The Fall of the Stars: Capítulo 6 - O Fim e o Início
- AngelDark

- 13 de mar.
- 70 min de leitura
Volume 11 : A Prisão Dourada
Parte 1
Antes da sala digital de paredes ondulantes, antes de a cidade falsa ser engolida pela neblina e antes de o universo de papel ser trancado por uma Arquiteta aos prantos, a realidade retrocedeu no tempo, caindo em queda livre para o epicentro do verdadeiro fim: a verdadeira Morpheus.
Não havia mais céu. Havia apenas uma ferida cósmica, um rasgo escancarado na própria lona da atmosfera. A Bomba Dimensional crescia como um tumor de pura energia escura e luz ofuscante, expandindo-se implacavelmente em direção à estratosfera. A gravidade ao redor da detonação havia enlouquecido; prédios inteiros, placas de asfalto e toneladas de terra eram sugados para o alto, criando uma escadaria celeste macabra de destroços que orbitavam o núcleo do apocalipse em uma espiral ascendente e silenciosa.
O ar havia se transformado em um forno radioativo insuportável. O calor daquela chama cósmica não estava apenas queimando a carne; ele desfazia as ligações moleculares. Pelas ruas estilhaçadas abaixo, as pessoas que não conseguiram escapar da onda de choque inicial não estavam morrendo — estavam sendo sumariamente deletadas. Seus corpos vaporizavam, transformando-se em poeira estelar cintilante enquanto gritavam por deuses que já não se importavam ou não podiam ouvi-las.
No Antigo campo de batalha, caídas sobre o asfalto que derretia e borbulhava como piche quente, três figuras estavam abraçadas. Elas formavam um casulo minúsculo e inútil contra a radiação divina.
Eliza abriu os olhos. O clarão da bomba a cegou por um instante. Ela estava esmagada no centro do abraço, protegida pelos braços de sua mãe, Isobel, de um lado, e por Kiara, do outro.
Kiara, a indomável Princesa de Violência, a líder mercenária fria e inabalável que havia enfrentado demônios sorrindo, estava tremendo violentamente. Não era o frio da morte que fazia o seu maxilar bater, mas sim o terror do conhecimento absoluto. Graças às memórias de Dante e Anna, que haviam vazado para sua mente, Kiara sabia a verdade indizível sobre aquela bomba.
Ela sabia que aquela não era uma morte humana. O fogo dimensional não deixava restos. Uma vez consumidos por aquelas chamas, não haveria um cadáver para Isobel chorar ou um túmulo para visitar. Não haveria alma para descer ao Inferno ou subir ao Paraíso. Não haveria reencarnação, ecos, nem poder no universo capaz de curar ou desfazer o dano.
Era a aniquilação conceitual. O apagamento cirúrgico do registro de suas existências. O vazio absoluto.
Lágrimas grossas e quentes abriam caminhos limpos no rosto manchado de fuligem de Kiara. A guerreira enterrou o rosto no ombro frágil da irmã caçula, com a armadura emocional finalmente estilhaçada.
— Me desculpa... me desculpa, Stella! — Kiara soluçou. A voz, sempre tão firme, quebrava-se em um desespero histérico e infantil. — Eu sinto muito! Me perdoa por não ter conseguido te manter a salvo! Por ter te arrastado para essa guerra maldita... por ter feito a nossa mãe sofrer tanto!
Do outro lado do casulo, Isobel apertou as duas filhas contra o peito com a força de um torno. O tecido nas costas da matriarca já começava a escurecer e soltar fumaça sob o calor letal da radiação primordial que se apresentava. Ela fechou os olhos, o rosto maduro contorcido em uma agonia física indescritível, mas a voz carregava o peso calmo e inabalável do amor incondicional.
— Não... a culpa é minha. Eu é que peço perdão a vocês, minhas filhas... — Isobel sussurrou, as lágrimas evaporando assim que tocavam seu rosto, com a voz quase abafada pelo rugido da bomba rasgando o céu. — Me perdoem por não ter sido uma mãe melhor. Por não ter conseguido manter vocês seguras. Eu amo vocês...
No centro daquele epicentro de desespero, suor e lágrimas, a respiração de Eliza simplesmente parou.
Uma dor interna, muito mais letal, primitiva e dilacerante do que o calor do fim do mundo, começou a entrar em combustão no meio de seu peito. Era um sentimento denso, asfixiante e cosmicamente incompreensível. A injustiça de tudo aquilo caiu sobre seus ombros e a esmagou.
Ela estava ali. Finalmente ali. A poucos segundos de virar poeira cósmica, mas, pela primeira vez em toda a sua miserável existência de fugas e esconderijos, ela estava sendo abraçada. O cheiro de sangue, fuligem e lágrimas era o perfume da família que ela sempre sonhou ter. Ela finalmente tinha a sua mãe e a sua irmã.
E o universo, em toda a sua crueldade fria, estava prestes a valorizá-las no nada absoluto, roubando isso dela.
A tristeza de Eliza evaporou. O medo do desconhecido foi carbonizado. O que restou no núcleo cristalino de sua alma não foi desespero, mas uma indignação silenciosa. Uma fúria fria, seguida pelo despertar de uma força, imparável e impossível.
Eliza cravou os dentes no próprio lábio inferior com tanta força que o gosto espesso e acobreado de sangue inundou sua boca.
Eu não aceito.
Ela desejou. Com todas as forças estilhaçadas de um coração humano fraturado, ela exigiu que aquilo não acontecesse. Ela implorou, do fundo de suas veias, para que a dor parasse. E, quando o desespero atingiu a massa crítica, quebrando o limite biológico... o "desejo" da colegial se transmutou em uma Ordem absoluta.
Uma pressão atmosférica esmagadora explodiu do corpo franzino da garota. O ar ao redor do abraço das três distorceu-se violentamente, criando uma redoma de vácuo cintilante.
A cor escorreu dos cabelos magenta de Eliza em um milésimo de segundo. Os fios tornaram-se de um branco mais puro e radioativo; na lateral do tórax, uma marca tribal branca apareceu, alcançando a axila. Quando ela abriu os olhos, suas íris eram azuis — um azul de intensidade tão cegante e alienígena que pareciam poços de energia primordial, estrelas anãs recém-nascidas cravadas no rosto de uma garota.
Uma onda colossal de Éter puro e denso irrompeu dela. Não era o Éter disciplinado dos Shapers. Era uma anomalia em estado bruto, lavando o asfalto derretido e colidindo frontalmente contra a radiação da Bomba Dimensional com o impacto de dois planetas.
Eliza não gritou. Ela não entoou encantamentos de proteção ou desenhou selos com as mãos. Ela apenas ergueu o rosto pálido e divino para o céu rasgado, seus olhos perfurando o núcleo pulsante da aniquilação, e ordenou:
— PARE.
O universo piscou.
E a malha da realidade dobrou os joelhos e obedeceu.
O rugido ensurdecedor da bomba silenciou-se de forma tão abrupta que o vácuo sonoro fez os ouvidos sangrarem. O fogo dimensional que avançava, a milésimos de segundo de incinerar as costas de Isobel, travou no ar. As chamas cósmicas petrificaram-se instantaneamente, congeladas como esculturas de vidro dourado e incandescente.
A escadaria celeste de destroços parou de girar. Os prédios arrancados pelas raízes, os carros arremessados e as nuvens de poeira estelar ficaram suspensos no vazio, pregados no espaço em uma estase absoluta.
O tempo, o espaço, a gravidade e a própria morte de Morpheus bateram de frente contra a parede invisível e inquebrável da Vontade da Princesa Branca, e tudo... literalmente e cosmicamente tudo... simplesmente parou.
Parte 2
O mundo havia se tornado uma grotesca pintura a óleo paralisada.
Eliza recuou um passo trôpego, ofegante. O asfalto sob suas botas parecia denso, irreal, como se caminhasse sobre argila seca. A poeira estelar e os destroços flutuavam estáticos no ar, suspensos no vazio como vaga-lumes mortos capturados em resina.
Ela olhou para baixo. Kiara e Isobel continuavam abraçadas aos seus pés, congeladas no milissegundo exato do terror absoluto. Suas lágrimas não caíam e não evaporavam pelo calor cósmico; elas simplesmente pendiam dos cílios sujos como minúsculos diamantes de vidro puro.
A Princesa Branca deu mais um passo para trás em negação, mas seus pés não tocaram o chão. Ela começou a ascender, subindo alguns centímetros acima do asfalto derretido, sem peso e sem qualquer amarra com a gravidade terrena.
O pânico ancestral a engoliu. O que eu fiz? O que está acontecendo com o meu corpo?!
Ela olhou para as próprias mãos trementes. A pele pálida irradiava um brilho suave, frio e alienígena. A jaqueta esfarrapada e as roupas civis, sujas de fuligem e sangue, começaram a se desmanchar, reconfigurando-se em tempo real. Fios de Éter puro e concentrado teciam-se ao redor de sua cintura e ombros, moldando um vestido longo, branco e etéreo, que se movia como fumaça estelar sob a água. Acima de seus cabelos de marfim, a luz condensou-se violentamente, desenhando e materializando as pontas afiadas de uma coroa celeste e intangível.
Seu poder aumentava a cada batida errática do próprio coração. As feridas abertas, as queimaduras de radiação, o cansaço celular... tudo estava sendo sumariamente apagado e reescrito por uma força monstruosa que transbordava do núcleo de sua alma, vazando para a atmosfera e empurrando a realidade.
— Eliza! Você tem que parar agora!
A voz familiar cortou a estase e a puxou da hipnose. A poucos metros de distância, flutuando entre os pedregulhos paralisados, surgiu a projeção fantasmagórica e translúcida de Anna Lighthart. O rosto da Arquiteta loira estava distorcido por um desespero absoluto e genuíno.
Eliza piscou, os olhos azuis arregalados brilhando no escuro.
— Parar? — ela repetiu. A própria voz soou como um coral sobreposto, reverberando de todos os ângulos da rua. — Parar o quê, Anna? Eu não estou fazendo nada disso! Eu não sei como desligar!
O corpo de Eliza continuava a ascender na espiral, o poder inflando descontroladamente como o núcleo de uma estrela prestes a colapsar em uma supernova.
— Você tem que silenciar o seu medo! — Anna implorou, a projeção holográfica tremeluzindo de forma instável sob a pressão da gravidade da garota. — Pare o desespero, Eliza! Se você continuar forçando essa quantidade de energia, se você não amarrar o seu instinto... isso vai piorar! Vai chegar a um ponto de ruptura em que não terá mais volta! A pressão vai esmagar a sua mente e você vai perder a sua humanidade!
A mente de Eliza era um redemoinho descontrolado. A confusão e o medo a afogavam. Ela não queria aquilo. Ela não queria a Vontade, não queria ser um deus impiedoso ou a salvação de ninguém; ela só queria ser uma garota normal, sobrevivendo com sua família desajustada.
— Eu... eu vou tentar! — ela chorou, lágrimas azuis espirrando de seus olhos. Ela os apertou com força, cruzando os braços e tentando puxar toda aquela energia de volta para dentro do próprio peito apertado. — Eu vou tentar parar!
— Tem certeza absoluta disso, filhote?
A voz arrastada, irônica e felina que ecoou nas sombras não veio de Anna.
Eliza abriu os olhos ofuscantes. Sentado graciosamente nos destroços do tribunal, o Gato de Schrödinger lambia a própria pata direita, feita de sombras densas. Os olhos amarelos do familiar quântico perfuraram a alma da garota sem qualquer cerimônia.
— Engraçado... Eu achava que o seu desejo mais profundo fosse justamente salvar todo mundo... — o gato ronronou, o som áspero ecoando de forma perturbadora no espaço congelado. — Mas, pelo visto, e a julgar pela sua covardia, o milagre não importa tanto assim.
— O que você quer dizer com isso? — Eliza exigiu, a coroa de luz pulsando dolorosamente em sua cabeça.
O gato parou de se lamber e a encarou de frente.
— Pense com lógica, Princesa. Quem você acha que acabou de salvar todos da vaporização? Quem você acha que ordenou, e forçou com as próprias unhas, que a linha do tempo e o fogo da bomba parassem? Foi você, Eliza. Ninguém mais tem esse poder aqui. Se você ouvir o choro da loirinha ali e simplesmente "parar" de irradiar essa Vontade agora... o tempo volta a correr imediatamente. A bomba destrava. A radiação avança. E todo mundo que você ama, incluindo a sua preciosa mãe e a sua irmã durona, volta a morrer.
O pânico gelado rasgou a garganta de Eliza em um grito completamente mudo. Ela olhou para a projeção desesperada de Anna, com os lábios tremendo.
— É mentira... Anna, me diz que é mentira!
Mas Anna não conseguiu falar. A Arquiteta divina desviou o olhar fantasmagórico para baixo, mordendo o lábio com força, as lágrimas brilhando em seu rosto translúcido.
Era a mais pura, matemática e cruel verdade. O poder anômalo e descontrolado da mente de Eliza era, literalmente, a única parede fina e rachada impedindo o apocalipse de engolir Morpheus.
A Princesa Branca flutuou mais alto. O desespero abandonou o formato de medo e passou a atuar como carvão puro, alimentando o reator nuclear de sua alma. As pontas de seus longos cabelos brancos começaram a se dissolver em pura energia cósmica brilhante. Ela não podia parar. Ela precisava fazer algo drástico. Precisava de mais poder para salvar todos de uma vez por todas, e não apenas congelar uma ferida que inevitavelmente sangraria de novo.
— Mas... mas deve ter outro jeito, tem que ter uma alternativa! — Anna gritou de volta, voando para tentar alcançá-la, mas a pressão a afastava. — Se você continuar cruzando essa linha... você não vai conseguir voltar sozinha! A sua alma não vai suportar!
— E o que você sugere que eu faça, Anna?! — Eliza berrou, a voz divina tremendo a estrutura de concreto dos prédios ao redor em uma cacofonia avassaladora. — Eu não posso abandoná-las! Eu me recuso a deixá-las queimar!
— E a resposta para esse dilema é tão absurdamente simples, minha pobre e assustada criança...
O som de passos descalços, macios e inabaláveis, quebrou a estase do mundo, ressoando como batidas de tambor no asfalto.
Eliza girou o corpo no ar. Caminhando casualmente entre os pedregulhos suspensos, ignorando a radiação congelada e as chamas de vidro como se caminhasse em um parque florido, intocável e majestoso diante da paralisação do tempo, estava o Rei dos Pesadelos.
Lysander parou e ergueu o rosto perfeito, liso e assustadoramente andrógino. O sorriso desenhado nos lábios dele era sereno, calmo, desprovido de qualquer pressa tática ou raiva bélica.
— Basta você fazer o que o seu coração egoísta desejar de verdade. Assim como absolutamente todos nós sempre fizemos na história deste mundo.
A simples visão do arquiteto daquele inferno materializado fez o sangue de Eliza entrar em combustão. A irritação pura, destilada e ancestral explodiu de seu núcleo. O poder dela inflou massiva e exponencialmente, desrespeitando os limites do Éter.
Seu corpo flutuante cresceu em proporções divinas e astrais. De repente, a percepção dela expandiu: Eliza se viu voando quilômetros acima do próprio tribunal destruído e sem teto. Uma giganta luminosa olhando para baixo, para as ruas e avenidas minúsculas em ruínas, enquanto a cauda de seu longo vestido de Éter cobria as nuvens negras do céu inteiro como um manto de luz.
— Tudo isso foi obra sua... — a Eliza gigante acusou, a voz retumbando como um trovão pesado nas nuvens da estratosfera. — Foi você quem começou todo esse jogo de sangue! Você causou a dor da Kiara! Você machucou a minha mãe, brincou com a mente dela e depois a fez sofrer de novo no meio desta guerra inútil! A culpa de tudo é sua!
Lysander, do tamanho de um grão de areia diante da deusa astral, não recuou um único milímetro diante de sua fúria. Ele apenas parou de andar, cruzou as mãos casualmente nas costas e olhou para o céu estrelado do rosto dela.
— É verdade — ele admitiu tranquilamente. A confissão saiu da boca do Rei como quem confessa ter tomado um copo d'água esquecido na mesa. — Eu fiz exatamente o que era necessário para alcançar e realizar os meus desejos. Eu sacrifiquei vidas, queimei reinos, menti e manipulei a história. Mas... observe bem, minha criança. Neste mundo, não existe ninguém que não faça exatamente a mesma coisa.
— Isso é uma mentira! — Eliza rebateu furiosa, as pesadas lágrimas azuis caindo de seus imensos olhos cósmicos como meteoros chovendo sobre as nuvens.
— É mesmo? Você tem tanta certeza? — Lysander sorriu com uma melancolia paternal, erguendo a mão enluvada e apontando calmamente para os corpos congelados no asfalto e, depois, para as projeções pairando ao redor. — Veja, por exemplo, a sua adorada e impecável irmã mais velha, Kiara. Ela pegou em armas, criou uma guerra sangrenta, liderou mercenários e trouxe dor, luto e morte para centenas de famílias e soldados... tudo isso apenas e puramente para alcançar o seu desejo profundamente egoísta de ter paz.
A mente colossal de Eliza sentiu a garganta travar no céu.
Lysander não parou. Ele apontou o dedo sem piedade para a projeção de Anna Lighthart.
— E a garota loira... Para cumprir o desejo pessoal dela de ajudar e proteger a sua irmã, ela permitiu passivamente que a Kiara ganhasse acesso a um corpo capaz de causar toda essa tragédia apocalíptica ao redor de vocês.
O Rei dos Pesadelos virou-se, então, com desdém para o Gato de Schrödinger, que continuava deitado com a mesma pose arrogante de sempre.
— E até mesmo a aberração quântica do gato. O famigerado fantasma acadêmico ajudou a montar tudo isso. Ele arquitetou nos bastidores sujos, distribuiu migalhas, abriu fendas... apenas para satisfazer a curiosidade científica de ver o que aconteceria.
Lysander voltou a olhar para cima, focando diretamente no imenso rosto astral e confuso de Eliza, dominando o céu.
— Então me responda com sinceridade, Eliza... quem, neste grandioso teatro manchado de sangue, não faria de tudo, não queimaria o mundo inteiro para alcançar a própria vontade? Absolutamente todos nós, sem exceção, somos monstros gananciosos movidos unicamente por desejos.
A consciência divina e fragmentada da Princesa Branca se perdeu em um turbilhão de estática.
As acusações impiedosas de Lysander cortavam como bisturis cirúrgicos, precisas e dolorosamente verdadeiras. Kiara não era uma santa imaculada da justiça. Anna, a Deusa Arquiteta, havia falhado retumbantemente e custado milhares de vidas por inação. O Gato havia sido um parasita que manipulou em segredo.
O que ela deveria fazer? Deveria usar seu poder para desejar salvar aquelas pessoas lá embaixo, mesmo sabendo que toda a tragédia foi cultivada e causada, direta e indiretamente, pelos desejos egoístas e falhos deles mesmos?
— Não ouça nenhuma palavra venenosa dele, Eliza! Ele quer te usar! — Anna gritou desesperada do chão, a voz holográfica distorcendo e falhando.
O rosto gigante de Eliza virou-se lentamente no céu para a Arquiteta. A mente colossal e recém-acordada da garota começava a colapsar sob o peso brutal e esmagador da própria lógica onipotente.
— É verdade que foram apenas os desejos egoístas que empurraram todos vocês até aqui? — Eliza perguntou do alto das nuvens, a voz retumbando triste e quebrada.
— É... é verdade... Eu... eu sei que ninguém aqui tem o direito de te julgar ou de exigir nada de você, nem mesmo eu — Anna tentava argumentar, soluçando e levantando os braços trêmulos. — Mas, mesmo que todos nós tenhamos errado, mesmo que nós tenhamos cavado a nossa própria cova até aqui... não será agindo com a mesma frieza e fazendo o mesmo que você vai consertar tudo isso! Você é melhor do que isso!
— E por que cargas d'água a coitada da menina deve carregar o fardo de ser melhor do que nós? — Cat cortou, a voz felina esmagando a súplica da Arquiteta. — Por que a Stella tem que ser aquela que toma a porrada calada e deixa de ser egoísta, abrindo mão do que quer, quando absolutamente ninguém mais na história do universo conseguiu?
O argumento cruel da garota-gato silenciou Anna, que caiu de joelhos no asfalto.
No céu estrelado, Eliza franziu a testa gigantesca, o cérebro girando em uma constatação final.
— Anna, responda uma coisa... por que vocês três estão conseguindo se mover e falar? Quando eu usei o meu Éter e ordenei que o tempo parasse de vez... por que vocês três continuam livres? — Eliza perguntou, a voz vazia, sem emoção, ecoando como uma juíza inabalável.
Anna engoliu em seco. Ela recuou um passo, a vergonha batendo forte. Lysander continuou sorrindo o sorriso dos vitoriosos.
E o Gato de Schrödinger, observando o céu quebrado com tédio felino, respondeu por eles, com a frieza cortante de uma equação matemática sem alma.
— Mas a resposta para isso é tão incrivelmente óbvia e estúpida, filhote... Nós três estamos imunes ao congelamento universal da sua ordem de parada porque as nossas vontades, o nosso desejo de alcançar nossos objetivos, ainda têm força, peso e arrogância suficientes para nos mover.
Eliza focou o olhar dolorido na Arquiteta ajoelhada.
— Isso é verdade, Anna? Isso é fisicamente verdade?
A Arquiteta não ousou olhar para cima, mas assentiu lentamente com a cabeça baixa, enquanto as lágrimas manchavam o próprio colo holográfico e translúcido.
Naquele mundo, a vontade de realizar os próprios desejos a qualquer custo superava todas as leis.
— Sim. É verdade.
A sanidade da Princesa Branca virou um turbilhão caótico e ruidoso de informações, traições e desilusões. O falso "certo" e o falso "errado" colidiram e derreteram numa massa cinzenta e disforme. Por que o monstro supremo, o Rei dos Pesadelos, estava lhe contando a verdade nua e crua? Por que a benevolente Anna, que deveria ser sua âncora, estava tremendo de medo dela e pedindo que parasse? Por que as pessoas continuavam a desejar?
Nada mais fazia qualquer sentido naquelas regras humanas quebradas.
Até que, no fundo do seu desespero latente, um estalo mudo ecoou no seu cérebro. E o mundo físico tridimensional piscou e desapareceu.
A projeção frágil de Anna, o Gato tagarela, a calma profana de Lysander, a bomba paralisada e os carros voando... tudo sumiu do campo de visão da deusa gigante.
Eliza foi arrancada da Terra e sugada violentamente para as entranhas labirínticas de sua própria mente, caindo na escuridão fundamental.
No meio do vazio absoluto e aconchegante, sem cima ou baixo, sem vento ou som, uma figura singular se materializou diante dela, a centímetros de distância.
Olhar para aquela entidade não era como olhar para uma pessoa com traços definidos. Não era como enxergar uma aura mágica. Era fisicamente indescritível: parecia o ato violento de olhar para a totalidade assustadora e matemática do cosmos, das galáxias girando e, simultaneamente, para a borda escura, gélida e puramente vazia do Nada.
Aquilo na frente da garota assustada era a representação física, esmagadora e mentalmente insuportável do puro e mais completo Infinito.
A voz da entidade não produziu som. Ela não entrou por seus ouvidos. A vibração maciça invadiu e tremeu diretamente os ossos astrais e o núcleo frágil de Eliza, carregando o peso ancestral e exausto de éons mortos.
"O errado e o certo são ficções confortáveis. Não importam. São noções literárias minúsculas, pequenas gaiolas comportamentais criadas por seres efêmeros que não passam de poeira cósmica biológica, tentando desesperadamente e em vão justificar a própria irrelevância e medo diante do universo escuro."
A entidade cósmica e sem forma aproximou-se, deslizando sem mover pernas. Ela envolveu a garota trêmula em uma aura gélida de pressão absoluta e primordial. O frio era tanto que queimava.
"Mas você... você é intrinsecamente diferente, minha criança. A filha do Pecado é diferente da massa. Você nunca será vasta e absoluta como o Infinito... mas você também nunca será pequena e patética como a poeira." A voz pesava como o martelo de um deus batendo em uma bigorna divina, reverberando no crânio da garota de cabelos brancos.
"E mesmo após ter provado tanto do gosto azedo do pecado, mesmo após ter sangrado e pago tão caro pela audácia de ser arrogante em suas vidas passadas, você, presa no instinto carnal, continua a se alimentar dessa arrogância mundana. E é por continuar bebendo desse copo raso que adoece mais a cada reencarnação. Que você quebra e despedaça mais o seu coração mortal a cada ciclo... apenas para cometer os mesmos erros e repetir tudo de novo como uma máquina quebrada."
A figura incompreensível esticou um tentáculo de sombra brilhante e tocou suavemente a testa luminosa e suada de Eliza. O contato físico não tinha textura; era apenas gélido e paralisante como o vácuo insondável do espaço profundo.
"Sendo você quem é na sua essência... por que se ressente agora com falsos moralismos de 'certo e errado'? Por que reprime a sua vontade genuína para agir feito uma mártir bondosa de livro barato?" A pressão aumentou ao redor de Eliza, exigindo uma rendição total. "Continue. Prossiga sem medo. Continue desejando de forma vil, até a borda intransponível do infinito. Repita o seu egoísmo. Repita. Repita de novo e de novo, até a sua alma não aguentar mais e não conseguir sustentar o próprio ego. E depois continue em direção ao inalcançável infinito."
A voz andrógina e onipresente afundou na alma estilhaçada dela, cravando-se como um veredito absoluto e irrevogável de um tribunal além do céu.
"Este, e somente este, é o destino trágico e inevitável de tudo aquilo que ousa tentar imitar falsamente o infinito."
As palavras crípticas agiram como um veneno rápido ou como uma chave-mestra perfeitamente oleada, destrancando o último cadeado, o selo biológico final imposto por sua forma mortal.
Eliza, suspensa no vácuo da própria alma, de repente... não piscou. Ela simplesmente parou de lutar e entendeu.
Ela entendeu absolutamente tudo.
A peça final conectou a engrenagem-mestra. O silêncio sepulcral reinou na escuridão por um batimento cardíaco, e a clareza cortante, fria e sem moralismo a atingiu de vez, rachando a garotinha medrosa e forjando a deusa em um raio brutal.
Flashes alucinatórios em câmera rápida rasgaram a sua consciência dormente, varrendo os bloqueios de Morpheus.
Uma Eliza criança, faminta, chorando e vagando perdida por um castelo escuro, frio e abandonado, tropeçando nas bainhas sujas das próprias vestes nobres, imersa em uma solidão que derretia os ossos.
A mesma Eliza, com o rosto um pouco mais velho e machucado, correndo e andando de mãos dadas com Kiara pelos becos, sorrindo e achando graça sob a luz amarela e fraca dos postes de rua quebrados.
E, então... o terror desgovernado. Caindo de cabeça no desespero mais abissal, sangrando em poças pelo asfalto, gritando de agonia, sendo cortada e morrendo repetidas vezes de forma visceral e grotesca... e recomeçando os batimentos de forma artificial de novo, de novo e de novo. O ciclo programado, impiedoso e sem fim de tragédias e reinícios infinitos. Nascendo para morrer. De novo e de novo.
Mas... no olho desse furacão de dor e mentiras, a nova e expansiva mente de Eliza não focou nas mortes. Ela focou apenas nas palavras sarcásticas, incrivelmente estúpidas e dolorosamente diretas que havia escutado da boca de Dante.
O Caçador caótico de olhos bicolores, o forasteiro humano, havia cuspido sua filosofia egoísta e brutal:
— Sim, eles são Pesadelos. Mas eu não fiz o que fiz porque eles são de Gehenna. Eu tenho amigos entre os Sonhos também. E eu socaria qualquer um de vocês, qualquer nobre, qualquer deus ou qualquer Rei, se ousassem tocar neles. Eu não ligo para a raça, para a origem ou para a cor da alma. Sonho ou Pesadelo... para mim, não faz a menor diferença.
A simplicidade egoísta e maravilhosamente humana do raciocínio barato e sobrevivencialista de Dante serviu como o estopim final. O pavio perfeito para a detonação da sua Vontade Divina incontrolável.
Eliza abriu os olhos no vácuo. Eles não tinham mais a doçura e a ingenuidade do magenta adolescente; eles brilhavam com a fúria fria, irrefreável e celestial do branco puro e insensível.
Ele tinha razão. Ela também não se importava. Ela não dava a mínima. Não importava para ela quem estava moralmente "certo" nos livros de história e quem estava eticamente "errado". Não importava se o Rei Lysander era um tirano, ou se Anna havia errado na covardia das suas apostas cegas e custado milhares de vidas inocentes.
Tudo o que Eliza desejava com os nervos de sua alma... a sua única e inquestionável verdade universal cravada no centro de gravidade do cosmos... era o desejo profano, egoísta e avassalador de salvar quem era importante apenas para ela. Salvar o minúsculo castelo de cartas que ela amava. O resto do mundo poderia sumir do universo, que não faria diferença.
A entidade cósmica e incompreensível no escuro soltou uma gargalhada gélida que não era humana e abriu um sorriso largo e impossível no escuro denso, sentindo o contrato ser selado.
"Essa é a sua verdade final? Aceita isso mesmo sabendo do peso? Aceita puxar esse gatilho, mesmo que o alto preço imposto pelo seu desejo cego e egoísta seja pagar pela energia com a sua própria, pura e cristalina alma mortal?"
Eliza não vacilou diante do deus esquecido. Ela não piscou para o horror cósmico. Ela simplesmente ergueu o queixo de marfim com o orgulho inabalável de uma monarca coroada, e a coroa celeste flutuando acima de seus cabelos começou a arder e brilhar com a força termonuclear absurda de mil sóis detonando simultaneamente.
— Mesmo que eu queime nos infernos... e mesmo que eu morra para sempre e pague a conta amanhã — Eliza sentenciou, a voz não mais estrangulada, mas sim cortante, fria e absolutamente firme.
A figura amorfa do infinito recuou lentamente, fundindo-se novamente à escuridão da mente dela. A voz insuportável e primordial soou pela última vez, vibrando nas paredes do crânio cósmico dela como um eco fúnebre, a batida do martelo que selava o contrato final e proferia o julgamento eterno.
"Que a conta do milagre seja cobrada, então... Pois o seu preço, criança cega... não será a morte... será justamente o castigo amargo de nunca, jamais, pelo resto dos ciclos universais, ter verdadeiramente um fim... por mais que, com o passar dos séculos, a sua pobre alma mortal apodreça e apodreça incessantemente na eternidade silenciosa, sofrendo eternamente pelos mesmos motivos infantis até o fim do cosmos e além dele."
Eliza abriu a boca para responder, mas as palavras não saíram. Com uma violência de arrebentar as tripas, a sua mente foi arremessada — como um estilingue puxado ao limite — de volta para o próprio corpo gigantesco pairando na estratosfera.
De volta à realidade estagnada. Ao mundo congelado onde a destruição apocalíptica da bomba aguardava.
Do lado de fora, no céu paralisado e cinzento, manchado de escombros voadores, a forma translúcida de Anna Lighthart não era nada além de uma mosca inútil chorando em desespero e agonia. Ela flutuava gritando, as mãos calejadas estendidas inutilmente para a deusa gigantesca em que sua amiga — a garota de cabelos magenta corrompida — havia se tornado.
— Não! Não! Para, Stella! Por favor, para, não faz isso! O peso vai ser grande demais para você suportar sozinha! — A voz fantasmagórica da pequena garota falhava e pipocava em prantos.
Mas a nova e recém-forjada Eliza não conseguia ouvir e, se o fizesse, não recuaria. Seu coração gigante estava oco para os gritos desesperados de Anna. Ela estava cega pela obsessão recém-descoberta.
Os olhos azuis, outrora meigos e confusos, agora brilhavam frios e indiferentes, com intensidade luminosa máxima, fitando o núcleo negro, alaranjado e pulsante da Bomba Dimensional que havia sido paralisada no meio da detonação no ar estagnado da Terra.
A garota titânica, trajando seu vestido estelar de Éter majestoso e banhada pela coroa celeste, abriu um sorriso final e definitivo. Era um sorriso absurdamente gentil, materno, infinitamente doloroso em sua melancolia cínica e que, de forma aterrorizante, selava de uma vez por todas o seu próprio destino.
Não havia mais volta para as sombras da vida normal.
Ela ergueu a mão colossal, pesada, majestosa e lenta no espaço sideral. Seus dedos brilhavam com um Éter anômalo, tão denso, monstruoso e concentrado que a sua simples movimentação rotineira rasgava as partículas do espaço, derretia a pouca gravidade de Morpheus ao redor de sua coroa impenetrável e arrastava a crosta da Cidade de Cristal inteira de forma oblíqua e irracional com seu magnetismo de poder cego.
O silêncio do apocalipse, da dor calada, do sangue invisível nas pedras cinzentas foi absoluto por um milésimo e meio.
E a mão celestial, impiedosa e focada de Eliza cruzou a própria frente, juntando o dedo polegar e o médio. Ela estalou os dedos colossais e cheios de poder distorcido, executando a mágica profana da bruxaria extrema.
CLACK.
Um som seco e absurdamente agudo. A realidade, as camadas atmosféricas, as noções de espaço geográfico e a linearidade de toda a física tridimensional no jardim da memória não apenas racharam; não, a reação e a mágica transmutadora de Eliza operaram em uma lógica que não devia existir. Elas foram, sem a mínima chance de defesa cósmica, trituradas como folhas no vento; colapsaram implacavelmente, ruíram feito castelos de poeira e foram agressiva, completa e subitamente reescritas nas suas fundações biológicas e físicas em um único instante.
A gigantesca Bomba Dimensional, rasgando o tecido da realidade nos céus e estagnada feito lixo estelar entre os escombros como pó brilhante... não foi extinta e muito menos magicamente apagada das páginas. Não mesmo; aquilo seria inútil e sem força, pois a bomba era massiva demais. Ela, pelas leis impostas pelas mãos brilhantes e colossais, corrompidas de sua nova deusa celestial, foi violentamente retorcida e forçada a entrar em choque absoluto, a colapsar e a recomeçar sua existência por um prisma sem fim.
Em vez de o fogo pesado e apocalíptico das feridas divinas voltar à vida tridimensional na cidade, voltar a correr pelo relógio e terminar de explodir, o gigantesco núcleo radioativo — puro e apavorante dessa massiva detonação espacial, cheio de raiva enclausurada e ódio — foi estilhaçado no meio da calmaria letal que pairava no congelamento do relógio travado: ele simplesmente implodiu e virou cirurgicamente do avesso pela própria garganta.
Um monstruoso e ensurdecedor pilar maciço, liso e indestrutível de luxuriante e espessa luz dourada rasgou a fenda do céu poluído e sem nuvens, de baixo para cima. Obscenas raízes, repletas e tricotadas de puro e espesso Éter dourado — raízes maciças e tão anormalmente gigantescas como múltiplos prédios residenciais se enroscando em cipós dourados — emergiram materializadas e escancaradas do nada ruidoso. Surgiram fisicamente sólidas pelas rachaduras elétricas das nuvens invisíveis criadas dentro do ar frio e congelado ao redor das figuras paradas, esmagando a rocha no que sobrou do asfalto derretido com o magma azul do mundo.
Enquanto isso, no topo irreal de sua coroa luminosa impenetrável, subindo pelas fumaças da falsa morte, os pesados galhos cintilantes — vivos de pura magia deslumbrante e de intensa luz, cravando-se como lanças quentes nas correntes das estrelas — estendiam-se e abriam copas enormes. Com garras abertas, sedentas, estourando e sugando a vida, as folhas espaciais avançavam pelo meio e para dentro das camadas insondáveis da altíssima estratosfera negra, com a arrogância violenta do deus insano dos milagres sujos.
A terrível explosão da radiação do calmo fim e o silêncio absoluto do mundo dos homens, aquela forja apocalíptica da destruição... transformou-se na magia irracional do amor humano da deusa caída nos pecados mortais. Assim, a bomba de Morpheus, transmutada para sempre em uma viva, colossalmente assustadora, grotesca e majestosa Árvore Dourada, vive em puro poder celestial, rasgando a imensidão cega.
Parte 3
A luz majestosa e infinita da Árvore Dourada lavou as ruínas da Cidade de Cristal. Onde, há milésimos de segundo, ardia o fogo obliterador de uma Bomba Dimensional, agora erguia-se um pilar colossal de pura energia vital. Suas raízes abraçavam a crosta derretida da Terra, e seus galhos de Éter cintilante estendiam-se para o alto, perfurando a estratosfera como garras de luz.
Mas um milagre cósmico dessa magnitude cobra seu pedágio de forma imediata e impiedosa.
O simples peso daquela alteração drástica na malha da realidade esmagou a frágil consciência dos mortais presentes. Nos arredores da cratera, Isobel, Kiara e todos aqueles que haviam sido salvos da estase desabaram no asfalto simultaneamente, como marionetes com os fios cortados. Eles afundaram em um estado de coma instantâneo e profundo; a sobrecarga de assistir ao nascimento do infinito forçou a biologia humana a se desligar para proteger os próprios cérebros da loucura absoluta.
Flutuando no ar rarefeito, a projeção fantasmagórica de Anna Lighthart caiu de joelhos. As lágrimas da Arquiteta rolavam incessantemente por seu rosto translúcido, evaporando em partículas de luz antes de tocarem o chão.
Ela havia falhado. O sacrifício supremo fora consumado, e Eliza — a garota assustada que só queria uma família — agora estava presa em um destino existencial pior e muito mais longo do que a própria aniquilação.
No meio daquele cemitério silencioso de consciências, banhadas sob a luz de uma salvação profana, apenas duas figuras permaneciam de pé e perfeitamente lúcidas.
Cat Schrödinger deu um passo trêmulo à frente. O capuz largo do moletom escorregou para trás, revelando seus cabelos desgrenhados. Os olhos verticais da garota-gato estavam escancarados em um misto perigoso de terror abissal e puro deslumbramento científico. A cauda de sombras atrás dela estava completamente eriçada.
— Eu finalmente vi com os meus próprios olhos... — Cat sussurrou. A voz arrastada tremia, reverenciando a matemática do impossível. — O nascimento de algo total e categoricamente novo. A primeira e única Cria do Astreus do Infinito... finalmente nasceu.
A poucos metros de distância, o Rei dos Pesadelos sorria.
Lysander caminhava a passos lentos, ritmados e perfeitamente medidos por entre os corpos caídos. A elegância sádica de sua postura permanecia inabalada, intocada diante do apocalipse transmutado.
— Acalme-se, pequena gata quântica — ele murmurou. A voz aveludada, grave e calmante ecoou pela praça banhada em ouro. — Guarde a sua reverência. Ainda temos muitas outras surpresas maravilhosas nos aguardando no ato final deste espetáculo.
Ele continuou sua marcha letal, os sapatos imaculados desviando dos escombros, caminhando diretamente em direção ao tronco pulsante da Árvore Dourada.
Anna ergueu o rosto molhado. O luto foi sumariamente incinerado, dando lugar a um ódio puro, cego e flamejante. Ela usou o ar como impulso e atirou-se contra ele.
— SEU DESGRAÇADO!
Anna tentou agarrar o colarinho impecável de Lysander. Ela tentou socá-lo. Tentou afundar as unhas de luz e despedaçar o rosto andrógino e sorridente do Rei.
Mas ela era apenas um eco. Um fantasma feito de pura vontade.
Suas mãos cerradas atravessaram o corpo físico e denso de Lysander como se fossem feitas de neblina inofensiva. Ela tropeçou no próprio impulso holográfico, inútil. Lysander sequer diminuiu o passo ou piscou, simplesmente caminhando através do fantasma enfurecido de Anna como quem atravessa uma brisa matinal.
— Você fez isso de propósito! — Anna berrou, girando nos calcanhares, a voz se distorcendo em pura agonia enquanto o seguia de perto. — Você orquestrou tudo isso desde o começo! Você usou os traumas da Eliza! Você usou a dor da Kiara! Você não passa de um parasita!
Lysander parou. Ele estava a parcos metros da casca celestial da Árvore.
Lentamente, ele virou o rosto de perfil e abriu um sorriso letárgico, tingido por uma pena melancólica e cruelmente teatral.
— É uma verdadeira lástima — o Rei dos Pesadelos suspirou, lançando um olhar de relance para os corpos desmaiados de Kiara e Isobel no asfalto e para Eliza no céu. — Finalmente havia chegado a hora em que eu poderia agradecer a elas pessoalmente por tudo o que fizeram. Por cada passo dado. Por todos os erros patéticos e por todos os acertos brilhantes. Por todos os sentimentos intensos que dedicaram exclusivamente a mim nesta jornada...
Ele balançou a cabeça, um falso e poético luto dançando em seus olhos escuros.
— Mas veja só a ironia... logo agora, quando chega o momento clímax de elogiá-las por interpretarem seus papéis no meu tabuleiro... elas não estão realmente aqui, acordadas, para ouvir os aplausos. O destino, minha cara Anna... o destino tem um senso de humor bem cruel.
— CALA A BOCA! — Anna gritou, a silhueta dourada piscando violentamente, a fúria acumulada ameaçando desestabilizar seu holograma. — Não venha jogar a culpa dos seus massacres no "Destino"! Mesmo que o destino realmente já esteja escrito nas estrelas, são as escolhas e as ações de cada indivíduo que definem o caminho trilhado! Apenas uma vontade forte pode forçar algo a acontecer. Então pare de se esconder atrás de palavras bonitas e de profecias baratas!
Lysander soltou uma risada baixa. Um som polido, metálico e desprovido de qualquer gota de calor ou empatia. Ele se virou de frente para Anna, os olhos brilhando com a arrogância insuportável de quem segura as cordas que amarram o universo.
— Me esconder, minha cara? — Lysander zombou, o sorriso se alargando e testando os limites da própria insanidade contida. — Você entendeu a metáfora de forma muito infantil, pequena divindade. Eu não estou jogando a responsabilidade nas costas do destino. Afinal... fui eu quem construiu os trilhos para que o trem do Destino passasse.
Sem esperar por outra resposta inútil, Lysander deu as costas ao holograma, caminhou até a Árvore Dourada e espalmou a mão direita, nua e pálida, contra a casca colossal de Éter puro.
No exato milissegundo em que sua pele tocou a madeira sagrada, a reação foi violenta.
Um pulso de luz doentia se espalhou. Um brilho azul-escuro, elétrico e necrosado começou a injetar-se nas veias douradas e imaculadas da árvore. A contaminação desceu pelo tronco como um veneno rápido, varrendo as raízes mais profundas que cravavam a Terra, até alcançar o núcleo oculto do reino onírico, onde aquelas mesmas raízes se entrelaçavam com o centro de gravidade de toda a criação de Morpheus.
A Árvore reagiu ao comando profano. Os galhos celestes no céu se abriram em um gemido estrutural ensurdecedor que sacudiu a terra sob os pés deles.
No centro do tronco colossal, na altura do peito de Lysander, a madeira de Éter simplesmente rasgou-se. Não foi um desabrochar poético de uma flor; foi a abertura de uma grande, úmida e grotesca ferida cósmica.
De dentro do coração exposto da Árvore, emergindo da seiva fervente de pura energia criadora, um objeto começou a flutuar para fora.
Era um Livro.
Brilhante, pesado, sagrado. Ele pulsava com uma aura de energia tão absurdamente intensa e densa que a própria gravidade ao redor dele parecia ceder e distorcer o ar. A encadernação era de um couro escuro como o vácuo, selado por fechos metálicos antigos que exalavam o cheiro e o poder absoluto do início da criação.
Girando em órbita ao redor do Livro, havia oito selos. Oito signets. Oito marcas rúnicas e tribais feitas de luz pura, cada uma ostentando um formato diferente, representando e contendo conceitos fundamentais da fundação da existência. Símbolos de poder absoluto que apenas a garota fantasma de cabelos amarelos conseguia ler e entender em sua totalidade.
Cat Schrödinger, que assistia a tudo encolhida nas sombras com o queixo caído, deu um passo trêmulo para a frente. O instinto acadêmico suicida mais uma vez superou o instinto de preservação.
— Esse... esse é o núcleo de Morpheus... — a pesquisadora murmurou, os olhos verticais não conseguindo piscar diante da grandiosidade matemática do artefato. — A fonte de todo este mundo. A âncora dimensional que foi criada pela fusão da Autoridade de cinco Astreus.
Lysander ergueu o braço graciosamente, com a palma voltada para cima, aguardando que o livro descesse até ele. Ele olhou para Cat apenas pelo canto do olho. O sorriso do Rei agora transbordava a prepotência de uma vitória cultivada por ciclos sem fim.
— Errado, minha curiosa e intrometida gata — a voz do Rei cortou o ar como o som de uma lâmina sendo afiada. — Neste exato momento, este núcleo não é mais composto pelo poder de cinco... Ele está composto, compactado e enjaulado pelo poder de oito.
Anna paralisou por completo. A respiração dela falhou.
O horror não vinha apenas da quantidade absurda. O horror absoluto era a percepção de Anna: Lysander não tinha a capacidade de ler o código dos símbolos flutuantes... mas, de alguma forma aterrorizante e impossível, ele sabia o significado e a extensão deles.
A escala do poder enjaulado nas páginas daquele artefato acabara de transcender qualquer lenda, qualquer arma do apocalipse, qualquer capacidade de resistência física e mágica possível. Aquilo não era mais apenas o "coração de um mundo". Era a arma bélica e conceitual mais devastadora já concebida e montada na história do universo.
O Livro Sagrado desceu lentamente, levitando até pousar com um baque surdo, denso e definitivo sobre a palma estendida de Lysander.
O Rei dos Pesadelos fechou os dedos pálidos ao redor da capa de couro escuro. Seus olhos negros refletiram o brilho insano e irrevogável da conquista absoluta.
— Finalmente... — Lysander sussurrou, a voz acariciando a capa do tomo com uma reverência doentia e passional. — O grande dia finalmente… chegou.
Parte 4
O ar ao redor da colossal Árvore Dourada parecia ter se transmutado em gelo e chumbo.
Nas sombras, Cat Schrödinger arregalou as pupilas verticais. O coração da pesquisadora batia tão rápido e com tanta violência contra as costelas que ameaçava fraturá-las. A ansiedade crua a devorava. O intelecto quântico dela gritava que aquilo era o fim absoluto — o núcleo da criação caindo nas mãos de um tirano. Mas a cientista sádica dentro de sua mente estava paralisada por um fascínio aterrador. Ela queria ver. Ela precisava ver o que aconteceria quando a entropia total do universo fosse destrancada por ele.
Lysander ergueu a mão, a pele pálida banhada pelo dourado da Árvore. O Livro Sagrado — o núcleo de Morpheus, agora pesado e envenenado pela densidade incalculável de oito Astreus — levitou a poucos centímetros de sua palma aberta. Com um movimento lento, letárgico e cerimonial, o Rei dos Pesadelos moveu os dedos longos para abrir a capa de couro escuro e reivindicar a divindade.
Mas ele cometeu um único e fatal erro de cálculo matemático: subestimou o peso estúpido e irracional do amor humano.
— NÃO!
A projeção fantasmagórica de Anna não recuou. Ignorando a própria falta de matéria física, a Arquiteta atirou-se com uma fúria desesperada, cega e suicida contra o Rei. As mãos puramente feitas de luz de Anna avançaram e agarraram o couro escuro e denso do Livro, puxando o artefato com toda a força residual de sua alma contra o próprio peito translúcido.
O contato entre um holograma e a singularidade cósmica foi instantâneo e devastador.
Um chiado ensurdecedor de carne conceitual fritando ecoou pela praça derretida. O corpo, a mente e a alma de Anna começaram a queimar vivos. A energia bruta de oito deuses concentrada naquele tomo repeliu o toque fantasmagórico com uma violência magnética, desintegrando as bordas dos braços dela e transformando sua essência em fumaça de fótons.
Lysander não soltou o livro. Ele não precisava. Apenas olhou para a garota loira queimando viva, definhando a centímetros de seu rosto. A expressão andrógina do Rei transbordava uma pena fria, metódica e insuportavelmente condescendente.
— Pobre e teimoso fantasma... — Lysander suspirou, a voz macia como veludo negro. — Por que passar por toda essa agonia, tentando forçar algo impossível? Você já não tem mais um corpo físico denso o suficiente para suportar a carga desse núcleo. O seu sacrifício será cruel e completamente inútil. Então... apenas solte. Desista, evapore em paz e observe.
As lágrimas de Anna flutuaram de seu rosto distorcido pela dor. Elas desafiaram a gravidade, transformando-se em gotas de luz azul cintilante enquanto subiam para o céu noturno. A dor de ter a própria existência lixada e apagada do universo era excruciante, mas a Arquiteta não afrouxou os dedos um milímetro sequer.
Em vez de recuar, ela forçou a própria existência a colidir contra as leis fundamentais do universo.
Anna ergueu o rosto banhado em luz e agonia pura, cravando os olhos azuis nos do Rei. O choro deu lugar a um rosnado feroz e animalesco.
— Quando você começa a falar em "possível" e "impossível" numa guerra contra mim... você já perdeu, seu pirralho arrogante!
O Rei dos Pesadelos piscou. A surpresa, uma falha genuína e raríssima, finalmente trincou a sua máscara inabalável de porcelana.
— Porque, no abismo que existe entre o possível e o impossível... — Anna gritou a plenos pulmões. A voz dela reverberou como um sino celestial, um eco vibrando diretamente na alma de cada ser vivo, morto ou paralisado naquele campo de batalha. — Sempre existe a Possibilidade!
Ela aqueceu a própria Vontade. O núcleo de sua alma entrou em combustão absoluta. E ela puxou seu poder, sua autoridade, mais uma vez.
No chão de asfalto derretido, a dezenas de metros dali, uma reação em cadeia bizarra e brilhante aconteceu. O braço direito do corpo desmaiado de Dante, começou a brilhar com uma luz furiosa. Simultaneamente, as costas da inconsciente Kiara irradiaram o mesmo clarão incandescente.
Cat Schrödinger recuou um passo rápido, protegendo os olhos com o braço. Através da cortina de luz, a garota-gato apertou os olhos e conseguiu ver.
— Aquilo é... — Cat murmurou. A mente brilhante dela entrou em curto-circuito ao reconhecer a geometria do milagre.
Na carne dos dois Caçadores caídos, um brasão divino idêntico havia acabado de brilhar como ferro em brasa. E aqueles brasões, aqueles selos... eram cópias exatas de um dos oito signets que giravam em órbita ao redor do Livro nas mãos do Rei.
— Eu não vou deixar você vencer! — Anna berrou, a voz sobrepondo-se ao ruído ensurdecedor do cosmos rasgando.
O corpo de luz da garota estava quase sumindo, virando pura estática, mas a força gravitacional bruta que ela extraiu usando Dante e Kiara como baterias humanas foi colossal.
— Não importa que eu queime até o último átomo! Não importa que eu tenha que voltar para a escuridão vazia dos meus dias de observadora! Eu não vou deixar você fazer qualquer um deles sofrer mais um segundo!
Com um grito de guerra que rasgou a costura do espaço-tempo, Anna não apenas puxou. Ela usou o próprio corpo como um aríete e empurrou o Livro Sagrado diretamente contra o peito de Lysander.
A força cinética gerada por uma Vontade pura, ancorada e inquebrável, colidiu de frente com a física tridimensional. O impossível aconteceu: o Rei dos Pesadelos foi fisicamente ejetado para trás.
Lysander voou pelos ares, os pés perdendo contato com o chão. O choque mais absoluto e incrédulo estampara-se em seu rosto enquanto ele era arremessado brutalmente para longe da Árvore e do núcleo de Morpheus.
Anna não caiu. O sacrifício havia cobrado seu preço, mas a Autoridade a havia reconhecido.
Ela abraçou o Livro Sagrado contra o peito vazio, e seu corpo de luz explodiu em expansão. Ela começou a levitar, voando majestosa acima das chamas de vidro e dos destroços congelados. Seus olhos brilhavam com a intensidade esmagadora de galáxias inteiras morrendo e nascendo. Ao redor de suas costas, rompendo o véu da realidade, os oito selos monumentais migraram para ela, girando em um halo perfeito, ruidoso e harmonioso.
A nova Arquiteta olhou para baixo, para os corpos esgotados de Kiara e Dante que lhe deram força. E, então, ergueu o rosto radiante para o alto da Árvore Dourada, na direção do céu distante onde Eliza, a deusa colossal, jazia estagnada.
— Eu não vou ver ninguém mais sofrer neste tabuleiro... — Anna sussurrou. A promessa carregava uma tristeza infinita, mas era inquebrável, feita de diamante. — Nem você, Eliza. Eu vou construir uma gaiola onde a dor não entra.
O calor no peito de Anna brilhou com a força final de uma supernova. Ela abriu o Livro das Leis, e um clarão branco e faminto expandiu-se, engolindo Lysander no ar, a garota-gato nas sombras, a Árvore Dourada, a cidade em ruínas e a totalidade do universo em colapso.
A luz devorou absolutamente tudo.
SNAP.
O frio sujo da neblina bateu como um tapa contra o rosto de Eliza.
O som agudo do próprio choro engasgado invadiu seus ouvidos com violência. O cheiro de ozônio celestial e seiva de Éter sumiu no mesmo milissegundo, substituído bruscamente pelo odor podre, rústico e úmido de asfalto estragado, pólvora e caçambas de lixo.
A transição psíquica da memória para a realidade foi tão violenta, um choque de chicote na mente, que Eliza caiu para a frente. Ela apoiou as duas mãos trêmulas e suadas no chão áspero e molhado, arfando como se tivesse acabado de emergir de um afogamento profundo.
Eles estavam de volta. De volta ao presente doloroso. De volta à ilusão perfeita. De volta ao Universo de Papel da falsa Morpheus, criado e trancado às pressas pela Arquiteta aterrorizada logo após aquele flash de luz engolir o mundo verdadeiro.
Eliza estava caída de joelhos no terreno baldio enevoado. A cidade morta a rodeava.
De um lado, a mão grande e quente de Dante segurava o seu ombro com firmeza. A expressão sombria, ferida e genuinamente preocupada do Caçador estava fixada nela. Do outro lado, Kiara segurava a sua outra mão com uma força desesperada, o olho cravado na irmã mais nova com um instinto de proteção animalesco. Mais atrás, quase camuflada pela neblina e encostada no batente enferrujado da porta de latão, Cat Schrödinger observava o colapso do grupo em um silêncio indecifrável.
E bem à frente de Eliza, a poucos metros de distância, pairando sobre o asfalto enevoado como um espectro divino de cabelos loiros e olhar triste, estava a dona daquela prisão. A Arquiteta absoluta do mundo trancado: Anna Lighthart.
O peito de Eliza subia e descia descontroladamente. A dor de cabeça havia sumido, deixada para trás na memória. As peças finalmente haviam se encaixado com um som de guilhotina. O mosaico monumental daquele inferno estava completo.
Eliza olhou para as próprias mãos trêmulas no asfalto. Eram as mesmas mãos que, em um passado distante, na forma astral de uma Cria corrompida do Infinito, estalaram os dedos e transformaram a morte de uma bomba na vida aprisionadora de uma árvore gigantesca para salvar as pessoas que amava.
Ela se lembrou da manipulação filosófica de Lysander. Lembrou-se dos esquemas cínicos do Gato de Schrödinger. E, de forma esmagadora, lembrou-se do sacrifício indescritível que Anna havia feito no último milésimo de segundo disponível: queimando a própria existência humana para roubar o núcleo de poder das mãos do Rei dos Pesadelos e trancar todos eles dentro daquela ilusão geométrica e dimensional. Um livro seguro, onde o Rei ficaria preso e a morte verdadeira do mundo exterior não poderia mais alcançá-los.
Ela entendeu por que Anna limpou a mente de todos. Era para que não sofressem com o peso do apocalipse.
O quebra-cabeça do fim do mundo estava, enfim, solucionado.
Parte 5
O estalo foi ensurdecedor. Soou como se a abóbada do céu fosse feita de cristal puro e um deus irado tivesse acabado de arremessar uma pedra contra ela.
Assim que a clareza tomou a mente de Eliza e o mosaico cruel do apocalipse se completou, a realidade do terreno baldio começou a se fragmentar. Fissuras irregulares de luz rasgaram o asfalto. O ar trincou em teias de aranha cintilantes, como se o universo inteiro não passasse de um espelho quebrado refletindo uma mentira perfeita.
— O que está acontecendo?! — Dante gritou. Ele precisou afastar as pernas e firmar as botas no chão, que tremia e se desfazia em cacos de vidro holográfico e poeira estelar.
Kiara olhou ao redor, o pânico tomando conta de sua postura estratégica enquanto os prédios da falsa Morpheus começavam a derreter ao fundo como cera quente. — A cidade inteira está colapsando!
No centro das rachaduras, Eliza continuava caída de joelhos. As lágrimas escorriam soltas e quentes pelo seu rosto pálido.
— É culpa minha... — ela soluçou, a voz engasgada e esmagada pela culpa. — Foi porque eu lembrei. Eu fiz tudo isso de novo... por causa dos meus desejos egoístas. Eu coloquei tudo a perder! A Anna fez isso para proteger a gente, e eu destruí o mundo dela!
— Está tudo bem.
A voz doce, serena e etérea flutuou por cima do barulho ensurdecedor da destruição.
Da neblina que se dissipava rapidamente, a projeção de Anna Lighthart deu um passo à frente. Os cabelos loiros ondulavam em uma brisa que não existia naquele mundo. Ela olhava para os três. Uma lágrima solitária e brilhante escorria por sua bochecha translúcida, mas os lábios sustentavam um sorriso de uma paz resignada, quase divina.
Eliza se levantou em um solavanco, enxugando o rosto histericamente com as mangas da jaqueta. — Como está tudo bem?! Anna, você sacrificou tudo o que tinha para construir esse paraíso para a gente! E eu o quebrei de dentro para fora!
Anna continuou sorrindo. O choro silencioso dela contrastava de forma bizarra e dolorosa com a tranquilidade absoluta de sua postura.
Dante e Kiara sentiram um frio esquisito, muito profundo, perfurar o tutano de seus ossos. Um calafrio que não vinha da queda de temperatura do cenário, mas de um instinto de perda brutal que aqueles dois guerreiros conheciam muito bem. O Caçador deu um passo na direção da garota loira.
— O que você está escondendo, Anna? — Dante exigiu. A voz saiu grave, trêmula; o peito subia e descia de forma errática. O olhar bicolor dele perfurou a Arquiteta, buscando uma mentira. — Você esqueceu da promessa que a gente fez? Você jurou que não ia usar mais máscaras na minha frente. Você jurou que não ia mais mentir para mim.
O sorriso de Anna vacilou por uma fração de segundo, apenas para se alargar com uma doçura que cortava como vidro.
— E está tudo bem, Dante... porque essa pode ser uma das únicas vezes em que eu realmente não estou mais usando máscara nenhuma.
As lágrimas dela continuavam a cair, silenciosas e incessantes, mas o sorriso permanecia fixo. O mundo rachou ainda mais alto. Um pedaço do falso céu noturno desabou em fragmentos luminosos a poucos metros deles, revelando a escuridão absoluta do lado de fora do livro.
— O que está acontecendo com esse lugar?! — Kiara berrou para tentar encobrir o estrondo da matéria colapsando.
Cat Schrödinger, que observava as rachaduras apagarem a Porta dos Fundos, abraçou o próprio corpo dentro do moletom. O tom professoral dela agora carregava o peso fúnebre de um réquiem.
— A Stella descobriu a verdade fundamental — Cat explicou por cima do caos. — Ela percebeu que o mundo é falso. O coração dela, a essência do poder dos desejos que a criou, rejeitou a mentira. O mistério caiu. Este Universo de Papel foi construído e programado pela Anna, baseado nas possibilidades de um mundo feliz e nas memórias de vocês... mas, assim que a ilusão foi rejeitada pela peça central, o código quebrou. Ele está se desfazendo, Kiara. O livro está sendo rasgado de dentro para fora.
Dante virou o pescoço tão rápido que as vértebras estalaram. Ele encarou Anna. A matemática macabra e cruel do Éter cruzou a mente dele.
— Como você fez isso? — Dante ofegou, a ficha finalmente caindo e afundando seu estômago. — Como você conseguiu construir um universo físico inteiro, Anna?! Um poder onipotente desses não vem do nada. Ele exige troca equivalente. O que você deu em troca?!
Anna abaixou o olhar para as próprias mãos de luz. A silhueta dela piscava como estática.
— Eu peguei emprestado o poder dos meus irmãos... — ela sussurrou para o vazio. — Eu quis ser um pouco egoísta até o fim.
O sangue de Dante congelou nas veias. Ele passou por Eliza como um raio, correndo em direção ao espectro loiro.
— O que você quer dizer com "fim"?! — O pânico puro tomou o controle da voz do Caçador. — O que vai acontecer com você quando esse mundo se apagar, Anna?!
Anna apenas sorriu de volta para ele. Era o sorriso de uma rainha que caminha livremente para a própria guilhotina.
Dante não aguentou. Ele correu e jogou os braços ao redor dela. Para a surpresa do Caçador, ele não atravessou a luz; ele conseguiu abraçá-la. O corpo dela era quente e denso, mas a sensação era desesperadora. Ele podia sentir, sob a palma de suas mãos, o tecido da existência dela vibrando, esfarelando e virando pó cósmico sob seus dedos.
— Não... não pode ser... — Dante murmurou contra o ombro dela. Ele agarrou as roupas da Arquiteta com brutalidade, como se pudesse amarrá-la ao mundo físico apenas na base da força e da vontade.
Kiara correu para perto deles, o olho são arregalado e marejado.
— Tem que ter outra forma! — Kiara negou histericamente, balançando a cabeça. — Isso é mentira! Anna, recria as regras! Desfaz o contrato! Você não é a deusa desse lugar!?
O corpo de Anna nos braços de Dante começou a ganhar rachaduras visíveis e profundas. Uma aura dourada, espessa e quente, começou a vazar das fendas em sua pele, escorrendo pelos braços do garoto como areia vazando de uma ampulheta quebrada.
— Eu sinto muito... — Anna falou, a voz falhando em harmônicos tristes. As mãos dela tocaram gentilmente as costas de Dante enquanto ela olhava por cima do ombro dele, focando em Kiara e Eliza. — Eu queria tanto, tanto dar um mundo feliz para todos vocês. Mas os meus irmãos... são muito teimosos. Não dava para criar a felicidade sem colocar a tristeza no meio da equação. Por isso eu acabei fazendo vocês sofrerem aqui dentro também. Me perdoem. Eu não consegui criar a perfeição.
— ISSO NÃO IMPORTA! — Dante berrou.
A voz dele quebrou feio. Os olhos bicolores transbordaram lágrimas grossas que ele não fez nenhuma questão de segurar.
— Mesmo quando a gente passava por coisas difíceis, a gente sempre levantava! A gente sempre conseguia forças para sorrir! Foi um mundo maravilhoso que você fez! Não importa que fosse de mentira, Anna, nós estávamos vivos!
— Ele tem razão... — Kiara soluçou, caindo de joelhos perto deles. A Rainha implacável das sombras estava completamente quebrada. — Você atendeu o meu pedido. Você criou uma fantasia impecável... um paraíso onde eu pude, pela primeira vez, viver uma vida normal de adolescente. Eu pude abraçar a minha mãe. Eu pude tomar café com ela e me despedir antes de ir para a escola... Você me deu tudo o que eu sempre quis ter na vida real!
Eliza se aproximou tropeçando, o choro rasgando o peito da garota de cabelos magenta.
— E eu também! Eu finalmente tinha conseguido manter a minha família junta. Eu tinha um lar! E eu o rasguei daquele jeito por causa da minha mente idiota! A culpa de você estar desaparecendo é minha, Anna!
— Está tudo bem, Eliza... — Anna sussurrou, a aura dourada vazando de seu peito com mais violência. As pernas dela já começavam a se dissolver em pura luz ascendente. — Eu sabia que isso não podia durar para sempre. Eu acabei fazendo bobagem. Eu sabia, desde o começo, que aqueles que tentam salvar o mundo sozinhos acabam sendo esmagados pelo peso dele nas costas. Eu só queria... atrasar esse peso mais um dia.
A voz de Anna tornou-se um murmúrio frágil e infantil. A deusa onipotente desabou, revelando a garota comum e assustada que sempre foi por baixo da coroa.
— Eu só queria mais uma horinha. Ver o sorriso de todos vocês em mais um final feliz falso. Comer mais uma vez com vocês. Mas... eu acho que a minha hora acabou.
— PARA DE FALAR BOBAGENS! — Dante gritou, a fúria, o luto e o pânico explodindo.
Ele a soltou apenas o suficiente para olhar no fundo dos olhos azuis dela, os dedos cravados e tremendo nos ombros de luz.
— Você não é um maldito Astreus?! Você não é uma divindade?! Você é a garota que caiu só para encher a porra da minha paciência! Para comer rosquinhas de melão e zombar de todo mundo com aquela sua arrogância insuportável! Então você não tem o direito de recuar e desistir ainda! Fica aqui!
Dante chorava compulsivamente. A máscara dura do Caçador experiente estava estilhaçada no chão.
— É cedo demais! Havia tanto desse mundo que você não viu ainda! Havia tanta coisa que eu não te mostrei, Anna! Você tem noção de que eu ainda nem te apresentei para a Nero?!
Os olhos de Anna se arregalaram levemente. A menção do mundo humano puro, das bobagens mundanas, cortou a muralha do sorriso resignado dela. A dor crua de não poder viver o futuro sangrou em sua expressão.
Ela ergueu a mão direita, cheia de rachaduras de luz, e usou o polegar para limpar uma lágrima do rosto sujo e desesperado de Dante.
— É verdade... — Anna sussurrou, a voz se misturando e sumindo no vento cósmico que deletava Morpheus. — Talvez... eu devesse ter pedido mais uma rosquinha de melão... se eu soubesse que iria acabar hoje.
E, de repente, o peso nos braços de Dante simplesmente sumiu.
Anna Lighthart quebrou-se.
O corpo de luz estilhaçou em um milhão de fragmentos dourados minúsculos, espalhando-se pelos braços vazios de Dante e subindo para o abismo escuro como poeira de estrelas soprada pelo vento.
Naquele exato milissegundo, a ilusão desabou por completo.
O céu de vidro falso explodiu. O terreno baldio, os prédios, a neblina e as ruas asfaltadas foram sumariamente obliterados por uma onda de choque de pura, fria e cruel realidade.
Quando Dante abriu os olhos, o ar não cheirava mais a chuva limpa. Fedia a enxofre, cinzas e asfalto derretido. A pressão da atmosfera voltou ao normal com um baque surdo. Ele, Kiara, Eliza e Cat foram jogados violentamente contra o chão sujo de fuligem.
Eles estavam de volta. Espalhados como lixo ao redor das raízes colossais e impenetráveis da Árvore Dourada que Eliza havia criado. No epicentro da verdadeira e devastada cidade de Morpheus, no mundo real.
A ilusão e o sacrifício de Anna haviam chegado ao seu fim absoluto.
Mas Dante não olhou para a grandiosidade mágica da árvore. Ele não olhou para o apocalipse, nem para o céu noturno e rasgado de Morpheus.
Ele se levantou cambaleando, girando no próprio eixo, o peito arfando. Os braços estavam estendidos no vazio, os olhos bicolores varrendo a escuridão como os de um cão cego. A ausência do calor dela em seus braços era um buraco negro que engolia a sua sanidade.
— Anna! ANNA! Onde você está?!
Até que os sentidos de Caçador o alertaram. Ele escutou. Um som sutil e sibilante, o som de tecido e peso rasgando o ar frio, caindo de muito alto no céu avermelhado.
Dante ergueu o rosto. E o coração dele literalmente parou de bater.
Lá do alto da copa da Árvore, exatamente do ponto onde o núcleo do livro e a redoma da ilusão haviam se rompido, o corpo físico e real de uma garota despencava inerte, em queda livre, em direção às raízes massivas.
— Não... de novo não.
O terror cru e paralisante do trauma estourou no cérebro de Dante.
As pernas dele se moveram antes que o intelecto processasse o movimento. Ele ativou todas as brasas residuais do próprio corpo arruinado. Dante correu por entre os destroços e crateras, os músculos rasgando, a velocidade beirando o impossível e o sobrenatural.
— Dessa vez não! EU NÃO POSSO FALHAR DE NOVO!
Ele atirou o próprio corpo contra o ar no último segundo, escorregando de joelhos pelo asfalto quente e ralando as rótulas até o osso.
E ele a pegou.
O impacto da queda de dezenas de metros o jogou brutalmente contra o chão. Mas ele usou o próprio corpo moído como amortecedor, virando de costas e envolvendo a garota protetoramente para que ela não sofresse um único arranhão.
Dante sentou-se, tossindo sangue, ofegante. O coração martelava a garganta. Ele olhou para baixo, iluminado pelo Éter da árvore, para os braços que a envolviam.
O corpo que ele segurava era macio. Era leve, extremamente delicado e intocado. Não havia uma única gota de sangue manchando as roupas finas de colegial dela. Nenhuma ferida de espada, nenhuma queimadura, nenhum hematoma da batalha épica contra os deuses. O corpo físico que abrigou um poder colossal, capaz de dobrar e engolir oito Astreus inteiros, estava ali, em seus braços. Incólume. Perfeito.
Mas... estava oco.
A pele de Anna era gélida como mármore no inverno. Não havia o sorriso brincalhão e cínico que ele tanto odiava e secretamente amava. Não havia as provocações de sempre que o faziam perder a paciência e revirar os olhos. Não havia movimentos espalhafatosos, nem aquele brilho irônico e onipotente nos olhos incrivelmente azuis, agora baços e sem vida.
Havia apenas um rosto frágil, pálido e perfeitamente adormecido na morte.
O rosto de uma garota solitária que decidiu carregar a dor do universo nas próprias costas para construir um paraíso perfeito para os amigos — mesmo que durasse apenas algumas horas — e pagou a conta do milagre com a própria alma.
Dante abraçou o cadáver gelado de Anna contra o peito, fechando os olhos e afundando o rosto nos cabelos sem brilho dela.
O Caçador que dobrava o tempo, o ferreiro letal de milênios passados, o rapaz cínico que sorria na cara da morte... tudo nele se apagou como uma vela afogada.
O que subiu pela garganta dele, rasgando as cordas vocais, foi o som de um animal mortalmente ferido.
Dante ergueu o rosto para o céu escuro e rasgado de Morpheus e gritou.
Não foi um choro comum. Foi um grito de ódio. De fúria absurda e impotente contra as leis do universo, contra a ironia do Destino, contra a piada doentia de Lysander e contra as próprias e malditas fraquezas.
O "NÃO" mais visceral, longo e excruciantemente doloroso de toda a sua vida reverberou pelas ruínas da Árvore Dourada, superando o som da criação, rasgando o silêncio da verdadeira realidade e sangrando a própria alma.
A poucos metros dali, caídas de mau jeito no asfalto destruído, Kiara e Eliza não se moveram. A Rainha implacável das sombras e a Princesa divina do infinito apenas abraçaram os próprios joelhos, os corações completamente destruídos. Elas fecharam os olhos na luz dourada, tendo como única e eterna trilha sonora para aquele apocalipse o choro dilacerante do garoto que acabara de perder o próprio mundo.
Parte 6
O eco do grito animalesco de Dante ainda cortava o ar carregado de cinzas quando a realidade ao redor deles começou a se contorcer de vez.
Perto das raízes colossais e douradas da Árvore recém-nascida, esferas de luz pura começaram a vazar do Livro Sagrado caído no chão, próximo a Dante e ao corpo de Anna. Kiara, com o olho treinado, logo percebeu o que estava acontecendo: a ilusão desfazendo-se e devolvendo a matéria roubada. Eram as pessoas que estavam presas na "Matrix" de papel.
Uma dessas luzes voou e colidiu pesadamente contra o asfalto a poucos metros deles, materializando as figuras densas de Ludmilla, Yuki e Maysa.
"Os corpos estão sendo ejetados... o feitiço deve estar devolvendo-os às coordenadas exatas de onde estavam na cidade falsa...", Kiara deduziu, o raciocínio sobrevivencialista trabalhando mesmo em meio ao luto.
O asfalto derretido e a fuligem tóxica do mundo real cobriram instantaneamente os ternos arruinados das duas caçadoras. A poucos passos delas, Yuki abriu os olhos, piscando contra a poeira cósmica da Árvore.
As três agarraram as próprias cabeças com gemidos abafados. A confusão biológica e mental era absoluta. As memórias arquitetadas da escola, os dias na cidade pacata e a rotina estúpida desabavam em suas mentes como castelos de cartas, sendo violenta e dolorosamente substituídas pela realidade fria e pelo cheiro de pólvora.
Antes que qualquer uma das três assassinas pudesse processar de que lado estavam ou o que diabos havia acabado de acontecer, uma voz rouca e desesperada rasgou o silêncio fúnebre da praça.
— Ei, vocês! Eu não faço a menor ideia de que lado vocês estão nessa bagunça toda, mas é melhor correrem!
Uma figura cruzou a fumaça espessa, saltando por cima da carcaça derretida de um carro capotado com uma agilidade animalesca.
Eliza arregalou os olhos, puxando a irmã mais velha instintivamente para trás. O homem que aterrissou pesadamente na frente delas não pertencia à estética onírica de Morpheus, ao colegio flutuante de Babylon e, muito menos, a misteriosa Horizon. Ele vestia um sobretudo escuro de couro gasto e pesado, botas táticas e trazia o ar inconfundível, caótico e selvagem de um pirata.
Ele arfava com dificuldade. As roupas de couro dele estavam brutalmente rasgadas, manchadas de sangue fresco, e ele segurava o próprio ombro como se tivesse acabado de sobreviver a uma passagem direta por um moedor de carne industrial.
Kiara piscou. O olho bom dela focou no rosto sujo do pirata e, através dos estilhaços de memória da Arquiteta que ainda habitavam a sua alma, a identificação foi instantânea.
— Drake...? — Kiara sussurrou.
Drake não teve tempo de confirmar ou de se explicar. Ele sacou uma pesada pistola de pederneira modificada e a apontou para a neblina atrás deles.
Mas os reflexos dele não foram rápidos o suficiente. Algo pálido e invisível na fumaça agarrou o rosto do pirata. Uma força descomunal e desigual o arrancou do chão, esmagando a bochecha dele contra os destroços e, em seguida, catapultando-o pelo ar como um boneco de pano até que batesse violentamente contra os escombros longe dali.
O ar esfriou com uma brutalidade glacial. Passos lentos, imponentes e inegavelmente elegantes começaram a esmagar o asfalto empoçado.
O Rei dos Pesadelos emergiu da névoa espessa.
No entanto, o Lysander que caminhava em direção a eles agora era absurdamente diferente do deus intocável e perfeitamente simétrico que conheciam. A capa e as roupas impecáveis estavam rasgadas no peito e nos braços, revelando cortes profundos. Um filete de sangue escuro escorria de sua têmpora até o queixo e, embora controlada, a respiração do Rei revelava uma exaustão física pesada que ele tentava, em vão, mascarar.
Eliza e Kiara sentiram o sangue gelar nas veias. A dedução das duas foi imediata: aquele ferimento feio não havia sido causado pelo impacto da Anna.
Enquanto o grupo esteve trancado brincando de vida perfeita no Universo de Papel de Morpheus... o relógio no mundo real não havia parado. Ele havia continuado a correr. E uma outra batalha, catastrófica, havia sido travada do lado de fora.
Lysander ignorou a confusão e o luto que exalava do grupo de heróis. Ele parou a dez metros de distância, limpou o sangue do rosto com as costas da mão suja e soltou um suspiro genuinamente irritado.
— Isso acabou demorando muito mais do que a margem que eu havia calculado... — o Rei murmurou, a voz aveludada carregando uma frustração homicida. Ele olhou para o nada, ou pelo menos para o que parecia o nada. — Eu achei que você iria acelerar as engrenagens e quebrar a ilusão pelo lado de dentro mais rápido, Irene.
O espaço ao lado direito de Lysander distorceu-se. O som característico de uma pesada fechadura metálica destravando ecoou no ar vazio.
Uma porta literal, incrustada com maçanetas de latão, abriu-se no meio do vácuo da praça. A Ex-Diretora Irene saiu de dentro dela, caminhando com uma elegância macabra enquanto girava uma chave prateada e ornamentada entre os dedos longos e manchados de sangue. A cientista sádica ajeitou os óculos no rosto de mármore, a expressão fria, intocável e impessoal.
— Não seja louco nem me cobre o impossível, meu querido rei — Irene retrucou, o tom tão sedutor quanto clínico. — Eu estava presa dentro de um mundo fechado, forjado a ferro e fogo por uma entidade que possuía o poder de vários. Como você espera que eu conseguisse fazer alguma coisa?
Irene olhou para as mãos ensanguentadas de Dante, depois para o corpo inerte e sem brilho de Anna Lighthart deitado em seus braços e, por fim, para a majestade colossal da Árvore Dourada que Eliza havia criado. Um sorriso fatalista e sombrio cruzou os lábios pintados de vermelho da Diretora.
— Mas, no fim das contas, o resultado era inevitável. Aquela garotinha deveria saber que tentar lutar contra a correnteza do Destino... enquanto ele nos observa e guia absolutamente tudo de cima do tabuleiro... é apenas uma idiotice poética.
Ao ouvir a palavra "idiotice", Dante parou de respirar.
Uma pontada fina, aguda e feita de veneno puro perfurou a base da nuca do Caçador. Uma fúria tão descomunal, densa e primitiva começou a crescer em seu peito à medida que ele escutava o deboche clínico daquela mulher direcionado ao sacrifício de Anna. Ele fechou a mão livre em um punho tão absurdamente apertado que as próprias unhas rasgaram a carne das palmas, com gotas de sangue quente pingando no asfalto.
Kiara, ainda de joelhos perto da irmã, rosnou para as duas figuras divinas.
— Mas é claro. É óbvio que vocês estavam juntos... — Kiara cuspiu as palavras como se fossem vidro. — Claro que a principal vilã daquele mundo falso estaria em parceria com o maldito tirano deste mundo real.
Lysander soltou uma risada genuína, uma gargalhada curta, jogando a cabeça para trás. O som ecoou pelas ruínas da cidade, debochado, frio e supremamente cruel.
— É sério que, mesmo depois de tudo que passaram, vocês ainda se apegam a conceitos rasos como esses títulos infantis de moralidade, minha criança? "Heróis"? "Vilões"? — Lysander abriu os braços, apontando graciosamente para o cenário de destruição da bomba transmutada e, por fim, para o cadáver pálido da Arquiteta. — Aprenda com a pequena divindade morta e caída ali no chão. Não existem heróis ou vilões. Todos nós... humanos, monstros, demônios e deuses... apenas vagamos por este inferno em busca de nossas próprias ambições, movidos unicamente pelo egoísmo da nossa Vontade.
O sorriso do Rei tornou-se o fio de uma lâmina sádica e perfeita.
— Por isso, digamos apenas que, neste vasto e cinzento mundo de deuses e homens... existem apenas os vencedores e os perdedores. Simples e natural assim.
O silêncio da morte engoliu a praça.
Dante não gritou em retaliação. Ele não chorou mais.
Com uma delicadeza absurda que contrastava violentamente com a aura letal e pesada que começava a vazar pelos poros de seu corpo, Dante abaixou-se e deitou o corpo vazio de Anna no asfalto. Ele ajeitou a cabeça loira dela com cuidado maternal sobre o próprio paletó arruinado que usara como travesseiro improvisado.
Então, o Caçador levantou-se lentamente.
O corpo dele não tremia mais de dor ou exaustão; tremia apenas pela pressão esmagadora da própria fúria tentando não explodir a pele. Ele virou-se para encarar Lysander. Os olhos bicolores dele agora estavam mortos, opacos, destituídos de qualquer brilho de dor humana. Eram os olhos de um predador no topo absoluto da cadeia alimentar.
— Eu acho que não entendi bem o que você quis dizer com isso — Dante falou. A voz dele não subiu de tom. Saiu baixa, rouca e mortalmente fria, arranhando o ar da praça. — Seja mais direto. Quando você manda a gente olhar para a Anna deitada ali... usando essa sua lógica doente de tabuleiro... o que, na sua opinião de Rei, ela deveria ser?
Lysander inclinou a cabeça para a direita, deliciando-se com o ódio cru e palpável do garoto.
— Não é óbvio, Caçador? — O Rei sorriu com a indulgência de quem explica o mundo para um tolo. — Ela é, clara e irrefutavelmente, a grande perdedora daqui. Ela deu a própria alma para brincar de casinha e, no final, não salvou absolutamente nada.
Dante puxou o ar lentamente, enchendo os pulmões perfurados com o cheiro ácido de cinzas e ozônio. Ele segurou por um segundo e, então, soltou o ar devagar.
— Entendi — Dante assentiu e estalou o pescoço. — Então é exatamente isso que ela parece para você.
O Caçador deu o primeiro passo calmo e pesado à frente. A postura que ele adotou exalava uma ameaça instintiva tão colossal e inquestionável que Irene inconscientemente reagiu estreitando os olhos, e lambendo os lábios.
— Eu vou deixar você repetir essa frase de novo, Lysander — Dante sussurrou, mas a cadência da ameaça ecoou e marcou a mente de todos ali presentes. — E eu vou pedir que você repita de forma bem clara logo depois que eu quebrar cada um dos seus ossos. Depois que eu esmagar a sua mandíbula, arrancar as suas duas pernas e te impedir de dar mais um único e maldito passo em busca desse seu “objetivo”. Aí... aí eu vou querer muito saber o que é que você acha do sacrifício dela.
O Éter reprimido ao redor de Dante começou a distorcer e chiar. A própria realidade da praça começou a dobrar-se sob a força magnética do ódio bruto de um humano sem magia que não tinha mais absolutamente nada a perder ou temer no universo.
— Mas... se o seu grande intelecto divino ainda está achando essa matemática difícil de entender... — Dante abriu um sorriso enlouquecido que não tocou seus olhos. — Eu vou desenhar para você, seu filho da puta. A Anna não perdeu porra nenhuma. Ela só estava comprando o tempo exato que eu precisava para chegar ao campo de batalha, olhar nos seus olhos e esmurrar a sua cara.
Lysander sorriu de canto.
Mas, enquanto a declaração de guerra de Dante ecoava, uma voz baixa e assombrada sussurrou do outro lado da praça, cortando a tensão entre os dois.
— Tem... tem alguma coisa muito errada... — Maysa murmurou, a voz letárgica da gigante lutando para sair do próprio estupor mental após a quebra da ilusão.
— O que você está querendo dizer com isso? — Ludmilla também estáva se levantando e balançando a cabeça para afastar a poeira e as falsas memórias.
— O número de presas com grande potencial aumentou repentinamente.
Ludmilla, que até então estava tentando limpar a poeira dos olhos e recalcular a situação do ambiente, finalmente olhou em volta e sacou a lâmina em um arco defensivo. A assassina de elite virou o rosto para as ruínas dos prédios altos ao redor da Árvore Dourada. Os instintos predatórios e sobre-humanos dela gritaram em uníssono, um alarme vermelho ensurdecedor na base de sua nuca.
— Tem alguém nos observando.
Kiara, Eliza e Yuki seguiram o exemplo e começaram a observar.
Lá em cima. Nas bordas enevoadas daquela imensa cratera que abrigava a Árvore. Em meio às ruínas dos telhados estilhaçados, havia formas paradas nas sombras. Alguém — ou um grupo deles — os observava silenciosamente.
Eram presenças absurdas. O ar ao redor daquelas silhuetas distantes era tão denso que a própria gravidade parecia escoar para elas. Elas exalavam assinaturas de poder bruto e Autoridade letal que nenhum deles... nem Dante, nem Kiara, nem mesmo Ludmilla... jamais havia sentido dentro de Morpheus.
A dedução de Kiara bateu no mesmo instante: uma outra luta havia acontecido no mundo real enquanto eles estavam na falsa Morpheus. E a prova final disso não era apenas a roupa rasgada de Lysander.
Eram elas.
As entidades que haviam invadido Morpheus. Paradas nos telhados quebrados. Observando-os como quem avalia os últimos ratos vivos em uma gaiola de vidro.
Parte 7
Mesmo com presenças colossais observando das sombras das ruínas, a mente de Dante havia se fechado como um cofre de chumbo para o resto do universo.
Deuses, Monstros ou Demônios. O tecido rasgado do espaço-tempo. O próprio destino de Morpheus... tudo havia sumido do radar. O mundo do Caçador havia encolhido até se resumir a um único, exclusivo e letal eixo: o alvo.
Lysander ergueu a mão ensanguentada. O movimento de seu dedo indicador foi sutil, quase a regência de um maestro. No alto, o Livro Sagrado, que flutuava no epicentro da ferida da Árvore Dourada, começou a ser arrastado gravitacionalmente em sua direção.
Ele não teve tempo de piscar.
O asfalto sob as botas de Dante não apenas rachou; ele vaporizou. Uma cratera de chamas e pedra derretida marcou o ponto de ignição. Desafiando a própria fricção do ar com um estrondo sônico ensurdecedor, Dante rasgou o espaço, deixando para trás apenas um rastro de plasma avermelhado.
Em um microssegundo impossível, o Caçador obliterou a distância entre eles, freando seu avanço com uma precisão micrométrica. O punho armado de Dante travou no ar. O deslocamento violento da onda de choque chicoteou os cabelos perfeitos do Rei dos Pesadelos para trás. Os nós dos dedos ensanguentados do garoto pararam a um exato, calculado e aterrador centímetro de esmagar o nariz do deus.
Os olhos escuros de Lysander se arregalaram. A máscara de controle absoluto e arrogância milenar estilhaçou-se perante aquela quebra das leis da física.
— Você... — Lysander murmurou. A voz falhou, a garganta seca, com o cérebro divino tentando processar a imagem estática de Dante travado à sua frente. — Você foi o primeiro mortal que conseguiu chegar tão perto...
Mas, quando o Rei encontrou o fundo dos olhos bicolores de Dante, o resto da frase morreu e apodreceu em sua boca. Um pavor tátil, gélido e primitivo — uma emoção biológica que Lysander não experimentava há séculos — rastejou por sua espinha como um parasita.
A poucos metros dali, a ex-diretora Irene sorriu; os olhos da mulher estavam genuinamente escancarados.
Dante não estava cego de fúria. O garoto não havia se entregado àquela forma monstruosa, caótica e irracional. Não havia o sorriso sádico ou a postura espalhafatosa. A realidade que se apresentava agora era infinitamente pior.
Os olhos de Dante estavam focados e calmos.
Absolutamente lúcido, o cérebro dele processava a gravidade do terreno, a frequência da respiração do inimigo e a tensão de cada fibra muscular de Lysander. Era uma postura marcial imaculada. Nenhuma gota de energia era desperdiçada em gritos de ódio ou caretas de raiva. Seu oxigênio não era desperdiçado em piadas ou provocações. Havia apenas o silêncio esmagador de um predador analisando a anatomia frágil de uma presa. Era o puro, simples e matemático terror da morte inevitável.
Os tendões no braço estendido de Dante repuxaram, com a malha muscular contraindo-se como cabos de aço para liberar a força cinética do próximo soco.
Lysander não se moveu.
Os milhares de fios invisíveis de Éter do Rei já estavam espalhados pelo cenário como uma teia de aranha imperceptível. Eles haviam parado o corpo do garoto, bloqueando sua investida sem que o Rei tivesse que dar um único passo.
A armadilha era perfeita, mas Dante sequer piscou. As linhas, superafiadas como monofilamentos de diamante, rasgaram o que restava do tecido do paletó e começaram a serrar a carne de seus braços, ombros e pescoço. Filetes escarlates escorreram imediatamente, manchando sua roupa de vermelho-escuro.
— Desista! — Lysander sibilou. — Se continuar forçando a trajetória desse soco, a tensão dos meus fios vai fatiar a sua carne em retalhos antes que você consiga encostar na minha pele!
A resposta de Dante foi inclinar o tronco um grau para a frente, forçando o corpo contra as lâminas invisíveis. Ele não recuou um único milímetro. Os olhos bicolores continuaram cravados no alvo, ignorando a dor lacerante como se os cortes que rasgavam sua pele não passassem de insetos incômodos.
"É inútil, Lysander... graças à sua 'brincadeira', nosso garoto finalmente conseguiu ultrapassar a barreira da dor física."
Irene, ao lado, analisava o Caçador com um sorriso, em vez de tentar ajudar seu parceiro.
— Se quiser salvar a vida do seu garoto de estimação, é melhor fazer alguma coisa agora, Irene — Lysander, que havia percebido, reclamou.
Irene ergueu o queixo. Um sorriso cínico, afiado e cruel desenhou-se nos lábios vermelhos.
— Infelizmente, eu não posso ajudá-lo nisso, majestade — ela respondeu com uma polidez gélida. — Por conta de uma regra interna chata da minha organização, é terminantemente proibido atacar um "companheiro" de equipe. E, analisando a densidade atual da aura dele... a menos que eu ataque com intenção letal, duvido muito que seja capaz de pará-lo.
Lysander suspirou entediado.
— Então não me culpe se eu amputar os membros dele.
Ele injetou uma carga massiva de Éter em sua rede invisível, e os fios brilharam em um tom azul-pálido. Eles se aprofundaram na carne de Dante, travando as articulações do Caçador por pura resistência mecânica e força de tração.
— Desista! Aposto que não quer morrer fatiado aqui, não é, garoto?!
Quando Dante finalmente abriu a boca, a voz soou tão profunda, metálica e despida de emoção que pareceu reverberar das próprias fundações do mundo:
— Sora. Safira. Asuka.
O planejamento silencioso de Dante entrou na fase de execução.
O Éter do Caçador não simplesmente acendeu; ele detonou. Uma onda de choque vermelha e maciça varreu a praça, invertendo a gravidade pontual e fazendo os detritos e o asfalto quebrado ao redor deles levitarem.
Em um flash de luz negra e vermelha, as manoplas cibernéticas e agressivas se materializaram sobre os punhos de Dante.
— Nem precisa pedir, Mestre — a voz de Sora, o espírito da XV-Caliber, ecoou em suas sinapses.
Em sincronia perfeita e inumana, as luvas absorveram o fluxo caótico e raivoso da energia do garoto, refinando o Éter com economia e precisão. Cada gota de poder desperdiçada foi redirecionada pelos conduítes da arma para maximizar o rendimento destrutivo do impacto.
Ao redor de seu pescoço cortado, o longo cachecol manifestou-se: Asuka.
Dotado de inteligência própria e fluida, o tecido não se limitou a balançar como um adorno; ele se infiltrou cirurgicamente no milímetro de espaço entre a pele rasgada de Dante e os fios assassinos de Lysander. Em frações de segundo, o pano flexível enrijeceu, assumindo a densidade molecular do titânio. Formou-se uma blindagem reativa perfeita, que repeliu, travou e esmagou as linhas invisíveis do Rei com um som estridente de metal contra metal, anulando qualquer chance de amputação.
E, finalizando o cerco matemático, a armadilha de Dante bateu a porta nas costas do alvo.
Safira atendeu ao chamado de contenção. A dezenas de centímetros atrás de Lysander, a entidade ergueu do solo uma parede maciça de Éter cristalino, espessa, azulada e inquebrável como a porta da caixa-forte de um banco.
O bloqueio espacial fechou a única rota de fuga ou recuo. Lysander estava, fisicamente e taticamente, prensado entre a bigorna indestrutível de Safira e o martelo fumegante de Dante.
Sem os fios para segurá-lo e com o alvo selado no corredor da morte, Dante redirecionou cem por cento do plasma otimizado por Sora para o punho direito armado. A energia comprimida na XV-Caliber distorceu o próprio oxigênio ao redor da manopla, criando uma aura de vácuo negro e vermelho.
— Chronos Breaker.
Aquele golpe não se limitou a quebrar a barreira do som; ele fraturou a estabilidade do próprio espaço.
O soco conectou exatamente, milimetricamente, no centro do rosto de Lysander.
O impacto foi tão monumental, tão ridiculamente denso, que o asfalto cedeu dois metros inteiros abaixo dos pés deles instantaneamente, formando uma bacia de entulho e poeira cimentícia. A força cinética brutal achatou a face do deus e arremessou o Rei violentamente contra a barreira invisível de Safira às suas costas.
A parede de Éter cristalino trincou com um estalo de rachar os céus, enquanto o nariz aristocrático e a mandíbula perfeita de Lysander se estilhaçavam contra a superfície dura em um som úmido, repulsivo e nauseante.
O corpo quebrado do Rei quicou contra a parede indestrutível e despencou, completamente desorientado e sangrando profusamente, sobre a cratera recém-formada.
Mas a coreografia letal de Dante não admitia intervalos. Não havia tempo para discursos de vitória. Seu rosto continuava sendo uma máscara de frieza calculada.
No exato instante em que Lysander, tonto e engasgando no próprio sangue, moveu os dedos trêmulos no chão em uma tentativa patética e instintiva de se erguer, Dante já estava posicionado para a execução.
Ele levantou a mão direita. O indicador e o polegar se esticaram, formando um ângulo reto perfeito. Uma arma de fogo imaginária e infantil, apontada com o rigor de um executor diretamente para a silhueta do deus caído.
O ar ao redor da ponta de seu dedo indicador começou a espiralar em um vórtice. O sistema da manopla sugou as partículas de plasma vermelho de volta, comprimindo-as na ponta do dedo até formar uma esfera hiperdensa, ofuscante e faiscante, brilhando com a instabilidade radioativa de um sol em miniatura.
— Queime — a sentença de Dante soou final e irrefutável. — Estrela Rubra Tenka.
O disparo não foi um mero raio ou uma bola de fogo; foi um pilar de erradicação geométrica.
O feixe contínuo de plasma escarlate superaquecido rasgou o espaço, carbonizando o oxigênio e desintegrando tudo em sua trajetória reta até o peito de Lysander. O Rei dos Pesadelos urrou, com o grito esganiçado sendo imediatamente engolido pelo estrondo da explosão cósmica. A força cinética propulsora do feixe arrastou o deus como um cometa flamejante preso no chão, escavando uma trincheira longa e fumegante pelo concreto da praça, até finalmente sepultar o que restava do Rei sob toneladas de escombros derretidos no limite das ruínas.
Dante abaixou a mão lentamente.
Uma fina, única e sutil lufada de fumaça cinzenta subiu da ponta de seu indicador enluvado. O silêncio absoluto e reverente retornou ao campo de batalha destruído, quebrado unicamente pelo som do asfalto derretido gotejando nas bordas da trincheira incandescente.
Parte 8
O silêncio que se seguiu ao disparo de plasma de Dante era espesso, quase tátil. A poeira cósmica baixava lentamente sobre a praça derretida, mas o ar continuava irrespirável, carregado de uma estática que arrepiava a pele.
Não era apenas o calor das chamas. Uma intenção assassina crua, densa como piche, irradiava do Caçador em ondas invisíveis, sufocando as ruínas. Ludmilla, ainda grogue pelo choque de ter suas memórias, antes apagadas, restauradas, apoiou-se em um pilar de concreto tombado. Seus músculos tremeram ao se reerguer. Os olhos escuros da assassina de elite — treinados por anos para mapear o perigo em qualquer ambiente — travaram nas costas de Dante. Todo o instinto dela gritava.
— O que... — a voz de Ludmilla, sempre tão polida e letal, falhou, esmagada pela pressão que o garoto exalava. — O que diabos está acontecendo com ele?
"É diferente de quando ele perdia o controle... mas não sinto uma boa vibração... Droga, o que aconteceu?"
Eliza abriu a boca para responder, mas o nó de culpa e horror em sua garganta a silenciou. Nenhuma palavra seria suficiente.
Com passos pesados que estilhaçavam o que restava do asfalto, Maysa parou ao lado de Ludmilla. A mulher cruzou os braços, estreitando os olhos em uma análise fria e tática da postura do Caçador.
— Incrível… meu marido acaba de evoluir ainda mais… — murmurou Maysa, a voz grave retumbando no peito. — Ele finalmente está virando um verdadeiro Caçador.
A alguns metros dali, Kiara observava tudo. Suas unhas cravavam-se no couro das calças, os punhos apertados sobre as coxas.
— A Anna... — a voz de Kiara rasgou-se ao meio, rouca pela fumaça e pela dor. — A Anna morreu nos braços dele agora mesmo.
O impacto da frase atingiu as garotas confusas com a força de um golpe físico.
Os olhos de Ludmilla se arregalaram. Em um lapso de puro desespero humano, ela correu mancando, ignorando a dor, até o paletó de Dante estendido no chão. Ali, o corpo delicado e pálido de Anna repousava, intacto como uma boneca de porcelana. Ludmilla caiu de joelhos. Suas mãos pairaram trêmulas sobre o rosto angelical da garota, aterrorizada com a ideia de tocá-la e confirmar o frio da morte.
— Não... Como isso aconteceu? — sussurrou a caçadora para si mesma, a armadura emocional finalmente derretendo.
Até mesmo Yuki, que deveria estar mais confusa do que qualquer uma, parou. A garota de cabelos brancos olhou fixamente para as costas rígidas de Dante e, depois, para o corpo vazio da loira. Uma tristeza profunda e dolorosamente humana inundou seus olhos.
— Merda… Se isso é verdade… Ele deve estar desmoronando por dentro... — Yuki disse, a voz num fio.
Kiara fechou os punhos. Havia frustração, luto e uma impotência que há muito tempo ela não sentia. Ela, mais do que ninguém, entendia o abismo onde Dante estava caindo. Ela conhecia aquele vazio. Sabia que a única forma primária de lidar com a dor era esmurrar a fonte da raiva até os nós dos dedos sangrarem.
Ao olhar para o Caçador, ela sabia que era o que ele estava fazendo. Mas ela também sabia que a adrenalina iria passar e a dor o alcançaria.
“O que eu deveria ter feito?! O que é que eu vou dizer para ele?!”
Essa pergunta não parava de atormentar a mente da rainha da violência. Acostumada a sempre se ferir, ela jamais havia aprendido como agir para ajudar aqueles que estavam machucados. Foi esse bloqueio mental que a impediu de tomar uma atitude até aquele momento.
Eliza apertou os lábios com força. Com as costas das mãos sujas de fuligem, limpou o rosto. A Princesa Branca agora estava esmagadoramente ciente do sacrifício que sua própria alma estava fadada a pagar — mas também sabia que só podia falar e agir como alguém normal de novo por conta de Anna.
— Nós seremos a âncora dele, não importa como — declarou Eliza, a voz firme. Ela deu o primeiro passo na direção de Dante. — Ele pode não querer companhia. Pode gritar, pode tentar nos afastar... mas nós vamos estar lá para segurar o impacto. Nós não vamos deixá-lo afundar sozinho.
Maysa franziu a testa. A guerreira ancestral observava o luto das garotas com um distanciamento pragmático que beirava a frieza.
— Esperem. De quem vocês estão falando, afinal? — a pergunta da gigante saiu crua. — Quem era essa "Anna" para arrancar tantas lágrimas? E por que isso se conecta ao meu marido?
Kiara olhou por cima do ombro, com a irritação cortando a névoa da tristeza.
— Como você pode não saber?! Ela é a sua irmã! A droga do Astreus da Possibilidade!
Maysa tombou a cabeça colossal para o lado, impassível, embora os olhos revelassem a engrenagem de uma lógica milenar girando rapidamente.
— O conceito humano de "irmã" me escapa, Caçadora — respondeu a gigante, didática. — Mas, se você está se referindo àquela casca pálida caída no chão... ela não está morta.
O mundo ao redor de Kiara pareceu parar de girar. Ela prendeu a respiração. O som das chamas sumiu.
— O... quê?
— Você, como uma cria do caminho dela, deveria sentir isso — continuou Maysa, erguendo um dedo grosso e apontando para as costas machucadas de Kiara. — Não é tão simples matar um Astreus.
Kiara fechou os olhos com força. O choque brutal das palavras de Maysa a forçou a mergulhar na própria percepção psíquica.
Ela recordou tudo o que acabou de descobrir sobre as crias de Astreus e, especialmente, o momento em que, de alguma forma, utilizou a autoridade da possibilidade durante o confronto com Dante; a razão de sua conexão com eles persistir, mesmo após ter sido separada fisicamente de Anna.
De repente, ela ignorou a dor aguda dos ossos fraturados, o cheiro de ozônio e de carne queimada. Focou todo o seu intelecto e espírito no selo divino que Anna havia cravado a fogo em suas costas — o mesmo que brilhava no braço de Dante.
No fundo daquele abismo espiritual compartilhado, abafado pela exaustão cósmica da batalha, ela tateou a escuridão.
E então, ela sentiu.
Não era um batimento cardíaco biológico. Não havia sangue bombeando. Era uma fagulha. Um pulso de Éter absurdamente ralo, trêmulo e distante, mas inegavelmente vivo. Uma brasa teimosa resistindo à ventania, vibrando através da ligação mágica que ainda os unia.
Kiara abriu o olho num solavanco, o ar invadindo os pulmões em um engasgo alto.
— Não pode ser... O corpo físico dela está oco, frio... mas a ligação...
— Ela deve ter exaurido a própria consciência até o limite — deduziu Maysa, com a frieza acadêmica imperando. — Mas destruir a essência pura de um Astreus exige muito mais do que isso.
Clac. Clac. Clac.
Um som rítmico, oco e sarcasticamente polido de saltos altos pisando no asfalto firme atraiu a atenção de todas.
— Vejo que o grande Astreus da caça possui certo nível de inteligência. Tem total razão. É um grande e chato problema de logística.
A ex-diretora Irene caminhava sem pressa em direção à luz avermelhada da cratera. O sorriso cínico rasgava-lhe o rosto.
— Até mesmo nós, cujo objetivo absoluto é apagar a existência parasitária de vocês, divindades, concordamos com isso — discursou Irene, a voz destilando uma arrogância acadêmica insuportável enquanto girava uma misteriosa chave prateada entre os dedos manchados. — Matar um Astreus é frustrante. Mutilar o Avatar de carne ou explodir a casca mortal não afeta a Entidade Suprema. A verdadeira consciência deles permanece intocável.
Irene parou de andar. Fixou os olhos na figura titânica de Maysa.
Maysa sentia a hostilidade no olhar da mulher, que sequer se dava ao trabalho de disfarçar sua intenção de provocá-la. Agora, Maysa também reconhecia a chave nas mãos da outra: era a mesma que, há pouco, havia conseguido selar seus movimentos.
— E é meticulosamente por isso que passamos tantos anos... calculando como construir, do zero, uma arma capaz de matar um deus. Vai ser muito bom ter a opinião de um Avatar de Astreus quando eu terminar.
A mente de Kiara, já acelerada pela revelação da sobrevivência de Anna, colidiu violentamente com o discurso doentio. As peças soltas do "Universo de Papel" se alinharam como um raio em sua cabeça: as falas megalomaníacas de Irene ecoavam as do homem que Dante conheceu vinte anos atrás; a cientista sádica murmurando sobre igualar forças dentro do mundo de Anna e, finalmente, a Bomba Dimensional.
Kiara ergueu o rosto do chão. Seu olho cravou-se na silhueta elegante de Irene com um ódio tão puro que beirava a clareza absoluta.
— Você... — Kiara sibilou, os caninos à mostra. — Você é um membro da Horizon.
O cérebro da rainha da violência agiu tão rápido que, só depois, ela percebeu o quão ridículo aquilo era. "Espere, além disso, ela era a confidente do rei, estava nesse mundo há mais tempo que eu? Isso é impossível! Quando ela chegou? Como ela chegou e o que esteve fazendo todo esse tempo?". Mas, mesmo com tudo gritando que era impossível, ela não recuou em sua afirmação.
O sorriso de Irene alargou-se, pintado de vermelho pelas chamas. Com a delicadeza macabra e teatral de uma mãe assistindo à filha recitar poesia no palco, a diretora ergueu as mãos pálidas e bateu palmas. Lentas. Secas.
— Brilhante, Kiara. Realmente bri...
— ISSO NÃO IMPORTA AGORA!
O grito rasgou a tensão burocrática da praça, cortando os aplausos debochados de Irene pela raiz.
Eliza avançou como um furacão, passando por Kiara e esbarrando no ombro das outras.
— Eu não dou a mínima para nada dessa merda agora! — berrou Eliza a plenos pulmões, apontando agressivamente para o corpo no chão. — Se existe uma fagulha... se ela é uma brasa quente lutando para viver no meio desse inferno, nós temos que agir!
Eliza olhou para os olhos de Kiara.
— Ela salvou a vida de todos nós! — a voz de Eliza embargou, carregada de choro, mas inquebrável como diamante. — Ela queimou a própria existência por todo mundo que está respirando aqui. Temos que fazer o mesmo por ela!
Parte 9
A centenas de metros do grupo, no epicentro de uma trincheira fumegante rasgada pelo puro calor do plasma, o Rei dos Pesadelos repousava.
O paletó antes impecável de Lysander havia sido obliterado. Seu peito e o rosto de traços perfeitos estavam em ruínas, com a carne carbonizada exalando uma fumaça densa e escura sob o brilho etéreo da Árvore Dourada. O dano era catastrófico; qualquer ser vivo teria virado cinzas instantaneamente.
Mas Lysander não gritou. Não havia sequer um arquejo de dor escapando de seus lábios. Deitado de costas sobre o asfalto derretido, ele olhava placidamente para o céu fendido, observando os gigantescos galhos de Éter se estenderem para o infinito, como quem admira uma pintura no teto de um museu.
Um sorriso fino, quase imperceptível, trincou a máscara de cinzas de seu rosto.
— Entendi... — a voz do deus soou como um sussurro contemplativo e aveludado, destoando bizarramente da destruição ao redor. — Agora eu começo a compreender por que a Horizon tem um interesse tão grande nele.
Com uma lentidão calculada, Lysander ergueu a mão direita mutilada. Fios brilhantes de um verde fluorescente e doentio brotaram da ponta de seus dedos, movendo-se com a precisão de agulhas cirúrgicas autônomas. Em um espetáculo macabro, a costura começou. Os fios perfuravam e repuxavam a própria carne carbonizada do Rei, reestruturando fibras musculares, nervos e pele em tempo real. O som úmido de tecidos se refazendo ecoou pela cratera enquanto ele, com uma graça aristocrática, colocava-se de pé.
Mas Dante não estava ali para lhe dar tempo de respirar.
O ar estalou, rompendo a barreira do som. O Caçador cruzou a distância não como um humano, mas como um borrão escarlate. A intenção assassina relampejava ao redor de seu corpo, distorcendo a luz. Ele saltou, armado com o peso de uma fúria absoluta, direto para o golpe de misericórdia.
Lysander mal moveu os olhos. Apenas suspirou, orquestrando os dedos no ar como um maestro entediado.
— Realmente, não dá para subestimá-lo nem por uma fração de segundo.
Fios de um roxo profundo e espesso dispararam das mãos do Rei. Eles não miraram na carne de Dante, mas cravaram-se no nada — no próprio tecido do espaço vazio.
A realidade obedeceu ao puxão. A gravidade enlouqueceu.
Dante sentiu o impacto antes mesmo de entender. Foi como se um prédio de dez andares despencasse diretamente sobre suas costas. O ar foi esmagado para fora de seus pulmões enquanto ele era arremessado brutalmente para baixo. O impacto de seu corpo contra o chão afundou o asfalto derretido, criando uma nova subcratera de vinte metros de raio. O som da rocha cedendo sob a pressão foi ensurdecedor.
O domínio de Lysander era absoluto. Para o Rei dos Pesadelos, o próprio universo era um tear, e a gravidade, apenas mais uma corda de marionete que ele puxava para esmagar seus opositores.
— Fique no chão, garoto — ordenou Lysander, o olhar gélido cravado na figura afundada na terra.
Mas, de dentro da cratera esmagadora, um rosnado gutural rasgou o ar. Sangue escorria pelo queixo de Dante, mas seus olhos bicolores ardiam com a fúria lúcida de quem desconhecia a palavra submissão.
— Safira! — o garoto rugiu, a voz vibrando com poder.
Sob as botas e os joelhos esmagados do Caçador, hexágonos cintilantes de Éter cristalino se materializaram. Não eram escudos defensivos; eram degraus. Usando a repulsão eletromagnética e uma injeção de plasma concentrado direto nas solas, Dante chutou a própria barreira. A força da explosão anulou a zona gravitacional roxa por um milissegundo.
Foi o suficiente. Ele disparou como um míssil. O Caçador começou a correr verticalmente pelo nada, com os hexágonos de Safira estalando sob seus pés a cada passo como vidro temperado quebrando, ignorando a pressão de Lysander e rasgando os céus.
Pela primeira vez, Lysander franziu a testa. Em resposta, disparou uma tempestade de dezenas de fios cortantes, finos o bastante para fatiar átomos, direto na direção do garoto.
Dante não desviou um milímetro.
— Asuka!
O cachecol vermelho-vivo em seu pescoço despertou. O tecido blindado desenrolou-se e esticou com a ferocidade de uma víbora de aço, rebatendo os fios invisíveis com faíscas metálicas e avançando. Asuka serpenteou pelo ar e enrolou-se brutalmente ao redor do tornozelo do deus.
Ancorando as botas no ar com eletromagnetismo puro, Dante aplicou um puxão colossal. A força física absurda arrancou Lysander de sua pose arrogante, arrastando o Rei pelo ar em altíssima velocidade, direto para o punho fechado de Dante — a manopla Sora, que já uivava, superaquecida com uma carga letal de plasma.
A troca de golpes que se seguiu quebrou as leis da física. Lysander revelava um arsenal oculto — fios que secavam a energia do ar, redes capazes de fatiar dimensões, escudos tecidos com o próprio vácuo. Mas Dante engolia a todos. Sua inteligência tática afiada e sua Vontade inabalável superavam os limites do próprio corpo esfolado, forçando o Rei dos Pesadelos, segundo a segundo, para uma postura defensiva desesperada.
O Caçador repuxou o corpo desequilibrado de Lysander uma última vez. O punho escarlate de Sora estava a centímetros de vaporizar o crânio do deus.
Até que o ar cheirou fortemente a ozônio. Um clarão dourado retalhou o espaço entre eles.
Um impacto colossal, pesado como chumbo, explodiu contra a lateral do rosto de Dante. A bota invasora rompeu sua guarda com perfeição, ejetando o Caçador para longe antes que o plasma de Sora encontrasse o alvo.
Girando descontrolado pelo ar, Dante forçou o corpo a girar, cravando as botas em uma plataforma hexagonal de Safira com um estrondo. O cachecol Asuka chicoteou de volta para seu pescoço. Ele parou, ofegante, limpando uma nova linha de sangue da bochecha.
Flutuando entre o Caçador e o Rei, pairava um intruso.
Era um garoto loiro. O sorriso que rasgava seu rosto não era polido como o de Lysander; era selvagem, predatório. Os olhos do garoto faiscavam com pura eletricidade estática, e relâmpagos dourados e frenéticos dançavam e estalavam ao redor de seus punhos fechados.
Lysander aterrissou com leveza em suas próprias plataformas invisíveis, ajeitando a gola arruinada do terno. A irritação em sua feição era evidente.
— O que veio fazer aqui? — indagou o Rei.
O garoto loiro soltou uma risada ríspida, estalando o pescoço de um lado para o outro enquanto encarava Dante com fascínio assassino.
— Não é óbvio, Lysander? Vim porque quero ver de perto o poder absoluto que você me prometeu. Ficar só de plateia me dá um tédio infernal.
Ele virou o rosto parcialmente para o deus, o sorriso de predador dando lugar a um aviso frio.
— Eu vou ajudar. Mas só um pouco. Vou brincar com esse garotinho por você, te dar cobertura. Mas não esquece do nosso acordo: se você encostar as mãos naquele Livro e me decepcionar... eu mesmo arranco a sua cabeça. Fui claro?
Lysander não se ofendeu. Apenas sorriu, calculista, capitalizando a brecha perfeita. Com um movimento ágil, atirou um feixe de fios nas raízes flutuantes da Árvore Dourada muito acima deles. Como um pêndulo divino, o Rei foi içado em alta velocidade, retomando sua caçada implacável pelo núcleo exposto onde o Livro Sagrado repousava.
Dante trincou os dentes, com os músculos das pernas tensionando.
— Você não vai a lugar nenhum!
Ele dobrou os joelhos para o salto, mas a atmosfera acima dele zumbiu.
O loiro ergueu uma das mãos espalmadas para as nuvens.
— Aonde você acha que vai? O seu oponente agora sou eu.
Um estrondo que fez as ruínas da cidade tremerem engoliu o som da batalha. Das nuvens rasgadas, um pilar colossal de pura eletricidade branca desceu como a ira de um deus. O raio atingiu Dante em cheio antes que ele pudesse sequer piscar. A praça inteira foi banhada por um clarão cego e avassalador, com o calor estalando o ar ao redor.
O garoto loiro sorriu largo, já abaixando o braço, certo de que a luta havia terminado em um único movimento.
Mas, quando a cortina de luz e fumaça baixou... a silhueta de Dante continuava ali. Intacto.
A eletricidade branca não o havia queimado. Os raios ainda serpenteavam violentamente pela armadura escarlate, escorrendo por Asuka e mergulhando para dentro das manoplas de Sora. O corpo de Dante não apenas resistiu; ele devorou o choque. Os olhos bicolores do Caçador brilharam intensamente, sobrecarregados pela energia alheia processada como combustível fresco.
O sorriso do loiro congelou. Por uma fração de segundo, houve confusão. Então, a expressão vacilou e se alargou em algo francamente psicótico. Uma euforia genuína transbordou de seus olhos.
— Hah... então você absorveu tudo? — ele soltou uma risada baixa, assustadora. — Você também é um usuário de eletricidade, Caçador?
O loiro abaixou os braços e entrou em posição de combate. As faíscas douradas ao redor de seu corpo começaram a estalar e rugir em perfeita — e letal — sincronia com as correntes que escapavam de Dante. O ar entre os dois pesou, carregado de íons e promessas de destruição.
— Que ótimo. Maravilhoso! — o loiro gritou, com a voz ecoando como um trovão. — Vamos ver quem é o melhor manipulador de eletricidade dessa droga de mundo, então!
E, enquanto o ar crepitava em alta voltagem, preparando o palco para o duelo de raios, a silhueta de Lysander diminuía no céu escuro, a meros segundos de colocar as mãos na arma mais perigosa da criação.
Parte 10
O Rei dos Sonhos ascendia pelos céus rasgados. Puxado pela tração impecável de suas teias invisíveis — agora cravadas fundo nos galhos colossais da Árvore Dourada —, Lysander cortava o ar como um anjo reverso. O vento cósmico e carregado de cinzas chicoteava a pele de seu rosto, que ainda sibilava enquanto terminava de se curar, mas seus olhos escuros não estavam fixos apenas no prêmio brilhante acima.
Enquanto subia, o deus permitiu-se um olhar periférico para as bordas esfumaçadas da praça abaixo.
Ele as sentia. O ar ao redor daquelas ruínas estava denso, quase gelatinoso. As mesmas silhuetas inumanas e colossais, cuja mera presença havia congelado Ludmilla e Maysa no asfalto, continuavam lá. Imóveis. Silenciosas. Camufladas pelas sombras dos prédios estilhaçados, elas observavam a praça como espectadores de elite nas tribunas de um teatro apocalíptico, aguardando pacientemente o clímax da ópera.
O sorriso de Lysander alargou-se, polido e inabalável.
Deixem que assistam, pensou, a mente afiada trabalhando. Toda aquela aura esmagadora, todo aquele poder ancestral e bestial escondido na fumaça... nada daquilo significaria absolutamente nada no momento em que a capa de couro do Livro Sagrado tocasse as pontas de seus dedos. A hierarquia de todo o universo estava a exatos segundos de ser reescrita. Ele seria o autor.
Ainda assim, um leve traço de incômodo — uma curiosidade mórbida que arranhava sua perfeição calculista — cruzou a mente do Rei. Ele varreu o horizonte destruído com o olhar. Entre todos os "visitantes" indesejados que poderiam ter sido atraídos pelo cheiro de sangue e pelo Éter divino de Morpheus, a chegada daquelas feras em específico era uma anomalia ruidosa. Um erro de cálculo que nem mesmo ele havia previsto em seus vastos tabuleiros de xadrez.
O olhar de Lysander viajou para longe, muito além da praça central e das linhas retorcidas da cidade.
Lá, onde outrora se erguia a vasta, densa e enlouquecedora Floresta do Delírio — um labirinto onírico, verde e mortal —, agora não havia absolutamente nada. A floresta inteira havia sido varrida do mapa. Evaporada. Em seu lugar, bocejava uma cratera abissal com quilômetros de diâmetro. O buraco monstruoso parecia uma mordida na crosta do mundo, com suas bordas ainda derretendo em um magma incandescente e cuspindo relâmpagos residuais que estalavam no vácuo.
A cicatriz monumental de uma batalha que desafiava a própria lógica.
Mas, para compreender a magnitude da atrocidade cósmica que esculpiu aquela cratera... Para entender quem diabos era o garoto loiro, coberto de eletricidade e euforia, que agora cruzava os punhos com Dante no céu... Para descobrir como o temido pirata Drake Dampier acabou sangrando, esfarrapado e de joelhos no meio da rua... e, principalmente, para revelar o que aconteceu no mundo real enquanto a Arquiteta, o Caçador e as Princesas estavam trancados na ilusão do doce Universo de Papel...
Os ponteiros do relógio precisavam, obrigatoriamente, girar para trás. A narrativa precisava retroceder.



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