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The Fall of the Stars : Capítulo 5.5 - Floresta do Delírio

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 20 de dez. de 2025
  • 46 min de leitura

Volume 9: O Mais Fraco Parte 6

Do outro lado da Floresta do Delírio, onde o céu psicodélico pintava nuvens com cores impossíveis, a marcha do grupo continuava, cortando a vegetação bizarra.

Yukina caminhava um pouco à frente, parecendo flutuar. Seus olhos estavam fixos no movimento pendular e hipnótico de seu ioiô, que subia e descia em um ritmo perfeito. No entanto, sua atenção estava dividida. De tempos em tempos, ela lançava olhares furtivos e rápidos para a copa das árvores multicoloridas. Lá em cima, Dan a acompanhava como uma sombra protetora, saltando de galho em galho com uma agilidade silenciosa e felina. Sempre que os olhos pálidos dela o encontravam, ele se escondia rapidamente atrás da folhagem densa.

Ela sorria minimamente, afastava-se um pouco de Rum, correndo para olhar por outro ângulo, tentando achá-lo. Dan reaparecia em outro galho, dois passos à frente. Era um jogo silencioso de esconde-esconde, uma brincadeira não dita entre duas pessoas silenciosas.

Mais atrás, Dumpt observava a cena, o metal polido de metade do seu rosto refletindo o caleidoscópio da floresta. — Bom... pelo menos ela parece um pouco mais alegre — ele comentou, a voz rouca suavizada por um sorriso raro.

— Concordo — Mumei respondeu, a voz abafada pelas faixas que cobriam seu rosto, mas o tom era quente. — É infinitamente melhor do que vê-la chorando pelos cantos.

Uzumaki, no entanto, era a antítese daquele momento terno. Ele olhava ao redor com desconfiança. — Ainda acho o clima dessa floresta estranho. É muito esquisito. Aqui não tem o cheiro de enxofre das sombras habituais do Reino dos Pesadelos, mas...

Laeticia passou por ele, abraçando os próprios ombros como se sentisse um frio fantasma. — Ainda assim, é perturbador. Causa um desconforto natural na pele, como se a floresta estivesse nos observando.

— Hum... Pelo menos sabemos que não é só a nossa área que passa por problemas — Eliza adicionou, caminhando perto deles, os olhos varrendo os arredores, sempre alerta, mas relaxada.

O grupo continuou a caminhada por mais uma hora, até que Rum, notando o cansaço visível nas pernas curtas de Yukina, decidiu exercer sua autoridade. — Vamos montar acampamento aqui. Descansar um pouco antes de prosseguirmos e cometermos erros por exaustão.

Enquanto organizavam as coisas — montando fogueira, limpando o chão —, Eliza olhou para o horizonte distorcido pelas árvores que pareciam respirar. — Será que falta muito até a Cidade Diamante? — ela perguntou, batendo o pé impacientemente. — Essa floresta parece infinita.

Uzumaki, que estava sentado em um tronco, estalou a língua. — Pare de agir como criança, Eliza. Não tem como saber se está perto ou longe. Seu mapa roubado e mal desenhado apenas mostra a área interna da cidade, não a rota de acesso. Se sequer vamos chegar lá, ainda é uma questão de pura sorte, já que é essa floresta maldita quem decide o caminho, não seus pés.

Eliza se virou, uma veia saltando na testa. — Caramba, Uzumaki! Você normalmente já parece um mosquito zumbindo no meu ouvido. Então, por favor, evite falar rápido, senão parece ainda mais com um zumbido chato e insuportável.

Uzumaki parou, pegou seu cantil e fingiu beber água, olhando-a de cima a baixo com um desprezo calculado. — Shotacon.

Eliza, que estava bebendo água do próprio cantil, engasgou violentamente. A água voou pelo nariz e pela boca, e ela tossiu como se estivesse morrendo. — O QUÊ VOCÊ DISSE, SEU MALDITO?!

Uzumaki continuou, impassível, limpando a boca com as costas da mão. — Acho que finalmente entendi o padrão. Você gosta dos mais novos e pega "bichinhos de estimação" indefesos porque eles não têm mente suficiente para perceber o quão irritante e controladora você é. Ou talvez... seja porque seu próprio cérebro parou de se desenvolver aos doze anos e você só tem a mentalidade de uma criança agora?

Eliza largou os modos e o cantil. — Ah, agora você morre! Vou te ensinar respeito na base da porrada!

Ela saltou na direção dele com um chute voador. Uzumaki, prevendo o movimento, bloqueou com o antebraço e rebateu com um chute giratório baixo. Eliza usou o próprio bloqueio como apoio para saltar para trás com uma pirueta, a Lyra em sua mão começando a brilhar com energia mágica, pronta para explodir o acampamento.

— PAREM LOGO COM ISSO! — A voz de Rum trovejou, fazendo os pássaros voarem das árvores. — Os dois estão agindo como crianças!

Ambos pararam e apontaram o dedo um para o outro simultaneamente, como reflexos no espelho.

— Mas foi ele quem começou! — Eliza gritou.

— Ela que pediu com essa atitude infantil! — Uzumaki retrucou.

Dumpt começou a rir alto, uma risada metálica, rouca e estranhamente contagiante que ecoou na clareira. — Hahahaha! Vocês não têm jeito mesmo!

Rum se virou para ele, as mãos nos quadris, fumaça saindo pelas orelhas. — Maldito. Dá pra não ficar aí rindo como um idiota, Dumpt?

— Impossível! — Dumpt disse, limpando uma lágrima de óleo que escorria do olho mecânico. — Desculpa, Rum. Mas parece muito que você é a mãe estressada cuidando das suas duas crianças problemáticas na fase rebelde.

— Tenha dó! — Rum rebateu, a frustração falando mais alto que o filtro. — Você é o pai, então faça alguma coisa!

O silêncio caiu sobre a clareira como uma guilhotina.

O som da floresta sumiu. Mumei parou de amarrar a lenha no meio do nó. Laeticia congelou com um graveto na mão. Até o fogo pareceu estalar mais baixo.

Rum percebeu o que tinha dito. O tempo parou. O rosto dela ficou vermelho instantaneamente. Ela gaguejou, as mãos tremendo, tentando consertar o estrago: — Q-Quero dizer... v-você é pai de verdade! Biologicamente! Então deveria saber como cuidar de crianças, não é?! Foi isso que eu quis dizer!

Dumpt, completamente alheio à tensão romântica subjacente e densa que preenchia o ar, apenas deu de ombros, relaxado. — Foi mal, Rum. Mas esse pack de software paternal não foi instalado no meu sistema.

O clima ficou estranho, pesado. Mumei e Laeticia, percebendo a deixa e querendo fugir da zona de constrangimento, rapidamente se voluntariaram para pegar mais lenha e se afastaram quase correndo. Uzumaki estalou a língua e saiu de perto, dizendo que ia verificar o perímetro.

Eliza, no entanto, ficou parada por um momento. Ela olhava para Rum, que tentava se recompor arrumando as mochilas com uma ferocidade desnecessária e olhos marejados de vergonha.

A garota de cabelos magenta suspirou, um som carregado de compreensão e tristeza. Ela caminhou até a árvore onde Dan ainda observava Yukina brincando com o ioiô, alheio ao drama adulto. Ele parecia pronto para descer e surpreendê-la.

— Ei! — Eliza o agarrou pela gola da camisa e o arrancou do galho baixo com um puxão firme.

— O que foi isso, Eliza? — Rum perguntou, vendo a cena, tentando desviar o foco de si mesma. — Deixa ele brincando com a Yukina.

— Depois eu deixo! — Eliza respondeu, já arrastando o garoto pela floresta. — Fiquei com vontade de brincar com meu "bichinho". Algum problema?

Ela continuou puxando-o floresta adentro, para longe do acampamento e dos ouvidos curiosos.

Ao chegarem perto de um riacho de águas escuras, mas límpidas, ela soltou o braço dele. — Vamos pegar um pouco de água e levar de volta.

Enquanto enchiam os cantis em silêncio, Dan observou o perfil dela. A expressão de Eliza não era a de irritação habitual; as linhas de seu rosto estavam suaves, carregadas de uma melancolia que ele raramente via.

— O que foi? — Dan perguntou, direto, sem rodeios sociais. — Você está triste.

Eliza parou, a mão na água fria. Surpresa por ele ter notado tão rápido. Ela olhou para os lados, garantindo que estavam sozinhos. Então, suspirou e caminhou até a sombra de uma árvore próxima, sentando-se na grama com um peso que não condizia com sua idade.

— Vem cá — ela chamou, batendo na própria coxa coberta pela meia-calça.

Meio desconfiado, mas obediente, Dan se aproximou. Ela o puxou gentilmente, fazendo-o deitar a cabeça em seu colo. Era uma posição estratégica: ela podia contar o que queria sem precisar encarar os olhos dele, e ele podia receber o conforto que ela precisava dar. Ela começou a fazer carinho no cabelo dele, os dedos trêmulos penteando os fios.

— Eu só fiquei meio mal... precisava de um ar longe deles.

— Por acaso foi por causa do Uzumaki? — Dan perguntou, olhando para a copa das árvores.

Eliza arregalou os olhos, ofendida. — O quê?! Não seja bobo! É óbvio que não. Eu já estou vacinada contra aquele idiota. Nada do que ele fala me afeta de verdade. Ele é só ruído.

Dan ficou em silêncio por um momento, processando as informações e as emoções flutuantes da tarde. — Então... foi aquilo que a Rum disse para o Dumpt? Todos agiram estranho quando ela falou.

A mão de Eliza parou por um segundo no cabelo dele, congelada. Depois continuou, mais lenta, mais pesada. Era a confirmação.

— Eu te disse que, há muito tempo, a Rum me acolheu quando eu era uma criança de rua numa situação parecida com a sua, né?

Dan confirmou com a cabeça sutilmente.

— Naquela época... — a voz dela ficou suave, mergulhada em nostalgia dolorosa. — Ela e o Dumpt eram inseparáveis. Uma dupla lendária. Viviam saindo em missões juntos, cobrindo as costas um do outro, rindo das mesmas piadas. Eles cuidavam de mim... como se fossem meus pais. Ou como eu imaginava, nos meus sonhos infantis, que pais seriam.

Ela olhou para o céu, buscando memórias. — Eu sabia, desde aquela época, que a Rum amava o Dumpt. Não era segredo para ninguém, exceto para ele. Na realidade, quando eu era mais nova e tinha pesadelos, ela dormia comigo e, às vezes, sussurrava sobre como estava apaixonada. Eu pensei: "Nossa, um dia eles vão realmente ficar juntos, vão casar e seremos uma família de verdade."

Dan relembrou a cena na varanda da casa de Dumpt. A esposa gentil, a filha pequena. A conta matemática da felicidade não fechava.

— Mas... — Eliza continuou, a voz falhando, embargada. — Uma certa vez, eu acabei adoecendo. Foi grave. De forma estranha e inesperada. Talvez exaustão, talvez veneno de alguma missão, não sei. E bem nessa época, surgiu uma missão crítica de longo prazo em outra cidade.

Ela apertou levemente o cabelo de Dan, como se tentasse segurar o passado. — A Rum... ela teve que escolher. Era a carreira dela, o amor dela, ou eu. E ela escolheu ficar. Ela abandonou a missão para cuidar de mim, dia e noite, trocando compressas, fazendo remédios. Ela não foi com o Dumpt.

Dan entendeu o peso da história antes mesmo de ela terminar. O silêncio gritava a conclusão.

— Quando a missão acabou, meses depois... — Eliza sussurrou, uma lágrima escapando. — Descobri que o Dumpt tinha conhecido uma garota lá. A Tea. Uma civil que ele salvou heroicamente. Eles se apaixonaram, começaram a namorar. E a Rum... quando soube... ela sorriu. Ela parabenizou ele com aquele sorriso gentil dela, foi madrinha do casamento, e passou o resto dos dias sozinha, guardando aquele amor numa caixa trancada.

Ela se curvou sobre ele, como se o peso da culpa a esmagasse fisicamente. — Eu não acho a mulher do Dumpt alguém ruim. A Tea é maravilhosa, eu adoro ela e a filha deles, de verdade. Mas... às vezes eu olho para a Rum, quando ela acha que ninguém está vendo. E me pergunto se ela se sente mal. Se ela se arrepende da escolha. E se, no fundo... eu sou a causa desse arrependimento. Se eu não tivesse ficado doente...

Dan ouvia em silêncio, absorvendo a dor dela. Ele finalmente entendeu a expressão complexa de Eliza na frente da casa de Dumpt. Aquele anseio nos olhos dela não era inveja mesquinha da felicidade alheia; era o luto profundo por uma família que quase existiu, mas foi desfeita pelo destino e por ela mesma. Ou pelo menos, era essa a narrativa cruel que ela repetia para si mesma.

O que Eliza realmente queria não era apenas sobreviver, lutar ou mudar o mundo. Ela queria aquele calor doméstico. Aquele sentimento de pertencimento que lhe escapou por entre os dedos febris de uma doença infantil.

Eliza respirou fundo, limpou os olhos rapidamente e deu um tapinha leve, carinhoso, na bochecha dele. — Bom... já falei demais. Que vergonha, chorando na frente da criança. É melhor a gente voltar antes que achem que fomos comidos por algum monstro.

Ela começou a se levantar, pegando os cantis cheios. Dan se levantou também, sacudindo a grama da roupa. Mas antes que ela pudesse se afastar e colocar a máscara de "durona" de volta, ele correu e segurou a mão dela com firmeza.

Eliza parou, olhando para ele, surpresa pelo toque.

Dan olhou fundo nos olhos verdes dela, com a seriedade solene de quem faz uma promessa de vida ou morte, sem desviar o olhar. — Tá tudo bem. Eu ainda vou estar aqui.

As palavras eram simples, quase banais, mas atingiram o alvo com precisão.

Eliza sentiu os olhos arderem novamente. Ela soltou a mão dele e, num gesto rápido para disfarçar a emoção, bagunçou o cabelo dele com força, rindo nervosamente.

— Não se ache tanto, seu cavaleiro de lata — ela disse, com a voz embargada, mas sorrindo verdadeiramente.

E assim, com o coração um pouco mais leve e a alma menos solitária, ela voltou a andar em direção ao acampamento, com Dan logo atrás, garantindo que, pelo menos por agora, ela não caminharia sozinha na escuridão.

Parte 7

A noite caiu pesada sobre a Floresta do Delírio, um manto de veludo negro que transformou o festival de cores vibrantes das árvores em silhuetas esqueléticas e misteriosas. O silêncio era quebrado apenas pelo crepitar da fogueira no centro do acampamento, cujas chamas azuis lançavam sombras dançantes e alongadas sobre os rostos cansados do grupo, criando máscaras de luz e escuridão.

Mumei, exausto após a marcha forçada, já começava a cochilar encostado em um tronco musgoso, a cabeça enfaixada tombando ritmicamente para o lado, soltando pequenos suspiros. Perto dele, em um galho de árvore mais alto e seguro, Yukina dormia profundamente, encolhida como um gato selvagem buscando calor. Dan estava sentado no mesmo galho, ao lado dela, montando guarda em silêncio absoluto. De vez em quando, Yukina se mexia inquieta, abria um olho sonolento e, ao ver a silhueta familiar de Dan ali, sorria levemente, tranquilizada, antes de voltar a mergulhar nos sonhos.

Rum observava a cena de longe, limpando suas armas com um pano de óleo. Um sorriso suave, raro e materno, suavizava suas feições geralmente duras e marcadas por cicatrizes. Ao lado dela, Laeticia, sempre emotiva, deixava lágrimas silenciosas escorrerem pelo rosto, comovida ao ver a pequena Yukina, que tanto sofrera, finalmente encontrar paz para sorrir.

— É bom ver que as crianças estão conseguindo sorrir, mesmo no meio desse inferno... — Dumpt comentou. De repente, seus olhos se moveram para o objeto que Yukina apertava contra o peito enquanto dormia, como se fosse um escudo. — Aquele ioiô...

Rum assentiu. — Sim... Está mais velho, a pintura descascada e a corda gasta... mas é o ioiô da mãe dela.

— Entendi — Dumpt suspirou. — Então ela ainda tinha aquilo guardado.

Uzumaki, impaciente com o clima sentimental e meloso, chutou "acidentalmente" o tronco onde Mumei dormia. O homem enfaixado escorregou, caiu no chão com um baque surdo e rolou para o lado, murmurando algo ininteligível, mas sem acordar.

— Esse daí dorme como pedra... — Uzumaki resmungou, sentando-se no lugar vago com um movimento fluido. Ele olhou para Dumpt, a expressão ficando séria. — Tem certeza disso, Dumpt? Não vai mesmo levar a Tea e a sua filha com a gente?

Dumpt suspirou, jatos finos de vapor escapando de suas juntas mecânicas, denunciando sua tensão interna. — Tenho sim. Vai ser melhor para elas. Não quero que vivam suas vidas correndo, olhando por cima do ombro e sendo perseguidas por minha causa. Eu pedi para elas irem para a Capital dos Pesadelos. A Rainha Isobel vai mantê-las seguras.

— Entendi. — Uzumaki assentiu, respeitando a decisão difícil. Ele olhou para o fogo, hipnotizado pelas chamas. — Mas realmente vai ser um problema... Será que realmente existe um Pesadelo com a tal marca da Coroa? Eu realmente achei que, estatisticamente, pelo menos um de nós deveria ter recebido uma, caso essa história fosse real.

— Eu também não cheguei a ver nenhuma — Rum admitiu, acendendo um novo charuto na brasa da fogueira. — Mas duvido que a Rainha Isobel tenha mentido sobre algo tão crucial.

— Eu tenho certeza que existem — Eliza interveio subitamente. Ela estava sentada de pernas cruzadas perto do fogo.

Uzumaki a olhou de soslaio, desconfiado como sempre. — Por acaso já viu uma? Ou tem uma escondida aí e tá fazendo jogo duro?

Eliza sorriu, um sorriso enigmático que não alcançou os olhos. — Bom, se eu tivesse, não te contaria, idiota. Seria minha carta na manga. Mas posso confirmar que elas são reais.

Uzumaki estreitou os olhos. "Se ela tivesse, ela contaria para se gabar na primeira oportunidade. E não acho que ela mentiria na frente da Rum. É melhor ficar de olho nela, ela sabe mais do que diz."

— Se ao menos a Princesa Kiara estivesse viva... — Laeticia murmurou, enxugando as lágrimas e entrando na conversa. — Ela com certeza teria a marca. Ela venceria esse jogo antes mesmo de ele começar.

Todos a encararam em silêncio. O nome caiu como uma pedra no lago calmo da conversa, criando ondas de tensão.

— Bom... — Rum soltou a fumaça lentamente, criando anéis no ar. — Se aquela encrequeira estivesse aqui, com certeza facilitaria as coisas. Ou complicaria tudo de vez.

— De acordo com as lendas urbanas, ela continua viva — Uzumaki comentou, cético, mexendo no fogo com um graveto. — Dizem que está sendo eternamente torturada nas masmorras abaixo do castelo do Rei dos Sonhos.

— Impossível — Dumpt retrucou, o metal rangendo. — Ela podia ser forte, mas sobreviver sendo torturada sem se alimentar e tendo seu Éter drenado pelo Trono do Rei por tanto tempo? Eu acho difícil demais de acreditar. Ninguém aguenta isso.

— Eu também — Uzumaki concordou. — Mas sempre que digo isso, ninguém parece acreditar lá no Reino dos Pesadelos. Eles a tratam como um bicho-papão imortal, uma entidade que pode voltar a qualquer momento.

— Não é pra menos — Rum disse, o olhar distante nas chamas. — Aquela princesa não era uma guerreira comum. Ela era como uma calamidade viva com pernas.

— É verdade... — Laeticia olhou para Rum com admiração brilhando nos olhos úmidos. — Você já chegou a se encontrar com ela, não é, Senhorita Rum?

— Já. — Rum assentiu, a memória voltando nítida. — Quando ainda fazia missões com meu irmão e a Tromluí não passava de um sonho distante e inofensivo. Na época dourada em que os heróis entre os Pesadelos, os revolucionários conhecidos como Circo Meia-Noite, vagavam pelas ruas desafiando a ordem.

Eliza parou e se aproximou, os olhos brilhando de curiosidade. Na verdade, todos se viraram para Rum, a expectativa palpável no ar frio da noite.

Rum suspirou, percebendo que não escaparia de contar a história. — O que vocês querem saber?

— Eu não consegui chegar a encontrar com ela, ainda não tínhamos nos conhecido nessa época — Dumpt disse. — Pode explicar a aparência dela? Quero ver se acabei cruzando com ela por acidente e não soube.

Rum fechou o olho bom por um momento, visualizando a memória como uma pintura antiga. — Ela era uma jovem de uma beleza assustadora. Cabelos loiros como ouro derretido, olhos vermelhos carmesim que pareciam brilhar no escuro, orelhas pontudas e presas afiadas. Gostava de se chamar Arlequim. A forma dela falar era bem arcaica e teatral, cheia de "vós" e "tu", como uma peça antiga.

Ela abriu o olho e fixou o olhar em Eliza. — Mas, tirando toda essa pompa... a Kiara era bem parecida com você, Eliza.

Eliza arregalou os olhos, surpresa e secretamente lisonjeada. — Comigo?!

— Sim. — Rum sorriu de canto. — Apesar de ser toda educada e agir como uma princesa de fato, ela era uma extremista radical. Vivia causando baderna e confusão pelo Reino dos Sonhos apenas porque podia. Até hoje, nos registros históricos, ela destruiu mais cidades dos Sonhos sozinha do que qualquer exército.

Eliza olhou maravilhada, absorvendo a comparação. — Mas como ela fazia isso? Como ela era tão forte?

Uzumaki concordou, inclinando-se para a frente, a curiosidade vencendo o ceticismo. — Eu sei que diziam que ela era um prodígio, mas várias vezes falaram que mesmo os atuais Cavaleiros Reais, a elite da elite, não eram páreo para ela em um combate direto. Como um único Pesadelo pode ser tão poderoso assim?

Rum riu, um som seco e nostálgico. — Naquela época, eu fiz essa mesma pergunta ao meu irmão.

Eles esperaram, ansiosos, o silêncio da floresta amplificando o momento.

— A resposta dele foi simples: Era porque ela era uma usuária de Borboletas do Caos.

Uzumaki levantou-se num salto, derrubando o graveto, os olhos arregalados de choque. — Isso é impossível! Isso é mito!

— Mas que merda é essa? — Dumpt perguntou, confuso com a reação exagerada.

— Eu nunca ouvi falar também — Laeticia admitiu timidamente.

Eliza estava vermelha de vergonha e excitação. — Eu... eu sei o que é. Li em livros. Mas é difícil explicar...

Uzumaki estalou a língua, impaciente, recuperando a postura de professor irritado. — Seus idiotas ignorantes não sabem de nada. Vocês sabem que para poder utilizar Éter nós usamos nossa Vontade como catalisador, certo?

Todos concordaram com a cabeça.

— Nunca se perguntaram o que acontece quando alguém morre, o corpo desliga, mas ainda tem uma Vontade avassaladora? Um desejo ardente que se recusa a apagar com a morte cerebral?

— Ele vira um fantasma, não é? — Eliza chutou.

— Eu disse desejo, não assunto inacabado! — Uzumaki corrigiu, gesticulando. — Presta atenção na nuance.

— E se eu morresse agora desejando que você tivesse uma vida feliz e parasse de ser chato? — Eliza perguntou, provocando.

— Eu agradeceria, mas cala a boca e escuta! — Uzumaki gritou, a veia saltando.

Rum fez um gesto de "shhh", pedindo silêncio, e retomou a explicação com autoridade. — É como ele disse. Caso alguém morra com desejos intensos direcionados a outra pessoa, ou que outra pessoa possa carregar o fardo... esse último desejo se cristaliza no tecido da realidade. Ele se torna uma Borboleta feita de Éter condensado e Vontade pura. Muitos acreditam que elas, assim como fantasmas, carregam fragmentos da alma daqueles que se foram e agora protegem os que ficaram.

— Eu entendi a teoria — Eliza disse, séria. — Mas o que tem de especial nisso para combate prático?

— Sua idiota! — Uzumaki exclamou, exasperado. — É uma Vontade tão forte que continua afetando e dobrando as leis do Éter mesmo após a morte do usuário! Consegue imaginar a densidade de poder necessária para algo assim acontecer? Uma única dessas borboletas é praticamente uma ogiva nuclear de Éter concentrado e instável.

— Mas mesmo assim — Uzumaki continuou, franzindo a testa, tentando achar a lógica —, não tem como "usar" uma Borboleta do Caos como arma. Ela é só uma bomba de Éter com vontade própria que segue o alvo do desejo. Você não pode controlá-la. É como tentar controlar o vento.

— Isso não é verdade — Rum contrapôs suavemente. — A Kiara provou que era possível. E ela não usava apenas uma. Ela usava milhares. Ela comandava a alma e o desejo de vingança de todos os Pesadelos que morreram nas guerras passadas querendo acabar com o Reino dos Sonhos. Um exército de mortos transformado em poder puro.

Todos ficaram em silêncio, o peso da revelação esmagando-os. Tentavam imaginar o poder de milhares de "ogivas nucleares" de alma sob o comando de uma única garota.

— E mesmo assim... — Uzumaki falou, a voz baixa, quase um sussurro. — Alguém assim... perdeu?

Agora a curiosidade havia mudado de tom. Eles não queriam mais saber o quão forte ela era, mas sim como, em nome dos deuses, algo tão poderoso pôde ser derrotado.

— Ela foi consumida pela própria vingança — Rum disse, sombria, as sombras da fogueira alongando seu rosto. — Ficou tão louca que foi atrás da cabeça do Rei direto no castelo, sozinha. Ou é isso que as histórias contam. Sabe-se lá qual foi a verdade nua e crua. Mas é fato histórico que ela perdeu. Provavelmente por excesso de confiança, ao enfrentar o próprio Rei dos Sonhos em seu território.

— Espera — Uzumaki interrompeu, o cérebro em pane. — Se essa história sobre Borboletas do Caos for real... como alguém com tanto Éter perdeu? Mesmo que ela o tenha subestimado, ainda parece difícil de visualizar.

Eliza sorriu, triunfante. — Agora é você quem está sendo infantil e simplista, Uzumaki. Todos sabem que não é quem tem a maior quantidade de Éter que vence uma luta. É quem sabe usá-lo melhor. Técnica vence força bruta.

— Eu concordo com a Eliza — Dumpt disse. — Mas isso ainda é estranho. Se ela realmente era tão habilidosa e tinha tanto poder de fogo... é possível mesmo que o Rei sozinho tenha vencido sem ajuda?

Rum balançou a cabeça devagar. — Eu não sei. Afinal, eu não vi a luta com meus olhos. Na realidade, eu nunca de fato vi o rosto do Rei dos Sonhos. Mas meu irmão... ele viu. E uma vez ele me disse, com um medo genuíno nos olhos, que sem dúvida nenhuma, aquele homem era a criatura mais forte de toda Morpheus.

Uzumaki murmurou, captando a palavra: — "Criatura"? Está dizendo que ele não é um Prim?

— Sei lá — Rum deu de ombros. — Vários boatos se espalham como pragas sobre o misterioso Rei dos Sonhos. Dizem que ele possui uma Arma do Apocalipse. Que ele é um Astreus disfarçado. E até... que ele seja um Humano.

— Ah, agora você pegou pesado nas lendas — Eliza riu, incrédula. — Humanos? Isso é...

Ela parou. A risada morreu na garganta. Seus olhos foram instintivamente, quase contra sua vontade, até Dan, que dormia sentado no galho acima deles. Uma engrenagem enferrujada girou em sua cabeça, encaixando peças que ela nem sabia que tinha no tabuleiro. "Não é um sonho, nem um pesadelo..."

— ...Conto de fadas — Uzumaki completou, revirando os olhos e quebrando o transe de Eliza. — Essa coisa é só história de criança para assustar quem não come vegetais. Humanos foram extintos ou nem existem aqui.

— Vai saber — Rum finalizou, bocejando longamente. — Antigamente, os boatos sobre humanos vivendo escondidos em meio aos Prims vagavam por toda parte. Nunca dá pra ter certeza de algo até se provar o contrário. O mundo é vasto e estranho.

Sentindo que a conversa tinha ido longe demais e entrado no terreno perigoso da fantasia e da conspiração, o grupo começou a se dispersar, arrumando seus sacos de dormir.

— Bom... — Uzumaki disse, recostando-se em um tronco e fechando os olhos, a mente ainda trabalhando. — Com seres assim existindo, nem parece mais tão impossível imaginar um Pesadelo com a tal marca da Coroa...

E assim, sob o céu estrelado e falso da Floresta do Delírio, o grupo adormeceu.

Parte 8

A madrugada ainda envolvia a Floresta do Delírio em um manto fúnebre e silencioso quando, subitamente, o olho bom de Rum se abriu. Não foi um despertar sonolento ou gradual; foi um solavanco elétrico de instinto puro, como se um alarme de guerra tivesse disparado dentro de seu crânio.

Ela se levantou em um movimento fluido, sem fazer um único ruído na grama. Correu até Dumpt e Uzumaki. Não houve palavras. Um toque firme no ombro de metal frio de Dumpt e um chute calculado na bota de Uzumaki foram o suficiente. A reação foi imediata: ambos despertaram instantaneamente, os olhos varrendo o perímetro, seus corpos entrando em estado de alerta máximo antes mesmo de seus cérebros processarem a ameaça.

O trio avançou até onde Eliza e Laeticia dormiam. A diferença de experiência era gritante. As duas demoraram a reagir aos sacudões, resmungando, tateando o ar e esfregando os olhos inchados de sono.

— O que aconteceu...? — Eliza bocejou, a boca abrindo-se largamente enquanto se espreguiçava, alheia à tensão. — Ainda está escuro... já passou da hora de acordar?

Uzumaki, já de pé e olhando para a frente com uma expressão de incredulidade absoluta, respondeu sem olhar para ela: — Parece que a floresta decidiu concordar com sua impaciência, Eliza. Porque, por algum motivo... durante a noite, a geografia mudou e nós fomos trazidos direto para a entrada.

Ao ouvirem aquilo, o sono evaporou. Eliza se levantou num pulo e correu para ver o que ele encarava.

Diante deles, as árvores multicoloridas e retorcidas da Floresta do Delírio se abriam como cortinas de um palco macabro, revelando uma arquitetura colossal e arruinada. Não era a brilhante e nova Cidade de Cristal onde os Cavaleiros Reais se reuniam, mas a lenda esquecida: a Antiga Cidade de Diamante. Ruínas de cristal bruto e arquitetura impossível jaziam no coração da Dungeon, banhadas por uma luz espectral.

Uzumaki olhou para o lado e viu Mumei ainda roncando, enrolado em suas faixas brancas como uma múmia morta há séculos, completamente alheio ao momento histórico. — Seu inútil maldito, acorda! — Uzumaki, sem paciência, chutou o rosto de Mumei com a sola da bota.

— GUH?! — Mumei acordou engasgando, tossindo e debatendo-se nas faixas sem entender onde estava ou quem o atacara, enquanto Uzumaki o levantava pelo colarinho com facilidade.

— Não temos tempo para brincadeiras. — Rum assumiu o comando, sua voz baixa, mas carregada de uma autoridade que não admitia réplicas. — Laeticia.

Laeticia endireitou a postura, o instinto militar falando mais alto. — Sim, senhora!

— Você fica. — Rum apontou para o arco de entrada das ruínas. — Sua missão é proteger o perímetro do portão. Cuide do Dan e da Yukina. Não deixe nada se aproximar deles enquanto dormem e espere a gente voltar. Entendeu?

Laeticia piscou, a decepção lavando seu rosto. — Como assim? Eu achei que eu também iria lutar com vocês... Eu posso ajudar!

— Não. — Rum negou instantaneamente, o tom cortante como aço. — Isso não é um pedido, é uma ordem.

Laeticia engoliu seco. Sentindo-se impotente, mas resignada, ela assentiu. Caminhou até onde Dan e Yukina ainda dormiam pacificamente, sentando-se para vigiá-los, a espada no colo, olhando para as costas dos companheiros que partiam.

O grupo principal — Rum, Dumpt, Eliza e Uzumaki (arrastando um Mumei que ainda tentava entender em que planeta estava) — avançou para dentro das ruínas.

Assim que cruzaram o arco do portão quebrado, a atmosfera mudou drasticamente. O ar lá dentro era denso, quase líquido, saturado de um Éter antigo, estagnado e abertamente hostil. Era como caminhar no fundo do oceano.

— Ugh... — Eliza estremeceu. — Vocês sentem isso?

— Então esse é o Éter do Boss... — Dumpt comentou, suas engrenagens zumbindo e estalando enquanto ele tomava a frente, expandindo o peito metálico para servir de escudo. — É opressivo.

Eliza o seguiu, os olhos varrendo as sombras. Rum vinha logo atrás, acendendo um charuto com as mãos firmes para acalmar os nervos, a fumaça criando trilhas cinzas no ar parado. Uzumaki fechava a formação, cobrindo a retaguarda.

— Então — Uzumaki perguntou, a voz ecoando levemente entre as torres de cristal quebradas —, qual vai ser o plano suicida da vez?

— Agora que chegamos aqui, não temos escolha — Eliza respondeu, a adrenalina começando a subir, mascarando o medo. — Vamos acabar com o monstro e pegar a arma. Não foi por isso que a gente caminhou até aqui?

Uzumaki estalou a língua, irritado com a simplificação grosseira. — Sua idiota, não fale como se fosse uma lista de compras. Não esqueça que essa criatura sozinha protegeu e manteve essa floresta isolada de ataques de exércitos inteiros de Sonhos e Pesadelos por décadas. É muita ousadia, ou burrice, falar que agora, só porque você quer muito, vai conseguir vencer uma lenda.

— Sim — Rum concordou, a fumaça saindo entre os dentes, surpreendendo a todos. — É muita ousadia. É arrogância pura. Mas não temos outra escolha.

Uzumaki olhou para ela, incrédulo. — Você está brincando, né?

Até Eliza se surpreendeu com a concordância.

— Não é opcional, Uzumaki — Dumpt falou, sua voz grave reverberando no peito de metal. — Nós sabemos a matemática. Sabemos o quão perigoso é. Mas acha que existe outra maneira? Não esqueça que essa coisa está aqui como um Guardião eterno, protegendo a Relíquia. Se viemos realmente para pegar a arma... a única escolha lógica é passar por cima do cadáver dele.

Eles se entreolharam. O peso da missão, a realidade da morte provável, caiu sobre os ombros de todos. Não havia volta, não havia diplomacia.

— Bom... que merda. — Uzumaki suspirou, soltando Mumei (que finalmente ficara em pé sozinho) e tomando a frente ao lado de Dumpt. — Então é melhor pensar em um plano antes de morrermos. Precisamos mapear o terreno, identificar pontos de cobertura e...

Mas ele nunca terminou a frase.

Antes que Uzumaki pudesse formular o primeiro passo do plano, antes que qualquer um pudesse sequer puxar o ar para se preparar...

O ar atrás deles congelou. Não houve som de passos. Não houve aviso. Apenas o deslocamento súbito e violento de massa atmosférica.

Aparecendo atrás do grupo, vindo de uma corrida em velocidade supersônica que nenhum dos sensores de Dumpt ou instintos de Rum detectou, estava a lenda.

Um tigre colossal.

Mas não era um tigre comum de carne e osso. Seu corpo era uma tempestade contida, feito de Éter branco flamejante que tremulava como fogo espiritual, cortado por listras pretas profundas que pareciam rasgos no tecido da realidade. Ele era gigantesco, uma montanha de poder comprimido em forma felina.

A criatura rugiu. Mas o som não foi audível; foi uma onda de choque psíquica que fez os dentes de todos vibrarem.

Apesar de seu corpo ser feito de chamas brancas furiosas, a temperatura ao redor despencou instantaneamente para o zero absoluto. O chão sob suas patas estalou e o cristal se cobriu de geada.

VROOOOM!

O Tigre Fantasma passou por eles correndo. Ele nem se deu ao trabalho de atacá-los diretamente; apenas o vácuo e o deslocamento de ar gerados pela sua passagem foram como ser atropelado por um trem invisível.

A rajada de vento gélido e pressão cinética jogou o grupo longe como bonecos de papel. Dumpt foi arremessado com violência contra uma parede de ruínas, amassando o metal de seu ombro. Rum e Eliza rolaram pelo chão de cristal cortante, tentando se proteger. Uzumaki teve que cravar sua faca no solo com as duas mãos, sendo arrastado por metros, para não voar.

A criatura não parou. Ela continuou seu trajeto em linha reta, ignorando-os completamente como se fossem insetos insignificantes, até chegar ao centro da praça da cidade. Lá, um gigantesco pilar de diamante bruto se erguia, pulsando com uma luz misteriosa no topo.

O Tigre saltou com graça impossível para seu tamanho e pousou na base do pilar. Ele se virou lentamente, as chamas brancas dançando, para encarar os intrusos.

O grupo se levantava dos destroços, tossindo, limpando o gelo que se formara em suas roupas e armas, feridos apenas pela presença da besta.

Eles olharam para o centro da praça. O monstro os aguardava, sentado, guardando o pilar com olhos que brilhavam com uma inteligência antiga e cruel. O palco estava pronto.

Saindo dos escombros, com o gosto metálico de sangue na boca, os combatentes da Tromluí notaram, tarde demais, a verdade aterrorizante: eles não estavam prestes a começar uma luta. A batalha já tinha começado no momento em que pisaram na cidade, e eles já estavam perdendo.

Parte 9

Rum se ergueu dos escombros de cristal, limpando com as costas da mão um filete de sangue que descia, quente e viscoso, de um corte na testa. Seus olhos não demonstravam medo, apenas cálculo. Ela sabia que aquela criatura, o Tigre Fantasma, não era um monstro comum de masmorra. Mas a Tromluí também não era um grupo de aventureiros comum.

Ela liberou a trava de segurança de seu braço mecânico com um clique metálico. Válvulas de pressão se abriram ao longo do metal, e uma fumaça densa e branca, saturada de Mana e Éter comprimido, começou a vazar, sibilando como uma locomotiva pronta para partir.

Com um grito de esforço que tensionou cada músculo de seu corpo, ela socou o chão.

BOOM!

O impacto não apenas quebrou o solo; fez a fundação da praça vibrar como um sino. Uma onda de choque de energia dourada se espalhou a partir do punho dela em um padrão geométrico complexo. Instantaneamente, uma marca luminosa — semelhante a uma bandeira de guerra estilizada cruzada com engrenagens — apareceu brilhando na nuca, logo atrás da orelha direita, de cada membro da equipe.

Uma descarga elétrica percorreu a espinha de todos. Seus batimentos cardíacos sincronizaram.

— Conexão de Comando estabelecida! — A voz de Rum ressoou não nos ouvidos, mas diretamente na mente de todos, clara e sem interferências. — O limitador de dor de vocês foi desligado e a regeneração de mana aumentada em 15%. Agora não ousem morrer! E mesmo que morram, continuem lutando!

O Tigre Fantasma não esperou o discurso motivacional. Ele investiu novamente, transformando-se em um borrão de chamas brancas e frio absoluto, uma avalanche viva.

Rum não desviou. Ela se plantou no chão, afundando os dedos da mão humana no concreto para criar âncoras, e ergueu o braço mecânico fumegante como um escudo.

Quando o Tigre colidiu com ela, o som foi o de um trem de carga batendo em uma parede de aço. SCREEEEEECH! O metal do braço dela gritou, faíscas voaram. Ela foi arrastada para trás, suas botas abrindo valas profundas no chão de cristal, mas ela não cedeu. Ela segurou a investida de toneladas.

— AGORA! — ela rugiu, flexionando os pistões hidráulicos do braço e usando a própria inércia do monstro para girar o corpo. Com um movimento de judô aplicado a uma besta colossal, ela o arremessou para trás.

O Tigre voou, momentaneamente desequilibrado no ar.

— Minha vez de dançar! — Dumpt deslizou pelo flanco direito, suas pistolas gêmeas girando nos dedos antes de cuspir fogo. — Ricochete Fantasma!

Ele não disparou contra o monstro. Ele disparou para o nada, para escombros aleatórios e paredes distantes. Mas as balas, imbuídas de um Éter azulado, desafiaram a física. Elas bateram nas superfícies e aceleraram, fazendo curvas geométricas impossíveis no ar, contornando a defesa frontal do Tigre e atingindo-o com precisão cirúrgica nos pontos cegos das articulações e atrás das orelhas.

O monstro rugiu, sacudindo a cabeça, tentando rastrear a origem dos tiros, mas Uzumaki já estava dentro de sua guarda.

Com uma fluidez líquida, Uzumaki era a tempestade perfeita. Ele misturava a ginga imprevisível e rítmica da capoeira com a precisão letal e linear do taekwondo. Ele girou no chão apoiado em uma mão, um chute de meia-lua acertando o queixo do Tigre com força sônica, levantando a cabeça da besta. Sem perder o momento, ele usou o rebote para um chute giratório aéreo de 540 graus.

O calcanhar de Uzumaki conectou com o pescoço da criatura. O impacto foi tão forte que lançou a massa gigantesca contra a fachada de um prédio de cristal.

— Olha pra cima, gatinho! — Uzumaki zombou, aterrissando com a elegância de um gato, limpando a poeira do ombro.

Lá do alto, descendo como um meteoro dourado que rasgava as nuvens, vinha Eliza.

— Lyra: Gigantificação!

O chakram delicado em sua mão cresceu instantaneamente, expandindo-se até se tornar uma roda massiva de metal e energia do tamanho de uma casa. A sombra da arma cobriu o monstro. Ela o desceu com toda a força da gravidade sobre o Tigre caído.

CRASH!

O prédio inteiro colapsou. O chão cedeu, criando uma cratera. Poeira e estilhaços de cristal voaram para todos os lados.

Mas antes que Eliza atingisse o solo e se esborrachasse, ela estalou os dedos. Plim. O chakram gigante diminuiu instantaneamente para o tamanho de um pneu de carro. Ela pousou levemente sobre a borda dele, flutuando no ar a meio metro do chão, balançando para frente e para trás como uma criança brincando num balanço de pneu num domingo à tarde.

— Será que ele caiu? — ela perguntou, com um sorriso travesso, balançando as pernas.

Um rugido ensurdecedor, que congelou o ar e fez o vapor da respiração de todos cristalizar, foi a resposta.

O Tigre emergiu dos escombros em uma explosão de energia branca. Ele parecia maior. As chamas em seu corpo ardiam com mais fúria, e ele não tinha um único arranhão visível.

— Acho que isso responde a sua pergunta estúpida! — Uzumaki gritou, já recuando com um salto para trás.

O grupo se dispersou taticamente.

Dumpt disparou seus ganchos e escalou a fachada de um prédio ainda em pé, posicionando-se no terraço como um sniper. Ele começou a disparar para o chão ao redor do Tigre. As balas, ao tocarem o solo, não paravam; elas absorviam o Éter ambiente do Boss, brilhavam mais forte e ricocheteavam para cima com o dobro da velocidade, criando uma jaula de fogo cruzado visando os olhos da besta.

Enquanto o Tigre se distraía tentando morder as balas zunindo como moscas, Rum viu a abertura. Ela avançou para o combate corpo a corpo, confiando na força bruta. Ela deslizou por baixo de uma patada que congelou o ar acima de sua cabeça e desferiu um gancho devastador, carregado com todo o vapor de seu braço, nas costelas expostas da criatura.

Mas algo estava errado. Fundamentalmente errado.

O punho dela conectou visualmente. O som de impacto sônico aconteceu. A aura explodiu. Mas ela não sentiu resistência. Sua mão atravessou a pele e os músculos do Tigre como se ele fosse feito de fumaça densa ou água. Não houve o crunch satisfatório de ossos quebrando.

"O quê?!" — Rum pensou, os olhos se arregando em choque, o ímpeto do golpe fazendo-a perder o equilíbrio. "Ele é tangível para bater na gente, mas intangível para apanhar?!"

— MUDEM O ESTILO DE LUTA! — Rum gritou, a voz carregada de urgência. — ATAQUES FÍSICOS NÃO VÃO FUNCIONAR! ELE VIROU ESPECTRO!

Tarde demais. O Tigre, aproveitando a proximidade e o desequilíbrio de Rum, solidificou apenas a cauda e o ombro, girou o corpo com velocidade sobrenatural e se jogou lateralmente contra o prédio.

BAM!

Rum foi esmagada entre a massa espiritual fria e a parede de concreto duro. O prédio tremeu e rachou de alto a baixo. Rum cuspiu sangue, o ar expulso de seus pulmões.

— RUM! — Eliza gritou, o chakram vacilando sob seus pés, a brincadeira sumindo de seu rosto.

— Não perca o foco, garota! Ela vai ficar bem! A velha é dura na queda, feita de ferro e teimosia! — Dumpt gritou do alto do outro prédio, embora seu sensor ocular fizesse um zoom preocupado na parceira.

Ele guardou as pistolas no coldre e, num movimento rápido que desafiava o peso da arma, sacou de suas costas uma escopeta de cano serrado, grossa e brutal, que brilhava com runas roxas pulsantes.

— Se ele quer brincar de fantasminha camarada... — Dumpt engatilhou a arma com um som seco e pesado de CLACK-CLACK. — ...então é hora do dano mágico puro! Yee-haw!

Ele saltou do prédio em queda livre, disparando uma rajada de energia pura que explodiu em cores violetas, iluminando as ruínas.

No chão, Uzumaki mudou a postura. Ele parou de gingar. Bateu o pé direito no solo com força, rachando o calçamento até atingir o lençol freático abaixo da cidade. — Estilo Rio Sanzo: Despertar do Abismo.

A água subterrânea da cidade, respondendo ao chamado de seu Éter, explodiu para a superfície através das rachaduras. Mas não era líquido comum; era denso, pressurizado. A água se retorceu no ar, assumindo a forma de um enorme dragão serpenteante feito de Éter aquático azul-marinho, rugindo em desafio ao tigre de fogo branco.

Eliza, recuperando a compostura, fez o chakram girar na horizontal. Ela subiu nele como se fosse um skate voador e liberou sua aura ao máximo. Um líquido rosa brilhante, doce e químico, começou a escorrer de suas mãos e se espalhar pelo ar como teias.

— Bubblegum Crisis: Zona de Aderência!

O Éter dela assumiu propriedades de um chiclete industrial pegajoso e elástico, criando armadilhas e redes no ar, pronto para prender o que fosse intangível.

Os três se alinharam em formação de triângulo: Dano Mágico (Dumpt), Controle Elemental (Uzumaki) e Restrição de Área (Eliza).

O Tigre Fantasma se desgrudou do prédio, deixando uma Rum atordoada, mas viva, cair nos escombros. Ele sacudiu o pelo de chamas, virando seus olhos vazios e gélidos para a nova ameaça mágica. Ele parecia sorrir.

A segunda rodada estava prestes a começar, e dessa vez, a física não era convidada.

Parte 10

A maré da batalha mudou. A antiga grandiosidade das Ruínas da Cidade Diamante agora servia de arena para o contra-ataque. Com a adaptação tática do grupo para o dano mágico e elemental, a temida intangibilidade do Tigre Fantasma deixou de ser um escudo absoluto e tornou-se apenas um inconveniente irritante.

Dumpt firmou a base sobre os escombros cintilantes e abriu fogo. Seus cartuchos de Éter concentrado rasgavam o ar com um assobio agudo, iluminando os pilares quebrados antes de explodirem em chamas violetas ao contato. O fogo místico aderia à pelagem espectral da besta, queimando-a com um som perturbador de chiado elétrico e cheiro de ozônio.

Ao seu lado, Uzumaki movia-se com uma fluidez hipnótica. Fluindo como a própria água que controlava, ele desviava das garras maciças com uma ginga rítmica, o corpo passando a milímetros da morte. Ele girou, e a água ao seu redor obedeceu, chicoteando com pressão extrema. Os golpes hídricos cortavam o ar com estalos secos, fatiando a carne espiritual como lâminas de guilhotina invisíveis.

Mas era Eliza quem roubava a cena, transformando aquele cemitério de cristal em seu palco pessoal.

— Lágrima de Stella: Pista de Dança!

Ela saltou sobre seu chakram flutuante, deslizando pelo campo de batalha como uma surfista. Atrás de si, deixava um rastro espesso de líquido rosa-pálido e brilhante, que exalava um aroma enjoativo de produtos químicos doces, contrastando com o ar viciado das ruínas. O Tigre, cego pela dor das chamas de Dumpt e guiado pela fúria, perseguiu o rastro, pisando fundo na substância viscosa.

Instantaneamente, Eliza estalou os dedos. O som foi nítido e final. Plim.

A viscosidade mudou em nível molecular. O líquido, que um milésimo de segundo antes fluía como água, transmutou-se numa borracha adesiva industrial, com tensão superficial mais forte que supercola. As patas do monstro travaram no chão. A inércia jogou o corpo da besta para a frente, mas seus membros ficaram presos, esticando a substância rosa como um chiclete grosso e tenso, quebrando violentamente o ímpeto do ataque.

— Agora! — Eliza girou no ar com a graça de uma bailarina assassina, pairando acima da besta imobilizada. Gotas do líquido residual voaram de suas mãos em todas as direções, capturando a luz das ruínas como joias suspensas. — Chuva de Vidro!

No meio do trajeto, a gravidade parecia esperar por ela. Com um pensamento, ela alterou a propriedade novamente. O "esmalte" rosa endureceu instantaneamente no ar. As gotas suaves tornaram-se milhares de agulhas de cristal, afiadas como bisturis cirúrgicos.

A chuva letal desceu. Elas perfuraram o flanco do Tigre, explodindo em brilho rosa ao impacto e fazendo a criatura urrar — um som gutural que reverberou nas paredes de cristal, fazendo os vidros remanescentes das ruínas vibrarem em simpatia.

Rum observava a execução tática de uma distância segura. Enquanto o vapor sibilava dos pistões de seu braço mecânico durante a recarga, ela não pôde deixar de sorrir, genuinamente impressionada.

"Incrível..." pensou ela, vendo a luz refletir nos cristais rosas cravados no monstro. "Como sempre, a versatilidade dela é assustadora. Ela muda o estado da matéria do Éter com um simples pensamento. Entre nós, ela é, sem dúvidas, a melhor usuária de Habilidade."

Uzumaki limpou o suor frio da testa, observando Eliza criar um escudo de geleia rosa para absorver um impacto e depois transformá-lo em espinhos para contra-atacar, rindo enquanto lutava.

— Tsc. Exibida — ele resmungou, uma veia saltando na testa, os dentes trincados. — Odeio esses prodígios que nascem prontos e fazem tudo parecer brincadeira.

Apesar da irritação e da inveja, ele admitia a força dela. Uzumaki era o oposto polar: um produto de repetição exaustiva, de calos e ossos quebrados. Ele não tinha o dom natural; ele treinava o mesmo chute dez mil vezes até que o Éter não tivesse escolha a não ser obedecer à sua memória muscular.

— Se ela vai criar a abertura, eu vou fechá-la com força bruta! — Uzumaki avançou, transformando sua frustração em combustível.

Ele misturou a fluidez malandra da capoeira com a agressividade linear do taekwondo. — Estilo Rio Sanzo: Martelo da Correnteza!

Ele girou o corpo no ar em um parafuso, e o dragão de água ao seu redor condensou-se inteiramente em sua perna direita, aumentando a massa do golpe. O chute descendente atingiu a cabeça do Tigre com a força cinética de uma tsunami concentrada em um ponto único.

KRAKOOM!

O impacto afundou a cabeça da besta no chão de cristal, criando uma cratera de impacto cheia de água pressurizada.

O Tigre Fantasma, ferido e rugindo de dor, percebeu que a matemática da luta estava contra ele. Seus olhos vazios brilharam com uma inteligência antiga. Ele dissolveu sua forma física em fumaça por um instante, escapando da cola de Eliza e do peso de Uzumaki, e disparou como um raio branco em direção ao pilar central para se recuperar.

— Ele vai fugir?! — Dumpt gritou, confuso com a inteligência da besta, recarregando a escopeta freneticamente, mas estava longe demais para um tiro limpo.

— Não consigo alcançar! — Eliza praguejou, o chakram sem velocidade suficiente para perseguir a forma de fumaça.

O Boss corria livremente, um cometa de energia. No caminho dele, havia apenas destroços de uma civilização morta... e um corpo enrolado em faixas brancas que tinha sido jogado de um lado para o outro como lixo durante a luta.

Mumei abriu os olhos. A visão imediata foi a de uma boca gigantesca, feita de fogo branco e dentes de gelo, vindo em sua direção a duzentos quilômetros por hora, ocupando todo o seu campo de visão.

— AH, QUE MERDA É ESSA?! — Mumei gritou, o pânico absoluto ativando seus reflexos de sobrevivência.

Ele não tentou correr. Ele não tentou bloquear. Ele se desfez.

— Tecido Vivo: Mortalha da Aranha!

O corpo de Mumei explodiu. Ele não estava apenas coberto por faixas; ele era as faixas. Milhares de tiras de tecido branco, imbuídas de Éter reforçado, dispararam em todas as direções. Elas se esticaram e se entrelaçaram em uma fração de segundo, ancorando-se nos prédios em ruínas de ambos os lados da rua, criando uma rede colossal e resistente bem no caminho da besta.

O Tigre colidiu com a teia. As faixas esticaram ao limite, gemendo com a tensão titânica, mas não rasgaram. A elasticidade absorveu o impacto. Mumei, agora recomposto no canto superior da teia, segurou as pontas principais e puxou com toda a força, amarrando a fera como uma mosca gigante em um casulo.

— PEGUEI! AGORA! MATEM ESSA COISA ANTES QUE ELA ME RASGUE! — Mumei berrou, sendo sacudido violentamente pela força do monstro que se debatia.

O grupo não desperdiçou a chance de ouro. Rum, Dumpt, Uzumaki e Eliza alinharam seus ataques, disparando seus golpes mais fortes simultaneamente contra o alvo imobilizado.

KABOOOOOM!

A explosão de Éter colorido — roxo, azul, rosa e dourado — iluminou a cidade inteira, subindo aos céus como um pilar de destruição.

Mas quando a fumaça e a poeira baixaram, o Tigre não tinha desaparecido. Ele não estava morto. Ele estava mudando.

Um pilar de luz fria subiu aos céus, afastando o grupo com uma onda de choque gravitacional que limpou os escombros. O corpo espectral do Tigre começou a se condensar. A luz virou matéria. O espírito virou carne.

Ele começou a ganhar massa, músculos densos e ossos reais que estalavam enquanto cresciam. Ele se ergueu sobre as patas traseiras, a coluna se endireitando, crescendo até atingir cinco metros de altura.

O focinho alongou-se em um rosnado humanoide, os ombros ficaram largos como montanhas. O pelo branco espectral solidificou-se, tornando-se uma armadura natural de quitina branca e gelo eterno. Ele agora era um híbrido profano: um lobisomem-tigre titânico, vestindo trapos de energia antiga que flutuavam ao redor dele como vestes reais.

A criatura bateu os punhos no chão. A cidade inteira rachou com o impacto físico.

Agora ele tinha corpo. Ataques físicos podiam atingi-lo, mas sua pele era dura como diamante bruto. Ataques de energia o queimavam, mas sua resistência mágica havia triplicado com a densidade da carne. Ele perdeu a velocidade do vento, mas ganhou a força bruta de um terremoto.

O Boss, agora em sua forma humanoide, abriu a boca cheia de presas de sabre e concentrou uma esfera de energia azul e branca que zumbia com instabilidade.

— Rugido do Zero Absoluto.

Ele disparou um feixe de gelo concentrado que varreu a rua principal. Não foi um congelamento superficial; a estrutura molecular do ar parou. Prédios inteiros foram congelados instantaneamente, tornando-se vidro azulado, e, segundos depois, estilhaçaram-se em poeira de cristal sob o próprio peso, colapsando em cascatas cintilantes.

O grupo se espalhou, rolando e desviando por milímetros da aniquilação total.

Rum se levantou, limpando o gelo de seus cílios e olhando para a nova forma imponente do Guardião, que bloqueava o sol. Ela cuspiu sangue no chão congelado e sorriu, um sorriso selvagem.

— Ótimo... — ela disse, girando o ombro mecânico. — Agora ele tem músculos. E músculos... eu sei exatamente como quebrar.

Parte 11

O campo de batalha estremeceu, não por um terremoto, mas sob o peso gravitacional de um impasse violento. O ar estava rarefeito, gelado. Ambos os lados, Caçadores e a Besta Guardiã, respiravam com dificuldade, o vapor condensado saindo de suas bocas e narinas formando nuvens densas que se misturavam à poeira de cristal. Não havia mais margem para erros, nem para movimentos desperdiçados.

Mumei, com as faixas do corpo rasgadas e encharcadas de suor frio, cerrou os dentes sob a máscara de tecido. — Vamos nessa... — ele sibilou, a voz rouca.

Mas antes que qualquer um pudesse se mover, Rum deu um passo à frente.

Ela estava no pior estado de todos. O tronco estava marcado por cortes profundos que sangravam através da roupa. Ela parecia uma estátua quebrada que se recusava a cair.

— Rum! — Dumpt gritou, engatilhando a escopeta com mãos trêmulas. — Não faça nada exagerado...

— Calado! — Rum rugiu. Ela virou a cabeça violentamente e cuspiu. Um dente quebrado e uma bola de sangue denso aterrissaram no chão de cristal, manchando a perfeição translúcida com o vermelho da violência. — Eu sou a líder dessa merda. Enquanto eu estiver de pé... Eu não vou aceitar ninguém cair.

Com um pensamento furioso, ela ativou o sistema de Overdrive. O metal do braço mecânico gemeu alto, como uma besta sendo acordada à força, e começou a brilhar em um azul intenso que refletia em mil facetas nos diamantes ao redor. Válvulas de alívio se abriram com um chiado agudo de panela de pressão, liberando jatos violentos de vapor pressurizado que embaçaram o ar frio. Chamas azuis de Éter puro e instável começaram a lamber as engrenagens expostas; o braço não apenas aumentava sua força, ele estava canibalizando o Éter ambiente, convertendo a própria vida dela em impacto cinético bruto.

Ela avançou. Um borrão de fúria e vapor rasgando o cenário cintilante.

O Boss — um colossal Lobisomem-Tigre — percebeu a ameaça. Com um rugido que fez as paredes de cristal vibrarem, ele tentou interceptá-la, desferindo um soco direto coberto de gelo absoluto, congelando a umidade do ar instantaneamente.

Rum não parou. Confiando na propulsão de seu braço, ela deslizou por baixo da guarda da besta. O frio extremo queimou a pele de seu ombro, cristalizando o suor, mas ela já estava dentro do alcance. Ela plantou os pés no chão liso e conectou um gancho de esquerda no estômago blindado da criatura.

BAM!

O impacto foi seco, pesado, reverberando nos ossos de todos os presentes. A armadura de gelo no abdômen do monstro estilhaçou, fragmentos voando como diamantes quebrados.

Rum não deu espaço para a criatura respirar. Esquerda, direita, gancho no fígado, uppercut no queixo. Ela transformou seu corpo em um pistão de demolição industrial. A cada soco, o braço mecânico chiava e estalava, descarregando explosões térmicas. Ondas de choque de dor agoniante subiam pelo ombro dela, rasgando fibras musculares até a espinha, mas a adrenalina abafava os gritos de seu próprio corpo. Sangue escorria livremente de seu nariz, pingando no chão e evaporando instantaneamente ao tocar o metal superaquecido de seu braço, mas ela não diminuía o ritmo. Ela estava batendo mais rápido do que a dor podia viajar até seu cérebro.

O monstro cambaleou, atordoado pela brutalidade cinética. — AGORA! — ela gritou, a voz rouca de esforço.

Num movimento final, ela agarrou o braço peludo do monstro, suas garras metálicas afundando na carne e queimando o pelo, e o torceu com uma alavanca cruel, expondo a criatura para o golpe final da equipe.

Mumei deslizou pelo chão como uma cobra branca e silenciosa. — Mortalha: Grilhões de Ferro! — Suas faixas dispararam, enrolando-se nas pernas grossas e trêmulas da criatura, endurecendo instantaneamente com Éter de reforço, travando-a no lugar como concreto de secagem rápida.

— Vai, Eliza!

Eliza saltou para trás em uma pirueta aérea. — Lágrima de Stella: Ioiô Colossal!

Ela cobriu o chakram com sua resina rosa e o arremessou. A arma girou e cresceu no ar, tornando-se uma roda gigante e pesada, presa por um fio grosso e pulsante de "esmalte" elástico. O chakram atingiu o peito exposto do Boss com a força cinética de um trem de carga, afundando a quitina de gelo e rachando a armadura natural.

CRACK!

O impacto brutal fez o monstro inclinar perigosamente para trás, expondo a coluna vertebral.

— Cachoeira Reversa!

Uzumaki surgiu da névoa de vapor nas costas da criatura, invisível até o último segundo. Ele se lançou horizontalmente no ar, girando o corpo como uma broca humana, envolto em um cone espiral de água pressurizada. O chute perfurante atingiu a coluna da besta exatamente onde a armadura tinha sido enfraquecida.

O Boss foi arremessado para a frente pelo impacto da coluna, voltando violentamente para o alcance de Eliza. Ela puxou o fio elástico com um puxão seco, trazendo o chakram gigante de volta no rebote para um segundo impacto devastador na nuca da besta.

E, para assinar a sentença, Rum saltou. Ela estava no ar, acima da cabeça do monstro. Ela entrelaçou as mãos, o braço mecânico brilhando em azul intenso, quase branco, gritando com energia acumulada. Ela desceu com um golpe de martelo duplo, concentrando todo o seu peso e ódio.

KABOOM!

O Boss caiu de joelhos. O chão ao redor dele não apenas rachou; pulverizou-se em uma cratera circular.

O silêncio caiu por um segundo. Eles venceram?

Mas ele não caiu de cara no chão. A criatura, tremendo, levantou a cabeça. Seus olhos, antes bestiais e vazios, agora brilhavam com uma luz diferente. Fragmentos de pensamentos racionais, memórias de uma vida passada ou de um dever sagrado milenar, cruzaram sua mente fraturada e corrompida.

"Proteger... Eu... não posso deixar... Ninguém... PASSAR!!!!!"

Ele olhou por cima do ombro, para o pilar de diamante atrás dele. Não era apenas instinto territorial de um animal. Era lealdade.

ROAAAR!

O rugido mudou. Não era mais som; era pressão física pura. O Boss abriu os braços, ignorando a dor, e bateu as palmas das mãos com força sônica.

Uma explosão de ar comprimido e vácuo detonou no centro da formação da Tromluí. Lâminas de vento invisíveis, afiadas como navalhas de diamante, cortaram o ar em todas as direções.

— Cuidado! — Dumpt gritou, tentando proteger Mumei, mas foi jogado longe como um brinquedo quebrado.

O vento cortante rasgou as roupas e a pele de todos sem distinção. Rum foi lançada para trás, rolando violentamente pelos destroços, seu braço mecânico soltando faíscas de curto-circuito e fumaça negra.

Quando a poeira baixou, a cena era desoladora. Eles estavam sangrando, espalhados, exaustos. O Éter de todos piscava no vermelho crítico. A desvantagem era clara. O desespero, frio e pegajoso, começou a se instalar nos olhos de Mumei e Eliza. A matemática da batalha não fechava mais.

Mas Rum se levantou. Trêmula, apoiada em um joelho, tossindo sangue. — Levantem-se! — ela ordenou, a voz rouca, gorgolejante, mas inquebrável. — Eu já disse! Vocês não têm permissão para morrer hoje! Não sob o meu comando!

Do lado de fora do portão da cidade, o som da batalha ecoava como trovões constantes e assustadores.

Laeticia estava ajoelhada, concentrada, os olhos fixos na entrada escura das ruínas. Ela tentava sentir as auras de seus companheiros, rezando para qualquer deus que ouvisse para que aquelas luzes não se apagassem.

Ela estava tão focada na frente que não viu quando Yukina, que estava encolhida perto de uma pedra, levantou a cabeça subitamente. As orelhas da garota captaram algo que Laeticia não ouviu: um grito. O grito de Rum.

O trauma da perda de Snow invadiu a mente da menina. O medo paralisante de perder a única pessoa que fazia parte de sua "família" falou mais alto que o medo do monstro gigante.

— Rum...! — Yukina sussurrou, os olhos arregalados de pânico.

Em um surto de adrenalina cega, a garota pequena disparou. Ela correu em direção às ruínas, segurando seu ioiô velho e descascado contra o peito como se fosse uma arma lendária.

— Yukina?! — Laeticia se virou, percebendo o movimento tarde demais. — ESPERA! VOLTA AQUI! É PERIGOSO!

Laeticia fez menção de correr atrás, mas hesitou por um segundo fatal. Seu corpo travou, dividido entre a ordem expressa de Rum de guardar o posto e o instinto de proteger a menina.

Nesse segundo de hesitação, um borrão passou por ela. Dan. Ele não disse nada. Não gritou. Não hesitou. Ele apenas disparou atrás de Yukina, seus pés descalços ignorando as pedras afiadas, movido por uma determinação silenciosa e absoluta.

Longe dali, na orla da floresta, onde as árvores começavam a rarear.

O grupo de resgate parou abruptamente, derrapando no solo.

— Vocês sentiram isso? — Saga perguntou, sua marionete virando a cabeça mecanicamente na direção exata da Cidade de Diamante antiga.

Teth estava pálido, o suor escorrendo pela testa. — Um poder enorme... Está aumentando exponencialmente. É uma colisão de massas de Éter instável.

Ludmilla cerrou os dentes, a frustração estampada no rosto. — Merda. Eu calculei mal. Eu me atrasei.

Ela olhou para o horizonte, onde flashes de luz azul, violeta e vermelha iluminavam as nuvens baixas como uma tempestade elétrica localizada. — A batalha contra o Boss já começou.

Teth olhou para ela, incrédulo. — Sua previsão estava certa?

— Vamos! — Ludmilla não esperou resposta, disparando em velocidade máxima, usando o Strain para cortar caminho pela mata fechada, ignorando os galhos que batiam em seu rosto.

Teth a seguiu voando baixo, as asas de anjo cortando o ar. Saga corria logo atrás, com uma graça inumana e perturbadora, seus sensores analisando as assinaturas de energia à distância.

"Esse Éter..."

Parte 12

A batalha havia deixado de ser um combate tático para se tornar um moedor de carne industrial.

Os membros da Tromluí não lutavam mais com a técnica refinada ou a graça de veteranos; eles lutavam com a determinação enlouquecida e febril de quem já olhou nos olhos da morte e cuspiu de volta. Seus corpos estavam em carne viva, o sangue quente empapando as roupas rasgadas, misturando-se à sujeira e ao suor frio. A cada movimento, o Éter esgotado gritava nas veias como ácido, e a dor, antes desligada pelo coquetel de adrenalina e magia de Rum, voltava agora como milhares de agulhas perfurando as juntas inflamadas.

Mas Rum se negava a cair. Ela era o pilar. — MAIS UMA VEZ! — ela rugiu, o sangue escorrendo pelo queixo, a voz arranhada.

O monstro avançou, uma locomotiva de gelo e fúria imparável. No instante crítico da colisão, Eliza agiu. Com um movimento desesperado dos dedos sangrentos, ela solidificou uma poça esquecida de sua resina rosa bem sob o pé de apoio da criatura. O Boss escorregou, o equilíbrio perfeito quebrado por um milésimo de segundo.

Foi o suficiente. Rum girou o quadril e conectou um soco direto no rosto da besta. O impacto estalou como um trovão sônico, jogando a cabeça gigantesca do monstro para trás, expondo a garganta.

Lá do alto, descendo dos céus como um castigo divino, Uzumaki vinha. Ele girava o corpo em um parafuso impossível, envolto em um tornado de água pressurizada que cortava o ar. — Meteoro da Cascata!

Ele condensou toda a água disponível na sola do pé para o impacto final. O Boss, recuperando a inteligência tática de sua forma humanoide, tentou girar o torso para interceptar Uzumaki no ar antes do golpe.

— Não vai não! — Mumei gritou, os braços estendidos, as veias do pescoço saltando.

Ele não tentou prender o monstro; sabia que suas faixas esfarrapadas não aguentariam a força bruta. Em vez disso, ele criou uma teia geométrica de fios finos ao redor da criatura, um labirinto de barbante.

Dumpt, do alto de uma torre quebrada, disparou. — Barragem de Ricochete: Ponto Cego!

As balas bateram nas faixas tensionadas de Mumei e ricochetearam em ângulos matematicamente impossíveis, contornando a defesa e atingindo as juntas dos joelhos e cotovelos do Boss com precisão cirúrgica. A besta vacilou, a defesa aberta.

Uzumaki acertou. O chute afundou o peito do monstro. A armadura de gelo explodiu. O chão sob eles cedeu em uma cratera.

O impacto foi devastador, mas o custo físico foi alto. A onda de choque do próprio golpe lançou Uzumaki para longe, seu corpo batendo contra uma parede de cristal e deslizando até o chão, sem forças para levantar. Todos sentiram o desgaste. O Éter piscava no zero.

No centro da cratera, o Tigre se levantou, ofegante, vapor saindo de suas feridas. Ele parecia prestes a desmoronar ao menor balançar do vento, mas seus olhos brilhavam com uma loucura renovada e perigosa.

Ele encarou Rum. A líder da Tromluí também tremia, seu braço mecânico vibrando violentamente, o metal vermelho de tão superaquecido, prestes a derreter ou explodir.

Na mente fraturada e corrompida do monstro, a névoa se dissipou por um segundo. Uma memória antiga emergiu do abismo. Ele via um casamento... uma filha pequena sorrindo para ele. Ele tinha que protegê-la. E então, uma figura dourada se sobrepôs a tudo. Um homem de cabelos brancos e olhos amarelos, com um sorriso divino e cruel.

"Agora, Toto... proteja este lugar para mim, está certo? Seja um bom menino. Ninguém pode passar."

— O Rei... Eu devo matar... O REI!

Com um rugido final que rasgou o tecido da realidade, ele queimou sua própria força vital. O Éter explodiu em uma coluna de luz. Ele atingiu sua terceira forma, a proibida: não mais um tigre, mas um gigante humanoide de pura energia, coberto por um manto de pele de lobo estelar e gelo eterno, empunhando o próprio ar congelado como arma.

Ele via o "Rei" no lugar de Rum. A alucinação era completa. Ele concentrou tudo o que restava em seu punho direito. Um ataque suicida. Um golpe para apagar a existência.

Rum percebeu. Seu Éter estava piscando, a última faísca antes da escuridão. Era o momento. "Eu não vou sobreviver a isso..." — ela pensou, o tempo parecendo desacelerar, o mundo ficando cinza. "Mas se eu esquivar no último milissegundo... e contra-atacar com a carga total... eu posso matá-lo... Alegre-se, tigrinho, seu desejo será realizado. Nós dois morreremos. É uma troca justa."

Ela aceitou o destino com a calma dos soldados velhos. Firmou os pés no chão. Preparou o soco final.

O monstro avançou. Eliza tentou se levantar, chorando, gritando para Rum sair dali. Mumei tentou lançar faixas, mas nada saiu de suas mãos trêmulas; seu Éter havia secado. Uzumaki assistia, a impotência queimando mais que os ferimentos.

O golpe vinha em velocidade extrema, mas para Rum, era câmera lenta. Ela viu a abertura. Ela ia esquivar.

— RUM! CUIDADO!

O grito fino e desesperado cortou o campo de batalha.

Yukina apareceu correndo dos escombros, pequena e frágil, entrando na linha de fogo, desesperada para salvar a única família que lhe restava.

O coração de Rum parou. O mundo parou.

Se ela esquivasse... o ataque do monstro não atingiria o ar vazio. Atingiria Yukina. A menina seria vaporizada.

Em uma fração de segundo que durou uma eternidade, a imagem de seu irmão passou por sua mente. O sorriso de Yukina na fogueira na noite anterior.

Rum cancelou a esquiva. Ela desistiu do ataque. Ela abortou a missão suicida para abraçar outra. Ela se jogou para trás, não para bater, mas para cobrir. Ela usou o restante de seu Éter não como uma lança, mas como um escudo, abraçando Yukina e virando as costas para o apocalipse que se aproximava.

O golpe veio.

KABOOOOM!

Uma onda de choque de gelo absoluto e força bruta varreu a praça. Prédios vizinhos desmoronaram como castelos de areia. O chão se partiu em fendas profundas. Uma nuvem de poeira branca, neve e cristais de gelo engoliu tudo, silenciando o mundo.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Pesado.

Eliza, com as pernas trêmulas e o rosto banhado em lágrimas, começou a se arrastar na direção da nuvem branca. — Não... não... tem que ser mentira... por favor, não...

A poeira começou a baixar lentamente.

O Boss estava parado, mas seu corpo começava a se desintegrar. Rachaduras de luz brilhavam em sua pele de gelo. Ele olhou para trás, para o pilar que protegeu até o último suspiro, e começou a caminhar, mancando, retornando ao seu posto antes de se desfazer em partículas de luz e neve, cumprindo seu dever eterno.

Eliza chegou ao epicentro do impacto. O que ela viu fez suas pernas cederem de vez. Ela caiu de joelhos na neve suja, as mãos cobrindo a boca para abafar um grito que rasgaria sua garganta.

Yukina estava encolhida, tremendo, abrindo os olhos lentamente. Ela sentia braços fortes ao seu redor. Rum estava lá, de joelhos, abraçando-a, protegendo-a com o próprio corpo. Rum estava viva.

Rum abriu os olhos, piscando, confusa. Ela sentiu o impacto, o vento, o frio... mas a dor esmagadora da morte não veio. Por quê?

Ela sentiu uma sombra sobre si. Ela olhou para cima.

Dan chegou correndo com os olhos arregalados de choque absoluto, a respiração presa.

Na frente de Rum, erguida contra o branco impiedoso da neve, estava uma muralha profanada de metal e carne. Dumpt.

Ele estava arruinado. Seu corpo mecânico havia sido retorcido, o metal reforçado rasgado como se fosse papel molhado. O horror da imagem roubou o ar dos pulmões de Rum: estacas gigantescas de gelo perfuravam seu peito e abdômen, atravessando a blindagem pesada — aquela mesma blindagem que deveria proteger a ele, a sua esposa, ao seu filho... mas que ele usou, naquele último segundo fatídico, para proteger ela.

Ele havia queimado tudo. Toda a sua força vital, toda a sua aura, convertendo a própria existência em uma barreira física final.

O som foi terrível, um gemido de aço agonizante e pistões falhando. Suas pernas, antes inabaláveis, cederam sob o peso do sacrifício.

— Dumpt?! — O grito de Rum rasgou a garganta.

Ela soltou Yukina sem pensar, o instinto superando o choque, e atirou-se para a frente. Seus braços encontraram o corpo dele a tempo, aparando a queda, impedindo que aquele herói despedaçado colidisse com o chão frio e indiferente.

Ao redor, o mundo parecia desmoronar em luto. Mumei arrastava-se pela neve, o choro copioso sendo o único som além do vento. Uzumaki, consumido pela impotência, socava o solo congelado com violência cega, destruindo as próprias mãos até os dedos sangrarem, a frustração queimando como ácido em sua garganta.

Mas o mundo de Rum reduziu-se àquele rosto em seus braços.

Dumpt olhou para ela. Havia uma intimidade devastadora naquele olhar. O óleo vazava de seu olho mecânico estilhaçado, escorrendo como lágrimas negras, espessas e oleosas, que se misturavam de forma grotesca e poética ao sangue vermelho vivo que borbulhava de sua boca humana. A luz em seu olho bom estava piscando. Falhando. Perdendo a cor.

Então, ele sorriu. Foi um sorriso torto, metálico, e dolorosamente humano.

— Foi mal... Rum... — A voz dele não era mais a do homem forte sem restrições; era um chiado estático, fraco, entrecortado por falhas críticas no sistema e pelo engasgar do sangue. — ...Eu não queria... te fazer chorar ainda mais... mas acho... que falhei...

O tempo parou.

A luz azul no olho dele piscou uma última vez, lutando contra a escuridão, e então... se apagou. O zumbido constante e reconfortante de suas engrenagens silenciou. O peso de seu corpo mudou instantaneamente nos braços dela; tornou-se inerte. Pesado. O peso absoluto da morte.

O silêncio que se seguiu foi mais alto que qualquer explosão.

— Dumpt... Ei... — A voz de Rum tremeu, pequena diante daquela realidade. — Que história é essa... eu disse que você não podia cair... ei... ACORDA! DUMPT!

Ela apertou o corpo destruído contra o peito com força desesperada, não se importando com o óleo negro e o sangue quente que manchavam suas roupas e sua pele. Rum gritou. Não foi um chamado, mas um uivo de dor pura, visceral, que ecoou pelas ruínas da cidade morta, um som tão carregado de perda que assustou até os fantasmas que habitavam os escombros.

Enquanto o luto consumia os sobreviventes na praça gelada, no topo de um prédio alto, longe da destruição e seguro, uma figura observava. Seus cabelos pretos com mechas vermelhas balançavam ao vento gélido, e seus olhos dourados brilhavam com uma diversão sádica e apreciação estética.

Alone sorriu, batendo palmas lentas e irônicas.

— Bravo... — ele sussurrou para o vento, deliciando-se com a tragédia. — Esse foi, de fato, um belo espetáculo. Um verdadeiro show divino digno de um deus.

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