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The Fall of the Stars : Capítulo 5 - Floresta do Delírio

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 20 de dez. de 2025
  • 35 min de leitura

Volume 9: O Mais Fraco

Parte 1

No presente, a fumaça subia em colunas negras contra o céu psicodélico da Floresta do Delírio.

Um acampamento improvisado havia sido montado às pressas em uma clareira segura. Brinquedos de pelúcia gigantes, parcialmente chamuscados, e manequins de madeira com membros faltantes corriam de um lado para o outro, carregando passageiros feridos e distribuindo suprimentos com uma eficiência mecânica.

Ludmilla estava parada na borda do acampamento, os braços cruzados, ignorando um corte superficial em sua bochecha. Seus olhos estavam fixos no alto, onde a enorme ponte ferroviária de metal retorcido pendia sobre o abismo como o esqueleto de uma besta morta. O "Trem dos Sonhos" agora não passava de destroços fumegantes espalhados pelo vale.

Sua mente, no entanto, não estava na destruição à sua frente. Ela estava rebobinando a fita, voltando algumas horas no tempo, tentando entender onde exatamente tudo tinha dado errado. Ela refazia os últimos passos dentro daquele vagão de luxo, pouco antes do inferno começar.

O vagão privado de Dante e Ludmilla era um exemplo de opulência, com poltronas de veludo e madeira polida. Mas o conforto era apenas uma ilusão. O ar estava pesado, carregado com a paranoia silenciosa de Ludmilla.

Ela olhava para Dante, que encarava a paisagem distorcida da floresta passando pela janela. Ludmilla mordia a unha do polegar, um tique nervoso que raramente demonstrava.

“Eu tenho que dar um jeito de explicar para ele...” — ela pensava, os olhos varrendo o vagão em busca de escutas invisíveis. — “Mas é complicado. Se eu falar agora, a Saga vai escutar. Mas... se ela já sabe que eu sei, faz diferença? A menos que ela esteja apenas suspeitando. Falar em voz alta seria confirmar a suspeita dela.”

Dante percebeu a inquietação dela. Ele a encarou, curioso, mas manteve o silêncio. Seus instintos, agora mais afiados e selvagens, diziam que o perigo estava no ar, mas ele não entendia a fonte.

Ludmilla suspirou, soltando o ar com frustração. Ela decidiu arriscar.

— Ficar receoso e deixar você no escuro pode ser mais perigoso do que mostrar para ela que eu realmente sei o que está acontecendo.

Dante franziu o cenho, endireitando-se na poltrona. — Do que você está falando?

Ludmilla se inclinou para a frente, baixando o tom de voz, transformando a conversa em algo quase conspiratório.

— Você não deve saber, por conta da "viagem" de vinte anos que você fez. Durante o tempo que você ficou fora, os Caçadores e usuários de Éter desenvolveram e refinaram as técnicas. Algumas já existiam, claro, mas hoje se tornaram mais comuns.

— "Comuns"? — Dante repetiu.

— Vou tentar explicar de forma simples, então preste atenção e deixe as perguntas para o final — ela pediu, o olhar sério. — Como você sabe, na manipulação do Éter existe a base. Os Fundamentos. São as formas de manipular a energia para moldar seus poderes. São o primeiro degrau. Tão básicos que Gifteds usam de forma inconsciente, mesmo que dominá-los exija um treino infernal.

Dante assentiu, a memória do treinamento brutal com as garotas da Criminal Moon vindo à tona. A dor de forçar o Éter a obedecer, de moldá-lo pela primeira vez.

— Mas... — Ludmilla ergueu um dedo. — Por ser o primeiro degrau, significa que existem outros. Níveis superiores que qualquer usuário pode subir, independentemente de qual seja sua Habilidade única. Chamamos isso de Técnicas Avançadas.

Ela olhou nos olhos dele. — O Strain que usamos é uma delas. Uma mistura complexa de Reforço e Conjuração para distorcer o espaço pessoal e encurtar distâncias. Mas existe outra. Aquela que a Saga mencionou.

Dante semicerrou os olhos, lembrando da palavra dita pela marionete. — Oblast.

— Exato — Ludmilla confirmou, um tremor passando por sua voz. — Quando a ouvi dizer aquilo, fiquei sem chão. O Oblast é uma técnica de aura extrema. Ela mistura Manipulação, Aprimoramento e Regulamentação. É rara, não porque é difícil de entender, mas porque é insanamente difícil de aplicar na prática.

Dante parecia confuso. — Aplicação? Como assim?

— Dante, você já ouviu falar sobre o "Sexto Sentido"?

Dante pensou por um momento. — Você diz... a Propriocepção? Ou aquela coisa filosófica de sentir a alma?

— Esses existem, mas estou falando dos sentidos convencionais extras. O Instinto de Caçador.

Ludmilla começou a explicar, sua voz assumindo um tom acadêmico, mas urgente. — Há tempos, em Elysium, houve uma pesquisa. Eles queriam provar que o "Instinto de Caçador" não era metáfora. Colocaram Caçadores e civis para resolver puzzles e testes físicos vendados. Os Caçadores sempre tinham resultados absurdamente superiores. Quando transformaram civis em Caçadores, a discrepância cognitiva e sensorial deles aumentou drasticamente.

— É como afiar uma faca enferrujada — Dante murmurou, começando a entender.

— Exatamente. Todos os seres vivos têm esse sentido latente, uma herança evolutiva para sobreviver ao perigo. Na sociedade comum, ele atrofia. Mas quando nos tornamos Caçadores, quando o Éter inunda o corpo e o perigo se torna rotina, o corpo desperta isso.

— Tá, entendi a biologia — Dante a cortou, impaciente. — Mas o que isso tem a ver com a Saga e o Oblast?

— Tudo. — Ludmilla se aproximou ainda mais. — O Oblast conecta esse Sexto Sentido ao Éter externo.

Dante franziu a testa. — "Éter externo"?... Mas o Éter é a energia interna, o "líquido". A aura é o "vapor" que sai quando aquecemos o Éter com a Vontade. Eles são diferentes.

— Sim. Mas o Oblast força uma fusão. Você usa o Éter para reforçar e expandir a sua aura, transformando-a em uma extensão do seu sistema nervoso.

Os olhos de Dante se arregalaram. — Espera...

— Ao fazer isso — Ludmilla continuou, rápida —, você cria um campo sensorial. Um Caçador usando Oblast não precisa ver ou ouvir com os olhos e ouvidos. Se a aura dele toca algo, ele sente. Ele sabe a pose de uma pessoa atrás de uma parede, pode "ouvir" a vibração das cordas vocais, sentir o cheiro. Tudo o que está dentro da aura se torna parte do corpo dele.

Dante recostou-se na poltrona, o peso da revelação caindo sobre ele. — Então... se a Saga usa isso...

Ludmilla concordou, o rosto pálido. — Significa que a aura dela não cobre apenas uma sala. Ela cobre cidades. Wonder inteira estava dentro do sistema nervoso dela. E provavelmente... nós também estamos agora.

Dante suou frio. A sensação de estar sendo vigiado não era paranoia. Era literal. Eles estavam caminhando dentro da "pele" de Saga.

— Aquele sentimento de vigilância... foi por isso — Ludmilla murmurou, olhando pela janela para a floresta colorida e bizarra.

Dante se levantou abruptamente, precisando se mover. O conceito era claustrofóbico. — Se ela é capaz de ver o mundo todo assim... — ele começou, andando pelo vagão. — ...então ela devia saber. Ela devia ter visto os terroristas marchando. Ela devia ter visto o Snow chegando.

Ludmilla também estava pensando nisso. — Exato. Se ela vê tudo, por que não impediu? Por que não avisou o Teth antes? Será que existe uma fraqueza? Um ponto cego? Ou... será que ela deixou acontecer?

O estômago de Dante roncou alto, quebrando a tensão intelectual com uma necessidade biológica bruta. — Argh... pensar demais me deu fome — ele reclamou, passando a mão na barriga. — Vou ver se acho o vagão-restaurante. Preciso comer algo.

Ludmilla riu, balançando a cabeça. — Traz algo para mim também.

Dante fez um sinal de positivo e saiu do vagão, deslizando a porta.

Ludmilla ficou sozinha, olhando para a paisagem que passava rápido. Ela continuou sua linha de raciocínio, tentando encontrar a falha na onisciência de Saga.

Foi então que ela percebeu.

O sentimento. Aquela pressão constante na nuca, a sensação de pele arrepiada que indicava que alguém estava observando... havia sumido.

“Parou?” — Ludmilla pensou, estranhando. — “Desde quando? Faz alguns minutos? Será que saímos do alcance dela? Mas deveríamos estar indo em direção a ela...”

A ausência da vigilância era mais aterrorizante do que a presença dela. Significava que eles estavam em uma zona morta. Um ponto cego.

E se eles estavam em um ponto cego...

— DANTE! — Ludmilla gritou, levantando-se num pulo.

KABOOM!

A explosão não veio de dentro. Veio de baixo. A ponte sob os trilhos foi detonada. O vagão girou violentamente, o metal gritando enquanto o trem era arremessado para fora dos trilhos, mergulhando em direção à Floresta do Delírio abaixo.

Parte 2

Na clareira improvisada à beira da Floresta do Delírio, o caos da evacuação começava a ganhar uma ordem surreal. O cheiro de metal queimado e magia residual impregnava o ar, lutando contra o aroma doce e enjoativo das flores da floresta.

Ludmilla estava parada sob a sombra da ponte quebrada, observando o esqueleto de metal retorcido que pendia como garras no céu psicodélico. Sua mente operava em overdrive, ignorando o cansaço e a dor, refazendo a trajetória balística do desastre e calculando probabilidades.

Teth, Philia e Silence se aproximaram, suas expressões variando entre preocupação genuína e confusão atordoada. — Infelizmente... — Teth começou, sua voz pesada como chumbo. — Varremos a área. Não encontramos o Dante em lugar nenhum. Nem corpo, nem sinal de fuga.

Ludmilla não se surpreendeu. A frieza analítica tomou conta. — Eu imaginava.

— Isso confirma o pior cenário: ele foi levado. Sequestrado junto com os outros desaparecidos pelos causadores do ataque — Teth concluiu. — Malditos Pesadelos... aproveitaram o caos para colher "mercadoria".

— Mas como? — Ludmilla murmurou, a pergunta não sendo retórica, mas técnica. — Como eles conseguiram montar uma emboscada dessa magnitude sem que Saga tenha conseguido ver?

— Atualmente, a Floresta do Delírio é uma zona cinzenta — Teth explicou. — É território neutro, fora da jurisdição direta.

Ludmilla franziu o cenho, insatisfeita com a resposta vaga. Philia, percebendo a lacuna de informação, interveio suavemente.

— Ah! É verdade, você ainda não sabe sobre a geopolítica de Morpheus — Philia disse, gesticulando para a floresta. — Sonhos e Pesadelos estão em uma guerra fria constante por terras. Os Pesadelos vivem em áreas inférteis e destruídas, então tentam constantemente invadir e roubar os territórios férteis dos Sonhos. Mas esta floresta... ninguém a controla. Embora os Pesadelos gostem de dizer que é deles, a verdade é que ninguém, nem mesmo o Rei, consegue dominá-la.

— Entendi a política territorial — Ludmilla cortou, impaciente. — Mas minha dúvida é outra, não política. Como a Saga não viu o ataque? Ela tem o Oblast. Ela deveria ser capaz de vê-los se movendo.

De repente, a marionete perfeita de Saga, que estava parada ao lado deles como uma estátua, ganhou vida. O movimento foi fluido, sem o som de engrenagens. Ela se aproximou por trás de Ludmilla, tocou seu ombro levemente com dedos frios e rígidos, e beijou o ar perto de sua bochecha.

— Agradeço o elogio por achar que meu poder é absoluto, querida — a voz aveludada de Saga soou. — Mas, infelizmente, sou apenas uma menina com limitações tristes.

Ludmilla se virou. — Limitações?

— Meu poder utiliza as "Veias do Dragão", as Linhas Ley de Morpheus, para espalhar minha aura e percepção como uma rede neural — Saga explicou calmamente, como uma professora paciente. — É como uma rede de vigilância. Mas a rede precisa de cabos. Locais selvagens, caóticos e saturados de magia instável como esta floresta não possuem Linhas Ley consistentes. Portanto... é uma zona cega para mim. Um buraco negro no meu mapa.

— Uma zona cega perfeita para armadilhas — Teth adicionou, amargo. — Eu devia ter sentido a presença deles mais cedo. Mas eles foram espertos, esperando exatamente sob a ponte, onde a interferência magnética natural da floresta mascararia suas auras até o último segundo.

— A Floresta do Delírio é um lugar complicado... — Philia murmurou, abraçando a si mesma enquanto olhava para as árvores coloridas que pareciam se mover quando ninguém olhava diretamente.

— Mais do que complicado — Silence corrigiu, balançando as pernas enquanto estava sentada em uma pedra, parecendo estranhamente calma. — É um labirinto vivo.

Ludmilla olhou para ela, captando a nuance. — Labirinto vivo?

Silence tentou explicar, mas se atrapalhou com as palavras, gesticulando vagamente com as mãos pequenas. — É que... o labirinto é rabugento. Ele não gosta das pessoas. Então ele não deixa elas passarem para onde querem!

A explicação infantil fez Ludmilla suspirar. Ela olhou para Teth em busca de tradução adulta.

— O que ela quer dizer — Teth assumiu o fardo da explicação — é que a geografia daqui não obedece à lógica euclidiana. Um labirinto normal serve para confundir seus sentidos, mas se você mapeá-lo, ele pode ser resolvido matematicamente. Aqui não. Esta floresta muda constantemente. Às vezes, leva semanas para cruzar um único quilômetro. Outras vezes, três passos te levam da entrada à saída. Não importa o mapa ou bússola; enquanto você estiver aqui dentro, a floresta decide o seu destino, não seus pés.

No momento em que Teth explicou a mecânica espacial do lugar, uma epifania atingiu Ludmilla como um raio. As peças do quebra-cabeça se encaixaram com um clique audível em sua mente.

"Uma geografia não euclidiana em constante mudança..."

— Espera... — Ludmilla interrompeu, os olhos arregalados. — Nessa floresta... é comum monstros aparecerem, serem mortos, e voltarem depois de um tempo?

— Sim — Teth confirmou.

— E existem relíquias e tesouros antigos escondidos aqui? — ela perguntou, virando-se para Philia.

— Sim, muitos loucos vêm aqui por causa disso — Philia assentiu.

— E até agora ninguém conseguiu mapear ou completar uma viagem segura por toda a floresta, certo?

Os três concordaram em uníssono.

Ludmilla teve sua confirmação absoluta. "Não é possível... sério? Uma Dungeon? Uma instância de RPG clássica nesse mundo?"

A realidade da situação mudou completamente. Não era apenas uma floresta perigosa. Era uma estrutura mágica autônoma, governada por regras. Sem qualquer rastro de dúvidas, aquela floresta era uma Dungeon.

— Temos que ir atrás do Dante agora! — Teth disse, pronto para correr. — Vamos rastrear os mercadores de escravos antes que eles sumam!

— Não! — Ludmilla gritou, parando-o com autoridade.

Todos olharam para ela, chocados. — Não acha que temos que ajudar o Dante? — Philia perguntou, confusa com a aparente frieza.

— Se eu conheço bem o Dante, a essa altura ele já deve ter se soltado e escapado — Ludmilla disse, confiante. — Ele sabe se virar contra bandidos comuns. Mas agora... tem algo muito mais urgente e letal do que mercadores de escravos.

Ela olhou profundamente para a escuridão vibrante da floresta. — Se isso é uma Dungeon, significa que em algum lugar aqui dentro existe um Núcleo. Um Guardião. Um Boss. Algo muito mais perigoso que simples monstros errantes.

Ela se virou para o grupo, o olhar intenso e focado. — Nessa floresta... existe alguma lenda sobre um monstro antigo e poderoso? Algo como um "Rei dos Monstros" ou um "Senhor da Floresta"?

Teth parou para refletir. — Existe sim. São lendas de vários Ciclos atrás... Dizem que antigamente, o centro desta floresta era uma capital, conhecida como a Cidade Diamante. Mas houve uma tragédia. Um ataque de uma Calamidade.

— Um Tigre Fantasma — Saga completou, sua marionete imóvel. — Dizem que ele massacrou milhares e devastou a cidade em uma única noite. Foi ele quem supostamente trouxe a floresta à vida com seu Éter corrompido, isolando as ruínas da cidade para sempre.

Ludmilla estalou os dedos. "Como esperado... Sem dúvidas, esse é o Boss dessa Dungeon."

Ela imediatamente entrou em modo de combate tático. — Alguém tem um caderno? Ou um pedaço de papel? Preciso escrever, agora.

Saga, intrigada com a mudança de postura, fez surgir um pequeno bloco de notas de couro e uma caneta-tinteiro das dobras do vestido da marionete e entregou a Ludmilla.

Enquanto Ludmilla começava a rabiscar furiosamente — desenhando diagramas de fluxo, conectando o comportamento aleatório do labirinto com a lenda do tigre —, Saga a observava, seus olhos de vidro analisando cada microexpressão.

"Ela nem está mais pensando em esconder sua inteligência ou habilidades... Parece que a preocupação com o garoto superou a cautela e o segredo. Não é desespero; é foco absoluto. Como uma leoa analisando a topografia antes da caça. Eu não estava errada. Essa garota é uma caçadora nata, talvez até mais perigosa que o outro garoto."

Ludmilla levantou os olhos do caderno, onde havia anotado: Trilhos quebrados -> Labirinto -> Boss Tigre -> Cidade Diamante.

— Vocês têm alguma informação sobre as habilidades desse Tigre? — ela perguntou.

— Uma das minhas marionetes está na biblioteca da Cidade Cristal com um livro sobre esse incidente agora mesmo — Saga respondeu. — Vou relatar o que ela está lendo em tempo real. Aparentemente, ninguém sabe a origem da besta. Quando apareceu, era espectral, fantasmagórico, feito de puro Éter intangível. Ataques físicos atravessavam ele. A batalha durou três dias e três noites.

— “Quando apareceu”? — Ludmilla perguntou.

— Sim. — Saga confirmou, impressionada com a dedução. — No meio da batalha, ele alterou sua forma. Ficou maior, quase humanoide, e seu corpo ganhou solidez física para esmagar as muralhas. Além disso, parece que ele adquiriu uma terceira forma no final, mas o relato é impreciso e fragmentado devido ao pânico das testemunhas.

— Qual era a descrição da terceira forma?

— Ainda mais humanoide — Saga disse. — Como um gigante vestindo a pele e o crânio de um tigre como armadura.

Ludmilla parou de escrever, a caneta pairando sobre o papel, a tinta pingando. "Isso não faz sentido..." — ela pensou, mordendo o lábio. "Um Boss evoluir é a norma. Mas a evolução geralmente vai do Físico para o Espiritual, à medida que o Éter satura e transcende a carne para se tornar imune a dano convencional. Esse Boss fez o caminho inverso. Do Espectral (invulnerável) para o Físico (vulnerável)? Isso significaria que ele ganhou corpo e, portanto, fraquezas físicas, ao invés de invulnerabilidades. Por que um Boss 'evoluiria' para ficar mais matável? Tem alguma coisa escondida aí."

— Por que todas essas perguntas? — Teth perguntou, impaciente, batendo o pé. — Deveríamos ir logo atrás do Dante! Cada segundo conta!

— Na realidade, a única forma de salvar o Dante é indo atrás desse Boss — Ludmilla declarou, fechando o caderno com um estalo. — Se eu conheço bem o Dante... e a sorte maldita dele... de alguma forma ele vai acabar direto no colo dessa coisa.

Ela olhou para a floresta escura, que parecia respirar. — E não será uma luta justa. Não no estado instável em que ele está. Ele está em desvantagem. Se ele encontrar esse Boss sem saber qualquer informação, ele vai morrer.

— Isso é uma aposta arriscada — Teth argumentou. — Podemos acabar desperdiçando tempo caçando um mito enquanto ele está sendo acorrentado.

— De acordo com o livro — Saga interveio a favor de Ludmilla —, a criatura gerou a floresta com seu poder. Se a derrotarmos, a fonte de energia do labirinto colapsa. A floresta desaparece ou o labirinto se desfaz, o que revelaria a localização de todos instantaneamente. É um cheque-mate.

Teth bufou, derrotado pela lógica implacável das duas mulheres. — Certo. Vamos caçar um tigre.

— No entanto — Saga levantou um dedo —, apenas nós três iremos. Senhorita Silence, Senhorita Philia... peço que fiquem aqui na base.

— O quê? Não vamos abandonar o Dante! — Silence protestou, batendo o pé.

— Existe a possibilidade dele voltar ou de acabar se perdendo no labirinto e chegando aqui de novo — Saga argumentou suavemente. — É vital ter alguém de confiança esperando na saída, caso ele retorne ferido. Melhor do que todo mundo vagando sem rumo e se desencontrando.

— Mas... vocês vão lutar contra um monstro antigo e desconhecido só os três? É loucura! — Philia exclamou.

— Na realidade, a Senhorita Ludmilla, pelo pouco que analisei, é muito mais capaz do que sua aparência sugere — Saga disse, virando o rosto de boneca para Ludmilla. — Ela conseguirá se virar. Teth é um Cavaleiro Real. E, mesmo que eu seja só uma frágil marionete aqui, alerto que o Senhor Alone já está a caminho da Cidade Diamante. Teremos nossa própria cavalaria pesada chegando pelo outro lado em breve.

Ludmilla notou o uso do nome "Alone", mas apenas arquivou a informação.

— Vamos — Ludmilla disse, decidida.

Eles se despediram de Silence e Philia e se viraram para a parede verde da floresta densa e mutável.

Enquanto caminhavam para a escuridão, Teth olhava de soslaio para Ludmilla e Saga, percebendo que havia uma comunicação tácita e perigosa fluindo entre as duas, um nível de entendimento estratégico frio que ele, um guerreiro de coração, não possuía.

Ludmilla, por sua vez, apertava os punhos, sentindo o suor nas luvas. "As chances estão contra a casa. O Dante é uma bomba-relógio. Ele pode perder o controle dos poderes e virar um monstro, ou pior... tentar lutar como se ainda tivesse o Tempo a seu favor e ser massacrado. Em termos de combate puro, ele é um Caçador de Rank A sólido. Um Boss normal seria difícil, mas viável. Mas esse Boss... ele tem mecânicas totalmente desconhecidas. E o Dante nem sabe que está em uma dungeon."

Ela olhou para as próprias mãos, prontas para o combate. "Vou ter que deixar a Saga ver as minhas habilidades. É arriscado entregar meus trunfos assim. Mas salvar a vida daquele idiota é, infelizmente, mais urgente."

Parte 3

A floresta estava em chamas, mas não era um incêndio natural. O ar tinha o cheiro químico de ozônio misturado com o aroma acobreado de sangue fervido.

Dante cambaleava, o centro de um furacão pessoal. Sua aura carmesim não apenas brilhava; ela pulsava e estalava como um reator em colapso, chicoteando o ar com raios negros e vermelhos que vitrificavam o solo onde tocavam.

De repente, a terra sob seus pés convulsionou.

Com um som de rasgo úmido e mineral, criaturas grotescas irromperam do solo. Eram amálgamas profanos de terra compactada, ferro retorcido e uma substância negra viscosa que agia como sangue. Elas queimavam com chamas azuis. Um dos monstros, uma torre de sedimentos vivos, desceu um braço que parecia um pilar de concreto armado sobre ele.

O impacto foi tectônico.

Dante cruzou os braços em um bloqueio instintivo, mas a força cinética o arremessou como uma boneca de pano. Enquanto seu corpo quebrava árvores e arava a terra, sua mente se fragmentava, incapaz de distinguir o agora do ontem.

Flashes invadiram sua visão, sobrepondo-se à realidade: O rosto dos sequestradores, distorcidos não pelo medo, mas derretendo em sua memória... Ele mesmo, coberto por um sangue quente que não lhe pertencia, o gosto ferroso inundando a língua... As jaulas. Os Sonhos lá dentro não choravam mais; eles riam e aplaudiam, torcendo por sua selvageria como uma plateia no coliseu... Niklaus surgia nas sombras das árvores, o olhar dourado e arrogante, a espada gotejando o sangue de Nero... Kali, com a lâmina longa pronta para o abate... E a Senhorita Vida, olhando para ele com aquela pena insuportável.

Ele parou de rolar, o corpo estirado na lama. Sua memória era um queijo suíço, cheia de buracos. Algo primitivo, algo faminto, estava tentando devorá-lo de dentro para fora.

Para impedir que a loucura tomasse o volante, ele precisava de uma âncora. Ele usou a única coisa que restava: a dor.

Ele bateu a cabeça contra o chão de pedra. Crack. Uma vez. Crack. Duas vezes. A dor aguda clareou a névoa. O sangue escorreu pela testa, quente, viscoso e inegavelmente real.

— AAAAAARGH! — O rugido que saiu de sua garganta não era humano. Era o som de uma besta encurralada, um desafio à própria existência.

Mais monstros surgiram, atendendo ao chamado da violência. Três deles eram titãs, feitos de rocha vulcânica e magma azul pulsante. Eles levantaram os punhos, sincronizados, para esmagar o inseto vermelho.

Dante não esperou. Ele não se levantou como um homem; ele disparou de quatro apoios, uma mancha carmesim. Cravou as unhas na "pele" de pedra do gigante, perfurando a rocha. Escalou o braço do monstro em segundos, desafiando a gravidade. Ao alcançar o rosto da criatura, ele apontou os dedos em forma de pistola, o cano imaginário pressionado contra o olho brilhante da besta.

— Queime, Estrela Rubra... Tenka!

BOOM!

A esfera de Éter não apenas explodiu; ela aniquilou. O disparo à queima-roupa acelerou instantaneamente, criando um vácuo térmico que derreteu rocha, sublimou ferro e incinerou o ar. A cabeça do gigante deixou de existir, vaporizada em uma nuvem de escória derretida e luz.

Dante saltou do corpo decapitado em queda livre, sua aura emitindo descargas elétricas violentas. A fúria não era mais uma emoção; era o combustível que corria em suas veias como veneno fervente.

A batalha regrediu ao primitivo. Dante não lutava com técnica; ele caçava. Ele socava até quebrar a pedra, arranhava até o ferro ceder, rasgava a essência das criaturas.

De repente, as faixas que cobriam seu braço direito começaram a sibilar e a se desintegrar, consumidas por uma energia sombria que transbordava de seus poros.

O braço sofreu uma mutação horrível e fascinante. A carne inchou, os ossos estalaram e se reconfiguraram, tornando o membro desproporcionalmente grande, uma massa de escuridão sólida e muscular. Os dedos se alongaram em garras afiadas, pontiagudas, bestiais. A coloração era um gradiente de pesadelo: começava com um preto profundo no ombro e transitava para um vermelho incandescente nas pontas, como se a mão tivesse acabado de ser tirada de uma forja celestial.

Com um rugido gutural, Dante saltou sobre os outros dois gigantes. Com a mão monstruosa, ele esmagou o crânio de um como se fosse uma uva e rasgou o peito de rocha do outro como se fosse papel molhado, buscando o núcleo.

Mas a Floresta do Delírio era implacável. Mais monstros brotavam da terra, uma hidra de pedra e ódio. Dante era golpeado, arremessado contra rochas, esmagado, mas quicava de volta como uma bola de borracha feita de ódio. Coberto por sua aura, ele mordia as criaturas, arrancando pedaços de sombra e engolindo-os, o sabor do Éter corrompido tornando-o mais forte, mais rápido, mais insano.

Ele girou sobre o calcanhar para encarar uma nova horda e liberou outro Tenka. Desta vez, não foi uma esfera, mas um feixe largo de destruição contínua que desintegrou uma linha reta de dez monstros, abrindo uma clareira de silêncio fumegante.

Ele rugiu para o céu psicodélico, desafiando a própria floresta a tentar matá-lo.

No alto de um barranco, longe o suficiente do calor, mas perto o suficiente para ver o horror, um grupo de quatro figuras observava a carnificina.

— Beleza... — disse um homem alto, ajeitando os óculos no nariz com a ponta de um cajado longo e elegante. Ele parecia um professor cansado de uma turma indisciplinada. — Viemos até aqui, desviando da rota, porque você jurou que sentiu a presença de um Prim, Oliver. Mas me explica agora... o que diabos é aquilo?

O grupo era, no mínimo, eclético. O homem de óculos e cajado, que exalava a aura de um estrategista exausto (Arquinos). Ao lado dele, uma garota pequena segurava dois facões enormes e enferrujados nas mãos. Atrás, uma montanha de músculos com dreadlocks (Rugerd) cruzava os braços grossos como troncos. E à frente de todos, Oliver, um sujeito loiro de óculos redondos, o corpo coberto de tatuagens.

Oliver coçou a nuca, um sorriso nervoso e excitado nos lábios, enquanto observava Dante estraçalhar um golem com as próprias mãos nuas. — Eu sei que visualmente parece difícil de acreditar, Arquinos. Mas aquela coisa rugindo, babando e matando... é um Prim. Eu acho. Quase certeza.

— "Você acha"? — Arquinos suspirou, massageando as têmporas onde uma enxaqueca começava a nascer. — Isso não é nem um pouco tranquilizador. Do jeito que ele está lutando, sem controle, essa parte da floresta vai se tornar uma zona de exclusão. Ele ativou o mecanismo de defesa do bioma; esses monstros geomórficos vão continuar surgindo infinitamente até que alguém ache o núcleo e o destrua.

— Sendo assim... — Rugerd, o gigante, estalou os dedos das mãos, o som parecendo pedras sendo moídas. — Que tal a gente descer lá e dar uma mãozinha para a "fera"?

Oliver sorriu, os olhos brilhando com a promessa de caos atrás das lentes redondas. — Até que não é uma má ideia. Um pouco de exercício antes do almoço.

Sem hesitar, Oliver flexionou os joelhos e saltou do barranco.

— Tá brincando, né?! — Arquinos gritou, a voz falhando de incredulidade.

Mas a lógica já tinha sido abandonada. A garota dos facões deu de ombros e saltou logo atrás de Oliver, girando no ar. Rugerd soltou uma risada grave e pulou também, o chão tremendo e levantando poeira quando ele aterrissou lá embaixo.

Arquinos ficou sozinho no topo, o vento agitando suas vestes, olhando para o céu como se pedisse paciência aos deuses para lidar com aqueles idiotas.

— Qual é, Arquinos! — a voz de Oliver ecoou lá de baixo, jovial, enquanto ele corria em direção ao inferno. — A vida é feita de experiências! E essa parece que vai ser marcante!

— Eu não acho que vou gostar dessa experiência! — Arquinos gritou de volta, furioso, mas já resignado. Ele preparou seu cajado, murmurou um feitiço de proteção e saltou atrás deles.

Lá embaixo, Oliver se aproximava da zona de combate, observando Dante continuar sua sequência de ataques brutais, uma tempestade viva de vermelho e preto. — Aquele cara não é normal... — Oliver comentou, desviando com facilidade de um braço de monstro decepado que voou em sua direção. — Um maníaco desses... parece perfeito pro nosso time, não concordam?

— FICOU MALUCO?! — Arquinos aterrissou ao lado dele com elegância mágica, ajeitando os óculos tortos. — Aquele cara nem é um "cara"! É um cataclismo em forma humana!

Antes que pudessem discutir a sanidade do recrutamento, a horda de monstros parou. Dezenas de olhos brilhantes de magma azul se viraram, notando os novos intrusos.

Oliver sorriu, a aura começando a envolver seus punhos tatuados. — Melhor parar de reclamar e começar a trabalhar, Arquinos. Porque eles já estão vindo dar as boas-vindas, Senhor Commander.

Parte 4

A batalha explodiu em um caos que, para olhos destreinados, parecia suicídio, mas para aquele grupo, era apenas terça-feira. A horda de monstros geomórficos, uma maré viva de terra compactada e ferro enferrujado, avançava implacável. Mas agora, havia uma nova variável complexa na equação: eles.

Oliver foi o primeiro a interceptar a linha de frente. Ele deslizou com a graça de um patinador no gelo por baixo de um gigante de pedra que tentava esmagar Dante contra o chão. Com um movimento de alavanca preciso, chutou o centro de gravidade da criatura, desequilibrando-a.

De dentro da manga larga de seu casaco exótico — um lugar onde a física ditava que não caberia nada maior que uma adaga — ele sacou um bastão longo, dourado e ornamentado com runas que pulsavam luz.

— Hora do show, senhoras e monstros! — Oliver girou a arma, que zuniu no ar cortando a resistência do vento. Ele não a usava como um porrete, mas como uma lança de precisão, estocando e girando com uma velocidade que borrava a visão, perfurando as carapaças minerais dos monstros como se fossem manteiga quente.

Ao lado dele, Rugerd soltou um rugido gutural que fez o chão vibrar. Veias de Éter pulsantes, brilhando em um neon verde tóxico, percorreram seus braços musculosos como rios de poder. Ele se plantou no chão, tornando-se uma montanha imóvel, e socou um gigante de pedra que avançava. O impacto foi sísmico; o som de rocha quebrando ecoou como um trovão, e o monstro foi catapultado para longe, derrubando árvores centenárias em seu caminho balístico.

Candy, a garota dos facões, era a antítese da força bruta. Ela se movia como fumaça em dia de vento, dançando entre as pernas dos monstros, suas lâminas gêmeas buscando tendões e articulações. — Tsc! — ela estalou a língua, irritada, recuando com um salto mortal após um golpe ricochetear em uma placa de ferro. — Aquinos! Eles não têm pontos críticos biológicos! São construtos animados! Onde eu bato?!

— Informação recebida e processada — Aquinos respondeu, a voz calma e monótona cortando o barulho da batalha. Ele estava parado na retaguarda, longe do alcance das garras, ajustando os óculos que insistiam em escorregar pelo nariz suado. — Já estava na hora de organizar essa bagunça amadora.

Ele puxou um frasco de vidro fino de seu cinto de utilidades, destampou-o com o polegar e deixou uma única gota de líquido vermelho carmesim flutuar no ar, desafiando a gravidade. — Imperium Visus: Interface Tática.

A gota explodiu em luz. Seus olhos brilharam com um violeta intenso e sobrenatural. Ao seu redor, a realidade tremeu e se reconfigurou. O ar se solidificou em dezenas de "janelas" flutuantes semitransparentes, hologramas de dados visíveis apenas para ele.

O mundo se tornou um jogo. Barras de HP (Vida), MP (Éter), listas de Buffs (bônus) e Debuffs (penalidades) eram exibidas nas telas à sua volta. Vetores de ataque e zonas de perigo eram desenhados no chão em linhas vermelhas virtuais.

Oliver, vendo o brilho violeta nos olhos do comandante, riu alto enquanto decapitava um monstro menor com um golpe giratório. — O Aquinos adora reclamar, fingir que é preguiçoso e falar grosso, mas quando o jogo começa, ele não consegue esconder o sorriso sádico, né? Você é mais viciado em combate do que qualquer um de nós!

O campo de batalha não era mais um massacre; era um tabuleiro de xadrez tridimensional, e ele era o Grão-Mestre movendo as peças.

O som de metal rangendo contra quitina ecoou entre as árvores carbonizadas. O comandante observou a lâmina de Candy ricochetear, inútil, lançando faíscas sobre a fuligem que cobria o chão. Ele não perdeu um segundo.

— Candy, recue flanco esquerdo! — sua voz cortou o ar, firme e autoritária. — Seus golpes de corte não têm penetração suficiente para a armadura desses monstros.

Candy deslizou para trás, suas botas levantando uma nuvem de cinzas, usando um tronco caído como barreira entre ela e a besta. O comandante girou o olhar para o colosso do grupo.

— Rugerd, atraia a atenção de todos num raio de vinte metros! — ele apontou para o centro da clareira devastada. — Sua defesa aguenta o foco de dano concentrado por 45 segundos.

Enquanto Rugerd avançava, o comandante ajustou a formação final:

— Oliver, você é o causador do dano principal agora. Fique a exatos cinco passos de Rugerd. Ataque nos intervalos após os inimigos atacarem.

A resposta foi imediata; uma coreografia ensaiada no caos. Não houve hesitação, apenas o estalo seco de obediência.

Rugerd parou no centro de uma cratera rasa. Ele bateu os punhos no peito com violência, o som reverberando como um trovão abafado, e liberou sua aura. O ar ao redor dele tremulou, uma onda de pressão visível que varreu a fumaça e a poeira. Como mariposas atraídas pela luz, os monstros, guiados por um instinto suicida, viraram suas presas para ele.

A horda avançou, tropeçando nas raízes expostas e escombros para alcançar o tanque. Foi o momento da carnificina.

Oliver moveu-se com precisão cirúrgica através dos destroços. Ele se tornou o martelo, aproveitando cada recuo das bestas ao atingirem Rugerd, que usava os braços como escudo, para desferir golpes devastadores, esmagando crânios e ossos com uma força brutal. Nas bordas, Candy tornou-se uma sombra letal; ela dançava sobre os troncos queimados, descendo apenas para eliminar qualquer criatura que tentasse flanquear os pontos cegos da formação.

A sincronia era perfeita, mecânica. Em meio ao cenário de destruição, a horda começou a cair, um após o outro, como dominós de carne e sangue.

Foi quando, no meio da tempestade tática, Dante, em seu estado selvagem e primal, parou. Sua mente fragmentada e bestial não conseguia processar a súbita organização. A dor de cabeça voltou, latejante, cegante.

Flashes de memórias — sombras o encaravam sorrindo, o som de correntes se partindo; algo estava o puxando.

— GRRAAAAAH! — Ele rugiu, a lógica abandonada, e atacou o alvo mais próximo e barulhento: Rugerd.

— Rugerd, dois passos para trás, agora! — Aquinos comandou, a voz cortante. — Candy, Corte Ciclone frontal, interceptação!

Rugerd recuou no milésimo de segundo exato, confiando cegamente na ordem. O ataque de garras de Dante, carregado de Éter vermelho, rasgou o ar onde o gigante estava um segundo antes. Imediatamente, Candy surgiu do nada, girando como um tornado de lâminas prateadas, acertando um corte profundo e preciso no abdômen de Dante. O impacto cinético o lançou para trás, rolando na terra batida.

— Ei! — Oliver reclamou, bloqueando um monstro com o bastão. — Aquinos! Eu já disse que quero ele para o nosso time! Quem disse que podia matar o novato na entrevista de emprego?

— Cala a boca e lute! — Aquinos retrucou, os olhos varrendo freneticamente as janelas flutuantes. — Se eu não desse a ordem, o Rugerd estaria sem cabeça agora! Além do mais... — ele olhou para Dante se levantando — ...até parece que aquela coisa morreria tão fácil.

Dante levantou-se, cambaleando. O ferimento em sua barriga fumegava. Não havia sangue vermelho escorrendo; havia Éter carmesim borbulhando da ferida, sibilando como ácido.

Aquinos estreitou os olhos, focando na janela de status individual de Dante. O que ele viu fez seu sangue gelar e sua curiosidade intelectual ferver.

A ficha de Dante estava... bugada.

"Isso é bizarro..." — Aquinos pensou, o cérebro processando os dados corrompidos. "É normal que suas habilidades estejam ocultas já que eu não as conheço, mas isso... isso é um erro de sistema. O HP e o MP dele são monstruosos, valores brutos dignos de um Boss. Mas o resto está glitado."

Ele focou nos ícones de status negativos. "Ele está sob o efeito de 'Confusão' severa, mas... é a primeira vez que vejo uma Confusão que causa dano contínuo ao próprio usuário. E ele não está se curando. Eu achei que ele tinha regeneração passiva, mas não. É um status de 'Burn' (Queimadura) de alta intensidade. O Éter dele é tão quente e instável que cauteriza os ferimentos instantaneamente, impedindo o sangramento, mas não recupera o HP. Ele está literalmente se queimando vivo."

Seus olhos desceram para uma linha de texto piscante e ilegível na interface, cheia de caracteres corrompidos. "E que diabos é esse 'Bônus Especial derivado de Confusão'? Bônus por insanidade?"

Aquinos mordeu a unha do polegar com tanta força, num tique nervoso, que sentiu o gosto de sangue.

— O que foi, Aquinos? — Oliver gritou, notando o silêncio incomum do estrategista falastrão.

Mesmo distraído, Aquinos continuava enviando comandos mentais e aplicando curas de suporte à distância, mas a falta de seus comentários sarcásticos habituais era um alarme de incêndio para o grupo.

— Estou vendo a ficha técnica dessa criatura que você quer adotar — Aquinos respondeu, seco.

— O que foi? O currículo é ruim? Ele é um Boss disfarçado de humano?

— Não nego a possibilidade — Aquinos admitiu, grave. — Mas estou... irritado. Eu me orgulho de saber usar qualquer peça no tabuleiro, seja peão ou rei, extraindo o potencial máximo. Mas essa é a primeira vez que eu fico realmente confuso olhando para uma ficha de personagem. Essa "coisa" é mais estranha e quebrada do que eu esperava. Se ele fosse apenas um Boss enlouquecido eu entenderia... mas...

— E o que você acha que deveríamos fazer? Matar ou recrutar? — Oliver perguntou, o tom ficando sério pela primeira vez.

Aquinos olhou para Dante. Com aqueles status quebrados e aquela volatilidade, ele era uma bomba nuclear tática com o cronômetro quebrado. Mas o orgulho de Aquinos como o Lazy Warlord falou mais alto que a prudência. Ele não descartaria um quebra-cabeça tão interessante sem tentar resolvê-lo.

Ele sorriu, um sorriso predatório de quem encontrou um desafio digno. — Tá bem. Vamos dar um jeito de "pegar" essa peça para nós. Retiro minhas queixas. Vamos acabar logo com esse bando de monstros irritantes e achar um jeito de acalmar a fera antes que ela se autodestrua.

Oliver sorriu de volta, aliviado. — Esse é o meu garoto!

A batalha mudou de ritmo. Sob o comando cirúrgico de Aquinos, a equipe parou de lutar contra o caos e começou a regê-lo. Dante, em seu frenesi, deixou de ser um oponente e tornou-se uma tempestade engarrafada. Rugerd assumiu o papel de isca móvel, suas botas pesadas triturando carvão enquanto ele corria em zigue-zague entre crateras fumegantes. Oliver e Candy atuavam como cães de pastoreio nas extremidades, disparando e recuando, forçando o berserker a colidir brutalmente contra os grupos de monstros que emergiam das sombras. Sem saber, Dante havia se tornado a arma de destruição em massa do grupo.

Enquanto a carnificina se desenrolava, os olhos de Aquinos brilharam com a luz de um feitiço de rastreio, varrendo a topografia destruída. — Achei! Coordenadas 45-Norte!

A cinquenta metros, destacando-se contra o cinza monótono das cinzas, uma rocha negra pulsava. O Núcleo de Invocação. Ele batia num ritmo arrítmico e doentio, enviando ondas de choque que faziam a poeira vibrar no chão.

De repente, a umidade do ar evaporou. O ambiente tornou-se um forno. A temperatura subiu vinte graus em um segundo, fazendo as brasas mortas no chão reacenderem. Dante estancou. Seu braço direito começou a brilhar com uma intensidade violenta, acumulando uma quantidade absurda, quase obscena, de Éter. O ar ao redor dele distorcia com o calor. Ele preparava outro Tenka, mas dessa vez sem limitadores, a mira travada cegamente nas costas de Rugerd.

— Merda! — A mente de Aquinos processou o desastre. Trajetória, velocidade, raio de explosão; os números brilharam em sua mente em milissegundos. — “Rugerd não tem agilidade para esquivar disso... droga! Malditos sejam os bosses com Hit Kill!”

O estrategista correu.

Ele, que abominava o suor e o esforço físico, arrancou um frasco azulado do cinto. O vidro estalou quando ele o levou à boca, engolindo a poção de velocidade num gole desesperado. Seus pés ganharam tração sobrenatural na lama enquanto ele saltava na direção do tanque, as mãos já desenhando glifos de barreiras no ar. — CANDY! O NÚCLEO! AGORA!

— Entendido! — A resposta veio vazia; Candy já havia desaparecido, deixando apenas um rastro de vácuo supersônico cortando a fumaça.

Dante disparou o gatilho mental, a voz rouca sobrepondo-se ao crepitar das chamas: — ESTRELA RUBRA...!

O mundo prendeu a respiração. Mas no ápice crítico, a instabilidade do status "Confusão" cobrou seu preço. O Éter, em vez de condensar na frente de seus dedos, entrou em colapso. A energia tornou-se errática, piscando violentamente antes de implodir na mão dele.

KABOOM!

A explosão não foi um disparo; foi um coice de canhão orbital à queima-roupa. A força cinética lançou Dante para trás como um foguete descontrolado. Seu corpo atravessou três árvores grossas e carbonizadas — CRACK, CRACK, CRACK — partindo-as como se fossem palitos de fósforo, antes de se chocar violentamente contra um barranco de terra. A colisão levantou uma nuvem cogumelo de poeira, raízes e detritos.

Aquinos, que havia saltado heroicamente para interpor a barreira, aterrissou sem a menor graça. Seus pés escorregaram no lodo negro e ele rolou pelo chão, a capa ficando imunda, percebendo tardiamente que sua intervenção dramática fora completamente desnecessária.

O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas por uma risada ofegante. Oliver estava apoiado em seu bastão como se fosse uma bengala de idoso, o corpo curvado, rindo até perder o ar. — Olha só! — ele apontou com o dedo trêmulo. — O Comandante Preguiçoso saltou na lama para salvar o amiguinho! Que cena tocante de amizade viril! Vou chorar!

Aquinos se levantou, limpando a poeira da roupa impecável com raiva, o rosto vermelho de vergonha. — CALA A SUA BOCA, SEU IDIOTA!!

Ao longe, o som de vidro quebrando ecoou como um sino. Candy embainhou suas lâminas com um floreio sobre os restos estilhaçados do núcleo negro. Os monstros restantes, sem sua fonte de energia, começaram a se desfazer em poças de lama inerte.

— Trabalho feito, chefe! — Oliver anunciou, olhando na direção da cratera onde Dante havia caído, de onde fumaça ainda subia. — Agora... a parte fácil acabou. Tudo o que temos que fazer é ir até o nosso monstro de estimação e achar um jeito de acalmá-lo sem morrer no processo.

Parte 5

O grupo avançava em direção à cratera fumegante onde Dante havia caído, a cautela evidente na tensão de seus músculos. A poeira baixava lentamente, revelando a destruição.

— Cuidado onde pisam — Oliver alertou, segurando seu bastão ornamentado com força, os nós dos dedos brancos. — Lembrem-se: mesmo caído, ele ainda pode ser perigoso.

— Ele tem razão — Aquinos reiterou, ajustando os óculos. — Se os algoritmos da ficha dele estiverem corretos... o ataque base desse "cara", sem buffs, é numericamente maior que o do Oliver e da Candy somados.

Oliver arregalou os olhos por trás dos óculos redondos, ofendido. — Peraí... eu e a Candy juntos? Aí você já partiu para a ofensa.

Candy mordeu a língua, visivelmente incomodada com a comparação, mas manteve o silêncio profissional, girando os facões nas mãos suadas.

— É... números são lindos e tal — Rugerd murmurou. — Mas olha lá. Parece que o monstro de estimação de vocês apagou de vez.

Eles chegaram à borda do barranco. Rugerd parecia certo. Dante estava caído de bruços na terra revirada, imóvel como uma rocha. O impacto contra o barranco parecia ter sido o golpe de misericórdia. O braço monstruoso estava estirado, e a aura vermelha havia diminuído para um brilho fraco e pulsante.

Candy, impaciente e querendo provar seu valor, tomou a frente e começou a descer o declive para verificar os sinais vitais. — Vou checar o pulso.

— NÃO SE MOVAM! — Aquinos gritou, a voz cortante e autoritária.

Todos congelaram no lugar, como estátuas.

— O que foi agora? — Candy perguntou, olhando para trás, irritada.

Aquinos estava pálido, o suor escorrendo pela têmpora enquanto seus olhos corriam freneticamente. — Os Debuffs e Buffs estranhos... eles ainda estão ativos. O sistema de combate dele não desligou. E a vida... ele ainda tem 20% de HP total. E está descendo rápido, cerca de 1% a cada dez segundos, por causa do efeito de Burn severo.

— Como assim "ainda tem" 20%?! — Oliver exclamou, confuso.

— Eu não sei se é um erro ou se ele está fingindo — Aquinos respondeu, a voz trêmula. — Mas vocês não estão entendendo a escala matemática. Os "20%" de vida restante dele... em valores absolutos, é um número mais alto do que o meu HP total estando em 100%. Se ele levantar agora, ele ainda tem energia suficiente para derrubar toda a nossa equipe antes de se matar.

Um silêncio pesado e aterrorizante caiu sobre o grupo. Oliver olhou para o corpo fumegante de Dante com novos olhos. Ele respirava pesadamente, o corpo coberto de queimaduras autoinfligidas onde deveria haver feridas abertas. Ele estava sendo consumido pelo próprio poder.

— Ele vai morrer de verdade se ficarmos parados aqui analisando planilhas! — Oliver decidiu, a empatia superando o medo lógico. — Aquinos! Joga uma poção de cura, agora!

Rugerd e Candy, confiando no instinto de Oliver, relaxaram a postura defensiva e começaram a descer para ajudar no resgate. Aquinos foi o único que não deu um passo. Sua mente gritava em alerta vermelho que aquilo era um erro, mas ele não conseguia formular uma justificativa para impedir o ímpeto moral do grupo.

— Tsc. Que seja! — Aquinos praguejou e arremessou o frasco de vidro cintilante com o líquido verde.

A poção voou em um arco perfeito sobre o corpo inerte de Dante, brilhando ao sol azul, em direção à mão estendida de Oliver.

Mas nunca chegou lá.

No momento exato em que o vidro cruzou o ar acima dele, Dante abriu os olhos. Ele não via salvadores; ele via silhuetas, borrões de ameaça que pareciam os monstros de seus pesadelos, prontos para o golpe final.

— GRAAAAH!

Dante se moveu. Não foi um levante humano, articulado. Foi uma explosão cinética instantânea, partindo do zero ao máximo. Ele interceptou o espaço em uma velocidade alucinante. A onda de choque do movimento súbito criou um vácuo de ar que jogou Rugerd e Oliver para longe, rolando na terra, antes mesmo que seus cérebros registrassem o movimento.

Aquinos, que estava posicionado na retaguarda estratégica, viu tudo acontecer em uma câmera lenta agonizante. Ele puxou uma granada de atordoamento do cinto, o pino já na mão, pronto para lançar, mas travou.

Dante estava de pé. Seu braço direito, monstruoso, deformado, com garras negras e vermelhas, estava fechado em torno do pescoço de Candy.

A garota, ágil e letal, estava sendo levantada do chão como uma boneca de pano, os pés chutando o ar inutilmente a meio metro do solo.

— CANDY! — Oliver gritou, levantando-se dos escombros, o pânico distorcendo sua voz.

Aquinos não podia atacar. Qualquer artefato ou explosivo acertaria Candy. Era um xeque-mate.

Desesperados, Rugerd e Oliver avançaram, tentando forçar o caminho através da pressão para salvar a companheira. Dante virou o rosto para eles, os chifres vermelhos brilhando como brasa, e rugiu. Sua aura explodiu novamente, uma parede sólida de pressão física e calor que empurrou os dois guerreiros veteranos para trás, deslizando seus pés na terra.

A mão de Dante começou a aquecer. O Éter instável começou a queimar a pele delicada do pescoço de Candy. O cheiro de carne chamuscada subiu. Ela tentava puxar os dedos da garra com as duas mãos, mas era como tentar abrir uma prensa hidráulica de aço. O ar faltava. Sua traqueia estalava. Sua visão escurecia em vinhetas negras.

Aquinos gritava comandos inúteis, praguejando contra sua própria incompetência, percebendo que aquele seria seu erro fatal. Ele deveria ter feito uma checagem de perímetro melhor. Não devia ter deixado o sentimentalismo idiota de Oliver ditar a tática de abordagem.

Candy, sentindo a vida se esvair, o rosto vermelho e inchado, os olhos cheios de lágrimas pela dor excruciante e pela asfixia, olhou de soslaio para Oliver. Um pedido de socorro mudo e final.

Uma lágrima escapou do olho dela. Ela caiu, brilhando na luz do fogo, uma pequena joia de tristeza no meio do inferno, e atingiu a pele quente e monstruosa da mão de Dante.

Plim.

A sensação da gota quente e úmida agiu como um gatilho psíquico.

A mente de Dante, girando em um turbilhão de caos e sangue, travou naquela imagem singular. A lágrima.

A lágrima de Nero, escorrendo pelo rosto sujo antes de morrer nos braços dele. O rosto de Sophi, contorcido em tormento no convés do Titanic. Anna, chorando em sua solidão estéril. Layla, presa e sozinha no escuro.

E agora... essa garota desconhecida. Chorando por causa dele.

A sobreposição das imagens quebrou o frenesi como um espelho estilhaçado. A fúria vermelha e cega em seus olhos vacilou, a luz demoníaca piscando e dando lugar a uma confusão aterrorizante e humana.

Dante soltou.

Candy caiu no chão com um baque surdo, tossindo violentamente, as mãos no pescoço, puxando o ar com uma necessidade desesperada e ruidosa.

A poção que Aquinos havia lançado, que tinha caído e quebrado nas pedras próximas durante a explosão de movimento, formava uma pequena poça azul misturada com cacos de vidro afiados. O líquido mágico estava quase evaporando, sibilando devido ao calor residual da aura de Dante.

Dante recuou, cambaleando, as pernas trêmulas, afastando-se da garota caída como se ela fosse feita de fogo. Ele estava tremendo incontrolavelmente. Em seu pânico cego, ele apoiou a mão humana no chão para não cair, direto sobre os cacos de vidro e a poça.

O vidro perfurou sua palma. O sangue vermelho se misturou ao líquido azul. A dor foi aguda, real, ancorando-o.

Por reflexo, ele olhou para baixo.

No reflexo trêmulo e fragmentado da poça, ele não viu a si mesmo. Ele viu um monstro. Um rosto coberto de sangue seco e fresco, com olhos brilhantes e demoníacos, chifres serrilhados rasgando a testa e uma expressão de pura selvageria animal.

A memória o atingiu como um trem de carga. Ele se lembrou de Niklaus. De Daemon. De Lindyan. Os monstros que ele jurou destruir. Mas o reflexo não mentia. O monstro não estava na frente dele. O monstro era ele. Ele tinha os mesmos olhos. A mesma capacidade de destruição.

— AAAAAHHH! — Dante gritou, um som de angústia pura, levando as mãos à cabeça, cobrindo os olhos.

Ele começou a bater a testa contra o chão de terra, repetidamente, violentamente, tentando fisicamente tirar as imagens de dentro do crânio. Candy, ainda no chão massageando a garganta, e os outros, olhavam em choque total, paralisados pela cena de autodestruição.

A consciência de Dante voltava em ondas de náusea moral. As memórias do que ele fez nas últimas horas inundaram sua mente sem filtro, em alta definição. A forma como ele estraçalhou a garganta de Claison com os dentes. O gosto do sangue. O terror absoluto nos olhos dos passageiros sequestrados quando ele atacou a todos indiscriminadamente na jaula. A tentativa de execução fria de Snow. As mãos de Ludmilla, queimadas e fumegantes por segurá-lo. E agora... essa garota, quase morta, estrangulada por suas próprias mãos.

O estômago de Dante revirou violentamente. Ele vomitou, expulsando bile ácida e sangue no chão, o corpo convulsionando em espasmos de rejeição. Lágrimas de horror e culpa misturavam-se à sujeira e ao vômito em seu rosto.

Finalmente, o corpo não aguentou mais o peso da alma. O colapso foi total. Os olhos reviraram e Dante apagou, caindo de lado na lama, inconsciente, pequeno e quebrado.

O silêncio voltou à floresta, pesado, quebrado apenas pela respiração irregular e sibilante de Candy.

— Mas que diabos... acabou de acontecer...? — Rugerd sussurrou, abaixando a guarda pela primeira vez, os punhos relaxando.

Oliver também parecia perdido, correndo para ajudar Candy a se sentar e checar o pescoço dela.

Mas Aquinos, que observava suas telas flutuantes com a frieza de um cientista, viu algo crucial. — O status de "Confusão"... sumiu. Desapareceu completamente poucos segundos antes de ele largar a Candy.

Ele ajeitou os óculos. — Bom... parece que tenho que me corrigir... Essa coisa não é um Boss, nem um monstro irracional de dungeon. Infelizmente para ele... essa coisa é mais racional e emotiva do que deveria ser para o próprio bem.

— O que você quer dizer com isso? — Oliver perguntou, limpando o suor frio da testa.

— Acho que ele acordou e percebeu o que estava fazendo. O choque de realidade quebrou o controle mental. Ele não queria machucar ninguém. A automutilação, o vômito, o colapso... foi rejeição psicológica pura. Ele só desmaiou porque o dano acumulado e o choque traumático finalmente levaram o corpo a um estado crítico.

Rugerd cruzou os braços, olhando para o corpo inerte de Dante. — Eu normalmente não iria contra sua vontade, Oliver. E se você disser que é seguro, eu aceito. Mas vou perguntar mesmo assim: tem certeza absoluta que quer chamar essa coisa para ser um companheiro de viagem?

Todos ficaram em silêncio, o vento agitando as folhas. Olhando para Dante, ele parecia perigoso. Instável. Fundamentalmente quebrado.

Oliver suspirou, olhando para a marca vermelha no pescoço de Candy e depois para o garoto caído. Ele caminhou até Dante, agachou-se e, com um grunhido de esforço, levantou o corpo pesado e febril do rapaz, colocando-o sobre as costas largas.

— Bom... pode parecer loucura, e talvez seja — Oliver disse, ajeitando Dante em seus ombros. — Mas, sinceramente? Eu acho que não tem forma de salvar esse mundo fodido sem ser um pouco louco.

Ele se virou para Aquinos, estendendo a mão livre. — Me dá outra poção. Dessa vez, para ele beber de verdade. E uma para a garganta da Candy.

Aquinos, sem demora e sem reclamações, jogou dois frascos. Oliver os pegou no ar com destreza.

— Vamos — Oliver disse, olhando para o horizonte. — Temos bastante caminho a percorrer se quisermos chegar na Cidade Diamante.


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