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The Fall of the Stars: Capítulo 10 - A Escadaria para o Céu

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 20 de fev
  • 64 min de leitura

Volume 10 : Laços de Sangue


Parte 1

O Grande Tribunal, outrora o símbolo máximo e inabalável da ordem e da justiça do Velho Rei, não passava agora de um cemitério de ambições estraçalhadas.

O vasto pátio frontal, que Alone havia transformado em um espelho de vidro vitrificado horas antes, havia sido reduzido a um deserto de poeira cintilante e letal. A cada rajada do vento tóxico de Gehenna, a poeira de vidro subia como uma névoa brilhante que cortava a pele, misturando-se à fumaça escura das explosões e ao cheiro espesso, acobreado e quente de sangue que impregnava o ar.

A carnificina havia cobrado sua taxa com juros. A resistência estava fisicamente esmagada.

Nas escadarias mutiladas de mármore, Killian jazia semienterrado sob os escombros. O formidável guerreiro do passado, cujo Éter negro costumava engolir exércitos inteiros, estava reduzido a uma estátua quebrada. Seu machado lendário fora estilhaçado; seu sobretudo estava em farrapos carbonizados, e sua respiração era um chiado tão superficial que mal erguia o peito largo. A poucos metros dali, caída aos pés da grande coluna central de cristal rachada, Yuki permanecia imóvel. A lança partida repousava ao seu lado, enquanto a garota mergulhava na inconsciência pesada que seu próprio cérebro exigiu para que ela não morresse de choque traumático.

Eles haviam dado tudo. Fizeram o impossível sangrar. E, ainda assim, não foi o suficiente.

No meio do silêncio opressor da poeira vítrea, um som úmido, áspero e patético ecoou. Crrk. Crrrrk. Era o som do arrastar de uma bota destruída no chão de vidro.

Eliza tentou dar mais um passo.

Seu vestido de princesa, outrora imaculado e leve, estava pesado, encharcado de um vermelho escuro e grudento. O "esmalte" rosa de sua habilidade mágica, que deveria protegê-la, havia se despedaçado e sumido de sua pele. Ela forçou a perna direita para a frente, mas a biologia cobrou a conta. O fêmur estalou em um protesto doentio. Os músculos de suas coxas, levados violentamente além do limite suportável, entraram em falência total.

As pernas de Eliza simplesmente deixaram de existir como apoio. Ela caiu de joelhos sobre a poeira de vidro, o impacto rasgando o pouco de pele intacta que lhe restava nas pernas.

— Não... — ela sussurrou. A voz falhou, rouca, arranhada por engolir sangue e cinzas. — Kiara...

Eliza plantou as mãos trêmulas no chão afiado, tentando empurrar o próprio peso para levantar de novo. Seus braços tremeram violentamente sob a tensão e, sem aviso, desabaram.

Ela caiu de bruços na poeira cortante. As lágrimas, quentes e amargas, abriram caminhos limpos em seu rosto sujo de fuligem e sangue seco. Eliza não chorava pela dor dos ossos quebrados ou pelos cortes profundos que ardiam em sua pele. Ela chorava pela agonia paralisante, sufocante e absoluta da impotência. Ela estava ali. A poucos metros da irmã que queria desesperadamente salvar. Mas o abismo invisível entre elas era intransponível. Ela não conseguia alcançá-la. Não conseguia pará-la.

E, no epicentro de toda aquela desolação, como o pino sombrio que segurava o mundo inteiro no lugar, erguia-se a causa de todo o desespero.

Kiara estava de pé.

Olhar para ela era uma ofensa direta à medicina, à biologia e à própria magia. A Rainha não era mais uma guerreira intacta; ela era uma colcha de retalhos macabra, costurada de maneira aterrorizante pela própria violência que havia absorvido.

Metade de seu rosto estava coberta por uma máscara grossa de sangue seco e fresco. O olho esquerdo estava completamente inchado e fechado por hematomas roxos. Feridas profundas rasgavam seu abdômen e ombros, tão severas que as fibras musculares pulsantes e os nervos expostos podiam ser vistos ao ar livre, tremendo a cada lufada de vento tóxico.

Para qualquer pessoa com o mínimo de bom senso, aquela cena só poderia ser a de um cadáver posicionado de pé. Ninguém aceitaria que aquela coisa retalhada, parada no meio do Tribunal em ruínas, realmente estivesse viva. Mas, contrariando a morte, o coração dela — que já deveria ter parado por hipovolemia — continuava batendo em um ritmo de guerra. Seus pulmões, que não deveriam ter força estrutural para puxar o ar, inflavam e desinflavam com um chiado úmido.

Em um mundo onde as leis da realidade se curvaram ao Éter, a Vontade dominava a Verdade. Através de uma vontade brutal, era possível transcender as barreiras do possível. E aquela garota, naquele exato momento, possuía uma vontade que assassinava qualquer razão matemática.

Ela se mantinha de pé, sustentada por "aparelhos biológicos invisíveis" feitos puramente de força de vontade e loucura estrutural. Uma teimosia divina que se recusava sumariamente a deixar o corpo cair antes que o roteiro estivesse concluído.

Ela ergueu o queixo quebrado para o céu. Seu único olho bom encarou o vazio, olhando diretamente para os gatos invisíveis de Schrödinger que orbitavam a arena, transmitindo sua imagem bestial e arruinada para cada tela, cada praça e cada canto de Morpheus.

E então, através da máscara de sangue e de uma dor que enlouqueceria deuses, Kiara sorriu.

Era um sorriso aterrorizante. Desprovido de qualquer traço de sanidade, mas transbordando uma paz inabalável e doentia. A paz silenciosa de quem finalmente chegou à última página, ao último ato da tragédia que escreveu sozinha, com o próprio sangue.

A encarnação do mal estava pronta e em exibição. O mundo inteiro a repudiava. O mundo inteiro a temia. O ódio inato de Sonhos e Pesadelos, pela primeira vez na história daquele universo quebrado, estava unificado, costurado e direcionado a um único alvo de carne e osso.

— Finalmente... — sussurrou Kiara, a voz rouca ecoando pelos transmissores, arrepiando a espinha de bilhões de espectadores. — O clímax está chegando.

Parte 2

A poeira de vidro rodopiou em pequenos tornados quando as botas de Dante pisaram com firmeza no pátio estilhaçado.

Ele caminhava com os ombros relaxados, a cauda negra balançando lentamente atrás de si como um pêndulo. A cada passo que dava, o vapor verde e vermelho subia de seu corpo; as feridas internas brutais que Kiara lhe causara minutos antes estavam sibilando enquanto se fechavam.

— Parceiro... — A voz de Sora ecoou na mente dele. O tom analítico da espírito-arma estava misturado a uma apreensão rara. — Você recuperou boa parte do seu Éter graças à transferência da Anna. Com esse combustível de sobra, se você ativar a Forma de Seraphim agora, acho que consegue sustentá-la por uns dez minutos antes do seu corpo entrar em colapso celular irreversível.

Dante não parou de andar. O vidro estalava sob suas solas. Seus olhos heterocromáticos estavam fixos na figura mutilada no centro da praça.

— Não vou usar aquilo... — Dante respondeu mentalmente, o tom grave, rejeitando a ideia de imediato. — A Forma Seraphim é feita para incinerar. Meu objetivo é salvá-la... sem falar que não sei se apenas jogar mais poder de ataque no problema vai resolver alguma coisa contra a durabilidade dela.

Kiara estava sentada sobre um bloco de mármore caído, recostada como se estivesse em um trono de ruínas e cinzas. O sangue pingava de seu queixo, formando uma poça escura e espessa no vidro. Quando Dante se aproximou, ela soltou uma risada fraca, gorgolejante.

— Você sempre aparece nas piores horas, Zumbi... — Kiara provocou. A voz falhava, rasgando a garganta, mas o desdém continuava afiado como navalha. — Já não passou da hora de você aceitar o roteiro e ficar no chão?

Dante parou a dez metros dela. Ele ergueu a mão machucada e apontou o dedo para a Rainha.

— Você não tem muita moral para me chamar de zumbi hoje — Dante retrucou, a respiração ainda pesada. — Olha para você, Kiara. Você tá parecendo um quebra-cabeça que alguém montou no escuro, chutou, e depois tentou colar com fita crepe.

— Dante... a Kiara está nas últimas! — A voz de Safira surgiu no grimório flutuante, ansiosa e incrédula com as leituras que via. — O corpo dela tá quase caindo por causa do próprio peso! Por que você está hesitando? Um peteleco bem dado e nós vencemos a guerra sem matar ela!

— Tá sonhando... para onde você tá olhando, afinal? — Dante cortou a conselheira, mantendo a respiração lenta e controlada. — Olha bem para a aura dela, para os olhos daquele mini monstro.

Safira e Sora ajustaram seus sensores de Éter. E então, as duas estremeceram.

O corpo de Kiara estava destruído, mas a ambição assassina que emanava de sua alma não havia diminuído um único grau. Pelo contrário. Estava hiperconcentrada. Era tão densa e afiada que o ar ao redor da garota parecia pesar toneladas. Dante sabia a verdade nua e crua: se ele subestimasse aquela garota por um único segundo por causa de seus ferimentos... se sentisse pena e aliviasse a força de um soco sequer... ela arrancaria o coração dele do peito antes que ele pudesse piscar.

— Rainha... princesa... rebelde... delinquente... — Dante enumerou, a voz entrecortada pelas próprias respirações pesadas. — Tô começando a me questionar se você, no fundo, não é só algum tipo de monstro teimoso.

Hahahaha...

Kiara sorriu. Mas dessa vez, não foi o sorriso cruel de uma Rainha das Sombras, nem o sorriso sádico de quem ama a dor. Foi um sorriso genuíno, suave e quase melancólico. O sentimento que fluía através dela não era seu. Aquele carinho morno, aquela familiaridade absurda... vinha de Anna. Eram os resquícios do contato de Anna com Dante espirrando na alma de Kiara. Ela sabia que a emoção não lhe pertencia, mas era tragicamente engraçado como conseguia tranquilizá-la no meio do apocalipse.

— Sabe... — Kiara sussurrou, olhando para os próprios pés ensanguentados. — Talvez uma parte de mim esteja torcendo... para que seja você quem me mate... acho que não seria tão ruim.

— Vira essa boca pra lá... — Dante praguejou, cerrando os punhos.

Ele estava preso no paradoxo perfeito do caçador. Para salvá-la, ele precisava lutar com a intenção absoluta de matar, ou seria morto no processo. Mas mesmo atacando para destruir, ele precisava manifestar um poder feito para proteger.

— Eu disse para a Anna que ia te salvar de você mesma, sua loira delinquente — Dante declarou em voz alta, a determinação calando o vento. Ele levou a mão esquerda até o braço direito, que estava firmemente enfaixado. — E eu não costumo quebrar promessas. O seu roteiro trágico acaba aqui.

Kiara estreitou o olho bom.

— Salvar? — Ela cuspiu sangue, o sorriso predatório retornando rapidamente para esconder a vulnerabilidade. — Não seja arrogante, humano. Não há salvação para o Vilão. Só a lâmina fria do carrasco.

— Ha! Muito fácil. Então está me dizendo que, como sempre... eu só vou ter que quebrar as regras do jogo.

Dante puxou o tecido. As faixas grossas que cobriam e selavam seu braço direito rasgaram-se e caíram no chão de vidro.

A pele sob elas não era humana. Era de um negro abissal, profundo como o espaço sem estrelas. E, no exato instante em que foi exposto ao ar de Morpheus, marcas que lembravam tatuagens tribais acenderam-se ao longo de todo o membro. Elas brilhavam em um vermelho carmesim, pulsando no mesmo ritmo de seu coração, como veias bombeando magma.

A Autoridade da Possibilidade despertou.

O mundo ao redor de Dante pareceu desacelerar até quase parar. O barulho do vento sumiu. O chiado das chamas parou. A mente de Dante foi arrancada do corpo e puxada para o "Mar de Possibilidades".

Ele se viu flutuando em um espaço infinito pontilhado por incontáveis estrelas brilhantes. Cada estrela ali representava um futuro divergente, uma arma conceitual, uma forma física, um milagre que seu braço direito poderia puxar para a realidade. Foi igual à sua luta anterior contra Daemon. Ele já sabia como aquela Autoridade funcionava. Assim como um ser humano não precisa de um manual de instruções para respirar, Dante sabia exatamente o que tinha que fazer.

"Eu não quero destruir", Dante pensou, estendendo a mão negra e vermelha para o oceano de estrelas. "Eu quero poder... para salvá-la."

Uma estrela específica no infinito brilhou mais forte que as outras, respondendo ao desejo singular e paradoxal de sua alma. Dante fechou a mão negra ao redor dela.

O tempo voltou a correr na realidade com um estrondo de vácuo implodindo.

O Éter ao redor de Dante não explodiu para fora em uma demonstração de força; ele implodiu, moldando-se cirurgicamente sobre o corpo dele. As roupas esfarrapadas que ele usava foram desintegradas e substituídas em um flash contínuo de luz carmesim e negra.

Quando a luz baixou, Dante estava diferente.

Ele não era um monstro demoníaco, nem um serafim divino incandescente. Ele usava um traje de combate techwear ninja. A roupa era escura, fosca e ajustada perfeitamente ao corpo para não criar arrasto, maximizando uma agilidade absurda. Placas leves de armadura balística protegiam apenas os pontos vitais essenciais, priorizando mobilidade. Em suas mãos, as manoplas de Sora haviam se adaptado, assumindo um formato mais aerodinâmico e liso, com garras curtas feitas para agarrar e desarmar, não para perfurar.

Mas o que mais chamava a atenção era o que estava enrolado em seu pescoço.

Um longo cachecol vermelho-sangue, cujas pontas flutuavam no vento tóxico desafiando a gravidade, como se tivessem vida própria. No tecido rubro e esvoaçante, detalhes delicados de pétalas de sakura pretas estavam bordados por toda a extensão, um contraste poético com a violência ao redor.

Dante puxou o tecido do cachecol vermelho para cima, cobrindo metade do rosto, deixando visíveis apenas os cabelos bicolores e os olhos heterocromáticos que brilhavam com uma determinação implacável.

— Tá na hora do round três. — A voz de Dante soou abafada pelo tecido, mas incrivelmente resoluta. Ele assumiu uma base de combate baixa, perfeitamente equilibrada. — E dessa vez... ninguém morre no final.

Parte 3

Depois de fazer sua declaração solene, envolto em seu novo traje tático, o silêncio que se seguiu no pátio destruído foi quebrado por uma tosse úmida, que rapidamente se transformou em uma gargalhada rouca e dolorosa.

Kiara riu. Ela riu tanto que o sangue escorreu do canto de seus lábios rachados, manchando seus dentes de vermelho.

— Um cachecol? — Kiara apontou para o tecido esvoaçante, a voz embargada pelo deboche e pela exaustão. — O mundo acabando, o céu literalmente caindo sobre as nossas cabeças... e a arma final que você puxa do Mar de Possibilidades é um pedaço de pano estiloso? Sério, Dante? Você vai me enforcar com moda?

Até mesmo as ferramentas espirituais de Dante, normalmente inabaláveis, hesitaram na mente dele.

— Mestre... me diz que isso tem lasers acoplados ou espinhos de plasma escondidos na costura — Safira comentou, a voz saindo do grimório com um tom de puro ceticismo. — O trauma na sua cabeça foi tão forte assim? A gente tá lutando contra um tanque de guerra biológico!

Dante não se alterou. Seus olhos heterocromáticos, semicerrados por cima do tecido rubro, permaneceram calmos, frios e cirurgicamente focados. Ele levou as duas mãos enluvadas até as pontas do cachecol vermelho-sangue, segurando o tecido macio onde as pétalas de sakura pretas estavam bordadas com perfeição.

— Vamos lá, Sora! A segunda parte da equação fica com você! — Dante declarou em voz alta.

— Ah, mas que trabalheira... — A voz de Sora ecoou das manoplas aerodinâmicas. — Bom, se é isso que meu Parceiro louco quer, vou ter que dar meu máximo para a alfaiataria funcionar!

Os circuitos vermelhos nas luvas de Dante começaram a brilhar intensamente, sugando uma fração de seu sangue e Éter para sincronizar as duas ferramentas espirituais em uma única rede neural.

— Personoarma: Liberar. — Os dois falaram em uníssono.

O Éter carmesim e dourado de Dante invadiu as fibras do cachecol. O tecido emitiu um brilho interno intenso, pulsando como um coração recém-nascido.

Duas borboletas de Éter vermelho materializaram-se do nada, voando graciosamente ao redor de Dante. Ele sentiu um toque frio e familiar em seu ombro e uma presença quente roçando sua perna. A vontade residual de Nero e Kuro — fantasmas do passado — bateu as asas ao redor do rosto de Dante antes de se dissipar no ar tóxico como poeira estelar.

O sorriso de Kiara sumiu instantaneamente. Seus olhos se arregalaram. O escárnio morreu em sua garganta.

— Então você também carrega a vontade daqueles que já se foram — Kiara murmurou, a arrogância dando lugar a um choque frio.

— Foi mal a demora pra me vestir, Kiara. — Dante flexionou os joelhos. — Mas o aquecimento acabou.

Dante desapareceu.

Ele foi tão absurdamente rápido que não houve deslocamento de ar, apenas o vácuo de onde ele estava. Parecia um teletransporte puro. Antes que a retina geneticamente aprimorada de Kiara pudesse registrar o movimento, Dante já estava agachado na frente dela, a centímetros de distância, ignorando completamente o alcance dos braços dela.

Kiara tentou cruzar os braços instintivamente para defender o rosto e o peito, mas a agilidade de Dante agora era fluida, desprovida de força bruta desperdiçada. Ele deslizou por baixo da guarda falha da Rainha como água passando por pedras.

"Droga, ele também está usando o Deus da Velocidade nessa forma?!", Kiara pensou em pânico, tentando inutilmente reposicionar o bloqueio.

A palma de sua mão direita aberta, revestida pela luva tática de Sora, atingiu o centro do esterno de Kiara. Não foi um soco; foi um empurrão concentrado.

BAM!

A força cinética foi monstruosa. A onda de choque estourou nas costas da Rainha. Kiara foi arremessada como um míssil balístico, seus calcanhares rasgando o chão de vidro até colidir violentamente com a base da parede remanescente do Tribunal. Uma cratera de teia de aranha se formou ao redor dela no concreto, pedras de mármore desabando sobre seu corpo já quebrado.

Dante se levantou lentamente da postura agachada. O cachecol flutuava ao redor dele com vida própria, as pontas longas se movendo no ar como serpentes naja atentas a qualquer movimento.

— Exatamente, milorde. Concentre-se apenas em se mover e atacar os pontos cegos. O resto da defesa e do controle de campo... eu farei pelas sombras.

A voz que soou na mente de Dante era nova. Era feminina, profunda, solene, carregada com a formalidade rígida e a disciplina letal de um samurai da era feudal.

"Ai... acho que o mais estranho dessa vida maluca... é que já tô começando a me acostumar a ter vozes morando na minha cabeça...", Dante pensou, sorrindo por baixo do tecido que cobria seu rosto. "Vamos mostrar pra ela o que um 'pedaço de pano' pode fazer."

KABOOOOM!

A montanha de escombros não apenas caiu; ela foi ejetada para todas as direções com violência. Kiara explodiu de dentro das ruínas com um rugido gutural que rasgou a própria acústica da arena.

O Éter carmesim e negro já não fluía como uma aura; ele vazava violentamente de suas dezenas de ferimentos abertos, espirrando para trás como a fumaça tóxica de um motor a jato superaquecido, à beira da fusão nuclear.

A dor e a fúria haviam engolido qualquer traço de tática. Ela não ziguezagueou. Ela não buscou pontos cegos. Kiara rasgou a distância em uma linha reta obliteradora, os calcanhares transformando o concreto em pó a cada passo. O braço direito estava puxado para trás, os músculos retorcidos em espasmos antinaturais, acumulando toda a força cinética de um aríete de cerco. Era um golpe suicida, ignorando completamente sua própria defesa em prol da aniquilação mútua.

Dante, no entanto, não recuou um único milímetro. Ele sequer piscou. Seus pés continuaram plantados na tempestade de detritos que a aproximação dela levantava.

O tempo pareceu congelar quando o punho ensanguentado de Kiara cruzou o ar, a pressão atmosférica já distorcendo o espaço a meros milissegundos de esmagar o rosto de Dante.

Mas, antes que o impacto ocorresse, o longo cachecol vermelho ao redor do pescoço do garoto ganhou vida. E ele não precisou de ordens.

— Além disso, milorde... gostaria que me chamasse de Asuka.

O tecido vivo disparou da nuca de Dante como uma víbora escarlate. Ele não apenas se expandiu; ele se multiplicou. Em uma fração de segundo, as fibras se desdobraram e se entrelaçaram sobre si mesmas em alta velocidade, formando um origami geométrico e complexo no ar, semelhante a dezenas de hexágonos se encaixando.

No exato momento do impacto, as fibras vermelhas brilharam com um tom metálico e endureceram instantaneamente, travando a estrutura em um escudo rígido, espesso e multifacetado, flutuando a centímetros do nariz de Dante.

CLAAAAANG!

A onda de choque varreu a arena, explodindo o chão em um raio de cinco metros ao redor deles. Mas o som do impacto foi surreal. Não houve o rasgar de algodão ou seda. O estrondo ecoou agudo e ensurdecedor, como o impacto de um martelo de forja titânico descendo sobre uma bigorna de aço naval.

— O quê?! — Os olhos vermelhos de Kiara se arregalaram.

A inércia de seu corpo foi freada abruptamente a zero. A força colossal que ela tentou transferir não perfurou a barreira; ela ricocheteou. Kiara sentiu os ossos do próprio braço estalarem em microfraturas com o coice do próprio soco, a dor lancinante forçando-a a travar os dentes.

Atrás da barreira, a poeira mal tocou o cabelo de Dante. Ele ergueu as sobrancelhas, genuinamente chocado ao ver o punho da Rainha — o mesmo punho que havia destruído as armas de Killian — parado por uma peça de roupa.

— Conseguiu bloquear a força total dela de frente?! — Dante murmurou, sentindo a densidade absurda e inamovível flutuando diante de si.

Faíscas de energia eletromagnética vermelha começaram a saltar entre as dobras do escudo escarlate, como se a barreira estivesse "respirando" a aura do próprio Dante.

— Os fios que compõem minha matriz não são simples algodão. Possuem ligas de ferro e tungstênio tecidas em nível submolecular, milorde — a voz de Asuka ressoou novamente. Desta vez, havia um inegável tom de orgulho por baixo da frieza. — Quando essa estrutura balística de alta densidade se entrelaça e é alimentada pelo seu reforço de Éter eletromagnético... o resultado transcende a matéria comum. Formamos uma barreira física e energética de Classe S.

Kiara cambaleou meio passo para trás, ofegante, olhando para o escudo vermelho intacto que agora zumbia com eletricidade estática. A brincadeira tinha acabado, e a verdadeira parede havia se erguido.

— Ferro e tungstênio... — Os olhos de Dante brilharam, a mente processando a física da arma instantaneamente. Ele não ficou parado atrás da barreira admirando a obra. — Entendi a jogada!

Faíscas de plasma vermelho crepitaram ao redor dos dedos do garoto. Usando sua manipulação passiva de eletromagnetismo, Dante magnetizou a estrutura submolecular de Asuka. O tecido rígido obedeceu ao comando invisível; a barreira hexagonal desfez-se em um estalo e chicoteou para a frente como uma víbora escarlate. Guiada pelo campo magnético, a ponta do cachecol deu três voltas ao redor do braço esquerdo de Kiara em uma fração de segundo, travando-se com o som metálico de cabos de aço sendo esticados até o limite.

Ela estava ancorada em uma corrente inquebrável.

Simultaneamente, o restante do comprimento do cachecol retraiu. A fita vermelha serpenteou por baixo da manga direita de Dante, envolvendo seu braço até o ombro em uma espiral absurdamente tensa. O tecido não era apenas uma armadura; moldou-se como um exoesqueleto muscular artificial. A liga de tungstênio contraía e expandia em sincronia com os feixes de eletromagnetismo, ignorando a biologia humana, a fadiga e os limites ósseos, multiplicando a força de tração e torção do braço de Dante em dez vezes.

Com um puxão violento e calculado na "corrente" do cachecol, Dante destruiu a coisa mais importante no corpo a corpo: o centro de gravidade do oponente.

Kiara foi arrancada do lugar, tropeçando para a frente sem base de apoio. Dante pisou duro no vidro, girou o quadril e disparou o braço direito biônico. Um soco reto, curto e brutal. A força mecânica da manopla escarlate afundou direto na costela flutuante da Rainha.

CRAAACK!

O som do osso partindo foi abafado pelo chiado do ar sendo expulso dos pulmões da gigante. Ela engasgou, cuspindo uma torrente de sangue fresco.

Mas a fúria cega não desiste fácil. Movida por puro ódio e dor, Kiara tentou um contra-ataque desesperado: um chute frontal rápido e letal visando a virilha do garoto.

A mente de Dante já estava três passos à frente. Com um movimento minimalista, ele ergueu o joelho para bloquear a canela dela, matando o chute na raiz. Aproveitando a guarda totalmente aberta de Kiara, ele abriu a mão direita reforçada por Asuka e espalmou o centro do peito da Rainha, bem sobre o esterno, onde o coração lutava para bater sob a pele ferida.

— Descarga.

A ordem foi fria. O eletromagnetismo acumulado na malha de ferro de Asuka reagiu violentamente ao plasma latente de Dante. Não foi um soco; foi um desfibrilador armado como uma granada. Uma explosão de estática vermelha de altíssima voltagem disparou à queima-roupa. A corrente elétrica ignorou os músculos, penetrando a pele e fritando direto no sistema nervoso central de Kiara.

A Rainha soltou um grito rasgado. Suas sinapses entraram em curto-circuito, os músculos sofrendo convulsões grotescas enquanto ela era ejetada pelo ar. Ela quicou e rolou pelo chão de vidro estilhaçado, fumaça preta e ozônio subindo de suas roupas e da boca entreaberta.

Mas o ar não teve tempo de esfriar. Dante não ia dar espaço para ela respirar.

Ele se tornou um borrão negro, vermelho e elétrico cruzando a arena. A luta evoluiu para um pesadelo de curta distância. A coreografia de Dante era cirúrgica: chutes curtos nas dobras dos joelhos para minar o equilíbrio, socos em formato de martelo focados exclusivamente em articulações e gânglios nervosos.

Quando Kiara, enfurecida, tentava revidar balançando os braços com sua força monstruosa que poderia demolir prédios, ela encontrava o vácuo. O cachecol de Asuka ganhava vida própria, amarrando os pulsos dela no meio do soco, empurrando seus cotovelos para desviar o vetor do ataque, ou criando rampas invisíveis de tecido rígido que defletiam a energia cinética titânica da Rainha diretamente para o chão, abrindo crateras inúteis no concreto sob seus pés.

Era um estilo de combate híbrido e perfeitamente sufocante. A brutalidade das artes marciais misturada à manipulação metamórfica e defensiva de Asuka. O "pano" anulava completamente a diferença colossal de força bruta entre os dois.

Kiara estava sendo matematicamente desmantelada. Ela não conseguia tempo para firmar os pés, puxar oxigênio para os pulmões ou processar a dor antes que o próximo golpe conectasse. Cada investida raivosa era anulada pela física; cada abertura milimétrica que ela deixava era punida implacavelmente com choques incapacitantes e golpes de concussão que faziam o cérebro chacoalhar dentro de seu crânio fraturado.

A Rainha Absoluta estava sendo encurralada por um garoto e um pedaço de tecido.

Sua respiração não era mais humana; era o chiar metálico e sibilante de um motor rachado, vazando vapor e sangue. A visão de Kiara estava submersa em um filtro turvo e escarlate de suor e lágrimas de pura frustração. Pela primeira vez desde que vestiu a coroa de tirana, um sentimento frio, pegajoso e alienígena começou a rastejar por sua espinha fraturada: o desespero.

"Droga...", a mente de Kiara gritava em um pânico silencioso e analítico. O joelho direito dela falhou, tremendo violentamente enquanto ela lutava para se manter de pé. "Eu sabia que não devia subestimá-lo. Eu sabia que ele era o maior fator de risco..."

Ela levantou o rosto ensanguentado. Dante caminhava em sua direção. Não havia pressa em seus passos, apenas a marcha gélida e calculada de um carrasco. O cachecol escarlate ondulava atrás dele, largo e ameaçador, recortando o vento denso de Gehenna como as asas de um sereno Anjo da Morte.

"Não... Ele não pode ser o Herói que Morpheus precisa!", Kiara pensou, a frustração ideológica rasgando sua alma com mais força que os golpes de tungstênio. "Ele não é daqui! Ele é um humano! Um forasteiro de outra dimensão!"

Se Dante a executasse ali, se ele tomasse o trono ensanguentado do herói, o mundo não aprenderia a se salvar sozinho. O povo de Éden e os monstros de Gehenna não veriam um nativo de sua própria terra superando as barreiras do ódio pelo próprio esforço. O sacrifício monumental que ela estava fazendo — de encarnar a Vilã Perfeita, de unificar o mundo no medo para forjar a paz — seria reduzido a pó se o arquiteto dessa nova era fosse um alienígena do universo vizinho.

"Eu não posso cair para você, Dante... Meu roteiro não permite! Eu me recuso!"

Pressionada contra a parede literal e metafórica da derrota, o instinto de sobrevivência e a ambição messiânica de Kiara atingiram uma massa crítica. E, sob essa pressão que esmagava o ego e a alma... um fio dourado e tênue vibrou no fundo de seu núcleo espiritual.

A conexão passiva que ela compartilhava com Anna — a dona original daquele corpo — estava exposta. Quando Anna transferiu seu próprio Éter para Dante momentos atrás, isso deixou as comportas mentais destrancadas.

Kiara não pediu permissão. Ela não fez um acordo. Em um ato de roubo espiritual e desespero, ela hackeou a porta dos fundos.

Se a alma de Dante estava intrinsecamente ligada à de Anna, e Kiara era o parasita no controle da "casa biológica" da garota loira... então a ponte mágica também pertencia a ela.

VHOOOOM.

O Éter de Kiara, que sempre foi um carmesim sujo, caótico e misturado ao negro, sofreu uma mutação violenta e instantânea. A aura escura foi varrida por um pilar de energia de um laranja dourado vibrante, cegante e terrivelmente familiar.

Dante parou abruptamente a cinco metros de distância, os olhos se estreitando. Ao redor de seu pescoço, Asuka tensionou-se, as fibras metálicas arrepiando-se como os pelos de um gato diante de um predador colossal.

— Milorde... — O alerta de Asuka ressoou na mente de Dante, a voz perdendo completamente a calma, substituída por pura urgência. — A ressonância mágica que emana dela agora... a assinatura central que ela está usando... é idêntica à sua!

Kiara ergueu as duas mãos trêmulas e destroçadas para o céu enevoado de Gehenna. Quando ela abriu os olhos, o escarlate demoníaco havia sumido. Suas pupilas brilhavam com o reflexo holográfico de um oceano galáctico, infinitas estrelas girando dentro de sua íris. Ela não estava apenas roubando poder bruto; ela estava inserindo as mãos no Mar de Possibilidades, usando a assinatura de Anna como chave-mestra.

— Se você pode puxar milagres do além para me salvar... — Kiara sibilou. Sua corda vocal estava se rompendo, e a voz saiu distorcida, ressoando com o timbre de duas almas sobrepostas falando em um uníssono macabro e divino. — Eu posso puxar um milagre para destruir você e proteger o meu final!

CRACK-SHATTER!

O espaço tridimensional acima das mãos dela estilhaçou como vidro sob pressão oceânica, revelando um vácuo negro e estelar.

Ela não sacou uma espada lendária. Ela não puxou um escudo impenetrável.

Quando Kiara arrancou as mãos violentamente do vácuo brilhante, elas estavam engolfadas até os cotovelos por um par de manoplas. Eram forjadas de um metal estelar negro e vermelho que não apenas brilhava, mas pulsava visivelmente com força gravitacional pura, sugando e distorcendo a luz ao redor de seus punhos como minúsculos buracos negros.

TSSSSSSS.

As luvas demoníacas fundiram-se à pele dela com o chiado nauseante de carne sendo cauterizada a frio. Em vez de curá-la, a arma agiu como um suporte de vida sádico. As manoplas injetaram Éter bruto diretamente em suas veias colapsadas, usando sua gravidade absurda para prender os ossos estilhaçados de Kiara no lugar, forçando o corpo dilacerado da garota a se manter de pé por pura pressão interna.

A aura explodiu. Já não era a aura opressiva de um lorde de Gehenna. Era a pressão esmagadora de uma Deusa da Calamidade.

— Agora o aquecimento acabou para mim também, Zumbi — disse Kiara.

A luta havia acabado de transcender o combate corpo a corpo. E Morpheus inteira, através das incontáveis telas espalhadas pelo céu, prendia a respiração, testemunhando o colapso do mundo e o choque inadiável de dois milagres impossíveis.

Parte 4

O ar ao redor de Kiara não apenas ficou pesado; ele mudou de estado. A pressão atmosférica despencou tão violentamente que o oxigênio pareceu ter sido substituído por um oceano de chumbo derretido, esmagando os pulmões de qualquer um que tentasse respirar em um raio de cem metros. O chão de vidro sob suas botas não rachou; foi pulverizado em poeira fina, transformado em areia apenas pela força passiva de sua presença.

Kiara desapareceu. Não foi velocidade física; foi um estilingue gravitacional puro que dobrou o espaço e a puxou para a frente.

As novas manoplas estelares em seus braços eram aterrorizantes. Elas não brilhavam com luz própria; eram buracos negros em miniatura, forjados do caos instável do Mar de Possibilidades. A luz ao redor delas se curvava, formando halos escuros, e o som ambiente era sugado antes mesmo de o golpe ser desferido. Quando ela armou o primeiro soco, um zumbido profundo e vibrante ecoou nos ossos de todos — o som da própria realidade gemendo sob o peso daquele ataque.

Dante leu a trajetória no milissegundo em que o espaço distorceu. Ele sabia que um bloqueio comum seria suicídio instantâneo.

— Asuka, Densidade Máxima!

Ele cruzou os braços em um bloqueio perfeito em "X", protegendo o centro do peito e o crânio. No mesmo átimo de segundo, o cachecol vermelho ganhou vida, envolvendo seus antebraços três vezes, endurecendo as fibras de tungstênio até o limite molecular e ancorando as botas do Caçador no chão com um pico de eletromagnetismo. Era a defesa tática suprema contra impacto cinético.

Mas Kiara não estava mais jogando com as regras da física convencional.

BAAAAAM!

O som não foi de metal batendo em metal. Foi o estrondo surdo de um vácuo colapsando.

Quando a manopla negra de Kiara tocou a guarda cruzada de Dante, a força gravitacional embutida no golpe simplesmente ignorou a densidade da barreira física. A técnica foi inútil. O soco não "empurrou" os braços de Dante; ele comprimiu o espaço entre os braços e o peito do garoto. A gravidade agarrou cada célula do corpo dele e as puxou violentamente na direção do epicentro do soco.

O ar foi expulso dos pulmões de Dante em um chiado agoniante de sangue borbulhando. A defesa perfeita foi contornada pela física distorcida.

Ele foi ejetado para trás não como um lutador perdendo terreno, mas como um boneco de pano disparado da boca de um canhão eletromagnético. O mundo virou um borrão horizontal.

SCREEEEEEECH!

Suas botas tocaram o chão de vidro vitrificado primeiro, estilhaçando a superfície. O atrito foi monumental. Dante foi arrastado para trás, seus calcanhares rasgando uma trincheira fumegante de sílica derretida e fogo vermelho por vinte longos metros. Uma onda de estilhaços afiados e faíscas subiu como um tsunami letal atrás dele.

Desesperado para parar antes de ser esmagado contra a parede da arena, ele cravou os dedos — reforçados pelas luvas de Sora e Asuka — no chão, rasgando o concreto profundo até finalmente frear a inércia em meio a uma nuvem de fumaça sufocante.

— A pressão estrutural excedeu todos os parâmetros lógicos, Milorde! — A voz de Asuka vibrou na mente de Dante, não mais com sua frieza robótica impecável, mas beirando o pânico digital. O cachecol zumbia histericamente ao redor de seu pescoço. — A gravidade concentrada nessas manoplas está literalmente dobrando o espaço local! Se eu receber um impacto direto de novo, sem margem para angulação de desvio, minhas fibras de tungstênio não vão quebrar... elas vão vaporizar em nível subatômico!

— Então a gente simplesmente não é mais atingido, Asuka!

Dante cuspiu um coágulo de sangue escuro e, usando seu eletromagnetismo latente, inverteu a polaridade de suas botas contra o chão metálico das ruínas. Ele foi ejetado para a esquerda como um ímã repelido violentamente, uma mísera fração de segundo antes de o soco descendente de Kiara obliterar as coordenadas exatas onde ele estava ajoelhado.

KABOOOOM!

Não foi uma explosão comum de Éter. A manopla estelar esmagou a própria geometria do pátio. A fricção brutal da gravidade superaquecida comprimiu a rocha e o vidro sob a Rainha, transformando o que seria uma cratera rasa em um poço abissal de onde o chão instantaneamente se liquefez em magma laranja, borbulhante e ruidoso.

O calor vulcânico chamuscou o rosto de Dante. Ele era um prodígio da velocidade em sua nova forma, mas Kiara não estava apenas correndo; ela era uma divindade encurralada, queimando o Éter dourado roubado de Anna com o desespero caótico de quem vê o próprio roteiro desmoronar.

O Caçador foi forçado a uma defensiva absoluta, acrobática e sufocante. Ele deslizava, girava no próprio eixo e usava Asuka para se puxar para longe de ganchos que sugavam o oxigênio. O cachecol escarlate chicoteava no ar tenso, tecendo redes de microfilamentos em alta velocidade para tentar imobilizar os pulsos e cotovelos da Rainha. Mas era inútil. O campo gravitacional distorcido que emanava das luvas repelia a malha vermelha violentamente. O som do embate lembrava o choque de turbinas de avião engolindo pássaros de aço, rasgando os fios mágicos antes que pudessem sequer arranhar a pele dela.

Os pulmões de Dante queimavam, implorando por ar limpo, mas só encontravam ozônio e enxofre. Suas fibras musculares gritavam, rasgando-se em microlesões pelo esforço de manter aquela esquiva absurda. E, no entanto... sob a máscara de tecido, fuligem, suor e sangue, um sorriso predatório rasgou seu rosto.

Enquanto Kiara tentava carregar o peso do fim do mundo nas próprias costas, Dante sabia de uma coisa: ele não precisava assumir a responsabilidade de salvá-la sozinho.

Kiara rugiu, a voz distorcida por duas almas, travando os calcanhares no chão derretido. Ela puxou o braço direito para trás. A luz do pátio inteiro pareceu ser sugada em direção à manopla dela. O ar escureceu, comprimindo-se até formar uma singularidade instável na ponta de seus dedos — um miniburaco negro destinado a pulverizar o peito de Dante e apagar sua existência conceitual.

Ela tensionou as panturrilhas destruídas para disparar o golpe final.

Mas, antes que o braço pudesse avançar um milímetro, o ar parou de queimar. A temperatura do pátio inteiro despencou em um átimo, caindo violentamente em direção ao zero absoluto.

— Prisão do Cocytus!

Não foi um ataque frontal idiota. Foi uma emboscada ambiental calculada.

Uma torrente de gelo branco, denso e letal, tão frio que queimava a própria fumaça no ar, varreu o chão a partir do flanco cego da Rainha. A magia não voou; ela rastejou sorrateira como mil serpentes fractais famintas, subindo pelas pernas de Kiara na velocidade do pensamento.

CRAAAACK-SNAP!

O som de congelamento rápido foi ensurdecedor. As botas de Kiara foram flash-congeladas no meio do movimento de arranque. O gelo fundiu suas panturrilhas, joelhos e coxas ao chão de vidro com uma solidez em nível molecular, criando uma âncora de cristal indestrutível.

Kiara arregalou os olhos vermelhos, o choque estampando seu rosto. A física do combate cobrou seu preço impiedoso: a biomecânica de seu soco devastador foi completamente arruinada. Sem conseguir girar o quadril, sem a transferência vital de energia cinética da base das pernas para o tronco, o buraco negro em sua mão tremeu e perdeu a estabilidade de contenção. O soco morreu no ar antes de nascer, desmanchando-se em fagulhas gravitacionais inofensivas.

A Rainha cortou o olhar furioso por cima do ombro, os dentes trincados.

A dezenas de metros dali, a poeira congelada baixou lentamente. Teth estava de pé.

A pesada armadura do Cavaleiro Branco original havia sumido, estilhaçada pela batalha. Vav não estava mais controlando nada. O que restava diante da Deusa da Calamidade era apenas o homem. O príncipe bastardo.

Ele estava severamente ferido, o sangue dourado e vermelho congelando sobre as dezenas de lacerações em sua pele nua. Mas sua postura era a de um grão-mestre de espada. A aura ao redor de Teth não era mais uma tempestade caótica de fúria e auto-ódio; estava perfeitamente condensada, gélida e estabilizada. O Éter fluía dele em linhas retas, como a lâmina mais afiada do mundo.

O Cavaleiro não havia caído sob o peso do orgulho. Ele apenas havia se lapidado sob pressão.

— Eu... ainda não desisti, veterana...

O sussurro de Teth mal superava o uivo do vento polar, mas a vontade por trás dele era forjada em aço puro. Suas mãos espalmadas para a frente tremiam violentamente, os tendões estalando enquanto ele injetava cada última gota miserável de seu Éter no gelo que prendia a Rainha. Ele forçava seu coração dilacerado a não apagar, recusando-se a ceder à escuridão morna da exaustão.

Kiara rosnou, um som bestial que não pertencia a uma garota. Seus olhos brilharam com ódio homicida. Ela redirecionou o fluxo gravitacional das manoplas estelares para baixo, apontando para os próprios pés, pronta para esmagar a Prisão do Cocytus e libertar suas pernas em um segundo.

Mas a arrogância de quem se acha um deus sempre peca no mesmo detalhe: esquecer de olhar para cima.

Uma sombra densa, larga e colossal despencou silenciosamente do topo de um pilar de mármore destroçado, caindo livremente em um ângulo cego perfeito nas costas dela.

ZAHAHAHAHA! NUNCA VIRE AS COSTAS PRA UM VELHO, PRINCESINHA!

A risada insana, borbulhante e maníaca rasgou o ar frio. Era Killian.

O antigo guerreiro parecia um cadáver animado por pura teimosia de não morrer antes do fim da festa. Estava coberto da cabeça aos pés no próprio sangue, o olho direito inchado, roxo e fechado, o braço esquerdo pendendo solto. Mas a biologia já não importava para ele. Ele convergiu a última e bruxuleante centelha de sua força vital no calcanhar direito. O oxigênio ao redor de sua perna pesou, denso com o Éter de Pesadelo bruto, viscoso e negro como piche flamejante.

Foi um chute lateral descendente caindo dos céus, um movimento absolutamente sem volta, sem defesa e sem amanhã. Suicida.

O calcanhar envolto em trevas colidiu com a base da nuca de Kiara com a precisão milimétrica e a força devastadora de um aríete de cerco medieval.

CRAAACK!

O impacto foi feio. Nauseante. O cérebro de Kiara chacoalhou brutalmente contra as paredes internas do próprio crânio fraturado. Por um milissegundo vital, a visão de galáxias dela entrou em estática, zumbiu e perdeu o foco. O fluxo de energia gravitacional massivo que ia destruir o gelo vacilou, interrompido pelo choque neurológico súbito na espinha dorsal.

A punição pelo esforço para o velho foi imediata e absoluta. Os olhos de Killian reviraram para o branco antes mesmo de ele terminar a curva do movimento no ar. O Éter dele zerou. Ele desabou, caindo no chão de vidro sólido como um saco de pedras pesadas e inúteis, quebrando algumas costelas no processo. A consciência apagou por completo, seu papel na guerra finalizado com louvor sanguinário.

— Eu não vou deixar... aquele velho caquético... ter toda a glória de um sacrifício dramático...

A voz rouca, feminina e incrivelmente fraca veio do meio da poeira rasteira. Yuki estava caída de bruços a quarenta metros de distância. O corpo estava esmagado, as pernas inúteis, mas a mão direita estava erguida e apontada como o cano de uma arma de precisão. No extremo oposto do campo de batalha, fincada verticalmente no chão de mármore bem atrás de Kiara, a lança prateada da garota zumbiu, agindo como um para-raios calibrado.

BZZZZZT!

Yuki usou a haste metálica como farol direcional para guiar o Éter rebelde e disparou.

Um relâmpago azul e branco, espesso como o tronco de uma sequoia ancestral, rasgou a arena horizontalmente, a poucos centímetros do chão. O raio carbonizou o oxigênio restante e obliterou tudo em seu caminho — rasgando o gelo de Teth e atingindo em cheio a Princesa da Violência, que ainda estava paralisada, grogue e piscando lentamente pelo golpe na nuca de Killian.

KRA-KOOOOOOM!!!

A plataforma de concreto e cristal sob Kiara foi desintegrada em nível atômico pela correnteza elétrica. A onda de choque levantou placas de pedra imensas do tamanho de carros e ergueu uma nuvem colossal, em formato de cogumelo, feita de poeira branca, fumaça de ozônio e vidro moído. Kiara, eletrocutada e sem base, foi lançada verticalmente para cima, arremessada indefesa como uma boneca de pano para o centro cego da nuvem caótica.

O combo inteiro não havia sido planejado. Foi executado com uma sincronia nascida puramente do desespero de sobreviventes. Os guerreiros quebrados, se recusando terminantemente a curvar a cabeça para a tirania absoluta, compraram uma janela de oportunidade de exatos dois segundos. E custou o colapso e o sacrifício físico de uma equipe inteira para criar aquele momento.

Dante não estava assistindo do chão. Ele já havia partido antes do raio de Yuki disparar.

O Caçador estava suspenso no ar, muito acima da poeira e da explosão elétrica, posicionado no céu vazio com uma matemática balística perfeita, esperando exatamente na trajetória parabólica em que o corpo inerte de Kiara subia, empurrado pela explosão.

— VAMOS TERMINAR ISSO DE UMA VEZ! — Dante rugiu. As cordas vocais estavam em carne viva, o suor ardia nos olhos, mas a voz rasgou a fumaça tóxica com a autoridade de quem não aceitaria "não" como resposta do universo.

— Entendido, Milorde!

O cachecol vivo desenrolou-se do pescoço de Dante como uma serpente acordando e engoliu o braço direito do rapaz como um enxame furioso de fibras. As camadas de liga de tungstênio e o tecido mágico vermelho sobrepuseram-se umas às outras em dezenas de espirais apertadas, travando-se no lugar com estalos metálicos altos.

CHRONOS BREAKER!

O Chronos Breaker padrão era a técnica assinatura de Dante — um soco de força concussiva bruta reunindo toda a aura em seu corpo para uma explosão linear. Mas, agora, fundido à manipulação estrutural de Asuka e à velocidade do seu novo estado, a técnica evoluiu para o pesadelo absoluto de qualquer blindagem física ou mágica.

O braço enfaixado de Dante tornou-se o eixo central rígido de um motor hipersônico. As camadas sobrepostas do cachecol começaram a girar ao redor do antebraço dele, triturando metal contra metal em um borrão carmesim. Impulsionado pela força repulsiva do magnetismo contínuo e sobreaquecido pelo plasma vermelho vivo que vazava das juntas, a estrutura de tecido moldou-se em uma broca colossal, cônica e absurdamente afiada. Ela rugia no ar com o som estridente e ensurdecedor da turbina de um caça prestes a explodir.

O alvo de Dante, no ar, não era o crânio de Kiara. Ele não queria matá-la; ele precisava desarmar o apocalipse. O cérebro do Caçador mirou exatamente no epicentro lógico daquele poder impossível e roubado: a manopla direita estelar.

Kiara, flutuando atordoada em meio aos escombros suspensos no ar, abriu o único olho são. A sombra da broca infernal de plasma escureceu sua visão periférica, girando em sua direção como o juízo final. A Rainha das Sombras, o "Vilão Perfeito" do próprio teatro enlouquecido do fim do mundo, rosnou, as presas manchadas de sangue à mostra.

Ela se recusava a ceder a um alienígena.

Desafiando a fadiga extrema do músculo rasgado, ignorando as dezenas de fraturas e a inércia da gravidade, ela contorceu o tronco violentamente no meio do ar. Ela apontou a manopla estelar escura para cima, comprimindo cada última e dolorosa grama de Éter roubado e ódio não resolvido em um único soco ascendente em direção à broca. Era um choque direto de frentes. O tudo ou nada.

Dante sorriu por baixo do tecido que cobria seu rosto, a poeira grudando nos dentes. O plano louco e suicida estava perfeito. O algoritmo do combate havia se confirmado na prática. O Caçador havia lido a alma quebrada da guerreira à sua frente: Kiara tinha padrões de orgulho imutáveis. Se pudesse esquivar, ela esquivava. Mas, quando encurralada, ela sempre, sempre contra-atacava com força bruta frontal. A armadilha estava armada na própria arrogância dela.

VUUUUUUMMMM!

A colisão no ar da singularidade gravitacional da manopla contra a ponta da broca de plasma superaquecido criou um vácuo de pressão atmosférica tão monstruoso que sugou o ar, a poeira e o próprio som da praça em uma esfera silenciosa de estática visual aterrorizante. O tempo pareceu travar no céu de Gehenna, eternizado em uma pintura de guerra caótica, vermelha e negra.

Mas a vontade implacável, espiritual e inabalável de Kiara chocou-se de frente contra a dura, fria e cruel realidade de sua própria biologia destruída.

O braço direito da Rainha — que já havia sido retalhado pelos estilhaços do machado de Killian, congelado, eletrocutado, socado e forçado muito além de qualquer limite estrutural suportável por ossos — simplesmente não tinha mais base física. Ele não suportou o estresse mecânico de tentar conter um impacto giratório e hipersônico. O anestésico divino da adrenalina e do ódio finalmente falhou em segurar o castelo de cartas.

O rádio e a ulna do braço de Kiara cederam de uma vez.

CRACK-SNAP-CRACK.

O som da fratura múltipla e exposta foi úmido, doentio e terrivelmente nítido, audível até mesmo sobre o urro ensurdecedor da broca de plasma. A junta do cotovelo de Kiara explodiu em uma nuvem de sangue e lascas ósseas. A força biomecânica que mantinha a manopla unida ao fluxo de Éter apagou-se como uma lâmpada estourada por um curto-circuito.

Sem a estrutura óssea rígida para servir de âncora para a gravidade da luva, a defesa colossal colapsou.

A broca de tungstênio e plasma de Dante engoliu o golpe enfraquecido. O giro implacável triturou a manopla de luz estelar de Kiara, moendo o metal alienígena insuperável em poeira de estrelas cintilante e inofensiva. Não encontrando mais resistência, a técnica continuou sua rota de destruição linear, rasgou o que restava do braço e afundou direto no centro do abdômen de Kiara, usando o corpo da garota como pista de aterrissagem forçada para voltarem ao chão.

— AAAAAAAAAAH!!!

O grito rasgado, agudo e humano da Rainha ecoou, sobrepondo-se ao som do impacto meteorítico contra a cratera. Marcava o fim do sonho de tirania.

O som sibilante e agudo da broca de Dante finalmente começou a desacelerar, o atrito terminando em um chiado prolongado de metal superaquecido perdendo o giro letal. A poeira espessa e pesada, levantada pelas explosões sucessivas, começou a assentar lentamente sobre o pátio morto como uma neve cinza, silenciosa e fúnebre.

Kiara estava afundada no centro de uma nova cratera de rocha vitrificada, cercada por fumaça. Suas manoplas gravitacionais haviam desaparecido por completo, desmanchando-se no vácuo de onde vieram. O braço direito era uma ruína inútil. Ela tossia sangue escuro, borbulhante e ralo. Os olhos vermelhos — que minutos antes eram poços infinitos de galáxias giratórias e fúria indomável — agora estavam semicerrados, opacos e vazios. Eles não focavam em Dante. Não focavam no céu. Não focavam em nada.

A Deusa invencível da Calamidade não tinha energia elétrica nos nervos sequer para mover um único dedo trêmulo. A Rainha Absoluta de Gehenna estava física, mágica e psicologicamente derrotada. O roteiro sangrento que ela escreveu havia chegado à contracapa.

Dante estava ajoelhado, montado sobre o peito dela, o punho direito ainda enterrado a centímetros do rosto da garota.

A respiração do Caçador não era a de um herói vitorioso; era o chiado rasgado, oco e desesperado de um homem afogado recém-puxado do fundo de um oceano congelado. Seus braços, antes instrumentos de destruição massiva, caíram inertes ao lado do corpo de Kiara. Seus músculos entraram em espasmos dolorosos, finos e incontroláveis de pura fadiga celular, beirando a rabdomiólise.

A energia conceitual roubada e costurada do Mar de Possibilidades vacilou pela última vez em suas veias e o abandonou abruptamente, fragmentando-se em partículas de luz efêmera e flutuante. O milagre recuou, deixando-o desprotegido, de volta em suas roupas normais — agora esfarrapadas, encharcadas de sangue inimigo e próprio, e carbonizadas nas bordas.

O silêncio reinou na arena. Era um silêncio opressor, esmagador, pesado como uma lápide de mármore branco.

Apenas Asuka restou em movimento autônomo. A malha letal desenrolou-se lentamente, de forma quase carinhosa, do braço ferido, queimado e trêmulo de Dante, os estalos metálicos morrendo um a um. O cachecol voltou a descansar frouxo ao redor do pescoço do Caçador, voltando a ser — em aparência — apenas um pedaço comprido de tecido vermelho esgarçado, chamuscado nas pontas e exausto de testemunhar o fim do mundo.

— Acabou... a porra da birra... Delinquente.

As palavras rasgaram a garganta ressecada de Dante em um ofego ruidoso. O gosto espesso de ferro da própria língua, fuligem no palato e ozônio nos dentes o fez querer vomitar. Seus pulmões lutavam desesperadamente por oxigênio.

Com um esforço hercúleo, um que exigiu toda a fibra moral que ainda restava em sua alma e que pareceu exigir a força necessária para empurrar uma montanha com as próprias mãos nuas, Dante ergueu a mão esquerda trêmula, os nós dos dedos cobertos de escoriações profundas. Ele precisava garantir o fim técnico. A Rainha poderia ter um último suspiro de vontade. O cérebro do garoto funcionava no piloto automático, mesmo no limite do desmaio.

— Asuka... restrição máxima. Protocolo de selamento algemado.

O cachecol vivo, mesmo esfarrapado, sujo de fuligem e chamuscado de plasma, obedeceu ao comando final do seu mestre moribundo sem hesitação mecânica. O tecido desenrolou-se das costas do pescoço de Dante e disparou no ar parado como quatro víboras carmesim caçando uma presa inerte.

CLACK-CLACK-CLACK-CLACK.

As fitas metálicas enrolaram-se violentamente como torniquetes nos pulsos fraturados e nos tornozelos frouxos de Kiara, esticando os membros da Rainha para os lados com precisão geométrica e cirúrgica.

Xeque-mate. O roteiro teatral do fim do mundo estava oficialmente cancelado por falta de elenco. A Grande Guerra havia acabado no fundo de um buraco.

Caído ao lado dela, respirando pesadamente, sob a sujeira, o sangue seco, os hematomas feios e a vitória alcançada com muito esforço, Dante viu a garota ao seu lado, finalmente podendo apenas a observar.

Uma garota. Uma adolescente exausta. Esmagada contra a terra hostil de seu próprio reino. Os olhos vermelhos — destituídos de poder — agora estavam semicerrados, opacos e chorosos, encarando o rasgão sobre o céu de Morpheus, vendo a chuva de óleo preto finalmente parando de cair, com um abismo de solidão crua no olhar.

Foi exatamente ao ver a humanidade fragilizada dela, a confirmação de que o vilão era só uma pessoa quebrada, que a última gota mágica de adrenalina no sistema circulatório de Dante secou. O motor do herói finalmente desligou.

Ele apagou ali mesmo, instantaneamente, esparramado como lixo descartado ao lado do corpo de sua prisioneira, antes mesmo que seu cérebro pudesse registrar os sinais da dor excruciante de seus próprios ferimentos.

Longe dali, espalhados como peças quebradas de xadrez em um tabuleiro destruído, o restante do mundo refletia a mesma cena fúnebre.

A alguns metros da borda da cratera principal, Teth estava desmaiado de joelhos. O corpo estava escorado teimosamente de lado contra uma rocha rachada, recusando-se a cair de costas no chão mesmo enquanto mergulhado na mais profunda inconsciência. O orgulho do Cavaleiro manteve sua cabeça erguida na escuridão.

Mais adiante, perto do que restava das escadarias, Killian era apenas um corpo inerte, o veterano gigantesco descansando pacificamente em uma poça larga do próprio sangue negro, como se estivesse enfrentando só mais uma segunda-feira difícil, com a respiração tão superficial que simulava a morte.

Yuki balançava o braço quebrado levemente com a brisa tóxica, presa em um emaranhado cruel de vigas de ferro retorcidas que haviam desabado sobre ela, sendo uma das únicas que ainda não havia perdido a consciência.

— É sério... quando alguém vai me explicar o que diabos está acontecendo aqui?!

E, na beirada da destruição total, longe da explosão central, Eliza estava deitada de lado, encolhida em posição fetal sobre os próprios joelhos esfolados. A princesa não estava desmaiada. Ela estava dolorosamente acordada, mas os músculos fraturados de suas pernas se recusavam categoricamente a obedecer a qualquer comando do cérebro. Ela só conseguia engatinhar até a irmã. Enquanto chorava baixinho.

O mundo inteiro assistiu pelas milhares de telas flutuantes, em silêncio de igreja, enquanto a poeira tóxica da última explosão baixava lentamente, revelando o quadro da salvação.

O planeta foi salvo da aniquilação total e do holocausto racial. O sol de amanhã nasceria para Sonhos e Pesadelos. Mas o gosto coletivo na boca da humanidade era de cinzas frias, porque mesmo vendo a rainha da violência acorrentada e no chão, o sentimento de que não havia acabado permanecia. Eles não conseguiam desgrudar os olhos da tela, sentindo que ainda havia alguma cena pós-crédito para acontecer. 

Parte 5

O silêncio que se abateu sobre o Grande Tribunal era pesado, quase sagrado, interrompido apenas pelo som melancólico do vento varrendo a poeira de vidro e as cinzas da batalha.

Duas luzes, uma verde curativa e outra roxa abissal, brilharam suavemente perto do corpo desmaiado de Dante. Quando a luz se dissipou, as duas armas vivas haviam assumido suas formas físicas. Safira, com sua figura curvilínea e estilo chamativo de gyaru, caiu de joelhos ao lado do mestre, o desespero quebrando sua fachada confiante. Ao seu lado, Sora, em seu vestido de lolita gótica, suspirou aliviada.

— Ele está respirando... — Safira murmurou, encostando o ouvido no peito imundo de Dante para ouvir as batidas fracas, porém regulares. Ela tentou canalizar um feitiço de cura, mas as próprias mãos piscaram em estática verde e falharam. — Droga. Nossas reservas de Éter secaram completamente. Não dá nem para fazer os primeiros socorros básicos agora.

Dante não respondeu. Estava apagado, o rosto coberto de fuligem, dormindo o sono pesado dos mortos-vivos que se recusam a aceitar o fim do turno. Safira o arrastou com cuidado extremo pelos ombros, encostando-o contra uma placa de mármore mais segura, longe da beirada instável da cratera.

Sora, enquanto isso, olhou ao redor, os olhos roxos varrendo os destroços.

— É melhor levarmos os demais para um lugar seguro também...

Então, seus olhos focaram em uma figura alguns metros à frente. Eliza arrastava-se pelo chão de vidro quebrado. Suas pernas não obedeciam mais, mas ela usava os dedos sangrando para se puxar para a frente, deixando um rastro vermelho e patético enquanto tentava, centímetro por centímetro, chegar até a borda do buraco onde a irmã estava presa.

A lolita gótica suspirou, um som inesperadamente carregado de simpatia, e caminhou até a garota.

— Chega de rastejar... — Sora disse, a voz suave, abaixando-se e passando o braço de Eliza por cima de seus pequenos ombros para ajudá-la a se levantar. — Se quer tanto assim ver o monstro, eu te levo até ela.

Mas a paz daquele fim de batalha era uma ilusão de ótica muito frágil.

Do fundo da cratera, um ruído perturbador começou a ecoar, arranhando o silêncio. Era o som de metal rangendo no limite da tensão e de carne rasgando.

Sora e Eliza olharam para baixo. Safira paralisou ao lado de Dante, a mão sobre o peito dele.

Kiara estava amarrada, pregada ao chão como uma herege em uma cruz, com os membros imobilizados pelos fios inquebráveis de tungstênio de Asuka... e ainda assim, ela estava se movendo. Ou melhor, tentando se mover.

A Rainha das Sombras estava coberta de sangue escuro, seus ossos fraturados e os nervos colapsados. Biologicamente, ela era um cadáver. Mas o Éter carmesim, puro ódio destilado, começou a vazar de seus poros novamente. O ar dentro da cratera aqueceu, derretendo o vidro ao redor de suas correntes. Ela puxava os braços contra as amarras invisíveis, rasgando a própria pele, destruindo seus próprios músculos até o osso na tentativa fútil de se soltar.

Seu corpo já não funcionava, mas a mente e a força de vontade do "Vilão Perfeito" simplesmente não aceitavam a derrota matemática. Ela rosnava como uma fera enjaulada, babando sangue, os dentes cerrados até trincarem o esmalte, os olhos vazios focados apenas em se levantar e continuar a guerra até que o último sol se apagasse.

— Isso... isso é impossível — Sora murmurou, os olhos arregalados, genuinamente assustada, recuando um passo e apertando Eliza contra si. — O sistema nervoso dela já deveria estar desligado! O cérebro dela não tem glicose para funcionar! De onde ela está tirando essa energia? Que tipo de monstro tem essa força de vontade cega?!

A resposta não estava na biologia. Não estava na magia. E certamente não estava no ódio pelo mundo.

Naquele instante, a memória das palavras de Mamon Sterling ecoou no vento fantasmagórico de Morpheus.

Mas se você não é o Rei... quem é? O que estamos protegendo com tanto zelo?

E a conclusão do falecido Lorde da Avareza fez um sentido cruel e poético: o verdadeiro "Rei" — a razão de tudo, o objetivo final de Kiara, a única coisa que, se caísse, faria a Rainha perder a alma e desistir — estava em outro lugar.

O som de passos lentos e firmes soou na borda da cratera.

O Éter furioso de Kiara vacilou por um milésimo de segundo. Ela parou de se debater e ergueu o rosto ensanguentado, os olhos vermelhos semicerrados, tentando focar na silhueta escura que bloqueava a vista do céu noturno.

Isobel estava lá.

A verdadeira Rainha de Gehenna estava ofegante, a capa de sombras ondulando atrás dela, poeira de vidro cobrindo as botas. Ela desceu os escombros da cratera em silêncio absoluto. Seus olhos roxos, cheios de uma tristeza oceânica e milenar, fixaram-se na criatura monstruosa, insana e arruinada que estava presa ao chão.

Kiara cerrou os dentes. A Vilã se preparou para o confronto final. Ela esperava uma espada negra. Esperava o olhar de repulsa absoluta. Esperava o julgamento e a execução de Morpheus encarnados na mulher que a trouxe e a salvou do mundo.

Isobel parou ao lado de Kiara. A monarca que aterrorizou gerações de Sonhos caiu de joelhos na poeira suja.

Ela não sacou uma arma. Ela ergueu a mão direita trêmula e desferiu um tapa no rosto da filha.

Foi um estalo suave. Não carregava força, não carregava Éter, não visava ferir ou punir. Foi o tapa de uma mãe que, no meio da madrugada, tenta acordar a filha de um pesadelo febril.

A respiração de Kiara travou. O tapa não doeu no rosto; doeu na alma. O Éter carmesim que derretia a pedra piscou e apagou completamente, como um fogo sufocado por um cobertor pesado.

Antes que Kiara pudesse entender o código binário de violência que acabara de ser quebrado, Isobel se inclinou para a frente. Os braços da Rainha de Gehenna envolveram o pescoço e os ombros destruídos da filha, puxando o rosto sujo, perigoso e monstruoso de Kiara contra o próprio peito em um abraço desesperado, apertado e inquebrável.

Kiara arregalou os olhos. O choque paralisou seu córtex cerebral.

Ela sabia sobre a fobia de Isobel. Sabia do Transtorno de Estresse Pós-Traumático severo, do terror visceral de ser tocada que impedia a mãe de encostar em qualquer pessoa. Um trauma cravado na raiz de sua alma pelos abusos do Rei Lysander.

E, no entanto, Isobel a estava abraçando. A mulher tremia violentamente, o corpo inteiro sofrendo espasmos incontroláveis enquanto sua mente tentava quebrar a própria barreira psicológica. Seu cérebro gritava perigo, mas seu coração gritava mais alto. E o abraço não afrouxou um único milímetro.

— Me perdoe... — a voz régia de Isobel quebrou, transformando-se em um sussurro abafado pelos cabelos sujos e cheios de fuligem da filha. Lágrimas grossas e quentes caíram, lavando o sangue seco da bochecha de Kiara. — Me perdoe por ter sido tão covarde. Me perdoe por não ter feito isso anos atrás.

A voz de Kiara sumiu. Sua garganta fechou. A máscara de ferro negro, a fachada de tirana cruel, o manto impenetrável da Rainha da Violência... tudo começou a rachar, pedaço por pedaço, caindo na poeira.

— Do que você está falando... Por que... por que está pedindo perdão para mim? — Kiara tentou falar, tentou argumentar com a lógica da guerra, a voz soando rouca, pequena e infantil. Ela tentou lutar contra o abraço, tentou manter o escudo erguido contra aquele calor que a desarmava. — Eu sou o monstro... Eu fiz tudo isso... Sabe quantos problemas eu causei? Eu queimei o mundo... Então por que...

— Porque você é minha filha — Isobel soluçou abertamente, sem nobreza, sem coroa, apertando-a ainda mais, enterrando o rosto no pescoço suado de Kiara.

— Eu... — Kiara perdeu. Todos os seus argumentos, todas as suas linhas de raciocínio de "Vilã Perfeita", todo o seu ódio meticulosamente construído começaram a sumir como fumaça ao vento. Naquele momento, no fundo do buraco que ela mesma cavou, ela não passava de uma criança assustada, triste, querendo apenas um lugar seguro para chorar a própria dor.

— Eu fugi de você, Kiara. Quanto mais você crescia, mais forte você ficava, mais você se parecia com ele. O seu rosto, o cheiro do seu poder... você me lembrava o Lysander e o inferno que ele me fez passar. E isso me aterrorizava...

Isobel se afastou apenas o suficiente para olhar no rosto lavado de lágrimas e sangue de Kiara, segurando as bochechas sujas da garota com as duas mãos trêmulas.

— Mas eu fui uma tola egoísta. Eu deixei meu próprio passado me cegar. Eu deveria saber que você não era aquele monstro.

A Rainha dos Pesadelos não conseguia mais resistir às próprias comportas que se abriam. E assim, o pranto fluiu livre.

— E mesmo querendo tanto te tocar... mesmo eu querendo te abraçar todos os dias e dizer para você quem eu era de verdade, dizer que você era minha garotinha... eu me culpava tanto por não conseguir suportar o toque... que achei que não tinha esse direito. Achei que você me odiava.

Kiara nunca culpou aquela mulher. Mesmo quando a lógica lhe deu todos os motivos. Para Kiara, Isobel representava o seu tudo. Foi ela quem a tirou das sombras, ela quem deu amor incondicional — mesmo que distante —, ela quem a treinou. Isobel sofreu no inferno diário apenas para poder amá-la, e nunca mostrou arrependimento por ter escolhido a "bastarda".

Kiara, que após descobrir sua linhagem amaldiçoada mal conseguia olhar no espelho sem sentir nojo, nunca, nem por um segundo, havia cogitado a possibilidade de que sua mãe, traumatizada pelo rei, ainda desejasse tocá-la.

Por isso, ouvir diretamente da boca dela, sentir aquelas mãos quentes e cheias de medo a segurando com tanto amor... foi esmagador. O castelo de cartas do ódio caiu.

Kiara soltou um soluço rasgado.

Um choro feio, alto e doloroso, sem nenhuma dignidade, como o de uma criança que se perdeu no supermercado e finalmente encontrou o colo da mãe para dizer onde machucou.

— Não era isso... — Kiara chorou, a voz falhando em falsetes patéticos, as lágrimas limpando o rosto cansado enquanto ela afundava no abraço de Isobel. Incapaz de retribuir o aperto com os braços imobilizados, ela apenas encostou a testa com força no peito da mãe, escondendo-se do mundo. — Não era isso que eu queria... Eu só queria... que vocês ficassem bem...

Isobel acariciou os cabelos curtos e sujos da filha, beijando o topo de sua cabeça, embalando a garotinha que tentou carregar o fim do mundo nas próprias costas para salvar a família.

— Tá tudo bem... Eu estou aqui... — Isobel sussurrou, embalando-a. — Sua mãe... finalmente está aqui. Pode chorar.

Na borda da cratera, Eliza, escorada nos ombros pequenos de Sora, assistia à cena através das próprias lágrimas, o peito apertado, vendo a irmã que ela nunca pôde ter sendo finalmente amada. O vento de Morpheus pareceu perder sua toxicidade e seu frio cortante por um momento, silenciando-se em respeito à dor daquelas duas mulheres.

Ao longe, Safira encarava sem acreditar, sentindo o peso do perdão no ar. Não apenas a cena das duas, mas algo perto dela chamou sua atenção. Mesmo inconsciente, apagado e espancado quase até a morte, o rosto sujo de Dante pareceu relaxar. Por uma fração de segundos, a expressão de agonia sumiu e, mesmo em sono profundo, os lábios do humano formaram um sorriso sutil e tranquilo.

Parte 6

Através dos olhos invisíveis e onipresentes dos gatos de Schrödinger, a imagem daquele abraço no fundo da cratera foi transmitida ao vivo para os céus de toda Morpheus.

Não houve um golpe final espetacular cruzando os céus. Não houve a decapitação do "Vilão Perfeito" pelas mãos do "Herói Predestinado", para o delírio da multidão. O que o mundo assistia, projetado em telas de pura magia sobre as imaculadas praças do Éden e as ruelas sujas de Gehenna, era uma Rainha implacável e ensanguentada chorando de joelhos, aninhada nos braços do monstro que o mundo exigia que ela destruísse.

Nas grandes metrópoles de mármore branco dos Sonhos, as multidões estavam paralisadas, o silêncio quebrado apenas pelo farfalhar do vento. Nos telhados enferrujados e cortiços dos Pesadelos, guerreiros calejados soltavam o ar que nem sabiam que estavam prendendo. A dissonância cognitiva era absoluta.

O ódio, que havia sido meticulosamente cultivado, alimentado a sangue e levado ao ponto de ebulição pelo plano de Kiara, de repente colapsou por falta de fundação. As pessoas simplesmente não sabiam como reagir. A guerra realmente havia acabado com um perdão no lugar de uma execução? O que aconteceria com o brutal Jogo das Coroas agora que o tabuleiro inteiro havia sido virado de cabeça para baixo aos prantos?

E a pergunta que ecoava no silêncio de bilhões de mentes, antes carregada de ambição e agora cheia de incerteza: quem seria o novo Rei, afinal?

Longe da capital em ruínas, no coração obscuro de Gehenna, a Cidade Real de Isolde respirava com dificuldade.

No pórtico de uma casa de madeira rangente, Rum, a veterana líder da Tromluí, estava de pé. Ao lado dela, segurando sua mão calejada e coberta de cicatrizes, estava a viúva de Dumpty e a pequena filha do grandalhão que havia se sacrificado para que aquele amanhã existisse. Rum olhava para a projeção etérea no céu escuro.

A expressão dura, cínica e cansada que a velha guerreira carregou como uma armadura por décadas começou a derreter. Seu único olho bom brilhou, refletindo a luz da projeção, inundado por lágrimas que ela lutou a vida toda para não derramar. Ela apertou a mão da garotinha com uma suavidade que não combinava com seu porte bruto, sentindo, pela primeira vez em séculos, o peso do derramamento de sangue desaparecer de seus ombros.

Um sorriso aliviado, puro e dolorosamente silencioso, curvou seus lábios. O sacrifício de sua família não havia sido em vão.

Em Éden, nos vibrantes e outrora festivos distritos da Cidade de Açúcar, a atmosfera era de um choque coletivo anestesiante.

No meio da multidão de Sonhos que olhava para os céus boquiaberta, uma figura destoava do pânico geral. Uzumaki, com sua postura estoica, observava a tela mágica. A tensão constante em seus ombros relaxou, um milímetro de cada vez. Um sorriso quase imperceptível, carregado do respeito de um guerreiro que reconhece o fim de uma era, cruzou o rosto do espadachim.

Sem dizer uma palavra a ninguém, ele ajeitou suas vestes escuras, deu as costas para a transmissão e começou a caminhar, desaparecendo como um fantasma anônimo no meio da multidão atônita.

Mais ao sul, na sombria Floresta do Delírio, as vastas frentes de batalha haviam estagnado completamente.

Saga, a mente tática mais brilhante e temida dos Sonhos, estava sentada sobre a raiz grossa de uma árvore ancestral. Ao redor dela, soldados de ambas as raças ainda seguravam suas armas, mas os braços pendiam frouxos, os olhos vidrados no céu, completamente perdidos, como cães de caça que de repente esqueceram como morder.

Saga não olhava para a tela. Como sempre, ela estava com os olhos fechados. Seu Oblast — a percepção tática absoluta que a mantinha onisciente e eternamente alerta — estava desativado. O zumbido de dados em sua mente silenciou. Pela primeira vez em sua existência, ela não estava calculando probabilidades, antecipando perdas ou mapeando os movimentos inimigos.

Ao fundo, quebrando o silêncio tenso das tropas paralisadas, vozes infantis soaram claras e límpidas. Yukina, a garotinha Pesadelo, e Silence, a pequena Sonho, brincavam perto das barracas médicas improvisadas. Elas apontavam para as estrelas e faziam perguntas ingênuas uma para a outra sobre como seria o amanhã, sobre que tipo de jogos poderiam jogar juntas quando voltassem para casa, ignorando completamente as fardas inimigas ao redor delas.

Saga esboçou um pequeno sorriso, abrindo os olhos físicos. Ouvindo a risada daquelas duas crianças que, pelas regras antigas, deveriam se matar, a Santa da Ordem percebeu que o futuro que as aguardava era uma tela completamente em branco. Era um caos imprevisível e lindo, algo que nem mesmo sua visão divina conseguia enxergar. E, incrivelmente, ela estava em paz com isso.

No meio de um dos distritos do norte da Cidade de Cristal, a poeira começava a baixar sobre os escombros da colossal luta contra a Lorde da Ira.

Laeticia estava sentada no chão, suando bicas, as mãos tremendo, mas brilhando com uma luz verde constante e reconfortante enquanto terminava os primeiros socorros nas fraturas de Dorothea e estancava o sangramento no ombro perfurado de Oliver.

A alguns passos dali, Asmodea Lilith exalava uma longa baforada de fumaça roxa e perfumada de seu cachimbo. A Lorde da Luxúria, com o vestido de grife rasgado e a maquiagem impecável arruinada pela fuligem, olhou para o céu noturno, onde a imagem de Kiara e Isobel aos poucos desvanecia das telas mágicas, dissolvendo-se em luz.

Ela caminhou lentamente, o salto de uma de suas botas quebrado, até a montanha de armadura de gelo estilhaçada que estava afundada na cratera. Satan Bellum, esmagada sob o pilar de ouro de Dorothea, rosnava baixinho. Os olhos da gigante da guerra estavam cheios de uma fúria residual que agora, esgotada, parecia apenas um cansaço infinito. A guerra dela havia acabado. Ela havia perdido, não para a força, mas para a mudança.

Asmodea abaixou-se graciosamente, ignorando a sujeira, e ficou rosto a rosto com a antiga amiga e feroz rival. Ela estendeu a mão com unhas longas e limpou um pedaço de cinza da bochecha gélida da gigante com uma delicadeza rara.

— Está vendo só, Satan? — Asmodea murmurou, a voz aveludada carregando uma melancolia afetuosa enquanto olhava para as estrelas que voltavam a brilhar no firmamento. — O gelo finalmente derreteu. Parece que o vento começou a mudar para nós também. Não precisamos mais lutar.

E, como se o próprio mundo de Morpheus, um organismo vivo e simbiótico, respondesse àquele suspiro de alívio global... o céu chorou pela última vez.

Mas não era a chuva tóxica. Não era a precipitação espessa, ácida e negra de óleo que caía incessantemente sobre Gehenna há milênios, manchando tudo o que tocava.

Conforme as nuvens se abriam, as gotas negras no ar começaram a diluir. Tornaram-se cinzas. Depois, translúcidas. Puras.

Até que, finalmente, a chuva de óleo parou de cair em toda Morpheus, dando lugar a gotas de água cristalina e a uma brisa limpa e incrivelmente fria, que lavava o sangue das ruas, a fuligem dos rostos e o ódio das almas.

A tempestade eterna havia, finalmente, passado.

Parte 7

A quilômetros de distância do reencontro choroso no Grande Tribunal, em outro setor da Cidade de Cristal outrora perfeito, o ar não cheirava a redenção ou paz. Cheirava a radiação letal e morte química.

O corpo monstruoso do Gévaudan estava caído entre os escombros fumegantes, mas não estava morto. A carapaça prismática da besta — antes uma adaptação defensiva brilhante — agora pulsava com um Éter verde, febril e doentio, distorcendo visualmente o espaço ao seu redor como uma poça de gasolina ao sol.

O monstro havia entrado em colapso interno catastrófico. A regeneração infinita e desesperada imposta pelo Pecado da Gula estava lutando violentamente contra a necrose conceitual cravada em sua carne por Ludmilla. Essa guerra celular criou uma reação em cadeia biológica insustentável. A criatura não era mais um animal; era uma bomba suja prestes a atingir a massa crítica.

A impossibilidade paradoxal de viver e de morrer simultaneamente estava infectando não apenas a carne, mas a própria alma do monstro. O Éter puro da criatura estava se tornando espesso, distorcido e negro — o mesmo tipo de miasma corrompido, pegajoso e carregado de rancor que se acumula no vácuo de cenas de assassinatos brutais e covardes.

Katsuragi, com o rosto ensanguentado, as roupas rasgadas e a respiração pesada, mantinha-se de pé entre a fera em colapso e a Avatar divina.

Maysa, ainda envolta em chamas azuis de puro poder, limpou com as costas da mão o sangue dourado que escorria de seus próprios olhos. Os debuffs caóticos e o azar probabilístico impostos pela Preguiça a estavam ferindo de maneiras que sua biologia superior não compreendia totalmente. Mas a paciência cósmica da caçadora havia secado.

— Você é um erro estatístico irritante, Pesadelo — Maysa sibilou, a voz grave tremendo o ar enquanto erguia seu Guandao negro. — Mas suas pequenas interferências probabilísticas não vão me impedir de vaporizar essa abominação e purgar este continente.

Katsuragi sorriu de canto, as pernas tremendo de exaustão sob a saia manchada.

— Até parece que eu vou deixar você dar hit kill no nosso boss de evento, lagartixa bombada...

Mas, antes que Maysa pudesse avançar e desferir o golpe de obliteração, o som de passos elegantes e ritmados ecoou pelas ruínas de vidro. Era um som calmo, preciso e absurdamente alheio, como o de uma modelo caminhando por uma passarela de alta costura, ignorando completamente o cenário de guerra e radiação ao redor.

Uma silhueta delgada se desenhou na névoa tóxica. O vermelho vivo e agressivo de um guarda-chuva aberto cortou a paleta cinzenta e deprimente da destruição.

Irene emergiu da fumaça.

A misteriosa e letal confidente do Rei — a antiga e renegada Cavaleira Real — havia abandonado seu traje de freira provocativa. Em seu lugar, ela transformou a formalidade absoluta em uma arma visual de sedução predatória. Ela vestia uma camisa social branca imaculada, desabotoada estrategicamente e estilizada para deixar os ombros pálidos propositalmente nus, adornada apenas por uma gravata preta e fina. Suspensórios táticos cruzavam seu tronco, prendendo calças de couro negro extremamente justas que moldavam cada curva letal de suas pernas longas.

De luvas escuras e sapatos envernizados que não faziam o menor barulho ao pisar no vidro estilhaçado, ela era a imagem perfeita de uma letalidade irresistível.

Em sua mão desocupada, ela girava casualmente uma chave ornamentada, absurda e excessiva, do tamanho de uma espada montante.

Irene parou, repousando a haste do guarda-chuva no ombro nu. Um sorriso sedutor, indolente e cheio de malícia brincava em seus lábios pintados de carmesim. Seus olhos vermelhos focaram imediatamente em Maysa. E, em suas pupilas escarlates, o desenho nítido e preto de fechaduras se destacava, atraindo a atenção de forma hipnótica e perigosa.

Ara, ara... — A voz de Irene era um veludo perigoso deslizando sobre uma lâmina escondida. — Até quando planeja ficar brincando com a nossa doce, irritada e indesejada convidada divina, Katsuragi?

A Lorde da Preguiça suspirou de forma exagerada, soltando os ombros, o alívio lavando a tensão de seu rosto machucado.

— Ah, qual é... Você demorou horrores. Tem ideia do quão quebrado é o moveset dessa mulher? Eu odeio ter que lutar sozinha contra Admin. Avatares de Astreus Combatentes são pura trapaça conceitual. Minhas costas estão me matando.

Maysa estreitou os olhos brilhantes. O Éter daquela nova mulher de guarda-chuva não era normal. Era restritivo. Era claustrofóbico.

— Mais lixo entrando no meu caminho? — Maysa girou a lança com desprezo, preparando-se para cortar o próprio espaço entre elas. — Corte da Extin...

Irene não sacou uma arma para se defender. Ela nem sequer desfez seu sorriso. Com um movimento gracioso e totalmente entediado de pulso, ela jogou a imensa chave dourada para cima.

A arma pesada girou no ar e parou bruscamente, flutuando exata e perfeitamente sobre a cabeça de Maysa.

A Avatar de Astreus franziu a testa, a mente processando dados e tentando entender a natureza do ataque. Ela sentiu o perigo iminente. Mas, quando os nervos de Maysa ordenaram que o corpo perfeito se movesse em um salto ultrassônico para esquivar... o universo simplesmente disse "não".

CLACK.

O som inconfundível de uma tranca de ferro pesado sendo fechada ecoou. Não no ambiente ao redor, mas dentro da própria alma de Maysa.

— O quê...?! — Maysa arregalou os olhos, o choque genuíno quebrando sua arrogância.

Seus braços paralisaram no meio do movimento. O Éter azul-fogo que orbitava seu corpo recuou violentamente para dentro de seus poros, recusando-se a obedecer. A Autoridade da Caça — seu próprio conceito existencial — foi desligada como um interruptor comum. Ela estava completamente imobilizada, enclausurada e isolada dentro do próprio corpo invulnerável.

— Essa arma... essa coisa repulsiva e... — Maysa rosnou, a voz engasgada pelo esforço hercúleo de tentar mover um único músculo do pescoço. — Quem diabos é você?! Humana.

Irene apenas ampliou o sorriso, estendendo a mão elegante. A chave gigante desceu suavemente do ar, pousando em sua palma enluvada como se não pesasse nada.

— Neste mundo? — Irene inclinou a cabeça levemente. — Eu sou apenas a chaveira do Rei, querida. — Ela passou caminhando por Maysa como se a deusa da caça fosse uma mera e incômoda estátua de jardim em seu caminho.

A mulher de suspensórios caminhou com graça até a massa pulsante, radioativa e agonizante do Gévaudan. O calor infernal e a radiação que derretiam o chão em poças não pareciam afetá-la, bloqueados pelo guarda-chuva vermelho. Ela parou diante do peito inchado e deformado do Kaiju em colapso, olhando para a criatura com uma doçura maternal incrivelmente sádica.

Irene ergueu a mão livre e, ignorando a acidez, acariciou as escamas superaquecidas da besta.

Shhh... Está tudo bem agora. Já acabou. Você aguentou o suficiente para o seu propósito, grandão — ela murmurou, com carinho letal.

Com um movimento fluido de esgrima, Irene apontou a ponta elaborada da chave gigante para o centro do coração estourado da criatura. Ela empurrou a arma contra a carapaça impenetrável. Mas a chave não precisou quebrar ou perfurar a defesa física. Ela entrou na carne hiper-resistente da besta com uma facilidade perturbadora, afundando como se o metal da arma e a biologia do monstro fossem ilusões intangíveis fundindo-se perfeitamente.

O Gévaudan soltou um último gemido borbulhante, quase aliviado, e parou de se debater. A luz verde em seus olhos se apagou.

No mesmo instante, muito longe dali.

No Castelo Real da indetectável Cidade da Meia-Noite, intocado pela guerra catastrófica que arrasava a superfície do mundo mortal, o silêncio absoluto reinava na vasta e vazia Sala do Trono.

O Rei Lysander estava sentado em seu trono. Seus olhos vermelhos, frios, imutáveis e velhos como o próprio mundo, assistiam à transmissão, projetada no ar úmido à sua frente.

Ele viu o invencível exército dos Sonhos cair em desgraça. Ele viu os Lordes Pesadelo lutarem como deuses enlouquecidos. E, naquele exato momento, ele assistia à repetição em loop de Kiara, a "Vilã Perfeita", quebrando sua máscara de ferro em prantos desesperados nos braços de Isobel.

Nenhuma surpresa cruzou o rosto perfeitamente esculpido do monarca. Nenhum sinal de preocupação pela queda iminente de sua ordem mundial. Nenhum luto por sua linhagem.

O Rei apenas sorriu.

Ele sabia. Ele sabia de tudo o que havia acontecido. Ele antecipou cada passo estúpido de Dante, calculou cada fúria cega e rebeldia de Kiara, cada uma das várias falhas dos Lordes e cada estratégia genial de Saga. O caos lá fora não era um acidente ou uma derrota. Tudo estava, milimetricamente, exata e perfeitamente onde deveria estar para o final do primeiro ato.

Lysander ergueu uma taça de vinho dourado, espesso e antigo, brindando à imagem de sua "criação imperfeita" chorando na tela de luz.

— Obrigado, Kiara — a voz do Rei ressoou na sala vazia, profunda, absoluta e carregada de uma satisfação macabra e divina. — Minha estrada dourada para o Paraíso foi pavimentada perfeitamente graças aos seus esforços.

De volta ao pátio em ruínas de Cristal.

Irene, segurando a haste de sua arma, girou a chave gigante dentro do peito silencioso do Gévaudan. Um som cósmico, audível na mente de todos os seres vivos num raio de dezenas de quilômetros, de destranca ecoou.

CLACK.

— Bom! — Irene sorriu, dando um passo elegante para trás e girando seu guarda-chuva vermelho em triunfo.

O corpo inchado do Gévaudan não explodiu em fogo, ácido ou carne. Ele implodiu em pura e incontrolável energia arcana.

Uma detonação silenciosa, nascida de um buraco negro em miniatura, sugou todo o ar de toda a praça. E, no segundo seguinte de vácuo absoluto, uma explosão de Éter puro, denso, corrompido e avassalador rompeu a casca morta do monstro.

Um pilar de luz incandescente, espesso como uma montanha, rasgou o céu noturno, perfurando as nuvens e alcançando o firmamento. Ele não era apenas alto; ele era colossal. A onda de energia começou a expandir-se furiosamente pelo horizonte, varrendo as ruínas da cidade, desintegrando escombros em pó fino e tingindo o mundo inteiro, o céu e a terra, de um branco ofuscante e apocalíptico.

O fim da guerra dos mortais não era a paz. Era apenas a ignição necessária para o verdadeiro começo do plano divino.

Parte 8

O vento de Morpheus havia silenciado, mas o eco do choro rasgado de Kiara ainda preenchia o ar estático da cratera. A Rainha implacável, o monstro que aterrorizou continentes, havia sido reduzida a uma garotinha trêmula em busca de consolo no peito da mãe.

Sora observava a cena de longe, seus olhos preenchendo-se com dados e probabilidades, processando a lógica quebrada daquela tragédia elaborada. A lolita gótica franziu a testa, ajeitando o corset.

— O seu plano era falho desde o começo, sua idiota dramática — Sora murmurou, a voz artificial soando estranhamente gentil, quase como uma irmã mais velha dando uma bronca. — Como você planejava criar um mundo onde todos pudessem ser felizes... se a única pessoa que se sacrificou para salvá-los estaria morta para ver?

Eliza, que ainda se apoiava nos pequenos ombros de Sora, deu um passo à frente, as pernas vacilantes. Ela estava envergonhada por interromper um momento tão cru, mas a verdade estava entalada em sua garganta, cortando como vidro moído.

— Ela nunca quis apenas morrer... — Eliza revelou, a voz trêmula, mas carregada de uma certeza absoluta que só o sangue compartilhava. Ela olhou para as costas da irmã abraçada à mãe. — Eu percebi pelo jeito que você estava lutando, Kiara. Você não ia explodir o mundo. O seu verdadeiro plano... era forçar alguém a te matar. Você queria ser assassinada.

Isobel paralisou, o abraço apertando instintivamente.

— O motivo de você ter roubado tantas Coroas e não ter destruído nenhuma delas... — Eliza continuou, as lágrimas caindo soltas pelo rosto machucado. — Era porque você queria usar a regra do Jogo das Coroas. Quando alguém mata um portador, essa pessoa herda suas Coroas por direito de conquista. Você queria juntar o poder do mundo inteiro em você, absorver todo o ódio de Morpheus, para que o "Herói" que te matasse herdasse tudo e se tornasse o novo Rei.

A respiração de Kiara falhou. A verdade, nua, feia e patética, havia sido exposta à luz do dia.

— Cale a boca... — Kiara soluçou, encolhendo os ombros e escondendo o rosto no peito de Isobel, morrendo de vergonha de seu próprio martírio. — Cale a boca, Stella... Você já falou demais...

O nome ecoou na cratera. Stella.

Isobel arregalou os olhos violetas. Ela virou o rosto lentamente, com o cuidado de quem teme quebrar um sonho, e olhou para a garota de cabelos magenta que se apoiava em Sora. Os traços eram diferentes, a raça era diferente, o jeito de falar era de rua. Mas a alma...

Isobel sabia, melhor do que ninguém, que Kiara jamais brincaria com aquilo. Nunca falaria aquele nome em vão.

A Rainha de Gehenna soltou um suspiro estrangulado que parecia carregar mil anos de luto. Sem dizer uma palavra, chorando ainda mais, Isobel estendeu o braço livre em um convite mudo.

Eliza hesitou, os olhos arregalados, o coração batendo na garganta. Ela nunca teve uma mãe. Sempre sonhou com uma família de comercial de margarina, mas a ideia de ter uma agora, no meio do apocalipse, parecia boa e assustadora demais. Ainda assim, suas pernas moveram-se sozinhas. Talvez fosse a memória residual, talvez fosse Stella empurrando-a gentilmente pelas costas.

Eliza desabou de joelhos ao lado delas na sujeira, e o braço de Isobel a puxou para o mesmo abraço cego e apertado. A garota de rua congelou por um segundo, nervosa, os músculos tensos ao sentir o calor do colo materno pela primeira vez na vida. Mas então, a tensão escorreu de seu corpo. Ela relaxou, fechando os olhos e permitindo-se chorar como a criança que o mundo a obrigou a deixar de ser.

As três juntas. Uma mãe que sobreviveu ao inferno, uma filha que tentou engolir o mundo e uma princesa exilada que voltou para casa. Uma família bizarra e quebrada, finalmente reunida na poeira de vidro.

Kiara olhou para aquilo. Para o rosto sardento e machucado de Stella/Eliza, para o calor perfumado de Isobel. Ela sorriu no meio das lágrimas sujas.

Era perfeito. Era o céu. E era por isso que ela não podia ficar.

— Era só isso que eu queria... — Kiara sussurrou, a voz quebrando em um falsete triste. — Que fôssemos uma família assim. Mas a matemática não fecha. O mundo ainda precisa de um sacrifício. Um vilão não pode ter um final feliz. Eu já aprendi isso do pior jeito.

— Kiara, não... — Isobel tentou apertá-la ainda mais, os instintos de mãe pressentindo o perigo escorrendo das palavras da filha.

Mas os olhos vermelhos de Kiara brilharam com um Éter estagnado.

— Não se mexam!

Royal Board.

O comando absoluto. A reescrita da realidade. A carta trunfo inquestionável do Rei.

Uma onda de choque mental, pesada e invisível, varreu a cratera como um pulso eletromagnético. Sora paralisou, suas articulações travando. Safira, ao longe, congelou no meio do movimento. Eliza arregalou os olhos, incapaz de piscar ou de mover um único músculo do corpo. O ar ficou estático, morto.

Apenas uma pessoa foi isenta da regra do tabuleiro. Isobel.

Kiara olhou para cima, encontrando os olhos arregalados e desesperados da mãe. As lágrimas de Kiara agora escorriam livres, abundantes, mas sua expressão havia se transformado em uma determinação fria e aterrorizante. A Vilã estava de volta ao palco.

— Eu sabia que isso podia acontecer... — Kiara sussurrou, a voz embargada, mas firme. — Eu guardei esse comando caso nenhum "Herói" tivesse a coragem de me matar. Eu prometi a mim mesma que não usaria meu poder contra a minha família... a menos que essa hora de desespero chegasse.

— Filha, pare! O roteiro acabou! Você perdeu! — Isobel implorou, as mãos tremendo, a autoridade de rainha sumindo sob o pânico cru de uma mãe que vê o filho na beira da ponte. — Deixe isso acabar!

— O mundo precisa de um Rei sem pecados, mãe — Kiara sorriu, um sorriso absurdamente triste, quebrado e transbordando de amor egoísta. — Obrigado por ter me amado... Então, por favor... me ma—

KRA-KOOOOOOM!

A palavra de ordem não foi terminada. A realidade não permitiu.

O universo pareceu rasgar. A quilômetros dali, a explosão massiva do Gévaudan, desencadeada por Irene, atingiu o Grande Tribunal não como vento, mas como um tsunami de energia invisível.

O chão de pedra e vidro vitrificado não apenas tremeu; ele se partiu como uma casca de ovo sob o peso de uma bota. A pressão da detonação foi tão absurdamente densa que o próprio fluxo de Éter natural da atmosfera desestabilizou e colapsou.

A distorção bruta varreu a cratera, estilhaçando a magia de Kiara como vidro frágil. O Royal Board quebrou instantaneamente. A lei absoluta do Rei falhou diante de uma anomalia maior. Eliza, Sora e Safira caíram no chão, engasgando enquanto o ar voltava violentamente aos seus pulmões.

Mas o pânico apenas começou.

Ao redor de toda Morpheus, as pessoas que choravam olhando para as telas mágicas recuaram aterrorizadas, tapando os olhos. O pilar de luz branca e incandescente, que havia irrompido nas ruínas da Cidade de Cristal, começou a transmutar. De um branco ofuscante e purificador, a luz engrossou, pulsou com uma malícia antiga e tornou-se de um dourado divino e doentio.

O céu escuro foi engolido pelo ouro. Um terror instintivo e ancestral — um medo cravado no DNA desde o início dos tempos — apertou o coração de cada Sonho, Humano e Pesadelo vivo.

De volta ao Grande Tribunal, as leis da física haviam entrado em falência total.

A gravidade inverteu.

Os escombros soltos do pátio, as poças de sangue, as placas de mármore gigantescas pesando toneladas e os corpos caídos começaram a flutuar languidamente. A própria fundação milenar do Tribunal rachou com um gemido telúrico. Enormes pedaços de terra e vidro desprenderam-se do solo, levitando em direção ao céu noturno dourado, como se a terra estivesse caindo para cima, repelida pelo epicentro da explosão.

Safira, agarrada histericamente ao corpo inconsciente de Dante e flutuando a dez metros do chão em cima de um pedaço de rocha que subia aos céus, gritou sobre o rugido ensurdecedor da destruição magnética.

— KIARA! A BOMBA NÃO ERA UMA MENTIRA SUA?! O QUE É ISSO?!

Kiara estava presa ao chão, as correntes inquebráveis de Asuka ainda esmagando seu corpo contra o fundo da cratera (que agora era o teto daquele microverso invertido). A Rainha das Sombras estava com os olhos arregalados de puro, não adulterado e genuíno choque. O terror em seu rosto não era atuação.

— Não pode ser... — Kiara gritou de volta, a voz fina sendo engolida pelo caos acústico e pelos trovões de luz. — O Gévaudan devorou as Coroas! Eu fiz ele comer todas as reservas de Éter puro para garantir que ninguém pudesse usar! Eu não ativei nada!

Então, o pesadelo supremo se materializou.

No antebraço pálido e sujo de Kiara, o Estigma Arcano — o contador digital luminoso que queimava em sua pele marcando o número exato de Coroas que ela possuía — começou a piscar histericamente.

Os números distorceram, giraram como uma máquina caça-níqueis quebrada e, em um piscar de olhos cego, despencaram.

0000

Um arrepio frio congelou a alma de Kiara, superando o calor do fim do mundo ao seu redor.

Ainda presa à rocha pelo cachecol de Dante, ela teve que usar as pernas imobilizadas para se empurrar violentamente, aproveitando a gravidade zero para virar o corpo. Ela forçou o pescoço quebrado a olhar através da tempestade de poeira dourada e estática.

Ao longe, a torre de luz dourada perfurava as nuvens, majestosa, imaculada e apocalíptica.

Ela conhecia aquele brilho. Ela reconhecia aquele Éter específico, puro e asfixiante.

Mas as memórias que lhe diziam isso não eram dela. As imagens que invadiram sua mente como um vírus, provocando um terror primitivo e paralisante que a fez hiperventilar, não pertenciam a Kiara, a Rainha das Sombras. Pertenciam à dona original daquele corpo. Pertenciam aos instintos de sobrevivência de Anna.

A imagem de uma torre sombria. Dante, segurando o corpo esfaqueado e ensanguentado de Nero, gritando de agonia. E no topo da escadaria... um Homem de terno engomado, com olhos opacos e um sorriso sociopata, segurando uma espada dourada que cheirava a julgamento.

As memórias passaram rapidamente por sua cabeça, uma montagem de mortes iminentes, deixando a Vilã completamente, fisicamente apavorada.

— Não... — Kiara ofegou, o coração batendo tão rápido contra as costelas fraturadas que ameaçava explodir. — Não pode ser...

O desespero absoluto engoliu a Vilã Perfeita. Ela não estava mais no controle do roteiro. Ela não era mais a autora daquela tragédia. Ela era apenas mais uma peça no tabuleiro de alguém infinitamente pior.

— SAFIRA! — Kiara berrou com toda a força de seus pulmões estraçalhados, a voz rasgando a tempestade dourada com a urgência de quem anuncia o fim de tudo. — ACORDA O DANTE! SAFIRA, ACORDA ELE! PELO AMOR DE DEUS, ACORDA ELE AGORA!

Parte 9

A gravidade não havia apenas enlouquecido; ela havia morrido.

O mundo inteiro estava caindo para cima. O colapso de Éter do Gévaudan havia rasgado as leis da física da Cidade de Cristal. Quarteirões inteiros vomitando chamas, praças de mármore estilhaçado e montanhas de concreto retorcido eram arrancados de suas fundações com ganidos metálicos e estrondos surdos. Tudo subia em direção a um céu tingido de ouro doentio, rodopiando silenciosamente no ar como asteroides presos em um cinturão cósmico letal.

No meio daquele oceano de destroços em ascensão, duas figuras rasgavam o ar com uma agilidade desesperada, fugindo do epicentro de luz branca e dourada que devorava a crosta terrestre.

Os coturnos de Katsuragi atingiram um bloco de rodovia flutuante a cem metros do chão original, rachando o asfalto com a força do impacto. Ela derrapou, os joelhos quase cedendo. A Lorde da Preguiça puxava o ar em arfadas ruidosas, o rosto coberto por uma máscara de fuligem e sangue fresco. Seus músculos queimavam em agonia, lutando contra o vetor de uma física quebrada. E, para piorar, o peso inerte em suas costas ameaçava puxá-la para o abismo a cada salto.

— Por que eu tenho que ser a porra da mula de carga?! — Katsuragi rugiu por cima do uivo do vento, cuspindo poeira seca enquanto içava a garota de cabelos castanhos pendurada em seu pescoço. — Você não tá vendo que a minha barra de HP já tá no vermelho piscando?! Eu odeio missão de escolta!

Um clique suave. Apenas isso.

Irene aterrissou ao lado dela. O contraste era um insulto absoluto. O inconfundível guarda-chuva vermelho estava aberto, repelindo a chuva de poeira cristalina como se fosse uma barreira intransponível. Seus sapatos envernizados mal tocaram a pedra. A gravidade corrompida não ousava tocá-la. Ela sorriu, a personificação de uma elegância predatória, imaculada no meio do inferno.

— Pare de reclamar, querida — a voz aveludada de Irene cortou o caos, carregada de uma diversão cruel e cristalina. — Você sabe tão bem quanto eu que ela não pode morrer agora. Se perdermos essa peça, o roteiro de Kanade vai direto para o triturador.

Nas costas latejantes de Katsuragi, Ludmilla soltou um gemido sufocado.

Seu corpo inteiro era um mosaico de ossos moídos e curados à força durante a batalha. Presa em um estado de choque crônico, a caçadora não conseguia mover um único dedo. Mas suas pálpebras tremeram, e seus olhos — ainda guardando a brasa carmesim do Olhar da Caça — se abriram.

A visão a atingiu com a força de um delírio febril. Ela estava voando. Abaixo, o mundo se desfazia em um caleidoscópio de aniquilação. Acima, o céu negro agonizava, sendo engolido vivo por um oceano de ouro pulsante. A vertigem roubou o pouco ar que lhe restava.

— O que... — Ludmilla tossiu, a garganta lixada pela poeira. O pânico primitivo apertou seu peito. — O que tá acontecendo? Cadê todo mundo? A batalha... Dante... Kiara...

Irene girou a haste do guarda-chuva sobre o ombro nu, o sorriso sedutor se alargando até revelar o brilho predatório em seus olhos.

— Relaxe, minha cara criança. Sua parte no palco terminou — Irene sussurrou, o tom de ninar soando macabro contra o barulho do mundo se partindo. — Não se preocupe com a Rainha. Digamos que a história já avançou abruptamente para o próximo capítulo.

Com um movimento teatral, a mulher inclinou a cabeça na direção da anomalia.

Ludmilla forçou o pescoço, ignorando a dor lancinante. O fôlego a abandonou de vez. Uma torre colossal de luz dourada perfurava a realidade, conectando o cadáver da Terra ao firmamento negro. Não era apenas energia. Aquele pilar irradiava uma majestade tão absoluta e opressora que a alma humana de Ludmilla gritou, exigindo que ela se ajoelhasse em submissão total.

— O que... é aquilo? — a caçadora implorou, a voz não passando de um fio.

Irene riu baixinho. Nos fundos de suas íris vermelhas, as fechaduras geométricas brilhavam. Ela se posicionou na beirada da rocha flutuante, olhando de baixo para cima para a imensidão divina, como uma professora sádica saboreando o desespero de uma aluna.

— Ora, me diga. Os ilustres acadêmicos de Babylon não ensinam história? — provocou, apontando a ponta de metal do guarda-chuva para a coluna de luz. — Preste atenção, criança. O que você está vendo não é um feitiço novo. Não é a magia da Rainha. É um eco da história.

O sorriso de Irene desapareceu, substituído por um fascínio sombrio.

— Esse exato fenômeno... foi o incidente que rasgou o mundo humano há vinte anos. No Reino de Alexandria. O dia em que Dante foi engolido e cuspido no futuro. O dia em que os Deuses Conceituais, os Astreus, finalmente desceram à Terra.

O sangue de Ludmilla congelou, anestesiando a dor de suas fraturas.

Infinitamente acima daquele oceano de poeira, desespero e ruína. Inalcançável.

No silêncio absoluto do Castelo Real da Cidade da Meia-Noite, as colossais portas da sala do trono abriram-se sozinhas. O Rei Lysander, envolto em túnicas brancas e douradas que pareciam tecidas com a própria luz, caminhava a passos lentos e medidos. Ele cruzou os corredores imaculados até a beirada da imensa sacada de cristal, o camarote supremo com vista para a totalidade de Morpheus.

Lá de baixo, a grande torre dourada nascia da superfície contaminada, subindo furiosamente em direção ao seu domínio, como uma lança atirada contra os deuses.

Lysander não recuou. Seus olhos não demonstraram pressa, nem medo. Havia apenas uma autoridade fria e calculadora. Ele caminhou até o parapeito, abriu os braços para a vastidão do céu noturno e, com uma voz que ressoou no núcleo magnético do planeta, decretou:

— "E, logo depois da aflição daqueles dias, o sol escurecerá, e a lua não dará a sua luz..."

A voz do Rei onipresente fez o próprio eixo do mundo tremer.

No zênite do céu negro de Morpheus, a antiga cicatriz cósmica — a ferida dimensional rasgada na era passada pelas armas do apocalipse — começou a pulsar com uma violência ofuscante.

— "...e as estrelas cairão do céu, e as potências dos céus serão abaladas."

A citação não era um aviso. Na boca de Lysander, era o gatilho de um arquiteto divino colhendo sua obra-prima.

O som foi o de um bilhão de espelhos estilhaçando ao mesmo tempo.

O céu de Morpheus quebrou.

Não como uma metáfora visual. O próprio firmamento negro, a barreira física que separava as dimensões, ruiu em placas colossais como a cúpula de vidro de um globo de neve atingido pelo martelo de um titã. Fragmentos brutos de espaço-tempo, refletindo nebulosas e galáxias mortas, começaram a chover sobre o mundo como meteoros de vidro cortante.

Na superfície, as leis da física gritaram e se submeteram a um novo mestre.

Em torno da colossal Torre de Luz, o caos rodopiante da gravidade quebrada parou abruptamente. Os blocos gigantescos de terra, as rodovias, os castelos em ruínas e as montanhas levitantes não estavam mais flutuando sem rumo. Com rangidos geológicos que sacudiram a alma de quem ouvia, os destroços começaram a se atrair.

Eles se trituravam no ar, encaixando-se uns nos outros com violência magnética, organizando-se em uma espiral geométrica perfeita. Uma escadaria titânica estava sendo forjada com o sangue, as rochas e os cadáveres da guerra. Uma ponte física e monumental em espiral que orbitava o pilar de luz, rasgando o céu despedaçado e levando direto à dimensão superior.

Pela primeira vez na história daquele mundo, o caminho para o trono de Deus estava de portas escancaradas.

Apoiada em sua pedra flutuante, os joelhos de Katsuragi finalmente cederam. Ela engoliu em seco, paralisada pela magnitude da visão. Em suas costas, a mente humana de Ludmilla sofreu um curto-circuito, incapaz de processar a escala daquela arquitetura apocalíptica.

Irene, no entanto, apenas apoiou o guarda-chuva no ombro. Ela observou a fúria dourada que redesenhava a realidade diante de seus olhos vermelhos. E então, abriu um sorriso arrebatador — a interseção exata entre a beleza absoluta e a loucura divina.

— Bem-vindos... — Irene sussurrou, a voz carregada de promessas terríveis, perdendo-se no estrondo da criação de uma nova era. — ...à Segunda Bomba Dimensional.

Fim do Volume 10

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