The Fall of the Stars: Capítulo 7 - Cidade Bipolar

Volume 5 : Trem Escarlate
Parte 1
A trepidação compassada dos trilhos subia pelas solas das botas, mas, para Anna, o som chegava amortecido, como se o mundo ao redor estivesse submerso em água morna. O bafo frio do fole de borracha entre os vagões chicoteou seu rosto sem conseguir despertá-la do torpor; ela cruzou as portas corrediças no piloto automático, alheia ao zumbido dos circuitos elétricos e ao vapor denso que escorria pelas vidraças duplas.
Tudo o que ecoava em seu crânio era o relato amargo deixado no restaurante.
A maldição de Rani. O abismo reservado àqueles que ousam se aproximar. A couraça de cinismo que Dante vestia para empurrar o mundo para longe...
A mão de Anna subiu maquinalmente à testa. Os dedos enroscaram-se nas mechas da franja, puxando os fios num nó tenso até a raiz arder contra o couro cabeludo. O que diabos eu deveria falar para ele agora? Como sequer encará-lo depois de saber de tudo isso? Ele sabe... ou passou a vida inteira fugindo das pessoas por puro instinto? E se souber, eu tenho algum direito de tocar nessa ferida?
O desconforto espalhava-se pelo peito como uma mancha de óleo: não era um golpe súbito de pânico, mas uma culpa rançosa, pegajosa, misturada ao fel de ter escutado aquela conversa. Apressou o passo de cabeça baixa, querendo apenas escapar da própria pele.
Foi nesse milésimo de segundo de distração que a colisão aconteceu.
Anna chocou-se de frente contra uma estrutura sólida. O baque não foi violento, mas a pegou tão desprevenida que o couro de suas botas derrapou no piso metálico estriado, obrigando-a a abrir os braços para não cair sentada.
— Ai...! — Ela levou os dedos ao nariz dolorido, piscando contra as lágrimas do impacto. — F-foi mal! Me desculpa, eu estava andando sem prestar atenção e acabei trope—
As palavras travaram no meio da garganta.
No centro do corredor estreito, erguia-se uma garota vestida com a elegância cirúrgica da alta nobreza: babados de corte impecável, tecidos pesados e uma postura graciosa que parecia recém-saída de um salão de baile.
No entanto, o luxo das roupas empalidecia diante do absurdo da cena.
A recém-chegada sustentava com a mão enluvada, em perfeita serenidade, um imenso guarda-chuva aberto.
Dentro de um vagão vedado. Sob um teto de latão inteiramente seco.
Anna piscou uma, duas vezes, sentindo a lógica do próprio cérebro engasgar.
— Mas... por que diabos você tá com um guarda-chuva aberto aqui dentro?
A garota não se retraiu. Inclinou a fronte de lado, abrindo um sorriso amplo e límpido, respondendo com a naturalidade de quem constata a rotação do mundo:
— Ora, para não me molhar com a chuva, é claro!
Anna ergueu os olhos para a calha do teto, impecavelmente enxuta, e voltou a fitar o rosto reluzente da jovem. A convicção era tão pura que, por uma fração de segundo, o ar pareceu úmido.
— É claro... faz todo o sentido do mundo — murmurou Anna, soltando um suspiro derrotado.
Num movimento suave, a estranha estendeu a mão livre, auxiliando-a a recuperar o equilíbrio com uma polidez aristocrática que beirava a ingenuidade infantil. Anna recompôs a blusa, estreitando os olhos enquanto o instinto entrava em vigília. Ela não estava na estação de Invel. Ninguém com essas roupas e essa sombrinha ridícula passaria despercebido por dias nos corredores.
— Quem é você, afinal? — Anna cruzou os braços sobre o peito, fechando a guarda.
A jovem deu um sobressalto teatral, como se acabasse de esbarrar numa regra de ouro da corte.
— Eita! Mil perdões pela minha terrível falta de modos! — Em um movimento ágil, ela fechou a copa de tecido com um estalo seco, cravou a ponta de madeira no chão como uma bengala e pinçou as bordas da saia, desdobrando-se em uma reverência milimétrica. — O meu nome é Lilibeth Scarlune! Eu sou uma mensageira oficial de Westfalia.
O ar congelou nos pulmões de Anna.
Scarlune?! Mais uma?!
— Eu vim na frente apenas para ver quem seriam os primeiros a chegar... e quantos candidatos ainda restavam — continuou Lilibeth, o tom musical transbordando alegria, alheia ao choque que acabara de descarregar.
Anna entortou o queixo, desconfiada:
— Veio na frente? De Westfalia?
— Sim, sim! Direto de lá! — Lilibeth assentiu com firmeza, fazendo os cachos saltarem nos ombros.
Uma pontada aguda pulsou nas têmporas de Anna. Westfalia era a próxima parada da linha, e o anúncio dos alto-falantes avisara há pouco que o trem recém-iniciava o protocolo de desaceleração na fronteira. Não havia como cruzar aquela distância a pé; os campos externos eram varridos por correntes de atrito magnético que esmagariam a carne desprotegida, e qualquer tentativa de dobra espacial sob a turbulência de Éter da nevasca seria suicídio.
Como ela entrou aqui? Teria embarcado em Invel sem que Love e os fiscais notassem?
Incapaz de suportar mais um enigma, Anna engoliu as perguntas. A cabeça pesava demais para cavar teorias.
— Bom... e o que você quer aqui no corredor? — perguntou, a voz sem qualquer ânimo.
Lilibeth uniu as palmas das mãos na altura do queixo, as pupilas faiscando com uma expectativa quase infantil:
— Você poderia, por gentileza, me ajudar a encontrar os demais passageiros? Eu realmente gostaria muito de ver todos eles de pertinho!
O estômago de Anna afundou.
Se ela está me pedindo isso... quer dizer que não cruzou com ninguém até agora? Nem mesmo no vagão de entrada?
A hipótese de que a garota já estivesse a bordo desfez-se em pó. Havia algo fundamentalmente distorcido naquela presença. Mas, ao fitar o reflexo baço de seu próprio rosto na vidraça da porta, Anna deixou os ombros caírem. O peso do cansaço e a amargura da conversa sobre Dante drenaram qualquer ímpeto de resistência.
— Tudo bem... — murmurou, dando meia-volta com passos pesados sobre o metal. — Acho que posso te levar até o restaurante. Não é como se eu tivesse muita coisa melhor para fazer agora, de qualquer forma.
— Eba! Muito obrigada! — Lilibeth comemorou, saltando na ponta dos pés.
Com um estalo oco de varas de metal esticando o tecido, ela armou novamente o grande guarda-chuva no meio do teto baixo e começou a marchar atrás de Anna, cantarolando baixo com um sorriso imperturbável.
Parte 2
Aquele improvisado passeio turístico pelos vagões do Trem Escarlate rapidamente assumiu os contornos de um teste de paciência.
Anna caminhava alguns passos à frente, os ombros caídos e as mãos afundadas nos bolsos do casaco. Logo atrás, o som ritmado de saltos leves marcava a marcha saltitante de Lilibeth, que sustentava a copa aberta do guarda-chuva com uma compostura inabalável, como se a chapa de latão do teto não passasse de mera ilusão de ótica.
A primeira parada foi o vagão-restaurante.
Lá dentro, o cheiro tostado de café fresco e massa assada dividia o espaço com uma cena no mínimo descompassada. Apoiando o queixo na palma da mão sobre o estofado de uma mesa longa, Mio observava com um misto de pena e riso contido a aflição da companheira à sua frente.
Beatrice afundava a cara em uma taça colossal de sorvete de menta entupida de pedras de gelo. A meio-dragão devorava colherada atrás de colherada em desespero cego, tentando a todo custo anestesiar a própria língua.
— Eu não aguento mais essa porcaria! — Beatrice chiou, os olhos avermelhados marejando e as pupilas em fenda faiscando em pura aversão enquanto brandia a colher prateada. — Que fedor nojento! Eu quero ir embora… O cheiro de fada no ar tá ficando dez vezes mais forte… Eu quero morrer…
— Calma, calma, Bea… — Mio estendeu dois dedos e pescou a cereja cristalizada do topo da taça alheia, enfiando-a na boca sem a menor cerimônia. — Come mais que passa.
— Nem tudo pode ser resolvido com comida… — Beatrice murmurou entre os dentes, mas continuou enfiando outra montanha congelada na boca.
Anna estacou à entrada do salão e apontou o queixo na direção da mesa. Lilibeth inclinou-se por baixo da aba de tecido, as íris brilhando fascinadas diante do drama dracônico, até que Anna puxou a manga de seu vestido para recolocá-la no corredor.
A travessia pelo vagão seguinte, contudo, cobrou um pedágio ainda maior.
A passagem estava bloqueada por uma muralha viva de puro atrito acadêmico. Cyfera e Paracelso encaravam-se a milímetros de distância, gesticulando com fúria enquanto disparavam teses celulares, anomalias anatômicas e diagnósticos venenosos sobre a fisiologia dos Scarlunes. O volume das vozes subia num crescendo perigoso de jargões cirúrgicos e ofensas pontiagudas que flertavam abertamente com a violência física.
Espremida no exato olho do furacão, Justia tentava trabalhar.
Com a postura impecavelmente reta e a severidade marcial gravada na face, a garota estendia as palmas em riste na tentativa de impor ordem. No entanto, com seu modesto um metro e sessenta de altura, a cena beirava o cômico: parecia uma criança de uniforme tentando conter a colisão de duas torres de mais de um metro e oitenta, cujos braços longos e xingamentos passavam batidos sobre o topo de seu quepe sem sequer registrar sua presença.
— Tenham decência! — Justia ralhava, a têmpora pulsando contra a pele alva. — Recuem dois passos agora mesmo ou eu juro que serei eu a acabar com vocês!
Nem Cyfera nem Paracelso piscaram. Continuaram berrando hipóteses genéticas direto contra as narinas um do outro.
Anna nem sequer cogitou intervir. Encolheu os ombros, puxou Lilibeth rente ao painel de madeira da parede e esgueirou-se pela fresta estreita, ignorando solenemente os pedidos mudos de socorro que os olhos azuis de Justia disparavam em sua direção.
Ao cruzarem o limiar corrediço do setor seguinte, o ar condensou-se em calor úmido. O bafo espesso de vapor d'água e o aroma herbal de infusões medicinais anunciavam a antessala das termas.
Sobre o tapete espesso que dava acesso aos banhos, Vivian andava de um lado para o outro. As pantufas arrastavam-se em passos curtos e frenéticos enquanto ela roía o canto da unha do polegar. A cada três passadas, estancava a marcha e lançava olhares febris, quase furtivos, para a cortina pesada de linho cru que velava a entrada do vestiário masculino.
Absorta demais na própria vigília, Vivian só deu pela presença alheia quando o farfalhar do guarda-chuva de Lilibeth ecoou no piso.
Ao virar o rosto e topar com as duas paradas no batente, a cor escorreu de suas bochechas. Os olhos arregalaram-se no pânico absoluto de quem acabava de ser apanhada no pior flagrante possível.
— N-Não é nada disso que vocês tão pensando! — Vivian disparou, as mãos abanando o ar em desespero enquanto recuava passos trôpegos. — Eu só tava... Eu só queria ver se...
As costas da garota bateram de chapa contra uma parede sólida e morna.
A cortina de linho afastou-se com um ondular suave, liberando uma lufada de vapor aromático.
Blade Scarlune surgiu no vão.
Trajava apenas calças leves de tecido escuro, uma toalha grossa repousando sobre a curva dos ombros largos. Os cabelos negros e úmidos — com ondulações que desenhavam uma semelhança imediata com os fios de Dante — caíam pesados sobre a testa. De pele morena e traços esculpidos com o rigor frio de uma estátua de corte, Blade impunha uma sombra que parecia consumir o próprio oxigênio do recinto.
O Scarlune mais velho baixou os olhos dourados, pousando na garota colada ao seu peito uma frieza estritamente indiferente.
Bastou esse segundo.
Vivian adquiriu o tom de uma folha de papel. Um arrepio violento correu por sua nuca, os joelhos falsearam por um instante e, sem soltar qualquer som inteligível, ela rodou nos calcanhares e disparou feito uma lebre assustada pelo corredor, sumindo atrás das portas de metal com o bater ruidoso de suas pantufas.
Anna ergueu uma sobrancelha, o desânimo habitual dando lugar a uma ponta de curiosidade seca. Vivian realmente não suportava respirar no mesmo raio de dez metros daquele homem sem entrar em colapso.
Limpando a garganta para dissipar o constrangimento, Anna indicou a figura ao seu lado:
— Blade... Essa aqui é a Lilibeth. Ela disse que é uma mensageira de Westfalia.
Blade correu a vista pela vestimenta elaborada da garota, detendo-se por um instante no guarda-chuva armado sob o teto forrado de cedro. Se achou a visão absurda, nenhum músculo de sua face denunciou o pensamento.
— Entendo — a voz soou cavernosa, plana como uma lâmina fria. — Se estão procurando o resto dos passageiros, o Shisui e o Vani ainda estão de molho nas piscinas lá dentro.
Anna limitou-se a acenar com a cabeça, contornando a estrutura maciça do rapaz para guiar Lilibeth rumo às áreas técnicas no fundo da composição.
Ao transporem a penúltima divisória de serviço, depararam-se com Love e Delta avançando em sentido contrário.
Anna estreitou a visão. Pelos fragmentos de conversa que ouvira de Mio mais cedo, sabia que aquela era a garota misteriosa envolvida nos confrontos das arenas inferiores. Apresentou Lilibeth em meia dúzia de palavras, mas os modos habitualmente dispersos de Love já deixavam claro que sua cabeça estava atolada nas pendências do exame.
— Vocês viram o Dante por aí? — Anna perguntou, tentando diluir a urgência sob um tom neutro.
Love levou a mão à nuca, coçando os fios claros com um sorriso amarelo:
— Ah... O Dante e o Kai? Eles estão na enfermaria dos fundos. Mas não precisa se desesperar! A essa altura do campeonato, aqueles dois teimosos já devem estar acordando.
O chão pareceu fugir sob as botas de Anna.
Enfermaria?!
O estômago da garota despencou. O que diabos aquele idiota foi fazer dessa vez?!
Ela inflou o peito para arrancar os detalhes da boca de Love, mas o som foi esmagado antes de cruzar seus dentes.
Um silvo ensurdecedor partiu a calmaria do trem.
O apito de vapor uivou longo e agudo, reverberando pelo metal das paredes até fazer as janelas vibrarem nas borrachas de vedação. No segundo seguinte, o estalido seco das sapatas de freio mordendo o aço congelado ecoou sob o piso; uma desaceleração brutal puxou os corpos para a frente, forçando todos a buscarem apoio nas alças de segurança.
Love e Lilibeth viraram a cabeça em sincronia perfeita, os sorrisos desfeitos num instante enquanto encaravam o vidro duplo do corredor.
Anna deu dois passos e apoiou as palmas no painel gélido da janela.
Lá fora, a cortina contínua de névoa e geada começava a se abrir em fendas longas. Entre as rajadas de ar, as silhuetas de torres e moinhos colossais cortavam a brancura do horizonte.
A Cidade dos Novos Ventos.
Westfalia estendia-se diante do comboio. E, com a parada irrevogável das rodas sobre a neve, o Segundo Teste acabava de bater à porta.
Parte 3
O chiar dos freios metálicos morreu sob uma lufada morna. No instante em que as pesadas sapatas de ferro travaram as rodas do Expresso Escarlate, o ar gélido que fustigara as chapas do comboio por dias simplesmente desfez-se. Em seu lugar, desabou uma onda de calor úmido, espessa e aromática, carregada do cheiro vegetal de seiva fresca, terra adubada e um formigamento elétrico na língua — o rastro inconfundível de pólen feérico que impregnava a atmosfera.
A brancura cega da nevasca ficara para trás. Além da plataforma de pedra, erguia-se uma selva colossal de troncos retorcidos e copas monumentais, onde o canto estridente de pássaros tropicais ecoava entre o farfalhar das folhagens. Cortando a amplidão do céu claro, três colunas massivas de luz subiam em linha reta até as nuvens; o feixe central ardia límpido e soberano sobre a cidade, enquanto dois outros, tênues pela distância, perfuravam a névoa sobre os cumes das montanhas.
Westfalia não se erguia em blocos cinzentos de concreto ou aço militar. A civilização moldava-se à topografia do relevo: casarões rústicos de madeira nobre entalhada, com telhados de beirais curvos, empilhavam-se em terraços irregulares pelas encostas. Vinhas repletas de flores rubras abraçavam as varandas, interligadas por um emaranhado vertiginoso de pontes pênseis que balançavam ao sabor da brisa morna. Bandeirolas carmesins e douradas estalavam ao vento, pontuando o murmúrio distante de tambores de couro e o aroma salivante de especiarias e carne na brasa.
Anna pisou nos paralelepípedos da plataforma e paralisou, as pupilas tentando abarcar o turbilhão de movimento.
— EI, EI, ME EXPLICA! EI, DANTE, ME EXPLICA ISSO AQUI!
O grito agudo soou colado aos ouvidos de Dante, acompanhado por um tranco impiedoso. Encolhida em sua forma infantil, Mio cavalgava os ombros do rapaz, agarrada com as duas mãos em tufos de seu cabelo vermelho-escuro como se fossem rédeas de montaria, apontando o dedinho para as pontes suspensas.
— AIII! PARA COM ESSA MERDA, MIO! — Dante berrou, a cabeça puxada para trás num ângulo desconfortável enquanto tentava desvencilhar os dedos da garota. — Você vai arrancar a porra do meu couro cabeludo, sua pirralha maluca!
Em resposta, Mio inflou as bochechas e deu um puxão seco para a esquerda, arrancando outro gemido áspero do garoto.
Logo atrás, Beatrice desceu a rampa de desembarque em passos trôpegos. A mão cobria com força o nariz e a boca, as pupilas em fenda dilatadas em puro desespero enquanto os olhos lacrimejavam. Ao lado dela, Vivian mantinha os braços cruzados sob o peito, observando o drama com um cenho resignado.
— Você tá inteira aí, Beatrice? — Vivian perguntou, a voz plana.
— Eu tô morrendo! — a voz saiu abafada contra os dedos da meio-dragão. — Mas que porra de lugar é esse?! Esse cheiro de fada tá dez vezes mais concentrado do que no trem! Eu juro que vou morrer sufocada aqui!
Vivian apenas arqueou a sobrancelha, acostumada àquele colapso sensorial rotineiro.
— Bom... é evidente que o ambiente seria assim — a voz arrastada de Paracelso cortou as lamentações. A alquimista desceu os degraus de metal com gestos largos, abrindo os braços para saudar o horizonte tropical com um sorriso de corte. — Sejam muito bem-vindos a Westfalia, a Cidade dos Novos Ventos. O marco geográfico oficial que sinaliza a exata metade da nossa jornada rumo às entranhas de Threshold.
Mio travou os nós dos dedos na cabeça de Dante, arregalando os olhos:
— METADE?! TÁ DE SACANAGEM?!
— A gente já estaria bem mais perto do centro se a rota fosse uma linha reta… — Dante rosnou entredentes, flexionando o braço direito sob a atadura limpa. — Mas você esqueceu que o Expresso não foi pelo meio? Nós demos uma volta colossal contornando o território pela direita, fazendo uma curva gigantesca. É por isso que só batemos aqui agora.
A ruiva inclinou o queixo, inconformada, puxando mais um fio avermelhado:
— Tá, mas por que diabos aqui é tão quente?! Me explica! Anda, me explica logo!
Vivian soltou um suspiro curto e apontou o indicador para o alto das encostas:
— É por causa daquilo ali, ó.
O grupo ergueu a vista em sincronia.
Dominando a paisagem de qualquer ângulo da encosta, erguia-se a Torre. O monólito de pedra polida era cravado de entalhes rúnicos que pulsavam em um brilho rítmico, compassado como a respiração de um monstro adormecido. No ápice, contida dentro de uma armação geométrica de tiras de metal trançado, flutuava a Lacrima.
O cristal de Éter tinha as proporções de um casarão de dois andares. Sua massa translúcida fundia reflexos de ouro líquido e rosa crepuscular, como se a luz de um crepúsculo perpétuo estivesse condensada dentro de suas facetas. Do centro da pedra, um feixe denso subia aos céus, ondulando o ar em miragens de calor antes de se espalhar contra a base das nuvens.
— Fascinante, não é? — Paracelso comentou, o olhar acadêmico percorrendo as runas da base. — No passado, os Scarlunes desenterraram esses Cristais de Éter primitivos nas ruínas féricas espalhadas por Threshold. A partir deles, nós erguemos estes pilares. Funcionam sob a mesma lógica das Relíquias de Éter que os Caçadores empunham como armas, mas dimensionados em escala geográfica: dentro dessas estruturas residem encantamentos arcaicos de calor contínuo que irradiam e alteram todo o bioma ao redor. A partir desta linha de fronteira, o gelo que vocês enfrentaram não existe mais.
— Que incríveeeel!!! — Mio vibrou, os olhos fixos na luminosidade âmbar.
Beatrice farejou a brisa, a boca retorcida em uma careta cética:
— Espera aí... Se vocês tinham essa tecnologia na mão, por que não meteram essas torres ao redor de todo o continente de uma vez? Não dava pra descongelar tudo?
— Não é tão simples, Laranjinha — Paracelso retrucou com desdém polido. — Nós não tínhamos pedras o suficiente. Existem centenas de ruínas seladas em Threshold que nem mesmo nós fomos capazes de mapear ou desbravar até hoje. Além disso, as torres só regulam a temperatura; elas não afetam a compressão gravitacional das linhas de Ley colapsadas neste solo. É exatamente por essa distorção que nós ainda somos obrigados a depender dos trilhos de trem em vez de usar teletransporte ou naves.
Cyfera adiantou dois passos sobre o cascalho da plataforma, as mãos nos bolsos e um sorriso estreito moldando os lábios:
— Sem contar que a muralha congelada das bordas externas serve como uma proteção natural indispensável.
— É... faz sentido — Beatrice murmurou, cruzando os braços e tentando conter a respiração curta. — É difícil imaginar qualquer curioso ou invasor comum tentando se enfiar a pé por um deserto de gelo maldito como aquele.
Cyfera soltou uma risada rasteira, pontiaguda e despida de simpatia.
— Não, garota. Você entendeu a equação pelo lado errado.
A meio-dragão franziu a testa:
— Como assim?
O ar estalou antes que o som chegasse.
Um bramido gutural, titânico e cavernoso desabou das cordilheiras do interior como um baque físico. A onda sonora sacudiu as amarrações das pontes de corda e fez a poeira avermelhada saltar das telhas de madeira. Não era o urro de um predador comum; carregava o peso ancestral de uma besta pré-histórica rompendo a mudez da floresta profunda.
A vibração correu pelo chão de pedra e bateu contra o esterno dos presentes, calando a plataforma num golpe seco.
Cyfera inclinou a cabeça para a mata fechada, os olhos purpúreos faiscando de escárnio:
— A barreira de gelo lá fora não foi feita para proteger quem vive aqui dentro... Ela existe para impedir que os curiosos do mundo exterior entrem desavisados e sejam estraçalhados pelas monstruosidades que habitam aqui.
Beatrice engoliu em seco, recuando a bota meio centímetro na pedra enquanto a arqueóloga retomava a descida da rampa.
Mio piscou, quebrando a rigidez com um estalo de língua:
— Tá, mas quer dizer que nesta cidade aqui não chove e nunca tem inverno? É esse calorão pra sempre?
Aproveitando a distração da menina, Dante enfiou as mãos sob as axilas de Mio, arrancou-a dos ombros em um solavanco e a plantou no chão antes que ela pudesse reencontrar o cabelo dele.
— É claro que tem inverno e chuva — resmungou ele, massageando a raiz dolorida do couro cabeludo. — Seria um desastre ecológico se o clima fosse estático o ano todo. Acha que essa floresta inteira cresceria sem água? Quando eu era pirralho, eles ajustavam o calor emitido pelas torres de acordo com o ciclo das estações. Se os operadores quiserem, dá pra induzir tempestades torrenciais, chuviscos leves ou até fazer nevar aqui dentro.
— Ah... faz sentido — admitiu Mio, coçando a nuca.
O grupo deu os primeiros passos em direção aos arcos do terminal para alcançar a rampa do mercado, mas o estalo rítmico de solas de couro contra a pedra bloqueou o avanço.
Com um salto ágil e teatral, uma silhueta plantou-se à frente de todos.
Lilibeth Scarlune rodopiou sobre os calcanhares. O guarda-chuva aberto girou em sua mão enluvada feito uma flor mecânica refletindo o brilho dourado da Lacrima. Ela ergueu a fronte com um sorriso luminoso e aristocrático, inteiramente alheia à sombra colossal que o rugido distante acabara de projetar sobre o vale.
— Bom! Que maravilhoso ver que agora estamos todos na mesmíssima página! — a voz cantada ecoou clara sobre o cascalho enquanto ela pinçava a barra do vestido em uma reverência impecável. — Sendo assim, acho que finalmente posso fazer as honras oficiais da casa!
Ela estalou os dedos da mão livre e abriu os braços na direção do labirinto de pontes e folhagens:
— Sejam muito bem-vindos à Cidade dos Novos Ventos! Sejam todos muito bem-vindos a Westfalia!
Parte 4
O holograma de comunicação oscilava na penumbra da sala de controle, banhando o rosto de Descora em um pulsar azul e frio. Projetada em tamanho real sobre o piso de metal, a figura do outro lado da linha mantinha os braços cruzados com irritação evidente.
O capuz largo lançava sombras sobre seus traços angulosos, mas não ocultava a herança que carregava: a pele morena e as orelhas pontiagudas remetiam de imediato à nobreza dos Elfos Negros. No entanto, sua anatomia rompia qualquer molde comum. Por baixo do linho escuro, fios pretos misturavam-se a mechas roxas naturais; caninos afiados despontavam contra o lábio inferior, e as íris douradas, fendidas em traços verticais predatórios, revelavam uma linhagem infinitamente mais perigosa.
Era Lapiz Scarlune.
— Não adianta ficar dando esse seu chilique ridículo, Lapiz! — Descora vociferou contra o console, uma veia saltando sob a franja escura. — Não é como se eu tivesse escolhido enviar essa corja toda direto para a sua porta, pra começo de conversa!
— Você podia perfeitamente ter transferido esses vermes para outra composição em Invel e desviado a rota para qualquer outro buraco do continente! — rebateu Lapiz, a voz firme como lâmina em gume, despida de concessões. — Em vez disso, preferiu continuar com esse plano patético e descarregar esse circo inteiro nos meus trilhos!
Descora cravou as duas palmas na borda da mesa técnica, projetando o tronco:
— Eu já cansei de te explicar, sua imbecil! Se eu tivesse feito qualquer manobra brusca de transferência de passageiros, o traidor teria notado a movimentação de segurança e escapado pelas sombras!
— E isso é um problema estritamente seu! — Lapiz fuzilou a projeção com o olhar dourado. — Você é a Chefe de Segurança da Família! Cuidar de brechas e incompetências internas é a porra da sua obrigação, não minha!
— E você é a Líder da Cidade de Westfalia! — Descora trincou os dentes com força audível. — A sua função é calar a boca, obedecer às diretrizes do comando geral e dar início imediato ao Segundo Teste sem ficar de birrinha!
— Eu me recuso! — Lapiz ergueu o queixo, o desprezo gotejando em cada sílaba. — Não vai ser você quem vai ter que limpar o sangue e o entulho dos prédios depois que esses selvagens passarem!
— Pouco me importa o seu trabalho! — Descora bateu o pé no chão, o rosto em brasa. — Olha que você também é uma Scarlune! Se continuar com essa palhaçada, eu juro por Deus que transfiro a responsabilidade de gerenciar essa eleição de merda inteira pro seu colo! Quero ver você reclamar de bagunça quando tiver que engolir a burocracia dos outros distritos!
— Você tem noção da baderna que esses candidatos vão causar aqui?! — Lapiz deu um passo à frente no holograma, as orelhas compridas tremendo de cólera. — Westfalia já está entulhada até o teto de gente ignorante, caçadores bárbaros e feras! Eu não tenho a menor paciência para ficar bancando a babá de mais um bando de idiotas!
— ENTÃO APLICA LOGO A PORRA DO TESTE! — Descora descarregou o punho fechado na chapa de metal da bancada, fazendo os monitores tremerem. — Faz esses merdas se matarem de uma vez e chuta os sobreviventes para o próximo posto!
— Só para o próximo trem encostar na estação com mais outra remessa de lixo?! Isso não resolve porra nenhuma!
A gritaria alcançou o limite do suportável.
Ao lado do terminal de Descora, o técnico de operações encolhia os ombros, massageando as têmporas com os olhos apertados. A centenas de quilômetros dali, no gabinete suspenso de Westfalia, a assistente pessoal de Lapiz abraçava a prancheta de couro contra o peito, encarando o teto de vigas com um suspiro derrotado.
O mesmo pensamento ecoou em ambas as salas, na mesma medida:
Lá vão elas de novo... Desse jeito, essa conversa não vai acabar nunca.
Prevendo que as conexões do comunicador arrebentariam antes que qualquer ordem prática fosse dada, os subordinados resolveram arriscar a pele.
— Senhora Descora! — o técnico pigarreou com urgência, estendendo um tablet luminoso. — Precisamos encerrar a transmissão agora! Não se esqueça de que temos a outra pauta prioritária na mesa e ainda é necessário enviar a equipe de escolta para recepcionar a chegada de Cendrillon!
No mesmo segundo, a assistente de Westfalia deu um passo à frente, elevando a voz sobre a réplica de Lapiz:
— Chefe, nós não podemos perder mais nenhum minuto discutindo! Já recebemos a notificação da estação central de que o Expresso Escarlate acabou de atracar na plataforma. Se a senhora não estiver atenta ao desembarque, a confusão nas ruas vai explodir antes da hora! Sem falar que nós ainda precisamos questionar o Eragon sobre o que aquele convidado misterioso que ele trouxe está querendo!
A bronca dupla agiu como um corte súbito de corrente elétrica.
Ofegantes pelo desgaste das cordas vocais, Descora e Lapiz estancaram. O silêncio voltou a pesar entre os servidores, quebrado apenas pela respiração descompassada das duas.
— Tudo bem... — murmurou Descora, puxando a gola rígida do uniforme para acomodar o fôlego.
— Tanto faz — soltou Lapiz do outro lado, cruzando os braços e virando o queixo de perfil.
Puxaram o ar ao mesmo tempo e soltaram num sussurro idêntico, carregado de amargura:
— Essa mulher me tira do sério...
Atrás delas, os dois assistentes trocaram olhares resignados com o vazio. É óbvio que ela te tira do sério... Vocês duas são praticamente a mesma pessoa.
Lapiz ajeitou a borda do capuz. Mas, antes que a mão tocasse a interface para encerrar o sinal, seus olhos em fenda cravaram-se em Descora com nova acidez:
— Só me explica uma coisa antes de sumir da minha tela: que palhaçada foi essa de você ficar enviando diretrizes e mensagens criptografadas direto para os meus subordinados sem me consultar primeiro?
Descora não piscou. Um sorriso cínico curvou o canto de sua boca:
— Ah... então você descobriu?
— É claro que eu descobri, sua incompetente — desdenhou Lapiz, o tom polido pelo rigor. — Diferente da sua administração furada, aqui em Westfalia eu tenho a lealdade absoluta de cada alma que respira sob o meu comando. Ninguém esconde nada de mim.
A estocada desceu crua. A têmpora de Descora voltou a pulsar, e o técnico ao seu lado recuou dois passos cautelosos, temendo nova tempestade de gritos.
Descora, no entanto, não explodiu.
Fechou a mão lentamente sobre a chapa fria da mesa, respirou fundo e sustentou o foco na projeção com uma quietude gélida:
— Se você já descobriu o que precisava... então cala essa sua boquinha e vai fazer o seu trabalho logo.
Com um toque seco no painel, Descora cortou o sinal. O holograma desfez-se em um estalo de faíscas azuis, deixando para trás apenas o zumbido mecânico da ventilação da sala de controle.
Em Westfalia, a assistente piscou, atônita diante da tela vazia.
— Ué... Que milagre foi esse? A Senhora Descora simplesmente desligou sem bater boca de volta?
Lapiz permaneceu imóvel diante do vidro escuro do console por alguns segundos. A tensão bélica de sua postura escorreu devagar, dando lugar a uma rigidez reflexiva.
— É claro que ela não bateu boca... — murmurou, virando-se para a escadaria interna do gabinete. — Por mais histérica que ela seja, a Descora está longe de ser idiota. Ela deve estar se roendo por dentro com o que eu falei, porque sabe perfeitamente que é a mais pura verdade.
A líder da cidade ajustou as luvas de montaria, descendo o tom para a assistente:
— Para as coisas terem chegado a esse ponto de sabotagem estrutural nos trilhos, tem que ter sido uma traição interna. E não de um peão qualquer. É exatamente por isso que ela está agindo com tanto sigilo, contornando a hierarquia comum para tentar farejar quem puxou a alavanca.
A garota franziu o cenho, tentando acompanhar:
— Espera aí... Se a senhora sabia de tudo isso desde o início, por que ficou provocando e cutucando ela daquele jeito agora há pouco?
Lapiz estacou junto às pesadas folhas de carvalho que davam para a sacada exterior.
— Porque a Descora é brilhante no que faz — pontuou a meio-elfa, sem afetação. — Mesmo sem ter as provas físicas em mãos ainda, eu aposto todo o ouro do meu cofre que ela já tem palpites muito claros sobre quem cometeu a traição. Se fosse apenas a deslealdade de um soldado comum ou de um técnico dispensável, ela teria soltado os cachorros antes de desligar. Teria gritado aos quatro ventos que ia caçar o infeliz, que ia arrancar a pele dele e fazê-lo pagar caro assim que o encontrasse.
A assistente engoliu o nó na garganta, completando a lacuna:
— Mas... como ela não ameaçou ninguém...
Lapiz virou a cabeça, as íris amarelas brilhando frias na penumbra da porta:
— Exato. A situação é muito mais problemática do que nós imaginávamos.
Com um empurrão firme nos batentes, Lapiz abriu as portas maciças. O vento morno de Westfalia a alcançou de imediato, trazendo o cheiro doce de pólen, as cordas dos alaúdes e o murmúrio vivo das vielas floridas.
Logo atrás, ajeitando os óculos no osso do nariz, a assistente resmungou entre os dentes:
— É sempre a mesma história... Quando estão conversando, não sabem fazer outra coisa a não ser arrancar a cabeça uma da outra aos berros. Mas é só cortarem a linha que começam a se elogiar e a se preocupar pelas costas. Vocês duas deveriam ser honestas com o que sentem de uma vez por todas, isso sim.
As solas de Lapiz travaram na cantaria da varanda. Seu pescoço girou no mesmo milésimo, os olhos estreitos como agulhas:
— Você disse alguma coisa aí atrás?
A assistente deu um salto no lugar, colando a prancheta de madeira contra o peito enquanto abria um sorriso amarelo:
— N-Nada! Absolutamente nada, senhora! Eu só estava dizendo que o dia está lindo lá fora!
— Sei... — Lapiz estreitou a vista por mais um instante, desconfiada, antes de voltar-se para o labirinto de pontes suspensas, onde a primeira leva de candidatos desembarcados começava a se misturar ao movimento denso do mercado central.
Parte 5
O chiado da gordura pingando sobre as brasas vivas dominava o ar da praça central, misturando-se à fumaça espessa de carnes tostadas, canela e ervas secas. Ao redor, barracas de tábuas escuras transbordavam de frutos tropicais de cascas reluzentes, cujas formas pontiagudas e polpas coloridas atraíam os olhos dos transeuntes. Por um breve instante, o vigor daquele burburinho conseguiu anestesiar o aperto cinzento que pesava sobre o peito de Anna.
Com um lampejo de apetite desarmando sua guarda, a garota deu dois passos rápidos em direção a Dante, estendendo a mão para puxar o tecido de seu sobretudo e pedir algo para comer.
Antes que as pontas de seus dedos roçassem o pano, o mundo perdeu a cor.
Não houve brisa exterior. O frio brotou de súbito no fundo de suas próprias costelas, uma correnteza espessa que congelou a circulação em questão de batimentos. Sob a claridade dourada da Torre e o vapor denso das grelhas, a saturação da praça escorreu como tinta lavada: o movimento dos corpos, o riso dos feirantes e a poeira avermelhada do chão desaceleraram até virarem uma projeção espectral e muda.
Anna recolheu o braço num tranco. Enlaçou o próprio tronco com força, cravando as unhas nas mangas do casaco enquanto as vértebras estalavam na tentativa de reter algum calor.
Por quê...?
O sopro soou quebrado, reverberando não nos ouvidos, mas nas paredes internas de seu crânio.
Ela virou o queixo em um solavanco, as pupilas dilatadas vasculhando a multidão. As pessoas seguiam seu fluxo regular, negociando cestos, mordendo espetos fumegantes e rindo sob as lonas das tendas. Ninguém olhava em sua direção. Não havia vultos nas frestas dos becos nem qualquer distorção de Éter perceptível no ar.
Foi... coisa da minha cabeça?, forçou o ar a descer pela traqueia, sentindo o peito arder. Eu tô ficando maluca...
Por que... é tão frio...?
A voz retornou. Mais nítida, mais crua, carregada por um desamparo antigo que fez a pele de sua nuca eriçar-se de ponta a ponta.
Anna girou sobre os calcanhares mais uma vez, o coração socando a garganta. Buscou rostos, reflexos nas vidraças, silhuetas suspensas nas pontes pênseis — nada. O espaço permanecia banal, mas o eco daquela dor permanecia cravado em sua carne.
— Ei, Anna! Não vai vir, não?!
O chamado ríspido de Dante cortou a paralisia como ferro em brasa.
As cores da praça retornaram num solavanco óptico. O bafo úmido de Westfalia lambeu sua pele outra vez, e a mudez espectral evaporou sem deixar vestígios.
Piscando rápido para dissipar a névoa dos olhos, Anna recompôs a postura e deu passos vacilantes até o grupo. Dante estava parado diante de uma tenda movimentada, onde um homem de braços grossos manejava uma lâmina comprida, fatiando tiras finas de um cilindro maciço de carne prensada que girava rente a uma coluna de brasas incandescentes.
Engolindo o gosto amargo do choque, Anna parou ao lado dos outros, esforçando-se para manter os ombros firmes.
Junto à bancada, Mio saltava nas pontas dos pés, o dedinho esticado para a grelha giratória:
— Que pedação de carne gigante é esse aí?! Anda, me explica!
— Isso aí se chama Döner Kebab — respondeu Dante, a mandíbula trabalhando em seco diante do aroma tostado. — É uma das melhores comidas de rua que existem lá no mega-continente de Umbra.
Mio abriu a boca em um "o" perfeito:
— Pera aí... Comida de Umbra?! Mas como diabos vocês têm uma coisa dessas aqui dentro?!
Enquanto o cozinheiro empilhava a carne suculenta dentro de um pão redondo e macio, servindo o embrulho fumegante nas mãos de Kai, o clone rasgou um pedaço generoso com os dentes antes de falar com a boca cheia:
— A gente já pisou lá, ué.
— MAS O QUÊÊÊ?! — Mio gritou, estapeando as próprias bochechas em choque genuíno.
Vivian, que observava a movimentação logo atrás, soltou um suspiro arrastado:
— Pensa um pouco, Mio. A proibição histórica de entrada em Umbra sempre foi uma diretriz estrita voltada para os humanos e para as raças da coalizão que lutaram na Primeira Grande Guerra contra Lúcifer. Nunca existiu uma lei ou tratado internacional que proibisse formalmente a circulação dos Scarlunes por aquelas terras.
Pode até ser..., Mio ponderou, ainda franzindo o nariz, mas cruzar Umbra como quem vai à feira continua sendo bizarro pra caralho.
— Sem falar que é a coisa mais comum do mundo os outros continentes contratarem os nossos serviços — completou Dante, recebendo seu sanduíche com as duas mãos e assoprando a borda tostada. — Os Scarlunes funcionam como uma espécie de exército mercenário sem partido fixo. Como Threshold é uma terra conectada geograficamente a Alexandria, mas categorizada como um continente isolado e totalmente neutro, nós não temos fidelidade à corte de ninguém. E como o submundo de lá não aceitava Caçadores da Agência, contratar a gente era a única saída viável para resolverem certas missões e caçadas mais chatas.
— Se bem que esse cenário está começando a mudar — Vivian interveio, puxando a barra das mangas. — Recentemente, o Império de Qin começou a abrir as fronteiras e a aceitar credenciais de Caçadores estrangeiros, embora a burocracia ainda esteja andando a passos de tartaruga.
Dante estancou o lanche a centímetros da boca:
— Sério? Aquele império fechado finalmente começou a aceitar Caçadores...?
A frase foi soterrada por um chiado rascante vindo de uma mesa de madeira logo ao lado.
Beatrice estava sentada com as garras cravadas no próprio couro cabeludo, mastigando com uma expressão de pura agonia. Ao redor de seus chifres e orelhas, uma nuvem de pequenas fadas luminescentes dançava em círculos zombeteiros, soltando risadas agudas como tilintares de sino enquanto desviavam com facilidade dos tapas estabanados que a meio-dragão desferia contra o ar.
— Essa maldita cidade... — Beatrice rosnou, as fendas vermelhas dos olhos faiscando veneno — seria um milhão de vezes mais habitável depois de uma bela e completa dedetização de pragas!
Ao virar o pescoço em fúria, no entanto, deu de cara com Cyfera sentada à sombra do toldo. Duas fadas de asas iridescentes descansavam tranquilamente sobre os ombros da arqueóloga, enquanto outra se aninhava entre as mechas de seu longo cabelo branco. Cyfera folheava suas anotações com calma metódica, sem mover um único músculo do rosto.
— E você... — Beatrice cerrou os dentes, a náusea evidente no canto da boca — não sente nenhum tipo de náusea com esses insetos nojentos esfregando esse pólen açucarado na sua cara, não?!
Mio enfiou a cabeça na conversa, os olhos brilhando:
— É verdade! Você não tem traços de dragão também, Cyfera? Por que isso não te incomoda nem um pouco?
Cyfera ergueu o olhar das folhas com um meio sorriso imperturbável.
— O motivo é bastante elementar — a arqueóloga levantou o indicador esquerdo; na mesma hora, uma pequena fada de asas douradas pousou na ponta de sua unha, esfregando a face miúda na pele da mulher como um felino doméstico. — Antes de carregar qualquer traço genético dracônico, eu sou uma Scarlune. A nossa linhagem não possui a aversão biológica natural que os dragões puros alimentam pelas fadas. E, aparentemente, elas também farejam essa compatibilidade no nosso Sangue, já que criam apego com extrema facilidade, mesmo eu possuindo esses traços que elas odeiam.
— Oooooh... — Mio soltou, encantada com a criatura miúda.
Beatrice, ao contrário, estremeceu num espasmo de puro asco, apertando as narinas.
No balcão de madeira, contudo, qualquer verniz de civilidade havia ruído.
Dante, Kai e um terceiro homem colossal empilhavam pratos em cadência mecânica. Era uma disputa silenciosa e selvagem de mastigação: tiras gordurosas de wagyu, espetos de ferro inteiros e cuias de molhos picantes sumiam em segundos.
— MANDA MAIS DOIS DESSES AQUI! — Dante berrou com a boca cheia, batendo a palma na madeira.
— E MAIS TRÊS DAQUELE OUTRO PRA CÁ! — Kai devolveu do outro canto, sem desacelerar a mandíbula.
O volume de pedidos fora tão descomunal que o gerente precisara deslocar quatro cozinheiros e dois garçons unicamente para abastecer aquele trecho da bancada.
Vendo as travessas fumegantes, a barriga de Mio roncou alto:
— Caraca! Eu quero entrar nessa festa também!
A ruiva ameaçou correr, mas uma mão de unhas afiadas fechou-se no colarinho de suas costas, erguendo-a do chão como um saco de farinha.
— Nem pensar — rosnou Beatrice, puxando a menina de volta para junto de si. — Você não vai sair de perto de mim nem por um segundo.
Cyfera inclinou o rosto, fitando a cena com curiosidade:
— Posso saber o motivo desse sequestro repentino?
Enquanto Mio agitava braços e pernas no vazio, a garota dragão respondeu com um suspiro de alívio mal-humorado:
— Eu acabei de descobrir que essa pestinha tem a capacidade de manipular as próprias glândulas corporais. Ela consegue alterar o próprio cheiro até liberar um aroma tão forte, denso e doce que mascara o fedor insuportável das fadas! Aqui na cidade ainda tá difícil de respirar, mas é o cheiro dela que tá impedindo a minha cabeça de explodir de dor! — Beatrice cravou as pupilas verticais na garota pendurada. — A única pena foi ela só ter me contado isso agora!
Mio estacou os chutes, inflando as bochechas:
— Ué! Você não tinha perguntado antes!
O olhar de Beatrice tornou-se tão gélido, uma fumaça tênue escapando pelo canto de suas presas, que a coragem da ruiva evaporou no ato.
— Desculpa, Bea! Foi mal! Não me bate! — Mio jogou os bracinhos ao redor do pescoço da garota-dragão, afundando o rosto nas escamas de sua clavícula num desespero espalhafatoso.
Observando a dinâmica, Cyfera passou lentamente a ponta da língua pelo lábio superior, os olhos purpúreos faiscando com o interesse clínico de quem planeja uma dissecação em laboratório.
O sensor de sobrevivência de Mio apitou no mesmo instante. A garota virou o rosto para a arqueóloga:
— Nem vem! Nem adianta me olhar desse jeito babando! Eu não vou deixar você me dissecar viva pra ver como eu funciono!
Cyfera sustentou a calma límpida:
— Mas eu sequer cheguei a verbalizar nada, pequena.
— NEM PRECISAVA! ESSA SUA CARA JÁ É UMA AMEAÇA DE MORTE!
No balcão, alheio aos berros, Dante limpava o canto da boca com as costas do punho, mastigando uma lasca suculenta de carne selada.
— É... Até que esses temperos de Umbra têm o seu valor — comentou o garoto, engolindo devagar. — Mas, no fim das contas, a simplicidade sempre vence. Um corte nobre de verdade, pingando gordura na brasa e selado apenas com uma camada generosa de sal grosso... Não existe nada no mundo que supere isso.
Ao lado dele, o homem colossal com uma mecha dourada cortando os cabelos negros estancou os dentes. Ele baixou a coxa de ave silvestre que segurava — uma peça do tamanho de um antebraço humano, coberta por uma crosta escura de grãos e pimentas — e cravou em Dante uma expressão de puro ultraje:
— Você por acaso perdeu os seus últimos neurônios, moleque? Essa foi, com folga, a maior idiotice que eu já tive o desprazer de escutar na minha vida inteira.
Dante virou o pescoço num estalo ríspido:
— O quê que você falou aí, grandalhão?!
O homem arrancou uma porção avantajada da carne com os caninos, mastigando com imponência antes de ditar:
— Ácidos e ervas selecionadas foram concebidos pela natureza justamente para construir camadas complexas de sabor, quebrar tecidos musculares duros e transformar a mastigação em uma experiência sensorial profunda e elevada! Quanto mais temperada, trabalhada e resinada em condimentos for a carne, mais sublime ela se torna! Isso é ciência gastronômica básica, seu animal.
Dante soltou um riso seco pelas narinas:
— Ah, tá bom! Isso aí é papinho furado de cozinheiro medíocre que não tem a capacidade de apreciar o sabor real e primitivo de um bom corte! Num churrasco de verdade, a carne é o sol em torno do qual tudo gira! O arroz, o sal e até a fumaça da lenha servem única e exclusivamente para potencializar a essência da matéria bruta! Entupir a peça de molho e pó colorido só serve pra uma coisa: esconder o gosto de carne velha e estragada!
O gigante inclinou os ombros largos sobre a bancada, as tábuas gemendo sob seu peso:
— Pelo visto... Nós temos uma divergência ideológica gravíssima aqui, pirralho.
— Depende — Dante empinou o peito, sustentando a distância de um palmo entre os narizes. — Depende de quanta bosta você ainda tá disposto a vomitar pela boca, seu poste de carne!
Prensado entre as duas presenças, Kai sumia atrás de uma barricada de trinta pratos de cerâmica vazios. O clone mantinha o queixo colado ao peito, engolindo o lanche no ritmo automático de quem reza para a mobília engoli-lo antes que o teto desabe.
Dante, contudo, bateu a mão sobre a pilha de pratos:
— Ô KAI! Não vai falar nada, não?! Dá uma força aqui pra refutar esse animal! Diz aí: qual é o seu tipo de carne favorito?! Temperada até a alma ou simples com sal grosso?!
O homem monumental assentiu com gravidade:
— É verdade. Talvez a visão de um terceiro paladar ajude a elucidar a mente limitada deste garoto.
Kai fechou as pálpebras. Puxou o ar devagar, sentindo as têmporas latejarem de pura exaustão.
— Não me metam nas suas idiotices de merda! — Kai rosnou entredentes, sem erguer a cabeça. — Eu lá quero saber se tem sal, pimenta ou grama por cima?! No final das contas, é tudo carne!
O silêncio estancou na bancada.
Dante recuou a cabeça devagar, as sobrancelhas unidas numa expressão de profunda repulsa:
— Que resposta mais patética, cara... Que falta gritante de personalidade.
— Vai se foder! — Kai rebateu de pronto.
O gigante balançou a fronte em desaprovação fúnebre:
— Eu sou obrigado a concordar com o moleque. Essa foi, sem dúvidas, a coisa mais ridícula e covarde que alguém poderia responder. Uma ausência patológica de opinião própria. É a mesma vergonha que perguntar a um homem a preferência dele entre "peitos ou bunda", e o sujeito ter a audácia de responder uma baboseira frouxa como "personalidade".
Dante gesticulou com convicção:
— Exatamente! Não dá pra confiar num cara desses!
Mas no final das contas... São só mulheres, caralho, Kai pensou, preparando-se para mandar ambos para o diabo.
Antes que a praga saísse de sua garganta, contudo, o tom daquela voz ressoou em sua memória auditiva. O timbre aveludado, a cadência régia, o peso aristocrático que dobrava a atmosfera ao redor...
O sangue de Kai congelou de vez.
Em uma fração de segundo, o clone recolheu os pés e explodiu o corpo para trás num salto acrobático, chutando o banco de madeira e aterrissando a quatro metros de distância, as solas cravadas no piso em posição de combate.
O colosso parou a mastigação. Com movimentos lentos, usou a ponta de um guardanapo de linho para limpar os cantos dos lábios e empurrou a banqueta, erguendo-se em toda a sua estatura. A copa de seus ombros parecia rasgar as vigas do teto.
— Ora, ora... Então a minha leitura não estava tão equivocada assim — o homem soltou uma risada curta, o olhar dourado descendo pesado sobre o rapaz em guarda. — É evidente que, para cuspir uma resposta tão patética e desprovida de alma... Só poderia ser você, não é mesmo, clone?
Kai trincou os dentes até os nós dos dedos empalidecerem, as íris prateadas cravadas no inimigo.
Na entrada da tenda, Vivian e Paracelso acabavam de chegar carregando embrulhos de papel pardo.
As sacolas escorregaram dos dedos de Vivian, estatelando-se no chão. A garota recuou dois passos trôpegos, o queixo tremendo num fio de voz:
— Ozy...
Paracelso soltou uma expiração longa, massageando o dorso do nariz:
— Ah... Mas é claro que ele estaria aqui. O mundo adora essas coincidências trágicas.
Dante correu os olhos da postura de fuga de Vivian para a tensão de Kai:
— Pera aí... De onde vocês se conhecem?
O gigante ignorou a pergunta. Seus olhos afunilaram-se sobre Dante, dissecando as mechas vermelhas que caíam na testa, a linha quadrada da mandíbula e o desdém cru de sua postura. Uma sombra de espanto genuíno cruzou a face do nobre.
— Espere um pouco... — a voz desceu para um tom abafado, perigosamente denso. — Não me diga que você é...
Dante estreitou a vista, impaciente:
— O quê?! Eu te conheço por acaso, ô grandalhão?
A resposta não precisou de som.
A densidade do Éter ao redor de Ozymandias rompeu o ar com a violência de uma comporta arrebentada. Não se manifestou em luz visível; foi uma maré de pressão gravitacional que fez as colunas de madeira do restaurante rangerem sob tensão súbita. O assoalho estalou, abrindo fissuras finas sob suas botas de couro. No mesmo milésimo de segundo, o mercado ao redor calou-se: talheres pararam no ar, fregueses travaram as canecas nas mesas e o oxigênio tornou-se pesado como mercúrio aquecido.
Ozymandias deu um passo à frente, as pupilas faiscando com o apetite de uma fera ancestral:
— Pelo seu gosto culinário medíocre, já está mais do que evidente que jamais seríamos compatíveis neste mundo. Mas você, pelo menos, parece ter o mínimo de personalidade, moleque...
Ele baixou o queixo, cravando as fendas douradas no rapaz:
— Responda-me, pirralho: você é o filho do Ryu?
Dante piscou, a testa franzida em puro vazio:
— Quem caralhos é Ryu?!
Encostada ao pilar da entrada, Anna viu a cena com clareza. Ele realmente não sabe...
Ozymandias soltou uma gargalhada rouca que fez as telhas vibrarem no teto:
— Tanto faz. Eu mesmo descubro da minha própria maneira. Mas antes... Apenas para termos a certeza absoluta do quão fundamentalmente incompatíveis nós somos... Diga-me, pirralho: peitos ou bunda?
Dante pendeu o pescoço de lado, encarando a montanha diante de si com firmeza absoluta:
— Coxas, é óbvio.
Ozymandias sequer concluiu a respiração.
A onda de choque detonou a estrutura.
A parede frontal do restaurante desintegrou-se para a rua em uma tempestade de tábuas partidas, telhas estilhaçadas e lonas rasgadas. O deslocamento de ar arremessou Dante contra o vazio da praça, mas o rapaz torceu o tronco em pleno voo com destreza felina, executou um giro duplo e cravou as solas no calçamento de pedra, derrapando entre faíscas até ancorar o recuo.
Do meio da cortina de poeira e fumaça que restou do estabelecimento, uma silhueta monumental cruzou as vigas partidas, estalando os nós dos dedos com calma macabra.
— É... De fato não existe a menor chance de convivência entre nós dois neste mundo! — Ozymandias rugiu, um sorriso largo e selvagem partindo sua fisionomia aristocrática. — Sendo a cria daquele caçador ou não, trate de provar que não é apenas mais um lixo descartável e me divirta um pouco, garoto!
Dante cerrou o maxilar. O Éter alaranjado e rubro crepitou em fagulhas agressivas ao redor de seu antebraço direito, desenhando runas de combate contra a pele enquanto ele sustentava o avanço daquele monstro.
— Eu não faço a menor ideia de quem você é, seu desgraçado... Mas a minha mão tá coçando pra quebrar essa sua cara!
No outro canto da praça, arrancadas da trajetória dos escombros pelo reflexo ágil de Cyfera, Mio e Beatrice recuperavam o equilíbrio sobre o cascalho.
— Mas que porra acabou de acontecer ali dentro?! — Mio tossiu, sacudindo a poeira das tranças.
Cyfera ajeitou o aro dos óculos com a serenidade de quem observa um fenômeno natural, os lábios curvados em fascínio discreto enquanto o alvoroço tomava conta das vielas de Westfalia:
— A Cidade dos Novos Ventos também atende por outra fama histórica: a encruzilhada onde os Caçadores colidem, onde as feras espreitam nas sombras e onde os bárbaros resolvem qualquer divergência na base do sangue.
A arqueóloga voltou o olhar para o confronto armado na praça e concluiu:
— Parece que acabamos de receber as nossas segundas boas-vindas.
Parte 6
O eco da madeira estilhaçada ainda se assentava sobre a rua quando a risada de Ozymandias vibrou contra as fachadas vizinhas. O som rascante subiu pesado pelo ar morno da praça, lembrando o ronco satisfeito de uma fera diante de uma presa inesperada.
— Hahaha! Nada mal, pirralho... — Ozymandias arqueou o lábio, as íris douradas medindo o equilíbrio do garoto sobre as pedras. — Vamos ver do que exatamente essa sua coragem insolente é feita.
Dante estalou as articulações da mão esquerda com um puxão seco. A Aura alaranjada crepitava em faíscas curtas ao redor de seu antebraço:
— Olha só, grandalhão... Eu acabei de topar com um desgraçado biruta naquele trem que me encheu de porrada sem dó nem piedade. Eu já tava mesmo procurando alguém com a cara bem chamativa pra descontar a minha raiva. Se tá com tanta vontade assim de virar saco de pancadas, é só vir pra cima!
A pressão atmosférica entre os dois retesou como corda de arco.
Antes do primeiro avanço, contudo, um vulto rasgou o ar de cima para baixo.
O impacto das solas contra as lajes soou como um tiro seco, levantando uma cortina de poeira branca entre as duas linhas de visão.
Kai plantou-se no centro da rua, exatamente entre eles.
Dante e Ozymandias estancaram a passada no mesmo milésimo, as sobrancelhas unidas diante da interrupção.
Ao redor da praça, o burburinho dos feirantes morreu por completo. Comerciantes, transeuntes e candidatos do exame recuaram em ordem silenciosa, desenhando um semicírculo de cautela ao redor da clareira de pedras. Encostado a uma coluna de cedro de uma taverna próxima, Blade mantinha os braços cruzados sobre o tórax largo, observando o atrito com indiferença pétrea.
A passos dali, Shisui apoiou os cotovelos numa mureta baixa, cruzando os tornozelos com um riso contido:
— Mas olha só... Aqueles dois não conseguem passar dez minutos sem arrumar confusão.
No flanco oposto, Vivian cravava as unhas no linho da saia, uma gota de suor descendo rente à cartilagem de sua orelha enquanto acompanhava a tensão ao lado de Paracelso.
— Droga... — a voz de Vivian saiu em um fio trêmulo. — De todas as pessoas vivas nesta cidade maldita... por que diabos tínhamos que trombar logo com ele?!
Paracelso apoiou o indicador sob o queixo, os lábios desenhando um interesse calculado:
— Nessas horas, minha querida Vivian, a única coisa que nos resta é aceitar a ironia do Destino. Embora, admito, eu esteja consumida pela curiosidade. O Dante progrediu de forma formidável recentemente e ainda está quebrando cascas evolutivas a cada combate... Eu realmente gostaria de ver o que uma colisão direta contra o Ozymandias faria com o potencial dele. — Ela tombou a fronte de leve, fitando a rigidez das omoplatas de Kai. — Isso, é claro... se o clone permitir que a luta aconteça.
A palavra bateu como ferro na mente de Vivian. Seus olhos pregaram-se na nuca do rapaz, desenterrando o fragmento de um pátio esquecido: a lembrança de anos atrás, quando um Kai menor e magro encarava, trêmulo sobre poças de sangue fresco, a sombra imponente de um Ozymandias jovem e implacável.
Vivian trincou os dentes até a mandíbula arder.
No calçamento, Ozymandias baixou o olhar, o queixo empinado em puro tédio:
— Saia do meu caminho, clone. Eu não tenho a menor intenção de desperdiçar o meu tempo com alguém tão patético e descartável quanto você. Eu quero ver se o seu original é capaz de me entreter de verdade.
Dante adiantou meio passo, a gola do sobretudo sacudindo na brisa:
— É isso aí, Kai! Não se mete! Esse maldito vai aprender a respeitar um bom churrasco na base da porrada!
Kai não recuou a postura. Com um puxão brusco, virou apenas o pescoço; as feições estavam deformadas por um ódio tão cru que a réplica morreu na boca de Dante.
— CALA ESSA SUA BOCA DE MERDA! — Kai rugiu, as veias temporais inflando contra a palidez da pele. — FICA FORA DISSO, SEU DESGRAÇADO! ISSO NÃO É ASSUNTO SEU!
Dante piscou, desconcertado pela violência da recusa:
— O quê...?
— Não vai ser você quem vai derrubar esse merda... — as sílabas desceram roucas, arrastadas contra os caninos com um veneno que parecia queimar o próprio fôlego do rapaz. — Essa luta... é estritamente minha.
O silêncio de Dante foi imediato. Conhecia o temperamento volátil do clone, seus rosnados habituais e a disputa infantil que mantinham por espaço. Mas aquilo não era orgulho ferido. Havia uma dívida antiga cobrando carne naquela voz.
Ao encarar Ozymandias novamente, Dante notou que o brilho predatório do gigante se apagara. O colosso fitava Kai com a repugnância impassível de quem encontra uma barata sobre a louça limpa.
O que caralhos aconteceu entre esses dois...?
Ozymandias rolou os ombros, o maxilar endurecendo:
— Eu mandei você sair da minha frente, verme.
— E eu já disse que não vou sair! — Kai rebateu, os tendões dos pulsos rígidos como cabos de aço.
— Bom... então eu mesmo tiro o lixo do meu caminho.
O solo gemeu sob a arrancada de Ozymandias. O braço direito do homem avançou envolto em uma maré pesada de Éter que fendeu o ar com a força de um aríete.
Kai não piscou. A Pressão Espacial detonou ao redor de seu corpo em uma névoa escura e cortante. O clone disparou frontalmente no vácuo, torcendo o quadril em pleno salto para cravar um chute horizontal carregado de distorção gravitacional contra as costelas do invasor.
A convergência das massas prometia estilhaçar a calçada inteira.
O choque, contudo, desfez-se no ar.
Sem ruído de deslocamento ou rastro mágico, uma silhueta esguia interpôs-se no centro geométrico do golpe.
A mão direita do homem subiu com a palma aberta, interceptando o punho fechado de Ozymandias com a naturalidade de quem apara uma folha seca. Ao mesmo tempo, sua mão esquerda colheu a sola da bota de Kai no ápice do chute.
Toda a energia cinética acumulada extinguiu-se no vazio.
— Calma, senhores... — a voz deslizou serena, aveludada e impecavelmente polida. — Seria de imensa conveniência se todos nós nos acalmássemos um pouco.
O ar congelou na praça.
Eragon Scarlune sustentava as duas massas no ar sem que um único tendão de seus pulsos denunciasse esforço.
Kai soltou-se num ricochete rápido, recuando quatro passos com a respiração curta, as íris prateadas cravadas no mediador. Ozymandias recolheu o braço devagar, a contrariedade vincando sua testa:
— Mas que diabos de ideia é essa de interferir na minha luta, Eragon?
Eragon ajeitou a gola com um movimento fluido e inclinou o tronco em reverência comedida:
— Eu garanto que não tenho a menor intenção de soar grosseiro ou desrespeitoso com o senhor, meu caro Ozymandias. No entanto... convenhamos que seria um tanto quanto problemático se vocês resolvessem iniciar uma carnificina dessa escala bem no meio do distrito comercial da cidade.
Ozymandias bufou, o peso do peito estufando o tecido da túnica:
— Isso não é da sua conta, seu diplomata de merda. Se eu quiser estraçalhar esse lixo aqui e agora, eu—
Um baque cavo esmagou o restante da frase.
Vindo em mergulho cego das vigas da ponte suspensa, uma bota de montaria afundou no plexo solar de Ozymandias.
A brutalidade mecânica do golpe expulsou o oxigênio de sua garganta em um escarro sanguinolento. Os mais de dois metros de altura do nobre decolaram no vazio, sulcando o leito de paralelepípedos por vinte metros numa esteira de faíscas e pó de calcário.
A ofensiva não deu margem para respiro.
Antes que o corpo do homem batesse na parede do casarão ao fundo, um silvo metálico rasgou a penumbra. Elos pesados de ferro laçaram o tornozelo do gigante e chicotearam para trás, arrastando sua carcaça pelo chão na direção contrária.
— OZY, SEU MERDA DESGRAÇADO!
A figura arremessou-se do solo. Girando o tronco como uma lâmina solta em queda livre, desceu o calcanhar com força esmagadora contra o esterno do homem.
A praça estremeceu. As lajes ao redor romperam-se em anéis concêntricos enquanto o torso de Ozymandias abria uma cratera no barro sob a poeira espessa da detonação.
Do canto do mercado, Paracelso soltou uma risadinha baixa:
— Ora, ora... Parece que ela finalmente resolveu dar as caras.
A névoa começou a baixar entre os escombros.
Plantada sobre o peito arfante do homem imobilizado, a sola cravada nas costelas do rival, erguia-se Lapiz Scarlune. O capuz recuara pelas costas, expondo as orelhas pontiagudas de elfo negro, o cabelo escuro manchado de mechas violetas e os olhos dourados em fenda que ardiam em pura fúria administrativa.
Paracelso abanou os dedos na direção da fumaça:
— Então finalmente decidiu sair do seu gabinete confortável, Lapiz?
Lapiz nem se deu ao trabalho de encará-la. Seus olhos varreram a multidão de candidatos e mercenários que cercavam o perímetro, a língua estalando contra o céu da boca num estalo ríspido:
— Eu sabia perfeitamente que essa merda ia descambar para a baixaria no segundo em que vocês pisassem aqui...
Ela afundou o calcanhar com mais peso sobre o esterno de Ozymandias, cortando qualquer tentativa de contra-ataque do gigante, e projetou a voz rouca por toda a praça com o rigor de quem comanda um destacamento:
— Pois muito bem, seu bando de arruaceiros incompetentes! Chega dessa palhaçada e chega dessa baderna nas minhas ruas! Eu, Lapiz, na posição de Líder Soberana de Westfalia, anuncio que vou dar início à porra do Segundo Teste agora mesmo!
O braço esticou-se na direção das copas monumentais que se erguiam acima dos telhados da cidade:
— Portanto, acabem com essa moleza de turismo, parem de gastar saliva e se reúnam imediatamente na frente do Grande Cedro! Vamos logo encerrar essa palhaçada antes que eu perca o resto da minha paciência!
A ordem caiu como chumbo. Sem trocar palavras, o círculo de curiosos começou a se dispersar em passos rápidos pelas vielas.
Dante permaneceu imóvel sobre as pedras.
O olhar do garoto viajava da carcaça de Ozymandias na cratera para as mãos de Kai, cujos punhos continuavam fechados num espasmo mudo de ódio. O faro afiado de Dante dizia que o pavio curto daquela contenda não havia sido apagado; apenas enterrado sob as cinzas.
Parte 7
O tronco do Grande Cedro não apenas brotava da terra; a massa de madeira, com dezenas de metros de diâmetro, havia engolido e fundido à sua própria casca uma cidadela arcaica de ruínas féricas. Antigos arcos talhados em blocos de cimento vulcanizado e cinza ancestral jaziam rompidos sob mantos espessos de musgo úmido. A vitalidade daquele Éter residual era tão densa que raízes e vinhas rachavam as lajes maciças, abrindo caminho para flores de pétalas incandescentes que desabrochavam direto das frestas da pedra.
Sem se dar ao trabalho de procurar escadas, Lapiz dobrou os joelhos e saltou. O arranque impulsionou a meio-elfa em uma trajetória limpa até pousar com a leveza de um felino sobre uma das ramificações inferiores do cedro, de onde seus olhos dominavam a massa de cabeças amontoadas na clareira.
Plantando as mãos sobre os quadris, a governante projetou a voz:
— Prestem atenção de uma vez, seus vadios! — Lapiz disparou, o timbre rouco cortando o ar tépido. — O Segundo Teste vai acontecer aqui dentro, nas entranhas dessas ruínas féricas! Para passar nessa porra, a regra é estúpida de tão simples: atravessem até o outro lado. A saída cospe direto no terminal ferroviário do outro extremo de Westfalia, onde a próxima composição já está nos trilhos. Quem conseguir cruzar, embarca de imediato e some da minha cidade sem me dar mais dor de cabeça!
Ela cruzou os braços sobre o peito, as íris douradas e fendidas faiscando na penumbra da folhagem:
— Eu não dou a mínima para que tipo de provinha burocrática a Descora pretendia empurrar no rabo de vocês. Aqui eu sou a autoridade máxima, e a minha palavra é a única lei! Para quem não sabe ou é burro demais para estudar, as ruínas de Westfalia são completamente anômalas. A concentração de Éter férico aqui embaixo é tão densa e instável que esses túneis se comportam exatamente como dungeons vivas. Nem mesmo nós conseguimos mapear cada corredor desse labirinto.
Um sorriso estreito desenhou-se em seus lábios:
— Achar a saída não é difícil... mas as chances de vocês se perderem nas bifurcações são monumentais. E se ficarem vagando por lá, vão morrer de inanição ou ser devorados por feras primitivas que nem a nossa guarda teve o desprazer de catalogar ainda. É o exame sob medida para quem veio conhecer a natureza de Westfalia: selvagem, simples e impiedoso!
Apoiado na alvenaria coberta de limo, Ozymandias soltou uma risada pesada que fez vibrar o ar ao redor:
— Que proposta tentadora, Lapiz... Me diga uma coisa: eu posso brincar de "juiz" e entrar nessas ruínas para servir de obstáculo extra para esses pirralhos?
Lapiz nem pestanejou, dando de ombros com puro desdém:
— Faça o que quiser, contanto que não seja dentro da cidade.
— Perfeito! — Ozymandias estalou os nós dos dedos.
O colosso adiantou-se três passos em direção à comitiva de apoio e apontou o polegar para Lilibeth, para a assistente exausta de Lapiz e para um sentinela esguio que encolhia os ombros mais ao fundo:
— Beleza! Então nós quatro seremos o esquadrão de juízes que vai caçar vocês lá dentro!
Lilibeth prestou uma continência teatral com a mão livre, fazendo o guarda-chuva aberto rodopiar sob a penumbra das copas:
— Sim, senhor capitão! Vai ser uma aventura divertidíssima!
A assistente virou a cabeça num estalo, a voz estridente de indignação:
— Mas de onde você tirou essa loucura?!
— M-Mas... por que eu tenho que entrar nesse buraco também?! — o guarda gaguejou, a pele empalidecendo rente à armadura.
Do alto do galho, Lapiz revirou os olhos em puro enfado. Façam a merda que quiserem...
— Só te lembro de um pequeno detalhe, Ozy — a meio-elfa advertiu, sem descer do poleiro. — O labirinto subterrâneo tem quilômetros de extensão. Não vai ser nada fácil farejar presas específicas lá dentro.
Ozymandias girou o tronco devagar. As fendas douradas de suas pupilas fixaram-se na rigidez de Kai e na guarda atenta de Dante:
— Eu sou um caçador de verdade, mulher. Eu sempre acho a minha presa... não importa onde a caçada aconteça.
A alguns metros daquele impasse, Paracelso caminhava em direção a Eragon Scarlune, que examinava as aberturas das raízes com as mãos entrelaçadas atrás das costas.
— Ora, ora... — cantarolou a alquimista, o copo de vinho balançando nos dedos. — E você, Eragon? Não vai se juntar aos juízes para nos agraciar com um pouco de sangue? Isso sim tornaria esse teste interessante.
Mio, Vivian e Beatrice aproximaram-se no mesmo rastro, atentas ao diálogo.
Eragon virou o rosto, mantendo a serenidade polida nos lábios:
— Infelizmente, serei obrigado a declinar o convite, Paracelso. Desta vez, minha presença em Westfalia não se deve a férias. Fui oficialmente encarregado de atuar como escolta particular de um viajante nobre que veio visitar nossas terras.
— Ooooh... Um convidado de honra? Compreendo — murmurou a alquimista.
Beatrice deu um passo à frente, as pupilas verticais estreitando-se contra o rosto do loiro:
— "Eragon"... Esse nome não é estranho. Eu já escutei esse nome antes, anos atrás.
Vivian e Mio trocaram um olhar rápido de estranheza.
— Você já esteve nas fronteiras de Varka, Eragon? — Beatrice cravou a pergunta, desconfiada.
Eragon moveu a cabeça em negativa suave:
— Não, senhorita. Nunca estive naquele reino.
Paracelso levou o indicador ao queixo, as íris acendendo-se com o resgate de um dado antigo:
— Ah... Você deve estar confundindo o nome dele com aquele caso grotesco do garoto julgado pela corte dos dragões há algumas eras, Beatrice.
Vivian franziu o cenho:
— Que papo bizarro é esse agora? Como é que você consegue lembrar do nome de alguém tão específico de outro continente?
— Não foi nada específico, Vivian — explicou Paracelso, saboreando o peso da crônica. — Aquilo virou um escândalo colossal em Varka. O tribunal reuniu todos os líderes soberanos dos clãs de dragões na mesma sala; o continente inteiro parou para acompanhar o julgamento. Embora, sejamos francos: todo mundo sabia que o pobre garoto era apenas um bode expiatório descartável que a oposição usou para tentar arrancar a cabeça do Wise.
Ao som do nome "Wise", o corpo de Beatrice enrijeceu como ferro fundido. Um lampejo turvo cruzou suas fendas oculares por uma fração de segundo; ela virou o rosto para a mata no mesmo instante, forçando uma tosse seca contra o punho cerrado para abafar a reação.
Mio piscou, captando o sobressalto:
— Pera aí, Bea... Você tem alguma ligação com essa história de—
— Então era aqui que você estava se escondendo?
A voz rompeu o ar com a frieza de uma adaga desembainhada.
Pela lateral do tronco retorcido, um homem surgiu com passadas calmas. Seus trajes combinavam cortes aristocráticos a mantos rústicos de viagem, mas era a postura altiva e desdenhosa que pesava sobre a terra, encarando o grupo como quem observa insetos rastejando no pó.
Eragon adiantou-se sem demora, inclinando o tronco com rigor impecável:
— Ah... Peço as minhas sinceras desculpas, Sisiful. Não era a minha intenção deixá-lo aguardando.
— Pouco me importa — Sisiful cortou, ajeitando o fecho de prata da capa. — Eu detesto ouvir desculpas esfarrapadas.
Ao avançar dois passos, contudo, a barra de seu manto roçou na manga da camisa de Mio. O homem estacou.
Baixou os olhos para a garota. Um brilho invasivo e denso acendeu-se em suas órbitas.
— Hum... No fim das contas, esse desvio até a árvore não foi de todo inútil — Sisiful modulou a voz em cadência aveludada. — Mas vejamos o que a natureza reservou por aqui... Que belíssima dama de cabelos vermelhos.
Sem a menor cerimônia, a mão enluvada do nobre estendeu-se. Os dedos deslizaram pelos fios escarlates de Mio, enroscando-se nas mechas antes de descerem pela lateral de sua bochecha, curvando o indicador para erguer o queixo da criança.
As presas de Beatrice estalaram sob os lábios; a meio-dragão retesou os tendões para arrancar o braço do sujeito.
Não houve tempo.
CRACK!
O som seco de cartilagem prensada quebrou o silêncio da clareira.
Antes que a ponta do indicador de Sisiful tocasse a pele da garota, uma mão envolta em ataduras queimadas colidiu contra o punho do homem, travando a articulação em um torno de ferro fundido.
Dante estava cravado no chão.
Não houve rosnado, ameaça ou qualquer de suas provocações habituais. O garoto mantinha o aperto com uma força tão desmedida que o estalido surdo dos ossos comprimidos sob a luva ressoou contra as raízes do cedro.
E quando Dante ergueu as pálpebras, o calor da clareira pareceu evaporar.
O olhar sob as mechas rubras era um poço raso de pura violência contida. Não restava qualquer traço da preguiça desleixada; era a frieza cirúrgica de um predador farejando um abate, sustentando as pupilas de Sisiful com tamanha densidade que o nobre perdeu o compasso da respiração.
O ar congelou ao redor.
Anna prendeu o fôlego no fundo do peito. Beatrice abriu as fendas dos olhos em choque. Mio permaneceu de boca entreaberta, olhando para cima. Paracelso encostou a borda do copo nos lábios, fascinada com o rompimento da postura do garoto. Até Kai virou o queixo, desarmado diante daquela agressividade muda.
Sentindo o pulso ranger sob o aperto brutal, Sisiful sentiu uma gota gélida deslizar pela têmpora. Deu meio passo trôpego para trás, pigarreando:
— Peço perdão pela minha indelicadeza.
Dante relaxou a pegada milímetro a milímetro. A mão enfaixada soltou a carne, e Sisiful recolheu o braço no mesmo segundo, pressionando a articulação arroxeada contra as costelas.
No instante em que o contato físico se desfez, a frieza de Dante esfarelou.
O rapaz piscou duas vezes, desnorteado. Encarou a própria palma enfaixada, depois o espanto no rosto de Anna, o riso oblíquo de Paracelso e a testa franzida de Kai. Com o peso sufocante de uma dúzia de olhos cravados em suas omoplatas, enfiou as duas mãos nos bolsos com pressa infantil, virando o queixo para a folhagem alta e fingindo absorção absoluta nas cascas da árvore.
Sisiful ajustou a gola de linho, recompondo a máscara com esforço evidente:
— Como eu ia dizendo... Lamento a minha falta de modos. Não era a minha intenção tocar na dama de outro cavalheiro sem a devida autorização prévia.
O sangue subiu pelo pescoço de Dante, uma veia saltando em sua têmpora:
— Não é que ela seja a "dama" de alguém, seu idiota! — resmungou entre os dentes, sem encarar o homem. — Você só devia ter o mínimo de decência e pensar duas vezes antes de sair enfiando a mão em qualquer garota no meio da rua!
Sisiful sustentou a silhueta do jovem Caçador por três batimentos, um sorriso enigmático repuxando o canto de sua boca fina:
— Hum... De fato, considerarei o seu conselho com muito apreço. Vamos embora, Eragon.
O nobre deu meia-volta, as solas batendo firmes contra a terra em direção aos terraços da cidade. Eragon apressou o passo atrás dele, inclinando a cabeça num adeus breve:
— Mais uma vez, peço sinceras desculpas pelo inconveniente. Espero que nossos caminhos se cruzem novamente em breve, jovem... Para que eu possa lhe agradecer e me redimir adequadamente.
Dante acompanhou a partida dos dois com os olhos semicerrados. Havia uma nota azeda no rastro daquele tal Sisiful — uma presença pegajosa que fazia o Éter em seus canais ranger em alerta.
A concentração tática, porém, foi estilhaçada no segundo seguinte.
Ao notar que o grupo ainda mantinha o foco preso em suas costas, o constrangimento começou a sufocá-lo.
PA!
Um estalo ecoou entre suas escápulas.
O impacto foi tão sólido que Dante tropeçou dois passos à frente, o ar escapando num engasgo:
— ARGH! MAS QUE PORRA FOI ESSA?!
Mio estava plantada logo atrás, a mãozinha rubra ainda esticada no ar, bochechas estufadas e o polegar apontado para cima:
— Valeu pelo suporte aí, garoto! Mandou bem!
— MANDOU BEM O CARALHO! — Dante vociferou, esfregando as costas em carne viva, o rosto em brasa. — VOLTA AQUI, SUA RUIVA MALUCA! DE ONDE VOCÊ TIROU A IDEIA DE DAR UMA PORRADA NAS MINHAS COSTAS?!
— Foi só um tapinha de agradecimento, seu ingrato! — Mio pôs a língua para fora e girou nos calcanhares, disparando aos pulos pelas raízes.
— AGRADECIMENTO É A MINHA MÃO NA SUA ORELHA! VOLTA JÁ AQUI!
Enquanto Dante corria atrás da menina aos berros, estraçalhando a tensão da clareira com o habitual escândalo pueril, Paracelso girava o vinho na taça, os olhos acompanhando a correria:
— Diga-me uma coisa, Vivian... Por acaso tem alguma coisa rolando entre aqueles dois que eu não estou sabendo? Confesso que a reação dele foi incrivelmente rápida para quem diz não se importar com nada.
Vivian soltou um riso curto pelas narinas, meneando a cabeça:
— Entre o Dante e a Mio? Nem sonhando. Aqueles dois não passam de duas crianças mimadas presas em corpos grandes. É pura birra de irmãos chatos.
Ao lado, Beatrice sustentava os braços cruzados, a vista presa na passada pesada de Dante:
— Não sei, não... — a meio-dragão murmurou, a voz grave. — Depois que nós voltamos do Titanic... aqueles dois ficaram próximos de um jeito estranho.
Vivian deu de ombros:
— Mas é a Mio... Ela é espaçosa desse jeito com qualquer um.
— Pode até ser... — Beatrice cedeu, mas a ruga entre suas sobrancelhas permaneceu funda.
Mais afastada, Anna acompanhava o tumulto em silêncio absoluto.
Ver Dante esbravejando e tropeçando pelas raízes soltou uma lufada de alívio em seu estômago. Por uma fração de segundo, a garota quase deu um passo à frente para se juntar à algazarra.
Você vai trazer a ruína a ele.
A advertência sibilou em sua espinha, fria e rasteira, apagando a curva de seus lábios antes que o sorriso pudesse se firmar.
Mas, no milésimo seguinte, outro murmúrio sobrepôs-se à aflição:
Então o que eu deveria ter feito...? Eu só... eu só não quero mais ficar sozinha...
Anna deu um solavanco para trás.
Não fora uma ilusão da sua mente. Não carregava a dispersão errática da voz que a atormentara no mercado. Havia um vetor espacial claro, nítido e gélido guiando a vibração daquele som.
O chamado vinha das profundezas úmidas daquelas ruínas féricas.
No extremo oposto da clareira, isolada das conversas, Delta cravava os dentes na carne do próprio polegar.
O suor frio colava as mechas da franja à sua pele enquanto o cálculo das consequências se desdobrava em pânico. Eu fiz merda... Eu com certeza fiz uma merda colossal ao selar o Heisen vivo na Casa de Bonecas. Se ele achar uma brecha e rasgar o feitiço de dentro para fora...
— Ei, pessoal... — a voz descompassada de Love quebrou seus pensamentos. O examinador coçava a nuca enquanto avançava em passos largos. — Por acaso algum de vocês viu o Heisen por aí? Já estamos nos preparando para iniciar a descida e ele sumiu.
O coração de Delta bateu contra a garganta. Os músculos travaram como chumbo, a boca ressecando num segundo.
Paracelso, no entanto, sequer desviou os olhos da bebida ao responder:
— Relaxa, Love. Aquele poço de arrogância deve ter se enchido da paciência limitada que tem com esses jovens e foi se enfiar em alguma taverna da cidade para beber sozinho. Você sabe muito bem que ele odeia aglomerações.
Love soltou um suspiro derrotado:
— É... você deve ter total razão. Conhecendo o Heisen, é a cara dele fazer isso. De qualquer forma, eu vou dar uma volta rápida pelo mercado para ver se encontro o rastro dele. O restante de vocês pode descer para o exame sem mim.
O homem deu meia-volta. Ao cruzar o caminho de Delta, seus olhos claros repousaram por um milésimo de segundo sobre a garota antes de seguirem em frente.
Delta puxou o ar, forçando a respiração a retomar o compasso.
O que ela não percebeu foi que, encostado em um bloco de rocha vulcanizada logo atrás, Blade mantinha os olhos dourados cravados em sua nuca. O Scarlune mais velho não emitiu ruído algum, mas cada tremor de suas mãos, o suor na testa e o descompasso de seu peito foram arquivados com precisão cirúrgica.
Maldito Rasputin..., ela praguejou em pensamentos, os nós dos dedos rígidos. Olha o buraco em que você me meteu! Em vez de já estar com as mãos na porra da chave, foi se deixar estraçalhar por aquele professor lunático! É bom que a minha barreira segure aquele monstro... Porque se o Heisen sair daquela sala, nós dois estamos ferrados!
Do alto da galharia, Lapiz bateu as palmas em um estalo seco que calou a clareira como uma detonação:
— Chega de conversa fiada! — ela estendeu o braço na direção das fendas escuras sob as raízes do cedro. — Existem doze entradas principais escavadas nas fundações! Cada arco leva a uma rota totalmente independente; algumas se cruzam no subterrâneo, outras colapsam em abismos sem volta e os perigos só vão se revelar depois que vocês estiverem lá dentro!
O braço cortou o ar em um golpe descendente:
— Vocês se autodenominam Caçadores, não é?! Então lidem com o desconhecido como profissionais! Parem de perder o meu tempo e entrem de uma vez nessa porra!
A ordem rompeu a inércia.
Sem hesitação adicional, dezenas de candidatos e mercenários dispararam em sincronia. Como uma maré de sombras avançando sob as copas, os grupos dividiram-se e atiraram-se para dentro das doze bocas escuras das ruínas féricas, engolidos pela umidade fria do labirinto subterrâneo.
Parte 8
No instante em que cruzaram os arcos arruinados sob a base do Grande Cedro, qualquer vestígio de unidade se desfez. Os doze túneis ramificavam-se quase de imediato, tragando os passos dos candidatos e dispersando as silhuetas em direções opostas sob a penumbra.
O interior das ruínas féricas erguia-se como um pesadelo de alvenaria. Era impossível decifrar se aquele complexo fora um dia uma metrópole subterrânea ou uma sucessão infindável de catacumbas sagradas: pilares monumentais rompiam-se pela metade sustentando abóbadas invisíveis; arcos decorados abriam-se diretamente sobre o vazio; e escadarias maciças subiam dezenas de metros para findar de chapa contra precipícios mudos, como se a traça da obra tivesse sido abandonada no auge da loucura.
Diferente da vegetação luxuriante que cobria Westfalia na superfície, ali a seiva secara. Trepadeiras grossas, negras e ressecadas como veias necrosadas estrangulavam o concreto antigo de cinza vulcânica, rastejando pelas paredes sem carregar uma única folha ou botão de flor. E, mesmo sem qualquer fresta que conectasse as ruínas ao céu exterior, o breu não era absoluto. Uma claridade fraca, difusa e gélida, de um tom azul-espectral, permeava os corredores — uma luminescência férica que não nascia de tochas ou lâmpadas, mas emanava de lugar nenhum e de todos os cantos ao mesmo tempo.
Ignorando o perigo de emboscadas, Anna corria.
O couro de suas botas batia rítmico contra o piso úmido, mas o zumbido dentro de sua cabeça abafava o eco das próprias passadas. O aperto no peito, aquela agulhada fria e constante, recusava-se a ceder. Não era delírio. A vibração que ressoava em seus tímpanos trazia uma textura tão idêntica à sua própria essência que a garota já não conseguia discernir se o sussurro vinha das profundezas dos túneis ou se brotava das fissuras de sua própria alma.
Apressada, dobrava esquinas quebradas sem mapa ou bússola. Para onde estava correndo com tamanho desespero? Fugia em busca de uma saída ou lançava-se de cabeça na boca daquela anomalia?
Eu... eu não quero ficar sozinha...
A voz rastejou outra vez.
O impacto bateu como um golpe físico no esterno. O ar escapou de seus pulmões em um engasgo mudo; a densidade daquelas sílabas pesou tanto em suas pernas que suas passadas vacilaram por um milésimo de segundo. De onde vinha aquilo? Por que doía tanto escutar aquele lamento?
Enquanto forçava os joelhos a manterem o avanço, flashes desconexos rasgaram sua visão.
Imagens que não pertenciam a nenhuma memória de sua vida humana. Uma amplidão imensa, silenciosa, afogada em um breu absoluto e estéril onde o calor jamais existira. Um vácuo onde ninguém a enxergava, onde nenhuma presença sequer registrava a sua existência. E, estendida contra o chão frio daquele nada eterno, uma massa escura — uma silhueta disforme que vagamente imitava contornos humanos — encolhia-se no chão, tremendo no escuro, consumida pelo único e eterno terror de ser esquecida para sempre.
Anna levou a mão ao peito, cravando os dedos no tecido da camisa com violência.
Uma alteração grotesca desabou sobre sua fisionomia. Seus lábios tremeram e os músculos do rosto retorceram-se em uma expressão deformada, oca e cadavérica, que em nada lembrava a garota gentil que caminhava sob o sol. O horror puro banhou suas íris, apagando qualquer traço de calor humano.
Ela cravou os dentes no próprio lábio inferior até sentir a dor crua rasgar a pele.
Eu não estou mais sozinha!, o grito mudo berrou em desespero por trás de suas têmporas latejantes. Eu não pertenço àquele lugar! Eu estou aqui... Eu estou viva!
— Anna! Ei, aqui embaixo!
O chamado quebrou o transe como vidro estilhaçado.
Anna estancou à beira de uma escadaria de pedras quebradas que descia em espiral para um nível inferior. Puxou o ar em um solavanco, engolindo o gosto metálico de sangue na boca enquanto baixava os olhos para o vão sombrio.
Lá embaixo, Vivian erguia os braços. A garota saltou sobre um monte de escombros e subiu os degraus restantes em passos rápidos. No entanto, assim que colocou os olhos em Anna, Vivian congelou no último lance da escada. As sobrancelhas uniram-se em uma ruga de apreensão e desconfiança:
— Tá tudo bem com você...?
A máscara de Anna subiu no mesmo instante. Num esforço muscular calculado, relaxou os ombros e forçou os cantos da boca a se curvarem em um sorriso brando e perfeitamente natural:
— Claro que tá tudo bem, ué. Por que não estaria?
Vivian não desarmou a guarda. Seus olhos escanearam a respiração descompassada e a palidez no rosto da outra antes de insistir, o tom cético:
— Eu vi que você entrou por essa rota e vim correndo atrás pra te pedir uma ajuda, mas... tem certeza absoluta de que tá inteira? Você parecia...
— Eu tô ótima, de verdade! — Anna interrompeu com uma risadinha descontraída, abanando a mão livre no ar. — Eu só tava meio distraída pensando naquele ataque ridículo de ciúmes do Dante com a Mio lá na árvore... Foi uma cena bizarramente estranha, não acha?
Vivian sustentou o olhar por dois compassos. A leitura de Anna fora rápida demais, a justificativa polida demais para soar espontânea. Mas, sabendo que insistir não arrancaria nada além de evasivas, preferiu engolir a suspeita por enquanto:
— É... aquele garoto realmente não tem conserto. Mas bom... já que você tá bem, é melhor a gente andar logo. Tem uma coisa aqui embaixo em que eu realmente preciso do seu suporte, e nós precisamos achar o caminho da saída o mais rápido possível se não quisermos perder a partida do trem do outro lado.
— Pode deixar, eu te dou uma força — Anna assentiu com a cabeça.
Ambas deram meia-volta, descendo lado a lado pela espiral escura enquanto Vivian começava a explicar a situação e a rota que pretendia traçar.
Mas, enquanto falava, a mente de Vivian tateava em silêncio.
Que expressão foi aquela que ela tava fazendo agora há pouco...?
Logo atrás, acompanhando os passos rápidos da companheira, Anna mantinha a calma desenhada no rosto.
Sua mão esquerda, contudo, oculta sob a dobra do casaco, tremia incontrolavelmente. Os nós dos dedos estavam brancos sob a força do aperto e, pingando em silêncio sobre a laje fria das ruínas féricas, pequenas gotas de sangue escuro escorriam de sua palma — perfurada pelas próprias unhas cravadas com ferocidade na carne viva, a única âncora material que a impedia de ser arrastada de volta para o abismo.



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