The Fall of the Stars : Capítulo 4 - Reunião
- AngelDark

- 17 de dez. de 2025
- 82 min de leitura
Atualizado: 23 de dez. de 2025
Volume 9: O Mais Fraco
Parte 1
Um som suave, como o de um martelo melódico batendo em cristal, ecoava pelo ar. A câmera sobrevoava uma paisagem impossível.
Cidade Diamante. Uma cidade misteriosa e bela que parecia estar em constante construção. Casas feitas de cristais puros misturavam-se com a arquitetura em estilo enxaimel, criando um visual único. As estruturas de cristal inacabadas cresciam do chão como formações geológicas, enquanto andaimes de madeira rústica as cercavam. Não havia poeira, apenas uma névoa de luz prismática. Por todos os lados, havia lagos e rios de uma água cristalina sem igual. O brilho dos lagos e dos cristais, junto com o verde da flora natural, criava um ambiente de beleza quase fantasiosa.
Havia bem menos pessoas pelas ruas do que em Wonder, e a cidade parecia relativamente nova. As pessoas que andavam o faziam com um propósito silencioso; não havia a alegria caótica de Wonder, apenas uma calma focada. No centro, erguia-se uma grande catedral que quase parecia um palácio, sua construção toda incrustada de cristais que refletiam a luz azul do sol. Era uma montanha de vidro esculpido, com torres que perfuravam o céu, lançando reflexos ofuscantes por toda a cidade.
Dentro da catedral, o silêncio era vasto, quebrado apenas por um zumbido baixo e harmônico.
No centro do salão, uma mulher de aparência angelical permanecia com os olhos fechados diante de um cristal gigantesco que pulsava com uma luz suave. O cristal era o coração pulsante do prédio, e sua luz turquesa subia e descia ritmicamente, como uma respiração lenta. Seus cabelos dourados caíam em cascatas onduladas até a cintura, e sua feição irradiava uma calma e tranquilidade que, ao mesmo tempo, continha uma ameaça sutil. Ela estava perfeitamente imóvel, nem um único fio de cabelo se movia. Sua calma não era relaxada; era absoluta, controlada, como a superfície de um oceano profundo. Ela usava um vestido branco e elegante, adornado com detalhes em turquesa e dourado por todo seu corpo belo e curvilíneo. Ela estava em silêncio, fazendo uma reverência ao cristal.
Até que ela se levantou e falou, sem se virar, sem abrir os olhos, sua voz suave ecoando pelo salão vazio: — Até quando vai permanecer aí atrás, Alone?
Em uma pilastra de cristal maciço nas sombras do salão, por um segundo, não havia nada. Então, a sombra na base da pilastra pareceu se aprofundar, desprendendo-se da pedra.
Das sombras da pilastra, o homem apareceu rindo. Ele não saiu de trás dela; ele pareceu emergir da própria sombra, seu sorriso zombeteiro sendo a primeira coisa a tomar forma. Ele tinha cabelos pretos com mechas vermelhas e olhos dourados penetrantes. — Realmente não tem como escapar da sua capacidade sensorial, não é mesmo, Saga?
A mulher deu uma pequena risada, escondendo a boca com a mão delicada. — O que foi? Estava tentando me pegar de surpresa? Então, queira desculpar a minha indelicadeza.
Ele ignorou a desculpa, seu sorriso se alargando. Ele jogou uma maçã azul no alto, pegou-a e mordeu ruidosamente. O som do CRUNCH foi obscenamente alto, ecoando nas paredes de cristal como uma pedra quebrando.
A expressão calma de Saga mudou instantaneamente. Ela se virou, os olhos se abrindo, e neles havia um vislumbre de repulsa. — Isso é falta de tato. Sabe que é proibido um Prim comer o Fruto do Pecado.
Ele continuava mordendo, sem se importar. Encostou-se casualmente na pilastra sagrada, o suco da fruta escorrendo por seu queixo. — Não diga bobagens. Não é proibido, é somente indicado que não o façam, já que um Prim normal morreria tentando comer. — Ele deu um sorriso de canto. — Mas você sabe muito bem que isso não vale para mim. E além do mais... me diga, por que um deus deveria se preocupar com as regras de mortais?
Ela transpirava pesadamente, uma única gota de suor se formando em sua têmpora perfeita, parecendo genuinamente desconfortável. — Isso é sério? Você vai falar tais coisas mesmo em um lugar sagrado como este?
— Qual é! Não me diga que você fica mesmo pensando sobre tais bobagens. Não quero que uma das únicas que considero próxima fique agindo com tamanho mundanismo.
Ele terminou a maçã em mais uma mordida. Jogou o miolo por cima do ombro, e o resto da fruta desapareceu nas sombras antes mesmo de atingir o chão.
— Falando nisso... você ficou sabendo? Parece que Wonder foi atacada pelos Pesadelos. E grande parte dela foi danificada.
— Eu estou sabendo — Saga respondeu, sua calma voltando. Sua compostura se refez instantaneamente, como um lago retornando à calmaria após uma pedra ser jogada. — Já mandei minhas marionetes para ajudar com os feridos e a reconstrução da cidade.
— Claro, como esperado. — Ele limpou a mão e se desencostou da pilastra, começando a andar em círculos ao redor dela. — Bom, isso é uma tristeza. Eu estava mesmo colocando mais fé em Teth, mas se ele foi derrotado, significa que ele não é digno de ascender aos céus ao meu lado.
— Você não sabe. Teth não lutou, nem foi derrotado.
Alone parou, o sorriso desaparecendo. Ele estancou no meio do passo, seus olhos dourados se estreitando. — Espera. Eu já imaginava que ele deveria ter sobrevivido... mas como assim ele não lutou? Alguém parou a luta? Eu senti uma grande quantidade de Éter naquele lugar.
— Sim, isso é verdade — Saga respondeu. — Eu também senti. Mas parece que não foi ele, e sim um novo ser que apareceu. De acordo com Silence e Philia, ele parece ser uma nova Cria de Astreus.
Alone riu, descrente. — De qual Astreus, exatamente?
— De acordo com elas, da Memória.
— E você confia nisso?
— O que eu acho ou deixo de achar não importa — Saga disse, virando-se parcialmente. Seu perfil, iluminado pelo cristal pulsante, era frio e calculista. — Acredito que eles virão até esta cidade, juntamente com Silence e Teth. Quando chegarem, poderemos descobrir, em vez de ficar apenas pensando.
— Espera. O que eles virão fazer aqui?
— Eles estão procurando por uma amiga que parece ter desaparecido. E por isso tentaram conversar com a Oráculo na Floresta do Delírio. Para ir até lá, eles serão obrigados a vir aqui. E, pelo que vi, Teth também está interessado neles.
Alone foi até uma pilastra e se apoiou nela. — Como sempre, nossa Senhorita Saga estava escutando demais… — Ele balançou a cabeça, num misto de irritação e admiração. — Deve ser um saco tentar esconder algum segredo de você. Me diga, o quanto de Morpheus você já é capaz de ouvir?
Ela apenas deu uma risada suave e voltou a se ajoelhar diante do cristal. Antes de ficar completamente em silêncio, ela falou: — Vai saber.
Assim, Alone caminhou até uma enorme janela de vitral que retratava cinco figuras divinas e obscuras e se sentou nela, de costas para Saga, olhando para a cidade de cristal sendo construída lá fora. Ele ficou ali, uma silhueta escura contra a luz azul brilhante do mundo exterior.
— Bom. Vai ser interessante. A abdicação do Rei significa que mudanças nunca antes vistas finalmente começarão a acontecer nesse mundo. Essa vai ser a primeira reunião de Cavaleiros Reais pela qual eu estou verdadeiramente ansioso.
Parte 2
Na área dos Pesadelos, Dan acabava de acordar no quarto de Eliza. Ele estava sozinho. O silêncio era diferente do vazio da caverna. Olhou em volta, notando que não havia ninguém. Conhecendo o caminho para o andar de baixo, saiu do quarto e desceu as escadas de madeira. Seus pés descalços faziam a madeira velha ranger a cada passo, um som que ecoava pela casa silenciosa.
No meio do caminho, ele encontrou Eliza, que subia. Ela parou, surpresa, com um pé suspenso no degrau. — Ah, você acordou! — disse ela, ajeitando o cinto com um movimento rápido e prático. — Vamos. 'Tá na hora do café.
O garoto ficou encarando-a em silêncio. Eliza começou a olhar para ele, a irritação crescendo em sua testa. Ela colocou as mãos nos quadris, impaciente. Dan, lembrando-se do acordo e da promessa de não ser apenas um espectador mudo, falou: — ... Tudo bem.
A feição dela mudou instantaneamente para um sorriso satisfeito. — Agora sim está entendendo!
Ele desceu e começou a andar ao lado dela. Olhou em volta para a estrutura complexa onde estavam e, pela primeira vez, reuniu forças para falar por vontade própria, movido pela curiosidade. As paredes eram um labirinto de madeira escura e papel de arroz, cheias de sombras e segredos. — Que lugar é esse?
Ela o olhou, um pouco feliz por ele ter perguntado, mas sem demonstrar muito. Jogou o cabelo para trás, assumindo um tom de guia turística. — Esse é o Castelo do Apachai. Aqui há várias áreas de prazer para Pesadelos, indo desde as casas de banho aos restaurantes, bordéis e muitas outras coisas. Aqui é um lugar perfeito tanto para encontrar trabalho quanto para encontrar um passatempo. O Apachai é como o líder dessa cidade, embora não seja nada oficial.
Eles desceram mais um lance e começaram a andar por um corredor cheio de portas de quartos. Ele percebeu que não tinha ido até aquela parte antes. O cheiro ali era uma mistura de perfume barato e incenso velho. — E você mora aqui? — ele perguntou. — Na verdade, não — Eliza respondeu.
Ele ficou confuso, olhando para ela. — É que, há um tempo, eu trabalhei aqui. A Rum conseguiu um emprego pra mim, aí eu consegui aquele quarto. Eu já não trabalho mais aqui, mas, ainda assim, o pessoal deixou meu quarto daquele jeito para quando eu quisesse passar a noite ou me esconder.
De repente, um ronco alto e monstruoso ecoou de dentro de um dos quartos fechados. As paredes de papel vibraram com o som, que parecia o rosnado de uma besta faminta. Dan parou e ficou olhando para a porta, assustado, recuando instintivamente. Eliza parou, virou-se e percebeu a dúvida dele. — Alguns Pesadelos são noturnos. Eles vivem à noite e, durante o dia, dormem. Aí eles se registram em hotéis de lugares onde é "Dia" para dormir, ou vice-versa.
Dan a olhou, confuso. — Como assim... "de lugares que estão de Dia"?
Ela olhou para ele, surpresa. Seus olhos se arregalaram levemente. — Ah, você não sabe? Não é noite e dia nos mesmos lugares ao mesmo tempo. Em dois lugares diferentes de Morpheus, pode ser tanto dia quanto noite simultaneamente. Ouvi falar que existem Prims que vivem viajando o mundo apenas porque só gostam de viver na noite, ou porque gostam de viver dormindo durante o Dia.
Assim, ela continuou andando e ele a seguiu. Ela olhou para o garoto, que acelerou o passo para ficar ao lado dela. — Você parece estar melhor, mas ainda continua magro e meio fraco. 'Tá precisando mesmo comer.
Chegaram a uma passagem dos fundos que dava em uma parte murada com uma cerca de madeira alta. Eliza empurrou uma porta pesada, que rangeu em protesto, revelando um jardim incrivelmente bonito. — Bom, eu vou te levar para um lugar onde possa comer.
Ele olhou sem acreditar naquele jardim. Era um choque de cores contra o mundo cinza e preto que ele conhecia. Desde que começara a viajar por aquele mundo cinzento e azulado, aquele era, sem dúvidas, o lugar mais bonito e colorido em que estivera. Havia flores vibrantes de todas as cores, pulsando com uma vida quase agressiva. Ele, hipnotizado, caminhou até uma flor roxa que parecia brilhar com uma luz interna e estava prestes a cheirá-la. — ESPERA! — A garota correu e o puxou pelo braço com força. O puxão foi violento, fazendo-o tropeçar. — Não faz isso não!
Ele a olhou, assustado. — Vamos andando — disse ela, séria. Seu tom brincalhão desapareceu. — Só não toque em nada. E não respire muito fundo.
Enquanto caminhavam pelas pedras, evitando cuidadosamente as gavinhas que pareciam se esticar em direção aos tornozelos deles, ela foi explicando: — Eu sei o que você está pensando. "Um lugar assim na área dos Pesadelos? Isso pode mesmo ser real?"
O garoto continuou andando em silêncio, ouvindo. — A mulher que fez esse jardim se chamava Minerva. Ela era delicada e gentil com todos. Era uma Pesadelo diferente de todos que eu já conheci. Ela achava que podia mudar o mundo dos Pesadelos se o tornasse mais bonito e verde, como o Reino dos Sonhos.
Eliza olhou para as flores com um olhar distante. Um olhar de saudade misturado com raiva. — Mas, infelizmente, não é tão fácil. Ela até conseguiu criar esse jardim, mas... até mesmo essas flores belas que nasceram aqui tinham espinhos venenosos. E seus aromas, se inalados profundamente, também são tóxicos. Era como se o mundo quisesse dizer que tudo que nasce aqui tem que ser ruim.
Ela suspirou. Um som pesado, como se carregasse o peso de mil fracassos. — Bom, de qualquer jeito, é impossível mudar o mundo assim. Esse mundo é cruel demais para permitir isso.
Dan, andando, notou a cara dela se fechando, uma sombra de tristeza cruzando seus olhos. — E o que aconteceu... com a mulher que plantou esse jardim? — perguntou ele, baixo.
Eliza olhou para frente, apertando o passo. — Ela morreu.
Assim, ele acabou perdendo a vontade de continuar falando. O jardim, antes belo, agora parecia um cemitério vibrante e mortal.
Depois de atravessarem o jardim perigoso, chegaram a uma parte residencial tranquila. As casas ali eram diferentes de tudo que ele vira em Akumatsu. Eram construções de madeira elegante, com telhados curvos e telhas de cerâmica cinza, elevadas do chão, com amplas varandas de madeira que circulavam as residências e portas de correr feitas de papel e madeira treliçada. Parecia uma vila antiga, preservada no tempo.
Em uma dessas varandas, estava Dumpt. O homem-máquina estava sentado no chão de madeira, brincando com uma garotinha que tentava caminhar até ele, tropeçando em suas próprias pernas. O metal frio de seu corpo contrastava com a suavidade da pele da criança. Enquanto isso, uma mulher com a parte inferior do corpo de uma serpente e a parte superior humana, com escamas delicadas no rosto, observava a cena, encostada na porta, com um sorriso terno e carinhoso. Sua cauda longa e verde repousava relaxada no chão da varanda.
Dan chegou e olhou, percebendo a cena comovente. Quando se virou para Eliza para perguntar quem eram elas, viu uma expressão estranha no rosto da garota. Ela parecia feliz ao ver aquilo, mas também profundamente triste. Seus olhos brilhavam com um anseio que ela tentava esconder. Era uma feição vulnerável que ele não tinha visto antes. Assim, ele perdeu toda a vontade de falar e apenas ficou olhando.
Até que ela sacudiu a cabeça, como se acordasse de um transe, começou a andar e pediu para ele a seguir. Chegando perto, Dumpt pegou a garota, que estava prestes a cair, no colo. Suas mãos de metal seguraram a criança com uma delicadeza impossível. Ele olhou para eles. — Ah. Vocês chegaram, Eliza.
Eliza cruzou os braços, o sorriso debochado voltando ao rosto como uma armadura. — Quem vê não acredita. O robô boca-suja é um pai babão quando ninguém está vendo.
— Quem você está chamando de pai babão?! — Dumpt reclamou, tentando manter a postura de durão, enquanto a garotinha puxava a bochecha dele sem dó. O som metálico de sua mandíbula rangendo era abafado pela risada da criança.
Eliza riu. — Diz aí. Onde a Rum 'tá?
Dumpt mudou a feição para uma mais séria, ajeitando a criança no colo. — Ela está na casa dela. Ajudando a Yukina a fazer sua mudança.
Assim, a mulher-serpente se aproximou, deslizando suavemente pela varanda. O som de suas escamas na madeira era como o farfalhar de folhas secas. — Ah, vocês dois já tomaram café? Se quiserem, eu posso preparar algo.
— Na verdade, eu estou atrás disso — Eliza disse, passando a mão na barriga. — Pode fazer um pouco de comida para o garoto? Pode deixar que eu pago.
Dumpt e sua mulher falaram ao mesmo tempo, quase ofendidos: — De jeito nenhum!
— Deixe de bobagem, Eliza! — a mulher, Tea, repreendeu. — A gente não vai cobrar de você.
— É sério, eu... — Eliza tentou insistir.
— Esquece essa merda e senta aí! — Dumpt ordenou. — A Tea já vai 'tá saindo com comida pra vocês dois. Entenderam? Enquanto isso, eu vou levar essa baixinha pro quarto dela pra tirar uma soneca.
Assim, Dumpt entrou na casa com a criança, e Tea o seguiu para a cozinha. — Obrigada mesmo, Tea, Dumpt... — Eliza murmurou, enquanto a porta se fechava.
Dan ficou olhando, quieto no lugar dele, enquanto Eliza se sentou na beirada do chão de madeira da varanda alta, balançando as pernas. Eliza ficou olhando para ele e vendo que ele estava com aquele olhar de quem pensava em algo. Mas, dessa vez, não pediu para ele perguntar, como se já soubesse qual deveria ser a dúvida.
Ela apontou para uma casa um pouco mais à frente, no mesmo estilo arquitetônico. — 'Tá vendo aquela casa ali? Ela é a minha casa. E é onde você vai morar também, a partir de agora.
Dan olhou para a casa. Era simples, silenciosa, mas parecia sólida. Um abrigo. — Todos nós da Tromluí temos uma propriedade aqui — explicou ela. — Foi o fundador e antigo líder quem comprou esse terreno do Apachai para facilitar a locomoção dos membros. E também era pra ajudar a nos protegermos, caso alguém tentasse atacar nossa casa e família.
Tea começou a voltar, trazendo uma mesinha baixa e bandejas com comida cheirosa. O aroma de arroz fresco e sopa quente preencheu o ar frio da manhã. — Aqui. Vocês podem comer aqui fora, está fresco.
— Não precisava trazer até aqui... — Eliza disse, ajeitando-se.
— Que isso, não se preocupa tanto.
Tea olhou para Dan e fez um gesto para ele se aproximar. Hesitante, ele foi. Tea sorriu e fez carinho na cabeça dele, sua mão fria — por causa de sua natureza ofídica — mas gentil. — Ele é tão quieto... — Tea comentou, sorrindo para Eliza. — Até me lembra de quando você era menorzinha.
Eliza ficou vermelha de vergonha. Quase engasgou com o ar. — Eu... eu não era assim tão quieta!
Tea riu suavemente e voltou para dentro da casa. Assim que ela saiu, Eliza deu um leve sorriso, olhando para a porta fechada. E Dan ficou apenas observando, o calor da comida em seu colo, a brisa fresca em seu rosto, sentindo, pela primeira vez em muito tempo, algo parecido com paz.
Parte 3
Já na casa de Rum, a líder estava em uma parte escura e isolada da residência. Dentro do cômodo, iluminado apenas pelo brilho trêmulo e alaranjado de velas finas e quase consumidas, havia um altar modesto. O tampo de madeira polida refletia a luz enquanto recebia algumas flores brancas frescas — lírios com pétalas macias contrastando com a madeira dura. Um incenso de sândalo queimava em um pequeno pote de cerâmica, soltando uma fumaça densa que pairava pesadamente, doce e sufocante.
Três fotos, com molduras simples e escuras, estavam colocadas lado a lado. Na primeira, via-se uma família banhada pela luz do sol: um homem alto de cabelos brancos, uma mulher gentil e duas crianças, um menino e uma menina, todos sorrindo com a mesma intensidade despreocupada.
Na segunda, a cor havia sumido; as duas crianças estavam lá, sozinhas, no retrato granulado. A garota agora usava um tapa-olho de couro gasto, e o garoto parecia mais abatido, com o olhar cansado que contradizia sua juventude. Mas eles ainda estavam sorrindo, apoiando-se um no outro como colunas rachadas.
Na terceira e última, estava o garoto da foto anterior, Snow, agora um homem adulto. Ele estava com outra mulher de olhar sereno e um bebê no colo, que tinha as mãos miúdas agarradas ao dedo dele. Ele parecia mais velho, magro e abatido, a cicatriz de uma batalha passada riscava sua testa, mas, naquela imagem, o sorriso dele era genuíno, sem esforço, o mais feliz de todos.
Rum encarava as fotos. Ela estava em pé, perfeitamente reta, a silhueta projetada na parede oposta, parecendo talhada em pedra. Seu charuto estava aceso, a ponta vermelha pulsando fracamente, mas ela não o tragava; apenas deixava a fumaça cinza subir em espirais lentas e melancólicas, misturando-se ao incenso e turvando o ar.
Ela ficou quieta por um longo e agonizante tempo; o único som era o crepitar baixo das velas e o estalo da madeira aquecida. De repente, começou a falar. O som de sua voz rouca era uma faca quebrando o silêncio. — Eu fiquei surpresa... ao saber que, no fim, você se moveu para ir resgatar aqueles que foram sequestrados... Eu achei que nunca mais veria você fazendo algo assim.
Rum estendeu a mão lentamente, seus dedos grossos e anelados pairando sobre a moldura da terceira foto. A ponta de seus dedos roçou a imagem de Snow, um toque quase reverente. — Mas sabe, Snow... Eu não sei por que... eu não tenho força ou vontade para elogiar o que você fez.
De repente, a postura rígida e forte de Rum começou a desmoronar. Seus ombros tremeram, um movimento quase imperceptível. Ela inspirou de forma errática, uma lufada de ar insuficiente. — Meu irmão idiota... — ela sussurrou, a voz tornando-se um som áspero. — A morte é o fim de tudo. Mas isso... é só para você.
Lágrimas começaram a cair de seu único olho visível. Eram lágrimas silenciosas, pesadas e lentas, abrindo trilhas escuras em sua bochecha marcada. — Me diga agora... como você acha que vai ser para mim? Que fiquei sozinha? Agora que todos vocês me deixaram?
Ela perdeu a força para continuar em pé, como se a gravidade tivesse subitamente triplicado. Caiu de joelhos diante do altar, o baque seco de seus joelhos no tatame sendo abafado pelo carpete de dor. O charuto escorregou de seus dedos dormentes, rolando no chão com a brasa morrendo em uma pequena nuvem de cinzas. Ela cobriu a boca com a mão livre, pressionando-a para abafar o grito que ameaçava escapar, enquanto os soluços sacudiam seu corpo e as lágrimas escorriam sem parar. Ela estava se desmanchando.
— Se fosse para terminar assim... — ela soluçou, o som agora um gemido de pura agonia. — ... eu preferia que você continuasse sendo um inútil egoísta! Pelo menos... você estaria vivo!
Enquanto isso, do lado de fora da porta de papel shoji, a luz das velas lançava sombras irregulares e distorcidas no papel fino, como se a dor estivesse se contorcendo lá dentro. Encostado na parede de madeira escura do corredor, ouvindo tudo, estava Uzumaki. Ele cobria o rosto com o capuz do moletom, quase se escondendo nas sombras, seus olhos azuis fechados em uma expressão de contenção, escutando a dor crua de sua líder.
Passos leves se aproximaram. Era Eliza. Ela caminhava em direção à porta com um objetivo incerto, mas parou abruptamente, a três passos de distância, como se tivesse atingido uma barreira invisível. Ela tinha o semblante desanimado, o rosto pálido de quem também pudera ouvir os gritos abafados de Rum. Seus olhos desviaram, incapazes de encarar o local da dor.
Uzumaki desencostou da parede, o som sutil do tecido arrastando-se pela madeira. Ele começou a caminhar em direção a Eliza. Ao passar por ela, ele parou ombro a ombro, mas mantendo a cabeça virada, olhando na direção oposta, para o fim do corredor, um túnel de escuridão.
— Enquanto estivermos presos nessa espiral de ódio... isso sempre vai se repetir — Uzumaki falou, sua voz baixa, séria, quase um sussurro que, paradoxalmente, carregava um peso enorme. — A gente atacando, tentando mudar. Eles atacando, tentando manter. Não importa se você nos dará uma arma mais forte, ou se, em vez de atacar, vai "só ameaçar". No final... alguém vai morrer. E alguém vai chorar.
Eliza olhou para o chão, o cabelo caindo e escondendo parte de seu rosto, enquanto apertava os punhos até os nós dos dedos ficarem brancos. — Eu sei...
— Não ache que só porque você não tem uma família, você é uma exceção — Uzumaki continuou, virando o rosto apenas o suficiente para que seu olhar frio atingisse o dela de raspão. — Saiba que... até alguém como eu choraria caso você morresse.
Eliza arregalou os olhos, uma expressão de surpresa e dor mal disfarçada com a confissão vinda dele. Foi a coisa mais próxima de uma confissão pessoal que ele já havia feito.
— Então... — ele terminou, voltando a andar, o som de seus tênis leves ecoando suavemente. — ... tente se pôr no lugar da Rum também. Antes de fazer qualquer loucura.
Ele continuou caminhando sem olhar para trás, deixando-a sozinha no corredor.
Eliza ficou paralisada ali, seu corpo tenso entre seguir em frente ou recuar. Do outro lado da porta, o som do choro de Rum continuava, agora mais contido, mais um lamento do que um soluço. Ela não conseguia seguir em frente para consolá-la, nem voltar para trás para se afastar da dor. O peso daquelas lágrimas a prendia no lugar, forçando-a a encarar a realidade cruel do mundo em que viviam, onde o heroísmo era apenas mais uma rota para o luto.
Parte 4
Enquanto isso, Dan vagava com passos hesitantes, absorvendo o ambiente. Após terminar de comer, Eliza disse que ele podia dar algumas voltas ou até conhecer a casa onde ficaria, em frente à dela, já que ela precisava ter uma conversa séria com Rum.
Como estava livre, o garoto caminhava observando ao redor. Ao chegar à parte dos fundos da propriedade compartilhada, entre a casa de Rum e a de Eliza, encontrou um grande lago de carpas. Parou na entrada do jardim, a respiração presa na garganta. Novamente, surpreendeu-se com aquele cenário, que parecia uma pintura vívida e irreal em contraste com o mundo cinza e azulado ao qual estava se acostumando.
Ele se aproximou do lago. A água era cristalina, espelhando o céu melancólico. A superfície era pontilhada por flores de lótus que flutuavam serenas, e carpas azuis e brancas nadavam preguiçosamente, traçando padrões lentos na água. Ainda assim, manteve certa distância das plantas aquáticas, o instinto mantendo-o alerta, lembrando-se da advertência de Eliza sobre o veneno. Começou a dar voltas na borda de pedra polida, acompanhando os peixes com o olhar, seu ritmo se ajustando ao fluxo pacífico da água.
Sua atenção foi capturada por um pequeno bosque de árvores no canto. As folhas e flores eram de um azul vibrante e completamente incomum, um tom quase elétrico que brilhava suavemente, como se tivessem absorvido a luz da lua. Era uma visão totalmente nova, hipnótica. Ele foi se aproximando, caminhando de forma quase reverente, sem perceber que, sob a árvore de flores azuis, havia uma pequena garota.
Ela também tinha cabelos azuis, mas de um tom mais pálido, quase fantasmagórico. Estava descalça, os pés pequenos e sujos de terra, e usava roupas leves e delicadas, que pareciam finas demais para o frio do lugar. Estava sentada, os joelhos cruzados e as mãos apoiadas, observando com concentração cega os peixes, imóvel como uma estátua de porcelana.
Mas, assim que Dan se aproximou, pisou em um galho seco. Crack.
O som, agudo e inesperado naquele ambiente de silêncio, fez a garota pular. Não foi um susto comum, mas um salto de terror absoluto. Ela recuou, apavorada e instintivamente, rastejando para trás até que suas costas estivessem pressionadas violentamente contra o tronco áspero da árvore. O garoto, que estava concentrado, também se assustou um pouco e recuou um passo, mas rapidamente sua surpresa se transformou em compreensão e cautela.
Ele tentou pedir desculpa, dando um passo à frente e levantando ambas as mãos lentamente, numa linguagem de não ameaça. — Não! — ela gritou, a voz fina e estrangulada, mas carregada de histeria. — Não chegue mais perto!
Ela tremia violentamente, o corpo todo sacudido por espasmos. O garoto achou aquilo estranho, notando como ela era magra e frágil. Ela parecia querer intimidar, gritando e olhando irritada, mas seu corpo a traía, tremendo sem parar, e lágrimas grossas ameaçavam sair de seus olhos sem motivo aparente. Além disso, ele pôde ver em seu pescoço uma estranha marca roxa e profunda, a pele esfolada, como se algo tivesse estado ali há pouco tempo, apertando com força. Era a marca indubitável de uma coleira de metal.
Ele não se moveu um milímetro sequer, permanecendo estático. Sua pose era de observação paciente, como se tentasse dar espaço para ela relaxar. Mas a garota começou a perder as forças, deslizando pelo tronco até cair, de lado, no chão úmido, chorando incontrolavelmente. — Snow... — ela soluçava, o nome saindo misturado às lágrimas. — Onde o Snow está? Eu estou com medo... Ele não vem me salvar?
O garoto lembrou-se do nome "Snow" da conversa que os membros da Tromluí haviam tido na noite anterior.
Nesse momento, a porta de correr da casa de Rum se abriu com um som rápido e oco. Uma mulher apareceu, ofegante. Ela havia ouvido o choro agudo da garota e corrido para ver o que era. Assim que abriu a porta, gritou: — Yukina! Você está bem?!
Ela olhou para o lado de fora, encarando Dan e a garota encolhida no chão, e logo entendeu o que havia acontecido. Respirou fundo, já mais aliviada por não ser um ataque. — Você... — ela olhou para Dan, estudando-o. — Você é o novo companheiro de Eliza, correto?
Dan, surpreendendo-se por ela conhecê-lo, apenas assentiu com a cabeça, um movimento curto e respeitoso. A mulher tentou ir em direção à garota, abaixando-se lentamente, estendendo a mão para tocá-la e confortá-la. — Está tudo bem, querida. Ele não vai...
— NÃO! — A garota bateu na mão da mulher com uma força surpreendente, impedindo que ela a tocasse. — Sai! Eu não quero você! Eu quero o Snow!
A mulher, com uma expressão dolorosa e contida, tentou manter a calma. — Eu já disse, Senhorita Yukina... o Snow já...
— ISSO É MENTIRA! — a garota gritou, tapando os ouvidos com ambas as mãos, balançando a cabeça em negação histérica. — O Snow não morreu! Ele prometeu pra mim que iria me proteger! Ele nunca morreria!
A mulher tentou tocá-la novamente, a mão tremendo, desesperada para acalmá-la. Yukina se afastou, rastejando na grama para longe, os olhos arregalados. — Não! Por favor! Não bata mais em mim! Não... eu não quero sentir dor!
Ao ouvir aquilo, a mulher perdeu toda a sua coragem. Seu braço parou no ar, a mão estendida suspensa. — Você sabe que eu nunca te machucaria... — ela sussurrou, a voz embargada, com uma cara triste e fechada, a dor de ser rejeitada por quem se ama atingindo-a em cheio.
Ela se levantou, virando o rosto rapidamente para evitar deixar que as lágrimas caíssem na frente da menina. — Eu... eu preciso pegar algo para você comer.
Antes de voltar para dentro, fez um pequeno aceno de cabeça, quase um pedido silencioso de desculpas para Dan, e o deixou lá. Ele ficou observando a garota, que agora escondia o rosto nos joelhos, o corpo curvado como se quisesse fugir para dentro de si mesma, para longe da situação e do mundo. Dan permaneceu olhando, totalmente imóvel; sua presença agora era de uma quietude não ameaçadora.
Até que, de repente, a garota ergueu os olhos inchados, procurando por ele, pronta para gritar de novo. Mas o garoto não estava mais lá.
Ela piscou, confusa. Procurou pela direita e pela esquerda, atrás da árvore. Girou a cabeça de um lado para o outro, os movimentos lentos e desconfiados, mas não encontrou nada. O jardim parecia vazio. Lentamente, sua respiração se acalmou. Ela voltou até a borda do lago de carpas e ficou encarando-as. Enquanto o tempo passava, ela não sorria ao observá-las. Na verdade, não expressava nenhuma reação. Apenas as encarava com olhos vazios, frios e distantes, completamente dissociada da realidade.
— Você gosta das carpas?
A garota se assustou, o corpo saltando novamente, olhando em volta rapidamente. Mas não viu ninguém. Voltou a olhar a carpa, franzindo o cenho, como se achasse que fosse apenas coisa de sua mente. Enquanto isso, sentado em um galho alto da árvore azul, totalmente camuflado entre as flores e folhas azul-elétricas, o garoto a observava. Havia subido na árvore com uma agilidade silenciosa e instintiva e, agora, do alto, podia vê-la sem ser visto, oferecendo sua companhia à distância.
Parte 5
Do outro lado do corredor, Eliza apertava a própria mão, cravando as unhas na palma com tanta força que o sangue aflorava, quase como se quisesse dizer para si mesma que não podia ficar parada. Ela respirou fundo, o ar raspando na garganta, engolindo o choro que queria subir e transformar seu rosto em uma máscara de dor. Sua caminhada até a porta de Rum era rígida e militar, um ato de vontade pura.
Ela parou diante da porta de correr. Seus dedos hesitaram por um instante sobre o papel shoji, sentindo a vibração silenciosa de dor vinda de dentro. Abriu a porta com um movimento firme e decisivo, o barulho da madeira deslizando soando estranhamente alto no silêncio da casa. — Com licença... mas eu estou entrando.
Ao entrar, a visão de Rum caída no chão era devastadora. Rum estava de costas contra a parede fria, a luz fraca das velas lambendo seu perfil, os olhos fixos no nada. Aquilo fez Eliza sentir uma dor física e lancinante no peito, como um nó que se apertava, e quase perder as forças. Por pouco, ela não deixou cair a fachada de durona que havia construído para conseguir entrar.
Mas ela mordeu o lábio com violência, sentindo o gosto metálico e ferroso do sangue que se espalhava na boca, e olhou diretamente para a mulher à sua frente. — Não é hora para isso — falou ela.
As palavras eram difíceis, duras, arranhadas, quase não saíam. Enquanto falava, Eliza revivia seu passado em cortes rápidos e vívidos na memória. De quando era menor. Lembrava-se de chorar sozinha, enrolada em um cobertor sujo, não querendo mais trabalhar, não querendo mais ficar só. Pensando por que estava viva se nem pedira por isso. E lembrava que aquela mulher parada à sua frente, Rum, sempre fora quem vinha. Quem estendia a mão, quente e firme, em meio ao frio do desespero.
As mãos de Rum agora tremiam visivelmente sobre o colo. Eliza abaixou-se, ajoelhando-se com rapidez, e segurou as mãos dela com força. Respirou fundo, pensando: — "Não ouse fraquejar. Não ouse perder as forças logo agora."
Assim, recordou as palavras que uma vez Rum disse em seu quarto, durante uma de suas crises de pânico. As palavras que a faziam continuar, mesmo com medo, dúvida, anseios e tristeza. Ela fitou o único olho de Rum, cravando o olhar no fundo dele, e, mesmo querendo chorar ou fugir, apertou suas mãos e falou, sua voz trêmula, mas firme, sustentada pela memória da lição:
— Essa dor que você está sentindo... eu sei que não dá pra explicar. Você já pode tê-la sentido outras vezes, e você também vai senti-la de novo. Mas toda vez que sentir... vai pensar que dessa vez, essa foi a mais dolorida. A mais difícil. Que, dessa vez, não vai suportar.
Rum levantou o olhar, os olhos marejados fixando-se em Eliza. — Mas escute com atenção — Eliza continuou, a voz ganhando volume e convicção, citando a lição palavra por palavra. — Mesmo doendo... você ainda é capaz de dormir. Você ainda é capaz de comer. E ainda é capaz de seguir. Então não abaixe a cabeça e finja que está morta! Levante-a e prossiga com a sua vida!
Eliza sentiu uma lágrima solitária escorrer, quente e pesada, mas não a limpou. — O que já passou não vai voltar. E a dor que está sentindo não vai sumir. Mas a única forma de fazê-la doer menos... é continuar seguindo em frente. Se não fizer isso... ela jamais irá verdadeiramente parar.
No momento em que ouviu aquilo, a mente de Rum viajou. Mergulhando suavemente em uma memória antiga. Lembrou-se de quando Eliza era pequena, uma órfã selvagem de uma cidade de pesadelos. Ela e seu irmão, Snow, a encontraram. Rum decidiu salvá-la e cuidar dela. Mas Snow, cínico e ferido, disse que era impossível. — "Alguém que teve todos que conhecia tirados assim... só terá o caminho da vingança e da dor em sua visão. Um dia, esse caminho a destruirá. Fosse agora ou depois."
Rum virou-se para ele naquele dia e falou: — "Se for assim... eu prefiro que seja depois. Eu cuidarei para afastar esse dia dessa garota o máximo possível."
Ela olhava para Eliza agora. A garota não tinha se destruído. Ela estava ali, forte, retribuindo o favor, entregando a lição que ela mesma havia aprendido. Rum voltava à realidade. Novas lágrimas, diferentes das de luto, começaram a cair. — Que coisa... — Rum sorriu. — Era eu quem deveria te apoiar. Acho que não fui boa até o fim nesse papel de mãe...
No instante em que ela falou aquilo — "papel de mãe" — as forças de Eliza desapareceram. A barreira que ela construíra desmoronou por completo. — Rum...
Eliza também começou a deixar as lágrimas cair livremente, a dor finalmente explodindo. Rum a puxou, envolvendo-a em um abraço forte e desesperado. As duas choravam juntas no quarto escuro.
Enquanto isso, na cozinha, o som de algo sendo cortado ritmicamente parou abruptamente, o silêncio preenchendo o vácuo. Laeticia estava preparando a comida de Yukina. Ela segurava a faca sobre a tábua, o corpo tenso. As gotas salgadas caíam sobre a tábua de cortar e respingavam na comida. O arroz ficava molhado não pelo cozimento, mas pelas lágrimas que caíam de seu rosto, silenciosas e constantes.
E assim, naquela casa cheia de Pesadelos, o tempo, que era irrelevante, propositalmente parecia passar devagar.
Parte 6
A atmosfera na casa de Dumpt era espessa, quase irrespirável, saturada por um silêncio pesado que nem mesmo o zumbido baixo das engrenagens do anfitrião conseguia preencher. O grupo havia se reunido novamente, mas a energia era diferente de qualquer outra reunião anterior. Todos estavam lá, sentados em almofadas desgastadas ao redor da mesa baixa, com os corpos tensos, como se a simples ideia de estarem juntos naquele momento fosse um pecado.
Os olhares, furtivos e inquietos, orbitavam Rum. Eles a dissecavam silenciosamente, tentando prever se a líder iria desmoronar ou explodir após a morte de Snow. Mas Rum, embora ostentasse um olho vermelho e inchado que denunciava as lágrimas recentes, mantinha a postura ereta. Ela observava a todos com um olhar que, apesar da dor, queimava com uma determinação de aço.
Uzumaki foi o primeiro a se mover. Ele suspirou, o som escapando como um jato de vapor frio, e decidiu quebrar aquele clima desconfortável onde as palavras pareciam morrer na garganta. — Então... Laeticia — a voz dele cortou o ar, cirúrgica. — Como foi que aconteceu? Você foi a única que estava aqui na hora. Deve saber.
Laeticia estremeceu visivelmente, sentindo o peso daquelas palavras cair sobre seus ombros como uma bigorna. Ela viu a responsabilidade ser atirada em seu colo, os olhos de todos convergindo para ela. Sabia que não havia para onde correr. Respirou fundo, tentando estabilizar a tremedeira nas mãos. — Recapitulando tudo desde o começo, na noite anterior, os Sonhos fizeram uma invasão no Distrito 33. Ocorre que, naquele dia, coisas estranhas estavam acontecendo na cidade inteira. Badernas, brigas por comida e coisas assim.
— Aqui também — Dumpt comentou, a voz rouca acompanhada pelo ranger metálico de sua testa franzida. — Mas que merda 'tá rolando? Todos nós acabamos nos envolvendo com essas bagunças em lugares diferentes.
— Acha mesmo que foi só coincidência? — Uzumaki perguntou, arqueando uma sobrancelha com um ceticismo afiado.
— O que você quer dizer com isso? — Eliza indagou, inclinando-se para a frente.
Uzumaki explicou, gesticulando levemente: — É muito estranho. Todo mundo aqui sabe esperar paz e tranquilidade no Reino das Sombras... — Ele travou, percebendo o lapso, e corrigiu a postura, a voz baixando um tom. — Digo... No Reino dos Pesadelos, é pura ingenuidade. O caos e o conflito são o padrão.
Apesar de ninguém ter se pronunciado para negar a afirmação, também não parecia haver quem gostasse dela. — Ainda assim, nas cidades onde a Tromluí age, não é comum que esses sejam os problemas que os Pesadelos causem. É comum este tipo de lugar atrair seres ligados à preguiça, à gula, à ganância, à luxúria... mas não conflito aberto. Foi por isso que transformamos este lugar em base, para começo de conversa. Não é verdade, Rum?
Ele falava olhando fixamente para Rum. A pergunta agiu como um gatilho, arrastando a mente dela para longe daquela sala, mergulhando-a nas águas profundas da memória, lembrando-se de quando era jovem, ao lado de seu irmão e dos outros fundadores.
A cena mudou em sua mente. As cores eram menos saturadas, mas as emoções, mais vivas. Um outro Pesadelo, com o rosto brutalmente dividido em duas cores por uma cicatriz antiga, reclamava: — Você é idiota, Snow? Quer fazer a nossa base em um lugar como aquele? Mas aquilo é totalmente afastado da linha de frente! Os outros rebeldes fazem suas bases perto da linha de frente para podermos ver os Sonhos em ação! Não se esqueça de que, com o poder daquela garota deles, a tal “Saga”, eles podem facilmente saber o que planejamos! Mas se ficarmos afastados, não conseguiremos fazer o mesmo!
Snow, com um rosto muito mais alegre, apesar das feridas e dos machucados da guerra, falava, o otimismo vibrando em sua voz: — Eu já pensei nisso! Saga pode ver uma grande área, mas já confirmamos que o Reino dos Pesadelos foge dessa habilidade dela. E também que, apesar do que dizem, ela não está sempre observando. Além disso... tem outra coisa importante. Eu não criei a Tromluí para ser apenas mais um grupo de rebeldes e mercenários.
Os membros em volta da mesa se assustaram. O homem discutindo com Snow se aproximou, a testa quase tocando a de Snow. — Do que você está falando agora, Snow? Não vai falar nenhuma bobagem agora, hein?
Snow riu, um som leve e desarmante. — Calma, não vá pensando em bobagens! O que eu quero dizer é que... sim, vamos aceitar missões. Sim, vamos atacar os Sonhos e salvar nossos companheiros. Mas isso é mais do que apenas para não ficarmos parados ou por dinheiro. Eu quero que a Tromluí realmente faça uma mudança.
O homem bateu na mesa, fazendo a madeira estalar. — Não diga bobagens a essa altura! É bom que você não esteja tentando fazer uma revolução! — O homem não disfarçava a crescente fúria em sua voz ao encarar a expressão tranquila de Snow. — Esqueceu o que acontece com os revolucionários? Eles morrem!
Todos abaixaram a cabeça, numa aceitação taciturna das duras palavras do homem. — Ou já esqueceu o que aconteceu com a galera do Circo Meia-Noite? Se eles, que eram tidos como os heróis, os escolhidos entre os Pesadelos, perderam... não seremos nós que conseguiremos fazer diferente!
Rum, em sua versão mais jovem, aproximou-se dele, sentindo o medo frio do que seu irmão planejava subir pela espinha. Snow percebeu a hesitação dela e sorriu, um sorriso quente para acalmá-la. Seus olhos desviaram por um instante para o fundo da sala, onde sua mulher, grávida, observava tudo em silêncio. Ele olhou de volta para o grupo, e a expressão tornou-se solene. — Não é isso. Entendam. O que eu quero não é algo assim. Eu não quero guerra ou mais mortes. Eu sei muito bem que o mundo não vai mudar assim. Eu quero apenas construir um mundo que permita que os jovens, as crianças do futuro, tenham o poder para fazer a diferença que hoje nós não somos capazes de fazer.
Ele fez uma pausa, deixando as palavras assentarem. — Entendam. O nosso mundo de hoje funciona do jeito que funciona para impedir que tenhamos uma chance. Os Pesadelos lutam uns contra os outros por comida, dinheiro, para poder viver. Os Sonhos fizeram isso para que nunca tivéssemos uma chance de contra-atacar. Mesmo aqueles que se juntam, como nós ou como o Circo Meia-Noite, ainda são apenas pequenos grupos contra uma nação, não como um povo inteiro. E é por isso que perdemos.
A voz de Snow se intensificava, vibrando com esperança, e contagiava os que escutavam, como se uma chama quente estivesse aos poucos sendo reacendida em seus corpos gélidos. — Mas entendam. Se juntos construirmos um mundo onde os Pesadelos possam conviver, onde possamos nos unir... criaremos uma força que o Rei dos Sonhos não poderá parar. Não poderá fingir que não existe.
O homem de rosto dividido limitou-se a estalar a língua, enquanto os outros, contagiados, levantavam os punhos em concordância. Todos ansiavam por criar o mundo que seu líder descrevia. — Infelizmente, eu sei que isso não será na nossa geração. Ainda não sei se será na próxima ou na seguinte. Mas eu quero acreditar. Eu quero realmente acreditar que um dia esse futuro será possível.
A imagem de Snow desapareceu, mas a sensação de suas palavras permaneceu. Agora, com a mesma expressão e o mesmo olhar que dirigia ao seu irmão, a Rum do presente fitava Uzumaki. — Sim — ela falou, sua voz trazendo todos de volta ao presente. — Você está certo. Queríamos criar nossa base em um lugar onde não existisse conflito. Meu irmão sabia que no Reino dos Pesadelos existiam áreas que geravam certos sentimentos.
Eliza lembrou-se do que havia dito para Dan: "Era como se o mundo quisesse dizer que tudo que nasce aqui tivesse que ser ruim." — Espera, era assim que funcionava? Eu não tinha ideia — Dumpt ponderava, mas não demonstrou surpresa, embora Uzumaki o encarasse como se já esperasse por essa reação.
— Os mais próximos das linhas de frente normalmente acabavam experimentando a Ira, a Inveja... e esses sentimentos criavam o conflito entre os Pesadelos. Por isso ele não fez lá. Viemos para um lugar onde poderíamos criar alianças, onde poderíamos deixar os Pesadelos resgatados. Embora também tivesse seus problemas.
— Ainda assim — Uzumaki continuou —, logo após a partida de Rum até o palácio da Rainha Isobel, um grande número de ataques violentos, disputas e lutas aconteceu, forçando-nos a sair da cidade principal para resolver, deixando a menor guarda possível aqui.
— Você acha que foi planejado? — Eliza perguntou.
— Eu acho que os eventos foram próximos demais para ser apenas coincidência.
Eliza ficou em silêncio, processando. Mas a paciência de Dumpt havia se esgotado. Com um movimento brusco, ele bateu o punho metálico contra a mesa, rachando a madeira e fazendo as xícaras tremerem. — Espera aí, caramba! Se essa merda for verdade, tem algo muito errado nessa porra! — Todos haviam chegado a uma conclusão parecida. — Para eles saberem o momento para agir, e colocar tudo em prática, e confirmar que todos nós realmente estávamos fora da cidade... isso significa que alguém teria que estar aqui dentro e vazar nossas informações para eles, não é?!
Ninguém tentou impedir ou contradizer Dumpt enquanto ele fazia sua acusação publicamente, mesmo estando cientes das consequências. — Por acaso… temos um maldito Judas entre nós, é isso?!
A acusação pairou no ar como fumaça tóxica. Todos ficaram se encarando, a tensão palpável, os músculos rígidos prontos para o combate. — Eu duvido muito disso — Rum disse, rápida e cortante, antes que a paranoia se instalasse. — Não é realmente necessário que seja um de nós que tenha relatado que todos nós saímos. Vários outros da cidade também sabiam disso.
Rum rapidamente tomou o controle da situação, impedindo que a paranoia aumentasse. — E ainda tem o caso de Eliza, por exemplo. Pelo que eu vi no restaurante, ninguém parecia de fato saber que ela tinha ido roubar o mapa da Cidade Cristal. Ainda assim, o incidente rolou depois que ela saiu. Ou seja, alguém viu isso... E como ela foi a última de nós a ir nessa missão, não poderia ser nenhum outro. Não é mesmo!?
— Bem, como quem levantou o ponto, posso afirmar que, sem dúvida, Eliza não é adequada para algo tão sensível quanto ser uma agente dupla. Então, realmente, não pode ser ela — Uzumaki se manifestou de onde estava.
— Tá, mas eu ainda consigo pensar em algumas outras opções — Mumei falou baixinho, seus olhos deslizando significativamente para Laeticia.
Laeticia se sentiu insultada e aterrorizada só pela insinuação silenciosa. — É melhor você falar o que quer de uma vez!
— Eu já disse para pararem com isso! — Rum interveio, firme, sua voz ecoando autoridade. — Não adianta nada ficarmos acusando uns aos outros. Se estivermos errados, vamos apenas quebrar a confiança que temos e fazer o que o inimigo quer. E, se estivermos certos, ainda assim, tenho certeza de que descobrir através de acusações só quebraria nossa confiança também, deixando-nos vulneráveis ao inimigo.
A repreensão surtiu efeito. Eles se acalmaram, embora a desconfiança ainda estivesse lá, latente. Laeticia, trêmula, continuou: — Bom... depois que todos partiram, o incidente começou. Alguns Sonhos começaram a invadir e atacar. Eu fui informada e tentei mandar mensagem para vocês, mas uma barreira tinha sido construída em volta da cidade.
— Tsk... merda, eles conseguiram até mesmo erguer uma barreira?! — Dumpt, frustrado, falou do seu assento.
— Eu até tentei ir ajudar e vi que muitos civis e Pesadelos iniciaram uma briga com os Sonhos, mas isso apenas acabou resultando no incêndio que viram. Não tivemos nenhuma chance. Porque um dos Cinco Cavaleiros Reais veio também.
— Mas que merda... Qual dos malditos foi dessa vez? — Dumpt rosnou como um motor sobrecarregado.
— Foi Alone.
O nome caiu na sala causando uma onda instantânea de raiva contida. Punhos se fecharam. — Agora entendi por que Snow acabou agindo — Dumpt murmurou, o metal de seu queixo rangendo.
— Sim — Laeticia concordou, a voz embargada. — Ele veio se envolver em tudo e até tentou lutar com Alone. Mas este o derrotou facilmente. Parece que Alone estava apenas procurando por um novo adversário para lutar e querendo ver o que havia acontecido com Snow.
As lembranças invadiam Laeticia, que cerrava os punhos com força na tentativa de evitar revivê-las. — Alone não estava de fato liderando a equipe de captura. Tanto que, assim que viu como Snow havia enfraquecido, ignorou-o e foi embora.
Laeticia baixou a cabeça, incapaz de encarar os companheiros. — Nesse meio-tempo, infelizmente, os raptores conseguiram invadir ainda mais a capital dos Pesadelos. E Yukina, que acabou tentando ir até Snow desesperada, foi encontrada e também levada.
— Essa parte pode pular — Uzumaki interrompeu. — O resto já é meio fácil de entender. O que aconteceu depois que Snow reuniu seu exército de idiotas e marcharam para Wonder.
— Olha como você está falando! — Eliza levantou-se num salto, as mãos espalmadas na mesa. — Que direito tem para chamá-los de idiotas?!
— Tenho todo o direito! — Uzumaki retrucou, sem se levantar, mas com o olhar afiado como uma lâmina. — Não existe nome melhor para chamar idiotas que descartam a vida assim, sem motivos!
— Eles conseguiram salvar os capturados e os escravos da cidade!
— Mas no processo morreram e incitaram mais ira nos inimigos! O que só fará eles atacarem de volta, de novo, e com mais força!
— CHEGA DESSA MERDA, VOCÊS DOIS! — Dumpt gritou, a voz estrondosa fazendo todos recuarem. — ISSO NÃO VAI LEVAR A NADA, PORRA!
Ele virou o rosto mecânico para Laeticia, buscando um alvo para sua fúria. — Então, quem foi? Foi o bastardo do Teth que matou o Snow?
Laeticia negou com a cabeça, os olhos marejados. — Não. Foi um Éter diferente. Um que eu nunca tinha sentido antes, mas muito poderoso.
— E você nem foi ver quem era?! — Dumpt se estressou, as engrenagens girando mais rápido.
— E você agora é quem está fazendo bobagens que não vão levar a nada! — Uzumaki retrucou, cruzando os braços.
— O que você quer dizer com isso, pirralho?! — Dumpt virou-se para ele.
Uzumaki respondeu, mantendo uma calma irritante: — Pense bem onde essa linha de raciocínio vai levar. Para o mesmo lugar de onde saímos. Simples assim. Por acaso não vê o círculo que está se formando? Snow estava furioso com Alone e, para se vingar por conta do que ele fez, atacou Wonder.
Dumpt reassumiu seu lugar, focado nas palavras de Uzumaki. — Eu tenho certeza de que nesse ataque ele acabou ferindo pessoas que nem relação tinham com Alone. E isso fez com que alguém que se importava com elas contra-atacasse e matasse Snow. Agora você, irritado por isso, só vai atacar de volta se souber quem é. E mesmo que o mate, só vai fazer com que alguém que se importava com ele se levante para contra-atacar também. Até onde eu sei... seja lá quem for que tenha matado Snow, foi criado pelas ações dele mesmo.
Dumpt se levantou num movimento brusco e completo, derrubando a cadeira atrás de si enquanto se inclinava sobre a mesa. — E o que está dizendo?! Que eu tenho que só esquecer desse merda e perdoá-lo, então?! É isso?!
— Sim. É isso mesmo que você tem que fazer, se quiser ser melhor que ele — Uzumaki respondeu, sustentando o olhar. — É justamente essa merda que você vai fazer. Mas se, em vez de ser melhor e construir um lugar melhor, você só estiver querendo se vingar e sair matando todo mundo... não é aqui que você deveria estar.
O caos ameaçou explodir. Eliza, Laeticia e Mumei tentaram intervir, vozes se sobrepondo, mas Rum bateu a mão na mesa novamente. O som foi seco, definitivo, ecoando pelas paredes. — JÁ CHEGA!
Ela os encarou, um por um, com uma intensidade que forçou seus corpos a obedecerem e se sentarem. Ela então tomou a frente. — O que Uzumaki falou está certo. Eu não quero que nenhum de vocês aja pensando em vingança. Entenderam?
Dumpt parecia inconformado, o metal rangendo em protesto, mas sob o olhar severo de Rum, ele parou. Estalou a língua e desviou o olhar, aceitando, mesmo de forma desgostosa. — Dito isso... — Rum continuou, baixando o tom para algo mais conspiratório. — ... também não podemos ficar só parados, bancando o superior e apenas recebendo ataques. Isso é a escolha certa para a obliteração.
— Então como vamos agir? — Eliza perguntou.
Rum respirou fundo antes de soltar a bomba. — Bom. Digamos que vamos colocar seu plano em prática.
Ao ouvir aquilo, um choque percorreu a sala. Mas foi Uzumaki quem, pela primeira vez, perdeu a compostura gélida. Ele bateu as mãos contra a mesa e gritou, os olhos arregalados: — VOCÊ ESTÁ FALANDO SÉRIO?!
A explosão dele surpreendeu a todos. Rum, inabalável, colocou a mão na frente do rosto dele num gesto de "pare". — Calma. Escute com atenção até o fim. Não será exatamente o plano dela. Mas o envolverá.
Ela se levantou, caminhou até um móvel próximo e pegou uma carta que havia recebido. O papel parecia pesado em suas mãos. — Foi entregue por um corvo hoje de manhã. Veio da Isobel. Ela soube sobre o que havia acontecido, queria falar sobre isso e também sobre outras coisas que aconteceram em paralelo.
Assim, com a atenção de todos presa a ela, Rum narrou os eventos sísmicos: o Jogo das Coroas dos Sonhos, a chocante abdicação do Rei e a reunião dos Cinco Cavaleiros Reais que aconteceria na Cidade de Diamante.
Todos se sentaram, atordoados. As notícias eram grandes demais, irreais demais para terem acontecido em um único dia. — Puta merda, você está falando sério? O próprio Rei dos Sonhos decidiu abdicar? Eu não consigo acreditar… — Dumpt estava boquiaberto com a notícia.
— Na verdade, eu também tinha ouvido umas conversas parecidas na cidade e estava pensando em falar sobre isso com vocês — Mumei levantou a mão para se pronunciar.
— Espera, então você também ouviu isso, Mumei? Quer dizer que é realmente verdade? — Eliza também parecia completamente incrédula.
— Bom, você sabe, ninguém em sã consciência teria coragem de citar o nome do rei sem motivos, por isso eu nem cheguei a duvidar da notícia. Mas sim, eu também fiz meu trabalho investigando e, até onde percebi, isso é realmente verdade. Até mesmo os Sonhos estão agitados com a possibilidade de seu novo rei ser um Pesadelo.
Rum respirou fundo novamente, sentindo o peso da decisão que estava prestes a anunciar. — Me escutem com atenção agora…
Em silêncio, todos se voltaram para ela, notando a seriedade em seus olhos. — Eu lembro melhor do que qualquer um o motivo do porquê a Tromluí nasceu. Eu sei que você acredita que nada pode nascer da violência, Uzumaki. Que estaremos apenas repetindo nossos passos em círculos. Mas também acho que a estagnação não é a resposta. Por isso, depois de pensar muito e considerar muito, eu cheguei a uma conclusão…
Todos na sala sentiram que algo grande e diferente estava para acontecer, antes mesmo de Rum verbalizar seus pensamentos. — Essa é nossa única esperança. Agora que o próprio Rei decidiu esse jogo, poderemos vencer. Se trabalharmos juntos.
Ela explicou seu plano, cada palavra puxando e desenhando um caminho sobre um mapa que estava sobre a mesa. — Primeiro, vamos aproveitar que a reunião está acontecendo. Como todos estarão na Cidade de Diamante, por conta do grande encontro de Éter, para não causar uma bagunça na cidade, eles terão que desativar suas auras, removendo a capacidade de Saga de ouvir o Reino dos Sonhos. Esse será o único momento em que poderemos entrar, invadir e capturar a arma do apocalipse deixada pela Senhora Guerra na Cidade de Cristal.
Seus olhos brilharam perigosamente. — Espera, o quê?! Você não pode estar falando sério. — Mumei olhava para Rum e Eliza, quase em choque, sem conseguir acreditar que aquelas palavras tinham saído da boca de sua comandante e não de Eliza.
— Escute o que tenho a dizer até o fim... — Rum continuava a olhar intensamente, deixando claro que não era o momento para perguntas ou dúvidas.
Mumei, por sua vez, sentou-se em sua cadeira. Eliza, em silêncio, estava surpresa, não esperando por aquilo, embora fosse o que ela mais desejava. — Vamos usá-la. Mas não contra o Rei ou os Cavaleiros Reais. Vamos usá-la como prova de poder. Para convencer os outros competidores a entregarem suas coroas. Pegaremos votos e colocaremos um Pesadelo no trono. Criaremos um novo Reino de Morpheus usando as regras deles, e não o combate direto. Essa é a única maneira de alcançar verdadeiramente um mundo melhor.
Uzumaki sentou-se lentamente, não como se tivesse aceitado, mas como se a lógica audaciosa daquilo valesse, no mínimo, ser discutida. — Mas não foi pra isso que eu peguei os mapas da cidade! — Eliza protestou, confusa.
— Do jeito que você estava querendo usar era suicídio e loucura! — Rum retrucou imediatamente. — O Rei nem os Cavaleiros abaixariam a cabeça por conta de uma ameaça dessas! Eles lutariam!
— E quando eles lutarem, contra-atacamos! Agora teremos a arma do nosso lado!
— Por acaso não ouviu nada?! — Uzumaki disse, exasperado.
— Ouça, Eliza, o combate direto não vai funcionar — disse Rum, interrompendo as fantasias de poder de Eliza. — Além dos motivos levantados por Uzumaki, também existe o fato de que não sabemos se podemos usar essa arma ou como usá-la. Lembre-se de que até hoje ninguém foi compatível com ela, o que significa que ninguém sabe como ela funciona.
— Mas esse não é justamente o motivo principal do porquê o seu plano também não funcionaria? — Mumei falou, a voz lógica e suave.
— Não. Apesar de não sabermos como usar, podemos encontrar alguém compatível. E melhor: alguém compatível e que tenha a marca da coroa.
— Está pensando em falar com a Oráculo? — Dumpt perguntou, entendendo onde ela queria chegar.
— Sim. Vamos para a Cidade de Cristal. De lá, passamos direto para a Floresta do Delírio e, com a Oráculo, descobriremos onde está um Pesadelo que tenha a marca da coroa e que seja compatível com a arma.
— E alguém assim existe mesmo? — Laeticia perguntou, cética.
— Caso alguém tão específico não exista, podemos encontrar alguém compatível e alguém com a marca. Contanto que existam entre os Pesadelos, a Senhorita Oráculo poderá encontrá-los em Morpheus.
— Você não está sendo muito otimista? — Uzumaki desafiou. — Mesmo que encontremos, como você disse, não saberemos como usar a arma. Como faremos caso os Cavaleiros Reais também tenham a marca, por exemplo?
Rum endureceu a expressão. A gravidade do que viria a seguir preencheu a sala. — É aí que entra a parte mais arriscada. Para pôrmos esse plano em ação, teremos que abandonar por completo nossa forma de ação atual. Depois que pegarmos a arma e descobrirmos o usuário marcado, teremos que partir em jornada, percorrendo Morpheus em uma caçada aos marcados e treinando o usuário para que ele controle a marca e a arma.
Só no momento em que ela proferiu aquelas palavras é que a proposta completa de Rum lhes atingiu, fazendo-os congelar por alguns instantes. Eliza balançou a cabeça, a frustração transbordando. — Não podemos fazer algo assim! — disse ela, a voz trêmula, mas acusatória. — O que vai acontecer nesse meio-tempo? Enquanto estivermos nessa jornada maluca, os Sonhos vão destruir tudo o que construímos. As cidades que protegemos, as pessoas que salvamos... elas ficarão sozinhas.
A esposa de Dumpt levantou-se e foi até o marido, apertando-lhe a mão em silêncio. Ela também parecia compreender o rumo da conversa. — Se fizermos isso, ficaremos apenas fugindo e nos escondendo. Desse jeito, seremos apenas covardes deixando o mundo queimar pelas nossas costas.
— Você está certa em alguns pontos… — Rum não tentou negar a afirmação. — Não poderemos mais parar em um lugar, voltar para a base. Seremos alvos procurados por todos, em uma corrida constante até o posto de Rei. Claro que será arriscado…
Ela parou alguns segundos, lembrando-se dos olhos de seu irmão enquanto o mesmo dizia seu ideal. — No entanto, parem e olhem para a realidade. Nós já estamos perdendo. Protegemos uma cidade hoje para vê-la ser arrasada na semana seguinte. O método atual não funciona. Mas caso esse plano dê certo... poderemos de fato criar um mundo para os Sonhos e Pesadelos. O verdadeiro objetivo da Tromluí. Estou errada?
O silêncio que se seguiu foi profundo. — Meu plano exige sacrificar o presente para garantir que exista um futuro. É cruel? Sim. Mas é a única chance de pararmos a guerra para sempre, em vez de apenas adiarmos o inevitável por mais alguns dias.
Eliza abriu a boca para retrucar, mas as palavras morreram. A lógica era brutal, mas inegável. — Quer dizer que não seremos mais capazes de salvar os escravos ou proteger a cidade? — Mumei ainda parecia não concordar com a lógica.
Dumpt olhou para sua esposa e a vida que construiu. Rum sentou-se. Ela fechou o punho com força, as unhas cravando na palma. — Meu irmão acreditava que a Tromluí poderia criar um mundo propício para que a próxima geração construísse um lugar melhor. Queria criar um lugar onde os Pesadelos poderiam se unir. Mas, como vimos, o mundo não deixa isso. Enquanto tentamos construir e não destruir, o outro lado continuará destruindo antes que possamos chegar a algum lugar. No entanto, o que estou dizendo não é para desistirmos de tentar construir e comecemos a destruir do outro lado também. Estou falando para sermos mais espertos. Construirmos algo que eles não consigam destruir tão fácil.
Ela olhou para cada um deles. — Meu irmão, no início da Tromluí, acreditava que outra geração seria a responsável por trazer a paz. Ele não sabia se seria a próxima ou a seguinte. Mas eu acredito que essa geração é essa agora. Que só nasceu e existe pelo esforço que ele e os outros que nos deixaram construíram. É nossa responsabilidade não criar um mundo onde a próxima geração ainda precise lutar para construir a paz, mas uma em que eles possam sossegar pela paz que trouxemos.
Dumpt pensou em sua filha, o coração metálico pesando. Uzumaki estalou a língua, recostando-se, como se desistisse de argumentar contra algo tão visceral. Eliza viu um vislumbre de esperança e admiração brilhar em seus olhos.
— Como será a mudança mais radical que a Tromluí fará, eu decidi que não irei fazer a não ser que todos concordem — Rum disse, a voz suavizando. — Então, amanhã eu esperarei por vocês na minha casa, aguardando suas respostas. Caso achem que existe outra maneira, eu entenderei. Não irei culpá-los e aceitarei a decisão. Mas eu peço que, por favor, pensem de verdade sobre tudo que aconteceu. Sobre este mundo. O que ainda vai acontecer.
Ela começou a caminhar em direção à saída, os passos ecoando. Antes de cruzar a porta, parou, sem se virar. — E mais do que tudo... obrigada.
E assim, saiu, deixando um vácuo na sala. — Acho que foi a primeira vez que eu vi a comandante falar "por favor" e "obrigada" — Mumei disse, quebrando o transe, genuinamente surpreso.
— Bom, eu luto com ela há mais tempo do que todos e posso dizer o mesmo — Dumpt falou, passando a mão na cabeça. — Mas também... como julgar? Agora, com a morte de Snow, é mais do que só a morte do irmão dela. Também significa que sobrou apenas ela da antiga geração da Tromluí. Todos nós de agora viemos depois. Talvez ela queira fazer isso também para provar que os sacrifícios deles não foram em vão.
— Eu ainda acho que esse plano é ingênuo. Tem vários buracos e furos — Uzumaki falou, levantando-se e ajeitando a roupa.
— Uzumaki! — Eliza começou a se irritar novamente.
— Na verdade, eu também concordo: depositar nossas esperanças em pessoas que nunca conhecemos não me parece a coisa certa a se fazer… — Mumei se recostou, indicando que, ao contrário do que Eliza poderia pensar, nem todos haviam simplesmente concordado com a proposta.
Dumpt parecia prestes a expressar seu ponto de vista, mas foi interrompido antes de sequer começar a falar. — Mas ainda assim — Uzumaki falou com uma voz cortante —, eu sei bem como ela está se sentindo. E também acho que a estagnação não levará a uma resposta melhor. Por isso, mesmo sendo ingênuo, vou aceitar e ir com ela. Não vou dizer o que vocês devem fazer. Apenas quis falar o que penso.
Assim, com o peso da decisão pairando sobre eles, todos começaram a se levantar. Moviam-se com uma gravidade nova, como se tivessem decidido internamente que deveriam usar o resto do tempo para pensar e, enfim, chegar a uma resposta que mudaria o destino de todos.
Parte 7
Ao cair da noite, o vapor quente não apenas enchia o banheiro da casa de Eliza, mas o transformava em um santuário enevoado, isolado do mundo exterior. A umidade embaçava o espelho e condensava nos azulejos, escorrendo em gotas lentas como lágrimas. Enquanto suas mãos trabalhavam mecanicamente, lavando o cabelo de Dan na banheira, Eliza estava longe dali.
Seus dedos massageavam o couro cabeludo dele, mas sua mente vagava por um labirinto sombrio: a morte brutal de Snow, o choro inconsolável de Rum e aquele plano insano — quase suicida — de roubar a arma do apocalipse. Ela se perguntava o que deveria fazer, qual escolha devia tomar, que caminho seguir em meio à neblina do destino.
Sem perceber, o ritmo de suas mãos diminuiu até parar. Dan, sentindo a ausência do toque e aproveitando a distração, iniciou sua fuga silenciosa. Ele foi escorregando lentamente para baixo, centímetro por centímetro, tentando escapar daquela "tortura" de higiene, até que a água morna cobriu seu queixo, sua boca e, finalmente, seu nariz afundou na superfície espumosa.
— Ei! — Eliza acordou de seus devaneios num sobressalto. Num reflexo rápido, ela agarrou a nuca dele e o puxou de volta, fazendo a água espirrar para fora da banheira enquanto ele emergia tossindo e cuspindo água. — Para de fazer isso! Assim não dá pra lavar o seu cabelo direito!
— Mas por que você está fazendo isso?! — o garoto reclamava, esfregando os olhos freneticamente para limpar o sabão que ardia. — Eu não pedi!
Eliza não recuou, pegando a ducha de mão e jogando um jato d'água certeiro na cabeça dele. — Porque, caso eu não faça, você vai continuar sujo! — ela respondeu, firme, mas com um tom quase maternal. — E eu não quero dormir com você cheirando mal.
— Eu não sou criança! — ele protestou, a voz anasalada pela água. Tentou segurar as bordas de porcelana da banheira para se impulsionar para fora e fugir. — Se não fosse, não ficaria fazendo todo esse drama por causa de um banho! Volta aqui!
A coreografia virou uma luta cômica e molhada. Ela o beliscou no braço, fazendo-o soltar a borda, e puxou-o de volta para a posição sentada com um puxão firme, porém cuidadoso. Eles continuaram lutando por alguns minutos, espalhando espuma pelo chão, até que Dan, sem forças para continuar resistindo à teimosia de ferro dela, aceitou seu destino, cruzando os braços e sentando-se emburrado, a água batendo no peito.
Eliza voltou a lavar o cabelo dele. Mas, dessa vez, a tensão voltou aos seus dedos. Ainda irritada com seus próprios pensamentos, ela esfregava o couro cabeludo dele um pouco mais agressivamente do que o realmente necessário, descontando suas frustrações na espuma. — Então... — ela começou, tentando quebrar o silêncio e distrair a própria mente turbulenta. — O que ficou fazendo essa tarde, enquanto eu estava fora?
Ele demorou a pensar na melhor maneira de responder, brincando com uma bolha de sabão na água. — Eu estava... com a filha do Snow.
As mãos de Eliza pararam de pentear o cabelo dele instantaneamente, congeladas no ar. Um silêncio total e pesado tomou conta do banheiro, quebrado apenas pelo gotejar rítmico e ecoante da torneira. Plim. Plim.
Por estar virado de costas, o garoto não conseguia ver a sombra que cruzou o rosto dela. Enquanto ele tentava girar o pescoço para ver o reflexo dela na água ou entender a pausa, Eliza empurrou a cabeça dele para baixo de novo, enxaguando o xampu com uma rapidez que beirava o desespero, como se quisesse lavar aquele assunto dali. — A Yukina... não é filha do Snow — ela disse. Sua voz saiu neutra, controlada demais, enquanto o trazia de volta à superfície.
Aquilo deixou o garoto completamente confuso. A água escorria por seu rosto enquanto as memórias da tarde voltavam: o jeito como a garota chamava por Snow, o desespero cru em seus olhos. Mas, pela rigidez nos ombros de Eliza e pelo tom de voz cortante, ele intuiu que aquele era um terreno perigoso.
Ele decidiu mudar a rota. — E você? O que fez?
— Fiquei pensando nas coisas. — Ela pegou mais xampu, focada em suas mãos.
— Que coisas?
— Tudo.
Ela suspirou, um som longo que pareceu esvaziar seus pulmões. Parou de lavar e apenas ficou olhando para as costas dele, para a vulnerabilidade daquela nuca exposta. — Sinto que tudo vai mudar a partir de agora. E estava em dúvida se essas mudanças seriam boas ou ruins. — Ela acabou deixando vazar, sem perceber, a fragilidade que escondia sob a armadura de durona. Medo. Medo de perder o que restava de sua pequena, improvisada e caótica "família".
Dessa vez, foi o garoto quem demorou a responder. Ele olhou para a água leitosa de sabão, observando seu próprio reflexo distorcido. — Bom... independentemente do que mude... eu vou estar aqui agora. Então, se precisar de ajuda... também pode me pedir, eu acho.
Aquelas simples palavras foram ditas de forma completamente natural e casual, sem qualquer peso dramático. Ele provavelmente as havia falado sem pensar muito. Mas, para Eliza, o impacto foi sísmico. A sensação de que, agora, ela poderia pensar assim — que apesar de qualquer mudança, ela teria alguém ao seu lado — foi uma onda de calor muito mais intensa do que a água da banheira. Aqueceu seu peito, dissipando o frio do medo.
Movida por um impulso súbito, ela puxou o cabelo dele para trás com firmeza, fazendo-o olhar para cima, expondo o rosto dele à luz do banheiro. — Ai! O que foi agora?! — ele gritou, surpreso pela puxada.
Quando ele focou a visão, a reclamação morreu na garganta. Eliza estava sorrindo. Não o sorriso sarcástico ou cansado de sempre, mas um sorriso genuíno, suave e incrivelmente terno. Ela se inclinou lentamente sobre a borda da banheira e deu um beijo demorado na testa dele.
O tempo pareceu parar naquele banheiro úmido. Dan ficou paralisado, os olhos arregalados, seu rosto sendo tomado por um vermelho vivo que subia do pescoço às orelhas. Antes que ele pudesse processar o gesto ou dizer qualquer coisa, Eliza quebrou o momento. Ela o empurrou, afundando-o mais uma vez na água e cobrindo o rosto dele com uma montanha de espuma.
Ela se levantou rapidamente, virando as costas para esconder o próprio rosto que queimava em brasa. — Bom! O resto você pode continuar sozinho. Mas ande logo, pois eu também quero tomar banho!
O garoto emergiu, expirando e fazendo bolhas frenéticas na água, vermelho como um camarão — embora, dessa vez, a temperatura da água fosse a menor das causas.
Já do lado de fora, no quarto mergulhado na penumbra, Eliza olhou para uma fotografia presa na porta de sua geladeira com um ímã velho: Rum, Dumpt e ela mesma, ainda criança, todos sorrindo torto para a câmera. — Não tem por que ter tanto medo, no final... — ela murmurou para si mesma, tocando a borda da foto. — Afinal, as coisas sempre estiveram em mudança. Não é de agora.
Minutos depois, a porta do banheiro se abriu. Uma nuvem de vapor escapou junto com Dan, que saiu usando apenas uma toalha na cintura. Eliza, que estava separando roupas sobre a cama, olhou para ele casualmente e parou. O tecido caiu de suas mãos. — Bom, precisamos comprar outras roupas para você, mas... Sinceramente, você é uma caixinha de surpresas.
Ela caminhou até ele como se estivesse em transe, os olhos fixos no braço direito dele. — Nunca vi um Prim, ou sei lá o que é você, assim. Esse seu braço direito é bem diferente... todo escuro e com estrelas dentro. Entendi por que você o deixava enfaixado. Chama muita atenção e destaca.
O braço direito de Dan parecia feito do próprio vácuo do espaço sideral: uma matéria negra profunda, mas pontilhada de luzes que cintilavam como estrelas distantes e nebulosas vivas. O garoto olhou para o próprio braço, surpreso, girando o pulso sob a luz. — Eu não sabia que ele era assim... até eu desenfaixar também.
— Espera. Então você nunca desenfaixou antes?
— Só uma vez... quando fiquei curioso. Mas só uma parte. Só que... 'tá diferente.
— Como era antes? — ela perguntou, a curiosidade lutando com a apreensão.
— Ainda era preto. Mas a parte do pulso que eu desenfaixei antes... não tinha essa coroa.
A palavra "coroa" atingiu Eliza como um soco no estômago. Ela congelou. Em um movimento brusco, avançou e segurou o pulso direito dele, trazendo-o para perto dos olhos. Lá, brilhando com uma luz pálida e fantasmagórica sobre a pele feita de cosmo, estava a marca inconfundível de uma coroa.
A mente de Eliza viajou instantaneamente para a carta de Isobel. As regras. O perigo. O Jogo das Coroas. O Rei abdicando. "Aquele que coletar a coroa de todos os demais..." Se ele tinha a marca... ele não era apenas um garoto estranho. Ele era um participante. Um alvo.
Ela levantou o rosto e olhou nos olhos de Dan, séria como nunca estivera naquela noite. A ternura do banho havia desaparecido, substituída por um instinto protetor feroz. Dan a encarava, confuso com a mudança repentina de humor. — Nunca conte pra ninguém dessa marca. Tudo bem? — ela ordenou, apertando o pulso dele.
— Por quê? — ele perguntou, assustado.
— É importante. Não precisa pensar muito. Apenas confie em mim. Por favor... não conte pra ninguém. Nem mostre esse braço.
Ele ficou confuso, mas ao ver a intensidade no olhar dela — um misto de medo e determinação —, aceitou sem questionar. — Tudo bem.
Eliza soltou o braço dele, soltando o ar que prendia nos pulmões. — Bom. Agora pode ir na frente. Como não vai ter roupa, tente pegar uma das minhas camisas largas ou fique pelado até amanhã. Mas nada de pôr aquela pilha de trapos velhos de novo.
O garoto assentiu e foi caminhando para o quarto, a pele cósmica brilhando na escuridão do corredor. Eliza ficou parada, olhando para as costas dele, sua expressão fechada e preocupada. Ela fechou o punho com força, as unhas cravando na palma da mão. "É melhor eu impedir que te joguem no meio disso."
Na manhã seguinte, na casa de Rum, a atmosfera havia mudado. Todos estavam reunidos, e o ar vibrava com uma nova energia. O silêncio era pesado, mas não de dúvida; a decisão já havia sido tomada nos corações de cada um durante a longa noite. Sem hesitar, todos olharam para Rum. Um pacto silencioso havia sido selado. Eles iriam até o fim.
Parte 8
O restaurante em Wonder era, como tudo na cidade, uma obra de arte luminosa. Paredes de vidro permitiam que a luz azul do dia entrasse, refletindo em mesas de mármore branco polido. O cheiro de comida recém-preparada e doces etéreos preenchia o ar, e a maioria dos clientes conversava animadamente, alheios ou tentando esquecer o caos recente.
No entanto, em uma mesa isolada ao fundo, uma nuvem cinza parecia pairar. Dante e Silence estavam sentados um de frente para o outro, mas poderiam estar em dimensões diferentes. Silence não tocava na toalha de mesa, com a cabeça baixa, os cabelos vermelhos caindo como cortinas para esconder o rosto. Dante, por sua vez, olhava para um ponto fixo na mesa, seus olhos vermelhos vidrados, presos em um labirinto mental do qual não conseguia sair. Nenhum dos dois pronunciava uma palavra.
Na fila para fazer os pedidos, Ludmilla e Philia observavam a cena à distância. Philia suspirou, os ombros caindo ligeiramente, perdendo aquela postura animada habitual. Ludmilla, percebendo o desânimo da garota e sentindo que o silêncio entre elas estava ficando pesado, decidiu puxar assunto. Havia também uma pulga atrás de sua orelha que precisava ser coçada.
— Então... — Ludmilla começou, fingindo casualidade enquanto olhava o menu flutuante. — Onde está o Teth? Imaginei que ele estaria aqui, gabando-se de como salvou o dia ou ajudando na reconstrução.
Philia forçou um sorriso, mas ele não alcançou seus olhos. — Ah, não se preocupe com isso. A cidade tem autômatos e brinquedos que cuidam da maior parte dos reparos. Logo tudo estará novinho em folha.
— E ele? — Ludmilla insistiu.
— É normal — Philia explicou, gesticulando levemente. — Depois de usar muito poder ou de grandes batalhas, o Senhor Teth costuma sumir por um tempo. Você viu como as pessoas são... assim que o veem, elas o cercam, pedem coisas, agradecem. Ele gosta de tirar algumas horas, às vezes um dia inteiro, para ficar sozinho e recarregar as energias. Mas logo ele estará de volta, radiante como sempre.
Ludmilla assentiu devagar, aceitando a explicação superficialmente. — "Recarregar energias longe de todos..." — ela pensou, seus olhos estreitando-se levemente. — "Faz sentido para uma celebridade. Mas sumir logo após aquela batalha, na qual ele chegou atrasado e viu o estado do Dante... ainda sinto que tem mais alguma coisa aí."
Philia, tentando mudar o clima, olhou para a mesa ao fundo. — Sabe... eu realmente me surpreendi hoje. Eu não imaginava que o Dante fosse tão forte. Quando cheguei lá, senti que nem seria necessária.
— Não diga isso — Ludmilla a cortou, suave, mas firme. Ela olhou para as próprias mãos, onde a pele nova e rosada substituía as queimaduras graves, curadas pela habilidade de Philia. — Se não fosse por você, eu não saberia para onde levá-lo. E minhas mãos... bem, elas também agradecem. Você foi essencial.
Philia corou levemente, desviando o olhar, envergonhada com o elogio direto. Seu olhar caiu sobre Silence, e a vergonha deu lugar à preocupação. — O problema agora é ela... Desde que voltamos, ela não disse uma única palavra.
— O que acontece com ela, afinal? — Ludmilla perguntou, cruzando os braços e olhando para a pequena sacerdotisa. — Ela parece... quebrada.
— A Silence é... delicada — Philia disse, a voz baixando um tom, como se contasse um segredo. — Ela se sente responsável por tudo e por todos. Por causa do Dom da Profecia que recebeu, ela acredita que, se algo ruim acontece, é porque ela falhou em ver ou falhou em impedir.
Philia olhou para a amiga com tristeza. — É sempre assim. Quando ela não consegue prever algo, ela desmorona. Aconteceu a mesma coisa no Ciclo Anterior.
Ludmilla franziu a testa, a palavra soando estranha. — Espera... "Ciclo Anterior"? Do que você está falando?
Philia arregalou os olhos levemente, levando a mão à boca. — Ah! É verdade! Eu esqueci completamente que vocês não sabem... que eu não expliquei...
— Relaxa — Ludmilla interrompeu, vendo o pânico surgir na garota. Ela colocou a mão no ombro de Philia. — Você pode explicar isso outra hora. Agora, vamos focar no que é importante. O que você pensa sobre esse estado dela?
Philia suspirou, grata pela compreensão. — Eu... eu acho injusto. Eu não acho que tudo seja responsabilidade dela. O Destino mostra o que acha necessário, e esconde o que não devemos ver. Coisas boas acontecem, mas coisas ruins também, e isso está muito além das mãos de uma única pessoa, mesmo de uma Sacerdotisa. Eu já disse isso para ela tantas vezes... mas sinto que minhas palavras nunca a alcançam de verdade.
Ludmilla olhou para Philia com um novo respeito. — É uma forma bem madura de ver as coisas.
— Pena que nem todos conseguem ver assim — Philia respondeu, cabisbaixa.
— Eu acho que está tudo bem — Ludmilla disse.
Philia a olhou, confusa. — Como assim?
— Como você disse, é uma visão madura. Mas a Silence... ela parece ainda não estar pronta para ver o mundo dessa forma. E isso não significa que ela nunca vai ver, apenas que agora não é o momento.
— Então o que eu faço? — Philia perguntou, a angústia evidente. — Finjo que não a vejo sofrendo? Espero até "esse dia" chegar?
— Não — Ludmilla balançou a cabeça. — Mas você também não precisa tentar "consertar" o que ela sente. As pessoas têm direito aos seus sentimentos ruins tanto quanto aos bons. Não é possível controlar o que o outro sente.
Ludmilla olhou para a fila que andava e continuou: — Mas, quando ela estiver enfrentando esses sentimentos ruins... em vez de tentar impedir que ela os sinta, ou dizer para ela "não ficar triste", é muito melhor você apenas ficar ao lado dela. Impedir que ela se sinta sozinha enquanto sente a dor. Mostrar que, mesmo na tristeza, você estará lá.
Os olhos de Philia brilharam com compreensão. Ela parecia ter tirado um peso das costas. — Ficar ao lado dela... para que ela não se sinta sozinha. Entendi. Obrigada, Ludmilla.
Philia sorriu, um sorriso mais verdadeiro dessa vez. Então, ela apontou discretamente para Dante. — E quanto a ele? Tem algo que eu possa fazer?
O olhar de Ludmilla endureceu um pouco ao focar em Dante. Ela relembrou a cena na neve: Dante prestes a executar Snow, a fúria irracional, e depois... o despertar. — Ele está estranho — Ludmilla murmurou. — Quando eu o parei... e ele viu o que estava prestes a fazer, e viu o corpo do Snow... não foi tristeza que vi nos olhos dele. Nem arrependimento.
Ela fez uma pausa, analisando a memória. — Foi confusão. E espanto. Como se ele estivesse olhando para as mãos de um estranho. Como se tivesse medo de si mesmo.
— Isso parece sério... — Philia comentou.
— Eu ainda não sei bem o que ele tem — Ludmilla admitiu. — E quando eu souber, com certeza vou pedir sua ajuda. Mas, por enquanto... eu acho que preciso ajudá-lo a entender o que está sentindo. Antes que isso o consuma.
— Entendo — Philia disse. — Isso pode ser bem mais complicado do que parece.
— Sim. — Ludmilla concordou. — A propósito, as nossas roupas originais... acha que já secaram na sua casa?
— Ah, com certeza! Com o sistema de secagem de Wonder, já devem estar prontas faz tempo.
— Ótimo — Ludmilla disse, pegando a bandeja com os pedidos que acabavam de ficar prontos. — Eu vou lá buscar com ele, então.
Philia piscou, confusa por um segundo, até entender a deixa. — Ah! Entendi. Você quer conversar com ele sozinha.
— Exato.
— Tudo bem! — Philia pegou sua própria bandeja. — Vão tranquilos. Eu fico aqui esperando com a Silence. Vou colocar em prática o que você me disse.
Ludmilla sorriu em agradecimento e as duas caminharam de volta para a mesa, onde o silêncio pesado ainda reinava, prontas para quebrar a inércia.
Parte 9
O trajeto de volta para a casa de Philia foi marcado por um silêncio que pesava toneladas, apenas arranhado pelo som mecânico e surreal da reconstrução da cidade. Dante e Ludmilla caminhavam lado a lado, mas suas mentes orbitavam galáxias distantes.
Dante observava a eficiência bizarra de Wonder com um misto de fascínio técnico e repulsa visceral. Onde minutos antes havia destroços fumegantes e crateras de gelo, agora exércitos de manequins e bonecos de pelúcia gigantes trabalhavam incansavelmente. Eles recolocavam tijolos, poliam o mármore rachado e varriam a neve suja de fuligem, tudo isso mantendo sorrisos costurados e imutáveis em seus rostos inanimados. Cidadãos que há pouco corriam por suas vidas, agora passeavam entre as obras. Conversavam sobre banalidades e riam, desviando dos buracos no chão como se fossem meros inconvenientes de uma reforma planejada, e não cicatrizes de uma guerra. Não havia luto. Não havia trauma visível.
Ao entrarem na casa de Philia, o cheiro químico e reconfortante de sabão limpo e o calor úmido emanando das máquinas de secar colidiam com o frio que parecia ter se instalado nos ossos de Dante. O zumbido rítmico das máquinas preenchia o espaço, funcionando como um metrônomo para a tensão entre os dois.
Ludmilla moveu-se com eficiência militar. Pegou suas roupas secas e desapareceu atrás de um biombo modesto. Minutos depois, saiu já vestida com seu habitual traje de combate, a postura rígida retornando junto com o uniforme. Sem olhar diretamente, jogou o maço de roupas de Dante na direção dele. Ele as pegou no ar, por reflexo. — Sua vez — disse ela, virando as costas e encostando-se na máquina de lavar em funcionamento, sentindo a vibração do metal contra o quadril.
Dante foi para trás do biombo. O som do tecido roçando na pele e o farfalhar do vestuário eram os únicos ruídos no recinto pequeno. Ao pegar a jaqueta, notou que, embora limpa, ela ainda guardava um pouco de umidade, e por isso escolheu não vesti-la. — Então... — A voz de Ludmilla cortou o ar. — O seu plano é realmente fingir que nada aconteceu?
Dante congelou por um instante. — Do que você está falando?
— Não se faça de idiota, Dante. Não comigo. — Ela fez uma pausa, o som da máquina parecendo aumentar no silêncio. — Você... é realmente o Dante?
Dante terminou de colocar a camisa, seus dedos apertando o tecido com força desnecessária, os nós dos dedos embranquecendo. Ele olhou para as próprias mãos, virando-as. A pele parecia a mesma, as linhas da palma eram idênticas, mas a sensação de pertencimento àquele corpo era nula. — Biologicamente? Sem dúvida nenhuma, eu sou o Dante — respondeu, a voz abafada pela estrutura do biombo. — Mas... agora eu também estou me perguntando... se sou o mesmo Dante que você conhecia.
Ludmilla franziu a testa, virando o pescoço ligeiramente na direção da voz, os olhos estreitos de suspeita. — O que você quer dizer com isso?
Dante saiu de trás do biombo. Parecia exausto, não fisicamente, mas espiritualmente. Seus olhos vermelhos não tinham o brilho de fúria maníaca de antes; estavam foscos, carregados de dúvida. — Eu também não tenho certeza. — Ele se encostou na pia de cerâmica fria, cruzando os tornozelos. — Você lembra do que eu te falei sobre ser um Avatar, um Astreus?
— É óbvio que sim. — Ludmilla cruzou os braços, defensiva. — Todos nós dos Corvos gravamos essa informação. Afinal, monitorar suas fraquezas é a melhor dica de como matar um Astreus.
Dante soltou um riso fraco, sem humor. — Justo… Bom, quando eu passei pela fusão com a Anna... é complicado explicar, mas foi como se eu tivesse passado pela experiência do Barco de Teseu.
Ludmilla piscou, a referência passando longe. — O quê? Você acha que virou um barco agora?
Dante a olhou, uma sobrancelha erguida em incredulidade genuína. — Você nunca estudou sobre isso? Era uma das matérias básicas nas aulas sobre Teoria da Alma e Modificação Corporal no colégio.
— Eu nunca planejei usar habilidades que mexessem com a essência do meu ser — ela deu de ombros, desdenhosa. — Então nunca prestei muita atenção nessas aulas teóricas.
— Mas já houve vários jogos e séries que exploraram esse tema em alguns episódios.
— Não tenho tempo para acompanhar muitas séries, e o meu primeiro jogo foi aquele que joguei com vocês na sala do dormitório.
Dante suspirou. — 'Tá, a versão resumida: O Barco de Teseu é um paradoxo filosófico antigo. A pergunta é: se um navio tem todas as suas peças gradualmente substituídas ao longo do tempo, madeira por madeira, prego por prego, ele continua sendo o mesmo barco?
Ele desencostou da pia, gesticulando. — E o dilema piora: se as peças originais velhas forem guardadas e usadas para construir um segundo barco... qual dos dois é o verdadeiro Barco de Teseu?
Ludmilla processou a informação, olhando para o nada por um segundo. — E o que carpintaria tem a ver com você?
— Na minha fusão... o corpo e a alma da Anna se misturaram aos meus. — Dante olhou para o teto, buscando palavras que não soassem como loucura. — O resultado não foi uma soma simples. Foi uma reconstrução total. Dois novos corpos foram feitos seguindo as mesmas proporções, mas partes dos dois — memórias, fragmentos de alma, temperamento — foram usadas para criar o "novo".
— Mas se as memórias e a alma são basicamente as mesmas... — Ludmilla tentou argumentar.
— Esse é o problema — Dante a interrompeu, a voz ganhando urgência. — Nem tudo foi resetado ou copiado perfeitamente. Acabamos ficando diferentes. Parecidos, mas... alterados. Até que, um dia... eu descobri que minha antiga personalidade, o "barco original", ainda existia em algum lugar no fundo da minha cabeça. Como se ela tivesse se escondido no porão durante a reforma.
— E o que aconteceu com essa personalidade? — Ludmilla perguntou, descruzando os braços, a curiosidade finalmente vencendo a cautela tática.
— É estranho. Eu também não sei. — Dante baixou o olhar para o chão ladrilhado. — Ela conversava comigo. Mas, após a batalha contra a Verbrechen, eu senti que ela estava desaparecendo. Ficando rouca, fraca. Talvez... não mais sintonizada comigo. Foi por isso que um dos meus olhos tinha perdido a cor antes.
— E agora? — Ludmilla notou os olhos dele, ambos brilhando em um carmesim vibrante e inquietante. — Você sente falta dela?
— Esse é o ponto. No começo, achei que estava apenas sem senti-la, como um membro dormente. Mas agora... eu não tenho mais certeza se ela sumiu, ou se eu sou ela.
Ludmilla franziu o cenho, juntando as peças. — Você acha que ela está te controlando? Te fazendo agir daquela forma agressiva?
— Não é sobre controle. — Dante apertou a borda da pia novamente. — Quando eu estava lutando contra o Snow... eu senti uma raiva absurda. Mas não foi só raiva. Era familiar. Era o mesmo ódio antigo, a mesma fúria cega e tóxica de quando eu lutei contra o Niklaus. De quando perdi a Nero.
Ele olhou nos olhos de Ludmilla, e pela primeira vez, ela viu medo ali. — Aquele sentimento agoniante... o "novo eu" pós-fusão, que era mais equilibrado, não deveria sentir aquilo com tanta intensidade. Então, quem está no comando agora?
Ludmilla finalmente entendeu a gravidade. O comportamento errático, a mudança súbita de personalidade, a violência excessiva. — Então... já faz um tempo que você não é o Dante que eu conheci depois da fusão.
— Se isso for verdade... — A voz de Dante tremeu. — O que aconteceu? Por que eu estou no controle? O que aconteceu com o meu "outro eu"? E com a Anna?
Ludmilla suspirou longamente, apoiando o quadril na máquina de lavar novamente, observando-o com frieza. — Mas por que você está tão preocupado? Se essa história for verdade, na realidade é o cenário perfeito para você. Pense bem: você teve seu corpo tomado, teve que ficar no banco de passageiro assistindo outro agir, falar e viver sua vida. Se você voltou... isso não significa que agora você está livre? Que recuperou o que era seu?
Dante balançou a cabeça devagar. — Eu podia ver assim. Seria fácil, conveniente ver assim. Mas eu sei que é mentira.
Ele olhou para o reflexo distorcido na porta cromada da secadora, encarando o estranho que o olhava de volta. — Na realidade... eu empurrei meu peso, meu trabalho e minha missão para outra pessoa. E essa pessoa, essa versão de mim, agarrou esse peso sem reclamar e caminhou carregando-o por mim. Além do mais... — a voz dele suavizou, quase inaudível — ... após viver tanto tempo junto, dividindo a mesma mente, não tem como não se apegar. Seja ao meu outro eu, ou à Anna.
Ludmilla o observou em silêncio por um longo momento, pesando o caráter dele contra a instabilidade. Então, ela descruzou os braços e caminhou até a porta da lavanderia. — Já vi o suficiente.
Dante levantou a cabeça, confuso. — Hã?
— Você pode não ser o Dante que eu conheço — disse ela, parando no batente da porta e olhando para trás por cima do ombro, um meio sorriso enigmático no rosto. — Mas, pelo visto, também é um cara legal.
Dante piscou, pego de surpresa pela validação repentina. — Isso era um teste?
Ludmilla deu de ombros. — Quem sabe? — Ela se virou para o corredor escuro. — Então, qual o plano?
Dante desencostou da pia, a postura subitamente mais ereta, como se tivesse decidido parar de lutar contra a correnteza. — Nós realmente precisamos nos encontrar com a Oráculo. Agora não é só para achar a Yuki e a Anna. Eu preciso achar meu outro eu. E descobrir como trazê-lo de volta ou ajudá-lo.
— Certo. Concordo. — Ludmilla assentiu, pronta para marchar. Ela deu o primeiro passo, mas a voz de Dante a parou como uma mão no ombro. — Espera. Antes de sairmos...
Ludmilla parou. Seus músculos tencionaram imperceptivelmente. Ela não se virou. — O que foi?
— O que você viu?
A pergunta pairou no ar, densa e perigosa. — Como assim? — ela perguntou, a voz neutra demais, controlada demais.
— Depois que nos separamos, quando eu fui lutar com o Snow... você foi até aquele lugar escuro de Wonder. Aquele setor apagado que chamou a atenção de nós dois quando estávamos na roda-gigante. — Dante deu um passo à frente, sua sombra projetando-se sobre ela. — Você ia me falar sobre isso antes de me impedir de matar o Snow. O que tinha lá?
Ludmilla permaneceu de costas. Seus olhos, antes focados e pragmáticos, perderam o foco por um segundo aterrorizante. Flashs violentos invadiram sua mente sem permissão. O cheiro de ferro velho e sangue seco. O som agudo de correntes enferrujadas sendo arrastadas no concreto.
Ela piscou com força, empurrando as imagens de volta para a caixa preta de sua mente, trancando-a a sete chaves. — Não era nada para se preocupar agora — disse ela, a voz firme, mas desprovida de qualquer emoção humana. — Podemos pensar nisso depois. Temos prioridades maiores.
Ela voltou a andar. — Você está falando a verdade? — Dante insistiu. Ele não se moveu, mas sua presença preenchia a sala. — Ou está escondendo isso porque está preocupada com a fúria que eu sinto dentro de mim?
Ludmilla parou novamente. Desta vez, ela virou apenas o rosto, olhando-o de soslaio, o perfil iluminado pela luz fria da lavanderia. — Percebi que o "antigo Dante" é bem afiado nas deduções...
— Então é verdade?
— Pode ser — respondeu ela, inescrutável. — Ou pode não ser. Mas, seja verdade ou não... agora você vai ter que acreditar e confiar na minha palavra. Se não, essa parceria não vai funcionar.
Ela se virou completamente para encará-lo. O olhar dela era sério, penetrante, desafiando-o a ler sua alma. — Então, qual vai ser a decisão? É melhor deixar claro logo aqui, entre as roupas sujas e as limpas. Você confia em mim ou não?
O som de uma gota d'água caindo da torneira da pia ecoou alto no silêncio da lavanderia. Plim.
Dante a observou com atenção cirúrgica. Seus olhos vermelhos varreram o rosto dela, procurando qualquer microexpressão. A tensão em seus ombros se dissipou. Seus olhos afiados suavizaram minimamente. Ele começou a caminhar em direção à porta. Passou por ela, ombro a ombro, sem parar, mas sua voz soou clara e decidida ao cruzar o batente: — Eu vou confiar.
Parte 10
O caminho de volta para o restaurante foi envolto em uma calmaria artificial, quase ofensiva. Dante observava a reconstrução de Wonder e sentia um gosto amargo na boca.
Ao se aproximarem do ponto de encontro, o passo de Dante travou. Ludmilla parou ao lado dele, o corpo tencionando instintivamente. Eles não estavam no restaurante. Teth, Philia e Silence aguardavam perto de uma das estruturas recém-erguidas, formando um semicírculo ao redor de uma quarta figura. Ou melhor, de algo.
Era um manequim. Aquela "coisa" era uma obra-prima de inquietude. Tinha as proporções de uma modelo idealizada. Suas vestes eram de alta-costura. À primeira vista, apenas pelos olhos, seria impossível distingui-la de qualquer outro ser humano. Contudo, eram pequenas inconsistências e detalhes sutis, percebidos com mais alguns olhares, que provocavam a sensação do vale da estranheza.
Dante e Ludmilla trocaram um olhar rápido e se aproximaram. — O que aconteceu? — Ludmilla perguntou, a voz cortante, denunciando sua desconfiança. — O plano não era esperar no restaurante?
— Ah, surgiram imprevistos — Teth respondeu. Sua postura era relaxada, o mesmo ar de superioridade casual de sempre, mas os olhos azuis do "anjo" não vagavam mais distraídos nem buscavam Ludmilla. Eles estavam cravados em Dante.
Dante sustentou o olhar por um segundo, decidindo ignorar a provocação silenciosa. Ele deu um passo à frente, pronto para executar a retirada estratégica que haviam combinado na lavanderia. — Na verdade... — Dante começou, a voz firme, projetando autoridade. — Eu e a Ludmilla conversamos e decidimos que...
— Vamos fazer uma viagem! — A voz de Silence cortou o ar, estridente e alegre.
A pequena sacerdotisa saltitou para a frente deles, os olhos brilhando com uma certeza assustadora. — Não precisam ficar com essa cara de enterro! Vai ser muito divertido!
Dante e Ludmilla congelaram. Um choque elétrico subiu por suas espinhas. As palavras de desculpa nem haviam deixado a garganta de Dante, e o grupo já sabia. Eles sabiam da partida. Eles sabiam do destino.
Dante desviou os olhos minimamente para Ludmilla. — Oh? — Dante forçou uma sobrancelha a se erguer, simulando ceticismo. — Então vocês também pretendem sair da cidade? Que coincidência.
— Bom, deixa eu explicar... — Teth começou, dando um passo à frente.
Mas ele foi interrompido. Não por uma voz, mas por uma presença. A manequim se moveu.
Não foi o movimento mecânico e travado de um autômato. Foi fluido, oleoso, humano demais. Ela deslizou um passo à frente, o silêncio de suas juntas sendo mais perturbador do que qualquer rangido. — Sinto muito por não me apresentar adequadamente antes. — A voz era sedutora, delicada e combinava perfeitamente com a boneca, até demais. — Meu nome é Saga. Bom, para sermos tecnicamente corretos, o nome desta carcaça encantadora é Sara. Mas não se preocupem com meus hobbies; eu nomeio cada um dos meus brinquedos, mas às vezes gosto de usá-los como telefone.
Philia, visivelmente nervosa com a situação, tentou intervir, gesticulando para os amigos: — Então... ela consegue fazer isso pois a habilidade da Senhorita Saga é...
— Não precisa se preocupar com as explicações, Philia. — A manequim, Saga, levantou uma mão de plástico com a elegância de uma rainha para silenciá-la. — Sei que eles são crianças inteligentes, totalmente capazes de deduzir a natureza da minha arte sozinhos. Não é mesmo?
Naquele instante, a atmosfera despencou. Se a pressão de Teth era como a gravidade de um planeta, esmagadora e direta, a de Saga era diferente. Era insidiosa. Era como estar preso em uma teia de aranha invisível feita de fios de aço, ou sentir uma lâmina de gelo encostada na carótida. Seus instintos de caçadores gritavam uma única palavra em seus ouvidos: PERIGO.
Mas eles sabiam a matemática daquela situação. Virar as costas e correr agora não era uma opção; era suicídio. A manequim inclinou a cabeça para o lado, o sorriso plástico parecendo zombar da mortalidade deles. — Meus amigos não contaram, mas digamos que eu tenho uma técnica de manipulação de Éter bem particular... assim como o Strain de vocês. Eu a chamo de Oblast.
Dante franziu o cenho, a palavra soando estranha. "Oblast"? Ele nunca tinha ouvido falar, mas o fato de ela saber o nome da técnica Strain já era um sinal de alerta vermelho piscando. No entanto, ao seu lado, a reação foi visceral.
O rosto de Ludmilla perdeu toda a cor. Seus olhos, sempre calculistas e frios, arregalaram-se em uma fração de segundo de puro terror e reconhecimento. Uma gota de suor frio escorreu pela têmpora dela, e sua respiração falhou, travando no peito. Dante percebeu o erro tático imediatamente. Saga não estava apenas se gabando. Ela havia jogado uma isca envenenada.
A manequim girou o torso com suavidade mecânica, focando seus olhos diretamente na reação de Ludmilla. — Ah... vejo que você sabe exatamente o que é isso, não sabe, querida?
Dante cerrou os dentes, os músculos da mandíbula saltando. Ela estava testando o nível de conhecimento deles através de microexpressões. Eles tinham acabado de ser lidos como livros abertos. — Senhorita Saga! — Philia colocou-se na frente da boneca, braços abertos, claramente desconfortável com aquele jogo sádico. — Pode, por favor, parar de brincar e falar logo o que viemos fazer? Eles são nossos convidados!
A risada de Saga ecoou no ar, um som cristalino e artificial, como sinos de vidro quebrando. Ela recuou o manequim um passo. — Mas é claro que posso, minha flor. Você sabe como é... as mulheres mais velhas amam brincar um pouco com as crianças antes de falar de negócios.
— Eu vou fazer questão de lembrar para a Saga original que a senhorita se autodenominou "velha" quando a vir pessoalmente — Teth comentou, encostado em uma parede próxima, um sorriso de canto nos lábios e os braços cruzados.
A manequim girou a cabeça 180 graus para encarar Teth, num movimento de exorcismo, humanamente impossível. — Que homem mau, Teth. Eu não lembro de ter te criado para ser um dedo-duro.
— E eu não lembro de ter dado permissão para você ficar aterrorizando meus novos companheiros de viagem — Teth retrucou. O tom era leve, brincalhão, mas havia uma advertência afiada subjacente.
Saga suspirou teatralmente, o som de ar saindo de pulmões que não existiam. — Tudo bem, tudo bem. Vocês são tão sem graça. — A cabeça da boneca girou de volta, os olhos fixos em Dante e Ludmilla. — Eu soube sobre os desejos ardentes de vocês de irem até a Oráculo para encontrar a amiga perdida. Que coincidência adorável, não? Acontece que o grupo de Teth também está de partida.
Ela gesticulou graciosamente para o horizonte, onde a floresta densa começava. — Eles estão iniciando uma expedição através da Floresta do Delírio até a Cidade de Diamante. E, como a rota obrigatoriamente passa pela Oráculo... pensei que seria encantador, e mutuamente benéfico, se vocês nos fizessem companhia.
A frase foi construída como um convite, doce e polido, mas Dante e Ludmilla ouviram o som das grades se fechando. Era uma ordem. Uma intimação. Eles estavam encurralados: Teth bloqueando um flanco, a onipresença vigilante de Saga no outro, e a imprevisibilidade de Silence, uma “Cria de Astreus”, no centro.
Pior ainda: eles não sabiam o quanto Saga sabia. Ela sabia sobre a "Anna" possuída? Sobre a dupla personalidade dele? Sobre eles não serem Prims? Eles estavam navegando no escuro, em total desvantagem de informação e poder bélico. Dante respirou fundo, forçando seus músculos a relaxarem, assumindo o papel que esperavam dele. A única saída do labirinto era continuar andando para a frente.
— Bom... — Dante forçou um sorriso que repuxou os cantos da boca, mas não chegou aos olhos. — ... vai ser um prazer.
— Esplêndido! — Saga bateu palmas, o som seco ecoando como um tiro.
Eles não tiveram tempo para pensar, planejar ou respirar. Foram guiados com uma eficiência militar disfarçada de cortesia para fazer as malas e levados imediatamente para a estação central de Wonder, agora reconstruída e pulsante. Lá, aguardava o transporte deles.
Não era um trem comum. Era uma besta de engenharia fantástica, uma locomotiva feita de vidro temperado e metal dourado, flutuando a alguns centímetros de trilhos feitos de luz sólida que se estendiam para dentro da escuridão engolidora da floresta. O vapor que saía da chaminé não era cinza, mas iridescente, mudando de cor conforme o humor da máquina. — Todos a bordo! — Teth anunciou, saltando para o estribo do vagão com agilidade.
Dante e Ludmilla pararam diante da porta aberta. Trocaram um último olhar pesado, comunicando sem palavras o perigo em que estavam se metendo. Eles estavam entrando voluntariamente na boca do leão, a bordo do "Trem dos Sonhos", com passagem só de ida para o desconhecido da Floresta do Delírio. Dante segurou a alça e subiu.
Parte 11
A Cidade de Diamante não apenas existia; ela resplandecia. Pelos becos formados por geodos brutos e nas avenidas pavimentadas com quartzo polido, as pessoas se aglomeravam e cochichavam. Não havia dúvida: a Reunião dos Cavaleiros Reais estava prestes a começar. Era um marco histórico, a primeira convergência de poderes desde a fundação da cidade, sinalizando o alvorecer de uma nova era.
De repente, o som pesado dos portões principais se abrindo reverberou como um trovão, silenciando a multidão. Mas não houve trombetas, nem uma marcha solene. Algo rolou pela estrada principal, desafiando a gravidade e o decoro.
Era um borrão verde e preto, um projétil girando em velocidade terminal, quicando violentamente no calçamento de cristal e arrancando faíscas a cada impacto. A multidão gritou e se afastou em uma onda de pânico e euforia. O "pneu" humano colidiu com a base de uma estátua de diamante maciço, usou o impacto para se arremessar verticalmente no ar, girou três vezes em um eixo impossível e aterrissou com a precisão de um ginasta olímpico, congelando em uma pose de breakdance.
A figura se endireitou com um salto, puxou um pirulito da boca com um estalo sonoro e gritou, fazendo um sinal de "paz e amor" com os dedos enluvados: — Dorothea chegou na área, mané!
A multidão foi à loucura, num misto de alívio e adoração. Dorothea era uma granada de tinta neon no mundo monocromático e elegante de Diamante. Baixinha, ela vestia um pijama de corpo inteiro de dinossauro preto e verde, com escamas de feltro descendo pelas costas e uma cauda grossa que balançava com vontade própria. Seu rosto, emoldurado pelo capuz da fantasia adornado com chifres macios e olhos de botão, exibia um sorriso largo e travesso, acentuado por dois band-aids cor-de-rosa colados em forma de "X" na bochecha direita. Mas o verdadeiro caos residia em seus olhos: uma heterocromia vibrante, um olho roxo e o outro de um amarelo elétrico, varrendo a multidão com hiperatividade.
— Ah, qual é! — ela riu, a voz aguda perfurando o ar. — Vocês estavam roendo as unhas de ansiedade pela chegada da rainha do mundo, né? Eu sei, eu sei! A Dorothea é fofa demais pra ser ignorada! Então simbora! Ela desceu o zíper do pijama até a metade com um som de zzzip, enfiou a mão no peito e retirou punhados generosos de doces cintilantes. — Aproveitem, vacilões! Diabetes para todos os meus súditos!
Ela lançou os doces para o alto, criando uma chuva colorida. A multidão se atropelava para pegar as guloseimas como se fossem pepitas de ouro sagrado. Dorothea gargalhou, deu um mortal para trás sem impulso, voltou a se enrolar na forma esférica e quicou para o topo da estátua de diamante, equilibrando-se na ponta com um pé só.
— Ara, ara... — uma voz cortou a algazarra. Era suave, baixa, mas carregada de uma malícia aveludada que fez a temperatura da rua cair alguns graus. — Sério, não pode se acalmar um pouco? Se fizer muita bagunça e quebrar algo, a Saga vai te colocar no cantinho do pensamento, Senhorita Dorothea.
Dorothea parou, o pirulito quase escorregando dos lábios. — Ah, droga... chegou a chata.
Caminhando pela avenida principal, partindo a multidão como o mar vermelho sem nem mesmo tocá-la, estava Irene. Suas vestes evocavam o hábito de uma freira, mas pervertiam o conceito de santidade em cada costura. O tecido preto e branco era justo como uma segunda pele, com fendas laterais que revelavam pernas a cada passo e um decote que desafiava tanto a gravidade quanto a moralidade religiosa.
Seu rosto era uma máscara de benevolência pecaminosa. Seus olhos, no entanto, eram o que prendiam a atenção: as pupilas tinham o formato inconfundível de fechaduras, como se guardassem segredos que custariam a alma de quem tentasse espiar. Seu sorriso era uma armadilha perfeita, provocando desejo e medo em doses letais, hipnotizando homens e mulheres indiscriminadamente.
— Dito isso... — Dorothea retrucou do alto da estátua, balançando a cauda de dinossauro. — Você também está fazendo bastante confusão à sua maneira, sua pervertida. Olha como eles olham pra você!
— Eu me pergunto o que quer dizer com isso — Irene respondeu, continuando sua procissão lenta em direção à catedral.
Enquanto as duas entravam no templo de cristal, um sussurro coletivo varreu a cidade. "Se elas chegaram, e o Senhor Alone e a Senhorita Saga já estão lá... só falta ele. Só falta o Senhor Teth!" Como se invocado pelo pensamento coletivo, um mensageiro irrompeu pela praça, os pulmões ardendo. — Notícias! O Trem dos Sonhos partiu de Wonder! Está cruzando a Floresta do Delírio com destino à Cidade de Diamante! O Senhor Teth está a caminho!
A informação correu como fogo em palha seca, transformando a ansiedade em euforia. O tabuleiro estava quase completo.
Dentro da Catedral do Prisma, o mundo exterior parecia distante. O silêncio era denso, sacral, quebrado apenas pelo eco rítmico dos saltos de Irene e o som abafado dos pés descalços do pijama de Dorothea.
Saga permanecia imóvel como uma estátua de cera, de joelhos e olhos fechados, orando diante do Grande Cristal que pulsava no altar. Alone, por outro lado, estava empoleirado no parapeito de uma janela gótica alta, observando a cidade abaixo com o desdém de um falcão observando ratos.
— Vejo que finalmente decidiram honrar este lugar com suas presenças — Alone riu, descendo da janela com um salto que desafiava a física, aterrissando sem fazer som. — Bom, agora vejamos. Pergunto-me se devo realmente esperar pelo homem que falhou em proteger a sua própria cidade, ou devo começar meu discurso me autoindicando como o único capaz de ocupar o trono do Rei.
Irene riu baixinho, um som musical, cobrindo a boca com a mão de forma elegante. Dorothea, no entanto, eriçou-se. Em um movimento rápido, ela puxou de dentro do pijama um martelo gigantesco, colorido, mas que, a julgar pela forma como o chão trincou quando ela o apoiou, pesava toneladas. — Como assim "o único digno"? Que papo torto é esse, Alone? Por acaso o oxigênio tá rarefeito aí em cima desse pedestal? 'Tá querendo comprar briga ou 'tá otário?
— Não é óbvio? — Alone abriu os braços, sua aura dourada expandindo-se e fazendo o ar vibrar. — Como um deus, somente eu possuo a majestade necessária para ocupar o trono acima de todos os Sonhos.
— Senhores, por favor. — A voz de Saga cortou a tensão. Ela finalmente se levantou, seus movimentos fluidos, sem abrir os olhos. A autoridade em seu tom era gélida. — Vamos evitar perder a compostura em um lugar sagrado. E eu já disse que é falta de modos uma dama falar com tal vulgaridade, Senhorita Dorothea.
— E eu já disse que não ligo pra sua etiqueta! — Dorothea girou o martelo sobre a cabeça, o vento do movimento assobiando. — Na real, acho que eu deveria virar Rei e acabar com essas merdas de regras!
Saga suspirou, massageando as têmporas como se sentisse uma enxaqueca. Alone e Dorothea se encararam. O ar entre eles distorceu, faíscas invisíveis de mana colidindo. O teto de cristal ameaçou vibrar com a pressão.
— Senhorita Irene — Saga pediu, a voz cansada. — Poderia intervir antes que eles destruam a arquitetura?
Irene sorriu. Ela deslizou pelo chão até ficar entre os dois titãs, virando-se para a pequena garota dinossauro. — Pessoalmente, não ligaria nem um pouco se o Senhor Alone quisesse assumir o trono.
— SÉRIO?! — Dorothea gritou, ultrajada, o martelo vacilando. — A Irene-chan vai ficar do lado desse narcisista?! Traição!
Irene colocou a mão delicada sobre o capuz de Dorothea. Começou um cafuné lento, rítmico, e então coçou o queixo dela como se amansasse um gato arisco. — Pense um pouco, Senhorita Dorothea. Eu não combino com posições de tanto destaque. Seriamente, acho que Morpheus ficaria melhor sem uma pecadora como eu no comando, não acha?
Dorothea amoleceu instantaneamente. Seus joelhos cederam, os olhos fechando com o prazer tátil do carinho. O martelo gigante escorregou de suas mãos e caiu no chão com um baque surdo que estremeceu o altar. — Mmm... isso é bom... continua...
— E quanto à Senhorita Saga — Irene continuou, a voz assumindo um tom hipnótico —, ela já é tão ocupada vigiando e cuidando do destino de Morpheus com tanto afinco. Seria rude, quase cruel, encarregá-la de mais um fardo como a Coroa.
— E eu? — Dorothea murmurou, quase ronronando, em um estado de transe induzido.
— Ah, eu até entendo e acho que a senhorita faria mudanças... criativas... caso assumisse o trono — Irene sussurrou no ouvido dela. — Mas uma alma livre e selvagem como a sua não merece um tormento como ficar soterrada em pilhas de papelada, reuniões chatas e responsabilidades burocráticas que acompanham a coroa.
Dorothea se liquefez completamente nos braços da "freira". — É verdade... que saco... ser Rei é um saco... burocracia é o mal... Ela se jogou contra o corpo de Irene, que a segurou como se fosse um bicho de pelúcia dócil, continuando o carinho metódico.
Saga "observava" a cena, impressionada, mas manteve o foco na estratégia. — Mas e Teth? — Saga questionou, a voz neutra. — Ele não seria a recomendação mais lógica e popular, tendo em vista a personalidade abrasiva de Alone e sua notória incapacidade de trabalhar em equipe?
Alone estalou a língua, irritado por ter perdido o foco dos elogios indiretos de Irene. O ego dele exigia atenção constante. — Bom, isso é um fato inegável — Irene concordou, olhando para Alone por cima da cabeça de Dorothea. — No entanto, como o Senhor Alone astutamente mencionou, é um fato que Teth falhou na proteção de uma cidade inteira. Me preocupa, genuinamente, o que poderia acontecer com um mundo inteiro sob a guarda dele se ele vacilou com apenas uma cidade.
Alone sorriu, o peito estufando, triunfante. — Mas, claro — Irene continuou, e o sorriso de Alone congelou —, o Senhor Alone ainda estaria em desvantagem pública severa. O povo ama Teth. O Senhor Alone precisaria... equilibrar a balança. Talvez um feito público grandioso que tranquilizasse a população sobre sua capacidade de proteger, e não apenas de destruir.
Alone franziu a testa. — E o que eu posso fazer?
— Oh, longe de mim, uma serva humilde, ousar dizer o que um Deus como o Senhor deveria fazer — Irene disse, abaixando o rosto em submissão.
— Não se detenha por etiquetas idiotas — Alone a interrompeu, impaciente, dando um passo à frente. — Você tem a minha autorização. Eu reconheço o potencial quando o vejo. Assim como elogio a habilidade de Saga que permite ela vigiar todo o reino dos sonhos, reconheço seu intelecto que a tornou confidente do Antigo Rei, sei que seus olhos veem caminhos que nós ignoramos. Fale. Mesmo que seja só uma ideia rascunhada. O que eu preciso fazer para ter o povo na minha mão?
Irene levou o dedo indicador ao queixo, numa pose de dúvida propositalmente exagerada e encantadora. — Bom... você poderia buscar de uma vez a Relíquia na Cidade de Cristal. Acredito que esse ainda é um tópico que gera preocupação na população. Eles sabem que aquela região, assim como a Floresta do Delírio, está fora do alcance da onisciência da Senhorita Saga. Uma arma do apocalipse deixada pelo Senhor Guerra cria um frio no coração de todos. Se você a trouxesse para a luz, sob seu controle absoluto... isso mostraria força, responsabilidade e poder inigualável.
Um arrepio gelado percorreu a espinha de Saga. Ela virou o rosto na direção de Irene. "Ela continua ardilosa como uma serpente," Saga pensou, sua mente trabalhando a mil. "Criei marionetes com personalidades próximas à dela para tentar simulá-la, entendê-la, mas falhei. Por que ela está pavimentando o caminho de Alone? Ela não ganha nada com isso. Ela é infinitamente mais próxima de Teth. E como a mais velha e braço direito do antigo Rei, ela seria a candidata óbvia. Ninguém se oporia."
A dúvida corroía a onisciência de Saga. "E agora, essa ideia de mandar Alone para a Floresta do Delírio... ela quer que ele intercepte Teth? Ou é algo mais profundo? Sempre que estou perto de Irene, sinto que minha visão falha. É como tentar ler um livro no escuro. Lembro-me dolorosamente de que, de fato, sou cega."
Alone riu, o som reverberando nas paredes de cristal. Ele adorou a ideia. — Pois bem! É um plano digno! Como sei que Teth irá demorar com aquele trem lento e sentimental, usarei esse tempo. Aproveitarei para voltar junto a ele, mas carregando a Relíquia como um troféu!
— Calma, Senhor Alone — Saga alertou, a voz tensa. — Lembre-se do que acontecerá se tentar empunhar a arma e não for compatível.
— Eu não sou idiota, mulher! É claro que eu sei! — Alone retrucou, girando nos calcanhares. — Nunca disse que iria tentar usar agora. Ou você não escutou a sabedoria de Irene? Tudo que preciso fazer é trazê-la até onde sua visão alcance, para a "segurança" da cidade.
Ele caminhou até a janela, parou e se virou para Irene, os olhos dourados queimando com intensidade. — Mas devo dizer, Irene... caso este tenha sido um plano elaborado para me matar, me fazendo tentar usar a arma do apocalipse por orgulho... foi de fato bem ardiloso e audacioso. Eu respeitaria a tentativa.
Irene riu, um som suave, inocente. — Pelos Deuses, Arinzu. Obviamente, eu nunca faria algo assim contra o senhor. Minha lealdade é para com o futuro de Morpheus.
Alone analisou o sorriso dela por um segundo longo, incapaz de decifrar o enigma por trás das pupilas de fechadura. Ele deu de ombros, convencido de sua própria invencibilidade. — Que seja!
Com um impulso de energia, ele saltou pela janela, gritando para o vento que logo voltaria com a glória em mãos. Saga ficou em silêncio na catedral vazia, exceto pelas duas mulheres. Ela "olhava" fixamente para Irene, que agora cantarolava uma melodia antiga e suave enquanto fazia tranças complexas no cabelo de uma Dorothea sonolenta.
Saga vasculhou as linhas do destino, se perguntando se a intenção era matar Alone. Mas a lógica não batia; para derrotá-lo na eleição, Irene só precisava se candidatar. Teria sido para criar uma distração e ajudar Teth? Irene levantou o rosto subitamente e sorriu na direção exata de Saga. As bochechas levemente coradas, a expressão de uma santa que acabou de cometer um pecado delicioso. E Saga soube, com uma certeza absoluta e aterrorizante, que jamais descobriria a verdade daquela mulher até que fosse tarde demais.
Parte 12
Era como se o tempo tivesse morrido. Horas poderiam ter se passado, ou talvez dias inteiros tivessem escorrido pelo ralo da consciência, assim como também nem um único segundo. Naquele escuro opressivo, tentar medir o tempo era uma tortura.
Dante emergiu da inconsciência não com um despertar suave, mas com um solavanco de dor. O gosto de cobre velho inundava sua boca — sangue mordido da própria língua. Uma dor lancinante pulsava na base do crânio, irradiando para os olhos, que lutavam para focar em um mundo que girava num borrão de sombras e ferrugem. Ele tentou se mover, um reflexo instintivo de defesa, mas o som metálico e seco de correntes pesadas retesando-se puxou-o de volta para a realidade brutal.
Ele estava sentado no chão frio, úmido e imundo de uma jaula de transporte apertada. Ao fundo, amontoadas nas sombras como gado destinado ao abate, várias outras figuras tremiam — eram Prims de Wonder. Suas roupas brancas e imaculadas agora estavam encardidas de fuligem e lágrimas. O som do choro abafado, soluços contidos pelo terror, preenchia o ar viciado.
Dante tentou forçar sua mente através da névoa. O trem... a conversa com Saga... Ludmilla... e então, o apagão. A memória era um buraco negro. Mas o cheiro... o cheiro era o pior. Uma mistura densa e fétida de sangue seco, excrementos, mofo e o odor rançoso e inconfundível do medo humano. Ele sentia que algo havia acontecido durante o percurso do trem, mas não conseguia relembrar o quê.
Seus olhos finalmente se ajustaram à penumbra, focando nos homens parados do lado de fora das grades. Eram Pesadelos, mas não monstros informes; eram homens vestidos com roupas de couro remendadas, peças de metal roubadas e sorrisos cruéis que expunham dentes amarelos. Um deles, exalando a arrogância de um líder de matilha, caminhou em direção à jaula. O som de suas botas pesadas no metal ecoou como sentenças de morte.
— 'Tá vendo só? — Ele riu, um som gorgolejante e úmido. — O sonho de merda de vocês acabou, assim como a tranquila viagem de trem.
Ele chutou as grades com violência. BANG! O som fez os prisioneiros no fundo gritarem e se encolherem. — Acharam que ficariam aproveitando aquela mordomia de cristal para sempre, né? Olhando para nós de cima para baixo. Mas agora... a roda girou. Agora vão ser vocês os usados. Os abusados. Sem escolha, sem voz. Vamos ver se conseguem continuar rindo com aquela arrogância toda quando estiverem servindo de brinquedo.
O homem, a quem os outros chamavam de Claison, aproximou o rosto das grades, o hálito azedo atingindo Dante, que estava posicionado mais à frente, isolado dos outros. — Sabiam? Eu duvido muito que saibam, vivendo naquela bolha puritana... mas deixa eu contar uma novidade: lá no Reino dos Pesadelos, os Sonhos são tão odiados que valem uma fortuna. É estranho e contraditório, não é?
Ele riu novamente, destrancando a portinhola da jaula com um estalo metálico e entrando no espaço confinado. Antes que Dante pudesse coordenar seus músculos adormecidos, Claison desferiu um chute brutal em seu rosto. A cabeça de Dante estalou para trás, o impacto reverberando em seu pescoço. O gosto de sangue aumentou. Antes que pudesse cair, Claison pisou em sua cara, a sola suja da bota pressionando a bochecha de Dante contra o chão imundo, esmagando a pele contra o metal frio.
— Eles pagam muito para ter um Sonho... mas não porque gostam de vocês. É porque odeiam. — Claison torceu o pé, triturando o rosto de Dante no chão. — Eles querem suas roupas finas, seus órgãos limpos... e um "vivo"? Ah, um vivo é uma verdadeira mina de ouro. Tudo para eles usarem, abusarem, descontarem todo o ódio até não sobrar nada além de uma casca vazia. Para aliviar toda a merda que vocês nos fizeram engolir.
Claison se abaixou, cuspindo as palavras, a saliva voando: — Seus bastardos de merda. Se acham perfeitos, puros e bons. Mas só fizeram merda nos escravizando, nos usando como combustível. Nos fizeram conhecer o inferno em vida. Mas agora... nós viemos trazer um pouco de justiça divina. Porque, nesta história, nós somos os verdadeiros heróis.
Os companheiros de Claison riram em aprovação, batendo suas armas no chão e nas paredes, criando uma cacofonia tribal enquanto os Sonhos enjaulados soluçavam de pavor absoluto. Claison levantou o pé lentamente, saboreando o momento. Ele esperava ver o medo. Esperava ver as lágrimas, o tremor, a súplica que sempre via nos olhos dos capturados.
Mas o que ele viu fez seu sangue congelar nas veias. Dante estava levantando o rosto. O movimento era lento, mecânico, inevitável. Seus olhos não tinham medo. Não tinham pavor. Não havia humanidade ali. Havia apenas um abismo. Um vermelho rubi brilhava com tanta intensidade na penumbra que parecia emitir luz própria, cortando a escuridão. Era um olhar pesado, físico, que pressionava o ar ao redor. Fez o coração de Claison falhar uma batida e o ar travar em seus pulmões.
Instintivamente, contra sua vontade, Claison deu um passo para trás. Seu corpo reconheceu o predador antes de sua mente. Os amigos dele, percebendo o recuo, começaram a zombar, alheios ao perigo real. — O que foi, Claison? Não vai me dizer que ficou com medinho do playboy? — um deles gargalhou. — Olha só a cara dele, parece que viu um fantasma!
Claison sentiu o rosto queimar. A vergonha de parecer fraco na frente do bando sobrepujou seu instinto de sobrevivência. Ele forçou uma risada nervosa, que saiu aguda demais. — Eu? Medo? Ah, já entendi... você é um daqueles merdas com um poder fudido, né? Por isso toda essa coragem, esse olharzinho de mau.
Ele apontou para as algemas grossas e rúnicas nos pulsos de Dante. — Mas deixa eu te avisar, seu idiota: com essas correntes de supressão de Éter, você não vai conseguir usar Habilidade nenhuma. 'Tá me ouvindo? Você está castrado. Agora você é só nosso bichinho de estimação que vai ser levado para o matadouro. Então é melhor conhecer o seu lugar na cadeia alimentar.
Mas Dante continuava encarando-o. O silêncio dele era mais alto que os gritos, mais pesado que as correntes. A falta de submissão irritava Claison profundamente, fazendo suas pernas tremerem levemente, um tremor que os outros começaram a notar. — Maldito... — Claison rosnou, o ego ferido transformando-se em crueldade desesperada. — Vou dar a esse fudido uma lição de humildade que ele vai levar para a cova.
Ele se aproximou novamente, os dedos trêmulos desabotoando a calça. — Vamos ver se você continua me olhando assim quando eu te tratar como a latrina que você é.
Ele sacou o pênis e começou a urinar em cima de Dante. O jato quente e humilhante molhou as roupas, o rosto e o cabelo de Dante. O cheiro de amônia subiu ácido. Dante permaneceu imóvel, uma estátua de mármore sendo profanada, sem piscar, sem desviar o olhar nem por um milissegundo.
Os homens ao fundo explodiram em gargalhadas histéricas. — Caralho, Claison! Aí já é exagero! — um deles gritou, rindo até perder o fôlego, batendo na coxa. — Que merda! Como vamos vender ele agora com todo esse cheiro de mijo? Vai desvalorizar a mercadoria, seu animal!
Claison terminou, fechou a calça e cuspiu uma última vez, bem no centro da testa de Dante. Ele se agachou, ficando cara a cara com ele, confiante em sua superioridade e na segurança das correntes mágicas. — Agora entendeu seu lugar, seu merda?
Naquele instante, o tempo parou. Algo dentro de Dante se partiu. Ou talvez, algo que estava dormindo finalmente acordou com fome. Dante não usou as mãos. Ele não precisou. Ele projetou o corpo para a frente em um salto explosivo, desumano, como uma víbora atacando o calcanhar de um viajante. CRAACK!
O som foi nauseante. Seus dentes se fecharam na garganta de Claison com a força de uma prensa hidráulica. Não foi uma mordida defensiva; foi a mordida de uma besta devoradora. Dante travou a mandíbula e, com um puxão violento de cabeça para trás, rasgou carne, músculo e cartilagem. Ele arrancou a traqueia de Claison.
Sangue jorrou em um spray arterial furioso, pintando o rosto de Dante, o teto do vagão e as grades da jaula de vermelho vivo. Claison gorgolejou, um som horrível de ar tentando passar por onde não havia mais caminho. Ele levou as mãos ao pescoço destruído, os olhos arregalados de horror absoluto, tentando segurar a vida que escapava por entre seus dedos, antes de cair no chão, debatendo-se enquanto se afogava no próprio sangue.
— CLAISON! — os homens gritaram. As risadas morreram instantaneamente, substituídas pelo choque. Eles sacaram suas armas, o pânico tomando conta. — SEU MALDITO! MATE ELE! MATEM ESSE DEMÔNIO!
Mas antes que pudessem tocar nas grades, o ar dentro da jaula colapsou. BOOOOOOOM!
Não foi uma explosão de fogo químico, mas de pura pressão atmosférica e espiritual. Uma aura carmesim e negra irrompeu do corpo de Dante, preenchendo o vagão apertado com uma densidade sufocante. O ar ficou pesado, vibrando com estática, fazendo os cabelos dos braços de todos se arrepiarem. Raios de eletromagnetismo vermelho dançavam violentamente ao redor dele, chicoteando o metal.
As correntes "anti-habilidade", forjadas para conter magos, começaram a brilhar. Um laranja intenso, depois branco. — O que é isso?! — um dos homens gritou, recuando e cobrindo os olhos. — As correntes deveriam bloquear o Éter! Elas são infalíveis!
Dante se levantou lentamente. O sangue de Claison escorria pelo seu queixo, misturando-se à urina e à sujeira, criando uma pintura de guerra grotesca. A pele de sua testa se rasgou. Não foi mágico, foi visceral. Dois chifres vermelhos romperam a carne, crescendo e curvando-se para trás como uma coroa demoníaca, óssea e serrilhada.
— Vocês acham... — a voz de Dante soou. — Que realmente conhecem o inferno?
As correntes não se quebraram. Elas derreteram. O metal liquefeito pingou no chão, sibilando e queimando buracos no piso, incapaz de suportar a temperatura do Éter que Dante emanava. Elas bloqueavam Habilidades complexas, construções lógicas de magia. Mas Dante não estava usando uma "Habilidade". Ele estava transbordando Éter bruto. Plasma puro. Violência destilada em energia nuclear.
No meio daquele inferno de pressão e calor, uma borboleta de éter carmesim materializou-se no ar. Ela bateu as asas delicadamente, voando com calma ao redor da cabeça de Dante, um contraste bizarro e aterrorizante com o caos ao redor. — "Justiça"? — Dante riu. Foi um som baixo, rouco, que fez os ossos dos bandidos vibrarem.
Ele caminhou para fora da jaula. Ele não abriu a porta; ele simplesmente andou, e as grades de aço reforçado se entortaram e derreteram apenas com a proximidade de sua aura, abrindo passagem para o rei. Os homens tremiam, as armas vacilando em mãos suadas. Eles olharam nos olhos dele. As íris haviam mudado. Onde antes era apenas vermelho, agora havia anéis concêntricos negros, girando lentamente em padrões hipnóticos. Auréolas de um anjo caído, ou miras de um sistema de armas.
— Quanta merda vocês vão continuar falando? — Dante disse, o plasma estalando como chicotes elétricos ao seu redor, desintegrando detritos no ar. — Que bobagem sem igual. Estão reclamando de alguém, pedindo igualdade, chorando por justiça, enquanto escravizam e fazem exatamente a mesma coisa contra quem é mais fraco?
Ele deu um passo, e o chão de metal do vagão cedeu, afundando sob seu pé em uma poça de metal incandescente. — Sejam um pouco sensatos, bando de animais burros. Se não entendem algo tão simples, eu vou explicar com a única linguagem que vocês parecem compreender.
Raios negros começaram a se misturar ao vermelho, criando uma aura de terror absoluto que escureceu a visão periférica de todos. Os bandidos sentiram seus instintos primais gritarem para fugir, para correr até os pulmões estourarem, mas seus corpos não obedeciam. Era a paralisia da presa diante do ápice da cadeia alimentar. — Nós, monstros, que buscamos algo de merda como a vingança... — Dante saía do escuro atravessando as barras da jaula que derretiam. — ... não podíamos estar mais longe de algo idealista como a justiça.
Um dos bandidos, o mais velho e experiente, deixou a espada cair. O barulho do aço no chão foi o único som além do zumbido da aura de Dante. Seus olhos estavam fixos na borboleta, nos chifres, e por fim nos olhos de Dante. — Esse pavor na alma... — o homem sussurrou, a voz falhando, as lágrimas escorrendo sem permissão. — Esse sentimento de estar olhando para o fundo do próprio inferno... Não pode ser...
Ele recuou, tropeçando. — Ele não é um Sonho! Nem um Pesadelo comum!
Dante flexionou os joelhos levemente. O chão sob ele vaporizou. Com um estrondo sônico que estourou os tímpanos de todos no vagão e fez as janelas explodirem para fora, ele desapareceu de sua posição inicial. No milissegundo seguinte, reapareceu no centro do grupo, a mão fechada ao redor do rosto de um deles. O bandido mais velho gritou, a realização final chegando tarde demais para salvá-los: — ELE É UM GRIMM!



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