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The Fall of the Stars: Capítulo 6 - O Coração de Ferro e Seda

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 12 de fev.
  • 66 min de leitura

Volume 10 : Laços de Sangue


Entrelinhas 

Muito antes de o ferro substituir a carne, e muito antes de o ódio consumir o coração da filha, havia apenas a voz da mãe.

Nas noites em que as luas de Morpheus brilhavam com um tom doentio, lançando presságios ruins sobre o Palácio, a Rainha Isobel buscava refúgio no quarto da pequena princesa. Ela não trazia bonecas ou doces. Ela trazia um peso antigo.

Em suas mãos enluvadas, Isobel carregava um tomo retirado das seções proibidas da Biblioteca Celeste. Não era um livro de magia, nem um registro histórico dos Sonhos. Era um objeto alienígena. Sua capa grossa era de um azul-cobalto desbotado, sem brilho mágico, mas com uma textura áspera e real.

O que tornava aquele livro aterrorizante não era sua aparência, mas seu cheiro. Ao folhear as páginas amareladas, um aroma estranho invadia o quarto perfumado do palácio: cheiro de terra molhada, de papel envelhecido pelo tempo linear e de pó. Cheiro de um mundo distante e esquecido.

As letras impressas não flutuavam. Elas estavam fixas, estáticas, vibrando com uma energia seca e melancólica, como se o diário de um viajante condenado tivesse sido arremessado através das dimensões para pousar no colo dos Sonhos.

— Conte de novo, mamãe... — pedia a pequena Kiara, aninhada nos cobertores de seda, seus olhos bicolores já demonstrando uma inteligência voraz.

Isobel sorria, um sorriso triste e cansado. Aquela história cruel, paradoxalmente, a acalmava. Ela a recitava não como um conto de ninar, mas como uma oração. Como uma profecia inevitável. Mal sabia a Rainha que, ao pronunciar aquelas palavras, estava tecendo o destino da própria filha que um dia cairia.

Isobel abriu o livro. O som do papel seco estalou no silêncio do quarto. Sua voz assumiu um tom solene:

"Dizem as escrituras daquele Mundo Distante que, eras atrás, um homem fez um pacto com a Morte.

'Não me leve de surpresa', suplicou o mortal, tremendo em sua fragilidade de carne e osso. 'Envie-me mensageiros antes de vir, para que eu possa me preparar e me despedir do sol.'

A Morte, em sua infinita e fria paciência, concordou."

Isobel acariciou o cabelo loiro de Kiara. A menina ouvia atentamente, absorvendo cada palavra.

"Os anos passaram, e o homem viveu. Ele adoeceu e se curou; ele envelheceu e perdeu o vigor; ele dormiu mil noites e acordou mil manhãs. Até que, num dia qualquer, quando o céu parecia mais azul do que nunca, a mão fria tocou seu ombro:

— Vamos. Tua hora chegou.

O homem, ultrajado e cheio de pavor, gritou: 'Traidora! Quebraste tua palavra! Onde estão os mensageiros que prometeste? Eu não vi nenhum cavaleiro negro, nenhum aviso nos céus, nenhum sinal!'"

A voz de Isobel tornou-se um sussurro sibilante, imitando o vento uivando em ruínas antigas, trazendo a resposta da entidade:

"— Silêncio, tolo. Acaso não te enviei um arauto após o outro? A febre não veio e te fez delirar? A tontura não turvou tua visão? A dor não mordeu teus ossos e a fraqueza não dobrou teus joelhos? E, mais fiel que todos eles... o meu próprio irmão, o Sono, não se deitou contigo todas as noites?"

A Rainha dos Pesadelos fez uma pausa dramática. Kiara segurou a respiração.

"A Morte sorriu, sem alegria:

— O Sono te lembrava de mim a cada vez que fechavas os olhos. E tu, fingindo estar morto em teus sonhos, ignoraste que eu estava apenas treinando tua alma para este momento final."

Isobel fechou o livro com um som abafado e final.

O silêncio reinou. A história falava de conceitos que os Sonhos e Pesadelos mal conseguiam visualizar. Doença. Envelhecimento. Eram conceitos místicos, lúdicos e aterrorizantes demais para eles.

Ainda assim, aquele texto sem fundamento parecia tocar uma verdade proibida em suas almas artificiais.

Kiara olhou para o livro fechado sobre o colo da mãe. Seus dedos pequenos traçaram a contracapa, onde uma única palavra estava impressa em dourado descascado, indicando a autoria daquelas mentiras horríveis.

Um nome que, naquele mundo, não significava "contador de histórias", mas sim "Aquele que vê a Verdade". Um nome que causava terror apenas por ser lido.

GRIMM.

Parte 1

Há muitos ciclos, eras antes do Tempo retornar a Morpheus e do céu se abrir em feridas verdes. Antes de Dante pisar neste solo e muito antes de Kiara ser dada como morta.

Era a época em que o Circo da Meia-Noite não era uma lenda, mas uma praga ativa. Uma era de ferro e sangue que os historiadores, com um cinismo seguro e distante, chamariam de "A Era de Ouro".

Naquele tempo, o mundo não girava; ele tremia.

O Expresso da Meia-Noite, a fortaleza móvel que servia de coração pulsante para a revolução, não deslizava sobre os trilhos; ele violentava o caminho.

Era uma besta colossal de ferro negro, crivada de rebites expostos e sangrando ferrugem oleosa. Um animal mecânico que gritava vapor superaquecido e vomitava fumaça tóxica, rugindo contra a escuridão eterna da Terra de Ninguém. O som das rodas de aço esmagando os trilhos era uma cacofonia rítmica, uma música de guerra industrial — CLANG-THUD, CLANG-THUD — um trovão contínuo que faria qualquer homem comum tapar os ouvidos e rezar por silêncio.

Mas, dentro do Vagão de Comando, blindado e abafado, o silêncio era absoluto.

Lá fora, o caos mecânico. Aqui dentro, a gravidade esmagadora de uma única pessoa.

Kiara estava de pé, as mãos enluvadas espalmadas sobre uma mesa tática de metal frio, coberta de mapas rasgados, manchados de café velho e marcados com círculos de tinta vermelha que ainda parecia sangue fresco.

Ela não era a Rainha de vestido vitoriano e guarda-chuva de renda que o mundo temeria no futuro. Aquela era a Kiara da Sarjeta. A Kiara da Trincheira.

Sua pele pálida estava exposta ao frio cortante do vagão mal isolado. Ela vestia um top estilo marinheiro modificado, de tecido técnico preto e rasgado, que deixava a barriga à mostra — um abdômen definido, tenso como corda de violino, marcado por hematomas roxos e amarelos de combates corpo a corpo recentes.

No pescoço, uma gargantilha de couro grosso com fivelas de prata apertava sua garganta. Não era um adorno; era uma lembrança constante de que ela, e apenas ela, controlava a própria voz. Sobre os ombros, usada como uma capa solta, pendia uma jaqueta pesada, cheia de bolsos táticos e correias balançando. O couro da jaqueta não brilhava; estava fosco, lixado por escombros, queimado por explosões de Éter e manchado de graxa de motor.

Suas botas de combate, pesadas e reforçadas com biqueiras de aço, carregavam a lama seca de três distritos diferentes. Ela era uma realeza forjada no lixo.

— O momento é agora!

A voz de Mamon Sterling quebrou a tensão. Ele era mais jovem, menos polido, e o cheiro de desespero por ouro emanava dele mais forte que sua colônia barata. Ele bateu a mão na mesa com força, fazendo as peças de xadrez pularem e caírem.

— A Fronteira Norte do Éden está desguarnecida! Meus espiões confirmam: os Cavaleiros Reais recuaram para um festival estúpido na Capital. Se atacarmos a Cidade de Diamante hoje, podemos saquear os cofres celestiais antes mesmo que eles consigam vestir as armaduras! É lucro líquido, Kiara! É o saque do século!

— Mamon tem razão... — sibilou Ivy, a Inveja.

Ela estava encostada na parede de metal vibrante do vagão, girando uma adaga serrilhada entre os dedos com uma destreza nervosa e hipnótica. Seus olhos verdes brilhavam na penumbra, úmidos de cobiça e malícia.

— Por que esperar? O povo lá fora clama por sangue, não por estratégia. Eles querem ver os Sonhos queimarem, querem ver as torres brancas ficarem pretas de fuligem. Se não lhes dermos uma vitória agora, Kiara... — Ivy fez uma pausa teatral, deixando o veneno escorrer em cada sílaba. — ...eles podem começar a perder a confiança na "Líder".

A ameaça velada pairou no ar, densa e sufocante como a fumaça dos charutos que empesteava o vagão.

Kiara não se moveu. Seus olhos, contendo estrelas desenhadas geometricamente, continuavam fixos em um ponto específico do mapa, ignorando a ganância dos seus generais.

Suas orelhas pontudas emergiam dos cabelos amarelos desgrenhados e oleosos, tremendo levemente. Ela captava sons que ninguém mais ouvia: o ritmo do trem, o vento lá fora, a mentira no ar.

Seu olhar não estava na Cidade de Diamante. Estava na misteriosa Cidade da Meia-Noite. O local onde o verdadeiro castelo real ficava. O cofre que ninguém ousava olhar.

— Não.

A palavra foi dita baixo. Rouca. Mas o peso dela fez o vagão parecer subitamente menor e mais frio.

Kiara levantou o rosto lentamente do mapa. A iluminação amarelada e oscilante das lâmpadas de filamento projetou sombras duras em suas feições, transformando seu rosto jovem em uma máscara de caveira cansada.

— Nós não vamos para o Norte. O trem vai dar meia-volta.

— Meia-volta?! — Mamon engasgou, puxando o colarinho, incrédulo, como se ela tivesse sugerido queimar dinheiro. — Para quê? Não existe nada atrás de nós que valha a pena!

— Algo está errado — disse Kiara, a voz monocórdica.

Ela levou a mão enluvada ao peito, sobre o coração, onde um instinto primal pulsava mais forte e mais ritmado que os pistões do trem.

— A Capital Real... desprotegida? O lugar que guarda a presença do Rei e da Princesa? — Ela olhou para os Lordes, seus olhos estreitando-se. — É obviamente uma armadilha. Um palco montado para idiotas gananciosos.

— E daí? — Ivy desencostou da parede, a frustração vencendo a cautela. — Não vai me dizer que a grande Kiara está com medo de uma armadilha do Rei dos Sonhos? Tenho certeza de que se fizéssemos um ataque com força total venceríamos qualquer...

Kiara virou a cabeça.

O movimento não foi humano; foi mecânico, lento, predatório.

Seus olhos vermelhos perfuraram Ivy. Não houve brilho de magia. Não houve grito. Não houve aura de poder explodindo. Havia apenas a pressão atmosférica de uma predadora de topo encarando um animal menor e barulhento que acabara de cometer um erro fatal na selva errada.

Ivy travou.

A adaga parou de girar entre seus dedos instantaneamente. A ousadia em seu rosto derreteu, transformando-se em instinto de preservação puro. A Inveja baixou os olhos, engolindo em seco, e recuou meio passo para as sombras, sentindo o suor frio escorrer pelas costas. Era como se a luz sobre Kiara a queimasse fisicamente.

Mamon, vendo a recuada patética de Ivy, abraçou a própria pasta de documentos contra o peito como um escudo inútil, encolhendo os ombros. A ganância dele murchou e morreu diante do terror silencioso que aquela garota inspirava.

Ninguém ousava questionar a segunda ordem.

— Preparem os vagões de carga — ordenou Kiara, a voz voltando a ser fria e metálica, ignorando o medo deles como se fosse irrelevante. — Mantenham o Circo em alerta máximo nas fronteiras. Se os Sonhos atacarem, segurem a linha com suas vidas.

Ela caminhou em direção à porta de saída lateral, suas botas pesadas soando como sentenças de morte no piso de metal. O vento uivante lá fora entrava pelas frestas, sibilando como serpentes.

— Mas... e você? — perguntou Aslan, o Orgulho. Ele observava tudo de um canto escuro, de braços cruzados, em silêncio calculista. — Se planeja sair para investigar algo sozinha, deveria levar Gula ou Preguiça. É ilógico ir sem suporte.

— Não.

Kiara chutou a alavanca de segurança.

CLANG!

A porta pesada de ferro deslizou, abrindo-se para o abismo veloz. O rugido do trem invadiu o vagão, violento e ensurdecedor, agitando os cabelos loiros de Kiara e fazendo sua jaqueta-capa bater como as asas de um corvo prestes a levantar voo.

— Se o que eu sinto for verdade... furtividade será mais útil que força bruta.

Ela olhou para trás uma última vez, por cima do ombro, para os Lordes encolhidos sob sua autoridade absoluta. Um sorriso sem humor, afiado como navalha, tocou seus lábios.

— Eu vou sozinha.

Sem hesitar, Kiara saltou do trem em movimento. Ela mergulhou na escuridão da noite de Gehenna, desaparecendo na fumaça e no vapor, deixando para trás um grupo de monstros que temiam sua líder muito mais do que temiam qualquer exército inimigo.

Parte 2

A Cidade da Meia-Noite não estava dormindo. Ela estava clinicamente morta.

Não era a morte orgânica, que cheira a terra úmida, decomposição natural e ciclos de vida. Era uma morte esterilizada, preservada em formol e esquecida em uma prateleira empoeirada.

Kiara caminhava pelas ruas de paralelepípedos negros, e o som de suas botas de combate não ecoava. O barulho morria assim que tocava o chão, absorvido por uma arquitetura opressiva que parecia feita de esponja acústica e pesadelo sólido.

Os prédios ao seu redor não pareciam lares. As janelas eram escuras demais, simétricas demais. Pareciam cenários de papelão pintado, fachadas ocas erguidas às pressas por um cenógrafo preguiçoso para convencer um público cego de que ali vivia uma civilização.

Não havia lixo nas sarjetas. Não havia ratos nos becos. Não havia o cheiro de comida, suor ou esgoto. Havia apenas o cheiro seco de verniz velho e poeira estática.

E havia os guardas.

Eles estavam postados em cada esquina, imóveis como gárgulas de jardim sob o luar inexistente. Não usavam os uniformes de couro batido e metal da Guarda Real de Isobel, nem a armadura cintilante dos Cavaleiros Reais que Kiara conhecia e odiava.

Vestiam túnicas longas, de um tecido cinza que não reagia ao vento, escondendo as mãos e os pés, flutuando a centímetros do chão como fantasmas burocráticos.

Mas eram os rostos que faziam o estômago de Kiara revirar em um nó frio. Eles não tinham faces.

No lugar da pele, usavam máscaras de porcelana branca, polidas e brilhantes. E cada máscara trazia uma única expressão pintada com um realismo grotesco e exagerado: uma gargalhada histérica com a boca rasgada até as orelhas; um choro convulsivo com lágrimas pintadas de preto; uma raiva congelada com sobrancelhas arqueadas.

Eles não a pararam. Mas, conforme ela passava, as máscaras de "Alegria" e "Tristeza" giravam as cabeças lentamente em seus pescoços, rangendo como cerâmica não lubrificada, seguindo-a com os buracos vazios e negros onde deveriam estar os olhos.

— Bonecos... — Kiara sussurrou, a repulsa fazendo sua pele arrepiar. Ela apertou o punho até as luvas rangerem. — Isso não é uma cidade. É um palco abandonado.

Ela chegou aos portões do Castelo Real. Estavam escancarados. Não havia trancas, nem sentinelas de elite. Apenas a boca escura e faminta da entrada, convidando-a a entrar na barriga da besta.

Kiara entrou. O interior do castelo não tinha a decadência gótica e familiar de sua infância. Estava limpo. Cirurgicamente limpo. As tochas nas paredes queimavam com um fogo frio, azulado e sem fumaça, que iluminava sem aquecer.

Ela atravessou o saguão principal, seus passos solitários parecendo um sacrilégio naquele templo de silêncio, e entrou na Grande Galeria.

Quadros imensos, emoldurados em ouro maciço, cobriam a pedra do chão ao teto abobadado. Eram pinturas a óleo, mas a textura da tinta parecia úmida, viscosa e tridimensional, como se os rostos retratados estivessem tentando empurrar a tela para sair para o mundo real. Eles pareciam gritar em silêncio.

Kiara parou diante do primeiro quadro. E sentiu uma náusea violenta, física, subir por sua garganta como ácido.

Era Isobel. Mas não a Isobel que a criou — a guerreira marcada por cicatrizes, com olhos cansados de ver gente morrer e mãos calejadas pela espada. A mulher na pintura usava um vestido de baile branco, vaporoso, feito de luz e nuvens. Uma tiara de diamantes brilhava em seus cabelos escuros e soltos. Ela estava em um jardim ensolarado, segurando um buquê de lírios, sorrindo com uma inocência virginal que nunca existiu.

— Isobel... vestida como uma Princesa dos Sonhos? — Kiara recuou um passo, a bile queimando sua boca.

A imagem era uma blasfêmia visual. Ver sua mãe adotiva, a encarnação das sombras e da resistência, vestida com as cores do inimigo opressor... parecia uma piada de mau gosto. Parecia errado em um nível celular.

Ao lado dessa pintura, havia outra. Um jovem. Cabelos pretos como azeviche, pele pálida, olhos vermelhos que pareciam olhar através da tinta. Ele vestia roupas de príncipe, elegantes, e segurava um livro com desinteresse escrito Bíblia Sagrada na capa.

— Lysander... — Kiara reconheceu o Rei.

Mas ele parecia... menos divino. Jovem. Ele parecia apenas um garoto triste e entediado.

Mas foi quando seus olhos correram para o resto da galeria que a verdadeira loucura se instalou.

Havia retratos de um casal real que ela nunca vira. Um homem e uma mulher, majestosos, com coroas de luz pura, sentados em tronos de nuvens. Os pais de Lysander?

"Impossível", a mente de Kiara tentou rejeitar, entrando em curto-circuito lógico. "A História diz que o Rei surgiu do nada... Os livros afirmam que nunca houve outros reis antes dele..."

E então, a simetria do horror se revelou.

Para cada quadro "Real" e iluminado, havia um espelho distorcido ao lado.

Ao lado do Rei e da Rainha desconhecidos, havia um quadro idêntico em composição, mas as figuras eram feitas de fumaça negra sólida e óleo. Silhuetas sem rosto, vestindo as cores pretas e vermelhas de Gehenna. O "Rei Sombra" e a "Rainha Sombra".

Ao lado da "Isobel de Branco", havia sua contraparte. Uma silhueta feminina feita de trevas puras, sem rosto, sem olhos, mas cuja postura exalava uma tristeza suicida. A Isobel Sombra.

Kiara correu os olhos pela galeria, o coração batendo descompassado contra as costelas, a respiração curta. Rei Sombra. Rainha Sombra. Isobel Sombra. A dualidade binária do mundo. Luz e Escuridão. Sonho e Pesadelo. Reflexo e Original.

Mas quando ela olhou para o quadro do jovem Príncipe Lysander...

Não havia espelho.

Ao lado dele, a parede estava vazia. Nua. Fria.

Não havia "Lysander Sombra". Ele era o único ser naquela galeria maldita que não tinha uma contraparte escura. Ele não tinha reflexo no abismo. Ele era uma singularidade. Uma anomalia que quebrava a regra binária do próprio universo que ele governava.

— O que é isso...? — Kiara girou sobre os calcanhares, sentindo-se observada pelas mil máscaras pintadas nas telas e pelos bonecos lá fora. — Uma peça de teatro? Uma piada cósmica? Onde está a verdade?!

O silêncio do castelo respondeu com um peso esmagador. Tudo ali gritava que a realidade que ela conhecia — a guerra santa entre Sonhos e Pesadelos, a história dos reinos, o ódio — era uma fabricação. Um roteiro mal escrito, encenado por bonecos de porcelana, para esconder uma verdade muito mais feia, solitária e quebrada.

Shiiiing.

O som de metal se movendo rasgou o silêncio teatral como um grito de socorro.

Kiara não pensou. Ignorando a furtividade, ignorando as sombras, ela disparou em direção ao barulho, suas botas golpeando o chão sagrado com a urgência de quem precisa desesperadamente encontrar algo vivo naquele mausoléu. 

Parte 3

Kiara correu em direção ao som do metal, a espada desembainhada cortando o ar úmido. Mas ela não encontrou uma batalha na Sala do Trono.

Em vez disso, a acústica traiçoeira do castelo a guiou para baixo. Para as entranhas.

A escadaria em espiral, estreita e vertiginosa, descia para a escuridão absoluta. O cheiro de verniz, poeira estática e limpeza cirúrgica do "palco" lá em cima foi violentamente substituído pelo odor honesto e brutal de ferrugem, umidade, mofo e excremento antigo.

Ela desceu, degrau por degrau, o coração batendo na garganta como um pássaro preso em uma gaiola torácica pequena demais. A cada metro, o ar ficava mais pesado, mais quente, mais real.

No final do corredor de pedra bruta, iluminado por tochas que crepitavam com um fogo laranja, sujo e fuliginoso, ela encontrou a fonte do barulho.

Não era um duelo épico. Era apenas um homem entediado testando a resistência de seus brinquedos.

Killian Landry.

Ele estava lá, acorrentado à parede de granito como um titã caído. Sua barba era mais curta e escura do que seria no futuro distante, quando encontrasse Yuki, e seus músculos, cobertos de fuligem e cicatrizes, ainda retinham a memória recente e inchada de batalhas colossais travadas contra deuses.

CLANG. RRRRUMBLE.

Ele puxava as correntes de ferro negro com os braços, fazendo-as cantar e estalar contra a pedra, apenas para passar o tempo. Ele não estava tentando fugir; estava apenas se espreguiçando, testando a integridade estrutural da montanha que o prendia.

Quando a silhueta de Kiara entrou na luz trêmula da tocha, ele parou. O metal silenciou.

Os olhos escuros e loucos dele a varreram de baixo a cima. Ele viu as botas sujas de lama de três reinos, a jaqueta de couro rasgada, a gargantilha de escrava no pescoço e a espada trêmula na mão.

E então, ele sorriu.

— ZAHAHAHAHA!

A risada explodiu na masmorra, grave e sísmica, fazendo a poeira cair do teto e dançar na luz do fogo.

— Olha só o que o gato arrastou para dentro! — Killian rugiu, a voz rouca cheia de uma alegria genuína e perturbadora. — Uma ratinha da superfície! Veio me libertar, Princesa da Sarjeta? Se fizer, prometo matar qualquer um que seja seu inimigo, ou amigo, dependendo do meu humor!

— Quem é você? — ela perguntou, a voz fria, lutando para manter a postura diante daquele monstro acorrentado, mas seus joelhos ainda tremiam com as verdades que descobrira lá em cima. — Por que está vivo aqui embaixo enquanto a cidade lá em cima está morta e cheia de bonecos?

Killian ignorou a pergunta. Ele inclinou a cabeça para a frente, esticando o pescoço o máximo que a coleira de ferro permitia, e fungou o ar ruidosamente, como um cão de caça farejando o medo na presa.

Suas narinas dilataram-se.

— Hum... — O sorriso debochado dele vacilou por um segundo, transformando-se em uma expressão de curiosidade técnica e predatória. — Que cheiro interessante. Ozônio... Rosas queimadas... sangue velho... e algo mais denso.

Ele olhou nos olhos dela. E viu. Não a garota punk da sarjeta. Ele viu a assinatura de Éter que queimava sob a pele pálida como um reator nuclear instável. Uma mistura caótica e poderosa de cores que ele conhecia muito bem.

— Ah, entendi. — Killian relaxou, encostando a cabeça na parede fria de pedra, balançando os pés suspensos. — O papai te pediu para descer aqui e ver se eu já não estava morto? Que atencioso da parte dele.

Kiara franziu a testa, a confusão lutando com a raiva.

— Do que você está falando, seu louco? Eu não tenho pai. Sou órfã de guerra.

Killian piscou. Depois, soltou uma risada curta, seca e incrédula.

— Órfã? Zahahaha! Essa é boa! — Ele balançou a cabeça, como se ela tivesse contado uma piada interna hilária. — Garota, você pode se vestir como um rato de esgoto, pode agir como uma delinquente... mas saiba que eu sou capaz de sentir o cheiro da sua alma daqui.

Ele apontou o queixo barbudo para ela, acusatório.

— Você fede a ele. A sua alma tem a mesma assinatura daquele pirralho arrogante. E esses olhos...

Killian sorriu, mostrando os dentes amarelos em um esgar de lobo.

— Você tem o olhar assassino da Isobel quando ela está prestes a decapitar alguém, misturado com o tédio existencial daquele bastardo do Lysander.

Kiara congelou. O nome atingiu seus ouvidos como um som agudo, físico e doloroso, como uma agulha perfurando o tímpano.

— O quê...?

— Lysander. O Rei. Aquele engomadinho que senta no trono lá em cima e brinca de Deus. — Killian falou com a casualidade de quem comenta sobre o clima chuvoso. — Quer dizer, isso se ninguém tiver arrancado a cabeça dele como fizeram com o último rei... Zahahaha!

Enquanto o homem continuava a falar e gargalhar, Kiara entrou em um choque tão profundo que foi como se o mundo ao redor tivesse desaparecido. O som da voz dele tornou-se abafado, distante, como se ela estivesse debaixo d'água.

— Eu jurei que a filha dele acabaria sendo uma Princesa mimada, mas pelas suas roupas você acabou diferente daquele idiota. Então me diga, como está aquele desgraçado? Por que ele não apareceu mais por aqui?

O mundo de Kiara parou. Não houve explosão. Não houve ataque. Houve apenas o som de uma peça de vidro caindo dentro de sua mente e se estilhaçando em milhões de fragmentos irreversíveis.

"Lysander... é seu pai."

A frase ecoou. Repetiu. Distorceu.

— Não... — Kiara sussurrou, dando um passo trêmulo para trás, as botas raspando na pedra. — Isso é mentira. Eu sou um Pesadelo. Ele é um Sonho. A guerra dura milênios... Isobel... Isobel me salvou do incêndio na Cidade das Rosas...

— Cidade das Rosas? — Killian interrompeu, revirando os olhos, completamente desinteressado na crise existencial dela. — Ah, faz sentido. Eles costumavam se encontrar lá escondidos. Aquele bastardo criou a filha na cidade onde se apaixonou? Zahahahaha! Que romântico. Que clichê.

Click. Click. Click.

As peças do quebra-cabeça começaram a se encaixar sozinhas, violentamente, forçando a entrada no cérebro de Kiara.

O quadro na galeria lá em cima: Isobel vestida de branco, feliz, ao lado de um jovem Rei. A infância de Kiara: fragmentos de memórias que ela tentou bloquear. Um jardim ensolarado. Não era um orfanato sujo. Era uma mansão. Ela não vivia na rua; ela vivia no luxo antes do fogo. O tratamento de Isobel: por que a Rainha dos Pesadelos salvaria uma única criança no meio de um ataque genocida? Por que a criaria, a treinaria, a protegeria com tanto zelo?

"Não porque eu era uma órfã sortuda", a mente de Kiara gritou, a lógica fria dissecando sua própria vida com um bisturi. "Mas porque eu era..."

Uma onda de calor subiu pelo estômago de Kiara. Seu sangue, aquele sangue que ela derramou em arenas e trincheiras, de repente parecia ácido corrosivo em suas veias. Ela sentiu sua própria biologia se rebelar. Metade dela era o monstro que ela jurou destruir.

— Ugh...

CLANG.

Kiara largou a espada. O som metálico foi abafado pelo baque surdo de seus joelhos caindo na sujeira da masmorra.

Ela vomitou. Não foi apenas um enjoo nervoso. Foi uma rejeição visceral. Kiara vomitou bile e saliva no chão de pedra, o corpo convulsionando violentamente, os ombros sacudindo em espasmos, como se tentasse expelir a própria linhagem, drenar o sangue dourado que corria escondido sob o roxo.

— Lysander... é meu pai... — Ela engasgou, limpando a boca com as costas da mão trêmula, os olhos arregalados de horror, fixos no vômito. — E Isobel... minha mãe...

A mulher que a treinou. A mulher que ela amava e servia. Toda a sua vida. Toda a sua luta. A Revolução. O ódio aos Sonhos. Os amigos que ela viu morrer. Tudo era uma mentira construída sobre um romance proibido.

Killian observou a cena lá de cima, a diversão diminuindo ligeiramente, substituída por uma curiosidade antropológica mórbida.

— Opa... — ele murmurou, coçando a barba com o ombro, o metal das correntes tilintando suavemente. — Pela sua reação colorida no chão... eu deduzo que isso era segredo de Estado?

Kiara ergueu o rosto. Seus olhos, antes focados e guerreiros, estavam vermelhos, injetados de lágrimas de fúria e bile. O Éter ao redor dela começou a falhar, piscando como uma lâmpada prestes a queimar.

— Ei, pirralha, o que está acontecendo lá em cima? Aquele bastardo não apareceu para me contar mais nada depois que virou Rei. O que ele fez com Isobel? O que ele fez com a outra criança? — Killian começou a se debater nas correntes, puxando o ferro, desesperado para entender o que tinha perdido.

Kiara não conseguia mais ouvi-lo. O som do mundo havia sumido, substituído pelo ruído branco da confusão e do desespero absoluto.

Ela se levantou, trêmula, como um recém-nascido aprendendo a andar. Limpou o resto de vômito da boca. E começou a andar.

Ela não olhou para Killian. Ela não disse uma palavra. Ela se virou para a escada.

Sua mente quebrada parou de processar, parou de sentir. O choque foi tão grande que desligou a humanidade. Ela não via mais as paredes, nem as tochas, nem o prisioneiro gritando perguntas nas suas costas. Ela era apenas um corpo oco se movendo sem rumo, voltando para a escuridão de onde viera.

Parte 4

Kiara não voltou para o trem.

Ela ignorou os trilhos de ferro que levavam à segurança relativa de sua fortaleza móvel. Ignorou os gritos distantes, confusos e amedrontados de seus generais. Ela simplesmente virou as costas para a lógica e mergulhou na Floresta dos Lamentos, a cintura de árvores mortas que cercava a capital como uma coroa de espinhos.

Ela corria.

Não como uma guerreira em marcha tática, economizando fôlego para o combate. Ela corria como um animal ferido, cego pelo pânico, tentando fugir não de um predador externo, mas do próprio sangue que fervia em suas veias.

Os galhos secos e negros, retorcidos como dedos de cadáveres fossilizados, rasgavam sua jaqueta de couro e desenhavam mapas de sangue na pele exposta de seu rosto. Mas a dor física era um alívio. Era uma distração bem-vinda, necessária para abafar a agonia que explodia em sua mente como granadas de fragmentação.

— Mentira... tudo mentira... — ela ofegava, a voz rouca, tropeçando em raízes expostas que pareciam tentar agarrar seus tornozelos e arrastá-la para o subsolo.

Ela caiu na lama fria e oleosa. O gosto de terra encheu sua boca. Levantou-se, cuspindo lodo. Caiu de novo. Impulsionada por um horror que não tinha nome, ela continuou se arrastando, de quatro, até chegar a uma clareira onde o ar estagnado cheirava a enxofre e podridão antiga.

Suas pernas finalmente cederam. Kiara desabou contra o tronco oco de uma árvore morta, abraçando o próprio corpo, cravando as unhas nos braços até sangrar, tentando impedir que sua existência se desfizesse ali mesmo.

A imagem de Isobel vestida de branco na galeria não saía de sua cabeça. A imagem de Lysander jovem, com aquele olhar entediado e solitário, queimava em suas retinas.

"Eles eram amantes?..."

A mente ingênua de uma criança, desesperada por significado, implorava para acreditar nisso. Queria acreditar que ela nascera do amor, mesmo que fosse um amor trágico, proibido e condenado. Seria poético. Seria suportável. Seria Romeu e Julieta.

Mas Kiara não era mais uma criança. Ela era uma veterana da "Era de Ouro" sangrenta. Ela viu o pior da humanidade e dos monstros nas trincheiras de lama da Terra de Ninguém. Ela sabia que o mundo não operava com poesia; operava com poder e submissão.

E, de repente, no silêncio ensurdecedor da floresta, uma memória antiga — trancada a sete chaves no porão mais profundo de seu subconsciente — arrombou a porta.

O castelo de Isolde. Aposentos privados da Rainha. O cheiro reconfortante e quente de chá de jasmim e papel velho. Kiara era pequena. Tinha acabado de vencer uma partida de xadrez contra um general. Isobel sorrira. Um sorriso raro, precioso. Feliz, a pequena Kiara correu para abraçar a "mãe".

Mas naquele dia, o impacto que sentiu não veio de um abraço quente. Veio de um empurrão violento.

Kiara voou para trás, caindo no tapete persa, confusa, os olhos enchendo-se de lágrimas. Ela olhou para cima. A Rainha Isobel, a guerreira mais forte de Gehenna, a mulher que matava demônios com as próprias mãos, estava encolhida no canto mais escuro da sala, tremendo como uma folha ao vento.

Ela estava vomitando. Bile pura no chão limpo. E estava esfregando a pele do braço. O lugar exato onde a pequena Kiara a tocara. Ela esfregava com tanta força, com tanta repulsa frenética, que as unhas rasgaram a pele e o sangue começou a escorrer, misturando-se à sujeira imaginária.

Ela tentava limpar uma mancha que não estava na pele, mas na alma. O olhar nos olhos de Isobel, fixos em Kiara, não era raiva. Era terror absoluto. O terror de uma presa que vê o predador voltar para terminar o serviço.

— Não... — Kiara sussurrou para a escuridão da floresta, os olhos arregalados, a respiração travando no peito.

Na época, a criança pensou que Isobel a odiasse. Que ela, Kiara, fosse suja, indigna, um erro. Mas agora... agora, com a mente de uma adulta que vira a face da guerra, ela reconhecia aquele olhar.

Ela vira o mesmo olhar dezenas de vezes nos campos de batalha. Nos olhos vazios das escravas resgatadas dos bordéis clandestinos. Nos olhos das mulheres que foram usadas como brinquedos pelos "heróis" e descartadas como lixo.

Não era ódio. Era TEPT. Transtorno de Estresse Pós-Traumático.

Isobel tinha aversão ao toque não porque era fria, mas porque o toque de Kiara — o toque de alguém com a mesma aura de Lysander — lhe trazia a memória física de uma violação.

A lógica de Kiara, afiada como uma lâmina de guilhotina, dissecou o passado sem anestesia.

Se Isobel era a Rainha dos Pesadelos... a líder da resistência... E Lysander era o Rei dos Sonhos... o Deus onipotente... E ela era a filha dos dois...

A conclusão atingiu Kiara com a força cinética de um martelo de guerra no estômago.

Não foi um romance. Não houve flores roubadas em jardins secretos. O Rei dos Sonhos não amou a Rainha dos Pesadelos. Ele a quebrou. Ele a tomou. Ele forçou sua divindade sobre ela, deixando Isobel com as cicatrizes invisíveis de um abuso tão profundo que ela não suportava nem o toque da própria filha que tentou salvar, porque a filha tinha o cheiro dele.

— Ele... ele fez aquilo com ela.

A respiração de Kiara parou. O choro convulsivo cessou instantaneamente. As lágrimas em seu rosto secaram, não pelo vento, mas pelo calor súbito e febril que emanou de sua pele.

O vômito na masmorra, o nojo de sua própria linhagem, a vergonha infantil de ser uma "bastarda"... tudo isso evaporou.

O que restou no lugar foi algo sólido, frio, pesado e infinitamente mais perigoso.

Ódio.

Não o ódio político e abstrato contra uma raça inimiga. Mas o ódio pessoal, visceral, atômico. O ódio de uma filha que acaba de descobrir o nome, o rosto e o endereço do monstro que destruiu a vida de sua mãe.

Kiara levantou-se.

A lama em suas botas e em seu rosto não parecia mais sujeira; parecia pintura de guerra tribal. Ela limpou o filete de sangue do lábio com as costas da mão, espalhando o vermelho sobre a pele pálida como um borrão de violência.

Seus olhos se abriram na escuridão da floresta. As estrelas geométricas em suas íris giraram e brilharam com uma luz nova. O Éter ao redor dela escureceu, tornando-se denso, pesado como a gravidade de um buraco negro prestes a colapsar.

— Esse mundo... esse mundo distorcido... foi ele quem criou... — A voz dela não tremeu. Era aço. — E para eu mudá-lo...

Kiara começou a colocar suas ambições, seus desejos sombrios e sua fúria em palavras, confessando seus pecados para as árvores mortas.

E a floresta respondeu.

Naquele momento, dezenas, centenas, milhares de pontos de luz carmesim começaram a emanar da própria terra podre. Não eram vagalumes. Eram Borboletas do Caos.

Eram as almas, os desejos não realizados, os rancores de milhares de pessoas que morreram naquela terra de ninguém, esquecidos pelos Sonhos e usados pelos Pesadelos. As vontades que continuavam perambulando em busca de um avatar, de um vingador.

Elas encontraram sua Rainha.

O enxame espiralou ao redor dela, um tornado de asas vermelhas e energia necrótica. As borboletas pousaram sobre seu corpo, fundindo-se com o tecido rasgado, com o couro, com a pele. Elas teceram, ali mesmo, seu novo vestido de chamas sólidas e sombras. Elas pousaram em seus cabelos loiros e sujos, cristalizando-se em uma coroa de fogo e autoridade absoluta.

Kiara não chorava mais. As lágrimas haviam se tornado combustível.

— Eu vou destruir o Rei dos Sonhos... — A promessa foi feita ao vazio, e o vazio estremeceu.

Ela olhou na direção da Cidade de Cristal, muito além do horizonte, onde seu "Pai" estava sentado em um trono de mentiras, olhando para o futuro, sem saber que o passado estava vindo para decapitá-lo.

A "Rebelde" da sarjeta havia morrido naquela floresta, chorando na lama. E, em meio à sua coroação de fogo e sangue, a Rainha Negra finalmente nasceu.

Parte 5

Dias haviam se passado desde que a menina chorou sangue na floresta.

Quando Kiara voltou ao Expresso da Meia-Noite, ela não trouxe consigo a lama da floresta, nem o cheiro de vômito, nem os tremores do abuso recém-descoberto. Ela deixou a garota órfã enterrada entre as raízes mortas.

Quem subiu a escada de ferro do vagão de comando não foi a Rebelde. Foi a Rainha.

Ela entrou. A porta pesada se fechou atrás dela com um clang definitivo. Mamon, que contava pilhas de moedas de ouro roubadas, parou com uma moeda no ar. Ivy, que afiava suas adagas com veneno, congelou.

A aura de Kiara havia mudado. Não era mais o fogo selvagem e instável de uma adolescente com raiva do sistema. Era um frio absoluto, controlado e denso, como a gravidade de uma estrela morta.

— Relatório. — Foi a única coisa que ela disse. A voz não admitia réplicas.

E o relatório era desastroso.

— O Norte está trancado, Kiara. — Mamon jogou os mapas táticos sobre a mesa de metal, a frustração transbordando. — Uma nova Cavaleira Real foi nomeada para proteger a fronteira. Saga, a Santa da Ordem.

Ele apontou um dedo trêmulo para a Cidade de Diamante no mapa.

— A mulher é um radar vivo. A habilidade dela, Oblast, cria uma cúpula de onisciência absoluta. Nada entra, nada sai, nada respira sem que ela saiba.

Kiara olhou para o mapa. Seus olhos vermelhos não piscaram. A informação foi processada, arquivada e dissecada em milissegundos.

— Onde estão os outros Cavaleiros?

— Espalhados — Ivy respondeu, desencostando da parede, desconfortável com a nova pressão no ar. — Irene está patrulhando o Sul. Alone se isolou nas montanhas causando destruição em massa. Mas Saga... ela nunca dorme.

Kiara traçou uma linha no mapa com a unha suja de terra seca. O som foi agudo.

— Mamon, Ivy, Aslan e Satan. Peguem o grosso do exército. Ataquem a cidade de Wonder.

— O quê? — Mamon engasgou. — Wonder? Mas nosso alvo é a Capital!

— Façam barulho — Kiara cortou, ignorando o protesto. — Muito barulho. Explodam os reservatórios de Éter. Queimem o céu.

— Uma distração... — Aslan, o Orgulho, ergueu uma sobrancelha, compreendendo a lógica cruel. — Para tirar os Cavaleiros de posição?

— Para deixar Saga sozinha — corrigiu Kiara, os olhos brilhando com uma malícia tática. — Ela é orgulhosa. A "Visão Perfeita" é a maior fraqueza dela. Ela vai confiar na própria onisciência, vai ver o ataque no Leste e mandará as tropas auxiliares para lá. Ela vai achar que pode segurar a Capital sozinha porque se considera intocável.

— E você? — perguntou Ivy, cética. — Vai tentar passar pela mulher que vê o futuro? Vai virar fumaça?

Kiara virou as costas, a jaqueta-capa farfalhando como as asas de um anjo caído.

— Eu vou passar pela porta da frente. E ela vai abrir para mim.

Horas depois. Portões da Cidade de Diamante.

O caos ardia no horizonte leste. Colunas de fumaça negra e oleosa subiam ao céu, pintando as nuvens perfeitas do Éden de cinza-guerra.

Mas nos portões brancos e imaculados da capital, reinava o silêncio absoluto.

Saga estava lá. Ela era mais jovem na época, mas sua postura era idêntica à santa intocada que seria no futuro. Os olhos fechados, as mãos sobre as pernas.

Uma barreira invisível de percepção divina emanava de seu corpo em ondas concêntricas.

Dentro de sua mente, o mundo não era físico; era um mapa 3D de dados puros. Ela sentia a vibração molecular das folhas na Floresta do Delírio a quilômetros de distância. Sentia o batimento cardíaco dos guardas nas muralhas atrás dela. Sentia a temperatura do núcleo da terra.

E sentiu a intrusa.

Saga não precisou abrir os olhos físicos.

— Você é tola, Criança dos Pesadelos.

A voz de Saga ecoou, calma, polifônica e autoritária.

— Eu vi você saindo da orla da floresta. E eu vejo você agora, parada a vinte metros de mim, atrás daquela rocha de granito.

Kiara saiu de trás da pedra. Ela não correu. Ela não se escondeu nas sombras. Ela não sacou a espada. Ela caminhou calmamente pelo caminho principal pavimentado, as botas de combate esmagando o cascalho branco com um som rítmico e insolente. Crunch. Crunch. Crunch.

— Dê meia-volta — ordenou Saga, a pressão de seu Éter aumentando, fazendo o ar vibrar. — Ou será vaporizada. Minha visão é absoluta. Não há ponto cego no meu mundo.

Kiara continuou andando. Dez metros.

— Eu disse para parar.

Cinco metros.

Saga franziu a testa suavemente. A audácia daquela invasora era ilógica. Ela levantou a mão direita, a palma aberta, preparando um feixe de luz concentrada para deletar a ameaça da existência.

— Você vê tudo, Saga? — A voz de Kiara era baixa, desprovida de medo, carregada de um tédio real. — Isso deve ser cansativo. Ver cada detalhe sujo, cada falha, cada pecado deste mundo podre o tempo todo.

Kiara parou a dois metros da Cavaleira Real. Dentro da zona de morte.

Os olhos de Saga se abriram. Brancos, sem pupilas, brilhando com o poder infinito do Oblast.

— Eu vejo você. E vejo sua morte.

Kiara sorriu.

— Seu erro foi não ter me matado assim que escutou minha voz — sussurrou Kiara.

— Sério? Só isso? Então é um erro que eu posso corrigir bem facilmente. — Saga disparou um raio de luz que se moveu em alta velocidade, pronto para matar a garota que parecia não se abalar com nada.

Kiara deu mais um passo à frente. Sem hesitar, Saga atacou. O golpe de luz veio em sua direção com força total.

— Nova Regra — declarou Kiara, a voz ressoando não nos ouvidos, mas como um trovão dentro do crânio de Saga. — Você é a Observadora Perfeita. Mas a partir de agora... eu sou o seu Ponto Cego.

O comando foi absoluto. Biológico. Divino.

— Você não vai me ver. Você não vai me ouvir. Você não vai sentir meu cheiro. Para a sua mente, eu — e tudo à minha volta — deixarei de existir.

O golpe de luz acertou o local onde Kiara estava. Fumaça subiu ao céu. Saga ficou olhando sem entender o que havia acontecido; sua mente simplesmente esqueceu o que estava fazendo. Ela olhava para o local onde atirou, perguntando-se o motivo disso.

A Cavaleira piscou. Ela olhou para a esquerda, para a direita. O Oblast lhe dizia que havia alguém ali um milissegundo atrás. Os dados estavam lá. Mas agora... o arquivo estava corrompido. O cérebro dela se recusava a aceitar que tinha alguém ali.

— Onde ela foi? — Saga murmurou, girando no ar, procurando a ameaça que estava a um palmo de seu nariz. — Fugiu? Teletransporte de curto alcance?

Kiara estava parada bem na frente dela. Ela podia ver o suor frio brotar na testa de Saga. Podia sentir o calor residual do feixe de luz na mão da Cavaleira. Mas Saga não a via.

O cérebro da Santa da Ordem, sob o efeito do Royal Board, estava editando a realidade em tempo real, apagando a existência de Kiara de sua percepção consciente. Era a camuflagem perfeita: não se esconder da visão, mas se esconder da mente.

Kiara sorriu, um sorriso frio, triste e soberano.

Ela passou caminhando ao lado de Saga. O ombro da jaqueta de Kiara roçou no manto branco da Cavaleira. Saga estremeceu, sentindo uma brisa estranha e antinatural, mas seu cérebro racionalizou imediatamente como "uma rajada de vento".

Kiara atravessou os portões impenetráveis da Cidade de Diamante sem levantar uma lâmina, sem gastar uma gota de suor.

Atrás dela, Saga voltou à sua posição, vigiando atentamente um horizonte vazio, guardando com zelo absoluto um portão pelo qual o monstro já havia passado.

A "Muralha Perfeita" não tinha sido quebrada. Ela tinha sido ignorada.

E, enquanto caminhava pelas ruas imaculadas da capital inimiga, rumo ao palácio onde seu pai aguardava, Kiara soube que a guerra havia mudado para sempre.

Parte 6

A Cidade de Diamante não conhecia a noite.

Mesmo quando o sol se punha atrás das montanhas de cristal, as pedras de minério estelar embutidas nas calçadas, nos postes e nos muros das casas emitiam um brilho suave, leitoso e perpétuo. Não havia sombras profundas onde se esconder. Para um Pesadelo acostumado com a escuridão misericordiosa de Gehenna, aquilo era uma tortura sensorial; era como viver dentro de uma lâmpada acesa o tempo todo, sem pálpebras para fechar.

Kiara odiava cada centímetro brilhante daquele lugar.

Havia três dias que ela caminhava entre os inimigos, invisível sob a proteção cognitiva do Royal Board. Havia alugado um pequeno quarto no sótão de uma padaria no distrito comercial, pagando com moedas de ouro roubadas de um nobre morto na fronteira. Ela havia trocado suas roupas de couro rasgado e graxa por vestidos de linho pastel, tingido o cabelo loiro rebelde para um castanho comum e aprendido a andar sem o peso de uma assassina nos ombros.

Ela estava mapeando a rotina do Castelo Real. A troca de turnos dos Cavaleiros. As rotas de abastecimento de comida. Os pontos cegos arquitetônicos que a onisciência de Saga, por algum motivo, parecia ignorar. Tudo era um cálculo frio para o regicídio.

Até aquela tarde.

Kiara estava sentada em um banco de praça, fingindo ler um jornal local sobre a colheita recorde de cristais, enquanto seus olhos varriam os muros altos dos Jardins Suspensos do palácio. O muro tinha cinco metros de altura, feito de mármore liso e polido como espelho. Impossível de escalar sem equipamento de rapel ou magia de levitação de alto nível. Ou assim ela pensava.

— Ugh... só mais... um pouquinho...

Uma voz feminina, abafada pelo esforço físico e levemente trêmula, veio de cima.

Kiara baixou o jornal discretamente. No topo do muro, uma mão pálida e pequena tentava desesperadamente se agarrar às trepadeiras decorativas. Depois outra mão, com unhas perfeitamente manicuradas que arranhavam a pedra. E então, uma cabeleira azul-celeste surgiu, seguida por um rosto vermelho de esforço e determinação pura.

A garota conseguiu passar uma perna por cima do muro, o vestido branco de seda caríssima se enroscando nas folhas e rasgando na bainha. Ela sorriu, vitoriosa, limpando o suor da testa com o antebraço.

— Consegui! Eu disse que...

CRACK.

A trepadeira estalou. Não houve tempo para gritar. A gravidade cobrou seu preço, e a garota despencou de cinco metros de altura, girando no ar como uma boneca de pano desajeitada jogada de uma janela.

O corpo de Kiara se moveu antes que seu cérebro pudesse protestar. O instinto de "não chamar atenção" foi atropelado pelo reflexo puramente humano de "segurar o que cai".

Kiara largou o jornal, deu dois passos rápidos para a frente e estendeu os braços.

POOF.

O impacto não foi suave, mas foi amortecido. Kiara pegou a garota no ar, girando o corpo para dissipar a inércia, e ambas caíram sentadas na grama macia da praça, emboladas em tecidos e membros.

— Ai, ai, ai... — A garota esfregou a cabeça, ainda tonta, piscando várias vezes.

Kiara se levantou rapidamente, sacudindo a poeira do vestido pastel, os olhos vermelhos (agora escondidos por lentes de contato mágicas de cor castanha) varrendo a área em busca de guardas ou testemunhas.

— Você é idiota? — Kiara sibilou, a voz baixa e áspera, esquecendo completamente o disfarce de cidadã comum. — Quem tenta pular um muro de mármore sem apoio? Você queria quebrar o pescoço ou só chamar atenção?

A garota piscou, focando a visão em sua salvadora.

Ela era... irritantemente bonita. Tinha cabelos azuis que pareciam feitos de céu líquido e olhos grandes, expressivos, de um verde-mar que brilhava com uma inocência que não deveria existir naquele mundo em guerra. Ela usava um vestido branco simples, mas o tecido era seda de primeira qualidade, agora manchado de musgo e terra.

Em vez de ficar ofendida com o xingamento, a garota sorriu. Um sorriso doce, desarmante e levemente triste, como se estivesse acostumada a ser chamada de desajeitada.

— Desculpe... — A voz dela era suave como um sino de vento. — Eu nunca fui muito boa em aterrissagens. Mas a vista lá de cima era linda, então valeu a pena, não acha?

Kiara franziu a testa. Aquela garota não tinha instinto de autopreservação?

CLANG. CLANG. CLANG.

Passos pesados de metal ecoaram do outro lado do muro. Vozes gritavam:

— Ela sumiu!

— Rastreiem o perímetro! A Princesa não pode ter ido longe!

Kiara gelou. "Princesa?"

A garota de cabelo azul arregalou os olhos e agarrou o pulso de Kiara com força surpreendente.

— Oh, não... eles são rápidos. — Ela olhou para Kiara com urgência genuína. — Por favor, moça bonita, me ajude a esconder! Se eles me pegarem, vão me trancar na torre de novo e eu ainda não comi aquele doce que vendem na rua de baixo!

Kiara deveria ter soltado o braço dela. Deveria ter entregue a fugitiva aos guardas e usado a distração para sumir na multidão como fumaça. Era o lógico a se fazer. O seguro.

Mas a mão da garota era quente. E ela cheirava a...

Kiara travou. O cheiro invadiu suas narinas, ignorando suas defesas mentais e indo direto para o cofre emocional que ela tentara trancar.

Rosas. Rosas frescas, orvalho da manhã e algo doce, como baunilha.

Era o mesmo cheiro do jardim secreto da mansão onde ela cresceu. O cheiro dos cabelos de Isobel antes do "incidente". O cheiro de uma infância que ela descobriu ser uma mentira, mas que seu coração ainda ansiava desesperadamente.

— Venha.

Kiara puxou a garota. Elas correram, entrando em um beco estreito entre duas lojas de especiarias, escondendo-se atrás de caixotes de madeira enquanto a patrulha de Cavaleiros passava correndo pela rua principal, as armaduras brilhando sob a luz eterna.

Elas ficaram ali, imprensadas na sombra, respirando ofegantes. A garota olhou para Kiara, os olhos brilhando de adrenalina pura, como se aquilo fosse a maior aventura de sua vida.

— Isso foi... incrível! — sussurrou ela, com a mão no peito. — Meu coração está batendo tão rápido! É sempre assim aqui fora?

— Só se você for uma criminosa ou uma suicida — retrucou Kiara, soltando o pulso dela como se queimasse. — Quem é você? E por que a Guarda Real está atrás de você como se fosse uma terrorista de Estado?

A garota ajeitou o cabelo azul, desviando o olhar.

— Eu sou... hum... Eliza. — Ela mentiu mal, corando até as orelhas. — Sou apenas uma... aia do castelo. Eu quebrei um vaso muito caro da Rainha. É. Isso.

"Mentirosa péssima", pensou Kiara. "Eliza" era claramente a Princesa Stella, a herdeira oficial. A meia-irmã que Kiara deveria odiar. A filha que Lysander escolheu manter e proteger, enquanto descartava Kiara no lixo da história.

O ódio deveria ter subido. A vontade de sacar a adaga escondida na coxa e terminar a linhagem ali mesmo deveria ser incontrolável.

Mas Stella ("Eliza") sorriu para ela novamente, grata e vulnerável.

— E você? Qual o seu nome, salvadora?

Kiara abriu a boca para dizer um nome falso qualquer. "Shadow". "Viper". Algo legal e perigoso.

Mas o cheiro de rosas estava forte demais naquele beco apertado. Sua mente, traída pela memória sensorial de Isobel e pela súbita solidão, puxou a primeira palavra associada àquele perfume e conforto.

Cupcake. — Kiara soltou, antes de morder a própria língua.

Cupcake? — Os olhos de Stella brilharam como estrelas. — "Bolinho"? Que nome adorável! Combina com você. Você parece durona por fora, mas deve ser doce por dentro.

Kiara sentiu o rosto esquentar violentamente. Isobel a chamava assim quando ninguém estava olhando, nos dias bons. Era um segredo humilhante e precioso.

— É um apelido antigo — Kiara rosnou, cruzando os braços, tentando recuperar a dignidade perdida. — Não se acostume. E agora que você está segura, eu vou embora. Tenho coisas a fazer.

Ela se virou para sair do beco.

— Espere! — Stella segurou a manga do vestido dela.

Kiara parou. Aquele maldito cheiro de rosas de novo. Era como uma âncora emocional.

— Eu... eu nunca saí do castelo sozinha antes — admitiu Stella, a voz ficando pequena, quase inaudível. — Eu não sei onde ir. Não sei como comprar comida. E tenho certeza de que vou tropeçar em algo e ser pega em cinco minutos se ficar sozinha.

Stella olhou para Kiara com uma súplica silenciosa.

— Você poderia... me mostrar a cidade? Só por hoje? Por favor, Cupcake?

Kiara olhou para a garota. Era a filha do homem que ela ia matar. Era a princesa de um reino que ela ia queimar até as fundações.

Mas ali, naquele beco sujo, ela era apenas uma garota desajeitada que queria ver o mundo antes que a gaiola dourada se fechasse para sempre. E ela tinha o cheiro de Isobel.

— Você é uma dor de cabeça — Kiara suspirou, derrotada pela própria nostalgia e por uma curiosidade mórbida. — Se você me atrasar, eu te deixo para trás. Entendeu, "Eliza"?

— Entendido! — Stella fez uma saudação militar desajeitada e abriu um sorriso radiante que iluminou a sombra do beco mais que as pedras da calçada. — Eu prometo ser a melhor parceira de fuga que você já teve!

Kiara revirou os olhos e começou a andar, com a princesa saltitando ao seu lado como um cachorro feliz que acabou de fugir da coleira.

"Só por hoje", pensou a futura Rainha Negra, ajustando a adaga na coxa sob o vestido. "Vou deixar esse cheiro me enganar só por mais um dia."

Parte 7

Aquele não foi um dia de guerra.

Pela primeira vez em anos, o relógio interno de Kiara, sempre em contagem regressiva para a próxima batalha ou fuga, parou. O tique-taque incessante da sobrevivência silenciou, substituído pelo som de risadas e passos leves no calçamento de cristal.

O plano original era simples, tático e frio: usar a garota como escudo humano se necessário, extrair informações vitais sobre as rotas de fuga do castelo e descartá-la no primeiro beco seguro antes do anoitecer, sem olhar para trás.

Mas o plano falhou. Não por incompetência ou intervenção inimiga, mas por causa de um maldito cisne de açúcar.

Eles estavam na famosa Confeitaria das Nuvens, uma armadilha turística no distrito comercial onde os doces flutuavam em vitrines antigravidade e o ar cheirava a baunilha e sonhos infantis.

Stella — que ainda insistia em ser chamada de "Eliza", apesar de mentir tão mal quanto uma criança de três anos com a boca suja de chocolate — entrou ali como se estivesse pisando em solo sagrado, seus olhos brilhando como duas luas azuis.

— Olha, Cupcake! — Stella apontou, maravilhada, o nariz quase tocando o vidro da vitrine, deixando uma mancha de vapor. — Cisnes de caramelo soprado! Dizem que a casca é tão fina que derrete só com o calor da respiração! É mágica comestível!

Kiara bufou, cruzando os braços sobre o vestido pastel que a fazia se sentir ridícula, exposta e fraca.

— É açúcar e ar, Eliza. Nutricionalmente inútil. Só vai te dar uma queda de glicose em trinta minutos e te deixar lenta se precisarmos correr.

— Mas é bonito! — Stella ignorou a lógica com um aceno de mão, comprando dois com moedas de ouro que tirou de uma bolsinha de veludo escondida. Ela colocou um na mão enluvada de Kiara com um sorriso radiante que desarmaria um exército inteiro. — Toma. Segura com carinho, está bem? É um presente.

Kiara olhou para o doce delicado e dourado em sua mão. Sua memória muscular, treinada por uma década segurando espadas, detonadores e pescoços inimigos, entrou em curto-circuito.

Para Kiara, "segurar" significava "apertar para não cair" ou "esmagar para matar". O conceito de "segurar com carinho" era uma língua estrangeira que ela nunca aprendeu a falar.

Ela tentou ser gentil. Ela jurou por todas as borboletas mortas de Morpheus que tentou apenas acomodar o doce na palma da mão, ajustando a pressão dos dedos calejados.

CRAC.

O som foi minúsculo, quase inaudível, mas para os ouvidos aguçados de Kiara soou como um tiro de canhão. A cabeça do cisne de açúcar explodiu em pó dourado entre seus dedos. O corpo oco e translúcido do doce colapsou sob a pressão mínima de seu polegar, transformando a obra de arte em farelo pegajoso em menos de um segundo.

Kiara congelou. O sangue drenou de seu rosto. Ela olhou para a bagunça em sua mão com um horror genuíno que jamais sentira ao ver cadáveres.

— Eu... — A voz da futura Rainha Negra falhou, pequena, envergonhada. — Ele... se...

Stella piscou, observando os farelos brilhantes na luva de Kiara. O silêncio durou um segundo eterno. Kiara esperou o julgamento.

"Desajeitada. Bruta. Monstro. Você não serve para coisas bonitas. Você quebra tudo o que toca."

Mais uma vez ela estava sendo lembrada de que suas mãos eram ferramentas de destruição, não de criação.

Mas Stella soltou uma risada. Não de escárnio, mas uma risada cristalina, encantada, que fez alguns clientes olharem.

— Você é um desastre, Cupcake! — Stella não estava zombando; ela estava fascinada. Ela pegou seu próprio guardanapo de linho e começou a limpar a mão de Kiara com uma paciência devota, dedo por dedo. — Você tem mãos fortes, né? Mãos de quem carrega coisas pesadas demais o tempo todo.

Kiara puxou a mão de volta bruscamente, como se tivesse sido queimada, escondendo-a nas dobras do vestido.

— Não são mãos... femininas... mas servem para o que eu preciso — Kiara murmurou, desviando o olhar. Até hoje, para ela, aquelas mãos serviam exatamente ao propósito que precisavam cumprir. No entanto, pela primeira vez em toda sua vida, ela sentiu uma pontada aguda de vergonha daquelas palmas calejadas e marcadas por cicatrizes. — São mãos feitas para destruir...

— Bobagem. — Stella sorriu, terminando de limpar o açúcar do próprio dedo com a língua. — Não existe algo feito apenas para destruir... Mesmo suas mãos, aposto que elas dão um aperto confortável e confiante para alguém preso no medo.

As horas seguintes foram um borrão de cores que não existiam na paleta cinza e sangrenta de Gehenna.

Elas correram pelos mercados de especiarias, onde o ar cheirava a canela e aventura. Roubaram maçãs do amor de uma barraca distraída (embora Stella tenha deixado uma moeda de ouro "sem querer" no balcão).

Quando a patrulha de Cavaleiros Reais dobrou a esquina, marchando em formação impecável, Kiara puxou Stella para um beco estreito atrás de uma lavanderia a vapor.

Ficaram imprensadas na sombra, o vapor quente e branco sibilando ao redor delas como neblina. Stella segurava a respiração, o rosto corado pela adrenalina, os olhos fixos em Kiara com uma confiança absoluta e cega. Kiara podia ouvir o coração da princesa batendo contra o peito. Rápido. Vivo. Aproveitando ao máximo cada segundo da liberdade roubada.

— Mais rápido, Eliza! — Kiara sibilou quando os guardas passaram, puxando a garota para uma escada de incêndio enferrujada.

— Mas eu perdi meu sapato! — Stella ria, tropeçando com um pé descalço, segurando a saia do vestido chique que já estava imundo na barra.

— Esquece o sapato! A gente compra a loja inteira depois se sairmos vivas!

Elas subiram, pulando de telhado em telhado enquanto o sol começava a se pôr. O céu da Cidade de Diamante tingiu-se de laranja queimado e violeta, transformando os prédios brancos em ouro líquido.

Finalmente, pararam no topo de uma torre de relógio abandonada, longe dos olhares da cidade. A capital se estendia abaixo delas, brilhando com suas luzes mágicas que começavam a acender uma a uma como vaga-lumes urbanos.

Stella sentou-se na beirada, balançando os pés descalços no vazio de trinta metros. O vento da noite agitava seus cabelos azuis, fazendo-a parecer um espírito do ar.

— Uau... — ela suspirou, a voz cheia de uma liberdade embriagada. — O mundo é tão grande daqui de cima. Do meu quarto, ele parecia... uma pintura parada na parede. Uma mentira bonita.

Kiara sentou-se ao lado dela, mas manteve uma distância segura. Ela olhou para o horizonte distante, onde a fumaça da "distração" que seu exército causou na cidade de Wonder ainda subia ao longe, uma lembrança constante e acusadora de quem ela realmente era e do que estava fazendo ali.

— O mundo é grande e cruel, Eliza — disse Kiara, a voz pesada, tentando manter a máscara de cinismo para se proteger. — Ele come garotas ingênuas como você no café da manhã. Ele tem dentes afiados.

— Talvez... — Stella virou o rosto para Kiara. O sorriso dela diminuiu, tornando-se melancólico, maduro. — Mas hoje ele não me comeu. Hoje eu comi doces que derretem, corri de homens de armadura e vi o pôr do sol sem uma grade na janela.

Stella esticou a mão sobre o espaço vazio que as separava. A palma branca, macia, aberta. Um convite.

Kiara olhou para aquela mão. Tão frágil. Tão quebrável. Mais delicada que o cisne de açúcar.

Ela estendeu as mãos para tocar as dela, mas vacilou no último segundo, recolhendo os dedos sujos de fuligem e vergonha.

— Eu já te disse. Eu quebrei o doce. Eu quebro coisas, Eliza...

Mas Stella não recuou.

— Está vendo só... — disse a Princesa, com uma determinação teimosa e doce que Kiara não esperava. — Eu falei que seria reconfortante.

Ela segurou a mão de Kiara.

Kiara tencionou cada músculo do corpo, esperando a dor. Ela fechou os olhos, esperando o som de algo quebrando. Esperando que Stella gritasse ao sentir a aspereza dos calos de espada, a frieza do Éter assassino, a sujeira da alma de uma bastarda.

Mas nada quebrou.

A mão de Stella era quente. Envolveu os dedos rígidos e trêmulos de Kiara com uma suavidade firme. Não havia medo. Havia apenas aceitação. Um fluxo de calor humano que subiu pelo braço de Kiara e aqueceu o peito que ela pensava estar congelado para sempre.

— Viu? — Stella sussurrou, entrelaçando os dedos. — Nada quebrou, Cupcake.

Kiara abriu os olhos. O pôr do sol refletia nos olhos azuis de Stella e, por um momento, não havia guerra, não havia vingança, não havia profecias malditas. Havia apenas duas garotas sentadas no teto do mundo, segurando a mão uma da outra contra a escuridão que se aproximava.

Um sentimento estranho, assustador e maravilhoso invadiu Kiara. Paz.

"Ainda não", Kiara pensou, sentindo uma lágrima solitária e traidora escorrer pelo rosto sujo. "Mas vai quebrar. Quando você souber quem eu sou. Quando o dia acabar."

Mas ela não soltou a mão. Pelo contrário, ela apertou de volta, levemente, com medo, desesperadamente, querendo gravar a textura daquela pele em sua memória para os dias frios que viriam.

A bolha de seda estourou quando o último raio de sol morreu.

BAM!

A porta de acesso ao telhado estremeceu violentamente. Luzes mágicas de busca varreram as telhas como faróis de prisão. Vozes metálicas e urgentes ecoaram na escadaria.

— Sinal positivo no Setor 4! A Princesa está no telhado! Cerquem o perímetro! Nível de ameaça desconhecido!

Kiara levantou-se num pulo, soltando a mão de Stella. A "Cupcake" morreu instantaneamente, sufocada pela General que retornava ao comando por necessidade.

— Eles nos acharam. — Kiara analisou as rotas de fuga. Três esquadrões. Cerco completo. Sem saída limpa.

Ela olhou para Stella. A garota estava pálida, encolhida contra a parede do relógio. A gaiola estava vindo buscá-la. O dia de liberdade havia acabado.

— Eliza. — Kiara agachou-se na frente dela, segurando seus ombros, agora com a firmeza de um soldado, não de uma amiga. — Escute. Eles não vão te machucar. Eles querem te levar de volta.

— Mas eu não quero voltar! — Stella agarrou a jaqueta de Kiara, as lágrimas brotando. — Eu quero ir com você! Me leve com você, Cupcake! A gente pode fugir... ver o mar... comer mais cisnes... por favor!

O coração de Kiara parou.

Levar a herdeira do trono? Sequestrar a filha de Lysander? Seria o trunfo perfeito. A vitória estratégica definitiva. Ela poderia usá-la como refém. Poderia quebrar o Rei.

Mas então ela olhou para os olhos de Stella. Olhos que confiavam nela cegamente. Olhos que a viam como uma heroína de história de aventura, não como uma terrorista bastarda.

Se ela a levasse, Stella veria a guerra. Veria o sangue, a lama, a tortura. Veria quem "Cupcake" realmente era quando a máscara caía. A luz de Stella seria extinta pela escuridão de Kiara. O cisne de açúcar seria esmagado pela mão de ferro.

— Não — Kiara disse, a voz embargada, sentindo como se estivesse arrancando o próprio coração do peito com as unhas.

Ela soltou Stella e a empurrou levemente em direção à segurança dos guardas que subiam.

— Você pertence à luz, Eliza. Eu... eu tenho que voltar para a sombra. É lá que eu vivo. É lá que eu sou útil.

Cupcake... não... por favor... — Stella estendeu a mão para o vazio entre elas, chorando.

A porta do telhado explodiu. Cavaleiros de armadura branca invadiram o terraço, lanças de luz apontadas para a intrusa de roupas estranhas.

— Afastem-se da Princesa! Rendição ou morte!

Kiara recuou até a beirada do prédio, equilibrando-se no parapeito vertiginoso. O vento da noite agitou seus cabelos, a tinta castanha falhando, revelando o loiro pálido na raiz. O Pesadelo estava voltando.

Ela olhou para Stella uma última vez. Gravou aquele rosto choroso e lindo em sua alma para sempre.

— Adeus, Eliza.

— Não é adeus! — Stella gritou, lutando contra um guarda que tentava protegê-la. — Eu vou te achar! Eu prometo!

Kiara sorriu. Um sorriso triste, quebrado e afiado como cacos de vidro de um espelho partido.

"Eu também espero", pensou ela, enquanto se deixava cair de costas no abismo da noite. "Mas se nos encontrarmos de novo... eu serei o monstro que você foi ensinada a temer."

Ela desapareceu na escuridão, deixando para trás a única pessoa que segurou sua mão sem medo de se cortar. E levou consigo a certeza amarga de que, por um único dia, ela não foi uma arma, não foi uma Rainha, não foi uma guerreira ou revolucionária.

Ela foi somente uma garota.

Parte 8

Quando Kiara pisou novamente no vagão de comando do Expresso da Meia-Noite, foi recebida não como uma general que retornava do front, mas como uma divindade conquistadora que trazia o fogo dos deuses nas mãos.

O ar dentro do vagão blindado estava denso, quase sólido. Cheirava a charutos caros, uísque envelhecido e pólvora queimada — o perfume inebriante e tóxico da vitória antecipada.

— Magnífico!

Mamon esfregava as mãos, os anéis de ouro maciço tilintando uns contra os outros como moedas caindo em um cofre, enquanto seus olhos gananciosos devoravam os mapas detalhados que Kiara trouxera.

— Com essas rotas de abastecimento clandestinas e os pontos cegos da onisciência da Santa Saga... a Cidade de Diamante não é mais uma fortaleza; é um cofre aberto esperando para ser saqueado! O lucro será incalculável! Nós vamos falir o Céu e comprar o Inferno!

— O lucro é irrelevante — cortou Aslan, o Orgulho, ajustando seus óculos de aro fino enquanto examinava diagramas complexos da arquitetura mágica dos Sonhos com a frieza de um legista. — O interessante são as cobaias. A população da capital tem uma concentração de Éter puro nas células. Mal posso esperar para começar a vivissecção em massa... Imagine o que podemos aprender abrindo um anjo.

No canto escuro, onde a luz das lâmpadas mal chegava, Satan, a Ira, polia sua lâmina gigantesca com um pano sujo de óleo e sangue seco.

— Apenas me diga quem matar, minha Rainha — rosnou a guerreira, os olhos queimando com uma lealdade cega, simples e violenta. — Eu farei uma montanha de crânios brancos para ser o seu novo trono. O sangue deles será o tapete vermelho.

— Eu não me importo... — Katsuragi, a Preguiça, bocejou, jogando em um videogame portátil sem nem olhar para cima. — O que você decidir está bom... desde que eu não tenha que correr.

Kiara caminhou pelo vagão, sentindo-se uma estranha, uma impostora em sua própria revolução.

Antes, aquela sede de sangue a confortava; era a linguagem que ela entendia, a moeda corrente de seu mundo quebrado. Agora, cada palavra clínica de Aslan sobre "cobaias" fazia seu estômago revirar. Ela olhava para os mapas na mesa e não via alvos estratégicos para bombardeio; via a confeitaria onde o cisne de açúcar explodiu em pó dourado. Via o telhado onde Stella sorriu com o pôr do sol nos olhos.

Gevaudan, a Gula, percebeu a mudança sutil na frequência cardíaca dela. O gigante lobo monstruoso, geralmente movido apenas pela fome insaciável, aproximou-se dela e abaixou a cabeça peluda, oferecendo-se para um carinho, como um cão leal sentindo a tristeza profunda do dono.

Kiara acariciou o pelo macio e quente da criatura, distraída, buscando algum conforto naquela fera.

— Bom garoto... — ela sussurrou, mas seus olhos estavam focados na janela, no céu cinzento e morto de Gehenna que parecia tão opressivo e feio comparado ao horizonte dourado de Diamante.

Ela se afastou do grupo, sentindo falta de ar, e foi até a varanda traseira do vagão em movimento para respirar o vento tóxico e gelado.

— Você está estranha, querida.

Kiara não precisou se virar. Ela conhecia aquele perfume denso de orquídeas negras e fumaça de ópio.

Asmodea, a Luxúria, encostou-se no parapeito de ferro ao lado dela, tragando seu longo cachimbo kiseru com elegância preguiçosa.

— Estou apenas cansada — mentiu Kiara, a voz monocórdica, tentando erguer suas defesas mentais. — A infiltração foi longa...

— Mentira.

Asmodea soltou a fumaça roxa, que formou corações quebrados no ar antes de se dissipar no vento. Ela olhou para Kiara com uma astúcia predatória que nenhum outro Pecado possuía. A Luxúria entendia os desejos, as falhas e os segredos melhor que ninguém, e ela via algo novo, algo perigoso, nos olhos de sua líder.

— Eu vejo esse olhar em homens antes de cometerem suicídio ou em mulheres antes de fugirem de casa com um amante proibido. É o olhar de quem encontrou algo que não deveria, Kiara. Algo que muda a gravidade do mundo.

Kiara tencionou os ombros, o couro da jaqueta rangendo.

— Eu não sei do que você está falando.

— Eu nunca esperei isso de você. — Asmodea sorriu, enigmática e afiada como vidro. — Achei que seu coração fosse feito de gelo e aço, impenetrável. Mas parece que alguém, ou algo, encontrou uma fresta na armadura da Rainha.

Kiara abriu a boca para negar com veemência, mas Asmodea colocou um dedo de unha longa e pintada nos lábios dela.

Shhh. Não se explique. Você é a nossa Líder. O que você sente é problema seu... desde que não atrapalhe a missão. E desde que não nos mate.

Elas voltaram para dentro. A discussão tática havia mudado de foco, a temperatura subindo.

— ...e tem a Relíquia — Mamon apontava freneticamente para um ponto específico no mapa da cidade inimiga, a baba escorrendo pelo canto da boca. — A Catedral Central. Meus informantes dizem que o Rei Lysander deixou uma das Armas do Apocalipse lá. Desprotegida. É a chance perfeita! Se pegarmos aquilo, o jogo acaba em um dia! Teremos o poder de um Deus na mão!

— Uma Arma do Apocalipse? — Os olhos de Satan brilharam como fornalhas abertas. — Eu a tomarei! Ela será minha extensão!

— Eu aconselho cautela extrema — interveio Aslan, a voz fria cortando a euforia. — Aquelas armas têm vontade própria e consciência conceitual. Se você tocá-la e não for compatível, sua alma será devorada e apagada da existência. É um risco estatístico inaceitável para uma força de ataque principal.

— Foda-se a estatística! — Mamon levantou-se, derrubando a cadeira com estrondo. — Vamos atacar amanhã! Com as rotas de Kiara, entramos, pegamos a arma e matamos o Rei! Quem precisa de cautela quando se tem ódio?!

Todos olharam para Kiara.

O silêncio caiu. Eles esperavam o comando final. O "Sim" que iniciaria o banho de sangue. O decreto que transformaria o mundo em cinzas.

Kiara olhou para o mapa. Um ataque total amanhã. Fogo nas ruas de paralelepípedos brancos. Aslan solto com suas seringas e bisturis. Satan matando civis indiscriminadamente. Stella estava lá. Stella estaria no caminho. O "Cisne de Açúcar" seria esmagado sob botas de ferro.

— Não.

A palavra caiu como uma bigorna de chumbo no meio da sala. O silêncio foi imediato e pesado.

— "Não"? — Satan franziu a testa, confusa, a mão parando no cabo da espada. — Mas Rainha... a passagem está aberta. Por que esperar? A vitória está servida em uma bandeja de prata.

Kiara sentiu o suor frio escorrer por suas costas. Ela tentou convocar sua Autoridade Real, aquele poder absoluto que fazia todos obedecerem sem questionar. Mas a Autoridade vinha da convicção, e sua convicção estava rachada ao meio.

— Nós... nós não estamos prontos — Kiara improvisou, a voz falhando minimamente, um tremor imperceptível para todos, exceto para predadores. — A vigilância de Saga pode ter mudado o padrão. O Royal Board tem limites de tempo e alcance que ainda não testei totalmente. Precisamos de mais dados. Vamos esperar.

— Esperar quanto tempo? — Ivy, a Inveja, estreitou os olhos verdes, saindo das sombras como uma serpente. — Dias? Meses? Enquanto isso, o Rei se fortalece. Isso não parece estratégia, Kiara. Isso parece hesitação. E hesitação mata.

O clima no vagão pesou. Pela primeira vez, os Pecados olhavam para ela não com medo reverente, mas com dúvida. A alcateia estava testando a Alfa ferida.

Antes que Satan pudesse protestar ou Mamon pudesse calcular o prejuízo, Asmodea bateu o cachimbo na mesa de metal.

CLACK.

O som foi seco e final.

— A decisão foi tomada — declarou a Luxúria, sua voz exalando uma pressão sensual e aterrorizante que calou a sala instantaneamente. — Ela é a Líder. Se ela diz que não é a hora, então não é a hora. Ou algum de vocês quer desafiar a ordem direta da Coroa e enfrentar as consequências agora mesmo?

Ninguém se moveu. A hierarquia foi mantida, mas por um fio muito fino.

— Dispensados — ordenou Asmodea, assumindo o controle que Kiara estava perdendo.

Os Pecados saíram, resmungando e trocando olhares significativos. Mas Ivy parou na porta. Ela olhou para trás, fixando os olhos em Kiara. A Inveja viu o tremor nas mãos da líder. Viu a dúvida. E, pior de tudo, viu uma humanidade que não deveria estar ali.

Ivy sorriu. Um sorriso fino, cruel e perigoso, antes de sair e bater a porta. Ela havia farejado sangue na água.

Nos dias que se seguiram, a "Grande Ofensiva" foi suspensa.

O exército ficou inquieto, como feras enjauladas sentindo o cheiro de carne fresca, mas Kiara não estava lá para acalmá-los com discursos de ódio. Ela desaparecia todas as noites.

Usando passagens secretas e sua furtividade sobrenatural, Kiara voltava a se infiltrar. Mas não para sabotar.

Ela viajou para a Cidade da Meia-Noite, invadindo os arquivos empoeirados e proibidos do castelo de Lysander, lendo diários antigos com voracidade, e conversando ainda mais com Killian, tentando entender a cronologia do "abuso" de Isobel. Tentando desesperadamente encontrar uma justificativa para odiar o pai que fosse forte o suficiente para apagar o amor que começava a sentir pela irmã.

E ela viajou para a Cidade de Diamante.

Disfarçada, ela passava horas na Biblioteca Celeste, folheando livros de história falsos, buscando a verdade sobre a linhagem real. Mas seus olhos não estavam nas páginas.

A cada virada de corredor, a cada som de passos leves, o coração de Kiara disparava. Ela procurava um flash de cabelo azul. Procurava aquele sorriso desajeitado e doce.

Ela visitou a praça onde se conheceram. A confeitaria do cisne, comprando doces que não comia, apenas para sentir a textura na mão. O telhado do adeus, sentando-se na beirada onde as mãos se tocaram, deixando o vento bater em seu rosto.

Ela esperava, escondida nas sombras, com uma esperança tola e suicida de que Stella cumprisse a promessa de "encontrá-la".

Mas Stella nunca apareceu. A Princesa havia sido trancada novamente, protegida em uma gaiola de ouro ainda mais apertada, vigiada por guardas que não cometiam erros duas vezes.

E a cada dia que passava sem ver a irmã, a realidade fria da guerra voltava a se instalar no coração de Kiara como gelo no inverno. A janela de paz estava se fechando. O mundo não pararia por causa de um sentimento.

Ela estava sozinha novamente. E logo, teria que escolher entre o dever de liderar monstros e o amor impossível por alguém que ela estava destinada a destruir.

Parte 9

O ultimato do tempo havia se esgotado. A hesitação de Kiara não podia durar para sempre, e seus generais, famintos por guerra e espólios, precisavam de carne fresca para manter a lealdade.

Então, ela lhes deu um show.

Kiara concebeu o plano mais audacioso e teatral da história de Gehenna. Eles não marchariam sobre a Cidade de Diamante como um exército invasor bárbaro, derrubando portões com aríetes; eles entrariam pela porta da frente, convidados pela própria curiosidade mórbida e arrogante dos Sonhos.

Ela usou as informações roubadas da Biblioteca Celeste e as histórias desconexas e febris que Killian gritava em seu calabouço. Histórias sobre um mito antigo chamado "Humanidade".

— Vamos dar a eles um espetáculo — declarou Kiara no vagão de comando, os olhos brilhando com uma frieza tática que fez até Mamon estremecer. — Um Circo de Aberrações. O tema será a "Humanidade Esquecida".

Enquanto o grosso do exército de Pesadelos atacava a remota Cidade das Nuvens no oeste, criando explosões de Éter espetaculares para atrair a atenção dos Cavaleiros Reais e, esperançosamente, os olhos oniscientes de Saga, o grupo de elite de Kiara vestiu suas fantasias.

Mamon tornou-se o Apresentador, um mestre de cerimônias grotesco de cartola e fraque dourado, vendendo ingressos a preços exorbitantes para a elite entediada que nunca vira um monstro de perto. Aslan exibia suas quimeras biológicas retorcidas em jaulas de vidro como "Animais da Terra", monstros tristes costurados com ciência proibida. Ivy manipulava as luzes e as emoções da plateia com feromônios sutis, induzindo o medo e o prazer em doses viciantes.

E, enquanto os nobres da Cidade de Diamante aplaudiam o grotesco na praça central, hipnotizados pelo bizarro, uma sombra solitária deslizava pelos telhados do Distrito Real.

Kiara, como parte do show, agora estava vestida de arlequina. Um traje justo de losangos pretos e brancos, com uma máscara que cobria metade do rosto e guizos silenciosos nas botas.

O plano era cirúrgico: infiltrar-se nos aposentos reais, localizar o Rei Lysander e cortar sua garganta antes que o último ato do Circo terminasse e a cortina caísse sobre a era dos Sonhos.

Ela correu pelas cornijas de mármore, silenciosa como a fumaça, saltando sobre abismos de luz com a graça letal de um gato. O mapa do castelo, estudado à exaustão, estava gravado em sua mente como uma cicatriz. O quarto do Rei ficava na Torre Leste.

Ela estava perto. Podia sentir a pressão do Éter real vibrando no ar como eletricidade estática, um zumbido constante que arrepiava a pele. A vingança estava a cem metros de distância.

Mas então, o vento mudou.

E trouxe um cheiro. Não de ozônio, magia ou sangue real. Rosas. Baunilha. Lágrimas salgadas.

Kiara parou bruscamente, equilibrada em uma gárgula de pedra, as botas derrapando no granito polido. O cheiro não vinha da Torre Leste. Vinha da Torre Oeste, a prisão dourada reservada para a herdeira do trono.

— Ignore — sussurrou a parte dela que era General, fria, lógica e impiedosa. — Você tem uma missão. O mundo depende da morte dele. O futuro depende do seu foco.

— Só uma olhada — sussurrou a parte dela que segurou um cisne de açúcar e sentiu calor pela primeira vez. — Só para ver se ela está bem. Só para dizer adeus.

Kiara praguejou baixinho, uma blasfêmia que se perdeu no vento, e desviou o curso.

Ela saltou no vazio, usou o impulso para correr pela parede vertical e pousou suavemente na varanda da Torre Oeste. As cortinas de seda branca estavam abertas, balançando na brisa noturna como fantasmas dançando valsa.

Kiara olhou para dentro.

O quarto era vasto, opulento, cheio de brinquedos caros que nunca foram tocados, vestidos de seda importada e livros de contos de fadas com finais felizes que mentiam sobre a vida. Mas parecia vazio. Parecia um mausoléu decorado para uma criança morta.

E lá, sentada no chão, no centro de um tapete persa que valia mais que a vida inteira de Kiara, estava Stella.

A garota que rira nos telhados há poucos dias, que queria comer o mundo com as mãos nuas, agora parecia ter encolhido. O brilho azul-celeste de seus cabelos estava opaco, sem vida. Ela abraçava os joelhos, encolhida em posição fetal, soluçando baixinho. Era um som de partir o coração, o som de algo selvagem que finalmente desistiu de lutar contra as grades douradas. A gaiola havia se fechado novamente, e dessa vez, a chave parecia ter sido jogada no abismo.

Kiara sentiu a adaga em sua mão ficar pesada, como se fosse feita de chumbo derretido.

Ela deveria ir embora. Deveria matar o pai daquela garota e libertá-la através da destruição do reino. Era a lógica. Era a misericórdia a longo prazo.

Mas ver Stella chorar... doía fisicamente. Doía mais do que o vômito na masmorra, mais do que os cortes da floresta, mais do que a traição de Isobel. Era uma dor nova, aguda, localizada no centro do peito.

Kiara olhou para o jardim suspenso, trinta metros abaixo da torre. As Moonflowers, flores lunares que só desabrochavam à noite, brilhavam com uma luz prateada e etérea, zombando da tristeza lá em cima.

Sem pensar, movida por um impulso estúpido e humano, Kiara saltou da varanda.

Ela mergulhou no vazio, arrancou a flor mais bonita e brilhante no meio da queda livre, cravou as adagas na parede de mármore para frear com um guincho de metal e escalou a torre de volta em segundos, desafiando a gravidade e o bom senso.

Ela entrou no quarto, a respiração controlada, a flor na mão.

— Por que uma linda flor chora no escuro?

A voz de Kiara saiu suave, despida do tom metálico de comando, cheia de um calor rouco e honesto que "Eliza" (Stella) nunca conhecera nos corredores frios e polidos daquele castelo.

Stella levantou a cabeça num solavanco, os olhos inchados e vermelhos de tanto chorar.

— Q-Quem...?

Kiara saiu das sombras das cortinas e entrou na faixa de luz do luar que banhava o quarto.

— Uma flor que não vê a luz murcha, Stella. E eu não gosto de ver coisas bonitas murcharem.

Dessa vez, não havia disfarce. Não havia tintura castanha no cabelo, nem lentes de contato, nem vestidos pastel de camponesa.

Kiara estava em sua forma verdadeira. Seus cabelos eram loiro-platinados, quase brancos, brilhando como a própria lua, soltos e selvagens. Suas orelhas pontudas de Pesadelo estavam expostas, adornadas com piercings de prata. Seus olhos eram vermelhos como rubis vivos.

Ela era o monstro que as histórias de ninar diziam para Stella temer. A inimiga mortal dos Sonhos. A Arlequina da Morte.

Kiara estendeu a flor prateada. Ela esperou o grito. Esperou o medo. Esperou que Stella recuasse horrorizada ao ver que sua "amiga do telhado" era, na verdade, um demônio disfarçado.

"Vamos", pensou Kiara, o coração apertado. "Grite. Me odeie. Chame os guardas. Torne isso mais fácil para mim."

Mas Stella apenas piscou, as lágrimas parando de cair, suspensas nos cílios longos como orvalho. Ela olhou para a assassina à sua frente. Ela não viu as orelhas pontudas. Ela não viu as armas letais presas ao corpo.

Ela viu os olhos. Aqueles olhos tristes, vermelhos e gentis que a seguraram no telhado quando o mundo parecia grande demais.

Um sorriso lento, incrédulo e radiante como o amanhecer, nasceu no rosto da Princesa.

Cupcake? — Stella sussurrou, a voz trêmula, como se estivesse vendo um milagre.

Kiara sentiu o coração falhar uma batida.

— Você... você não tem medo? — Kiara perguntou, a voz falhando, a mão que segurava a flor tremendo levemente. — Olha para mim, Eliza. Eu sou um Pesadelo. Eu sou o inimigo. Eu vim para destruir tudo o que você conhece.

Stella levantou-se e correu.

Não para longe, em direção à porta. Mas para perto.

Ela ignorou a flor e se jogou contra Kiara, abraçando-a com força, enterrando o rosto no peito da assassina, sujando a seda do pijama com a poeira da invasão e as lágrimas de alívio.

— Você voltou... — Stella soluçou, rindo ao mesmo tempo, um som de felicidade pura. — Você prometeu que a gente se encontraria! Você é um Pesadelo? Eu não me importo! Você é o meu sonho favorito!

Kiara ficou rígida por um segundo. A assassina nela gritava que aquilo era um erro tático, uma fraqueza fatal, que ela estava vulnerável, que Stella poderia ter uma adaga escondida.

Mas então, seus braços se moveram sozinhos, traindo sua lógica de guerra. Ela largou a flor na cama e abraçou a garota de volta, envolvendo-a com uma proteção feroz.

— Você é uma idiota — sussurrou Kiara, fechando os olhos vermelhos e inalando o cheiro de rosas e baunilha, permitindo-se sentir aquilo uma última vez. — Uma idiota ingênua que vai se machucar.

— Eu não ligo — respondeu Stella, apertando mais, como se Kiara fosse desaparecer se ela soltasse. — Se for com você, eu não ligo.

Kiara sabia que o tempo estava correndo. O Rei estava na outra torre, desprotegido. O Circo lá fora estava chegando ao clímax barulhento. A história estava esperando para ser escrita com sangue.

Mas, naquele momento, no escuro do quarto proibido, Kiara tomou uma decisão silenciosa.

Ela não sabia se o que estava fazendo era certo. Não sabia se isso condenaria sua revolução ao fracasso ou salvaria sua alma da danação completa.

No entanto, ela queria aproveitar aquele sentimento. Só um pouco mais. O calor de um abraço que não pedia nada em troca, de alguém que amava o monstro sem precisar da máscara.

Parte 10

As semanas que se seguiram transformaram-se em um borrão de memórias douradas. Kiara perdeu a conta de quantas vezes cruzou a floresta para ver Stella, ignorando a guerra lá fora como se fosse um ruído distante, mesmo sabendo que o despertador seria um tiro de canhão.

Ao retornar ao Circo da Meia-Noite naquela madrugada, ela relatou aos seus generais, com o rosto de pedra, que a missão de assassinato havia falhado devido a "imprevistos táticos e reforço mágico inesperado". Mentiu para sua família de monstros pela primeira vez. Ela esperava revolta, motim, questionamentos afiados sobre sua competência e lealdade.

Mas o mundo parecia conspirar, de forma cruel e irônica, a favor de sua mentira.

Naquela mesma manhã, o Rei Lysander emitiu um decreto que chocou a Cidade de Diamante e paralisou o tabuleiro de xadrez: todos os Cavaleiros Reais, incluindo a onisciente Saga e a lança destrutiva de Alone, deveriam recuar imediatamente para as fronteiras externas para conter a "ameaça fantasma" no oeste.

O palácio estava, para todos os efeitos práticos, desprotegido.

Mais estranho ainda, a porta da Torre Oeste, a gaiola dourada de Stella, foi destrancada. Quando a Princesa, trêmula e confusa, perguntou ao pai o motivo daquela liberdade repentina, Lysander apenas olhou para o horizonte da varanda, com seus olhos vermelhos insondáveis focados em linhas de destino que só ele via, e respondeu:

— Não é misericórdia, minha filha. É apenas o fluxo. Os fios que movem o invisível decidiram afrouxar o nó em seu pescoço por um tempo. Eu não tenho o direito, nem o dever, de interromper o que deve acontecer. Aproveite o ar enquanto pode.

Para os Lordes Pecados, aquilo era a prova cabal da genialidade estratégica de Kiara.

— Ela deve ter feito um acordo secreto! — rugia Satan, batendo no peito blindado, maravilhada com a audácia. — Ela dobrou a vontade do Rei à sua própria sem levantar a espada! Nossa Rainha é absoluta!

Gula e Orgulho concordaram, cegos pela lealdade e pela fome de poder. Mas no fundo do vagão de comando, nas sombras onde a fumaça de ópio se acumulava, Ivy, Mamon e Asmodea trocavam olhares silenciosos e pesados. A Inveja via o tremor imperceptível nas mãos de Kiara ao segurar o mapa. A Avareza notava a falta de interesse no saque. A Luxúria via a suavidade fatal em seu olhar.

Elas sabiam que aquilo não era tática de guerra. Era fraqueza humana.

Enquanto o Circo celebrava uma vitória que não existia, Kiara vivia uma vida dupla perigosa.

Todas as noites, ela escapava do acampamento. Ela cruzava a Floresta do Delírio sozinha, não para treinar ou caçar, mas para colher as raras Flores do Esquecimento, plantas bioluminescentes que só cresciam onde a magia era mais densa e letal.

Ela escalava a torre de mármore branco sob o manto da invisibilidade. E lá, na varanda, encontrava Stella esperando, enrolada em um cobertor, com o sorriso de quem espera o sol nascer no meio da noite.

Elas fugiam juntas. Sem guardas, sem Saga para vigiar, sem o peso de coroas ou revoluções. Corriam pelos campos de lavanda que cercavam a cidade, deitavam-se na grama úmida sob as luas gêmeas e conversavam sobre tudo e nada.

Foi em uma dessas noites, com a cabeça de Stella apoiada em seu colo, brincando com uma mecha de cabelo loiro, que Kiara quebrou.

— Eu não sou quem você pensa, Eliza — Kiara sussurrou, a voz embargada, acariciando os cabelos azuis da irmã com medo de manchá-los com a fuligem de sua alma. — Eu não sou uma aventureira. Eu não sou uma heroína. Eu sou uma revolucionária. Uma terrorista.

Ela contou a verdade. Vomitou tudo. Contou sobre o Circo da Meia-Noite. Contou sobre o plano de queimar a Cidade de Diamante até as fundações. E, com a voz falhando, contou o motivo original de sua invasão:

— Eu vim para matar o Rei. Eu vim para matar o seu pai, Stella.

Kiara fechou os olhos, o corpo tenso, esperando o ódio. Esperando que Stella se levantasse, gritasse e corresse para chamar os guardas. Mas sentiu apenas uma mão quente e pequena tocar seu rosto, limpando uma lágrima que ela nem percebeu ter derramado.

— Eu sei — disse Stella, suavemente.

Kiara abriu os olhos. A Princesa não estava com medo. Estava triste, mas havia uma resignação madura em seu olhar que não pertencia a uma garota trancada em uma torre.

— Eu vejo a dor nos seus olhos, Cupcake. Desde o primeiro dia no telhado. Ninguém carrega tanto ódio, tanta armadura, sem ter sido muito machucado antes. — Stella sorriu, um sorriso triste e sábio. — Eu não me importo com coroas, ou guerras, ou Reis que olham para o nada. Eu só me importo com a garota que me tirou da torre e me mostrou o mundo.

— Mas eu sou um monstro... — Kiara engasgou, a culpa esmagando seu peito. — Eu não mereço isso. Eu não mereço você. Eu vou acabar te destruindo, Stella. É o que eu faço.

Stella sentou-se na grama e segurou o rosto de Kiara com as duas mãos, forçando-a a olhar em seus olhos azuis límpidos.

— Você não é um monstro. Você é minha irmã de alma. E eu prometo... — Stella beijou a testa de Kiara, selando um pacto silencioso sob o luar. — ...que está tudo bem. Você nunca mais vai ficar sozinha. Eu serei sua luz, mesmo que você queira viver na sombra. Nós vamos dar um jeito.

Naquela noite, sob as estrelas falsas e perfeitas de Morpheus, Kiara acreditou, pela primeira e única vez, que a redenção era possível.

Mas a felicidade de um Pesadelo é sempre o prelúdio de uma tragédia anunciada.

Ivy Zelos observava tudo das sombras das árvores. A Inveja seguira Kiara naquela noite. Vira os abraços. Vira os sorrisos. Ouvira as confissões patéticas. E aquilo a consumiu como ácido corrosivo.

Ivy queria o poder de Kiara. Queria a liderança do Circo. Mas, acima de tudo, ela odiava — odiava com todas as fibras de seu ser distorcido — ver o potencial destrutivo e magnífico da Rainha Negra ser desperdiçado em piqueniques noturnos com uma princesa frágil e inútil.

— Patético — cuspiu Ivy, os olhos verdes brilhando na escuridão do jardim real. — O mundo precisa de uma Rainha, não de uma irmã mais velha.

Naquela noite, quando Kiara retornou ao acampamento para manter as aparências com os generais, Ivy agiu.

A Inveja deslizou para dentro do quarto da Torre Oeste como uma serpente feita de fumaça verde e veneno.

Stella estava na varanda, cantarolando uma música que Kiara lhe ensinara, esperando a visita de sua "Cupcake".

— Ela não virá hoje, Princesa — disse Ivy, saindo das sombras com um sorriso triste ensaiado.

Stella pulou de susto, levando a mão ao peito.

— Q-Quem é você? Como entrou aqui?

— Uma amiga de Kiara — mentiu Ivy, seu rosto assumindo uma expressão de pânico teatral perfeito. — E trago más notícias. O Rei descobriu.

O sangue de Stella gelou nas veias.

— Descobriu... o quê?

— Tudo. — Ivy se aproximou rapidamente, sussurrando com urgência conspiratória. — A liberdade que ele te deu? A retirada dos guardas? Foi tudo uma armadilha, criança. Ele sabia que Kiara viria te ver. Ele usou você como isca para pegar a maior inimiga do reino.

Ivy segurou os ombros de Stella, cravando as unhas levemente na seda do vestido.

— Ele tem um batalhão de Magos de Elite esperando nas sombras do jardim agora mesmo. Assim que Kiara pisar nesta varanda hoje à noite... eles vão capturá-la. Vão torturá-la. Vão matá-la na sua frente para te dar uma lição sobre lealdade.

— Não! — Stella gritou, as lágrimas brotando instantaneamente. — Eu tenho que avisá-la! Eu tenho que gritar!

— Não há tempo! Ela já está a caminho! — Ivy cortou, implacável. — Se você gritar, eles atacam agora. A única forma de salvá-la é tirando a isca do tabuleiro. Se você não estiver aqui, ela não vem.

Ivy materializou um livro grosso e negro em suas mãos. A capa parecia feita de pele humana, oleosa e fria, e o título estava em uma língua gutural que não pertencia a Morpheus.

— Este é um Grimório de Transporte Dimensional — mentiu Ivy, estendendo o objeto maldito. — Kiara me disse que, se algo acontecesse, você deveria usar isso. É a rota de fuga de emergência.

Stella olhou para o livro. Ele emanava um frio que fazia seus ossos doerem, uma aura de "errado" que gritava perigo.

— O que eu tenho que fazer?

— Abra-o — ordenou Ivy, seus olhos verdes brilhando com uma malícia contida que Stella, em seu pânico cego, não viu. — E deseje, com todo o seu coração, ir para um lugar onde o Rei jamais possa alcançar vocês. Se você desaparecer... a armadilha falha. Kiara verá que você sumiu e fugirá em segurança. Ela vai te encontrar depois.

Era a lógica perfeita para um coração desesperado.

Stella não hesitou. Ela pegou o livro com as mãos trêmulas.

— Por favor... — Stella sussurrou, fechando os olhos e pensando no rosto de Kiara, no sorriso raro da irmã. — Salve quem é importante para mim. Leve-me para longe.

Ela abriu o grimório.

Não houve luz. Houve escuridão líquida. O livro não era de transporte. Era de Exílio. Uma magia proibida antiga, usada para banir aberrações para o vazio entre mundos.

— Ah! — Stella gritou quando gavinhas de tinta negra e viscosa saltaram das páginas como tentáculos, agarrando seus pulsos, seu pescoço, suas pernas, puxando-a para dentro do papel como areia movediça. — O que está acontecendo?! Kiara?!

— O necessário — respondeu Ivy, friamente, observando a princesa ser devorada pela escuridão com um sorriso de satisfação. — Adeus, "Luz". Deixe a escuridão voltar ao trabalho.

— KIARA!

O grito de Stella foi cortado abruptamente. O livro se fechou com um baque surdo e final: THUD.

O ar no quarto estalou, preenchendo o vácuo onde a princesa estava um segundo antes. O Grimório caiu no chão, fumegante. O quarto estava vazio. As flores do delírio no vaso murcharam instantaneamente, transformando-se em pó cinza.

A Princesa Stella havia desaparecido da face de Morpheus. Banida para um mundo sem magia, sem deuses, sem memória e sem sua irmã. O Mundo Humano.

Ivy sorriu. Ela pegou o livro do chão, sentindo o calor residual da alma banida, e desapareceu nas sombras da varanda.

Ela deixou para trás apenas o silêncio e a certeza absoluta de que, quando Kiara chegasse minutos depois e encontrasse o quarto vazio e o cheiro de magia negra, a dor a transformaria no monstro perfeito que a Inveja tanto desejava liderar.

Parte 11

Para Anna, que assistia a tudo de dentro da mente de Kiara como uma passageira em um trem desgovernado prestes a descarrilar, o resto não veio como uma narrativa linear. Veio como estilhaços de vidro cortando os olhos.

Flashes de um filme de terror acelerado onde o sangue era a única tinta disponível.

FLASH. O quarto da torre vazio. A flor da lua murcha no chão, pisada e esquecida. O cheiro de enxofre e magia proibida impregnando as cortinas de seda. O grito de Kiara que não apenas quebrou o silêncio da noite, mas fez as vitrines de cristal da cidade lá embaixo explodirem em uma chuva de diamantes falsos, como se o próprio ar tivesse se tornado sólido e cortante.

FLASH. A chegada de Ivy. A Inveja surgiu das sombras da varanda, com lágrimas de crocodilo escorrendo pelo rosto perfeito, a atuação de sua vida.

— Kiara... chegamos tarde. — A voz de Ivy era veneno doce, injetado direto na veia aberta. — O Rei descobriu. Ele disse que a Princesa foi "manchada" por um Pesadelo. Ele... ele a expurgou. Ele matou a própria filha para limpar a honra do trono.

O mundo de Kiara ficou vermelho. A sanidade, que se equilibrava no fio fino de um abraço de Stella, rompeu-se. Não houve estratégia. Não houve ordens táticas. Houve apenas um rugido primordial que convocou o inferno para a terra.

— MATEM TODOS!

— Ela está mentindo! Você precisa ver! Não era isso que Stella queria! Você tem que parar! — Anna gritava dentro da memória, sua voz fantasma tentando segurar os pulsos de uma deusa em fúria, mas seus dedos atravessavam a carne etérea como fumaça.

FLASH. A Cidade de Diamante não caiu; ela derreteu. O Circo da Meia-Noite atacou com uma selvageria que nunca mais seria vista na história, movido pelo luto absoluto de sua Rainha. Satan, fria e imparável, caminhava pelas avenidas congelando cada átomo da cidade, transformando cidadãos em estátuas de gelo eterno. Mamon e seus mercenários varriam as ruas, disparando contra civis e saqueando o que restava com risadas maníacas. Aslan soltava pragas biológicas, manipulando o ouro das construções para se tornar líquido e sufocante, matando guardas e inocentes como se fossem insetos em um laboratório.

No centro do apocalipse, Kiara era um furacão de Éter vermelho e preto. Ela não lutava; ela apagava a existência ao seu redor, procurando o alvo de todo seu ódio.

— APAREÇA... LYSANDER!!!

FLASH. O confronto final. As ruínas fumegantes do Salão do Trono. O teto havia desabado, expondo o céu oleoso e choroso de Gehenna que finalmente invadira o paraíso.

Lysander estava de pé diante do trono, sua túnica branca imaculada, sem uma única mancha de fuligem ou sangue, contrastando violentamente com o mundo em cinzas. Ele parecia intocável. Divino. Aos seus pés, Kiara rastejava, sangrando, exaurida, sua espada quebrada e sua alma em frangalhos. A Era de Ouro havia acabado em uma única noite de loucura.

— Minha tola filha... não vê? Agora terei que pedir para outra pessoa vigiar a arma até que a hora chegue. Que desperdício de tempo.

— POR QUÊ?! — Kiara gritou, batendo os punhos no chão queimado, levantando faíscas e poeira. — Seu MONSTRO! Por que você tirou tudo de mim de novo?! Por que você a matou?!

Lysander olhou para ela. Não com ódio. Não com raiva. Mas com uma decepção infinita e cansada, o olhar de um pai vendo um filho quebrar um brinquedo caro por birra.

— Eu não a matei, Kiara.

A voz do Rei paralisou o ar e congelou o fogo ao redor.

— Eu não toquei em um fio de cabelo de Stella. Eu afrouxei os fios do destino. Eu dei a ela a liberdade. Eu abri a gaiola. Eu permiti que vocês se encontrassem, que comessem doces, que corressem nos telhados sob o meu céu. Eu dei a vocês a chance de felicidade que o destino negava.

Ele desceu os degraus do estrado, seus passos leves não fazendo som nas cinzas, parando diante da filha que tremia no chão.

— Quem trouxe a serpente para o jardim foi você.

Kiara congelou. O choro parou na garganta, sufocado.

— O... o quê?

— Você trouxe a Inveja — disse Lysander, seus olhos vermelhos brilhando com a luz cruel da verdade absoluta. — Você trouxe a Ganância, a Ira, o Orgulho. Você cercou a luz pura de Stella com os seus demônios de estimação. Você abriu a porta para eles.

Lysander apontou para o horizonte, onde a silhueta de Ivy observava de longe, sorrindo sobre os escombros da cidade que ajudou a destruir.

— Stella não está morta. Ela foi banida. Exilada para um mundo dos humanos, perdida no vazio, por causa da sua negligência. Por causa da sua "companheira".

O Rei se abaixou, segurando o queixo de Kiara com força, obrigando-a a encarar seus próprios olhos refletidos nos dele.

— Você teve todos os sinais, minha filha. Você teve todas as chances de ir embora e deixá-la segura. Mas o seu egoísmo quis "mais um dia". A sua carência condenou a única pessoa que te amou.

A revelação esmagou o espírito de Kiara mais do que qualquer golpe físico. A armadura de ódio se desfez, revelando a criança quebrada por baixo, nua diante de seu pecado.

— Você não é a heroína trágica desta história — decretou Lysander, soltando o rosto dela com nojo. — Você, minha amada filha, é a vilã.

Kiara desabou. O choro voltou, mas agora não era de raiva. Era de culpa. Uma culpa tão pesada e densa que parou seu coração.

— Eu... eu sou a vilã...

— Isso não é verdade! Você não pode dar ouvidos a ele! Você tem que levantar! — Anna continuava gritando, chorando, socando a barreira invisível do tempo, mas sua voz nunca alcançava a garota no chão.

FLASH. Lysander não a matou. O Rei dos Sonhos deu à sua filha um castigo pior que a morte.

— Acorrentem-na — ordenou o Rei aos guardas sobreviventes que emergiam das cinzas. — Levem-na para a Cidade da Meia-Noite. Para a masmorra onde o Sol não toca. Usem as mesmas correntes que prendiam Killian Landry. Que a ironia seja sua carcereira.

Kiara foi arrastada. Ela não lutou. Seus olhos estavam vazios, mortos. A Rainha Negra havia morrido nas ruínas da capital, e restara apenas uma casca cheia de remorso.

FLASH. Kiara estava acorrentada na umidade, passando ciclos, eras, sozinha no escuro absoluto. Sua mente, quebrada, repetia a última frase de Stella em um loop infinito de tortura: "Eu vou te achar! Eu prometo!"

Mas Stella nunca veio. O corpo de Kiara definhava. A vontade de viver desaparecia. Ela ia morrer ali, esquecida, odiada pelo mundo e, principalmente, por si mesma.

— Não desista...

Uma voz ecoou no vazio. Não era a voz de Stella. Anna, a espectadora, a intrusa na memória, gritou. Ela via a dor de Kiara. Ela sentia a conexão visceral. E algo dentro de Anna ressoou, vibrando em uma frequência impossível, e quebrou a regra da passividade.

— LEVANTAAAA! — Anna berrou, sua forma astral brilhando na escuridão da mente de Kiara como uma supernova.

Os olhos de Anna mudaram. Estrelas geométricas, idênticas às de Kiara, brilharam em suas íris.

Anna começou a sentir que sua voz a alcançou. Sem entender como ou o porquê, Kiara abriu os olhos na masmorra. Ela escutou a voz por um milésimo de segundo, mas aquilo foi o suficiente para seu coração querer bater mais uma vez.

"Isso foi... a Autoridade da Possibilidade?", Anna pensou, atordoada. "Ela estava no futuro, sem autoridade, era apenas uma observadora vendo memórias alheias. Mas ela sentia que, de alguma forma, conseguira tocá-la."

Anna não sabia como, nem por quê. Mas mesmo sabendo dos riscos, mesmo sabendo do perigo de alterar o passado, depois de ver tudo aquilo, ela não podia mais só observar.

— Você não pode morrer aqui! Você tem uma promessa a cumprir! Se você morrer, quem vai achar a Stella?!

Ela estendeu a mão fantasma para a alma moribunda da Rainha.

A alma de Kiara, tocada por aquela luz estranha e quente vinda do futuro, acendeu uma última faísca. Não para viver. Não para vencer. Mas para consertar.

Kiara ergueu o rosto na escuridão, as lágrimas voltando a correr, limpando a sujeira de séculos.

— Eu quero... — ela sussurrou, a voz rouca falhando. — Eu quero uma segunda chance.

O Éter explodiu. A magia do Sonho e do Pesadelo fundiu-se em um pedido desesperado lançado ao universo, rasgando o tempo e o espaço.

— Não para ser feliz... eu não mereço isso. Mas para dar um final feliz a Stella. Por favor... alguém... qualquer um... me escute.

Em um quarto bagunçado, mal iluminado por luzes de LED roxas e cheio de pôsteres de bandas de rock pesado e livros de ocultismo espalhados pelo chão, uma garota estava deitada na cama, lendo de ponta-cabeça.

Ela tinha cabelos loiros longos e rebeldes. No topo da cabeça, um par de orelhas de gato felpudas e reais se movia, captando um som que ninguém mais no prédio de apartamentos ouvia. Uma cauda longa e preta balançava preguiçosamente para fora do cobertor, batendo no ritmo de uma música inaudível.

Schrödinger fechou o livro grosso que tinha nas mãos com um estalo seco.

A capa de couro velho e rachado trazia um título em alemão arcaico, escrito por um autor cujo sobrenome era sinônimo de contos de fadas, mas cuja verdadeira linhagem era desconhecida: Grimm.

Título: A Princesa Branca e a Terra dos Sonhos.

A garota de orelhas de gato sentou-se na cama, derrubando uma lata de refrigerante vazia. Seus olhos, com pupilas verticais que mudavam de cor como um caleidoscópio, brilharam na penumbra.

Ela ouviu o sinal. Um pedido de socorro vindo de outra dimensão, atravessando as páginas do livro como uma onda de rádio desesperada.

— Hum... — Schrödinger sorriu, mostrando caninos afiados e brincalhões. — Parece que algo interessante finalmente vai acontecer...

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