The Fall of the Stars: Capítulo 8 - A Geometria da Imperfeição

Volume 10 : Laços de Sangue
Parte 1
Aquilo não era dor. Dor é biológica, quente, pulsante. Aquilo era matemática pura.
Teth não caiu; ele foi compactado. O pavimento sob seus joelhos cedeu instantaneamente, não em rachaduras desordenadas, mas em uma cratera circular de simetria aterrorizante, o concreto transformado em pó fino como farinha.
Sobre seus ombros, não havia mãos, nem correntes. Havia apenas a Geometria Perfeita de Aslan.
O ouro líquido, antes fluido e belo, havia transmutado. Agora eram vigas densas, barras de uma prisão conceitual que cruzavam suas costas e clavículas, forçando-o a uma postura de prostração forçada. Cada átomo daquele metal vibrava em uma frequência grave, um zumbido baixo que fazia os dentes de Teth doerem. Era como carregar a gravidade de uma estrela morta na base do pescoço.
— Decepcionante.
A palavra não foi dita; foi diagnosticada.
Aslan flutuava a meio metro do chão, as botas imaculadas pairando sobre a poeira da batalha. O Lorde do Orgulho orbitava seu prisioneiro com a frieza de um cirurgião diante de um tumor inoperável. De seu monóculo, fluxos de dados holográficos escorriam, iluminando seu rosto impassível.
— Sua densidade óssea está comprometida. Os alvéolos pulmonares estão colapsando sob quatrocentas atmosferas de pressão localizada — Aslan comentou, deslizando um dedo enluvado pelo ar, manipulando gráficos invisíveis. Ele parou diante de Teth, inclinando a cabeça levemente. — E, no entanto...
O olhar dourado de Aslan fixou-se no peito de Teth. Ali, sob a armadura amassada, uma mancha negra pulsava. Tímida. Doente. Contida.
— Você rejeita a variável eficiente — Aslan suspirou, o som de um professor cansado de um aluno medíocre. — Prefere a extinção como um Sonho "puro" e frágil à sobrevivência como um Pesadelo "maculado". É um viés cognitivo fascinante. A moralidade suprimindo o imperativo biológico. Uma falha lógica fatal.
Teth tentou erguer o rosto. O mundo era um túnel estreito de cinza e preto. O gosto de cobre inundou sua boca, denso e salgado. Ferro.
A pressão aumentou. Um estalo seco ecoou em sua clavícula.
O sofrimento físico tornou-se tão absoluto que a mente de Teth ejetou a consciência. Fugiu do presente. Fugiu da matemática de Aslan e recuou para um lugar onde o sol tinha cheiro de aço polido e jasmins.
O pátio da mansão secundária dos Morningstar era uma gaiola dourada. Muros altos de pedra branca, cobertos por heras que abafavam o som, garantiam que a "vergonha" da família permanecesse invisível aos olhos nobres da Cidade de Cristal.
— Levante a guarda, Teth. O inimigo não vai pausar a guerra porque você está chorando.
A voz era uma âncora. Forte, ressonante, segura.
No centro do ringue de areia branca, estava ele. O Cavaleiro Branco original. O pai de Teth era uma coluna de luz solar sólida; cabelos prateados que desafiavam o vento, armadura que parecia tecida com a própria manhã. Ele não era apenas um homem; era o ideal inalcançável que Teth perseguia desesperadamente.
O pequeno Teth, com sete anos e joelhos esfolados, limpou o ranho do nariz com as costas da mão suja de terra. A espada de madeira em suas mãos parecia pesar toneladas.
— Mas... dói, pai — soluçou, os braços tremendo violentamente. — Meus braços queimam. Eu não sou forte como você. Eu nunca vou ser.
O gigante de prata suavizou. O pai baixou a espada de treino e agachou-se. Quando ele sorriu, o mundo isolado e solitário de Teth se iluminou.
— A dor não é sua inimiga, filho. Ela é uma mensageira — disse ele, a voz grave vibrando no peito do menino. — Ela te diz onde sua armadura está fina. Ela aponta onde você precisa construir defesas amanhã. Não a tema. Use-a.
Do alto da varanda, onde as sombras do telhado cortavam a luz do sol, um vulto observava.
Luna.
Sua beleza era dolorosa, exótica e perigosa. A pele tinha o tom cinzento das tempestades distantes, e os chifres curvos, elegantes como luas crescentes, estavam mal escondidos sob um véu de seda branca. Ela mantinha os braços cruzados, abraçando a si mesma, os olhos negros varrendo o topo dos muros, aterrorizada. Sempre esperando que as tochas e os ancinhos aparecessem.
— Já chega, querido — a voz dela era veludo rasgado, trêmula. — Ele é só uma criança. Ele vai se quebrar.
— Ele é nosso filho, Luna — o pai respondeu, olhando para ela não com vergonha, mas com uma adoração que desafiava as leis da natureza. — E o mundo lá fora não perdoa fraqueza. Ele precisa ser mais duro que o aço. É a única forma de ele sobreviver quando eu não puder mais ser o escudo dele.
Teth não entendeu, na época, que aquilo não era um treinamento. Era uma despedida antecipada. Ele só sabia que odiava ser "metade". Odiava ver a mãe se esconder nos armários quando a campainha tocava. Odiava o medo que ela exalava. Ele queria ser forte para deixá-la segura.
A memória oscilou, a luz do sol sendo engolida por um filtro vermelho. O tempo saltou, cruel e rápido.
Dez anos.
Teth corria pelas ruas de paralelepípedos, o coração martelando contra as costelas. Na mão suada, um pergaminho amassado: Primeiro da Turma. Ele imaginava o sorriso do pai. Imaginava, pela primeira vez, o orgulho suplantando a preocupação nos olhos da mãe.
Mas o portão estava aberto.
Não havia o aroma de especiarias do jantar. Havia apenas um cheiro denso, acobreado e quente. Um cheiro que grudava no fundo da garganta.
— Pai? Mãe?
O silêncio da casa era pesado, como se o ar tivesse se solidificado. Teth caminhou pelo corredor, seus passos ecoando como trovões em sua própria cabeça.
Ele entrou na sala de estar.
O diploma escorregou de seus dedos. O papel flutuou, inocente, oscilando de um lado para o outro até pousar suavemente sobre o espelho escarlate que cobria o chão.
O Cavaleiro Branco estava quebrado.
A armadura, símbolo de invencibilidade, estava rasgada no peito como papel alumínio. O herói de Teth jazia em um ângulo antinatural, os membros largados como os de uma marionete cujas cordas foram cortadas.
E sobre ele... estava a escuridão.
Luna estava ajoelhada sobre o peito do marido. Suas mãos, as mesmas mãos finas que faziam cafuné em Teth para ele dormir, estavam mergulhadas na cavidade torácica do homem que ela amava. O sangue do Cavaleiro banhava os braços cinzentos dela até os cotovelos.
Na mão direita, ela segurava a adaga cerimonial da família. A lâmina ainda pingava vermelho.
Ela não rosnava como um monstro. Pior. Ela olhava para o nada, os olhos negros vidrados, o corpo sacudindo em espasmos de choque, balbuciando uma litania ininteligível.
— Mãe...? — O sussurro de Teth saiu estrangulado. O chão parecia líquido sob seus pés.
O pai, preso a um fio de vida por pura teimosia, virou a cabeça. O movimento produziu um som úmido e horrível. Seus olhos prateados encontraram os do filho. Não havia raiva da esposa. Havia apenas uma tristeza oceânica.
— Teth... — O nome saiu em uma bolha de sangue. — Escute... Se não quer perder...
A luz nos olhos dele tremeluziu, como uma vela no fim do pavio.
— ...para este mundo amaldiçoado... torne-se forte. Não deixe o medo vencer.
A última palavra foi um suspiro. A cabeça pendeu. O ouro nos olhos se apagou, tornando-se chumbo. O Cavaleiro Branco estava morto.
E Luna, como se acordasse de um transe pelo silêncio repentino do coração sob suas mãos, olhou para o que tinha feito.
O som que saiu da garganta dela não foi humano. Foi o som de uma alma sendo rasgada ao meio. Uma explosão de Éter de Pesadelo irrompeu dela — caótica, negra, viscosa — chicoteando as paredes, quebrando os vitrais, ameaçando consumir a casa e o próprio filho.
Naquele instante, algo fundamental na psique de Teth se partiu.
Ele olhou para o sangue do pai (Ordem, Amor, Pai). Ele olhou para a aura da mãe (Caos, Morte, Mãe).
A lógica de uma criança traumatizada é binária e impiedosa: O Pesadelo matou o Sonho. A escuridão assassinou a luz.
Se o sangue dela corria nas veias dele, então ele era o assassino também. Ele era a arma.
— Não... — Teth recuou, as mãos cobrindo as orelhas, gritando para abafar o uivo da mãe. — Eu não sou você! Eu não sou um monstro! SAIA DE MIM!
Foi ali, no meio do sangue e da loucura, que a cirurgia mental aconteceu.
Teth ergueu uma muralha em sua própria mente. Com a força bruta do trauma, ele pegou toda a dor, todo o caos, toda a herança genética daquela mulher assassina e a empurrou para o porão mais profundo de seu subconsciente.
Ele trancou a porta. Ele a selou com ódio. Ele deu a essa parte um nome para que pudesse odiá-la melhor: "Vav". O gancho. A distorção. O oposto.
Ele olhou para o cadáver do pai e fez um juramento silencioso que moldaria cada respiração de sua vida futura: Ele seria o Cavaleiro Branco. Apenas o Cavaleiro. Puro. Esterilizado.
A mãe desapareceu na escuridão daquela noite. O pai esfriou no chão. Mas o menino que entrou naquela sala também morreu ali.
Quem saiu foi Teth, o Incompleto, carregando uma guerra dentro da própria alma.
Parte 2
A porta do esconderijo não foi aberta; ela deixou de existir.
BAM.
A madeira podre explodiu para dentro, estilhaços voando como shrapnel. A silhueta de Teth surgiu na abertura, recortada pela luz branca e fria de sua lâmina desembainhada, invadindo a penumbra daquele barraco como um julgamento divino. O ar lá dentro era espesso, uma mistura nauseante de mofo, leite azedo e o cheiro metálico de magia antiga.
— Onde ela está?! — O grito de Teth rasgou o silêncio. Era a voz de um homem tentando se impor, mas que falhava, revelando o timbre trêmulo de um menino quebrado. Ele apontou a espada para as sombras dançantes. — Onde está a assassina Luna?! Apareça, monstro!
Ele esperava chifres. Esperava garras. Esperava o demônio que assombrava seus sonos.
Em vez disso, o ar congelou.
A temperatura caiu vinte graus em um piscar de olhos. Do canto escuro, não surgiu um monstro, mas um homem jovem de cabelos brancos como a neve, com olhos que queimavam em um azul glacial. Ele não fez perguntas. Apenas ergueu uma mão.
— Lixo — sibilou Snow.
BOOM.
Uma rajada de gelo violento, densa e cortante, explodiu em direção a Teth. O impacto foi contido por reflexo puro, a lâmina de luz cortando o gelo, espalhando cristais brilhantes pelo chão sujo.
O barulho atraiu atenção. Passos pesados e metálicos correram de um cômodo adjacente.
— Merda, Snow! O que você está fazendo? Vai derrubar o teto! — A mulher que entrou tinha a postura de um veterano de guerra. Seu olho direito estava coberto, e onde deveria haver um braço, uma prótese mecânica zumbia, pistões e engrenagens girando em alerta.
— Cale a boca, Rum — Snow respondeu, a voz fria, sem desviar os olhos do intruso. — Estou apenas limpando o lixo que invadiu nossa propriedade.
Snow e Teth se encararam. Era como olhar para um espelho distorcido. Ambos tinham o mesmo olhar: a fúria de quem perdeu tudo, o desespero de quem é movido apenas pelo rancor.
Teth tensionou os músculos para avançar, para matar o cúmplice da assassina, mas então... ele viu.
Nos braços de Snow, protegido contra o peito do mago de gelo, havia um embrulho de trapos. E dentro dos trapos, um movimento suave. Um bebê.
O tempo parou.
A mão de Teth, que segurava a espada com a força de um titã, perdeu a firmeza. A ponta da lâmina baixou centímetros. Um bebê. O assassino segurava uma vida. A imagem colidia com a narrativa de "monstros" que Teth havia construído.
— Droga... é um Cavaleiro Real? — Rum praguejou, analisando a armadura reluzente que parecia alienígena naquele cortiço. — Seu idiota, com quem você está comprando briga enquanto segura uma criança?
Rum se colocou entre os dois, o braço mecânico estalando enquanto ela cerrava o punho. Ela era jovem, mas seus olhos carregavam décadas de cansaço.
— O que você veio fazer aqui, Cavaleiro? — Rum rosnou. — Snow não tem mais nada a ver com a Tromluí. Veio se livrar de antigos rebeldes para ganhar uma medalha? É isso?
Teth deu um passo vacilante à frente. A fúria sólida estava derretendo, substituída por uma confusão líquida.
— Não... não são vocês que eu quero — ele sussurrou, a espada agora parecendo pesada demais. — Onde ela está? Onde está a Pesadelo de cabelos brancos e chifres? Onde está Luna?
Snow estreitou os olhos ao ouvir o nome, uma sombra de dor cruzando seu rosto impassível. Ele olhou para Rum, cansado demais para lidar com fantasmas.
— Resolva essa merda. Isso não é problema meu. — Snow virou as costas, protegendo o bebê do frio da porta aberta, e recuou para as sombras.
Rum permaneceu. Ela estudou o garoto à sua frente. Viu as feridas mal curadas, as olheiras profundas, a expressão de alguém cujo rosto não se encaixava na própria alma. E então, ela viu algo familiar. Uma semelhança nos traços.
— Por acaso... — Rum começou, a voz perdendo a agressividade. — Você era alguém próximo do Cavaleiro Branco anterior? Daquele que morreu?
O coração de Teth falhou uma batida.
— Sim. Eu era... — A mentira morreu na garganta, mas a verdade era perigosa demais. — Mas não é sobre isso que eu quero saber.
Ele sentia que se falasse, se admitisse quem era, desmoronaria ali mesmo.
— O nome dela era Luna — Rum disse, o nome saindo com reverência e tristeza. — Mas a Pesadelo que você procura para se vingar... ela não está mais aqui.
— Então para onde ela fugiu?! — Teth exigiu, agarrando-se à raiva como uma boia.
— Ela não fugiu, garoto. Ela se matou.
O silêncio que se seguiu foi mais pesado que o gelo de Snow.
Teth paralisou. A ponta da espada tocou o chão de madeira podre.
— ...O quê? — A voz dele falhou. — Por que... por que ela se mataria depois de matá-lo? Isso não faz sentido! Monstros não sentem culpa!
— Entendi... — Rum suspirou, sentando-se em uma caixa de madeira velha. Ela parecia subitamente muito pequena. — Então você viu o fim. Você viu a cena do crime, mas não viu a peça de teatro.
Ela gesticulou para o lugar onde Snow havia desaparecido.
— Luna, Snow e eu... nós nascemos no lixo da guerra. Nossos pais eram médicos. Tolos idealistas que tentavam salvar vidas em ambos os lados durante a Era de Ouro. Eles foram mortos em um expurgo, como sempre acontece. "Danos colaterais". Snow e eu aceitamos que o mundo era cruel. Mas Luna? Luna era diferente.
Rum olhou para o teto furado, onde a chuva de Gehenna começava a pingar.
— Ela nos abandonou. Jurou vingança. Disse que criaria um mundo melhor nem que tivesse que queimar o atual. Ela odiava os Sonhos. Odiava tudo o que eles representavam.
— Então ela se casou com ele para matá-lo... Era um plano! — Teth concluiu, desesperado para que sua lógica funcionasse.
— Se fosse isso, teria sido fácil — Rum riu, um som seco e sem humor. — O problema, garoto, é que mesmo com todo aquele ódio, ela era uma tola. Ela cometeu o pior erro de um soldado: ela se apaixonou.
Teth sentiu o chão sumir.
— Ele era o único Sonho que não olhava para nós como animais — continuou Rum. — Eles tentaram ser felizes. Criaram um pequeno paraíso dentro daqueles muros altos. Mas Gehenna não perdoa traidores, e a pureza de Cristal não tolera manchas. Uma facção radical de Pesadelos descobriu. A ideia de que uma mestiça, uma criança impura, poderia nascer dessa união... isso os enfureceu.
A líder da Tromluí olhou diretamente nos olhos de Teth.
— Eles sequestraram a mim. Snow estava ferido, fora de combate. Eles usaram isso. Mandaram uma mensagem para Luna: "Mate o Cavaleiro Branco. Prove sua lealdade à raça. Ou enviaremos a cabeça de sua irmãzinha em uma caixa de presente."
O mundo de Teth, preto e branco, estilhaçou-se em mil tons de cinza. As paredes giraram. O "monstro" sanguinário... era uma refém.
— Mas ela era incrível, sabe? — Rum deixou uma lágrima solitária escorrer pelo rosto marcado. — Mesmo com a faca no meu pescoço, ela não conseguia fazer. Ela travou. Ela não conseguia escolher entre o marido e a irmã. Mas ele... O Cavaleiro... ele descobriu.
A memória do pai virando a cabeça, o olhar triste, sem acusação. Ele sabia.
— Ele sabia que ela nunca teria coragem — sussurrou Rum. — Então... ele tomou a decisão por ela. Ele baixou a guarda. Ele permitiu. Ele se entregou à lâmina para salvar a vida dela e a minha.
A espada de Teth caiu de sua mão. O clangor do metal contra a madeira soou distante.
— Quando ela chegou até nós... trazendo a faca suja com o sangue do homem que amava... ela já estava morta. O corpo ainda andava, mas a alma tinha ficado naquela sala. Ela me libertou, garantiu que Snow estivesse seguro, e na manhã seguinte... ela foi encontrar o marido. A culpa a devorou viva.
Teth estava tremendo. Não de frio, mas de uma compreensão terrível.
Ele havia odiado uma vítima. Ele havia demonizado a mulher que foi quebrada para que ele pudesse viver.
Rum o observava com curiosidade, notando como a história o havia destruído.
— Ei... você não me respondeu — Rum perguntou, uma suspeita crescendo em sua mente ao ver a dor crua no rosto do garoto. — O que o Cavaleiro Branco era seu? Qual é a sua conexão com essa tragédia?
Teth pegou sua espada. O movimento foi lento, mecânico. Ele embainhou a arma, escondendo a luz. Ele virou as costas para não deixar que Rum visse as lágrimas que ameaçavam cair.
— Ninguém em especial.
Ele saiu para a chuva cinzenta de Gehenna. A água fria misturava-se ao suor frio em sua pele.
Naquele dia, ele não matou ninguém. Mas a verdade matou a simplicidade de seu mundo.
O "monstro" não era sua mãe. Não eram nem mesmo os radicais. Era o Sistema. Era a lógica binária da guerra que transformava amor em tragédia, que obrigava heróis a morrerem e amantes a se tornarem assassinos.
Ali, sob a chuva ácida, uma nova convicção nasceu, amarga como bile. Ele mudaria o mundo. Ele se tornaria o Rei para garantir que ninguém mais tivesse que fazer aquela escolha impossível.
Mas, tragicamente, a lógica de Teth permaneceu quebrada. Ele decidiu salvar os Pesadelos, mas continuou sentindo nojo do próprio sangue. Ele queria a paz, mas não conseguia perdoar a própria existência. Ele se tornou o Cavaleiro Branco perfeito... uma estátua de virtude construída sobre uma fundação de autoaversão e mentiras.
Ele não odiava mais a mãe por tê-lo matado. Ele a odiava porque, ao ouvir a história, percebeu que o amor dela também era uma forma de dor. E ele, Teth, era o fruto dessa dor.
Parte 3
O ouro de Aslan apertou mais. Uma costela quebrou com um estalo seco, perfurando a carne por dentro.
"Eu sou um hipócrita...", Teth pensou, o gosto ferroso do sangue inundando sua boca.
Através de uma fresta no caixão dourado, ele viu Dante ao longe. O garoto lutava com um sorriso no rosto, usando poderes demoníacos e angelicais sem distinção, trocando golpes e piadas como se a guerra fosse um jogo. Dante não tinha vergonha. Ele abraçava o caos. Ele era amigo de Rum, o demônio do bar. Ele aceitava Eliza, o pesadelo. Ele aceitava a todos porque se aceitava.
"Dante muda o mundo porque ele aceita o mundo como é. Eu... eu tentei mudar o mundo rejeitando quem eu sou. Eu queria ser o Rei Perfeito, a imagem imaculada do meu pai... mas eu sou apenas um homem quebrado que nunca superou o luto."
A Marca Negra em seu peito parou de arder como uma invasora. Ela pulsou como um segundo coração.
Teth fechou os olhos e mergulhou na escuridão de sua própria mente. Ele desceu as escadas mentais até a cela onde trancara Vav. A criatura de fogo e caos estava lá, arranhando as paredes psíquicas, gritando de ódio, uma besta faminta feita de ressentimento.
Desta vez, Teth não reforçou as grades com correntes de gelo. Ele colocou a mão na fechadura.
Ele abriu a porta.
Vav parou. A sombra olhou para ele, confusa, os olhos roxos brilhando na escuridão.
— Você me odeia — sibilou a sombra, a voz distorcida como mil cobras. — Eu sou a parte de você que matou seu pai. Eu sou o erro.
— Não — Teth respondeu, a voz calma, estendendo a mão nua para a própria escuridão. — Você é a parte de mim que sobreviveu. Você é a raiva justa que minha mãe sentiu ao ser traída. Você é a força bruta que meu pai pediu que eu tivesse.
Ele tocou a sombra. Não houve batalha. Não houve rejeição. Houve fusão.
— Desculpe por te deixar sozinha no escuro por tanto tempo.
A realidade voltou com um estrondo sônico.
Aslan, que estava prestes a finalizar a incisão cirúrgica no pescoço de Teth, recuou num salto. O bisturi de luz tremeu em sua mão firme.
— O que é isso? — O cientista murmurou. — O Éter dele... está oscilando fora da escala. Não é Sonho. Não é Pesadelo. É... instável.
O ouro que prendia Teth não derreteu. Ele vibrou.
Uma frequência sonora grave, um zumbido que doía nos dentes e nos ossos, começou a emanar do corpo do Cavaleiro. As barras de ouro perfeitas, submetidas a uma ressonância que desafiava sua estrutura atômica, começaram a trincar.
CRACK. PING. SHATTER.
O ouro explodiu em pó cintilante, varrido por uma onda de choque invisível.
Teth levantou-se.
Ele não era mais o Cavaleiro Branco imaculado. E não era a Besta Vav descontrolada.
Seus cabelos brancos agora tinham raízes negras profundas, como se a tinta da noite tivesse sido derramada da base para as pontas. Seu olho esquerdo brilhava em ouro divino, calmo e régio; o direito ardia em roxo abissal, selvagem e caótico. A aura ao redor dele não era fogo nem gelo; era uma chama fria, bicolor, que distorcia a luz ao redor como uma miragem no deserto.
Ele olhou para as próprias mãos. Uma estava coberta por gelo cristalino, a outra envolta em chamas negras. Ele juntou as duas em uma prece de guerra.
— Você estava certo, tio. Eu era fraco.
Teth ergueu o rosto. Não havia mais dúvida. Não havia mais o trauma da criança órfã. Havia apenas a resolução absoluta de um Rei.
— Eu tentava ser Sonho para honrar meu pai. Tentava não ser Pesadelo para não ser como os que tiraram minha mãe. Mas eu sou os dois. E sou nenhum.
Ele deu um passo à frente. O chão sob seu pé não congelou nem queimou; ele simplesmente aceitou a presença dele, curvando-se.
— Eu sou Teth. Aquele que criará um mundo onde essa escolha não precise existir.
Aslan ajeitou os óculos, recuperando a compostura, embora um suor frio escorresse por sua têmpora pálida.
— Palavras bonitas. Mas a retórica não altera a física. Minha Geometria Perfeita ainda é absoluta.
Teth estendeu a mão. O Éter de duas naturezas opostas correu para sua palma, girando, colidindo, fundindo-se em uma espiral de poder que desafiava as leis da magia conhecida.
— A física diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço — disse Teth. — Mas eu sou a prova viva de que podem.
Uma lâmina se formou em sua mão. Não de metal. De vibração pura.
— Vamos ver se a sua perfeição aguenta a minha dualidade.
A atmosfera ao redor de Teth não crepitava com a eletricidade do trovão, nem queimava com o calor do fogo comum. Ela zumbia. Era um som grave, constante e perturbador, como se o ar estivesse sendo rasgado em nível subatômico.
Teth deu um passo à frente. O ouro líquido que Aslan tentava manipular recuava diante de seus pés, repelido não por magia, mas por uma frequência vibratória que impedia a matéria de se estabilizar.
— Fascinante... — Aslan murmurou, ajeitando os óculos com uma mão trêmula, enquanto a outra tentava, em vão, reformar suas esferas perfeitas que se desfaziam no ar. — Você está combinando a Entropia Térmica: o caos do calor e a ordem do frio. Termodinamicamente, isso deveria resultar em anulação. Zero. Nada.
— Você olha para os números, tio, mas ignora a natureza — Teth respondeu. Sua voz era dupla: o tom suave e nobre do Cavaleiro sobreposto ao rosnado gutural da Besta. — Fogo e Gelo não precisam se anular. Eles criam tempestades. Eles criam movimento.
Teth ergueu a mão direita.
O Éter Roxo e Branco espiralou em sua palma. Ele não criou uma espada de gelo, nem um chicote de fogo. Ele manipulou a Escala.
Ele comprimiu a massa de uma montanha em um filamento fino como um fio de cabelo. E então, fez esse fio vibrar com o calor de uma estrela e a dureza do zero absoluto.
Uma lâmina se formou. Não tinha guarda, nem cabo. Era uma fenda de luz oscilante, instável e aterrorizante, que parecia cortar os fótons de luz que tentavam tocá-la.
— Lâmina da Dualidade: Ressonância Zero.
Aslan arregalou os olhos heterocromáticos. Sua mente científica entendeu o perigo imediatamente. Aquilo não era uma arma de corte; era uma ferramenta de desconstrução atômica.
— Você acha que pode quebrar a perfeição com essa aberração instável?! — Aslan gritou, o medo finalmente trincando sua máscara de arrogância intelectual.
Ele bateu as duas mãos no chão.
— Grande Obra Alquímica: Cidadela Dourada!
Todo o ouro transmutado na rua — toneladas de metal precioso — convergiu. Paredes, espinhos, escudos e domos ergueram-se em uma fração de segundo, criando uma fortaleza impenetrável de geometria sagrada ao redor do Lorde. Era a defesa absoluta. Matemática pura tornada física. Nada neste mundo poderia atravessar aquela densidade.
Teth não correu. Ele apenas moveu o braço em um arco horizontal lento, quase preguiçoso.
A lâmina vibrante tocou a primeira parede de ouro.
ZIIIIIING.
Não houve choque. O ouro não amassou. Ele gritou.
A frequência da lâmina de Teth entrou em ressonância com a estrutura atômica do metal. A "perfeição" rígida de Aslan foi sua ruína; por ser tão duro e inflexível, o ouro não podia absorver a vibração. Ele se estilhaçou.
A Cidadela Dourada explodiu em poeira brilhante. As barreiras caíram como castelos de areia seca diante da maré.
O corte seguiu seu curso, ignorando a distância, ignorando a resistência, ignorando a lógica de Aslan.
Aslan viu a linha de luz roxa e branca passar por sua cintura. Ele não sentiu dor. Apenas um frio súbito e a sensação vertiginosa de que a gravidade havia mudado.
— Ah... — Aslan suspirou, surpreso.
O corte terminou. A lâmina de Teth se dissipou em fumaça.
A armadura de jaleco de Aslan se separou. O Lorde do Orgulho caiu de joelhos e depois tombou de costas na lama oleosa de Gehenna. O corte fora cauterizado instantaneamente pela vibração; não houve sangue, apenas o fim da luta.
Teth caminhou até ele. A aura bicolor diminuiu, seus cabelos voltando a cair sobre o rosto, mas as raízes negras permaneciam, uma marca eterna de sua aceitação.
Aslan olhava para o céu escuro, onde a chuva negra caía. Seus óculos estavam quebrados ao lado do rosto, refletindo um mundo partido.
— Irracional... — Aslan sussurrou, a vida escapando de seus lábios junto com o fôlego. — Como uma mistura impura... superou o absoluto?
— Porque a vida não é absoluta, tio — Teth respondeu, olhando para o homem que odiou por tanto tempo, agora apenas um cadáver brilhante na lama. — Ela é uma bagunça. E é forte por causa disso.
Aslan riu. Um som fraco, gorgolejante. Ele virou o rosto com dificuldade para olhar Teth. Pela primeira vez, não havia desprezo em seu olhar clínico. Havia... reconhecimento. Validação científica.
E, de repente, a mente do cientista moribundo viajou para trás, para o momento antes de sua própria queda.
Parte 4
A mente de Aslan, desconectando-se da dor física, deslizou para trás. O cinza da chuva de Gehenna foi substituído pelo branco estéril e o dourado opressor de suas memórias.
Aslan era jovem. Ele caminhava pelos corredores da Academia Real, ouvindo os sussurros que cortavam mais que bisturis.
"Lá vai o irmão do traidor." "Aquele que compartilha o sangue de quem se deita com monstros." "Sangue sujo."
Ele odiava aquilo. Odiava ver o nome imaculado de sua família ser arrastado pela lama da fofoca. Mas, mais do que tudo, ele odiava ver seu irmão mais velho — seu ídolo, o colosso de armadura branca que ele jurou proteger com seu intelecto — sorrindo como um idiota apaixonado enquanto o mundo cuspia em seu rosto.
— Por quê?
A memória do confronto no jardim real era vívida. Aslan lembrava do cheiro das rosas e da frustração que queimava sua garganta.
— Por que você fez isso? Você sabia o que aconteceria. Você calculou as perdas? Perdemos nosso status, nossa honra, nosso financiamento! Por que se casar com uma Pesadelo? Não há lógica nisso!
O irmão, o Cavaleiro Branco original, apenas limpou a espada com um pano de seda, o movimento lento e pacífico. Ele olhou para Aslan não com raiva, mas com uma paciência que enfurecia o cientista.
— Você olha para as células, Aslan. Você vê mitocôndrias e taxas de Éter. Eu olho para a alma. — Ele sorriu, e aquele sorriso desafiava todas as estatísticas. — E, sinceramente, irmão... eu nunca achei que fôssemos tão diferentes assim. Quando sangramos, a cor é igual. O grito? O medo de morrer sozinho? É idêntico. Quando amamos, o coração bate no mesmo ritmo.
Aslan não aceitou aquilo. Sua mente, forjada na lógica absoluta e na geometria sagrada, rejeitou a poesia como um vírus.
"Eu vou provar", Aslan pensou naquele dia, apertando os punhos até as unhas ferirem a palma. "Vou provar que ele está errado. Vou dissecar essa falácia."
Ou... uma parte mais profunda e aterrorizada de sua mente sussurrou: "Vou provar que ele está certo."
E foi assim que começou. Não com ódio, mas com desespero.
Os laboratórios subterrâneos. As mesas frias de metal. As dissecações intermináveis. Os gritos na noite que ele aprendera a ignorar como ruído branco. Aslan não abria os Pesadelos porque os odiava. Ele abria os Sonhos e os Pesadelos, lado a lado, expondo órgãos e nervos, procurando freneticamente a prova científica de que seu irmão não era louco.
Ele queria encontrar o órgão que os tornava iguais. Ele queria isolar a "alma" em um tubo de ensaio. Ele queria validar a escolha do irmão através da ciência, porque era incapaz de entendê-la através do amor.
Presente.
Uma lágrima solitária escorreu do olho de Aslan, quente e limpa, misturando-se à chuva de óleo sujo que caía sobre seu rosto paralisado.
— Eu tentei, irmão... — Aslan murmurou para o fantasma que só seus olhos moribundos podiam ver. — Eu abri tantos... analisei tanto sangue, teci tanta carne... Mas eu nunca consegui isolar a "alma".
Ele moveu os olhos com dificuldade para focar em Teth. O filho da união proibida. O amálgama vivo de caos e ordem. A prova que ele tentara negar e destruir, mas que agora, empiricamente, o superara.
— Desculpe... — A voz de Aslan falhou, tornando-se um sopro rouco, bolhas de sangue estourando em seus lábios. — Eu fui um cientista medíocre. Não consegui provar a igualdade no laboratório. Minha tese... falhou.
Ele tossiu, e a luz da inteligência em seus olhos começou a apagar, como uma lâmpada com defeito.
— Mas Kiara... — Um último sorriso, genuíno, triste e livre de arrogância, tocou seus lábios. — Ela é mais eficiente do que eu. Ela não precisa de provas. Ela vai queimar as diferenças. Ela vai criar um mundo onde seremos finalmente iguais... nem que seja na igualdade das cinzas.
A mão de Aslan tentou alcançar o céu, seus dedos tremendo como se tentassem agarrar uma última fórmula escrita nas nuvens tóxicas, mas a gravidade venceu. O braço caiu sem forças na lama, espalhando respingos negros.
O peito parou de subir.
O Lorde do Orgulho morreu. Não como um monstro, nem como um deus dourado. Mas como um irmão menor que amava demais, entendeu tudo errado e se perdeu na própria busca por validação.
Teth ficou em silêncio sob a chuva torrencial.
A água e o óleo escorriam por sua armadura rachada e por sua pele bicolor. Ele não sentiu a alegria da vingança. Não houve triunfo. Sentiu apenas o peso colossal de uma era de erros que se encerrava aos seus pés.
Ele se agachou lentamente, o metal de suas grevas rangendo, e com uma delicadeza que contradizia a violência da luta, fechou os olhos do tio.
— Descanse, Aslan.
Teth levantou-se. A aura de dualidade se recolheu para dentro de seu corpo, tornando-se um núcleo denso de poder. Ele olhou para o horizonte, onde a silhueta do Tribunal se erguia entre as chamas e a fumaça.
— A teoria acabou — disse Teth para o vento, sua voz carregada da autoridade de quem aceitou a própria natureza. — Agora... nós vamos construir a prática.
Ele se virou e correu. Não havia tempo para luto, nem para cerimônias. O mundo ainda precisava ser salvo da "igualdade das cinzas" que Aslan previra como única solução.
Parte 5
O campo de batalha, que Alone transformara minutos antes em um deserto de vidro vitrificado e liso, agora era o palco do maior desperdício de riqueza da história de Morpheus.
— Chuva de Espadas Douradas!
Mamon Sterling não estava apenas lutando; ele estava ostentando. O céu acima deles brilhou com o amarelo-ouro. Centenas de lâminas, forjadas não por ferreiros, mas pela materialização instantânea de capital, despencaram como granizo letal.
O Lorde da Avareza girava sua bengala como um maestro insano. O campo de batalha parecia o cofre explodido de um imperador: enormes claymores de prata maciça brotavam do chão, barreiras de cobre bloqueavam rotas de fuga e lanças de platina buscavam o coração do Cavaleiro.
Mamon não usava somente Éter para criar aquilo; ele queimava sua própria fortuna. A cada grito, o som de caixas registradoras dimensionais ecoava no ar, e moedas de ouro desapareciam de seus cofres secretos, convertendo-se instantaneamente em poder bruto e físico.
Habilidade Anômala: Pay to Win.
— Vamos ver o tamanho da sua dívida, Cavaleiro! — Mamon rugiu.
O chão de vidro estremeceu. Uma montanha de prata líquida brotou do nada, solidificando-se na forma de um gigante blindado de seis metros que desferiu um soco sísmico contra Alone.
O Cavaleiro do Trovão bloqueou com o antebraço, faíscas voando, mas a força do impacto o fez deslizar para trás, seus pés rasgando o vidro e criando trilhas de atrito. Alone estava ferido. O sangue escorria de um corte profundo na testa, manchando sua túnica branca imaculada, e sua respiração estava irregular. Ele estava sendo pressionado pelo peso do dinheiro.
— O que foi, "Deus"? — Mamon gargalhou, girando sua bengala de rubi, o suor escorrendo pelo rosto eufórico. — O orçamento da sua divindade acabou? Eu estou apenas começando a gastar! Eu tenho o PIB de distritos inteiros para jogar na sua cabeça!
Mamon tocou o chão com a palma da mão aberta.
— Transação de Alto Risco: Muralha de Ouro Soberano! Custo: 1 Bilhão!
CRASH.
Paredes de ouro puro, espessas, brilhantes e intransponíveis, ergueram-se violentamente ao redor de Alone, prendendo-o em um labirinto dourado e claustrofóbico. A habilidade de Mamon era aterrorizante: quanto mais ele gastava, maior o buff exponencial em seus atributos físicos.
De repente, o Lorde desapareceu. Ele se moveu mais rápido que o olho humano podia acompanhar, reaparecendo nas costas de Alone com um Martelo de Guerra de Cobre do tamanho de um carro.
— LIQUIDAÇÃO!
BAM!
Mamon acertou Alone em cheio, arremessando o Cavaleiro contra a própria muralha de ouro que ele criara. O impacto amassou o metal precioso.
A força física de Mamon estava se multiplicando a cada segundo. Ao queimar bilhões, sua velocidade e força rivalizavam — e agora, talvez até ultrapassassem — as dos poderosos Cavaleiros Reais. Ele estava comprando o status de um Deus.
— Eu vou comprar a sua morte, Alone! — Mamon rugiu, seus olhos brilhando com o símbolo holográfico de cifrões girando nas pupilas. — E depois vou vender seu cadáver como sucata mágica no mercado negro!
Ele ergueu as mãos para o clímax. O labirinto de ouro começou a se fechar e se retorcer. As paredes se transformaram em milhares de lanças gigantescas, todas apontadas para o centro, visando perfurar o Cavaleiro de todos os ângulos possíveis. Uma donzela de ferro feita de ouro.
Alone, cercado pelo brilho ofensivo e vulgar da riqueza, parou. Ele limpou o sangue do olho. Ele não parecia preocupado com as lanças que se aproximavam a centímetros de seu rosto. Ele estava... sorrindo.
Ele tocou a parede de ouro com a ponta dos dedos enluvados. O metal era frio, sólido... e condutor. Perfeito.
— Você cometeu um erro fundamental, Avareza — disse Alone, sua voz calma ressoando dentro da armadilha dourada, ignorando a morte iminente. — Você acha que o valor de um objeto está no preço de mercado. Eu vejo apenas a propriedade física da matéria.
Alone fechou os olhos. A imagem de um garoto humano, desbocado, de cabelos bicolores e criativo, veio à sua mente. Dante. O garoto que o derrotara na floresta não com mais poder, mas usando a física contra a magia.
— Aquele humano me ensinou algo irritante... — Alone murmurou, o Éter começando a crepitar ao seu redor, dourado e perigoso. — Que a arrogância cega. E que quem não entende as fraquezas do próprio poder... não pode vencer!
As nuvens verdes e tóxicas acima da Cidade de Cristal começaram a girar em um ciclone antinatural. Um vórtice escuro se abriu bem acima do labirinto, e o som de um trovão contínuo abafou os gritos de vitória de Mamon.
— Você construiu uma gaiola de ouro, Mamon. — Alone abriu os olhos, que agora não tinham íris ou pupilas; eram pura eletricidade estática branca. — Mas esqueceu que acabou de construir o maior para-raios do mundo.
Ele ergueu a mão para o céu, a palma aberta.
— Descida dos Céus — THOR.
O céu rasgou-se.
Não foi um raio comum. Foi uma entidade. Um dragão serpenteante feito de plasma superaquecido, ozônio e voltagem divina desceu do vórtice. Ele não precisava mirar. A física fez o trabalho. A condutividade perfeita do ouro e da prata de Mamon agiu como um ímã irresistível para a tempestade.
— O quê...?! — Mamon olhou para cima, o brilho amarelo do ouro sendo ofuscado pela luz azul cegante da morte.
O dragão mordeu o topo da muralha de ouro.
ZZZZZZRAAAAAAAAACK!
A descarga elétrica foi absoluta. Bilhões de volts percorreram a estrutura metálica instantaneamente. O ouro não derreteu; ele sublimou, virando gás dourado.
A eletricidade viajou pelo metal, ignorando o ar, e procurou desesperadamente o chão. Mas o chão era de vidro — um isolante perfeito criado por Alone. A energia não tinha para onde ir... exceto para o único ponto de conexão orgânica naquele mar de metal. Mamon.
O Lorde da Avareza, conectado às suas criações pelo fluxo de mana e dinheiro, recebeu a conta integral.
— GAAAAAAAAAAAAH!
Mamon foi eletrocutado com a força de uma tempestade solar. Seu terno de seda italiana vaporizou. Suas joias explodiram em estilhaços. O esqueleto dele brilhou através da carne, iluminando-se como uma radiografia em um desenho animado macabro, enquanto a energia de Thor fritava cada nervo, cada célula, cada centavo de sua alma gananciosa.
A explosão final de pressão lançou Mamon para fora do labirinto derretido como uma boneca quebrada. Ele caiu no vidro vitrificado, fumegante, o corpo tremendo em espasmos incontroláveis, a pele chamuscada e enegrecida.
O silêncio voltou ao campo de batalha, quebrado apenas pelo chiado de eletricidade residual e o cheiro de ozônio e carne queimada.
Alone caminhou até ele. O Cavaleiro estava cansado, sua aura fraca, mas sua postura era ereta, divina.
Mamon, com a visão turva e o corpo paralisado, olhou para o homem que o derrotara.
— Por... quê...? — Mamon tossiu fumaça negra, os olhos vidrados. — Por que... usar tanto Éter... em mim?
Ele tentava entender. Pela lógica de mercado, aquilo era um desperdício de recursos.
— Você deveria... guardar Éter... para a Kiara... ou para sua vingança... — Mamon sussurrou, a voz falhando. — Então por que gastou tudo... agora?
Alone parou ao lado dele. Ele olhou para o Lorde caído não com o desprezo antigo, mas com uma seriedade nova, pragmática, forjada na derrota que sofrera nas mãos de Dante.
— Antigamente, eu teria te matado com um estalo de dedos e guardado o resto, achando que era suficiente — admitiu Alone, ajeitando a luva chamuscada. — Eu subestimava tudo que não fosse divino. Eu era econômico com minha divindade.
Ele olhou para a direção onde o prédio voador de Dante havia caído, e depois voltou o olhar frio para Mamon.
— Mas eu aprendi a lição com um humano. Não existem oponentes pequenos.
Alone se virou, a capa branca queimada balançando ao vento tóxico.
— Um leão usa toda a sua força até para caçar um coelho, Mamon. E eu cansei de ser derrotado por coelhos.
Parte 6
O cheiro de carne queimada, cobre derretido e ozônio saturado pairava sobre o mar de vidro como uma neblina tóxica.
Alone estava de pé, observando sua obra com os ombros pesados. A respiração do Cavaleiro do Trovão era irregular, arranhada; sua reserva de Éter estava perigosamente baixa após invocar a ira de Thor, e suas mãos tremiam levemente. Mas seu orgulho estava intacto. Ele vencera. O "dinheiro" havia perdido para a "divindade".
Aos seus pés, Mamon Sterling era uma ruína fumegante. O terno de seda italiana estava fundido à pele carbonizada, e o ouro que ele tanto amava e ostentava agora era apenas metal líquido e quente escorrendo por suas feridas abertas, selando a carne com riqueza e dor.
Mas Mamon riu. Foi um som gorgolejante, seco e doloroso, como o raspar de moedas velhas em um saco de veludo.
— Hehehe... — O Lorde da Avareza tossiu cinzas pretas. — Você venceu a batalha, Cavaleiro. Parabéns. Gastou tudo o que tinha no cofre divino para quebrar um simples banqueiro. O ROI (Retorno Sobre Investimento) foi péssimo para você.
Mamon virou o rosto queimado, onde a mandíbula estava exposta, para olhar Alone nos olhos elétricos.
— Mas a guerra... a guerra é Dela.
Alone ajeitou a luva, limpando uma mancha de fuligem com desdém aristocrático.
— Pode ir para o mundo dos mortos com essa ilusão, Mamon. Eu prometo que logo sua "Rainha" vai te fazer companhia no inferno.
O Cavaleiro virou as costas para o inimigo caído. Seus olhos, embora cansados, faiscavam com a promessa de violência final.
— Agora que acabei com o financiador, está na hora de destruir a falsa monarca. Ela vai aprender que não se brinca com o céu, e que...
— Sério?
A voz não veio de longe. Veio de trás. Colada ao ouvido dele. Um sussurro gélido que fez os pelos da nuca de Alone se erguerem.
Alone congelou. Seus instintos de batalha, afiados como navalhas por séculos de guerra, não haviam detectado aproximação. Nenhum som de passos no vidro. Nenhuma flutuação de Éter no ar. Nenhum deslocamento de vento. Nada. Apenas a presença súbita e absoluta da Morte respirando em seu pescoço.
— Então podemos começar? — sussurrou Kiara.
Os olhos de Alone se arregalaram em pânico primal. Ele tentou se virar. Tentou convocar um raio defensivo. Tentou transformar seu corpo em eletricidade pura para escapar pelo chão condutor.
Lento demais.
Kiara não usou uma arma própria. Ela não gastou tempo criando algo com Éter. Ela estendeu a mão para o chão e agarrou o cabo de uma das Claymores de Prata gigantes que Mamon criara e deixara para trás na derrota.
— Revestimento: Carmesim.
O Éter vermelho e negro de Kiara inundou a prata em um milésimo de segundo. A lâmina brilhou com uma luz profana, vibrando com o ódio de mil borboletas do caos, tornando-se mais afiada que a própria realidade.
Ela não fez um movimento técnico ou elegante. Ela apenas desceu a espada com força bruta.
SHIIIING.
Não houve resistência. A armadura de Éter de Alone, sua aura elétrica residual, sua pele invulnerável... tudo se separou como fumaça diante de um vendaval.
O corte foi vertical. Perfeito. Da coroa da cabeça até a virilha.
Alone parou no meio do movimento de virada. A expressão em seu rosto, congelada para sempre, não foi de dor. Foi de incredulidade pura. Uma linha vermelha fina apareceu no centro de seu corpo, dividindo a simetria de sua perfeição.
— A... Ah... — O som morreu em sua garganta cortada ao meio.
THUD. THUD.
As duas metades do Cavaleiro do Trovão deslizaram para lados opostos. O corpo caiu no vidro com um baque molhado e duplo. O homem que se achava um deus, que acabara de aprender a não subestimar coelhos, morreu sem nem ver o rosto do monstro que o devorou.
Kiara soltou a espada de prata.
CLANG.
A arma caiu tinindo no chão, a missão cumprida. Ela não olhou para o cadáver. Para ela, Alone era apenas um obstáculo removido.
Ela caminhou até Mamon.
O Lorde da Avareza, ainda vivo por pura teimosia e ganância pela vida, olhava para ela com o único olho que lhe restava. Ele não parecia surpreso com a brutalidade. Parecia... aliviado.
— Você demorou... — Mamon sussurrou, o sangue borbulhando.
Kiara ajoelhou-se ao lado dele, ignorando o sangue divino e a fuligem que manchavam suas calças rasgadas. Ela tocou a testa queimada dele com uma gentileza que contrastava violentamente com o assassinato frio que acabara de cometer.
— Obrigada por segurar o forte, velho amigo — disse ela, a voz suave, humana. — O investimento valeu a pena. O lucro é nosso.
Mamon sorriu, os dentes de ouro brilhando uma última vez em meio à ruína de seu rosto.
— Pode dormir agora. O banco fechou.
A visão de Mamon escureceu. E, enquanto a vida se esvaía de seu corpo destruído, sua mente viajou para longe da dor. Para uma sala silenciosa e luxuosa no vagão de comando do Expresso da Meia-Noite, anos atrás.
FLASHBACK
O ar cheirava a charutos caros e uísque. O tabuleiro de xadrez estava montado sobre a mesa de mapas de mogno. Mamon, mais jovem e menos cicatrizado, movia suas peças brancas com extrema cautela defensiva, protegendo seu Rei atrás de uma muralha impenetrável de peões e torres.
Kiara, jogando com as pretas, era agressiva, quase imprudente. Ela lançou sua Rainha — a peça mais poderosa e versátil do jogo — direto para o centro do tabuleiro, expondo-a a ataques de bispos e cavalos de todos os lados apenas para capturar um peão.
— Isso é imprudente, Kiara! — Mamon reclamou, gesticulando com o charuto aceso. — Você está colocando a peça mais forte na linha de fogo sem cobertura. Se você perder a Rainha, perde seu poder de ataque. Você fica impotente.
Kiara recostou-se na cadeira de couro, girando uma adaga entre os dedos da outra mão.
— E daí?
— E daí que você é a Rainha! — Mamon bateu na mesa, fazendo as peças tremerem. — Você é a líder desta revolução. Você deveria ficar na retaguarda, protegida, comandando. Por que você insiste em ir para a linha de frente? Por que se arrisca tanto como se sua vida não valesse nada?
Kiara sorriu. Ela pegou a peça da Rainha Negra do tabuleiro e a girou entre os dedos, observando a coroa de madeira.
— Você confunde os papéis, Mamon. No xadrez, a Rainha é a arma. Ela se move para qualquer lado. Ela mata. Ela destrói. Mas ela é dispensável se o objetivo for o xeque-mate. Ela serve para limpar o caminho.
Ela colocou a Rainha de volta no tabuleiro, bem na frente do exército inimigo, em uma posição suicida.
— Eu não sou o Rei, Mamon. Eu sou a Cavalaria. Eu sou a Lâmina. Eu sou o sacrifício necessário.
Ela apontou para a peça do Rei Negro, escondida, imóvel e vulnerável no canto mais protegido do tabuleiro.
— O Rei é a peça imóvel. A peça que, se cair, o jogo acaba instantaneamente. Ele é a vulnerabilidade. Ele é o coração da partida. Eu? Eu sou apenas a peça que atravessa o tabuleiro e queima tudo para garantir que ninguém chegue perto Dele.
Mamon franziu a testa, confuso com a analogia.
— Mas se você não é o Rei... quem é? O que estamos protegendo com tanto zelo?
Kiara não respondeu naquele dia. Ela apenas sorriu, enigmática, e moveu sua Rainha para o ataque final.
A luz nos olhos de Mamon apagou-se. Mas, no último milissegundo de consciência, a epifania o atingiu.
Ele entendeu. A morte de Kiara não acabaria com a guerra. Ela não era o ponto fraco. Ela não era a condição de vitória dos Inimigos. Ela era apenas a destruição encarnada, o escudo ofensivo.
O verdadeiro "Rei" — a razão de tudo, o objetivo final, a única coisa que, se caísse, faria Kiara perder a alma — estava em outro lugar.
Mamon morreu sabendo o segredo.
Kiara fechou os olhos do amigo com a mão suja de sangue. Ela se levantou, sozinha no mar de vidro, cercada por cadáveres de deuses e demônios.
— Descanse — ela repetiu para o vento.
Então, ela se virou para o Tribunal. O Rei estava esperando.
Parte 7
Kiara caminhava em direção aos portões do Tribunal, deixando para trás o cadáver bissectado de Alone e o corpo inerte e fumegante de Mamon. Seus passos eram leves, mas carregavam o peso gravitacional do mundo. Ela não olhava para trás; o passado era cinzas e vidro, e o futuro era o Rei.
Mas o céu acima dela gritou.
Não houve aviso de radar mágico, nem oscilação de Éter que seus sentidos de Pesadelo pudessem captar. Apenas a pressão física do ar sendo deslocada violentamente por um corpo caindo em velocidade terminal.
Kiara parou. Ela não olhou para cima. Apenas pisou com força no cabo de uma das Claymores de Prata gigantes que Mamon deixara espalhadas pelo chão de vidro. A espada de três metros girou no ar, subindo para sua mão com a leveza de um graveto.
Ela a empunhou nas costas, bloqueando o ataque cego sem ver.
CRASH!
O calcanhar de Dante colidiu com a lâmina de prata. A força do impacto criou uma cratera de dez metros ao redor de Kiara. O vidro vitrificado do chão estilhaçou-se em pó de diamante.
— Quebra! — Dante rugiu, girando o corpo no ar para aplicar mais torque no chute descendente.
A prata mágica de Mamon, já enfraquecida pela morte de seu criador, não suportou a física bruta. A espada explodiu em estilhaços brilhantes. O pé de Dante passou direto pelos fragmentos, visando o ombro da Rainha.
Kiara apenas inclinou a cabeça para o lado, milimetricamente. O chute passou raspando, cortando alguns fios de seu cabelo platinado que flutuaram no ar.
Dante aterrissou agachado, derrapando para trás no vidro, e levantou-se sacudindo a poeira da roupa preta. Ele não tinha suas luvas (Sora estava ocupada). Não tinha o grimório (Safira estava dando suporte). Estava desarmado, apenas com os punhos nus e aquela cauda negra balançando irritada atrás dele.
— Acho que tenho que agradecer — disse Dante, estalando o pescoço e abrindo aquele sorriso preguiçoso e cínico que irritava deuses. — Você se deu ao trabalho de vir até aqui fora só para eu poder chutar a sua cara. Que anfitriã atenciosa.
Kiara virou-se lentamente. O sorriso em seu rosto era polido, aristocrático, mas seus olhos vermelhos com estrelas desenhadas queimavam com uma violência contida que contradizia a elegância da postura.
— Quem diria... — A voz dela era calma, régia, como se estivesse discursando para uma multidão de fiéis e não para um único homem sujo. — Achei que a nossa dança seria o ato final, reservada para os degraus do trono. Mas, pensando bem, a lógica se sustenta. Eu e você compartilhamos o mesmo defeito fatal: odiamos ficar parados na fila de espera quando o Chefe Final está tão perto.
— É, eu tenho esse problema sério com filas e burocracia. — Dante limpou o nariz com o polegar. — Agora, que tal você deixar a Anna sair para brincar? Eu vim buscar a minha amiga, não a versão gótica e depressiva dela que quer destruir o mundo.
— Anna? — Kiara inclinou a cabeça, o sorriso alargando-se, tornando-se algo mais feral, lembrando o prazer sádico de um predador brincando com a comida. — Ela está dormindo, Dante. Um sono profundo e sem sonhos. Seria indelicadeza acordá-la agora que o pesadelo está tão divertido. Tente outra hora... se você sobreviver aos próximos cinco minutos.
Dante suspirou, a aura carmesim começando a vazar de seus poros.
— Que saco. Eu odeio ter que bater em gente teimosa.
Ele sumiu. Não foi teletransporte. Foi aceleração física pura. Dante reapareceu na frente de Kiara, o punho direito enterrado no estômago dela.
BAM.
O impacto deveria ter dobrado qualquer ser vivo ao meio. Mas Kiara nem recuou. O corpo dela era duro como diamante negro. Ela olhou para baixo, para o punho dele afundado em sua barriga, e sorriu.
— Fraco.
Antes que Dante pudesse recolher o braço, ela o agarrou pelo pulso com uma velocidade que ele não viu.
— Deixe-me mostrar como se faz.
Ela puxou Dante para si e desferiu um soco curto, direto no rosto dele.
POW.
Dante sentiu como se tivesse sido atropelado por um trem de carga. Sua cabeça chicoteou para trás. O mundo girou. Ele foi lançado voando, quicando no chão de vidro como uma pedra em um lago, até colidir com a parede de um prédio em ruínas a cinquenta metros de distância.
CRASH.
Ele caiu nos escombros, cuspindo sangue e um dente.
— Caramba... — Dante murmurou, tonto, tentando focar a visão. — Essa garota bate pesado.
Kiara já estava lá. Ela cruzou a distância em um salto único, caindo sobre ele com os joelhos. Dante rolou para o lado no último segundo. O chão onde ele estava explodiu em cratera.
— Vamos, herói! — Kiara ria, girando o corpo e lançando uma sequência de chutes que rasgavam o ar com som de chicote. — Me divirta! Me mostre por que a Anna gosta tanto de você!
Dante se esquivava, defendia e contra-atacava. A luta era um borrão brutal. Ele acertava um soco na mandíbula dela; ela nem piscava e devolvia com uma cotovelada que quebrava costelas. Ele a chutava para longe; ela usava a parede para pegar impulso e voltar com o dobro da velocidade.
Era uma surra unilateral. Dante estava sendo jogado de um lado para o outro como um boneco de pano.
"É bom que esse plano dê certo, Sora...", pensou Dante, bloqueando um soco que fez os ossos de seus antebraços trincarem. "Ou essa maluca vai me matar antes do almoço."
Kiara girou no ar e acertou um chute giratório no peito de Dante.
KABOOM!
Ele atravessou três paredes de concreto de uma casa de três andares, parando apenas quando bateu na viga de sustentação central de cristal. Ele caiu no meio da poeira de gesso, ofegante, o corpo inteiro gritando de dor.
Kiara pousou na entrada do buraco que ela mesma abrira na parede. Ela caminhou lentamente em direção a ele, limpando o sangue (dele) de seus punhos.
— É só isso? — Ela perguntou, a voz soando genuinamente decepcionada. — O homem que desafiou o céu... morrendo na poeira como um rato? A Anna escolheu mal o seu campeão.
Dante se levantou. Ele cambaleou um pouco, mas firmou os pés. Ele limpou o sangue que cobria seu olho esquerdo, revelando a heterocromia brilhante.
— Sabe, Kiara... — Dante começou, a voz baixa e rouca. — Você fala muito bonito. Igualzinho àqueles vilões de anime que acham que controlam o tabuleiro e o destino.
Ele ergueu o rosto. Seus olhos não tinham medo. Tinham fogo.
— Mas eu sou um péssimo ouvinte.
Ele estendeu as mãos para os lados, palmas abertas. A marca em seu braço brilhou intensamente, queimando a manga da camisa.
— Liberar Arquivo: Terceiro Modo — DEUS DRAGÃO.
VROOOOOM!
A aura de Dante não apenas acendeu; ela entrou em combustão espontânea. Chamas carmesim e douradas irromperam de sua pele. Símbolos arcanos — pentagramas de fogo — desenharam-se nas costas de suas mãos, girando como motores a jato em miniatura. Na testa, dois chifres feitos de fogo sólido e comprimido cresceram, curvando-se para trás como uma coroa infernal.
O calor era intenso o suficiente para derreter o concreto sob seus pés, transformando-o em lava.
Kiara parou. Seus olhos brilharam de excitação pela primeira vez.
— Ah... finalmente.
Dante apontou as palmas das mãos para trás. Os pentagramas explodiram em jatos de propulsão.
— VAMOS NESSA!
Ele voou. Foi um borrão de fogo. Dante cruzou a sala em zero segundos e atingiu Kiara com um soco impulsionado por uma explosão de jato nas costas.
BOOM!
Dessa vez, ela voou. Kiara atravessou a parede oposta, sendo arrastada pela rua, abrindo uma trincheira no asfalto com as costas.
Dante não parou. Ele usou os jatos das mãos e dos pés para manobrar no ar com uma agilidade impossível, perseguindo-a como um míssil guiado.
Ele a alcançou no ar. Soco no estômago. Chute na cara. Cotovelada na nuca. Ele descarregou um combo de violência flamejante, cada golpe pontuado por uma explosão de Éter que sacudia o perímetro.
Kiara foi cravada no chão da praça, criando uma nova cratera fumegante.
Dante pousou, ofegante, a fumaça saindo de seus ombros.
— Acorda, Anna! — ele gritou para a cratera.
Mas a poeira na cratera se moveu.
Kiara levantou-se. Sua roupa de couro estava rasgada, o rosto sujo, um corte na testa sangrava sobre o olho direito. Mas ela estava sorrindo. Um sorriso largo, insano e feliz.
— Isso... — Kiara limpou o sangue do lábio e lambeu o dedo. — É disso que eu estou falando, Dante!
Ela desapareceu e reapareceu na frente dele, ignorando as chamas do Deus Dragão que queimavam sua pele. Ela agarrou o rosto de Dante com uma mão, seus dedos apertando o crânio dele com força titânica.
— Mas para acordar sua amiga... — Ela o puxou para perto, seus narizes se tocando, olhos vermelhos nos olhos bicolores. — Você vai ter que bater muito mais forte que isso.
Ela o arremessou para o chão e começou a socá-lo. Soco após soco. Esmagando o fogo, esmagando a resistência, enquanto transformava o Deus Dragão em uma massa de carne e hematomas.
A luta estava longe de acabar. Era apenas o aquecimento do inferno.
Parte 8
O pátio lateral da Cidade de Cristal, outrora um jardim de meditação zen com fontes de água pura e carpas douradas, agora era um pântano tóxico. Uma névoa roxa, densa e oleosa, cobria tudo, reduzindo a visibilidade a zero. O ar não cheirava apenas a veneno; tinha gosto de bile, formol e da vulgaridade do fracasso.
No centro desse miasma, Maysa estava parada. Seus joelhos, capazes de suportar o peso de prédios, tremiam violentamente. Sua respiração, normalmente imperceptível e controlada, agora era irregular, ruidosa e dolorosa, como se seus pulmões estivessem cheios de vidro moído.
— Você está pesada, querida?
A voz de Ivy vinha de todos os lugares e de lugar nenhum, ricocheteando nas paredes de mármore corroídas pela acidez do ar.
— Sente seus músculos perfeitos? Esses presentes divinos da genética que você adora exibir? Sente eles virando gelatina velha?
Maysa tentou dar um passo. Foi como arrastar uma âncora de navio no fundo do mar. O suor frio escorria por sua testa, manchando sua pele de porcelana.
— Debuff Acumulativo: Atrofia Muscular. — Ivy riu, uma risada fina, estridente e covarde. — Eu invejo tanto a sua confiança, Maysa... acho que vou ficar com ela para mim. Você não precisa dela onde vai.
Maysa fechou os olhos. Seus sentidos de caçadora tentavam rastrear a Lorde da Inveja, mas a névoa confundia o olfato e distorcia o som.
"Ela não quer lutar", analisou Maysa, ignorando a náusea que revirava seu estômago divino com um desprezo gélido. "Ela tem medo. Ela sabe que, se eu colocar uma única mão nela, ela quebra como um graveto seco. Por isso, ela se esconde na sujeira."
Era uma estratégia de covarde, mas terrivelmente eficaz. Ivy estava drenando-a lentamente, cozinhando o sapo na água quente. Fazendo-a acreditar que precisava apenas "encontrar e matar" para vencer, enquanto o verdadeiro inimigo era o tempo. Se Maysa continuasse tentando caçar fantasmas na neblina, seu precioso Invólucro entraria em colapso antes que ela visse o rosto da inimiga.
— Você se esconde como uma rata de esgoto... — Maysa sussurrou, a voz rouca, cuspindo sangue com elegância, mas ainda carregada de uma autoridade inabalável e sensual. — Escondida. Mordendo os tornozelos. Com medo da luz e da verdadeira beleza.
— Ratos sobrevivem, deusa! — Ivy gritou, irritada, de algum lugar à esquerda, denunciando sua posição. — Leões morrem de fome ou são caçados por nós! Eu sobrevivi a eras tendo medo! O medo é minha armadura!
Maysa sorriu. Um sorriso pequeno, sangrento e perigoso, como uma amante prestes a punir um servo desobediente.
— Você está certa sobre uma coisa, coisinha. Até um gato de rua mostra as garras quando é encurralado. Mas você esqueceu um detalhe básico da cadeia alimentar.
Maysa ergueu a mão direita com tremenda dificuldade. As unhas longas brilharam, não com Éter comum, mas com uma distorção roxa na própria realidade.
— Rainha não joga pelas regras da ratazana.
Os olhos de Maysa brilharam em violeta intenso, iluminando a névoa ao redor com o desprezo de uma divindade ofendida. A marca do Triskele em seu ventre queimou sob a roupa rasgada, reagindo à sua vontade absoluta.
— Troca de Hierarquia.
O mundo estremeceu. Não foi um tremor de terra geológico; foi um tremor nas leis da física local. A gravidade pareceu soluçar. A pressão atmosférica inverteu.
— Eu decreto: — A voz de Maysa ressoou como um trovão sedutor, ignorando a própria garganta ferida. — Neste pátio, a substância "AR" é hierarquicamente superior, mais nobre, à substância "NÉVOA". Desapareça, sujeira.
Ivy, escondida atrás de uma estátua no segundo andar de uma varanda segura, arregalou os olhos.
— O quê?!
Maysa girou o corpo. Ela não mirou em nada específico. Ela apenas rasgou o espaço com as garras, girando como um tornado humano.
— Ventania Soberana!
O ar obedeceu à ordem absoluta. Ele não apenas soprou a névoa; ele a cortou. Como o ar agora era "mais forte", "mais denso" e "conceitualmente superior" à magia de Ivy, as lâminas de vento fatiaram a nuvem tóxica como se fosse papel sólido.
VWOOOOSH!
A névoa foi retalhada, expulsa e dissipada em segundos, revelando o pátio limpo sob a luz cruel da guerra... e a localização exata de Ivy, agachada pateticamente na varanda de um prédio anexo, segurando frascos vazios.
— Isso... isso é trapaça! — Ivy gritou, levantando-se em pânico, recuando. — Você não pode simplesmente reescrever a física! Isso não vale!
— O que foi, Ratinha?... Está com medo do leão?
Maysa flexionou as pernas. O chão de mármore explodiu em pó sob seus pés. Ela saltou. Ignorando a atrofia muscular, ignorando a dor dos nervos fritando, ela subiu trinta metros em um segundo, ficando acima do telhado onde Ivy estava.
A Inveja olhou para cima. A sombra de Maysa cobriu o sol tóxico, bloqueando a esperança.
— Não! Espere! Eu posso te dar...
— Você não tem nada que eu queira. Você é sem valor.
Maysa desceu. Ela esticou a perna em um chute de calcanhar descendente, concentrando toda a massa e autoridade em um único ponto de impacto.
KRA-KOOOOM!
O telhado cedeu como se fosse feito de açúcar. O segundo andar cedeu. O primeiro andar cedeu. O prédio inteiro onde Ivy se escondia foi atravessado por uma coluna de força cinética divina. A estrutura colapsou verticalmente em uma implosão de poeira, madeira e mármore, enterrando a Lorde da Inveja sob toneladas de escombros antes que ela pudesse gritar.
Maysa aterrissou sobre a pilha de ruínas, ofegante, com um joelho no chão. O silêncio voltou ao pátio. Ivy não se levantou. A aura verde e tóxica da Inveja desapareceu do ar, sinalizando a derrota e o coma da usuária.
— Hah... hah... — Maysa apoiou as mãos trêmulas nos joelhos.
Ela venceu, mas o custo fora alto. Seus braços tremiam incontrolavelmente. A visão estava turva nas bordas. Os debuffs de Ivy não desapareceram magicamente com a queda da usuária; o veneno já estava no sistema biológico, e a exaustão muscular era uma realidade física.
— Irritante... — Maysa cuspiu uma poça de sangue escuro no chão, limpando o canto da boca com as costas da mão, irritada por ter sua beleza manchada. — Isso vai demorar horas para sair do meu metabolismo. Que inconveniente.
Ela olhou ao redor, procurando a próxima ameaça, mas seu corpo exigia uma pausa tática imediata. Com esforço, ela caminhou até um poste de iluminação ornamental que permanecera de pé no meio da destruição — ironicamente, um poste de luz que iluminava o nada. Ela escalou até o topo, sentando-se na luminária de ferro forjado como uma gárgula sensual, cruzando as pernas para ter uma visão panorâmica e segura.
De lá, ela podia ver a praça principal, onde flashes de prata e rugidos bestiais ecoavam.
— Vamos ver como a humana se sai... — Maysa murmurou, os olhos semicerrados de cansaço focando na luta de Ludmilla contra o Gévaudan, lambendo os lábios secos.
Parte 9
A praça central da Cidade de Cristal havia deixado de ser um ponto turístico; tornara-se um liquidificador industrial de carne e metal.
Ludmilla não estava correndo; ela estava voando baixo, ricocheteando entre os escombros. As correntes vermelhas de Ferrum Nobile disparavam de sua cintura como teias de aranha vivas e magnéticas, cravando-se em destroços de prédios, postes de luz e até no próprio chão, impulsionando seu corpo em ângulos agudos que desafiavam a geometria euclidiana.
Ela era um borrão prateado e vermelho zunindo ao redor do Gévaudan, rápida demais para a retina humana acompanhar.
— Estilo Imperial: Dança do Pêndulo!
A Besta da Gula, agora duas vezes maior devido ao consumo contínuo de Éter atmosférico, tentava esmagá-la como se espanta uma mosca. Suas garras desciam com força suficiente para pulverizar tanques de guerra, mas atingiam apenas o ar vácuo onde Ludmilla estivera um milésimo de segundo antes.
Ela girava no ar, passando por baixo da barriga exposta do monstro, as katanas duplas desenhando arcos de luz letal.
CORTA. CORTA. CORTA.
O sangue verde, ácido e fedorento da besta espirrava, chiando no chão de mármore. Ludmilla cortava tendões, perfurava a armadura biológica e rompia tubos de alimentação de Éter.
Mas não era o suficiente.
Para cada corte profundo que ela fazia, a carne do monstro borbulhava, sibilava e se fechava instantaneamente. O Gévaudan não sentia dor; ele sentia fome. Ele era uma montanha de regeneração infinita.
Ludmilla aterrissou agachada no topo de uma gárgula quebrada, ofegante. Seu corpo estava no limite crítico. O impacto da batalha anterior contra a gravidade de Satan ainda latejava em suas costelas quebradas, e o esforço de manter aquela velocidade insana estava cobrando o preço em seus pulmões.
Ela cuspiu uma golfada de sangue no chão branco. Seus olhos, no entanto, não mostravam fadiga. Mostravam uma loucura calculada.
— Mais... — Ludmilla sussurrou, os dentes manchados de vermelho, a imagem de seus pais mortos piscando em sua mente. — Eu preciso de mais velocidade. Preciso ser mais rápida que a morte.
Ela fechou os olhos por um segundo. O medo da criança que viu os pais serem devorados tentou subir pela garganta, mas ela o agarrou pelo pescoço e o estrangulou com pura raiva.
— Doping de Ferro: Nível Crítico.
O coração dela bombeou com violência hidráulica. O magnetismo em seu sangue acelerou a tal ponto que a fricção interna superaqueceu seu corpo. Sua pele, pálida, tornou-se de um vermelho escuro, quase roxo, como ferro em brasa. Veias saltaram em sua testa e braços como raízes de uma árvore furiosa. Fumaça branca começou a sair de sua boca entreaberta.
Ela não era mais o "Príncipe". Era uma carniceira em overdrive.
— MORRA!
Ludmilla disparou. A velocidade dobrou, quebrando a barreira do som em um estalo seco. Ela disparou as correntes em dois prédios opostos, criando um estilingue humano de tensão máxima. O metal cantou. Ela se soltou.
Ela avançou girando. Não era um corte simples. Ela girava sobre o próprio eixo horizontal com tal velocidade que se tornou um disco de serra humana, uma turbina de lâminas invisíveis a olho nu.
— TURBILHÃO DE DECAPITAÇÃO!
O Gévaudan tentou morder, mas foi lento demais para a física.
ZUNNNN!
Ludmilla passou através do pescoço da besta como um laser.
O som foi de um pano grosso e molhado sendo rasgado. A cabeça colossal do lobo deslizou lentamente para o lado... e caiu no chão com um baque úmido e pesado que fez o chão tremer. O corpo gigante tombou logo em seguida, inerte.
Ludmilla aterrissou do outro lado, derrapando por dez metros, as lâminas pingando o sangue verde e fumegante. Ela caiu de joelhos, tossindo violentamente, o corpo vermelho tremendo com o pós-efeito da overdose de adrenalina e ferro.
— Acabou... — ela engasgou, a visão escurecendo.
ZZZRT. SQUELCH.
O som de eletricidade estática e carne se movendo a fez olhar para trás.
O corpo decapitado do Gévaudan não estava morrendo. Os tubos de Éter em suas costas brilharam com uma intensidade cegante. Raios verdes começaram a dançar sobre a ferida aberta do pescoço.
A carne não cresceu lentamente; ela explodiu para fora. Em segundos, uma nova cabeça — mais blindada, com mais dentes, sem olhos vulneráveis — irrompeu do tronco como um parasita nascendo.
E não foi só isso. A pele do monstro, que antes era cortada pelas lâminas de Ludmilla, mudou de textura e cor. Tornou-se cinza-chumbo, metálica e opaca.
A Besta rugiu. A onda de choque jogou Ludmilla longe.
— Ele... se adaptou? — Ludmilla tentou levantar suas espadas, mas seus braços estavam pesados como chumbo. — A pele... virou metal?
O Gévaudan olhou para ela. Ele aprendeu. A pele dele agora era mais dura que o Ferrum Nobile. Ele sabia que ela era rápida e usava cortes, então ele evoluiu para anular o corte.
Ele abriu a boca e carregou um feixe de energia verde concentrada. Um disparo de plasma à queima-roupa.
Ludmilla arregalou os olhos. Ela não tinha como desviar. Seus músculos estavam travados pelo doping.
— Merda.
O feixe disparou.
VUUUUUSH!
Uma sombra negra caiu do céu, interceptando o raio e a própria besta com a brutalidade de um meteoro.
Maysa aterrissou entre a humana e o monstro, o chão rachando sob o impacto. Em suas mãos, o Guandao de osso negro girou, dispersando o feixe de energia.
— Que coisa feia... — Maysa sibilou, os olhos reptilianos brilhando de nojo.
Com um movimento vertical simples, impulsionado pela gravidade e por sua força física monstruosa (mesmo reduzida), ela desceu a lâmina pesada da alabarda sobre o centro do crânio do Gévaudan.
CRACK-SQUELCH.
O corte foi absoluto. A nova pele endurecida do monstro, feita para resistir a lâminas leves e rápidas, não resistiu ao peso esmagador da arma de Maysa. O Gévaudan foi partido ao meio, do focinho à cauda, separado em duas bandas de carne fumegante que caíram para os lados com um som molhado.
Maysa endireitou-se, girando a arma para limpar o sangue ácido antes que corroesse o osso.
— Você é descuidada, humana — Maysa falou sem olhar para trás, embora sua respiração estivesse pesada devido aos debuffs de Ivy que ainda persistiam em seu sangue. — Eu disse para não morrer.
Ludmilla olhou para as duas metades do monstro, trêmula.
— Obrigada... — ela começou.
Mas as metades se moveram.
Não morreram. As duas partes do Gévaudan começaram a se contorcer, fibras de carne disparando como teias de aranha para reconectar o corpo dividido. E onde a lâmina pesada de Maysa havia cortado, uma carapaça de osso branco e denso começou a crescer instantaneamente, calcificando e blindando o ponto fraco central.
O monstro se levantou novamente. Inteiro. Maior. E agora, com placas de osso protegendo a linha central contra cortes pesados e pele metálica contra cortes rápidos.
Maysa recuou um passo, seus olhos estreitando-se. Ela olhou para sua arma, depois para o monstro que agora parecia imune tanto à velocidade quanto à força bruta.
— Regeneração reativa... Adaptação evolutiva instantânea... — Maysa murmurou, a compreensão fria e clínica descendo sobre ela.
Ela olhou para Ludmilla, que tentava ficar de pé usando as espadas como muletas.
— Esqueça o conceito de "monstro" ou "animal", humana. Nós não estamos lutando contra um ser vivo comum.
Maysa apontou sua lança para a abominação que agora desenvolvia quatro braços e duas bocas para devorar mais rápido.
— Isso é um câncer. É uma praga biológica desenhada para nunca parar de comer e aprender. E se não o desintegrarmos até a última célula de uma só vez... ele vai devorar o mundo inteiro.
Parte 10
A garota no pijama de dinossauro verde não estava mais rindo.
Dorothea, a Cavaleira Real conhecida por sua força bruta absurda e personalidade infantil, estava de joelhos. Sua marreta colossal, antes uma ferramenta de destruição em massa capaz de nivelar quarteirões, agora era apenas um pilar de gelo inútil, fundido molecularmente ao chão de vidro.
O frio de Satan Bellum não era algo que se podia golpear ou bloquear. Era uma presença atmosférica. Uma aura de entropia absoluta que emanava da Valquíria de três metros de altura como radiação invisível, roubando o calor, a vibração e a vida de tudo o que tocava.
A pele de Dorothea estava azul-celeste. Seus cílios longos estavam cobertos de geada pesada. Ela tentava se mover, mas suas articulações rangiam como metal enferrujado, travadas pelo congelamento dos fluidos corporais.
Satan ergueu sua bota de obsidiana, pesada como uma lápide, sobre a cabeça da pequena cavaleira.
— Morra em nome da rainha — a Lorde da Ira decretou, a voz saindo sem emoção, como o vento uivante de um inverno nuclear.
A bota desceu para esmagar o crânio.
FWOOSH!
O ar não congelou. Ele entrou em ignição instantânea.
Uma onda de chamas roxas, densas, oleosas e perfumadas com cereja e enxofre, explodiu entre a bota da gigante e a cabeça de Dorothea. O impacto térmico foi tão violento que criou uma onda de choque de vapor superaquecido, empurrando a gigante Satan para trás, derrapando no chão que derretia.
— O quê...? — A gigante recuou, olhando para a própria armadura chamuscada e fumegante.
A silhueta elegante e sinuosa de Asmodea Lilith surgiu da fumaça roxa, segurando seu cachimbo longo como se fosse uma varinha mágica de maestro.
— Que indelicadeza, querida. — Asmodea sorriu, a fumaça saindo por entre seus dentes perfeitos e lábios pintados de sangue. — Congelar uma criança indefesa? Você sempre foi uma mulher fria, Satan, mas isso é falta de educação até para os seus padrões bárbaros.
Satan rosnou. O ar ao redor dela esfriou novamente, tentando apagar o fogo com pressão atmosférica.
— Luxúria... Você é tola, traidora. Acha que seu fogo mundano pode vencer meu frio absoluto?
— Ah, mas aí está o erro tático, sua bruta sem imaginação. — Asmodea deu uma tragada longa e calma. — Você não "cria" o gelo. Você apenas paralisa os átomos ao seu redor, roubando a energia cinética deles.
Asmodea soprou a fumaça na direção da gigante.
— E eu? Eu também não crio fogo do nada. Eu apenas... provoco as partículas que você parou.
Ela estalou os dedos.
SNAP.
O Éter frio, denso e estagnado que Satan espalhara por todo o quarteirão reagiu violentamente. A habilidade de Asmodea era o oposto polar: Agitação Molecular. Ela usou a própria densidade do combustível da inimiga contra ela.
KABOOM!
Todo o campo de gelo ao redor de Satan entrou em combustão espontânea. O ar congelado virou um inferno roxo vibrante. Satan estava sendo queimada pela fricção de sua própria aura acelerada ao extremo.
— AAAAAARGH! — A gigante rugiu, envolta em chamas que derretiam o metal de sua armadura na pele.
O gelo que prendia Dorothea derreteu instantaneamente em água morna. A garota-dinossauro, liberada e furiosa, agarrou o cabo de sua marreta com as duas mãos.
— Agora você me paga, sua geladeira gigante! — Dorothea girou a arma, os olhos brilhando com fúria primal. — IMPACTO JURÁSSICO!
Ela acertou Satan no estômago com força total. O golpe carregava energia cinética suficiente para atravessar um bunker.
Mas Satan Bellum não era apenas magia. Ela era a encarnação da Guerra física.
CLANG.
O som foi de um sino gigante rachando. Satan não voou. Apenas seus pés foram arrastados um pouco para trás. Ela agarrou a cabeça da marreta com uma mão nua e queimada, parando o golpe com pura força muscular que superava qualquer lógica ou magia. As chamas roxas lambiam seu corpo, cozinhando sua carne, mas ela ignorava a dor como se fosse irrelevante.
— Truques baratos... — Satan rosnou, o rosto contorcido de ódio atrás do visor derretido.
Com um movimento de pulso, ela arrancou a marreta das mãos de Dorothea e a usou para golpear a própria dona.
BAM.
Dorothea foi esmagada contra o chão, quicando como uma bola de borracha quebrada. O pijama de dinossauro rasgou, e sangue jorrou de sua boca, pintando o vidro de vermelho.
Asmodea tentou conjurar mais fogo, mas Satan foi mais rápida. A gigante avançou através das chamas, agarrou a Lorde da Luxúria pelo pescoço elegante e a ergueu do chão com um braço só.
— Você queima... — Satan apertou, e a garganta de Asmodea estalou, os olhos da Luxúria revirando. — Mas eu esmago.
Ela arremessou Asmodea. A mulher voou como uma boneca de pano, atravessando a vitrine de uma loja em ruínas e desaparecendo na escuridão dos escombros com um estrondo de vidro quebrado.
Satan estava sozinha no centro do pátio em chamas. Ferida, queimada, a armadura fundida à pele, mas inabalável. Ela olhou para Dorothea, que tentava se levantar, tonta e com costelas quebradas.
— Fim da brincadeira.
Satan ergueu o punho maciço, preparando-se para transformar a cabeça da cavaleira em pasta vermelha com um único golpe final.
— Morra!
Um vulto pequeno e rápido se meteu no caminho da morte.
CRASH!
O punho de Satan desceu, mas parou a centímetros do rosto aterrorizado de Dorothea. Não foi magia de barreira. Foi metal, física e alavancagem desesperada.
Oliver estava lá. Com o rosto sujo de fuligem e os óculos trincados, segurava seu bastão dourado na horizontal com as duas mãos, bloqueando o punho da gigante. Seus braços tremiam violentamente, os vasos sanguíneos dos olhos estouravam, os joelhos dobravam sob o peso de toneladas, e o bastão envergava perigosamente... mas ele não cedeu.
— Quem é você... Pesadelo? — Dorothea arregalou os olhos, cuspindo sangue.
Atrás dele, uma luz verde suave e quente envolveu a garota. Laeticia estava ajoelhada, as mãos brilhando com magia de cura acelerada, fechando as feridas internas da cavaleira enquanto Oliver comprava tempo com a própria vida.
— Vocês... — Satan forçou o punho para baixo, fazendo Oliver grunhir de dor, os ossos de seus ombros estalando. — Vocês são insetos. Vermes sem nome, sem título, sem poder. O que acham que podem fazer contra um Lorde?
Oliver olhou para cima. O suor escorria pelo seu rosto em bicas, mas seus olhos, por trás das lentes quebradas, brilhavam com uma determinação fria que ele nunca tivera antes.
Ele se lembrou de Dante lutando contra um avatar divino com os punhos nus. De Teth enfrentando o próprio sangue amaldiçoado. De todos lutando além de seus limites.
— Nós não somos Lordes... — Oliver rangeu os dentes, usando uma técnica de redirecionamento de força para empurrar o punho gigante milímetros para o lado e ganhar espaço para respirar. — Nem Cavaleiros Reais...
Ele girou o bastão e ficou em posição de guarda baixa, protegendo Laeticia e Dorothea com o próprio corpo frágil.
— Mas nós recusamos ser peso morto nessa história!
Laeticia terminou a cura básica e levantou-se, sacando suas adagas curtas, o medo em seus olhos substituído por um foco letal.
— Se o Dante pode chutar a cara de uma deusa... — Laeticia disse, a voz trêmula mas firme, ficando ao lado de Oliver. — A gente pode segurar você, sua aberração.
Satan Bellum olhou para os dois pesadelos insignificantes que ousavam ficar entre ela e sua presa. O fogo roxo de Asmodea ainda queimava ao redor, refletido nos olhos da gigante. A Ira cega esfriou, tornando-se algo muito mais perigoso: Respeito Assassino.
— Então morram com orgulho — Satan declarou, assumindo a postura de combate total. — Vocês deixaram de ser insetos. Agora são inimigos.
Parte 11
O campo de batalha não era mais um local fixo; era uma cicatriz em movimento.
Enquanto trocavam socos, Dante e Kiara se arrastavam pela Cidade de Cristal, destruindo casas, praças e bairros inteiros em uma procissão de violência que avançava, inconscientemente, em direção ao Grande Tribunal.
Dante não estava lutando; ele estava sobrevivendo.
Sua cauda negra chicoteava o ar atrás dele como um terceiro braço vivo, buscando pontos cegos e corrigindo seu equilíbrio em milissegundos, enquanto seus punhos, revestidos de Éter de plasma superaquecido, desferiam uma barragem de golpes na velocidade do som. Ele usava tudo o que tinha no arsenal: chutes giratórios que cortavam o vento, ganchos brutais que visavam o fígado, tentativas de agarrões improvisados e disparos de eletricidade estática à queima-roupa.
Mas Kiara era uma muralha inamovível.
Ela bloqueou um soco de direita carregado de ódio com a palma da mão aberta. O impacto criou uma onda de choque que estilhaçou todas as janelas restantes do prédio ao lado, mas Kiara nem sequer piscou.
— Lento — ela diagnosticou, a voz carregada de um tédio clínico.
Dante girou no próprio eixo, tentando um chute alto com a perna esquerda infundida em fogo para decapitar. Kiara nem se moveu do lugar. Ela levantou o antebraço casualmente, bloqueando o osso da canela dele com a dureza de uma barra de titânio, e imediatamente contra-atacou com uma cotovelada descendente na mesma perna.
CRACK.
Dante grunhiu, o som escapando por entre os dentes trincados. Ele recuou mancando, a dor irradiando da canela até o quadril como um raio nervoso.
"Força bruta não vai funcionar", a mente de Dante acelerou, o suor salgado escorrendo nos olhos e ardendo. "Os status dela são absurdos. Ela é mais rápida, mais forte e mais resistente. É como bater em uma montanha de diamante. Tenho que jogar sujo. Tenho que ser técnico."
Ele mudou a postura. A aura carmesim de força bruta diminuiu, comprimindo-se, substituída por um zumbido elétrico rubro e afiado.
— Corte de Plasma.
Dante sumiu. Ele se moveu em ziguezague, transformando-se em um relâmpago humano. Ele passou por Kiara, seus dedos traçando linhas no ar que se solidificaram em lâminas de energia cortante.
ZUN. ZUN. ZUN.
Cortes finos apareceram na roupa de couro de Kiara. Mas apenas na roupa. A pele dela, protegida por uma camada densa e invisível de Éter real, repeliu o plasma como se fosse água morna.
Ela previu o padrão. Quando Dante tentou flanquear pela esquerda para um golpe fatal, ela já estava lá, esperando.
BAM.
O impacto não foi apenas um golpe; foi uma implosão. O punho dela soterrou-se no plexo solar de Dante com precisão cirúrgica. O ar escapou dos pulmões dele com um silvo agudo e agonizante, audível acima do caos da batalha. O corpo dele travou, dobrando-se sobre o braço dela como um pedaço de tecido molhado.
Antes que a gravidade pudesse reclamá-lo, ela girou o quadril, convertendo a força do soco em um chute vertical ascendente. O calcanhar dela conectou-se ao queixo dele com um estalo seco, lançando-o para os céus como um foguete desgovernado.
Dante girou no ar, o mundo um borrão de cores e dor. Ele forçou os olhos a focarem, ignorando a náusea, e canalizou sua energia para frear a queda, flutuando por um instante na crista da parábola. Seus olhos brilharam em um tom sobrenatural.
— Resquício Temporal: Trindade!
A realidade ao redor dele glitchou. O ar tremulou e três silhuetas se destacaram do corpo original, materializando-se em vetores de ataque perfeitos. Três Dantes, três ameaças, mergulhando em uníssono como falcões de guerra.
O primeiro clone veio de frente, uma investida suicida para quebrar a guarda. Ele desferiu um direto, rápido como um raio. Ela não recuou. Com a frieza de uma veterana, ela apenas deslocou o pescoço milímetros para a esquerda. O punho do clone passou zunindo por sua orelha. Aproveitando a abertura na guarda do atacante, ela girou o tronco, pivotando o pé de apoio e disparando um cruzado devastador. O punho dela atravessou a cabeça do clone, que não sangrou, mas explodiu em uma nuvem cintilante de partículas de Éter carmesim.
O segundo clone surgiu do ponto cego, nas costas dela. Sua perna descia num arco descendente, envolta em plasma crepitante, visando partir o crânio dela ao meio. Ela sentiu o calor antes do golpe. Em vez de bloquear, ela cedeu à gravidade, agachando-se bruscamente. A perna de plasma cortou o ar onde seu pescoço estava um nanossegundo antes, chamuscando as pontas de seus cabelos. Num movimento fluido, ela explodiu para cima e para trás, laçando o pescoço do clone com o braço rígido — um Lariat brutal. A inércia do próprio clone foi sua ruína; com o impacto no pescoço, a forma física dele se desestabilizou e ele foi pulverizado em luz antes mesmo de tocar o chão.
Mas o terceiro clone já estava lá. Ele irrompeu dos escombros do lado de fora, o punho brilhando com uma aura densa e pesada, distorcendo a luz ao redor.
— Chronos Break!
O golpe conectou. Ele afundou a cabeça dela contra o piso de pedra, criando uma cratera de impacto que fez a estrutura tremer. A força cinética a lançou para longe, o corpo dela quicando e deslizando, mas ele não deu trégua. O clone avançou, uma sombra implacável no meio da poeira.
Ela, no entanto, usou o próprio momento da queda. As mãos tocaram o chão e ela se impulsionou numa pirueta acrobática, recuperando a base vertical instantaneamente. Quando o clone chegou para o golpe final, ela avançou. Foi uma colisão frontal. O punho do clone atingiu a maçã do rosto dela. O punho dela afundou no nariz dele. Sangue real espirrou da boca dela, manchando o chão, mas a cabeça do clone estalou para trás e sua forma tremulou violentamente, desfazendo-se em fumaça vermelha sob a força do impacto.
Houve um silêncio de meio segundo.
O verdadeiro Dante aterrissou suavemente nas costas dela. Ele não usou magia espalhafatosa desta vez; nas mãos, segurava uma barra de ferro reforçado arrancada dos escombros, o metal brilhando em laranja vivo, superaquecido pelo atrito de sua velocidade e poder. Ele não visou o corpo. Ele mirou na base do crânio. Um golpe de execução.
O instinto assassino dela gritou. Kiara abaixou a cabeça no último microssegundo possível.
A barra de ferro passou chiando sobre ela, o calor radiante queimando a pele de sua nuca, cortando apenas o ar viciado. Ela estava dentro da guarda dele agora.
Dante arregalou os olhos, percebendo o erro fatal: ao atacar com a barra com as duas mãos, ele deixara o tronco exposto.
Ela girou por baixo do braço dele, carregando toda a rotação do corpo em um chute lateral direto no estômago. O pé dela afundou nas costelas dele.
KABOOM.
Não foi um empurrão; foi um disparo de canhão. Uma onda de choque visível estourou nas costas de Dante. Ele foi arremessado horizontalmente, o corpo rígido pela força do impacto, até colidir com a base do trono destruído do outro lado do salão.
A pedra de mármore rachou em teia de aranha com o impacto. Dante desabou de joelhos, a barra de ferro caindo de suas mãos trêmulas com um clangor metálico. Ele tentou puxar o ar, mas apenas bile e sangue jorraram sobre o chão quebrado.
Ele tentou se levantar, as pernas tremendo incontrolavelmente. Ele olhou para ela. Kiara estava parada no centro da arena, levemente ofegante, o suor brilhando na testa como diamantes, sangue escorrendo por sua boca, mas o sorriso em seu rosto era de triunfo absoluto.
— Droga... — Dante limpou o sangue do queixo com as costas da mão. — Eu não lembro de você ser tão forte quando a gente lutou lá em Babylon... Naquela época, eu conseguia acompanhar. O que mudou?
Kiara riu. Ela passou a mão pelo cabelo, jogando a franja para trás com arrogância.
— Babylon... Parece que foi há uma vida inteira. — Ela olhou para as próprias mãos, fechando e abrindo os dedos, admirando a biomecânica perfeita. — Naquela época, este corpo era estranho para mim. Era uma roupa apertada demais, desconfortável. O Éter da Anna rejeitava o meu como um vírus. Eu estava desesperada, correndo contra o tempo, lutando contra a própria carne para chegar aqui.
Ela caminhou lentamente até ele, cada passo ecoando como uma contagem regressiva.
— Mas graças a você, Dante... Graças à sua "luta" heroica e barulhenta, eu tive tempo. Tempo para me acostumar. Tempo para reescrever a biologia dela célula por célula. Tempo para extrair o verdadeiro potencial desta casca.
Dante arregalou os olhos, a compreensão descendo sobre ele como um balde de água gelada.
— Então... aquele encontro... quando você falou com o "Dan"...
— Ah, você se lembra disso? — Kiara gargalhou, deliciada com a ironia. — Sim. Eu precisava de um idiota barulhento. Alguém que causasse confusão, que chamasse a atenção dos Cavaleiros, que fizesse o mundo inteiro olhar para o lado errado enquanto eu trabalhava nas sombras.
Ela parou diante dele, invadindo sua zona de conforto sem um milímetro de hesitação. O ar entre os dois crepitou, denso e pesado. Não houve postura defensiva, apenas uma invasão territorial.
Kiara deslizou o pé direito para frente, plantando a bota firmemente entre as pernas de Dante, reivindicando aquele pedaço de chão. Dante não recuou. Seus olhos se estreitaram e ele enganchou a própria perna atrás da panturrilha dela, travando seus tornozelos em um nó górdio de músculos e couro.
Era uma lei fundamental da física: dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo. Mas ali, naquele metro quadrado de inferno, eles decidiram desafiar essa lei na base da força bruta.
— Eu queria que você fizesse uma bagunça, Dante. Para que ninguém notasse a minha sombra se movendo pelos bastidores até a hora certa.
O primeiro soco de Kiara cortou o ar, um borrão invisível.
CRAK.
O punho dela colidiu contra a maçã do rosto dele, a cabeça de Dante estalando para trás com a violência do impacto. O corpo dele tentou seguir o movimento, impulsionado pela física para longe do perigo, mas a perna dela agiu como uma âncora de ferro.
Ela flexionou a panturrilha, puxando a perna dele. Em vez de ser arremessado, Dante foi violentamente puxado de volta para o centro da tempestade.
— Afinal... uma verdadeira vilã precisa de uma grande entrada, não é? E você foi o meu ato de abertura perfeito.
O punho de Dante subiu em um uppercut vicioso, conectando-se limpo sob o queixo dela. Os dentes de Kiara bateram com um som seco, audível. O pescoço dela esticou, o olhar dirigido ao teto por uma fração de segundo.
Ela não caiu. Ela nem sequer piscou.
A cabeça dela desceu como um martelo, não com um golpe, mas com um direto de cima para baixo que visava enterrar Dante no chão. Ele bloqueou com a testa, o choque de osso contra osso enviando ondas de choque visíveis pelo ar ao redor deles.
Começou então uma sinfonia de violência estática.
Da cintura para baixo, eles eram estátuas, as botas rachando o piso de pedra sob a pressão imensa de manterem a posição, as pernas entrelaçadas impedindo qualquer recuo ou esquiva. Da cintura para cima, eram um borrão cinético de destruição.
Bam-bam-bam-bam!
Eles trocavam golpes na curta distância, rápidos demais para um olho humano comum acompanhar. Os ombros giravam, os dorsais estalavam, e o som de carne atingindo carne era contínuo, como o rugido de um motor.
A raiva explodiu no peito de Dante, mais quente que qualquer chama de dragão. Ele não tinha sido um herói; tinha sido uma ferramenta. Uma distração.
— Você fala demais!
Dante rugiu e se lançou contra ela novamente, ignorando a perna quebrada, ignorando a técnica, movido apenas pela vontade pura e irracional de apagar aquele sorriso do rosto dela.
Eles continuavam a conversar, mas as palavras eram pontuadas por explosões sônicas. Ninguém cedia. Ninguém dava um passo para trás. Era um duelo de egos ancorado no chão, onde cada frase era um soco e cada soco era um argumento irrefutável.
Enquanto os dois se matavam no centro da arena, longe dali, escondida atrás de uma coluna dórica caída nas sombras, Sora observava.
A Lolita Gótica observava a batalha sem piscar, segurando o grimório negro de Safira aberto.
— Você tem certeza de que essa magia existe, enciclopédia ambulante? — A voz de Sora ecoou na mente da Gyaru, tensa, urgente. — Estamos ficando sem tempo. O Parceiro está lutando no limite do corpo físico. Ele vai quebrar em breve.
As páginas do livro de Safira viravam sozinhas em um borrão frenético, o som de papel rasgando preenchendo o silêncio tático.
— É claro que sim! — A voz de Safira saiu do livro, estressada e aguda. — A Biblioteca Celestial tem registros de tudo o que já foi escrito! A magia para separar duas almas fundidas em um mesmo corpo... tem que estar aqui!
— Então ache logo! — Sora gritou mentalmente. — Se ela estiver escondida como o registro do Rei, estamos ferradas.
— Estou tentando! Mas é um arquivo antigo! É... — Safira parou em uma página, as letras brilhando em roxo, mas logo voltou a folhear com frustração. — Não... essa mata o hospedeiro. Essa aqui explode as duas almas... Argh! Onde está a separação limpa?!
Sora olhou para o centro da arena, vendo Dante sendo arremessado contra uma parede com força suficiente para rachar o concreto e fazer poeira chover do teto.
— Anda logo, Safira. Se não formos rápidas, não vai ter alma para separar. E muito menos um Dante vivo para distraí-la enquanto a gente conjura o feitiço.
Parte 12
O próximo soco de Kiara não apenas atingiu Dante; ele reescreveu a topografia do rosto dele.
O impacto o arremessou como um projétil humano, fazendo-o atravessar três paredes de divisórias internas — gesso, tijolo e madeira explodindo em sequência — antes de colidir com a estrutura principal de concreto armado. O ar em seus pulmões foi achatado, expulso violentamente. Ele deslizou pelos escombros, caindo sentado, a visão nadando em um mar de manchas pretas e vermelhas que piscavam como um sinal de erro fatal no sistema nervoso.
Kiara não deu tempo para o oxigênio voltar.
Ela surgiu da poeira como um fantasma vingativo. Com um movimento fluido, chutou o queixo de Dante, lançando-o verticalmente para o ar. Antes que a gravidade pudesse puxá-lo de volta, ela saltou, interceptando-o no ápice da trajetória com um soco de martelo, usando as duas mãos unidas acima da cabeça.
BAM.
Dante desceu como um meteoro, colidindo contra um pilar de cristal de sustentação de um prédio anexo. O cristal estilhaçou com o som ensurdecedor de mil sinos quebrando ao mesmo tempo. A estrutura gemeu, perdeu a integridade e cedeu, desabando sobre eles em uma avalanche de pedra, aço e vidro.
Kiara emergiu dos destroços primeiro, sua aura vermelha explodindo para limpar o caminho. Dante, soterrado até a cintura, mal conseguia manter a consciência, o sangue escorrendo em seus olhos.
— Foi divertido, Dante — ela disse, a voz desprovida de qualquer emoção humana, como uma atriz entediada recitando a última fala de uma peça ruim. — Mas a cortina precisa fechar. Adeus, meu ato de abertura.
Ela correu novamente na direção dele. O punho direito, coberto de Éter vermelho e negro condensado até parecer sólido, desceu como uma guilhotina. Mirava o crânio. Era o fim.
ZIIIIIIIIING!
Não houve o som úmido de carne esmagada. Houve um zumbido agudo, uma vibração de alta frequência que fez os dentes de todos na praça doerem e o vidro das janelas ao redor trincar espontaneamente.
O punho de Kiara parou. Travado a centímetros do nariz quebrado de Dante.
Entre a mão da Rainha e a cabeça do Caçador, uma lâmina de luz instável, oscilando freneticamente entre o branco puro e o roxo abissal, tremulava como uma falha na realidade.
Kiara recuou instantaneamente em um salto para trás, seus instintos gritando perigo pela primeira vez. Ela olhou para a pele de suas juntas; havia um corte fino, cauterizado, onde ela tocara a energia. Sua invulnerabilidade absoluta havia sido violada.
Teth estava de pé na frente de Dante.
Ele não parecia mais o Cavaleiro imaculado de antes. Sua armadura branca estava destruída, revelando o corpo coberto de cicatrizes de guerra e fuligem. Seus cabelos, outrora puramente platinados, agora exibiam raízes negras expostas, subindo como uma infecção aceita. E seus olhos... seus olhos eram o mapa de sua alma reconciliada: um brilhava em ouro solar, o outro era um abismo de escuridão roxa.
Em sua mão, a Lâmina da Dualidade vibrava, faminta por matéria para desintegrar. Não era gelo, nem metal. Era o equilíbrio instável e letal entre a Ordem e o Caos.
Teth olhou para Dante por cima do ombro. Um sorriso de canto, arrogante, sangrento e revigorado, curvava seus lábios.
— Vai ficar aí no chão até quando... Princesa?
Dante piscou, limpando o sangue do olho. A surpresa deu lugar a uma risada rouca e dolorida. Ele segurou a mão estendida de Teth e foi puxado para cima com força.
— Você demorou, Raspadinha. Estava retocando a maquiagem no banheiro?
— Estava limpando o lixo da família — Teth respondeu, girando a espada de energia que zumbia como um enxame de vespas furiosas. Ele se virou para Kiara. — E agora, vou ajudar a limpar o lixo do trono.
Kiara olhou para a nova arma de Teth. Seus olhos se estreitaram em análise tática fria. Ela não precisava de scan mágico para saber; aquela lâmina era perigosa. Não era algo que ela pudesse "tankar" com o corpo, mesmo com sua resistência absurda. Aquilo cortava ligações atômicas.
— Dois contra um? — Kiara estalou o pescoço para os dois lados, alongando os músculos. — Justo. Venham.
Eles avançaram juntos.
Não havia a harmonia perfeita de parceiros de longa data. Era uma sincronia torta, feia, nascida da necessidade e do ritmo caótico da batalha. Dante era o ruído; Teth era a frequência.
Dante foi o gatilho. Ele explodiu em um borrão de chamas rotativas, uma tempestade de chutes aéreos que transformou o ar em fornalha. Kiara foi forçada a fechar a guarda alta, seus antebraços defletindo as explosões de impacto como um escudo de tanque, o cheiro de ozônio e carne queimada subindo com a fricção.
Mas a ofensiva de Dante era apenas a distração barulhenta.
Na sombra criada pelo caos de fogo, Teth deslizou rente ao chão, fluido e silencioso como uma víbora. Enquanto os olhos de Kiara estavam presos na artilharia aérea, a lâmina bicolor de Teth zuniu baixo, buscando os tendões de suas pernas para uma amputação limpa.
O instinto de Kiara gritou mais alto que o raciocínio. Um arrepio elétrico subiu por sua espinha. Ela não bloqueou; ela detonou o chão sob seus pés. Com uma explosão de força nas panturrilhas, ela disparou em um salto vertical absurdo. A lâmina de Teth passou sibilando no espaço vazio, errando a sola da bota dela por milímetros — um corte que teria separado seus pés do corpo sem esforço.
Dante, ainda no ar, viu a esquiva.
— Corte Cruzado!
A cauda negra de Dante chicoteou, cravando-se na parede de um prédio próximo e comprimindo-se como uma mola industrial. Ele se lançou no rebote, convertendo-se em um torpedo vivo para interceptá-la no ápice do salto. O chute giratório dele conectou-se com o ombro dela com a força de um vagão de trem.
Kiara grunhiu, o ar saindo de seus pulmões, mas seus olhos permaneceram frios. A física dizia que ela deveria ser arremessada longe, mas ela reescreveu a equação. No breve instante do contato, a mão dela disparou e agarrou o tornozelo de Dante.
Usando a própria inércia rotativa dele como alavanca e ignorando a gravidade, ela girou o corpo no ar e o arremessou violentamente para baixo.
O alvo não era o chão. Era o aliado dele.
Dante desceu como um meteoro, colidindo diretamente contra as costas de Teth, que tentava se levantar do ataque rasteiro. Os dois se embolaram em um baque surdo de carne e armadura contra o piso.
Kiara aterrissou um segundo depois, os joelhos flexionando para absorver o impacto, e já explodiu em movimento. Ela chutou o emaranhado de corpos. Dante recebeu o impacto total no esterno e foi lançado contra a parede do fundo, seu corpo abrindo uma cratera na alvenaria e levantando uma nuvem de poeira e reboco.
Sem perder o momento, Kiara girou sobre o calcanhar, descarregando um soco de direita visando o crânio de Teth. O meio-sangue, demonstrando reflexos sobrenaturais, rolou para trás num borrão. O punho de Kiara atingiu o chão vazio. O mármore não apenas quebrou; ele foi pulverizado em areia fina pela onda de choque.
Teth aproveitou a abertura, levantando-se em um movimento fluido, a lâmina já em posição de estocada visando o coração dela. Kiara jogou o corpo para o lado num rolamento desesperado.
A espada de Teth perfurou o local onde o peito dela estava um piscar de olhos antes. Não houve som de impacto. A pedra não rachou. Simplesmente deixou de existir. Uma linha reta de vácuo fumegante foi desenhada no mármore, a matéria deletada da realidade pelo poder da lâmina, deixando apenas um abismo escuro e silencioso no chão.
— Tsk! — Kiara estalou a língua, frustrada.
Ainda no meio do movimento de recuperação, ela chutou o ar vazio na direção de Teth. Não havia contato físico, mas não importava. A pressão do vento deslocada pela pura força bruta da perna dela condensou-se em uma parede de ar comprimido. O "tiro de vento" atingiu Teth em cheio, jogando-o para trás e obrigando-o a derrapar metros para longe para recuperar o equilíbrio.
O silêncio retornou por um segundo.
Kiara levantou-se lentamente, limpando com as costas da mão um filete de sangue que escorria do nariz. O braço esquerdo pendia em um ângulo grotesco, o ombro deslocado pelo chute aéreo de Dante.
Ela nem sequer franziu a testa. Com um movimento seco e brutal do ombro contra o próprio corpo, ouviu-se um CROCK nauseante de osso reencaixando na articulação. Ela girou o braço testando o movimento, a expressão inalterada, pronta para o segundo round.
— Isso... — Dante aterrissou ao lado de Teth, ofegante, segurando as costelas. — Isso é ridículo. Ela nem está usando magia de verdade.
Ele percebeu a verdade aterrorizante. Kiara não estava conjurando feitiços complexos, nem usando as habilidades elementais dos Lordes que ela comandava. Ela estava usando o Éter apenas para uma coisa: Reforço Físico Absoluto.
A aura dela era um oceano comprimido. Ela inundava cada fibra muscular, cada osso, cada célula com tanto poder que seu corpo se tornava uma arma de destruição em massa indestrutível. Era a simplicidade da força bruta elevada ao nível divino.
— Ela é um tanque de guerra com a aerodinâmica de um caça — Teth analisou, mantendo a espada em guarda alta, o suor escorrendo. — Mas ela está evitando minha lâmina. Ela sabe que se eu acertar um órgão vital com a Dualidade, ela não regenera. O medo existe.
Kiara sorriu. O sangue em seus dentes a deixava com uma aparência selvagem, quase feliz.
— Vamos lá, não desanimem agora... — Ela riu, abrindo os braços. — Eu finalmente comecei a suar.
Ela avançou. Dessa vez, com o dobro da velocidade. O chão explodia a cada passo dela.
Ela focou em Dante, desferindo uma sequência de socos rápidos que pareciam metralhadoras. Dante defendia, recuava, usava a cauda para desviar, mas estava sendo empurrado, seus ossos gritando a cada defesa.
Teth viu a abertura. Ele tentou flanquear pela direita. Ele mirou o pescoço dela.
Kiara girou no meio do combo contra Dante. Ela não tentou parar a espada de Teth. Ela deu um passo para dentro da guarda dele, perigosamente perto da lâmina de desintegração, e usou o ombro para atingir o peito de Teth antes que ele pudesse completar o arco do corte.
BAM.
Teth voou como se tivesse sido atingido por um caminhão, o ar expulso de seus pulmões, a espada oscilando.
Mas Dante aproveitou o microssegundo de distração.
— CHRONOS BREAK!
Ele ignorou a defesa. Ele acertou um soco direto, carregado de fogo e distorção temporal, bem no centro da face dela.
CRACK.
A cabeça de Kiara virou violentamente para o lado. O som foi de pedra rachando. Ela cambaleou dois passos para trás. Cuspiu dentes e sangue preto no chão imaculado.
E então, virou o rosto de volta para ele. O nariz estava quebrado. O olho esquerdo estava inchado. Mas ela ainda estava sorrindo.
— MAIS FORTE, DANTE! — ela gritou, a voz insana vibrando com prazer. — Esses punhos leves ainda não podem mudar o mundo!
Ela contra-atacou com um chute frontal que afundou o estômago de Dante, dobrando-o ao meio e lançando-o para longe.
A batalha continuava. Eles a feriam. Cortavam sua pele, quebravam seus ossos, queimavam sua carne. Mas ela continuava se levantando, movida por uma bateria infinita de ódio e poder, forçando os dois guerreiros a dançarem no limite da exaustão enquanto ela parecia apenas estar se aquecendo.



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