The Fall of the Stars: Capítulo 8 - Verdades diante do espelho

Atualizado: 21 de set.
Volume 5 : Trem Escarlate
Parte 1
O vaivém apressado no saguão da estação central abria-se antes mesmo de o trio alcançar a linha das catracas. Malas de lona, carrinhos de carga e mecânicos cobertos de fuligem desviavam em silêncio, empurrados para as margens por uma pressão invisível. O grupo não diminuía o passo, não desviava os ombros e não baixava os olhos: movia-se com a certeza mecânica de quem sabe que o espaço ao redor deve ceder por pura obrigação.
O contraste com o ferro oxidado e o vapor oleoso da ferrovia era imediato. À esquerda, uma mulher de dois metros de altura dominava o campo de visão em curvas largas e pesadas sedas nobres, os cabelos dourados caindo pelas costas como metal polido enquanto um decote generoso desafiava a severidade do corte vitoriano. À direita, um homem alto, de postura rígida sob um sobretudo preto sobre camisa engomada, avançava com pele de mármore e cabelos escuros puxados para trás; seus olhos traziam uma esclera azulada profunda em torno de íris brancas e impenetráveis.
No centro da escolta, caminhava a governante.
Mais baixa que os guardas, a jovem trazia os fios em tom azul-petróleo escuro, quase negro, cortados em uma franja reta que ocultava inteiramente o lado direito de seu rosto. O olho esquerdo exposto — no mesmo azul gélido de pupila alva de seu lacaio — mirava um ponto fixo à frente. A fisionomia de porcelana não oscilava, presa em um tédio aristocrático que parecia tolerar a existência dos passageiros como um estorvo passageiro.
Ao transporem o portão de ferro forjado do acesso restrito, estacaram diante da recepção.
A mulher trajava uma versão encurtada e ajustada do uniforme de criada, com decote aberto entre rendas escuras. Mechas alvas emolduravam o rosto até pontas tingidas de violeta vivo, e seus olhos amarelos brilharam ao identificar os recém-chegados.
Inclinou o tronco em uma mesura comedida:
— Sinto-me profundamente honrada por ser encarregada de sua escolta particular neste dia, senhorita Cendrillon.
As solas de verniz de Cendrillon pararam sobre a laje polida. O olho visível ergueu-se com lentidão, percorrendo o avental e o laço da criada com o desdém de quem inspeciona uma mancha no assoalho.
— Hum... Quanta audácia — o tom saiu aveludado, límpido e cortante. — É de uma prepotência sem limites da Descora achar de bom tom enviar uma subordinada qualquer para me escoltar, em vez de comparecer pessoalmente à plataforma.
Katherine endireitou a coluna, forçando um sorriso brando:
— Peço minhas mais sinceras desculpas pelo inconveniente, senhorita. Mas é que, diante dos acontecimentos recentes na rede ferroviária, a situação no Quartel-General de Segurança tornou-se extraordinariamente delicada. A presença da senhora Descora no centro de comando é indispensável no momento.
Cendrillon pendeu o queixo de leve, os olhos correndo pelas vigas de ferro do teto:
— Os pretextos dela não me interessam na mais absoluta medida. Para começo de conversa, se o sistema falhou, o erro foi exclusivamente dela. Sendo assim, por qual razão lógica caberia a mim arcar com o desconforto decorrente da incompetência alheia?
Ao lado, a loira levou um cantil de prata aos lábios. O estalo do líquido engolido quebrou a rigidez do compasso; ela limpou o queixo com as costas da mão e soltou um riso frouxo:
— Ora, vamos, Cend... Seja justa. Você sabe perfeitamente que, se a Descora tivesse deixado a sala de controle para vir até a estação, você estaria reclamando da mesma forma. Diria que era o cúmulo do ridículo a Chefe de Segurança perder tempo bancando a lacaia no meio de uma crise em vez de estar caçando a sabotagem.
Cendrillon não mudou a linha da boca ao volver o pescoço:
— E estaria coberta de razão. Teria sido uma falha ainda mais deplorável e amadora. No entanto, o fato de ela ter optado pelo menor dos males não anula a realidade incontestável de que ela ainda cometeu um erro. Ela escolheu a mediocridade menos danosa. Portanto, está mais do que respaldado pelo meu status o pleno direito de reclamar.
Katherine piscou, desarmada pela frieza do raciocínio:
— Se me permite a curiosidade, senhorita Cendrillon... Se estivesse no comando daquela sala, o que teria escolhido fazer?
Um fulgor escuro acendeu-se no olho gélido da aristocrata. Os cantos dos lábios ergueram-se num traço fino:
— Não é dolorosamente óbvio? Eu já teria identificado o infiltrado, purgado qualquer falha estrutural na rede, sufocado a invasão pelas raízes e estaria aguardando na plataforma para me receber com a situação resolvida... e a cabeça decepada do traidor repousando sobre uma bandeja de prata.
Katherine engoliu em seco. Uma gota de suor frio escorreu rente à sua orelha.
— Entendi... A senhorita realmente mira bem alto.
Cendrillon soltou uma expiração curta pelo nariz, sem traço de humor:
— "Mirar alto"? Está redondamente equivocada. Na minha régua, nada que esteja abaixo da perfeição matemática tem o direito de existir. Não se trata de ambição ou otimismo desmedido; é simplesmente o padrão básico pelo qual eu opero todas as manhãs.
Ela retomou o passo, as anáguas pesadas farfalhando com a rigidez de ferro batido.
— Por favor, acompanhem-me — Katherine adiantou-se, apontando o túnel iluminado a gás. — O trem privado aguarda na linha secundária. Eu os guiarei imediatamente.
— De fato, nós iremos — devolveu Cendrillon, sem olhar para trás. — Mas antes, pretendo extirpar a raiz desse problema do traidor de uma vez por todas.
A empregada estacou sobre os paralelepípedos:
— Como disse...?
Cendrillon soltou um suspiro abafado, as sobrancelhas unindo-se em puro cansaço:
— Eu detesto ter que me repetir para ouvidos desatentos.
— Cend, querida... seja um pouco mais compreensiva com ela — Rozalyne interveio entre risos, enfiando o cantil de volta no corpete.
— Cada fração de segundo desperdiçada neste terminal provinciano é um segundo que eu poderia estar investindo no aprimoramento cinético das minhas bonecas — cortou a jovem com precisão cirúrgica. — Portanto, não estou na menor disposição de demonstrar compreensão. Rougue.
O homem de sobretudo deu um passo à frente, quebrando a imobilidade de estátua. Inclinou a fronte em reverência milimétrica, os olhos bicolores fixos na jovem mestre.
— Deixarei a caçada ao traidor e aos demais envolvidos sob sua responsabilidade direta — instruiu Cendrillon, o tom descendo como uma ordem de corte. — Para mantermos as aparências políticas perante a corte, eu irei até a capital para auditar pessoalmente a integridade da rede de defesa, embora já seja pateticamente evidente que não se tratou de um ataque externo. Em seguida, marcharei ao seu encontro. Mas, para não desperdiçarmos preciosas horas de desenvolvimento, quero que você avance na frente.
Katherine franziu o cenho, o braço ainda estendido para o corredor:
— Com o devido respeito, senhorita... O senhor Rougue terá que embarcar conosco no trem privado de qualquer forma. Os outros comboios estão alocados em rotas de teste e a nossa composição é a única autorizada a circular em linha direta sem paradas técnicas. Ele terá que ir até a capital para, somente de lá, solicitar um transporte de retorno.
Cendrillon parou. O ar pareceu esfriar alguns graus ao redor de suas botas de veludo.
— Costuma-se dizer entre os mortais que o que torna um indivíduo tolo não é a ausência de instrução, mas sim a convicção arrogante de que o parco conhecimento que carrega é absoluto. No entanto... confesso que não esperava ter o desprazer de testemunhar alguém cometer a audácia monumental de tentar me ensinar algo.
O peso daquela presença fez os ombros de Katherine curvarem-se involuntariamente.
Rougue limitou-se a piscar, soltando o ar pelo nariz:
— Como a senhorita ordenar. Apenas para alinhamento: devo manter o infiltrado com sinais vitais preservados?
— Se for conveniente — ela deu de ombros, desinteressada. — Mas não hesitarei em absolver sua conduta caso decida executá-lo, caso ele se mostre minimamente desobediente.
Sem uma palavra de resposta, Rougue girou sobre os calcanhares e caminhou em direção à extremidade desprotegida da plataforma, onde a muralha de névoa e geada uivava contra a borda de pedra.
— E-Espere um instante! — Katherine correu dois passos, o alarme patente na voz. — O campo atmosférico lá fora é intransponível! É absolutamente impossível conjurar magias de teletransporte nesta fronteira por conta da anomalia magnética das linhas de Ley!
Cendrillon sequer virou o queixo:
— Preserve o resto de dignidade que ainda lhe resta, serviçal, e limite-se a observar em silêncio. O seu intelecto limitado compreenderá a mecânica em breve.
Rozalyne seguiu o companheiro até a borda exposta. O vento gélido chicoteava suas clavículas e a fenda do vestido, mas a loira apenas puxou o ar frio pelas narinas, acostumada à tempestade.
Lançou um olhar de esguelha ao homem:
— Pronto?
— Vamos encerrar isso de uma vez — respondeu ele, mantendo as mãos coladas às pernas.
Rozalyne cerrou o olho direito.
Uma coluna de chamas negras brotou do piso de pedra com um zumbido cavo. O Éter espesso contorceu o ar ao redor de sua silhueta, devorando a pouca luz cinzenta que entrava pela cobertura da estação.
Katherine recuou tropeçando nos próprios saltos, os nós dos dedos apertando o tecido do avental enquanto uma sombra descomunal cobria a laje.
A mulher havia se agigantado.
Não se tratava de uma mera ilusão de escala: era uma montanha sólida de carne, veludo e labaredas escuras que fazia as vigas de aço acima parecerem galhos frágeis. Com a calma de quem segura um bibelô, a titã desceu a palma imensa até o nível do piso, permitindo que Rougue subisse sobre o couro negro de sua luva.
— Para qual quadrante mesmo, Cend? — a voz desceu como um trovão abafado pelas abóbadas, modulada pelo cristal do comunicador na orelha da garota.
No saguão, Cendrillon descansava as mãos unidas sob o peito, calculando arcos invisíveis na penumbra:
— Lance-o exatamente na direção das duas horas. Eu assumirei a telemetria do invólucro para guiá-lo pelas correntes térmicas assim que ele se aproximar do perímetro de Westfalia.
— Entendido! Segura firme aí, bonitão!
Rozalyne flexionou os joelhos titânicos, puxando o braço direito para trás até a musculatura das costas ranger como cabos de aço retesados.
O arrombamento do ar foi imediato.
Uma detonação seca estremeceu a alvenaria da estação, sacudindo as vidraças e espalhando poeira de carvão por toda a plataforma. Rougue desapareceu no céu cinzento como um fuso de chumbo, envolvido por um casulo incandescente de Éter escuro que fendeu as nuvens de nevasca em uma linha reta perfeita, apagando-se na distância antes que o estrondo do deslocamento terminasse de ecoar.
Katherine cobriu a boca com as duas mãos, as pupilas presas na fenda aberta na tempestade:
— M-Mas... isso é suicídio! A turbulência magnética das linhas de Ley vai desintegrar o corpo dele em pleno voo!
— Acalme a sua histeria — rebateu Cendrillon, sem alterar o tom.
As chamas escuras recolheram-se ao chão com um silvo baixo. Em poucos segundos, Rozalyne retornava à sua altura regular de dois metros, batendo as palmas no corpete e ajeitando o decote entre risinhos contidos.
— Pouco me importa o quanto a distorção gravitacional deste solo tente intervir na trajetória — concluiu Cendrillon. — A blindagem cinética que eu calculei é absoluta. Ela não irá falhar.
A aristocrata ajeitou a mecha escura sobre o olho cego e fixou o olhar azul na empregada trêmula:
— Onde está o trem que nos levará à capital?
— A-Ah... Sim! Eu os guiarei até a cabine principal imediatamente! — gaguejou Katherine, forçando as pernas a responderem.
— Espere.
A mão enluvada de Cendrillon ergueu-se, travando a passagem.
Com um movimento cadenciado, a jovem pinçou as bordas da saia nobre entre o polegar e o indicador. Dobrou suavemente os joelhos, baixou a fronte e executou uma reverência milimétrica, precisa como um mecanismo de relojoaria da alta corte de Elysium.
Ao erguer o rosto alvo, seus lábios sustentavam uma polidez afiada:
— Como a jovem dama refinada que sou, e tendo em vista que este é o nosso primeiríssimo contato formal, seria uma mancha imperdoável na minha honra permitir que a etiqueta social falhasse diante de uma serviçal.
O olho azul reluziu, frio como gelo sob o sol:
— Eu sou a General Mecânica de Elysium, Cendrillon Beaumont. É uma honra contar com os seus préstimos para a nossa escolta neste dia tão esplêndido.
Parte 2
O rangido de lâminas mordendo pedra estalou no corredor com a violência de uma bigorna.
Dante e Mio saltaram em direções opostas no instante em que o aço negro rachou o chão de cinza vulcânica. O golpe fendeu a laje ao meio com facilidade oleosa, arremessando lascas de pedra contra as paredes.
A silhueta que se erguia entre os escombros era esguia e cega. Uma carcaça de ferro fundido, sem articulações expostas ou visor no elmo, vazando pelas juntas uma luminescência roxa e espessa de Éter concentrado. Os antebraços e as pernas afilavam-se em lâminas curvas e serrilhadas, que cortavam o ar com a cadência seca de um pêndulo mecânico.
— Até que pra um teste de sobrevivência... essa sucata aqui tá bem mais fácil do que os juízes de Invel! — Mio soltou no ar, recolhendo os joelhos para esquivar de uma estocada vertical que perfurou o cascalho.
— Esse teste não tem nada a ver com bater em monstros! — rebateu Dante, aterrissando de cócoras e girando o quadril para escapar de um arco baixo que decepou uma coluna inteira rente à sua nuca. — Do jeito que a Lapiz falou, isso aqui tá mais pra uma corrida às cegas pra ver quem acha a saída primeiro...
O autômato girou a cintura em trezentos e sessenta graus. As quatro lâminas tornaram-se um círculo contínuo de corte, avançando pelo corredor estreito.
Dante encurtou a distância de frente. No instante em que o fio superior desceu em diagonal contra sua clavícula, ele vergou a coluna para trás em uma ponte rente ao chão e descarregou a sola da bota no queixo de ferro da armadura. O estalo oco interrompeu a rotação.
— Sua vez!
— Não precisa avisar!
Aproveitando a oscilação da criatura, Mio atirou-se de peito contra o solo. A pedra cedeu como água parada; a garota afundou na penumbra do chão e emergiu de uma só vez da sombra das costas do cavaleiro. Enroscou as pernas em tesoura nas junturas dos joelhos de metal, alavancando o peso para trás até derrubá-lo de joelhos.
Dante travou os calcanhares na rocha, recompondo a base com um tranco nos quadris.
O ar ao redor de seu antebraço direito começou a queimar. Ignorando as pontadas agudas nos ligamentos recém-fechados, bombeou a Aura alaranjada pelas veias até condensar a carga sobre os nós dos dedos cerrados. O chiado de estática fez o pó subir das frestas do piso.
— CHRONOS BREAK!
O punho atingiu em cheio o centro da couraça. A blindagem negra deformou-se para dentro sob uma teia de rachaduras antes que a força cinética disparasse a armadura pelo corredor; o corpo de metal voou por vinte metros e chocou-se contra a alvenaria do fundo, desaparecendo sob uma enxurrada de blocos e argamassa.
Mio bateu as palmas nas pernas da calça para espanar a poeira, os olhos acesos:
— Caraca... Parece que o seu controle de Aura evoluiu bastante.
Dante estalou o pescoço e sacudiu o pulso fumegante, conferindo a carne intacta sob a atadura:
— Eu sinto que tô cada vez mais perto de dominar essa porcaria de recuo... Mas tô longe do nível da Bea.
— Esperava o quê? Ela cresceu aprendendo isso.
Sem desacelerar o passo, os dois mergulharam lado a lado pela galeria escura.
Em outro setor das catacumbas, o silêncio era quebrado apenas pelas tosses secas de Beatrice.
A Dragão arrastava as botas pelas lajes, os punhos fechados contra a própria traqueia. As escamas ao redor de suas órbitas ardiam com o pólen adocicado que impregnava o ar subterrâneo, arrancando lágrimas grossas de suas pálpebras.
— Toma. Coloque isso de uma vez antes que as suas vias aéreas entrem em choque.
Cyfera estendeu uma máscara de linho escuro. O tecido chegava úmido, recendendo a carvão ativado e cânfora fresca.
Beatrice arrancou o pano dos dedos da arqueóloga e pressionou-o com força contra a boca e o nariz. Puxou o ar devagar, sentindo a ardência no peito ceder sob o frescor balsâmico.
— Droga... — soltou a voz, abafada pela trama do linho. — Eu finalmente consigo respirar...
Ajeitou as tiras atrás dos chifres e mirou a mulher com aversão imediata:
— Mas me diz uma coisa: por que diabos você resolveu me ajudar do nada?
Cyfera manteve o passo medido, o salto soando limpo sobre a pedra úmida:
— Por pura curiosidade científica, talvez. E também pelo simples fato de que eu gosto de falar.
Beatrice franziu as sobrancelhas:
— Como é que é?
— O meu hobby é a pesquisa — respondeu Cyfera, os olhos purpúreos varrendo as ranhuras desbotadas da parede. — No entanto, desenterrar segredos ancestrais e guardar o conhecimento apenas para mim é uma atividade extraordinariamente solitária e sem graça. Eu aprecio a reação humana. Gosto de ver o impacto do choque e a quebra de paradigmas no rosto das pessoas. Seria um desperdício imperdoável caminhar por ruínas tão fascinantes quanto estas sem ter ninguém para escutar as minhas observações. Quando notei que você estava isolada, indefesa e sofrendo com o ambiente...
— Viu uma presa fácil e desocupada pra despejar as suas teorias — Beatrice bufou sob a máscara.
Cyfera apenas assentiu com um meio sorriso complacente.
— Tanto faz... — resmungou a Dragão, cruzando os braços. — Ainda é um milhão de vezes mais suportável lidar com a sua tagarelice do que aturar os chiliques da outra.
A quilômetros dali, diante de uma bifurcação idêntica, Paracelso estancou a marcha e espirrou com estridor, limpando a ponta do nariz na manga do casaco e resmungando contra a corrente de ar frio.
No túnel inferior, Beatrice arrastou os dedos pelo reboco antigo:
— Mas afinal... Por que esse lugar fede tanto a fada? Essas ruínas não foram abandonadas há séculos?
— Sim e não... — Cyfera parou diante de um relevo escavado na rocha.
A fosforescência azulada que vazava do teto desenhava as formas entalhadas: a figura de um soberano coroado com asas translúcidas de mariposa, cercado por sete donzelas aladas em reverência circular.
Cyfera inclinou a fronte, observando a garota de esguelha:
— Pelo visto, você compreende a iconografia deste continente... Confesso que não imaginava que Varka ensinasse a história de Threshold em suas escolas. Ou será... que essas lições foram dadas com exclusividade para você por se tratar da filha primogênita do falecido Rei Dragão?
A respiração de Beatrice travou na garganta.
A musculatura de suas costas retesou num golpe surdo, as pupilas em fenda cravadas na mulher com choque cru.
— Não precisa empalidecer — Cyfera soltou um riso baixo, os olhos retornando ao painel. — O meu compromisso é com o passado, não com a intriga política do presente. Não tenho o menor interesse em espalhar a sua linhagem para os outros passageiros.
Beatrice engoliu a saliva seca, as botas firmando-se com hesitação:
— Desde quando... você sabe disso?
— Tenha compaixão do meu intelecto, Beatrice — Cyfera suspirou, as mãos repousando sobre os quadris. — Eu sou uma especialista em dragões. Seria bem humilhante não conhecer a árvore genealógica da atual realeza.
— Não importa... — a garota baixou o queixo, o tom endurecendo com amargura. — Eu já abdiquei daquele trono. Eu não faço mais parte daquela nobreza de merda.
A arqueóloga retomou a caminhada, roçando a ponta dos dedos nos símbolos talhados:
— É verdade. Eu cheguei a escutar histórias do escândalo. A princesa herdeira da Terra dos Dragões renunciou aos seus deveres sagrados e fugiu na calada da noite. O vácuo de poder causou um caos monumental em Varka.
Beatrice manteve os olhos colados ao piso.
— Aproveitando... — continuou Cyfera, o tom descendo para uma cadência mansa — seria por carregar a culpa de ter abandonado o seu povo que você reagiu mais cedo, quando a Paracelso mencionou o nome do seu tio, Wise?
Os nós dos dedos de Beatrice estalaram sob a força dos punhos cerrados. Uma sombra pesada cobriu o contorno de seus olhos sobre o linho da máscara, mas a postura permaneceu rígida:
— Cala essa boca... Esquece essa merda e responde logo à pergunta que eu fiz.
Cyfera fechou os olhos devagar, aceitando o recuo.
— Muito bem. Eu realmente não tenho o hábito de me envolver no drama doméstico alheio.
Ela conduziu a garota até uma laje curva que fechava a ala do salão. Nela, via-se a cartografia ancestral de Threshold vista de cima. Havia, contudo, uma anomalia entalhada exatamente no centro: uma árvore descomunal cujas raízes engoliam cordilheiras inteiras, inexistente no relevo atual.
— Eras atrás... Muito antes de qualquer registro histórico sobre o surgimento da nossa família Scarlune — narrou Cyfera, o timbre adquirindo o ritmo de uma leitura cerimoniosa —, este continente não pertencia a humanos ou feras. Era o domínio soberano das Fadas.
A mão da arqueóloga tocou a copa da árvore fóssil:
— Não essas criaturas miúdas que poluem os beirais de Westfalia. Falo das Fadas Primordiais. Seres colossais, belos, detentores de intelecto superior e força arcana avassaladora. Na realidade, Threshold sequer era o lar definitivo delas... Era apenas a soleira onde repousava o Grande Portal para o reino sagrado de sua espécie.
Beatrice arregalou os olhos sob a proteção de pano:
— Avalon...
— Exato — assentiu Cyfera. — As fadas foram uma das pedras fundamentais da história global. Forjaram a espada amaldiçoada que limitou a longevidade dos próprios dragões em Varka; intervieram diretamente durante a Grande Guerra contra Lúcifer; e foram o ventre da abominação que o mundo conheceu como o Rei Demônio da Ruína, Morgan. No entanto... de um dia para o outro, as Fadas Primordiais simplesmente evaporaram da face da terra. O portal que conectava este solo com Avalon desapareceu sem deixar vestígios.
A arqueóloga indicou a base da pedra. Abaixo da árvore, uma coroa dividida em sete pontas jazia sobre uma poça carmesim, onde o esqueleto de um ser alado descansava em relevo.
— E foi exatamente nessa mesma época... que os primeiros Scarlunes começaram a rastejar pelo mundo.
Beatrice acompanhou a linha com a ponta da garra:
— Tá... Mas se essas fadas ancestrais sumiram há tantas eras, por que diabos essas ruínas continuam fedendo tanto à essência delas?
Cyfera virou o rosto, o olhar purpúreo afiado:
— Porque a versão que os livros de história contam... é uma mentira descarada.
— Uma mentira...?
— As Fadas Primordiais nunca desapareceram, Beatrice — sussurrou ela. — Nós apenas paramos de vê-las porque a porta da casa delas foi brutalmente trancada. No entanto, mesmo a mais espessa das portas de ferro possui frestas microscópicas e rachaduras de pressão por onde pequenos detritos conseguem escapar.
— E que "pequenos detritos" seriam esses?
— As fadinhas que você tanto odeia — Cyfera apontou o teto fosforescente. — As fadas modernas não são uma raça que encolheu com as eras. São resíduos celulares. Fragmentos que conseguem espremer-se pelas frestas do portal fechado e rastejar para o nosso lado.
Beatrice estancou o passo, processando a afirmação:
— Espera aí... Se elas fazem esse esforço todo para atravessar essas frestas e vir para o nosso mundo...
— A conta não fecha, não é? — Cyfera sorriu, satisfeita. — Ninguém gasta energia tentando arrombar e escapar por uma porta que você mesmo trancou. Se as fadas tentam sair a todo custo... significa que não foram elas que fecharam a passagem.
— Então quem foi que trancou essa merda?! E onde caralhos fica esse portal afinal?!
Cyfera abriu os braços, abrangendo as galerias destruídas e os arcos colapsados:
— A porta está bem aqui.
Beatrice correu a vista pelo corredor cinzento:
— Aqui nesta sala?!
— Aqui... e em absolutamente todas as outras ruínas espalhadas por Threshold — sentenciou a arqueóloga.
A garota-dragão sacudiu a cabeça:
— Como assim?! Existem dezenas de portas?!
— São apenas uma — corrigiu Cyfera, com calma metódica. — O que você aprendeu na academia sobre Magia de Runas?
— Que runas funcionam como circuitos e peças... algo como um hardware arcano...
— Perfeito. Mas uma runa não precisa ser traçada apenas com tinta ou talhada em pedras de mão — prosseguiu ela. — A própria geometria espacial pode ser um circuito. Em Westfalia, a Torre Central não opera apenas pelo poder da Lágrima; cada casa, cada ponte pênsil e o desenho das vielas foram calculados para agir como um imenso anel de condução térmica. E neste continente... todas as ruínas féricas foram erguidas sobre eixos perfeitos para formarem, juntas, os nós de um único selo continental.
Beatrice sentiu a garganta secar sob o pano:
— Um círculo mágico... do tamanho de um continente inteiro?!
— Exatamente. As Linhas de Ley sob este solo estão amarradas a esse circuito. O motivo pelo qual elas colapsaram, gerando a tempestade magnética que impede o uso de naves ou teletransporte, é simples: o portal para Avalon está lacrado há tempo demais, e a pressão acumulada do outro lado está sufocando a estrutura do nosso mundo.
Beatrice encarou o relevo seguinte, onde pequenas figuras aladas dançavam ao redor de sete donzelas tingidas em pigmentos espectrais diferentes, cada qual segurando uma parte da coroa fraturada.
— E vocês, Scarlunes... nunca tiveram a ideia brilhante de tentar abrir essa porta?
Cyfera soltou uma risada aberta, o eco ricocheteando nas abóbadas:
— Você acha mesmo que a nossa linhagem, com a soberba que carrega nas veias, resistiria a uma porta trancada? É evidente que nós tentamos.
— Então por que essa porcaria continua fechada?!
— Porque nós esbarramos em três problemas fundamentais — Cyfera ergueu os dedos enluvados um a um. — O primeiro: havia um aviso. Uma ordem direta deixada por quem nos gerou.
— E desde quando vocês obedecem a ordens?
— É curioso, não acha? — o tom da arqueóloga suavizou-se em respeito genuíno. — Uma família sem moral ou amarras externas... curvando-se ao pedido de uma mãe que quase nenhum de nós conheceu em carne e osso. A matriarca original, Morrigan... Antes de desaparecer, ela deixou uma única exigência cravada em nossa memória: "Sejam livres. Não se curvem a regras ou ideologias alheias. Vivam e busquem o que seus corações desejarem... Mas, sob nenhuma hipótese, ousem violar o cadeado que sela Avalon."
— E vocês simplesmente aceitaram isso?
— É uma ressonância genética — admitiu Cyfera, encolhendo os ombros. — Até mesmo eu sinto o peso dessas palavras. Embora nem todos na família compartilhem dessa moderação. Houve Scarlunes que, justamente por ouvirem a proibição, ficaram obcecados em violar a tumba.
— E os outros não tentaram impedir esses malucos?
— Claro que não! Nós também queríamos ver o que aconteceria se a passagem cedesse. Nenhum de nós queria a culpa de quebrar o tabu com as próprias mãos... Mas ninguém moveria um dedo para impedir que outro fizesse o trabalho sujo.
Essa gente não regula da cabeça, Beatrice pensou, recuando meio passo.
— Mas aí surgiu o segundo obstáculo — continuou Cyfera. — O mecanismo exige o sangue e a presença direta de uma Fada Primordial pura. E com todas as nobres presas do outro lado da fronteira, a chave parecia inalcançável.
— Bom, então o assunto morreu aí.
— Não exatamente — Cyfera curvou os lábios com frieza calculada. — Com o avanço das escavações, nós descobrimos que estas ruínas não eram meras passagens. Eram catacumbas de contenção. Prisões construídas para trancar Fadas Primordiais que cometeram crimes tão hediondos contra a própria espécie que a morte foi considerada branda demais.
As fendas nos olhos de Beatrice dilataram-se:
— Espera aí... Você tá me dizendo que aquelas fadas monstruosas que surgiram ao longo da história recente...
— Sim. Provavelmente eram essas criaturas aberrantes que a nossa família desenterrou e soltou no mundo ao longo dos séculos, esperando que alguma delas destrancasse a porta para nós.
Beatrice estancou no meio da galeria, a mandíbula travada sob a máscara:
— Vocês são a porra de um bando de lunáticos irresponsáveis.
— Não fomos nós que as julgamos no passado — Cyfera deu de ombros. — Quem garante que a corte férica não condenou inocentes?
— Soltar pragas ancestrais só pra arrombar uma porta parece uma ótima forma de implodir o mundo — devolveu a Dragão, ríspida. — E qual foi a terceira merda? Porque pelo visto nem a falta de caráter de vocês resolveu.
Cyfera parou diante do último painel talhado no fundo da câmara.
A gravura ali era nua e direta. Sem rostos, sem divindades: apenas o relevo minucioso de uma caixa metálica dourada, cravada no piso e envolvida por grossos elos de ferro negro que pareciam se contorcer na rocha feito serpentes.
— O terceiro problema... é o cadeado — a arqueóloga baixou a voz, perdendo o tom acadêmico.
Beatrice encarou o cofre de pedra:
— E o que essa caixa tem de mais?
— É uma Relíquia Primordial com consciência própria. Uma arma de poder tão desmedido que sua mera ancoragem sobre as Linhas de Ley foi suficiente para arrebentar a gravidade deste continente. Ela escolhe a dedo quem tem permissão para empunhá-la... e simplesmente apaga da existência, triturando corpo e alma até o nada, qualquer um que ouse tocá-la sem ser digno.
Cyfera virou o tronco devagar, sustentando as íris purpúreas contra o olhar da garota:
— Uma Arma do Apocalipse... Deixada propositalmente sobre o túmulo de Avalon para garantir que o portal jamais fosse aberto. Agora me responda com sinceridade, princesa: você ainda se pergunta o motivo de ninguém ter tido coragem de girar essa chave?
O silêncio do labirinto pesou sobre os ombros de Beatrice.
Sob o linho negro, sua respiração soou curta e rala. Um calafrio gélido desceu por suas vértebras, enquanto a sombra daquela arca dourada parecia queimar no fundo de suas pupilas.
Parte 3
Pelos corredores úmidos, o olhar de Anna perdia-se nos relevos talhados na rocha. Entre blocos de pedra vulcânica fraturada e fustes tombados, figuras de fadas dançantes pareciam ondular sob a fosforescência azulada que brotava do chão. Pelas frestas fundas das lajes, finos filamentos de Éter escapavam em silêncio, subindo como espirais de fumaça fria em direção à abóbada rachada.
— Essas partículas que vazam daqui... — Vivian diminuiu o passo, apontando o indicador para os feixes pálidos. — Quando alcançam a superfície e tocam a vegetação de Threshold, reagem com o oxigênio e a flora local. É assim que brotam aquelas fadas miúdas que entopem os telhados lá em cima.
Anna manteve o rosto voltado para a parede, as solas arrastando-se pelo cascalho úmido, a mente presa a quilômetros dali.
Vivian parou. Cruzou os braços sobre o peito e ergueu uma sobrancelha:
— Por acaso você escutou uma única palavra do que eu acabei de falar?
Anna deu um sobressalto curto, piscando rápido para sacudir a névoa dos pensamentos:
— Hã? Você... disse alguma coisa?
Vivian estreitou as pálpebras, a desconfiança vincando sua testa:
— Você tá realmente bem, Anna?
— Tô sim! — Anna forçou um sorriso leve, puxando a gola do casaco com a mão direita. — É sério. Eu só tô meio atordoada com o peso do ar nessas ruínas.
Vivian coçou a nuca, soltando o fôlego num sopro rascante.
Droga..., ela pensou, mordendo o canto interno da bochecha. Talvez tenha sido um erro vir atrás dela. Se essa garota apagar no meio do caminho, nós duas vamos morrer. Talvez fosse mais seguro procurar outro parceiro...
Lendo o recuo nos pés da outra, Anna adiantou a passada e firmou a postura:
— É sério, Vivian, pode contar comigo. Eu admito que tô distraída, mas consigo lutar perfeitamente. Você vai mesmo se arriscar voltando sozinha pra caçar outra pessoa, sem nem saber em quem pode confiar no meio desse teste?
Vivian sustentou o olhar de Anna por alguns segundos. A ponderação pesou no silêncio da galeria; confiar em concorrentes desconhecidos ou nos outros monstros da família Scarlune naquele fosso era pedir para levar uma lâmina nas costas.
— É... você tem um ponto — Vivian cedeu com um menear de cabeça. — Tudo bem. Vamos em frente.
As duas retomaram o avanço. O eco intermitente de água gotejando marcava o compasso das passadas.
— Você disse antes que sentiu algo estranho desde o primeiro dia no Expresso, não foi? — Anna quebrou o silêncio, ancorando a atenção na conversa para expulsar os próprios ecos internos.
Vivian assentiu, o tom ganhando gravidade:
— Sim. A guinada na rota foi a coisa mais bizarra que eu já vi em anos. Viagem de trem por Threshold não é o tipo de operação que se muda num estalo de dedos. As composições têm as coordenadas travadas direto no computador da capital. É por isso que sequer usam maquinistas de carne e osso; tudo roda no automático com base no processamento da madrugada anterior. E, toda manhã, os boletins oficiais e as gazetas despejam os horários e itinerários milimétricos pelo continente inteiro.
Ela saltou sobre uma raiz grossa e enegrecida que cortava o piso:
— Em uma ocasião crítica como as Eleições dos Scarlunes, essas rotas são blindadas com semanas de antecedência.
— Entendi... — Anna acompanhou o salto. — Então mexer num percurso desses em cima da hora é completamente fora da curva.
— Não é só fora da curva, Anna. É praticamente impossível — Vivian frisou, endurecendo o timbre. — O sistema foi desenhado para ser irreversível depois do disparo dos dados. Qualquer desvio não planejado faz o cronograma logístico de milhares de pessoas em dezenas de cidades colapsar. A diretriz da máquina central é inflexível: mesmo diante de um erro de cálculo, ela não altera o trajeto. É infinitamente mais seguro deixar o erro acontecer e obrigar os passageiros a se virarem do que reescrever a malha e instaurar o pânico no continente.
Anna franziu o cenho, juntando as pontas:
— Espera aí... Quer dizer que os boletins de hoje cedo...
— Exato — Vivian virou o queixo para ela. — Não havia uma linha sequer sobre o desvio do Trem Escarlate. Eu chequei os terminais de dados: mesmo em Invel, ninguém fazia ideia de porra nenhuma. As notícias oficiais garantiam que o nosso comboio seguia na rota original. A questão é bem maior que o nosso atraso. Várias linhas comerciais foram congeladas e um monte de composições agora tá preso em ramais cegos por tempo indeterminado.
— Mas a Descora teria autoridade para ordenar uma manobra dessa magnitude?
— A Descora fez parecer que o desvio era parte de um teste — Vivian soltou uma risada curta, sem humor. — Mas duvido que tenha partido dela. Se fosse uma diretriz do alto comando, os mais velhos a bordo — gente como o Heisen ou a Paracelso — teriam batido o pé na hora. Em vez disso, ficaram mudos, só acompanhando. Eles estão fingindo que engolem a conversa fiada da Descora porque já entenderam que estourou uma merda colossal nos bastidores. E o meu irmão também não deixaria isso passar batido.
Anna arqueou a sobrancelha:
— O Blade?
— O Blade nunca come mosca com esse tipo de coisa. Pelo pouco que consegui arrancar daquele poço de silêncio, ele sabe de algo sério, mas não abriu a boca pra mim.
Anna permitiu-se um riso contido:
— Então era por isso que você tava de tocaia na porta das termas espionando ele?
Vivian desviou a vista para a umidade da rocha, a pele das bochechas tingindo-se de rubro:
— Cala a boca... Fazer vigília estratégica é parte básica da investigação!
— Sei... — Anna sorriu de canto. — Mas e você? O que acha que rolou de verdade?
— Eu tenho certeza de que alguém sabotou a rede central e desviou os trilhos — Vivian respondeu, a seriedade reassumindo seu lugar. — E aposto que a Descora tá usando esse exame improvisado como cortina de fumaça pra ganhar tempo e caçar o traidor. Pensa comigo: a Skadi segurou a farsa em Invel montando uma arena de verdade. Mas a Lapiz odeia receber visitas em Westfalia! Ela detesta forasteiros, deixou claro que achava a ideia ridícula e cuspiu as regras desse Segundo Teste no improviso mais descarado, sem nem disfarçar o desleixo!
— É... agora que você colocou nesses termos, faz sentido.
— Em dias normais, a Descora jamais engoliria esse tipo de insubordinação, ainda mais da Lapiz! Mas ela abaixou a cabeça e aceitou. Isso só significa uma coisa: a Descora tá atolada até o pescoço tentando estancar o vazamento e segurar o caos no restante do continente.
— Sua leitura é bem amarrada — concordou Anna, olhando a encruzilhada que se desenhava à frente. — Mas qual é a sua jogada nisso tudo?
Vivian parou diante da bifurcação. O chão da galeria central estava tomado por uma lâmina rasa de água límpida, onde gotas caíam do teto em estalos ritmados.
— A minha jogada é simples: achar o culpado antes de todo mundo.
Anna piscou, surpresa:
— Pra que se enfiar numa fogueira dessas?
— Porque é o jeito mais rápido e definitivo de calar a boca do Blade e fazer aquele idiota admitir que eu não sou um fardo inútil! — Vivian afirmou, os olhos fixos na lâmina d'água. — E, além do mais... se eu colocar a Descora numa dívida pessoal comigo...
A voz dela engasgou por uma fração de segundo.
Olhou para os próprios pés refletidos na água antes de soltar num murmúrio mais baixo:
— ...isso pode me render uma influência absurda na hora em que a família for escolher o próximo Rei dos Scarlunes.
Anna estacou no piso seco, as pupilas dilatadas:
— Espera... Do jeito que você tá falando, parece até que quer virar...
Vivian girou o tronco num solavanco, agitando as palmas no ar:
— É claro que não, sua idiota! Por que diabos eu ia querer ser a rainha desse bando de psicopatas armados?! Eu só quero me posicionar como uma peça de peso nessa balança! Ter o próximo Rei e a Chefe de Segurança na minha mão não seria nada mau pro meu futuro!
Dando meia-volta com passos duros, ela espirrou água rasa para os lados.
Anna permaneceu imóvel por um instante, fitando as costas da garota com ceticismo silencioso.
Foi mal, Vivian..., refletiu Anna, sentindo o travo amargo na língua. Mas eu sou a última pessoa viva que cairia numa máscara ensaiada como essa.
Apertando o passo para emparelhar, Anna soltou o ar devagar:
— Tudo bem, eu compro a ideia. Quer que eu te ajude a vigiar os outros candidatos?
— Seria ótimo, mas não resolve agora — Vivian respondeu, atenta aos ecos da água. — A gente nem sabe se o sabotador continua a bordo ou se já desembarcou. O atalho é encurralar os juízes deste teste.
— Os juízes?
— Sim. Aquele brutamontes do Ozymandias só entende de abrir buraco em parede. O guarda que veio junto é só bucha de canhão. A Lilibeth... bom, com aquele jeito aéreo, é improvável que esteja metida nisso, mas não descarto nada. Só que a pessoa que eu realmente preciso encurralar...
— É a secretária da Lapiz, né? — completou Anna.
Vivian uniu o polegar ao indicador num círculo e piscou:
— Bingo. Ela tem acesso aos arquivos confidenciais de Westfalia. Se alguém sabe pra onde essa fumaça tá correndo, é ela.
— Fechado. Tô nessa.
No instante seguinte, o eco ao redor transformou-se.
O gotejar espaçado engrossou num murmúrio contínuo, avolumando-se no ruído pesado de uma cascata oculta logo adiante.
Transpondo o arco final da passagem alagada, Anna e Vivian desembocaram em uma câmara circular monumental. O vão vertical subia por dezenas de metros, pontilhado por portais arruinados e balcões de pedra suspensos na penumbra. No coração da sala, erguia-se uma árvore subterrânea colossal; suas raízes grossas como cascos de navio rasgavam a água rasa sob uma chuva fina e perene que caía inexplicavelmente do teto de rocha maciça.
Acomodada sobre a curva de uma dessas raízes, imperturbável, repousava uma figura familiar.
Lilibeth Scarlune.
A garota sustentava a haste do guarda-chuva aberto sobre o ombro, o tecido impermeável repelindo a garoa com elegância imutável. Ao redor de sua ilha de madeira, flutuando em silêncio sobre a água, dezenas de espelhos ovais com molduras douradas refletiam, em tempo real, corredores desertos e passagens de outros setores do labirinto.
Ao ouvir o chapinhar das botas de Anna e Vivian, Lilibeth cerrou os olhos e abriu um sorriso brando:
— Pinga, pinga... — a mensageira entoou numa cadência infantil, a voz clara reverberando pela umidade da abóbada. — A chuva cai.
Anna e Vivian travaram as solas na lâmina d'água. O ar na câmara pareceu esfriar de súbito.
As ruínas haviam colocado o primeiro obstáculo em seu caminho.
Parte 4
Naquela câmara subterrânea, o silêncio das ruínas era quebrado apenas pelo ritmo pesado e úmido de uma mastigação ruidosa.
Apoiado de ombros largos contra as ombreiras de uma colossal porta de pedra selada, Ozymandias devorava uma peça espessa de carne assada no osso. O suco da gordura escorria-lhe pelos nós dos dedos, reluzindo sob a fosforescência fria da rocha. Ele mastigava sem pressa, as íris douradas semicerradas para a garganta do corredor deserto enquanto murmurava pensamentos soltos contra a pedra:
— Se dois deles resolverem cruzar por esta porta ao mesmo tempo... até que pode render uma diversão razoável. — Ele arrancou uma faixa de fibra muscular com os caninos em um puxão seco. — Não... Talvez se quatro idiotas se juntassem, a coisa ficasse realmente interessante. Se aquele maldito do Blade escolher este caminho, não vai ter como escapar; vai ser obrigado a aceitar o meu desafio na base da porrada, quer queira ou não.
O gigante rolou a carne entre os molares, estalando a língua com certo tédio:
— Se bem que aquele cara é tão sem graça e quadrado que chega a dar sono. Talvez eu devesse mesmo era ir atrás da outra cria do Ryu... Aquele pirralho de mechas vermelhas tem um paladar deplorável para comida, mas sobra personalidade naquela marra toda. Eu tenho certeza absoluta de que me divertiria muito mais quebrando os ossos dele.
Ozymandias puxou o ar pelo nariz, abrindo a boca para cravar mais uma mordida.
O ar acima de sua cabeça despencou em vácuo.
Sem que nenhum rastro de Éter anunciasse a queda, uma silhueta rompeu as trevas do teto diretamente em direção à sua espinha. A investida desceu em velocidade terminal: uma canela envolta em distorção gravitacional cortava o ar de cima a baixo, um golpe em machado projetado para estilhaçar a clavícula do homem e esmagar seu crânio contra as lajes.
Ozymandias sequer moveu o tronco.
Em um reflexo mecânico e frio, o braço livre do colosso chicoteou para trás sobre a linha do próprio ombro. A palma espalmada colidiu contra a canela do agressor em pleno ar; o impacto surdo morreu entre os dedos grossos do gigante, que absorveram a força cinética sem ceder um milímetro de postura.
Com um giro seco de pulso, Ozymandias arremessou o corpo invasor de chapa contra o chão.
O impacto estalou na pedra, mas o agressor flexionou as costas no exato milésimo do choque, emendando um rolamento ágil que dissipou a violência da queda. As solas das botas derraparam na umidade do piso antes de travarem a base em uma guarda baixa e tensa.
Ozymandias limpou o restante da carne com os dentes. Depois, sem soltar a haste, introduziu o osso maciço de fera silvestre entre os molares.
Um estalo cavernoso de cálcio partindo ecoou pela abóbada.
Com a força mandibular de uma prensa hidráulica, o gigante mastigou a estrutura óssea inteira. O rangido áspero das lascas sendo trituradas antecedeu o movimento de sua garganta, que engoliu fragmentos e tutano sem hesitação antes de baixar as pupilas douradas para o rapaz à sua frente.
Kai sustentava a base afundada, o peito arfando curto e os olhos azuis faiscando em ódio puro.
Ozymandias estalou a língua no céu da boca, a expressão endurecendo em ultraje:
— Tá de sacanagem com a minha cara, porra? Eu me dei ao trabalho de escolher a rota central, exatamente o ponto axial onde mais caminhos se cruzavam neste labirinto maldito, na esperança de cruzar com guerreiros de verdade... E de todas as presas que esse buraco poderia cuspir na minha frente, me aparece logo você?
Kai cuspiu uma saliva fina sobre as lajes, a voz saindo cortante, destilada em puro veneno:
— É óbvio que ia ser eu, seu merda. Porque eu sabia perfeitamente que só um brutamontes previsível e idiota como você escolheria ficar empoleirado no lugar mais óbvio dessas ruínas inteiras.
Uma veia dilatou-se na lateral do pescoço de Ozymandias. O gigante cuspiu um pedaço residual de cartilagem no chão com desprezo:
— Lutar contra você vai ser uma merda sem tamanho. Vai deixar um gosto azedo na minha boca antes do prato principal. Eu estava esperando um oponente digno deste teste...
— Cala essa sua boca imunda! — Kai deu um passo pesado, e o cascalho moeu sob o Éter que começou a crepitar azul ao redor de suas pernas. — Você não acha que já fez algazarra e latrocínio demais por hoje, seu bosta?! Eu sei perfeitamente o que você tá tramando aqui... e foi exatamente por isso que eu vim até esta sala: pra afundar essa sua cara arrogante no concreto até você esquecer o próprio nome!
Ozymandias mediu o clone de cima a baixo. Os cantos dos lábios repuxaram-se num sorriso impiedoso:
— Nós dois sabemos muito bem que isso nunca vai acontecer, aberração. Você não tem metade da capacidade necessária para me arranhar.
Kai não recuou um palmo. As juntas das mãos estalaram sob a pressão dos punhos cerrados, enquanto a Pressão Espacial dobrava a gravidade ao redor de seus tornozelos, desenhando finas fissuras no piso úmido.
Vendo que o garoto não arredaria o pé, Ozymandias levou a mão enluvada à nuca. Puxou a cabeça para o lado direito até arrancar um estalo seco da vértebra, repetindo o gesto para a esquerda com um suspiro enfadado:
— Tanto faz... Que seja. Pelo menos me ajude a queimar as calorias do meu almoço, seu pedaço de lixo. Assim que eu terminar de quebrar as suas pernas, eu vou atrás de um oponente de verdade para me divertir.
Kai trincou os dentes, e a aura ao redor de seu corpo detonou em uma onda escura que partiu as lajes ao redor de suas botas:
— Esquece isso, seu gigante de merda. Porque quando eu terminar com você aqui dentro... a única forma de você sair desta sala vai ser em um carrinho de mão!
Parte 5
O gotejar invisível da condensação escorria pela rocha basáltica, mas, para Delta, o único som relevante era o pulsar térmico da pedra rúnica pressionada contra a cartilagem de sua orelha. A garota mantinha as omoplatas coladas à alvenaria gélida de uma galeria esquecida, os nós dos dedos esbranquiçados pela força com que segurava o cristal.
— O que diabos eu deveria fazer agora, afinal de contas?! — sibilou Delta contra a pedra, o ar saindo em fiapos curtos pela boca. — Com o Rasputin naquele estado deplorável, nós não vamos conseguir nos aproveitar das ilusões dele para pegar a próxima chave! Eu não sei por quanto tempo ainda consigo manter o disfarce entre os passageiros. Mesmo que o nosso destino final seja logo na próxima parada... Se a gente não colocar as mãos na última chave ou se eu for desmascarada aqui dentro, tudo vai por água abaixo!
O zumbido de estática do canal abriu espaço para um estalo úmido de chiclete, seguido por uma voz arrastada, jovem e excessivamente descontraída:
— Ai, pirralha, para de drama! Acha que eu não tô ligada nisso tudo? O plano tava correndo redondinho, uma maravilha total... Até aquele velhote do Rasputin jogar a operação no lixo por causa do orgulho idiota dele.
Uma expiração lenta soprou do outro lado da linha antes de Ceto prosseguir:
— Mas relaxa, tá tudo sob controle. O nosso infiltrado já deve ter acionado o plano de contingência pelas informações que você passou da confusão com o professor. Por enquanto, o melhor que você faz é ficar na surdina. Tenta cruzar esse testezinho ridículo de Westfalia sem chamar a atenção dos outros monstros e garante o seu lugar no trem. Você é a nossa peça mais valiosa, sabia? Se você não tiver inteira para pegar a arma lá nas ruínas finais, a gente não vai arrumar nada.
— Falar é muito fácil quando não é você quem tá enfiada numa cova cheia de psicopatas! — Delta trincou os dentes, as unhas cravando-se na palma da mão livre. — Você tem noção do pavor que eu tô sentindo?! E se outro monstro daquele calibre me descobrir do nada?! E se aquele professor maluco achar uma brecha e conseguir escapar da minha Casa de Bonecas?!
A resposta veio em um estalo seco de língua contra o palato, carregada de empáfia:
— Vê se segura essa onda, garota! Não foi você mesma quem encheu a boca pra dizer que ia provar o próprio valor? Pra jogar na liga profissional precisa de coragem! Eu sei que a barra tá pesada, mas mantém a pose. Aquele tal de Heisen não vai sair do seu mundo de bolso tão cedo no estado em que ficou depois do soco. Sem falar que a passagem de tempo lá dentro das suas dimensões é totalmente diferente da nossa, não é?
A mandíbula de Delta caiu num espasmo de pura exasperação:
— Eu já cansei de te explicar isso mil vezes, sua anta! Sim, o tempo lá dentro corre em uma velocidade diferente! Só que corre mais rápido para quem tá preso do que para nós aqui fora! Em outras palavras: ele vai se recuperar dos ferimentos muito mais depressa!
— O QUÊ?! E POR QUE DIABOS VOCÊ NÃO EXPLICOU ISSO DIREITO ANTES, SUA IDIOTA?! — Ceto berrou do outro lado da transmissão, a afetação caindo por terra num solavanco.
— EU JÁ EXPLIQUEI DEZ VEZES! VOCÊS É QUE NUNCA PRESTAM ATENÇÃO EM NADA QUE EU DIGO!
— Quer saber? Esquece essa merda! — cortou Ceto, puxando o ar numa risadinha forçada para retomar a pose. — Só faz o que eu mandei e segue a rota. Nessa altura do campeonato, o único jeito é marchar pra frente. E ó... No pior dos cenários, se alguma zebra colossal acontecer, deixa que eu mesma dou um jeito.
Delta estreitou as pupilas na escuridão úmida da passagem:
— Será que dá mesmo pra confiar em você...?
— Mas é claro que dá, meu bem! Esqueceu quem é que tá mandando nessa porra agora? Eu sou a chefe substituta dessa missão! Relaxa e vem comigo que é sucesso garantido!
— Sinceramente? Eu não confio nem um pouco em você...
— EI! QUE AUDÁCIA É ESSA DE FALAR ASSIM COM A SUA CHEFE, PIRRALHA—
— Então era exatamente isso...
O timbre masculino ressoou pela abóbada de pedra, denso e plano como o gume de uma lâmina desembainhada.
Delta travou. O ar congelou na traqueia e o cristal rúnico quase escapou por entre seus dedos suados.
— Agora... Todas as pontas soltas finalmente começam a se encaixar — a voz prosseguiu, acompanhada pela cadência pesada de solas blindadas esmagando o cascalho do túnel. — O desaparecimento repentino do Heisen a bordo da composição também foi orquestrado pelo grupo de vocês.
A cabeça de Delta girou milímetro a milímetro, a cor escorrendo de seu rosto até deixá-lo com a palidez de cinza morta.
— E a próxima parada... — a silhueta adiantou-se, banhada pela luminescência azul e espectral que brotava do chão — seria o verdadeiro objetivo de vocês desde o princípio. Sendo assim, o cálculo é fácil: se nós eliminarmos vocês aqui, a farsa é encerrada... E nós poderemos finalmente retornar ao cronograma original.
Três figuras transpuseram o arco partido da galeria.
Nenhum deles aparentava ser um examinador.
No centro da passagem erguia-se Blade Scarlune, a pele morena e os cabelos negros emoldurando uma austeridade pétrea que não admitia fissuras. À direita, recostado casualmente contra uma coluna partida com as mãos nos bolsos, Shisui ostentava um meio sorriso afiado e preguiçoso. À esquerda, Justia mantinha os pés alinhados, a palma direita repousando sobre a empunhadura da espada e os olhos azuis cravados na intrusa com severidade marcial.
Um arrepio agudo desceu rasgando a espinha de Delta.
Shisui pendeu a cabeça para o ombro, soltando um suspiro de enfado:
— O quê...? Não vai me dizer que a dita "grande ameaça" que você estava caçando é essa pirralhinha aí, Blade? Desse jeito não vai ter a menor graça... Eu achei que fosse rolar um massacre de verdade.
Justia deu meio passo à frente, sem afrouxar a mão da lâmina:
— Então as suspeitas estavam certas... Era você o tempo todo, Delta.
Blade ignorou o gracejo do pirata. As íris douradas do homem desceram sobre a garota encolhida com o peso de duas bigornas:
— Eu não me daria ao trabalho de arrastar vocês dois até aqui apenas para capturar um peão descartável. No entanto, neutralizar essa garota e arrancar as coordenadas que estão na cabeça dela é uma etapa indispensável.
Ele inclinou o queixo de leve na direção de Shisui:
— Assim que terminarmos com ela, você e eu iremos atrás do infiltrado principal. Para subjugar aquele indivíduo eu de fato precisarei da sua força física. Portanto... Vamos encerrar esse assunto de uma vez. Aposto que você também quer colocar um ponto final nesse circo.
Os joelhos de Delta amoleceram contra a rocha. Num impulso desesperado, levou a pedra rúnica de volta aos lábios trêmulos:
— C-Ceto... Você disse que se desse algum problema grave, você mesma ia resolver, não disse...?
O silêncio na galeria era absoluto.
— Então... — a voz quebrou em um fio de desespero cru. — Deu problema. O que é que eu faço agora?!
Por três compassos mortos, nada além do gotejar da água ecoou no túnel. Os três Caçadores não moveram um músculo.
Um clique seco ressoou no cristal.
A luz tênue da runa apagou-se de vez. Ceto simplesmente cortara o sinal.
Shisui soltou uma risada rasteira pelo nariz, desencostando da coluna:
— É... Parece que a sua grande amiga te jogou aos leões e pulou fora do barco. E agora, garotinha? O que você tá planejando fazer contra nós três?
Delta baixou a mão com a pedra inútil. Puxou o ar devagar, ajeitou a gola e ergueu o queixo na direção do grupo.
Lentamente, uma curva serena e reluzente desenhou-se em seus lábios. Não trazia hesitação; era um sorriso límpido, soberbo, esculpido com a frieza inabalável de quem guarda um trunfo definitivo sob as dobras do casaco.
A mudança de postura foi tão desconcertante que as fendas douradas de Blade estreitaram-se, Justia reforçou a pegada no punho da arma e a boca de Shisui desfez o sorriso de canto. Por uma fração de segundo, os três recuaram a certeza diante daquela audácia gélida.
Delta cerrou as pálpebras, inflou a caixa torácica com toda a umidade do ar e desabou num berro agudo que ricocheteou pelas paredes:
— ATÉ PARECE QUE EU TENHO ESCOLHA NESSA MERDA! SE EU TENTAR LUTAR EU VOU MORRER, NÃO É ÓBVIO, CARALHO?!
A confissão histérica ecoou como um trovão pela abóbada. A pose aristocrática estilhaçou-se em lágrimas desgovernadas; os ombros despencaram e a garota afundou de cócoras, abraçando os próprios joelhos em posição quase fetal enquanto soluçava de puro pavor diante da muralha de força à sua frente.
A quebra de ritmo atingiu a sala com a força de um soco no vácuo.
Blade paralisou. As sobrancelhas do homem subiram uma fração de milímetro, a máscara inflexível trincando diante daquele papelão desmedido.
No milésimo seguinte, a severidade nos olhos de Justia e o peso da expressão de Blade viraram-se em perfeita sincronia para a direita, descarregando um julgamento mudo e fulminante sobre Shisui.
A condenação sem palavras pairava clara no ar: Parabéns, seu sádico de merda... Você conseguiu intimidar uma adolescente indefesa até ela entrar em pânico e chorar.
Sob o bombardeio visual dos dois companheiros, o pirata engoliu a saliva de lado.
Shisui virou o rosto para a alvenaria úmida, coçou a bochecha com as costas do polegar e murmurou, a voz murchando para salvar o resto de dignidade:
— ...Foi mal.
Parte 6
O tamborilar ininterrupto da água contra as vidraças reforçadas marcava o único compasso de tempo no topo da torre fronteiriça de Westfalia. Ali, onde o bafo morno irradiado pela Lácrima colidia contra a muralha polar do exterior, o choque térmico condensava o ar em uma torrente perpétua. As bombas de drenagem trabalhavam no subsolo em um zumbido mecânico contínuo, impedindo que o solo virasse lamaçal enquanto a estrutura de liga pesada rangia sob a umidade crônica.
Aquele cinza eterno bastaria para enlouquecer qualquer sentinela em poucas semanas.
Lilibeth, contudo, abriu os olhos sob um emaranhado de lençóis brancos com a leveza de quem desperta na primavera. Como sua carne irradiava um calor febril constante, dormia sem peça alguma de roupa, deixando a pele respirar antes de saltar descalça sobre o assoalho de madeira. Vivia sozinha; não havia testemunhas nem protocolo a cumprir. Preparou a infusão matinal, escovou os dentes e passou o esfregão pelas tábuas úmidas cantarolando baixinho, sem que a curva serena dos lábios vacilasse por um segundo sequer.
E, na primeira folga entre os afazeres, puxou a cadeira para a escrivaninha.
Crescida sob o murmúrio monótono da chuva, Lilibeth nutria fascínio por figuras ruidosas, violentas e inflamadas por orgulho desmedido. Empilhava cadernos de capa dura com crônicas de sua própria lavra, onde monstros do calibre de Ozymandias, Bishamon, Shisui, Kusetsu e Rappa colidiam em devastações épicas. Inevitavelmente, contudo, o clímax daquelas guerras sangrentas descambava para o mesmo desfecho: os guerreiros mais temidos do continente largavam machados e lâminas para disputar, aos prantos e de joelhos, a atenção da jovem autora. Sempre que a narrativa alcançava o auge do melodrama, o calor subia com tanta força que o sangue vertia de suas narinas, obrigando-a a estancar o fluxo com dois chumaços de algodão antes de continuar o manuscrito.
Três bipes secos soaram do console metálico na parede.
Lilibeth levantou-se num pulo e tocou a interface de cristal.
A projeção holográfica de Descora abriu-se no ar, a Chefe de Segurança com os nós dos dedos apoiados na mesa do gabinete:
— Lilibeth, nós precisamos alinhar uma diretriz de emergê—
A frase morreu na garganta de Descora. As pupilas da oficial dilataram-se e suas mãos voaram para o próprio rosto num sobressalto:
— MAS POR QUE CARALHOS VOCÊ TÁ COMPLETAMENTE NUA, SUA MALUCA?!
Lilibeth baixou os olhos para o busto descoberto e piscou devagar:
— Eita... Esqueci de colocar roupa de novo.
— VAI SE VESTIR AGORA MESMO, SUA SEM-VERGONHA! — Descora berrou entredentes, inclinando o sensor para que a transmissão mostrasse apenas o teto de latão.
Minutos depois, devidamente ajustada em seu vestido nobre de babados e corpetes alinhados, Lilibeth puxou o assento de volta para o visor.
Descora soltou o ar ruidosamente e despejou o relatório: a manobra não programada do Trem Escarlate, a violação dos registros nas centrais e a turbulência silenciosa na malha de transporte.
— Pelo que me lembro dos manuais... as rotas automatizadas não podiam ser alteradas de forma alguma após o despacho dos dados — pontuou Lilibeth, tombando a cabeça.
— E de fato não podem, na teoria — retrucou Descora, a voz dura cortando a estática. — É uma violação inédita. Eu tenho um palpite sobre quem cometeu o crime... mas preciso de provas incontestáveis antes de puxar a alavanca e fazer o julgamento público.
— E como eu entro nisso?
— Eu preciso que você intercepte a composição assim que ela atracar em Westfalia — ordenou Descora. — Use a sua habilidade para filtrar os passageiros e arrancar o que estiver escondido. Eu queria ter usado o seu recurso desde o primeiro momento da crise, mas com as linhas bloqueadas, fui obrigada a esperar o comboio alcançar a sua jurisdição.
Lilibeth desenhou um sorriso discreto no canto da boca:
— Do jeito que você fala... parece que já tem certeza absoluta de quem puxou o gatilho, Descora.
A projeção estreitou a vista:
— O que te faz pensar isso?
— Só um palpite feminino — a garota encolheu os ombros com doçura.
— Os seus palpites costumam ser assustadoramente certeiros, Lilibeth... Mas desta vez eu preciso de fatos brutos. Se a minha teoria estiver correta, a situação é infinitamente mais perigosa do que um simples ataque terrorista.
— Tudo bem, eu aceito a missão — cantarolou ela.
Descora baixou os ombros na transmissão, soltando a tensão:
— Ótimo. Eu agradeç—
— Mas com uma condição! — Lilibeth ergueu o indicador, interrompendo a superior com um sorriso aberto.
Descora revirou os olhos em puro enfado:
— Mas é claro... Ninguém neste continente desgraçado aceita mover uma palha de graça. O que você quer?
— Você parece tão cansada, Descora... Devia dormir um pouco — comentou ela, o tom brando.
— Eu vou dormir quando essa bomba atômica for desarmada. Desembucha logo o seu preço!
Lilibeth uniu as palmas diante do queixo, as bochechas tingindo-se de rubro num entusiasmo febril:
— Eu quero que você marque um encontro romântico particular entre mim e a Bishamon!
No presente, o som monótono de água caindo do teto de pedra dominava a câmara subterrânea.
Apoiada sobre a raiz grossa da árvore central, Lilibeth recolheu o guarda-chuva por um breve segundo, esboçou uma reverência graciosa e abriu os braços com entusiasmo:
— Bom dia para vocês! Mas vejam só... Quem diria que vocês duas viriam direto para a Lilibeth? Quanto tempo, Anna!
Vivian cerrou os dentes, a irritação vazando em um resmungo:
— Droga... De todos os juízes, tínhamos que dar de cara logo com a cabeça-oca? Isso não ajuda em nada.
Anna adiantou meio passo, as solas firmes na laje molhada:
— O que você acha, Vivian? A gente tenta passar à força para caçar outro caminho ou recua para a bifurcação?
Lilibeth inflou as bochechas, projetando o lábio inferior em um bico melodramático:
— Poxa, que maldade! Vocês já estão pensando em dar meia-volta depois de me encontrar? Isso é extremamente rude, sabiam? — O semblante infantil desfez-se por uma fresta, cedendo lugar a uma sombra sutil. — Embora... acho que eu não vou poder permitir que vocês vão embora tão fácil. Como vocês também estão caçando o traidor, podem acabar atrapalhando a missão se começarem a se meter onde não devem.
O ar entre as colunas pareceu gelar.
Vivian arregalou os olhos, o queixo caindo num baque:
— O que... o que foi que você disse?!
Lilibeth levou as mãos à boca, arregalando os olhos em falso susto:
— Epa! Deixei escapar!
— Espera aí... Então você sabe sobre o sabotador?! — Vivian avançou um passo impulsivo em direção à margem da água, pronta para encurralar a mensageira.
Um antebraço firme barrou seu avanço.
Anna estendeu o braço esquerdo, travando o peito da companheira com a rigidez de uma barra de ferro.
— Anna?! O que você tá fazendo?! A gente precisa—
— Olha direito para esta sala, Vivian — cortou Anna. O tom não trazia a costumeira hesitação; saía plano, gélido e afiado. — Não dê mais nenhum passo. Esta sala não é segura. Essa chuva não é um fenômeno natural.
Vivian piscou, desarmada pela mudança drástica na presença da amiga.
— Ela está te atraindo para uma armadilha — continuou Anna, sem desviar as pupilas de Lilibeth. — Não perca a calma. Pense um pouco: como diabos ela sabe qual é o nosso objetivo? Nós não falamos alto sobre a sua teoria do sabotador. Com o barulho dessa água caindo sem parar na pedra, seria acusticamente impossível ela ter escutado a nossa conversa daquele ponto.
A musculatura de Vivian destravou num arrepio frio. É verdade... Como ela ouviu a gente dali?
No centro do espelho d'água, Lilibeth soltou um suspiro dengoso, cruzando os braços sob o busto:
— Ah, Anna, sua malvada... Nós podíamos ter resolvido isso tão rápido e sem dor de cabeça se você não tivesse se intrometido!
Vivian recuou meio palmo, a guarda armada. Era um cerco premeditado.
A afetação de Lilibeth, porém, desfez-se em nova leveza:
— Mas tudo bem! Você foi tão gentil e educada com a Lilibeth mais cedo no trem que eu te perdoo de coração! — Ela inclinou a cintura para a frente, as íris faiscando em curiosidade estreita. — Além do mais... a Lilibeth tem uma intuição feminina impecável. E eu sinto que tem alguma coisa incrivelmente fascinante e estranha dormindo aí dentro de você, Anna... É por isso que a Lilibeth simplesmente não consegue ficar brava com você!
Anna sustentou a troca de olhares com as sobrancelhas arqueadas, impassível.
Atrás dela, Vivian mapeava os círculos dourados dos espelhos flutuantes:
— Pensando bem... eu nunca vi a Lilibeth lutar. Não faço ideia de qual seja a habilidade dela. Mas considerando que ela não larga esse guarda-chuva ridículo por nada, imagino que a técnica tenha ligação direta com manipulação de água e com essa chuva na sala...
Lilibeth bateu palmas ritmadas, soltando uma risadinha cristalina:
— Uau! Será que a Vivian acertou? Mas se for exatamente isso... o que você pretende fazer, hein? Vai ficar aí parada na margem com medinho de se molhar? Se você estiver com tanto pavor assim de pegar um resfriado na chuva, a Lilibeth pode ser boazinha e te emprestar o guarda-chuva dela!
— Não, obrigada — rebateu Vivian, a voz seca. — Dispenso a sua caridade.
A garota sobre a raiz empinou o queixo de lado, ajeitando as dobras da saia com desdém polido:
— Bom, melhor assim! De qualquer forma, a Lilibeth não ficaria nada feliz em ter que dividir o espaço dela com alguém como você.
— Mas foi você mesma quem acabou de oferecer!
— Eu estava apenas sendo educada pelas regras de etiqueta! — retrucou Lilibeth na hora. Ela enlaçou a haste de metal do guarda-chuva com os dois braços, os olhos brilhando em devaneio febril. — A Lilibeth só dividiria o guarda-chuva dela com homens imponentes, perigosos, arrogantes e dominadores... Daqueles que olhariam para a Lilibeth de cima com olhos cheios de desprezo enquanto pisam na poça d'água... Hahaha... Ah, isso sim seria um sonho de romance!
Vivian torceu o lábio em puro asco:
— Sua pervertida doente...
— A LILIBETH NÃO É PERVERTIDA, SUA MAL-EDUCADA! — a mensageira bateu o pé na madeira, inflando as bochechas.
Puxou o fôlego devagar, recompôs a postura aristocrática e pousou sobre Vivian um olhar despido de qualquer calor pueril:
— Mas é evidente que alguém tão limitada quanto a Vivian jamais compreenderia a grandiosidade de um romance trágico. Afinal de contas... além de você não ter nada a ver com o tipo de pessoa que a Lilibeth admira, você só tem capacidade de se apegar a perdedores patéticos.
A umidade da câmara pareceu pesar sobre as clavículas de Vivian.
A garota fechou os punhos até os nós dos dedos estalarem:
— O que foi... que você disse?
— Eu sei tudo sobre o Kai e o Ozymandias — declarou Lilibeth, o tom assumindo uma frieza cirúrgica. — O Ozy sempre foi obcecado em enfrentar o Ryu, o lendário Caçador da geração passada. Mas se mordia de ódio por ter nascido na época errada, logo depois que o Ryu sumiu sem deixar rastros. Como o Ozy tem aquele código estúpido de não encostar em mulheres, e a Bishamon vinha atropelando todo mundo para assumir o topo da Agência, ele viu a chance de glória escorrer pelo ralo.
Ela deu dois passos sobre a casca rugosa da raiz, o guarda-chuva girando devagar em seus dedos:
— Então o que o Ozy fez? Decidiu que a saída era testar a própria força contra o sangue do Ryu. Mas o Blade, com aquela arrogância covarde e patética, nunca aceitou nenhuma das provocações dele. E o Dante, o primogênito legítimo, foi dado como morto até esses dias. Sendo assim... o Ozy apostou todas as fichas dele no clone. Um clone perfeito, geneticamente aperfeiçoado pela Rani! Ele realmente achou que teria um combate divino...
Lilibeth estacou a marcha, soltando uma risada rasteira que cortou o barulho dos pingos:
— E o que ele encontrou no final? Apenas um pirralho fraco, sem talento e arrogante, sangrando até quase a morte no chão porque não tinha a capacidade de aceitar a derrota. E, para completar o espetáculo deplorável... uma garotinha assustada, chorando e rastejando na lama, implorando de joelhos para que o monstro poupasse a vida do falso irmão inútil dela.
A cor escorreu do rosto de Vivian em questão de segundos.
A lembrança atingiu suas defesas com a violência de uma ferida reaberta. Ela cravou os dentes na polpa do lábio até sentir o gosto acre de sangue, os ombros oscilando sob o peso da vergonha acumulada.
— Com tanta gente magnífica para admirar nesta família... você escolheu logo aquele lixo — Lilibeth emendou, sem piedade. — E agora está aqui, bancando a detetive corajosa... Acha que a Lilibeth não vê através dessa sua máscara ridícula, Vivian? Apesar de todo esse medo doentio que você carrega, a ponto de não conseguir ficar a um metro de distância do Blade sem tremer... tudo o que você queria era desmascarar o traidor para entregar o mérito de bandeja nas mãos do seu irmão mais velho! Tudo para conseguir um mísero elogio dele! É simplesmente patético ver alguém se humilhar tanto por um homem com quem sequer tem coragem de falar.
O ar sumiu da garganta de Vivian. Os olhos arderam com lágrimas contidas, a respiração presa em nós secos.
SPLASH!
Um passo pesado cortou a lâmina d'água rasa.
A água espirrou em arco contra a pedra quando Anna plantou as solas entre Vivian e o centro do lago.
Ao erguer o queixo, as feições de Anna estavam limpas de qualquer dúvida. As íris azuis sustentavam uma densidade imóvel:
— Eu não sei se você cuspiu esse veneno todo apenas para atraí-la para o seu campo de água, ou se você é genuinamente podre a esse ponto — Anna projetou a voz, cortando o chiado da chuva. — Mas seja lá qual for a sua intenção... você já passou dos limites. Não pense por um único segundo que eu vou ficar aqui parada assistindo você diminuir a minha amiga.
Lilibeth pestanejou, a linha do sorriso vacilando por um milésimo sob o peso daquele tom.
Anna virou apenas o queixo, cravando os olhos em Vivian:
— Não engole o veneno dela, Vivian! Nada do que essa garota disse tem a menor importância agora! O que aconteceu no passado, ficou no passado!
O braço de Anna estendeu-se em linha reta, apontando para a figura sobre a raiz:
— Levanta a cabeça e olha para a frente! Você não veio até aqui para capturar o sabotador?! Ela pode não ser a secretária da Lapiz... mas pelo que acabou de falar, sabe infinitamente mais sobre o caso do que qualquer um! Com uma fonte valiosa dessas bem na nossa frente... o que é que uma Caçadora de verdade faria?!
As palavras atingiram Vivian como um impacto sólido.
O aperto da humilhação afrouxou na traqueia. Puxando o ar com força, ela limpou a umidade dos olhos com as costas da manga e retesou a coluna, alinhando a base no piso de pedra:
— Me desculpa, Anna... Sempre que eu piso neste continente maldito, eu deixo essas merdas de memórias tomarem conta da minha cabeça. Mas você tem toda razão. Numa situação dessas... nenhum Caçador digno do título deixaria uma oportunidade dessas escapar. É óbvio que um tesouro desses a gente arranca na marra!
Do outro lado do espelho d'água, Lilibeth encostou a ponta da luva nos lábios, as maçãs do rosto afogueando-se sob um lampejo teatral:
— Ui... Me chamando de "tesouro" com tanta convicção assim no meio da tempestade...? — Ela deu um rodopio sutil, fazendo as anáguas farfalharem sobre as poças. — Desse jeito o coração da Lilibeth não vai aguentar tanta emoção!
Parte 7
A água continuava a despencar da abóbada de pedra em uma cortina ruidosa e incessante, enchendo o ar com o cheiro mineral de rocha molhada e lodo antigo. O chão da câmara circular já acumulava uma lâmina translúcida que cobria o couro das botas, tornando qualquer avanço um terreno traiçoeiro.
Vivian ajustou a respiração curta, os olhos fixos na silhueta equilibrada sobre a casca da raiz:
— Anna, eu vou na frente.
Anna virou o rosto num sobressalto:
— O quê?
— A minha biologia aguenta o tranco — murmurou Vivian entredentes, os ombros tensos. — Se aquilo ali for uma armadilha puramente ofensiva, o meu corpo se regenera dos danos graves. De qualquer forma, a minha habilidade funciona infinitamente melhor na função de suporte. Deixa que eu abro a brecha.
Anna assentiu em silêncio, recuando meio palmo para dar espaço.
Vivian enfiou a mão no bolso do vestido e puxou uma tesoura comum de costura. Num estalo dos dedos enluvados, uma película prateada de Éter engoliu o metal. A estrutura rangeu num chiado agudo, esticando-se e encorpando-se em uma lâmina de duas mãos, colossal e reluzente.
— Não pense que você vai sair dessa sala ilesa depois de toda a merda que falou! — rosnou Vivian.
Lilibeth manteve o sorriso brando, tombando a cabeça sob a copa esticada do guarda-chuva.
Vivian arrancou.
A água espirrou em dois leques violentos sob suas solas. Ao alcançar a margem funda da poça, descarregou o Éter na musculatura da perna direita e catapultou o próprio corpo num arco ascendente direto contra a base da raiz.
No ápice da curva, girou o tronco com todo o peso do torso e desferiu um golpe horizontal com a lâmina prateada.
O corte fatiou a madeira maciça com a facilidade de um fio quente na cera, partindo a tora de ponta a ponta.
A lâmina, contudo, encontrou apenas o ar vazio.
Lilibeth havia sumido.
Vivian aterrissou na água com as pernas abertas, os olhos vasculhando o espaço em alarme. Ao volver o pescoço em direção à entrada, deparou-se com Anna paralisada, as pupilas dilatadas na mesma mudez atônita.
Sem precisarem de palavras, Vivian entendeu: a parceira também não vira o deslocamento.
Como diabos essa garota é tão rápida?!, praguejou em silêncio.
— VIVIAN, SAI DAÍ!
O aviso veio colado a um tranco violento. Anna projetou o próprio corpo contra o dela em uma investida seca, jogando ambas para o lado oposto da poça.
A laje onde Vivian pisava um milésimo antes colapsou. Não houve feixe luminoso, faísca ou projétil cortando a penumbra; a água e a pedra foram prensadas para baixo por uma força invisível e descomunal, abrindo uma cratera circular perfeita no concreto com o som de uma britadeira pesada.
Vivian apoiou as palmas na lama, cuspindo o líquido turvo que respingara em sua boca:
— Mas que porra foi ess—
— Olha pra cima! — cortou Anna, os antebraços erguidos em guarda rígida.
Suspensa no ar a cinco metros de altura, apoiando as solas das botinas no vazio absoluto, Lilibeth as observava com o guarda-chuva aberto sobre os ombros. O sorriso de porcelana continuava intocado:
— Vamos continuar? A Lilibeth estava achando tão divertido!
Anna estreitou os olhos, o raciocínio trabalhando sob a chuva fina:
— Ela não se moveu, Vivian.
— Como assim "não se moveu"?!
— Eu mantive a minha percepção cravada nela durante a sua investida — explicou Anna, a voz rápida e gélida. — Se ela tivesse corrido, saltado ou desviado, eu teria sentido o atrito do ar ou a assinatura de Éter cortando o espaço. Mas não houve nada. Num instante ela estava sobre a raiz... e no milésimo seguinte, já flutuava aí em cima.
— Ela simplesmente sumiu... — Vivian engoliu o nó na garganta, os nós dos dedos estalando no punho da tesoura. — Então a técnica dela é...
— Foi a primeira coisa que eu pensei — atalhou Anna. — Mas me diz uma coisa, Vivian: você tem certeza absoluta de que é impossível se teleportar sob a tempestade magnética deste continente?
— Certeza absoluta! A turbulência das Linhas de Ley fritaria o cérebro de qualquer conjurador que tentasse dobrar o espaço aqui!
— Então... como é que ela apareceu dentro do trem em movimento para nos receber antes de Westfalia?
A incongruência bateu em cheio na cabeça de Vivian.
Não houve trégua para a dedução.
— CUIDADO!
Anna empurrou Vivian lateralmente outra vez.
Um segundo martelo invisível atingiu o solo. A onda de choque prensou o flanco de Anna contra a laje úmida com violência bruta. A garota rolou na água rasa, trincando os dentes com a pontada aguda nas costelas, mas conseguiu firmar a base antes que uma terceira carga caísse sobre sua cabeça.
Vivian sentiu a garganta arder em frustração com a própria lentidão.
Lilibeth agitou a mão livre no ar, a entonação pontuada por um desdém infantil:
— É sério que vocês duas vão ficar batendo papo furado bem na frente da Lilibeth? Eu achei que vocês fossem Caçadoras profissionais... Mas ficar rastejando na lama é a única coisa que conseguem fazer?
Droga..., pensou Vivian, puxando o fôlego com esforço. Tentar amaldiçoar essa maluca agora com a minha habilidade é suicídio puro. O meu feitiço depende de um confronto de verdades... Se ela sabe tudo sobre o meu passado com o Blade e com o Kai, qualquer frase que ela cuspir vai gerar um rebote letal contra mim! Eu preciso vencer essa aberração no físico!
Enfiando a mão livre no forro do vestido, sacou mais quatro tesouras comuns, imbuindo-as com Éter prateado até que as hastes se esticassem em lâminas pontiagudas de arremesso.
— Desse jeito você nunca vai acertar a Lilibeth! — a voz cantada brotou colada à sua orelha.
Antes que Vivian erguesse a lâmina, a sola da botina de Lilibeth afundou em sua caixa torácica.
A pancada descarregou uma energia cinética absurda. Vivian cruzou a câmara em linha reta, batendo com a coluna contra a alvenaria oposta sob o estalo de pedras partindo e água espirrada.
No mesmo segundo, outra massa invisível desabou sobre Anna, forçando os joelhos da garota contra as lajes com um baque surdo.
— Ainda não acabei! — berrou Vivian do meio dos escombros, levantando-se enquanto a cartilagem de suas costelas estalava numa regeneração dolorosa e acelerada.
Num arranque curto, Vivian disparou os quatro projéteis de aço contra o ponto onde Lilibeth flutuava. As lâminas rasgaram a cortina de chuva zunindo como dardos pesados.
Ao atravessarem a garoa, no entanto, perfuraram apenas o vazio.
— A Lilibeth já avisou... — o tom doce ressoou da outra margem do espelho d'água. — Vocês não têm a menor chance contra a Lilibeth!
A gravidade dobrou-se de novo sobre Vivian, prensando seu rosto contra o chão alagado.
Anna forçou a musculatura a responder, cuspindo um traço escuro de sangue na poça.
Ao seu lado, Vivian colocou-se de pé num solavanco cego. Cortou a água rasa em disparada, elevando a passada até virar um borrão prateado que avançava frontalmente contra a mensageira.
A dois passos do alvo, contudo...
Um estrondo metálico ecoou no ar vazio.
O corpo de Vivian bateu de chapa contra uma superfície invisível e impenetrável.
O impacto estalou com a violência de ferro colidindo com granito maciço. A garota tombou de costas na água com o nariz e os lábios sangrando, desorientada pela concussão.
O que foi isso?! Parecia uma muralha de aço puro!
Passando as costas da mão pelo queixo manchado, Vivian forçou um meio sorriso ríspido:
— Tudo bem... Esse foi só o primeiro round.
Lilibeth estreitou a vista. Um zumbido sibilante alcançou seus ouvidos vindo de sua retaguarda.
Ao espiar por baixo do aro de tecido do guarda-chuva, viu a tesoura colossal de duas mãos girando em rotação contínua contra a sua nuca, cortando a chuva feito uma serra circular.
Ela arremessou a arma antes de investir de frente? A corrida frontal era apenas uma distração?!
Antes que o fio tocasse os fios de seu cabelo...
A tesoura de duas mãos bateu seco contra o nada, soltando uma centelha invisível antes de ricochetear com violência para o alto e cravar-se na abóbada de pedra.
Vivian arregalou os olhos:
— Nem a tesoura passou?!
Lilibeth soltou uma risadinha vaidosa:
— Apesar de não ter surtido efeito, a Lilibeth admite que não foi uma estratégia ruim! Por isso, eu vou fazer um elogio para a Vivi—
O chão sob suas solas explodiu.
Uma coluna massiva de Éter inflamado rompeu o piso e a lâmina d'água, subindo em linha reta num turbilhão de calor abrasador que engoliu a figura da mensageira em uma nuvem densa de vapor fervente.
Ajoelhada a poucos metros, com a mão direita cravada até o punho na fenda da terra borbulhante de energia, Anna ergueu o queixo:
— E quem foi que disse que a tesoura era a única finta?
Ambas prenderam o fôlego diante da água sibilando em vapor.
Conforme a névoa dissipava-se na corrente fria, o desalento cobrou seu preço.
Lilibeth permanecia de pé no exato mesmo ponto.
O tecido do vestido nobre não trazia marcas de chamuscado; o guarda-chuva aberto aparava as gotículas ferventes e nem um único cacho de seus cabelos havia saído do alinhamento.
— Caramba... — Lilibeth suspirou, sacudindo a barra da saia com a mão livre. — A Lilibeth realmente precisa se desculpar com vocês duas. Vocês são um pouquinho mais fortes do que eu esperava.
Vivian e Anna recuaram quatro passos em sincronia, cravando as solas na pedra para refazer a postura de combate.
— Você entendeu alguma coisa dessa habilidade, Anna? — sibilou Vivian, limpando o sangue do queixo.
— Quase nada — respondeu Anna, o olhar varrendo a postura da adversária. — Eu tinha certeza de que a técnica dela dependia da água da sala. Um golpe térmico concentrado vindo de baixo deveria ter vaporizado o meio de condução e rompido a barreira...
O olhar analítico de Anna travou em um detalhe na silhueta da outra.
Na mão esquerda de Lilibeth repousava agora um pequeno espelho oval de moldura dourada, recém-sacado do cinto.
A memória de Anna retrocedeu: Quando nós entramos aqui... Havia outros desses espelhos flutuando ao redor dela. E agora ela segura um na mão... Por quê?
Uma engrenagem encaixou-se em sua mente.
— Vivian — murmurou Anna num tom baixo e firme. — Continua atacando exatamente como você estava fazendo. Eu acho que tive uma ideia.
Canalizando a emanação ao redor do antebraço direito, Anna moldou o Éter em uma carcaça mecânica densa — um canhão compacto de descarga cinética acoplado rente ao pulso. Rebaixou a base, pronta para o avanço.
Vivian assentiu:
— Pode deixar comigo!
A expressão de Lilibeth, contudo, começou a mudar. A doçura infantil desfez-se em uma ruga tensa entre as sobrancelhas:
— Até agora... vocês duas não conseguiram arrancar um único fio de cabelo da Lilibeth. Então me digam... Por que essa expressão no rosto? Por que vocês não desistem de uma vez? Por que continuam se levantando?
Anna adiantou meio passo, sustentando o olhar:
— O que foi, Lilibeth? Parece um pouco cedo demais para pedir arrego, não acha? Será que os nossos golpes afetaram você muito mais do que você tá disposta a admitir?
A garota inflou a caixa torácica, a afetação caindo por terra:
— A Lilibeth adora brincar. E a Lilibeth realmente achou a Anna muito fofa e legal! Mas a Lilibeth recebeu uma missão oficial... e precisa cumprir essa ordem de forma rápida e absolutamente perfeita! Por isso, eu preciso estraçalhar vocês duas aqui e agora! Então, por favor... fiquem caídas no chão pelo bem da Lilibeth!
O braço direito de Lilibeth fustigou o ar para baixo.
Anna e Vivian saltaram em direções opostas no instante em que o espelho d'água entre elas foi triturado por outra força invisível, espalhando lascas de granito.
Movendo-se em semicírculo pela borda da sala, a mente de Vivian trabalhava em ritmo febril:
Ela tá ficando agitada, exatamente como a Anna percebeu... Disse que precisa encerrar essa luta rápido. Será que a técnica impõe um limite de tempo no corpo dela?!
Vivian focou o Éter nas órbitas para escanear a postura da garota:
Não... O fluxo dela sequer oscilou. Tá fazendo tudo com uma facilidade nojenta. Essa pressa é pela missão... Ela tá com medo de perder o rastro do sabotador! Se for isso, nós também não temos um segundo a perder!
Travando a bota na rocha, Vivian alterou o vetor da corrida e disparou frontalmente contra Lilibeth mais uma vez.
O choque contra a barreira invisível repetiu o estalo seco no ar.
Lilibeth chicoteou a mão enluvada, e uma prensa pesada atingiu as costas de Vivian, afundando a garota de bruços na poça repetidas vezes.
Vivian, contudo, recusou-se a ficar no chão. Com a boca ensanguentada e os músculos ardendo sob o esforço da regeneração, apoiou a palma na laje e ergueu o tronco:
— Se a porra da sua defesa e do seu ataque exigem foco consciente... um dos dois precisa ser desligado para o outro funcionar!
Concentrando a reserva de Éter no braço direito, arremessou a tesoura gigante com força máxima contra a garganta de Lilibeth, enquanto a mão esquerda já buscava uma lâmina curta no bolso.
Se ela desfizer a pressão para aparar a tesoura no ar, eu me levanto e corto ela com a segunda! Mas se mantiver a força em cima de mim... a lâmina que eu lancei vai arrancar a cabeça dela!
Lilibeth baixou os olhos com frieza:
— Por acaso a Lilibeth disse em algum momento que só podia usar uma coisa de cada vez?
A tesoura de duas mãos estacou a centímetros do queixo da mensageira, repelida contra o nada e arremessada para longe como sucata.
No mesmo compasso, Anna surgiu em um arranque pela esquerda, encurtando o espaço com o canhão de Éter apontado diretamente para o esterno da rival.
— Quantas vezes a Lilibeth vai precisar repetir que essas fintinhas ridículas não vão funcionar?! — ralhou Lilibeth, girando a mão livre.
— Basta a gente tentar até fazer funcionar! — devolveu Anna.
Mirando o cano de energia rente ao peito, Lilibeth levou a mão ao pequeno espelho preso na cintura para ancorar a defesa:
Outro feixe concentrado de Éter... Não vai passar!
O gatilho que Anna apertou, no entanto, não disparou matéria sólida.
Uma detonação violenta de luz branca explodiu da boca do cilindro.
Não foi um projétil cinético; foi uma onda luminosa avassaladora que saturou a câmara por inteiro. A intensidade apagou instantaneamente qualquer sombra, reflexo ou penumbra nas paredes, queimando as retinas e lavando o ambiente em uma alvura pura por dois compassos.
No instante exato em que o clarão alcançou a saturação máxima...
O segundo disparo, uma ogiva de impacto sísmico e Éter denso, detonou à queima-roupa.
O estrondo ressoou como trovão contido na pedra, sucedido pelo ruído seco de alvenaria desabando na extremidade da sala.
Vivian piscou repetidas vezes, as lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto a visão limpava-se da queimação branca.
— Anna?! — chamou Vivian, a voz áspera. — Você tá inteira aí?!
— Tô bem... — a resposta veio num sopro ofegante logo à frente. — E eu acertei.
A poeira e o vapor assentaram devagar, revelando a cratera aberta na parede de cantaria do fundo.
Entre blocos partidos e cinza úmida, Lilibeth colocava-se de pé com dificuldade.
O vestido nobre estava rasgado e tisnado; queimaduras vermelhas marcavam a pele de seus ombros e, pela primeira vez, ela cambaleava, apoiando uma das mãos na cintura ferida enquanto sustentava o guarda-chuva torto.
— Ai... Anna, sua garota violenta... — Lilibeth murmurou com o tom embargado, o lábio inferior repuxado numa indignação genuína. — É assim que você trata uma bonequinha frágil e delicada como a Lilibeth?!
Anna baixou a carcaça fumegante do canhão, os lábios curvados num sorriso seco:
— Ué... Não era você quem dizia que adorava gente rude olhando pra você de cima?
Vivian avançou dois passos, o queixo descendo:
— Mas que... O que acabou de acontecer aqui?!
O ar ao redor zumbiu antes que Anna pudesse formular a resposta. Ambas saltaram de lado num reflexo limpo, vendo a poça onde estavam ser esmagada por outro golpe invisível.
Mantendo a movimentação contínua pelas bordas da câmara, Anna projetou a voz sobre o ruído da água:
— A gente errou feio na dedução inicial, Vivian! Por causa do guarda-chuva e dessa chuva contínua, achamos que ela controlava a água. E depois daquele sumiço, pensamos em teletransporte... Mas o truque é mais simples e ardiloso: a habilidade dela manipula Reflexos!
Lilibeth fustigava o ar em gestos curtos, a irritação evidente enquanto as descargas abriam fendas apenas no piso vazio, sem alcançar o ritmo das duas.
— Como assim "reflexos"?! — gritou Vivian durante o salto.
— O nosso reflexo! — berrou Anna de volta. — Quando entramos aqui, ela estava cercada por espelhos flutuantes e mantém outro na cintura. Era através deles que ela monitorava a gente antes de pisarmos na sala!
— Mas ela desfez os outros espelhos! Não tem nenhum vidro no meio do lago!
— Eu já falei que a técnica não precisa de vidro, Vivian! Ela manipula reflexos! E cada gota dessa chuva caindo nas nossas roupas e na lâmina d'água funciona como um microespelho refletindo a nossa posição!
As feições de Lilibeth fecharam-se num espasmo de cólera:
— ANNA, CALA ESSA BOCA!
A mensageira ergueu os dois braços em desespero.
Uma cascata desordenada de gotas desabou com peso esmagador por todo o perímetro da câmara. A violência foi tamanha que não apenas arremessou Vivian e Anna contra as pedras da margem; o recuo da própria força atingiu Lilibeth de raspão, fazendo-a tropeçar e afundar os joelhos na água.
Vivian cuspiu sangue, apoiando-se nos cotovelos enquanto a mente fechava a equação:
A pressão que nos esmagava... Não era gravidade ou vento. Era a física distorcida do reflexo da própria chuva batendo na gente!
Anna levantou-se com passadas firmes, sacudindo a água dos olhos enquanto media o recuo da adversária:
— Ela não pode usar essa técnica em escala aberta sem colocar o próprio corpo na linha de fogo... É por isso que precisa focar em vetores específicos, mirando quando a gente avança em linha reta até ela!
— Tá, mas como essa loucura funciona na prática?! — cobrou Vivian, ainda atordoada. — Eu entendi que ela usa o reflexo das gotas para projetar impacto... Mas e o resto daquela defesa intransponível?!
Anna deu de ombros com naturalidade crua:
— Eu não faço a menor ideia.
Vivian quase perdeu o ar:
— COMO ASSIM VOCÊ NÃO FAZ IDEIA?!
— E como é que eu ia saber, Vivian?! — rebateu Anna, gesticulando com o braço mecânico. — A habilidade dessa garota é uma anomalia! Eu sequer entendo totalmente o bloqueio através do reflexo da chuva! Tem camadas nessa técnica que eu ainda não decifrei!
— Mas você falou com tanta certeza agora há pouco!
— Eu só juntei os fatos óbvios! Na hora em que disparei o feixe térmico debaixo da terra, a água evaporou e ela foi obrigada a puxar aquele espelho físico do cinto para segurar o golpe. Foi a primeira vez que a chuva falhou em protegê-la. Quando vi aquilo, a hipótese do reflexo estalou. Então resolvi testar: o primeiro tiro do canhão foi uma explosão de luz pura para superexpor a sala e quebrar a refração de todas as gotas ao redor. Com os reflexos cegados pela luz branca, a barreira apagou por um milésimo... E o segundo tiro entrou limpo!
Vivian soltou um riso rouco entre os dentes feridos:
— Entendi... Então o segredo para furar a defesa dela é simplesmente arrancar os reflexos do campo. Agora pelo menos dá para lutar!
No centro da sala arruinada, Lilibeth colocou-se de pé devagar.
Os maneirismos infantis e a afetação dócil haviam sumido por completo. A barra da saia chamuscada pingava sobre o lago raso e seus olhos encaravam Anna com uma rigidez cortante, gélida e concentrada.
— Como a Lilibeth imaginava... — a voz saiu plana, cortando o gotejar da pedra. — De fato, existe algo extraordinário dormindo aí dentro de você, Anna.
Com um estalo metálico e seco, Lilibeth fechou o guarda-chuva, segurando a haste como uma lança de infantaria:
— Você foi uma das primeiríssimas pessoas na história a decifrar a mecânica do poder da Lilibeth sob a chuva em tão pouco tempo. O meu erro foi ter sido descuidada... Eu deveria ter investigado a fundo a natureza da sua habilidade antes de deixar você se aproximar.
Ela ergueu o queixo, as pupilas faiscando com frieza:
— No entanto... Apenas compreender a teoria não muda o resultado. A Lilibeth não vai perder para vocês duas. E, a partir deste exato segundo... eu não vou mais pegar leve.
A umidade da câmara pareceu congelar em agulhas invisíveis. E, sob a chuva que engrossava do teto, o Segundo Teste transformou-se em uma zona de abate.
Parte 8
Anna e Vivian cravaram as solas na lâmina d’água no mesmo milésimo de segundo. Antes, porém, que a primeira centelha de Éter pudesse tomar forma sobre os punhos para a resposta, a pressão atmosférica da câmara ruiu.
O ar sumiu em um vácuo súbito e gélido. Sentindo o aviso biológico arder na espinha, Vivian bombeou Éter direto para as terminações ópticas, forçando a visão mística a se abrir para dissecar o fluxo de mana da adversária.
O que encontrou fez seus joelhos travarem.
Eu não devia ter olhado..., o pensamento gritou contra suas têmporas em puro pavor. Eu nunca deveria ter olhado pra essa aberração!
Sob a carcaça daquela garota mimada de vestidos aristocráticos, a emanação de Lilibeth vomitava uma tempestade densa, negra e infinita. Uma massa voraz que parecia engolir a claridade azulada das pedras, rasgando o ar com uma gravidade que rivalizava sem esforço com os generais mais temidos da família Scarlune.
Lilibeth não deu margem para o choque assentar.
Num movimento suave, quase cerimonioso, a mensageira baixou o braço direito e tocou a ponta de madeira do guarda-chuva fechado contra a superfície alagada.
TOC.
A batida seca ressoou nas abóbadas com a nitidez de uma lâmina partindo osso.
No milésimo seguinte, a dinâmica da água morreu. As marolas provocadas pelas botas pararam no meio do curso; a correnteza estancou e cada gota que despencava da abóbada perdeu a turbulência, congelando no ar antes de tocar o chão. A lâmina líquida que cobria toda a câmara esticou-se em uma quietude sepulcral, transfigurando-se em um espelho colossal, negro e límpido, refletindo com precisão microscópica cada poro das duas invasoras.
Anna arregalou os olhos, o grito rasgando a garganta:
— VIVIAN, SAI DAÍ AGORA!
A sentença, contudo, já estava selada.
Lilibeth ergueu os olhos sob a franja úmida, os lábios soltando o murmúrio cadenciado:
— Espelho da Alma: Refração Sombria.
O reflexo sob as botas de ambas dobrou-se como piche fervente.
Antes que Vivian pudesse saltar, braços pálidos romperam a superfície negra sob seus pés. Uma bota pesada emergiu da própria imagem refletida da garota, desferindo um chute frontal que afundou em seu estômago com violência metálica. O ar fugiu de seus pulmões em um engasgo oco; seu corpo foi arremessado horizontalmente pela sala, deslizando de costas sobre o piso espelhado até estancar na pedra da margem.
No flanco oposto, Anna impulsionou a passada para cortar o espaço de lado, mas o estalo ríspido de eletricidade fendeu o caminho à sua frente.
Um clarão alaranjado detonou contra a água.
Fios vermelhos e escuros dançaram na fumaça. Antes que Anna pudesse erguer o canhão acoplado ao antebraço para amortecer o golpe, um calcanhar banhado em Éter supersônico atingiu sua clavícula com força sísmica. O impacto chicoteou a garota contra a alvenaria; a alvenaria cedeu, cuspindo uma chuva de cascalho e poeira sobre as águas rasas.
A dor crua subiu em ondas pelo corpo de ambas.
Cuspindo um fio grosso de sangue, Vivian apoiou as palmas trêmulas na pedra úmida, lutando para clarear a vista turva da concussão. Quando as pupilas finalmente focaram a silhueta que caminhava devagar pela água cristalina em sua direção, a respiração travou-lhe no peito.
Um pavor infantil, denso e paralisante desceu por suas vísceras.
Avançando com passadas firmes e compassadas, Blade Scarlune descia sobre ela. O homem carregava a mesma postura soberana e inalcançável que sempre assombrou os passos de Vivian — as íris douradas cravadas nela com a indiferença metódica de quem observa um inseto rastejando no lodo.
— V-Blade...? — Vivian gaguejou, o tremor nos pulsos fazendo-a recuar de joelhos sobre a lâmina d’água.
A poucos passos dali, entre os tijolos partidos, Anna colocava-se de pé com esforço, limpando o filete avermelhado que descia pela têmpora. Ao levantar o queixo e fitar a figura postada diante de sua cratera, a voz falhou em pura incredulidade:
— Tá de brincadeira comigo...? Que tipo de habilidade sádica e doentia é essa?! Por que diabos logo você tá aqui?!
A silhueta estacou a dois metros.
As mechas avermelhadas caíam desalinhadas sobre a testa; o casaco surrado e o maxilar rígido reproduziam cada detalhe com precisão fotográfica. Ao erguer o punho direito — envolto em ataduras chamuscadas e sibilando com o zumbido elétrico do Chronos Break —, a cópia fixou os olhos rubros diretamente nas feições de Anna.
A voz saiu áspera, rascante e terrivelmente familiar:
— Vamos logo acabar com isso, Anna.
Enquanto o pesadelo ganhava corpo na câmara alagada, o labirinto subterrâneo ardia em outras frequências.
Em uma encruzilhada de pedra maciça, Kai e Ozymandias trocavam massacres sem intervalo. O Éter azul da Pressão Espacial colidia contra a massa muscular titânica do gigante em estrondos secos que rachavam as fundações das ruínas a cada passada, sem que nenhum dos dois concedesse um palmo de terreno.
Quilômetros dali, Dante e Mio cruzavam as galerias inferiores em arrancada contínua, despedaçando autômatos de ferro e saltando sobre abismos escuros, totalmente alheios ao reflexo que caçava Anna e Vivian na câmara espelhada.
Nos níveis superiores, Shisui recostava-se contra uma coluna com um riso amarelo no rosto, enquanto Blade e Justia mantinham o aço apontado para Delta, que soluçava de joelhos na terra, confessando a própria fraqueza perante a guarda da corte.
E, nos corredores arqueológicos, Cyfera continuava discursando sobre eras esquecidas para uma Beatrice atordoada, caminhando sob o olhar cego de fadas esculpidas na pedra milenar.
Cada um dos passageiros avançava pelo Segundo Teste na certeza de que disputavam apenas a sobrevivência física daquela rota, sem suspeitarem de que as engrenagens de um desastre maior já giravam fora da vista de todos.
Longe da umidade das catacumbas, na calmaria sepulcral de uma sala de controle isolada no terminal leste de Westfalia, a penumbra engolia o maquinário.
O homem mantinha uma postura plácida diante do cofre embutido na parede de ferro. Com a ponta dos dedos calmos, inseriu a sequência de doze dígitos no console rúnico.
Bip. Bip. Clack.
As travas de aço recuaram num chiado pneumático. A porta blindada cedeu devagar, e a mão enluvada adiantou-se para erguer, do fundo do compartimento escuro, o artefato lacrado por grossas correntes arcanas.
— Olha só, loirinho...
A voz arrastada e doce deslizou da escuridão às suas costas.
O homem não estremeceu. Manteve os dedos firmes sobre o metal frio da relíquia enquanto a silhueta de Paracelso descolava-se das sombras.
— Quem diria... — cantarolou a alquimista, os lábios curvados em um sorriso fino e os olhos purpúreos reluzindo no breu. — Quem diria que logo o garoto modelo da família... o pacificador que vivia choramingando por almoços de domingo... seria quem estaria aprontando essa bagunça toda no fim das contas?
Com lentidão calculada, ele virou o tronco.
Paracelso deu mais um passo, inclinando a cabeça com curiosidade cortante:
— Qual será que seria a reação do Heisen se eu contasse isso para ele agora? Ou até mesmo a do Ryu, se ele ainda estivesse vivo para ver esse espetáculo? Quem diria... que entre tantas opções óbvias e podres neste continente...
A linha de sua boca endureceu com a frieza de um bisturi:
— ...logo você seria o traidor, Love?
O cômodo emudeceu.
Diante do nome pronunciado em voz alta, a postura desajeitada de Love Scarlune desfez-se como cinza ao vento. O olhar ingênuo, os ombros encolhidos e a mansidão que ele carregava diante dos outros simplesmente deixaram de existir.
Em seu lugar, restou a substância pura de um Scarlune: pálpebras semicerradas, frias, lúcidas e despidas de qualquer hesitação.
Segurando o artefato contra o peito, a presença de um predador antigo despertou em suas pupilas, sustentando o olhar de Paracelso sem pestanejar por um único milissegundo.



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