The Fall of the Stars: Capítulo 7 - Zwischenzug
- AngelDark

- 16 de fev.
- 64 min de leitura
Volume 10 : Laços de Sangue
Parte 1
A projeção colossal no céu se desfez em uma tempestade de estática visual, colapsando sobre si mesma até desaparecer. O que restou não foi o céu azul do Éden, mas uma ferida aberta de onde a chuva de Gehenna começava a cair. Gotas pesadas de óleo negro tamborilavam no mármore branco do pátio, manchando a santidade do castelo com a sujeira do mundo inferior.
No pátio, a tensão não era elétrica; era gravitacional.
Killian ainda estava de joelhos, o queixo esmagado contra a pedra fria por um fio invisível. Seus olhos, injetados de sangue e poeira, não demonstravam submissão, mas a fúria incandescente de um animal enjaulado que vê a porta se abrir, mas não consegue alcançar a garganta do carcereiro.
Ao lado dele, Yuki tremia. Ela não entendia a política, não entendia o discurso da Rainha Louca, não entendia a linhagem. Ela só entendia que estava na presença de um monstro que controlava a física com a ponta dos dedos. Seu coração batia na garganta como um pássaro em pânico, contando os segundos para a execução.
Mas o golpe final não veio.
O Rei dos Sonhos suspirou. Foi um som leve, quase de alívio, como alguém que finalmente encaixa a última peça de um quebra-cabeça infinito e perde o interesse na imagem formada.
— Agora, todas as peças estão onde deveriam estar... — murmurou Lysander para o vazio, ignorando os dois mortais a seus pés. Um sorriso enigmático, quase imperceptível, curvou seus lábios pálidos enquanto ele observava o óleo manchar suas botas imaculadas.
Com um movimento casual de mão, tão desinteressado quanto quem espanta fumaça de cigarro, a pressão esmagadora no pátio desapareceu. Os fios invisíveis que prendiam a gravidade ao redor de Killian se desfizeram.
O Rei deu as costas para eles sem hesitação, a capa branca arrastando no chão agora sujo.
— Vejo que não preciso mais segurá-los aqui. Vão. O palco precisa de plateia.
Killian sentiu o peso sumir. O ar invadiu seus pulmões com um engasgo violento. Ele se levantou cambaleando, o corpo protestando com estalos secos de ossos se realinhando. O sangue escorria grosso de sua boca, mas ele cuspiu um pedaço de dente no chão e firmou os pés no piso escorregadio.
Seus dedos apertaram o cabo do machado roubado com tanta força que o aço gemeu. A oportunidade estava ali. O Rei estava de costas. A guarda estava baixa. A arrogância era o ponto cego.
— Seu... pedaço de merda arrogante... — Killian rosnou.
O Éter vermelho começou a borbulhar ao redor de seu corpo como vapor de uma caldeira superaquecida prestes a explodir. Ele deu um passo à frente, os músculos das costas retesados para um ataque suicida que visava partir o monarca ao meio.
— NÃO!
Yuki gritou, agarrando o braço blindado dele com as duas mãos, usando todo o peso do corpo para freá-lo.
— Seu velho, não seja tão idiota! — ela sibilou, os olhos arregalados de terror. — Ele vai te matar antes que você pisque! Até eu, que mal lutei contra ele diretamente, percebi a diferença de poder gritante!
Killian parou. A lâmina do machado tremeu no ar, a centímetros de iniciar o golpe. Ele olhou para as costas do monarca, para aquela aura de invencibilidade entediada que nem sequer se dignava a reconhecer sua intenção assassina. Lysander não tinha defesa levantada porque, para ele, Killian não era uma ameaça; era paisagem.
A fúria de Killian travou. Mas, então, seu olhar se desviou. Por cima do ombro do Rei, ele olhou para o horizonte distante, na direção exata onde a projeção de Kiara havia desaparecido, deixando o rastro verde no céu.
A raiva assassina nos olhos do guerreiro antigo vacilou. Pela primeira vez desde que Yuki o encontrara acorrentado na escuridão, a máscara de loucura, ganância e violência caiu. O que restou foi uma expressão crua, dolorosa e profundamente humana.
Tristeza.
— Droga, pirralha... — Killian sussurrou para o vento, a voz embargada por um medo que não era por si mesmo. — Você está mesmo pensando em fazer isso, não é?
Ele baixou o machado lentamente. A sede de sangue contra o Rei foi substituída por uma urgência desesperada.
— Nosso acerto de contas fica para depois... — decidiu ele, virando-se bruscamente e guardando as armas com movimentos secos.
Killian disparou em direção aos portões abertos, ignorando a dor nas costelas, correndo com uma velocidade que fazia o chão do pátio tremer a cada passada pesada.
— Ei! Espera! — Yuki correu atrás dele, tropeçando na própria lança enquanto tentava acompanhar o passo do gigante. — Para onde você vai?!
— Para a Cidade de Cristal! — gritou Killian, sem olhar para trás, a voz cortando a chuva de óleo. — Antes que ela faça algo que não tem volta!
— Seu idiota... — Ela ajeitou a lança nas costas e começou a correr, mas, de repente, uma voz suave, porém absoluta, paralisou seus músculos.
— Para onde você vai agora?
Yuki travou. O Rei, que parecia completamente entediado e de costas, havia falado. Não era uma ordem mágica; parecia apenas uma dúvida genuína, casual. Mas, vindo dele, soava como o clique de uma arma sendo destravada.
Yuki se virou lentamente. Ela manteve a guarda alta, o Éter fluindo para seus olhos, ativando sua visão aprimorada para não perder nenhum movimento dos fios invisíveis que sabia estarem ali.
— Eu vou atrás dele... — Yuki respondeu, a voz trêmula, mas honesta. — Eu o libertei daquela cela... Então parte da responsabilidade pelo que aquele maníaco fizer cai em mim também.
Lysander virou a cabeça levemente de lado. Seus olhos vermelhos a analisaram, não como um inimigo, mas como um espécime curioso.
— Entendo... Bom, faça como achar melhor. Mas eu tenho uma dúvida genuína, já que esta pode ser a última vez que nossos caminhos se cruzam.
O Rei fez uma pausa. A chuva negra molhava seu rosto, mas ele não piscava.
— Aparentemente, eu acabei te confundindo com outra pessoa. Pelo visto, você não é quem eu achava que era. Mas na sua alma... na sua essência... eu ainda sinto uma fagulha dela.
Lysander inclinou o corpo levemente, a pressão do ar aumentando. — Me diga... Quem é sua mãe?
A pergunta foi feita com o tom de quem pede as horas, mas, para Yuki, aquele monólogo conseguia ser mais perturbador do que qualquer grito de guerra.
— Eu não faço ideia. — Yuki falou a verdade, sentindo instintivamente que mentir para a "Cadeira da Verdade ambulante" seria sua última decisão. — Eu cresci em um orfanato com a minha irmã... Nunca conheci meus pais.
Lysander a encarou por um segundo eterno. Seus olhos pareciam dissecar o DNA dela à distância. Então, a curiosidade desapareceu, substituída novamente pelo tédio.
— Entendo... Era só isso.
E assim, após ter sua resposta, ele se virou e começou a caminhar de volta para o castelo vazio, sem explicar nada, sem atacar, sem se importar.
Droga, não consigo dizer o que esse cara quer, Yuki pensou, o suor frio misturando-se à chuva em sua nuca. Primeiro me chama de filha, me prende, tenta me matar, e agora diz que estava errado e me deixa ir como se nada tivesse acontecido? O que rola na cabeça desse cara?
Ela não esperou para descobrir. Afastou-se lentamente, andando de costas, os olhos fixos na silhueta do Rei, esperando uma armadilha, um fio solto, qualquer coisa. Quando alcançou a segurança relativa da saída, ela girou e correu.
As figuras dos dois fugitivos cruzaram a ponte levadiça e desapareceram na escuridão labiríntica da cidade baixa, engolidos pela noite e pelo destino incerto.
O Rei não os observou partir. Para ele, eles já eram passado; notas de rodapé irrelevantes em um livro que estava sendo fechado para dar lugar ao volume final.
Parte 2
O céu acima do antigo Distrito do Orgulho continuava pingando o óleo negro que encharcava o reino dos Pesadelos.
O silêncio pós-transmissão de Kiara era pesado como chumbo; só foi quebrado por um gemido de dor e estalos de ossos.
— Ai, ai, ai... Bom, acho que chega de descanso. Se aquele discurso no céu for real... a Anna está em apuros. Melhor eu ir lá ajudar antes que essa tal de Kiara acabe se matando, e matando ela no processo.
Dante se levantou, girando os ombros e esticando o pescoço. O corpo estalou como madeira seca, mas o Éter já circulava novamente, reparando as microfraturas e devolvendo a cor ao seu rosto.
— Espera, Dante. É melhor descansar um pouco mais. — Laeticia deu um passo à frente, preocupada, mas parou ao ver a vitalidade anormal dele.
— Relaxa. Eu tinha caído mais por conta da perda de Éter do que pelos machucados em si. — Dante já começava a fazer os aquecimentos, saltitando levemente nas pontas dos pés, quando sentiu um puxão violento.
Ele foi imediatamente arrastado de volta para o chão. Maysa, ignorando completamente a declaração de guerra e a chuva de óleo que manchava sua pele pálida, abraçou a cabeça dele contra seu peito farto, forçando-o a deitar novamente em suas coxas como se ele fosse uma boneca de pano preciosa.
— Quieto! Fique quieto, meu querido Consorte — disse ela, a voz vibrando no peito, grave e absoluta. Ela acariciava os cabelos dele com uma possessividade assustadora, os olhos fixos nele como se o fim do mundo fosse apenas um detalhe irrelevante. — Você gastou muito do seu Éter. O período de recuperação exige repouso absoluto para garantir a integridade do material genético. Não posso permitir que você estrague a mercadoria.
— Me larga, sua maluca! — Dante debateu-se, a voz abafada pelo tecido rasgado e chamuscado da roupa dela, o rosto afundado perigosamente no decote. — O mundo está acabando! Aquela pirralha da Kiara acabou de declarar guerra a toda Morpheus, não tenho mais tempo para brincar de casinha!
— O mundo é uma variável irrelevante — respondeu Maysa, com a calma gélida de uma geleira se movendo. — Contanto que você sobreviva para a transferência genética, o resto pode queimar até as cinzas.
— EU NÃO SOU SEU MARIDO E NÃO VOU FAZER TRANSFERÊNCIA NENHUMA! — Dante conseguiu empurrar o braço dela o suficiente para respirar ar puro (ou o que restava dele, misturado ao cheiro de enxofre).
Ao lado deles, Teth observava o céu. Ele apertou o cabo de sua espada quebrada até a luva de couro ranger.
— A barreira do Éden caiu... — Teth murmurou para si mesmo, o choque inicial dando lugar a uma determinação fria e rígida de soldado. — As coisas escalaram mais rápido do que eu esperava. Mas agora acho que entendo de onde veio toda essa fama lendária que rondava a figura de Kiara…
— Hum, então você nunca tinha dado uma olhada nela, Raspadinha? — A voz de Sora ecoou das luvas nas mãos de Dante, curiosa.
Teth olhou para as armas lendárias, reconhecendo-as.
— Então essas armas do apocalipse são capazes de conversar mesmo, né... — Ele suspirou. — Não, ela apareceu e teve sua era bem antes do meu nascimento. Por isso, essa é a primeira vez que a vejo. Mas ouvi tanto dela, pelas bocas dos Lordes Demônios que ela governa, que sinto como se a conhecesse.
— Agora as peças se encaixaram! — exclamou Safira, a Index em forma de Gyaru, invocando um livro grosso em sua mão com um floreio dramático, fazendo seus seios balançarem com o movimento. Ela ajeitou o chapéu de bruxa. — Estava me perguntando o que você estaria fazendo aqui no território trash do Orgulho. Mas é verdade... ele era irmão do seu pai, não é? Que babado forte de família!
A revelação pegou todos os demais de surpresa. Oliver ajeitou os óculos tortos, boquiaberto.
— Espera, então... seu pai... quer dizer que o Aslan, o Pecado do Orgulho, era seu parente? — Oliver gaguejou. — Não consigo acreditar que conseguiram esconder que o Cavaleiro Branco e a grande mancha dos Sonhos eram parentes de sangue.
— Não é que estivéssemos escondendo ou algo assim. Ele mesmo nunca fez questão de usar seu nome em público — respondeu Teth, visivelmente irritado, a mandíbula trincada. — Aquele maldito era minha responsabilidade também. Eu queria ter acabado com ele para evitar que mais desgraças pudessem acontecer... mas eu falhei de forma miserável.
— Significa que ele conseguiu vencer o Cavaleiro Branco em um confronto direto? — Laeticia murmurou, assustada.
— Até parece que eu perderia para ele... — bufou Teth, ofendido. — Mas outro Pecado apareceu... e eu acabei nesse estado patético.
— Não se chame de patético, seu ingrato! Eu me esforcei muito curando você, sabia?! — Safira reclamou ao lado, dando um tapinha no ombro dele e fazendo beicinho. — Gastei minha mana preciosa para deixar você gatinho de novo!
— Gastou a minha mana, na verdade! — Dante gritou, ainda lutando contra o abraço de Maysa.
Teth ignorou e se virou para o grupo disfuncional, a postura ereta, tentando impor ordem no caos absoluto.
— Nós precisamos nos mover. Dante, eu sei que vocês têm suas diferenças e... hum... peculiaridades conjugais... sei que vocês, Pesadelos, também não têm motivo para confiar em mim, mas precisamos nos agrupar com as forças dos Cavaleiros Reais que, com certeza, devem estar se movendo; caso contrário, seremos massacrados. Senti isso no meu próprio corpo e posso dizer: não devemos subestimar os Lordes Pesadelos.
— Que saco... — Oliver suspirou, resignado, percebendo que não poderia mais fingir que não viu nada daquilo.
Fssshhh.
Ele riscou um fósforo na sola da bota e acendeu um cigarro amassado que tirou do bolso do jaleco. A chama iluminou seu rosto cansado e cheio de fuligem. Ele tragou profundamente, soltando a fumaça cinza para o alto.
— Eu ainda estava no começo do meu grupo, ainda estávamos aprendendo a operar em equipe... então por que cai assim no meu colo a missão de salvar o mundo sem preparo nenhum? — Oliver murmurou para a fumaça.
— Dante, levante-se! — Teth insistiu, com voz de comando militar. — Temos que formular uma estratégia de contra-ataque imediatamente antes que...
— CALADO!
O grito veio em uníssono perfeito e assustador, interrompendo Teth no meio da frase. Dante e Maysa, que segundos antes estavam brigando como cão e gato, viraram os rostos para Teth com olhares assassinos idênticos. A sincronia foi tão absoluta que Teth travou, a mão parando no ar.
— Sei que deve parecer que estamos brincando, Teth... mas essa maluca não está brincando! Eu conheço pessoas loucas o suficiente para saber a diferença entre fetiche e obsessão! — Dante rosnou, os dentes trincados, tentando desvencilhar-se do abraço de ferro.
— Silêncio! Não interrompa o momento de vínculo conjugal, humano inferior — Maysa sibilou, as pupilas verticais dilatando, prontas para atacar qualquer um que ameaçasse a integridade do seu "marido". — Sua voz irritante está me estressando.
— Não importa se é sério ou brincadeira! Se não começarmos a nos preparar agora, dividir informações e criar estratégias, não iremos conseguir fazer nada além de morrer! — Teth gritou, começando a perder a paciência.
Foi então que uma luz negra pulsou.
VUUUM.
Não veio do céu, nem de Maysa. Veio das mãos de Dante. As luvas pretas com detalhes vermelhos começaram a vibrar violentamente, emitindo um som grave, como um baixo distorcido ligado no volume máximo. O ar ao redor de Dante ficou frio, congelando o vapor da respiração deles. O Éter condensou-se, tornando-se pesado e líquido, escorrendo pelos dedos dele como tinta preta viva.
— Relaxa, Raspadinha...
A voz feminina, delicada, carregada de malícia e autoconfiança, ecoou na mente de todos, cortando a discussão como uma navalha. As luvas se desfizeram em fumaça de sombras. A massa escura girou, subiu e se reagrupou ao lado de Dante, solidificando-se no ar. A silhueta cresceu, ganhou curvas, ganhou cores.
— Bom, assim vai ser bem mais fácil para conversarmos, não é? E talvez fazer outras coisas mais interessantes...
A figura materializou-se completamente com um estalo de energia estática.
Sora estava de pé. Ela não era mais apenas uma voz sarcástica na cabeça de Dante ou uma luva sem corpo. Ela era sólida, real e perigosa.
Seus cabelos eram longos e lisos, de um roxo profundo como ametista na escuridão, caindo em cascatas até a cintura. No topo da cabeça, um par de orelhas de gato pretas e felpudas se movia, captando o som da batalha distante. Seu visual era uma afronta completa à moda nobre e medieval dos Sonhos. Era moderno. Agressivo. Ela vestia um estilo Lolita Gótica Punk: um corset de couro preto apertado que realçava a cintura fina e o busto modesto, cheio de fivelas de metal prateado e zíperes inúteis que brilhavam; uma minissaia xadrez roxa e preta, rasgada artisticamente na bainha, revelando pernas pálidas cobertas por meias arrastão e botas pesadas de plataforma.
Ela cruzou os braços pálidos e finos, exalando uma aura de rebeldia afiada, e olhou para Teth com um sorriso de canto que prometia problemas.
Parte 3
Dante piscou, alternando o olhar incrédulo entre suas mãos nuas e a garota gótica de cabelos roxos parada à sua frente, mascando chiclete de Éter com uma atitude de quem é dona da rua e do apocalipse.
— Pera aí... — Dante coçou a nuca, bagunçando o cabelo bicolor; a fuligem em seu rosto não escondia a confusão genuína. — Então você também consegue assumir uma forma física? Assim, do nada? Sem aviso prévio, nem um manual de instruções, nem um "Ei, parceiro, vou virar gente agora"?
Sora revirou os olhos, cruzando os braços pálidos e fazendo o couro do corset ranger, o que realçou levemente o busto modesto sob o tecido justo.
— Por que o espanto a essa altura do campeonato, Parceiro? Você é lento ou só gosta de se fazer de difícil? — Ela gesticulou com descaso para Safira, que flutuava ao lado fazendo poses de modelo para um público invisível, estufando o peito exageradamente. — Eu e aquela "enciclopédia de peitos ambulante" ali possuímos basicamente a mesma origem. Se eu sou a fonte dela, é óbvio que consigo fazer algo assim.
— Então algumas Armas conscientes... têm forma humanoide... — Teth murmurou, massageando as têmporas como se sentisse uma enxaqueca divina chegando. — A cada minuto que passo com vocês, sinto que tudo o que aprendi na Academia de Cavaleiros sobre a lógica do mundo foi uma piada de mau gosto contada por um bêbado.
Sora ignorou a crise existencial do Cavaleiro e deu um passo à frente, assumindo o centro do círculo com uma autoridade natural que fez até Oliver prestar atenção e ajeitar a postura.
— Chega de papo furado. O tempo está correndo e o céu está literalmente caindo na nossa cabeça em forma de óleo. — Ela olhou para Dante, seus olhos roxos brilhando com uma lealdade feroz, pragmática e cheia de segundas intenções. — O objetivo é simples: vamos até a Capital. Vamos salvar a "garota da guerra" — seja ela Kiara, Anna ou qualquer nome que esteja usando agora — porque esse é o desejo do meu Parceiro.
Oliver levantou a mão timidamente, a cinza do cigarro caindo na bota suja.
— Hum... eu voto pela sobrevivência. Se o plano envolver estatisticamente menos chances de morte dolorosa e desmembramento, eu apoio.
— O plano vai envolver muita dor, quatro-olhos — Sora retrucou com um sorriso afiado, mostrando caninos brancos e passando a língua nos lábios pintados de preto. — Mas, se seguirmos o meu ritmo, a dor será exclusivamente dos outros.
Dante assentiu, concordando com a lógica brutal, mas sua atenção se desviou. Ele olhou para Maysa. A mulher, que ainda o observava com aquela fome predatória e silenciosa, exibia a pele pálida exposta através dos rasgos de suas roupas de combate destruídas. E lá, na região pélvica, brilhava a marca que Sora apontara antes. Três espirais interconectadas. O Triskele.
— Ei, Maysa... — Dante começou, a voz ficando séria e baixa, o tom de brincadeira sumindo. — Tem algo que eu quase esqueci de perguntar. Esse símbolo em você. É a marca dos Scarlunes. Eu achei que fosse algum parente estranho da minha família que achou um jeito de entrar em Morpheus...
De repente, Teth olhou, curioso, percebendo a implicação: isso indicaria que Maysa também era uma humana, ou pelo menos tinha sangue humano.
— ...mas a cada segundo eu fico mais convencido de que você é outra coisa. Quase confirmando isso, notei que não tem nenhuma Cruz Invertida com você. Então... o que diabos você é?
Maysa olhou para a própria marca na pele, desinteressada, como se fosse uma tatuagem velha e sem significado.
— Ah, isso? — Ela deu de ombros, um gesto elegante demais para o caos ao redor. — Eu não sei muito sobre a história deste corpo ou da linhagem genética dele. Quando eu desci, este Invólucro acabou sendo o mais compatível com a minha frequência vibratória. A resistência física, a capacidade de canalizar Éter... era um desperdício deixar uma casca tão biologicamente perfeita e fértil vazia, então eu a tomei.
O silêncio caiu sobre o grupo. Teth e Oliver trocaram olhares confusos e alarmados. "Desci"? "Invólucro"? "Tomei"?
Mas, para Dante, as peças se encaixaram com um clique ensurdecedor em sua mente. A força física absurda. A arrogância divina. A forma como ela falava de "conceitos", "evolução" e tratava a humanidade de cima, como um cientista observa ratos de laboratório.
— Você... — Dante estreitou os olhos, o Éter carmesim tremulando ao redor dele em defesa automática. — Você é um Avatar de Astreus, não é?
A revelação atingiu o grupo como uma onda de choque invisível.
— Astreus?! — Teth engasgou, recuando um passo e tropeçando nos escombros. — Como os Deuses Primordiais? Do que está falando, Dante? Eles não podem interferir diretamente na realidade!
— ...Você está correto. — Maysa sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos reptilianos. — E sim, querido. Sua dedução é correta.
— Sabia... — Dante cerrou os punhos, a memória amarga voltando como bile. — Meu Deus... essa coisa de atrair Astreus está começando a realmente me dar raiva. A Memória já me encheu a paciência com aquele jogo sádico, e agora tenho que lidar com mais uma? Não vai me dizer que você é tipo a doida da Vida!
— Não me compare àquela criança mimada — Maysa disse, torcendo o nariz com elegância e desdém supremo. — A Vida é só uma pirralha que quer fazer seus brinquedos serem mais duráveis... Você, que lutou com ela de perto, deveria ter percebido a imaturidade.
— E como você sabe que eu lutei contra ela? — Dante perguntou, desconfiado, dando um passo para trás.
— Eu estava assistindo — Maysa admitiu, com a naturalidade de quem confessa ter assistido a um filme romântico no sábado à noite. — Eu estava procurando um candidato em potencial. Quando percebi que minha irmã tinha descido e estava lutando contra outro Avatar, quis ver se um dos dois poderia ser um consorte em potencial. Mas naquela época você era como um pequeno pássaro que nem havia aprendido a bater asas. Por isso te ignorei.
Dante sentiu um arrepio na espinha. Então ela era a presença que Anna havia sentido na época, assistindo à batalha de fora da Black Box.
— Olha, eu não me importo se você é uma deusa, um Avatar ou a fada do dente bombada — Dante cruzou os braços, rejeitando-a novamente com firmeza. — Avatares são problema. E eu já estou por aqui com problemas de Astreus. Não quero mais sarna para me coçar. Por isso, vá tentar sua sorte com outro alguém, beleza?
— Eu me recuso. — Agora os papéis se inverteram. Maysa recusava com veemência a negação de Dante, como se a rejeição fosse uma impossibilidade física.
Safira, que flutuava de cabeça para baixo acima de Dante, soltou uma risadinha maliciosa, tapando a boca; seus seios quase caíam do decote pela gravidade invertida.
— Interessante... Se o que você disse for verdade, Mestre, você não é tão contra ter filhos ou relacionamentos. O fato de dizer que "só teria filhos em um relacionamento estável" mostra que você já imaginou esse cenário. E mesmo que diga que não daria certo como pai ou namorado... com a motivação certa, eu acho que seria até possível.
— É melhor ter cuidado com essas afirmações... — Dante tentou impedir Safira de continuar falando, mas Maysa, vendo que a gyaru iria chegar a alguma conclusão lógica, agiu rápido.
Ela puxou Dante e enterrou o rosto dele em seus seios com força, silenciando-o enquanto prestava atenção na análise da gyaru.
— Basicamente — continuou Safira, ignorando os protestos abafados do Mestre —, eu acho que, se o Mestre realmente acabar se apaixonando, ele mesmo vai desistir dessa coisa de "não sirvo para isso". Ele vai querer se tornar um bom namorado. É a natureza dele.
Os olhos de Maysa brilharam com a sugestão, as pupilas dilatando até cobrirem quase toda a íris.
— Apaixonar... — Ela testou a palavra na língua como se fosse um doce exótico e perigoso.
O tom dela mudou. A pressão no ar aumentou, tornando-se sufocante, doce e venenosa.
— Entendi a verdade... — Ela sussurrou, soltando Dante apenas o suficiente para olhar nos olhos dele, o rosto a centímetros do dele. — Se a presa foge quando encara seu destino, tudo o que eu tenho que fazer é me tornar uma caçadora ainda melhor. Uma caçadora que faça sua presa querer ser caçada.
— É o quê? — Dante se afastou dela bruscamente, limpando o rosto, o suor frio descendo de sua testa.
— Eu serei a esposa perfeita. E eu vou te caçar, dia e noite, com uma devoção tão absoluta que você vai esquecer como respirar sem a minha permissão. Eu vou fazer você implorar por mim, Dante. Implorar para ser meu.
Dante não recuou. Ele olhou fundo nos olhos reptilianos dela e então, erguendo o queixo em provocação, soltou uma pequena risada cínica.
— Pode tentar. Mas eu não tenho medo. E sabe por quê? — Ele sorriu, quebrado e desafiador. — Porque vocês, Astreus... com essa visão superior, essa lógica alienígena de "conceitos"... vocês não são capazes de entender o que significa amor de verdade. Não tem mesmo como eu me apaixonar por algo assim. — Ele balançou a cabeça em negação, subindo as mãos em um gesto de deboche.
Maysa parou. Ela deslizou para mais perto, ignorando o espaço pessoal dele, e falou diretamente em seu ouvido, a voz como veludo arranhando a pele.
— Você está enganado, meu querido. — Ela tocou o peito dele, sobre o coração, com uma delicadeza surpreendente e assustadora. — Nós entendemos o amor melhor do que qualquer mortal jamais poderia. Afinal... foi um Astreus quem criou o conceito de Amor.
Dante ficou sem resposta. A convicção na voz dela era sólida como uma rocha, antiga como as estrelas e fria como o vácuo.
— Chega disso. Faça o que quiser. Se vai ficar ao meu lado, pelo menos é mão de obra grátis e superpoderosa. — Dante sacudiu a cabeça, ignorando o flerte pesado e a ameaça implícita para focar na sobrevivência imediata. Ele se virou para Sora. — Temos que ir. Sora, qual foi a estratégia que vocês decidiram enquanto eu estava sendo assediado?
Sora ajustou as luvas de couro, olhando para Maysa com um cálculo frio de combate e um sorriso debochado.
— Bom, com o que eles me contaram da tal Kiara, eu já formei um plano. Mas tudo ainda depende de uma variável crítica, Parceiro. — Sora virou-se para a mulher-avatar, lambendo os lábios. — Se vamos lutar ao lado de uma divindade gostosa, precisamos saber o que ela pode fazer além de flertar e regenerar. Maysa... de qual Astreus você é o Avatar? Qual é a sua Autoridade?
O vento de Gehenna soprou, levantando a poeira tóxica ao redor deles em espirais verdes. Maysa levou o dedo indicador aos lábios pintados de sangue. Um sorriso enigmático, que prometia tanto a salvação quanto a ruína absoluta, curvou sua boca.
Parte 4
O transporte de Asmodea não era uma simples carruagem; era um bunker de seda e aço reforçado que deslizava como um predador pelas estradas subterrâneas de Gehenna.
Lá fora, nas sombras dos túneis de metrô abandonados, a guarda de elite da Luxúria — as Kunoichis das Sombras — corria em silêncio absoluto, acompanhando o veículo a 100 km/h sem emitir um som de passos; fantasmas protetores na escuridão.
Lá dentro, o ambiente era abafado, perfumado e opressivo, iluminado apenas pela luz roxa e pulsante de lanternas de Éter que balançavam com o movimento suave das rodas magnéticas.
Eliza despertou. Não houve o grito de um pesadelo, nem a respiração ofegante de quem foge de monstros. Houve apenas o abrir lento de pálpebras pesadas, revelando olhos que viram séculos passarem em segundos.
Ela se sentou no divã de veludo escuro, o tecido caro amassando sob seus dedos trêmulos. O rosto dela estava molhado. Lágrimas silenciosas, contínuas e quentes escorriam por suas bochechas, pingando em suas mãos abertas como chuva ácida.
— Eu lembro... — a voz de Eliza era um sussurro rouco, quebrando o zumbido elétrico do motor. — Eu lembro da promessa no telhado. Do cheiro de rosas e baunilha. Da mão dela na minha, tão quente...
Ludmilla, sentada no banco oposto, observava. O "Príncipe" estava imóvel, com a postura rígida de uma estátua de mármore, mas seus olhos traíam uma preocupação profunda, focados na amiga que parecia se desfazer.
Eliza fechou os punhos até os nós dos dedos ficarem brancos. Ela sentia o amor de Stella. Aquele amor puro, ingênuo e avassalador que a Princesa sentia por sua "Cupcake". Era uma maré quente tentando afogá-la, uma identidade sobreposta tentando gritar que sua única razão de existir era salvar Kiara.
Mas, então, Eliza ergueu o queixo. O movimento foi brusco.
— Mas eu não sou ela.
Ela limpou as lágrimas com as costas da mão, esfregando a pele com agressividade, como se limpasse sangue.
— Eu sinto o que ela sentiu. Eu carrego a dor dela no meu peito. Mas eu não sou a Princesa Stella que morreu naquela torre. Eu sou Eliza da Tromluí.
Seus olhos brilharam com uma determinação feroz, queimando as lágrimas restantes.
— Eu comi lixo para sobreviver quando criança. Eu lutei em becos por um pedaço de pão. Eu tenho uma família de desajustados que precisa de mim agora. Eu luto pelos meus amigos, pelo Dante, pelo futuro... e não apenas por um fantasma do passado que nem é meu.
Ela olhou para Ludmilla, o olhar focado e perigoso.
— Eu vou salvar a Kiara. Não porque sou a irmãzinha dela, mas porque eu decidi que não vou deixar ninguém mais ser consumido por esse mundo de merda.
Ludmilla assentiu lentamente, respeitando a força bruta da companheira. Mas o silêncio do Príncipe escondia seu próprio abismo.
Enquanto Eliza lutava contra memórias de amor, Ludmilla lutava contra memórias de dentes.
A imagem do Gévaudan — a Besta da Gula que Kiara montava — estava queimada em sua retina. Aquele cheiro de carne podre, enxofre e óleo queimado. A forma como os músculos se moviam sob a pele sintética. Era a mesma espécie. O mesmo tipo de monstro biológico que invadira a mansão de sua infância, que rasgara seus pais pedaço por pedaço enquanto ela assistia debaixo da cama, paralisada, inútil, muda.
O terror primitivo, infantil, tentava fazer suas mãos enluvadas tremerem sobre o colo. Uma voz sussurrava em sua mente: "Você ainda é aquela criança. Você vai congelar de novo. Você vai cair."
Ludmilla fechou os olhos e respirou fundo, controlando o ritmo cardíaco com disciplina militar.
"Cair..."
Sua vida inteira, desde o dia em que foi adotada e treinada, foi um exercício de negação à gravidade. Ela treinou até os ossos doerem e quebrarem. Ela criou a persona do "Príncipe Perfeito" para nunca mais ser a menina frágil que chora.
Se ela deixasse o medo daquela Besta derrubá-la agora... então tudo teria sido em vão.
Ludmilla abriu os olhos.
"Se eu caí antes... é meu dever levantar. Não importa quantas vezes..."
Ela expurgou o medo com a eficiência de quem descarta lixo. Seu foco voltou para a missão. Para Dante.
Click. Hisss.
A porta divisória blindada da carruagem se abriu.
Asmodea Lilith entrou, acompanhada por uma nuvem de fumaça doce de ópio e cereja. Ela trazia consigo duas caixas compridas de madeira negra laqueada, flutuando ao seu redor.
— Que clima pesado... — a Lorde da Luxúria comentou, sentando-se com elegância e colocando as caixas sobre a mesa central de vidro. — O cheiro de trauma adolescente e resolução trágica aqui dentro está quase vencendo o meu incenso.
Ela estalou os dedos, e as tampas das caixas se abriram. O brilho do metal polido e mágico iluminou o interior escuro da carruagem.
— Vocês vão para a guerra contra uma Deusa e seus generais do apocalipse. As armas que vocês usavam eram... esteticamente ofensivas. — Asmodea sorriu, o lado cicatrizado do rosto repuxando em uma expressão que misturava escárnio e generosidade. — Considerem isso um investimento. Eu gosto de apostar nos azarões; o retorno sobre o capital costuma ser mais divertido.
Parte 5
As muralhas da Cidade de Cristal, outrora o símbolo impenetrável e majestoso da pureza dos Sonhos, agora eram a linha de frente de um pesadelo encarnado.
O exército de Kiara não estava atacando para conquistar território; estava entrincheirado para proteger uma heresia. Sob as ordens absolutas da nova Rainha, as legiões de Mamon e os remanescentes fanáticos dos outros Lordes formaram uma barreira viva ao redor do Grande Tribunal. Eles eram um escudo de carne, escamas e ferro negro que separava o mundo da "coroação" silenciosa que acontecia lá dentro.
Mas eles não estavam sozinhos.
Mamon, em sua ganância infinita e falta de escrúpulos, esvaziara as jaulas proibidas do mercado negro. As portas de aço dos contêineres de carga estouraram, liberando não soldados com espadas, mas aberrações biológicas ilegais que a própria natureza jamais ousaria rascunhar.
— Segurem a linha! Não recuem! — gritou um capitão da Guarda Real, com o escudo erguido, um segundo antes de ser esmagado.
Uma massa de músculos hipertrofiados e pelos colidiu com a barreira de escudos de luz dos Sonhos. Era um híbrido profano: o corpo colossal de um urso-pardo de quatro metros, mas com a agilidade grotesca e os chifres retorcidos de um bode montanhês, berrando com uma voz que soava dolorosamente humana.
Ao lado dele, um tigre espectral, feito de fumaça negra e ossos translúcidos, atravessava as espadas dos guardas como se fossem névoa, solidificando suas garras de Éter apenas no exato milissegundo em que rasgava gargantas.
Seres inchados, com bocas verticais repletas de dentes que rasgavam seus próprios estômagos, avançavam devorando escombros, lanças e soldados indiscriminadamente, movidos por uma fome mágica e ácida. Monstros amorfos, massas pulsantes de tentáculos e olhos amarelos, deslizavam pelas ruas de mármore imaculado, deixando um rastro de lodo corrosivo que dissolvia a pedra sagrada em fumaça tóxica.
Era um zoológico do inferno, solto no paraíso.
Na orla da Floresta do Delírio, Saga observava o massacre com os dentes trincados.
Sua onisciência — o glorioso Oblast — estava turva, bloqueada pela interferência caótica e nauseante de dezenas de milhares de assinaturas de Éter colidindo ao mesmo tempo. Mas seus olhos viam o suficiente. Ela estava cercada pelas costas. Milhares de refugiados se amontoavam sob sua proteção: civis aterrorizados, crianças chorando, nobres em estado de choque catatônico.
— Artilharia Arcana: Disparar! — Saga ordenou, sua voz projetada magicamente, soando como um sino de igreja sobre o barulho ensurdecedor da guerra.
Atrás dela, uma bateria de morteiros de cristal, operados por magos de combate exaustos, cuspiu fogo.
THUMP. THUMP. THUMP.
Os projéteis atirados ao ar não eram bombas convencionais; eram destroços da própria cidade, blocos de mármore quebrado e lixo metálico. Mas, ao atingirem o ápice da parábola, eles atravessavam um ciclo mágico de anéis rúnicos dourados que flutuavam no céu. A transmutação era instantânea. A pedra morta virava plasma instável. O lixo virava fogo estelar concentrado.
Uma chuva de meteoros de Éter flamejante despencou sobre a vanguarda dos monstros. Explosões de luz branca e calor absurdo pulverizaram o "urso-bode" em cinzas e vaporizaram as criaturas de lodo antes que tocassem o chão.
Mas não era o suficiente. O desgaste era matemático. Para cada aberração que derretia na luz, duas novas rastejavam das sombras dos contêineres de Mamon.
— Maldição... — Saga cerrou os dentes, erguendo com as mãos uma barreira de luz hexagonal para proteger um grupo de crianças de um estilhaço de osso que voou na direção delas. — Estamos em um impasse tático. Eles têm números infinitos. Se não avançarmos para quebrar o núcleo daquela formação, eles vão esmagar nossa linha pela pura exaustão e massacrar os civis.
Mas ela não podia avançar. Se Saga, o Escudo Absoluto e a única defesa que mantinha aquela maré contida, saísse da frente dos refugiados para atacar, a população seria dizimada em segundos pelas bestas rápidas como o tigre fantasma. A deusa da onisciência era refém de sua própria consciência.
— Precisamos de uma lança... — Saga murmurou, os olhos brancos fixos no céu tóxico e esverdeado. — Alguém que não precise se importar com defesa. Alguém que seja ofensa pura.
Como se o próprio universo — ou um deus extremamente arrogante — a tivesse escutado, o céu estalou.
KRA-KOOOOOOM!
Não foi o barulho de um trovão natural. Foi o som do firmamento sendo rasgado ao meio por garras de pura voltagem.
As nuvens verdes e oleosas se abriram em um vórtice eletromagnético perfeito. De dentro dele, descendo em espiral, emergiu uma criatura feita de luz cegante e rugido estático: um Dragão de Raios. Ele não era feito de carne ou escamas; era eletricidade viva, consciente e furiosa, serpenteando pelo ar com o tamanho e o peso de um trem de carga em alta velocidade.
Sobre a cabeça crepitante da fera divina, duas figuras estavam de pé, perfeitamente equilibradas e indiferentes à velocidade terminal da queda.
Um homem com uma roupa preta cheia de detalhes em ouro, de olhos vermelhos que brilhavam mais intensamente que os próprios relâmpagos ao redor. E, ao lado dele, uma garota pequena... vestindo um pijama felpudo de corpo inteiro de um dinossauro verde, com uma cauda balançando no vento e um capuz cheio de dentes de feltro inofensivos.
— Chegaram... — Saga soltou o ar, os ombros caindo em um misto de alívio e tensão absoluta.
Alone, o Cavaleiro Real do Trovão, não esperou o dragão terminar a descida para pousar.
— Dorothea — disse ele. A voz dele era assustadoramente calma no olho daquele furacão de vento e estática. — Limpe o chão; não é trabalho de Deus se livrar do lixo.
— Pode deixar, Faísca! — A garota no pijama fofo de dinossauro sorriu, revelando uma sede de sangue e uma insanidade letal que não combinavam em nada com a roupa de dormir.
Dorothea saltou da cabeça do dragão. Em pleno ar, ela abraçou os próprios joelhos, encolhendo-se em uma esfera.
— Spin Dash!
Ela não caiu; ela perfurou a gravidade. Sua velocidade de rotação foi tão absurda que ela perdeu a forma humana, tornando-se um pneu vivo de energia cinética, um borrão verde supersônico envolto em vento. Ao atingir o solo de mármore, ela não parou. A garota-dinossauro saiu rolando em linha reta, atropelando a linha de frente da barricada de monstros como uma bola de boliche divina atingindo pinos de carne frágil. Braços, cabeças e tentáculos voaram para o ar enquanto ela abria uma trincheira sangrenta no exército inimigo. Nada a parava.
Mas o verdadeiro terror veio de cima.
Alone deu um passo à frente e simplesmente se deixou cair das costas do dragão. Ele não usou paraquedas. Ele não usou magia de levitação para suavizar a queda. Ele despencou como uma punição divina, como um raio físico e sólido.
Ele aterrissou no centro exato da maior concentração do exército de Pesadelos e híbridos. O impacto de um corpo caindo daquela altura deveria ter levantado uma nuvem de poeira e uma cratera. Mas Alone não sujava suas botas.
Ele ergueu a mão direita, com a luva branca imaculada, e estalou os dedos.
SNAP.
Não houve fogo. Não houve o rugido de vento ou uma explosão. Houve apenas... Voltagem Absoluta.
Uma cúpula de eletricidade silenciosa, branca e mortífera expandiu-se a partir do corpo dele em um raio perfeito de trezentos metros. A onda de choque não empurrou os inimigos; ela fritou a própria malha da realidade.
O "tigre fantasma" intangível soltou um guincho agudo quando sua forma espectral foi ionizada e desfeita em partículas inofensivas. Os gigantes de carne e os híbridos de urso explodiram de dentro para fora, seus fluidos corporais e sangue fervendo e evaporando instantaneamente sob a corrente de milhões de volts.
Mas o efeito mais aterrorizante foi arquitetônico. A onda de calor elétrico foi tão intensa, rápida e concentrada que a areia, a terra solta e os escombros de mármore ao redor de Alone sofreram vitrificação instantânea.
Em menos de um segundo, o campo de batalha caótico virou vidro. Um espelho fumegante, liso e polido de trezentos metros de diâmetro, onde centenas de monstros aberrantes estavam fundidos sob a superfície translúcida, mortos, transformados em estátuas grotescas congeladas dentro do cristal negro.
Alone estava de pé no centro do espelho perfeito, ajeitando a luva lentamente. Nem um único fio de seu cabelo preto estava fora do lugar.
O dragão de raios rugiu uma última vez acima dele, desintegrando-se em milhões de partículas de luz que desceram suavemente como neve, recarregando a aura elétrica de seu mestre.
Dorothea, que tinha parado de rolar do outro lado do campo de vidro com um salto acrobático, cravou os pés no chão e ergueu sua marreta de guerra de aço maciço. O capuz de dinossauro caiu sobre seus olhos, deixando-a com uma aparência estranhamente ameaçadora.
— Habilidade: Macro-Scale!
Ela tocou a cabeça da marreta com a palma da mão livre. A arma pesada, que já era grande para uma garota de sua estatura, expandiu-se instantaneamente, ignorando qualquer lei da conservação de massa. Ela se tornou um bloco de ferro negro do tamanho de um prédio de três andares.
Com uma força física que desafiava a anatomia e a lógica, a garota de pijama verde girou aquele monólito colossal e o desceu com um estrondo vulcânico, esmagando os últimos sobreviventes que tentavam fugir do vidro quente.
A barreira viva de Mamon havia sido pulverizada em menos de trinta segundos. O caminho para o Grande Tribunal estava completamente aberto. Uma estrada suntuosa de vidro fumegante, iluminada pelos relâmpagos residuais e pavimentada sobre cadáveres derretidos.
Alone ignorou os gritos de comemoração e choro de alívio dos refugiados na floresta atrás dele. Ele ignorou Saga. Seus olhos elétricos estavam fixos apenas no Grande Tribunal ao longe, onde a aura escura e caótica de Kiara pulsava como um coração doente.
Ele começou a caminhar sobre o vidro superaquecido. Seus passos eram lentos e medidos. A capa branca refletia os microrraios que ainda dançavam e estalavam em sua pele pálida.
— Pobre Kiara... — Alone murmurou para o vento tóxico. A voz dele carregava uma piedade que não era gentil; era arrogante, inquestionável e absolutamente letal. — Sedenta por um trono de vidro e uma coroa de mentiras... sem sequer saber que acabou de desafiar o próprio céu.
Parte 6
A estrada de vidro vitrificado que Alone abrira não era apenas um caminho; era um convite.
Saga, observando a fumaça se dissipar sobre as estátuas grotescas dos monstros fundidos no chão, ergueu seu cetro de luz. A hesitação que a prendia à defesa dos refugiados desapareceu. O "Trovão" havia feito o trabalho sujo de limpar a vanguarda; agora cabia à "Ordem" terminar o serviço.
— Todas as unidades: Avançar! — a voz de Saga ecoou, amplificada por magia. — Recuperem a Cidade de Cristal!
O exército dos Sonhos, uma maré de armaduras brancas e douradas, derramou-se sobre a pista de vidro, marchando em direção ao centro da cidade com um fervor renovado.
Mas o tabuleiro de xadrez ainda tinha peças para mover.
Do lado oposto da cidade, onde os portões ocidentais haviam sido derretidos pela chuva ácida, uma nova vibração sacudiu o solo. Não era a marcha disciplinada dos Sonhos, nem a horda caótica da Gula. Era o som pesado, rítmico e sombrio de tambores de guerra feitos de couro de dragão.
A escuridão se condensou. Saindo da neblina tóxica, marchavam milhares de soldados. Pesadelos. Mas não os monstros deformados de Mamon. Eram guerreiros. Vestiam armaduras de ferro negro polido, capas de pele de lobo e portavam estandartes roxos com o brasão real de Gehenna.
No comando, montada em um corcel de sombras que soltava fumaça pelas narinas, estava a Rainha Isobel.
Seu rosto não tinha a raiva de uma monarca invadindo terras inimigas. Tinha a dor de uma mãe que veio buscar a filha rebelde pela orelha, mesmo que tivesse que queimar o mundo para isso.
— Não parem por nada — ordenou Isobel, a voz fria cortando o barulho da chuva. — Atravessem os monstros. Ignorem os Sonhos se eles não atacarem. Nosso alvo é o Tribunal. Nosso alvo é a Usurpadora.
A Cidade de Cristal tornou-se o epicentro de um moedor de carne triplo.
No anel externo, os monstros sobreviventes de Kiara, enlouquecidos e sem liderança direta, atacavam tudo o que se movia. Pelo leste, a luz cegante de Saga e a eletricidade de Alone avançavam. Pelo oeste, a escuridão disciplinada de Isobel rompia as linhas.
E no centro desse furacão de violência, isolado pelo silêncio das paredes grossas do Grande Tribunal, Kiara se preparava.
Ela estava de pé no centro da arena vazia. O vestido vitoriano vermelho, pesado e majestoso, parecia subitamente errado em seu corpo. Era uma fantasia de Rainha, uma peça de teatro que já não servia mais.
— Chega de seda — sussurrou ela.
Kiara fechou os punhos. O Éter explodiu de seu corpo, não como uma aura, mas como fogo consumidor. As chamas lamberam o tecido caro, desintegrando o vestido em cinzas brilhantes.
Mas ela não ficou nua. Enquanto o fogo queimava a realeza, a magia reconstruía a identidade.
O couro preto se formou sobre sua pele. Coturnos pesados com biqueiras de aço. Calças rasgadas, correntes penduradas no cinto, uma jaqueta curta cheia de spikes e remendos de bandas que não existiam naquele mundo.
Quando a fumaça se dissipou, a "Rainha" havia desaparecido. Quem estava ali era a "Cupcake". A rebelde da sarjeta. A garota que correu pelos telhados com Stella.
Ela passou a mão pelos cabelos, sentindo a familiaridade do estilo.
— Tem certeza disso? — A voz de Anna ecoou em sua mente, suave e trêmula.
Kiara riu. Foi um som baixo, rouco, que ecoou no tribunal vazio.
— Nós já somos quase uma só, Anna... — Kiara olhou para as próprias mãos enluvadas, vendo os dedos de Anna sobrepostos aos seus na visão espiritual. — E é isso que você ganha por ficar bisbilhotando memórias que não devia.
Anna ficou em silêncio. A presença dela na mente de Kiara recuou, encolhida em um canto, irradiando uma preocupação que doía fisicamente no peito das duas.
— Se você continuar por esse caminho, não vai ter mais como voltar, Kiara... — sussurrou Anna.
— Não precisa se preocupar — respondeu Kiara, caminhando em direção aos portões colossais do tribunal. — Eu comecei isso sabendo exatamente o que deveria acontecer. O final feliz nunca foi uma opção para mim, Anna.
Uma onda de tristeza profunda, azul e fria, invadiu a mente de Kiara. Mas ela a bloqueou com uma muralha de determinação.
— Eu escolhi esse caminho. — Kiara falou em voz alta para o salão vazio. — E vou preservar o seu ego o máximo possível, Anna. Você não precisa carregar o peso do sangue. Deixe que a vilã faça o trabalho sujo. Você apenas... assista.
Ela parou diante dos portões duplos de trinta metros de altura.
Atrás dela, nas sombras do tribunal, o Gévaudan — Balthazar — ergueu-se. A besta gigantesca rosnou, e seus músculos se retesaram, prontos para a última caçada.
Kiara colocou as mãos nas portas.
— Hora de começar.
BOOOOM.
Com um empurrão de força bruta amplificada por Éter, os portões do Grande Tribunal se escancararam para fora.
O som reverberou por toda a cidade, sobrepondo-se ao barulho da batalha. A luz — e a chuva negra — invadiu a arena.
Kiara não saiu caminhando. Ela flexionou os joelhos e saltou.
Num único impulso, ela voou para o topo da estrutura, aterrissando na cabeça da estátua da Justiça que decorava o frontão do Tribunal. Lá de cima, ela tinha a visão do apocalipse.
Ela viu o exército branco de Saga. Viu o exército negro de Isobel. Viu o rastro de destruição de Alone. Todos pararam. Todos olharam para cima.
A figura solitária, vestida como uma punk no topo do mundo, abriu os braços. Sua voz, amplificada pela magia, trovejou sobre a cidade, sobrepondo-se aos trovões e aos gritos.
— VENHAM, HERÓIS!
Ela sorriu. O sorriso mais cruel, arrogante e odiável que conseguiu forjar.
— A espera acabou! Vocês queriam um monstro? Aqui estou eu!... então venham pegar sua rainha.
Sua aura explodiu, um pilar de luz vermelha e negra que perfurou as nuvens tóxicas, marcando sua posição como um farol de ódio.
Parte 7
Alone caminhava sobre a estrada de vidro fumegante que ele mesmo criara, seus passos ecoando com a autoridade de um trovão contido. Seus olhos elétricos estavam fixos no pilar de Éter roxo que rasgava o céu no centro da cidade.
Kiara estava lá. O alvo. O erro a ser corrigido.
Ele acelerou, transformando-se em um raio vivo para cruzar a distância de quinhentos metros num piscar de olhos.
VUUUSH.
Algo pesado, dourado e incrivelmente rápido interceptou sua trajetória. Não foi um ataque mágico; foi um bloco maciço de concreto reforçado, banhado a ouro, arrancado de uma fundação próxima e arremessado com a precisão de uma bala de canhão.
Alone parou instantaneamente, desintegrando o projétil com um estalo de seus dedos antes que o tocasse. A poeira de ouro baixou, revelando quem bloqueara o caminho de Deus.
Mamon Sterling.
O Lorde da Avareza não vestia armadura de combate. Ele usava um terno de seda italiana roxo, impecavelmente cortado, e estava coberto por mais ouro e pedras preciosas do que um ídolo pagão. Anéis em todos os dedos, correntes no pescoço, broches de diamante na lapela. Ele girava uma bengala com ponta de rubi, sorrindo com seus dentes de ouro.
— Você está com pressa, "Cavaleiro"? — zombou Mamon, bloqueando a passagem com a elegância de um porteiro de boate exclusiva. — A entrada para o show principal é paga. E o preço de admissão é a sua vida.
Alone estreitou os olhos, a eletricidade crepitando perigosamente em seus cabelos brancos.
— Avareza... Você escolheu o lado errado da história. Saia da frente ou será vaporizado junto com seu ouro barato.
Mamon riu, ajeitando a gravata de seda.
— "Lado errado"? Eu sempre escolho o lado que paga melhor, meu caro. E a Rainha paga em poder absoluto e isenção fiscal eterna. — O sorriso de Mamon tornou-se afiado e cruel. — Além disso... eu não esperava muito de um "Deus" que foi feito de bola de pingue-pongue por um pirralho humano na floresta dias atrás. Se aquele garoto te fez voar... acho que posso te fazer gastar um tempo valioso aqui. Vamos negociar sua derrota.
Do outro lado do campo de batalha, o caos tinha uma forma mais fofa e brutal.
— ESMAGAAAAAR! — gritou Dorothea.
A garota no pijama de dinossauro girou sua marreta de guerra — agora do tamanho de um tanque de guerra — e desceu o golpe sobre as linhas inimigas com a força cinética suficiente para transformar um batalhão inteiro em pasta.
CLANG.
O som não foi de esmagamento de carne. Foi de metal batendo em uma parede inamovível. A marreta parou no ar, vibrando com o impacto rejeitado.
Uma única mão a segurava.
Satan Bellum, a Valquíria de gelo de três metros de altura, segurava a arma colossal de Dorothea pelo cabo, logo abaixo da cabeça de ferro. Ela nem parecia ter feito esforço.
— Brinquedo grande para uma criança tão pequena e barulhenta — disse a Lorde da Ira, sua voz saindo como vapor gelado de dentro do elmo.
O Éter azul começou a emanar da armadura de Satan. Não era apenas frio; era entropia térmica. O gelo alastrou-se instantaneamente pela marreta, subindo em direção às mãos de Dorothea.
— Congelar.
Satan exalou. Uma onda de frio absoluto expandiu-se em um círculo perfeito. Cavaleiros Reais que estavam próximos nem tiveram tempo de gritar; foram transformados em estátuas de gelo no meio do movimento de ataque, seus gritos presos na garganta congelada. O chão virou permafrost.
Kiara, vendo o avanço da Ira e o impasse da Avareza, saltou para trás, aterrissando com graça no topo de seu trono improvisado na entrada do Tribunal.
Ivy surgiu das sombras ao lado dela, observando o caos com olhos verdes brilhantes.
— Os Lordes estão em posição, minha Rainha — sussurrou a Inveja. — O tabuleiro está travado. As peças brancas não conseguem avançar.
— Eu sei — respondeu Kiara, assistindo às luzes da batalha com frieza. — O jogo está só começando.
Longe dali, nos becos do Distrito Comercial, Saga tentava desesperadamente coordenar o avanço tático.
— Pelotão 4, flanqueiem pela esquerda! Evitem a zona de congelamento da Ira! Usem os becos estreitos para chegar ao Tribunal! — a voz de Saga projetava-se na mente de cada soldado.
Os soldados obedeceram, correndo para a rota alternativa. Parecia seguro. Mas assim que pisaram nas ruas estreitas, o chão brilhou com runas alquímicas vermelhas.
— Armadilha! — gritou um sargento.
Tarde demais. As experiências de Aslan foram liberadas. O chão se abriu e quimeras de carne ácida e metal, escondidas nos esgotos como ratos mutantes, saltaram sobre os soldados. A estratégia perfeita de Saga estava sendo desmontada peça por peça pela imprevisibilidade sádica do Orgulho.
No front oeste, o exército disciplinado da Rainha Isobel avançava como um rolo compressor negro. Eram veteranos, leais e furiosos. Pareciam imparáveis.
Até que chegaram à Praça do Relógio.
O primeiro soldado tropeçou no próprio cadarço (que estava amarrado corretamente segundos antes) e caiu de cara na sua própria espada. O segundo escorregou em uma poça de óleo invisível e disparou sua besta no companheiro da frente. De repente, o chão de paralelepípedos cedeu sem motivo geológico, engolindo a vanguarda inteira em um buraco perfeitamente quadrado que não deveria estar ali.
Números digitais vermelhos começaram a aparecer flutuando sobre as cabeças dos soldados de Isobel. 1, 4, 3, 2, 6…
— O que está acontecendo?! — gritou um general, antes que um vaso de flores caísse de uma janela do quarto andar exatamente na sua cabeça, nocauteando-o com precisão cômica.
No alto de um terraço próximo, sentada na beirada com as pernas balançando, estava Katsuragi, a Preguiça.
Ela nem olhava para a batalha real. Seus olhos estavam fixos na tela de um console portátil, os dedos movendo-se freneticamente nos botões, controlando o caos lá embaixo como se fosse uma fase.
— Ah, droga, morri... — ela resmungou, reiniciando a fase.
— Foi mal, mamãe... — a voz de Kiara murmurou, sentada em seu trono. — Mas desse lado, somente um Pecado já é o suficiente para brincar com o seu exército inteiro. A Preguiça não precisa lutar para vencer; ela só precisa que vocês tentem e falhem.
Schrödinger, em sua forma de gato preto, materializou-se no ombro de Kiara no Tribunal.
— Miau... A Preguiça está roubada como sempre. Mas e nós? Quando vamos entrar? Ou vai mandar o totó gigante ali? — O gato apontou para o Gula, que babava ácido no pátio, ansioso.
Kiara fez um carinho na cabeça do gato e depois no focinho do monstro.
— Não há motivo para pressa. Os competidores principais ainda não chegaram… e quando você vai logo decidir sua forma? Da última vez você era um garoto.
Ivy franziu a testa, olhando para a devastação. Os Sonhos estavam presos, os Pesadelos leais estavam tropeçando no próprio azar.
— Do jeito que está indo... isso nem será necessário — comentou a Inveja, confiante. — A menos que o próprio Rei desça daquela torre, duvido muito que o jogo possa virar de verdade. Eles não têm poder de fogo para romper nossas defesas combinadas.
Kiara sorriu. Mas não foi o sorriso cruel da Rainha Negra. Foi um sorriso pequeno, genuíno e quase infantil, que fez Ivy sentir um desconforto gélido na espinha. Era puro demais para aquele inferno.
— Isso não é verdade, Ivy. — Kiara olhou para o céu negro. — Ainda tem um garoto problema em Morpheus.
— Um garoto? — Ivy zombou. — O que um único garoto pode fazer contra um exército de Lordes e Deuses?
— Aquele garoto é especial — disse Kiara, a voz suave. — Ele é um problema porque não sabe quando parar. Ele ignora as regras do jogo. E por conta disso... de vez em quando, ele consegue ultrapassar o limite do impossível.
Naquele exato momento, o zumbido da batalha foi abafado por um som grave, de deslocamento de ar massivo.
WOOOOOOSH.
Uma sombra colossal começou a cobrir a Cidade de Cristal, engolindo a luz das explosões e dos relâmpagos de Alone, transformando o dia em noite.
Todos pararam. Sonhos, Pesadelos, Lordes e Cavaleiros olharam para cima, incrédulos. Katsuragi pausou o jogo. Ela olhou para o céu, a boca abrindo ligeiramente, o chiclete caindo no chão.
— Tá de sacanagem... — ela murmurou, os olhos arregalados. — O jogo bugou de vez…
Sobrevoando a cidade, desafiando a gravidade, a lógica e o bom senso, estava um prédio.
Um arranha-céu inteiro, destruído e arrancado pela raiz das ruínas do Distrito do Orgulho, flutuava majestosamente sobre o campo de batalha como uma nave-mãe de concreto e aço retorcido.
Kiara olhou para cima, o sorriso se alargando. — Parece que ele chegou.
No topo do prédio voador, o vento chicoteava as roupas do grupo mais improvável e perigoso da história.
Teth segurava-se em uma viga exposta, pálido como um fantasma. Oliver e Laeticia abraçavam-se, rezando para todas as divindades conhecidas e desconhecidas. Maysa estava de pé na borda, os braços cruzados. Sora e Safira flutuavam ao lado de seu mestre.
E na ponta mais extrema do concreto, olhando para o Tribunal lá embaixo como um rei retornando do exílio, estava Dante.
Sua cauda negra balançava atrás dele. A aura carmesim pulsava em sincronia com seu coração. Ele olhou para a destruição, para os exércitos paralisados e para a figura solitária de Kiara no trono.
— Andei, andei... e no final voltei para onde comecei — disse Dante, a voz calma no meio do furacão.
Ele fechou os olhos por um segundo, sentindo a presença dela lá embaixo.
— Espera mais um pouco, Anna. — Ele abriu os olhos, e eles brilhavam com a determinação de quem vai quebrar o mundo se for preciso. — Eu já tô chegando.
Parte 8
Algumas horas antes. Ruínas do Distrito do Orgulho.
Oliver estava sentado sobre um bloco de concreto quebrado, batendo o pé nervosamente no ritmo de um relógio tiquetaqueando em sua cabeça. Ele olhava para o horizonte distante, calculando distâncias, velocidade média de deslocamento e fadiga muscular em sua mente analítica. O resultado da equação não era animador. Era catastrófico.
— É impossível — decretou o homem nervoso, ajeitando os óculos sujos de fuligem e sangue seco. — Matematicamente impossível. A probabilidade de sucesso é menor que zero. Mesmo se corrermos sem parar, mesmo se Teth usar magia de aceleração em grupo... a distância até a Capital é muito grande. Quando chegarmos lá, a guerra já vai ter acabado há horas. Provavelmente só encontraremos cinzas e corpos esfriando.
Dante, que estava testando a mobilidade de sua nova cauda negra, chicoteando-a contra o ar como um gato entediado testando um novo brinquedo, parou.
Ele olhou para os escombros ao redor. Seus olhos heterocromáticos varreram o cenário de destruição até se fixarem na carcaça de um arranha-céu que, milagrosamente (ou por azar da engenharia), permanecera "inteiro" — ou seja, uma única peça colossal de aço e concreto retorcido de trinta andares, tombada de lado como uma árvore gigante derrubada na floresta.
Uma ideia insana, do tipo que faria qualquer pessoa sensata chamar um psiquiatra (ou um padre), acendeu em sua mente como um letreiro de neon defeituoso.
— Sora... — Dante sorriu, um sorriso largo, perigoso e cheio de dentes caninos afiados. — Você consegue me ajudar a ionizar uma coisinha?
Sora, que estava em sua forma humana, encostada em um pilar e lixando as unhas pretas com uma pedra, ergueu uma sobrancelha.
— Depende da "coisinha", Parceiro. — Ela lambeu os lábios, olhando-o de cima a baixo com interesse. — O que você tem em mente? Um carro? Um tanque? Uma ogiva nuclear portátil?
Dante apontou para o prédio caído.
— Aquilo.
Até Maysa, que estava limpando o sangue de suas garras com a delicadeza de uma dama vitoriana após o chá da tarde, parou.
— Você quer... fazer um prédio voar? — Maysa perguntou, as sobrancelhas perfeitamente desenhadas arqueadas em descrença. — Isso é um desperdício grotesco de Éter, meu querido. A estrutura pesa milhares de toneladas. É ineficiente. É estúpido. É... vulgär.
— Ineficiente? Talvez. — Dante caminhou até a base do prédio, ignorando a lógica, a física e a etiqueta. — Mas é rápido. E muito mais divertido... — Ele piscou para ela.
Sora desmaterializou-se de sua forma humana gótica, voltando a ser a manopla negra e vermelha pulsante no braço esquerdo de Dante, sussurrando em sua mente com uma risada empolgada:
— Pelo visto eu não estava errada, Parceiro. Você é maluco... mas realmente muito engraçado. Vamos nessa!
Dante tocou a estrutura de aço exposta. O Éter fluiu.
— Sobrecarga de Polaridade!
ZZZAAAP!
O prédio inteiro gemeu. Arcos de eletricidade vermelha e roxa percorreram a estrutura metálica como veias de luz, transformando o concreto em um gigantesco eletroímã flutuante. Com um rangido ensurdecedor de metal contra pedra que fez os dentes de Oliver doerem, o monólito de trinta andares começou a levitar, envolto em um anel de plasma crepitante.
— Tá olhando o quê? — Dante gritou para o grupo, que olhava de boca aberta e queixo caído. — Subam! A "Dante Airlines" vai decolar! Primeira classe para todos, sem serviço de bordo!
Safira, que estava flutuando ao lado, bateu palminhas animada, seus peitos balançando com o movimento.
— Yeeah! Vamos decolar! Isso vai ser melhor que montanha-russa!
Oliver engoliu em seco, recuando um passo.
— Isso não é seguro! Isso viola todas as leis da física, da segurança do trabalho e do bom senso!
— Maysa! — Dante ignorou a reclamação do nerd e olhou para a Avatar. — Você tem força pra jogar isso aqui na direção da Capital como se fosse uma lança olímpica?
Maysa sorriu. Um sorriso selvagem, orgulhoso e terrivelmente apaixonado. Ela caminhou até a base do prédio flutuante, fincou suas garras no concreto reforçado como se fosse manteiga e flexionou os músculos das pernas, o chão rachando sob seus pés com a pressão divina.
— Entendi... Acho que estou começando a entender o estilo do meu marido... — ronronou ela, os olhos brilhando com a perspectiva do caos.
Dante subiu no topo, segurando-se em uma viga exposta com uma mão e a cauda enrolada para segurança.
— E só pra constar: a Dante Airlines não se responsabiliza por enjoos, quedas, desmembramentos ou mortes súbitas durante o trajeto! Segurem as perucas!
VROOOOM!
Com um rugido de esforço desumano de Maysa e uma explosão magnética de Dante, o prédio foi lançado aos céus como um dardo de titãs, cortando as nuvens em direção à guerra. Maysa teve que correr e saltar com toda força sobre-humana para acompanhar o projétil de concreto onde seu amado estava, agarrando-se à fuselagem improvisada no último segundo.
Presente. Arredores da Cidade de Cristal.
O grupo de Asmodea movia-se pelas sombras das muralhas externas destruídas. As Kunoichis de elite da Luxúria eliminavam sentinelas sobreviventes silenciosamente, abrindo caminho para suas mestras com shurikens e fios de garrote.
— Que tragédia... — lamentou Asmodea, observando a fumaça subindo da cidade em ruínas com um suspiro teatral. — Vamos ser os últimos a chegar na festa. Ninguém vai ficar surpreso ao ver Pesadelos ajudando os Sonhos a essa altura. Que falta de timing.
Ludmilla, que caminhava à frente com sua espada de metal líquido pronta, soltou uma risada curta e seca.
— Não se preocupe com o tédio, Lorde Lilith. — A humana olhou para o céu nublado e verde. — Essa calmaria vai durar pouco.
— Como assim? — Eliza perguntou, nervosa. — Você sabe de algo? O Dante já está lá dentro?
— Se ele estivesse, nós já saberíamos — respondeu Ludmilla, com a certeza absoluta de quem conhece a peça caótica que é Dante. — Se ele já tivesse chegado, estaríamos ouvindo gritos de incredulidade, explosões sem sentido e alguém xingando a mãe dele em cinco línguas diferentes. O silêncio significa que ele ainda está a caminho.
— Você fala como se ele fosse um circo ambulante — Asmodea zombou, tragando o cachimbo.
— Ele é pior. Ele é o dono do circo, o palhaço e o leão faminto ao mesmo tempo.
Antes que Asmodea pudesse retrucar, uma de suas ninjas parou abruptamente ao lado delas, apontando para o céu com a mão trêmula.
— Mestra... eu... eu não acredito no que estou vendo.
— O que foi agora? Um dragão? — Asmodea subiu na muralha, entediada.
Ela olhou. E o cachimbo caiu de sua boca, quicando no chão de pedra e espalhando brasas.
— Mas que porra é aquela?! — A Lorde da Luxúria perdeu a compostura pela primeira vez em séculos.
Rasgando as nuvens de óleo, um prédio inteiro vinha voando em trajetória balística, coberto de raios roxos e gente gritando no topo.
Ludmilla sorriu. Um sorriso de "eu avisei".
— Chegou o escandaloso.
Lá em cima, no "avião" improvisado, a situação era crítica. O prédio começava a perder altitude e a estrutura estava se desfazendo com o atrito do ar. Pedaços de concreto choviam sobre a cidade como granizo gigante.
— Estamos sobre o alvo! — gritou Dante, a voz sendo levada pelo vento ensurdecedor. — Fim da linha! PULEM!
— PULAR?! DAQUI?! — Oliver gritou, agarrado a Laeticia como um coala, olhando para o abismo de mil metros abaixo.
— Sem tempo para drama! — Teth agiu. O Cavaleiro agarrou Oliver e Laeticia pela cintura, um em cada braço blindado. — Segurem a respiração e rezem!
Teth saltou, suas asas de luz emergindo das costas para planar sobre o campo de batalha. Maysa saltou logo atrás, rindo com a graça de um anjo da morte que se diverte com a destruição iminente.
Dante ficou por último. Ele estava sozinho no topo do prédio que caía em direção ao Tribunal como um meteoro de extinção em massa.
— A chegada ainda não acabou... — Dante murmurou, os olhos fixos em Kiara lá embaixo, parada no centro do caos.
Ele cravou as duas mãos no concreto, a cauda enrolada na viga para firmar a posição contra a gravidade.
— Sora! Descarga Total!
A energia magnética que mantinha o prédio voando foi convertida instantaneamente. O anel de levitação colapsou e virou um revestimento ofensivo. O prédio inteiro foi envolvido em um casulo de eletricidade estática e plasma superaquecido. Não era mais um transporte; era um martelo de Deus caindo do céu.
Dante usou a força do recuo para saltar para longe, ficando suspenso no ar por um segundo enquanto o prédio, agora um cometa de concreto eletrificado, disparava em velocidade terminal direto para a cabeça de Kiara.
No chão, Kiara olhou para cima. O vento do projétil jogou seus cabelos para trás. Ela não parecia assustada. Pelo contrário, um sorriso selvagem rasgou seu rosto.
— Hahahaha! Você realmente adora fazer barulho, não é, seu idiota?!
Atrás dela, a sombra se moveu. O Gévaudan, a Besta da Gula, não precisou de ordem. O monstro colossal, maior que um tanque de guerra, saltou para interceptar a ameaça aérea.
ROOOOOOOAAAAR!
A besta encontrou o prédio no ar. Suas garras, banhadas em Éter verde corrosivo, brilharam.
SHIIING! CRAAASH!
Foi brutal. O Gévaudan não apenas parou o prédio; ele o estraçalhou. Com um único movimento de garras cruzadas, o monstro fatiou as toneladas de concreto e aço como se fossem isopor.
O prédio explodiu em uma chuva de escombros inofensivos que caíram ao redor do Tribunal, levantando uma nuvem de poeira que cobriu a praça, mas sem tocar em um fio de cabelo da Rainha.
O Gévaudan aterrissou na frente de Kiara, rosnando, a baba ácida pingando no chão. Seus olhos, e os de Kiara, fixaram-se em Dante, que pousava suavemente na praça, a cauda chicoteando o ar e as luvas fumegando.
A caçada havia começado.
Parte 9
A poeira do prédio destruído mal havia baixado quando o Gévaudan se recuperou.
A Besta da Gula não obedeceu à inércia dos escombros; ela explodiu de dentro deles. Com um rugido que misturava o som de metal sendo rasgado e o uivo primordial de um lobo faminto, o monstro aterrissou na praça. Suas garras mecânicas afundaram no solo de mármore como facas em manteiga, criando fissuras profundas que cuspiam vapor verde e tóxico.
Ele fixou seus múltiplos olhos amarelos em Dante. O sistema de tubos em suas costas bombeou Éter verde neon para seus músculos com um chiado hidráulico, inchando-os grotescamente, preparando o salto final. Ele estava pronto para transformar o humano em jantar.
— Dante! Vá!
O grito cortou o ar antes que o monstro pudesse avançar um milímetro. Não foi um pedido desesperado; foi uma ordem tática absoluta.
Do meio da fumaça, correntes vermelhas brilharam como veias de sangue vivo pulsando no ar.
— Ferrum Nobile: Modo Chicote.
Ludmilla surgiu deslizando pelo ar, puxada magneticamente por suas novas correntes que se comportavam como serpentes de metal líquido. Em suas mãos, duas lâminas longas e curvas, semelhantes a katanas, vibravam em uma frequência letal.
CLANG.
Ela aterrissou entre Dante e a Besta, cruzando as espadas e gerando uma barreira magnética instantânea que repeliu a primeira onda de pressão do monstro.
Ela olhou para Dante por cima do ombro. Seus olhos azuis, geralmente frios e distantes, queimavam com uma intensidade que dispensava palavras.
— Essa luta é minha — disse Ludmilla, a voz firme como aço temperado. — Não pare agora. A Anna está esperando no final do corredor.
Dante parou por um milésimo de segundo. Ele viu o tremor quase imperceptível nas mãos enluvadas de Ludmilla — o medo do trauma antigo colidindo violentamente com a coragem do presente. Ele sorriu, um sorriso breve de confiança absoluta.
— Saiba que eu não vou aceitar você morrer! Então é melhor acabar com isso logo!
Ele disparou, contornando a besta com um salto e correndo em direção ao Tribunal, deixando o campo de batalha para ela.
Mas Ludmilla não estava sozinha na interceptação.
BOOM.
O chão ao lado dela explodiu quando Maysa aterrissou, não com técnica de aterrissagem, mas com pura arrogância gravitacional. A Avatar de Astreus limpou a poeira de seu ombro nu, olhando para o lobo gigante com o desdém de quem encontra um cachorro de rua sarnento no caminho de casa.
— Saia da frente, humana — ordenou Maysa, sem nem olhar para Ludmilla. — Acabar com quem ameaça a segurança de seu Marido é dever exclusivo da Esposa.
Ludmilla, que já estava com os nervos à flor da pele pela adrenalina, sentiu uma veia saltar em sua testa. Ela girou as katanas, a irritação superando momentaneamente o medo paralisante do monstro.
— Tá de brincadeira com a minha cara?! — Ludmilla gritou, indignada, apontando a espada para Maysa. — Eu tiro meus olhos dele por cinco minutos e ele já aparece com outra garota maluca?!
— ...Que tipo de relação você tem com ele? — Maysa perguntou, estreitando os olhos com perigo genuíno.
Mas não houve tempo para mais discussões conjugais.
O Gévaudan atacou.
Não foi um bote de animal selvagem; foi um atropelamento industrial. A besta, uma montanha de músculos negros e ódio líquido, acelerou de zero a cem em um bater de coração. Ele avançou como um trem descarrilado, as garras dianteiras infundidas em um Éter corrosivo que derretia o asfalto ao simples toque, visando partir as duas mulheres ao meio em um único golpe de guilhotina.
Ludmilla não pensou. Seu corpo agiu sob o comando do pânico refinado. O medo estava lá, gritando em sua mente, transformando o lobo em uma parede intransponível de dentes e morte. Mas ela não deixou esse medo paralisá-la. O medo não paralisa; o medo é combustível nuclear.
O mundo desacelerou em sua visão periférica.
— Lento demais.
Ela disparou duas pontas de correntes vermelhas de sua cintura. As pontas de metal morderam o concreto de escombros flutuantes e postes de luz distantes com a precisão de um rifle sniper. Ludmilla não correu; ela foi puxada. A retração violenta das correntes a arrancou do chão, lançando-a em ângulos geometricamente impossíveis.
Ela girou no ar, usando a força centrífuga para escapar da trajetória da garra por milímetros. Enquanto passava voando pelo flanco da besta, ela girou o corpo.
SHING! SHING! SHING!
Suas lâminas desenharam três cortes prateados profundos na blindagem natural do monstro, faíscas voando como fogos de artifício.
Maysa, por outro lado, não moveu um músculo das pernas. Ela assistiu à morte vir em sua direção com o tédio de quem vê chuva pela janela.
— Patético.
Quando as garras do Gévaudan — capazes de rasgar o casco de um porta-aviões — desceram, Maysa apenas cruzou os braços em "X" na frente do rosto.
BOOOOOOM!
A colisão criou uma cratera instantânea de três metros de diâmetro. O chão ao redor de Maysa pulverizou-se, cedendo sob a pressão de toneladas. A poeira subiu, cobrindo tudo.
Mas quando a poeira baixou, Maysa estava lá.
Suas botas haviam afundado no concreto até o tornozelo, mas ela não recuara um único centímetro. As garras do monstro tremiam, lutando inutilmente contra a barreira invisível de sua pele densa.
— Força bruta medíocre. — A voz de Maysa saiu abafada por trás dos braços. — Sem técnica. Sem elegância. Apenas massa.
Maysa descruzou os braços explosivamente, repelindo as patas da besta. Antes que o monstro pudesse recuperar o equilíbrio, ela avançou um passo dentro da guarda dele. Ela agarrou o pelo grosso e oleoso da pata dianteira com as duas mãos.
— Leve demais...
Usando o próprio peso do monstro contra ele, Maysa girou o quadril com uma técnica perfeita. A alavanca foi absoluta. O Gévaudan, uma besta de cinco toneladas, foi tirado do chão. Ele girou no ar, impotente, antes de ser arremessado como um saco de lixo molhado contra a fachada de um prédio vizinho.
CRAAAAASH!
O prédio estremeceu, e metade da estrutura desabou sobre o lobo, soterrando-o.
Enquanto a poeira assentava, Maysa limpou as mãos, seus olhos reptilianos fixos não no monstro, mas em Ludmilla, que aterrissava graciosamente em um poste de luz próximo.
Algo clicou na mente predatória de Maysa. Ela observou a estrutura óssea de Ludmilla, a densidade compacta de seu Éter, a maneira como o medo dela aguçava seus reflexos em vez de cegá-la.
"Ah..." — pensou Maysa, um sorriso malicioso curvando seus lábios enquanto desviava casualmente de uma mordida do lobo, que retornara furioso dos escombros. Ela se movia com a fluidez da água, analisando a garota de cabelos castanhos como quem analisa uma roupa em uma vitrine. "Eu reconheço essa assinatura. Quando eu estava no Vazio procurando um corpo humano para possuir... essa garota era uma das candidatas principais."
A luta parecia estar sob controle tático. O lobo era forte, sim, mas sua maior arma era irritante: Regeneração Acelerada.
Ludmilla desceu do poste em um ataque giratório, decapitando uma das patas do lobo para desequilibrá-lo. O corte foi limpo, mas a carne do monstro borbulhou. Um líquido verde e viscoso preencheu a ferida, e em segundos, a pele se fechou, e a pata voltou a crescer.
— Ele não para de curar! — Ludmilla gritou, ofegante, preparando outra barragem de correntes.
— Existe um limite de Éter para tudo, seja humano ou deus. Só se concentre em continuar batendo! — Maysa ordenou, chutando o focinho da besta com tanta força que o som de osso quebrando ecoou pelo vale.
A vitória parecia certa, matemática. Até que o ar mudou.
Não veio do monstro, nem do céu. Veio das sombras dos becos, rastejando pelo chão como fumaça de gelo seco, mas com uma cor doentia.
Uma neblina roxa, densa e oleosa, inundou o campo de batalha. O cheiro era uma agressão aos sentidos: uma mistura enjoativa de gardênias doces demais, formol barato e o odor metálico de rancor antigo.
— Vocês são tão... brilhantes... — a voz não veio de um ponto específico; ela sussurrou diretamente dentro dos ouvidos delas, úmida e cheia de veneno. — Tão fortes... Tão rápidas... Tão amadas pelo destino. Não é justo...
No topo de uma gárgula quebrada, a silhueta se revelou.
Ivy, a Lorde da Inveja.
Ela não tinha a imponência de Satan ou a beleza de Maysa. Ela parecia frágil, curvada, com olheiras profundas e unhas roídas. Em suas mãos esqueléticas, ela segurava frascos de vidro bizarros, contendo líquidos escuros que borbulhavam sozinhos, reagindo à presença de felicidade alheia.
Ela olhou para Ludmilla correndo como um raio e para Maysa segurando um monstro com as mãos nuas. O ódio nos olhos de Ivy ferveu.
— Campo de Maldição: Nivelamento Pela Dor.
Ivy não apenas soltou os frascos; ela os esmagou com força no próprio peito. O vidro se partiu, e o líquido não caiu; ele vaporizou instantaneamente, expandindo-se em uma nuvem de miasma violeta que buscou as duas guerreiras como mísseis teleguiados. A névoa aderiu à pele de Maysa e Ludmilla não como gás, mas como piche quente.
— Gah!
Ludmilla engasgou no meio de um salto. Foi como se a gravidade tivesse aumentado dez vezes apenas para ela. O sangue superaquecido em suas veias, que antes a impulsionava, de repente parecia chumbo derretido. A inércia a traiu. Suas pernas travaram. A velocidade, seu maior trunfo, foi drenada como água em um ralo, transformando seu impulso em uma queda desajeitada.
Ela bateu no chão com força, rolando na poeira, incapaz de se levantar rápido.
— O que... é isso? — Ela tentou mover o braço, mas parecia estar nadando em melaço. — Meu corpo... está pesado!
Maysa estava em uma situação pior. Ela estava prestes a finalizar o Gévaudan, seus dedos cravados na mandíbula do lobo prontos para rasgá-lo ao meio. De repente, seus bíceps tremeram.
A força titânica de Avatar, capaz de erguer prédios, evaporou. Seus músculos atrofiaram magicamente, voltando à força de uma humana comum. O Gévaudan sentiu a fraqueza. O aperto em sua boca afrouxou.
— Maldita... — Maysa rosnou, tentando manter a pegada, mas era como tentar segurar um trem com mãos de criança.
O lobo aproveitou a brecha. Com um rugido de triunfo, ele girou o corpo e desferiu um coice brutal com as patas traseiras.
BAM!
Sem sua super-resistência, Maysa foi lançada como uma boneca de pano. Ela atravessou uma parede de tijolos e colidiu contra a estrutura de aço de um outdoor, caindo no chão, tossindo sangue.
Ivy riu. Era um som fino, arranhado e cruel, escondido na fumaça roxa.
— A Inveja odeia quem tem mais — explicou ela, descendo da gárgula e caminhando mancando, mas sorrindo. — Você é forte demais? Eu odeio isso. Então vou drenar sua força até você ser patética como eu. Você é rápida? Isso me irrita. Agora você vai rastejar na lama comigo.
Conceito de Habilidade: "Não Tenha Mais Que Eu".
O efeito era devastador e proporcional. Quanto maior o atributo do alvo, mais violento era o dreno para nivelar tudo por baixo. Ludmilla perdeu sua velocidade divina; Maysa perdeu sua força monstruosa.
Enquanto isso, o Gévaudan, imune à névoa de sua aliada por já ser uma criatura de instintos básicos sem orgulho, rugiu. Os tubos de Éter em suas costas brilharam em um verde tóxico. Ele estava se curando mais rápido, seus músculos inchando, ficando maior e mais grotesco, enquanto as duas guerreiras estavam presas no piche espiritual da inveja, lutando apenas para ficar de pé.
— Tsk...
Maysa passou o polegar sobre o lábio inferior, limpando um filete de sangue azulado. Ela olhou para o líquido brilhante em sua luva com uma mistura de ofensa pessoal e incredulidade.
— Então até a minha fisiologia é sujeita a essa vulgaridade?... — Ela chutou um pedaço de concreto, irritada com a gravidade extra que prendia seus movimentos. — Matar esse cachorro vira-lata vai demorar quarenta minutos nessas condições. E eu detesto desperdiçar tempo. É antiestético.
Do outro lado da rua, houve um estrondo.
BAM!
Ludmilla foi arremessada como uma boneca de pano por um golpe de cauda do Gévaudan. Ela colidiu contra a fachada de uma loja, estilhaçando o vidro e amassando a porta de aço, antes de cair de joelhos, tossindo poeira e lutando para puxar o ar para os pulmões pesados.
Maysa estreitou os olhos. Seus cálculos mentais rodaram em milissegundos. O orgulho era uma joia preciosa, mas a vitória (e a segurança daquele marido idiota dela) era a coroa.
— Ei. Humana! — A voz de Maysa cortou o rugido do lobo, fria e autoritária.
Ludmilla ergueu a cabeça, o sangue escorrendo da testa, os olhos vacilando.
— O quê?!
Maysa desviou casualmente de um escombro que caiu perto dela.
— Eu me recuso a continuar esse teatro. Se eu liberar o Selo de Nível 2, eu poderia vaporizar ambos, mas o custo de Éter seria ineficiente. — Ela falou como uma CEO discutindo cortes de orçamento, não como uma guerreira no meio do apocalipse. — Portanto, faremos uma Aliança de Conveniência.
Ludmilla rosnou, forçando suas pernas trêmulas a se erguerem. Ela ergueu suas correntes defensivamente.
— Eu não preciso da sua ajuda, lagartixa!
— Não é ajuda. É lógica básica de extermínio. — Maysa apontou com o queixo para o alto da gárgula, onde Ivy ria, segura em sua nuvem de veneno. — Enquanto aquela coisinha patética estiver respirando, o debuff continua. Se focarmos as duas na besta, seremos drenadas até a morte.
Maysa apontou uma garra afiada para o Gévaudan, que babava ácido, preparando o próximo bote.
— Você segura o cachorro. Você gera o aggro. Eu subo lá e arranco a cabeça da bruxa. Aceita a divisão de trabalho ou prefere morrer por orgulho?
Ludmilla olhou para o lobo. A criatura era gigantesca. Era a encarnação física de seus pesadelos de infância. O escuro. O dente. A fome. Enfrentá-lo sozinha, sem sua velocidade supersônica, parecia suicídio. O medo antigo subiu por sua espinha, tentando paralisar seus joelhos.
Ela olhou para as próprias mãos. Elas estavam tremendo. Medo?, ela pensou. Não. Ela apertou os punhos até as juntas ficarem brancas. Ela lembrou do armário escuro onde se escondia quando criança. Mas agora, ela não estava em um armário. Ela estava em Gehenna. E em suas mãos, não havia o nada; havia ferro. O tremor não era fraqueza; era a vibração do motor aquecendo.
Ludmilla sorriu. Um sorriso tenso, suado, mas afiado como uma navalha recém-forjada.
— Aceito. — A voz dela saiu firme, metálica.
Ela bateu as palmas das mãos. O ar gritou. As dezenas de espadas flutuantes e correntes ao redor dela obedeceram ao chamado. O metal não girou para o ataque rápido; ele se fundiu e compactou. As lâminas se entrelaçaram, formando uma barreira densa, pesada e cheia de espinhos cruéis ao redor de seu corpo. Ela sacrificou a mobilidade pela indestrutibilidade.
— Vá pegar a pequena invejosa. — Ludmilla bateu sua espada contra o escudo improvisado, criando um som de gongo que chamou a atenção da besta imediatamente. — Deixe o Lobo Mau comigo. Eu tenho contas antigas para acertar com essa espécie.
Maysa assentiu, satisfeita com a eficiência da negociação.
Com uma explosão de movimento, Maysa sumiu na névoa roxa, ignorando a própria fraqueza, indo direto para a garganta de Ivy.
Ludmilla ficou sozinha com a Besta. O Gévaudan rosnou, o ácido pingando de sua boca, reconhecendo que agora havia apenas uma presa isolada.
— Vem cá, totó... — Ludmilla sussurrou, firmando os pés no chão de mármore rachado. — Vamos ver quem morde mais forte hoje.
Parte 10
No front oeste, o avanço implacável da Rainha Isobel havia estagnado.
Não havia uma barreira física impedindo o exército de elite dos Pesadelos de marchar. Não havia muralhas mágicas ou fossos de fogo. Havia algo muito mais insidioso e frustrante: a improbabilidade estatística.
Um soldado tentava sacar a espada para o combate, mas o cabo prendia inexplicavelmente na fivela da própria armadura. Outro disparava uma besta contra um inimigo, e a corda arrebentava no momento do disparo, chicoteando seu próprio olho. Um pelotão inteiro marchava em formação perfeita e, subitamente, o chão de paralelepípedos cedeu em um sumidouro geológico que não deveria existir ali.
— Maldição... — Isobel rosnou, puxando as rédeas de seu cavalo de sombras que empinava nervosamente, recusando-se a avançar por medo invisível. — Não conseguimos dar um passo sem que o universo conspire contra nós. É o território da Preguiça. Estamos lutando contra a própria Sorte.
De repente, o vento mudou. Uma figura de branco surgiu correndo por entre as fileiras de soldados estupefatos, desviando de lanças e cavalos com a graça de uma brisa.
— Pare!
Luka, o rato de rua e líder da resistência urbana, saltou na frente da figura, com duas adagas enferrujadas em punho. Soldados Pesadelos cercaram a intrusa imediatamente, armas em riste.
— Você é a garota do vento... Philia, certo? — Luka estreitou os olhos. — O que uma Sonho faz aqui no meio do exército inimigo? Quer morrer antes de chegar na linha de frente?
Philia parou, ofegante, o peito subindo e descendo. Ela levantou as mãos vazias em sinal de paz absoluta.
— Eu não vim lutar! — ela gritou, olhando diretamente para a Rainha montada no cavalo. — Eu sou uma mensageira! Saga me enviou. Ela quer coordenar um ataque conjunto. Ela diz que sabe como derrubar o Lorde do azar!
No alto de um terraço, longe da confusão e da lama, Katsuragi suspirou.
Ela estava sentada na borda do prédio, as pernas balançando no vazio de vinte andares, totalmente desinteressada na guerra abaixo. Em suas mãos, o console portátil emitia sons de 8-bits frenéticos.
— Ah, que fase chata... muito grind pra pouco XP — ela murmurou, estourando uma bola de chiclete rosa. — Pelo visto, os "Main Characters" estão ocupados com a minha chefe ou com o cachorro gigante. Ninguém vem aqui. Acho que não vou precisar me mexer hoje.
— Ei! Gamer!
Katsuragi nem levantou os olhos da tela.
CLINK. CLINK. CLINK.
Três objetos metálicos ovais caíram aos pés dela, quicando no concreto. Granadas de fragmentação.
— ...Sério? — Katsuragi nem pausou o jogo.
Ela apenas inclinou o corpo levemente para o lado, como quem desvia de um mosquito.
KABOOM!
As granadas explodiram em uníssono. Fumaça cinza e estilhaços de metal varreram o terraço. Katsuragi saltou através da fumaça, pousando suavemente em uma caixa d'água mais alta, a jaqueta parka esvoaçando sem um arranhão. Ela olhou para baixo, irritada por ter perdido o combo no jogo por causa da vibração.
Luka estava no telhado vizinho, sorrindo, com fuligem no rosto e mais granadas na mão.
— Quem é esse NPC? — Katsuragi franziu a testa, o brilho rosa digital de seus olhos analisando o garoto. — Design genérico. Nível baixo. Sem Lore relevante. Você não devia estar na cutscene, garoto. Volte para a vila inicial.
— Hahaha! — Luka riu, nervoso, mas desafiador. — Imaginei que você não me conhecesse. Como você disse, não sou um personagem de destaque. Sou só o lixo de Gehenna.
Ele puxou o pino de outra granada com os dentes.
— Mas adivinha só? Esse "lixo" foi o primeiro a fazer você tirar a bunda do chão hoje.
A veia na testa de Katsuragi saltou. — Insolente.
Ela guardou o console no bolso. Em um piscar de olhos, ela cruzou a distância de dez metros entre os prédios. Não houve corrida; foi um salto. Com uma força física desumana, ela saltou de um ponto e reapareceu na frente de Luka.
— Game Over.
Katsuragi desferiu um chute frontal. Foi preguiçoso, sem técnica marcial, parecendo um movimento de quem chuta uma lata na rua. Mas carregava a força cinética de um caminhão.
Luka tentou bloquear com os braços cruzados. CRACK. Ele ouviu o rádio de seus ossos trincando antes de sentir a dor. O impacto o lançou como uma boneca de pano através do ar, atravessando uma janela de vidro do prédio oposto e sumindo na escuridão de um escritório abandonado.
Katsuragi limpou a sola do tênis na borda do prédio. — Que desperdício de frame rate.
ZIIIP! ZIIIP! ZIIIP!
O som de ar sendo cortado a fez girar. Flechas. Dezenas delas, vindas de ângulos cegos.
Katsuragi esquivou-se com movimentos mínimos, quase entediados. As flechas passaram raspando, cravando-se no concreto onde ela estava segundos antes.
— Snipers? — Ela olhou ao redor. Eram apenas soldados comuns de Isobel, posicionados em telhados distantes. — Mobs básicos? Eles acham que podem acertar a hitbox de um Boss com essa mira lixo?
Mais granadas caíram do céu. Luka, sangrando e mancando, surgiu de outra janela quebrada, arremessando explosivos com uma precisão maníaca.
Katsuragi saltou para trás para evitar a explosão. — Você é persistente, bug maldito...
Enquanto ela estava no ar, algo estranho aconteceu.
Luka puxou o pino de mais uma granada. Mas, no momento do arremesso, um número digital vermelho apareceu flutuando sobre a cabeça dele: [1].
Sua mão suada escorregou inexplicavelmente, junto com outras que estavam na sua cintura, as que voaram para longe na direção de Katsuragi, não explodiram; mas aquela que caiu bem perto do pé dele...
— Merda... — Luka arregalou os olhos.
BOOM!
A explosão jogou Luka contra a parede de tijolos, o corpo coberto de queimaduras e estilhaços. O Azar de Katsuragi havia ativado. Ele tentou atacá-la diretamente e o sistema o puniu.
Katsuragi pousou, satisfeita. — Viu? O sistema pune quem tenta trapacear contra o admin.
Mas então, ela sentiu uma picada no ombro. Ela olhou. Havia um corte em sua jaqueta favorita. Sangue escorria de seu braço.
— O quê...? — Ela olhou para trás, confusa.
A explosão da granada que atingiu Luka havia arremessado destroços de metal em todas as direções. Um pedaço de vergalhão retorcido voara aleatoriamente, em uma parábola perfeita, e acertara Katsuragi.
— Dano colateral? — Ela franziu a testa. — Improvável.
ZIIIP!
Mais uma flecha. Dessa vez, ela tentou desviar para a esquerda, mas seu pé pisou em um pedaço de vidro solto (azar?) e ela escorregou milimetricamente. A flecha rasgou sua bochecha, deixando um corte fino.
Katsuragi tocou o rosto, olhando para o sangue nos dedos. A confusão começou a se transformar em raiva genuína.
Ela saltou para o próximo prédio para sair da linha de tiro.
CLICK.
O som veio debaixo de sua bota. Uma mina terrestre antiga.
— Ah, qual é?!
KABOOM!
A explosão a engoliu. Katsuragi foi arremessada para cima, a jaqueta chamuscada, arranhões cobrindo seus braços. Ela rolou no chão e se levantou rapidamente, os olhos varrendo o cenário com paranoia crescente.
Luka apareceu na borda do prédio destruído, tossindo sangue, segurando o braço machucado, mas sorrindo com os dentes vermelhos.
— Olha só... — Luka cuspiu um dente no chão. — Agora eu até te atingi. Minha barra de vida tá no vermelho, mas a sua também desceu um pouquinho, né, Lorde?
Katsuragi olhou para ele. Aquele garoto fraco não podia ter planejado isso. Se ele tivesse orquestrado tudo aquilo — as minas, os arqueiros, o ângulo dos destroços — o contador de azar na cabeça dele deveria estar em 4 ou 5 stacks. Mas estava apenas em 1. Ele já tinha pago o preço.
— Não é você... — Katsuragi murmurou, olhando para o céu, percebendo a verdade. — Você é só a distração. Alguém está jogando no modo espectador e controlando as variáveis do mapa.
VROOOOM.
Um som agudo veio do alto. Não era uma flecha. Um meteoro de Éter flamejante, disparado pelas catapultas da artilharia dos Sonhos a quilômetros de distância, descia em um arco perfeito.
Katsuragi calculou a trajetória. Ia cair à esquerda dela. Ela saltou para a direita.
Mas ao pousar, seu pé afundou em algo macio e metálico.
Uma granada. Aquela que Luka deixara cair "acidentalmente" antes, que não havia explodido por defeito de fabricação (azar dele?), rolara pelo telhado inclinado e parara exatamente onde ela pousaria.
O impacto do pouso ativou o detonador atrasado.
— Ah, vai se f...
KABOOOOOOOM!
A explosão combinada do meteoro (que atingiu o prédio ao lado, derrubando a estrutura sobre ela) e da granada lançou Katsuragi para dentro de uma nuvem de poeira e dor.
Longe dali, na orla da Floresta do Delírio.
Saga estava de pé sobre um rochedo alto, os olhos fechados, as mãos movendo-se no ar como se regesse uma orquestra invisível e complexa.
Seu Oblast estava expandido ao máximo. Em sua mente, o campo de batalha não era sangue e fogo; era uma grade de dados matemáticos pura. Ela via as linhas de probabilidade de Katsuragi. Ela via os números flutuantes.
— Xeque — sussurrou Saga.
— Como... como você fez isso? — Silence perguntou, ao lado dela, observando a Lorde da Preguiça ser bombardeada por uma sequência de "acidentes" em cadeia.
— A habilidade dela é formidável, mas opera sob regras rígidas — explicou Saga, sem parar de mover as "peças" mentais. — Enquanto observava os soldados de Isobel tentando avançar, deduzi quatro axiomas fundamentais.
Saga levantou um dedo. — Primeiro: a habilidade é Passiva. Ela não escolhe quem sofre o azar; o sistema escolhe quem a "ataca" com intenção.
Segundo dedo. — Segundo: existe uma Hitbox de influência. Uma área de efeito. Os arqueiros de Isobel estavam fora dessa área, por isso suas flechas voavam retas, embora o azar dela ainda tentasse desviá-las no último segundo.
Terceiro dedo. — Terceiro: a persistência do status. Luka acumulou azar, mas o efeito se dissipou assim que ele sofreu o dano (a explosão da granada). O contador zera após a punição ser aplicada.
Quarto dedo. — E quarto, o mais importante: a falha lógica. O sistema dela pune a "intenção direta" de causar dano. Mas ele não consegue calcular o caos indireto.
Saga sorriu com seu sorriso suave e sedutor de uma santa pura e delicada.
— Luka atacou diretamente e foi punido. Mas a explosão da granada que atingiu Katsuragi foi classificada como "acidente" pelo sistema. O meteoro que eu disparei não mirava nela; mirava na estrutura do prédio vizinho. Os arqueiros atiravam em área, não nela especificamente.
— Você transformou a sorte dela em uma arma contra ela mesma — Philia entendeu, assombrada.
— Eu saturei o ambiente com tantas variáveis de perigo aleatório que a habilidade dela entrou em colapso tentando proteger a usuária de tudo ao mesmo tempo. — Saga sorriu, um sorriso frio de estrategista suprema. — Ela está jogando xadrez com regras de sorte. Eu estou jogando matemática pura.
No terraço destruído, Katsuragi tentava se levantar. Sua roupa estava rasgada, ela sangrava de cortes múltiplos e seu console estava quebrado no chão.
— Quem... quem está fazendo isso?! — ela gritou para o céu, irritada.
Foi então que ela viu. Correndo pela rua lateral, guiando um esquadrão de cavalaria pesada de Pesadelos para flanquear a posição, estava Philia.
Mas a garota do vento estava usando uma venda grossa de tecido sobre os olhos. Ela corria guiada apenas por instruções de rádio no ouvido.
— Coloquem mais minas terrestres na área 45B! — Philia gritava, sem ver o alvo, sem "Tentar" acertar a Lorde.
Katsuragi entendeu. Eles não estavam olhando para ela. Eles não estavam mirando nela. Eles estavam atacando o espaço onde ela existia. Eles haviam hackeado a condição de ativação de seu poder.
Saga, na floresta, moveu uma peça final em seu tabuleiro mental.
— Vamos continuar o nosso joguinho, Lorde da Preguiça. Mas agora... eu estou com o controle.
Parte 11
O céu sobre a Cidade de Cristal não estava apenas tumultuado; ele gritava. Em meio à cacofonia da guerra, um cometa de marfim rasgou a fuligem, descendo em uma espiral de violência controlada.
BOOM.
Teth não apenas aterrissou; ele redefiniu a topografia da rua. O asfalto explodiu em crateras concêntricas, a força cinética de toneladas sendo dissipada com maestria através de seus joelhos flexionados. A poeira nem havia assentado quando ele depositou Laeticia e Oliver no chão, seus movimentos precisos, sem desperdício de energia.
— Saiam. Agora. — A voz de Teth era um rosnado baixo, vapor gelado escapando de seus lábios a cada sílaba, congelando a umidade do ar. — Busquem um local mais seguro com o exército dos Sonhos, ou vão até Saga. Ela saberá usar a força de vocês melhor do que eu nesta situação.
— Mas... — Laeticia tentou argumentar, a adaga tremendo em sua mão.
— Eu limpo a sujeira da minha linhagem. VÃO!
Antes que a poeira baixasse, um som cortou o caos: palmas. Lentas. Rítmicas. Cirúrgicas.
— Bravo. A integridade da carga biológica permanece em 100%. Uma variável inesperada, considerando a aceleração da queda.
Teth girou sobre o calcanhar, a mão direita já fechada no cabo da espada quebrada, o corpo assumindo uma postura baixa de interceptação.
No topo de um poste de luz entortado a noventa graus, Aslan Morningstar estava de pé. Ele parecia uma falha na realidade: um jaleco branco imaculado em um mundo de cinzas. Ele ajeitou os óculos com o dedo indicador, a luz da batalha distante refletindo em suas lentes, ocultando seus olhos frios por um segundo.
— Aslan... — O nome saiu da boca de Teth como veneno destilado.
— Sobrevivência confirmada. — Aslan deu um passo no ar vazio. Onde seu pé deveria cair, uma plataforma hexagonal de Ouro Líquido se materializou instantaneamente, servindo de degrau. Ele desceu flutuando, degrau por degrau, como um deus entediado descendo do Olimpo para visitar o zoológico. — Teria sido um desperdício estatístico perder um espécime tão raro. Minha tese sobre a hibridização precisa de... dissecação viva.
Teth cuspiu sangue no chão. O líquido vermelho sibilou e congelou instantaneamente ao tocar o concreto.
— Achei que a Kiara te descartaria quando sua torre caiu. Um cientista sem laboratório é só um homem com um ego inflado e mãos macias.
Aslan pousou suavemente na rua. Ele sorriu, não com humor, mas com a satisfação clínica de quem vê um rato cair perfeitamente na armadilha projetada.
— O laboratório é um conceito mental, Teth. E quanto ao meu ego... — Ele estalou os dedos.
O mundo ao redor deles mudou.
TRANSMUTAÇÃO DE CAMPO: ZONA ÁUREA.
Uma onda de energia dourada varreu a rua. O concreto sujo, o lixo, as carcaças de carros destruídos... tudo foi reescrito a nível atômico. Em um piscar de olhos, o beco imundo tornou-se um corredor reluzente de ouro 24 quilates. O reflexo distorcido de Teth estava em toda parte, multiplicado infinitamente nas superfícies espelhadas.
— Na nossa última interação, sua manipulação de massa e inversão térmica foram... problemáticas — Aslan admitiu, erguendo a mão direita. Cinco esferas de ouro perfeito, do tamanho de bolas de gude, começaram a orbitar seus dedos, zumbindo como elétrons excitados. — Mas a ciência evolui através da falha. Eu recalculei suas variáveis.
— Tente recalcular um soco na cara — Teth avançou.
Ele não correu; ele explodiu para a frente. — Massa Virtual: 50 Toneladas.
Teth imbuiu seu punho com o peso de um navio cargueiro. O soco não visava o rosto de Aslan, mas o espaço diante dele.
— Impacto Atmosférico!
O punho de Teth colidiu com o ar. A pressão atmosférica comprimida foi disparada como um canhão de ar, uma onda de choque visível que estilhaçou o chão de ouro e avançou para pulverizar Aslan em átomos.
O cientista não desviou. Ele nem piscou. No momento exato em que a força devastadora o atingiu, Aslan não quebrou.
Ele se desfez.
Como se alguém tivesse cortado as cordas de uma marionete, o corpo de Aslan perdeu a coesão sólida. Ele explodiu em um respingo de ouro líquido viscoso, a força do soco de Teth passando inofensivamente através da poça que se espalhou pelas paredes e teto.
Teth travou, os olhos varrendo o ambiente dourado, confuso. Onde estava o corpo?
— Você esperava Geometria Euclidiana? Sólidos contra sólidos? — a voz de Aslan emanava das paredes, do chão, de cada gota de ouro ao redor. Era um som estéreo, onipresente e irritante. — Que decepção. Eu evoluí para além da rigidez da matéria.
O ouro no chão, sob as botas de Teth, ganhou vida. Não como tentáculos agressivos, mas como uma maré subindo silenciosamente contra a gravidade.
— Estado da Matéria: Superfluidez. Viscosidade zero. Atrito zero.
Teth reagiu rápido, tentando um chute giratório para dispersar o líquido que subia por suas pernas. Foi como tentar chutar um fantasma. Seu pé atravessou o ouro sem encontrar resistência alguma. Sem atrito, não havia impacto. O ouro ignorou a força cinética e continuou subindo, entrando pelas juntas da armadura, frio e invasivo como a morte.
— Se é líquido, pode congelar! — Teth rugiu. Sua aura explodiu em azul. A temperatura ao redor dele despencou para o zero absoluto em um microssegundo. O ar crepitou, a umidade virou cristais de gelo instantâneos.
Mas o ouro continuou fluindo.
Uma cabeça humana se formou na poça à frente de Teth, os óculos de Aslan surgindo do metal líquido com um brilho arrogante.
— Erro conceitual, sobrinho. Ouro Alquímico em fluxo perpétuo existe em um estado quântico isolado. Ele ignora a termodinâmica convencional. Você não pode roubar calor do que não possui entropia.
O ouro atingiu o peito de Teth, cobrindo o brasão do Cavaleiro. Aslan estalou os dedos novamente.
— Inversão de Estado: Rígido.
CRACK!
O som foi seco e aterrorizante. O ouro, antes um superfluido intangível, solidificou-se instantaneamente, tornando-se uma liga mais densa que tungstênio. Teth foi paralisado no meio do movimento, transformado em uma estátua viva, preso em um caixão dourado que moldava cada músculo seu.
Aslan reformou o resto de seu corpo a partir do chão, caminhando calmamente até Teth. Ele estava impecável, sem um único arranhão.
— A força bruta é irrelevante quando você controla o ambiente, Teth. Eu me tornei o campo de batalha.
Ele estendeu a mão para a espada quebrada que Teth ainda segurava, o único objeto fora da prisão dourada.
— Transmutação: Assimilação Ferrosa.
O toque de Aslan infectou o aço. A lâmina de Teth brilhou em um tom doentio, as moléculas de ferro sendo reescritas para ouro à força. A espada derreteu na mão de Teth e fundiu-se à prisão, cobrindo seu punho, selando-o completamente.
— Aaaaaaargh! — O grito de Teth escapou entre dentes cerrados. O ouro não apenas prendia; ele comprimia. Aslan estava apertando a armadura, esmagando costelas milímetro a milímetro.
— Curioso... — Aslan murmurou, sacando um bisturi feito de luz sólida condensada. Ele aproximou a lâmina do olho exposto de Teth. — Você tenta ser pesado como uma montanha. Mas no meu oceano de fluidez, seu peso só te faz afundar mais rápido. Vamos ver onde o Sonho termina e a biologia falha.
A visão de Teth escureceu. A pressão era insuportável. Seus pulmões gritavam por ar, esmagados pelo abraço dourado. Ele estava sendo assimilado.
Então, na escuridão da asfixia, uma vibração diferente ecoou. Não vinha de fora. Vinha de dentro de sua própria medula óssea.
"Se não quer perder..."
A voz não era a de Vav, o demônio interior. Não era a de seus aliados. Era uma voz de cascalho e gentileza. Uma voz que cheirava a aço velho, lareira acesa e segurança.
A memória sobrepôs-se à dor: o pátio de treinamento, anos atrás. Ele era uma criança, chorando sobre uma espada de madeira partida. A sombra de um gigante gentil o cobrindo. O Cavaleiro Branco original. Seu pai ajoelhou-se, a armadura branca brilhando não com a luz fria e estéril de Aslan, mas com um calor protetor.



Comentários