The Fall of the Stars : Capítulo 6 - A Queda do Céu Falso
- AngelDark

- 22 de dez. de 2025
- 66 min de leitura
Atualizado: 26 de dez. de 2025
Volume 9: O Mais Fraco
Parte 1
A consciência de Dante não retornou suavemente; ela colidiu com seu corpo. Foi um solavanco violento, visceral, como se sua alma tivesse sido arremessada de uma grande altura de volta para dentro da carne. Um estrondo distante, semelhante a um trovão abafado ou a uma explosão subterrânea, ainda ecoava em seus tímpanos, mas, quando ele abriu os olhos, o mundo ao seu redor estava mergulhado num silêncio sepulcral e assustador.
O dossel denso da Floresta do Delírio filtrava a pouca luz do dia, transformando o chão em um mosaico de cores psicodélicas suaves e sombras longas, que se esticavam sobre a relva como dedos negros tentando agarrar os adormecidos.
Dante tentou erguer-se. Seu corpo protestou imediatamente: uma sinfonia de agonia aguda em cada fibra muscular, como se tivesse sido mastigado e cuspido. No entanto, sua mente parecia estranhamente desconectada da dor física, flutuando em uma névoa de dormência química, um mecanismo de defesa contra o trauma recente.
Ele olhou ao redor, os olhos vermelhos demorando a focar, as pupilas dilatadas ajustando-se à penumbra.
O grupo de Oliver estava espalhado pelo acampamento improvisado como peças de xadrez derrubadas. Não apenas dormiam; estavam apagados, derrubados pela exaustão absoluta da batalha contra a horda infinita e, principalmente, contra ele. Oliver dormia sentado, encostado a uma raiz retorcida, a respiração pesada e irregular; o bastão ornamentado ainda estava seguro frouxamente em sua mão, com os nós dos dedos brancos de tensão mesmo no sono. Rugerd roncava baixo, parecendo uma montanha desmoronada. Aquinos estava desmaiado de forma desajeitada, com os óculos tortos no rosto e a boca entreaberta.
Dante estava confuso, a memória cheia de buracos negros, estática e ruído branco. Ele tentou entender onde estava ou como havia chegado ali, varrendo o olhar pelos estranhos que o cercavam até que seus olhos travaram em uma figura específica.
Candy.
Ela dormia encolhida em posição fetal, defensiva. Mas o pescoço estava exposto. E lá, na pele pálida e delicada, a evidência do crime gritava. Marcas roxas profundas, hematomas que desenhavam dedos e queimaduras de calor recentes. A forma perfeita de uma mão. De uma garra.
A imagem agiu como um gatilho psíquico. As memórias voltaram não como um fluxo, mas como um soco no estômago. A sensação tátil da traqueia dela cedendo sob seus dedos deformados. O calor do seu próprio Éter queimando a pele dela. O olhar de terror nos olhos de Oliver. O gosto ferroso de sangue na boca quando seus dentes rasgaram a garganta de Claison.
Dante não aguentou. A culpa subiu pela garganta como ácido corrosivo.
Ele se levantou, tropeçando nos próprios pés, e correu para trás de uma árvore larga, longe dos olhares inconscientes. Caiu de joelhos na terra fofa e vomitou. Expulsou tudo o que tinha no estômago, o corpo convulsionando em espasmos violentos até restar apenas a bile amarga e dolorosa. Ele respirava pesadamente, o suor frio escorrendo pela testa, a cabeça pesada e turva girando em uma vertigem nauseante.
— Eu fiz isso... — pensou ele, as mãos tremendo, os dedos afundando na lama como garras.
Sua mente espiralava para um abismo escuro de auto-ódio, questionando a validade de sua própria existência, quando, de repente, uma luz suave e pulsante cortou a penumbra cinza da floresta.
Foi então que ele a viu.
Uma pequena borboleta, feita não de matéria, mas de pura luz carmesim, pulsava na escuridão sob um arbusto, como um coração exposto.
Dante parou de respirar por um segundo. Aquele tom de vermelho... Ele sentia que já tinha visto aquela borboleta em algum lugar... Mas ela parecia diferente agora.
A borboleta deu várias voltas na frente do rosto dele, o bater de asas silencioso deixando um rastro de poeira luminosa que pairava no ar. Então, ela voou para a frente, parou e esperou, batendo as asas lentamente. O convite era claro: Siga-me.
Sem falar uma única palavra, movido por uma força gravitacional que não compreendia, Dante limpou a boca e se levantou. A energia daquela borboleta era familiar de uma forma que doía e confortava ao mesmo tempo. Ele sentia, no fundo do peito, que aquilo não era algo estranho ou hostil. Era parte dele. Um fragmento perdido.
Ele começou a caminhar.
A jornada foi um borrão hipnótico. Seus olhos continuavam vidrados, fixos na luz vermelha que dançava à sua frente como um farol na neblina, guiando-o para fora da segurança das árvores. O tempo parecia não passar, ou talvez tivesse parado em respeito ao que estava por vir.
Aos poucos, o cheiro de terra úmida, musgo e flores exóticas foi substituído por algo mais acre e seco. O cheiro de ozônio, pedra pulverizada e... o odor inconfundível de morte antiga.
A borboleta voou até o limite de uma clareira e, ao chegar no meio de uma rua pavimentada com cristais quebrados, desfez-se em pó de luz, desaparecendo no ar como se nunca tivesse existido.
Dante parou, piscando, como se acordasse de um transe profundo.
Sua mente estava tão confusa e focada na borboleta que ele nem percebeu que a floresta havia ficado para trás. Ele olhou ao redor, atordoado. Prédios de cristal em ruínas se erguiam como esqueletos de gigantes, estruturas antigas e majestosas agora quebradas e silenciosas. Ele estava no coração da lenda. As ruínas da Cidade de Diamante. No entanto, diferentemente dos outros que tentavam chegar lá, ele nunca tinha sequer ouvido falar dela.
De repente, seus sentidos de caçador, antes adormecidos pelo choque, gritaram em alerta máximo.
Ele sentiu uma pressão enorme de Éter no ar. Não apenas uma, mas várias. Algumas pareciam estar se apagando, fracas e trêmulas como velas ao vento prestes a morrer. Outra era opressora, divina e dourada. E havia uma... uma assinatura que parecia estranhamente similar à sua própria, mas distorcida, quebrada, invertida.
Ele caminhou para mais perto, instintivamente escondendo-se nas sombras das ruínas de cristal, tentando entender o cenário apocalíptico à sua frente.
Foi quando ele ouviu. Uma voz, carregada de autoridade que ecoou nas paredes de cristal e reverberou na espinha de Dante:
— Você não é a filha de Snow.
O nome o atingiu como um raio físico. Snow. O homem que ele quase matou. O homem cuja imagem acendeu uma fúria irracional em seu peito horas antes na neve. O nome que parecia ser a chave de sua loucura.
Dante congelou nas sombras, o coração parando no peito, os olhos fixos na cena à frente.
Parte 2
Antes mesmo de Dante pisar naquelas ruínas, a Cidade de Cristal já havia se transformado. Não era mais um campo de batalha; era um mausoléu a céu aberto. O lugar não estava preenchido por ar, mas por sombras densas, um silêncio de vácuo e uma tristeza espessa que se agarrava à pele como geada.
O grito de Rum cessou. Não porque a dor tivesse passado, mas porque a realidade a sufocava, roubando-lhe o oxigênio necessário para gritar.
O vento gélido assobiava melancólico pelos cristais quebrados, mas o som que faltava era o que mais feria os ouvidos de Rum: o zumbido constante das engrenagens. Aquele tique-taque rítmico e quente, como um segundo coração mecânico que sempre acompanhava a presença de Dumpt, havia desaparecido.
Nos braços de Rum, o corpo não era mais um companheiro de guerra, um amigo ou um "amor platônico". Era apenas metal. Pesado. Inerte. Gelado. Um objeto inanimado que imitava cruelmente a forma de alguém que ela amava.
Rum não olhava para ninguém. O mundo ao seu redor — a missão, o futuro da Tromluí e dos pesadelos — tudo tinha deixado de existir. Toda a sua atenção estava focada numa tarefa inútil e dilacerante: com a manga da sua roupa, já imunda de poeira e rasgada, ela tentava limpar o rosto dele.
O óleo negro continuava a vazar da cavidade ocular apagada e quebrada, escorrendo pela máscara de metal amassada como lágrimas grossas e escuras. O fluido viscoso misturava-se com o sangue vermelho vivo que pingava do nariz dela, criando uma tinta profana que manchava suas mãos trêmulas e o peito blindado dele.
— Está sujo... — sussurrava ela, a voz rouca, quebrada em cacos, passando o pano freneticamente sobre o metal frio. — Eu preciso... limpar isso. Se eu limpar, ele vai conseguir abrir o olho. É só o óleo...
Ela parou de esfregar por um segundo, a respiração engatando, e afundou o rosto contra o abdômen metálico e imóvel do robô, abraçando-o com força desesperada, como se pudesse transferir seu próprio calor corporal para reativar a fornalha dele.
— Você tem a sua esposa... a sua filha pra voltar, seu idiota... — ela soluçou, a voz falhando, abafada pelo metal. — Levanta... não faça... não faça isso comigo...
No fundo, uma parte racional dela sabia que era mentira. Sabia que a luz azul nunca mais acenderia. Mas, naquele momento, a líder forte, a "Irmã Mais Velha" inabalável da Tromluí, se desmanchou. Restou apenas uma garota, uma criança assustada e sozinha que acabara de perder seu melhor amigo, seu último pilar.
A alguns metros dali, a reação era diferente, mas igualmente devastadora.
Uzumaki tentava ficar em pé, mas suas pernas, treinadas para suportar impactos sobre-humanos, tremiam e cediam como gelatina. Ele estava ferido demais, esgotado demais, mas a dor física era irrelevante. Seus dentes estavam cerrados com tanta força que o som de esmalte trincando podia ser ouvido.
Ele tinha visto isso acontecer em seus cenários pessimistas. Ele sempre soube. Em cada discussão, em cada aviso chato, ele alertou que o ciclo daquela jornada exigiria um preço de sangue. Mas saber não tornava aquilo mais fácil. Pelo contrário. A validação de seu pessimismo tinha um gosto amargo de cinzas e bile na boca.
— Maldito... — Uzumaki murmurou baixo, a voz vibrando com ódio. Ele socou o chão fraco, rachando o cristal. A maldição não era direcionada a Dumpt, nem ao monstro que o matou, mas à sua própria impotência. A frustração queimava seu estômago como ácido: ele previra o inferno, mas não pôde fazer nada para impedi-lo.
Mais ao lado, o colapso era silencioso.
Eliza estava de joelhos na neve suja. O seu olhar estava vidrado, as pupilas dilatadas fixas num ponto vazio no horizonte, atravessando a realidade. A sua mente, incapaz de processar o trauma súbito, sofreu um curto-circuito emocional, oscilando entre a culpa esmagadora e a negação absoluta.
Isso não aconteceu. Não. Não. Não. É uma ilusão dos Sonhos. É um truque mental. Daqui a pouco o Dumpt vai levantar e fazer uma piada com a voz chiada... A Rum tem razão, ele só está um pouco quebrado, precisa de reparo. Não. Não é minha culpa. Eu falei para fazermos esse plano? Fui eu quem os trouxe aqui? Não, não, não, não. Por favor, me diga que você não morreu, Dumpt. A Rum não vai aguentar... Eu não vou aguentar... Não, não, não.
Lágrimas grossas e quentes rolavam por seu rosto estático, lavando a fuligem, mas ela não emitia som algum. Ela estava trancada dentro de seu próprio pesadelo, em um loop de negação.
Mumei, com o corpo coberto de cortes profundos e as faixas brancas agora tingidas de carmesim, arrastava-se na direção dela. Ele mal conseguia se mover, cada centímetro era uma tortura, mas a necessidade de alcançar Eliza era maior que a dor física. Ele esticou a mão ensanguentada, tocando o ombro dela com delicadeza, tentando trazê-la de volta daquele abismo mental antes que ela caísse para sempre. Mas Eliza nem piscou. Ela estava quebrada.
E, no meio de todos aqueles adultos destroçados, havia uma criança.
Yukina estava parada, pequena e frágil diante da magnitude obscena da morte. Nas suas mãos pequenas, ela apertava o ioiô descascado da mãe com tanta força que o plástico marcava a sua pele, os nós dos dedos brancos.
Ela olhava para Rum. A mulher que sempre foi a fortaleza, a líder inabalável que a acolheu quando o mundo desabou, agora estava ali, reduzida a uma figura trêmula limpando um cadáver com devoção.
A culpa invadiu o coração de Yukina como um veneno frio e paralisante. A lógica infantil e cruel tomou conta:
Se eu não tivesse vindo... Se eu não tivesse gritado... A Rum estaria bem. O homem de lata estaria bem. Por que... por que a Yukina continua viva e as pessoas boas não?
As lágrimas de Yukina caíram silenciosas sobre o ioiô. Ela achou que tinha corrido para o campo de batalha para salvar a única pessoa que lhe restava, mas agora encarava a realidade terrível de que, talvez, ela tivesse sido a causadora daquela tristeza infinita.
Foi nesse momento de vulnerabilidade absoluta, onde a esperança parecia ter sido drenada do ar junto com o Éter, que um som diferente invadiu o silêncio fúnebre.
Scraaaape... Scraaaape...
O som áspero de osso e gelo se arrastando contra o chão de cristal.
Não era o zumbido reconfortante de Dumpt. Era algo quebrado, patético, rítmico e aterrorizantemente insistente.
Todos, exceto Rum e Eliza, levantaram os olhos devagar, como se temessem o que veriam.
O "Boss" — a monstruosidade outrora conhecida como Tigre Fantasma — ainda se movia.
Seu corpo estava pela metade. As pernas haviam desaparecido, desintegrando-se em partículas de luz. O tronco estava rachado, vazando energia. Mas ele não estava atacando. Ele se arrastava, cego e moribundo, usando apenas um braço restante para puxar seu corpo em direção ao pilar de diamante no centro da praça.
Mesmo na morte, mesmo desfeito, sua obsessão em proteger o local o impulsionava.
Mas para o grupo ferido, enlutado e traumatizado, aquele movimento de persistência não parecia lealdade ou dever. Parecia um escárnio. Era um insulto à vida que acabara de ser perdida para pará-lo.
Parte 3
O horror da cena não residia na ameaça iminente de um novo ataque, mas na humanidade patética e quebrada daquela criatura moribunda.
O monstro não rosnava mais como uma besta territorial. Ele chorava. Mas não era um choro limpo; era um som distorcido, cheio de estática e ruído úmido, como uma transmissão de rádio falhando em uma frequência esquecida. Lembrava o lamento de um homem perdido em uma tempestade eterna.
Me desculpa... — os pensamentos do Guardião ecoavam em sua mente fraturada, piscando como luzes prestes a queimar. Partículas de Éter azul se desprendiam de suas costas abertas como brasas subindo de uma fogueira que morre. — Fui eu quem causei isso... Eu falhei... Me desculpa... Isobel...
Ele ignorava Rum, que ainda soluçava abraçada ao corpo frio de metal de Dumpt. Ignorava Mumei e Uzumaki, que assistiam paralisados pelo choque da vitória vazia. A guerra tinha acabado para ele. Tudo o que restava no universo era a distância agonizante de cinco metros entre seus dedos quebrados e o cristal central, o local sagrado onde, em sua memória corrompida, ele acreditava ter deixado sua filha ciclos atrás.
Ele esticou a mão trêmula, as garras raspando o chão de cristal com um som agudo. Estava quase lá. Quase tocando a redenção.
Clap. Clap. Clap.
Três palmas. Lentas. Secas. Arrogantes.
O som cortou o ar gelado e silencioso com a precisão cirúrgica de uma guilhotina, interrompendo o choro do monstro e fazendo o sangue de Uzumaki gelar nas veias. Todos os olhares, pesados de luto, foram arrastados para cima, para o topo de uma coluna de mármore grego que desafiava a gravidade entre os escombros.
Lá estava ele.
O vento da floresta agitava o sobretudo negro e os cabelos escuros com mechas vermelhas, mas ele parecia intocável. Enquanto todos abaixo estavam cobertos de lama, sangue e óleo, ele estava imaculado. Seus olhos dourados brilhavam não com fúria guerreira, mas com um divertimento entediado, como uma criança assistindo a formigas queimarem sob uma lupa.
— Bravo. — A voz dele desceu, suave, aveludada e perfeitamente audível, sem precisar gritar. A acústica do mundo parecia se curvar para amplificá-lo.
Alone sorriu. Um sorriso que curvava os lábios em uma geometria perfeita, mas não chegava aos olhos frios e predadores.
— A sua tenacidade é comovente, Guardião. Uma performance de lealdade digna de servir como abertura de minha peça. — Ele inclinou a cabeça levemente para o lado, como um crítico de arte avaliando uma pintura medíocre em uma galeria. — Mas a sua participação nesta peça acabou. Você está atrasando o próximo ato, e eu odeio atrasos.
O Boss tentou erguer a cabeça. O instinto de proteção ainda queimava como uma brasa no inverno, mas o corpo físico não respondia mais aos comandos da alma.
— F-Filha... — balbuciou ele, a voz falhando em estática, as garras arranhando o chão inutilmente.
— O ato encerrou-se — Alone repetiu, a voz perdendo a doçura teatral e ganhando o peso frio do aço. — Saia do meu palco.
Com um movimento preguiçoso e fluido, Alone levou a mão ao cinto. Ele não sacou uma espada lendária. Ele puxou um bastão de ouro maciço.
Ele não o arremessou com força contra o monstro. Ele nem sequer mirou. Com um gesto de absoluto desdém, como quem dispensa um criado, ele jogou o bastão para cima, girando em direção às nuvens pesadas e cinzentas que cobriam a ruína.
O objeto girou no ar, capturando um raio de luz inexistente, brilhando como uma estrela solitária. Subiu, subiu e parou no ápice, suspenso por um segundo que pareceu durar uma hora.
E então, o céu obedeceu.
KRA-KOOM!
Não foi um trovão natural. Foi o som do firmamento sendo rasgado ao meio por mãos divinas. As nuvens giraram num vórtice violento instantâneo e, do centro dele, o julgamento desceu.
Um Dragão Dourado. Não de carne ou escamas, mas de pura eletricidade concentrada, crepitando com o poder de uma tempestade engarrafada em uma forma viva. A besta de energia rugiu, um som de milhões de volts que fez os cristais da cidade vibrarem em ressonância até quase racharem, e mergulhou.
A mandíbula de luz engoliu o Boss. Engoliu o chão. Engoliu o choro, a memória e a promessa de um pai.
A luz branca cegou a todos. O clarão foi tão absoluto que as sombras deixaram de existir. O calor foi tão intenso e repentino que secou as lágrimas no rosto de Eliza instantaneamente e fez o ar cheirar a ozônio queimado e ar ionizado.
Quando a visão retornou, piscando em manchas roxas segundos depois, o silêncio era absoluto.
Não havia mais monstro. Não havia mais Tigre. Não havia mais corpo. A cratera onde ele estava fora vitrificada; o chão de pedra e cristal fora transformado em uma arquitetura de vidro fumegante. O Boss fora apagado da existência como um erro ortográfico grosseiro corrigido em uma folha de papel.
Do meio da fumaça de ozônio, a figura de Alone desceu levitando, a gravidade curvando-se humildemente à sua vontade.
Ele pousou. Suavemente. A ponta de sua bota tocou o vidro quente sem levantar poeira.
Ele caminhou com passos calmos até onde Rum estava. A líder da Tromluí não se moveu; ela continuava encolhida, abraçada ao corpo destruído de Dumpt, alheia à aniquilação divina que acontecera a dois metros dela. Ela estava presa em seu luto.
Alone parou ao lado dela. A sola da bota negra de couro fino desceu com elegância cruel. Ela não tocou o chão. Ela pousou sobre a cabeça de Rum.
Com um movimento casual, sem esforço, ele pressionou. Ele esmagou o rosto dela contra o asfalto frio, forçando-a a comer a poeira, bem ao lado do metal inerte e oleoso de Dumpt. Ele a usava como degrau, como lixo.
Aquela visão humilhante — a líder forte deles, a "mãe" do grupo, sendo pisada como um inseto enquanto segurava seu amigo morto — fez o sangue de Eliza ferver, trazendo-a de volta da catatonia em uma explosão de ódio puro e irracional.
— TIRE... O PÉ... DELA! — A voz de Eliza saiu num guincho estrangulado, rasgando a garganta. Ela tentou se mover, tentou levantar, fazer qualquer coisa, mas suas pernas falharam e ela caiu de cara no chão, impotente.
Alone nem se virou. Ele olhou para baixo, para a mulher sob sua bota que nem sequer reagia mais, e depois varreu o olhar dourado pelo grupo destroçado e sangrento.
O sorriso voltou aos seus lábios. Mais largo. Mais terrível. Mais divino.
— Por que essas caras longas e feias? — perguntou ele, o tom genuinamente curioso e ofendido, abrindo os braços para as ruínas fumegantes como se esperasse uma ovação de uma plateia lotada. — O vilão morreu. O espetáculo acabou. Não deveriam estar aplaudindo o Deus que vos salvou?
Parte 4
O silêncio que respondeu à pergunta de Alone não foi o de uma reverência sagrada, mas o de um horror paralisante e nauseante.
— Você é doente... — Eliza cuspiu as palavras, com o gosto de bile na boca. Seu rosto, manchado de fuligem, lágrimas e sangue, tremia violentamente. Não era pelo frio do ambiente, mas por uma repulsa visceral que revirava seu estômago. — Você se chama de Deus, mata como um demônio e espera aplausos? Quando eu olho para você... sinto vontade de vomitar, seu maldito.
Alone suspirou, um som longo, dramático e profundamente decepcionado, como um artista incompreendido por plebeus.
— É uma pena. Mas, sinceramente, eu já esperava essa miopia. Claro que seres terrenos, presos à lama, não entenderiam a majestade complexa de um Deus.
Ele estendeu a mão enluvada, apontando com um floreio teatral para a cratera vitrificada onde o Boss havia sido aniquilado instantes antes. O vidro fumegante, ainda quente, refletia a luz do sol azul de forma prismática: uma cicatriz linda, geométrica e terrível na face da Terra.
— Veja isso. — A voz dele era suave, hipnótica. — Essa é a escultura que criei em um segundo. Esse é o tipo de perfeição que mãos humanas trêmulas nem sonhariam em moldar. Isso é o que um Deus é capaz de fazer: impor ordem ao caos e criar arte através da aniquilação.
Ele girou nos calcanhares, olhando para Eliza com olhos semicerrados e dourados.
— Diga-me, pobre criança... sei que sua mente é tola, limitada e mal desenvolvida por ser uma mera mortal, mas, como alguém que conheceu o fundo do poço da existência... quero saber se você é capaz, ao menos, de entender o significado estético de "belo".
Eliza não conseguia processar. Aquele homem na sua frente parecia um quebra-cabeça montado com peças de jogos diferentes; uma mistura profana de crueldade sádica e uma apreciação artística distorcida da morte.
— Por que insiste em falar, seu merda?! — gritou ela, a voz falhando, rouca de choro. — Você é o pior tipo de vilão que existe... o tipo que não sabe a hora de calar a boca!
Alone sorriu. O sorriso se alargou, mostrando dentes brancos demais.
— É verdade. Na sua narrativa limitada, nós somos os vilões.
— E está dizendo que estou errada?! — Eliza tentou avançar, cega de ódio, mas Mumei, mesmo ferido, segurou seu braço com força, impedindo-a de cometer suicídio. — Olhe ao seu redor! Olhe essas ruínas! É isso que vocês estão fazendo! É isso que a "perfeição" dos Sonhos causou! Se vocês nos aceitassem, nada disso aconteceria! E, mesmo vendo o sangue nas suas mãos... ainda tem a coragem de dizer que não é o vilão?
Alone colocou a mão no queixo, numa pose pensativa, observando a confusão moral da garota como um professor universitário cansado de explicar conceitos básicos para uma turma de alunos lentos e teimosos.
— Herói? Vilão? — Ele balançou a cabeça devagar, as mechas vermelhas de seu cabelo dançando com o vento gélido. — Minha querida, você ainda se apega a contos de fadas com tanta força? É adorável, mas patético.
Ele aplicou um pouco mais de pressão na bota. Rum soltou um gemido abafado e agudo contra o asfalto, o som de ossos do crânio estalando tornando-se audível no silêncio sepulcral.
— Não existem heróis. Não existem vilões. O mundo não é uma peça de teatro moralista dividida entre "bom" e "mau". O universo é indiferente. O mundo se divide apenas entre duas castas absolutas: Vencedores e Perdedores.
Ele abriu os braços, gesticulando para a cidade de cristal destruída como se apresentasse sua obra-prima finalizada.
— Os Sonhos são chamados de "Heróis" nos livros de história apenas por um detalhe técnico: eles venceram a guerra. Se os Pesadelos tivessem massacrado a todos e tomado o trono séculos atrás, eles seriam os salvadores e nós seríamos os demônios a serem caçados. A "Verdade" não é sagrada, menina. A Verdade é uma prostituta oportunista que se deita com quem tem mais força para pagar.
— Isso é mentira! — A voz de Rum veio do chão, abafada pela sola da bota, gorgolejante de sangue, mas vibrando com uma teimosia inquebrável. — Nós lutamos... por algo maior! Por igualdade! Para quebrar esse ciclo maldito! Para que ninguém precise ser o perdedor esmagado!
Alone olhou para baixo, encarando a nuca da mulher que ele esmagava como se ela fosse uma barata falante. O sorriso dele se tornou condescendente, pingando veneno.
— "Igualdade"... — Ele saboreou a palavra na língua como se fosse um vinho caro que virou vinagre. — Um paradoxo infantil. Uma utopia para fracos. Mas eu lembro... era exatamente essa baboseira que seu irmão vivia pregando, não é, pirralha?
Ele pressionou mais forte, fazendo Rum gritar abafado.
— O fato imutável é que, para o mundo ter forma, alguém tem que estar no topo. E para isso, alguém tem que estar na lama servindo de degrau. Para existir a felicidade e a glória da vitória, é obrigatória a existência da agonia da derrota. Vocês nunca poderiam vencer, porque vocês não lutam contra nós; vocês lutam contra a própria arquitetura fundamental do universo. Vocês querem um mundo onde todos ganham... e isso é o mesmo que um mundo estático onde todos perdem.
A arrogância absoluta daquela voz, debochando do sonho de vida de Snow, cuspindo no sacrifício fresco de Dumpt, foi o estopim.
Mumei, que estava se segurando ao máximo para manter a racionalidade, sentiu algo quebrar dentro de si. A corda da sanidade arrebentou.
— CALA A BOCA!
Foi um movimento de puro instinto suicida. Com um rugido de fúria animal, o assassino da Tromluí impulsionou seu corpo ferido. Ele ignorou a dor dos ossos quebrados, ignorou a gravidade, transformando-se num borrão de velocidade branca. Suas faixas dispararam como lanças de aço, mirando a jugular exposta e arrogante de Alone.
Ele foi rápido. Mais rápido do que qualquer humano ferido deveria ser.
Mas Alone nem sequer virou o rosto para olhar. Ele não precisava.
ZZRAK!
Um estalo seco de eletricidade, rápido como um piscar de olhos, cortou o ar. Um relâmpago dourado brotou do ar vazio, sem nuvens, sem aviso prévio, e atingiu Mumei no centro do peito com a força cinética de um trem de carga em alta velocidade.
Não houve luta. Não houve defesa. O corpo de Mumei foi arremessado para trás como uma boneca de pano com as cordas cortadas, atravessando três paredes de cristal sólido com estrondos consecutivos — CRASH, CRASH, CRASH — antes de cair inerte a trinta metros de distância, fumaça preta saindo de um buraco queimado em seu peito.
— Eu estou falando — disse Alone, o tom ficando frio, monótono e metálico pela primeira vez, sem nem se dar ao trabalho de checar se tinha matado o garoto. — Aprendam a ser uma plateia respeitosa e silenciosa.
O silêncio voltou, agora mais pesado, absoluto e aterrorizante. Ninguém mais ousou se mover. A morte pairava no ar.
Alone, entediado com a falta de reação e aplausos, suspirou. Ele estava prestes a aplicar a pressão final para esmagar o crânio de Rum e encerrar o tédio quando um reflexo prateado no canto do olho chamou sua atenção.
Ele parou. O pé congelou.
Lá estava ela. Pequena. Imóvel. Yukina.
A garota estava de pé, tremendo como uma folha ao vento, segurando o ioiô velho da mãe contra o peito como se fosse um escudo sagrado contra o mal. Seus olhos grandes estavam arregalados, fixos nele. Não havia fúria neles, apenas um medo profundo, confuso e infantil.
O sorriso sádico de Alone desapareceu lentamente, como fumaça, substituído por algo mais complexo. Reconhecimento. Curiosidade mórbida. E um profundo, visceral desprezo.
— Olhar para você ainda é estranho... principalmente segurando esse brinquedo velho e ridículo... — murmurou ele, tirando o pé de cima de Rum como quem descarta um lixo qualquer e caminhando lentamente, passo a passo, até a garota. — Você é idêntica a ela. A mesma fraqueza nos olhos. A mesma... insignificância irritante.
Yukina recuou um passo instintivo, as botas pequenas raspando no cristal, o coração batendo na garganta.
— Então o Snow deixou você carregar essa coisa por aí como um amuleto? — perguntou Alone, balançando a cabeça em desaprovação. — Inesperado para um covarde sentimental que não queria aceitar a realidade.
Yukina engoliu em seco, as lágrimas voltando aos olhos, quentes.
— Não... não fale do... meu pai... — sussurrou ela, a voz trêmula, quase inaudível, mas desafiadora em sua inocência. — Ele não era covarde... ele me protegia... Ele cuidava de mim...
Alone parou bem na frente dela. Ele era uma torre negra diante da figura minúscula da menina, projetando uma sombra que a engoliu. Ele se abaixou lentamente, ficando na altura dos olhos dela. O cheiro de ozônio e morte que emanava dele era sufocante, tóxico.
— Ah, criança tola e iludida... — Alone sussurrou, alto o suficiente para que o eco levasse suas palavras por toda a praça como um veneno auditivo. — Se ele não te contou isso em todos esses anos, só prova o quão fraco e patético ele era.
Ele aproximou o rosto do dela, invadindo seu espaço, violando sua alma.
— Snow nunca te protegeu porque te amava. Ele te protegia porque te odiava.
Rum, ainda no chão, começou a se contorcer desesperada, ignorando a dor, tentando levantar a cabeça ensanguentada para gritar.
— CALE A BOCA! NÃO FALE MAIS NADA! CALE SUA BOCA SUJA, SEU MALDITO!
Uzumaki tentou se arrastar, mas as pernas falharam. Os olhos de Eliza se arregalaram em pânico absoluto, prevendo o golpe final — não físico, mas na alma da criança.
Sem se importar com os gritos de protesto, Alone continuou, os olhos dourados perfurando a menina, saboreando cada sílaba.
— Você não é a esperança dele. Você não é o legado dele. Você é a cicatriz viva da maior falha que ele já cometeu. Você é o lembrete diário do pecado dele.
Ele sorriu, cruel, sabendo que as palavras cortariam mais fundo e sangrariam mais tempo que qualquer lâmina física.
— Você não é a filha de Snow.
Parte 5
As palavras finais de Alone não foram processadas apenas pelos ouvidos de Yukina ou pelo grupo. Elas reverberaram nos ossos, uma frequência dissonante e proibida que ignorava a proteção da carne e arranhava diretamente a alma, abrindo feridas que nunca fechariam.
Naquele instante, a realidade ao redor de Yukina se estilhaçou como um espelho sob o peso de um martelo.
A Cidade de Cristal, com suas torres gélidas e perfeição geométrica destruída, dissolveu-se como tinta preta gotejando em água clara. O frio cortante da atmosfera desapareceu, assim como o peso opressivo do cadáver de Dumpt e o cheiro de ozônio. O "agora" deixou de existir. O que invadiu a mente de todos, uma projeção forçada pela narrativa cruel e onipotente de Alone, foi uma memória antiga, desenterrada do túmulo do tempo.
Muitos Ciclos Atrás
O mundo era cinza. Um campo de batalha que se estendia até onde a vista alcançava, coberto por uma neve que não era gelo, mas cinzas grossas de corpos e cidades queimadas caindo do céu como chuva suja.
Ali, fincada no solo lamacento e encharcado de sangue, estava a bandeira da Tromluí original. O tecido, de um azul que um dia fora imaculado como o céu de verão, agora estava rasgado, chamuscado e sujo, tremulando fracamente como o último suspiro de um moribundo que se recusa a fechar os olhos.
Ao redor da bandeira, a morte florescia em um jardim grotesco. Corpos de companheiros, amigos de infância e irmãos de armas estavam espalhados com a indiferença de folhas secas no outono. Rostos congelados em gritos eternos.
Mas, no centro daquele inferno, um homem permanecia de pé. Snow.
Diferente da casca vazia que morrera recentemente — fraco, amargo e cheio de feridas na alma —, este homem era radiante. Seus cabelos brancos não eram pálidos pela idade ou estresse, mas brilhavam com a intensidade prateada da própria lua cheia. Sua postura era ereta, uma coluna de desafio contra o céu escuro e opressor. Seus olhos... seus olhos queimavam com um idealismo tão puro, tão incandescente, que doía fisicamente apenas de olhar.
Atrás dele, encolhidos e trêmulos, um grupo de refugiados civis — crianças e idosos — chorava silenciosamente. Snow sangrava; dezenas de cortes profundos marcavam sua pele fria enquanto o gelo de seu próprio poder se espalhava a partir de seus pés, congelando o sangue que tocava o chão. Mas em seus lábios havia um sorriso. Não de loucura, mas de certeza absoluta.
— Eu não vou cair! — O rugido do Snow do passado cortou o silêncio lúgubre, sua espada de gelo apontada para a escuridão crescente. — Enquanto eu tiver um sopro de ar nos pulmões, a Tromluí será o escudo do mundo! Nós vamos forjar um futuro onde as crianças segurem brinquedos, não espadas! Um mundo onde pais não tenham que enterrar seus filhos na lama!
Era a voz de um herói de verdade. A voz de alguém que acreditava, com cada célula, que o bem venceria.
E diante dele, flutuando acima do caos e da carnificina, estava a antítese daquela luz. Alone.
Ele parecia mais jovem, a pele lisa como porcelana. Mas o olhar era o mesmo: dourado, insondável, antigo e faminto. Ele observava Snow não com o ódio de um inimigo em guerra, mas com a curiosidade mórbida e clínica de uma criança sádica que finalmente encontra um brinquedo raro que se recusa a quebrar, não importa o quanto ela o aperte.
— Magnífico... — sussurrou a voz de Alone, doce como veneno.
O Deus Solitário levou a mão enluvada ao peito, sentindo uma pontada estranha. Não era raiva. Era algo muito mais perigoso: carência. Inveja. Ele invejava aquela luz que Snow emanava. Ele queria aquele brilho para si, para preencher seu vazio infinito. Mas, acima de tudo, ele foi consumido por uma necessidade científica e cruel:
O que acontece se eu apagar essa chama? O que resta dentro do frasco quando a luz se vai? Será que o herói vira monstro? Será que a esperança vira cinzas? Responda-me, Herói.
Assim, aquelas memórias de glória se desmancharam em fumaça. Aquele foi o primeiro encontro dos dois. O prólogo da tragédia.
A atmosfera mudou de "Guerra Épica" para "Terror Absoluto". Era noite. A Noite do Massacre.
Alone não atacou Snow com seus exércitos. Ele era inteligente demais, cruel demais para um ataque frontal honrado. Ele havia entendido, com sua lógica divina e deturpada, que a força titânica de Snow não vinha de seu Éter ou de seus músculos, mas de seu amor. E o amor, como Alone descobriu com prazer, é a fraqueza mais explorável de todas.
A imagem focou em um espaço vazio e doloroso, onde antes deveria estar o calor de um lar. Minerva. A esposa de Snow. A mulher cujo sorriso gentil era o único motivo pelo qual o coração da Tromluí batia. Ela não estava lá. Apenas o silêncio e o rastro frio de sua ausência. O silêncio era quebrado somente pelo som rítmico e enlouquecedor do gotejar de sangue vindo de um quarto ao fundo, onde antes seria um berçário.
No centro da sala vazia, uma única mensagem flutuava, escrita em letras douradas de luz, deixada para o homem que prometeu salvar o mundo, mas não conseguiu proteger a porta de sua própria casa:
Venha buscá-la, herói.
E Snow foi. Não foi uma marcha militar; foi um cataclismo. Ele e Rum invadiram a Fortaleza dos Sonhos não como soldados, mas como desastres naturais encarnados. Snow lutava como um demônio que havia transcendido a própria carne. Cada golpe de sua espada não apenas cortava; congelava o próprio tempo e espaço ao redor, mesmo que seu corpo começasse a rachar e quebrar ao atingir uma temperatura interna superior à sua própria resistência. O Éter explodia ao seu redor, vitrificando soldados inimigos que ousavam se interpor entre ele e sua esposa.
Ele rasgou exércitos inteiros, transformando corredores de mármore negro em rios de sangue congelado e luz estilhaçada, abrindo uma trilha de destruição reta até o Salão do Trono.
Lá, no ápice da torre mais alta, Snow enfrentou Alone. Foi uma batalha que as lendas mal conseguiriam descrever sem parecerem exageradas. A terra gemia e os céus choravam chuva ácida enquanto as duas forças cósmicas colidiam. Mas Snow estava desesperado. O tempo escorria por seus dedos trêmulos como areia fina. Percebendo que a força bruta não bastaria contra a onipotência casual e entediada de Alone, Snow fez o impensável.
Ele baixou a guarda. Foi um sacrifício calculado. Ele permitiu que as lanças de sombra de Alone perfurassem seus ombros, suas coxas, seu abdômen, pregando-o no chão e transformando seu corpo em uma âncora viva para prender o Deus Solitário por um único, precioso segundo.
— VÁ, RUM! — O grito de Snow foi um gorgolejo de sangue e determinação absoluta. — SALVE-A!
Rum não hesitou. Ela disparou como um raio, deixando para trás o som úmido da carne de seu irmão sendo rasgada. Ela atravessou o corredor final, o coração batendo na garganta, e arrombou a porta maciça da Cela Dourada com um chute.
Em sua mente, ela já via a cena esperançosa: Minerva ferida, talvez fraca, mas viva. Um abraço apertado, lágrimas de alívio, a fuga, a promessa de voltar para casa e recomeçar.
Mas o que Rum encontrou foi um quarto que cheirava a ferro oxidado, fluidos corporais e finais abruptos.
Minerva estava lá. Ela não estava presa por correntes de éter ou grilhões de aço. Ela estava caída no chão de pedra fria, encolhida em posição fetal, defensiva. Em sua mão direita, frouxa, jazia um pedaço irregular e afiado de vidro, resto de um espelho quebrado na parede. O corte em sua garganta era profundo, definitivo, cirúrgico. O sangue já havia secado, formando um halo escuro e pegajoso ao redor de sua cabeça, como uma coroa macabra de rainha morta.
O silêncio do quarto era ensurdecedor. Até que foi quebrado.
Waaaah... Waaaah...
Um som fraco, agudo. Um choro de vida nova. Em um berço improvisado feito com as cortinas de seda rasgadas e manchadas, algo se movia. Um bebê. Uma menina recém-nascida, a pele ainda suja de sangue do parto, chorando para um mundo que já a odiava antes do primeiro suspiro. Em sua cabeça, tufos ralos de um cabelo prateado brilhavam.
Rum paralisou, o ar preso nos pulmões. A matemática do horror começou a se formar em sua mente, fria e implacável.
O tempo... não bate. Snow estava em campanha nas fronteiras seis meses antes do sequestro. O cativeiro... a barriga... Não...
Atrás de Rum, o estrondo da batalha cessou abruptamente. Passos pesados e calmos ecoaram. Alone entrou no quarto. Ele não estava cansado; nem sequer suava. Ele arrastava Snow pelos cabelos brancos, o corpo do herói mole, semiconsciente e destruído, deixando um rastro vermelho largo no tapete persa.
Alone jogou Snow no chão, diante do cadáver de Minerva, como quem descarta um saco de lixo.
Snow piscou, os olhos inchados lutando para focar através do sangue. A primeira coisa que viu foi o vermelho. Depois, o vidro na mão dela. E então, o rosto pálido, belo e sem vida da mulher que era seu norte, sua bússola moral.
E então... o choro do bebê perfurou sua alma.
— Ah... — A voz de Alone quebrou o luto sagrado, casual, enquanto ele limpava metodicamente o sangue de Snow de suas luvas brancas imaculadas. — A pequena bastarda sobreviveu ao parto traumático? Impressionante. A tenacidade da vida é irritante.
O mundo de Snow congelou. O som do vento, sua própria dor física excruciante, tudo desapareceu em um vácuo. Apenas aquela voz existia.
— O que... — sussurrou Snow, a voz raspando na garganta destruída, uma súplica por negação.
— A sua narrativa, Snow, arrastava-se para uma... vulgaridade monótona — proclamou Alone, com a cadência crítica de quem disseca uma tragédia mal escrita. — O Herói de mármore, a consorte imaculada, o triunfo garantido... Ah, que insuportável! Faltava-lhe a dissonância. Faltava-lhe textura. Onde estava o caos que dá sabor à existência? Eu precisava incutir uma virada cruel, testar a têmpera da sua alma para ver se eras carne e sangue ou apenas poeira e clichês.
A mente de Snow paralisou, e a pergunta de se a culpa era sua começou a ecoar incessantemente em sua cabeça.
O Deus fez uma careta de leve desgosto, como se lembrasse de uma refeição mal preparada.
— Contudo, o dilúvio de suas lágrimas tornou-se... vulgar. Patético. Eu ansiava por uma chama, pelo aço da resistência, mas não encontrei nada além de umidade e submissão. Que espetáculo insípido. — Ele suspirou, limpando o ouvido. — O tédio me venceu. Assim, dei-lhe um novo propósito. Ofereci-a à voracidade das minhas legiões. Dezenas de homens. Afinal, os cães de guerra carecem de carne fresca para aplacar os horrores da batalha.
Alone sorriu, um sorriso genuíno e terrível, virando o rosto para o berço de trapos onde o bebê chorava.
— Este ser que vês diante de ti... É o amálgama vivo do meu tédio divino com a sujeira animal dos meus súditos. Confesso, houve um erro de cálculo. — Ele sorriu num esgar frio. — A cena em minha mente era distinta. Subestimei o desespero dela. Quem diria que ela buscaria o abraço da morte no exato segundo em que se livrasse do fardo? Perdi a oportunidade de ouro de assistir ao Herói encarando os restos da Princesa raptada. O destino, às vezes, é um roteirista decepcionante.
Snow levantou a cabeça com esforço titânico. Seus olhos encontraram o bebê.
Ele deveria sentir compaixão. Aquele era o Snow, o Herói, o homem que jurara proteger todas as crianças do mundo, que prometera um reino sem órfãos. Aquele ser minúsculo e inocente não tinha culpa dos pecados dos pais. Era uma vítima absoluta.
Quando os olhos de Snow focaram na pequena Yukina, ele não viu uma criança. Ele viu uma crítica. Ele viu a assinatura de Alone escrita em carne e sangue. Aquele bebê não era sua filha; era a prova viva de que sua história de herói havia sido cancelada. Ele olhava para ela e via o roteiro sendo reescrito: o amor de sua vida transformado em entretenimento barato para um Deus entediado, e o fruto desse horror deixado ali, respirando, como uma piada de mau gosto que ele seria obrigado a ouvir.
Algo se partiu dentro das retinas de Snow naquele segundo. Um som de vidro trincando que só ele ouviu, mas que mudou o destino do mundo. O brilho lunar de seus olhos, aquela luz prateada que guiava exércitos e aquecia corações, apagou-se. O branco tornou-se um cinza tempestuoso, opaco e morto.
O Herói morreu ali, ajoelhado no sangue seco de sua esposa e no choro de uma filha que não era sua.
Snow se levantou. O movimento foi trôpego, mecânico, zumbificado. Ele liberou uma onda de frio absoluto, congelando tudo ao redor, sua aura se jogando para fora do castelo em uma explosão defensiva, carregando Rum e o bebê consigo, protegendo-os com seu corpo em um último ato de reflexo muscular, não de amor.
— Snow! — gritou Rum, em pânico total, levantando-se com o bebê chorando nos braços e correndo para tentar escapar com seu irmão, tropeçando nos escombros. — Snow, espere! O que fazemos?! Para onde vamos?!
Snow caminhava, seus olhos baixos, abrindo caminho pelos corredores congelados, puxando a irmã para a saída, usando seu poder de forma imprudente, como quem não ligava se viveria ou morreria no processo.
Ele não se virou. Suas costas, antes largas, protetoras e orgulhosas, pareciam ter encolhido e curvado sob o peso de um céu que desabou sobre seus ombros.
— Não deixe ela morrer... — disse ele. A voz não tinha entonação. Não tinha raiva, nem tristeza, nem alma. Era o som oco de uma lápide de pedra sendo arrastada para fechar um túmulo. — Mas não a traga para perto de mim. Nunca.
Ele deu um passo em direção à escuridão do corredor de saída.
— Eu não posso olhar para essa coisa.
Do alto da torre, Alone assistia à fuga com um olhar entediado e decepcionado. Ele esperava um grito de guerra, uma intenção assassina final direcionada a ele, uma apoteose de vingança. Mas só teve um covarde quebrado que abandonou um pedaço de carne inocente e agora nem queria mais viver para lutar.
Ele perdeu o interesse nele. O brinquedo estava finalmente, e irrevogavelmente, quebrado.
Parte 6
A memória induzida por Alone se desfez como fumaça tóxica, mas deixou para trás o frio cortante e permanente da realidade na Cidade de Cristal. Yukina estava de joelhos na neve suja, imóvel como uma estátua de gelo prestes a quebrar, o ioiô esquecido a seus pés como um artefato de uma vida que não lhe pertencia mais.
Toda a sua vida... a frieza distante de Snow, os olhares de pena velada de Rum, a sensação constante e inexplicável de ser um erro no sistema... tudo fazia sentido agora. A matemática do desprezo finalmente fechava.
— Eu... — A voz de Yukina saiu num fio de ar, tão frágil que parecia vidro estalando sob pressão. — Eu não deveria... existir.
Ela abraçou o próprio corpo, encolhendo-se, tentando se tornar fisicamente menor, tentando desaparecer da existência que agora parecia um crime. Não houve grito de vingança cinematográfico. Não houve explosão de poder oculto. Houve apenas o som abafado de uma alma infantil sendo esmagada sob o peso de uma verdade insuportável. A vergonha e o nojo de sua própria origem a consumiram.
Alone observou, esperando o clímax. Ele esperava ver os olhos dela ficarem vermelhos de fúria, como os de Snow deveriam ter ficado naquele dia. Esperava criar, ali, o seu novo rival perfeito, nascido do ódio puro e destilado.
Mas Yukina apenas chorava. Um choro baixo, de criança quebrada, sem ódio, sem ambição de vingança, apenas dor crua.
Alone suspirou, profundamente decepcionado. O brilho sádico e expectante em seus olhos dourados apagou-se, substituído pelo tédio mortal de um deus entediado com seus brinquedos defeituosos.
— Que desperdício... — murmurou ele. — A Verdade deveria ser tua chave para a fúria. Mas tu... és pequena demais para a tragédia que escrevi para ti.
Ele olhou para o grupo ao redor com desdém. Rum destruída e humilhada, Eliza em choque catatônico, Uzumaki impotente e sangrando. O cenário era patético. Não havia glória ali.
— Bem... — Alone estalou o pescoço, decidindo encerrar o expediente. — Se a revelação traumática não foi suficiente para acender a chama, talvez a aniquilação total seja mais... inspiradora.
Ele levantou a mão direita para o céu. O Éter dourado começou a se condensar na palma de sua mão, zumbindo com o som ameaçador de mil vespas elétricas. Ele não mirou em Yukina, a falha. Ele mirou em Eliza, a testemunha.
— Vejamos se tu ascendes sobre as cinzas desta família de mentiras. — O sorriso cruel retornou. — Pereçam em uníssono. E não desperdicem mais minha eternidade com tédio.
O raio dourado brilhou, pronto para ser disparado como uma lança de Deus. A morte era certa. Ninguém ali tinha condições de levantar um dedo para se defender.
Mas o disparo nunca aconteceu.
Não houve trovão. Não houve relâmpago. Houve apenas o som seco e ridículo de madeira colidindo contra algo impalpável.
WHACK.
Uma espada de madeira — simples, gasta, um brinquedo de criança — surgiu do nada, interpondo-se entre a mão de Alone e o grupo condenado. O impacto físico não feriu o "Deus", obviamente, mas a audácia suprema do ataque o surpreendeu o suficiente para fazê-lo recuar um passo instintivo e dissipar a energia acumulada por pura distração.
A madeira não aguentou o sacrilégio. Com o choque contra a aura divina e densa de Alone, a espada se desfez em lascas, explodindo em uma nuvem de poeira marrom e farpas. O dono da espada foi arremessado para trás pela força do recuo, rolando violentamente pelo chão de cristal até parar, tossindo, aos pés de Eliza.
— Dan?! — sussurrou Eliza, a voz falhando, os olhos tentando focar na figura esfarrapada que desafiava a lógica.
Dan se levantou, cambaleando, limpando o sangue do canto da boca. Ele caminhou para a frente novamente, colocando-se, pequeno e frágil, entre o Deus e os mortais.
Alone limpou a poeira de madeira de seu sobretudo impecável com um gesto lento, o rosto exibindo uma diversão genuína com o plot twist inesperado.
— Você interrompeu o clímax dramático para me atacar com um graveto? Verdadeiramente interessante, criança. Embora, olhando bem para você... vejo que é somente uma tola e fraca criança. Mas, como teve a coragem estúpida de se opor a um Deus, permito que fale suas últimas palavras.
Dan caminhou mais para perto, mancando. Ele olhou para as próprias mãos vazias e trêmulas, onde antes estava a espada de madeira. Depois olhou para Yukina caída no chão, chorando; para Rum pisoteada ao lado do corpo de Dumpt; para Uzumaki que o encarava com pânico; e para Eliza, congelada em terror.
— É verdade... — A voz dele era rouca, baixa, mas firme como rocha antiga. — Eu sou fraco.
O grupo olhou para ele, confuso. Alone ergueu uma sobrancelha e riu, uma gargalhada genuína.
— Hahahaha! O que é isso? Uma confissão? Quantas reviravoltas patéticas você consegue fazer em um minuto, pirralho?
Mas, ignorando-o, Dan continuou, dando um passo à frente, ignorando a dor em cada músculo que gritava para ele fugir.
— Eu sou fraco porque não consegui impedir a morte do meu amigo... — Ele falava, a memória do pequeno cachorro preto em sua mente. — Eu sou fraco porque não tenho poder para curar a dor que a Yukina e a Eliza estão sentindo agora. Eu sou inútil.
Ele tremia visivelmente, apertando a camisa sobre o peito, onde o coração batia descompassado como um tambor de guerra.
— O que você está falando?! — Eliza gritou, o desespero quebrando sua paralisia, as lágrimas voltando. — Isso não importa! Saia daí agora! Você tem que fugir, idiota!
As palavras dela chocaram Uzumaki. Em todas as simulações que ele pôde imaginar, nunca sequer concebeu um futuro onde Eliza falaria para alguém fugir e se salvar. Ele sorriu, um sorriso triste e resignado, aceitando o fim com dignidade.
Mas Dan, sem ligar para os gritos, levantou os olhos. Eles não estavam vermelhos de fúria berserker como os de Dante. Estavam azuis. Um azul calmo, aterrorizante e lúcido, da cor do fundo do oceano, de alguém que já conheceu o fundo do poço e descobriu que não há mais para onde cair, então só resta subir.
— Mas você... — Dan levantou o braço e apontou o dedo sujo de terra diretamente para o rosto imaculado de Alone. — Você é ainda mais fraco do que eu.
O silêncio na praça mudou de qualidade. De terror para incredulidade absoluta. O vento parou.
Alone riu. Uma risada curta, seca, incrédula.
— Eu? Fraco? — O ar ao redor dele começou a vibrar, a pressão do Éter dourado esmagando os pulmões de todos como uma prensa hidráulica. — Eu sou um Deus. Eu tenho o poder de apagar cidades do mapa com um estalar de dedos. Eu tenho o mundo na palma da minha mão. Eu sou o ápice.
— Você tem poder — Dan corrigiu, a voz ganhando volume, cortando o vento e a pressão divina. — Mas você não tem força. De verdade.
Dan olhou para Rum, esmagada no chão, mas ainda tentando proteger Yukina com seu corpo quebrado. Olhou para Eliza, chorando de raiva por Dumpt, não por si mesma. Olhou para Yukina, quebrada, mas viva.
— Nós criamos laços porque somos fracos. Porque sabemos que vamos cair, precisamos de alguém para nos segurar. Nós sentimos dor, e por isso entendemos a dor dos outros. Mesmo sabendo que vai doer se perdermos eles... doer a um ponto de querer morrer... nós escolhemos amar.
Dan voltou a encarar Alone nos olhos, sem piscar.
— Mas você... Você cortou todos os seus laços. Você chama isso de divindade, mas é só medo. Você é carente. Você diz que está fazendo isso com as pessoas porque quer "escrever uma história épica", mas no fundo... você só quer atenção. Você quer que as pessoas te odeiem para criar laços que não doam caso quebrem. Porque você tem medo de sentir dor.
— Cale a boca... — O sorriso de Alone desapareceu. O rosto divino ficou sombrio.
— Você mesmo disse... o que você sentiu por Snow... — continuou Dan, implacável, cada palavra um golpe na psique blindada do Deus. — Você diz que o odeia, mas não consegue parar de pensar nele. Você quer validação. Você quer um rival para provar que você existe. Você é patético e sozinho.
— EU MANDEI CALAR A BOCA!
A calma divina de Alone quebrou. Não houve elegância desta vez. Ele moveu a mão com violência bruta, como quem espanta um mosquito irritante. Seu Éter explodiu em raios amarelos que dispararam para o chão, levantando uma cortina de ar, pedra e vidro vitrificado que avançou como uma onda afiada na direção de Dan.
Dan não desviou. Ele não tinha como desviar.
BAM!
Ele foi atingido em cheio. A onda de cristais e raios o perfurou, rasgando roupas e pele, e o jogou para trás como uma boneca de pano. Ele caiu, o abdômen, ombro e testa perfurados e sangrando profusamente.
Alone sorriu, ofegante, o peito subindo e descendo.
— Está vendo quem é patético?! Está vendo?! Um fraco como você não tem direito de julgar a Deus! Morra em silêncio!
Mas então, Alone parou. Ele olhou para a própria mão. Ela tremia.
Espera... por que essas palavras me atingem? Por que a opinião dele importa? É somente um verme fraco e pequeno, sem qualquer quantidade de Éter. Então por que minha mão treme? Por que meu coração vacila?
Dan se levantou. O sangue escorria por seu rosto, cegando um olho, mas o outro não vacilava. Ele saiu dos destroços, mancando, caminhando novamente em direção a Alone, como um pesadelo que se recusa a acabar.
— Eu já disse... eu sou fraco. Todos somos. Inclusive você.
— ESTÁ LOUCO?! — Alone gritou, recuando um passo no ar, pela primeira vez na vida recuando diante de um mortal. — Deus não tem fraquezas! Deus é absoluto! Perfeito em todos os quesitos!
Dan sorriu. Era um sorriso triste, ensanguentado, mas cheio de compaixão. E ao olhar naqueles olhos azuis, Alone se viu refletido. Não como o Deus Dourado intocável, mas como algo pequeno, assustado e solitário.
— Achei que era você quem dizia que não existe espaço para paradoxos — falou Dan, a voz fraca, mas clara. — Para uma pessoa ser forte, ela também precisa ser fraca. Só podemos nos tornar fortes aceitando nossas fraquezas. Enquanto você negar quem você é... é impossível se tornar forte de verdade.
Alone começou a entender. O garoto não estava apenas falando; ele estava vendo. Ele via através da divindade, da armadura de Éter, direto para o núcleo podre que Alone rejeitava. O medo, a tristeza, a solidão infinita.
— EU NEGO! — rugiu Alone, a negação vibrando no ar, fazendo as ruínas tremerem. — Eu nego isso! Eu sou aquele que será Rei! Aquele que assumirá o topo de Morpheus! Um Deus perfeito! E para isso, eu não terei fraquezas! Serei cruel, poderoso, e pisarei em todos os vermes que aparecerem pelo caminho!
Dan continuou andando. Sem que Alone percebesse, ele já estava bem na sua frente, na zona de morte.
— Acha mesmo que isso vai te tornar um Rei? — Dan perguntou, suavemente. — Existe algo que você realmente vá ganhar fazendo isso, além de mais solidão?
Alone abriu a boca para responder, para esmagá-lo com lógica, mas não tinha resposta. O silêncio gritou em sua mente.
Ele se afastou, voando para o alto, olhando para baixo com ódio puro. Aquele garoto fraco, pequeno, magrelo, com zero de Éter... era a maior ameaça que ele já enfrentou em séculos. Uma poeira que tentava manchar sua grandiosidade com a verdade nua e crua.
O céu escureceu. Raios começaram a ecoar, rasgando as nuvens em um frenesi. Alone começou a aumentar seu Éter, criando uma aura tão grande e brilhante quanto um sol dourado, pronto para incinerar o planeta se necessário. Embaixo, em pé, observando aquilo sem se mover, havia apenas um garoto singelo. Mas ele não se abalava.
— EU NÃO VOU ACEITAR! ME RECUSO A ACEITAR A SUA EXISTÊNCIA! — Alone gritou, a voz de um deus ferido.
Ele lançou o ataque. Um poderoso Dragão Elétrico, dez vezes maior que o anterior, desceu dos céus, rugindo, indo direto para obliterar Dan da face da Terra.
Eliza gritava para ele fugir, a voz rouca. Uzumaki tentava se forçar a levantar, inútil. Yukina chorava, percebendo que mais alguém iria morrer por ela. Rum a abraçava com toda força, fechando os olhos para não ver o fim.
O dragão desceu. A luz consumiu o mundo.
Mas, antes que atingisse Dan... a sombra chegou.
Num flash de movimento vermelho e negro, uma figura se interpôs entre o garoto e o raio. Ele levantou o braço direito.
CRASH!
O raio colidiu. Mas não explodiu.
O braço direito da figura — negro, inchado, com garras vermelhas de magma e pulsando com energia sombria — absorveu o ataque. O Dragão Elétrico foi devorado, sugado para dentro daquele membro monstruoso como água num ralo, deixando apenas um clarão residual e fumaça dissipando-se no vento.
A figura abaixou o braço fumegante, o membro retornando lentamente a uma forma humana, e se virou.
Dante, com os olhos vermelhos cheios de lágrimas e um sorriso de alívio e reconhecimento profundo, olhou para o garoto à sua frente.
— Eu finalmente te achei.
E assim, sob o céu da cidade destruída, no olho do furacão, Dan e Dante finalmente se reuniram.
Parte 7
A fumaça sulfurosa do relâmpago dissipado começou a baixar, girando em espirais lentas, revelando as duas figuras no centro da cratera silenciosa.
Enquanto os ecos da conversa niilista de Alone ainda pairavam no ar como poeira, a verdade brutal sobre a história de Snow atingiu Dante como um golpe físico no esterno. Ele finalmente compreendeu o peso que aquele homem carregava.
Mais uma vez, Dante olhou para as próprias mãos. Elas não estavam apenas sujas de sangue; pareciam encharcadas de culpa indelével. Sua mente ameaçou escorregar para o abismo habitual, aquela escuridão confortável e anestesiada onde ele podia se esconder da dor.
Mas, desta vez, uma voz idêntica à sua o puxou de volta. Não era um grito de guerra, mas uma âncora lançada no mar revolto, uma frase que ressoava com a clareza de um sino:
"Para uma pessoa ser forte, ela também precisa ser fraca. Só podemos nos tornar fortes aceitando nossas fraquezas."
No presente, o silêncio caiu sobre o campo de batalha como um manto pesado. O vento parou de uivar. O tempo parecia suspenso.
Dan observava Dante, e a confusão era palpável não apenas nele, mas em todos ao redor. A visão era desconcertante, quase surreal: Dante, aquela figura imponente, um reflexo maior, monstruoso e brutal de Dan, coberto de feridas abertas e pulsando com poder, estava chorando. Lágrimas grossas e quentes escorriam de seus olhos vermelhos, lavando a fuligem de seu rosto bestial, um contraste chocante com a violência de sua aura.
Dante fixou o olhar em seu eu menor. A realização brilhava através da dor, límpida.
— Quando eu ouvi você dizer aquilo para ele... — a voz de Dante falhou. — Eu senti, no fundo da minha alma, que aquelas palavras não eram para o inimigo. Eu percebi... que elas eram para mim.
Ele respirou fundo, o peito arfando, trêmulo, antes de continuar, recitando o que havia aprendido com a própria sombra:
— "Nós criamos laços porque somos fracos. Porque sabemos que vamos cair, precisamos de alguém para nos segurar. Nós sentimos dor, e por isso entendemos a dor dos outros. Mesmo sabendo que vai doer se os perdermos... doer a um ponto de querer morrer... nós escolhemos amar."
Dante caiu de joelhos. O impacto foi surdo. Não caiu por ferimentos, nem por exaustão física, mas pelo peso esmagador da verdade. Ele ficou na altura dos olhos de Dan, despido de sua armadura.
— Eu percebi o quão fraco e patético eu era. Antes de encontrar Nero, eu me isolei. Eu gritava para o mundo que vivia apenas por mim, que não precisava de ninguém, mas era mentira. Eu estava aterrorizado. Eu tinha um medo paralisante de sentir de novo o que senti quando perdi a Velvet.
Ele levantou o rosto, encarando Dan com uma honestidade brutal que nunca havia permitido a si mesmo em séculos de existência.
— E quando perdi Nero... algo dentro de mim quebrou. Eu sabia que não suportaria aquela dor de novo. Eu sabia que não conseguiria resistir, então... eu joguei esse fardo sobre você. — Dante balançou a cabeça, um sorriso triste e autodepreciativo curvando seus lábios. — Do fundo do meu abismo seguro, eu te julgava. Dizia que você era mole, que se fosse eu no comando, seria diferente, seria melhor, seria mais forte... Mas a realidade é que quem se abriu, quem fez amigos, quem chorou e continuou vivendo carregando todas aquelas dores nas costas... foi você.
Aos poucos, as memórias de Dante inundaram a mente de Dan. O Éter dos dois começou a ressoar, entrando em sintonia. Uma vibração grave e harmônica fez o ar tremer e os cristais ao redor cantarem como taças de vidro.
Alone, flutuando acima deles, recuou um passo no ar, atônito. Seus olhos dourados analisavam a cena, incapazes de compreender a natureza daquele fenômeno que desafiava sua lógica de "força absoluta".
Dante continuou, sua forma física começando a oscilar, as bordas de seu corpo tremulando e se desfazendo em luz como uma chama ao vento:
— Quando era para nos fundirmos com a Anna, eu me escondi. Escondi a parte "fraca" de mim no fundo do seu coração para não ter que lidar com a mudança. Eu dizia a mim mesmo que era para te tornar mais forte... mas agora vejo que foi apenas covardia pura.
Ele olhou nos olhos do garoto.
— Você já é forte, Dan. Mais forte do que eu fui. Mais forte do que jamais serei sozinho.
Dante abriu um sorriso largo, sincero e finalmente livre, leve como nunca fora.
— E eu... eu sou o mais fraco. O mais fraco de todos. E eu aceito isso.
Dan não hesitou. Ele não viu um monstro, um assassino ou um guerreiro lendário. Viu apenas a si mesmo, refletido em um espelho quebrado que finalmente se consertava. Ele caminhou até a figura ajoelhada e estendeu a mão suja de terra e sangue.
Dante recuou por um instante, alarmado, sentindo-se indigno daquele toque, mas o pequeno garoto apenas sorriu. Um sorriso que carregava perdão, compreensão e aceitação absoluta.
— Está tudo bem — disse Dan, suavemente. — Eu disse que só aceitando que somos fracos podemos crescer. E por isso… eu também te aceito. Como parte de mim.
Dante olhou para aquela mão estendida. Com o rosto banhado em lágrimas e um sorriso de alívio que ele não sentia há eras, ele segurou a mão de Dan.
— De verdade... eu fico muito feliz.
Dan franziu o cenho, levemente confuso pela súbita alegria serena em meio à despedida iminente. Dante apertou sua mão com firmeza e confessou, a voz sumindo aos poucos, tornando-se etérea e multipresente:
— Eu ainda tenho medo. Não sei se vou "morrer", não sei como será o "depois". Apavora-me pensar no que pode vir e no peso que vou te obrigar a carregar a partir de agora. Mas... estou feliz. Pois sei que, aconteça o que acontecer comigo, eu me tornarei parte de alguém tão forte quanto o garoto que está na minha frente.
No instante seguinte, o mundo ficou branco.
A silhueta de ambos desfez-se em luz pura. Eles viraram Éter. Não havia mais carne, nem osso, nem roupa. Apenas a essência de duas metades buscando a totalidade, girando uma ao redor da outra.
— DAN! — gritou Eliza, um som de desespero e confusão, tentando correr até eles, mas sendo repelida por uma parede de pressão atmosférica.
Alone observava, paralisado, os olhos dourados arregalados de fascínio e repulsa. O Éter não se dissipou. Ele girou, convergindo violentamente para um único ponto de singularidade, criando o epicentro de uma tempestade dourada e carmesim. O chão derreteu. O ar ionizou.
De dentro daquele vórtice, algo totalmente novo surgia. Não era uma soma aritmética de partes. Era uma evolução.
Quando a fusão terminou, a tempestade cessou instantaneamente, como se alguém tivesse desligado um interruptor. O silêncio voltou, mas agora não era de medo; era um silêncio de reverência.
Havia apenas um jovem de pé no centro da cratera.
Ele parecia mais velho que Dan, mas mais jovem que o antigo Dante. Usava roupas totalmente diferentes. Seus cabelos negros balançavam, revelando as mechas vermelhas.
Ele abriu os olhos.
Eles eram a prova viva da união, o testamento do equilíbrio alcançado: o olho esquerdo era um azul profundo e sereno, como o oceano que tudo suporta e reflete; o direito era vermelho intenso, como sangue fresco e a chama inextinguível da determinação.
O jovem respirou fundo, enchendo os pulmões com o ar da nova realidade. A aura ao redor dele não vibrou com pressão esmagadora, nem com intenção assassina descontrolada. Pelo contrário: ao redor dele, o mundo se acalmou. A poeira assentou. O medo se dissipou. A entropia parou.
O caos se curvou diante da verdadeira força.
Dante estava, finalmente, completo.
Parte 8
A poeira da fusão baixou lentamente, revelando a nova silhueta no centro da cratera.
Dante estava lá, mas sua postura havia mudado radicalmente. O monstro tenso e curvado de antes havia desaparecido. Ele agora estava de pé, a coluna ereta, vestindo um casaco longo e escuro que oscilava suavemente com a brisa, revelando uma regata branca simples por baixo. Uma de suas mãos estava casualmente no bolso da calça, e seu tronco estava levemente inclinado para trás, numa atitude de relaxamento total que beirava a insolência. Ele parecia estar em um passeio despreocupado no parque, e não no epicentro de um apocalipse.
Alone o encarou do alto, a veia em sua têmpora pulsando visivelmente. A serenidade daquele "novo" garoto não era apenas calma; era um insulto direto à sua divindade.
— Mas que porcaria é essa? — rosnou Alone, a compostura divina rachando. — Que tipo de novelinha barata você me fez assistir? Fusão de almas? Aceitação do poder da amizade? Patético. Afinal... quem diabos é você?
Dante inclinou o rosto para o lado. Um sorriso de deboche, que misturava a arrogância de Dante com a leveza de Dan, curvou seus lábios.
— Você não sabe dizer? — Ele riu, um som leve e musical. — Parece que nem "Deus" sabe de tudo, afinal.
A provocação atingiu o alvo como uma flecha. A aura dourada de Alone explodiu, fazendo o chão de cristal tremer com sua indignação.
Eliza, ainda caída no chão, estendeu a mão trêmula na direção de Dante. Seus olhos tentavam decifrar o enigma à sua frente. Em sua mente, ela gritava por "Dan", mas sua voz saiu num sussurro rouco e incerto:
— Quem... é você?
Dante não se virou completamente. Ele manteve os olhos fixos na ameaça de Alone, mas falou de soslaio para ela.
— Eliza. Ajude a Rum e a Yukina. O Uzumaki e o Mumei ainda estão vivos, mas precisam de cuidados imediatos. Estanque o sangramento.
Eliza piscou, as lágrimas secando com o vento súbito. A ordem era de um comandante, mas a gentileza...
— Eu vou acabar com isso — continuou ele, a voz tranquila. — E vou tirar todo mundo daqui em segurança. Pode confiar.
Naquela hora, a dúvida na mente dela vacilou. Aquele era realmente o garoto que ela acolheu e protegeu?
Então, ele finalmente virou o rosto para ela. O sorriso largo, caloroso e quase infantil que ele lhe deu não pertencia ao Dante guerreiro; era o sorriso tímido e grato de Dan.
— Afinal... eu prometi que ficaria do seu lado, não prometi?
Eliza sentiu o coração apertar no peito. Ela teve a confirmação. Ele estava lá. Os dois estavam.
— CHEGA DESSA FARSA! — Alone gritou, sua paciência evaporando.
Ele disparou outro Dragão Elétrico, maior, mais brilhante e mais violento que o anterior, rugindo como um trovão enquanto rasgava o ar na direção de Dante para incinerá-lo.
Dante não correu. Ele não conjurou barreiras. Ele apenas tirou a mão do bolso.
— Vamos nessa.
VWOOM!
Das palmas de suas mãos jatos de plasma carmesim explodiram como turbinas de um caça em pós-combustão. Ele não voou; ele disparou. Dante se lançou diretamente contra a boca aberta do dragão elétrico.
Em vez de ser eletrocutado ou engolido, ele atravessou o ataque. Sua aura absorveu e dispersou a energia inimiga, e ele surgiu na frente de Alone em um milissegundo, rompendo a barreira do som.
POW!
Um chute giratório acertou o rosto de Alone. O impacto foi tão forte que criou uma onda de choque visível no ar, limpando as nuvens. O "Deus" foi lançado para trás como um projétil, atravessando três prédios de cristal consecutivos — CRASH, CRASH, CRASH — antes de conseguir frear no ar, derrapando na atmosfera, sangrando pelo nariz perfeito.
Dante pousou com leveza em cima de um poste de luz, equilibrando-se na ponta com facilidade felina.
— Primeiro, vamos aquecer as coisas. — Ele estalou o pescoço, girando os ombros. — Liberar Arquivo: Terceiro Modo. Deus Dragão.
BOOOOM!
O Éter de Dante explodiu. Mas não era mais apenas vermelho ou preto. Era uma chama dourada e alaranjada, brilhante e quente como o verdadeiro sol do meio-dia. A cidade inteira foi banhada por aquela luz solar, derretendo instantaneamente o gelo remanescente do Boss anterior, transformando o inverno em verão num piscar de olhos.
Naquele exato momento, algo maior respondeu.
A Torre de Diamante no centro da cidade, o pilar que o monstro protegia há séculos, começou a ressoar. Uma onda de Éter pulsou do topo, e rachaduras de luz apareceram na estrutura, vibrando em harmonia. Era como se a Arma do Apocalipse guardada lá dentro tivesse sentido aquele poder familiar, reconhecido seu mestre e despertado de um sono eterno.
Todos olharam, incrédulos, para a ressonância.
— Impossível... — sussurrou Alone, limpando o sangue do rosto com as costas da mão, os olhos arregalados. — Um verme como ele... não pode ser o dono Disso.
Dante riu do alto do poste, apontando desafiadoramente para a torre.
— Então, Alone... quer ver quem pega primeiro?
Furioso, com o ego ferido, Alone rugiu e partiu para cima dele em velocidade máxima, deixando um rastro de destruição sônica. Dante disparou também.
Era uma corrida aos céus. Dois cometas colidindo. Mas algo estava fundamentalmente errado.
Alone, que deveria ser a própria luz, a velocidade encarnada, parecia estar se movendo em câmera lenta. Ele via Dante se afastando, ganhando distância com uma facilidade irritante, enquanto seus próprios membros pareciam pesar toneladas, presos em um mel invisível. O ar parecia resistir ao seu avanço.
Dante girou no ar, parando subitamente na frente de um Alone confuso e lento.
— Lento demais.
BAM!
Dante acertou outro chute, desta vez no centro do peito dele, jogando-o de volta para o chão com a força de um meteoro. Alone colidiu com a praça, criando uma nova cratera.
Dante pairou no alto, olhando para baixo com seus olhos heterocromáticos — o azul da serenidade e o vermelho da destruição.
— É verdade... — disse Dante, sua voz ecoando por toda a cidade e reverberando no céu como um trovão divino. — Esqueci de contar a novidade para Morpheus.
Ele levou a mão esquerda ao braço direito e, num movimento teatral, puxou a ponta da bandagem que o cobria. O tecido se desenrolou e caiu, flutuando ao vento, revelando a verdade oculta.
O braço não era de carne. Não era de metal. Era feito de matéria escura, o próprio vácuo do espaço sideral, pontilhado por estrelas cintilantes e nebulosas, cortado por faixas vermelhas de poder contido. E lá, na pele cósmica, a marca da Coroa brilhava intensamente como uma supernova.
Atrás dele, o céu se distorceu. Um gigantesco relógio antigo, feito de Éter e números romanos flutuantes, materializou-se nas costas de Dante. Os ponteiros, travados há eras, começaram a se mover.
TICK... TOCK...
O som foi ensurdecedor. Fez o mundo vibrar. Não foi ouvido apenas ali; foi sentido na alma.
— A partir de agora... — Dante sorriu, arrogante, absoluto e eterno. — O Tempo está de volta.
Ele olhou para Alone, que se levantava dos escombros, atordoado e pequeno diante daquela majestade.
— Tente me acompanhar agora, deusinho.
E então, o impossível aconteceu.
Por toda Morpheus, de norte a sul, algo mudou na estrutura da realidade. Uma engrenagem universal que estava emperrada e enferrujada voltou a girar.
Nas cidades distantes, camponeses e reis pararam o que faziam, levando as mãos ao peito, sentindo um ritmo novo no coração do mundo. O sol azul, que permanecia estático no mesmo ponto do céu há eras incontáveis, estremeceu e moveu-se um milímetro perceptível para o oeste. As sombras, antes congeladas em ângulos eternos, começaram a se alongar e rastejar. E os milhões de relógios decorativos espalhados pelo Reino dos Sonhos, que serviam apenas de enfeite mudo, começaram a badalar em um uníssono cacofônico.
O Tempo, a única força que nem os Sonhos nem os Pesadelos podiam controlar, havia retornado sob o comando de um novo mestre.
Parte 9
Enquanto o centro da cidade de cristal ardia sob o novo sol implacável de Dante, nas bordas distantes da Floresta do Delírio, o mundo despertava de um pesadelo apenas para entrar em outro mais profundo.
Oliver abriu os olhos subitamente, puxando o ar com força, os pulmões ardendo como se estivesse se afogando em águas profundas. O cansaço da batalha anterior ainda pesava nos ossos como chumbo, mas algo mais denso o esmagava agora: a atmosfera. O ar não cheirava mais a ozônio e gelo seco. Cheirava a... antiguidade. A poeira estelar, radiação cósmica e um calor que não vinha de nenhuma estrela conhecida.
— O que... diabos é essa pressão? — Rugerd murmurou, sua voz grave soando pequena. Ele se levantou com dificuldade, os olhos varrendo o perímetro.
Oliver olhou ao redor. O acampamento estava intacto, as brasas da fogueira ainda fumegavam, mas estava vazio de uma presença vital específica. O vazio deixado era quase palpável.
— O Garoto — disse Oliver, o pânico tático crescendo em seu peito. — Ele sumiu.
Ao mesmo tempo, a quilômetros dali, na estrada principal pavimentada que levava às ruínas da cidade morta, o grupo de resgate de Ludmilla parou abruptamente.
Teth, Saga e a própria Ludmilla olharam para o horizonte. As nuvens cinzentas que cobriam a Cidade de Cristal haviam desaparecido, não sopradas pelo vento, mas dissipadas instantaneamente por uma onda de choque térmica que limpou o céu em um raio de dez quilômetros.
— Esse Éter... — Teth estreitou os olhos brancos, fixos na torre distante que brilhava como um farol. — Alone está lutando? Eu sinto a assinatura dele. Mas contra quem? Quem em Morpheus teria poder bruto para forçá-lo a liberar tanta energia?
— Esse Éter gigantesco... — Saga respondeu, e pela primeira vez havia uma nota de confusão genuína em sua voz aveludada. A marionete inclinou a cabeça, processando dados impossíveis. — Eu não faço ideia.
Mas Ludmilla sentia algo diferente. Um arrepio familiar percorreu sua espinha, não de medo, mas de reconhecimento.
Dante... não... Anna? Não.
O Éter que Ludmilla sentia era exatamente como o deles, mas tinha uma nova textura envolvida nele.
Essa é a mesma intensidade de um Astreus.
Ela sorriu, um sorriso pequeno, cansado e aliviado.
— Allora ti sei finalmente rivolto, il tuo idiota.
No olho do furacão, a humilhação sistemática de um Deus continuava.
Alone rosnou, o sangue dourado e divino escorrendo pelo queixo perfeito, manchando o colarinho branco. A serenidade de Dante era um insulto. Ele estalou os dedos.
— MORRA!
Ele disparou três Dragões de Raios simultâneos. Bestas de eletricidade pura, maiores que prédios, rugiam e estalavam, convergindo para Dante vindo de três direções diferentes — cima, esquerda e direita — em um ataque de pinça impossível de esquivar.
Dante não se moveu. Ele não conjurou escudo. Ele bocejou, cobrindo a boca com a mão enfaixada.
Quando os dragões o atingiram, não houve explosão. Não houve o cheiro de carne queimada. As bestas de energia simplesmente se desfizeram ao tocar a pele dele, como água batendo em uma chapa de aço incandescente. A aura de Dante — uma mistura instável e faminta de plasma solar e vácuo — agiu como um buraco negro seletivo. Ela devorou a eletricidade, desfazendo a coesão dos raios e convertendo-os em combustível bruto.
— Você é burro? — perguntou Dante, o tom casual, começando a caminhar pelo ar como se subisse uma escada invisível em direção à Torre de Diamante. — Plasma superaquecido é um supercondutor natural. Jogar raio em mim é como jogar gasolina no fogo. Mas, se o seu plano mestre é recarregar minhas baterias... obrigado pela gentileza.
Alone recuou no ar, os olhos tremendo. A lógica divina falhou. Se a energia não funcionava... ele usaria a matéria bruta.
— NÃO SE ACHE TANTO, SEU VERME! — O grito de Alone rachou vidraças distantes. — Se não posso queimá-lo... VOU ESMAGÁ-LO!
Alone estendeu as mãos para os prédios ao redor como um maestro regendo o fim do mundo. O Éter dourado infiltrou-se nas estruturas de cristal e vidro como veias de luz.
— Dança dos Espelhos: Colapso de Vidro!
Com um som de trovão sólido, três arranha-céus inteiros explodiram em milhões de fragmentos. Mas os estilhaços não caíram. Eles pararam no ar, afiaram-se molecularmente sob o comando de Alone e começaram a girar, transformando-se em um ciclone de guilhotinas translúcidas. Uma tempestade de lâminas físicas, sólida, cortante e letal.
— DESAPAREÇA!
A tempestade de vidro desabou sobre Dante. Toneladas de matéria afiada caindo à velocidade do som, um moedor de carne de escala urbana.
Dante sorriu. O relógio de Éter em suas costas fez TICK. Ele tocou casualmente num pedaço grande de escombro de concreto que flutuava ao seu lado, imbuindo-o com seu Éter temporal.
— Retrocesso Cinético.
Ele chutou o escombro. A pedra não apenas voou; ela rasgou o tempo. Ao colidir com a frente da tempestade de vidro, a pedra criou uma onda de distorção temporal. Os cacos de vidro que entravam na área de efeito de Dante paravam, tremiam violentamente e, subitamente, envelheciam mil anos num segundo. A estrutura molecular colapsava, transformando as lâminas mortais em areia fina e inofensiva antes de tocarem a pele dele.
Dante dançava através da tempestade de areia que ele mesmo criara. Seus movimentos eram coreografados, fluidos como água. Ele girava, desviava das pedras maiores que resistiam ao tempo e usava jatos curtos de plasma carmesim das mãos para se impulsionar com explosões precisas, ziguezagueando pelo céu como um cometa ágil.
Ele surgiu na frente de Alone, rompendo a nuvem de areia, girando o corpo para um golpe.
— Você é barulhento. E faz muita sujeira na minha cidade.
BAM!
Um soco infundido em plasma acertou o estômago de Alone. O Deus dobrou-se em "V", cuspindo bile e ar, e foi arremessado horizontalmente contra a parede externa da Torre de Diamante. O impacto criou uma cratera na fachada.
Dante pousou com leveza numa gárgula de pedra da torre, observando a estrutura de perto pela primeira vez. Agora, sem a névoa da batalha, ele notava os detalhes arquitetônicos. Aquilo não era apenas um prédio corporativo ou um castelo de mago. Os arcos ogivais, os vitrais quebrados que retratavam anjos sem rosto, a nave central alongada...
— Uma igreja? — Dante franziu a testa, confuso. — Uma catedral gótica em Morpheus?
Por que o Boss estava protegendo uma catedral destruída no meio do nada?
Ele não teve tempo para continuar a reflexão. Alone, gritando de fúria cega, emergiu dos escombros da parede e voou verticalmente para o topo da torre, tentando chegar ao pináculo antes dele.
— É MINHA! A ARMA É MINHA! EU SOU O HERDEIRO!
Dante suspirou, balançando a cabeça.
— Você não aprende mesmo.
Ele flexionou os joelhos e disparou um jato contínuo de fogo das botas, transformando-se num borrão de luz vertical. Ele ultrapassou Alone na subida, a onda de choque de sua passagem desequilibrando o Deus. No ápice do salto, Dante girou no ar e acertou um chute de calcanhar descendente na cabeça de Alone, mandando-o para baixo como um prego sendo martelado, enquanto ele pousava suavemente no pináculo da torre.
Lá, no topo, não havia um altar grandioso de ouro, nem um trono. Havia apenas um pedestal simples de pedra branca, desgastado pelo tempo. E em cima dele, uma pequena caixa de madeira escura, polida, sem adornos, parecendo um porta-joias comum esquecido.
Dante pegou a caixa.
— Tanta confusão... tanto sangue... por causa disso?
Alone subiu novamente, flutuando, o rosto inchado e sangrando, os olhos loucos de cobiça.
— LARGUE ISSO! VOCÊ NÃO É DIGNO! DÊ PARA MIM!
Dante olhou para a caixa, depois para Alone, com pena.
— Sabe, Alone... você fala muito sobre dignidade, divindade e destino. Mas, no fim das contas, você não passa de uma criança mimada que não sabe perder no jogo.
Dante guardou a caixa no bolso interno do casaco, protegendo-a. O relógio em suas costas girou furiosamente, os ponteiros borrando. Ele concentrou todo o Éter no braço direito. A gravidade ao redor de seu punho aumentou tanto que a luz começou a dobrar e ser sugada.
— Hora de descer.
Dante apareceu instantaneamente acima de Alone. Ele não socou o rosto dele. Ele colocou a mão aberta sobre a cabeça do Deus, como uma bênção corrompida, e impulsionou-se para baixo com seus jatos de plasma em potência máxima.
— Chronos Breaker: Queda do Olimpo.
CRASH!
Dante afundou Alone. Eles atravessaram o teto reforçado da torre como se fosse papel. Atravessaram o chão do último andar. E o do penúltimo.
BUM! BUM! BUM! BUM!
Eles rasgaram o prédio inteiro de cima a baixo, um cometa humano perfurando a "igreja" pelo centro exato da nave, destruindo cada andar, cada banco, cada vitral, numa descida vertiginosa e violenta de destruição estrutural.
A torre não aguentou o trauma interno e começou a colapsar ao redor deles, mas eles já estavam mais fundo, mais rápidos que a gravidade. Dante enterrou Alone no chão de mármore do térreo e continuou. Eles perfuraram a fundação de diamante puro e caíram na escuridão subterrânea.
No subsolo, o silêncio retornou. A poeira baixou lentamente.
Era um salão vasto, úmido e escuro, uma cripta esquecida, iluminada apenas pela luz residual vermelha do Éter de Dante. Nas paredes, havia estátuas antigas de guerreiros desconhecidos, idênticos em forma, mas alguns pintados com cores azuis desbotadas e outros com cores vermelhas, posicionados frente a frente.
Alone estava num buraco profundo no centro da sala, os ossos quebrados em múltiplos lugares, a aura divina piscando fraca como uma lâmpada fluorescente prestes a queimar. Ele tentava se levantar, arranhando a terra, mas o corpo não obedecia mais.
Dante estava de pé na borda da cratera, intacto, nem um fio de cabelo fora do lugar. Ele limpou a poeira do ombro e, sem dar importância ao Deus caído e humilhado aos seus pés, tirou a pequena caixa do casaco.
— Vamos ver o que vale tanto a pena morrer.
Ele abriu a tampa com um clique suave. Não houve luz ofuscante, nem música celestial, nem terremotos.
Dentro da caixa, repousando sobre um veludo vermelho gasto pelo tempo, estava um par de luvas.
Não eram manoplas medievais de armadura pesada. Eram luvas tecnológicas e táticas, de aparência moderna e letal. Feitas de um tecido preto fosco e um metal negro estranho que parecia absorver a luz ambiente em vez de refleti-la. Havia placas de reforço nos nós dos dedos e fios vermelhos finíssimos, quase imperceptíveis, costurados ao longo das palmas e das falanges, formando circuitos complexos que pareciam veias digitais pulsantes.
Dante ergueu uma sobrancelha, surpreso pela simplicidade, mas sentindo uma conexão magnética imediata. Sua pele formigou. Aquilo não era uma arma para disparar ou cortar à distância. Era uma arma para tocar e para controlar.
— Luvas... — murmurou Dante, um sorriso de canto irônico aparecendo. — Faz todo o sentido. Afinal, eu sempre preferi resolver as coisas com as minhas próprias mãos.
Ele olhou para Alone, que o observava com terror e inveja do fundo do buraco.
— Agora... vamos testar se servem?
Parte 10
O confinamento do subsolo não suportou a magnitude térmica do embate. Com uma explosão que estilhaçou as fundações geológicas da ilha e fez a superfície de cristal tremer como gelatina, os dois combatentes irromperam de volta à luz do dia, rasgando o solo e pulverizando camadas de cristal ancestral como mísseis humanos intercontinentais.
Dante aterrissou deslizando sobre os escombros, abrindo duas valas profundas com os pés, seus golpes de plasma fluindo com a facilidade de quem respira oxigênio puro, confiante em sua vantagem elemental recém-descoberta.
Mas Alone, o autoproclamado Deus, não havia chegado ao topo do mundo com truques de salão baratos. Ele pairou no ar, estática violenta crepitando ao seu redor, os cabelos vermelhos e negros flutuando em gravidade zero.
— Você acha que "imunidade" é o suficiente? — gritou Alone, a voz distorcida por múltiplas frequências de rádio, ecoando por toda a cidade em ruínas como um alto-falante celestial. — Acha que eu sou apenas um gerador de raios glorificado? Eu sou a Tempestade!
Alone cessou os disparos diretos de eletricidade. Seus olhos brilharam em um violeta intenso e doloroso de olhar, enquanto ele começava a manipular o campo eletromagnético em nível molecular.
— Campo de Distorção: Resplendor Final.
Ele não mirou em Dante. Ele mirou no espaço vazio entre eles. Alone descarregou uma voltagem astronômica no ar, superaquecendo as moléculas de oxigênio e nitrogênio instantaneamente. O ar expandiu de forma violenta, criando um trovão sólido — uma onda de choque cinética devastadora. O deslocamento de ar atingiu Dante na velocidade do som, um impacto físico invisível e brutal que ele mal teve tempo de bloquear cruzando os braços em "X".
Enquanto Dante era empurrado para trás pela pressão atmosférica, arrastando as botas no chão, Alone ergueu as mãos como um maestro regendo o fim do mundo.
— E agora... a penetração.
O magnetismo de Alone arrancou vergalhões e vigas de titânio dos destroços da Cidade Diamante. O metal se contorceu e gritou, fundindo-se no ar pela indução de calor até formar uma lança aerodinâmica perfeita, brilhando em laranja vivo. Anéis de eletricidade se formaram na frente de sua mão estendida, criando trilhos magnéticos invisíveis.
— Lança Angelical.
ZIUM!
O projétil foi disparado a Mach 7. A lança de metal tornou-se um borrão incandescente, deixando um rastro de vácuo. Dante, ainda sendo jogado para trás, riu com sangue nos dentes ao ver um golpe assinatura seu vindo em sua direção. Ele usou seu próprio Éter para criar uma onda eletromagnética repulsora e mudar a trajetória da lança no último microssegundo. O projétil passou raspando, rasgando a lateral de seu casaco e demolindo um prédio inteiro atrás dele como se fosse feito de papelão.
TICK-TOCK.
O combate escalou para a insanidade pura. Alone voava entre os escombros flutuantes, usando o calor dos raios para derreter o solo de silício e cristal das ruínas. Ele moldava o material fundido no ar, resfriando-o instantaneamente para criar lanças de vidro vulcânico e fulguritos superaquecidos. Ele disparava essa chuva de vidro sólido contra Dante.
Enquanto isso, Dante sentia que aquelas luvas novas eram estranhas. Desde que ele as colocou, elas não apenas se ajustaram; elas estavam sugando seu sangue vorazmente através dos fios vermelhos, como parasitas famintos. Mas, paradoxalmente, ele não se sentia mais forte. Pelo contrário, estava sendo empurrado para a defensiva, sangrando, exausto e recuando passo a passo.
De repente, Alone parou no alto, silenciando os trovões com um gesto. Ele começou a rir. Uma risada que não combinava com a fúria cega de antes. Era calculista. Fria. Metálica.
— Hahahaha... Você realmente achou que eu estava cego de raiva, garoto? — Alone limpou o sangue do rosto com as costas da mão, faíscas dançando em seus dedos. — Eu sou um Deus. A fúria é apenas combustível para a minha criatividade. Enquanto você brincava de herói aqui embaixo... você esqueceu a regra número um: olhar para cima.
Uma sombra titânica cobriu a Cidade de Cristal, bloqueando a luz do sol recém-criado. A temperatura caiu. Dante olhou para cima. E seus olhos se arregalaram em choque genuíno.
Não era uma nuvem de tempestade. Era uma lua artificial. Uma esfera colossal, formada por milhares de toneladas de sucata compactada, restos dos arranha-céus da cidade, vigas de aço retorcidas e o próprio núcleo magnético denso da antiga Torre de Diamante. Tudo mantido coeso e comprimido por uma teia pulsante e complexa de eletricidade roxa e dourada, pairando sobre suas cabeças como o martelo de um juiz final.
— Meteoro do Ragnarok.
Alone baixou a mão lentamente.
— Eu não preciso acertar você com precisão. Eu só preciso derrubar isso. E a floresta inteira, num raio de quilômetros, vai ser esmagada e nivelada. Seus amigos, seus laços, suas promessas... eu irei destruir tudo de uma só vez.
O meteoro começou a cair. A pressão do ar foi tão grande que o chão sob os pés de Dante começou a rachar em teias de aranha antes mesmo do impacto.
Dante não tremeu. Ele olhou para o monstro de metal caindo através do buraco que eles fizeram no céu e... sorriu. Um sorriso de canto, desafiador e louco.
— Ei, deusinho... — Dante falou, ajeitando a luva. — Quer apostar?
VWOOM!
Dante disparou para o céu, um cometa vermelho suicida contra a lua de sucata.
No chão, o grupo de resgate de Ludmilla finalmente chegou à orla da praça, ofegante.
— Aquele Éter... — Teth arregalou os olhos brancos, sentindo a pressão na pele. — É denso demais. É caótico. É... o Dante?
— O que está acontecendo?! — Uzumaki gritou, protegendo os olhos da ventania que derrubava árvores. — Quem é aquele?!
— É ele... — Eliza sussurrou, apertando as mãos contra o peito, as lágrimas voltando. — Ele prometeu... ele prometeu que ia salvar todo mundo.
No céu, Dante colidiu com o meteoro. Ele não tentou socá-lo. Seria inútil. Ele colocou as duas mãos abertas na superfície fria, irregular e vasta de metal.
— Chronos Drive: Salto Temporal!
Ele tentou envolver a massa colossal com seu Éter do Tempo. A ideia era simples: mandar essa coisa para o futuro, para daqui a mil anos, quando não houvesse ninguém embaixo para morrer.
Mas o peso era absurdo. A massa de metal, infundida com o Éter divino de Alone, resistia ao fluxo do tempo como uma âncora.
— Droga... — Dante rangeu os dentes, veias saltando no pescoço. As luvas sugavam seu sangue vorazmente agora, piscando em vermelho. Sua visão começou a turvar, ficando preta nas bordas. — É pesado demais... Eu não tenho Éter suficiente para mover isso...
O meteoro continuava descendo, empurrando-o para baixo. O calor da reentrada queimava sua pele. Ele ia falhar. E todos iriam morrer.
Foi então que uma voz ecoou na cabeça dele. Uma voz feminina, metálica, digital e incrivelmente sarcástica.
— Você é idiota ou o quê?
Dante piscou, atordoado, quase perdendo a concentração.
— Anna?!
— Não me insulte, parceiro. — A voz vinha das mãos dele. Das luvas. — Por que você está tentando empurrar uma montanha com magia do tempo? É como tentar matar uma mosca com uma bazuca. Desperdício de energia. Você é burro?
— Quem é você?! — gritou Dante mentalmente. — Eu estou um pouco ocupado tentando não morrer esmagado!
— Eu sou a Unidade Tática XV-Caliber. E estou tentando impedir que meu novo usuário morra por estupidez crônica no primeiro dia. Olhe para isso. É metal. É condutor. Você gera plasma e eletricidade. Você não precisa mandar para o futuro. Você só precisa mudar a polaridade magnética.
Dante travou.
— O quê?
— Ionize o metal, seu lerdo! Crie um campo magnético reverso de alta frequência. Faça a própria gravidade do planeta cuspir essa coisa de volta para o espaço como um ímã repelido!
— Eu... eu nunca ionizei nada nessa escala! — Dante protestou. — Eu vou explodir!
— Porque você é medroso. E inexperiente. Na verdade, pelo que eu senti escondido dentro do código genético do seu sangue, você tem muito mais poder latente do que imagina e deixa ele ser totalmente desperdiçado. Uma vergonha. — A voz da luva tornou-se séria, fria. — Mas, se você quiser viver, eu posso guiar o fluxo do seu Éter e forçar a ativação dos poderes dentro do seu sangue. Mas já alerto que vai custar caro. O combustível... é você confiar em mim e abrir as comportas.
A palavra ecoou. A memória de Dan veio à tona. "Porque sabemos que vamos cair, precisamos de alguém para nos segurar." Mesmo que o "outro" fosse um par de luvas sencientes e suspeitas que bebiam sangue.
Dante sorriu. O medo sumiu, substituído por adrenalina.
— Tudo bem, "Parceira". — Ele fechou os olhos. — Leve tudo o que precisar. Vamos nessa.
— Heh. Agora sim estamos falando a mesma língua.
Dante parou de resistir ao dreno. Ele inverteu o fluxo. Ele empurrou todo o seu sangue, todo o seu Éter, toda a sua alma para dentro dos circuitos das luvas.
— Sincronização: 100%. Ativando Modo Serafim.
BOOOOOOOOM!
Uma coluna de luz branca e pura explodiu no céu, partindo o meteoro ao meio visualmente e cegando Alone e todos no chão.
Quando a luz diminuiu, Dante não era mais o mesmo.
Seus cabelos negros haviam se tornado brancos puros, flutuando numa gravidade zero própria. Seus olhos heterocromáticos agora tinham auréolas brancas brilhantes e geométricas girando ao redor das íris. Sobre sua cabeça, uma auréola de luz digital pairava. Em suas costas, seis asas de energia translúcida e cibernética se abriram, vibrando.
As roupas rasgadas deram lugar a um traje de combate branco, justo e futurista, feito de luz sólida. Em seus ouvidos, fones de ouvido grandes e tecnológicos pulsavam com o ritmo de seu coração acelerado.
Ele não usava mais jatos de fogo para voar. Ele simplesmente existia no ar. Ele havia se tornado uma anomalia eletromagnética viva.
Dante estendeu a mão aberta para o meteoro.
— Ionização Total: Repulsão Planetária.
Um arco gigantesco de plasma branco envolveu o meteoro. O metal rangeu e gemeu. E então, desafiando todas as leis da física newtoniana, a montanha de sucata parou no ar. Ficou leve como uma pena.
Dante girou no ar e, com um movimento casual de chute, tocou a base do meteoro.
— Devolução.
ZOOOM!
O meteoro foi disparado para cima a uma velocidade que o olho humano não acompanhou. Ele furou a atmosfera, criou um anel de nuvens sônico e desapareceu no espaço profundo em um segundo.
Dante baixou os olhos brilhantes para Alone.
O Deus estava pálido. Ele, que buscava a divindade através do medo, olhava agora para algo que parecia verdadeiramente celestial e inalcançável.
Dante desceu. Ele não caiu; ele deslizou pelo ar como se descesse uma escada rolante invisível até pousar suavemente, sem som, na frente de Alone.
Alone recuou, tremendo, a arrogância destruída.
— O que... o que é você?!
Dante ajeitou os fones de ouvido com calma. A música que só ele ouvia estava no clímax. Ele sorriu.
— Foi legal brincar com você, Alone. Mas o recreio acabou.
Dante levantou a mão direita. Ele fechou o punho, deixando apenas o indicador e o polegar estendidos. O sinal infantil de uma arma.
Ele apontou para o peito de Alone, bem no coração. Na ponta do seu dedo, uma pequena esfera de energia vermelha e branca se condensou, girando furiosamente. Não parecia grande. Parecia uma estrela de nêutrons moribunda comprimida ao tamanho de uma moeda.
— Hora de apagar a luz.
Dante disparou.
— Queime: Estrela Rubra Tenka.
Não houve som de explosão. O som não conseguiu acompanhar. Houve apenas um feixe de luz vermelha concentrada que atravessou a realidade.
O feixe atingiu Alone no peito.
O Deus não teve tempo de gritar, nem de pensar, nem de se arrepender. Ele foi arrancado do chão. A força do impacto foi tão absurda que Alone não foi apenas jogado para trás; ele foi transformado em um borrão cinético.
Ele atravessou a cidade em ruínas. Atravessou a floresta inteira, abrindo uma clareira reta nas árvores. Atravessou a montanha ao longe, perfurando a rocha. Ele foi lançado para além do horizonte, sumindo de vista em menos de um batimento cardíaco, deixando apenas um rastro de nuvens rasgadas no céu e um silêncio absoluto na terra.
Dante soprou a ponta do dedo indicador, como se apagasse a fumaça de um revólver quente em um filme de faroeste.
— Bang.
A vitória era absoluta.
Parte 11
Dante aterrissou suavemente entre os escombros fumegantes onde o grupo da Tromluí se recuperava. A poeira fina de diamante, agora inofensiva, assentou ao redor dele como neve fresca.
Eliza, ainda de joelhos na sujeira e segurando o cabo de sua adaga com os nós dos dedos brancos, olhou para ele. Seus olhos estavam vermelhos e inchados de chorar, mas agora estavam estreitos de desconfiança e medo.
— Parado aí. — Ela sibilou, a voz falhando, rouca. — Não dê mais um passo na minha direção.
Dante parou instantaneamente. Ele viu o medo primitivo nos olhos dela — não medo dele, Dan, mas do desconhecido que ele havia se tornado. Ele suspirou, um som longo e cansado, e a armadura de Éter branco e as asas cibernéticas se desfizeram em partículas de luz suave, revelando novamente o garoto de cabelos pretos, exausto, machucado, vestindo trapos e um casaco largo demais.
Ele estendeu as mãos vazias, mostrando as palmas para ela.
— Sou eu, Eliza. O Dan.
A tensão nos ombros de Eliza diminuiu um pouco, os músculos relaxando, mas antes que ela pudesse responder ou correr até ele, três figuras surgiram das sombras das ruínas como fantasmas.
Teth, com suas vestes brancas levemente chamuscadas e as asas recolhidas. Saga, em sua forma de marionete impecável. E Ludmilla.
— Então não era só impressão minha, no final das contas... — Teth murmurou, observando Dante com um olhar analítico, os olhos brancos brilhando.
Saga riu, um som seco de porcelana batendo.
— Ora, ora. Agora as coisas ficaram verdadeiramente complicadas.
Ludmilla não esperou por análises políticas. Ela correu, passando por Teth e Saga sem pedir licença, e se jogou contra Dante, abraçando-o com força. O impacto quase o derrubou.
— Seu idiota! — sussurrou ela contra o peito dele, a voz tremendo de alívio puro. — Que bom que você voltou inteiro.
Dante ficou surpreso, os braços pairando no ar por um segundo antes de retribuir o abraço desajeitadamente, sentindo o calor humano.
— EI! — Eliza levantou-se num salto, a tristeza e o medo substituídos instantaneamente por uma indignação possessiva. — O que você pensa que está fazendo?! Quem é você para chegar abraçando ele assim na minha frente?!
Ludmilla se afastou, o rosto levemente corado, mas manteve a postura firme de militar. Ela olhou para Eliza, avaliando a garota de cabelo magenta de cima a baixo com frieza tática, e depois virou-se para Dante com um sorriso irônico de canto de boca.
— Bem que eu avisei...
Dante coçou a cabeça, genuinamente confuso.
— Do que você está falando?
Saga interrompeu o momento de comédia romântica, sua voz suave e aveludada cortando o clima como uma navalha.
— A reunião é tocante, de verdade, mas temos um impasse grave aqui.
Ela apontou com um dedo articulado para o grupo da Tromluí — Pesadelos feridos, terroristas, inimigos do Estado — e depois para a Torre de Diamante destruída.
— Normalmente, nosso dever como representantes dos Sonhos seria executar todos os Pesadelos presentes por traição e assegurar a Arma do Apocalipse para o Rei. Mas... — ela olhou significativamente para a cratera vitrificada onde Alone, um deus, fora derrotado e humilhado. — Pelo que senti, e pela forma como ele varreu o chão com um Cavaleiro Real... eu calculo que não teria a menor chance em uma luta direta contra esse garoto. A probabilidade de vitória é zero.
Ela se virou para Teth, lavando as mãos da responsabilidade.
— Então, deixarei a escolha ética em suas mãos, Teth. Você é o Cavaleiro da Justiça aqui.
Teth olhou para Rum, que ainda segurava o corpo inerte de Dumpt, chorando em silêncio. Olhou para Yukina, encolhida e traumatizada. E finalmente, fixou seus olhos brancos e cegos em Dante.
— Diga-me, garoto — perguntou Teth, a voz grave e séria. — Você é realmente o Dante?
— Sim — Dante respondeu sem hesitar, sustentando o olhar.
Teth assentiu devagar, como se confirmasse uma suspeita antiga e temida.
— Eu já imaginava. Desde o momento em que senti a textura da sua aura na luta contra o Snow... eu soube.
Ele fez uma pausa dramática, e o peso de suas próximas palavras calou o vento nas ruínas.
— Você é um Grimm.
A revelação caiu como uma bomba atômica silenciosa.
Eliza arregalou os olhos, a boca abrindo-se. Rum levantou a cabeça bruscamente, parando de chorar. Uzumaki, que estava enfaixando o próprio braço quebrado, congelou.
— Você... derrotou o Snow? — Eliza sussurrou, olhando para Dante como se ele fosse um estranho perigoso novamente.
Dante abriu a boca para explicar, para dizer que não era bem assim, que era complicado, que ele ainda era ele. Mas ele nunca teve a chance.
As luvas XV-Caliber em suas mãos começaram a pulsar violentamente.
Não era o brilho vermelho de antes. Era uma luz branca, pura, fria e cegante. Os fios vermelhos nas palmas das luvas tornaram-se dourados como ouro líquido. Dante sentiu seus braços serem puxados para cima com força magnética, contra a sua vontade.
— Dante? O que você está fazendo? — Ludmilla perguntou, recuando um passo, a mão indo para a adaga.
— Não sou eu! — Dante gritou, tentando abaixar os braços, os músculos tremendo, mas era inútil. As luvas estavam travadas em uma diretriz automática superior. — Elas... elas estão respondendo a um sinal!
VWOOOOM!
Um pilar de Éter puro e concentrado disparou das mãos de Dante, perfurando as nuvens dissipadas e conectando a terra ao céu como um elevador orbital de luz.
Mas ele não foi o único.
No mesmo instante, em perfeita sincronia, a terra respondeu em pontos distintos e distantes de Morpheus. Na Cidade de Cristal, um feixe de luz azul subiu da catedral. No Castelo do Rei dos Sonhos, outro pilar dourado irrompeu da torre mais alta. E na Cidade Meia-Noite, o quarto raio, negro como azeviche, cortou a escuridão eterna.
Quatro pilares de luz. Quatro chaves girando simultaneamente na fechadura da realidade do mundo.
Na orla da Floresta do Delírio, Silence parou de caminhar subitamente. Seus olhos rolaram para trás, ficando totalmente brancos, e ela começou a flutuar a alguns centímetros do chão, os cabelos desafiando a gravidade.
— Senhorita Silence? — Philia chamou, assustada, largando a mochila. — O que aconteceu?
— Eu estou ouvindo... — a voz de Silence não era a dela. Era antiga, múltipla, masculina e feminina, ecoando como se viesse do fundo de um poço sem fim. — O Pai está falando. A Lei está sendo reescrita.
Ela abriu a boca, e a profecia final fluiu como água:
“Escutem, crianças. O ciclo está prestes a fechar. Assim que os Instrumentos do Fim tocarem as mãos de Morpheus, a estagnação morrerá e o Tempo devorará seus filhos novamente. A promessa antiga foi ativada. Não haverá refúgio para os Sonhos, nem esconderijo nas sombras para os Pesadelos; o luto será a única moeda corrente. O mundo, como o vedes, irá arder até as fundações, pois a mentira azul que chamais de céu está prestes a desabar.”
No momento exato em que a última palavra foi dita, um som ensurdecedor de tecido grosso rasgando ecoou por todo o planeta, de polo a polo.
O céu de Morpheus, aquele azul eterno, perfeito e estático, rachou. Uma cicatriz negra, irregular e purulenta abriu-se no firmamento, de ponta a ponta, sangrando cores que não deveriam existir na paleta humana, enquanto nuvens de tempestade roxas e verdes começaram a engolir o horizonte.
Na Capital dos Pesadelos:
A Rainha Isobel caminhou lentamente até a varanda de ferro de seu palácio industrial. O vento trazia cheiro de enxofre. Ela olhou para o céu rasgado com seus olhos cansados, sentindo o Éter do mundo tremer em seus ossos.
— Algo está chegando...
Na Cidade Meia-Noite:
Em uma mansão gótica e distorcida, onde homens riam e bebiam em uma festa decadente, o silêncio caiu como uma guilhotina. Uma mulher loira, deslumbrante, com orelhas pontudas e olhos vermelhos — a entidade antiga habitando o corpo de Anna — levantou sua taça de vinho tinto em um brinde macabro para a fenda no céu.
— Comemorai, ó Senhorita Cat. Pois o Começo do Fim está para principiar. Finalmente, após tanto tempo de tédio, a minha vingança irá prosperar e florescer.
Cat, ao lado dela, ajustou os óculos nervosamente, suando frio ao olhar para o abismo acima.
“Ela realmente não vai mudar esse jeito arcaico de falar nunca...”
No Castelo do Rei (Ilha Flutuante):
Um homem de cabelos brancos imaculados e olhos amarelos como o sol — o Rei — caminhou até a janela panorâmica. Ele sorriu. Um sorriso sereno e absolutamente terrível.
— Finalmente chegou o dia. Os céus abriram suas portas para nós.
Ele se virou e caminhou até uma jaula dourada e ornamentada no centro da sala do trono. Dentro, Yuki estava sentada no chão frio, abraçando os joelhos, o olhar vazio e distante. O Rei tocou o rosto dela através das grades com uma ternura possessiva e doentia.
— Aguarde mais um pouco, minha filha. Logo irei retirá-la dessa prisão de carne inútil.
Ele limpou a mão em um lenço de seda bordado, como se o contato com a pele dela o tivesse sujado, e caminhou até o trono.
— O caminho para o Destino enfim se revelou.
Na Cidade de Cristal (Palácio):
Dorothea parou de comer seus doces no meio de uma mordida. Saga (a original, conectada à marionete) levantou-se de sua oração diante do cristal. Ambas olharam pela janela para a tempestade cósmica que se formava acima da catedral.
— Onde está a Irene? — Dorothea perguntou, a voz pequena, sem a brincadeira habitual.
— Eu não sei... — Saga respondeu, franzindo a testa, cega para o paradeiro da aliada. — Por algum motivo... eu não consigo vê-la em lugar nenhum.
Em um Armazém Escuro e Abandonado:
Longe dos olhos oniscientes de Saga, entre caixotes de madeira apodrecida e poeira secular, Irene caminhava com a elegância de uma gata. Ela parou diante de uma garota jovem que dormia profundamente em cima de uma caixa, abraçada a uma espada longa embainhada.
Irene sorriu, seus olhos de fechadura brilhando na penumbra com malícia e expectativa.
— Chegou a hora de acordar, Katsuragi. O despertador tocou. Finalmente... a luz cruel do Tempo brilhou sobre o horizonte de Morpheus.
A largada foi dada. As engrenagens enferrujadas da realidade começaram a girar, triturando a paz estagnada com um som de metal retorcido. Os ponteiros do relógio viraram, marcando o fim da Era dos Sonhos.
Uma nova história, escrita em sangue e tempo, estava prestes a ser contada.
E, com o som de um portão colossal e invisível se abrindo no meio do céu rasgado, as portas do Jardim da Memória foram abertas para o mundo.



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