The Fall of the Stars: Capítulo 6 - A Flor Carnívora

Volume 5 : Trem Escarlate
Parte 1
O tilintar metálico das xícaras sobre os pires acompanhava o chacoalhar contínuo dos trilhos, mas nem o ruído ritmado do trem aliviava o peso que as últimas revelações deixaram sobre a mesa. Foi Mio quem rompeu o silêncio, projetando o corpo para a frente com os braços abertos em frustração.
— Afinal de contas, quem foi esse tal de Daemon?! — Mio gesticulou, exasperada, oscilando o olhar de Anna para Cyfera. — Por que absolutamente tudo nesse mundo bizarro sempre acaba voltando para o nome dele?
Cyfera ergueu o queixo e curvou os lábios em um meio-sorriso enigmático. Puxou o ar devagar, já ajeitando a postura para soltar sua dissertação acadêmica, mas o fôlego travou na garganta antes que a primeira sílaba pudesse escapar.
Sem o menor ruído de passos sobre o carpete, uma sombra deslizou atrás da cadeira de Mio. Dois braços alvos envolveram o pescoço e a cabeça da garota em um laço repentino, puxando-a contra o encosto até afundar o crânio de Mio diretamente na maciez farta de seu peito.
— Que coisa mais entediante... — A voz derramou-se arrastada e doce, rente ao topo da cabeça aprisionada. — Então esse é o grande foco da sua pesquisa de vida? Ficar correndo atrás daquela coisa velha?
Anna deu um salto na cadeira. Os pés do móvel rasparam com estridor contra o piso enquanto um calafrio agudo descia por sua espinha, roubando-lhe todo o ar dos pulmões. Conhecia cada inflexão daquele tom açucarado.
Era Paracelso.
A alquimista havia cruzado o vagão sem que porta alguma anunciasse sua presença. Mantendo Mio imóvel e sem reação no abraço sufocante, Paracelso ergueu os olhos por sob os cílios e cravou em Anna um sorriso que mesclava afeto infantil e voracidade predatória.
Antes que o pânico fizesse Anna perder o chão, o pigarrear seco de Cyfera cortou o ar como vidro se partindo.
— Posso saber o porquê desse desdém na sua voz? — questionou a arqueóloga, cruzando os braços e fixando nela um olhar gélido.
Paracelso soltou um suspiro teatral, jogando a cabeça para trás.
— Porque ficar presa ao passado é um desperdício doloroso. Eu realmente não consigo entender, Cyfera. Uma mente tão brilhante e analítica quanto a sua com certeza seria uma ajuda inestimável para responder às grandes perguntas da Ciência. Mas, em vez de focar no futuro, você fica aí perdendo tempo, lidando com poeira, cadáveres e coisas velhas. — A mão da alquimista desceu para afagar distraidamente os cabelos desgrenhados de Mio, sem que suas pupilas deixassem o rosto pálido de Anna. — É exatamente por conta desse desperdício de tempo e esforço que eu realmente não posso deixar a minha Anna nas suas mãos.
— EU NÃO SOU SUA! — Anna gritou.
Ela se projetou para cima num solavanco tão brusco que sua cadeira quase tombou para trás. O rosto ardia em brasa, tomado por uma mistura febril de cólera e pavor malcontido.
Cyfera soltou uma expiração lenta e funda, ignorando a explosão da garota para manter seu foco milimétrico na intrusa.
— Sinceramente, chega a ser cômico escutar uma crítica tão vazia vinda de você — retrucou Cyfera, as íris purpúreas faiscando com irritação pontiaguda. — Todas as perguntas, todos os mistérios e anomalias sobre os Scarlunes voltam, inevitavelmente, para o Daemon. Não estudar o passado e ignorar as fundações só faz com que cientistas idiotas fiquem repetindo os mesmos erros e andando em círculos no escuro.
Cyfera inclinou a cabeça de lado. O sorriso que abriu nos lábios pingava puro veneno.
— Talvez tenha sido justamente por conta dessa sua ignorância arrogante, voltada apenas para o futuro, que a sua pesquisa estagnou, não acha, Paracelso? É por isso que você não teve mais nenhum progresso real há anos.
A atmosfera do vagão pareceu congelar num estalo.
A troca de olhares entre os dois prodígios tornou-se um fio esticado prestes a se romper. O ar ao redor da mesa vibrou com um zumbido quase inaudível, e a luz das lâmpadas pareceu se deformar suavemente com a pressão esmagadora de seus egos e de suas presenças mágicas.
— Já chega, as duas.
A autoridade cortou a estática da sala como uma lâmina fria.
Justia levantou-se em um movimento firme e deliberado. A mão direita descansava relaxada, mas milimetricamente posicionada próxima ao cabo de sua arma na cintura. Os olhos azuis repreendiam o impasse com o rigor inflexível de quem comanda tropas.
— Parem de fazer bagunça e de medir forças aqui dentro — ordenou Justia, a voz grave descendo pesada sobre a mesa. — Vocês não deveriam se esquecer de que ainda estamos no meio de um exame. E Love deixou muito claro, ordenando que ninguém arrumasse confusão ou destruísse os vagões durante a viagem.
O comando agiu com o impacto de um balde de gelo. Paracelso estalou a língua no céu da boca em puro enfado, afrouxou os braços para libertar a cabeça de Mio e virou o rosto para a janela do trem. Do outro lado, Cyfera revirou os olhos e desviou a atenção na direção oposta, recusando-se a sustentar a presença da rival por mais um segundo.
No meio do fogo cruzado, Mio afundou os ombros e usou as duas mãos para ajeitar a mecha de cabelo amassada contra a testa. Correu o olhar atordoado de Cyfera para Paracelso, parando na respiração curta de Anna. Soltou um suspiro arrastado e derrotado, resmungando baixo para si mesma:
— Ótimo. O circo pegou fogo e, no fim das contas, ninguém me respondeu quem diabos é o Daemon.
Parte 2
O ar entre os dois zumbia com a densidade de vidro prestes a estilhaçar. A iluminação fraca do vagão vacilava onde as energias se chocavam: a emanação esmeralda de Heisen e o brilho roxo e tóxico de Rasputin cavavam fissuras secas no assoalho de madeira. No centro da tensão, Rasputin mantinha o peso nas pontas dos pés, pronto para o bote. Passos atrás, Delta avaliava o espaço confinado, sentindo o cheiro metálico de ozônio queimar no fundo da garganta.
Esse cara aí não deve estar apenas se gabando, Delta pensou, com os nós dos dedos rígidos. No final das contas, ele é um Scarlune. Mas o Rasputin também não é alguém fraco. Será que eu deveria deixar essa luta nas mãos dele e focar totalmente na manutenção da barreira para ninguém nos notar? Seria fim de jogo pra nós se mais monstros desse vagão principal aparecessem.
Lendo a hesitação tática no semblante da garota, Heisen fechou os olhos com um meio-sorriso complacente no rosto.
— Relaxa, garota. Não vai aparecer mais ninguém para me ajudar — garantiu Heisen, a voz calculada numa arrogância polida. — Eu irei controlar muito bem a minha Aura para não rasgar essa sua barreira frágil.
Rasputin, a poucos metros de distância, cerrou as pálpebras em pura aversão.
— Tudo o que sai da sua boca me surpreende, pirralho — Rasputin rosnou, o queixo colado ao peito. — O que você está pensando? Sabe muito bem que seria mil vezes melhor e mais vantajoso avisar aos demais passageiros deste trem sobre a nossa presença. E, mesmo assim, você não vai fazer isso. Sendo tão analítico... tem algo muito estranho. Você estava neste trem quando os trilhos mudaram de direção e as arenas subterrâneas se abriram, e, mesmo assim, não fez absolutamente nada. Ficou parado e só esperou. O que você está tramando? — O Monge Louco soltou uma risada áspera, sem humor. — Se bem que, sendo um Scarlune, não me surpreenderia nem um pouco se você me dissesse que fez isso só porque estava entediado e queria lutar.
O rosto de Heisen permaneceu imóvel. Em um gesto fluido, quase invisível sob a sombra do tecido, sua mão deslizou para o forro do casaco e sacou um revólver pesado, com peças usinadas sob medida reluzindo em aço escuro.
— Não é óbvio? — Heisen baixou o cano em direção ao chão, os olhos frios como ferro fundido. — Por que eu iria atrapalhar a viagem e a diversão das crianças? Um adulto que se desespera por causa de pequenos imprevistos no meio de uma viagem não tem o direito de ser chamado de adulto.
Ele ergueu o queixo, e a íris verde brilhou com a precisão de um bisturi.
— Enquanto as crianças riem e brincam em seus testes lá fora... para não estragar a diversão delas, o adulto responsável fica quieto, resolve o problema nos bastidores sem que ninguém veja, joga o lixo fora e deixa a viagem seguir seu curso. É exatamente assim que um adulto de verdade deve agir, seu tolo idiota.
A condescendência quebrou o último resquício de contenção de Rasputin.
O olho do monge ardeu em um roxo incandescente, e suas pernas impulsionaram o corpo esguio para a frente em um arranque brutal.
— Saiba que apenas as rosas deste mundo têm a permissão de falar assim comigo! — Rasputin berrou em pleno ar, a insanidade cuspida em cada sílaba. — MORRA! E nasça de novo como uma mulher se quiser ter esse direito!
Heisen estreitou os lábios em um sorriso gélido. O braço ergueu-se firme, e o indicador esmagou o gatilho.
O estampido trovejou dentro do vagão. O projétil cortou a trajetória em linha reta, mas Rasputin, em pleno voo predatório, torceu o pescoço em um estalo brusco. A bala passou raspando por sua têmpora, rasgando apenas a pele antes de se perder no fundo. No mesmo movimento da esquiva, a luz púrpura em suas mãos condensou-se em uma foice colossal de pura energia, que desceu cortando o ar para ceifar a cabeça de Heisen.
Na fração de segundo que restava, Delta agiu. Ela entrelaçou os dedos em um selo rígido.
— Casa de Bonecas.
A realidade perdeu a consistência. O metal das paredes, as poltronas estofadas e as luminárias do Trem Escarlate derreteram sob uma névoa cinzenta, esticando-se e erguendo-se em vigas colossais. Num piscar de olhos, o corredor abafado transformou-se na laje exposta de um arranha-céu em obras. O vento gélido sibilava por entre armações de aço e blocos de concreto armado, cercados por um horizonte que imitava o abismo de uma metrópole vazia. O interior do trem havia desaparecido por completo.
Heisen recuou com um salto limpo para trás, esquivando-se da lâmina espectral por milímetros. Ao pousar as solas no concreto áspero, seus olhos mapearam o ambiente em uma fração de segundo. Sobre o ombro de Delta, a porta de carvalho do fundo do trem continuava suspensa no ar, flutuando em meio ao cenário como uma falha na textura do mundo.
Entendo..., concluiu Heisen, dissecando a técnica com frieza. Não é uma Black Box verdadeira, onde as regras da realidade são reescritas. Mas é algo bem próximo. Uma sobreposição espacial.
O impacto da foice estilhaçou a borda da laje, forçando Heisen a se mover antes que pudesse medir a distância. Rasputin saltou em sua perseguição, cortando o vento entre as colunas brutas.
— Pagou toda aquela pose de "adulto" e até agora nada?! — Rasputin debochou, os passos ecoando secos contra o piso incompleto. — Só consegue atirar de longe?! Se as suas balas são tão lentas, é bem fácil desviar delas!
— Eu realmente não tenho a habilidade de acelerar os meus tiros — Heisen respondeu sem alterar a cadência da respiração, saltando por cima de uma mureta de contenção. — E, para começo de conversa, a velocidade balística natural de um tiro já é rápida o suficiente para perfurar a imensa maioria das coisas. Ficar gastando Éter tentando aumentar a velocidade de uma bala parece só puro desespero de gente ineficiente.
— Então não use essa ineficiência como desculpa quando você perder a cabeça! — retrucou Rasputin, girando a foice em um arco que zunia com eletricidade roxa.
Os dois cruzavam a estrutura em disparada, manobrando entre os pilares de sustentação enquanto o som dos disparos e o corte da foice ecoavam pelo vazio do abismo simulado.
— Relaxa... isso não vai acontecer — declarou Heisen, plantando o calcanhar no piso.
Naquele instante, o corpo de Rasputin travou.
A visão lateral direita do Monge Louco apagou-se de súbito. O sangue do corte deixado pelo disparo anterior, que passara de raspão por sua têmpora, escorreu denso e cobriu sua pupila, cegando o olho direito por inteiro e desarticulando seu equilíbrio no ápice da corrida.
O quê?! A mente de Rasputin paralisou por uma fração imperceptível de segundo.
Heisen não precisava de mais do que isso.
Infiltrando-se no ponto cego do monge, o professor girou o quadril em um movimento contínuo. Sua perna desenhou um arco baixo, envolta em uma camada espessa e venenosa de Éter verde que assobiava contra o ar rarefeito.
O chute lateral atingiu em cheio a têmpora de Rasputin com um estrondo oco de brita prensada.
A força do golpe arremessou o corpo do monge pelo ar como um projétil desgovernado. Rasputin chocou as costas e o crânio contra uma grossa coluna de concreto armado, abrindo uma teia de rachaduras que subiu do chão até o teto da laje. O impacto o fez desabar de joelhos, dobrando-se enquanto tossia golfadas de sangue escuro sobre o chão cinzento.
Heisen tocou o solo com a leveza de quem conclui uma caminhada matinal, puxando com calma a borda do paletó para ajeitar o punho da camisa.
— Até porque... não tem mesmo como eu perder para alguém como você.
Afastada dali, junto à margem da estrutura, Delta cravou os dentes no próprio lábio até sentir a dor crua. O suor frio descia por sua testa enquanto observava o monge estendido e a facilidade cirúrgica daquele desfecho.
— Eu sabia... esse merda... — Delta murmurou, o pragmatismo finalmente rachando sob o peso do pânico. — Ele, com certeza, não é normal.
Parte 3
Cyfera tamborilou as pontas dos dedos sobre o mogno da mesa e virou o rosto para a recém-chegada, quebrando a tensão anterior com praticidade deliberada.
— Mas é verdade, eu já ia me esquecendo. Havia algo que eu queria perguntar a você, Paracelso.
A alquimista inclinou a cabeça, sustentando um olhar cínico enquanto abria um sorriso presunçoso.
— Claro, pergunte à vontade. Eu adoraria ajudar a expandir o conhecimento das jovens mentes desta geração.
Ela está se esforçando muito para parecer superior agora, pensaram Justia, Mio e Anna em perfeito uníssono, acompanhando a encenação.
— Afinal de contas — Cyfera foi direto ao ponto —, qual é a relação exata de Heisen com Skadi?
A máscara polida de Paracelso trincou na hora. As pálpebras piscaram, desarmadas por uma surpresa genuína.
— Por que essa pergunta do nada?
— É que eu sei bem pouco sobre o Heisen, na verdade — explicou a arqueóloga, gesticulando com a palma aberta. — Mas, observando a dinâmica dos dois, eu sinto que ele e a Skadi fariam um ótimo casal.
Paracelso soltou o ar em um suspiro denso, o peito murchando de uma vez. Ela se desvencilhou de Mio, puxou a cadeira vaga ao lado com um arrastar áspero sobre o assoalho e sentou-se. Quando seu olhar vagou de Anna para Cyfera, todo o brilho mordaz havia desaparecido, substituído por uma melancolia inesperada.
— Esqueça isso. Deixe essa ideia para lá.
Cyfera franziu a testa, incomodada com a quebra súbita de ritmo. A alquimista parecia ter afundado em desalento em questão de segundos. Justia cruzou os braços e estreitou os olhos; Anna e Mio também se ajeitaram no estofado, a curiosidade despertada pelo peso que subitamente preencheu o ar.
— Bom... já que vocês duas são próximas dele, e você, Cyfera, tecnicamente é a noiva... acho que vale a pena falar sobre isso — murmurou Paracelso, fitando o reflexo fosco das xícaras.
— Espera, por que você vai falar do Dante? — Cyfera recuou o tronco, perdida. — Não era sobre ele que eu perguntei.
Mio piscou repetidas vezes, a confusão estampada na testa. O Dante tem alguma coisa a ver com o relacionamento daqueles dois?!
— Eu queria perguntar isso para alguém próximo a ele há um tempo, então a chance é perfeita — prosseguiu a alquimista, passando por cima do protesto como se falasse consigo mesma. — Por acaso, o Dante ficou próximo de alguma garota recentemente?
Mio e Anna trocaram um olhar rápido no silêncio da mesa.
— Sim... de algumas — responderam quase em coro.
— Não sei se eu deveria ficar feliz ou preocupada com isso... — Paracelso suspirou de novo, passando a mão pela têmpora.
— Seria ótimo se você começasse a dividir o contexto com a gente — cobrou Cyfera, o tom afiado pela impaciência.
Paracelso cruzou as pernas devagar, os olhos voltando-se para o vidro escuro da janela, onde a paisagem noturna corria borrada.
— É que existe um ramo da nossa família... um ramo bem específico, que é historicamente conhecido por estar amaldiçoado a nunca poder aproveitar o amor. Eles são destinados a trazer a ruína absoluta a todos aqueles que ousam se envolver romanticamente com eles.
— Que papo é esse? — Justia interveio com a firmeza de costume. — Eu nunca ouvi falar de uma maldição assim na nossa família.
— Também é a minha primeira vez ouvindo isso — concordou Cyfera, analisando cada detalhe da postura da outra.
— Claro que para vocês é novidade. Vocês são da nova geração — explicou Paracelso, sem erguer a voz. — Esse boato deixou de circular há anos, justamente por conta do desaparecimento do Dante no passado. Isso fez as pessoas pararem de pensar se a tragédia voltaria a se repetir na geração dele.
A alquimista puxou o ar, deixando que o balanço ritmado das ferragens sob o assoalho marcasse a pausa antes de mergulhar na história.
— Acontece que, antigamente, existia uma mulher conhecida por sua beleza sem igual. De Norte a Sul, de Alexandria ao Império de Sakura, os boatos sobre a beleza estonteante dela fizeram batalhões inteiros se moverem, famílias nobres ruírem e até mesmo guerras sangrentas serem travadas. No entanto, apesar da aparência sedutora, essa mulher era um bloco de gelo inabalável. Nem mesmo os mais fortes, os mais belos ou os mais ricos eram capazes de mover seu coração.
— E o que aconteceu? — Mio perguntou, com as mãos pousadas sobre o colo, completamente absorta no relato.
— Todos aqueles que se envolviam com ela tinham o seu destino selado em tragédia e dor — sentenciou Paracelso. — Um por um, todos os seus pretendentes tiveram seus corações quebrados e sofreram de forma irreparável.
— Quem é essa mulher? — Cyfera exigiu, os olhos fixos na interlocutora.
— Todas aqui, tirando a ruivinha, devem conhecer muito bem o nome dela. É algo que ecoa até mesmo na nova geração, pelo medo e pelo respeito que todos sentem. Estou falando da Rani Scarlune.
A temperatura ao redor da mesa pareceu despencar.
Dentro da mente de Anna, aquele nome ecoou com a violência de uma ferida antiga, desenterrando resquícios soterrados da memória de Dante. Mesmo sem conseguir visualizar com nitidez o rosto que pertencia àquele eco, o arrepio que subiu pelos seus braços foi imediato e cortante.
— Espera, eu conheço esse nome! — Mio soltou num sobressalto. — Ela é uma cientista absurdamente respeitada lá em Elysium! Mesmo no reino isolado da mídia onde eu vivia, as histórias sobre as descobertas macabras dela chegavam até nós. E agora que você falou... ela já foi coroada várias vezes como uma das mulheres mais belas do mundo pela Revista Venus.
Paracelso assentiu devagar, o semblante carregado de sombras.
— E ela é a mãe do Dante.
O silêncio caiu como um peso sólido sobre o vagão. Nem Anna tinha conhecimento daquele vínculo de sangue. Em um segundo, a mente de Cyfera disparou em conexões vertiginosas. Espera... é verdade… Aquele garoto é tecnicamente o irmão mais velho do Blade!
Ao lado, Justia permaneceu paralisada. A própria ideia de que uma mulher com aquela reputação aterradora pudesse ter gerado filhos soava quase incongruente.
— Todos que se apaixonaram perdidamente por Rani ao longo dos anos tiveram seus corações destroçados — continuou Paracelso, descendo o tom até quase um murmúrio. — E, uma vez que isso acontecia, por mais que essas pessoas buscassem outros relacionamentos ou outros amores depois, uma sombra sempre as perseguia. Elas sentiam um vazio eterno. Era como se a Rani fosse um vício brutal que não dava para curar, como se ela sugasse a cor do mundo delas.
Paracelso virou o rosto e encarou Cyfera sem desvios.
— No passado, existiram três jovens prodígios da mesma geração que buscaram o amor dela. Mas, por saberem da história e dos boatos sobre a "maldição", eles nunca tiveram coragem de se declarar. Eles fizeram de tudo apenas para poder estar ao lado dela. E um desses jovens... era o Heisen.
— Quer dizer que, por ele ter se envolvido com ela, você está dizendo para a Skadi desistir dele? Por quê? — Cyfera rebateu, buscando a lógica por trás do aviso.
— Eu não tenho absolutamente nada contra a Skadi. Pelo contrário, eu realmente queria que ela conseguisse ficar com ele um dia — confessou Paracelso, o rancor vazando entre os dentes. — No passado, eu sempre via a forma como ela olhava para o Heisen e pensava que, se dessem uma chance, isso poderia dar certo. Mas, se ela se meter de cabeça nisso e acabar amaldiçoada de verdade, sendo consumida por esse mesmo vazio que devora todos que se envolvem com as "vítimas" da Rani... eu mesma não iria suportar ver isso acontecer com ela.
— Você está dizendo que essa "maldição" afeta até quem se relaciona com os ex-pretendentes da Rani?! — Cyfera questionou, perplexa diante da escala daquele efeito em cadeia.
— Claro. Eu conheço várias pessoas que tentaram se envolver com as vítimas da Cientista Voraz e acabaram vivendo uma vida vazia, fria e completamente cinza.
Anna permaneceu em silêncio absoluto, a respiração presa contra a garganta.
Espera... então o Dante...
As lembranças a atingiram com a crueza de um impacto físico. Lembrou-se de Dante ao lado de Velvet, da toxicidade sufocante e pegajosa que impregnava cada interação entre os dois. Lembrou-se da amargura crônica e incurável gravada no peito dele. Da tragédia que havia atingido Nero. E, principalmente, do distanciamento consciente que ele mantinha: nunca, em momento algum, Dante tentara se aproximar dela ou de qualquer outra garota com intenções românticas reais. Ele evitava o envolvimento como quem foge do próprio reflexo, ciente de carregar um veneno nas veias.
— Espera, calma aí — Anna interveio, quebrando o transe com as sobrancelhas franzidas. — Mas e o pai do Dante? Se a Rani teve filhos, ela deve ter tido um relacionamento real e consumado com alguém, não é?
O estalo mental reverberou em Cyfera no mesmo milésimo de segundo.
— É verdade! O Blade era filho do Ryu, não era? Como o Ryu se encaixa no meio dessa maldição toda?!
Paracelso esboçou um sorriso amargo, acomodando o peso das costas contra o encosto da cadeira.
— Bom... já que vocês foram pacientes o suficiente para ouvir a história da Cyfera, então devem aguentar mais uma. Ainda temos bastante tempo até o trem chegar à nossa parada em Westfalia.
Em uníssono, as garotas projetaram o corpo para a frente sobre a mesa. O tilintar distante dos talheres e o ronco dos trilhos desapareceram; a atenção do grupo estava totalmente cravada na alquimista, presa a um interesse muito mais íntimo e perigoso do que qualquer lenda acadêmica.
Parte 4
Séculos atrás, quando os Scarlunes começaram a ocupar as conversas do mundo, o ar ao redor de seus passos já carregava uma estranha apreensão.
Não eram humanos, embora fosse quase impossível notar qualquer distinção sob um primeiro relance. Espalhavam-se pelos continentes com uma facilidade desconcertante: conviviam com as fadas com uma harmonia que a humanidade jamais fora capaz de replicar, viviam séculos além do compasso natural e manifestavam traços mágicos que remetiam a linhagens há muito extintas. Ainda assim, sangravam, erravam e sentiam com a mesma carne vulnerável dos mortais. Era precisamente essa semelhança imperfeita — o reflexo humano habitado por algo indomável — que alimentava o desconforto constante da sociedade.
A cada geração, no entanto, prodígios rompiam o casulo da família para abalar a ordem estabelecida. E, naquela época, a anomalia que fez Elysium estremecer tinha nome e presença.
Rani Scarlune.
Seus passos não produziam ruído sobre o mármore polido do corredor. Ainda jovem, trazia finas mechas brancas correndo entre os longos cabelos pretos, emoldurando um rosto de traços calmos e olhos fundos. A luz da tarde cruzava os vitrais coloridos da mansão, desenhando prismas tênues sobre sua pele alva e o brilho discreto de seus lábios. Ela empurrou a pesada folha dupla de carvalho e ganhou o salão.
Os convites para bailes e recepções de gala chegavam a ela sem cessar. Nobres de todos os reinos disputavam sua atenção para exibi-la como ornamento de corte ou vinculá-la aos próprios estandartes, bancando recepções extravagantes na esperança de quebrar sua frieza. Ignoravam, no entanto, que Rani apenas suportava aquele teatro político para colher assinaturas e salvo-condutos, garantindo trânsito livre para suas pesquisas genéticas onde quer que houvesse material de estudo.
Afastada do fluxo principal de convidados, Paracelso mantinha as costas apoiadas contra uma coluna de mármore. Beliscava uma porção de queijo curado, fazendo o vinho escuro girar devagar no fundo de uma taça, quando Heisen se aproximou com passos medidos. Os cabelos estavam rigorosamente alinhados, a postura ereta e contida como a de um acadêmico veterano, embora os traços denunciassem a pouca idade.
— Que raro... — Heisen comentou, segurando sua taça de champanhe pela haste. — Você não está grudada nela? Normalmente, você usa a desculpa e a vantagem do gênero feminino pra não sair do pé dela nessas festas.
Paracelso engoliu o bocado e sustentou um sorriso quase imperceptível.
— Que é isso, Heisen. Eu sinto uma pontinha de ciúme na sua voz.
O jovem arqueou as sobrancelhas e respirou fundo, ignorando a provocação como quem desvia de uma folha seca ao vento.
— O que aconteceu com o Love hoje? — Paracelso perguntou, o olhar correndo pelas franjas douradas das tapeçarias. — Ele parece muito mais triste e recluso recentemente.
— Aparentemente, recusaram de novo a proposta ingênua dele para realizar eventos "familiares" aos domingos na nossa mansão — Heisen respondeu num tom seco e plano. — Ele queria que todos os pais, mães e filhos da família se encontrassem aos domingos para jantar e comer juntos na mesma mesa. Mas, obviamente, o Abhartach não aceitou e riu da cara dele.
Paracelso soltou uma risada limpa, balançando a cabeça.
— Eu realmente queria entender como a mente do Love funciona. Mesmo depois de tanto tempo vivendo nesse inferno, ele ainda fica tentando fazer com que todo mundo se dê bem e aja como uma "família" humana normal. Será que ele seria a resposta e a tentativa de Ordem da própria natureza para equilibrar o resto da nossa família corrompida?
— O que você quer dizer com isso? — Ele franziu a testa.
— Bom... todos nós da família Scarlune temos tão pouca empatia natural pelos outros. Talvez ele tenha recebido a nossa cota de afeto no nascimento só pra existir algum equilíbrio na balança do mundo.
Heisen baixou os olhos para o colar de bolhas que subia em sua taça.
— Se fosse um jogo sádico do destino assim... eu nunca iria perdoar.
Paracelso agitou a mão livre, quebrando a gravidade do momento.
— Calma, é só uma brincadeira. Eu não acredito nessas baboseiras de “Destino”. Mas confesso que a sua reação me pegou de surpresa. Quer dizer que, no fundo desse mar de arrogância, tem um irmão preocupado escondido aí dentro? Por que não mostra mais esse lado compreensivo pra ele?
— A forma como eu ajo com o meu irmão caçula não é da sua conta, Paracelso — cortou Heisen, a voz endurecendo nas bordas.
A alquimista o mediu com uma expressão cínica. Ele fala com essa frieza, ela pensou, mas o motivo é óbvio. Não demonstra afeto para não alimentar ilusões. Não quer que o Love pense: "Se até o meu irmão orgulhoso pode ser caloroso, a família inteira tem conserto". Ele só está esperando o momento em que o garoto desista dessa ideia dolorosa de união.
Paracelso estendeu a mão e bateu com a palma aberta nas costas de Heisen, arrancando um solavanco seco de sua postura engomada.
— Dito isso, você é um irmão terrível.
— Eu não sei em que diabos de teoria dramática você estava pensando agora — Heisen ajeitou o casaco com irritação —, mas não me bata por conta das vozes esquizofrênicas na sua cabeça, sua maldita.
O estalo pesado de solas de couro contra o piso polido sobrepôs-se ao murmúrio das cordas da orquestra, interrompendo a discussão.
— Então vocês estão escondidos aí pelos cantos de novo. Se conseguiram entrar de penetra na festa da realeza, quer dizer que conseguiram se destacar de novo, né?
Ambos viraram o rosto.
O homem que se aproximava era largo de ombros, com cabelos de um vermelho-escuro e repicado caindo em ondas até a base do pescoço, pontilhados por finas mechas brancas. Na bochecha direita, uma cicatriz em forma de "X" marcava a pele morena. Seus antebraços robustos, expostos pelas mangas dobradas sob o sobretudo grosso, acumulavam velhos cortes cicatrizados. O corte elegante das vestes caras não conseguia mascarar a compleição rústica de quem vivia sob o tempo aberto.
Heisen estalou a língua contra os dentes.
— Tsk. Quer dizer que você ainda não morreu em alguma vala por aí?
— Que pena, Ryu — Paracelso suspirou com desdém fingido. — Eu realmente achei que dessa vez você iria acabar morrendo comido por algum bicho.
Ryu abriu um sorriso largo e soltou uma gargalhada rouca que fez as taças próximas vibrarem.
— Hahaha! Muito engraçados, vocês dois! Até parece que eu morreria tão fácil assim só pra deixar vocês livres!
Aquele trio guardava raízes profundas nos bastidores de Elysium. Haviam crescido lado a lado nas sombras, conquistando notoriedade quase simultânea no topo de suas áreas.
Heisen já acumulava respeito por tratados teóricos complexos, tornando-se o pensador mais jovem a ingressar na Ordem dos Filósofos Grelikos após a migração para as ilhas orientais. Paracelso ocupava uma cadeira de destaque na Ordem da Rosa Cruz, reconhecida pela manipulação celular e pela consolidação prática da Alquimia — suas soluções e compostos tornavam-se padrão nos hospitais para casos considerados terminais.
Ryu, por outro lado, trilhara um caminho inteiramente oposto.
Sem inclinação para compêndios ou debates abstratos, ele percebera cedo que não acompanharia os dois no campo teórico. Para cumprir o pacto de infância de alcançar o topo e arrancar o respeito dos humanos, transformou o próprio corpo em arma e forjou seu domínio na força bruta.
— O que foi que você matou dessa vez? — Paracelso inquiriu, com os olhos atentos.
— Eu consegui matar o Majin que havia destruído as antigas terras dos Gigantes no Norte — respondeu ele, estufando o peito.
Heisen ergueu uma sobrancelha, cético.
— Quer dizer que você finalmente conseguiu abater o infame Devorador de Estrelas?
— Olha, dessa vez eu jurei pra mim mesmo que eu ia morrer lá! — Ryu gesticulou com as mãos calejadas, ignorando a etiqueta do salão. — Eu finalmente entendi o porquê de terem dado aquele título pra ele. No céu da antiga cidade dos gigantes, existia um minério especial cravado nas rochas da caverna que brilhava exatamente como estrelas de verdade. Mas, quando aquele Majin abria as asas nojentas dele e voava, o céu ficava totalmente escuro, sem os minérios brilhando. Era como se as trevas dele estivessem, literalmente, engolindo as estrelas do céu noturno!
— Mas e aí? Ele era tão forte quanto os boatos diziam? — Paracelso deu um passo à frente.
— Claro que era! Tá achando o quê?! Aquele bicho era infernal! — A voz de Ryu subiu mais um tom. — Ele espalhava um miasma mágico e esquisito no ar que, além de te envenenar devagar, causava uma cegueira letal e uma desorientação espacial absurda! No começo, a minha imunidade natural, junto com as dezenas de poções e antídotos que eu levei da sua pesquisa, Paracelso, até que estavam dando conta. Eu conseguia enxergar bem aquela montanha escura que o corpo dele parecia. E aí, mesmo enxergando mal, era bem fácil acertar um alvo tão grande com os golpes. Mas, quando ele começou a voar, espalhar o veneno e sumir no céu negro... foi um verdadeiro inferno! Até porque ele ainda conseguia me acertar no chão com uma precisão cirúrgica, mesmo eu sendo minúsculo comparado a ele.
— Então os boatos da Rosa Cruz eram verdade? Ele realmente enxergava através de um sonar cego? — Paracelso cruzou os braços, assimilando o relato.
— Eu acho que não. — Ryu coçou a barba rala no queixo. — Não parecia ser sonar. No começo, eu realmente não tinha visto nenhum olho na cara dele de longe. Mas, depois que eu o esmaguei e cheguei perto do cadáver... eu notei que não era que ele não tinha olhos. O problema é que ele tinha vários olhos nojentos, espalhados e escondidos por baixo das escamas do corpo inteiro!
— Espera aí... ele era um inseto gigante?! E todo aquele papo das crônicas de que ele se parecia com um morcego titânico?
A narrativa crua de carcaças e fluidos começou a atrair olhares atravessados. Nobres próximos recuavam meio passo, sustentando taças com os lábios cerrados em desgosto. Mesmo vestindo tecidos sob medida encomendados no Império de Varka, a envergadura de Ryu, as marcas de garras nos pulsos e o tom desinibido o destacavam como um predador solto entre pedestais de porcelana.
Nem Heisen nem Paracelso se deram ao trabalho de disfarçar.
No flanco oposto do salão, acomodados em poltronas de veludo carmesim, descansavam os membros da realeza do Reino dos Dragões. Wise, o primogênito austero; Valor, o monarca coroado; e Adam, o irmão caçula.
Adam girou o líquido em sua taça e indicou o grupo com o queixo.
— Hum... Parece que a raça dos Scarlunes não liga muito para as nossas regras de conduta e vestimenta, não acha, Wise?
Wise soltou um suspiro abafado, sem mover a cabeça.
— Você não pode julgar apenas ele. Mesmo vestindo algo minimamente mais formal do que ele, você ainda podia ter se esforçado muito mais para não trazer vergonha e atenção desnecessária no meio de nobres.
Valor, mantendo a coluna impecavelmente alinhada ao encosto, permitiu-se um sorriso contido.
— Calma lá também, Wise. Você é quem exagerou um pouco demais hoje nos trajes e na pompa toda. Eu sei perfeitamente que você estava ansioso, já que este baile te daria uma nova e rara chance de falar diretamente com a Rani... mas se esforçar e se arrumar demais deixa a sua intenção de cortejo óbvia até para os servos.
Adam abafou uma risada atrás dos dedos.
— Valor, fique quieto! — Wise sibilou entredentes, a pele clara das orelhas tingindo-se de rubro. — Pare de ficar puxando essas conversas idiotas e mantenha a sua postura de rei! Não se esqueça de que a nobreza de Alexandria inteira está te observando hoje!
Valor apenas meneou a cabeça, satisfeito com o desconforto do mais velho.
Do outro lado, Heisen mantinha a atenção cravada na conversa da família real. O semblante do jovem acadêmico tornara-se opaco, rígido como pedra talhada.
Paracelso notou a fixação no mesmo instante.
— Calma, Heisen — sussurrou ela, encostando a borda da taça nos lábios. — Se você ficar encarando a realeza dos Dragões por mais dez segundos, o seu olho vai literalmente furar um buraco neles.
— Eu não sei do que você está falando — rebateu ele, ríspido.
— O que ele tem? — Ryu intercalou o olhar entre os dois, alheio às entrelinhas.
— É verdade, Ryu. Você não estava aqui no nosso último baile — lembrou Paracelso, alimentando o fogo com naturalidade.
— E por que você está jogando a minha falta na minha cara agora, hein?!
— É que o irmão mais velho do novo Rei dos Dragões, o Wise, recentemente começou a tentar se aproximar da Rani — explicou ela.
Ryu voltou os olhos para o veludo carmesim e passou a mão pela nuca.
— Ah... entendi.
— Ele nem esconde mais as próprias intenções — continuou a alquimista, o sorriso ganhando um traço cortante. — Ele se arrumou tanto só pra poder falar com ela.
— Mas qual é a novidade disso? — Ryu deu de ombros, sem entender o alvoroço. — Tem mais pretendentes ricos e poderosos correndo atrás da Rani do que demônios perdidos no continente de Umbra. Por que justamente esse dragão engomado incomodaria você logo agora, Heisen?
Um estalo seco de cristal partindo ecoou entre os dedos de Heisen. Uma fina fenda correu pela haste de sua taça antes que ele a pousasse com cuidado excessivo sobre a bandeja de prata ao lado.
— Eu não estou incomodado com isso, Ryu — Heisen pronunciou cada sílaba com frieza calculada. — Não me importa quantos idiotas apareçam babando atrás dela. Ninguém ali tem chances reais. O que me desagrada profundamente é ele se aproveitar da mera posição política e do trono do irmãozinho para conseguir participar desses bailes mais exclusivos. Se ele queria ter uma chance real de ser visto pela Rani, ele deveria tentar mostrar que tem algum valor prático para o mundo... fazendo por merecer e recebendo um convite pelas próprias habilidades, e não pelo sangue da família.
Ryu coçou a cicatriz na face.
— É... eu entendo o seu ponto de vista elitista, Heisen.
Heisen virou o tronco, cravando no caçador um olhar cortante.
— Se bem que... ele só teria uma chance real se ele começasse a agir que nem um cão maluco e selvagem, igualzinho a você. E saísse por aí nos matos lutando e caçando coisas pra chamar a atenção dela. — O desdém escorria em cada palavra. — Talvez fosse ótimo pra você se ele fizesse isso e provasse que sabe bater na cabeça de um monstro maior e mais forte que você, Ryu. Talvez, assim, você finalmente perdesse a mordomia de conseguir aparecer nessas festas e me deixasse em paz.
Ryu não recuou nem alterou o ritmo da respiração.
— Sabe, Heisen... eu odeio muito essa sua cara amarrada e mimada — ele disse, com uma tranquilidade pesada. — Sempre que alguma coisa te frustra, você fica na defensiva e acaba sendo venenoso em todas as palavras e com todo mundo à sua volta. Se você tá sentindo alguma coisa estranha, com ciúmes, ou prevendo que alguma merda vai acontecer, você deveria só ser honesto e falar como um homem, em vez de ficar fazendo esses seus joguinhos de palavras de garotinho ressentido.
O golpe atingiu o ponto exato. Heisen cerrou o maxilar, estalou a língua no céu da boca e desviou o rosto, recusando-se a alimentar a réplica.
Antes que o silêncio assentasse, passos suaves cessaram logo atrás dos ombros largos de Ryu.
— Nossa, que análise perceptiva, Ryu. Eu juro que nunca tinha notado que o Heisen tinha um tique nervoso emocional tão óbvio assim.
A voz era macia, desenhada em cadência aveludada.
Ryu virou o pescoço ainda no impulso da conversa, soltando uma risada espontânea.
— Bom, para caçar, eu sempre fui obrigado a ser muito bom em prestar atenção aos pequenos detalh—
A frase morreu no meio.
Uma risada baixa, desarmada e genuína brotou dos lábios da recém-chegada. O calor subiu imediatamente pela gola de Ryu, tingindo seu pescoço e bochechas em um escarlate denso. Ao redor, as conversas abafaram-se num baque súbito. Os olhares da nobreza convergiram para aquele ponto como agulhas: a mulher rindo abertamente diante do caçador bruto era Rani Scarlune.
Nobres e soberanos remexeram a memória em busca de um único precedente, sem sucesso. A cientista, cujo rigor dispensava qualquer proximidade calorosa, nunca havia oferecido àquela corte mais do que cortesias milimétricas e desprovidas de afeto.
Rani parou a meio passo de Ryu. Cruzou os braços soltos sobre o busto e ergueu o queixo, sustentando o olhar desconcertado do homem sem desviar.
— Bom... se você tem olhos tão bons para os pequenos detalhes, Ryu... o que será que você enxerga quando olha para mim?
O salão emudeceu por completo.
Pela primeira vez em anos de presença obrigatória em eventos da corte, Rani tomava a iniciativa de iniciar um diálogo despido de qualquer pretexto acadêmico ou científico. Ministros, príncipes e sábios permaneceram imóveis, paralisados diante da ruptura inexplicável daquela muralha de gelo.
A poucos passos dali, contudo, Heisen e Paracelso não compartilhavam o assombro da plateia. Mantinham os rostos voltados para lados rigorosamente opostos, recusando-se a olhar para o centro da cena.
A intuição de Ryu acertara o alvo, mas falhara no diagnóstico. A acidez de Heisen não nascera da presença dos pretendentes de sangue real. Tinha raiz unicamente nele.
No baile anterior, semanas antes, Heisen reunira coragem para abordar Rani diretamente e expor as premissas de sua nova tese teórica. Mas, antes que ele pudesse concluir a exposição, Rani o interrompera de maneira casual apenas para perguntar, com os olhos vagando pelo salão, por que Ryu não comparecera àquela noite.
Para o intelecto analítico de Heisen e o pragmatismo de Paracelso, aquela pergunta solta fora a confirmação silenciosa e irremediável: a ruína há muito sussurrada sobre o sangue dos Scarlunes acabava de fincar raízes.
Parte 5
O eco dos anos dourados havia se dissipado por completo. As alianças ruíram, e as certezas do continente desmoronaram junto com a queda do Reino dos Dragões após a morte do Grande Dragão Carmesim, o velho rei Valor. Aquele mesmo colapso arrastava-se pelas entranhas da Mansão Scarlune: o antigo trio de prodígios que outrora prometera conquistar o mundo encontrava-se irremediavelmente partido, cada um fragmentado à sua própria e amarga maneira.
Pelo corredor ladeado por altos vitrais, onde o ar guardava o cheiro seco de cera e de pedra antiga, os passos firmes de Descora soavam pesados contra o piso. O cenho fechado desarmou-se por um segundo ao notar a silhueta que dobrava a esquina.
— Ora, veja só quem resolveu dar as caras — ironizou Descora, parando a meio metro. — Finalmente decidiu voltar da sua viagenzinha espacial, Paracelso?
A alquimista curvou os lábios, arrastando uma risada preguiçosa pela garganta.
— Hum... O que foi isso, Descora? Não vai me dizer que estava morrendo de saudades de mim? Se quiser tirar a minha roupa, não precisa de todo esse charme.
Descora revirou os olhos em puro enfado.
— Até parece que eu ia querer me envolver com alguém tão problemática quanto você.
A chefe de segurança deu meia-volta e retomou o passo. Paracelso a acompanhou de perto, com as mãos enterradas nos bolsos do casaco de viagem.
— Mas que raro... você não está trancafiada na Sala de Controle. Normalmente, você não sai daquela caverna de monitores por nada.
— Bom, é que eu andei ensinando o idiota do Love a cuidar de tudo por lá ultimamente — explicou Descora, soltando o ar pelo nariz. — É mais ele quem fica por lá agora. Com isso, eu finalmente consegui umas folgas de vez em quando para não enlouquecer.
— Entendi.
Caminharam lado a lado por alguns metros. Apenas o atrito das solas contra o chão quebrava o silêncio do corredor, até que Descora virou o rosto na direção da alquimista, com o olhar estreito.
— Não vai me perguntar?
Paracelso piscou devagar, sustentando a expressão impassível.
— Perguntar o quê?
— O Heisen fez esse exato mesmo joguinho antes de você. — Descora fincou os calcanhares no chão e girou o corpo de frente para ela. — Paracelso, não me faz perder tempo. Se quer saber sobre a Rani, vai ter que ser direta.
A alquimista inclinou a cabeça com um sorriso de canto.
— Nossa, sem preliminares nem nada? Que garota apressada. Deixa eu sentir um pouco de prazer no mistério também...
— Maldita! Pare de ficar cometendo assédio sexual nos meus ouvidos! — esbravejou Descora, com as bochechas esquentando de raiva.
Paracelso soltou uma gargalhada aberta que ricocheteou nas paredes.
— Hahaha! Mas por que eu iria querer saber dela? Se ela quiser alguma coisa comigo, ela vai aparecer. Tentar ir rastejando até ela sem que ela me procure primeiro é meio... humilhante.
Descora meneou a cabeça, o desdém evidente nos lábios.
— Eu espero sinceramente que, quando eu chegar à sua idade, eu não continue agindo feito uma adolescente imatura.
— Talvez você não aja como uma, Descora... mas com certeza vai continuar do tamanho de alguém que acabou de chegar à puberdade — rebateu Paracelso, em tom açucarado.
Uma veia pulsou na têmpora de Descora.
— Me chama de baixinha de novo e eu te mato aqui mesmo, sua maldita.
Dando de ombros, Paracelso acelerou o passo. Descora cerrou os dentes e marchou logo atrás. Percebendo que a outra fingiria desdém até o fim, decidiu abrir a guarda.
— Bom, se você não quer saber, eu não vou contar.
— Faça isso, então — desdenhou a alquimista, sem olhar para trás.
Um sorriso sádico desenhou-se na boca de Descora.
— Foi mal... mas eu estou muito curiosa para ver a sua reação.
Num impulso curto, Descora saltou para a frente e plantou os pés no caminho de Paracelso, bloqueando-lhe a passagem. Sustentou um olhar carregado de provocação.
Paracelso parou, cruzando os braços sobre o peito.
— Vai, desembucha. Fala logo o que você quer dizer.
— Sabe... nesses últimos anos em que você ficou enfurnada em Marte, nos laboratórios da Rosa Cruz, deve ter percebido que a Rani não apareceu mais, não é?
A alquimista estalou a língua no céu da boca.
— O que foi? Vai me dizer que o Ryu e ela ficaram aproveitando a vida de casados adoidado, viajando juntos pelo mundo nesses últimos anos?
Descora soltou uma risada curta, com o som oco e áspero.
— Bom, eles devem sim ter aproveitado bem esse tempo a sós... afinal, ela conseguiu engravidar.
O mundo ao redor pareceu perder a gravidade.
A respiração de Paracelso estancou na traqueia. A cor escorreu de sua pele em uma fração de segundo, deixando-a com a brancura de um espectro. A revelação atingiu seu crânio com o peso de uma laje caindo no vazio.
— Hahaha! Era exatamente essa reação que eu queria ver! — Descora zombou, apontando o dedo.
Antes que o eco da gargalhada morresse, Paracelso avançou. O movimento foi violento demais, rápido demais. Seus dedos enterraram-se com força brutal nos ombros de Descora, cravando as unhas no tecido.
— O que você quer dizer com isso?! — berrou a alquimista, os olhos dilatados, transbordando um desespero cego. — Como assim ela está grávida?! Você tem certeza disso?!
Descora teve o corpo sacudido para a frente e para trás, os dentes batendo com o solavanco.
— PARA COM ISSO, SUA MALDITA! CHEGA! — Descora esbravejou, empurrando os antebraços dela com ferocidade. — É claro que eu tenho certeza! A louca até já teve o filho, caramba!
Paracelso abriu os dedos como se tocasse ferro em brasa. Deu um passo em falso para trás, com as pernas bambas, um tremor fino subindo das pontas dos dedos até a nuca.
Espera... então... o Ryu conseguiu? Ela...
Descora recompôs a gola da jaqueta com um puxão brusco, fuzilando a alquimista.
— Mas, se você está achando que isso significa que aquele velho boato da "maldição de Rani" estava errado, sinto muito em jogar água no seu chope. Sei lá por qual motivo, mas ela e o Ryu já terminaram tudo.
As engrenagens mentais de Paracelso travaram em puro curto-circuito. O espanto, a repulsa e um vazio gélido colidiram de uma vez em seu peito. Sem emitir som algum, ela deu meia-volta e disparou pelo corredor em um arranque desesperado.
— EI! PRA ONDE VOCÊ TÁ INDO?! — Descora gritou, os passos já distantes. — EU NEM DISSE ONDE ELA TAVA!
O apelo perdeu-se no vazio. As solas de Paracelso cortavam as sombras da galeria em velocidade desumana. Em três segundos, a silhueta da alquimista dobrou a curva e sumiu, deixando para trás a bagagem pesada tombada sobre o chão de mármore.
Descora soltou o ar ruidosamente, encarando o couro das malas abandonadas.
— Mulher maluca... Ah, tanto faz. Melhor eu guardar essa porcaria. Quando ela vier pegar de volta, eu faço ela se ajoelhar, pedir desculpas e me explicar essa loucura toda.
Ao puxar a mochila pelo suporte reforçado, o zíper entreaberto cedeu e um retângulo fino de papel fotográfico escorregou, flutuando até pousar suavemente sobre o piso liso.
Descora abaixou-se e recolheu a peça.
A imagem revelava quatro figuras sob a claridade límpida de um dia antigo. Paracelso, Heisen, Ryu e Love estavam ali, ombro a ombro. Havia sorrisos rasgados em cada rosto, braços cruzados sobre as costas alheias, uma espontaneidade viva e crua que não existia mais em canto algum daquela casa.
Um nó pesado fechou a garganta de Descora. Olhou para a fotografia e sentiu o aperto daquele contraste: uma cumplicidade daquele tamanho, desfeita pela gravidade fria de uma única mulher.
Ela enfiou o papel no bolso interno da mochila e ergueu o fardo.
Ai, ai. Não é que eu tenha levado aquele boato imbecil de maldição a sério, mas... considerando quem é a mãe, é melhor eu rezar por esse garoto que acabou de nascer para não ter problemas românticos no futuro.
Seus passos voltaram a ecoar solitários na galeria.
Mas, pra qual deus eu deveria pedir uma coisa dessas? Espera... eu conheço alguma oração? Quer saber, esquece. Eu vou só escrever o nome dele num papel e jogar no fogo. Não sei nenhuma oração, mas dizem que bênçãos e maldições não são coisas tão diferentes assim na prática. Bom... boa sorte no futuro, garoto.
Do outro lado da propriedade, Paracelso corria como um animal encurralado. Passou raspando por guardas em patrulha e criados que carregavam bandejas, deixando para trás o estalo de tecidos e o sobressalto dos servos.
O ar queimava em seus pulmões, trazendo à tona estilhaços desconexos de memória: as risadas largas de Ryu; a primeira tarde em que fitara Rani de perto; os dedos finos da Rainha do Gelo embaraçando-se em seus cabelos enquanto uma promessa em tom de sussurro roçava a cartilagem de sua orelha.
Você tem que estar lá, a mente de Paracelso martelava contra a pulsação nas têmporas. Se isso realmente for verdade... se alguma parte dessa loucura for real, você vai estar lá.
Ela freou em derrapagem ao fim da ala oeste. A sola dos calçados chiou contra as lajes antes que ela estacasse diante da maciça porta de carvalho. Sua mão ergueu-se trêmula na direção da maçaneta de bronze, mas os dedos pararam a milímetros do metal frio.
Fechou as pálpebras. Trancou a respiração, forçando os batimentos descompassados a cederem. Passou as palmas suadas pelas coxas, ajeitou a gola desalinhada e alisou as mechas que caíam soltas no rosto, moldando a máscara de quem acabara de encerrar uma caminhada sem pressa.
Girou a maçaneta.
Uma golfada de ar espesso, morno e carregado com o cheiro adocicado de seiva e de terra úmida a recebeu do outro lado.
A estufa estendia-se sob uma cúpula de vidro fosco, tomada por folhagens densas, orquídeas raras de pétalas translúcidas e plantas carnívoras cujos caules grossos pendiam do teto como vísceras vegetais. No centro daquele microclima sufocante, Rani Scarlune encontrava-se sentada. Trajava apenas um jaleco de linho branco solto sobre a pele alva, os longos cabelos pretos espalhados pelas folhas do chão enquanto a pena em sua mão deslizava com rigor cirúrgico sobre uma prancheta. Perto de seus pés, o zumbido estático de uma pequena televisão de tubo iluminava as raízes com imagens cinzentas e tremeluzentes do circuito interno de vigilância.
Paracelso engoliu o nó na garganta e avançou pela trilha de cascalho.
— Veio se esconder aqui de novo, é? — tentou manter a voz em uma cadência leve, quase casual.
A pena de Rani parou. Ela ergueu as pálpebras, pousando na visitante seus olhos escuros e desprovidos de pressa.
— Olha só... você lembrou...
Paracelso sustentou um riso fraco, sentindo o ardor daquela lembrança reviver no peito.
— Era um segredo importante, não era? O local isolado para onde você sempre vinha para relaxar a mente.
Rani desviou a atenção de volta para os brotos ao lado.
— Hum... eu sempre gostei de cultivar flores, mas as do jardim principal da mansão... eu sempre amei esse cheiro doce.
A alquimista avançou mais dois passos, sentindo a umidade da estufa colar o tecido da camisa às suas costas.
— Mas o que foi que te deixou abalada a ponto de vir se isolar aqui? Você só vinha para cá para se acalmar depois de muito estresse. Será que... o fim do seu relacionamento com o Ryu foi um choque tão impactante assim?
O traço da tinta estancou sobre a folha. Rani piscou, a testa franzindo-se em uma estranheza genuína.
— Quem?
O estômago de Paracelso despencou em um abismo oco.
— O Ryu... — as sílabas saíram quebradas, frias. — O cara com quem você estava namorando...
Rani inclinou o queixo, o olhar vagando pela vegetação ao redor com a apatia de quem tenta recordar um detalhe descartável de um sonho esquecido.
O desespero corroeu a contenção da recém-chegada.
— Qual é, Rani! Você sabe de quem eu estou falando! O Ryu! O Caçador! O Scarlune com a Propriedade Genética de Seraphim!
Rani fitou-a de esguelha. Um meio-sorriso preguiçoso despontou no canto de seus lábios claros.
— Você parece meio nervosa, Paracelso.
Só então a alquimista percebeu que seus punhos tremiam abertamente à frente do corpo.
— Mas relaxa — Rani soltou a prancheta de lado, desfazendo-se do peso do estudo. — Eu já lembrei do nome dele. Está falando daquele grandalhão.
Em um movimento fluido, sem apoio dos braços, Rani deixou as costas tombarem contra o tapete de grama. Os fios negros de seus cabelos abriram-se em leque sobre a folhagem verde. Hipnotizada pelo magnetismo frio daquela presença, Paracelso deu mais um passo à frente.
No segundo em que entrou em seu raio de alcance, os pés descalços de Rani ergueram-se com precisão felina, prendendo as pernas de Paracelso e puxando-lhe a base. A alquimista perdeu o equilíbrio e caiu. Antes que pudesse apoiar os cotovelos, braços fortes a envolveram pela cintura, e os dedos de Rani afundaram em suas costelas em um ataque impiedoso de cócegas.
— Para! Ai! Rani! — Paracelso contorceu-se na terra macia, arqueando o tronco enquanto risadas agudas e involuntárias escapavam de seu peito até as lágrimas arderem nos cantos dos olhos.
Subitamente, Rani cessou o movimento. Manteve o peso do corpo sobre o dela, deitando-se de lado para alinhar os rostos a poucos centímetros de distância. Fitou a respiração descompassada e a pele afogueada da outra com um prazer quieto.
— Agora sim... esse rosto corado e vulnerável fica muito melhor em você — Rani murmurou rente aos seus lábios.
Um calor imediato subiu pelo peito de Paracelso, e seu coração martelou furioso contra a caixa torácica.
Rani afrouxou o aperto com a mesma facilidade e sentou-se na relva, cruzando as pernas sob o jaleco.
— Acho que ele era o seu amigo de infância, né? Foi mal ter esquecido o nome dele por um segundo. É que eu realmente não sou muito boa em lembrar o nome das pessoas que não importam, Fi.
Paracelso recompôs-se devagar, apoiando as mãos na grama para ajeitar a blusa amarrotada.
— É muito difícil levar essa sua desculpa a sério quando você é uma das únicas pessoas no mundo inteiro que ainda me chama com o diminutivo do meu nome real.
— Porque Philippa Scarlune é um nome bonito demais para ser esquecido — Rani respondeu, sem a menor inflexão de afetação.
Paracelso soltou o fôlego reprimido. Seus olhos escorregaram pela folhagem até pousarem na tela fosforescente do televisor. Na transmissão borrada de preto e branco, crianças pequenas corriam pelo pátio inferior sob os cuidados das amas.
A pergunta ardeu em sua língua até não poder mais ser contida.
— Rani... é verdade aquela conversa de que você... — engoliu em seco, sentindo a saliva rasgar a garganta. — De que você teve...
— Um filho? — Rani completou, sem pestanejar.
A ausência de pudor ou hesitação era a própria sentença.
— É, sim. É verdade. — Os olhos escuros de Rani voltaram-se para o vidro da TV. — Falando nisso, acho que logo terei que apresentar vocês dois... se bem que eu ainda não posso chegar muito perto dele por enquanto.
A contenção de Paracelso arrebentou como uma represa podre.
— Mas POR QUÊ?! — o grito rasgou a umidade morna da estufa, ecoando contra as vidraças. — Por que você decidiu engravidar e ter um filho com o Ryu se já planejava terminar com ele?!
Rani não recuou um milímetro. Seus olhos sustentaram o acesso de fúria com a serenidade impassível de quem observa uma reação química em um tubo de ensaio.
— Entendi. Então você está com dúvida. Pela sua reação, eu achei que estivesse com raiva de mim, mas deve ser apenas dúvida... dúvida do porquê eu não te contei sobre o plano.
Paracelso estancou. Não era raiva limpa. Não era apenas incompreensão. Era um lodo denso, sufocante e venenoso que transbordava das partes mais profundas de sua carne.
Rani bateu suavemente a palma de uma mão contra a outra, erguendo os ombros com displicência.
— Foi mal mesmo não ter te contado os detalhes antes, Fi. Mas é que... eu nunca estive apaixonada pelo Ryu.
O chão sob os joelhos de Paracelso pareceu desaparecer. Algo precioso, doente e infinitamente frágil quebrou-se de vez em seu peito.
— Eu só queria acabar de uma vez por todas com aquela competição besta de homens e nobres tentando me conquistar o tempo todo — prosseguiu Rani, no tom monótono com que se relatam os dados de uma colheita. — E foi você mesma quem tinha me dito uma vez que aquele cara selvagem era alguém fácil de se ler e de manipular. Acho que foi exatamente isso, somado ao meu profundo interesse científico em saber mais sobre a genética dos Seraphins e testar uma gestação, que me fez ficar com ele.
A cientista ofereceu um sorriso brando, límpido como uma lâmina recém-amolada.
— Foi mal não ter te contado o esquema. É que eu realmente achava que você já tinha percebido tudo desde o início.
O silêncio engoliu a estufa.
Paracelso não encontrou voz para rebater. Não pela falta de argumentos, mas porque a crueza daquela afirmação expunha o contorno exato de sua própria podridão.
Rani dissera aquilo com naturalidade porque conhecia as entranhas da mente de Fi. E era verdade. Desde o primeiro instante, desde a tarde remota em que ouviu as primeiras conversas trocadas entre Rani e Ryu na varanda da mansão... ela soube. Ela vira o fingimento nos olhos da cientista. Sabia que não havia afeto algum ali.
E, mesmo sentindo a marcha do desastre que se avizinhava, Paracelso não movera um dedo. Não avisou o amigo que crescera a seu lado. Não estendeu a mão para arrancá-lo da armadilha.
Pois, no fundo do seu egoísmo estéril, uma satisfação rasteira e doentia a aquecia por dentro: o alívio mesquinho de saber que Rani jamais pertenceria a ele.
Aquele silêncio cúmplice, aquela omissão calculada e aquele amor deformado eram a verdadeira corda que agora a estrangulava.
Parte 6
O estalar ritmado do ferro sob o assoalho do vagão-restaurante preenchia o espaço, mas nenhuma das quatro garotas parecia atenta ao balanço da composição. Cyfera, Mio, Anna e Justia mantinham os olhos cravados na alquimista, presas no peso estático que aquela história derramara sobre a mesa.
Paracelso sustentou o silêncio por alguns segundos, as pontas dos dedos contornando a borda da xícara já fria. Engoliu em seco o que não pretendia compartilhar. O ego ferido e a consciência pesada sabiam a hora de parar: a satisfação mesquinha, o silêncio cúmplice e a própria omissão covarde continuariam trancados no vapor sufocante daquela velha estufa.
— O Heisen... — Paracelso retomou a fala, e a voz perdeu qualquer vestígio de deboche, descendo para uma cadência áspera e cansada. — Ele também devia ter feito o mesmo que eu. Guardado para si a suspeita sombria de que a Rani não sentia absolutamente nada pelo Ryu. Mas a cabeça dele reagiu de forma muito diferente.
Enquanto a alquimista abrira mão de qualquer ilusão romântica, aceitando a derrota no silêncio, Heisen operou com a frieza de um cálculo prolongado. Esperou. Com a paciência letal e obsessiva de um acadêmico habituado a esperar reações lentas, aguardou o colapso inevitável daquele casal descompassado.
— Só que, quando eles finalmente terminaram e o caminho supostamente ficou livre... — Um sorriso amargo, despido de qualquer humor, curvou os lábios de Paracelso. — A Rani simplesmente decidiu que queria ficar sozinha. Não queria mais ninguém na vida dela.
A recusa crua e absoluta cobrou seu preço daqueles que orbitavam sua presença.
— Todos que tiveram o peito estilhaçado por aquele gelo tentaram desesperadamente tapar o buraco que ela cavou. Corriam atrás de outros amores de forma compulsiva, pulando de um parceiro para o outro numa tentativa patética de voltar a sentir alguma coisa. Isso inclui até o Ryu.
Anna baixou a cabeça, os dedos apertando o tecido da própria saia sobre os joelhos. O quebra-cabeças encaixava-se com a aspereza de uma ferida aberta: a amargura crônica que Dante carregava nos ombros, o vínculo asfixiante e doentio com Velvet e a recusa inflexível do garoto em permitir qualquer aproximação real. Ele fugia do toque como quem sabe que carrega cinzas nas veias.
— Depois de ter o coração mastigado e cuspido, o Ryu vagou por Elysium colecionando relações vazias e casuais com dezenas de mulheres — revelou a alquimista, o desgosto manchando o tom. — O outrora invencível Caçador se tornou um homem lastimável. As lendas épicas que ele ergueu com sangue e glória no passado foram lentamente soterradas pelas histórias deploráveis da pilha de cacos em que ele se transformou.
Cyfera apoiou o queixo no dorso das mãos entrelaçadas, os olhos purpúreos processando a anatomia daquele declínio.
— E o Heisen?
— O Heisen foi o único de nós que não saiu mendigando afeto por aí. — Paracelso fixou nela um olhar direto, pesado como uma advertência de corte. — Mas o caminho dele não foi muito melhor. Como quem sela a própria alma a vácuo, ele trancou o coração por dentro. Decidiu ficar absolutamente sozinho. Desde aquele fatídico dia, o Professor Heisen nunca mais olhou de verdade para nenhuma mulher e nunca mais se interessou romanticamente por ninguém.
A alquimista recostou o peso do corpo contra o espaldar da cadeira, soltando o ar devagar, como quem encerra a tampa de uma sepultura.
— E é exatamente por isso que eu disse para você esquecer qualquer ideia boba — sentenciou Paracelso. — Esse era o veneno passivo da Rani. A gravidade implacável com que ela destruía o futuro de todos que um dia ousaram amá-la... e arruinava a sanidade de qualquer um que, mais tarde, cometesse o erro de se relacionar com as suas vítimas.
Parte 7
Rasputin apoiou a palma da mão no chão áspero, erguendo o tronco devagar. Com as costas da mão livre, limpou o fio escuro que escorria pela maçã do rosto, manchando a pele a partir do rasgo deixado pelo disparo de Heisen. Ao levantar o olhar em direção ao homem de sobretudo, no entanto, o monge travou os ombros.
Sob o couro negro do tapa-olho de Heisen, uma claridade verde e espessa começou a vazar. Não se tratava de um reflexo: era uma labareda densa, viva, que ondulava feito fogo-fátuo contra o ar, chamuscando a penumbra ao redor de sua têmpora com um zumbido elétrico.
Rasputin soltou o ar ruidosamente pelas narinas. Um sorriso rasgado esticou sua pele ensanguentada.
— Entendi... Então é isso? Um Devil Eye?
Heisen respondeu com uma risada curta, seca, que ressoou pelo esqueleto da construção.
— É claro que alguém com a sua idade decrépita reconheceria isso de imediato.
Com a ponta dos dedos enluvados, Heisen puxou o elástico e despiu o acessório em um gesto fluido. No lugar de uma cicatriz ou de uma órbita cega, brilhava uma íris esmeralda incandescente, cuja pupila vertical pulsava no ritmo de uma torrente obscena de Éter.
Mais atrás, mantendo a estrutura da ilusão firmada com as mãos crispadas, Delta sentiu a garganta secar. O queixo da garota desceu alguns milímetros.
— Devil Eye...? — murmurou para o vazio cinzento da laje.
Mesmo a metros dali, sob o sibilar do vento que cortava as vigas expostas, a audição de Heisen captou o murmúrio. Sem qualquer cerimônia e ignorando a figura letal à sua frente, o professor girou sobre os calcanhares, oferecendo as costas desprotegidas ao monge.
— Você não conhece, garota? — começou ele, a voz assumindo o tom plácido e a cadência de uma conferência acadêmica. — O Devil Eye é uma alteração física espontânea que costuma ocorrer quando um indivíduo acumula e canaliza uma densidade anormal de Éter diretamente no nervo óptico por longos períodos. É claro que, como qualquer mutação espontânea, há casos anômalos de seres que já nascem com essa característica dormente no código genético, mas a essência continua sendo a mesm—
— DANDO AS COSTAS PARA O INIMIGO NO MEIO DO COMBATE, SEU MERDA PETULANTE?!
Rasputin rugiu. O solo rangeu sob a sola de seus pés no arranque brutal, buscando fechar a distância para cravar um golpe definitivo contra a espinha descoberta.
Heisen sequer moveu o queixo.
Num reflexo cirúrgico, a mão esquerda mergulhou para o lado oposto do casaco e puxou um segundo revólver, idêntico ao primeiro no peso e nas ranhuras de aço escuro. Sem olhar para trás, abriu os dois braços em direções opostas — um para a esquerda, outro para a direita — e apertou os gatilhos no mesmo décimo de segundo.
O estampido duplo estalou pelo abismo da laje. Em vez de alvejarem o monge, as balas de alta densidade atingiram as colunas de ferro e o concreto bruto nas extremidades da construção.
Um ricochete agudo rasgou o ar.
Calculadas no milímetro, as trajetórias desviaram-se no metal em um lampejo de fagulhas, cruzando em ângulos fechados direto contra a garganta e o peito de Rasputin.
As pupilas do monge dilataram-se. Ele jogou o peso do corpo para trás, travando as pernas e executando uma cambalhota aérea evasiva enquanto o zumbido do chumbo passava roçando o colarinho de suas vestes.
Quando Rasputin tocou o solo de novo, Heisen completou o giro do corpo com calma, abaixando os dois canos em repouso ao lado das coxas.
— Perdoe a minha grosseria — ironizou o professor. — É que, como alguém que preza o avanço do intelecto, sinto que é o meu dever cívico ajudar qualquer mente que busque o conhecimento a adquiri-lo. Além do mais... — Ele inclinou a fronte, a chama esmeralda ardendo com ferocidade em sua órbita descoberta. — Eu realmente não vejo a menor necessidade de ter de ficar olhando diretamente para você para conseguir derrotá-lo.
As cordas do pescoço de Rasputin saltaram sob a pele.
— Desgraçado...
Com um estalo oco, a foice púrpura desmanchou-se em fagulhas e cinzas sobre o vento da ilusão. Rasputin puxou as abas de seu pesado paletó de cauda longa, arrancando a peça de um só golpe e deixando o tecido cair como chumbo sobre o cimento.
— Aparentemente, os magos desta nova geração andam se achando demais. — A histeria sumiu de sua garganta, dando lugar a uma voz cavernosa, arrastada contra os dentes. — Não fique tão convencido só porque carrega esse olho brilhante na cara, seu pirralho!
Num piscar de olhos, o corpo de Rasputin liquefez-se. Ele desceu para o chão como uma poça de piche, infiltrando-se nas juntas da laje.
Heisen estreitou a visão.
Pelas frestas do concreto e pelas sombras das colunas inacabadas, silhuetas idênticas emergiram em bando. Dezenas de cópias de Rasputin saltavam com garras forjadas em trevas, uivando enquanto desciam em uma maré cerrada sobre a posição do acadêmico.
Heisen fixou a base das pernas.
Os tambores dos revólveres engataram uma rotação contínua, zunindo num estalido metálico ininterrupto. O tiroteio engoliu o espaço. Traçantes verdes furavam a penumbra com geometria implacável, detonando crânios e torsos em respingos de ectoplasma e fuligem espessa. Ainda assim, das brechas do chão, novas cascas sombrias continuavam a rastejar sem trégua.
O calor da pólvora foi subitamente cortado por um frio glacial nas costas de Heisen.
Sem levantar poeira ou mover uma corrente de ar sequer, uma presença materializou-se colada à sua retaguarda. Ficaram alinhados ombro a ombro, encarando lados opostos no centro do tiroteio.
— Obrigado... — o sussurro resvalou na cartilagem da orelha do professor.
A cadência era fúnebre, desprovida de escárnio, carregada por uma autoridade antiga que fez o oxigênio pesar.
O Éter de Rasputin expandiu-se sem barreiras. Uma onda cinzenta e tóxica desabou sobre o topo da estrutura inacabada; as vigas de sustentação vergaram sob um gemido metálico agudo, e o cimento estalou com a corrosão daquela carga necromântica.
— Eu realmente precisava de um adversário decente nesta nova era... — as palavras caíam como pedras. — Apenas para me relembrar do fato inquestionável de que eu sou, de fato, o mais forte.
O tronco de Heisen girou por puro instinto, e o revólver direito descarregou à queima-roupa.
O disparo atravessou o peito à sua frente, mas o corpo estourou em fumaça negra. Outro engodo.
Sem hesitar no tempo das mãos, Heisen bateu as travas dos dois tambores com um estalo seco. As cápsulas vazias tilintaram no chão de cimento e, num jogo ágil de dedos, novas cargas de chumbo entraram nas câmaras.
A mecânica, no entanto, foi interrompida antes do fechamento das armas.
Sem rastro de mana ou deslocamento de ar, o verdadeiro Rasputin plantou-se diante de seus olhos.
O punho do monge explodiu em linha reta, enterrando-se no centro do esterno de Heisen.
A força do impacto lançou o professor no ar em direção à beirada da construção. No vazio do precipício simulado, Heisen arqueou o corpo com agilidade felina, girou no eixo e desceu com as solas travadas na borda de concreto, levantando cascalho e faíscas até frear o recuo.
Ele ergueu o rosto devagar, puxando o fôlego.
Aquele soco não doeu..., avaliou em silêncio, sentindo o tecido do paletó intacto sob os nós dos dedos. A carga de impacto fora quase imperceptível. Mas o ar ao redor do oponente havia mudado por completo.
A metros dali, Delta continuava pregada ao piso. Gotas de suor frio escorriam por seu maxilar, e seus olhos tremiam, desprovidos de resposta.
Espera..., a mente tática da garota girava no vazio. Quando caralhos foi que ele se moveu para a frente dele no meio de toda aquela fumaça?! Eu... eu não vi! Nem mesmo dentro do meu próprio espaço delimitado eu consegui registrar o avanço dele!
Alheio à paralisia da parceira, Rasputin inclinou a cabeça na direção dela, assumindo uma compostura sóbria e contida.
— Me perdoe pelo espetáculo lamentável que mostrei antes, senhorita Delta — falou ele, em tom brando, contrastando de forma aberrante com o veneno que escorria de sua presença. — Foi de uma tremenda indelicadeza da minha parte permitir que uma dama assistisse a algo tão decadente. Mas não precisa mais se preocupar. A partir deste exato momento... Rasputin, o Monge, irá lutar de verdade.
Com um gesto cerimonioso, Rasputin levou os dedos ao interior do que restava de suas vestes.
Trouxe à mostra uma peça longa.
Era uma varinha escura, feita de um ébano retorcido que parecia engolir a claridade cinzenta do ambiente. Na ponta superior, repousava um crânio diminuto e fossilizado, coalhado de fissuras anômalas que pulsavam num ritmo compassado, tal qual um músculo cardíaco exposto.
No segundo em que o objeto tocou o ar da Casa de Bonecas, a pressão atmosférica tornou-se asfixiante.
O sistema nervoso de Heisen soou o alarme. Não foi a razão, nem o cálculo refinado de seu cérebro acadêmico; foi o aviso biológico primitivo, gravado na memória celular de sua linhagem Scarlune. Involuntariamente, as solas das botas de Heisen rasparam no cascalho, recuando um centímetro em um sobressalto mudo.
Rasputin não perdeu o menor vacilo de postura. Seus lábios afinaram-se em um sorriso estreito, sereno e lívido.
— E então... vamos recomeçar?
Parte 8
A névoa espessa de Éter azul-escuro rastejava pelos escombros, fria e pesada sobre o cascalho triturado.
Heisen firmou o peso nas pernas e aprumou o tronco, os olhos fixos na silhueta à sua frente. Havia uma ruptura flagrante no ar. O escárnio histérico e os rosnados teatrais que Rasputin vomitara momentos antes tinham desaparecido; em seu lugar, assentara-se uma calmaria fúnebre, antiga e abominavelmente lúcida.
Não há dúvidas... algo nele mudou, Heisen calculou, os dedos ajustando a empunhadura dos revólveres com precisão mecânica. A precipitação sumiu por completo. O que causou essa virada? Essa relíquia nas mãos dele... não é um catalisador comum.
O professor piscou, e a chama no olho esmeralda oscilou. Pela primeira vez em décadas, sentiu o travo amargo da própria hesitação. Por um décimo de segundo, o instinto animal em suas células havia registrado a presença daquele homem como uma ameaça real.
Irritado com a própria fraqueza, soltou o ar ruidosamente pelas narinas e ergueu o queixo. Quando voltou a fitar o monge, a compostura professoral dera lugar a uma frieza cirúrgica.
— Pelo visto, não há outra alternativa — declarou Heisen, nivelando o cano da arma direita na altura dos olhos do rival. — Acho que terei mesmo que matá-lo.
Rasputin soltou uma risada rasteira. O som saiu baixo, aveludado e macabro.
Afastada dali, sustentando as bordas daquela dimensão com as mãos trêmulas, Delta afundou os dentes na parte interna da bochecha até sentir o gosto ferroso de sangue. Gotas de suor frio escorriam por sua têmpora.
Droga... o que diabos está acontecendo aqui?!, a mente da garota disparava, incapaz de acompanhar o ritmo. Isso é uma batalha entre dois monstros de rank alto... O ritmo da luta mudou completamente de um segundo para o outro, e eu sequer consegui registrar o gatilho! A minha falta de experiência de campo é tão patética assim?!
Alheio ao desespero da observadora, Rasputin ergueu a haste de ébano. O pequeno crânio fóssil no topo rangeu com um estalo de osso seco, vertendo das órbitas vazias uma luminescência púrpura e apodrecida.
— Prestem bastante atenção a partir de agora — anunciou o monge, a voz preenchendo a laje aberta com a solenidade de uma missa fúnebre. — Mesmo para alguém que caminha sobre este mundo há tanto tempo quanto eu, confesso que foram pouquíssimos os que tiveram o privilégio de testemunhar isso e continuar respirando. Contemplem a minha magia assinatura... Lullaby.
A atmosfera dobrou sobre si mesma.
Antes mesmo que o feitiço tomasse forma física, um coro dissonante rompeu o ar. Clamores estridentes, gemidos cavos e distorções acústicas desabaram na penumbra, materializando-se em partituras e notas espectrais que ardiam em chamas roxas ao redor de Rasputin.
No instante seguinte, a ameaça disparou: um feixe colossal de Éter concentrado partiu o piso ao meio, uivando feito trovão enquanto rasgava o concreto em linha reta.
Heisen saltou de lado.
Em pleno ar, a pressão sônica do projétil atingiu seus tímpanos com o impacto de um aríete. O estrondo reverberou de forma tão violenta que simplesmente esmagou sua capacidade auditiva.
Quando as solas das botas de Heisen reencontraram o chão, o mundo havia mergulhado em um silêncio absoluto e sepulcral. O arrastar do cascalho sob os pés, o uivo do vento que varria a falsa metrópole, o próprio estalar de seus tendões... nada produzia som. O raio púrpura havia devorado todo e qualquer ruído exterior.
Heisen baixou os olhos para a própria base, atordoado pela ausência repentina de retorno acústico.
Ao erguer a fronte, deparou-se com o absurdo: o feixe roxo executara uma curva fechada no ar e vinha em rota de colisão direta contra o seu peito. Não havia margem para esquiva.
No reflexo motor puro, Heisen cruzou os antebraços sobre o esterno, imbuindo o metal pesado dos revólveres com uma couraça espessa e vibrante de Éter verde.
O choque foi avassalador.
A detonação não emitiu o menor som para os ouvidos do professor, mas a energia cinética pura triturou sua guarda. O impacto arremessou seu corpo contra uma das grossas colunas centrais; o concreto rachou de ponta a ponta e se desfez em brita enquanto Heisen atravessava a estrutura e rolava desgovernado pelo piso, até que as pontas de suas luvas se fincaram na borda externa da laje, freando a queda a poucos centímetros do vazio.
Apoiado sobre os joelhos, o professor arqueou o tronco e cuspiu uma golfada de sangue vivo.
Tentou falar. Puxou o ar, forçou as cordas vocais, mas nada saiu. Nenhuma vibração escapava de seus lábios; o silêncio ao seu redor era uma prisão hermética.
À distância, Rasputin sustentava um sorriso calmo. Com gestos lentos, encostou a ponta da varinha fossilizada junto à própria têmpora, apontando-a para o ouvido como se modulasse uma transmissão distante.
No mesmo segundo, o crânio de Heisen foi engolido por um martírio interno.
Uma batida mecânica, abafada e descomunal nasceu no centro de seu cérebro. O som expandia-se em progressão geométrica, sacudindo as vértebras cervicais e golpeando suas têmporas de dentro para fora com a cadência ritmada de ferro batendo em bigorna.
Um estalo úmido rompeu a base de seus ouvidos.
Sangue escuro jorrou pelos dois canais auditivos, descendo quente pelas laterais do pescoço. O corpo do acadêmico convulsionou em espasmos secos enquanto ele vomitava mais sangue sobre as pedras.
Rasputin desceu a mão com a autoridade cerimoniosa de um regente diante de sua orquestra.
— Aquilo que é alto silencia... e aquilo que é quieto torna-se violentamente ensurdecedor — a cadência da voz de Rasputin ressoou cristalina e direta no córtex ferido de Heisen. — Esse é o Primeiro Verso de Lullaby.
O topo da haste voltou a arder. Outro vórtice de energia arroxeada condensou-se na ponta óssea, pronto para o golpe de misericórdia.
Heisen arregalou o olho esmeralda.
Desviar no chão não adianta... o feitiço rastreia pela ressonância acústica!
Em uma manobra suicida, Heisen ignorou os pilares restantes. Fincou as solas no concreto com o restante de sua força e projetou o corpo para trás, lançando-se no abismo para fora da carcaça do edifício.
O raio púrpura cortou o vazio onde sua cabeça repousava um milésimo antes, perfurando a névoa cinzenta e desaparecendo na distância.
Do lado de fora, a queda livre impôs seu peso.
O vento açoitava as abas de seu sobretudo, e a chuva gelada da ilusão chicoteava sua pele ensanguentada. A gravidade daquele espaço moldado por Delta não admitia misericórdia: a queda seria fatal.
Em pleno voo descendente, Heisen torceu o tronco contra a resistência do ar. Canalizou uma carga explosiva de Éter no calcanhar direito e desferiu um chute em arco contra o nada. A detonação de energia verde atuou como um propulsor de recuo, catapultando seu corpo em trajetória horizontal direto para a abertura de um pavimento inacabado três andares abaixo.
Ele colidiu contra a laje de cimento, derrapando sobre sacos de areia e ferragens retorcidas até bater com as costas contra uma parede de alvenaria.
Sentou-se devagar, o peito arfando. Cada terminação nervosa latejava em uma frequência febril. Bateu com a palma aberta contra o chão áspero; o golpe produziu apenas mudez. A surdez permanecia absoluta.
Estalando a língua contra o palato, enfiou a mão trêmula no bolso interno do paletó empapado de sangue e puxou um frasco cilíndrico de cristal com lacre de chumbo. Com os dentes, arrancou a vedação e virou o líquido acre na garganta, arremessando o vidro vazio contra o concreto.
A alquimia agiu como brasa viva em sua circulação.
Um ardor corrosivo fechou as microfraturas internas. As fossas nasais estancaram o fluxo carmesim e, após um estalo líquido na base do crânio, a barreira do vácuo cedeu com um estalido úmido, devolvendo-lhe o sibilar do vento e o tamborilar da chuva nas lajes.
— Talvez eu tenha subestimado um pouco demais aquela relíquia de museu... — murmurou Heisen, passando as costas da manga no queixo manchado.
— Eu concordo plenamente. Mas devo dizer que agradeço pelo descuido.
A resposta macia brotou das sombras atrás de uma pilha de tijolos.
No reflexo puramente muscular, Heisen girou o tronco enquanto o tambor do revólver uivava sob a pressão do cão. Três disparos explodiram à queima-roupa.
Rasputin apenas oscilou o busto de um lado para o outro com uma fluidez espectral. Os projéteis rasparam o tecido de suas vestes sem atingir a carne, enquanto seus pés continuavam a avançar com a varinha empunhada.
Antecipando o próximo encantamento, Heisen deu um passo de arrancada e enterrou a bota com força brutal no esterno do monge. O golpe mecânico arremessou Rasputin metros para trás, fazendo suas solas chiarem sobre o cimento empoeirado.
O monge recompôs a postura sem pressa, esticando os lábios em um sorriso rasgado que repuxava a pele suja de sangue.
— Eu confesso que estava muito confiante com esta nova era — discursou Rasputin, fazendo a haste de ébano rodopiar entre os dedos ossudos. — Desde que escapei daquela maldita prisão, imaginei que, para subjugar os novos tempos, bastaria aplicar um pouco de pressão mecânica e algumas técnicas antigas. Mas o mundo sempre produz criaturas como você... Encontrar um obstáculo do seu calibre era o choque de realidade de que eu precisava. Isso me fez compreender que as novas vidas de fato vieram mais fortes... — O monge ergueu a cabeça, as íris purpúreas brilhando em puro desprezo ancestral. — Mas ainda estão absurdamente longe de serem o suficiente para derrubar este velho carvalho negro.
Que sujeito irritante..., pensou Heisen, recompondo o ar nos pulmões. Eu preferia quando ele estava apenas latindo como um cão sarnento.
O professor sacudiu os ombros, obrigando o fluxo de adrenalina a baixar para devolver o comando à mente lógica.
Os fragmentos da equação fechavam-se com exatidão:
Lullaby. A cantiga de ninar. As notas espectrais, a absorção total do som ambiente convertida em choque interno. A técnica operava sob a inversão estrita da acústica do Éter: quanto maior o ruído descarregado na área, mais denso se torna o vácuo ao redor; e, em contrapartida, qualquer sussurro orgânico ou sístole cardíaca dentro daquele raio é multiplicado até a violência de uma carga oca explodindo por dentro.
Sendo assim..., ponderou Heisen com frieza, não posso me dar ao luxo de disparar ou criar ressonância sem calcular a dispersão das ondas. Mesmo que a minha vontade primordial agora seja enfiar o salto da bota na boca desse imbecil até fazê-lo engolir os dentes.
Notando a imobilidade do acadêmico, Rasputin pendeu o pescoço de lado, a ironia gotejando em tom meloso:
— O que foi, professor? Agora que contemplou a extensão do meu verdadeiro poder... acovardou-se? Decidiu que é mais seguro ficar quietinho aí no seu canto?
Heisen reconheceu a isca grosseira. Era uma tentativa primária de arrancá-lo do silêncio, de forçar uma fala ou um contra-ataque vocal que alimentasse o retorno de Lullaby.
Não havia lógica em responder àquele tipo de jogo raso.
Contudo, ver um fóssil arrogante assumir um pedestal de superioridade sobre seu intelecto era a única fagulha capaz de incendiar o orgulho Scarlune em suas veias.
O professor cravou os olhos no adversário. O rosto esvaziou-se de qualquer tensão, assumindo o tédio condescendente de quem examina uma traça pousada sobre um manuscrito raro.
Em movimentos medidos, Heisen fez o revólver da mão esquerda deslizar de volta para o coldre sob o paletó, guardando a arma sem desviar o olhar por um milímetro sequer.
Em seguida, ergueu o braço direito desarmado.
Esticou o indicador na direção do nariz de Rasputin.
Recolheu os nós dos dedos, dobrando o indicador duas vezes no gesto seco e universal de convocação: venha.
Por fim, fechou a mão em um punho cerrado e girou o polegar para baixo, inclinando a cabeça com um suspiro lento de pura lástima e piedade.
Não havia códigos militares. Não havia linguagem mística.
Era puro deboche de rua.
O silêncio estancou na laje por um compasso inteiro.
Rasputin paralisou. O sorriso brando congelou em sua face à medida que as engrenagens de sua mente decifravam a pantomima silenciosa.
Uma veia grossa despontou em sua testa, pulsando contra a têmpora. O Éter arroxeado ao redor de suas pernas detonou em uma onda muda que esfarelou o piso em um anel de poeira e estilhaços.
— Deixe-me adivinhar... — Rasputin sibilou, o maxilar trincado de cólera. — "Já que você é burro demais para compreender um código refinado, farei de um jeito bem mastigado para o seu cérebro primitivo processar: venha para cima que eu acabo com você, seu lixo." Foi exatamente isso que você quis dizer, não foi?!
No exato milésimo em que o monge vociferou a tradução em voz alta, um sorriso discreto, pontiagudo e perversamente satisfeito despontou no canto da boca de Heisen.
Ele não precisara gastar uma única gota de saliva para extrair o veneno daquele homem.
Cego pela quebra de sua dignidade, Rasputin perdeu a linha. A varinha de ébano fustigou o ar em um chicote violento, despejando uma tempestade caótica de notas carmesins e distorções espaciais sobre o pavimento.
— ENTÃO MORRA!
Parte 9
No nível superior da carcaça de concreto, Delta enterrava as pontas dos dedos no parapeito de ferro. O metal gélido mordia sua pele enquanto suas pupilas dilatadas tentavam rastrear os clarões e a poeira que subiam em lufadas violentas dos andares inferiores.
Aquele desgraçado do Rasputin..., ela praguejou em silêncio, sentindo o suor frio escorrer pela nuca. Mordeu a isca daquele professor arrogante e ficou cego de ódio. Nós deveríamos ter recuado no primeiro segundo! Eu poderia ter colapsado as coordenadas desta sala e trancado aquele Scarlune aqui dentro por tempo suficiente para sumirmos sem deixar rastro. O que se passa na cabeça daquele velho idiota?!
A mente da conjuradora trabalhava em rotação febril. Se batesse em retirada agora, Rasputin seria executado ou capturado — e, sem a necromancia dele para desmantelar as travas arcanas e reaver as chaves da ruína, toda a operação ruiria. Ela precisava do monge vivo.
Pedir reforços para a Ceto? Não... Até parece que daria tempo de abrir uma linha segura agora. E, para começo de conversa, que utilidade eu teria no meio daquele tiroteio de monstros?! Droga! Droga!
Toc, toc.
Duas batidas secas, abafadas e rítmicas estalaram na madeira da porta às suas costas.
O sangue de Delta desceu de uma vez para os pés. A respiração travou na base da garganta, e a visão periférica da garota oscilou sob uma onda de pura vertigem.
Isso... só pode ser uma piada de péssimo gosto.
O coração disparou contra as costelas como um martelo pneumático. Ninguém no plano material deveria sequer registrar a existência daquele vagão de carga: Rasputin havia cravado sigilos necromânticos de ocultamento nas vigas e, por cautela doentia, a própria Delta sobrepusera uma barreira espacial independente aos feitiços dele.
Duas barreiras de alta complexidade ativas... É impossível alguém de fora achar este lugar por acaso! A não ser que...
A lembrança de Heisen cruzando as defesas com as mãos nos bolsos relampejou em sua memória.
E se outro monstro daquele vagão principal tiver farejado a brecha?! Não... ou talvez seja o aliado infiltrado que a Ceto mencionou?
O cálculo durou uma fração de segundo. Com o Éter crepitando em azul nas pontas dos dedos e a postura recolhida em pura guarda defensiva, Delta destravou a lingueta de ferro e escancarou a folha de carvalho em um puxão brusco.
A silhueta que repousava sob a penumbra do corredor fez o ar escapar de vez de seus pulmões. Os lábios de Delta tremeram, e a garganta ressequida mal conseguiu modular o sussurro estarrecido:
— Você...?
Três andares abaixo, a ilusão do edifício estremeceu com o uivo de uma nova torrente mágica.
O raio púrpura de Lullaby rasgou a penumbra, vibrando em uma frequência dissonante que fazia os vergalhões de aço expostos chiarem. Heisen viu o feixe contorcer o ar em sua direção e, em milésimos de segundo, seu cérebro traçou a equação do vetor.
Em vez de saltar, o professor ergueu o braço direito em um ângulo oblíquo e puxou o gatilho contra o bloco maciço de alvenaria à esquerda.
O estampido balístico trovejou contra a pedra. No mesmo instante, a ponta do feixe roxo arqueou-se no ar feito serpente faminta, abandonando a rota original para colidir com violência contra a marca fresca de pólvora e de cascalho aberta pelo disparo.
Sabia..., Heisen constatou, com a expressão imutável. No instante em que pisei no chão, minutos atrás, o projétil mudou de curso buscando o atrito da minha bota. A magia se ancora e persegue vibrações acústicas. Um vetor guiado por som é pateticamente simples de se manipular.
O riso rouco de Rasputin ressoou entre as ferragens retorcidas, carregado de deboche.
— E quem foi que disse que o meu verso só é capaz de desviar uma única vez, seu tolo?!
No instante em que o pé de Heisen avançou um milímetro, o raio roxo ricocheteou na parede esburacada e descreveu uma curva fechada, retornando com velocidade duplicada em direção às suas costas desprotegidas.
Heisen sequer pestanejou.
Tudo dentro da margem de erro. O ricochete me comprou a fração de segundo necessária para sacar.
A mão esquerda já emergia do forro escuro do paletó; o segundo revólver alinhou-se com precisão milimétrica, o tambor girando no encaixe mecânico. Sem olhar para trás, Heisen apontou o cano diretamente para o ponto entre as sobrancelhas do monge e puxou o gatilho.
Rasputin tombou o pescoço para o ombro direito, os lábios franzidos em desdém afiado.
— Já disse que as suas balas são lentas demais!
O chumbo passou zunindo pela cartilagem de sua orelha, mas o objetivo jamais fora acertá-lo.
Ao cravar-se na viga metálica posicionada imediatamente atrás da nuca de Rasputin, o projétil especial não perdeu força cinética. A liga usinada começou a girar sobre o próprio eixo, em fricção absoluta contra a chapa de aço, uivando feito uma serra circular cega em rotação extrema.
O guincho mecânico feriu os tímpanos com a força de um apito industrial.
Atraído pelo pico brutal de decibéis que explodiu a centímetros do crânio de seu mestre, o feixe roxo de Lullaby esqueceu Heisen por completo. A serpente de energia torceu-se sobre si mesma e despencou em mergulho cego contra a viga onde a bala girava.
A detonação às costas de Rasputin arrancou a alvenaria inteira. A onda de choque lançou o monge para a frente, enquanto empurrava Heisen na direção oposta.
Ambos rolaram pelo chão coalhado de brita e poeira, mas a mecânica corporal do professor respondeu de imediato. Cravando as solas das botas no concreto para estancar o deslizamento, Heisen ergueu os dois revólveres e descarregou uma barragem de disparos esmeralda contra a cortina de fumaça.
Rasputin manobrou em cambalhotas acrobáticas por entre as colunas inacabadas, esquivando-se das trajetórias luminosas enquanto girava a haste de ébano para condensar uma nova carga sônica.
Heisen cerrou a pálpebra direita. A íris de seu Devil Eye pulsou em uma luminescência radioativa; sob o filtro espectral, as linhas de fadiga do concreto e os pontos de fratura do aço acenderam-se como teias incandescentes na penumbra. Ele alinhou a mira na junção milimétrica de três vigas mestras no teto e disparou uma única bala.
Um estalo oco de ferro partindo ecoou no alto.
O ponto de sustentação cedeu. A laje superior desabou em uma cascata de toneladas de entulho e de vergalhões retorcidos, caindo a prumo sobre a posição de Rasputin. O monge projetou o corpo de lado para escapar do esmagamento, mas o estrondo brutal dos blocos de cimento colidindo contra o pavimento agiu como ímã para o próprio feixe roxo em formação.
A energia sônica explodiu contra a estrutura já comprometida, partindo o chão ao meio.
A laje inteira ruiu sob as botas dos dois combatentes.
Enquanto despencavam pelo vão aberto, entre nuvens de pó cinzento e cascalho pesado, a mente de Rasputin costurava os fatos em ritmo desesperado.
Aquele olho demoníaco... Não há dúvida. O primeiro disparo passou de raspão para me cegar com sangue porque ele identificou que a minha visão direita era debilitada. Agora, derrubou o pavimento inteiro mirando em uma única falha de tensão do concreto... Aquele olho permite que ele enxergue a fragilidade das estruturas!
Um lampejo de alívio calculista suavizou a tensão no rosto do monge.
Mas não funciona diretamente na matriz de feitiços complexos. Se funcionasse, aquele desgraçado já teria encerrado a luta.
No meio da cortina cinzenta da queda, o instinto de Rasputin apitou. Uma linha escura rompeu a fumaça pela lateral: um projétil solitário vinha em rota reta para sua têmpora. O monge fustigou o ar com a varinha, desviando a bala com a ponta de madeira negra, mas a força do ricochete desfez sua estabilidade no ar.
Rompendo o manto de poeira como uma ave de rapina, Heisen surgiu de cima. A perna direita descia envolta em um turbilhão denso de Éter esmeralda, desenhando um golpe de machado implacável, mirando o topo do crânio do adversário.
No último centímetro, Rasputin liberou uma descarga repulsiva de sua aura púrpura em todas as direções. A barreira de energia chocou-se contra a sola de Heisen, amortecendo a violência do golpe e projetando o professor para o alto, enquanto os dois aterrissavam com impactos pesados sobre uma teia instável de vigas expostas, suspensas sobre a cratera do prédio.
Rasputin firmou o peso em uma barra de sustentação, com os olhos ardendo em puro escárnio.
— Eu já desvendei o truque da sua mutação, professor! Esse olho só serve para encontrar as rachaduras das pedras!
Heisen ergueu a arma e roçou a ponta do cano no septo nasal, um meio-sorriso fino e gélido cortando suas feições. Manteve a mudez; a recusa em gastar saliva era a resposta mais humilhante que poderia oferecer.
Aquele feitiço sônico dele é um estorvo, Heisen ponderou, ajeitando a base sobre o metal oscilante. O feixe persegue a fonte sonora continuamente até o esgotamento do alcance ou da carga mágica. Ficar demolindo o cenário não vai sustentar uma vantagem tática por muito tempo...
Os dois sustentaram os olhares por um compasso mudo. Décadas acumuladas de matança eliminavam qualquer espaço para hesitação: ambos sabiam que a próxima falha de cálculo cobraria a vida de quem a cometesse.
Heisen fez o revólver esquerdo deslizar suavemente para o coldre sob o casaco. Em seguida, pousou a palma da mão sobre o cano da arma restante, bombeando uma torrente brutal de Éter verde que fez o aço ranger em alta frequência.
— Brilho Fulminante: Bullet Strike.
Do outro lado do abismo, Rasputin traçou uma elipse no vazio com o artefato de ébano, entoando uma cadência fúnebre:
— Segundo Verso: Lullaby.
Glifos degradados e notas espectrais brotaram simultaneamente ao redor dos corpos de ambos. O ar na laje densificou-se como piche.
Heisen martelou o gatilho em sequência ininterrupta. No segundo em que o chumbo deixou a câmara, as runas ao redor de seu tronco detonaram em estalos sônicos agudos — a armadilha acústica de Rasputin tentava estilhaçar suas vísceras por dentro, enquanto um feixe roxo recém-nascido disparava no encalço das detonações.
Mas o professor já havia antecipado a resposta mecânica.
Nenhum dos tiros fora disparado contra o monge. As balas perfuraram as vigas estruturais ao redor do perímetro em ângulos calculados, enterrando-se e girando em rotação contínua como peões de alta densidade, lançando cascatas de fagulhas e Éter verde por todo o vão aberto.
Bombardeado por dezenas de fontes de ruído de mesma intensidade em eixos contrários, o feixe de Lullaby entrou em colapso vetorial. Sem conseguir processar a cacofonia simultânea, a serpente de energia implodiu no próprio centro, liberando uma onda de choque monumental que arrancou os suportes de ferro e cuspiu os dois combatentes para fora da carcaça do arranha-céu.
Ambos despencaram no vazio da metrópole ilusória.
A chuva gélida chicoteava os rostos na queda livre de centenas de metros. Em pleno ar, Heisen levou a mão ao peito, partiu o selo de um segundo frasco com os dentes e engoliu o conteúdo amargo em um único gole, contendo a hemorragia interna causada pelo impacto do Segundo Verso.
Sem desacelerar a queda, ergueu o cano restante e esvaziou o tambor contra o corpo de Rasputin, que despencava em rota paralela.
O chumbo rasgou a carne do monge com estalos úmidos.
Esse maldito enlouqueceu de vez?!, o terror assaltou a mente de Rasputin enquanto as balas abriam rombos em seus ombros e abdômen. Ele nem tentou frear a própria queda! Nós vamos nos estraçalhar contra o asfalto lá embaixo!
— VOCÊ FICOU LOUCO, SEU MERDA?! — berrou Rasputin contra o vento cortante, o sangue se dispersando em névoa por suas feridas. — ESTÁ QUERENDO SE MATAR SÓ PARA ME DERROTAR?!
Heisen mantinha os olhos fixos nele com a impassibilidade de uma estátua de mármore.
— Seu tolo imbecil... Quantas vezes mais terei de tolerar a sua mediocridade verbal?! — o tom de Heisen cortou o uivo da tempestade, tingido por uma arrogância magistral. — Por acaso sentiu tanta falta assim do meu tom educando a sua ignorância? Você mesmo categorizou a minha posição: eu sou um mago. Sendo assim... por qual motivo o seu cérebro primitivo concluiu que meras balas com Éter seriam a minha magia de assinatura?
As pupilas de Rasputin dilataram-se.
Ao baixar os olhos para o próprio peito perfurado, notou que as cavidades abertas pelos disparos não sangravam: as bordas dos orifícios pulsavam com runas esmeraldas de Éter altamente concentrado.
— Acontece que, para a minha técnica operar... — Heisen continuou, a voz plácida enquanto a massa cinzenta das ruas se aproximava em velocidade terminal —, eu preciso estabelecer âncoras cinéticas no alvo primeiro.
O pavor primordial trincou a compostura secular de Rasputin.
— Seu verme maldito... Uma Magia de Regulamentação?!
Heisen fechou a mão esquerda e apontou o polegar rigidamente para o solo, pronunciando a sentença com os olhos mais vazios que o monge já contemplara:
— Cumprindo com a minha promessa... Faça o favor de morrer, seu lixo.
O professor abriu os dedos da mão direita na direção das nuvens pesadas da simulação.
— THUNDERBIRD!
O céu ilusório dobrou-se em espasmos de luz. Dezenas de relâmpagos convergiram em um único ápice celestial, fundindo-se na silhueta colossal de uma ave de rapina primordial feita de pura voltagem verde.
Com um guincho supersônico que rasgou a tempestade e engoliu todo o som da cidade fantasma, a criatura de plasma mergulhou a prumo, atraída magneticamente pelas coordenadas cravadas na carne do monge.
A colisão fez o ar estalar como vidro.
Uma explosão ofuscante de eletricidade esmeralda engoliu a forma de Rasputin em um turbilhão desintegrador. O deslocamento de ar gerado pelo impacto foi tão descomunal que a onda de choque apanhou Heisen no meio do precipício, arremessando seu corpo horizontalmente até a laje reforçada de um arranha-céu vizinho, onde suas solas derraparam pelo cimento sob o rugido distante do trovão.
Parte 10
Do outro lado do abismo, a névoa rala da detonação dissipava-se sob a chuva fria da simulação. Entre placas de concreto trincado e vergalhões retorcidos, o ar guardava o cheiro acre de lã chamuscada e de ozônio.
Apoiando a palma enluvada no piso áspero, Heisen colocou-se de pé devagar. As abas do paletó estavam em tiras, rasgadas pelos estilhaços da explosão. O professor puxou o ar em espasmos curtos, cuspindo um fio fino e escuro de sangue contra o cascalho úmido.
Ergueu o queixo, medindo a altura colossal da torre inacabada logo à frente.
— Droga... acabaram as poções... — resmungou em um murmúrio rouco. — E... eu acabei caindo longe demais. Ter de subir todos esses lances de escada para voltar ao vagão vai ser um saco sem tamanho...
— Relaxa... Eu faço questão de carregar o seu corpo lá pra cima.
O sussurro roçou a nuca do professor.
Heisen não deu à voz o intervalo de uma batida de coração.
Em um giro seco de calcanhar, o braço direito chicoteou no ar com o revólver já alinhado. Sem mirar, sem pestanejar e sem gastar uma única sílaba, enterrou o cano de ferro diretamente contra a lateral do pescoço da figura e puxou o gatilho à queima-roupa.
O estampido trovejou na tempestade. A bala perfurou a garganta de Rasputin de lado a lado, rasgando cartilagem e tecido em um repuxo espesso de sangue. A força do disparo arrancou os pés do monge do chão, fazendo-o desabar de costas sobre a laje molhada. As duas mãos subiram em desespero para estancar o rombo aberto, enquanto ele engasgava no próprio refluxo traqueal.
Os olhos esbugalhados de Rasputin encaravam o atirador em puro choque.
— C-Como... você...? — o som borbulhava entre os dentes manchados.
Com passos medidos, ouvindo o cascalho ranger sob as solas das botas, Heisen aproximou-se do corpo caído.
— Você realmente não tem a menor capacidade cognitiva de calar a boca, não é? — o professor sibilou, o rosto impassível. — Era óbvio que eu sabia sobre a sua suposta "imortalidade". Eu jamais seria ingênuo a ponto de acreditar que uma descarga elemental simples como o Thunderbird apagaria de vez a vida do lendário Monge Louco.
Ele parou ao lado do corpo, baixando o olho esmeralda em uma inspeção anatômica desprovida de pressa. A carcaça de Rasputin estava deplorável: o torso esturricado pela voltagem do pássaro elétrico, a pele em carne viva recendendo a queimado, e o orifício no pescoço lavando o cimento cinzento em um vermelho vivo.
— No entanto... veja só que descoberta fascinante — Heisen inclinou a cabeça, a voz tingida por um escárnio calmo. — Essa sua dita imortalidade não significa, de forma alguma, invulnerabilidade física. Que decepção patética.
Soltando um suspiro de enfado, fez a arma deslizar de volta para o coldre sob o forro rasgado.
— Mas que droga, Rasputin... Você não podia simplesmente ter se teleportado para lá depois que eu já estivesse no topo daquele prédio? É sério que você vai me obrigar a arrastar o seu peso morto por centenas de degraus, seu imbecil desgraçado?
Rasputin continuava pregado ao chão, os dedos crispados sobre o ferimento borbulhante, os lábios trêmulos de incredulidade.
Lendo o mutismo do homem ferido, Heisen permitiu-se um meio-sorriso de canto.
— Hum? Está querendo me perguntar como eu deduzi a mecânica do seu teleporte? — Começou a listar, erguendo os dedos enluvados um a um. — A equação era infantilmente óbvia. Quando caímos pelo fosso minutos atrás e você se materializou no pavimento inferior sem emitir atrito cinético; ou quando surgiu perfeitamente colado ao meu peito para desferir aquele soco fraco... Em ambas as ocasiões, eu não vi você se mover. Mas, se o seu corpo possuísse uma velocidade biomecânica pura dessa magnitude, você jamais teria passado por tamanho sufoco para tentar se esquivar dos meus disparos balísticos ordinários.
O professor deu mais um passo, plantando a sola da bota rente aos nós dos dedos trêmulos do monge.
— Portanto, a única conclusão matemática possível era o deslocamento espacial instantâneo. Mas uma magia dessa categoria exige requisitos estritos para ancorar as coordenadas. A princípio, cogitei que o seu gatilho de transposição estivesse atrelado a qualquer ruído acústico emitido pelo oponente no campo... Mas não era isso.
Rasputin arregalou as íris purpúreas, a compreensão rasgando sua mente antes que o ar entrasse nos pulmões:
— E-Então... foi por isso... que você parou de falar naquela hora...?
Heisen riu baixo. Levou a ponta do indicador ao osso do nariz e bateu duas vezes contra a pele, confirmando a dedução com a empáfia de quem encerra a correção de uma prova primária.
— Mas agora... confesso que uma curiosidade acadêmica muito mais intrigante me ocorreu — a voz desceu meio tom, assumindo uma frieza cirúrgica. — Mesmo ostentando o título arrogante de "imortal", você ainda gasta energia para se esquivar de golpes letais. E agora, está aí no chão, gastando suas forças para pressionar a própria garganta e frear a perda de fluido vital... Me corrija se eu estiver errado, mas você é daquele tipo específico de aberração que não morre, mas que também não possui o milagre da regeneração acelerada, correto?
Rasputin travou o tronco. Uma gota de suor gélido misturou-se à fuligem em sua têmpora.
— Sendo assim... — Heisen estreitou a pupila vertical do olho esquerdo, e o fulgor radioativo iluminou o rosto em pânico do adversário — se eu simplesmente decepar a sua cabeça, arrancar os seus membros ou drenar cada gota do seu sangue neste chão de concreto... será que você finalmente "desliga"?
O Monge Louco engoliu em seco, sentindo o gosto metálico da própria saliva misturada à hemorragia. A soberba ancestral ruiu, dando lugar ao pavor cru de uma cobaia sob a lente do microscópio.
— Bom... Já que você finalmente aprendeu a calar essa boca maldita — Heisen puxou uma lâmina curta e encantada de dentro do forro do paletó, avançando a base —, acho que não terei outra escolha a não ser descobrir testando na prática.
Antes que o salto da bota tocasse o solo para o golpe final, a densidade do ar desabou às suas costas.
— Infelizmente... eu não poderei permitir que isso aconteça.
As palavras vieram em cadência mansa, macias como veludo, desprovidas de qualquer sede de sangue.
O sistema nervoso de Heisen soou o alarme máximo. O professor girou nos calcanhares em movimento contínuo, a mão esquerda puxando o segundo revólver e martelando o gatilho no limite da resposta muscular.
Click.
O percussor bateu seco. A pólvora não reagiu; o cano permaneceu mudo.
Antes que o intelecto do acadêmico formulasse a hipótese para a falha, uma dormência gelada varreu sua circulação. O Éter verde que ardia em seus canais mágicos, a queimação nos pulmões e a própria chama viva do Devil Eye evaporaram no mesmo instante, como a fumaça de uma vela apagada pelo vento. Seu poder foi simplesmente desligado do mundo físico.
Ao levantar a vista, Heisen mal registrou a silhueta postada à sua frente.
O punho do recém-chegado afundou no centro de seu estômago.
O golpe não o lançou pelo ar. A força cinética concentrou-se inteiramente para dentro, rompendo os tecidos internos e expulsando todo o oxigênio de sua caixa torácica de um só golpe. O horizonte tombou. As pernas do professor dobraram sem sustentação, e o piso de concreto subiu de encontro à sua têmpora enquanto a escuridão engolia as bordas de sua visão.
Desabando sobre as lajes molhadas, a mão esquerda de Heisen — trêmula, guiada pelo último resquício de lucidez — esticou-se para a frente, fechando os dedos débeis na barra da manga do agressor.
Ele forçou o queixo para cima, resistindo à vertigem que puxava sua consciência para o fundo:
— Por... quê...?
A força nos dedos cedeu. A mão escorregou pelo tecido e caiu inerte contra o chão frio.
No segundo em que o vazio o tragou por completo, um eco antigo quebrou o silêncio de sua mente:
“Sempre que alguma coisa te frustra, você fica na defensiva e acaba sendo venenoso em todas as palavras. Se você tá sentindo alguma coisa estranha, com ciúmes, ou prevendo que alguma merda vai acontecer, você deveria só ser honesto e falar como um homem, em vez de ficar fazendo esses seus joguinhos de palavras de garotinho ressentido.”
Droga... por que... eu tinha que lembrar daquele imbecil? Logo agora.
Estendido sobre a poça que se alastrava sob seu pescoço, Rasputin soltou um suspiro rouco, o ar chiando pela ferida aberta enquanto a tensão abandonava seus ombros:
— Então... você finalmente chegou...
O homem recém-chegado permaneceu de pé sobre o corpo estendido de Heisen Scarlune. Com a identidade preservada pelas sombras da construção e pelo véu cerrado da chuva, ele sequer baixou o olhar para o professor caído aos seus pés.
— Vamos — ordenou o infiltrado, a voz serena cortando o murmúrio da água com uma autoridade fria e definitiva. — Está na hora de pegarmos a segunda chave.



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