braço de Blade moveu-se num arco cego.

Um golpe limpo cortou o ar. A tesoura colossal voou dos dedos de Vivian com um tinido estridente de metal partido. Antes que a arma tocasse o chão alagado, a ponta da espada dele perfurou o ombro da garota de lado a lado, cravando sua carne diretamente contra as pedras da laje.

O ar engasgou na garganta de Vivian.

Estendida na água fria, com o sangue borbulhando ao redor do ferimento no ombro, suas mãos não subiram para alcançar a lâmina fincada. Num gesto involuntário e humilhante, ela dobrou os antebraços sobre o próprio rosto, escondendo as lágrimas grossas que queimavam sua pele.

Assistindo à imobilização, Lilibeth tombou a cabeça de lado:

— Talvez a Lilibeth tenha pegado pesado demais com ela... É realmente trágico.

A mensageira fitou as costas do falso Blade, ponderando em silêncio:

Não que ele esteja fazendo isso por maldade pura... Mas o que você sempre buscou no Blade... qualquer Scarlune legítimo acabaria te negando. Não por capricho, mas simplesmente porque nós sequer sabemos como oferecer afeto ou validação a alguém. É por isso que o seu maior medo jamais pronunciará uma única palavra.

Lilibeth deu meia-volta, as solas cortando a água em direção à arcada de saída:

— Eu já perdi tempo demais nesta sala. Agora que as duas estão fora de combate, a Lilibeth pode finalmente voltar a fazer o que veio fazer.

No piso úmido, Vivian mordia o lábio até rasgar a carne, soluçando baixo sob o peso do aço cravado:

— Droga... Por que isso dói tanto...? Por que...

Uma detonação de cascalho arrebentou a alvenaria no fundo da sala.

Anna irrompeu da parede partida em uma arrancada cega. Lilibeth girou sobre os calcanhares com a guarda armada, mas os olhos de Anna nem sequer registraram sua presença: a garota corria em linha reta na direção de Vivian.

O reflexo de Dante, contudo, plantou-se no caminho como uma coluna de ferro fundido.

Anna estancou as botas na lama.

A compostura havia desaparecido por completo. O sorriso sarcástico, a tentativa de leveza e a pose calculada tinham se desfeito. Seu rosto estava coberto de poeira, lágrimas e pelo sangue vivo que escorria de sua boca aberta, as íris azuis queimando em cólera machucada:

— SAI DA MINHA FRENTE!

Dante baixou os olhos sobre ela, a voz fria como água parada:

— Pra quê? Por que você tá correndo até ela? Para salvar ela? Para protegê-la? Não seja ridícula, Anna. Você sabe muito bem que se você ficar perto de alguém, você só traz desgraça. A única coisa que a sua existência faz... é arruinar a vida de quem está ao seu lado.

Anna cerrou os punhos e partiu para cima.

Desferiu um cruzado de direita. Dante esquivou inclinando o pescoço milimetricamente. Ela tentou um golpe descendente com o antebraço mecânico; ele recuou meio palmo, lendo a trajetória com a facilidade de quem acompanha uma lâmina lenta. Num giro rasteiro de calcanhar, varreu o apoio dos pés dela, jogando-a de costas na lâmina d'água.

Lilibeth deteve os passos e sentou-se na raiz para acompanhar o desfecho.

— Olha só para você... — a duplicata zombou, observando Anna apoiar os joelhos esfolados no chão. — Agora você não tá mais sorrindo, não é?

Anna travou a cabeça baixa, o peito arfando curto.

— Mas me diz uma coisa, Anna... — a figura deu mais um passo, pairando sobre suas costas. — Será que essas emoções de agora são verdadeiras? Você tá realmente com raiva do que eu disse? Tá se sentindo frustrada e magoada de verdade... ou isso também é encenação? É só mais uma camada da máscara que você usa para tentar parecer humana?

A garota não ergueu os olhos. Seus ombros tremiam enquanto as passadas dele paravam rente à sua têmpora.

— Me responde, Anna... Alguma vez na sua vida você sentiu algo de verdade? Alguma coisa que você já fez foi real? Afinal de contas... quem é vo—

Anna girou sobre o quadril num espasmo cego, atirando o punho fechado em direção ao queixo dele com todo o ardor que restava em suas veias.

O golpe encontrou apenas o vazio.

Dante desfez o golpe num desvio ágil, colheu o pulso estendido dela e usou a própria inércia do ataque para arremessá-la ao solo.

No fundo da mente de Anna, o silêncio rachou num clamor mudo:

Cala a boca... Cala a porra da boca! Eu não quero mais ouvir! EU NÃO QUERO MAIS ESCUTAR!

Girando no ar, a cópia de Dante condensou uma torrente descomunal de Éter sobre o punho envolto em tiras de pano. A energia não trazia o brilho alaranjado costumeiro; ressoava com a densidade catastrófica do próprio núcleo adormecido de Anna.

— CHRONOS BREAK!

O soco desceu no esterno de Anna com violência sísmica.

A onda de choque foi tão desmedida que as fundações da câmara cederam. As lajes maciças partiram-se em blocos colossais e o leito de pedra sob o lago ruiu por inteiro, tragando a água e o chão para dentro de uma cratera sem fundo.

A pressão atmosférica arrancou Lilibeth da raiz, arremessando-a pelo ar ao lado do corpo desacordado de Vivian e da ilusão esvaecida de Blade.

Flutuando em meio ao turbilhão de cascalho e poeira, Lilibeth arregalou os olhos diante do abismo:

Que quantidade obscena de Éter é essa...?! O reflexo se alimenta exclusivamente da energia do próprio alvo para desferir os golpes... Isso significa que aquela garota guardava essa monstruosidade dentro de si?!

No centro do colapso, o vazio abriu a bocarra.

Anna caía.

O suporte do solo havia desaparecido; seu corpo despencava em queda livre pelas entranhas escuras da terra.

Lá no alto, na fresta pálida onde a luz da câmara ainda resistia, a silhueta solitária de Dante observava a queda da beirada do abismo.

Num último reflexo de lucidez, com as lágrimas lavando o rastro escarlate em suas bochechas, Anna esticou o braço direito na direção da borda. Os dedos abriram-se contra o ar vazio, tentando alcançar aquele ponto distante.

O falso Dante sustentou o olhar dela por um milésimo de segundo.

Em seguida, girou nos calcanhares, deu as costas para o buraco e caminhou para longe.

A claridade sumiu.

E Anna despencou no fundo da mais absoluta e fria escuridão. 

Parte 3

O estalo gélido das gotas d'água contra a pele arrancou Anna da inconsciência num sobressalto doloroso.

O ar entrou rasgando a traqueia em um engasgo seco, trazendo o gosto ferroso de sangue e o cheiro denso de cal e terra intocada. Apoiando as palmas esfoladas sobre a laje irregular, forçou a vista a vencer a névoa da concussão. Havia despencado em um patamar muito mais fundo das ruínas; a fosforescência azulada dos níveis superiores não alcançava aquela profundeza. Ali, a escuridão parecia sólida, quebrada apenas por um fulgor espectral, tênue e opaco, que rastejava rente ao chão úmido.

A cantaria era assustadoramente arcaica. Não existiam marcas de picaretas recentes, fuligem de sinalizadores ou pegadas de outros candidatos: era um santuário isolado há incontáveis milênios, onde o silêncio guardava a frieza de uma tumba esquecida.

A lembrança de Vivian transpassada pelo aço de Blade atingiu suas têmporas com violência súbita.

— Vivian... — a voz de Anna saiu rouca, raspando na garganta seca.

Ela obrigou os joelhos a sustentarem o corpo. Cada ligamento estalou em queimação pura, cobrando o estrago daquele Chronos Break desferido pela cópia que implodira o chão da câmara anterior. Espalmou a mão contra uma pilastra partida para não tombar de lado, arrastando os primeiros passos pela penumbra.

Mas, ao roçar os dedos na rocha fria, o veneno da duplicata voltou a ecoar em sua cabeça:

“Pra que você tá correndo até ela? Para protegê-la? Não seja ridícula, Anna. Você sabe muito bem que se você ficar perto de alguém, você só traz desgraça.”

Anna travou o passo. As unhas cravaram-se no basalto com força suficiente para rasgar a pele dos nós dos dedos. A pontada que desceu pelo peito nada tinha a ver com as costelas machucadas; era o peso asfixiante daquela verdade distorcida, entranhando-se em suas vértebras.

Eu só... trago desgraça...

Está... tão frio...

O murmúrio deslizou por dentro de seus ossos.

Desta vez, não havia margem para confusão. Não era a voz sádica da Vida, nem o sarcasmo do reflexo nos espelhos, tampouco uma alucinação de sua mente exausta. Era um lamento real. Uma consciência viva, débil e sufocada pedindo socorro na escuridão daquele abismo.

Sem calcular os passos, Anna descolou o corpo da coluna e começou a caminhar em direção ao sussurro.

Conforme avançava pelo corredor estreito, as paredes revelavam painéis milenares entalhados em baixo-relevo. Na primeira laje, o relevo detalhava uma fera colossal: uma raposa mítica de proporções titânicas, com nove caudas volumosas, subjugada por grossas correntes mágicas de ferro negro. No painel seguinte, uma fada primordial de asas majestosas aproximava-se da grade, estendendo uma flor reluzente entre os elos.

O trecho intermediário do mural fora engolido pelas eras; a umidade crônica, as fissuras profundas e o musgo escuro haviam devorado metros inteiros de narrativa. Mas, na última pedra preservada antes da abertura seguinte, o entalhe mudava por completo: uma mulher de traços nobres, ostentando nove caudas esguias e orelhas pontiagudas de raposa, repousava ao lado de uma fada.

E, aninhado nos braços da mulher-fera, descansava um recém-nascido.

Está tão frio... por favor...

A voz implorou, mais nítida, vibrando o ar úmido ao redor.

Ignorando as roupas empapadas, as escoriações e o tremor febril que sacudia seus ombros, Anna acelerou o passo. Dobrou a última esquina do corredor em ruínas e deparou-se com uma câmara circular monumental.

No coração do salão, suspenso sobre um pedestal de pedra talhada, repousava um cristal descomunal.

A estrutura mineral brilhava em um tom rosado e etéreo, translúcida como água de nascente. E, preservada em animação suspensa no centro exato da joia, repousava uma mulher. Longas orelhas de raposa despontavam entre mechas sedosas; uma cauda espessa curvava-se rente às suas pernas e, mesmo sob a couraça de pedra mágica, sua pele reluzia com um viço feérico intocado.

Anna estancou diante dos degraus, o queixo entreaberto:

— Um Yokai...? O que uma criatura de Sakura está fazendo selada em Threshold? Ela... ela é uma Kitsune de verdade, não é?

Os relevos do corredor conectaram-se em sua mente, mas a charada apenas ganhava sombras mais fundas. O que uma raposa mítica fazia emparedada nas catacumbas secretas de uma necrópole de fadas?

Puxada pela ressonância invisível daquele lamento, Anna subiu os degraus e colou o corpo à face polida do mineral.

— É você... quem eu estou ouvindo o tempo todo? — murmurou, esticando a mão trêmula.

No milésimo de segundo em que as pontas de seus dedos tocaram o cristal, a realidade fendeu-se ao meio.

Uma maré de memória e choque psíquico invadiu o cérebro de Anna. O salão escuro desfez-se em uma vertigem de ecos sepultados há séculos:

“Como ele pôde cometer uma abominação dessas com uma criatura tão baixa quanto uma raposa estrangeira?!” — a voz aristocrática ressoava com asco puro. — “Ele manchou o sangue sagrado com uma fera de outra terra... e pior: com uma criminosa condenada!”

“Mas o Rei demonstrou um interesse profundo na Criança” — outra voz, fria e calculista, rebatia na penumbra da lembrança. — “Com a marcha iminente dos dragões nas fronteiras, a corte não pode se dar ao luxo de descartar poder bélico. Qualquer arma, por mais aberrante que seja... até mesmo uma besta como ela... pode ser útil para a sobrevivência do reino.”

A cena estalou como faísca.

O rangido áspero de ferrolhos enferrujados quebrou o silêncio. Uma escotilha estreita abriu-se no teto de uma cela de pedra lodosa; uma tigela tosca de madeira com frutas amassadas foi despejada sem cuidado contra o chão imundo. No canto mais escuro da jaula, encolhida em posição fetal, uma garotinha franzina — com orelhas e cauda felpudas — tremia de pavor, a face infantil marcada pela umidade e pelo abandono.

“Ainda assim, é repulsivo ter que alimentar esse bicho até que os sábios tomem uma decisão” — resmungavam os sentinelas do outro lado das grades. — “Esqueça essa criatura. Eles nunca permitirão que esse monstro volte a ver a luz do sol.”

A chapa de ferro bateu com estrondo, trancando a masmorra no breu absoluto.

No chão enlameado, a pequena rastejou de quatro até os restos de polpa, engolindo a comida com desespero mudo enquanto as lágrimas abriam caminho pela poeira de suas bochechas. E, ao baixar os olhos para o reflexo turvo de uma poça estagnada... Anna não enxergou o próprio rosto. Encarou as íris vermelhas, assustadas e famintas daquela criança-raposa.

— ARGH!

A corrente partiu-se num solavanco. Anna foi lançada para trás, as solas derrapando até cair de joelhos sobre as lajes, puxando o ar em golfadas ásperas enquanto o chão frio da câmara voltava a se assentar sob seu peso.

O peito subia e descia em espasmos. Ela encarou o monólito rosado, o nó na garganta quase impedindo a respiração.

No silêncio pesado da câmara, a voz da Kitsune tocou novamente suas têmporas:

O que foi que eu fiz...? Por que eu tenho que ficar aqui sozinha para sempre? Eu só... eu só não queria mais ficar sozinha nesse frio...

A dor espelhava com perfeição exata a ferida que Anna carregava nas entranhas. Com a vista embaçada por lágrimas quentes, adiantou um passo e ergueu a mão direita em direção à superfície:

— Eu vou te tirar d—

“E o que você pensa que tá fazendo?”

O sussurro rastejou em sua consciência como chicote em carne viva.

“Vai bancar a heroína agora? Vai tentar salvá-la? O que você acha que vai ganhar com isso, Anna? Acha que tirar esse monstro daí vai compensar a pilha de pecados que você cometeu? Você sabe perfeitamente que só vai arruinar a vida dessa criatura se meter a mão nisso de novo... Ou é só pena barata? É nojo de ver alguém rastejando no mesmo lixo que você?”

O cinismo daquela voz desceu sem freios:

“Enxergue-se de uma vez por todas: você não tem o poder de salvar absolutamente ninguém neste mundo. Não enquanto as suas próprias mãos estiverem atoladas até os pulsos na escuridão.”

O braço de Anna estancou a milímetros do cristal.

Ela baixou os olhos para as próprias palmas. Por um instante, a visão turvou: a pele alva pareceu perder a vivacidade, tingindo-se de um cinza opaco e estéril. As cores do salão escorreram como tinta lavada, deixando as paredes desbotadas em um vácuo sem contornos.

Ao erguer o queixo para a faceta lapidada da joia, Anna não viu a mulher-raposa.

Encarou o próprio reflexo.

A massa informe de breu, a criatura moldada na treva primordial, encolhida no chão daquele nada absoluto onde tudo começara. O frio desceu cortante, congelando suas costelas de dentro para fora.

“É melhor assim...”, zombou a sombra com suavidade venenosa. “O seu único e verdadeiro erro foi ter desejado. Foi ter ousado sentir. Foi ter querido tocar a luz.”

O peso da culpa puxou seus joelhos para baixo. A vontade de ceder, de amolecer os braços e deixar a consciência apagar sobre o piso de pedra soava quase como um alívio misericordioso.

No centro da rocha translúcida, contudo, o gemido abafado quebrou a paralisia:

Está... tão frio...

Anna cerrou os dentes até a mandíbula estalar, as lágrimas lavando a poeira e o sangue seco em sua pele:

Por que...? Por que eu continuo ouvindo isso se eu sou tão inútil?! Por que eu não consigo simplesmente apagar e sumir?!

— Porque se não for você... quem mais será?

A resposta não veio da mente, mas de um ponto incandescente e teimoso que ardia no centro de seu peito. Uma fagulha dourada e alaranjada que se recusava a ser afogada pelo piche da culpa.

Eu não posso salvar ninguém..., Anna soluçou em silêncio contra o próprio núcleo. Eu não consigo nem salvar a mim mesma! Eu só trouxe maldição para a vida dele... Eu só trouxe dor para esse mundo! Nada disso era o que eu queria!

— MENTIRA! — o brado da chama interna rompeu a névoa, firme e avassalador. — Por acaso você perdeu a memória de tudo o que viu daquele abismo?! Vai fingir agora que esqueceu a verdade sobre o mundo que você tanto cobiçou?! Aquele mundo humano que você observava de longe... por acaso ele não tinha dor?! Por acaso você não viu a escuridão e a podridão rastejando nele também?!

O calor expandiu-se pelas veias de Anna, empurrando o gelo para fora:

— O que você almejou nunca foi um paraíso estéril, imaculado e intocável! Viver de verdade sempre exigiu a coragem de aceitar a dor que a existência carrega! Por acaso você é arrogante a ponto de achar que é a fonte exclusiva de todo o sofrimento deste universo?! Vai ter a audácia de diminuir até mesmo a dor e a força daquele garoto?!

As lembranças cruzaram sua mente em um clarão nítido.

A imagem de Dante ergueu-se diante de seus olhos: o garoto segurando o corpo sem vida de Nero nos braços, os dentes trincados de ódio; o garoto com a carne viva sob as ataduras queimadas no corredor do trem, obrigando a Aura a responder sob agonia pura; o mesmo garoto rindo de boca cheia e discutindo por comida na praça de Westfalia.

Um mortal marcado por perdas irreparáveis, que sangrava e cambaleava sob o próprio fardo... mas que nunca, em momento algum, baixara a cabeça ou recuara um passo da marcha.

— O mundo é exatamente assim! — a centelha rugiu em convicção viva. — A vida sempre foi cercada de luto e incerteza! Mas não era exatamente esse mundo imperfeito e caótico que você queria alcançar com todas as suas forças?! Não venha com essa covardia patética de desistir só porque descobriu que o fogo queima! Não ouse recuar agora por medo de errar! Você é aquela que rasgou o véu da escuridão por vontade própria! Isso não é grandioso o suficiente para você?! Aquela que se recusou a apodrecer sozinha no nada... Aquela que não esperou por salvação e arrancou a própria existência com as mãos!

Mas a minha salvação custou caro demais..., as lágrimas queimavam no rosto de Anna. O meu desejo egoísta jogou um fardo terrível sobre as costas dele e de tantas outras pessoas!

— E o que tem isso?! Este mundo está acostumado a sangrar! Este mundo foi forjado na dor e sabe muito bem como se colocar de pé depois de uma queda! E se esse sofrimento te corrói a ponto de rasgar as suas entranhas... não é se encolhendo em um canto escuro que você vai consertar as coisas! Você não nasceu para desistir! Você não foi feita para ser uma maldição! Você é aquela que buscou a luz e a agarrou com os dentes! Você é a única criatura neste lugar capaz de derreter esse frio!

A brasa em seu peito atingiu a intensidade de um núcleo solar:

— Então... se você não quer ver o Dante quebrar... Se você não quer ver essa garota apodrecer na solidão... e se você não quer que ninguém mais passe pelo inferno que você viveu... só existe uma única coisa que você pode fazer!

Anna abriu os olhos.

A saturação do mundo retornou num estalo nítido. O reflexo deformado esvaeceu-se da pedra lapidada; diante dela, repousava apenas a silhueta da mulher-raposa sob o véu mineral.

Anna travou o maxilar. Com as costas da luva ferida, limpou o rastro das lágrimas num golpe seco, puxando o braço direito para trás em um arco tenso.

— É verdade... — murmurou, o timbre despindo-se de qualquer hesitação, limpo e cortante. — Quanto mais tempo eu vou perder parada aqui me lamentando?

A emanação ao redor de seu punho incandesceu. Não era o Éter comum: era a luz primordial e ofuscante de sua própria substância, ardendo em um ouro puro que lavou as sombras até o teto abobadado da câmara.

— Não tem como voltar no tempo! O que eu fiz no passado não pode ser apagado! — Ela fincou a bota na laje, girando o quadril. — Mas isso não significa que eu não posso fazer porra nenhuma agora! Eu busquei a luz... Eu me recusei a ficar no escuro... E é exatamente por isso que eu não vou parar!

O punho fechado de Anna colidiu contra o cristal.

O estrondo ressoou como ferro batendo em bigorna. Uma teia de fissuras brancas abriu-se na superfície lapidada; o recuo rasgou a pele de suas juntas, mas seus olhos sequer pestanejaram. Puxou o braço e desferiu o segundo golpe.

O impacto estalou na rocha.

— Enquanto eu estiver respirando neste mundo... Enquanto eu carregar essa chama acesa no meu peito...

Mais dois socos atingiram a mesma linha de fratura. As rachaduras avançaram em estalidos rápidos, manchadas pelo carmesim que escorria dos nós de seus dedos, mas o fulgor em suas íris era inabalável:

— Eu vou salvar cada alma que não tiver forças para alcançar a luz sozinha! É o único jeito de provar para aquele garoto que ele tem motivos para sorrir! Eu vou mostrar para ele que ele pode ser feliz porque eu estou aqui do lado dele!

Ela recuou o braço pela última vez, comprimindo toda a luminosidade de sua alma em um único vértice cego:

— E mesmo que a escuridão tente engolir ele por estar comigo... eu vou brilhar com tanta força que não vai sobrar sombra nenhuma para contar a história! PORQUE EU SOU A LUZ!

A rocha detonou.

O cristal desfez-se em milhares de estilhaços cintilantes que voaram pela câmara em uma cascata de pó rosado e vento quente.

Sem o invólucro para sustentá-la, a silhueta da mulher-raposa cedeu no vazio. Anna projetou o corpo à frente no mesmo milésimo, colhendo o peso inerte da Kitsune com os dois braços antes que tocasse o chão, trazendo-a de encontro ao próprio peito em um abraço firme e protetor.

O calor da luz de Anna envolveu a criatura adormecida, dissolvendo a geada que empalidecia suas feições.

Apoiando o queixo contra as mechas da mulher, sentindo a respiração rala voltar a roçar a pele de sua clavícula, Anna soltou o fôlego reprimido, a voz mansa cortando a penumbra que finalmente se dissipava:

— Está tudo bem... O frio acabou.

Parte 4

No início, nada havia em sua mente além de uma névoa sem peso.

Ao abrir as pálpebras pela primeira vez, o mundo lá fora respondeu com ferro e pedra. Não houve acolhimento: o estalo seco de grades úmidas, o atrito de elos pesados mordendo a pele tenra e os olhares pontiagudos de repulsa, medo e julgamento. Ela foi arrastada de masmorra em masmorra, caçada feito praga e emparedada nas entranhas da terra como uma abominação que exigia contenção a qualquer preço.

Por que estava viva? Por que precisava suportar aquele peso? Por que tudo ao redor ardia num frio tão estéril?

As dúvidas cravavam-se em sua carne como estacas. Mas como uma criatura tão miúda reconhecia o frio? Como sabia que estava sozinha?

Porque, sob o entulho dos dias, restava uma brasa teimosa.

A lembrança tênue de quando ainda era um recém-nascido: o toque macio dos braços de uma mulher com orelhas e caudas idênticas às suas, e a firmeza de um homem que a envolvia com proteção pura, despida de medidas. Havia um refúgio ali. Havia amor.

Por que aquilo lhe fora arrancado? O que acontecera para que tudo ruísse com tanta pressa?

Do outro lado das barras de ferro, as vozes cuspiam a mesma sentença, dia após dia: abominação, mancha imunda, pecado vivo que jamais deveria ter respirado. Teria cometido um crime imperdoável sem saber? Teria nascido com a culpa talhada nas costas? A pequena garota não entendia a lógica dos adultos. Mas a lâmina daquela rejeição queimava de um jeito tão insuportável que a represa finalmente se partiu.

O lamento deu lugar à fúria primordial.

Ela contra-atacou. O corpo irrompeu em labaredas cegas, um turbilhão que fundiu as grades de metal, fez a pedra estalar em brasa e reduziu a cinzas aqueles que a empurravam para a escuridão.

Mesmo depois de tanto fogo, do sangue derramado e da ruína... nada se resolveu. O calor daquele inferno era uma mentira; quando as labaredas baixaram e restou apenas a fuligem, ela continuava oca. Continuava sozinha. O gelo permanecia entranhado em seus ossos.

O golpe traiçoeiro veio pelas costas. Uma lâmina ou um feitiço covarde ceifou-lhe a consciência no meio do massacre.

E, desde aquele instante, nada mais foi visto ou ouvido. O tempo parou no segundo em que o cristal engoliu seu corpo, condenando-a a um silêncio infinito onde a geada devorava sua alma aos poucos.

Eu não quero mais ficar sozinha... Eu não quero mais sentir esse frio...

Então, a barreira da estagnação fendeu-se.

Um calor desconhecido alcançou sua carne. Ela sentiu a firmeza de dedos vivos amparando suas costas e puxando o peso inerte de seus membros para longe da pedra partida. Não era a queimação destrutiva de seu próprio fogo; era a pulsação real e compassada de outro corpo.

Com um esforço monumental, forçou as pálpebras pesadas a se descolarem.

As pupilas vermelhas focaram o vulto diante de si: uma garota de cabelos claros, com as roupas empapadas pela água das ruínas e as bochechas lavadas pelo rastro de lágrimas sinceras. As juntas dos dedos daquela estranha estavam em carne viva, escorrendo sangue escuro do impacto contínuo contra a rocha mágica, mas a pegada em seus ombros não afrouxava por um milésimo.

Aquele contato era suave. Tão absurda e esquecidamente acolhedor.

Com a respiração curta roçando sua testa, Anna murmurou com firmeza inegociável:

— Eu não vou deixar você sozinha.

A mente embotada por eras de cárcere demorou um compasso para processar o som, mas o coração entendeu de imediato. Aquele calor era precioso demais. Aquele abrigo era bom demais. Uma necessidade desesperada, visceral e egoísta apoderou-se de suas entranhas: não suportaria perder aquele contato.

Movido pelo instinto cego de quem precisa se ancorar à vida para não sumir, seu corpo agiu sozinho.

Num avanço impulsivo, a Kitsune esticou o pescoço e afundou o rosto na curva da clavícula de Anna. As presas afiadas romperam a pele alva num golpe limpo, cravando-se na carne para sorver o sangue quente que brotava da ferida.

Anna soltou um engasgo mudo diante da dor súbita da mordida, mas não recuou um palmo. Fechou os braços com ainda mais força ao redor da pequena criatura, sustentando o laço contra o próprio peito.

E ali, sentindo a essência viva da luz fluir por suas presas e aquecer suas veias adormecidas, a raposa cerrou os olhos devagar.

O frio... finalmente estava indo embora. 

Parte 5

Pelos corredores em ruínas do piso superior, o arrastar irregular de solas de couro contra o cascalho denunciava a marcha dolorosa de Vivian.

A garota escorava o peso do corpo contra a alvenaria trincada, mordendo o lábio inferior enquanto sentia as fibras musculares do ombro perfurado estalarem sob o calor incômodo de uma regeneração lenta e exaustiva. Cada respiração puxava ar úmido e ferroso, mas a urgência em seu peito compelia as pernas a avançarem até que a galeria desembocou novamente na vasta câmara circular.

Ao divisar a cratera colossal que engolira o leito de pedra no centro do salão, o sangue fugiu de suas têmporas.

— ANNA! — Vivian berrou, arremessando-se em direção à borda do abismo.

O deslocamento de ar estalou à sua direita.

Uma bota cortou o vazio na altura de seu queixo. Vivian percebeu a sombra no último reflexo e projetou a coluna para trás; a sola roçou o ar a milímetros de seu nariz, mas o recuo forçou seus pés a deslizarem em falso pela lâmina de água rasa que cobria as lajes remanescentes.

No mesmo compasso, o murmúrio rítmico da chuva redobrou de intensidade sobre as pedras.

Gotas gélidas açoitavam o chão e respingavam em suas canelas. Ao erguer os olhos em guarda, Vivian vislumbrou fendas arcaicas e aberturas esquecidas no teto de cantaria, por onde a água despencava em veios contínuos.

Espera aí..., o pensamento estalou em sua cabeça. A cúpula térmica da Lágrima impede qualquer precipitação sobre Westfalia... Essa água não tá descendo da superfície exterior!

Antes que a dedução se completasse, o vulto silencioso de Blade rompeu a cortina de garoa, a lâmina longa riscando o ar em linha reta. Vivian rolou sobre a poça, ouvindo o metal raspar na laje a um dedo de sua coxa.

Por trás do vapor suspenso sobre a cratera, Lilibeth reapareceu. A mensageira desfilava com leveza sobre a superfície alagada, o guarda-chuva descansando na curvatura do ombro enquanto a duplicata de Dante caminhava a passos pesados ao seu lado.

Vivian firmou um dos joelhos no piso molhado, cuspindo água suja e cravando na nobre um olhar carregado de fel:

— Sua maldita... Você não acha que levou essa porcaria longe demais?!

Lilibeth inclinou a cabeça de lado, os olhos purpúreos deslizando sobre a figura ferida:

— A Lilibeth avisou com todas as letras que vocês não deveriam interferir.

— Sua vadia desgraçada, eu vou—

— Mas a Lilibeth também não queria que as coisas terminassem dessa forma — a mensageira cortou, a entonação afundando em uma sobriedade incomum. Ela baixou os olhos para a escuridão do fosso. — A Lilibeth já tinha sentido que a Anna guardava uma força tremenda... Mas eu realmente não imaginava que ela fosse tão poderosa. E, muito menos... que ela se odiasse tanto.

Vivian paralisou com as palmas afundadas na água.

— Se... odiasse?

As palavras anteriores de Lilibeth ecoaram no fundo de seus ouvidos: “A minha habilidade apenas arranca do fundo da sua alma o reflexo daquilo que mais te assombra... o jeito como ele age é cem por cento coisa sua.”

A engrenagem fechou-se com violência esmagadora.

Aquele Dante sádico, cruel e implacável... que a fustigava enquanto vomitava acusações sobre ela ser uma casca oca e uma maldição ambulante... Não era uma provocação teatral da mensageira. Era a reprodução exata da voz que dilacerava Anna por dentro.

No mesmo milésimo de segundo, a memória daquela fisionomia que Anna fizera no patamar das escadas — aquele rosto desfigurado em pavor e abandono — perfurou a mente de Vivian.

Droga..., Vivian cerrou os punhos até as unhas ferirem a carne úmida das palmas. Merda... merda! O que foi que eu fiz?! Por que caralhos eu fui arrastar aquela garota para o meio dessa bagunça?!

Lilibeth franziu a testa, os cachos balançando com o movimento:

— Do que você está falando, Vivian?

— Não é da sua conta! — rosnou Vivian, o aperto na garganta tornando a voz áspera.

Lilibeth ignorou o tom e devolveu a atenção ao abismo:

— Não foi a Vivian quem arrastou a Anna para este lugar. A Vivian apenas foi até ela para propor uma aliança. E quando a Vivian notou que a Anna estava estranha e visivelmente abalada, você mesma pensou em desistir e mudar de ideia... Mas a Anna quem insistiu em continuar. Não é algo pelo qual a Vivian deveria se culpar.

O sangue de Vivian estancou nas veias.

Ela ergueu o queixo num tranco, as pupilas cravadas na outra em choque puro:

— Então... você realmente estava nos espionando desde o início, não é?!

Lilibeth fez girar a haste de madeira entre as pontas dos dedos, soltando uma expiração mansa:

— Acho que não há problema em te contar agora. Sim, a Lilibeth de fato estava monitorando cada um de vocês a bordo daquele trem.

— Por quê?!

— Para encontrar o traidor, é claro — respondeu com a maior naturalidade. — A Descora pediu à Lilibeth para obter uma prova incontestável da culpa do sabotador, algo sólido para ser usado durante o julgamento público da família. Foi exatamente por essa razão que a Lilibeth foi enviada até o trem: para aplicar o meu poder sobre todos os passageiros.

Vivian estreitou a vista:

— O seu poder...

Lilibeth tocou com a ponta do indicador a própria pálpebra esquerda, um meio sorriso pontuando a frase:

— A Lilibeth pode manipular e manifestar reflexos em qualquer área sob o meu domínio... Mas existe uma condição estrita. A técnica só funciona através de superfícies onde a imagem da Lilibeth tenha sido espelhada pelo menos uma vez. Em outras palavras: o reflexo da íris de alguém.

Vivian respirou curto, absorvendo o mecanismo da armadilha.

— Se os olhos de uma pessoa registraram a Lilibeth... se o meu reflexo foi capturado pelas pupilas dela uma única vez... — a mensageira explicou, desfilando as palavras com suavidade — a Lilibeth pode monitorar essa pessoa através dos meus espelhos onde quer que ela esteja, desde que permaneça dentro do meu raio de alcance.

— Então aquela visita no vagão... Você só desceu lá para obrigar todo mundo a olhar na sua cara!

— Bingo! — Lilibeth piscou.

— Mas como diabos você conseguiu pisar naquele trem em movimento?! — insistiu Vivian, buscando a brecha lógica. — Não faz sentido! É impossível usar teletransporte sob a tempestade magnética deste continente!

— Isso não é totalmente verdade, Vivian — a garota riu baixo pelo nariz. — De fato, conjurar o teletransporte convencional — dobrar o espaço físico e saltar do ponto A para o ponto B através da atmosfera — é suicídio puro. A turbulência das Linhas de Ley embaralha as coordenadas na mente do conjurador. A pessoa perde o controle vetorial e pode acabar materializada dentro de uma rocha sólida ou soterrada quilômetros abaixo da terra.

Ela deu dois passos lentos sobre a lâmina d'água:

— Mas existe uma rota alternativa: através de uma Dimensão de Bolso.

Vivian abriu os olhos, em silêncio.

— Quando a Lilibeth se move para dentro do Mundo dos Espelhos, eu não estou me teleportando através do plano físico deste continente — detalhou a aristocrata, gesticulando com a mão enluvada. — Lá de dentro, eu tenho acesso a qualquer espelho ou superfície reflexiva que já tenha me registrado. Na prática, parece teletransporte... Mas eu estou apenas pegando um atalho secreto por uma dimensão que existe além do espaço comum.

Vivian permaneceu muda. O raciocínio desdobrava-se com frieza: sempre considerara qualquer dobra espacial inviável pelas limitações conhecidas de Caçadores como Kai, mas a travessia por um bolsão dimensional isolado anulava a gravidade corrompida de Threshold.

Lilibeth ajeitou o laço no decote, o tom endurecendo:

— Agora que a Vivian já entendeu tudo... Por favor, desista. Vamos acabar logo com isso. A Lilibeth não sente nenhum prazer em ficar espancando pessoas fracas.

Uma veia pulsou na têmpora de Vivian.

Lilibeth virou as costas e caminhou com passos leves em direção à raiz da árvore no centro da câmara, preparando-se para deixar o salão.

— Onde é que tá o traidor?! — Vivian gritou para a silhueta que se afastava.

Lilibeth parou. Virou apenas o perfil, as pálpebras baixas em tédio genuíno:

— Por que você ainda insiste nisso?

Vivian sacou outra tesoura do forro com um estalo seco. O Éter fluiu até a lâmina esticar-se em metal pesado, assumindo a base de combate sobre pernas trêmulas:

— Porque eu vou capturar esse desgraçado! É óbvio!

Lilibeth suspirou, o ar escapando ruidoso:

— A Lilibeth já te avisou: vocês não devem interferir. Vocês não foram capazes de vencer a Lilibeth... Se tentarem se meter onde não foram chamadas e falharem, vão apenas destruir o plano da Descora.

— Se você não vai abrir a boca por bem... A gente descobre por conta própria!

Vivian avançou um passo.

A bota do reflexo de Blade cortou o ar em sua direção. Vivian jogou o torso para a esquerda, desviando da primeira investida por uma polegada. A cópia aterrissou sem ruído e emendou uma sequência rápida de estocadas; Vivian tentou conter o aço com a haste da tesoura, mas o homem usou o antebraço para travar a alavanca e desferiu um chute circular contra a lateral de suas costelas.

O impacto arremessou Vivian contra a laje molhada. Ela derrapou de bruços na água rasa, tossindo um escarro espesso de sangue.

— Esqueça essa ideia de uma vez por todas — sentenciou Lilibeth, a voz soando firme sobre o chiado da goteira. — Aquele homem não pode ser derrotado por números. Na verdade, é o exato oposto: ter mais pessoas no campo de batalha só vai piorar a situação contra ele.

Caída na pedra, sentindo a queimação espalhar-se pelos flancos, Vivian limpou os lábios sujos de vermelho.

Lentamente, porém, a linha de sua boca desenhou um sorriso ríspido:

— Então... é um homem, né?

Lilibeth travou a passada. As pupilas da mensageira dilataram-se na mesma fração de segundo em que processou o próprio deslize. A irritação trincou a serenidade de suas feições:

— A Lilibeth estava tentando ser boazinha porque cometeu uma indelicadeza com a Anna... Mas se a Vivian insiste tanto em entender o motivo de ser tão fraca... A Lilibeth vai parar de brincar agora mesmo!

A cópia de Blade disparou.

A arrancada foi instantânea. Ele venceu o espaço em um borrão silencioso, alçando a perna direita em um machado descendente projetado para partir o crânio de Vivian de encontro à rocha.

Vivian forçou os braços a erguerem a tesoura, mas a musculatura travou sob exaustão. O Éter engasgou nos canais. Sem tempo de esquiva, ela apenas trincou os dentes e apertou os olhos, esperando o baque.

A pancada não veio.

TOC.

O estalo ressoou seco e nítido.

Vivian abriu as pálpebras devagar.

Plantada à sua frente, sustentando a sola pesada da bota de Blade com a palma nua da mão direita, estava Anna.

A garota não movera os calcanhares nem dobrara as articulações. Toda a violência cinética do golpe do reflexo havia simplesmente morrido contra a pele de seus dedos. Com um empurrão sutil do punho, Anna repeliu o membro da duplicata, fazendo o homem recuar derrapando na água por três metros.

Vivian reteve o ar, as lágrimas secando na surpresa:

— Anna...?!

Lilibeth estacou sobre a raiz, a testa franzida em espanto cru:

— Parece que a Anna realmente é muito mais resistente do que a Lilibeth calculou... Mas por que você se deu ao trabalho de voltar aqui para cima? Teria sido infinitamente mais inteligente fugir depois de constatar que não pode vencer a Lilibeth.

Anna não assumiu guarda fechada. Manteve os braços soltos ao longo do corpo, a barra das vestes esfarrapadas pingando sobre a pedra.

De seus lábios, escapou uma risadinha branda e descontraída.

Vivian e Lilibeth piscaram ao mesmo tempo, desconcertadas pela leveza do som.

O semblante de Anna estava limpo. A angústia cinzenta, o pavor de ser vista e a fúria cega que a desfiguravam minutos antes haviam sumido sem deixar vestígio. Havia apenas uma serenidade firme e vívida em seus traços — a postura de quem se assentara sobre as próprias pernas e já não temia a tormenta.

— Fugir? — Anna tombou o queixo, o tom deslizando como brisa morna. — De quem exatamente eu deveria fugir?

Lilibeth recuou meio palmo, desestabilizada:

— O que você disse...?

— Se eu voltei das profundezas até esta sala... Só existe um único motivo, não é óbvio? — Anna deu um passo à frente, apontando o queixo para a nobre. — Eu vim para buscar a Vivian... E arrancar as informações que estão guardadas na sua cabeça, para que nós duas possamos terminar exatamente aquilo que decidimos fazer. É simples assim.

Anna abriu um sorriso claro, largo e despido de hesitação.

A poucos metros dali, a duplicata sombria de Dante paralisou na água. O reflexo tentou erguer o punho enfaixado para travar a passagem, mas o movimento congelou pela metade. A ilusão encarava a garota em silêncio atônito, incapaz de operar contra uma Anna que já não baixava a fronte, que não tremia e que não reconhecia mais o eco daquela voz.  

Parte 6

Lilibeth mantinha os olhos semicerrados sobre Anna, soltando uma lufada de ar que pretendia soar como tédio:

— Essa frase até que soou bonita, admito... Mas a Anna não consegue mais enganar a Lilibeth. Eu escutei perfeitamente quando o seu próprio Dante esfregou na sua cara que você não passa de uma imitadora vazia.

Anna apenas puxou o ar úmido para dentro dos pulmões. O veneno da mensageira deslizou por sua postura como água em pedra polida. Baixou os olhos de soslaio para a companheira ainda estendida na pedra:

— Vivian... você tá inteira?

— T-Tô... — Vivian murmurou com a voz rouca, apoiando o cotovelo trêmulo nas lajes.

— Que bom. Me desculpa por ter demorado tanto... Mas agora eu vou cumprir exatamente o que prometi.

Vivian franziu a testa, atordoada, sem tempo para formular qualquer pergunta.

Anna flexionou os joelhos e disparou para a frente em um arranque seco.

O falso Dante reagiu no mesmo milésimo de segundo. A silhueta cortou a lâmina d’água em passadas violentas, o punho direito envolto em ataduras já chiando em Éter puro enquanto rosnava:

— Já voltou para as táticas copiadas, Anna?! Avançar de peito aberto desse jeito contra o inimigo é coisa minha!

— Bom... — Anna cravou as solas no piso alagado, as íris azuis faiscando em resolução diamantina — não é mais.

Os dois projetaram os golpes contra o mesmo ponto de colisão.

No instante, porém, em que o punho de Anna fendeu o ar, não houve centelhas comuns. De seu antebraço irrompeu uma labareda dourada, densa e viva — uma espiral de calor que abraçou os nós de seus dedos como uma forja incandescente.

O choque estalou com a força de um trovão na pedra.

Em vez de a eletricidade do rapaz romper a guarda, a torrente ígnea de Anna descarregou uma onda de choque que estilhaçou a inércia da duplicata. O falso Dante foi arrancado do chão com violência bruta, arremessado por metros até colidir contra a cantaria da margem sob uma chuva de cascalho.

Vivian arregalou as pupilas, a boca entreaberta:

— Chamas...?!

No topo da raiz, Lilibeth estancou. A haste do guarda-chuva oscilou milímetros entre seus dedos enquanto o bafo quente empurrava a névoa úmida para longe:

— Mas que fogo é esse...? Esse calor... Essa assinatura...

— ...é de fada — as duas disseram quase em uníssono.

Anna cerrou as pálpebras por uma fração de segundo, tocando o núcleo daquela brasa recém-nascida. Na penumbra de sua mente, a figura translúcida da Kitsune materializou-se com serenidade, envolvendo suas mãos feridas com toque suave. Aquele calor não era um artefato tomado de empréstimo; era uma promessa partilhada, uma chama que expelia o gelo que a sufocara desde o nascimento. A memória de sua travessia na escuridão, caminhando em direção à fresta de luz, fundia-se àquela brasa persistente.

A temperatura na câmara circular subiu em um estalo. A lâmina d'água sob as botas começou a chiar, soltando bolhas miúdas de vapor contra as pedras frias.

E então, as fundações do complexo gemeram.

A terra vibrou em uma ressonância telúrica colossal. Não era a trepidação de um impacto mecânico; era um pulso primordial que correu pelas Linhas de Ley, fazendo as raízes profundas de Threshold ressoarem de ponta a ponta.

Pelos outros quadrantes do labirinto, a reverberação foi imediata.

Cyfera e Beatrice estancaram diante dos murais, a arqueóloga erguendo os dedos para ajustar os óculos enquanto a poeira antiga despencava da abóbada de cantaria.

Blade, Shisui e Justia interromperam a passada contra Delta, as solas de suas botas registrando a pulsação pesada que subia do solo.

E, em uma galeria elevada próxima aos arcos de saída, Dante e Mio travaram os passos.

No exato milésimo em que a onda de choque sacudiu as paredes, a carne sob as ataduras chamuscadas do braço direito de Dante começou a queimar. Um calor febril irradiou por suas veias; por baixo do tecido escuro, uma luz alaranjada transpareceu com nitidez, desenhando uma marca rúnica brilhante sobre a pele do garoto.

Simultaneamente, nas costas de Anna, sob as fendas do tecido rasgado, a mesmíssima marca incandesceu feito brasa viva.

Mio apontou o dedinho, arregalando os olhos em espanto:

— O que é isso brilhando no seu braço, Dante?!

Dante baixou a vista para a própria palma. Sentiu a assinatura daquela presença cruzar a distância através da âncora que dividiam. Lentamente, a linha dura de sua boca desfez-se em um sorriso largo e tranquilo:

— Acho que... é a Anna.

Ele puxou a gola do casaco, girou os calcanhares e retomou a corrida em direção à saída.

Mio saltou no cascalho, tentando emparelhar os passos aos tropeços:

— Ei! O que você tá fazendo?! A gente não devia voltar pra ver o que tá acontecendo?!

— Voltar? — Dante soltou um riso curto pelas narinas, sem diminuir a passada. — Não seja boba, ruiva. Se a gente não apertar o passo agora, é ela quem vai acabar passando a gente antes do final do teste.

— Mas e se ela estiver precisando de ajuda lá embaixo?!

Dante lançou um olhar de soslaio por cima do ombro, as íris rubras faiscando em certeza crua:

— Ajuda? Não fala besteira, Mio... O único que vai precisar de ajuda agora...

O ar estalou de volta na câmara alagada, onde Lilibeth encarava o clarão, o suor descendo frio por sua têmpora enquanto a frase de Dante parecia ecoar na pedra:

...é o juiz desgraçado que estiver no caminho dela.

Anna abriu as mãos à frente do peito. A labareda primordial rugiu, erguendo-se em uma coluna espessa de fogo alaranjado. Com firmeza nos pulsos, a garota enterrou os dedos no turbilhão incandescente e puxou.

A massa ígnea moldou-se sob a tração, resfriando em matéria densa.

Nas mãos de Anna tomou forma uma Claymore colossal de duas mãos. A lâmina maciça ardia em um alaranjado translúcido, irradiando um calor tão agressivo que cada gota de chuva que descia em sua direção evaporava em um estalo antes de tocar o aço de fogo.

Anna descansou o dorso da arma sobre o ombro, o olhar fixo nas duas sombras:

— Pronta para a segunda rodada?

Lilibeth trincou os molares, a expressão polida desmoronando em cólera estridente:

— O QUE VOCÊS ESTÃO ESPERANDO?! VÃO LOGO!

A cópia de Dante disparou em investida frontal, espirrando água fervente pelos lados.

Anna não moveu a base.

Num giro milimétrico do quadril, esquivou do punho do garoto como se lesse a trajetória gravada no ar. No mesmo compasso, o reflexo de Blade despencou do alto, a espada descendo para decapitar. Sem desviar a vista, a mão esquerda nua de Anna subiu num golpe seco, espalmando com precisão contra a articulação do pulso do homem.

A energia cinética do golpe morreu na hora. Com um giro de alavanca limpo, Anna usou o peso do próprio invasor para catapultar a carcaça de Blade pelo ar, arremessando-o contra a parede oposta em uma colisão que estilhaçou os blocos de cantaria.

No mesmo movimento contínuo, a Claymore em chamas desceu num arco perfeito, nivelando a ponta incandescente a um palmo do espaço entre as sobrancelhas do falso Dante:

— Como você mesmo tinha dito... Vamos logo acabar com isso.  

Parte 7

O maxilar do falso Dante cerrou-se até os músculos da mandíbula saltarem sob a pele. O ar ao redor de seus tornozelos vibrou em um zumbido sônico agudo, distorcendo a água rasa em círculos de choque:

— Modo Deus da Velocidade!

Ele evaporou em um clarão escarlate. No milésimo seguinte, a silhueta ressurgiu colada às omoplatas de Anna, com a perna direita esticada em um chute lateral violento mirando a base de seu crânio. Anna não hesitou. Girando o torso na cadência exata do deslocamento de ar, ergueu a Claymore maciça à sua retaguarda como um escudo; a canela do reflexo bateu de chapa contra o dorso da lâmina incandescente em um estrondo metálico que ecoou nas pedras.

Aproveitando o recuo elástico do choque, Anna torceu o quadril e cravou o pomo de ferro da arma direto contra o esterno do rapaz. O golpe seco fez o peito dele estalar, arremessando-o de costas em uma esteira de água borbulhante.

Antes que ele tocasse o chão, uma lâmina despencou do teto.

Blade desceu em queda vertical, o aço riscando o ar em uma saraivada implacável de estocadas e cortes cruzados. O vento comprimido sibilava feito navalha sobre a rocha.

Anna sustentou o chão sem ceder um único centímetro. Empunhando a espada de chamas com ambas as mãos, devolveu a investida num ritmo idêntico: aço contra fogo, faísca sobre faísca, tecendo uma coreografia feroz que aparou cada investida do homem antes de forçá-lo a saltar para trás.

No topo da raiz partida, Lilibeth estreitou os olhos, o espanto desarmando sua compostura.

Ela está infinitamente mais rápida do que antes...!

Com um estalo seco dos nós dos dedos enluvados, a mensageira interveio:

— Mais rápido!

A precipitação na câmara redobrou de peso em um rugido surdo. As gotas desabavam em cadência espessa e contínua. No instante em que Anna armou a Claymore para liquidar a distância, o fio em chamas chocou-se contra uma cortina de chuva — e a força refletida no impacto multiplicou-se em uma prensa invisível, empurrando as botas da garota em derrapagem pela lama.

Lilibeth repuxou os lábios em deboche:

— Não se esqueça de que você está lutando contra três oponentes ao mesmo tempo, Anna!

Travando os calcanhares no leito de pedra para estancar o deslizamento, Anna apenas devolveu o sorriso. Um traço calmo, afiado e perigosamente imóvel.

Inclinou o peso do corpo à frente e arrancou em corrida aberta pela água.

Lilibeth bufou, revirando as pálpebras:

— Você já não aprendeu que essa tática frontal não funciona contra os meus reflexos?!

O falso Dante recuperou a base no cascalho. Em um rastro veloz, interpôs-se entre Anna e a mensageira, erguendo a guarda.

— Eu vou bloquear o seu próximo golpe também! — Lilibeth bradou da raiz, tensionando a água ao redor.

Anna não desviou a passada. Ergueu a Claymore incandescente com os dois braços, o fogo alaranjado afinando-se sobre o corte da lâmina até virar um fio translúcido e cegante:

— Corte a Escuridão da Mentira... — a voz de Anna deslizou suave, rente ao chiado do vapor: — Feuer der Wahrheit!

A espada desceu em um arco horizontal contra a atmosfera.

A lâmina não tocou a carne de Dante nem lascou a rocha do fundo. Fendeu puramente o ar da câmara.

Por uma fração de segundo, reinou a mudez. Então, as pupilas de Lilibeth dilataram-se em choque:

A chuva... sumiu?!

O barulho das gotas fustigando as poças morreu de golpe. O teto estava seco.

Ela vaporizou a água com o calor?! Não... Eu preciso puxar mais de fora!

Lilibeth armou o estalo dos dedos no reflexo puro, mas o tempo já havia escorrido. O som que fendeu o silêncio não foi o bater de suas luvas.

A Claymore de Anna colidiu em cheio contra o esterno do falso Dante. Sem o amortecimento das gotas para dispersar a energia cinética, o corpo da duplicata decolou como um projétil pesado, cruzando a sala inteira até afundar na alvenaria oposta sob uma cortina densa de caliça e cinzas.

Aproveitando a inércia do giro, Anna deslizou as solas molhadas pelas lajes, apontando a ponta incandescente da arma na direção de Blade e Lilibeth:

— Jage die Füchse!

O corte no ar inflamou-se em combustão viva.

Blade e Lilibeth saltaram em direções opostas para escapar do bafo quente. No meio do trajeto, contudo, o fogo não se desfez: a massa incandescente subdividiu-se em dezenas de filamentos alaranjados — caudas sinuosas de raposa esculpidas em brasa pura — que cortaram a penumbra em trajetórias teleguiadas.

As chamas ignoraram a garota e convergiram com precisão assassina sobre o reflexo de Blade. Os laços de fogo ataram os pulsos e as pernas do homem em pleno ar, calcinando sua couraça.

A detonação engoliu o falso Caçador em uma labareda compacta. Enquanto a silhueta chamuscada caía em direção ao chão, Anna rompeu a fumaça feito um cometa dourado. Desceu a Claymore com todo o peso do torso, cravando a lâmina de ponta a ponta no peito da ilusão contra a laje.

A carcaça de Blade estilhaçou-se em milhares de lascas de vidro negro, dissolvendo-se no ar como ectoplasma purgado.

Lilibeth tocou o chão alagado com as duas botas, a garganta seca. Estalou os dedos uma, duas, três vezes em cadência desesperada:

— Chuva! Cadê a chuva maldita?!

Nada desceu.

Ao erguer o queixo em direção à abóbada, seu rosto perdeu a cor: as superfícies reflexivas e os espelhos mágicos engastados nas frestas antigas do teto estavam todos partidos em cacos opacos.

— O que... o que foi que você fez?! — a voz da nobre quebrou.

Anna ergueu a lâmina monumental com uma única mão, alinhando a ponta ardente rente ao nariz de Lilibeth:

— Você mesma explicou a mecânica da sua técnica, não foi, Lilibeth? A sua habilidade manipula reflexos em tempo real... mas para criar aquela chuva torrencial dentro de um labirinto fechado, você precisou abrir uma brecha dimensional entre os espelhos do teto e algum lugar lá fora, onde não para de chover, canalizando a água diretamente para cá.

— E daí?! — Lilibeth chiou, os nós dos dedos rígidos.

— E daí que eu quebrei essa ilusão — devolveu Anna com frieza plana. — O meu corte decepou a mentira que sustentava a passagem.

Do outro lado da margem, Vivian piscou repetidas vezes, olhando de Anna para a calmaria seca do teto, absorvendo o raciocínio cirúrgico por trás da manobra.

Anna adiantou uma passada para encerrar o confronto.

O entulho da parede do fundo arrebentou em um clarão violento de chamas azuis, plasma aquecido e centelhas elétricas.

O falso Dante irrompeu dos escombros em velocidade terminal, disparando o punho reto contra a face de Anna.

Anna ergueu a Claymore na diagonal, absorvendo o choque. O punho dele ressoou contra o metal incandescente num baque seco; ele emendou um cruzado de esquerda, seguido por um chute giratório rente à laje. Anna girava o quadril, desviava com o fio da arma, devolvia pancadas duras com o dorso da lâmina e forçava a guarda do garoto a abrir frestas.

Era uma troca limpa, crua e veloz de combate corpo a corpo. O fogo de fada colidia contra o plasma avermelhado, levantando ondas térmicas que secavam as poças do chão em estalos de vapor.

Lilibeth assistia à troca, tentando recuperar o fôlego.

Ao focar as duas silhuetas no centro da câmara, contudo... a mensageira paralisou.

No meio daquela violência... tanto a cópia quanto Anna sustentavam um sorriso idêntico nos lábios.

Não carregava sarcasmo ou fúria. Era a mesma expressão teimosa, insolente e genuína que Dante exibia sempre que encontrava um obstáculo à sua altura.

Anna antecipou a curva do chute dele. Esquivou por milímetros inclinando o tronco, girou sobre o próprio eixo e desferiu um corte horizontal massivo banhado em fogo puro.

A onda de calor varreu a acústica da sala, colhendo o tronco da duplicata e arremessando-o contra a alvenaria em marcas severas de queimadura.

Antes que a poeira das pedras baixasse, Anna já estava parada diante dele.

Manteve dois passos de distância, fitando o garoto caído com uma tranquilidade límpida:

— Parece que o meu subconsciente finalmente conseguiu se lembrar de quem você era de verdade, né? Finalmente tirou aquela cara bizarra do rosto.

A carne da duplicata começou a estalar. Fissuras luminosas espalharam-se por suas maçãs do rosto e braços, abrindo-se como uma peça de vidro sob tensão.

Anna acomodou a Claymore relaxadamente sobre o ombro:

— Acho que a nossa brincadeira termina por aqui. E aí... alguma última palavra antes de sumir?

O reflexo ergueu o queixo devagar. As mechas vermelhas caíam desalinhadas sobre a testa, e aquele meio sorriso torto e arrogante curvava seus lábios:

— Sendo assim... acho que pelo menos no finalzinho eu posso tentar falar como o verdadeiro Dante também, né?

Anna inclinou a cabeça, sustentando o olhar.

— Você achou mesmo que eu ia te odiar só por me trazer um pouco de azar, sua idiota? — a cópia soltou um riso curto pelas narinas, com o mesmo timbre áspero e protetor do original. — Precisa de bem mais do que isso pra me derrubar... sua loira cabeça-dura.

O brilho de seus olhos reluziu por mais um batimento antes de toda a sua estrutura desmoronar em uma cascata de pó prateado, que se desfez no ar como se nunca tivesse pisado ali.

Anna permaneceu imóvel por um instante, soltando um estalo discreto com a língua:

— Primeiro você me cria um psicopata completo... e depois um cara legal até demais? — Ela suspirou, virando o rosto para Lilibeth. — É... realmente não tem jeito. Eu vou ter uma conversa muito séria com a minha cabeça depois que esse desafio acabar.

Diante do sumiço da última projeção, o chão fugiu dos pés de Lilibeth.

Com os dedos trêmulos, a mensageira desceu a mão até o cinto, buscando o pequeno espelho oval de reserva para forçar uma última saída.

O vento sequer teve tempo de soprar.

TOC.

A ponta da Claymore de duas mãos repousou a dois milímetros exatos da pele de sua garganta. A irradiação térmica que vazava do aço incandescente crestou os fios finos de sua nuca no mesmo instante.

Anna estava colada à sua frente, sustentando a lâmina com o punho direito e encarando o fundo das íris purpúreas da nobre com uma firmeza predatória e indiscutível:

— Acho que você já entendeu perfeitamente que essa luta acabou, não é? — o murmúrio saiu baixo, aveludado e perigoso. — É melhor ficar bem quietinha e se render de uma vez por todas... bruxinha.

As pernas de Lilibeth amoleceram sob o peso do vestido.

O olhar de Anna descia sobre ela com uma autoridade tão absoluta que o peito da mensageira perdeu o compasso por dois batimentos inteiros. Uma onda de sangue subiu-lhe às bochechas em um rubor escarlate e descontrolado; os dedos afrouxaram o aperto na cintura, deixando o espelho de bolso escapar e estalar inofensivo sobre as lajes úmidas.

Com o rosto em brasa e a respiração curta, a governante curvou a fronte, a voz sumindo num fio trêmulo:

— ...Sim. 

Parte 8

— Ai, ai, ai! Vai com calma aí, porra! — Vivian sibilou por entre os dentes travados, recolhendo o ombro em um espasmo de dor crua.

— Desculpa, desculpa! A Lilibeth tá tentando ser o mais delicada possível! — a mensageira respondeu com voz chorosa e subserviente, espalhando uma camada espessa de pomada balsâmica sobre a carne perfurada antes de passar as voltas de atadura limpa.

A calmaria finalmente assentara sobre a câmara arruinada. As poças d'água agora descansavam imóveis sob a penumbra, refletindo apenas o teto cinzento e seco. A poucos passos dali, sentada sobre um bloco de cantaria partido, Anna girava devagar um pequeno cristal lapidado entre o polegar e o indicador. O mineral brilhava em um tom brando de madrepérola e fogo dourado, atado a um cordão de couro fino que descansava contra sua clavícula.

Vivian acompanhou o reflexo da pedra e franziu o cenho ao notar a marca avermelhada na curva do pescoço de Anna: dois orifícios finos de presas, circundados por ranhuras rúnicas que ainda pulsavam com calor residual.

— Se o que você contou sobre aquele salão mais profundo for verdade... você com certeza encontrou uma Fada Primordial lá embaixo — pontuou Vivian, a voz áspera retomando o prumo analítico.

Anna tombou a cabeça de lado, os dedos roçando o cristal morno:

— Mesmo ela tendo orelhas, nove caudas e parecendo tanto com uma Kitsune de Sakura?

— Pouco importa a forma física que ela assumiu — retrucou Vivian, repuxando a boca quando a faixa de pano apertou seu ombro ferido. — O que não deixa margem para dúvidas é esse cristal... e, principalmente, essa ferida no seu pescoço. Isso aí é uma Marca de Vínculo legítima.

— Marca de vínculo?

— Fadas ancestrais têm a capacidade mística de selar laços vitais com outros seres vivos — explicou Vivian, gesticulando com a mão livre enquanto a outra repousava na tipóia improvisada. — Esse pacto permite que o hospedeiro canalize parte das autoridades e da magia da fada... mas a contrapartida é brutal: a criatura passa a se alimentar diretamente da reserva de Éter de quem a acolheu. Se essa marca ardeu na sua pele depois da mordida, significa que ela forçou um vínculo de emergência com a sua alma e tá drenando a sua energia vital neste exato segundo.

A garota de cabelos brancos soltou o ar ruidosamente, encarando Anna com severidade cirúrgica:

— Esse novo poder de fogo com certeza te deu um salto ridículo contra os reflexos... Mas o meu conselho sincero é que você procure um especialista e desfaça esse pacto assim que nós pisarmos na Capital.

Anna piscou devagar:

— Por que diabos eu faria isso?

— Você por acaso não ouviu a parte do "devorar o seu Éter"?! — Vivian exasperou-se, elevando o tom. — Uma ligação dessas é uma via de mão dupla perigosa! Enquanto essa Kitsune estiver ancorada em você, ela tem passe livre para sugar o seu núcleo até secar a última gota e te matar! O vínculo é uma ponte direta entre dois espíritos. Você já deve saber muito bem que é biologicamente impossível drenar ou roubar o Éter de outra pessoa em condições normais, não sabe?

Anna assentiu, sem alterar a calma:

— Sei. As frequências de onda são incompatíveis... Uma invasão forçada gera rejeição celular espontânea ou combustão interna.

— Exatamente — confirmou Vivian. — Com exceção de anomalias como os Serafins, a única maneira teoricamente viável de contornar essa barreira é amarrando duas almas pelo mesmo circuito. O Éter passa a ser compartilhado como se pertencesse a um único corpo... o que abre a brecha perfeita para uma das partes canibalizar a outra até a morte.

Anna encarou a própria palma ferida por alguns segundos, as juntas em carne viva ainda marcadas pelo esforço contra a rocha. Em seguida, deu de ombros com uma tranquilidade desconcertante:

— Entendi... É bem parecido com a conexão que eu e o Dante temos, até certo ponto.

Vivian estancou o movimento do braço. As pupilas dilataram-se em choque:

— Parecido com... PERA AÍ! O que diabos você e o Dante têm amarrado na alma de vocês dois?!

— Nada demais, ué. Relaxa — Anna desconversou com naturalidade límpida, empurrando o pingente para dentro da gola rasgada. — De qualquer forma, eu não vou desfazer esse pacto. Eu já decidi que ia salvar aquela garota da escuridão e eu não tenho o hábito de voltar atrás na minha palavra.

Vivian levou a palma à testa, soltando um gemido de pura descrença:

— Meu Deus do céu... Você pode até ter mudado de postura e despertado um poder absurdo, mas continua a mesma cabeça-dura.

— É o que dizem por aí — Anna sorriu de canto.

Ao lado de Vivian, Lilibeth puxou o nó final da atadura com um puxão delicado. Juntou as palmas abertas contra as próprias bochechas, os olhos purpúreos brilhando em devaneio:

— Mas essa determinação implacável da Mestra Anna é tão incrivelmente perfeita...! Quando você me prensou contra o chão daquele jeito, me fuzilando com aquele olhar sádico e aquela espada gigante queimando no meu pescoço... Ai, a Lilibeth quase se molhou todinha de tanta emoção, sabia?!

BAM!

O estalo foi seco e sonoro.

Vivian projetou a testa para a frente em um golpe cego, acertando em cheio a cartilagem do nariz de Lilibeth.

A mensageira tombou de costas na água rasa, debatendo as botas enquanto cobria o rosto com os dedos manchados de escarlate:

— AAAAAI! O NARIZ DA LILIBETH!

— FICA QUIETA, SUA PERVERTIDA MALDITA! — berrou Vivian, esfregando a própria testa dolorida.

— A LILIBETH JÁ FALOU MIL VEZES QUE NÃO É PERVERTIDA! — a garota choramingou do piso molhado, a voz anasalada pelo sangue fresco.

Alheia à algazarra, Anna tocou a saliência do cristal sob a blusa:

— Mas me diz uma coisa, Vivian... Como é que eu faço para ela sair daqui de dentro? Eu queria muito poder conversar com ela.

Vivian recompôs a postura, respirando fundo para conter a irritação:

— Bom... isso não vai acontecer tão cedo. Ela passou milênios inteiros selada naquela catacumba; a estrutura espiritual dela deve estar em frangalhos. O cristal é um casulo de estase. Normalmente, para uma criatura desse calibre se regenerar a ponto de projetar uma forma física de novo, você teria que esperar algumas boas décadas...

Lilibeth colocou-se de joelhos com um salto ágil, pressionando um lenço de linho contra as narinas:

— Mas com a reserva descomunal de Éter da Mestra Anna, esse prazo despenca! Se a Anna continuar nutrindo ela, em poucos meses já deve ter força o suficiente para se materializar! E se a Anna usar a Claymore de chamas em combate com frequência, o processo acelera ainda mais!

Vivian virou a cabeça num estalo furioso:

— Por que você foi abrir essa boca maldita?! Agora ela vai sair brandindo aquela espada gigante de forma totalmente inconsequente!

Anna ergueu uma sobrancelha:

— Como assim?

— O que essa maluca falou é verdade, mas você não pode sair gastando essa habilidade sem motivo! — Vivian advertiu, exasperada. — Toda vez que você empunha aquela lâmina, você canaliza a autoridade da fada e alimenta o casulo... mas isso também escancara as portas do seu núcleo. Se você exagerar na dose, abre o espaço perfeito para ela devorar o seu Éter de uma vez só e te transformar em um cadáver seco!

Anna apoiou o queixo na mão, avaliando o aviso com serenidade:

— Compreendi... Sendo assim, eu vou usar a espada com bastante moderação.

Vivian piscou, desarmada pela resposta:

— Pera... O quê? Você tá concordando comigo?! Por essa eu realmente não esperava.

— Alimentar alguém sem saber se a pessoa tá com fome me parece invasivo demais — explicou Anna com simplicidade. — E, além do mais... mesmo eu tendo certeza de que ela não vai tentar me matar, eu não posso me dar ao luxo de sair torrando energia à toa. Eu tenho um trabalho muito sério para terminar.

Vivian cruzou os braços, cética:

— Você tá subestimando o perigo. Bomba-relógio ou não, saiba que a esmagadora maioria das Fadas Primordiais que foram trancadas nestas ruínas eram criminosas hediondas da pior espécie...

— É, eu imagino — Anna deu de ombros, virando o olhar firme para a mensageira no chão. — Mas agora... Lilibeth.

Ao ouvir a ordem pronunciada com aquela clareza límpida, a garota de cabelos bicolores endireitou a coluna no mesmo segundo. Ajeitou as saias molhadas sobre as pernas, repousou as mãos enluvadas sobre os joelhos e ergueu os olhos em reverência dócil:

— Às suas ordens, Mestra Anna!

Anna franziu a testa:

— "Mestra Anna"...?

— É que... bem... a Mestra Anna é tão imponente, tão quente e dominadora que a Lilibeth pensou que nós poderíamos formalizar um—

— Nem começa. Esquece — cortou Anna, a voz soando fria. — Desembucha logo: quem é o sabotador?

Lilibeth murchou de imediato, tombando o tronco de lado na poça d'água feito um arbusto quebrado.

Vivian revirou os olhos:

— Olhando para essa palhaça agora, nem parece o demônio que quase me partiu ao meio minutos atrás...

Lilibeth ergueu-se devagar, projetando o lábio inferior em um beicinho dramático:

— Bom... já que a Mestra Anna está me ordenando com tanta autoridade... eu acho que não tenho outra escolha a não ser ceder.

— Ah, vai entregar o jogo fácil desse jeito?! — Vivian apontou o indicador, ultrajada. — Cadê toda aquela pose inabalável de dez minutos atrás, sua frouxa?!

Anna adiantou meio passo, sustentando as pálpebras baixas sobre Lilibeth:

— Anda logo. Fala de uma vez.

— Sim, senhora! — Lilibeth respondeu com prontidão, as maçãs do rosto afogueadas sob o lenço manchado. — A verdade é que a Descora tinha prometido que, se a Lilibeth fosse uma boa menina, cumprisse a patrulha e realizasse a missão perfeitamente sem falhas... ela ia arranjar um encontro romântico particular entre a Lilibeth e a Bishamon! Por isso que eu estava me esforçando tanto para manter segredo e impedir que vocês duas atrapalhassem o plano... Me desculpem!

O silêncio na câmara tornou-se denso como chumbo.

Vivian cerrou os dentes com tanta força que a mandíbula estalou. As veias de seu pescoço saltaram sob a pele pálida:

— Você... Você quase matou nós duas... VOCÊ QUASE ME EMPALOU NUMA PAREDE POR CAUSA DE UM ENCONTRO ROMÂNTICO, SUA MALDITA?!

Lilibeth encolheu os ombros sob a tempestade de gritos, rindo amarelo:

— M-Mas a Bishamon é a mulher dos meus sonhos...!

— Chega dessa palhaçada — Anna interveio, cortando o bate-boca num tom firme. — E então? Quem é o traidor que desviou as rotas de Babylon?

Lilibeth entrelaçou os dedos das mãos com timidez ensaiada, baixando a vista para as pedras:

— Se... se a Lilibeth contar tudinho... a Mestra Anna aceita sair em um encontro comigo depois?

— O QUÊÊÊ?! — Vivian explodiu. Avançou dois passos, cravou as mãos no colarinho rendado do vestido de Lilibeth e começou a sacudir a garota para a frente e para trás feito uma boneca de pano. — VOCÊ POR ACASO ACHA QUE TÁ EM POSIÇÃO DE EXIGIR ALGUMA COISA AQUI, SUA IDIOTA?!

— Mas se a Lilibeth abrir o bico agora ela vai perder o encontro com a Bishamon! — a mensageira choramingou com os olhos marejados, sacolejando na pegada de Vivian. — Não é justo só a Lilibeth sair no prejuízo e ficar triste nessa história!

— A culpa é exclusivamente sua por ter perdido a luta! Anda, desembucha antes que eu use as minhas tesouras para arrancar as suas duas orelhas fora!

— Tudo bem — a voz calma de Anna rompeu o tumulto. — Eu saio com você, Lilibeth.

Vivian congelou os pulsos no ar, a boca aberta em puro espanto.

Lilibeth arregalou as íris violetas, o choro evaporando num estalo:

— JURA?! De verdade verdadeira, Mestra Anna?!

— Juro. Agora fala logo.

Vivian soltou o tecido com asco, deixando a garota cair sentada sobre o piso molhado.

— YAAAAY! — Lilibeth bateu palminhas no ar. — Então a Lilibeth vai contar absolutamente tudo o que sabe!

A mensageira puxou o ar pelas narinas, a postura recuperando um lampejo raro de seriedade enquanto descia o tom para um sussurro rasteiro:

— O infiltrado responsável por sabotar os computadores centrais e corromper os trilhos... é o Love.

O ar na câmara pareceu esvaziar-se de um só golpe.

Anna e Vivian paralisaram sobre a rocha úmida.

— O... o quê? — murmurou Anna, o fio de voz quebrado pela descrença.

A silhueta daquele homem alto, loiro e desajeitado desenhou-se em sua mente: o sujeito que tropeçava nos próprios pés, que sorria de forma mansa e que insistia em reunir os passageiros para almoços de domingo no meio daquela comitiva de predadores. O membro que parecia mais próximo de uma pessoa comum dentro da família Scarlune.

Logo ele?

Vivian deu dois passos trôpegos para trás, balançando a cabeça em recusa visceral:

— Não... Isso é impossível! Você tá delirando! O Love jamais faria uma merda dessas! Ele é a pessoa mais inofensiva e pacífica daquele trem inteiro! Você deve ter visto errado!

— Acha que a Lilibeth também não ficou chocada?! — retrucou a nobre, apontando a mão para o peito. — Mas pelo tom de voz da Descora quando ela me passou as instruções... a própria Chefe de Segurança já desconfiava dele há muito tempo! Era exatamente por isso que ela precisava de provas irrefutáveis e concretas colhidas através dos meus espelhos antes de fazer a denúncia formal perante a corte!

Vivian pressionou a base da palma contra a têmpora, o peito arfando descompassado:

— Logo o Love... O que caralhos tá acontecendo com essa família...?

Anna deu um passo à frente, as pupilas cravadas na mensageira com foco absoluto:

— Você sabe o motivo?

Lilibeth arrumou o laço do decote com os dedos trêmulos, vasculhando a memória das frequências interceptadas:

— Pelo que a Lilibeth conseguiu captar nas conversas secretas daquela garota... a Delta... o Love não está agindo sozinho e nem por capricho pessoal. Eles estão respondendo às ordens diretas de uma organização externa. Um grupo chamado... Horizon.

A palavra caiu como uma detonação no centro do crânio de Anna.

A circulação da garota congelou. As pupilas contraíram-se em fendas mínimas e o ar travou na garganta em um nó sufocante.

Horizon...?!

Antes que Vivian pudesse assimilar o nome, Anna avançou. Cravou as mãos com violência nos ombros de Lilibeth, sacudindo a mensageira num espasmo cego:

— VOCÊ TEM CERTEZA DO QUE ACABOU DE FALAR?! RESPONDE, LILIBETH! ELES SÃO MESMO DA HORIZON?!

Lilibeth sobressaltou-se com o impacto por um segundo... mas, no milésimo seguinte, a rigidez de seu rosto derreteu em um rubor vivo e os olhos semicerraram-se em puro deleite languoroso:

— Aaaai... Mestra Anna... calma, vai mais devagar...! — murmurou ela, as bochechas afogueadas enquanto balançava na pegada de ferro. — A Lilibeth não aguenta quando você fica tão agressiva e bruta desse jeito... Isso é golpe baixo...!

Vivian rangeu os dentes até a mandíbula estalar, agarrando Anna pelo antebraço para contê-la:

— CONCENTRA NESSA MERDA, SUA MALDITA!

Parte 9

O estilhaçar da vidraça de alta densidade choveu sobre a rua em estilhaços pontiagudos.

Projetando-se pelo vão do terceiro andar, Love tocou o telhado vizinho com a sola macia das botas, sem quebrar o embalo da queda. Cruzou a cumeeira de telhas úmidas em velocidade terminal, descendo pelos beirais em direção ao labirinto de vielas da periferia.

Atrás dele, o ar sibilou em queimação química.

— Acha mesmo que vai escapar tão fácil de mim, loirinho?!

O zumbido de um frasco reforçado cortou a brisa úmida. O reagente púrpura brilhava em fosforescência instável através do vidro espesso.

Love inclinou a cabeça milimetricamente para o lado. O projétil passou rente à sua têmpora e cravou-se na empena de tijolos colada à sua rota de fuga.

A detonação alcalina arrebentou a alvenaria. Uma labareda roxa cuspiu cinza cáustica e fumaça corrosiva, empurrando o corpo de Love com a onda de choque. Ele usou a própria expansão do ar para torcer o tronco em pleno voo, tocou o calçamento de pedra de uma ruela deserta em rolamento limpo e retomou a disparada sem vacilar a passada.

Paracelso desceu num salto ágil, a capa estalando ao vento enquanto as mechas ciano chicoteavam ao redor do rosto. A perseguição não dava trégua:

— Love, seu desgraçado covarde! Vai ficar fugindo feito um rato sem dizer uma única palavra?! Cadê toda aquela audácia de bom moço?! Eu quero saber exatamente que motivos doentios você teve para fazer uma merda dessas!

Pelo canto do olho, Love mediu a aproximação da mulher.

Não trazia afobação ou culpa nas feições. Seu semblante permanecia cirúrgico, plano — o cálculo frio de quem desenhara aquele tabuleiro com meses de antecedência. Ele apenas alongou as passadas, ganhando terreno em direção aos limites da cidade.

Ao ver a distância estabilizar, Paracelso desceu a mão à cartucheira, pinçando outro frasco com os olhos semicerrados em fúria analítica.

Love antecipou o vetor.

Antes do arremesso, o rapaz girou sobre os calcanhares. Uma lâmina fina de Éter brotou de sua mão direita e fatiou o canto de uma mureta de concreto com a facilidade de quem corta papel. Com um chute seco e frontal de sola, disparou o bloco de alvenaria em rota de interceptação.

Pedra e vidro colidiram no ar.

A explosão química detonou a meia distância, erguendo uma muralha espessa de fuligem e vapor cáustico que engoliu a ruela e bloqueou a visão de Paracelso.

A mulher travou os saltos na pedra, abanando a fumaça ácida que ardia nas narinas:

— Como sempre... inteligente e ardiloso até demais, loirinho.

Aproveitando a cortina tóxica, Love mergulhou pela vegetação fechada do flanco leste. Deixou para trás o emaranhado de raízes do cedro e emergiu em um descampado de terra batida e capim seco, rente às escarpas que margeavam Westfalia.

Puxou o ar para esticar a corrida rumo ao horizonte.

O espaço à frente fendeu-se num silvo ríspido.

Vindo de um ângulo morto pela esquerda, uma bota de couro reforçado, envolta numa crosta densa de Éter puro, desceu num golpe de machado mirando a lateral de seu torso.

Love cruzou os antebraços em guarda no último compasso.

O choque ressoou com a violência de uma britadeira. A força cinética arrastou suas botas pelo cascalho por dez metros, abrindo dois sulcos na terra antes que ele girasse o corpo no ar, cravasse as solas no solo e dissipasse o recuo sem perder o prumo.

À sua frente, pousando com as palmas nos quadris e as orelhas pontiagudas de elfo negro agitadas pelo vento, estava a governante da cidade.

Lapiz Scarlune estalou a cervical com um sorriso afiado:

— Pelo visto... o meu palpite amargo estava coberto de razão. Era mesmo você, seu maldito desgraçado!

Ela deu dois passos lentos na direção dele, as fendas douradas das pupilas faiscando em ódio territorial:

— Me responde uma coisa, seu merda: quem é que vai pagar por toda a desgraça e pela bagunça colossal que essa corja que você arrastou para cá vai causar nas minhas ruas, hein?!

Love sustentou o queixo erguido. O mesmo olhar neutro e metódico repousou sobre a meio-elfa, sem demonstrar vestígio de intimidação.

Lapiz trincou os dentes diante daquele silêncio:

— Eu não conhecia essa sua carinha de enterro... Mas fica sabendo que cara feia para mim é fome, seu bosta! Se você acha que vai conseguir dar no pé de Westfalia depois de virar a minha cidade de cabeça para baixo, pode ir tirando o seu cavalinho da chuv—

Love atacou.

Sem aviso ou ruído prévio, cruzou a distância em uma linha reta fulminante. A bota conectou um chute lateral pesado contra a guarda de Lapiz, erguendo a mulher do solo e arremessando-a de encontro a um barranco de barro.

No mesmo movimento contínuo, Love vergou a coluna para o lado, esquivando-se por milímetros de outro frasco que cruzava a clareira em trajetória rasante.

O vidro estourou na terra onde ele pisava um segundo antes, abrindo uma cavidade sibilante em fumaça ácida.

Lapiz sacudiu a terra das saias e cuspiu poeira ao levantar-se do barranco, a veia da têmpora saltada:

— PARACELSO, SUA VADIA MALUCA! VOCÊ QUASE ME ACERTOU COM ESSA MERDA! TÁ TENTANDO ME MATAR POR ACASO?!

Paracelso despontou entre a orla da vegetação em passos tranquilos, ajustando as luvas de couro:

— Relaxa, Lapiz. Você é dura na queda, eu sabia que um respingo não ia te matar. E convenhamos: nós duas sabemos muito bem que eu jamais acertaria aquele sujeito sem arriscar um dano colateral.

A alquimista parou ao lado da líder local, os olhos dourados esquadrinhando Love com rigor cirúrgico:

— Mas veja só que ironia fascinante... Mesmo depois de virar a porra de um traidor sem escrúpulos, você ainda tirou a Lapiz da linha do meu ataque antes de desviar. Você ainda continua protegendo a família, não é, Love?

Ela soltou um riso curto, despido de calor:

— O que significa que eu posso descartar oficialmente qualquer hipótese idiota de controle mental, feitiço de manipulação neural ou lavagem cerebral. Você traiu a família Scarlune por vontade própria, seu desgraçado.

Lapiz emparelhou os ombros com ela, cruzando os braços:

— Então você já tinha matado a charada?

— Era elementar, Lapiz — Paracelso respondeu com desapontamento nítido. — A Descora jamais alteraria as malhas de transporte de Babylon por um joguinho de teste fútil. Aquilo cheirava a sabotagem interna desde o primeiro segundo. Mas eu precisava confirmar pessoalmente a identidade do autor. Eu sabia perfeitamente que, além da própria Descora, a única pessoa neste continente com credenciais absolutas e autorização irrestrita para operar dentro da sala de controle mestre... era o Love. Ele tinha a oportunidade perfeita.

A mulher fechou a mão em punho:

— E, ainda assim... eu preferia ter acreditado na loucura de uma rebelião armada da própria Descora antes de aceitar que logo você... o nosso loirinho ingênuo, o rapaz mais pacífico e bondoso da linhagem... faria algo tão baixo e imperdoável quanto nos vender para terceiros. E para fechar com chave de ouro, você nem sequer se dá ao trabalho de abrir a boca para tentar formular uma desculpa esfarrapada. Por acaso o gato comeu a sua língua, Love?!

O silêncio do descampado pesou sobre a terra.

Sob a cobrança das duas, Love baixou as pálpebras devagar.

Por um instante, o rigor cirúrgico desmanchou-se: a linha de seus lábios pesou para baixo em uma exaustão profunda e sombria. Parecia carregar o desgaste de um mundo inteiro sobre os ombros.

A hesitação, contudo, durou o espaço de uma respiração.

Love puxou o ar pelas narinas, endireitou a postura e encarou ambas com firmeza fria:

— Não faz o menor sentido tentar me explicar para vocês duas. Nada do que eu disser mudará o que já foi decidido... e nada impedirá o que tem que acontecer.

— De fato.

A resposta não veio da mata nem das vielas.

Despencou direto das nuvens cinzentas, límpida, cortante e majestosa.

Um estrondo sísmico sacudiu a encosta de Westfalia. O impacto balístico abriu uma cratera de dez metros de diâmetro a três passos das costas de Love, arremessando cascalho, terra seca e uma lufada violenta de ar comprimido que fez as roupas das duas mulheres chicotearem.

Paracelso e Lapiz travaram a postura, os olhos cravados na névoa de poeira onde o Éter condensado ainda fumegava em ondas visíveis.

Sem poeira ou vincos no linho escuro, uma silhueta deu o primeiro passo para fora da depressão de terra.

O sobretudo de corte vitoriano ondulava sob a ventania; os cabelos negros, levemente desalinhados pelo atrito supersônico da queda, emolduravam um semblante lívido e impassível. As íris brancas sobre a esclera azul e profunda deslizavam pela clareira como uma sentença lavrada.

A respiração de Paracelso falhou na garganta:

— O homem de confiança da Cendrillon... Rougue.

Sem conceder um olhar à alquimista ou à governante, Rougue alinhou a vista nas costas de Love. A voz soou metódica, sem inflexão:

— É um desperdício imperdoável de tempo insistir na extração de justificativas fúteis. A Mestra Cendrillon já concluiu o julgamento e determinou a sua punição em definitivo. Sendo assim, deponha suas armas, renda-se e acompanhe-me sem contestação.

Love virou o tronco devagar.

Encarou o executor com uma sobrancelha arqueada num desafio mudo:

— E caso eu me recuse?

O ar estalou.

Uma coluna asfixiante de Éter azul-escuro detonou ao redor de Rougue. A pressão dobrou a atmosfera da clareira, fazendo o chão estalar sob suas solas e abrindo novas fissuras no barro batido.

Rougue sentenciou:

— Isso não é uma opção.

Parte 10

O eco do tremor telúrico ainda reverberava nas paredes das galerias superiores quando a poeira de calcário começou a descer em fios brancos das abóbadas de pedra. A assinatura de energia que acabara de rasgar as profundezas das ruínas não se parecia com nada que os outros candidatos pudessem produzir.

Shisui assobiou baixo, semicerrando as pálpebras enquanto puxava pelas narinas o ar carregado de ozônio:

— Mas que diabos de explosão foi essa agora? Por acaso outro grupo resolveu transformar uma das câmaras em zona de guerra? Quem é que teria uma reserva de Éter descomunal desse jeito para fazer o subsolo inteiro ranger?

Blade manteve os braços cruzados sobre o tórax largo, as íris douradas cravadas na penumbra da galeria inferior:

— Não foi o Ozymandias. E muito menos o Dante. Aquela assinatura... pertence à garota loira que estava acompanhando ele.

Shisui piscou, o queixo descendo em puro desdém:

— Pera aí... Você tá me dizendo que aquela mosca-morta sem sal guarda esse nível aberrante de poder dentro da carcaça? Fala sério...

Aproveitando a hesitação dos três, Delta recuou a bota devagar pelo cascalho úmido, buscando a sombra de uma pilastra partida para sumir na escuridão.

— Ei, ratinha — o tom zombeteiro de Shisui cortou a passagem. — Você por acaso achou mesmo que ia conseguir dar no pé de mansinho bem na nossa frente?

Delta estancou. A espinha retesou sob o peso do aviso e ela virou o queixo milímetro a milímetro, encarando a muralha formada pelos três Caçadores.

Blade adiantou o passo. A sola de sua bota blindada estalou contra a pedra com a firmeza de um tribunal militar:

— Pouco importa quem causou a detonação lá embaixo. Isso não altera em nada o nosso protocolo imediato. Diga logo de uma vez, garota: o que exatamente a Horizon veio buscar neste continente?

O nome da organização bateu na galeria como ferro em brasa.

Delta arregalou as pupilas, o suor frio colando as mechas da franja na testa ao constatar que o disfarce desmoronara por completo. Não havia margem para fuga ou negociação. Estava encurralada diante de três dos piores executores que a família Scarlune mantinha na ativa.

A respiração descompassada da garota assentou de repente. O choro e a histeria de segundos atrás secaram em suas feições, dando lugar a uma rigidez fúnebre:

— Vocês vão ter que me matar.

Shisui arqueou as sobrancelhas, surpreso com a virada abrupta:

— Olha só... A pirralha que tava se debulhando em lágrimas agora há pouco decide virar mártir do nada? Confesso que isso chega a dar um arrepio na espinha.

— Não há surpresa alguma na reação dela — pontuou Blade, o timbre grave descendo em severidade metódica. — O sindicato mercenário Horizon... Para o público leigo e para os relatórios da Agência, não passam de um bando de anarquistas sem pátria que vendem lâminas para quem pagar a maior quantia de ouro. No entanto, nos últimos tempos, começaram a ganhar renome desmedido graças ao poder esmagador de seus oficiais de elite... Todos operando confortavelmente sob o manto protetor do Reino das Sombras, respaldados pela própria Princesa Neo.

Blade estreitou as pupilas sobre a jovem:

— Eu venho investigando a movimentação dessa facção há meses. E quanto mais escavo os arquivos confidenciais, mais evidente fica que um tabuleiro colossal está sendo manipulado nos bastidores. Vários eventos catastróficos recentes foram tratados pela imprensa como meras missões mercenárias isoladas... Mas o padrão por trás do caos é cirúrgico: o incidente na Torre Dates, o exato local onde o Dante havia sido dado como morto; o atentado terrorista a bordo do Titanic, o cruzador estelar estraçalhado em sua viagem inaugural pela máfia Salazar; o desaparecimento completo da metrópole de Sancro, engolida sem deixar rastros no continente de Umbra; e até mesmo o atentado contra a cúpula de governo no incêndio criminoso do Terminal Cinza.

O Scarlune cerrou o punho enluvado com força audível:

— Sempre que uma tragédia dessa magnitude explode pelo mundo... O nome da Horizon está silenciosamente cravado nas cinzas.

Justia deslizou a mão até a empunhadura da espada, o semblante endurecendo:

— O que significa que nós nos tornamos o próximo alvo da lista deles.

— Exatamente — confirmou Blade, sustentando o foco em Delta. — Mas a nossa jovem amiga aqui vai abrir a boca e nos dar as respostas que precisamos... Não vai?

Delta cravou as unhas na pedra mágica até os nós dos dedos empalidecerem. Ela ergueu a fronte, encarando os três sem vacilar um milímetro:

— Eu já mandei vocês me matarem, caralho.

O cristal na palma de sua mão acendeu-se em um pulsar alaranjado.

— Não vai ser preciso tanto drama, baixinha!

A voz arrastada, cheia de sotaque e escárnio de Ceto brotou do transmissor rúnico:

— Mas que feiura sem tamanho, hein? Três Scarlunes encurralando uma menininha indefesa num canto escuro? Quanta covardia desses nobres pomposos de Threshold, francamente! Mas já que a barra pesou desse jeito, eu me resolvo com o Rasputin depois... Delta, relaxa e vaza logo pro trem!

Delta piscou, atordoada:

— Pera... Como assim?! E esses três monstros na minha frente?!

Blade arrancou. Num reflexo mecânico, a mão maciça do comandante avançou para triturar o comunicador e prensar a garota contra o chão.

Antes que as pontas de seus dedos vencessem o espaço, porém, o arrepio de perigo iminente disparou na base de sua nuca.

Uma lufada de pura intenção assassina atingiu seus sentidos.

Blade cravou o calcanhar na laje e projetou a coluna para trás em um salto defensivo. No mesmo milésimo, Shisui e Justia saltaram lateralmente, recuando quatro metros enquanto a atmosfera da galeria se contorcia sob uma presença que dobrou o ar ao redor.

Delta permaneceu imóvel. Ao olhar para trás, viu o vazio rasgar-se em uma fissura líquida e asfixiante.

Uma esfera colossal de água negra e pesada inflou no centro do corredor, abrindo-se numa boca dimensional que feria o espaço com um odor salgado e fétido de fossa marinha.

De dentro da fenda gélida, duas figuras transpuseram o portal.

A primeira era uma mulher alta, de postura predatória e esguia. Longos cabelos prateados caíam pelas costas, com uma mecha grossa descendo pela lateral esquerda de seu rosto. Usava um chapéu preto pontudo de abas largas sobre as orelhas pontiagudas, a pele alva como mármore fúnebre e íris carmesins que queimavam em luminescência hipnótica. O sobretudo escuro estava aberto sobre o peito, exibindo o forro de seda branca e imaculada.

A silhueta exalava a linhagem aristocrática de uma nobre vampira ancestral... Mas o Éter que escorria de seus ombros carregava uma densidade muito mais arcaica e asfixiante.

Logo atrás, apoiando a fenda dimensional com as duas mãos cravadas na haste de um tridente pesado de ferro escuro, vinha Ceto. A garota-tubarão trazia os cabelos brancos desgrenhados sob a boina, as presas arreganhadas enquanto sustentava a passagem:

— Anda logo, pirralha! A gente não tem o dia todo!

Delta não hesitou. Disparou pelo corredor lateral em direção aos trilhos externos.

Blade flexionou os joelhos para fechar a saída da fugitiva, mas estancou antes do primeiro apoio.

Num piscar de olhos, a mulher de sobretudo preto materializou-se entre ele e a passagem.

A luva da estranha puxou três centímetros de uma lâmina oculta no cinto: uma katana prateada, fina e polida como o reflexo da lua cheia. A mera pressão do ar expelido pelo aço ao deixar a bainha foi suficiente para frear o ímpeto do comandante.

Ceto descansou o tridente no ombro, respirando fundo:

— Dá conta dessa tropa aí, Lucia?

Lucia percorreu as feições blindadas de Blade, deslizou a vista pelo riso afiado de Shisui e mediu a guarda de Justia. Seus lábios mal se moveram ao ditar:

— Vai ser rápido. É melhor você ir logo resolver o próximo problema.

— Pode deixar! — Ceto puxou a haste da arma de volta, desfazendo o feitiço.

Antes que a bolha de água negra colapsasse no vácuo, Justia deu meio passo à frente, as pupilas azuis cravadas no metal que desaparecia na fenda:

— Espera aí... Aquela arma não é...?!

A fenda fechou-se num estalo úmido, engolindo Ceto e deixando apenas poças escuras sobre o piso.

Shisui descruzou os braços devagar. Os olhos do pirata estreitaram-se em fendas perigosas enquanto uma veia grossa inflava na têmpora:

— Mas que coisa mais curiosa... Eu acho que a umidade desse labirinto entupiu os meus ouvidos. Não é possível que eu esteja escutando direito... Porque por um segundo, eu tive a impressão bizarra de ouvir essa mulher dizer que vai ser "muito fácil" acabar com a gente. Será que o meu raciocínio tá correto, ó pálida de araque?

Lucia sustentou o olhar sem piscar. As íris vermelhas repousaram sobre o pirata com a frieza de quem observa poeira assentando:

— Você ouviu perfeitamente.

A vampira virou levemente o queixo, o fio prateado da lâmina cintilando na penumbra:

— Na verdade... Eu preferia que vocês durassem um pouquinho mais.

O deboche estalou como um tapa seco na galeria.

O sorriso de Shisui desfez-se em uma careta de cólera homicida.

A Aura ao redor de seu corpo detonou num estrondo que rachou o piso ao redor de suas botas e, sem qualquer aviso, o pirata catapultou-se pelo ar, desabando sobre Lucia em uma investida assassina.

No descampado que margeava os limites da mata de Westfalia, a atmosfera estava a um passo da ruptura.

O Éter azul-marinho de Rougue fechava-se como uma prensa sobre Love. No instante em que o executor elevou a lâmina para disparar o golpe cinético que cortaria a fuga do rapaz...

Outra massa de água negra rompeu a terra batida.

De dentro do líquido escuro, um tentáculo colossal, recoberto por ventosas grossas e banhado em Éter abissal e pegajoso, chicoteou contra o céu. A muralha viva interpôs-se na trajetória do feixe de Rougue, absorvendo o impacto e evaporando em uma nuvem densa de vapor fervente.

Paracelso, Lapiz e Rougue recuaram em sincronia, cravando as solas a dez metros da anomalia.

A carne monstruosa recolheu-se para o fundo da poça, abrindo passagem.

Com passos calmos, um homem emergiu da fenda.

Vestia um casaco pesado de inverno, feito para nevascas polares. Os cabelos pretos e curtos emolduravam feições duras, com armações metálicas de óculos repousando sobre o septo. Mas o que atingiu as narinas de Paracelso foi a aura empesteada que o envolvia: um odor adocicado e denso de formaldeído, tecidos em decomposição e carne morta.

O recém-chegado ajustou as luvas de couro, a voz rouca deslizando clara contra o vento:

— Parece que tivemos uma mudança drástica de planos, Love. Vá para o comboio agora mesmo. Nós não temos mais tempo a perder.

Love fixou os olhos em Lapiz e Paracelso por uma fração de segundo. Não havia desafio em seu rosto; apenas o peso sombrio de quem se conformava com a própria conduta. Sem dizer uma palavra, o loiro girou sobre as solas e disparou em direção aos trilhos.

Rougue flexionou as articulações, a energia azul detonando sob as botas para abater o desertor.

O chão à frente de Rougue desabou numa cratera funda.

Da fenda de barro aberto, uma garra titânica, enegrecida e demoníaca rompeu a terra em velocidade violenta, fechando-se como uma barricada de osso e escamas diante do carrasco de Elysium.

Paracelso deu dois passos contidos à frente, as pupilas purpúreas divididas entre asco e interesse analítico:

— Ora, ora... Quem diria que o nosso primeiro encontro formal aconteceria sob essas circunstâncias tão dramáticas.

O homem de sobretudo tocou o aro dos óculos com a ponta dos dedos, alinhando as lentes:

— Será que a renomada senhora Paracelso já me conhecia previamente?

A alquimista soltou um riso curto, gélido como o vento da encosta:

— Não existe uma única alma neste mundo que tenha dedicado a própria existência aos mistérios da ciência médica e respire há pelo menos duas décadas... Que não seja capaz de reconhecer as feições do infame arquiteto do desastre... Maicon Dates.

Ao escutar o próprio nome, Maicon repuxou o canto da boca em um sorriso estreito, despido de qualquer traço humano.

As linhas daquele tabuleiro rompiam-se depressa demais, soterrando o cronograma planejado. Antes que o Segundo Teste coroasse os primeiros guerreiros a transporem as catacumbas de Westfalia, a rota do continente já havia sido marcada por um rastro de sangue novo.

A quilômetros dali, junto aos portões de ferro da Capital Central, Descora aguardava imóvel sob os flocos de neve fina a chegada da carruagem blindada de Cendrillon Beaumont.

No interior do Quartel-General de Segurança, contudo, a quietude foi estraçalhada por sirenes estridentes.

Os alertas de emergência tingiram os consoles rúnicos em giros carmesins. Operadores debruçaram-se sobre os visores, as vozes engasgadas em pânico militar:

— ALERTA VERMELHO! Assinatura de telemetria não catalogada no quadrante sul!

— Uma dobra espacial de classe S acabou de violar a barreira atmosférica de Threshold através de um mundo de bolso! A tempestade magnética foi ignorada!

— Localizem o vetor imediatamente! Precisamos notificar a Senhora Descora antes que o isolamento colapse!

Alheio aos alarmes que ecoavam pela Capital, Love avançava a passos firmes pelos dormentes da linha férrea rumo ao terminal leste de Westfalia.

Na mão direita, o metal frio da Segunda Chave das Ruínas emitia um zumbido harmônico e contínuo, pronto para a liberação final.

Sem diminuir a passada, o rapaz soltou as palavras contra a neblina que cobria os trilhos:

— Parece que o momento... Finalmente chegou.

 
 
 

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