The Fall of the Stars: Capítulo 9 - O Peso da Coroa
- AngelDark

- 17 de fev.
- 70 min de leitura
Atualizado: 19 de fev.
Volume 10 : Laços de Sangue
Parte 1
A Praça Central da Cidade de Cristal já não existia como lugar físico; era agora uma ferida geográfica. O que restava era uma caldeira a céu aberto, onde o ar tremeluzia em ondas de calor, distorcido pela radiação mágica e por uma tempestade de poeira de vidro moído.
No epicentro dessa cratera fumegante, o Gévaudan se erguia, redefinindo o conceito de horror.
A Besta da Gula transcendera sua forma lupina. A evolução forçada, alimentada por uma regeneração obscena e consumo de matéria, moldara-o em um Kaiju — um titã bípede de trinta metros, uma montanha de carne e ódio. Placas ósseas cinzentas cobriam seu corpo como uma armadura tectônica, pulsando com veios de luz verde doentia, lembrando um reator biológico à beira do colapso.
A boca da criatura se abriu, revelando fileiras triplas de dentes serrilhados. Saliva ácida gotejou, sibilando ao tocar o solo e ignitando chamas fantasmagóricas onde caía.
Então, ele rugiu.
Não foi um som animal. Foi uma sirene de catástrofe, uma cacofonia metálica e orgânica que estilhaçou janelas a quilômetros de distância. A onda sonora atingiu o ambiente com força física, fazendo os ossos de qualquer ser vivo nas redondezas vibrarem em uma frequência de pânico primordial.
— Tsk. Repugnante.
A voz cortou o caos com precisão cirúrgica. Maysa aterrissou na ponta de um pilar de concreto destroçado, a única estrutura vertical restante. Ela cruzou as pernas, observando a monstruosidade abaixo com um nojo clínico, a expressão de quem encontra uma barata em um banquete de gala. A Avatar de Astreus decidiu que a brincadeira havia acabado.
O ar ao redor dela gritou quando o Éter explodiu em uma coluna vertical de luz índigo — densa, pesada, opressora. A temperatura despencou. A pele de Maysa empalideceu, assumindo a textura do mármore frio de uma tumba real, enquanto seus cabelos negros eram drenados de cor, tornando-se brancos como a neve e flutuando em uma gravidade zero particular.
Com um som de tecido rasgando, um par de asas membranosas irrompeu de suas costas, seguido pelo chicoteio de uma cauda demoníaca. O Guandao em sua mão expandiu-se, a lâmina negra zumbindo, vibrando.
— A taxa de evolução é alarmante — analisou Maysa. Seus olhos haviam deixado de ser humanos; eram fendas verticais luminosas. — Se eu não vaporizar cada célula agora, essa Aberração se adaptará a ponto de incomodar até meu Marido. E eu me recuso a permitir que ele suje as mãos com lixo.
Ela flexionou os joelhos, a energia acumulando-se na ponta da lança, prometendo uma aniquilação bela, silenciosa e absoluta.
— Saia daí... humana.
Maysa parou, o fluxo de poder hesitando por uma fração de segundo.
Ludmilla não havia recuado. A garota de cabelos pretos avançava, arrastando os pés pela terra vitrificada, colocando-se diretamente na linha de fogo entre a deusa e o monstro.
Ela estava destruída. Sua roupa era pouco mais que trapos chamuscados; o braço esquerdo pendia inerte, quebrado em um ângulo grotesco ao lado do corpo. Na mão direita, trêmula, ela apertava o que restava de sua katana — apenas o cabo e a metade serrilhada da lâmina. O sangue empapava o lado esquerdo de seu rosto, selando um dos olhos em uma máscara rubra.
— Pare — a voz de Ludmilla era rouca, um sussurro áspero, mas que, por alguma razão absurda, cortou o rugido da besta como uma navalha afiada. — Eu... eu já disse que ele é meu.
Maysa piscou, a incredulidade transformou-se rapidamente em um escárnio gelado.
— Você bateu a cabeça com força demais, coisinha? — Maysa zombou. Sua aura azul queimou com mais intensidade, a pressão espiritual pronta para esmagar Ludmilla como um inseto inconveniente. — Olhe para o seu estado deplorável. Você é uma boneca de carne frágil, quebrada, sangrando, segurando um pedaço de sucata. Quer tanto assim abraçar a morte?
Maysa apontou a ponta de sua lança para o Kaiju, que já acumulava energia na garganta para um novo disparo devastador.
— Aquilo não é mais o cachorrinho que você estava enfrentando. É uma Calamidade. Se tentar lutar, você morre em três segundos, ele devora seu Éter e fica mais forte. Saia da frente. Você é uma variável irrelevante nesta equação.
Ludmilla não se moveu. O vento quente, carregado de enxofre, jogava seus cabelos marrons contra o rosto ensanguentado. O tremor em sua mão direita, presente desde o início da batalha, cessou subitamente.
Ela ergueu a cabeça. O único olho azul que lhe restava fitou o monstro. Encarou os múltiplos olhos da besta e sua fome infinita.
— Não é vingança... — Ludmilla murmurou, os dedos apertando o cabo da espada quebrada até os nós ficarem brancos, o couro da empunhadura rangendo. — E não é ódio.
Ela girou o pescoço lentamente, encarando Maysa por cima do ombro. O olho azul estava limpo. Frio. Absoluto.
— E muito menos desejo de morrer. É Caça.
Maysa franziu a testa. A palavra "Caça" não foi apenas ouvida; ela ressoou na alma divina da Avatar com uma frequência estranha, antiga e dolorosa.
— Minha vida se divide em duas categorias simples... — continuou Ludmilla, voltando sua atenção para o colosso à frente. — O que eu posso caçar... e o que eu morrerei tentando caçar. Não existe meio-termo.
Ela ergueu o toco de lâmina, apontando-o para o coração do gigante.
— Por isso, eu me recuso. Recuso-me a deixar meus traumas, ou você, ou a lógica, interferirem na minha caçada. Ele é a minha presa. E eu sou o predador. Se eu sou frágil... então eu vou quebrar meus limites antes de quebrar meus ossos. E se eu não conseguir... — ela rosnou, dentes cerrados — ...então vou morrer tentando arrancar a garganta dele!
Maysa ficou em silêncio. A expressão de desprezo em seu rosto suavizou-se, dando lugar a algo indecifrável. A lança em sua mão baixou alguns centímetros.
Aquela mulher... Maysa entendia aquele conceito melhor do que qualquer ser vivo ali. O desejo primordial da Caça. A vontade de ultrapassar a barreira biológica para derrubar algo que a lógica, os instintos e o próprio universo gritavam ser impossível.
Maysa conhecia aquele sentimento intimamente. Ela era aquele conceito vivo. Ela era o Avatar do Astreus que dera origem àquela essência. Ela era a própria "Caça" encarnada em um corpo físico perfeito.
No entanto... há muito tempo, aquele Astreus original já não conseguia se entregar a tal sentimento. Não depois de aprender, gravado em sua pele, espírito e existência, que havia coisas no cosmos que nasceram para serem caçadas... e coisas que jamais poderiam ser tocadas. Quando aquele Astreus encontrou seu muro intransponível no passado, a única opção foi desistir. A lógica venceu o desejo. O impossível era, por definição, o fim da linha.
Mas ali, diante dela, estava uma humana. Uma criatura de carne fraca e vida efêmera. E, no entanto, a determinação que emanava daquela "presa" era tão densa que distorcia visualmente o ar ao redor. Ludmilla estava olhando para o impossível e decidindo que ele sangraria.
"Humanos...", pensou Maysa, os olhos brilhando com uma curiosidade súbita, perigosa e excitada. Ela passou a língua nos lábios secos. "Eles ignoram a lógica. Eles ignoram o destino. Eles quebram a barreira do que 'deveria ser' apenas porque querem. Que... delicioso."
Maysa desfez sua postura de ataque. As chamas azuis diminuíram, recolhendo-se em uma aura de observação passiva. Ela queria ver. Precisava ver se aquela arrogância suicida poderia se transmutar em milagre ou tragédia.
— Muito bem — disse Maysa. Ela flutuou suavemente para trás, cruzando os braços e sentando-se no ar como se um trono invisível a aguardasse na plateia. — Entretenha-me, humana. Mostre-me como se caça o impossível.
Ludmilla não respondeu. Ela não precisava.
Ela inspirou profundamente, puxando para dentro dos pulmões o cheiro de enxofre, morte e medo, metabolizando tudo em combustível puro.
— Vamos pro segundo round.
Ela disparou. Não como uma flecha, mas como uma bala de canhão feita de sangue, ferro e determinação.
A caçada recomeçou.
Parte 2
Ludmilla não correu; ela se tornou um projétil de carne e ódio.
O ar ao redor do Gévaudan não estava apenas quente; era uma fornalha pressurizada. A aura térmica da besta distorcia a luz, fazendo a imagem do colosso tremular como uma miragem no horizonte de um deserto nuclear. Antes mesmo de romper a barreira de calor, o cheiro de cabelo chamuscado e ozônio invadiu as narinas dela, um aviso olfativo de morte iminente.
Ela saltou, visando uma fenda nas escamas da perna colossal.
— Haaah!
Com um grito primal, ela cravou o toco remanescente de sua katana na carapaça blindada. O metal nobre gritou. O aço brilhou em laranja vivo, depois branco, e começou a escorrer. A lâmina não quebrou; ela sublimou. O metal liquefeito escorreu pela luva dela, queimando o couro e a pele por baixo, transformando sua única ferramenta em escória inútil.
Sem apoio, a gravidade puxou seus pés para o abismo. Mas ela recusou a queda. Se o aço não aguentava, os ossos teriam que servir.
Ela curvou os dedos em garras e os golpeou contra as escamas ferventes com força total.
CRACK.
O som de falanges se partindo foi audível. As pontas dos dedos estouraram, mas as unhas, reforçadas com os últimos fiapos de seu Éter desesperado, agiram como grampos de titânio. A pele das palmas das mãos chiou violentamente, fundindo-se à carapaça do monstro em uma união profana de carne e armadura. Ela não estava apenas escalando; ela estava se soldando ao inimigo.
O Gévaudan sentiu a infecção. As brânquias laterais do pescoço se abriram com um som úmido e dispararam um jato de vapor ácido. O jato atingiu Ludmilla de raspão, derretendo a pele de sua bochecha esquerda, revelando o músculo cru e pulsante.
Mas o olho dela? Ele nem piscou. Permaneceu aberto, fixo, uma pérola de gelo no inferno, focado apenas no alvo.
Ela alcançou a "coroa" da besta. Sem armas. Sem correntes. Apenas loucura pura. Ela se içou para a borda da órbita ocular. O olho do Gévaudan — uma esfera verde do tamanho de uma janela de catedral — girou, focando na pequena criatura que ousava desafiá-lo. Havia fúria, mas também uma faísca de confusão.
Ludmilla aproximou o rosto arruinado da superfície gelatinosa.
— Eu... te... peguei.
Ela mergulhou a mão fumegante direto na gelatina do olho, rasgando os nervos ópticos com os dedos quebrados, e enterrou o rosto na ferida, cravando os dentes na córnea.
ROOOOOOAAAAR!
O Gévaudan urrou uma onda de choque sônica. Deveria tê-la desintegrado. Mas ela estava presa a ele, continuando uma batalha que fazia o próprio bom senso se perguntar quem era o monstro ali.
A poucos metros, Maysa observava, paralisada pela audácia. E, através dos olhos da Avatar, algo muito maior também assistia.
Astreus. O Conceito.
Os Deuses Conceituais raramente olhavam para o plano mortal, pois seus olhos já viam o “tudo” do mundo, milhares de acontecimentos ao mesmo tempo. Por isso, ao ver o tudo, as coisas perdiam sua importância; mesmo que Ludmilla estivesse arriscando sua vida em uma caçada, ela não era diferente de milhares de outros que faziam o mesmo todos os dias.
Mas naquele momento, Ludmilla não estava apenas caçando. Ela estava desafiando a lógica e a razão, sabendo que a morte certa era tudo que a esperava. Ainda assim, ela não pedia poder. Ela não se acovardava se perguntando o que estava fazendo. Ela havia se tornado a própria definição de "Perseguir a Presa a qualquer custo".
No vazio além do mundo, onde as leis da física se dobram, o Olhar de Astreus focou na pequena humana. Por uma fração de segundo, apenas isso, nada mais. Só que apenas essa pequena fração de segundo foi o suficiente.
O tempo parou para Ludmilla. A dor desapareceu. O calor infernal tornou-se um abraço frio e reconfortante. O coração dela deu uma batida forte, singular, ressoando como um gongo celestial.
VUUUUUUUM.
Seu Éter transmutou do vermelho para um branco pálido e fantasmagórico. Mas não foi uma cura gentil; foi uma possessão. O poder divino era vasto demais para um recipiente mortal. Pequenas rachaduras de luz branca começaram a aparecer na pele de Ludmilla, como porcelana prestes a estilhaçar sob pressão interna. O poder a estava consumindo de dentro para fora. Ela tinha segundos antes da dissolução, antes que seu corpo se destruísse.
Na coxa esquerda, uma marca vermelha brilhante se formou, queimando o tecido da calça. Não era uma tatuagem; era um contrato.
Naquele instante, a humanidade de Ludmilla foi eclipsada. Ela se tornou a Cria do Astreus da Caça.
O Gévaudan recuou, cambaleando. O tecido ao redor do olho tentou se regenerar, mas falhou. Onde Ludmilla tocou, a carne permaneceu morta, cinza e fria. O universo havia reconhecido o Gévaudan como "Presa", e presas não se curam enquanto são caçadas.
Ludmilla soltou o olho destruído e não caiu. Ela caminhou para trás, pisando no ar vazio, degraus de aurora boreal se formando sob suas botas a cada passo.
SHIIING. SHIIING. SHIIING.
O ar atrás dela se encheu de luz branca comprimida. Um arsenal celestial se materializou: Katanas, Zweihänders, adagas, lanças. Elas não eram feitas de matéria, mas de intenção assassina cristalizada. Elas orbitavam Ludmilla lentamente, como satélites obedientes.
Ludmilla abriu os olhos e soltou um sorriso com a boca aberta, mostrando os caninos afiados. Sem consciência, apenas o instinto frio de um predador supremo.
— Estilo do Vazio: Caçada Fantasma.
Com um movimento trêmulo, mas carregado de intenção assassina, Ludmilla projetou a mão quebrada para a frente. O ar crepitou quando uma Claymore de luz branca se materializou, não surgindo do nada, mas rasgando o tecido da realidade com um zumbido agudo.
A lâmina disparou como um relâmpago horizontal.
O Gévaudan, uma máquina de matar forjada por instinto puro, reagiu em milissegundos. Seus músculos ondularam e as escamas do ombro direito se contraíram e escureceram, densificando-se instantaneamente até superarem a dureza do diamante. Biologicamente, era uma fortaleza impenetrável.
Mas Ludmilla não piscou. Não havia choque de metal. Não houve faísca.
A Claymore etérea tocou a blindagem de diamante e, desafiando a física, tornou-se névoa. Ela atravessou as escamas invulneráveis como fumaça passando por uma grade, solidificando-se apenas uma fração de segundo depois, já dentro da carne, fundida ao osso e aos tendões vitais.
— Colapso — Ludmilla sussurrou.
A detonação ocorreu de dentro para fora. O ombro da besta explodiu em um gêiser de icor e fragmentos de osso, ignorando completamente a armadura externa que permaneceu intacta enquanto o interior era liquefeito.
O segredo já não era mais a força bruta ou a nitidez do corte. A Caçadora dos Sonhos agora empunhava uma Lei Absoluta, reescrevendo a realidade do combate: A Ferramenta do Caçador sempre supera a defesa da Presa.
Se o Gévaudan se tornasse aço, as lâminas virariam fantasmas. Se ele se tornasse fogo, elas seriam o vácuo que o sufoca. Naquele momento, ela não era apenas uma guerreira; ela era o predador natural, adaptada evolutivamente para anular qualquer existência que ousasse ser sua caça.
O Gévaudan, urrando de dor e fúria, abriu a bocarra. O mundo ficou verde quando uma torrente de chamas infernais foi vomitada, incinerando o chão e transformando a pedra em vidro derretido onde Ludmilla estava.
Mas ela já não estava lá.
A velocidade dela não foi um movimento linear; foi uma falha na matriz. O espaço dobrou-se. Ludmilla reapareceu no ponto cego perfeito: flutuando de cabeça para baixo, diretamente acima da nuca do monstro, a gravidade parecendo não afetar seus cabelos ou suas vestes.
O fogo verde subiu buscando-a, mas ela girou o corpo com a graça de uma bailarina letal. As espadas ao seu redor acompanharam a rotação, acelerando até virarem discos de luz sólida.
VHOOOOM.
O domo de lâminas giratórias agiu como uma turbina, retalhando não a carne, mas o próprio ar. As chamas foram sugadas e dispersadas, reduzidas a partículas inofensivas antes mesmo de tocarem a bainha de sua roupa.
Aproveitando a abertura, Ludmilla estendeu a palma da mão aberta para baixo, os olhos brilhando com uma frieza divina.
— Execução: Mil Lâminas do Purgatório.
O céu acima da besta se iluminou. Não eram dez, nem cem. O arsenal inteiro desabou como uma chuva de meteoros guiados. A coreografia era brutal: enquanto uma espada perfurava a coxa para fixar o alvo, duas cruzavam o peito para abrir a guarda, e outras cinco atingiam as articulações.
O Gévaudan tentou ativar sua regeneração, as células borbulhando para fechar as feridas, mas a luz branca chiava contra a carne, cauterizando e rejeitando a cura. A Marca da Presa negava a vida. Ele estava sendo desmantelado vivo, peça por peça, transformado em uma peneira brilhante.
A montanha de carne e ódio foi forçada de joelhos, o rugido silenciado pela brutalidade de um ataque que não deixava espaço para resposta.
Ludmilla pousou suavemente diante da criatura subjugada, as botas mal levantando poeira. O combate estava decidido. Com a calma de um carrasco, ela ergueu a mão direita. Toda a luz residual do ambiente começou a ser sugada para um único ponto acima dela, condensando-se em uma lâmina gigantesca, uma guilhotina final apontada para o pescoço exposto da besta.
O Predador havia vencido. O golpe desceria e tudo acabaria.
CRAAAACK.
O som foi seco, nauseante, como um galho grosso partindo em uma floresta silenciosa. Mas não veio do monstro.
Veio de dentro dela.
A aura branca ao redor de Ludmilla oscilou violentamente, tornando-se errática. Sangue escuro jorrou simultaneamente de seus olhos, ouvidos e nariz, manchando sua pele pálida. O corpo humano era um recipiente frágil demais para sustentar um "Conceito" divino por tanto tempo.
O braço direito dela, ainda erguido, cedeu. A estrutura óssea não apenas quebrou; ela colapsou sob o peso metafísico da espada que tentava criar. O rádio e a ulna foram pulverizados, o membro pendendo inútil e grotesco enquanto a luz se extinguia.
— Ah...
Não foi um grito. Foi o som de uma corda de violino estourando sob tensão excessiva. Um suspiro humano, fraco, úmido e dolorosamente mortal escapou dos lábios da caçadora.
A realidade, que estava sendo dobrada pela vontade dela, estalou de volta ao lugar. A aura branca ao redor de Ludmilla não apenas apagou; ela falhou como uma transmissão ruim, piscando em estática antes de morrer. As centenas de espadas flutuantes perderam a coesão instantaneamente, desfazendo-se em uma chuva fina de poeira de luz que se dissipou antes de tocar o chão.
A Marca da Presa — o selo que negava sua biologia — evaporou.
O contrato estava anulado.
Os olhos de Ludmilla viraram, exibindo apenas o branco, enquanto o sistema nervoso dela entrava em shutdown total. Ela desabou de joelhos primeiro, como uma marionete que teve as cordas cortadas, e tombou para o lado. O impacto foi surdo, sem glória. Fumaça saía de seus poros, o superaquecimento de quem tentou canalizar o poder de um deus em um corpo de carne e osso.
O silêncio reinou por um único, aterrorizante segundo.
Então, a biologia reivindicou seu trono.
GLUP. SLOSH. CRAAAACK.
Sons úmidos, de carne se movendo e cartilagem estalando, ecoaram pelo campo de batalha. O Gévaudan, que segundos antes estava sendo desmantelado, sofreu um espasmo violento. Sem a lei divina para impedir, a evolução desenfreada da criatura não voltou como um rio; voltou como uma represa estourada.
As feridas abertas começaram a ferver. O ombro que havia explodido borbulhou em uma massa de espuma vermelha e preta. Ossos cresceram desordenadamente, rasgando a carne nova de dentro para fora, entrelaçando-se em segundos para formar não apenas um ombro, mas uma carapaça.
Não era a mesma armadura de antes. O monstro havia aprendido.
A nova pele que cobria a regeneração brilhava com um tom cromado e perolado. As escamas haviam se tornado prismas. O Gévaudan havia evoluído instantaneamente para criar uma superfície refratária. Ele não apenas se curou; ele anulou a arma do inimigo.
A besta se ergueu, sua sombra crescendo e engolindo o corpo caído da garota. Ele estava maior. Mais assimétrico. Infinitamente mais furioso.
Maysa assistiu a tudo, o ar preso na garganta…
E a coisa ainda estava de pé.
O Gévaudan baixou a cabeça colossal, o calor de sua respiração fazendo os cabelos sujos de sangue de Ludmilla se moverem. Ele abriu a mandíbula. Fileiras de dentes novos, serrilhados e ainda pingando fluido amniótico da regeneração acelerada, se revelaram.
O Gévaudan não ia apenas matar. A lógica primitiva da besta havia mudado. Ele não queria apenas eliminar a ameaça; ele queria devorar e absorver a única coisa que o fez sentir medo e dor pela primeira vez em sua existência. Ele queria comer o conceito da Caça.
Parte 3
A boca da besta se abriu, uma caverna de dentes serrilhados pronta para a criatura que o encheu de medo e dor pela primeira vez.
— NÃO!
Maysa surgiu do nada. Um borrão de luz índigo que interceptou a mordida. Com um chute ascendente que quebrou a barreira do som, ela atingiu o queixo do monstro, fechando a boca dele com tanta violência que dentes quebraram e voaram como estilhaços. O impacto lançou a montanha de carne para o ar.
Antes que a gravidade o puxasse de volta, Maysa girou o cabo de seu Guandao e o golpeou no peito, arremessando-o para trás como se fosse um brinquedo de pelúcia.
Maysa aterrissou, os olhos verticais tremendo de frustração.
— Droga... — ela rosnou, a indignação vazando em sua voz. — Então é realmente impossível caçar algo além de suas capacidades atuais?
Ela olhou para o monstro que tentava se levantar. A existência dele era uma ofensa ao desejo que ela buscava.
— Chega. Essa coisa já ficou perigosa demais. Morra e desapareça, verme.
Ela puxou sua lança para trás. O Éter azul se condensou na lâmina, vibrando em uma frequência capaz de cortar o espaço.
— Corte do Horizonte.
Ela disparou o golpe. Mas, naquele milésimo de segundo, o ar acima da cabeça de Maysa falhou. Um número digital vermelho, pixelado e ominoso, materializou-se: [4]
O fluxo de Éter de Maysa não obedeceu ao comando. Ele sofreu uma alteração espontânea, um glitch na realidade. A energia que deveria sair da lâmina implodiu.
BOOOOM!
Maysa se autoexplodiu. A força do próprio golpe a atingiu à queima-roupa, lançando-a para longe em uma bola de fogo azul.
A poeira baixou. Alguém estava de pé entre a cratera de Maysa e o monstro.
Katsuragi.
A Lorde da Preguiça estava um trapo. Ferida pelas armadilhas de Saga, segurando o ombro deslocado, respirando como se tivesse corrido uma maratona. Mas ela estava lá, servindo de escudo humano para a abominação.
— Calma lá... — Katsuragi cuspiu sangue, sorrindo cansada. — Eu não posso deixar você matá-lo ainda. O timing do evento não bateu.
Ela falou isso, mas Maysa não estava interessada em diálogo. A Avatar de Astreus surgiu dos escombros. Ela correu tão rápido que, para olhos comuns, parecia ter se teleportado com pura velocidade física.
Maysa apareceu diante de Katsuragi antes que a Lorde pudesse piscar.
— Não interfira, lixo.
PUNCH.
O punho de Maysa conectou com a cara de Katsuragi. Foi um golpe seco, brutal. A cabeça da Lorde chicoteou para trás, e ela foi lançada horizontalmente, atravessando três paredes de concreto antes de parar.
Maysa nem diminuiu o passo, voltando sua atenção para o monstro. Mas então, o som de um ping de notificação ecoou.
Um novo número vermelho apareceu sobre a cabeça de Maysa: [6]
— O quê...?
De repente, os nervos do corpo de Maysa entraram em colapso. Não foi um ataque externo. Foi biológico. Vasos sanguíneos em seus olhos, nariz e ouvidos explodiram simultaneamente. A pele perfeita de seus braços rachou, jorrando sangue divino.
— Argh! — Maysa cambaleou, vomitando sangue.
Katsuragi, caída ao longe nos escombros, levantou-se tremendo. O rosto dela estava inchado pelo soco, o olho esquerdo fechado.
— É por isso que eu odeio jogar contra Admin... — Katsuragi reclamou, a voz pastosa. — Como assim ela consegue me acertar antes do meu Azar atingi-la? O ping dessa mulher é zero?
Maysa ignorou a dor de seus nervos fritando. Ela limpou o sangue dos olhos e focou novamente na criatura.
— Persistência irritante.
Ela avançou novamente para decapitar o Gévaudan.
Katsuragi viu. Ela não tinha velocidade para acompanhar, mas tinha desespero.
A Lorde da Preguiça se lançou na trajetória de Maysa. Não houve técnica. Foi uma colisão feia. Katsuragi interceptou Maysa com uma cabeçada suicida no meio do ar.
CRACK.
Ambas colidiram as testas. O som foi de pedra batendo em pedra. Novamente, Katsuragi saiu quicando e rolando pelo chão como uma boneca quebrada, a testa sangrando profusamente.
Mas sobre a cabeça de Maysa, o contador girou. [7]
— Aaaah! — Maysa gritou.
Seu corpo, que estava envolto em chamas azuis de poder, de repente perdeu a imunidade natural ao próprio elemento. O fogo que deveria protegê-la começou a queimá-la. Sua pele entrou em combustão, a resistência mágica anulada por um erro de cálculo do universo imposto pela Preguiça.
No centro desse caos, o Gévaudan observava.
A besta, que deveria estar totalmente recuperada, estava imóvel. Seu corpo externo parecia blindado e forte, mas, por dentro, ele estava colapsando. O monstro sangrava pelos olhos e pelas brânquias. Ele achava que havia regenerado de todas as feridas de Ludmilla, mas a "Caça" não era tão simples de ser superada.
As feridas invisíveis deixadas pela humana estavam lá, apodrecendo sua essência, destruindo-o de dentro para fora. O corpo dele estava superaquecendo, tentando evoluir rápido demais para combater a necrose. Ele brilhava em um verde instável, pulsando como um coração prestes a ter um infarto.
Ele não era mais um soldado. Ele era uma Bomba-Relógio Biológica.
Maysa, queimando em chamas azuis, e Katsuragi, com o rosto destruído, olharam para a criatura ao mesmo tempo. Ambas entenderam.
— Aquilo vai explodir e levar a cidade junto... — Maysa percebeu, apagando o fogo do próprio braço com força de vontade. — Tenho que eliminar antes da massa crítica.
— Tá quase lá… — Katsuragi sorriu.
A Lorde da Preguiça se levantou, cambaleando. Ela tinha uma única motivação agora: proteger a Bomba a todo custo até o momento certo.
— Eu vou querer receber um belo extra por isso… — Katsuragi cuspiu no chão.
Parte 4
No flanco oposto da Cidade de Cristal, onde a batalha campal já se transmutara em uma frenética operação de resgate e avanço tático, a Rainha Isobel não corria; ela avançava como uma tempestade contida.
Seu corcel de guerra, uma montaria blindada de respiração pesada, rasgava as estradas e becos em ruínas. Os cascos da besta esmagavam vidro, escombros e, inevitavelmente, os corpos que atapetavam o chão. Isobel não se dava ao luxo de olhar para baixo. Seu coração sangrava por cada soldado caído, mas seus olhos, frios e fixos, ignoravam a carnificina para focar unicamente no horizonte: o Grande Tribunal, erguendo-se contra o céu como uma lápide titânica.
Ela tocou a runa de comunicação brilhando em seu ouvido, o sinal crepitando com a interferência mágica do ambiente.
— Relatório, Saga. Aquele clarão sísmico de agora há pouco... foi obra da humana?
— Os dados indicam que sim — a voz de Saga veio limpa, mas carregada de uma perplexidade rara para a sempre inabalável Estrategista dos Sonhos. — O sinal de Éter do Gévaudan desapareceu completamente por um microssegundo e retornou instável. Ludmilla o neutralizou, mas... a movimentação das peças no tabuleiro não faz sentido.
— Não faz sentido? — A voz de Luka invadiu a linha, ofegante, acompanhada pelo som arrastado de caixas de suprimentos médicos sendo empurradas sobre o asfalto. — Vencemos uma calamidade e o caminho está livre. Qual é o problema nisso?
— Katsuragi — respondeu Saga, o nome saindo com o peso de uma acusação.
— Ela fugiu, Saga — Philia interveio do setor norte. Ao fundo, ouvia-se o caos organizado da evacuação que ela coordenava. — Nós a encurralamos. Sua estratégia de "caos aleatório" funcionou. Ela percebeu que não podia vencer o ambiente que criamos e bateu em retirada. Foi uma vitória limpa.
— Eu gostaria que fosse — admitiu Saga, o som de papéis e mapas holográficos sendo manipulados ecoando ao fundo. — Mas revisei os dados do meu Oblast. O timing é perfeito demais, cirúrgico demais. Katsuragi não recuou porque estava perdendo para nós. Ela recuou no exato segundo em que o nível de perigo do Gévaudan disparou na zona central.
Um silêncio pesado, quase elétrico, caiu sobre a linha de comunicação. Isobel franziu a testa, a compreensão gelada descendo por sua espinha enquanto apertava as rédeas com força.
— O Gula estava a quilômetros de distância de onde Katsuragi lutava contra vocês — disse a Rainha, a voz baixa. — Para ela reagir a uma mudança de estado biológico do Gula em tempo real, sem linha de visão...
— ...ela precisaria ter sentido o Éter dele — completou Saga, sombria. — O que significa que Katsuragi possui um Oblast. Uma percepção sensorial expandida. Ela sabia exatamente o que estava acontecendo no centro da cidade sem nem virar o pescoço. Mas em todos esses anos como Lorde Pesadelo, ela jamais demonstrou essa capacidade. Por que esconder uma vantagem tática tão avassaladora?
A pergunta de Saga abriu as portas de um porão antigo na mente de Isobel, onde dúvidas há muito enterradas começaram a se agitar.
— Eu sempre achei Katsuragi... uma dissonância — confessou Isobel, permitindo-se um momento de vulnerabilidade estratégica. — Entre todos os Lordes Pesadelos, ela é a única cujo passado é um vácuo absoluto. Mamon tinha sua história lendária com os bancos do submundo; Aslan era um cavaleiro real caído em desgraça; Satan carregava as cicatrizes das guerras antigas... Mas a Preguiça?
A Rainha olhou para o céu escuro, onde nuvens de tempestade rodopiavam sobre o Tribunal.
— Ela simplesmente "apareceu" um dia em Gehenna. Forte demais para ser ignorada, desinteressada demais para ser questionada. Nós não sabemos nada sobre ela. Nem de onde veio, nem o que deseja.
— Antigamente, eu achava que "humanos" eram contos de fadas para assustar crianças — murmurou Saga, o tom analítico dando lugar a uma curiosidade filosófica. — Mas desde que Dante e Ludmilla surgiram e viraram minha lógica de cabeça para baixo, minhas premissas mudaram. A maneira como Katsuragi fala... usando terminologias específicas, gírias antigas. Sem mencionar que o Éter dela... nunca teve a ressonância natural do nosso mundo.
— Você está sugerindo que ela é... humana? — A voz de Philia tremeu, o choque evidente. — Uma Lorde Pesadelo humana? Isso deveria ser biologicamente impossível.
— Eu não sei o que ela é — cortou Saga. — Mas há um detalhe histórico que sempre me incomodou. A reação à "morte" da Kiara.
Isobel sentiu um aperto físico no peito ao ouvir o nome da filha. O ar pareceu ficar mais rarefeito.
— Lembro-me bem — disse a Rainha. — Quando a Kiara foi declarada morta, o caos se instaurou. O Gula enlouqueceu de fome e teve que ser selado. A Ira entrou em um frenesi destrutivo que durou semanas. O Orgulho se trancou em seu laboratório, obcecado. Todos os Lordes reagiram emocionalmente à queda da liderança. Menos Katsuragi.
— Ela apenas... evaporou — completou Saga. — Por vários ciclos, ela sumiu do mapa. E agora ela retorna, exatamente no momento em que a "nova" Kiara ressurge ao lado do Dante. A conveniência é suspeita.
— É suspeita demais — concordou Luka. — Mas, ei, agora não temos como ir atrás dela para uma entrevista. O caminho está limpo e temos prioridades. Philia, estou levando a leva de feridos para o abrigo no setor sul. Vou precisar de cobertura na rota.
— Entendido, Luka — respondeu Philia, e houve uma mudança sutil em sua voz, uma suavidade que não pertencia ao campo de batalha. — Estou a caminho. Sabe o que notei? É engraçado... há um tempo, eu jamais imaginaria que conseguiríamos trabalhar em sincronia. Agora, parece... natural.
— Ei, não diz isso! — Luka riu, um som nervoso, envergonhado e genuinamente humano no meio do apocalipse. — Deixa tudo estranho. Espera pelo menos a guerra acabar e a gente estar bêbado para ficar sentimental.
O canal de Luka e Philia se fechou com um clique estático, deixando apenas a tensão crua entre a Rainha e a Estrategista.
— Você tem certeza disso, Isobel? — perguntou Saga, abandonando os títulos por um momento, falando de mulher para mulher. — Deixar uma peça desconhecida como Katsuragi solta no tabuleiro para focar no avanço direto ao Tribunal? É um risco estratégico imenso.
— Não tenho dúvidas — respondeu a Rainha. As portas destruídas do Grande Tribunal cresciam em sua visão, imponentes e aterrorizantes. — Esse foi o motivo de eu ter lhe dado o comando do meu exército, Cavaleira. Eu precisava das minhas mãos livres. Não para lutar contra peões, mas para chegar ao Rei.
Isobel levou a mão ao peito, onde a armadura vibrava com as batidas de um coração dividido entre a coroa e a maternidade.
— Eu preciso chegar até ela. Até a minha filha... ou o que quer que tenha restado dela naquele lugar. Antes que tudo isso acabe, há perguntas que preciso fazer olhando nos olhos dela.
Saga suspirou do outro lado. O som distante de explosões ecoava, mas a voz da estrategista era firme.
— Eu não vou voltar atrás na nossa aliança, Majestade. O caminho está aberto. Mas prepare-se.
Saga fez uma pausa. Seus olhos, a quilômetros dali, varriam os dados táticos que mostravam as assinaturas de Dante e Teth lutando contra o monstro no centro.
— Naquele encontro... tudo pode acontecer. E a resposta que você procura pode não ser a que você quer ouvir.
— Eu sei.
Isobel chicoteou as rédeas. O cavalo rugiu, e a Rainha disparou, transformando-se em um borrão negro e letal em direção ao fim do mundo.
— Mas é um risco que uma mãe tem que correr.
Parte 5
O pátio não era mais um campo de batalha; era uma zona de desastre térmico. A fumaça roxa de Asmodea se dissipava, não pelo vento, mas pela pressão avassaladora que emanava da figura no centro da cratera.
Satan Bellum não havia caído.
Sua armadura de gelo, embora rachada e fumegante, permanecia intacta. Sempre que uma placa se quebrava, o Éter ao redor era sugado vorazmente, reconstruindo a defesa em segundos, tornando-a intocada. Seus golpes eram a pura contradição: ao primeiro olhar, pareciam simplesmente violência pura e desmedida, atacando tudo o que aparecia à frente; mas ao olhar com mais atenção, ficava claro que o foco dos golpes era friamente calculado para causar o máximo de destruição estrutural.
Os olhos dela, brilhando como supernovas azuis, ignoraram as ameaças maiores. Eles travaram no elo mais fraco.
— Você... — A voz de Satan soou como placas tectônicas colidindo no fundo do oceano. — Se realmente veio para lutar, é melhor deixar essa tática covarde de bater e fugir.
— Você por acaso tá me chamando de burro? — Oliver gritou, a voz trêmula mas desafiadora, segurando o bastão dourado com as duas mãos suadas. — Eu sei que um tapa errado seu e eu sou esmagado como uma barata! Então esquece, eu vou fugir enquanto você vier atrás de mim!
BOOM.
O som não foi de um passo, mas de uma explosão sônica. O gelo sob os pés de Satan pulverizou-se instantaneamente. Ela não correu; ela se projetou balisticamente, rasgando a distância entre ela e Oliver em um piscar de olhos, uma montanha de gelo e ódio em rota de colisão.
— Oliver! REAJA! — O grito de Laeticia parecia vir de outro mundo, abafado pela pressão do ar que comprimia os tímpanos.
Os olhos de Oliver arregalaram-se, o tempo parecendo dilatar em câmera lenta. Ele tentou erguer o bastão dourado para se defender, mas seus nervos gritavam. O impacto anterior havia fritado suas terminações nervosas. Ele era lento demais. Ele ia morrer.
Satan não fechou o punho. Ela sabia que ele tentaria bloquear. Em vez disso, num movimento fluido de artes marciais brutais, ela girou o pulso no ar. A umidade congelou instantaneamente, condensando-se não em uma lança comum, mas numa broca espiral de gelo negro, girando em alta rotação.
— Desapareça.
A estocada veio visando o coração. Inevitável. Letal.
— Macro-Scale: Seixo de Tropeço!
A voz de Dorothea foi um chicote preciso cortando o pânico.
Ela não visou Satan. A pequena cavaleira, ainda de pijama e com os cabelos desgrenhados, deslizou rente ao chão e tocou uma pedrinha insignificante a dois metros de Oliver — exatamente onde o pé de apoio de Satan aterrissaria para firmar o golpe letal.
CRACK!
A pedrinha expandiu-se violentamente, tornando-se uma rocha irregular do tamanho de um carro compacto em uma fração de segundo.
O pé de Satan colidiu com o obstáculo imprevisto. A biomecânica de seu golpe perfeito foi destruída. O corpo da gigante foi lançado para a frente, o equilíbrio perdido, transformando sua investida mortal em um tropeço catastrófico.
Mas a Ira era um Golias imparável.
Mesmo caindo, mesmo com a postura quebrada, os reflexos de combate de Satan corrigiram o erro no ar. Ela rugiu e, usando a própria inércia da queda, alterou o ângulo da estocada no último milissegundo.
— NÃO PENSE QUE ISSO É O BASTANTE!
SHLACK!
O som de carne sendo perfurada ecoou seco e nauseante. Oliver não foi acertado no coração, mas a broca de gelo atravessou seu ombro direito, a força do impacto o levantando do chão e o pregando violentamente contra uma coluna de pedra a cinco metros de distância, como um inseto em um quadro.
— AAGHH!!!
O grito de Oliver foi estrangulado por sangue. O bastão dourado escapou de seus dedos mortos, tilintando no gelo longe de seu alcance.
Satan, recuperando-se com uma rolagem tática pesada, bateu a mão no chão para frear, as garras de metal rasgando o solo. Ela se virou, pronta para decapitar o garoto preso antes que ele pudesse respirar.
Mas o bastão dourado não estava mais lá no chão.
Uma sombra minúscula passou por baixo da guarda da gigante. Dorothea agarrou a arma de Oliver no meio de um salto giratório, seus olhos brilhando com a fúria de quem perdeu tudo.
— ISSO É PELO MEU MARTELO, SUA MALDITA! — Ela gritou, ativando sua magia no limite máximo. — Macro-Scale: PILAR DO CÉU!
O ar foi deslocado violentamente. O bastão fino explodiu em massa e volume. Em um microssegundo, ele se tornou uma coluna de ouro maciço, espessa como uma sequoia ancestral, pesando toneladas. Dorothea, usando a própria gravidade a seu favor, desceu o monólito como um martelo de um deus vingativo sobre as costas de Satan.
Foi um golpe para esmagar tanques.
Mas Satan Bellum parou o céu.
Com um grunhido gutural que fez o chão tremer, a gigante girou o tronco e seus braços queimados interceptaram o pilar de ouro. Músculos estalaram, o chão afundou dois metros sob seus pés criando uma cratera, mas ela segurou. Ela estava segurando toneladas de ouro puro com a força bruta.
Um sorriso distorcido e sangrento surgiu no rosto derretido de Satan.
— Pesado... — ela rosnou, as veias do pescoço pulsando como cordas. — Mas não o suficiente para me dobrar!
Ela começou a empurrar o pilar de volta, erguendo-o milímetro a milímetro. Dorothea, pendurada na outra extremidade, arregalou os olhos em pânico. A força física delas era incomparável. Satan ia arremessar o pilar e Dorothea junto para a estratosfera.
— AGORA, LAETICIA! O PONTO DE APOIO! — A voz de Asmodea cortou o caos. A Lorde da Luxúria estava pendurada nas costas da curandeira, apontando com precisão cirúrgica para as botas de Satan.
Laeticia tremia, mas não hesitou.
Ela deslizou pelo chão de vidro e gelo como uma patinadora suicida. Asmodea, em suas costas, esperou o momento exato em que passaram por baixo das pernas de Satan para tocar o chão com suas mãos enluvadas.
— Calor do Amor.
Ela não atacou Satan diretamente. Ela usou sua habilidade para transformar o Éter do gelo sob os pés da gigante em fogo puro. O gelo derreteu instantaneamente, deixando apenas uma camada de água fervente sobre o vidro liso.
O coeficiente de atrito sob os pés de Satan caiu a zero.
E a enorme massa do pilar continuava a cair e a empurrar. Mas agora, sem um lugar para firmar os pés, o destino da gigante era inevível.
— O quê?! — A confiança de Satan quebrou pela primeira vez, seus olhos arregalando-se.
Seus pés deslizaram violentamente para os lados em uma abertura de pernas forçada. Sem tração, ela não conseguia transferir a força das pernas para os braços. A física cobrou seu preço. O peso colossal do pilar de ouro, que ela estava levantando segundos antes, agora a esmagava para baixo sem resistência.
Mas ela ainda resistia. Com os joelhos dobrando, tremendo, Satan usava cada gota de Éter para manter o pilar a centímetros de esmagar seu crânio. Ela era teimosa demais para morrer.
— Eu ainda não acabei! — Asmodea virou o rosto para o garoto empalado na coluna.
Asmodea soprou um beijo de fumaça carmesim. A névoa atingiu Oliver e entrou por seus poros como uma injeção de adrenalina pura.
Não foi uma cura. Foi uma overdose.
As pupilas de Oliver dilataram até sumirem. O mecanismo de autopreservação de seu cérebro foi desligado quimicamente. A dor excruciante do ombro tornou-se apenas informação irrelevante, dados a serem ignorados.
Com um grito que não parecia humano, Oliver agarrou a estaca de gelo que o pregava na parede e a arrancou para a frente, rasgando o próprio músculo e tendões sem hesitar. O sangue jorrou quente, mas ele já estava se movendo.
Ele correu. Não com técnica, mas com a fúria cega de um animal encurralado. Ele saltou, usando as costas de Asmodea e Laeticia como degrau, e se lançou como um míssil humano em direção à base do pilar que Dorothea tentava empurrar.
— DESCE LOGO, SUA MALDITA!!!
Oliver colidiu com o pilar, somando a massa de seu corpo e a força histérica do buff ao esforço de Dorothea.
Foi a gota d'água.
A base de Satan cedeu completamente. O atrito era zero. A força descendente duplicou.
KRA-KOOOOOOM!!!
O som de ossos, armadura e gelo se partindo foi ensurdecedor.
O pilar de ouro enterrou Satan Bellum no chão, afundando profundamente na rocha da fundação do castelo. A armadura pesada, antes sua defesa impenetrável, amassou-se como papel alumínio, travando seus membros e tornando-se sua prisão.
O silêncio caiu pesado sobre o pátio, quebrado apenas pela respiração ofegante dos sobreviventes.
Sob toneladas de ouro, houve um movimento. Satan tentou se erguer. O metal rangeu. Ela ia levantar. Ela podia levantar.
Então, um som sutil, como uma lâmpada queimando. Zzzzt.
A aura azul que envolvia o corpo de Satan piscou uma, duas vezes... e apagou.
Não foi o pilar que a venceu. Foi a matemática da guerra. O combate prolongado contra Asmodea, que transformava o Éter dela em chamas, e o esforço final sobre-humano para segurar o pilar drenaram a última gota de combustível.
O motor da calamidade parou por pane seca.
Oliver caiu de cara na neve derretida, o efeito da adrenalina passando, o corpo entrando em choque hipovolêmico. Laeticia correu, as mãos já brilhando em verde suave, lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto tentava estancar a hemorragia massiva dele.
Asmodea, mancando, desceu das costas de Laeticia. Ela caminhou até o rosto da gigante, que estava visível apenas por uma fresta entre o pilar e o chão destruído.
— Xeque-mate, querida — sussurrou a Lorde da Luxúria, limpando um filete de sangue negro do canto da boca com elegância.
Satan parou de lutar contra o peso. Seu olho furioso encarou Asmodea, mas o brilho vulcânico estava se extinguindo, restando apenas brasas frias e cansadas.
— Parece... que eu perdi... — Satan observou, ofegante, sangue coagulado escorrendo de seus lábios.
Ela riu, um som gorgolejante e quebrado.
— Mas está tudo bem... A Rainha... O poder dela não obedece a regras. Ela é o Fim. Vocês só adiaram o funeral.
Asmodea ajeitou o cabelo, recuperando sua postura régia apesar de estar coberta de fuligem e ferimentos. Ela olhou para o cenário: Dorothea ofegante apoiada no pilar dourado, Laeticia chorando enquanto salvava a vida de Oliver, e o caminho finalmente aberto para o Tribunal.
— Talvez... — Asmodea sorriu. Pela primeira vez, não havia malícia ou sedução em seu rosto, apenas o orgulho afiado de uma estrategista que apostou tudo no azarão. — Ou talvez o reinado dela acabe hoje.
Ela olhou na direção onde o som da batalha titânica de Dante e Teth ainda ecoava, fazendo o chão tremer sob seus pés.
Parte 6
Os degraus do Grande Tribunal estavam a menos de cem metros, mas a densidade do Éter naquela arena improvisada fazia a distância parecer um oceano de chumbo. O ar não apenas vibrava; ele gemia sob a pressão de três intenções assassinas colidindo. O chão de vidro sob seus pés já estava cheio de microfissuras, cantando a música da destruição iminente antes mesmo do primeiro movimento.
— Agora, Raspadinha! — Dante rugiu. O sangue que escorria de seu olho esquerdo não era um obstáculo; era combustível para a fogueira de sua adrenalina.
Ele não esperou pela confirmação. Dante explodiu o chão sob seus pés, lançando-se verticalmente em um borrão cinético. No ápice do salto, pairando acima de Kiara como um julgamento divino, ele esticou a mão direita, indicador e polegar estendidos na forma clássica de uma arma. A atmosfera ao redor de seu dedo distorceu. Não era apenas fogo; era plasma supercomprimido, zumbindo com a fúria de uma estrela engarrafada.
— Queime, Estrela Rubra... TENKA!
O som foi ensurdecedor, como o rasgar de um trovão comprimido em uma garrafa. Um feixe de luz carmesim, da espessura de um lápis mas com o calor do núcleo solar, foi disparado.
Kiara, cujos instintos foram afiados em mil batalhas, sentiu o cheiro de ozônio um microssegundo antes do disparo. Ela abortou sua própria preparação de ataque, jogando o peso do corpo violentamente para a direita em um deslizamento desesperado. O feixe de plasma passou onde sua cabeça estava um segundo antes, cauterizando o ar e deixando um rastro de fumaça acre e cabelo chamuscado.
"Peguei você", Dante pensou, o sorriso selvagem rasgando seu rosto.
Kiara havia se movido exatamente para onde ele queria. No ponto cego criado pelo movimento brusco dela, a fumaça da batalha se condensou. Onde Dante, já esperando a esquiva, havia corrido para interceptá-la, seu punho esquerdo brilhava com uma quantidade obscena de Éter acumulado e comprimido.
— Chronos Breaker!
Ele desceu o punho na direção dela.
O tempo pareceu desacelerar para a Rainha. Esquivar era fisicamente impossível; sua inércia a levava direto para a armadilha. A maioria teria entrado em pânico. Kiara apenas rosnou, seus olhos vermelhos brilhando com desafio.
Se ela não podia desviar, ela iria atravessar.
Ela canalizou cada gota de Éter disponível para seu punho esquerdo ferido, e socou diretamente contra o punho de Dante.
KA-BOOOOM!
A colisão foi visceral. O pátio inteiro estremeceu. Mas a física cobrou seu preço. A força da detonação rasgou a pele reforçada de Kiara, estourando músculos de sua mão esquerda com um estalo úmido e repugnante. O mesmo ocorreu com Dante; ossos de seus dedos cederam, transformando o choque em agonia mútua.
— Tsk! — Kiara grunhiu, recuando um passo, o braço pendendo inútil. — Nada mal...
Na hora, ela interrompeu a própria frase, percebendo um erro terrível. Agora ela estava totalmente desprotegida, sem capacidade de esquivar e revidar com o braço bom ocupado em manter o equilíbrio. Dante havia soltado uma red flag bem óbvia no começo do ataque, e ela devia ter prestado mais atenção.
— Você é minha!
Teth se moveu.
Ele havia se afastado e esperado nas sombras pelo momento exato que Dante abrira para ele. Ele deslizou baixo, rente ao chão como uma sombra predatória. A Lâmina da Dualidade em suas mãos não era metal; era uma aberração visual, vibrando com uma fusão instável de dourado radiante (Sonho) e roxo abissal (Pesadelo), criando um zumbido que fazia os dentes doerem.
Ele visava a jugular exposta da Rainha desequilibrada. Era o xeque-mate. A execução perfeita de uma estratégia de três pontas.
A ponta da lâmina instável estava a centímetros da pele pálida do pescoço de Kiara.
Então, a biologia traiu a estratégia.
No instante crítico, um espasmo violento percorreu o corpo de Teth. Não foi um ataque externo, mas uma rejeição interna catastrófica. As auras dourada e roxa em sua lâmina pararam de fluir em harmonia e começaram a lutar entre si como cães raivosos.
— O quê...?! GAH!
Teth engasgou, o sangue jorrando de sua boca enquanto seu próprio poder entrava em colapso.
A fusão forçada se desfez com o som de vidro quebrando dentro de um tornado. A armadura branca imaculada de Teth rachou e se dissolveu em luz. Seu corpo encolheu, contorcendo-se enquanto chamas negras e caóticas o consumiam de dentro para fora. O homem de cabelos brancos foi apagado.
A inércia do ataque foi perdida. A lâmina da dualidade evaporou em fumaça inofensiva.
No lugar do guerreiro estoico, uma nova silhueta se formou no ar, caindo desajeitadamente. Uma figura feminina, de pele cinzenta como cinzas, chifres curvos e olhos que queimavam com loucura pura.
Vav. A Besta interior. Sozinha, desconexa e confusa.
Kiara, vendo a ameaça letal se dissolver em uma bagunça caótica diante de seus olhos, não suspirou de alívio. Ela riu. Uma risada curta e genuinamente divertida.
— Interessante... — Kiara observou a nova criatura se debatendo. — Eu também sou uma híbrida, mas essa é a minha primeira vez vendo isso. Não fazia ideia de que a sua rejeição interna poderia chegar a esse ponto de colapso físico.
Seus olhos de predadora varreram o campo de batalha. Vav estava confusa. E Dante...
Dante, vendo que a armadilha havia dado errado e seu parceiro havia colapsado, tentou comprar espaço e tempo para Teth se recuperar, disparando para cima do inimigo mais uma vez, ignorando a dor em sua mão quebrada.
Ao ver aquilo, Kiara reagiu à maior ameaça sem pensar duas vezes.
— Maldito zumbi! Por acaso já não passou da hora de você cair no chão?!
A velocidade de Kiara, mesmo ferida, era aterrorizante.
Ela ignorou a dor em sua mão esquerda e girou sobre o pé de apoio, transformando seu corpo em um chicote. Dante mal teve tempo de virar a cabeça antes que o joelho reforçado de Kiara se enterrasse com precisão cirúrgica em seu estômago.
CRACK.
O som de costelas cedendo foi audível. Dante nem conseguiu gritar. Mas o dano seguinte foi ainda pior: enquanto seu joelho estava conectado com ele, ela expandiu sua aura para atingir os órgãos internos dele. No mesmo instante, ele vomitou uma mistura de sangue e saliva, o diafragma paralisado pelo trauma visceral. Ele desabou de cara no chão, o corpo convulsionando em dor, incapaz de puxar o ar.
Kiara nem sequer olhou para baixo. Ela já estava se movendo em direção à nova oponente.
— Yin e Yang... — Kiara disse, sua voz calma contrastando absurdamente com a violência de seus atos. Ela caminhava em direção à figura feminina que rosnava, limpando o sangue do rosto. — Vocês são realmente interessantes. Aposto que o Aslan adoraria estudar vocês em frascos separados.
Vav, a manifestação da entropia, finalmente focou seus olhos insanos na Rainha. Sua voz era uma cacofonia dupla e distorcida.
— Cale a boca, maldita! Não fique se achando tanto! Eu vou arrancar sua...
Vav atacou. Não havia técnica, apenas instinto assassino puro e descontrolado. Ela se lançou com garras de fogo negro, um golpe selvagem e telegrafado visando o rosto de Kiara.
Mas Kiara era a rainha da violência física. Contra a selvageria, ela usou a técnica perfeita.
Ela deslizou sob o golpe desajeitado de Vav com uma fluidez líquida. Enquanto Vav estava estendida demais, exposta em sua fúria cega, Kiara plantou os pés, girou o quadril e canalizou a força do chão para cima, desferindo um uppercut de direita tecnicamente impecável, direto na ponta do queixo da Pesadelo.
POW.
O impacto foi seco e brutal. A cabeça de Vav chicoteou para trás com tanta violência que seu pescoço estalou. Os olhos da besta viraram para o branco. A consciência dela foi desligada à força antes que ela pudesse terminar o insulto.
O corpo feminino de Vav caiu no chão como um saco de pedras, inerte, ao lado de Dante.
O silêncio voltou ao pátio, quebrado apenas pela respiração ofegante dos derrotados e pelo gotejar de sangue no vidro.
Dante tentava se levantar, os dedos arranhando o vidro, tossindo e cuspindo sangue, os braços tremendo tanto que não sustentavam seu peso. Teth/Vav estava completamente apagada.
Kiara estava de pé entre eles. Sua mão esquerda estava roxa e inutilizável, seu ombro estava marcado e ela sangrava de uma dúzia de cortes. Mas sua aura... sua aura permanecia uma fortaleza intacta, zombando do esforço deles.
Ela estalou o pescoço, o som ecoando alto no pátio vazio. Ela olhou para os dois caídos aos seus pés com um desdém frio e absoluto.
— Foi uma boa dança. A coreografia de vocês quase me surpreendeu — disse ela, ofegante, levantando a bota pesada acima da cabeça de Dante, pronta para esmagá-la como uma fruta madura. — Mas a música acabou.
Parte 7
A bota de Kiara desceu.
Não foi um pisão; foi uma sentença de morte hidráulica. O ar sibilou, comprimido violentamente pela sola da bota que visava transformar o crânio de Dante em uma mancha úmida e irreconhecível no vidro. A sombra da execução cobriu o rosto do rapaz, que mal conseguia respirar.
Mas o som que ecoou não foi de osso quebrando.
BAAAAAM!
Uma onda de choque lateral explodiu no pátio. Um borrão de tecido branco sujo interceptou a execução com a precisão de um míssil guiado. Uma perna pequena, mas carregada com uma inércia absurda e desespero puro, colidiu contra as costelas expostas de Kiara.
A física foi desafiada. A Rainha, que parecia uma montanha inamovível segundos antes, foi arrancada do chão. Seu corpo deslizou violentamente por dez metros sobre os cacos de vidro, as botas rasgando o chão e erguendo uma cortina de poeira cristalina.
Eliza aterrissou onde a morte deveria ter acontecido.
Sua postura não tinha nada da graça da realeza. Pernas afastadas, centro de gravidade baixo, punhos erguidos na altura do queixo, protegendo o rosto. Ela não parecia uma princesa; parecia uma brigona de rua que acabara de sair dos escombros de sua própria vida.
— CHEGA DISSO! — O grito de Eliza rasgou sua garganta, a respiração saindo em vapores quentes e visíveis. Seus olhos não tremiam; eram aço temperado fixo na irmã. — Eu sei o que você quer fazer... mas isso não vai mudar nada! Ainda tem volta, Kiara!
Kiara levantou-se lentamente dos escombros, estalando o ombro deslocado de volta ao lugar com um movimento nauseante e seco. Ela cuspiu sangue no chão imaculado e olhou para Eliza com um coquetel tóxico de tédio, reconhecimento e uma irritação vulcânica.
— Saia da frente... — A aura de Kiara tremeluziu, pesada como chumbo derretido. — Você é uma peça insignificante neste tabuleiro, garota. É tarde demais para diplomacia. A misericórdia morreu na primeira página dessa história.
Eliza não recuou. O instinto de sobrevivência gritava para ela fugir daquela predadora, mas ela deu um passo à frente, entrando voluntariamente na zona de abate.
— Mesmo se eu disser... que sou a Stella?
O nome não foi ouvido; foi sentido. O impacto foi maior que o chute nas costelas.
A máscara de arrogância da Rainha trincou. Por um microssegundo — uma eternidade no tempo de combate — a postura de Kiara falhou. O olho esquerdo dela tremeu. Imagens de um telhado ao pôr do sol, de promessas infantis e de uma vida antes da tortura tentaram subir à superfície, borbulhando como ácido na mente da tirana.
Stella. A luz. A única coisa que importava.
Mas Kiara mordeu o lábio inferior com força letal. O sangue escorreu pelo queixo, quente e real. Ela assassinou a hesitação. Ela estrangulou a memória com correntes de ódio puro.
— Stella morreu. — A voz de Kiara saiu como o zero absoluto, congelando o ar. — E é tarde demais para fantasmas tentarem me assombrar.
VUP.
O mundo ao redor de Eliza pareceu entrar em câmera lenta, exceto por um único elemento.
Uma explosão sônica muda sacudiu o ambiente. O chão onde Kiara estava explodiu em poeira. Ela não usou magia para dobrar o espaço; ela simplesmente quebrou a barreira da inércia com força física bruta. Em um fragmento de segundo, a pressão do ar mudou violentamente, um vácuo sendo preenchido por pura agressão.
Kiara materializou-se a centímetros do rosto de Eliza. O deslocamento de ar foi tão forte que chicoteou os cabelos da princesa para trás. O punho direito da Rainha já estava a meio caminho, um direto compactado, carregado com tanta intenção assassina que os nós dos dedos pareciam distorcer a luz ao redor. O rugido dela veio junto com o golpe, uma sentença de morte:
— CAMPOS DE BATALHA NÃO SÃO PARA PRINCESAS!
Os olhos de Eliza não piscaram. Suas pupilas se contraíram, rastreando a trajetória do punho de Kiara como se visse linhas vetoriais vermelhas no ar. O instinto gritava para recuar, para fechar os olhos e se proteger. Mas Eliza havia evoluído além do instinto.
O coração dela dizia: se eu recuar aqui, minha voz e meus punhos não vão conseguir mais alcançá-la.
Ela quebrou a postura. Em vez de fugir, ela mergulhou em direção ao perigo. Eliza flexionou os joelhos e jogou todo o peso do tronco para a frente, transformando a própria testa em um aríete de osso sólido, visando o centro da tempestade que se aproximava.
CRACK!
O som foi nauseante, o estalo úmido e agudo de cartilagem cedendo sob pressão extrema. A testa de Eliza, o ponto mais duro do crânio humano, colidiu com precisão cirúrgica na ponte do nariz de Kiara.
O tempo pareceu congelar no impacto. A cabeça da Rainha chicoteou violentamente para trás, o pescoço estalando com a força do rebote. O sistema nervoso dela entrou em curto; os olhos inundaram de lágrimas instantâneas pelo choque direto no nervo facial, cegando-a momentaneamente.
O direto mortal de Kiara, desviado pelo impacto súbito, passou zunindo a milímetros da orelha de Eliza. O vento do golpe cortou alguns fios de seu cabelo, provando o quão perto da morte ela esteve.
Eliza recuou um passo, cambaleando ligeiramente. Um corte irregular se abriu em sua testa onde ela fez contato, o sangue quente escorrendo rápido para se misturar ao suor em seus cílios. Ela não limpou. Em vez disso, um sorriso selvagem, quase maníaco, rasgou seu rosto manchado de vermelho.
— Perfeito. — Ela cuspiu sangue no chão, os dentes tingidos de carmesim. — Porque eu não sou a princesinha delicada que você conhecia mesmo.
A trégua durou meio segundo. A luta não recomeçou; ela explodiu.
A fachada de realeza, a magia elegante e os encantamentos sutis evaporaram. Aquilo desceu ao nível mais primitivo: uma rinha humana em alta velocidade.
Kiara, com o rosto banhado em sangue e rugindo de fúria cega, avançou como um animal ferido, ignorando a dor. Ela desencadeou uma tempestade de ganchos e cruzados, rápidos demais para serem vistos a olho nu, criando uma parede de punhos intransponível.
Eliza não recuou. Ela entrou no "bolsão", o espaço perigoso entre os braços da oponente. A coreografia tornou-se um borrão brutal de combate a curta distância. Eliza usava os antebraços e canelas para "descascar" os ataques de Kiara, desviando a força bruta por milímetros, aparando golpes que quebrariam concreto.
Para cada bloqueio, ela respondia com uma vingança rápida: cotoveladas curtas e viciosas nas costelas, joelhadas no plexo solar.
PÁ. TUF. CRACK. PÁ.
O ritmo era aterrorizante, uma percussão seca e ininterrupta de carne contra carne, impacto contra osso. Não havia espaço para respirar, não havia espaço para pensar. Era apenas instinto, suor, sangue e violência pura.
Dante, com a visão turva, tentou se arrastar. Seus músculos gritavam, paralisados.
— Fique quieto, seu idiota suicida! — A voz de Sora ecoou telepaticamente, carregada de pânico.
A garota correu até ele e o segurou, o grimório de Safira folheando páginas freneticamente para estabilizar os sinais vitais que despencavam.
— Você tem hemorragia interna massiva e três costelas flutuando perto do pulmão. Se você levantar, você morre. Deixe ela lutar! Ela está ganhando tempo!
— Mas... ela vai... perder... — Dante rosnou, assistindo impotente, os dentes trincados até quase quebrarem.
Mas Eliza não estava sendo massacrada. Ela estava improvisando no inferno.
O ar sibilou quando Kiara pivotou sobre a perna de apoio. Seu quadril girou com força torrencial, lançando um chute alto circular que era menos um golpe de artes marciais e mais uma foice de carne e osso visando arrancar a cabeça da irmã do pescoço.
Eliza não apenas viu o movimento; ela o sentiu antes de acontecer. Com uma fluidez líquida, ela derrubou seu centro de gravidade, deixando a perna mortal de Kiara passar zunindo milímetros acima de seus cabelos. No mesmo instante, Eliza bateu ambas as palmas das mãos contra o chão de vidro com um estalo ressonante.
— Lágrimas de Stella: Modo Chiclete — Armadilha Doce!
O chão estremeceu. Uma erupção rosa-choque, brilhante e com cheiro enjoativo de doce artificial, explodiu debaixo das mãos de Eliza como um gêiser pressurizado. Ela não mirou no alvo móvel; ela mirou na fundação. O polímero viscoso engolfou a bota de apoio de Kiara exatamente no momento em que ela completava o arco do chute.
SQUELCH.
A substância passou de líquida para quase sólida em um nanossegundo, agarrando o vidro e o couro da bota com uma ferocidade molecular.
— O quê...?! — Kiara puxou a perna com força suficiente para levantar um carro, veias saltando no pescoço. A gosma rosa esticou como um tendão alienígena, gemendo sob a tensão, mas recusando-se a romper. Ela estava plantada no chão.
Eliza viu a abertura criada pela imobilidade. O excesso de polímero rosa fluiu para cima, cobrindo seus próprios punhos como luvas de boxe gigantes que vibravam e mudavam de textura, tornando-se densas e foscas.
— Lágrimas de Stella: Modo Borracha — Kinetic Rebound!
Ela não socou; ela enterrou o punho elástico no plexo solar de Kiara.
Não houve o som seco de impacto ósseo. Houve um THWUMP profundo e bizarro. O punho de "borracha" de Eliza comprimiu-se contra os abdominais de aço de Kiara, afundando de forma não natural por uma fração de segundo enquanto sugava toda a energia cinética do golpe.
Então, as leis da física estalaram de volta.
BOOM.
A expansão foi violenta.
A repulsão foi absurda. Kiara não foi apenas empurrada; ela foi lançada como uma bala de canhão humana. A força do lançamento foi tão brutal que a "Armadilha Doce" não soltou o chão — ela arrancou pedaços maciços da fundação de vidro que ainda estavam colados às botas da gigante.
Kiara voou para trás em um turbilhão caótico de vidro estilhaçado e gosma rosa. Com agilidade felina, ela girou no ar e aterrissou de quatro, dez metros de distância, as garras rasgando trincheiras profundas no chão cristalino para frear o movimento, faíscas voando.
Lentamente, ela levantou o rosto. O nariz estava quebrado, torto em um ângulo agudo para a esquerda, o sangue jorrando livremente sobre os lábios. Mas o que dividia seu rosto não era uma careta de dor; era um sorriso. Um sorriso de puro pesadelo, de uma predadora que acabou de descobrir que a caçada seria divertida.
— HAHAHAHA! — Kiara jogou a cabeça para trás, gargalhando maniacamente. Ela limpou o sangue com as costas da mão, manchando a bochecha como pintura de guerra. — Truques sujos! Eu gosto disso! Finalmente você está falando a minha língua, irmãzinha!
O riso parou abruptamente. Kiara explodiu em movimento novamente. Dessa vez, dane-se a técnica. Ela abriu a guarda propositalmente, os braços escancarados, convidando o ataque enquanto avançava como um trem desgovernado.
Ela aceitou o soco direto de Eliza na maçã do rosto — a cabeça chicoteando violentamente para o lado com o impacto, sangue voando em um arco — apenas para comer a distância entre elas. Ela absorveu o dano como se fosse combustível.
Antes que Eliza pudesse retrair o braço, a mão boa de Kiara fechou-se ao redor de seu pulso. A trava era inescapável, mais apertada que uma morsa hidráulica.
— Te peguei.
O sorriso ensanguentado de Kiara era uma sentença de morte. A intenção assassina era clara: ela ia esmagar os ossos do rádio e da ulna de Eliza até virarem pó dentro da pele.
A dor da pegada era cegante, mas Eliza não gritou. Ela não desperdiçou energia tentando puxar contra a força inamovível da irmã. Ela olhou fundo nos poços vermelhos e insanos dos olhos de Kiara.
E, à queima-roupa, ativou a transmutação.
Eliza não tentou soltar o pulso e, com um comando mental rápido como um raio, alterou a estrutura molecular da matéria que envolvia seu braço.
— Lágrimas de Stella: Modo Vidro Temperado — Lâmina de Prisma!
A temperatura ao redor do braço de Eliza despencou.
CRICK-CRACK-SHING!
A reação em cadeia foi instantânea e ensurdecedora. A substância rosa, macia e viscosa que segundos antes absorvia impacto, sofreu uma metamorfose violenta. Em um piscar de olhos, a "borracha" inofensiva cristalizou-se, reestruturando-se em um pesadelo facetado de cristal temperado, com arestas serrilhadas mais afiadas que bisturis de obsidiana.
A armadilha de Kiara tornou-se sua sentença. Sua mão, apertada com força esmagadora para quebrar ossos, agora segurava uma serra estática.
Os olhos de Eliza eram frios enquanto ela executava o movimento. Ela não puxou para trás; ela usou o próprio aperto da irmã como ponto de apoio. Eliza torceu o quadril e girou o antebraço endurecido violentamente dentro da garra de Kiara.
SSSHHHH-LASH!
O som foi úmido, terrivelmente limpo, como fatiar carne crua em uma máquina industrial. As centenas de micro-lâminas de prisma giraram como um liquidificador de cristal. A carne da palma e do antebraço de Kiara, já castigada pela batalha anterior, não ofereceu resistência. Músculos foram fatiados, tendões se separaram como elásticos velhos.
— AAGH! — O rugido de Kiara foi de dor pura e reflexa. O sistema nervoso dela sobrecarregou, forçando a mão a abrir e soltar a presa mortal enquanto ela cambaleava três passos para trás.
Sangue arterial jorrou em um arco vibrante, pintando de vermelho o que restava de seu uniforme esfarrapado, pingando ruidosamente no chão de vidro.
As duas pararam. A quietude caiu sobre o campo de batalha como um manto pesado. O único som era o arfar desesperado e descompassado de dois pulmões levados ao limite.
Eliza era uma colagem de hematomas roxos e amarelos, o vestido de realeza reduzido a trapos. Mas seus punhos... eles brilhavam com uma luz rosa pulsante e perigosa, o cristal zumbindo com poder latente, prontos para a próxima troca. Ao redor dela, o excesso do "esmalte" rosa desprendeu-se e começou a orbitar, formando uma nebulosa protetora de poeira de cristal brilhante.
Kiara era uma ruína gloriosa. O nariz destruído, a mão esquerda pendurada inútil, e agora o braço direito retalhado até o osso. Era uma luta suja, visceral. Uma briga de família decidida no lodo e no sangue.
— Você está no fim, Kiara... — Eliza ofegou, as palavras saindo entre dentes cerrados, mas sua guarda permaneceu impecável. A análise tática fluía dela mesmo à beira do colapso. — Você lutou contra um Exército inteiro. Contra os Cavaleiros Reais. Contra Dante. Contra Teth... Desista, antes que eu tenha que te levar para casa com os ossos quebrados!
Ela deu um passo à frente, a voz ganhando firmeza.
Kiara moveu a mandíbula, sentindo o gosto metálico. Com um desprezo absoluto pela gravidade da situação, ela cuspiu um molar quebrado no chão de vidro.
Tink.
Lentamente, a gigante ergueu a cabeça. Seus olhos não demonstravam derrota; eles ardiam com uma determinação que transcendia a lógica, beirando a loucura divina. O sorriso que ela abriu era quebrado, grotesco de sangue, e genuinamente, aterrorizantemente feliz.
— E desde quando você acha que a biologia se aplica a mim, Stella?
Kiara ergueu os punhos trêmulos. Ela ignorou a dor lancinante que faria qualquer um desmaiar. Ela ignorou a perda catastrófica de sangue. O ar ao redor dela começou a distorcer com o calor.
VHOOOOM.
A aura dela não apenas voltou; ela explodiu para fora, uma coluna de energia vermelha e opressora que fez o chão rachar sob seus pés.
— Venha. Vamos testar essa sua teoria.
Parte 8
No mundo real, o som visceral de carne batendo contra vidro estilhaçado e borracha mágica ecoava ininterruptamente. Eliza e Kiara estavam se destruindo.
Dante assistia à carnificina jogado nos escombros, sentindo a luz verde e morna de Safira se misturar à sua própria regeneração, costurando lentamente seus órgãos internos rompidos.
— Parceiro... — A voz de Sora, agora saindo diretamente pela boca da loli gótica, estava carregada de uma hesitação rara e dolorosa. Ela não costumava recuar de nada.
— Fale logo — Dante grunhiu, os dentes trincados, tentando forçar o corpo a se levantar ignorando as pontadas no peito.
— A magia... não vai rolar — Safira assumiu a comunicação. A voz soava exausta e frustrada através do grimório flutuante. — O feitiço de separação de almas existe, mas... alguma coisa o selou.
A notícia caiu sobre Dante como um golpe de bigorna. Ele paralisou. Por um segundo, a escuridão fria da frustração ameaçou engoli-lo inteiro. Sem a magia, como ele deteria aquela Rainha monstruosa? Como ele salvaria Anna sem matar o corpo que as duas dividiam? A vontade de socar o chão de vidro até as mãos sangrarem e gritar contra o céu era imensa.
Mas ele soltou o ar. Devagar. Uma lufada longa e controlada.
Ele fechou os olhos. O Dante de meses atrás teria se desesperado, xingado o universo e se lançado em um ataque de puro impulso suicida. Mas o Dante de agora... ele já não se entregava ao desespero tão facilmente. Ele não deixaria as paredes se fechando o impedirem de respirar e pensar.
"Resmungar não muda o tabuleiro", ele pensou, forçando a mente a clarear, empurrando o pânico para uma caixa mental. "Eu faço o meu máximo agora com o que tenho. Se for para ficar triste, eu choro depois que a poeira baixar."
— Não esperava por essa calma... — Sora comentou, genuinamente impressionada. — Mas é o mínimo que eu posso pedir daquele que virou meu Parceiro.
— Tá, mas antes de você tentar bancar o herói e voltar para o campo de batalha, eu tenho mais uma péssima notícia — Safira cortou, o tom urgente e desprovido de qualquer brincadeira provocativa, o que tornava tudo infinitamente mais assustador. — Apesar de não ter usado até agora, a Kiara tem uma habilidade Oculta. Pelos registros profundos da Biblioteca, ela pode dar uma Ordem Absoluta ao inimigo. Ela só pode usar uma vez… Mas, o fato de ninguém até agora ter recebido essa ordem... me faz pensar por que ela está segurando essa carta na manga.
Dante congelou. A situação acabara de despencar do penhasco. Era exatamente como naqueles mangás que ele lia, quando o vilão dizia que "ainda não estava lutando a sério" depois de destruir meia cidade. Dante sempre achou que esse tipo de coisa era só provocação da boca pra fora, mas viver aquilo era um pesadelo. Kiara não era apenas invencível fisicamente; ela estava brincando com eles esse tempo todo.
— Mas que merda... assim fica difícil não ficar desesperado, universo... — ele murmurou, o suor frio escorrendo.
Ele analisava a batalha de longe. Tentava encontrar uma microfraqueza no meio da troca de golpes entre as irmãs. Revia sua própria surra, tentando lembrar se havia deixado algo passar. "Vamos, pensa, tem que ter um ponto cego. Ela não pode ser perfeita..."
Ele abriu os olhos, finalmente pronto para forçar o corpo ferido de volta à briga. Mas então, o mundo ao seu redor perdeu o som.
Os gritos furiosos de Eliza sumiram. O barulho das explosões e da carne sendo esmagada evaporou. O cheiro de fumaça, ozônio e sangue metálico foi subitamente substituído por um aroma suave e nostálgico. Flores brancas.
Uma gravidade gentil, quase maternal, puxou a consciência de Dante para baixo, para as profundezas de si mesmo — e da ligação que dividia com ela.
— Dante...
Quando ele abriu os olhos novamente, a guerra não existia.
Ele estava de pé em um espaço infinito e branco. Sob seus pés, não havia vidro, mas um espelho d'água raso, quente e perfeitamente calmo, que refletia um céu azul-escuro salpicado de estrelas cadentes. Ao redor deles, flores brancas luminosas desabrochavam na superfície da água, e portas imensas flutuavam ao longe, girando lentamente no céu.
— Esse lugar... — Dante sussurrou, a voz ecoando suavemente. — É o Mar das Possibilidades. O espaço mental dela.
E ali, a poucos passos de distância, com os pés descalços tocando a água levemente e criando pequenas ondulações nas estrelas refletidas, estava ela.
O coração de Dante falhou uma batida. Fazia tanto tempo. Tanto tempo de sangue, perdas e caminhadas no escuro sem aquela presença. Por alguns segundos, seu cérebro, que antes estava encharcado de adrenalina e táticas de sobrevivência, simplesmente parou de funcionar. Ele continuou respirando, mas ficou ali, congelado em silêncio, absorvendo a imagem.
Anna estava de costas. Seus cabelos loiros caíam soltos e ilesos sobre os ombros, brilhando sob a luz estelar. Ela parecia cansada, os ombros levemente caídos sob um peso invisível, mas a aura que emanava dela não era de desespero; era de uma serenidade madura e profunda.
Ela se virou. Os olhos azuis — límpidos, familiares e cheios de saudade — encontraram os dele bicolores.
— Oi, seu idiota — ela sorriu. Um sorriso pequeno, quebrado, mas absurdamente reconfortante.
A tensão acumulada nos ombros de Dante evaporou instantaneamente. Ele não pensou. Ele não formulou uma frase de efeito. O corpo dele se moveu no automático. Ele cruzou o espelho d'água correndo, espirrando estrelas, e a envolveu em um abraço desesperado, apertado, enterrando o rosto no ombro dela.
— Que droga, loirinha... eu... — Dante tentou falar, a voz embargada. Ele tentou brincar, tentou jogar assunto fora ou até ser sério e dar um relatório. Mas as palavras se formavam e morriam em sua garganta. Tudo o que ele conseguia fazer era apertá-la mais forte, sentindo que ela era real.
Anna devolveu o abraço, os dedos dela agarrando a camisa rasgada dele.
— Eu sei... eu sei... — Anna brincou, a voz falhando, tentando não deixar a seriedade tomar controle do reencontro para não chorar. — Você não consegue viver sem mim, né, seu bebê chorão?
— Hahaha... — Ele riu contra o pescoço dela. Uma risada rouca e genuína. Ele sorriu sem sentir tanta graça na piada, simplesmente porque podia. Porque ela estava ali.
Mas, lentamente, o sorriso dele vacilou. A realidade lá fora exigia atenção. Ele recuou apenas o suficiente para segurar os ombros dela e olhar fundo naqueles olhos azuis.
— Anna, por quê? — O tom dele era sério, investigativo. — Eu conheço você. Você é a garota mais teimosa, irritante e imparável que eu já vi quando quer alguma coisa. O seu Éter é gigantesco. Por que você não expulsa a Kiara da direção? Parece que você nem está lutando para retomar o controle do corpo.
Anna abaixou o olhar. As ondulações na água distorceram o reflexo do céu.
— Eu tentei lutar no começo — Anna confessou, a voz caindo para um sussurro carregado de culpa. — Mas... dividindo o mesmo espaço, a mesma alma... eu vi as memórias dela, Dante. Como se fossem minhas. Eu vi o que ela passou nas mãos de Gehenna. Eu senti o abandono. Eu senti a dor dela rasgando meu peito.
Anna ergueu os olhos novamente. Eles brilhavam com lágrimas não derramadas, pesadas com a empatia de alguém que carrega as cicatrizes de outra pessoa.
— Eu não quero pará-la, Dante. Eu não quero expulsá-la ou destruí-la. — A voz dela ganhou uma firmeza silenciosa. — Eu quero salvá-la.
Dante a observou em silêncio. Ele estudou a expressão de compaixão absoluta no rosto da parceira. Ele sabia que aquela Anna o encarando, aqueles sentimentos absurdos e suicidas sendo ditos... não vinham de nenhuma máscara. Vinham do núcleo do que a tornava quem ela era.
Ele não discutiu. Não listou as atrocidades que Kiara cometeu. Não questionou a falta de lógica tática.
Ele apenas soltou os ombros dela, coçou a nuca bagunçando o próprio cabelo, deu um longo suspiro e sorriu. Aquele sorriso confiante, arrogante e preguiçoso de sempre que dizia que as leis da física poderiam ir para o inferno.
— Tudo bem — disse Dante, dando de ombros como se ela tivesse pedido para ele comprar pão. — Se é isso que você quer, então eu vou salvar aquela delinquente.
Anna piscou, atônita. As bochechas dela ganharam um tom forte de vermelho instantaneamente, contrastando com a palidez do espaço branco.
— O... O que tem de errado com você?! — Anna gaguejou, a serenidade sábia quebrando em mil pedaços enquanto ela cruzava os braços defensivamente, nervosa e envergonhada. — Você não vai nem discutir?! Você não vai me chamar de louca?! Você nem sabe os meus motivos inteiros! Você por acaso ficou mais ingênuo e burro enquanto eu estive fora?!
Dante deu um passo mais perto, a expressão suavizando, transmitindo uma certeza inabalável e silenciosa que fez o coração dela acelerar.
— Não, eu não sei de tudo. Mas eu confio em você. — Ele a olhou nos olhos. — E se você diz que ela merece ser salva, eu não preciso de mais motivos. É simples assim.
O vermelho no rosto de Anna se aprofundou. Ela desviou o olhar para a água, o peito subindo e descendo com uma emoção quente que transbordava. Ser compreendida tão rápida e absolutamente por ele... sem julgamentos, sem condições... fez o peso de chumbo que ela carregava na alma desaparecer.
Ela olhou de volta para ele. O rubor cedeu espaço para um sorriso radiante que parecia iluminar todo aquele espaço mental, ofuscando as estrelas no chão.
— Por algum motivo ridículo, eu sabia que você diria exatamente isso — ela sussurrou, a voz carregada de um carinho incalculável.
Ela estendeu a mão direita e tocou o centro do peito de Dante, bem sobre o coração. O toque foi fisicamente morno. Dante sentiu uma onda de energia pura — o Éter de Anna — sendo transferida para ele através da ligação das almas, enchendo seu núcleo, mesmo que ela soubesse o preço físico que isso cobraria.
— Por favor, Dante — Anna pediu, a luz em seus olhos azuis brilhando com confiança total no garoto à sua frente. — Salve a Kiara dela mesma.
Parte 9
Fora do domínio da mente, onde Dante conversava com Anna, o mundo físico era um moedor de carne implacável. O tempo não parou para esperar por milagres.
BOOM!
O som de ossos estalando e alvenaria cedendo preencheu a arena. Eliza foi ejetada pelo ar como uma boneca de testes, colidindo violentamente contra a base de uma pilastra de mármore destroçada. Uma nuvem de poeira subiu, acompanhada pelo som agoniante do ar sendo expulso de seus pulmões. Ela tossiu, cuspindo uma poça escura e alarmante de sangue sobre o chão de vidro estilhaçado.
Seu vestido, outrora imaculadamente branco, agora era uma tapeçaria encharcada em carmesim. Ela não possuía a regeneração nem a resistência aberrante de Dante, nem a capacidade física elevada de um Cavaleiro Real como Teth. Ela melhor que ninguém sabia que tinha limites. E, no entanto, com as mãos trêmulas e os dentes trincados, ela continuava se empurrando para cima. Ela se recusava a cair.
Kiara não deu fôlego. Um borrão vermelho rasgou a distância e o punho da gigante conectou novamente, mandando Eliza derrapar de costas pelo vidro quebrado, rasgando o que restava do tecido de suas costas.
Mas enquanto Eliza cravava as unhas no chão para frear e limpava o sangue que escorria sobre os olhos, a engrenagem fria de sua mente tática girou.
"Espera...", pensou Eliza, a respiração sibilando por entre os dentes. Ela tocou as costelas laterais. Elas latejavam em agonia, mas... incrivelmente, não estavam em pedaços. "Esses golpes... a pressão do ar antes do impacto é de um furacão. A velocidade é mortal. Mas a força cinética na hora do toque..."
Os olhos de Eliza se estreitaram, focando na postura da irmã em meio à poeira. A resposta estava lá, escondida nas microexpressões do corpo da "Rainha". Por trás daquele olhar frio e assassino, por trás do Éter esmagador, Kiara estava se segurando.
Eliza percebeu o truque: no exato milissegundo antes de cada impacto devastador, os tríceps e dorsais de Kiara sofriam um espasmo. Ela estava travando a própria musculatura. Contra todos os seus instintos de predadora de elite, Kiara estava fazendo um esforço colossal para puxar o freio de mão no último instante e não matar a irmã acidentalmente.
A fúria de Eliza ferveu.
— Você é uma péssima mentirosa! — Eliza rugiu. Usando a própria poça de sangue para deslizar, ela impulsionou o corpo para a frente como uma mola solta, cruzou a guarda da gigante e cravou um soco limpo direto no maxilar de Kiara.
Para a durabilidade da Rainha, o soco físico foi como uma brisa áspera. Mas o peso da frase a atingiu em cheio. Com os olhos levemente arregalados por uma fração de segundo, a máscara gélida de Kiara vacilou.
Antes que Eliza pudesse recuar seu braço, a mão de Kiara disparou como uma víbora, agarrando o pulso estendido da irmã. Kiara não usou força bruta; ela usou a física contra a própria Eliza. Pivotando o pé de apoio, Kiara canalizou a inércia do ataque de Eliza, ergueu a princesa no ar como se ela não pesasse nada e, traçando um arco perfeito por cima do próprio ombro, arremessou o corpo de Eliza violentamente contra o chão do outro lado.
CRASH!
— Não faço ideia do que você está falando. — A voz de Kiara saiu cortante, recompondo a fachada de tirana implacável.
A coreografia que se seguiu foi letal. Antes mesmo de Eliza conseguir rolar para longe, Kiara avançou. Um soco vertical desceu como um martelo de forja direto no estômago da garota caída, afundando no abdômen. O ar abandonou os pulmões de Eliza em um chiado agudo.
Desesperada, Eliza girou o quadril no chão e lançou uma cotovelada reversa visando o joelho de Kiara. A gigante apenas inclinou o corpo milímetros para trás, um desvio minimalista e perfeito, deixando o golpe de Eliza cortar apenas o vento. Sem quebrar o ritmo da dança macabra, Kiara abriu sua guarda, ergueu o punho machucado e esfolado do último confronto, e o desceu em um golpe devastador.
— Cof... cof... Você só faz o que quer e esquece de pedir ajuda!
A voz de Eliza saiu engasgada, os pulmões protestando enquanto ela cuspia uma torrente ininterrupta de sangue escuro no chão destroçado. Mas seu corpo não parou. Usando a poça escarlate para deslizar, ela apoiou as mãos no chão e girou o corpo em uma quebra de breakdance letal. O esmalte rosa endurecido de sua bota esticou-se em uma rasteira elástica e chicoteante, visando decepar as pernas da gigante.
Kiara nem sequer abaixou o olhar. A voz gélida da "Rainha" ecoou acima do zumbido do ataque.
— Desde quando um vilão precisa de ajuda?
Com um movimento displicente e precisão cirúrgica, Kiara ergueu a perna e chutou o ataque elástico de Eliza no meio do ar. O impacto seco ricocheteou o golpe para longe, quebrando a inércia de Eliza e a jogando de costas novamente.
— Acho que você está começando a ficar confusa depois de levar tantos socos na cabeça — Kiara zombou, ajeitando a postura, impenetrável.
— Eu não estou confusa!
Impulsionada por pura força de vontade, Eliza usou o ricochete para dar um salto acrobático, caindo de pé. O rosto estava uma máscara de hematomas e sujeira, e os olhos estavam marejados de lágrimas grossas, mas brilhavam com uma ferocidade predatória. Ela apontou o dedo trêmulo para o rosto da irmã.
— Eu sei que essa sua pose de vilã é uma grande bobagem! Você não mudou nada! Diferente de todo mundo que amadureceu, você continua igualzinha por dentro!
O ar na arena pareceu congelar. Kiara paralisou. Por uma fração mínima de segundo, o Éter opressivo que exalava dela hesitou.
— Você mudou seu rosto... foi pra dentro do corpo de outra pessoa! — Eliza gritou a plenos pulmões, a voz embargada quebrando o silêncio da arena. — Mas continua se achando indigna de salvação! Continua carregando a responsabilidade de salvar o mundo inteirinho nas próprias costas, sofrendo sozinha e se vestindo de monstro para que mais ninguém precise sujar as mãos!
A expressão de Kiara despencou. A máscara de deboche, polida com tanto cuidado, esfarelou-se instantaneamente. O rosto da rainha escureceu, os olhos arregalando-se não em medo físico, mas no puro pânico psicológico de ser lida tão perfeitamente.
Eliza estava falando alto demais. Estava rasgando o roteiro. Estava ameaçando colocar abaixo todo o palco sangrento que Kiara levou tanto tempo para construir.
— Já chega.
Foi um sussurro metálico e mortal. Dessa vez, não houve hesitação muscular. Não houve "freio de mão". Kiara ancorou os pés no chão de vidro, que estilhaçou em teias de aranha sob a pressão. Ela canalizou uma força genuína, obscena e brutal diretamente para o braço direito. A intenção era clara: nocautear Eliza instantaneamente, calando-a antes que outra palavra arruinasse o plano.
Ela disparou. O soco rasgou o espaço, comprimindo o ar à frente dos nós dos dedos até criar um estrondo sônico visível, um anel de vapor estourando ao redor de seu punho. O golpe desceu visando o centro do rosto de Eliza.
CLAAAANG!
A onda de choque varreu a arena, explodindo detritos de vidro e mármore em um raio de dez metros. O vento violento chicoteou o cabelo de Eliza, mas ela sequer piscou. O punho da morte de Kiara estava parado a exatos dois milímetros de seu nariz.
No meio do caminho, uma haste de metal prateado, opaca e absurdamente densa, havia se materializado como um pilar intransponível.
A Terceira Lei de Newton cobrou seu preço imediatamente. A força do impacto monumental de Kiara não teve para onde fluir através do bloqueio perfeito. Sem espaço para absorver a energia cinética, o recuo viajou direto de volta para o braço da agressora.
Os nós dos dedos de Kiara, já severamente castigados pela batalha, não aguentaram. Os nervos e vasos sanguíneos estouraram simultaneamente sob a pele, espirrando uma fina névoa de sangue arterial no ar.
— Ugh... — Kiara rosnou, a dor aguda perfurando seu cérebro. Ela recuou um passo rápido, segurando a mão direita inutilizada e latejante contra o peito, os olhos vermelhos caçando a origem da interferência.
Do meio da poeira levantada pelo impacto, uma silhueta se desenhou, e uma voz carregada de um carisma perigoso e familiar ecoou:
— Zahahahaha... Nem foi me visitar no calabouço, sua ingrata?
A voz perigosa e inconfundível soou. Killian atravessou o teto com seu enorme machado de guerra e armas por todo o corpo.
— Quem te deu permissão para se matar? Eu já disse que vou levar você para o meu navio, então tire essas ideias idiotas da cabeça, Rainha Sem Cabeça.
Ele estava de pé, o sobretudo rasgado balançando ao vento. Ao lado dele, Yuki recuperava sua lança que acabara de bloquear o soco.
Kiara olhou para o homem que revelou verdades e por muito tempo foi seu confidente. O choque inicial foi substituído por um sorriso arrogante.
— Olha só... — Kiara estalou o pescoço. — Então alguém foi realmente capaz de cortar aquelas correntes. Achei que você fosse apodrecer lá embaixo, Killian.
Killian suspirou, coçando a nuca. Ele olhou para a antiga criança que passava os dias conversando com ele, vendo a escuridão que a engolia.
— Dá um tempo, pirralha… — disse Killian, a voz perdendo o tom de brincadeira, tornando-se o sermão de um pai cansado. — Morrer não vai criar um mundo melhor. Ser o bode expiatório do universo só vai deixar todo mundo que te ama quebrado. Pare com isso.
Kiara trincou os dentes.
— Tsk... Vocês já estão falando demais.
Kiara estalou a língua, a irritação vazando pela voz. Mas, por uma fração mínima de segundo, seus olhos vermelhos desviaram do campo de batalha.
No alto das ruínas da praça, camuflados entre os destroços de pedra, cristal e vigas de aço retorcido, dezenas de pequenos gatos feitos de pura sombra a observavam. Seus olhos não piscavam; brilhavam com o foco frio e constante de lentes de câmeras de alta resolução. Eram as criações de espionagem de Schrödinger. E eles estavam transmitindo o fim do mundo, ao vivo e a cores, para todos os telões e dispositivos de Morpheus.
Em milissegundos, o cérebro tático de Kiara rodou a matemática do ambiente. Ela calculou a distância das criaturas, a velocidade do vento uivante e a acústica do pátio estilhaçado, somando tudo isso ao estrondo contínuo das explosões distantes.
O veredito: As câmeras de sombra estavam captando a imagem e a pressão visual de seu Éter monstruoso, mas o som era apenas estática e destruição. Os diálogos sussurrados, os choros e os sermões sentimentais não passavam de ruído abafado.
O palco estava seguro. A transmissão não captaria a verdade. O plano sangrento dela não estava arruinado.
Se o mundo queria ver um monstro, ela daria um show inesquecível.
— Hum... deixa eu te contar um segredo para você, que ficou tanto tempo mofando no escuro, Killian! — Kiara abriu os braços como um maestro diante de uma orquestra caótica.
VHOOOOM.
A contenção acabou. O Éter negro e escarlate de Kiara explodiu de seu corpo não como uma aura, mas como uma erupção vulcânica. A gravidade no pátio pareceu dobrar de peso. O chão de vidro e concreto tremeu violentamente, rachando sob a pressão absoluta da energia pura.
— Ninguém vai sentir falta de um cadáver que voltou apenas para trazer caos! Eu já cortei todos esses antigos laços no segundo em que morri. Tudo o que resta na sua frente é a calamidade... um monstro que vai queimar o mundo até as cinzas se não for detido!
O som do ar rasgando foi a única testemunha de seu movimento. Kiara simplesmente sumiu do campo de visão.
Ela materializou-se a centímetros do rosto de Killian. O humano mal teve tempo de arregalar os olhos antes que o punho de Kiara se enterrasse profundamente em seu estômago. O golpe não apenas o empurrou; criou uma onda de choque cônica que varreu a poeira atrás dele.
Killian dobrou-se ao meio, o ar abandonando seus pulmões com um chiado, e foi ejetado para trás como um projétil de artilharia pesado, voando direto para os degraus massivos do Tribunal.
Mas a experiência do humano gritou mais alto. No meio do voo descontrolado, Killian largou o machado pesado. Em um movimento fluido e desesperado, suas mãos foram para a cintura, sacando duas lâminas gêmeas. Ele girou o corpo no ar e cravou ambas as espadas no chão de concreto vitrificado.
SCREEEEEEECH!
Faíscas alaranjadas voaram como fogos de artifício enquanto as lâminas rasgavam duas trincheiras profundas no chão, agindo como âncoras de freio para deter seu voo a poucos metros de esmagar a espinha na escadaria.
Kiara não teve tempo de admirar a manobra. Um zumbido cortante veio do flanco direito.
Yuki não recuou. Aproveitando o ponto cego criado pelo ataque a Killian, a garota girou a lança em um borrão prateado e disparou como um míssil contra a Rainha.
— Rápida... mas pateticamente previsível — Kiara murmurou.
A ponta da lança mirava perfeitamente a garganta da gigante. Faltando um milímetro para perfurar a pele, Kiara fez um movimento minimalista, girando apenas o ombro direito para trás. A lâmina passou raspando, cortando apenas o vento e alguns fios de cabelo. Usando o próprio eixo da esquiva, Kiara girou o quadril e devolveu um gancho ascendente devastador, pegando Yuki perfeitamente por baixo do queixo.
O impacto lançou a garota para cima. Mas, no breve e violento momento em que os corpos entraram em contato físico, a expressão de Yuki não era de dor. Ela abriu um sorriso elétrico.
BZZZZ-CRACK!
Ela havia usado a própria guarda aberta como isca. Através do contato do punho de Kiara com seu queixo, Yuki descarregou uma onda condensada de milhões de volts de eletricidade estática diretamente no sistema nervoso da Rainha. Um clarão azul e amarelo iluminou a arena, e o cheiro de ozônio empesteou o ar.
— Ngh! — Os dentes de Kiara trincaram. Ela sentiu os músculos do braço direito entrarem em curto-circuito, os nervos fritando e a dormência paralisante subindo até o ombro.
Foi uma armadilha brilhante. Em um oponente normal, aquilo significaria nocaute ou amputação funcional. Mas a dor, para Kiara, era apenas mais carvão na fornalha.
Alimentada por uma fúria brutal e ignorando o braço dormente, Kiara tensionou as pernas e saltou, quebrando o chão e alcançando Yuki no ar antes mesmo que a gravidade começasse a puxar a garota de volta.
A mão esquerda não machucada de Kiara abriu-se como a garra de um falcão e engolfou o rosto de Yuki em pleno voo, apagando sua visão.
Com um impulso descendente, girando o corpo no ar para somar o próprio peso à gravidade, Kiara despencou como um meteoro. Ela aterrissou agachada, afundando a parte de trás da cabeça de Yuki diretamente no concreto vitrificado do chão.
BOOOM!
A cratera que se abriu sob elas fez o pátio inteiro ondular. Pedaços de pedra do tamanho de carros voaram pelos ares.
Lentamente, ignorando a eletricidade residual que ainda estalava em seu braço direito, Kiara ergueu-se de dentro da nuvem de poeira. O Éter negro e vermelho pulsava ao seu redor de forma violenta, girando em um pilar de energia maciça que subia rasgando o céu e se fundindo às nuvens tóxicas de Morpheus.
Os olhos vermelhos não tinham brilho, e seu rosto, manchado com o sangue dos combates anteriores, estava sombreado por uma fúria sombria e divina. Ela estava de pé, imponente, com a mão esquerda ainda cravada no chão onde havia enterrado Yuki. Ela parecia o próprio diabo emergindo do inferno, pisando sobre os heróis caídos.
Lá no alto, as câmeras de Schrödinger filmavam tudo perfeitamente. O quadro do pesadelo estava completo.
Longe do epicentro da destruição, o mundo de Morpheus havia parado.
Nas praças de obcecante simetria das cidades perfeitas de Éden e nos becos sombrios e caóticos de Gehenna, multidões inteiras estavam paralisadas. Telas mágicas colossais, tecidas com fios de Éter puro, pairavam sobre as metrópoles, banhando os rostos erguidos com uma luz fria, oscilante e apocalíptica.
O silêncio era absoluto; a gravidade do desespero parecia esmagar os pulmões de quem assistia.
— Que... que monstro é esse? — sussurrou um nobre Sonho na cidade de Wonder, caindo de joelhos no mármore impecável da praça, as mãos trêmulas cobrindo a boca.
No Distrito da Inveja, o clima não era diferente. Um Pesadelo encostou a cabeça contra um muro de tijolos, os olhos arregalados de terror.
— Merda... é sério que tudo vai acabar assim? Não tem esperança... — ele choramingou, a voz embargada quebrando o silêncio. — Eu achei que a Kiara iria nos salvar... mas ela vai realmente explodir todo mundo?!
Mais ao sul, sob a copa escura da Floresta do Delírio, um refugiado abraçava os próprios joelhos, balançando o corpo em um tique nervoso.
— Alone morreu. Mamon morreu. Aquele humano, o tal Grimm de quem todos falavam... também caiu. Ninguém pode parar essa criatura.
O pânico ameaçava engolir o mundo como um oceano escuro. A figura de Kiara, projetada nas telas em alta definição mágica, não parecia mais um ser vivo. Ela era uma força inevitável da natureza. O fim dos tempos em forma de mulher.
Enquanto isso, na Cidade de Açúcar, o chão cristalizado estalava sob as botas pesadas de um homem encapuzado. Ele caminhava em ritmo apressado em direção à fronteira, mas estacou abruptamente. Ao levantar o rosto, seus olhos, escondidos pelas sombras do capuz grosso, não focaram na rainha absoluta que aterrorizava o globo. Sua atenção foi roubada pela outra combatente. A que se recusava a ficar no chão.
— O que você tá fazendo aí, idiota... — Uzumaki murmurou, um misto de frustração e assombro escapando junto com o ar frio.
Lá no alto, as câmeras mágicas tremeram, reajustando o foco através da fumaça densa do campo de batalha. A imagem centrou-se na garota ao fundo.
Eliza.
Uma Pesadelo. Seu estado era devastador: o corpo estava coberto de sangue, e ela claramente sustentava o próprio peso sobre ossos fraturados. E, no entanto, com as pernas tremendo sob o peso da gravidade e da exaustão, ela cerrou os punhos e mancou para a frente. Em direção ao demônio imparável.
Em um acampamento médico improvisado dos Sonhos, o cheiro de antisséptico misturava-se ao suor frio do medo. Um soldado ferido, cujo coto do braço recém-arrancado pelos monstros de Aslan ainda latejava sob as bandagens, escorregou pela lona da tenda para olhar a tela do lado de fora. Ele piscou, afastando as lágrimas de dor. Ao olhar para Eliza, ele não viu uma inimiga. Não viu a pele mais pálida e o Éter sombrio. Ele viu alguém que estava sangrando e sendo despedaçada pela cidade dele. Pelo mundo dele.
— Levanta... — o soldado sussurrou, a voz rouca arranhando a garganta.
A quilômetros de distância dali, em Isolde, a capital real de Gehenna, um garoto Pesadelo sujo de fuligem cerrou os pequenos punhos contra o peito.
— Não desiste...
O murmúrio ignorou as leis da física e do espaço. Ele viajou pelo vento, espalhando-se como um incêndio em palha seca. Atravessou as fronteiras raciais sólidas que Snow e Teth tanto haviam sangrado para tentar derrubar. A dor e o medo do abismo forjaram uma ponte imediata entre duas espécies que se odiavam.
— Não desista! — gritou um grupo de Sonhos em Éden, os rostos manchados de lágrimas erguidos para o céu.
— ACABA COM ELA! — O rugido explodiu, gutural e massivo, ecoando de milhares de gargantas ao redor do planeta inteiro, fundindo as vozes de Sonhos e Pesadelos em um único coro ensurdecedor. — NÃO DESISTA!
Sem que os combatentes da linha de frente, os Cavaleiros Reais, os Lordes Pesadelos, os humanos convidados ou qualquer um envolvido naquele caos soubesse... aquela batalha sombria e desesperadora não estava criando submissão. Estava criando um laço inexplicável. Uma união global, nunca antes vista na história daquele mundo, forjada contra o medo do poder absoluto de uma única pessoa.
Nenhum estrategista ou deus poderia ter previsto aquele resultado absurdo nascido do puro terror. Ninguém... exceto a própria arquiteta daquele apocalipse.
No centro da destruição, os olhos frios de Kiara brilhavam. Lentamente, os lábios manchados de sangue da tirana se curvaram.
Foi um sorriso. Genuíno, secreto e indescritível.
E, com esse sorriso no rosto, Kiara avançou como um meteoro contra Eliza mais uma vez.
Parte 10
O corpo de Kiara estava em colapso absoluto, e ela não precisava da avaliação de um curandeiro para atestar isso. O diagnóstico vinha de dentro: um concerto macabro de fibras musculares estalando como cabos de aço tensionados além do limite, acompanhado pelo chiado constante do vapor quente que exalava de seus poros.
O sangue fervente escorria de dezenas de lacerações abertas. Engasgada, exausta e operando muito além da falha biológica, ela continuava avançando. Seus passos eram pesados, arrastados como os de um zumbi que a própria terra se recusava a engolir.
E, no entanto, através da espessa cortina de fumaça, suor e dor, ela sorria. Um sorriso largo, rasgado e manchado de vermelho vivo, desenhado para gelar o sangue de qualquer guerreiro são.
A trégua durou apenas um suspiro.
Killian quebrou a inércia. Com a fluidez letal de um mestre assassino, ele sacou da cintura uma espada montante de lâmina negra. O metal não apenas cortava o ar; ele o incendiava, deixando um rastro de chamas escuras e famintas no vácuo. Em sua mão esquerda, empunhada em guarda invertida, uma adaga serrilhada chorava um veneno ácido e esverdeado. As gotas caíam no chão de vidro, derretendo-o instantaneamente com um chiado tóxico.
O ataque foi uma obra-prima de engano tático. Killian desferiu um corte horizontal expansivo com a espada negra, erguendo uma muralha de chamas que cegou a visão frontal de Kiara. Era uma camuflagem para o verdadeiro golpe: uma estocada letal com a adaga ácida, rasgando o fogo em uma trajetória perfeita rumo ao abdômen da Rainha.
Kiara leu a intenção no micromovimento dos ombros dele. Recuar seria morte certa. Esquivar das chamas a colocaria direto na rota da adaga.
Então, ela escolheu a dor.
Kiara deslizou para a frente, engolindo a onda de calor que lambeu e chamuscou seu rosto. Em um movimento seco e suicida, ela interceptou a estocada mortal não com uma arma, mas cruzando o próprio antebraço nu contra o fio da adaga.
TSSSSSSS!
A pele e a carne de Kiara chiaram e borbulharam violentamente. O ácido verde dissolveu seus músculos em segundos, corroendo até quase expor o rádio e a ulna. Mas a armadilha havia se fechado. O braço esquerdo de Killian estava travado. Usando o próprio osso corroído como alavanca, Kiara girou o quadril com uma força torrencial, chicoteando a perna direita em um chute devastador direto nas costelas abertas do veterano.
O impacto estalou como um trovão, quebrando ossos e forçando Killian a derrapar para trás, cuspindo o ar dos pulmões.
Mas o campo de batalha não perdoa pausas. O recuo de Killian abriu perfeitamente o ponto cego de Kiara.
Yuki surgiu do meio da fumaça como um fantasma vingativo. A ponta prateada de sua lança sibilou, rasgando o ar e encontrando carne. A lâmina abriu um talho horizontal raso, porém atroz, no abdômen de Kiara, expondo a musculatura profunda e ameaçando derramar suas entranhas.
Qualquer ser vivo normal dobraria os joelhos em choque. Kiara sequer piscou.
Ignorando o calor das próprias vísceras expostas, ela capitalizou na proximidade da arma. Antes que Yuki pudesse retrair a lança, a mão ensanguentada de Kiara disparou como uma armadilha de urso, agarrando o tecido das vestes da garota com a força de uma prensa hidráulica. Ela puxou Yuki violentamente para si, quebrando a vantagem de alcance da lança, e desferiu uma cabeçada colossal, testa contra testa.
CRACK!
O som da colisão óssea reverberou pelo pátio. Yuki ficou grogue, a visão escurecendo por um segundo crucial, mas seu instinto de sobrevivência era animalesco. Em vez de tentar recuar e recuperar o equilíbrio, Yuki abraçou o caos da inércia. Usando o impulso do próprio puxão de Kiara e o peso da Rainha como âncora, ela plantou as mãos no ar, girou o corpo de cabeça para baixo e disparou um chute de calcanhar descendente — um arco letal em formato de machado — que atingiu o topo do rosto de Kiara em cheio.
O impacto foi o equivalente a um meteoro caindo na terra. A cabeça da Rainha foi esmagada contra o chão vitrificado.
KABOOOOM!
O piso não apenas cedeu; ele afundou, formando uma cratera de três metros de diâmetro, tecida por uma teia de aranha de vidro estilhaçado. Para qualquer entidade biológica, aquele impacto resultaria em uma fratura craniana fatal, pintando o chão com massa encefálica.
A poeira assentou por um milissegundo. E então, do fundo da cratera, o som de uma risada abafada vazou.
Kiara ainda estava sorrindo.
Do meio dos escombros, uma mão coberta de pó e sangue disparou como uma víbora, fechando-se ao redor do tornozelo da perna que Yuki acabara de usar para chutá-la. A trava era inquebrável. Ainda deitada no fundo da cratera, Kiara ativou a força monstruosa de seu core. Ela girou o próprio corpo no chão como um pião de carne e osso, gerando uma força centrífuga absurda, e arremessou a guerreira.
Yuki foi lançada não como uma pessoa, mas como um míssil balístico. Ela voou dezenas de metros pelo ar, rasgando a ventania, até colidir de costas com uma brutalidade ensurdecedora contra a massiva coluna central de cristal do Tribunal. O pilar rachou de cima a baixo com o impacto. Yuki caiu mole no chão, imóvel e inconsciente entre os estilhaços.
O silêncio voltou a pesar na arena.
Lentamente, o monstro se ergueu da cratera. O sangue escuro pingava em um ritmo compassado do nariz quebrado de Kiara, e escorria espesso do supercílio rasgado, cegando metade de sua visão. Ela respirou fundo, o peito arfando pesadamente, enquanto a poeira rodopiava ao seu redor como uma coroa de cinzas.
E, naquele instante de calmaria sangrenta, com o corpo caminhando à beira do precipício absoluto, a mente de Kiara começou a se desligar do presente, viajando inexoravelmente para as sombras de suas memórias.
Ela se lembrou das noites frias de sua infância. Escondida no corredor mal iluminado, ouvia o som abafado de sua mãe, Isobel, chorando no quarto escuro. A imponente Rainha de Gehenna, curvada e quebrada, forçada pelo Rei dos Sonhos a aprovar leis que esmagavam seu próprio povo. Tudo para evitar a aniquilação total. Tudo para pagar o "crime" de ter salvado a própria filha.
Kiara lembrou-se de crescer assistindo às ruas de Gehenna sangrarem. Pessoas famintas, raivosas, implorando aos prantos por uma chance de lutar. E depois, os mesmos rostos, vazios e mortos. Corpos mutilados de pessoas que a amavam, que a chamavam de esperança, e que haviam pagado com a vida pelo simples fato de seguirem a rebeldia dela.
A conclusão a que Kiara chegou naqueles dias sombrios era a mesma que guiava seus punhos moídos hoje:
"Para se mudar o mundo, você precisa levantar os punhos e lutar. Você precisa derramar sangue. Mas... aqueles que escolhem lutar e ficam encharcados de sangue não podem ser os mesmos que mudam o mundo."
A lógica era cruel, mas irrefutável. Para criar um mundo novo, um Vilão precisa destruí-lo até as fundações, abraçando todos os pecados da guerra. E um Herói precisa reconstruí-lo a partir das cinzas, imaculado.
Mas essas duas pessoas jamais poderiam ser a mesma. O arquiteto da paz não pode ter as mãos sujas de massacre.
A mente de Kiara viajava para o passado, mas o mundo real não perdoava distrações.
PAH!
O impacto seco de uma bota contra sua bochecha a arrancou violentamente de suas memórias. A cabeça da Rainha chicoteou para o lado, cuspindo uma espiral de sangue.
Eliza não parou. Usando o momento do chute circular, a princesa girou o corpo e moldou o esmalte rosa em seu punho, cristalizando-o em uma manopla densa e impiedosa. Ela desferiu um cruzado brutal de direita, engatando um gancho de esquerda no rosto de Kiara. O polímero rosa esticou-se como um elástico tensionado ancorado ao chão; Eliza usou a retração para se puxar de volta como um estilingue humano, cravando um quarto e devastador soco direto no centro do peito da gigante.
Foi um combo de quatro golpes perfeitamente coreografado. Perfeito na técnica. Falho na alma.
A força estava lá, mas a intenção assassina havia evaporado. Eliza arfava, os punhos tremendo violentamente, os olhos marejados transbordando por cima da sujeira em seu rosto. Era ela quem estava hesitando agora. A ferida que a princesa sentia latejar não era física; era uma dor interna, profunda e esmagadora, em um lugar onde nenhum feitiço de cura poderia alcançar.
— Chega disso... — A voz de Eliza quebrou em um soluço furioso, os ombros sacudindo. — Eu não quero mais ver você assim!
Kiara abaixou o rosto, os cabelos cobrindo seus olhos sombreados. Seus músculos gritaram de agonia quando ela forçou o próprio corpo destroçado a se mover mais uma vez.
— Se não consegue me matar... — A voz da Rainha soou rouca, engasgada com o próprio sangue. Ela girou o quadril e desferiu um soco pesado, sem técnica, apenas força bruta, no abdômen de Eliza. — Então fique no chão e abra espaço para outra pessoa!
O impacto ejetou a princesa pelo ar, lançando-a para longe do centro da carnificina. O movimento brusco cobrou seu preço: as feridas abertas de Kiara rasgaram-se ainda mais. Um gemido surdo — Ugh! — escapou de seus lábios enquanto ela cambaleava para trás, segurando as próprias costelas fraturadas.
— Acabou a brincadeira, pirralha.
A voz grave, cansada e terrivelmente triste ecoou pelo pátio estilhaçado. Killian caminhava até ela. O antigo guerreiro havia descartado as espadas curtas. Em suas mãos calejadas, repousava o peso massivo de seu velho e confiável machado de guerra, a lâmina arrastando no chão e soltando faíscas que morriam no escuro.
Ele não a olhava com a fúria cega de um justiceiro. Ele a olhava com a expressão pesada de um pai que assiste à filha destruindo a si mesma.
— Sei que deve estar doendo. — Killian parou a poucos metros, os olhos fixos na figura curvada da garota. — Sei que não deve estar dando nem pra respirar...
Kiara forçou um sorriso torto, quase patético. As pernas dela tremiam loucamente, mal sustentando o peso dos próprios ossos. Com um esforço titânico para manter o teatro de tirana, ela esticou o braço ferido, limpou o sangue que escorria do queixo com as costas da mão e lambeu o líquido carmesim dos nós dos dedos.
— Não tenho... nem ideia... do que você está falando. — A voz dela falhou miseravelmente, desmanchando a pose de invencibilidade. — Acha que esses machucados leves são o suficiente pra me deter?
Killian abaixou o olhar por uma fração de segundo. A tristeza parecia envelhecê-lo dez anos ali mesmo.
— Eu não estou falando dessa dor, pirralha...
A frase foi um golpe de misericórdia direto na alma. Kiara vacilou. Seus joelhos finalmente cederam, tremendo e dobrando sob a pressão insuportável da culpa e da dor.
Mas Kiara não caiu.
O cérebro dela, treinado no inferno, transformou a falha muscular em energia cinética pura. Em vez de desabar de joelhos, ela usou o colapso para empurrar o chão de vidro, convertendo a queda em um avanço explosivo, irracional e desesperado na direção do gigante.
Killian reagiu por puro instinto militar. Ele saltou. A gravidade e os músculos veteranos trabalharam em perfeita sincronia para descarregar a força de um desastre natural. O machado colossal desceu, rasgando o ar com um uivo aterrador.
SHLACK!
A lâmina afundou fundo no ombro esquerdo de Kiara, partindo a clavícula ao meio e levantando um gêiser de sangue arterial que choveu sobre o rosto de ambos.
Kiara não gritou. Os olhos dela se arregalaram, as pupilas retraídas até virarem pontinhos negros na imensidão escarlate. O corte letal não foi o fim; foi o gatilho da bomba.
A aura dela explodiu. Não era mais o Éter padrão que os Lordes conheciam. Era o caos puro, destilado da própria alma corrompida. Uma tempestade carmesim irrompeu de seu corpo. Das gotas de sangue suspensas no ar, milhares de "borboletas" de Éter vermelho se materializaram. Elas batiam asas afiadas, devorando a luz do ambiente e mergulhando a arena em uma penumbra rubra, sufocante e opressora.
Em um ato de insanidade tática, Kiara não tentou recuar para se livrar do machado; ela avançou contra a lâmina.
A carne de seu ombro rasgou-se atrozmente, o aço afundando em direção ao peito, mas a manobra bizarra anulou a distância entre eles. Killian arregalou os olhos. Pego de surpresa pela investida suicida, ele soltou uma das mãos do cabo e tentou usar a haste grossa do machado como um escudo improvisado para bloquear o soco que a garota engatilhava de baixo para cima.
KABOOOOM!
O punho direito de Kiara colidiu com o centro da haste. O metal etéreo de Killian, moldado para ser a liga mais densa e indestrutível que ele podia forjar, suportou a pressão divina por um milissegundo. Então, estilhaçou-se como o vidro de uma janela barata, explodindo em centenas de fragmentos afiados.
Sem quebrar o ritmo, sem hesitar por uma fração de segundo sequer diante da própria dor, Kiara engatou o segundo soco. A força cinética era um absurdo físico. Os estilhaços da arma destruída formaram uma nuvem de navalhas voadoras. O punho de Kiara atravessou a tempestade metálica de propósito. Os fragmentos perfuraram a carne de seu braço, rasgaram seus tendões e esfolaram seus nós dos dedos até revelar o osso branco.
Mas o golpe não parou. O punho estraçalhado de Kiara afundou como uma britadeira pneumática direto no estômago desprotegido de Killian.
As costas do Grim estalaram de forma doentia. Ele cuspiu uma nuvem de sangue. Seus pés saíram do chão enquanto a onda de choque do impacto criava uma pequena cratera no vácuo atrás dele. Killian foi ejetado horizontalmente, cruzando a arena como um cometa em queda livre.
CRASH! CRASH! CRASH!
Ele perfurou três pesadas paredes de concreto do pátio em sequência ininterrupta, até desaparecer sob uma montanha de escombros e poeira espessa.
No epicentro da tempestade de borboletas de luz vermelha, Kiara abaixou o braço direito. O membro era agora uma massa grotesca de carne retalhada, sangue escuro e estilhaços de vidro encravados. A dor era inimaginável, beirando a perda de consciência. Mas não importava.
Seus olhos vazios fitavam a poeira abaixando ao longe.
O roteiro que ela mesma havia escrito com o próprio sangue estava quase no fim.
"Neste mundo...", ela pensou, a respiração falhando enquanto olhava para a carnificina ao redor. "...onde todos acreditam cegamente no Rei. Onde tudo o que Ele faz é considerado correto, e até mesmo seus maiores pecados são perdoados por uma história covarde... apenas a própria criação d'Ele poderia destruir o seu legado."
Em um mundo rachado ao meio, dividido eternamente pela guerra entre Sonhos e Pesadelos, apenas uma existência que pertencesse a ambos — um híbrido renegado, uma abominação — poderia se tornar a bandeira de destruição máxima. Alguém terrível o bastante para obrigar as duas raças a esquecerem suas diferenças e se unirem pelo puro, simples e primitivo medo e ódio contra ela.
A lógica enferrujada daquele mundo estava finalmente desmoronando. O Velho Rei estava em xeque. O Vilão Definitivo estava no auge de seu terror, televisionado ao vivo para cada alma no planeta.
O palco estava limpo. A escuridão era total.
Agora, um Herói ainda maior precisava surgir das cinzas. Alguém com a luz necessária para ofuscar o fim do mundo, abatê-la, e receber a coroa que recriaria Morpheus.



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